domingo, 26 de outubro de 2014

A que(m) serve o sistema político brasileiro?

A arquitetura do sistema político brasileiro implica a proteção dos proprietários em detrimento da maior parte dos cidadãos. Afinal, tanto para se eleger como para governar os partidos políticos que chegam ao poder necessitam, inescapavelmente, negociar compromissos assumidos durante as eleições e o próprio “programa”

 Francisco Fonseca



O mal-estar da sociedade brasileira, mesmo com os grandes avanços que vêm se processando desde a última década e meia (e mesmo desde a Constituição de 1988), aponta primordialmente para o sistema político. Direta ou indiretamente, em particular as manifestações de junho de 2013 escancararam, com base nos graves problemas do cotidiano dos brasileiros, as feridas de um sistema claramente incapaz não apenas de resolvê-los, mas, sobretudo, de dar vez (e, em certo sentido, voz) aos reclamantes, notadamente os pobres.

Entende-se por sistema político o conjunto de normas e instituições que regulam os conflitos por meio de canais de expressão e resolução. É constituído por – na falta de melhor denominação – “subsistemas”: partidário, eleitoral, os poderes constituídos e suas diversas instituições, o regime federativo, e mesmo a mídia (que atua como poder paraestatal). Trata-se, portanto, de institucionalidade formal que, contudo, como veremos, convive e se articula com mecanismos informais de naturezas diversas.

A lógica do sistema político brasileiro

A atual moldura do sistema político brasileiro foi criada durante o último período militar (governo Figueiredo), e suas características se mantêm, com algumas poucas transformações, até os dias de hoje. Vejamos as principais características, sem a pretensão de esgotá-las:

• Financiamento privado das campanhas e partidos. Embora formalmente o financiamento seja misto (público, via fundo partidário e privado, por meio de doações, notadamente de empresas), na prática é largamente privado, tendo em vista o chamado caixa dois. Mas deve-se ressaltar que mesmo o financiamento privado legal, em que há leis e controles, é, por princípio, ilegítimo, em razão da assimetria econômica que impõe aos partidos. Em qualquer sentido, a vida pública tornou-se essencialmente organizada pelo poder privado do capital e, além disso, a própria dinâmica do poder implica relações ocultas – que permanecem mesmo com os avanços nos processos de transparência –, por meio da ampla rede de fornecedores privados.

• Multipartidarismo extremamente flexível, pouco representativo e estimulador do “mercado da política”. Embora a existência potencial de diversos partidos seja fundamental à democracia, uma vez que pode permitir a expressão de interesses e visões de mundo distintos, o multipartidarismo criado pelo general Golbery objetivava justamente a pulverização das forças políticas de oposição de tal modo que não tivessem poder suficiente para derrotar o statu quo civil-militar. Consolidada a retirada dos militares da cena política, o multipartidarismo teve outros objetivos, para além da pluralidade político-ideológica expressa nos diversos partidos, tais como: a) a formação de alianças eleitorais,em larga medida não programáticas, tendo em vista a soma do tempo de rádio e TV referente à propaganda eleitoral; b) a coalizão – inclusive com vários dos partidos derrotadosnas eleições – para a composição de maiorias após a vitória eleitoral,igualmente não programáticas, com vistas a constituir uma “base governista” ampla capaz de aprovar medidas de governo; e c) o chamado “balcão de negócios”, em que barganhas dos referidos tempos no rádio e na TV e na formação de alianças, assim como todo tipo de “varejo” parlamentar perante o Executivo, tornaram-se o modus operandida vida política.

• Não consolidação dos partidos políticos como agentes de representação social popular, uma vez que a lógica sistêmica da vida política implica tanto a “privatização da política” como a ocupação dos espaços institucionais pelos partidos da “ordem”, cujos interesses fulcrais são a defesa do capital e das classes médias e superiores. Esse processo é, contudo, enevoado pelo discurso da “eficiência”, da “eficácia”, do “empreendedorismo” e quejandos. A infidelidade partidária (apenas recentemente minorada por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, mas driblada pela nova onda de criação de partidos) apenas confirma esse postulado.

• Acesso ao rádio e à TV a todos os partidos com representação federal independentemente de sua representatividade social. Dessa forma, os chamados “partidos de aluguel” – jargão político trágico da vida institucional –, cuja representação parlamentar é minúscula, obtêm todas as (diversas) benesses do sistema político, reforçando a pulverização e a privatização da vida política.1

• Não transparência quanto ao uso dos recursos eleitorais (apenas as doações legais são efetivamente fiscalizadas pela ação da Justiça Eleitoral), uma vez que a prática do caixa dois é complexa e em larga medida vigente no cotidiano da vida político-administrativa: daí a espessa névoa que encobre inúmeros processos licitatórios no contexto da relação entre poder público e setores do capital. Em outras palavras, o financiamento privado ilegal não ocorre apenas em períodos eleitorais, pois tende, sobretudo após a “emenda da reeleição” – verdadeiro golpe branco desferido contra a democracia pelo governo FHC –, a fazer parte do cotidiano de quem assume o poder, excetuados os que lutam contra a roldana do sistema.

• Baixo controle social, em termos institucionais, dos cidadãos perante os representantes eleitos, cujo mandato se torna “propriedade” destes, o que faz da representação política arena de negociação distante e muitas vezes em oposição aos interesses populares. Portanto, quanto mais distante do cidadão comum, mais privatizado e elitista se torna o sistema político.

• Destituição dos poderes do Parlamento quanto à proposição da “agenda” política e de políticas públicas transformadoras, em contraste ao potencial lócus de representação plural e particularmente popular. A chamada “crise do Parlamento” é, dessa forma, estratégica ao jogo das elites, uma vez que o rebaixamento do Legislativo implica hipertrofia do Executivo, em que a tomada de decisão é infinitamente mais rápida e informal.

• Sistema eleitoral voltado tanto à desvalorização dos partidos – enquanto instituição, com a consequente personificação de indivíduos – quanto à pulverização e fragmentação da representação partidária. Ressalte-se que a personificação tem potencial desmobilizador da ação coletiva.

• Sistema midiático oligopolizado e oligárquico, notadamente a rede concessionária de TVs e rádios, articulada a jornais, revistas e portais, cujos órgãos atuam como verdadeiro “Partido da Imprensa Golpista”, conforme expressão notabilizada por Paulo Henrique Amorim. A mídia é um ator político paraestatalcom grande poder de influenciar tanto a percepção social da vida política como a formação de consciências. É claramente partícipe do jogo político, embora estrategicamente seu discurso oculte tal atuação. Deve-se, dessa forma, considerá-la como parte do sistema político, o que implica necessariamente sua reforma, à luz, por exemplo, do que ocorreu na Argentina por meio da Ley de Medios.

Apesar de claramente disfuncionais à representação dos interesses populares, essas características são justificadas pelo debate político e pela ciência política dominante como garantidoras da chamada “governabilidade”, isto é, das condições de obtenção de maioria para governar, nos respectivos parlamentos, com vistas à consecução dos objetivos da coalizão de governo.


Sistema político vs. interesses populares

Essa forma de organização do sistema político claramente não contempla grande parte dos interesses populares – voltados à resolução dos ainda graves problemas do cotidiano, relacionados tanto ao emprego e à renda como ao acesso a bens e equipamentos públicos e privados –, que passam em larga medida pela reversão de prioridades em termos de agenda e de orçamento. Aliás, o travamento decisório de inúmeros temas que afetam os brasileiros, em especial os pobres, fundamentalmente garante o statu quo. Entre esses temas estão, além de inúmeros outros exemplos, a reforma tributária, uma vez que os impostos, ao serem indiretos, tributam pesadamente os pobres; a dívida interna, nas mãos de cerca de 20 mil famílias e dos bancos; o papel dos bancos e do capital especulativo, altamente lucrativos e sem responsabilidades sociais; o papel e financiamento do agronegócio, que sorve parte significativa dos recursos orçamentários da agricultura, em detrimento da produção agrícola familiar; o papel do BNDES como agente de financiamento a grandes empresas, sem controle social; o oligopólio da mídia e a não regulamentação da Constituição quanto ao papel dos meios de comunicação.

Aos movimentos sociais, essa dinâmica não tem passado despercebida, como se pode observar no manifesto do Grito dos Excluídos, publicado no dia 7 de setembro: “A estrutura do Estado brasileiro historicamente tem servido aos interesses das elites e para a manutenção de seu poder sobre os/as trabalhadores/as, os/as excluídos/as, sobre o povo brasileiro. Poucos são os espaços nos quais o povo tem realmente sua voz escutada e poucas são as oportunidades de interferir nos rumos da política em geral, especialmente na construção de políticas públicas voltadas para a maioria da população. Nos últimos anos temos presenciado essa estrutura de poder oprimindo as populações quilombolas, indígenas, ribeirinhas pelo desrespeito a sua cultura e seus territórios. Nas regiões rurais, indígenas e sem-terra têm seus direitos violados em favor dos empresários do agronegócio. Nos estados e municípios, principalmente nas regiões periféricas, as polícias militares matam jovens, principalmente os negros homens entre 15 e 29 anos. As forças de repressão perseguem lutadoras e lutadores, organizados ou não, que protestam por um país mais justo e igualitário. A estrutura do Judiciário opera com dois pesos e duas medidas, atuando em favor dos poderosos e contra o povo. As eleições para os cargos legislativos e executivos são um grande balcão de negócios e impedem, através das regras de organização eleitorais, que mulheres, negros/as, sem terra, trabalhadores/as, indígenas, quilombolas e outros setores populares da sociedade acessem os espaços de exercício do poder. O sistema político impede avanços sociais de interesse do povo”.2

Como se observa, o sistema político é apercebido pelos movimentos populares – o excerto citado é apenas uma amostra, representativa, do pensamento de outros tantos movimentos – como distante e elitista, portanto, não representativo da pluralidade dos interesses sociais e sobretudo da maior parte dos cidadãos.

Mesmo movimentos mais propriamente institucionalizados, como a Coalizão pela Reforma Política Democrática e Eleições Limpas, assume posição bastante similar, pois: “[O] Congresso impede que tais reformas [democrático-populares] sejam aprovadas. Isso porque parte dele representa os interesses de uma pequena parcela da sociedade que financia as campanhas eleitorais, ou seja, de algumas poucas empresas. Assim, as necessidades da maioria da população nunca são atendidas de verdade. É isso que causa grande parte da corrupção política gerando inclusive a atual crise de representatividade no país. Só com uma reforma política democrática será possível superar tais problemas que degradam a democracia brasileira”.3

Como se vê, reitera-se aquilo que, em perspectiva internacional, foi apontado pelo movimento Occupy Wall Street como “We are 99%”, isto é, a percepção popular de que o sistema político não apenas não representa a maioria esmagadora das pessoas comuns, como também, sobretudo, é apropriado privativamente pela minúscula parcela do capital: uma verdadeira plutocracia encoberta pela “democracia formal”.

Sistema político voltado à proteção das elites

Essa arquitetura do sistema político brasileiro implica essencialmente a proteção dos proprietários (de diversas frações do capital) em detrimento da maior parte dos cidadãos. Afinal, tanto para se eleger (reitere-se o papel do financiamento privado e das coligações para obtenção de tempo no rádio e na TV) como para governar (“dívida” para com os financiadores e necessidade de maioria parlamentar para ter “governabilidade”), os partidos políticos que chegam ao poder necessitam, inescapavelmente, negociar compromissos assumidos durante as eleições e o próprio “programa” de governo.

Decorre daí a formulação de políticas públicas tímidas, uma vez que não podem atentar contra grandes interesses constituídos, e contraditórias, pois necessitam contemplar as coalizões – de partidos “da ordem” com os que só existem por “jogar o jogo” institucional. Tudo isso impede a efetivação de reformas “radicais”.

Dessa forma, as chamadas “reformas progressistas”, colocadas em prática pelos governos Lula e Dilma na área social, só podem ocorrer de forma incremental, tímida e sem assustar as elites. É por isso que muitos dos grandes gargalos estruturais não são destravados, tais como: sistema judiciário-prisional apenas voltado aos pobres; reforma agrária e política agrícola tímidas; poder desmesurado dos bancos e do capital financeiro; desmontagem progressiva da CLT; ainda pequena proporção do PIB nos gastos sociais; intocabilidade da taxação às grandes fortunas; poder desmesurado do agronegócio; intocabilidade da mídia; entre inúmeros outros.

Pode-se dizer, portanto, que o sistema político brasileiro rigorosamente constrange os partidos políticos que lutam pela diminuição “radical” da desigualdade social. As políticas públicas, isto é, o conteúdo da democracia, são, dessa forma, moldadas de acordo com essa estrutura inabalada do sistema político, o que implica atraso quanto ao desenvolvimento social (mensurado por indicadores como o Índice de Gini, o IDH e tantos outros), proteção às elites econômicas e distanciamento entre sistema político e os que mais precisam dele!

A reforma do sistema político

Reformar o sistema político, embora não seja panaceia, é, portanto, tarefa urgente para relegitimar a democracia brasileira, aproximando-a do cidadão comum e dando-lhe instrumentos para, naquilo que cabe à ação política institucional, poder haver a presença dos interesses populares. Como se observa pela experiência, os movimentos sociais são particularmente responsáveis por essa tarefa, uma vez que a lógica do sistema político tende a engolir os partidos institucionais num círculo vicioso assim constituído: sistema partidário/eleitoral privatizante; lógica institucional que veta grandes transformações; democracia formal e plutocrática.

Os perigos desse sistema, cuja disfuncionalidade é igualmente sistêmica, apresentam-se tanto nas ruas (ressurgimento da extrema direita, por exemplo) como em aventuras eleitorais, que, aliás, vimos no passado e são potencialmente presentes (caso do discurso despolitizante de Marina Silva).

Trata-se de tarefa urgente! 

Francisco Fonseca é mestre em Ciência Política e doutor em História, professor de Ciência Política na FGV-SP e autor de diversos artigos e livros, entre os quais O consenso forjado – A grande imprensa e a formação da agenda ultraliberal no Brasil (2005) e Liberalismo autoritário – Discurso liberal e práxis autoritária na imprensa brasileira (2011), ambos pela Editora Hucitec.
Ilustração: Daniel Kondo
1 É claro que os pequenos partidos ideológicos sofreriam com uma reforma política, caso houvesse, por exemplo, a instituição da “cláusula de barreira”, o que geraria enorme crise de legitimidade. Contudo, instrumentos como “federação de partidos”, em que pequenos partidos possam somar, por afinidade, seu eleitorado, seriam uma saída, entre outras. Não há reforma sem impactos múltiplos. A questão central diz respeito à “desprivatização” da vida pública, no limite do que cabe à ação política, ao aumento da representatividade popular e ao fim da “democracia plutocrática”.
2 Disponível em: www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2014/09/no-dia-da-independencia-grito-dos-excluidos-pede-politica-capaz-de-mudancas-estruturais-8024.html.
3 Disponível em:www.reformapoliticademocratica.org.br/conheca-o-projeto/.
Le Monde Diplomatique Brasil

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Notícias Geografia Hoje


Violência no Iêmen deixa 60 mortos nos últimos dias
AFP

Policial do Iêmen: pelo menos 15 pessoas morreram nesta segunda em atentado
Da AFP

Pelo menos 60 pessoas morreram no Iêmen em novos episódios de violência entre integrantes da Al Qaeda, apoiados por tribos sunitas, e rebeldes xiitas que tentam aproveitar o vazio de poder no país para estender sua influência.

A rebelião xiita, que tem a cidade de Saada (norte) como reduto, aproveitou-se da instabilidade crônica depois do levante de 2011 contra o ex-presidente Ali Abdullah Saleh para tomar a capital Sanaa em 21 de setembro.

Eles avançaram para o sul, tomando na semana passada a cidade portuária de Hodeida, no Mar Vermelho, e se apoderando de partes das províncias de Dhamar, Ibb e Baida.

Se as forças do governo não reagirem diante desse avanço, a violência poderá aumentar ainda mais com atos de represália dos militantes da Al Qaeda junto com tribos sunitas locais.

Pelo menos 15 pessoas, incluindo crianças, morreram nesta segunda em um atentado suicida com carro-bomba contra uma posição de rebeldes xiitas em Radha, 150 quilômetros ao sul de Sanaa, segundo testemunhas e uma fonte tribal.

Na madrugada de domingo para segunda-feira, 20 combatentes xiitas morreram em outro atentado com carro-bomba na mesma cidade e nos combates travados depois.

Já os sunitas perderam pelo menos quinze combatentes, de acordo com fontes tribais.

Nesta segunda, dez rebeldes xiitas morreram em confrontos no setor de Anas, na província de Dhamar, de acordo com fontes médicas e tribais.

Os combatentes da Al Qaeda e membros de tribos retomaram a cidade de Udayn, na província de Ibb (sudoeste), que tinha sido ocupada pelos xiitas na semana passada.

A Al Qaeda na Península Arábica (Aqpa) é considerada pelos Estados Unidos o braço mais perigoso da rede extremista. Ele comete ataques frequentes contra as forças de segurança e prometeu travar uma guerra sem trégua contra os xiitas diante da passividade das autoridades.

Apesar da assinatura de um acordo de paz acompanhado pela ONU, os rebeldes xiitas continuam a ocupar a capital Sanaa e os membros de tribos sunitas acusaram as forças do governo de colaborar com os rebeldes.

Além desses confrontos, o Iêmen enfrenta também a retomada de um movimento separatista no sul do país, que foi um Estado independente até 1990.

Os novos atos de violência suscitam temores de que o Iêmen, país mais pobre da Península Arábica, mergulhe totalmente no caos.
Revista EXAME

Notícias Geografia Hoje

Americanos e turcos saem em ajuda dos curdos em cidade síria

Kai Pfaffenbach/Reuters

Kobani: disparos de morteiro foram retomados na noite desta segunda contra o centro

Da AFP

A pressão internacional se acentuou sobre os jihadistas do Estado Islâmico em Kobani, com a primeira entrega de armas aos curdos e a promessa da Turquia de facilitar a passagem de combatentes curdos iraquianos para defender a cidade síria.

Essa intensificação da ajuda ocorre no momento em que os combatentes curdos têm conseguido conter o avanço dos jihadistas, graças principalmente aos ataques aéreos da coalizão internacional.

Após um dia de relativa calma, os disparos de morteiro foram retomados na noite desta segunda-feira contra o centro de Kobani, enquanto dois ataques suicidas com carros-bomba sacudiram o norte da cidade, indicou o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

Pela primeira vez desde o início da ofensiva do EI, três aviões cargueiros C-130 americanos despejaram armas, munições e material médico em posições das Unidades de Proteção do Povo (YPG), que ainda mantêm o controle de 50% de Kobane.

Essas armas, fornecidas pelas autoridades curdas do Iraque, serão "de grande ajuda", comemorou o porta-voz das YPG, Redur Xelil.

Segundo Mahmoud Kalo, uma autoridade política de Kobane, cerca de 21 carregamentos foram despejados na cidade, o que "permite continuar a luta".

O secretário de Estado americano, John Kerry, afirmou que seria "irresponsável" para os Estados Unidos e "moralmente muito difícil virar as costas para uma comunidade que luta" contra o EI.

Em outra medida favorável aos curdos, a Turquia anunciou que autorizaria a passagem das forças peshmergas (combatentes curdos iraquianos) pela fronteira em direção a Kobane.

"Jogo duplo" turco

"Nós temos jovens curdos originários do Curdistão Ocidental (Síria, ndr) que treinamos no Curdistão (iraquiano). Vamos enviá-los para combater", declarou à AFP Halgord Hekmet, porta-voz dos peshmergas.

Apesar da pressão dos Estados Unidos, o governo conservador islâmico de Ancara se recusa a intervir militarmente para ajudar os combatentes curdos sírios.

No domingo, o presidente Recep Tayyip Erdogan rejeitou categoricamente os apelos para que Ancara forneça diretamente armas às YPG, braço armado do partido PYD acusado pelos curdos de ser o correspondente sírio do PKK, que enfrenta as forças turcas desde 1984 em combates e atentados que deixaram 40.000 mortos.

"A Turquia faz um jogo duplo (...) Ao permitir a entrada dos 'peshmergas' iraquianos em Kobane, os turcos podem continuar a dizer que eles não ajudam o PKK (...) e dão uma resposta aos seus aliados que os acusam de não fazer nada" contra o EI, comentou à AFP o analista Sinan Ülgen, do Centro de Estudos Políticos e Econômicos (Edam) de Istambul.

Os aviões da coalizão intensificaram nos últimos dias os ataques no interior e nas imediações de Kobane, atingindo posições do EI cerca de 140 vezes desde o final de setembro, de acordo com o Comando Militar americano encarregado da região (Centcom).

Esses ataques "mataram centenas de combatentes (do EI) e destruíram ou danificaram" equipamentos e instalações do EI, informou o Centcom, ressaltando que a situação continua "frágil".
Revista EXAME

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Paraísos Fiscais



Esses países que oferecem benefícios e sigilo a investidores que tentam violar leis, se tornaram recentemente, o alvo de nações como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha.

Notícias Geografia Hoje


Venezuela, Malásia, Nova Zelândia e Angola são eleitos para o Conselho de Segurança



Venezuela, Angola, Malásia, Nova Zelândia e Espanha foram eleitos nesta quinta-feira membros não-permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) em votações da Assembleia Geral do organismo.

Os quatro primeiros países foram eleitos em uma primeira votação com ao menos dois terços dos votos necessários (129). Angola obteve 190 votos dos 193 países membros, Malásia 187, Venezuela 181 e Nova Zelândia 145.

Na mesma votação Espanha e Turquia não obtiveram os votos necessários, e em uma votação posterior a Turquia só conquistou 60 votos, contra 132 da Espanha para ocupar um dos assentos não permanentes que correspondem à Europa.

O Conselho, que conta com 15 membros, entre eles cinco permanentes, renova todos os anos a metade de seus dez assentos não permanentes.

Os novos membros iniciarão em janeiro um mandato de dois anos.

Malásia, Venezuela e Angola já haviam sido selecionados por seus respectivos grupos regionais e por isso não tinham adversários.

Os cinco países eleitos nesta quinta-feira, que já estiveram antes no Conselho, substituirão Argentina, Ruanda, Coreia do Sul, Austrália e Luxemburgo.

Os outros cinco membros não permanentes que serão substituídos no próximo ano são Chile, Nigéria, Jordânia, Chade e Lituânia.
https://br.noticias.yahoo.com

A História da Transamazônica

Belém-Brasília: rodovia da unidade nacional (1962)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Refugiados climáticos

Os fijianos não estão entusiasmados com o negócio


Estados insulares são extremamente vulneráveis às mudanças climáticas.

A ameaça de elevação do mar derivada do aquecimento global levou o governo de Kiribati, nação insular da Oceania, a tomar uma decisão: comprar um terreno de 24,5 km2 em Viti Levu, a principal ilha do arquipélago de Fiji, 2.250 km ao sul, para acomodar 103 mil kiribatianos. A maioria dos 32 atóis de Kiribati está quase ao nível do mar, e em alguns pontos a água salgada já contaminou os lençóis de água subterrânea. Os fi jianos não estão entusiasmados com o negócio.




Vento dinamarquês

O plano de redução de emissões de carbono, divulgado em março pela Dinamarca, projeta gerar em turbinaseólicas metade da demanda de eletricidade em 2020. No mesmo ano, o governo pretende suprir 35% de suas necessidades energéticas com fontes renováveis, que incluem usinas de biogás e geotérmicas. Em 2050, a meta do país é produzir de forma renovável 100% da energia consumida internamente.



Dera Allahyar, 2010: pior enchente do Paquistão.

Era de extremos

Baseados em análises estatísticas e em simulações de computador sobre a última década, o Instituto Potsdam de Pesquisa Climática (Alemanha) concluiu que a ocorrência de eventos climáticos extremos aumentou de modo incomum e "muito provavelmente" está ligada ao aquecimento global causado pelo homem. O estudo, publicado na Nature Climate Change, lembra que esses eventos afetaram praticamente todo o mundo e sublinha casos como o verão russo (o mais quente desde o ano 1500) e a pior enchente do Paquistão (ambos em 2010), além do número recorde de furacões e tempestades tropicais no Oceano Atlântico (2005).

3% de economia

A prefeitura de Nova York está recebendo propostas de empresas para reciclar 1 milhão de vasos sanitários, nos próximos seis anos. Enquanto as peças antigas consomem 18,9 litros por descarga, as novas usam 4,8 litros. O Departamento de Proteção Ambiental vai re-embolsar em US$ 125 os moradores de apartamentos que trocarem os vasos. Trituradas, as peças antigas poderão ser usadas nas fundações de edifícios. Com a mudança, a cidade diminuirá em 3% o seu consumo de água.



O Paraíba do Sul em Resende.

Rios reprovados

A análise de 49 rios de 11 Estados brasileiros (Ceará, Piauí, Bahia, Mato Grosso do Sul e todos das regiões Sul e Sudeste) feita pela SOS Mata Atlântica, em março, sugere atenção: a situação está regular em 75,5% dos cursos visitados e ruim em 24,5%. Nenhum está em boas condições. Segundo Malu Ribeiro, coordenadora da Rede de Águas, a contaminação advém sobretudo dos defensivos usados na agricultura irrigada que voltam aos cursos d'água e da falta de saneamento básico. O Paraíba do Sul, em Resende (RJ), foi um dos que obtiveram as melhores notas, mas seu nível é regular. Um sopro de esperança: o Rio Tietê, em Itu (SP), passou de ruim para regular.

Lixo da discórdia

A lei que cria o primeiro depósito de lixo nuclear da Austrália, aprovada no Senado, enfrenta resistência de ambientalistas e grupos aborígines. Antes estocados em mais de 100 "locais temporários", como universidades e laboratórios, esses resíduos seriam levados para Muckaty Station, uma comunidade aborígine no árido Território do Norte. Além de a região ser sujeita a sismos e inundações, estudos indicam que o transporte de lixo nuclear por longas distâncias pode pôr em risco a saúde pública.



O Grupo Marfrig começou em março a mapear o uso da água nos processos produtivos (pegada hídrica) pela metodologia Water Footprint Network. É a primeira indústria do setor de proteínas animais a executar um projeto de gestão de recursos hídricos com alto grau de detalhamento.



Até 2015, a Ford pretende consumir menos de 4 metros cúbicos de água por veículo produzido nos países onde está instalada, Brasil incluído. Para tanto, foram adotadas medidas e novas tecnologias para reduzir consumo. O sistema a seco foi incorporado à lavagem dos carros da frota na fábrica de São Bernardo do Campo (SP) e também na usinagem em Taubaté (SP).

A rede de ensino de idiomas Wizard aderiu ao programa Franchising Baixo Carbono, da Associação Franquia Sustentável. A empresa deseja que 100% de suas escolas se comprometam, até 2014, a reduzir e compensar o carbono emitido.

A Divisão Especialidades Químicas da AkzoNobel investiu R$ 80 mil para recuperar a Cooperativa de Recicladores de Itupeva (SP), incentivando a coleta seletiva entre os cooperados. A cooperativa já tem 26 colaboradores, com renda mensal 73% maior do que no início do projeto.
Revista Planeta

Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias - Paraíso de ninguém

Um dos lugares mais vigiados da história, a Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias – um corredor de 4 km de largura por 250 km de extensão – virou um refúgio ecológico exuberante.
Por Johnny Mazzilli


Um dos lugares mais vigiados da história, a Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias – um corredor de 4 km de largura por 250 km de extensão – virou um refúgio ecológico exuberante. Há 60 anos quase ninguém entra lá.

A fronteira ao longo do “Paralelo 38”, que separa a Coreia do Norte da Coreia do Sul, é toda ocupada pela Zona Desmilitarizada (DMZ, em inglês), um dos mais dramáticos marcos da Guerra Fria. Quando, em 27 de julho de 1953, o Armistício de Panmunjom suspendeu a guerra fratricida (1950-1953) entre os dois países, os dois Exércitos e seus aliados recuaram dois quilômetros cada um, criando uma vasta terra de ninguém: um corredor de 4 quilômetros de largura e 248 quilômetros de extensão, com quase mil km2 de área. Entrar nesse território disputado por quase 1,5 milhão de soldados é absolutamente proibido, sob o risco de ser alvejado por ambos os lados. Depois de 60 anos de exclusão essa faixa virou uma das mais improváveis e espetaculares áreas de preservação do mundo.

Sem medo das minas enterradas, espécies já extintas na Ásia vivem livremente na área. Algumas plantas típicas da península coreana atualmente só são encontradas na DMZ. Duas espécies de garças migratórias sobrevivem e se multiplicam no território, que oferece área segura de reprodução. O tigre coreano e o leopardo de Amur, quase extintos, ressurgiram no corredor preservado, assim como o urso-negro-asiático, já desaparecido no continente.

Os ecólogos estimam a existência de 2.900 espécies de plantas, 70 de mamíferos e 320 espécies de pássaros na DMZ. A variada geografia cortada pela faixa militarizada explica a alta biodiversidade: montanhas, florestas, pradarias, pântanos e restingas.

Não é por outra razão que ecólogos e escritores como o biólogo Edward Wilson, fundador da sociobiologia, e o poeta norte-americano Robert Hass propuseram a transformação da DMZ em um parque internacional, com apoio de ambos os lados. Em 2010, a Coreia do Sul deu um passo concreto e propôs à Unesco a criação de uma Reserva da Biosfera em 435 km2 do seu território, porém o governo norte-coreano vetou. Em 2012, uma reunião do Conselho da Biosfera da Unesco, em Paris, arquivou a proposta, mas os ecologistas estão longe de desistir. O empresário Ted Turner, dono da rede de tevê CNN, já ofereceu apoio financeiro à reserva.

Luta fratricida

Entre 1910 e 1945, a Coreia foi dominada pelo Japão, cuja rendição às tropas aliadas marcou o fim da Segunda Guerra Mundial. A União Soviética desarmou os contingentes japoneses do norte e os Estados Unidos renderam os japoneses do sul. O acordo de divisão entre as duas superpotências resultou na formação da República da Coreia do Sul, sob influência dos EUA, e da República Popular Democrática da Coreia do Norte, apoiada por URSS e China. 

A Guerra Fria e a ascensão do Partido Comunista Chinês, após a Revolução Chinesa de 1949, geraram hostilidades mútuas entre as duas metades. Em 1949, a maior parte dos efetivos militares aliados já havia deixado os dois países, mas as tensões aumentavam na região. Em junho de 1950, a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul, numa tentativa forçada de reunificar o país.

Após 48 horas de luta, Harry Truman, presidente dos EUA, enviou tropas para lutar ao lado da Coreia do Sul, apoiado por 15 países. O conflito se aprofundou com a intervenção do Conselho de Segurança da ONU contra os norte-coreanos, o que arrastou a URSS e o Exército da China para a defesa da Coreia do Norte. A guerra extrapolou a geopolítica da península e adquiriu um simbolismo extraordinário, demonstrando a ruína das esperanças de paz e uma nova bipolarização do mundo sob EUA e URSS. 

Duas vezes, Seul foi tomada pelos comunistas. Pyongyang também foi tomada pelas tropas da ONU lideradas pelo general Douglas MacArthur. Por pouco o conflito não virou uma guerra nuclear. Em três anos morreram 1,5 milhão de soldados coreanos, americanos, chineses e civis das duas Coreias, um morticínio congelado pelo armistício de Panmunjom, que suspendeu a guerra, mas não a encerrou. Tecnicamente, as Coreias estão em trégua, e não em paz.

Após o conflito, cada país adotou seu rumo. A Coreia do Norte, governada pelo Partido Comunista, passou a ser governada pela chamada “Dinastia Kim”, que já teve avô, pai e filho no poder – a única dinastia comunista do mundo. Kim Il-sung, líder guerreiro e governante de 1945 a 1994, foi sucedido pelo filho, Kim Jong-il, que ao morrer, em 2011, passou o poder ao filho de 31 anos, Kim Jong-un. 

A aproximação com a URSS garantiu à Coreia do Norte ajuda militar e econômica. Mas com o fim da URSS, em 1991, a fonte secou, e a economia entrou em declínio, agravado pela falta de relações diplomáticas e comerciais significativas com qualquer outro país. Atualmente, as despesas militares consomem 40% do PIB. A produção industrial e de energia está estagnada e a escassez de alimentos é geral, devido à falta de terras cultiváveis, à coletivização forçada e à escassez de veículos e de combustível. A população sofre com más condições de vida e até subnutrição. 

Na década de 1970 as duas Coreias possuíam índices econômicos semelhantes, mas hoje a economia do norte tem 5% do tamanho da do vizinho. Por sua vez, a Coreia do Sul acumulou governos ditatoriais e corruptos, sofreu sucessivos golpes militares e só alcançou estabilidade econômica nos anos 1990, graças ao auxílio econômico dos EUA, que impulsionou o desenvolvimento.

Nas últimas quatro décadas, a Coreia do Sul virou um país moderno e industrializado, com uma economia de exportação de bens manufaturados e de alta tecnologia. Se na década de 1960 seu PIB per capita era comparável ao das nações pobres da África, hoje o país está entre as dez maiores economias do mundo, e o seu sistema educacional, entre os cinco melhores. Em 1997 e 1998, os sul-coreanos sofreram o impacto da crise financeira mundial, mas mantiveram a exportação de eletrônicos, peças para computadores e automóveis. Com a crise financeira de 2008, o PIB desacelerou, mas no ano seguinte voltou a crescer.

Cotidiano tenso

Se no interior da Zona Desmilitarizada a vida selvagem ressurge pela não interferência humana, ambos os lados da zona de exclusão exibem impressionantes aparatos defensivos, instalações militares, centenas de quilômetros de cercas duplas e eletrifi cadas, milhares de rolos de arame farpado, sensores, alarmes e câmeras de segurança. A cada 300 metros, postos militares abrigam soldados de prontidão. Na parte sul da DMZ, 28 mil soldados norte-americanos estão estacionados. 

Ao norte de Seul, capital da Coreia do Sul, pode-se visitar Panmunjom, cuja área contígua da DMZ abriga os edifícios da Área de Seguran-ça Conjunta, construída pela ONU, onde o armistício de 1953 foi negociado. A instalação nunca é ocupada por ambos os países simultaneamente. Quando um lado termina de usar, em geral com visitas de políticos, diplomatas, civis ou turistas, abre-se o lado oposto, e os que saem trancam a porta. Com escolta militar e autorização prévia, civis de ambos os lados são autorizados a entrar no prédio, mas os visitantes do sul assinam um documento responsabilizando-se pelo risco de entrar em zona de guerra. A fronteira física é uma pequena linha de concreto que atravessa a construção ao meio. No lado norte, soldados permanecem à espreita observando com binóculos.

Do posto de observação sulcoreano pode-se ver a cidade de Kijong-dong, apelidada de “Propaganda Village”, quase deserta e construída para ser vista. Segundo os sul-coreanos, o governo nortista transferiu habitantes para o lugar compulsoriamente. Por telescópios, percebe-se que o prédio mais alto, com 15 andares, não possui elevador. As janelas tampouco têm vidros. 

Perto do posto desemboca um dos quatro túneis que o norte construiu para invadir o sul, há décadas. Os dutos foram descobertos a tempo e as invasões, abortadas. É possível descer por um deles até um corredor bloqueado por uma grande laje de concreto, a 80 metros da fronteira. A DMZ é obsessivamente vigiada por guardas e holofotes. O clima é tenso. 

Paz precária

Tem sido assim há 60 anos. Desde a suspensão do conflito, a Coreia do Norte ameaça e provoca o sul, enquanto chantageia por ajuda humanitária em alimento, dinheiro e petróleo. Ao mesmo tempo, viola acordos de cooperação, dispara mísseis e efetua testes nucleares. Indiscutivelmente, os norte-coreanos são mais agressivos. Mas aviões e helicópteros norte-americanos também invadem o espaço aéreo comunista. Em 2010, o norte bombardeou a ilha de Yeonpyeong, no Mar Amarelo. Projéteis da artilharia mataram dois militares e dois civis e deixaram mais de 20 feridos.

Recentemente, as tropas sulcoreanas reforçaram a vigilância, após testes de mísseis programados para coincidir com as manobras militares conjuntas entre Coreia do Sul e EUA. Pyongyang considera esses exercícios o prelúdio de uma invasão e esbraveja sempre. Em março de 2013, em resposta a sanções da ONU contra o seu regime, o país decretou nulo o armistício de 1953. 

Políticos em Seul defendem o desenvolvimento próprio de um programa nuclear. Numa conferência sobre o tema, em Washington, o membro do Parlamento e empresário Chung Mong- Joon, do grupo industrial Hyundai, afirmou que “é chegada a hora de nos retirarmos do Tratado de Não Proliferação Nuclear e entrar no jogo do vizinho do norte”. Os sul-coreanos possuem 20 reatores nucleares em operação e podem enriquecer urânio e se tornar um Estado nuclear. Já o governo norte-coreano dispõe do reator nuclear de Yongbyon, de tecnologia soviética, capaz de enriquecer plutônio. 

A poucos quilômetros ao norte de Panmunjom, no território norte-coreano, situa-se o complexo industrial Kaesong. Essa cidade de 200 mil habitantes, ex-capital da Coreia unificada, abriga o único projeto intercoreano vigente, no qual 123 companhias sul-coreanas fabricam produtos com a mão de obra nortista. Mas a cada ameaça ou desentendimento o governo do norte fecha o complexo e acusa o sul de intromissão. Em 2007, num momento de distensão, os dois países criaram uma ferrovia, a Donghae Bukbu, unindo os dois lados à região do Monte Kumgang. Mais de 1 milhão de visitantes sul-coreanos cruzaram a DMZ pela estrada até um turista ser morto a tiros num incidente em 2008. Desde então a ferrovia está fechada. 

Nos últimos meses, o norte vem mostrando maior moderação e as relações com Seul parecem ter melhorado um pouco. As maiores vítimas da tensão continuam a ser os parentes separados pela fronteira. “Realizei o sonho de me encontrar com minha família, agora posso morrer em paz”, é uma das frases mais repetidas no Monte Kumgang, local de encontro de sul-coreanos com parentes do norte após a separação.

Em 3 de abril passado, 700 familiares de ambos os lados reuniram-se por seis dias numa reunião pontuada por relatos emocionantes, como o de Nam Gung Bong-ja, de 61 anos, sul-coreana que reencontrou o pai vivo na Coreia do Norte, aos 86 anos. A maioria das reuniões acontece entre irmãos, como o de Park Jong-song, de 88 anos, recruta do Exército da Coreia do Norte na guerra, e a sulista Park Jong-soon, de 68.

Após o encontro, as fronteiras são rigorosamente fechadas. Desde 1985, 19 reuniões de famílias divididas pelo confronto foram organizadas. Milhares de idosos de ambos os lados seguem em listas de espera, aguardando a vez para reencontrar familiares que não veem há seis décadas. 

Quanto às espécies do refúgio ecológico da DMZ, ironicamente, o único risco de a reserva inusitada desaparecer é os dois países fazerem as pazes e buscarem a reunificação – o que provavelmente acontecerá um dia. Então, o aparato bélico que mantém intacto a o paraíso de ninguém será removido e toda a área voltará a ser rapidamente povoada. 






Revista Planeta

Vida e morte no sertão: história das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX.


VILLA, Marco Antonio.

Paulo Henrique Martinez 
UNESP - Assis

SÃO PAULO: ÁTICA, 2000, 269 PP.

Onde reside o interesse de um livro sobre a história das secas no nordestedo Brasil, nos dois últimos séculos? As secas constituem uma realidade presente, atuante nos dias de hoje, como no passado. E isto já bastaria para uma boa recepção ao livro de Marco Antonio Villa, não trouxesse o volume outras tantas qualidades, e também problemas. O que faz de Vida e morte no sertão uma obra não apenas necessária, mas original e instigante, pelo que oferece, pela ajuda que fornece na compreensão do tema e pelo que faz pensar. O impacto provocado pela leitura é comparável àquele deEstação Carandiru, do médico Drauzio Varela, uma vez que ambos expõem as chagas e a indiferença da sociedade e do Estado, no Brasil, diante das mazelas sociais. Este sabor de livro-denúncia, temperado com demonstrações da negligência, incúria, violência, corrupção, manipulação e clientelismo reinantes, decorre da observação, em perspectiva temporal extensa, quase duzentos anos, da ação "reparadora" do Estado brasileiro nos momentos de seca. Villa não aborda a estrutura econômica e social nordestina, sob a qual se abate a calamidade, a mesma que produz e reforça seus efeitos, mas rastreia a ação de órgãos dos governos estaduais e federal, registrando o comportamento e a conduta das elites sociais e dos dirigentes políticos naquela região. A leitura de Vida e morte no sertão pode ser enriquecida, ainda, com outras publicações recentes, tais como Seca e poder: entrevista com Celso Furtado, da Fundação Perseu Abramo (1998), O "Dossiê Nordeste seco", organizado pelo geógrafo Aziz Ab'Saber para a revista Estudos Avançados(IEA/USP, nº 36, 1999), e A invenção do Nordeste e outras artes, de Durval Muniz de Albuquerque (Cortez/Massangana, 1999).

A criatividade inventiva do autor foi capaz de suplantar a aridez intelectual que caracterizou as iniciativas governamentais na passagem dos quinhentos anos da viagem de Cabral. A realização da pesquisa contou com o apoio do Instituto Teotônio Vilela, ligado ao PSDB, que veio somar sua participação à de outras entidades similares, como a Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, e o Instituto Tancredo Neves, ao PFL. Distantes de desempenhar um papel de think tank nesses partidos, a preocupação que cada um deles, e à sua maneira, demonstra em pensar e conhecer o país não deixa de ser louvável.

O livro estuda as principais secas ocorridas no nordeste brasileiro, entre os séculos XIX e XX, até o governo do general Figueiredo (1979-1985). Uma questão incomoda o autor, e ele a perseguiu com denodo ao longo dos capítulos: o saldo de mortos com as sucessivas secas, de um lado, e o imobilismo das autoridades públicas e da sociedade, de outro. Em operações de mórbida matemática, Villa estimou em torno de três milhões de pessoas as vítimas fatais nesses dois séculos. Um novo holocausto, equivalente a duas guerras do Vietnã. Eis porque o livro é portador de "uma triste história em que a morte rondou diuturnamente a vida dos sertanejos" (p. 13). A seca de 1877-1879, uma das mais terríveis, teria dizimado cerca de 4% da população nordestina, erigindo o Nordeste, desde então, em "região-problema". Já a morte, convertendo-se em personagem principal, comparece na abertura de todos os capítulos e no encerramento do livro. Ao fechá-lo tem-se a sensação de haver assistido a um espetáculo macabro, impressionante. Palco privilegiado para atuação da morte e dos desmandos parece ter sido o Ceará. Não se sabe se pelas condições particulares daquele Estado ou se pelas condições de acesso e disponibilidade de fontes e documentação, há no livro um certo protagonismo cearense em várias das situações estudadas.

No conjunto ressalta um minucioso trabalho de pesquisa, exemplar em qualidade de análise, dos dados coligidos, na reconstituição de contextos e conjunturas. Os efeitos das secas sobre a economia regional e os grandes prejuízos que ocasionam; o fenômeno das migrações, orientadas, ao longo do tempo, para quase todo o Brasil, com destaque para o Maranhão, Pará, Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e capitais do Nordeste; o surgimento de expressões, personagens e situações próprias ao universo das secas, como "indústria da seca", a Sudene, os saques, retirantes, epidemias, frentes de trabalho, entre outros. Cenários que abrem o leque de problemas correlatos para novas pesquisas, tais como o papel da imprensa, os efeitos das intervenções governamentais, os movimentos sociais, o universo cultural e o imaginário das secas, as ações da Igreja e dos partidos, o Nordeste como "região-problema", o impacto sobre as comunidades agrárias e a história regional. Se a introdução de dromedários na região, na década de 1850, fez a esperança de superação dos problemas das secas recair antes nas costas desses animais do que na ação dos homens, nas décadas de 1950 e 1960, as repetidas tentativas de definir uma política de desenvolvimento para o Nordeste tornaram-se pregações no deserto. A "inação" dos homens e a inclemência da natureza regaram o canteiro dos discursos de identidade regional, tragando inclusive o Estado da Bahia, até então, unidade avulsa na federação brasileira. Lástima o livro não incorporar o tratamento dispensado às secas sob os governos civis, afinal, Sarney e Collor foram "presidentes do Nordeste", e na década de 1990, quando o PSDB dirigiu o País. O Instituto Teotônio Vilela poderia, assim, refletir e extrair lições sobre o comportamento de seu próprio partido no governo e das ações que este desenvolveu para enfrentar as calamidades provocadas pelas secas, como a de 1998, por exemplo. Teria havido, nestes últimos anos, mudanças nos procedimentos administrativos de prevenção e reparação dos males?Vida e morte no sertão também desperta a cobiça por estudos comparativos. Em 1998, diante dos incêndios florestais em Roraima (não haveria outras situações semelhantes na região amazônica?), a postura do governo federal diferiu ou se assemelhou àquelas estudadas neste livro? Eis uma questão que pede esclarecimentos. E alguma pesquisa, não uma história-catástrofe.

Onde reside, para os historiadores, o interesse de um livro sobre a história das secas no nordeste do Brasil, nos dois últimos séculos? O interesse pelo Nordeste é remoto e diversificado, conforme constatou a professora Suely Robles Reis de Queiroz, autora de uma Historiografia do Nordeste (São Paulo. Secretaria da Cultura/Arquivo do Estado, 1979, Col. Monografias, 2), dado, por exemplo, o papel que aquela porção de terra ocupou na América portuguesa. Há, também, no livro de Marco Antonio Villa, esse curioso ponto de partida, a geografia, o espaço, as condições climáticas e as particularidades que resultam das intervenções humanas, produtoras das peculiaridades dessa "região", examinadas em suas dimensões propriamente temporais. Um encontro entre as preocupações da História e da Geografia que caminham, juntas e atentas, às relações entre Estado e sociedade no Brasil. Diante dos problemas que, acredita Villa, deveriam ser enfrentados, o da terra, com a realização de reforma agrária e o estabelecimento de lavouras secas, e o da água, com o armazenamento e o uso social dos recursos hídricos, estariam plantados os "condottieri do atraso", a elite social e política nordestina. Eis, então, uma questão para os historiadores: "Os fatores de conservação transformaram o semi-árido em uma região aparentemente sem história, dada a permanência e imutabilidade dos problemas. Como se com o decorrer das décadas nada tivesse se alterado e o presente fosse um eterno passado. A cada seca, e mesmo no intervalo entre uma e outra, milhares de nordestinos foram abandonando a região. Sem esperança de mudar a história das suas cidades, buscaram em outras paragens a solução para a sobrevivência das suas famílias. Foi nos sertões que permaneceu inalterado o poder pessoal dos coronéis, petrificado durante o populismo e pela migração de milhões de nordestinos para o sul" (p. 252, grifos meus). Como explicar esta persistência? De onde ela emerge e como se alimenta? Ousaria dizer que nas respostas àquela situação encontram-se elos dessa corrente do passado. Uma rigorosa evasão das populações, de um lado, fazendo de cidades e roças fontes ininterruptas de mão-de-obra barata, e a reiteração cultural das elites sociais e políticas, por outro, transformando-as em ponto de sustentação política dos governos estaduais e federal, têm sido respostas que aprisionam os homens à realidade que querem evitar. É o que se depreende de uma leitura desse livro, amparada em Fernand Braudel. Foi por dever de ofício, que o ministro do interior do governo Figueiredo, Mário Andreazza, aspirante à presidência da República, fez perto de sessenta visitas ao Nordeste, entre 1979-1981? Curiosa, também, a omissão da esquerda brasileira perante as secas. O PCB, diz o autor, "omitiu-se politicamente durante os flagelos" e "nunca se dispôs a apresentar um programa para a região" (p. 253).

Uma última palavra, sobre a religiosidade nordestina. Vista, até pouco anos atrás, por segmentos políticos e intelectuais, como uma dentre outras rotas de fuga da seca, ao lado da migração para as cidades e outras regiões do Brasil e, no passado, o cangaço e a jagunçama, a devoção religiosa foi associada a comportamentos sociais passivos no Nordeste, onde Canudos e Caldeirão formariam exceções à regra. Contudo, ao renovar esperanças em dias melhores, chuvas, chegada de alimentos, terra, sobrevivência dos roçados, essa mesma religiosidade converte-se em fator de "promoção social" e de expectativa de uma sedentarização, em condições outras. Permitiria, então, entrever possibilidades distintas daquelas "respostas", anteriormente referidas?
Revista Brasileira de História - UNESP

Notícias Geografia Hoje

Milícias xiitas massacram sunitas no Iraque em ações de vingança, diz ONG


As milícias xiitas tomaram a frente do combate ao 'Estado Islâmico' no Iraque

Milícias xiitas no Iraque sequestraram e mataram vários civis sunitas nos últimos meses, segundo um relatório da Anistia Internacional.

As mortos seriam uma vingança contra os ataques do grupo que se auto proclama Estado Islâmico (EI).

A Anistia afirmou que as milícias contam com o apoio e recebem armas do governo iraquiano, além de agir com impunidade.

O relatório da ONG tem como base entrevistas feitas no Iraque entre agosto e setembro e dá detalhes do que afirma ser ataques sectários realizados por milicianos nas cidades de Bagdá, Samarra e Kirkuk.

Segundo a Anistia, muitos corpos sem identificação foram encontrados, vários ainda algemados e com marcas de tiros na cabeça, o que sugere execuções. Muitos outros ainda estão desaparecidos.

A Anistia afirma que, em Samarra, cidade de maioria sunita ao norte de Bagdá, conseguiu detalhes de mais de 170 sequestros de homens sunitas desde junho.

Mais de 30 foram levados de casa ou das proximidades de casa em um único dia, em 6 de junho, antes de serem mortos a tiros. Os corpos foram abandonados em locais próximos.

"A onda de assassinatos parece ser uma retaliação por uma breve incursão (de combatentes do "EI") na cidade no dia anterior", afirmou a ONG.

De acordo com a Anistia, as milícias, incluindo a Asa'ib Ahal al-Hag, as Brigadas Badr, o Exército Mahdi e o Kata'ib Hizbullah, ficaram mais fortes desde junho, quando o Exército iraquiano ficou desestabilizado com os avanços do "EI".

Correspondentes afirmam que grande parte da luta contra o "EI" desde junho tem sido feita não pelo Exército, mas por milícias, que conseguem recrutar milhares de voluntários.
'Clima de desordem
'
milicianos se aproveitam de 'clima de desordem' no país, segundo a Anistia Internacional

A Anistia Internacional informou em seu relatório que as milícias se aproveitaram do "clima de desordem" e acrescentou que o governo iraquiano precisa "agir agora para dominar as milícias e estabelecer Estado de direito".

O "EI" já controla grandes áreas na Síria e Iraque e invadiu a cidade de Hit no começo do mês. Agora, avança pela província iraquiana de Anbar.

Segundo analistas, se o grupo tomar o controle de Anbar, o "EI" conseguirá estabelecer um caminho para lançar possíveis ataques contra a capital do país, Bagdá.

O primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, que assumiu o cargo no mês passado, ainda não comentou o relatório da Anistia Internacional.

Mas ele admitiu que as forças de segurança do país já cometeram "excessos" e acrescentou que as forças iraquianas enfrentam uma batalha "existencial" contra militantes do "EI".

Abadi também reconheceu, no que acredita-se ser uma referência aos sunitas, que seu governo precisa tratar as "verdadeiras queixas" do povo iraquiano.

As denúncias da Anistia foram feitas apenas dois dias depois de o "EI" ter confirmado, no último número de sua revista de propaganda, a Dabiq, que capturou e escravizou mulheres e crianças da minoria yazidi.

Segundo a revista, as mulheres e crianças foram capturadas na cidade de Sinjar, no norte do Iraque e "foram então divididas de acordo com a Sharia entre os combatentes do Estado Islâmico que participaram das operações".

A revista ainda informou que algumas das mulheres foram "vendidas".

Notícias Geografia Hoje

Sanções à Rússia afetam fornecimento de alimentos a Estação Espacial

Envio de alimentos para a Estação Espacial Internacional pode ser afetado

O fornecimento de alimentos para astronautas da Estação Espacial Internacional pode aparentemente ser afetado pelas sanções aplicadas à Rússia por causa da crise na Ucrânia.

Citando autoridades da Agência Espacial Europeia, o jornal The Moscow Timesdiz que o envio de alguns suprimentos aos astronautas - normalmente feito por meio da estação de lançamento no Cazaquistão controlada pelos russos - será impactado pelas sanções.

Como a importação de alimentos da Europa pela Rússia foi proibida, alguns itens extras enviados pelas famílias dos astronautas, como doces e frutas secas, não podem mais entrar em território russo.

A proibição foi imposta pela União Europeia em retaliação ao comportamento da Rússia na crise no leste da Ucrânia - incluindo a anexação da península da Crimeia pela Federação Russa.

Atualmente, a tripulação da estação é composta por um alemão, dois americanos e dois russos.

No entanto, nem tudo está perdido para estes astronautas. Os suprimentos podem ser enviados a partir dos Estados Unidos, por meio das cápsulas Dragon e Cygnus.
BBC Brasil

sábado, 11 de outubro de 2014

O Câncer da Europa

Sem Fronteiras - A crise na Europa

Crise Europeia

Crise Europeia

Rússia

O que é a Rio+20?

Primavera Árabe

A Usina de Belo Monte

China - Os Passos do Gigante

Cidades do futuro

Cidades do futuro

As megacidades

Retratos Urbanos

Planeta chega aos 7 bilhões de habitantes

Brasil, 200 Milhões

Fraturas da Terra

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Notícias Geografia Hoje


'A violência parece estar fora de controle no Brasil', diz pesquisador
Camilla Costa
Enviada especial da BBC Brasil ao Rio de Janeiro

Muggah defende que novas tecnologias permitem ao cidadão combater a violência

Nos últimos três anos e meio em que vive no Brasil, trabalhando como diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, um dos principais centros de estudos do mundo sobre segurança pública, o canadense Robert Muggah passou a conhecer de perto o problema da violência no país.

Antes disso, Muggah já havia acumulado um grande conhecimento sobre segurança pública, ao estudar o assunto em seu doutorado em Oxford e ao trabalhar em projetos de combate à violência em mais de 50 países.

É com base nesta experiência acumulada que ele trouxe boas e más notícias ao TED Global, conferência de projetos e ideias inovadoras atualmente em curso no Rio de Janeiro.

A má notícia é que ele vê um aumento da violência no Brasil e que o país está no caminho inverso ao de várias partes do mundo onde as taxas de criminalidade vêm caindo.

A boa notícia é que, com a internet, a imensa quantidade de dados hoje disponíveis e as tecnologias digitais, todo brasileiro pode contribuir com o combate à violência.

A seguir, ele explica como.

BBC Brasil - O que o cidadão comum podem fazer para combater a violência?

Robert Muggah - Estamos num momento da história em que, em um ano, são gerados mais dados do que todos os dados disponíveis nos dois mil anos anteriores. Isso está gerando oportunidades enormes para cidadãos usarem informações de novas formas.

Uma delas é usar este grande volume de dados para entender tendências, como, por exemplo, a distribuição da violência. Um exemplo é a ferramenta que criamos que mostra as importações e exportações de armas e munição no mundo desde 1992.

Estes dados estão disponíveis publicamente na ONU, mas ninguém havia pego e feito algo com isso. Três meses depois do lançamento, tivemos 5 milhões de visitas, o que mostra que há um grande interesse por isso, não só entre ativistas e governos, mas em outros setores da sociedade.

A segunda forma é por meio de novas ferramentas colaborativas para buscar soluções para a violência coletivamente. No México, por exemplo, houve um apagão na mídia sobre este assunto, porque, ao falar da violência, os jornalistas e blogueiros se tornam alvos dos cartéis.

Muitas organizações se uniram para substituir a mídia e informar onde é seguro de se estar ou não. Quando há um tiroteio, a mídia pode não falar disso, mas há posts no Facebook e no Twitter sobre o assunto.

Isso pode ser reunido e divulgado por estes novos centros de informação. O mesmo ocorreu no Quênia, onde os cidadãos passaram a monitorar a violência por conta própria. Isso permite criar informação em tempo real, de forma interativa e com a ajuda não de poucas pessoas, mas de toda a população. Isso não era possível há dez anos.

Em terceiro lugar, é possível criar programas para celular para ajudar as pessoas a se protegerem. Há exemplos de sistemas de alarme, em que você pode usar o telefone para chamar a polícia sem que isso seja notado, enviar uma mensagem com um pedido de socorro, disparar uma sirene. Há um grupo no Egito que monitora a violência sexual. E estas ferramentas alimentam os sistemas dos quais já falamos.

BBC - Especialmente depois dos protestos, a violência policial passou a ser mais debatida. Como podemos nos proteger deste tipo de violência?

Muggah - Essa é uma questão importante ao redor do mundo. Hoje, as pessoas são menos tolerantes com a violência policial. Mais casos vêm mais à tona, e as pessoas debatem mais sobre isso. O Brasil tem uma das polícias mais violentas do mundo. A ONU repete isso sempre.

Uma coisa que se pode fazer é usar a tecnologia e os dados. No ano passado, analisamos os posts em redes sociais para ver se há uma relação entre os Black Blocks e outros grupos afiliados e a brutalidade policial, porque a imprensa dizia que os Black Blocks estavam forçando a polícia a ser violenta.

Rastreamos milhões de posts para entender a reação gerada sempre que havia um incidente de violência policial. Mostramos que, quando a polícia usava mais força, a influência dos Black Blocks crescia. Então, fomos à Polícia Militar para mostrar isso.

Eles se impressionaram, porque não tinham a capacidade de fazer esta análise por conta própria. Mostramos que talvez fosse necessário abrir canais de negociação, porque a força não era uma alternativa. Então, a sociedade pode fazer o mesmo e levar estas informações para a internet para criar um debate. Os dados gerados hoje permitem fazer isso.

BBC - Houve uma resposta prática da polícia quanto aos Black Blocks?

Muggah - Foram criados times especiais para negociar com os manifestantes. Os cidadãos podem fazer o mesmo. Hoje, existem ferramentas para que cidadãos denunciem o abuso policial.

Nos Estados Unidos, o uso de câmeras no corpo dos policiais é obrigatório em 20 Estados. Mas é preciso ter muito cuidado com isso, porque não queremos que estas ferramentas sejam mal usadas.

Então, estamos fazendo um teste com muito cuidado nas UPPs para ver se funciona. Mas sabemos, por exemplo, que fazer com que policiais usem câmeras gerou na Califórnia uma redução de 75% nas queixas contra violência policial e uma queda de 65% nas denúncias contra este tipo de conduta.

Claro que a Califórnia não é o Brasil, mas existe por lá um problema sério de abuso de força por policiais contra minorias. O importante é que estamos reunindo dados e fazendo pesquisas para ver se isso funciona, porque se trata de uma nova fronteira.

BBC - Imagino que o senhor esteja acompanhando as eleições no Brasil. O que o senhor acha da forma como a segurança pública vem sendo debatida?

Muggah - A segurança pública esteve praticamente fora dos debates. Isso é uma vergonha, porque houve uma grande mudança nos últimos anos, e o público está mais atento à esta questão. Também porque há algo errado no Brasil nesta questão.

Houve avanços em São Paulo, Rio e Pernambuco. Mas, de forma geral, as taxas de assassinatos e outros tipos de crime continuam a aumentar. O Sul está um pouco mais seguro, mas o Norte está mais inseguro.

É uma loucura que 13 das 50 cidades mais inseguras do mundo estejam no Brasil. Parece que a violência está fora do controle. Então, seria de se esperar que o assunto receberia mais atenção. Mas sabemos que, em qualquer eleição presidencial, o debate sobre segurança pública é algo muito perigoso para os candidatos. Não vale a pena debater ou fazer muitas promessas sobre esta questão.

BBC - Quais deveriam ser as prioridades de segurança pública do próximo presidente do país?

Muggah - Em primeiro lugar, criar um sistema de informação mais eficiente sobre homicídios, violência policial, a população prisional. Hoje, temos é uma colcha de retalhos, em que alguns Estados têm dados enquanto outros não.

É impossível ter uma política séria sem dados de qualidade. É como com o câncer. Como você pode tratar uma doença sem diagnosticá-la? Nos dois casos, a informação de qualidade é algo crítico. Também é necessária uma estratégia nacional para homicídios no país.

Ter 56 mil mortes por ano é inaceitável. E está aumentando, enquanto está caindo na maior parte do mundo. Em terceiro lugar, precisamos repensar a política de drogas. Não que eu defenda a legalização ou sequer a regulamentação. Defendo uma abordagem mais humana, em que tratamos viciados como pacientes em vez de jogá-los na prisão.

O sistema criminal no Brasil hoje favorece quem é branco e tem dinheiro, enquanto que os mais pobres ou negros são jogados na prisão e têm suas vidas arruinadas. Precisamos ter um debate nacional sobre este assunto, porque o problema com as drogas é inevitável. Não podemos apenas tentar controlar isso nas fronteiras.

Em quarto lugar, é preciso reformar a Polícia. Não sei como isso deve ser feito, mas todos, até mesmo a polícia, concordam que a estrutura atual não funciona. Não há como você ter uma polícia investigativa tão distante da polícia ostensiva. É uma contradição que leva à impunidade, porque os casos são mal investigados.

Por fim, é preciso uma estratégia de segurança pública, com uma instituição pública federal dedicada a este assunto. Não é necessariamente o caso de criar um novo ministério, como está sendo feito em outras partes da América Latina. Mas talvez seja hora do Brasil centralizar a responsabilidade sobre isto, para gerenciar a prevenção de violência, a política de drogas. Para haver coerência no que é feito.
BBC Brasil

Notícias Geografia Hoje


FMI diz que Brasil não vai cumprir meta de superávit primário
Alessandra CorrêaDe Winston-Salem (EUA) paa a BBC Brasil



Diante da desaceleração da economia neste ano, o Brasil não vai conseguir cumprir a meta de superávit primário (a economia dos gastos públicos para o pagamento dos juros da dívida), diz um relatório publicado nesta quarta-feira pelo FMI (Fundo Monetário Internacional).

Segundo o relatório "Monitor Fiscal", o superávit primário em 2014 será de 1,3% do PIB (Produto Interno Bruto), abaixo da meta de 1,9% estabelecida pelo governo.

O FMI diz que o resultado se deve "ao ritmo de atividade econômica no ano menor do que o esperado".

Na terça-feira, em outro relatório, o FMI rebaixou sua projeção de crescimento para a economia brasileira neste ano de 1,3% para 0,3%.

Apesar de o governo manter a meta de superávit primário em 1,9% neste ano, os analistas de mercado brasileiro já vem apostando em resultado menor.

Segundo o mais recente Boletim Focus, divulgado na segunda-feira pelo Banco Central, a previsão é de que o indicador feche em 1%.

Para 2015, o FMI prevê que a economia brasileira deverá ter desempenho um pouco melhor, com avanço de 1,4%, e o superávit primário será de 2%.

Em 2016, a projeção é de superávit primário de 2,5%.

O relatório, divulgado durante a reunião anual do FMI e do Banco Mundial, em Washington, reúne projeções sobre as contas públicas de diversos países.

O FMI projeta que a o déficit nominal brasileiro fique em 3,9% do PIB neste ano e recue para 3,1% em 2015.

Para a dívida pública a projeção é de 65,8% do PIB neste ano, abaixo da previsão anterior, de abril, que era de 66,7%. No ano que vem, deve ficar em 65,6%.
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Por que a Turquia resiste a intervir contra o 'Estado Islâmico'?

Cerca de um milhão de refugiados sírios fuguram para a Turquia por causa do avanço do "Estado Islâmico"

O ministro de Relações Exteriores da Turquia, Mevlüt Çavusoglu, disse nesta quinta-feira que é "não é realista" pensar que a Turquia possa mandar tropas sozinha para uma operação em solo contra o autodenominado Estado Islâmico, que está tentando tomar Kobane, uma cidade síria de importância estratégica na fronteira com o país.

"Estamos conversando. Quando houver uma decisão comum, a Turquia não vai deixar de fazer sua parte", disse o chanceler turco.

Após um encontro em Ancara com o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, Çavusoglu pediu a criação deu ma zona de exclusão aérea na fronteira turca com a Síria.

A ideia da zona de exclusão seria proteger os refugiados que estão fugindo da Síria, juntamente com a criação de uma zona neutra na fronteira. Como o "Estado Islâmico" não tem força aérea, o principal prejudicado pela criação de tal zona de exclusão seria a Aeronáutica síria.

As declarações foram feitas após os militantes do "Estado Islâmico" terem avançado em Kobane, passando a controlar um terço da cidade de maioria curda, de acordo com o que foi relatado à BBC por uma autoridade local.

A mesma autoridade disse também que as forças curdas defendendo Kobane precisam urgentemente de mais armas para combater o "Estado Islâmico".

Os militantes, porém, teriam sido forçados a recuar nas últimas horas para subúrbios de Kobane por força de novos bombardeios americanos.

Pressão

Até agora, os tanques da Turquia, a segunda maior força militar da Otan, permanecem do outro lado da fronteira próxima a Kobane. E o país tem impedido que combatentes curdos cruzem para a Síria para se juntar à luta contra o "Estado Islâmico".

O parlamento turco já autorizou, na semana passada, uma ação militar contra os jihadistas no Iraque e na Síria, mas até agora não agiu.

O ministro da Defesa disse também na semana passada que o governo não tinha nenhum plano imediato para enviar tropas para o exterior ou aceitar tropas estrangeiras no país.

Isso, apesar da pressão de países ocidentais para que a Turquia participe da ofensiva contra o grupo e ajude as forças curdas em Kobane. "A Turquia certamente pode ajudar", disse o secretário de Defesa britânico, Michael Fallon. "Este é um problema para a Turquia."

Um alto funcionário americano disse ao jornal The New York Times que "há uma crescente ansiedade sobre a Turquia atrasando a sua ação para evitar um massacre a menos de dois quilômetros de sua fronteira."

"Depois de todas as condenações da catástrofe humanitária na Síria estão inventando razões para não agir para evitar outra catástrofe", disse o funcionário, que falou anonimamente para evitar criticar publicamente um aliado, segundo o jornal.

"Não é assim que age um aliado da Otan enquanto há um inferno no outro lado da fronteira", acrescentou.

Mas o que explica a postura turca?

Fronteira crucial

Turcos têm protestado pela falta de ação do país na Síria

Se conseguir controlar Kobane, o domínio do grupo jihadista alcançará um longo trecho de 900 km na fronteira entre os dois países.

A divisa tem sido a principal rota de entrada de combatentes estrangeiros que chegam à Síria para lutar contra o regime do presidente sírio Bashar al-Assad, em meio a uma guerra civil que já dura mais de três anos, e para o contrabando de petróleo dos campos controlados pelo EI.

Cerca de 400 pessoas morreram e mais de 160 mil sírios, em sua maioria curdos, fugiram da cidade nas últimas três semanas, quando o "EI" lançou uma ofensiva para tomá-la.

Na terça-feira, pelo menos 12 pessoas foram na Turquia mortas em protestos curdos pela falta de apoio militar do governo.

O presidente, Recep Tayyip Erdogan, disse na terça-feira que só com bombardeios aéreos não seria possível derrotar os cerca de 30 mil combatentes do Estado Islâmico que controlam partes do território do Iraque e da Síria, e que era necessária uma operação em terra.

"Alertamos o Ocidente. Queremos três coisas: uma zona de exclusão aérea, uma zona segura paralela a essa e o treinamento de rebeldes sírios moderados", disse ele.

Ambivalência turca

O conflito perto de sua fronteira em Kobane ilustra a ambivalência do governo turco.

"A inação de Erdogan pode ser explicada pelos dilemas únicos que o 'EI' representa para a Turquia. Cada resposta política destinada a resolver esses dilemas cria novos desafios, que vão da política interna à questão latente da autonomia curda", escreveu Steven A. Cook, do centro de estudos americano Conselho de Relações Exteriores, na revista Foreign Policy.

"Não há saída para Erdogan", acrescentou. "Ação ou omissão: ambas envolvem ameaças à segurança e riscos políticos que o presidente turco preferiria evitar."

Ele se opõe ao governo de Assad e, apesar de ver o "EI" como uma ameaça, não está confortável com passar a ideia de que reforça o poder do presidente sírio, nem interesse a ele fortalecer a capacidade militar dos curdos, com quem o governo em Ancara mantém um velho conflito que deixou mais de 40 mil mortos.

A Turquia teme que as armas enviadas aos curdos iraquianos pelos países ocidentais acabem nas mãos do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, considerado um grupo terrorista pela Turquia, EUA e União Europeia), que se juntou ao combate ao "EI" no norte do Iraque.

Em setembro, quando o "EI" avançou sobre a cidade de Kobane, no Curdistão sírio, a polícia turca entrou em confronto com curdos turcos, que queriam atravessar a fronteira para ajudar seus correligionários.

Ministro do Exterior turco disse que ação turca unilateral não é realista contra os militantes que atacam Kobane

Mais de 160 mil pessoas cruzaram a fronteira e no total a Turquia abriga cerca de um milhão de refugiados sírios.

Isso tem um custo econômico, estimado em US$ 3,5 milhões até o momento, mas também político, segundo Selin Girit, do serviço turco da BBC.

"Depois de lutar contra os guerrilheiros do PKK curdo no sudeste do país por quase 30 anos, a Turquia não quer que consolidem seu poder na região nem ver armas ocidentais nas mãos do PKK", explica Girit.
Sunitas

A Turquia tem negociado um acordo de paz com o PKK de forma intermitente durante anos, e a última coisa que quer ver é a destruição deste processo.

O PKK pode sair fortalecido da luta contra o "EI", mas os curdos, que representam cerca de 20% da população do país, parecem querer que a Turquia se envolva militarmente na Síria como uma pré-condição para prosseguir no processo de paz, acrescenta.

Hugh Pope, vice-diretor do programa de Europa e Ásia Central da organização internacional International Crisis Group, mencionou outras preocupações possíveis para as autoridades turcas.

"Uma parte significativa do público turco acredita que os sunitas da Síria e no Oriente Médio são vítimas de injustiça e que, mesmo que as táticas do EI sejam repugnantes, o 'EI' representa um legítimo apelo sunita."

"Apesar de algumas pesquisas de opinião pública mostrarem que a maioria dos turcos vê o EI como uma ameaça, um funcionário turco disse ao Crisis Group que uma pesquisa interna do governo mostrou mais simpatia pelo EI no eleitorado sunita do partido do governo. Isso torna difícil para o governo turco atacar diretamente o 'EI'".
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