terça-feira, 25 de novembro de 2008

Nem tudo são flores no Pantanal

REVISTA CH 245 :: JANEIRO / FEVEREIRO DE 2008 :: PRIMEIRA LINHA

Secas e cheias no local levaram plantas aquáticas a criar estratégias de sobrevivência

Maior zona úmida continental do planeta, o Pantanal Mato-grossense está sujeito a um regime de cheias e estiagens ao longo do ano. A planície pantaneira, embora um dos principais centros de diversidade de plantas aquáticas do Brasil, não é um mar de rosas para essas plantas, que tiveram de desenvolver mecanismos para enfrentar os estressantes períodos de seca e inundação, como mudanças de forma, sincronização de seu ciclo de vida com o ciclo das águas e desenvolvimento de diferentes meios de propagação.

Com uma área de aproximadamente 150 mil km 2 , o Pantanal Mato-grossense é uma planície de inundação periódica, e seus ciclos anuais e plurianuais de secas e cheias são o mais importante fenômeno hídrico da região. Tais fenômenos se devem ao padrão das chuvas, que se concentram no verão, e à dificuldade de escoamento da água dos rios em razão do discreto gradiente topográfico da planície pantaneira, que apresenta declive de 3 cm a 5 cm por km, no sentido leste-oeste, e de 1 cm a 30 cm por km, no sentido norte-sul. Em fevereiro e março, o Pantanal é inundado por águas provenientes dos rios do sul, como o Miranda, Aquidauana, Negro e Taquari. Em abril e maio, a cheia é causada por águas do alto rio Paraguai e seus afluentes. Esse ciclo torna o Pantanal um sistema absolutamente singular, a cujas alterações os seres vivos tiveram de se adaptar.


A planta aquática chapéu-de-couro-folha-fina (Echinodorus paniculatus) pode atingir 1,8 m de altura e tem forma de roseta. Seu pecíolo (‘cabinho’ das folhas) é mais comprido que a lâmina foliar (foto: Ana Carolina Neves).


Para as plantas aquáticas, o Pantanal oferece grande diversidade de hábitats, como rios, brejos, campos inundáveis, canais, lagoas de meandro, lagoas permanentes e temporárias, vazantes e corpos d’água artificiais. Tudo isso, somado às variações anuais de níveis d’água, temperatura e umidade do ar, faz do Pantanal um dos principais centros de diversidade de macrófitas aquáticas no Brasil, onde crescem plantas com diferentes formas de vida: submersas ou flutuantes, livres ou enraizadas no fundo dos corpos d’água, emergentes (enraizadas, parcialmente submersas e parcialmente fora d’água), anfíbias (que vivem em áreas alagadas e secas) e epífitas (que crescem sobre outras plantas aquáticas).

Apesar disso, o Pantanal não é um ambiente de calmaria para essas plantas, que sofrem restrições drásticas impostas pelo ciclo de cheias e secas. As espécies submersas e flutuantes fixas, por exemplo, morrem na seca ou enfrentam esse período adormecidas, na forma de órgãos subterrâneos. Outras, antes de morrer, investem na formação de sementes, que irão germinar com as chuvas do ano seguinte.

As espécies flutuantes livres, que se movem na superfície da água, competem com plantas que se aglomeram em áreas remanescentes dos espelhos d’água, na seca, e morrem depois de produzir sementes ou esporos resistentes à desidratação. O que acontece com as plantas emergentes, que, enraizadas, não podem se mover em busca de condições de sobrevivência adequadas? Toleram o estresse imposto pelo regime de cheias e secas? Seu ciclo de vida se ajusta ao pulso das inundações? Foi o que tentamos entender durante a realização de nossa dissertação, observando as respostas de uma espécie emergente ao ciclo das águas no Pantanal.

Chapéu-de-couro
A planta estudada, popularmente conhecida como chapéu-de-couro-folha-fina (Echinodorus paniculatus), é uma espécie muito usada em piscicultura ornamental. Embora seja uma planta aquática comum nas sub-regiões pantaneiras de Miranda e Abobral, onde trabalhamos, pode estar extinta em São Paulo, já que as últimas coletas feitas no estado datam do início do século 20.

Várias características da espécie ajudam a compreender as reações da vegetação aquática do Pantanal ao regime de cheias e secas. E. paniculatus ocorre em áreas sujeitas a estiagens e inundações, pode mudar de forma nas duas condições e emprega diferentes meios de propagação para enfrentar variações ambientais. Pode reproduzir-se sexuadamente, por meio de sementes, e propagar-se assexuadamente, por brotamento de um caule subterrâneo (rizoma) ou por brotamento em estruturas reprodutivas como inflorescências e infrutescências. Essa última estratégia denomina-se pseudoviviparidade.


Ana Carolina Neves
Programa de Ecologia e Conservação
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Flavio Antonio Maës dos Santos
Instituto de Biologia
Universidade Estadual de Campinas

Paisagem urbana alienígena


REVISTA CH 245 :: JANEIRO / FEVEREIRO DE 2008 :: PRIMEIRA LINHA

Estudo detalha predomínio de árvores exóticas na cidade do Rio de Janeiro

Os problemas associados à introdução de espécies em ambientes onde antes não existiam constituem hoje uma questão importante na área da conservação da biodiversidade. Em vários países, os efeitos negativos de espécies invasoras e a preocupação com a preservação da fauna e da flora nativas têm levado a extensos programas de controle e erradicação de animais e plantas trazidos de outras áreas. O legado histórico do uso de plantas exóticas no paisagismo urbano do Rio de Janeiro é um exemplo do que ocorre em muitos outros locais.


A amendoeira (Terminalia catappa), árvore proveniente da Ásia, é a espécie exótica mais abundante nas ruas e praças da cidade do Rio de Janeiro (foto: Alex Almeida / Folha Imagem).

Um dos temas de grande relevância na área da conservação, em áreas urbanas e áreas naturais, é o conhecimento sobre as espécies exóticas e seus efeitos nos ambientes em que são introduzidas. Muitas espécies que se estabelecem em um novo local exibem rápida proliferação, competindo com as nativas e tornando-se uma séria ameaça ao equilíbrio ambiental.

Algumas espécies exóticas têm grande capacidade de invasão e de colonização de novos ambientes devido a características biológicas e ecológicas que ampliam sua tolerância em relação à maioria dos fatores ambientais. Podem, portanto, adaptar-se mais facilmente às condições dos ambientes invadidos e obter sucesso reprodutivo.

Podemos dizer que as espécies invasoras são relativamente generalistas em vários aspectos de suas necessidades ecológicas. Essa é uma das razões de seu sucesso na colonização e proliferação em novos ambientes, nos quais entram naturalmente ou para onde são levadas, de modo acidental ou proposital. As espécies invasoras tendem a desequilibrar o sistema, afetando negativamente a flora e a fauna locais – em geral ocorre redução das populações das espécies nativas, com risco, muitas vezes, de extinção.

A invasão e ocupação de diferentes áreas por espécies exóticas acentuou-se nos últimos 500 anos e hoje é um grave problema global de conservação. A expansão e os deslocamentos da população humana levaram a uma maciça introdução de espécies em áreas onde não existiam, em um processo de globalização da flora e da fauna, sem que fossem avaliadas as conseqüências.

Nas últimas décadas, governos de várias nações desenvolvidas têm investido em pesquisas e proposto formas de controlar, manejar ou até erradicar espécies exóticas, para preservar a biodiversidade local. Essa preocupação gerou o documento Estratégia global sobre espécies exóticas invasoras, elaborado pelo Programa Global de Espécies Invasoras, uma iniciativa da comunidade científica internacional, e publicado em 2001. O documento recomenda várias medidas de controle de espécies exóticas.

Nas ruas do Rio de Janeiro
Esse sério problema também está presente no Brasil (ver ‘O mundo invadido: conseqüências atuais das invasões biológicas’, em CH n. 238). A cidade do Rio de Janeiro, onde árvores e arbustos exóticos têm sido usados desde o século 19 no paisagismo urbano, é um exemplo. A tradição paisagística brasileira nasceu no início daquele século com duas principais influências, a francesa e a inglesa, que forneceram as metodologias, os materiais e as espécies utilizados na composição de nossos jardins.

O principal nome associado a essa época é o do paisagista francês Auguste Glaziou (1833-1906), responsável por muitos projetos de jardins públicos no Brasil, onde chegou em 1858, contratado pelo imperador Pedro II. São de sua autoria, por exemplo, os projetos originais do Campo de Santana e dos jardins da Quinta da Boa Vista, ambos na cidade do Rio de Janeiro.

Nas décadas seguintes, a introdução de vegetação exótica continuou. Apenas em meados do século 20 esse quadro foi alterado, principalmente graças ao arquiteto e paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994), que inaugurou uma cultura paisagística que pode ser considerada brasileira. O uso de espécies exóticas, porém, ainda era grande, e estas tornaram-se comuns na paisagem urbana do Rio de Janeiro, onde ainda hoje são maioria. Embora isso possa ser constatado visualmente, não existiam dados concretos sobre a presença de árvores e arbustos exóticos na cidade.

Assim, iniciamos em 2001 um estudo sobre ocorrência, freqüência e distribuição relativa de espécies exóticas e nativas na urbanização do município do Rio de Janeiro. O objetivo era conhecer o quadro atual de presença de cada um desses grupos e avaliar perspectivas futuras de conservação dos recursos naturais brasileiros por meio da valorização de espécies nativas no paisagismo. O estudo foi desenvolvido na zona urbana e tomou como referência territorial o mapa oficial do município (que inclui os limites do município, as regiões administrativas e os bairros), usado pela prefeitura.


Adilson Roque dos Santos,
Helena de Godoy Bergallo e
Carlos Frederico Duarte da Rocha ,
Departamento de Biologia Animal e Vegetal
Universidade do Estado do Rio de Janeiro..

Passagem animal


REVISTA CH 246 :: MARÇO DE 2008 :: EM DIA

Corredor ecológico permitirá que onças da caatinga tenham contato com outros grupos da espécie


O corredor ecológico permitirá o aumento das populações de onças-pintadas recém-descobertas na caatinga (imagens: arquivo Cenap).




Conectar várias unidades de conservação no Piauí e na Bahia de maneira a permitir que a recém-descoberta população de onças-pintadas (Panthera onca) da caatinga possa aumentar e manter sua saúde genética. Esse é o objetivo do corredor ecológico que o Ministério do Meio Ambiente pretende implantar, por meio das ações do Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação de Predadores Naturais (Cenap), na região que vai do lago de Sobradinho até a Chapada Diamantina, ambos na Bahia.

Para tanto, será realizado um censo da população felina a fim de identificar seu tamanho, padrão de alimentação e rota de deslocamento. Além disso, o Cenap – que integra o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão nascido de uma divisão do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – está investindo em campanhas de conscientização e amenização de conflitos para diminuir a caça desses animais e suas presas.

Até 2006 acreditava-se que não havia onças-pintadas nesse setor da caatinga (região do submédio São Francisco) porque os ambientes ali não teriam capacidade de manter animais do porte desses felinos. No entanto, pesquisadores do Ibama, trabalhando naquele ano no Programa de Revitalização do Rio São Francisco, fizeram a descoberta. “Ao contrário do que se pensa, a caatinga é rica em fauna”, revela o biólogo Rogério Cunha de Paula, co-coordenador do projeto Onças da Caatinga e do Programa de Controle de Conflitos com Predadores, e chefe-substituto do Cenap.

Ao descobrirem a população de onças na região entre os municípios de Sobradinho e Sento Sé, os cientistas concentraram suas pesquisas no local, que se situa entre várias áreas que são unidades de conservação (como os parques nacionais das serras da Capivara e das Confusões) ou que podem vir a ser (como o Boqueirão da Onça).

Segundo De Paula, como a região é muito pobre, as onças acabam competindo com os moradores pelos escassos recursos alimentares. Quando isso acontece, há conflitos que levam à perseguição e ao abate dos felinos. A criação de um parque nacional protegeria os animais, mas tornaria a vida das pessoas mais difícil. Por isso, propôs-se que diferentes áreas fossem protegidas de maneira distintas, não apenas como parques nacionais.

“A criação do corredor pareceu a melhor solução, pois é uma unidade de conservação menos restritiva, que não requer desapropriações, uma vez que o terreno continua no domínio privado”, diz o chefe-substituto do Cenap. Mesmo assim, ressalta ele, deverá haver interferência nas atividades econômicas devido a limitações no uso do solo. ”Mas como a densidade populacional nessas áreas (que deverão tornar-se parque nacional) é de menos de um habitante por km 2 , o impacto socioeconômico não deve ser alto.”

Encontro de populações

O corredor ligará várias unidades de conservação da Bahia e do Piauí (clique no mapa para ampliá-lo).



O corredor abarcará uma área de 2 milhões de hectares (1 hectare [ha] equivale a 10 mil m 2 ), permitindo o encontro das populações de onças dos parques nacionais e da caatinga não protegida. ”Embora chamemos de corredor, não se espera que os animais atravessem toda a região e sim que possam procriar com animais próximos, cujos filhotes migrariam e cruzariam com outros espécimes e assim por diante, permitindo a troca de material genético”, explica o biólogo.

Mas, para isso, é preciso ter várias informações sobre os felinos da região, como o número de indivíduos em cada área e seu potencial de deslocamento. Até o momento, a única estimativa sobre a densidade populacional dos animais é da organização não governamental Fundação para Conservação da Onça-Pintada, que acredita haver um felino por 26 km 2 no Parque Nacional da Serra da Capivara. Para De Paula, entretanto, o número não é o mesmo para a caatinga como um todo, dada a escassez de recursos e outros impactos.

A portaria que estabeleceu o grupo de trabalho para elaborar a proposta de criação e implementação do corredor foi publicada em 23 de abril de 2007, quando houve a divisão do Ibama e a criação do ICMBio. Por conta disso, as atividades ainda não começaram. “A previsão é de termos o corredor em 2009, mas nada é garantido. Também aguardamos o decreto de criação do Parque Nacional do Boqueirão da Onça, que trará muitos benefícios para a conservação dessas populações extremamente ameaçadas do maior carnívoro das Américas”, finaliza De Paula.


Fred Furtado
Ciência Hoje/RJ

Por que as árvores do cerrado são retorcidas?


REVISTA CH 246 :: MARÇO DE 2008 :: O LEITOR PERGUNTA

Pergunta de Élquer Rodrigues Almeida da Silveira, por correio eletrônico


O formato tortuoso das árvores do cerrado se deve a uma combinação de fatores (foto: Felipe Horst).


A vegetação do cerrado é influenciada pelas características do solo e do clima, bem como pela freqüência de incêndios. O excesso de alumínio provoca uma alta acidez no solo, o que diminui a disponibilidade de nutrientes e o torna tóxico para plantas não adaptadas. A hipótese do escleromorfismo oligotrófico defende que a elevada toxicidade do solo e a baixa fertilidade das plantas levariam ao nanismo e à tortuosidade da vegetação.

Além disso, a variação do clima nas diferentes estações (sazonalidade) tem efeito sobre a quantidade de nutrientes e o nível tóxico do solo. Com baixa umidade, a toxicidade se eleva e a disponibilidade de nutrientes diminui, influenciando o crescimento das plantas.

Já outra hipótese propõe que o formato tortuoso das árvores do cerrado se deve à ocorrência de incêndios. Após a passagem do fogo, as folhas e gemas (aglomerados de células que dão origem a novos galhos) sofrem necrose e morrem. As gemas que ficam nas extremidades dos galhos são substituídas por gemas internas, que nascem em outros locais, quebrando a linearidade do crescimento.

Quando a freqüência de incêndios é muito elevada, a parte aérea (galhos e folhas) do vegetal pode não se desenvolver e ele se torna uma planta anã. Pode-se dizer, então, que a combinação da sazonalidade, deficiência nutricional dos solos e ocorrência de incêndios determina as características da vegetação do cerrado.


André Stella e Isabel Figueiredo
Programa de Pequenos Projetos Ecossociais,
Instituto Sociedade, População e Natureza

Biodiversidade em risco


REVISTA CH 247 :: ABRIL DE 2008 :: PRIMEIRA LINHA

Ação humana altera comunidade biológica dos recifes de Maracajaú, mostram pesquisadores da UFRN

A integridade dos recifes de Maracajaú, no litoral do Rio Grande do Norte, vem sendo ameaçada por atividades humanas, preocupando oceanógrafos, ecólogos, biólogos e outros defensores da natureza. Os principais fatores responsáveis pelo desequilíbrio ecológico observado naquele complexo recifal são a crescente ocupação do litoral, a pesca predatória e a exploração turística.


Nos recifes de Maracajaú (RN), colônias do coral Sideratrea stellata dividem espaço com a alga verde Caulerpa racemosa (foto: Sandra Magalhães)


Conhecida localmente como ‘parrachos’, a área de recifes de Maracajaú está localizada no litoral do município de Maxaranguape (RN). Tais recifes integram a Área de Preservação Ambiental dos Recifes de Corais (Aparc), unidade de conservação criada em junho de 2001. Essa unidade abrange a faixa costeira e a plataforma marítima rasa que se estende diante dos municípios de Maxaranguape, Rio do Fogo e Touros, totalizando cerca de 32,5 mil hectares de área protegida.

Distantes 7 km da costa, os parrachos de Maracajaú ocupam uma área de 9 km de comprimento por 2 km de largura e apresentam, na maré baixa, piscinas rasas de águas límpidas e mornas durante a maior parte do ano. Esse ecossistema é formado por diferentes tipos de ambientes de fundo: em algumas áreas, o fundo é arenoso e, em outras, recoberto por gramas marinhas ou algas calcárias (compostas basicamente por carbonato de cálcio).

Os recifes de Maracajaú são estruturas calcárias constituídas, principalmente, por arenito, corais e algas calcárias incrustantes que crescem verticalmente até uma altura de 3 m. Esses recifes têm densidade variada: em alguns pontos estão fundidos uns aos outros, como na parte sudeste dos parrachos, e em outros podem surgir bem espaçados sobre o fundo arenoso, como na parte mais a oeste.

As superfícies dos recifes são normalmente cobertas por deposição de material calcário, tapetes de algas e algumas espécies de corais, cuja principal espécie é Siderastrea stellata. Esses ambientes são importantes para as populações litorâneas de pescadores artesanais, que obtêm ali recursos para sua subsistência ou para comercialização em pequena escala.

No entanto, as atividades humanas, como, por exemplo, ocupação da costa, pesca predatória e exploração turística, vêm degradando a área. O turismo é intenso na área: nas marés baixas, lanchas rápidas levam centenas de visitantes a estruturas flutuantes instaladas no local para a prática do mergulho livre e autônomo.

A presença humana nos parrachos de Maracajaú causa impactos indesejáveis, como o pisoteamento dos recifes, prejudicial aos organismos que o habitam, a quebra dos corais pelo impacto das âncoras e a retirada de pedaços destes para comercialização ou como lembrança. Além disso, a poluição decorrente do despejo acidental de combustível e de óleo de motores também tem contribuído para a degradação. Enquanto o turismo intensivo compromete a saúde dos corais, a pesca predatória modifica a relação entre as espécies, gerando um desequilíbrio ecológico na área recifal.


Eliane Marinho Soriano,
Ingrid Balesteros Silva e
Estevão O. Vieira Martins,
Departamento de Oceanografia e Limnologia,
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN),
e Ricardo Farias do Amaral,
Departamento de Geologia / UFRN.

Energia solar para desinfecção da água


REVISTA CH 247 :: ABRIL DE 2008 :: EM DIA

Sistema desenvolvido na UFSC permitirá levar tratar o líquido em regiões nas quais não há eletricidade

Um sistema de baixo custo para desinfecção da água captada de poços artesianos, cachoeiras, nascentes e até da chuva por meio dos raios ultravioletas. Este é o projeto desenvolvido por Lucas Rafael do Nascimento, aluno do curso de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob a orientação do professor Ricardo Ruther, do Laboratório de Energia Solar da UFSC. O emprego da tecnologia possibilitará o tratamento da água em locais onde não há energia elétrica.

Trata-se de um compartimento acondicionador, feito de PVC, composto por uma lâmpada ultravioleta germicida e alimentada por energia solar. O equipamento pode ser de pequeno porte, montado de acordo com as necessidades do usuário. O processo de desinfecção baseia-se na capacidade da radiação ultravioleta de atingir o DNA (material genético) das células dos microrganismos, causando sua destruição.

O Sol, fonte inesgotável de energia (foto: RonAlmog).



“Um fluxo contínuo de água passa através de um tubo de PVC, que tem em sua estrutura uma lâmpada emissora de radiação ultravioleta com comprimento de onda de 254 nm. Essa luz, ao penetrar as células e ser absorvida pelo ácido nucléico, afeta o DNA das mesmas, destruindo assim os microrganismos. Isso ocorre porque a absorção da luz ultravioleta pelo DNA provoca alterações da informação genética que incapacitam a reprodução da célula”, explica Ruther.

O pesquisador ressalta que, embora esse sistema de desinfecção não remova as partículas da água, ele inativa qualquer matéria orgânica com potencial patogênico.

“Essa tecnologia já é largamente utilizada em vários países, inclusive no Brasil, para diversas finalidades, desde o tratamento de águas de esgotos e piscinas e a desinfecção de alimentos e embalagens até a desinfecção da água para consumo humano. A diferença é que, neste projeto, são usados materiais facilmente encontráveis no comércio em todas as regiões do país. Além disso, a fonte de energia que alimenta esse dispositivo, o Sol, é renovável e altamente disponível”, esclarece Ruther.

O pesquisador revela que, a partir da montagem dos primeiros protótipos, resultados satisfatórios deverão ser obtidos em 2008, para então o sistema ser produzido em larga escala. Os primeiros estudos apontam um custo de aproximadamente R$ 5 mil por protótipo.


A Redação
Ciência Hoje/RJ

O LEITOR PERGUNTA


REVISTA CH 248 :: MAIO DE 2008

O que causa mais prejuízos ao meio ambiente: o descarte de copos de plástico ou o uso de detergentes para lavar copos de vidro?
Pergunta de Débora Fuks, por correio eletrônico


Todo produto sintetizado pelos humanos e que é desconhecido na natureza tem o potencial de causar danos ambientais. A intensidade do prejuízo depende da escala de uso e do tempo de permanência das substâncias no ambiente.

Os detergentes são tensoativos que alteram as propriedades de interfaces e, portanto, podem ser danosos a microrganismos, por exemplo. Em sua formulação, há substâncias – destinadas a aumentar a formação de espuma – que contêm em sua estrutura química nitrogênio ou fósforo. Os detergentes à base de polifosfatos podem levar também à fertilização de corpos de água, causando crescimento exagerado (bloom) de algas e outros efeitos.

Hoje, a maioria das formulações utiliza agentes como o EDTA ou NTA, que não contêm fósforo na molécula. Os detergentes modernos tendem a ser biodegradáveis, o que não ocorria no passado; seu tempo de permanência no ambiente, portanto, é menor. Para lavar copos, pode-se também utilizar sabões em vez de detergentes, caso não se tenha acesso aos biodegradáveis.

Já o plástico usado atualmente para produzir copos e outros artefatos não é biodegradável e permanece pouco alterado no ambiente por décadas após o descarte. Assim, o uso por apenas uma vez de um copo de plástico, como é hábito geral, seguido de seu descarte, é altamente danoso ao meio ambiente, sem falar na própria produção de plásticos, que gera resíduos tóxicos.

Os ftalatos, por exemplo, adicionados para dar maciez ao plástico, são agentes de desregulação endócrina. Os catalisadores metálicos empregados na polimerização (o plástico é um polímero) podem ser descartados no ambiente aquático ou sobre solos, causando danos ambientais. Em resumo: usas copos de vidro é menos prejudicial ao ambiente.


Angela Wagener
Departamento de Química,
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Mato, grosso até quando?


REVISTA CH 248 :: MAIO DE 2008

Artigo discute o futuro das florestas do estado responsável por metade do desmatamento da Amazônia

Em agosto de 2005, quando os astronautas do ônibus espacial Discovery retornaram à Terra, a comandante Eileen Collins chamou a atenção para o ritmo acelerado do desmatamento no planeta, facilmente observado do espaço. Ao longo de sua existência, e principalmente nas últimas três décadas, o homem consumiu cerca de metade do recurso florestal existente no mundo e as taxas de desmatamento não param de crescer.

O Brasil destaca-se nesse cenário tanto por ter a maior floresta tropical do mundo quanto por ser líder mundial em desmatamento. O agronegócio, a exploração madeireira irracional e a especulação fundiária são as causas desse processo. Entre os estados, o Mato Grosso responde por quase 50% do desmatamento anual na Amazônia brasileira. A julgar pelo que ocorre no presente, as projeções futuras apontam para um cenário ambientalmente catastrófico para esse estado, que chegará a 2020 com menos de 23% da sua cobertura florestal original.

Os humanos desmataram em média 16,1 milhões de hectares (ha) por ano no mundo – 15,2 milhões somente nas regiões tropicais – durante a década de 1990, segundo o relatório publicado pela Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) em 2000. Isso significa que 4,2% de todas as florestas existentes no mundo em 1990 foram derrubadas até 2000.

Se levarmos em conta apenas o desmatamento ocorrido em floresta tropical, esse percentual sobe para 7,8%. Para que se entenda melhor a dimensão do problema, a taxa de desmatamento mundial entre 1990 e 1995 foi da ordem de 33 campos de futebol a cada minuto.

Em 2000, o total de florestas remanescentes no mundo era de 3,9 bilhões de ha – 95% em florestas naturais e 5% em florestas plantadas. Dessas florestas, cerca de 47% ocorrem em região tropical, 9% em região subtropical, 11% em zona temperada e 33% em regiões boreais (florestas de coníferas acima de 50 graus de latitude, no hemisfério Norte).

Os números do desmatamento

Imagem da porção centro-norte da América do Sul com o arco do desmatamento – indicado em vermelho – na Amazônia Legal brasileira (fonte: D. Ferreira, com dados do Prodes / Inpe e SRTM / Nasa).


Mais de um terço do total de florestas tropicais existentes no mundo está localizado na Amazônia brasileira. Se contabilizarmos apenas as áreas de mata contínua, onde a presença do homem é mínima e a floresta permanece praticamente intacta, o Brasil responde por mais da metade do total mundial. Essa riqueza, porém, tende a desaparecer.

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), até 2005 foi desmatada uma área de 699,2 mil km 2 . Isso equivale a 17,5% da Amazônia brasileira ou 1,3 vezes o território da França. Somente em 2004 foram devastados 23.750 km 2 de florestas na região amazônica – o que equivale, em média, a 4,51 campos de futebol por minuto.

A derrubada da floresta na Amazônia brasileira ocorre principalmente no norte de Mato Grosso, no sudeste do Pará e em Rondônia como um todo, em uma imensa região conhecida como arco do desmatamento (ver mapa). Isso é confirmado pelo histórico do desmatamento na última década: Rondônia, Mato Grosso e Pará respondem por mais de 80% do total para a região.

Diante desses índices alarmantes, surgem muitas perguntas. Que futuro nos espera? Como estarão as nossas florestas daqui a 10, 15, 20 anos? Que diferentes caminhos podem ser trilhados para a reversão desse quadro? Que postura podemos adotar diante dessa realidade?

Para encontrar as respostas, os cientistas vêm desenvolvendo modelos que buscam simular as mudanças ambientais que ocorrem no mundo. Esses modelos permitem compreender por que, onde e quando ocorrerão mudanças na paisagem. No caso do desmatamento, tais simulações são benéficas na medida em que: (a) ajudam a compreender os vetores desse processo, (b) permitem gerar cenários futuros de uma região que vem sendo desmatada, (c) identificam regiões mais propensas à derrubada da vegetação nativa e (d) dão suporte aos órgãos do governo gestores das florestas para que tomem medidas de controle.

Dentro desse contexto, cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) utilizaram um modelo de simulação espacial desenvolvido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para simular distintos cenários futuros da paisagem sobre domínio florestal no Mato Grosso.


Daniel Assumpção Costa Ferreira
Santiago Palácios Noguera
Arnaldo Carneiro Filho
Laboratório de Sistemas de Informações Geográficas (Siglab),
Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia
Britado Soares-Filho
Centro de Sensoriamento Remoto (CSR),
Universidade Federal de Minas Gerais

Soberania nacional


Análise ressalta que oposição a reserva indígena em Roraima fere Constituição

O conflito gerado pela demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, envolve, de um lado, índios de diversas etnias, ocupantes tradicionais da região, e, de outro, diferentes invasores, principalmente fazendeiros e seus agregados (foto: Vincenzo Lauriola e equipe).



Os jornais têm registrado, nas últimas semanas, a tensão instaurada em torno da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Registro recente, problema antigo: o conflito está posto há pelo menos 30 anos e tem como protagonistas índios de diferentes etnias, principalmente macuxis e wapixanas, ocupantes tradicionais da região, e diferentes invasores, principalmente fazendeiros e seus agregados. A reserva, criada no governo Fernando Henrique Cardoso, foi, afinal, demarcada em 2005, pelo atual. A demarcação declara 1,7 milhão de hectares – correspondentes a 7% da área de Roraima – de usufruto exclusivo dos índios que lá vivem.

A questão ganhou maior nervosismo com a intervenção do Comandante Militar da Amazônia, general Augusto Heleno Pereira, que desqualificou a política indigenista do governo e exumou o ‘mantra’ da soberania nacional. Dessa manifestação, digamos, conceitual decorreram outras, de natureza prática, sugerindo que os militares estão dispostos a apoiar os supostos direitos dos ocupantes não-índios da reserva.

Diante do quadro, a comunidade científica, por meio dos antropólogos, vem cumprindo um papel de enorme relevância pública. Ao fazê-lo, revivem uma máxima um tanto esquecida e em desuso pelos cientistas sociais: a de que o conhecimento produzido sobre a sociedade tem como uma de suas dimensões cruciais a perspectiva da intervenção prática. Nesse caso, uma intervenção que visa oferecer à avaliação pública uma possibilidade de análise alternativa aos preconceitos e à indiferença que marcam as formas usuais de lidar com a questão indígena no país.

Entre as manifestações dos antropólogos, cabe destaque a artigo de Manuela Carneiro da Cunha, da Universidade de Chicago, em co-autoria com a jurista Ana Valéria Araújo, no jornal Folha de S. Paulo, em 26 de abril; a entrevista de Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional, no mesmo dia, no caderno ‘Aliás’ do jornal O Estado de S. Paulo; e a nota do presidente da Associação Brasileira de Antropologia, Luiz Roberto Cardoso de Oliveira, da Universidade de Brasília, em 8 de maio.

Em um país que ignora os termos da Constituição, um dos méritos da intervenção dos antropólogos foi o de ter chamado a atenção para o tratamento que a Carta de 1988 confere à “questão indígena”.

Nos artigos 231 e 232, a Constituição define o marco legal no qual se inscreve essa questão. O primeiro garante o reconhecimento aos índios de sua organização social, costumes, crenças e tradições, além dos direitos originários sobre terras que tradicionalmente ocupam, cabendo à União a obrigação de demarcá-las e protegê-las. A expressão “terras tradicionalmente ocupadas pelos índios” tem significado preciso: terras habitadas em caráter permanente e usadas para atividades produtivas, “imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo usos, costumes e tradições”. O artigo 232 não é menos importante: reconhece os índios como sujeitos de direito, como partes legítimas para ingressar em juízo em sua defesa.

Além disso, o artigo 20 (inciso XI) define as áreas indígenas como um dos “bens” da União e o artigo 22 (inciso XV) determina que apenas a esta compete legislar sobre assuntos indígenas. Pode-se imaginar o tipo de legislação que seria proposta pela Assembléia Legislativa de Roraima, se dispusesse de tal atribuição.

Está em curso uma grave falácia, a de que a soberania nacional é incompatível com a presença indígena em áreas de fronteira. A tradição brasileira de demarcação de fronteiras demonstra o contrário: por diversas vezes a presença de indígenas brasileiros – sim, brasileiros – foi crucial para o reconhecimento de pretensões territoriais do país. O pior é supor que a ocupação privada, com o que tem de pior – latifúndio associado à predação ambiental – é o que deve sustentar a soberania.

É mais do que hora de entender que não há soberania nacional possível fora do marco legal da Constituição. Os índios de Roraima representam, a um só tempo, seus traços culturais próprios e o estado de direito.


Renato Lessa
Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro
e Departamento de Ciência Política, Universidade Federal Fluminense
rlessa@iuperj.br

Diplomacia espacial


REVISTA CH 249 :: JUNHO DE 2008 :: A PROPÓSITO

Colunista discute validade do envio de mensagens ao espaço para travar contato com extraterrestres


Uma das estratégias atuais para identificar eventuais sinais transmitidos por civilizações extraterrestres é o uso de radiotelescópios que captam sinais de rádio, como os da imagem acima, instalados no Novo México (EUA).

O projeto Pesquisa por Inteligência Extraterrestre (Seti, na sigla em inglês) tem por objetivo buscar sinais de inteligência fora de nosso planeta. Os principais instrumentos utilizados por sua equipe são radiotelescópios que varrem o universo – já há algumas décadas – em busca de sinais que indiquem a existência de civilizações, em algum ponto do espaço exterior, que desejam se comunicar. Até o momento o estudo não rendeu resultados animadores, mas a pesquisa prossegue.
Mais recentemente, os radioastrônomos ligados ao projeto e impacientes com a demora na obtenção de resultados ponderaram que talvez não seja suficiente permanecer em um papel passivo, de rádio-escuta, apenas recebendo e analisando os sinais. Seria melhor, segundo eles, tentar enviar mensagens a supostos extraterrestres.

Essa postura mais ativa (o novo programa é chamado, em inglês, de Active Seti) teria a vantagem de selecionar regiões que sabidamente têm sistemas planetários que poderiam abrigar vida inteligente. Devemos lembrar que há muito tempo foram enviados ao espaço sinais de rádio e de televisão, mas estes, além de fracos, têm um conteúdo heterogêneo e duvidoso em termos de comunicação intergaláctica.

A idéia de transmitir sinais, porém, não agradou a todos os cientistas. Para alguns, existe certa dose de risco, pois as mensagens, se captadas, poderiam não agradar aos ‘ouvintes’. Os argumentos usados apóiam-se principalmente na suposição de que, apesar de nossas fraternas intenções, não se pode prever como os alienígenas reagiriam ao estímulo.

Tal preocupação foi resumida na declaração de certos participantes de um congresso realizado em 2006 em Valência, na Espanha: “Não há garantia de que todas as civilizações extraterrestres serão benignas, e de que, mesmo que o contato fosse feito com uma civilização pacífica, não houvesse repercussões graves.” Isso foi dito seriamente e os demais cientistas reunidos acataram o aviso. Portanto, ainda não há transmissões, pelo menos oficiais, que possam agilizar o tão desejado encontro.

Inversão do problema
Qual a razão por trás dessa cautela exagerada? Para tornar a situação um pouco mais concreta, vamos inverter o problema. Um belo dia, chega à Terra uma mensagem genuinamente extraterrestre. Depois de compreender a sintaxe, traduzir e interpretar o texto, concluímos que existe ali causa para incômodo. Após as infinitas discussões de praxe, alguém pode acreditar que optaríamos por organizar uma expedição até a fonte da mensagem para tirar satisfações pessoalmente? Nesse caso, a missão teria que dispor não só da tecnologia adequada a essa epopéia, mas também de uma tripulação (incluindo seus descendentes) preparada para passar milênios viajando.

Para exemplificar, digamos que a mensagem tenha partido da região de Proxima Centauri, a estrela que fica mais perto do Sol e do sistema que abriga a Terra. Só a viagem de ida até essa estrela, que, segundo os astrônomos, provavelmente não tem à sua volta um sistema de planetas, demoraria 23 mil anos. Isso, em termos humanos, representaria quase mil gerações, muito mais que as registradas desde as primeiras civilizações humanas, na Mesopotâmia. Seguramente esse intervalo seria suficiente para o esquecimento de qualquer desavença ou incidente diplomático. E se o planeta causador da discórdia estivesse a duas vezes essa distância? Risível, não?

Há que considerar ainda a possibilidade de que uma das civilizações envolvidas no qüiproquó tenha se extinguido nesse intervalo. O fato é que as distâncias envolvidas proíbem qualquer averiguação direta, a menos que as velocidades das espaçonaves possam atingir valores muito maiores que aqueles com os quais os físicos e engenheiros trabalham atualmente.

O mais curioso é constatar que uma espécie dita inteligente como a nossa – que, em sua grande maioria, não se preocupa muito com o próprio planeta – possa expressar tamanho tato para com mundos ainda desconhecidos.


Franklin Rumjanek
Instituto de Bioquímica Médica,
Universidade Federal do Rio de Janeiro
franklin@bioqmed.ufrj.br

Reflexos no Brasil de terremotos distantes


REVISTA CH 249 :: JUNHO DE 2008

Artigo analisa abalos sísmicos relatados com freqüência cada vez maior em cidades brasileiras

Moradores de prédios em diversas cidades brasileiras, em especial São Paulo, Brasília e Manaus, têm se assustado, nas últimas décadas, com abalos sísmicos que fazem com que os apartamentos balancem, as janelas trepidem e objetos se movam. Muitos deixam suas residências às pressas, acreditando que está ocorrendo um terremoto.

O fenômeno, na verdade, é conseqüência de terremotos, mas em raros casos estes ocorreram no Brasil. Em geral, o que as pessoas sentem são reflexos de terremotos distantes. Tais reflexos são sentidos desde 1922 nos grandes centros urbanos brasileiros, embora tenha havido um aumento de ocorrências na última década. Usando a sismologia, busca-se compreender como e por que ocorrem os reflexos e o que causou o aumento de sua ocorrência no país.


(foto: Nate Brelsford)


Em 13 de novembro de 2006, o jornal Folha de S. Paulo publicou notícia com o título ‘Reflexos de terremoto na Argentina atingem quatro estados e o DF’. O abalo tinha acontecido, a grande profundidade, na província argentina de Santiago del Estero, e teve magnitude 6.8 na escala Richter. Outra notícia no mesmo jornal, em 16 de agosto do ano passado, dizia: ‘Tremor de terra sentido por moradores de Manaus’. Nesse caso, os manauaras sentiram os reflexos de um forte terremoto (de magnitude 8) ocorrido no Peru, que causou 510 mortes naquele país.

Ultimamente, essas notícias tornaram-se freqüentes, e os ‘tremores’ chegam a assustar a população e até provocam a evacuação de grandes edifícios. No último dia 22 de abril, um tremor de magnitude 5.2, na plataforma continental brasileira, a 215 km da cidade paulista de São Vicente, foi sentido em várias cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina. Entretanto, muitos dos abalos que assustam moradores de grandes centros urbanos brasileiros são reflexos de terremotos andinos – ocorridos na região da cordilheira dos Andes, a oeste da América do Sul.

O primeiro registro no Brasil de tremores desse tipo, decorrentes da influência andina, ocorreu em 17 de janeiro de 1922, às 3h50 (horário de Greenwich). O terremoto, com profundidade de 650 km e magnitude 7.6, ocorreu no norte do Peru, a 1.300 km de Manaus, onde foram sentidos os reflexos. Desde então, foram registrados reflexos de 51 eventos distantes em cidades brasileiras, com notável aumento dessa ocorrência nos últimos 10 anos nas cidades de São Paulo, Manaus, Curitiba e Brasília. Esse aumento nos deixou curiosos, fazendo com que buscássemos, por meio da sismologia, respostas para esses reflexos no Brasil.

De modo geral, a primeira explicação é a de que qualquer terremoto gera oscilações (ondas sísmicas) que podem, dependendo da energia liberada pelo fenômeno e de fatores geológicos, se propagar na crosta terrestre até longas distâncias. Os prédios mais altos sentem essas ondas sísmicas com maior facilidade.

Quando acontecem terremotos com conseqüências graves (em 1976, na China, cerca de 250 mil pessoas morreram em um desses eventos), surgem dúvidas e questionamentos sobre certas definições tão distantes da nossa realidade. As mais comuns são as seguintes: O que é um terremoto? Por que tantos terremotos ocorrem na costa oeste da América do Sul? Acontecem – ou acontecerão – terremotos com a mesma magnitude no Brasil? O fenômeno tem alguma relação com o aquecimento global? Por que um terremoto tão distante é sentido em cidades brasileiras?


George Sand França
Observatório Sismológico, Universidade de Brasília
Marcelo Assumpção
Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas,
Universidade de São Paulo

Uma casa para o semi-árido


Projeto de residência ecológica favorece uso inteligente da água no Nordeste


Vista da primeira ecorresidência, construída no interior da Paraíba. O telhado inclinado e a cisterna ligada à casa são algumas das formas de ‘driblar’ a falta de água da região (foto: Sidcley Ferreira Castro).

A preservação da água começa em casa. Essa é a idéia central de um projeto de manejo integrado de bacias hidrográficas do semi-árido nordestino que culminou no desenvolvimento de uma ecorresidência. A casa foi concebida por uma equipe multidisciplinar e tem diversas características que ajudam na preservação do meio ambiente, como um telhado projetado para captar a chuva e um sistema de reutilização da água de chuveiros e pias. Além dos benefícios ambientais, a ecorresidência chega a ser até 40% mais barata que uma casa tradicional.

O semi-árido brasileiro é uma região de pouca chuva (entre 400 mm e 800 mm anuais) e solos rasos (que dificultam a retenção hídrica), características que tornam a água um recurso valioso para as pessoas que ali vivem. No entanto, a falta de estrutura, como tratamento de esgoto, faz com que as poucas bacias da região sejam facilmente contaminadas por resíduos domésticos. Na época da seca, o problema se agrava, pois a estiagem favorece o acúmulo desses resíduos nos corpos d’água. E as comunidades, com poucas opções, vêem-se obrigadas a usar a água que conseguem coletar nesses locais ou a recorrer aos caros carros-pipas.

Diante dessa realidade, pesquisadores da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), na Paraíba, uniram-se em um projeto para minimizar o problema. O resultado foi a criação da residência rural com gestão hídrica ou ecorresidência. “Buscamos promover o uso inteligente da água”, conta o agrônomo José Geraldo Baracuhy, coordenador do projeto.

Segundo ele, todo o ciclo da água foi considerado na elaboração da casa. Os tijolos usados na construção, por exemplo, são feitos com uma técnica que elimina a necessidade de queima. Ao olhar desavisado, pode parecer que o fato em nada se relaciona com a conservação da água, mas é um engano. “Os tijolos tradicionais são aquecidos em olarias, que usam madeira para gerar calor. Essa madeira é retirada de florestas que, se estivessem em pé, ajudariam a evitar a erosão das bacias hidrográficas diminuindo o impacto das gotas de chuva no solo exposto, e consequentemente, permitindo um aumento da infiltração da água no mesmo”, esclarece o pesquisador.

A arquitetura também foi pensada para facilitar o uso consciente da água, evitando o desperdício. A casa tem pé-direito alto e janelas que favorecem a circulação de ar, garantindo o conforto térmico da habitação e diminuindo a necessidade de banhos longos. Por sua vez, a água usada nos banhos e nas pias do banheiro e da cozinha passa por um processo simples de purificação e é reutilizada na irrigação de frutíferas. Além disso, a água utilizada na descarga do banheiro é, na verdade, a água da lavanderia reaproveitada. Até os resíduos do banheiro acabam gerando água aproveitável: depois de acondicionados em uma fossa séptica, passam pelo processo natural de degradação microbiana, liberando um líquido mais limpo que também pode ser usado na irrigação de fruteiras sem comprometer a qualidade do alimento. “Essa água é liberada numa vala ao longo de um tubo perfurado e com profundidade abaixo do solo de 40 cm”, explica o pesquisador.

A arquitetura ‘ecológica’ se reflete ainda no telhado da casa, que tem uma inclinação específica para facilitar a coleta da chuva. A água coletada é direcionada para uma cisterna (do lado de fora da casa) com capacidade de armazenamento de 21 m 3 . E a cisterna é construída de maneira tal que conduz a água para a casa sem necessidade de bombeamento (até metade do volume total). “Todas essas medidas barateiam o custo de construção da casa”, ressalta Baracuhy, lembrando que esse é um aspecto importante para que a tecnologia chegue à população mais pobre da região.

Como parte desse esforço para que a ecorresidência se popularize, a equipe – formada por 20 integrantes de diversas áreas do conhecimento da UFCG – irá, em breve, disponibilizar uma cartilha ensinando, passo a passo, como construir a casa.

O projeto da ecorresidência despertou o interesse do Ministério da Integração, que pretende usar o modelo em casas que serão construídas ao longo do rio São Francisco após sua revitalização.


Mariana Ferraz
Ciência Hoje/RJ

Como usar o lixo orgânico em casa? É possível fazer compostagem?


REVISTA CH 249 :: JUNHO DE 2008 :: O LEITOR PERGUNTA

Pergunta de Ludy, por correio eletrônico


O lixo orgânico de casa – constituído de restos de verduras, frutas, legumes, cascas de ovo, aparas de grama e podas de arbustos, entre outros – pode e deve ser reciclado. Sua reciclagem gera um excelente adubo orgânico a ser usado no cultivo de hortaliças, frutíferas e plantas ornamentais.

A produção do adubo ou composto orgânico, como também é conhecido, se dá por meio da compostagem. Esse processo requer alguns cuidados importantes para evitar a presença de animais e odores indesejáveis.

A primeira providência é dispor de recipientes, preferencialmente fechados, para a coleta diária do lixo na cozinha. Para acondicionamento de resíduos orgânicos domésticos acumulados durante um mês por uma família com três pessoas, por exemplo, um recipiente de 80 cm de altura e 70 cm de diâmetro é suficiente.

O material acumulado deve ser revirado com auxílio de ferramentas adequadas, se possível, semanalmente, de forma a homogeneizá-lo. É preciso também umedecê-lo periodicamente.

A utilização de restos de capina, quando disponíveis, é muito útil nesse processo. O material pode ser intercalado entre uma camada e outra do lixo da cozinha. Por meio desse método, o adubo orgânico deverá estar pronto em cerca de dois a três meses.


Adriana Aquino
Centro Nacional de Pesquisa de Agrobiologia
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (RJ)

Caatinga, muito prazer

REVISTA CH 251 :: AGOSTO DE 2008 :: EM DIA



Estudo mostra que esse bioma pouco conhecido e desvalorizado sofre com a degradação

A caatinga está em risco: estudo revela que 59% da vegetação original desse bioma já sofreu algum tipo de modificação por atividades humanas. Imagens de satélite e visitas de campo serviram de base para os autores de uma pesquisa que mapeou a degradação dessa vegetação em áreas com mais de 40 hectares em todos os estados nos quais o bioma está presente. Para os cientistas, a constatação da grande depredação evidencia a necessidade de medidas urgentes para a preservação da caatinga, que hoje só tem 1% de sua área inclusa em unidades de conservação.

“A Amazônia tem que lidar com a pressão internacional; a mata atlântica e o cerrado são defendidos por organizações não-governamentais por serem centros de grande diversidade. Mas, e a caatinga? Ela foi esquecida. É preciso apresentá-la às pessoas. É preciso mostrar o seu verdadeiro potencial”, diz o geocientista Washington Rocha, do Departamento de Ciências Exatas da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na Bahia, e um dos integrantes da equipe que realizou o trabalho.

A vegetação da caatinga não é uniforme e não se limita às imagens freqüentemente associadas a esse bioma no imaginário popular (foto: Allan Patrick).

Rocha afirma que pesquisas recentes confirmam esse potencial ao apontar a diversidade e o alto grau de endemismo da caatinga e a possibilidade de exploração econômica de seus recursos. Além disso, ele lembra que conhecer e usar racionalmente esse potencial são maneiras de frear os motores da degradação ambiental – no caso, a extração de madeira para uso industrial, principalmente nas fábricas de gesso, e a expansão de cultivos como o da cana-de-açúcar.

Um dos pontos polêmicos do estudo foi a metodologia usada. Rocha conta que muitos pesquisadores defendem que a caatinga não pode ser considerada uniforme e alegam que, na verdade, existem várias caatingas. A metodologia do trabalho, no entanto, não considera esse fato e distingue a vegetação por sua densidade, e não pela sua composição.

O método é o mesmo empregado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em trabalhos anteriores e em pesquisas simultâneas em outros biomas. “A idéia foi possibilitar a comparação entre os dados. Mas é claro que para realizar um monitoramento mais qualitativo será preciso usar uma abordagem que diferencie os vários tipos de caatinga”, diz Rocha.

Alteração pela ação humana
Para considerar uma área como remanescente da caatinga original, os cientistas verificaram a ocorrência, ou ausência, de interferência humana sob várias formas. Se houvesse, por exemplo, evidências de pastoreio ou a presença de trilhas muito demarcadas, o local era considerado alterado pela ação humana.

“Isso significa dizer que nem todo local que identificamos como submetido a essa atividade estava totalmente ausente de vegetação. Ao contrário, há locais em que o ser humano e caatinga convivem, mas são áreas que não consideramos como representantes da vegetação original.”

Os resultados do trabalho auxiliaram o Ministério do Meio Ambiente (MMA) na revisão das áreas prioritárias para conservação da caatinga. Segundo Rocha, esse é o primeiro passo para o estabelecimento de novas áreas protegidas. O pesquisador lembra, no entanto, que entre a identificação dos locais e a efetivação de novas unidades de conservação há um longo caminho a trilhar.

“De qualquer modo, é importante mostrarmos quais as áreas mais relevantes para a conservação e quais ainda têm extensão considerável, porque a existência apenas de pequenos núcleos isolados empobrece a vegetação, diminui a diversidade genética”, conclui.


Mariana Ferraz
Ciência Hoje / RJ

A democracia e suas idades


REVISTA CH 252 :: SETEMBRO DE 2008 :: SOBRE HUMANOS


Entender a evolução histórica desse conceito ajuda a trazer respostas aos desafios da sociedade


A antiguidade da palavra ‘democracia’ é em muitos sentidos enganosa. Sua longa existência pode induzir-nos a supor que os valores e as instituições hoje associadas a esse conceito estão presentes na história desde a Antiguidade clássica. Com freqüência, adotamos termos sem perceber que sua carga semântica sofre, com o tempo, mudanças significativas. A palavra democracia não ficou imune a tal processo.

A democracia, como é conhecida hoje, é um fenômeno que se generalizou após a Segunda Guerra Mundial. Tem, portanto, apenas 50 anos, ainda que em alguns países sua construção tenha começado antes desse prazo. Essa novidade, típica do século 20, pode ser compreendida como uma convergência de três tradições distintas: a democrática clássica, a liberal e a socialista. Tais modelos foram formulados, em contextos históricos particulares, como respostas a desafios diferenciados, e estão combinados na forma construída no século 20. A novidade consiste nessa combinação, por vezes um tanto confusa.


Situada a 1 km da Acrópole, a colina de Pnyx era o local em que os cidadãos se reuniam na antiga Atenas para o exercício da democracia. Discursos eram feitos na plataforma que se vê em primeiro plano na imagem (foto: Adam Carr).


O primeiro componente é representado pelo velho modelo da democracia clássica praticada na Atenas do século 5 a.C., fundada na idéia de que o governo é o próprio povo (demos), sem qualquer intermediação. Esse modelo tinha como premissa o princípio da ‘isonomia’, segundo o qual os cidadãos tinham peso político idêntico, independentemente de suas posições sociais.

Ainda que o modelo ateniense contivesse um critério de exclusão – mulheres, estrangeiros e escravos não podiam participar –, o princípio da isonomia tem aspectos revolucionários, já que distingue a dimensão da política dos outros aspectos da vida social e confere a ela primazia.

O segundo componente é a tradição liberal, ou seja, aquela inaugurada com a modernidade, a partir do século 16, que teve nos filósofos políticos John Locke (inglês, 1632-1704) e Charles-Louis de Secondat, o barão de Montesquieu (francês, 1689-1755), seus principais formuladores. A preocupação básica do liberalismo, desde seu nascimento, foi a de estabelecer limites legais ao exercício do poder político. Daí sua preocupação com a proteção de direitos individuais diante da ameaça de exercício tirânico dos governos.

O processo de democratização política, iniciado no século 19 por meio da extensão progressiva do direito de voto, marcou-se por uma combinação entre as linguagens da democracia clássica e do liberalismo moderno. Democracia, nesse quadro, significa não mais autogoverno do demos, mas extensão do direito individual de escolha de representantes. Em diversos países europeus, tal extensão viria a incluir, no início do século seguinte, o operariado.

Socialismo e ampliação de direitos individuais
O terceiro componente do experimento democrático do século 20, o socialismo, está diretamente associado à ampliação desse direito. Tal extensão inclui a ação de inúmeros movimentos sociais de cunho igualitário e a presença eleitoral – legislativa e governativa – dos partidos de esquerda, com papel relevante na maioria dos países democráticos. O conjunto foi decisivo para, por meio de pressão por legislação e reforma social, estabelecer restrições ao mercado e definir critérios de justiça social. A pressão igualitária inscreveu na experiência democrática uma pauta de direitos sociais, que excede e complementa as liberdades individuais instituídas pela tradição liberal.

A descrição da democracia como uma decantação dessas três vertentes tem, ao menos, duas utilidades. A primeira consiste em pensar o fenômeno democrático como processo, e não como algo estático, já que sempre se pode imaginar o aperfeiçoamento de seus três componentes: a participação e soberania populares, os direitos civis e os mecanismos de proteção e inclusão sociais.

A segunda é a fixação de algo como um ‘piso’, um limite mínimo. Assim como disse Hémon de Tebas, na peça teatral Antígona, diante das pretensões despóticas de seu pai, Creonte – “Não há polis onde um só manda.” –, pode-se dizer que será menos-que-democrática a sociedade que fizer regredir os três aspectos mencionados.

revsta ciencia hoje
Renato Lessa
Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro,
da Universidade Candido Mendes,
e Universidade Federal Fluminense
rlessa@iuperj.br

Geografia e a Arte

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