segunda-feira, 18 de maio de 2020

Como as emissões de CO2 estão causando o declínio de nossas habilidades cognitivas


Os cientistas observaram que o aumento dos níveis de dióxido de carbono pode afetar negativamente a aprendizagem humana.
Alejandra Suarez



As habilidades cognitivas humanas podem ser afetadas pelos altos níveis de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Esta conclusão foi alcançada por um grupo de cientistas da Universidade do Colorado em Boulder, da Escola de Saúde Pública do Colorado e da Universidade da Pensilvânia, de acordo com um relatório no Phys.org .

A humanidade já está enfrentando o fenômeno do aquecimento global gerado pelo aumento das emissões de gás CO2 concentradas na atmosfera. Mas isso não é tudo. A nova pesquisa, publicada por cientistas do EarthArXiv , mostra que, à medida que os níveis de CO2 continuam a subir, outro efeito negativo preocupante surge: pensamento confuso.
Respirar ar com altos níveis de CO2

Especificamente, os especialistas analisaram o problema do aumento dos níveis de CO2 na atmosfera e seu impacto nas crianças que aprendem na sala de aula. Pesquisas anteriores mostraram que níveis de CO2 acima do normal podem levar a problemas cognitivos. No entanto, eles também demonstraram que o problema geralmente pode ser resolvido simplesmente abrindo as janelas para permitir a entrada de ar fresco.


Mas os cientistas se perguntavam: o que acontece quando esse "ar fresco" tem altos níveis de CO2? Para descobrir, eles criaram um modelo com dois resultados. No primeiro, os seres humanos reduzirão as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera. E no segundo, não vamos.

Segundo o estudo, o resultado mais positivo indica que as habilidades cognitivas dos alunos diminuirão 25% até o ano 2100. E o mais negativo indica que eles diminuirão 50%.

É a primeira vez que o impacto nas pessoas que respiram níveis mais altos do que o normal de dióxido de carbono regularmente é analisado .

Os autores do trabalho alertam que esse problema só pode ser evitado com o fim das emissões de CO2.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Do nipah ao coronavírus: destruição da natureza expõe ser humano a doenças do mundo animal


Juliana Gragnani - @julianagragnani
BBC News Brasil em Londres

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Alta densidade de humanos em cidades e degradação de habitat de animais provocam a emergência de mais epidemias

Em 1998, morcegos na Malásia começaram a migrar em busca de alimento. Desmatamento na região para abrir espaço para agricultura e pecuária havia eliminado suas fontes de comida.

Estabeleceram-se em uma nova região onde havia produção de mangas ao lado de criações de porcos e passaram a se alimentar das frutas. Parcialmente comidas, elas caíam em cima dos porcos, que as comiam também.

Vírus carregados por morcegos muitas vezes não causam doenças neles. Em outros animais, contudo, esses vírus podem causar patologias graves.


E foi assim que um vírus saiu do morcego, pulou para porcos, onde passou por uma mutação que o deixou mais perigoso para seres humanos. Depois, espalhou entre os porcos, vendidos entre fazendeiros, e finalmente pulou para pessoas.

Chamado de "vírus Nipah", por causa de um vilarejo na Malásia, desde 1998 este vírus já infectou centenas de pessoas na Malásia, Cingapura, Bangladesh e Índia, com alta taxa de letalidade.

É um exemplo de como a interferência do ser humano no meio-ambiente dá meia-volta e nos devolve doenças infecciosas, algo que cientistas apontam ser um problema recorrente e cada vez maior.


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O morcego-de-ferradura-grande chinês (Rhinolophus ferrumequinum) é considerado o principal suspeito de ser a origem do surto de coronavírus
Coronavírus

Ainda não há conclusões sobre como o novo coronavírus pulou de animais para seres humanos. Uma das hipóteses é que tenha sido em um mercado de alimentos em Wuhan, na China, o que fez com que muitos defendessem o fechamento de mercados do tipo, com venda de animais vivos e silvestres. Há outras hipóteses correntes.

"Nós estamos negligenciando o cenário maior", diz à BBC News Brasil o ecologista especializado em doenças Richard Ostfeld, do Cary Institute of Ecosystem Studies, nos Estados Unidos.

"Tivemos alguns exemplos de surgimento de doenças nesses mercados com animais selvagens, como a Sars. E é importante entender que essas atividades humanas de agrupamentos estranhos de espécies que nunca ocorrem juntas na natureza influenciam esses eventos. Mas há outras maneiras pelas quais nossas atividades humanas podem facilitar o surgimento ou transmissão de doenças, como o desmatamento, a abertura de terra para agricultura, entre outros. Isso não pode ser esquecido."

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Essa é a aparência do coronavírus, de acordo com esta ilustração criada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos
Como isso acontece?

Bom, vamos voltar ao começo de tudo. Esta doença com que estamos lidando agora é uma zoonose, uma doença infecciosa transmitida de animais para seres humanos.

Isso pode acontecer diretamente, quando um vírus "pula" de uma espécie para outra - no chamado efeito "spillover" (transbordamento) -, ou então por meio de um animal intermediário.

É bastante provável que os animais hospedeiros, que originalmente carregavam este novo coronavírus, tenham sido os morcegos. Não sabemos se houve animal intermediário ou não.

Os morcegos também foram os hospedeiros originais de outros vírus que causaram doenças em seres humanos nos últimos anos, como a Sars, o Ebola, a Mers e o vírus Nipah.

"O efeito 'spillover' [de transbordamento] requer duas coisas: primeiro, exposição. O morcego, por exemplo, solta um pedaço de fruta que já mordeu. Deixa ali sua saliva com o vírus, e outro animal come essa fruta. A segunda coisa é a capacidade do patógeno (organismo capaz de produzir doenças infecciosas a seus hospedeiros) de persistir no sistema da nova espécie. É preciso haver exposição e compatibilidade", explica à BBC News Brasil o ecologista especializado em doenças Thomas Gillespie, da Emory University, dos EUA.

Quando estávamos no processo de domesticar animais, há milhares de anos, também nos expusemos a novos patógenos, explica ele. O sarampo, por exemplo, veio da interação dos humanos com rebanhos de gado. A tuberculose, por sua vez, já foi transmitida por meio do leite não pasteurizado de vacas.

Agora, estamos entrando mais em contato com patógenos de animais silvestres quando alteramos seu habitat, e em um contexto pior para nós: a densidade populacional dos seres humanos é muito mais alta, e estamos muito mais conectados, o que favorece o espalhamento da doença.

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Os morcegos são a origem de muitos vírus
Nosso papel

Quando destruímos uma floresta para abrir terras para agricultura ou pasto para pecuária, quando fazemos mineração, construímos barragens ou derrubamos árvores, eliminamos a biodiversidade ao tirar o espaço de alguns animais e criar condições para a proliferação de outros, segundo Ostfeld, do Cary Institute of Ecosystem Studies.

Acontece o seguinte: espécies maiores e mais carnívoras e predatórias que normalmente estão na região em menor densidade, precisam de mais espaço e são sensíveis a terem seus habitats diminuídos e removidos, deixam uma região quando os seres humanos interferem com suas construções, quaisquer que sejam.

Então, populações de animais menores, pragas que prosperam quando o habitat é degradado e quando animais maiores e predatórios vão embora, proliferam na região, atingindo altas densidades. São espécies como alguns tipos de morcegos, ratos e ratazanas, por exemplo, alguns dos mais relevantes para o pulo de doenças entre espécies.

"São os roedores e morcegos que ocupam nossas casas, moradias, fazendas. Eles tendem a hospedar mais patógenos danosos e a tirar vantagem dos habitats que destruímos e os que artificialmente criamos", diz Ostfeld.

Além disso, observa a ecologista Felicia Keesing, do Bard College, no Estado de Nova York, não só convertemos habitats selvagens em áreas para agricultura para criar animais domesticados, erodindo a biodiversidade, como também criamos uma situação de alta densidade populacional de um animal domesticado e o colocamos ao lado das espécies com maior número de patógenos. Como aconteceu com os morcegos e os porcos na Malásia, por exemplo.

Aaron Bernstein, do Centro para Clima, Saúde e Meio-Ambiente da Universidade de Harvard, propõe o seguinte cenário: "Imagine que alguém chega do exterior para o Brasil e essa pessoa está com uma tosse, febre, um ferimento esquisito. Você isola essa pessoa e lhe dá o melhor tratamento médico, certo?"

"Pois bem, veja o que estamos fazendo na Terra: estamos drasticamente reduzindo o habitat para as espécies, fazendo com que seja fácil que elas se espalhem. Estamos fazendo o contrário que faríamos com uma pessoa doente: um animal que pode estar carregando um patógeno está sendo forçado a conviver com outros, aumentando a presença de patógenos em populações selvagens e aproximando essas populações aos humanos", diz ele à BBC News Brasil.

Keesing aponta outra maneira pela qual a ação humana contribui para o surgimento de doenças. "Alguns fazendeiros dão antibióticos para os animais que criam, uma medida para eliminar bactérias que possam afetá-los. Ao fazer isso, estamos criando uma seleção natural, selecionando as bactérias mais fortes que vão prosperar no animal e ter muitos outros animais para onde se espalhar, por causa da alta densidade", explica ela. "E, assim, essas bactérias bastante fortes podem pular para nós."

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Animais de criação podem ser fontes de superbactérias quando são tratados com antibióticos, defendem alguns especialistas

Questionado sobre o papel da agropecuária na emergência de doenças, o especialista em comércio internacional e coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank, diz que é "exatamente o contrário".

"É a agricultura mais moderna, com controle sanitário, alimentação controlada e uso de medicamentos que evitou que a gente tivesse mais pandemias."

O processo de mecanização e modernização fez aumentar a produtividade, diz ele, além de melhorar a sanidade e nutrição dos rebanhos. "A modernização agrícola foi justamente para evitar contaminações e melhorar a genética dos animais", afirma.

Sobre o desmatamento para abrir espaço para pecuária e agricultura, Jank e Janice Zanella, veterinária e chefe-geral da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Suínos e Aves, dizem concordar que a modernização do setor deixou as terras mais produtivas, o que faz com que menos terras sejam desmatadas para abrir pasto.

Em cinco décadas, diz Zanella, o Brasil, por exemplo, teve incremento de cinco vezes na produção de grãos, com aumento de só duas vezes na área plantada. Assim, "isso diminui a pressão de desmatamento", diz Jank. "O que não quer dizer que não aconteça."

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Coronavírus visto em microscópio; ainda não se sabe qual é a origem do vírus
Mudanças climáticas

As mudanças climáticas, causada pelos humanos, também exercem seu papel no surgimento de novas doenças, segundo cientistas.

Gillespie exemplifica: por causa delas, muitas árvores mudaram os padrões de quando dão frutas. Isso fez com que alguns animais buscassem as mesmas árvores para se alimentar, já que não podiam contar com as árvores de antigamente.

"Imagine que morcegos, chimpanzés e gorilas procurem a mesma árvore para se alimentar, quando isso não era o normal, ou não deveria acontecer", diz ele. Podem comer da mesma fruta, trocando fluidos. "E depois, as pessoas caçam chimpanzés", diz ele - o processo é um caminho para o "pulo" de um vírus entre espécies.

"Sabemos muito pouco sobre o papel das mudanças climáticas e da redução da biodiversidade na emergência de doenças. Mas o pouco que sabemos é bastante significativo, e seria inteligente se fizéssemos todo o possível para barrar e destruição da vida na Terra e estabilizar o clima", diz Bernstein, de Harvard.

"Se mais doenças estão surgindo por causa desses fatores, não queremos esperar para ver. Já estamos atrasados."

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Autoridades governamentais apreendem animais em mercado em Xinyuan para prevenir a dispersão do Sars em 2004
Soluções

Se sabemos, então, que nosso comportamento pode provocar a emergência de mais doenças e, possivelmente, mais pandemias, o que devemos fazer?

"Podemos nos preparar melhor nas respostas para epidemias, comprando mais respiradores, preparando nosso sistema de saúde. Mas não estaremos solucionando a causa disso tudo", afirma Keesing. Primeiro, diz ela, é preciso regular mercados com vendas de animais selvagens e a produção de carne com alta densidade de animais.

Já que banir mercados pode levar a mercados ilegais, ela sugere criar incentivos para as pessoas fazerem as coisas de forma diferente, dentro das normas e com higiene.

O antropólogo Lyle Fearnley, da Universidade de Cingapura, passou dois anos em uma região rural da China investigando a criação de animais selvagens.

Ele diz que a melhor forma é tentar reinventar a forma como esses mercados funcionam. "Fechar o mercado uma vez por semana para limpeza e exigir que espécies diferentes fiquem separadas e em locais diferentes pode diminuir as possibilidades de circulação de vírus", sugere.

Ele também aponta que há muito preconceito em relação aos mercados, chamados de "wet market" (mercado molhado), em inglês. "Não existe esse termo em mandarim. Há uma série de mercados diferentes com uma grande variedade do que é vendido. A grande maioria desses mercados não vende animais selvagens vivos ou apresenta riscos", diz.

"As pessoas têm medo e preconceito porque não conhecem essas feiras. Além disso, elas são minoritárias, então não podemos generalizar."

Keesing destaca que também "precisamos levar a conservação da biodiversidade muito mais a sério". "Muitos países preservam 11%, 12% de seus territórios. Isso não é nem perto do que precisamos de diversidade."

Gillespie, da Emory University, diz que precisamos incluir a avaliação do risco de "spillover events", os eventos que promovem o "pulo" do vírus de uma espécie para a outra, no momento de decidir sobre o uso de terra em larga escala.

"Nós não deveríamos subsidiar indústrias que provocarão resultados como esses, especialmente em áreas selvagens na região dos trópicos, onde o risco é mais elevado", afirma.

"A ciência está nos dizendo que devemos reavaliar nosso relacionamento com a natureza."

A misteriosa composição do primeiro cometa 'alienígena' detectado em nosso sistema solar


Paul Rincon
BBC News

Direito de imagemNRAO/AUI/NSF, S. DAGNELLOImage caption
O cometa interestelar 21/Borisov foi detectado em nosso sistema solar no ano passado

O primeiro cometa identificado como visitante de outro sistema estelar tem uma composição incomum, de acordo com pesquisas recentes.

O cometa interestelar 21/Borisov foi detectado em nosso Sistema Solar no ano passado. O visitante misterioso das profundezas do espaço deu aos cientistas uma oportunidade sem precedentes de compará-lo com outros cometas que se formaram ao redor do Sol.

Os novos dados sugerem que ele contém grandes quantidades de monóxido de carbono, uma possível pista de onde ele "nasceu".

As descobertas aparecem em dois estudos científicos independentes publicados pelo site especializado Nature Astronomy.

Em um dos estudos, uma equipe internacional, liderada por Martin Cordiner e Stefanie Milam, do Goddard Space Flight Center, da Nasa, apontou o radiotelescópio Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (Alma) em direção ao cometa nos dias 15 e 16 de dezembro de 2019.


O Alma é composto por 66 antenas posicionadas no topo de uma montanha no deserto do Atacama, no Chile, que permitem observar o espaço por meio de comprimentos de onda submilimétricos.

Direito de imagemESO / C MALINImage caption
Algumas das observações foram feitas usando o Alma, um radiotelescópio que fica no deserto do Atacama, no Chile

No outro estudo, Dennis Bodewits, da Universidade de Auburn, nos Estados Unidos, e seus colegas coletaram observações ultravioletas de 21/Borisov usando o Telescópio Espacial Hubble e o Observatório Neil Gehrels Swift.

'Radicalmente diferente'

Os cometas são feitos de gás, gelo e poeira e se formam no disco rotativo de matéria (disco protoplanetário) que orbita em torno de uma estrela, e onde costuma surgir planetas, asteroides e outros corpos celestes.

Eles podem semear novos mundos com os elementos químicos essenciais à vida e podem ter trazido água para a Terra quando ela ainda era muito jovem.

As equipes científicas identificaram duas moléculas no gás liberado pelo 21/Borisov: cianeto de hidrogênio (HCN) e monóxido de carbono (CO).

O HCN está presente em quantidades semelhantes em outros cometas encontrados no Sistema Solar.

No entanto, os cientistas ficaram surpresos ao ver grandes quantidades de CO. Os pesquisadores que usaram o Alma para suas observações estimam que a concentração de CO no 21/Borisov é de 9 a 26 vezes maior que a de um cometa comum em nosso sistema solar.

Direito de imagemALMA / NRAO / AUI / NSF /Image caption
Os cientistas encontraram uma concentração de monóxido de carbono incomum no 21/Borisov

"É a primeira vez que observamos o interior de um cometa vindo de fora do nosso Sistema Solar", disse Cordiner, "e é radicalmente diferente da maioria dos cometas que vimos anteriormente".

Ye Quanzhi, astrônomo da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, disse que esses achados são "importantes e surpreendentes".

"Aprendemos nos últimos dois meses que Borisov é semelhante aos cometas 'dinamicamente novos' em nosso Sistema Solar (ou seja, os cometas que se formaram nas extremidades do Sistema Solar e tendem a ter uma maior concentração de CO), portanto, espera-se uma certa abundância de CO, mas níveis tão altos de CO (pelo menos o dobro da quantidade de um cometa típico no Sistema Solar) são muito surpreendentes - pelo menos para mim", disse à BBC o pesquisador, que não participou dos estudos.

"É bom ver que diferentes equipes de astrônomos que trabalham com diferentes comprimentos de onda podem confirmar mutuamente os resultados uns dos outros", acrescentou.
Origem distante

O monóxido de carbono é comum no espaço e é encontrado na maioria dos cometas. Mas, por razões que não são claras, há uma imensa variação na concentração de CO nesses corpos congelados.

Isso pode estar em parte relacionado com onde o cometa se formou dentro de um sistema estelar. Também poderia estar ligado à frequência com que a órbita do cometa o aproxima de sua estrela e o leva a emitir gases que evaporam mais facilmente do gelo.

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Oumuamua, detectado em 2017, foi o primeiro visitante de fora do nosso Sistema Solar identificado por nós

No entanto, Cordiner afirmou que "se os gases que observamos refletem a composição do local de nascimento de 21/Borisov, isso indica que ele poderia ter se formado, diferentemente dos cometas em nosso próprio Sistema Solar, em uma região extremamente fria e periférica de um sistema planetário distante".

Milam acrescentou que "o cometa deve ter se formado a partir de material muito rico em CO congelado, que está presente apenas nas temperaturas mais baixas encontradas no espaço, abaixo de -250 °C".

Cordiner destacou que o Alma já havia observado discos de poeira e gás - do que os planetas são feitos - ao redor de jovens estrelas de baixa massa semelhantes ao Sol.

"Muitos desses discos se estendem para além da região onde se acredita que nossos cometas se formam e contêm grandes quantidades de gás e poeira extremamente frios. É possível que 21/Borisov tenha vindo de um desses grandes discos."
Outra teoria

Mas Bodewits ofereceu uma interpretação diferente, ao argumentar que o cometa pode ter se originado em torno de uma estrela anã vermelha, o tipo mais comum na galáxia da Via Láctea.

"Essas estrelas têm exatamente as baixas temperaturas e luminosidades em que um cometa pode se formar com a composição encontrada no cometa 21/Borisov", explicou.

Com base em sua alta velocidade (33 km/s), os astrônomos suspeitam que o 21/Borisov foi lançado para fora de seu sistema-natal após um encontro próximo com um planeta gigante ou uma estrela.

Depois, passou milhões ou bilhões de anos em uma viagem solitária pelo espaço interestelar até que foi descoberto, em 30 de agosto de 2019, pelo astrônomo amador Gennady Borisov.

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A outra equipe de cientistas estudou as ondas ultravioletas do cometa com o telescópio espacial Hubble

Os astrônomos continuam estudando o visitante, e observações recentes do comportamento do cometa indicaram que ele estava se fragmentando.

"Acho que Borisov se dividiu em duas partes, o Hubble observou o cometa em duas ocasiões diferentes e, em ambas, foi detectada a separação", disse Ye Quanzhi.

"Nossa observação foi feita alguns dias após a descoberta inicial e parecia mostrar uma evolução deste evento, e um dos fragmentos parece ter sido reduzido a uma massa amorfa de poeira."

O 21/Borisov é apenas o segundo corpo interestelar já detectado em nosso Sistema Solar.

O primeiro, conhecido como Oumuamua, foi descoberto em outubro de 2017, quando já estava saindo rapidamente de nossa região cósmica.

Embora tenha sido inicialmente chamado de cometa, não deu sinais das emissões de gás e poeira característicos desses objetos (que foram observados no 21/Borisov).

Um estudo publicado no início deste mês na Nature Astronomy sugeriu que Oumuamua, que tem a forma de um charuto, poderia ser a lasca arrancada de um planeta pela gravidade de sua estrela-mãe.

Coronavírus: o que é o ‘distanciamento social intermitente’, que pode durar até 2022


Margarita Rodríguez
BBC News Mundo

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Qual é a melhor estratégia para lidar com a pandemia a curto, médio e longo prazo?

Saia de casa, se isole, volte a sair de casa e depois retorne ao confinamento.

Esse é apenas um cenário hipotético do que pode acontecer nos próximos anos.

Diante dos grandes desafios que surgiram com a pandemia de coronavírus, especialistas de diversos campos passaram a analisar diferentes estratégias de curto, médio e longo prazo.

Uma das principais incógnitas é se o vírus vai praticamente desaparecer, como aconteceu com outros coronavírus que causaram epidemias recentemente (os de Sars e Mers), ou se tornará mais um com o qual a população vai ter de lidar em sua rotina.

Há duas frentes de batalha contra o coronavírus Sars-Cov-2 em curso sem prazo definido para terminar: identificar quais remédios de fato funcionam contra a doença causada por ele, a covid-19, e a criação de uma vacina eficiente e segura.

Enquanto isso, o principal debate é: até quando (e em que medida) os países adotarão o distanciamento social voltado para reduzir o número de infecções e a sobrecarga do sistema de saúde.

Um grupo de pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, fez uma análise do problema a partir de diversos cenários a serem adotados, entre eles a adoção de períodos intermitentes de distanciamento social até 2022.

Mas como assim?
Vigilância permanente

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É importante desenvolver tratamentos eficazes contra o vírus, diz estudo publicado na Science

Stephen M. Kissler, Christine Tedijanto, Edward Goldstein, Yonatan H. Grad e Marc Lipsitch são os autores do estudo publicado na revista especializada Science sobre o futuro da pandemia.

Levando em conta fatores como estações do ano, a quantidade de pessoas que podem estar imunes ao vírus e os dados estatísticos dos EUA, os cientistas preveem que o novo coronavírus pode voltar durante os invernos dos próximos anos.

Para evitar que novas ondas de infecções voltem a matar pessoas e sobrecarregar hospitais, eles afirmam que o distanciamento social prolongado ou intermitente pode ser necessário até 2022, pelo menos.

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Medidas de confinamento podem durar até 2024

Eles analisam esses cenários porque é questão de tempo até que as medidas como os confinamentos em massa sejam flexibilizadas ou mesmo suspensas.

"Quando o distanciamento social é flexibilizado e à medida que a transmissibilidade do vírus aumenta no outono, um intenso surto (de coronavírus) pode ocorrer no inverno, sobrepondo-se à época da gripe e excedendo a capacidade de atendimento dos hospitais", explicam os pesquisadores.

Para Fernando Rodríguez, professor de medicina preventiva e saúde pública da Universidade Autônoma de Madri (UAM), é importante saber que o estudo de Harvard é um exercício teórico.

Ou seja, é uma análise a partir de dados e hipóteses, não uma proposta concreta de política pública, algo que os próprios pesquisadores de Harvard ressaltam.

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O que acontecerá quando as medidas de distanciamento social forem suspensas?

"(O que eles abordam) é que a maneira prática e rápida de controlar a epidemia, com os custos mais baixos para a sociedade e, acima de tudo, protegendo os sistemas de saúde, é nos isolarmos por um tempo, depois liberar para que infecções aumentem e as pessoas desenvolvam gradualmente a imunidade do rebanho, mas quando as infecções forem muito elevadas, nos isolamos de novo e assim sucessivamente", explica Rodríguez em entrevista à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Segundo ele, isso permitiria que a sociedade levasse uma vida relativamente normal enquanto se recupera a atividade econômica e se amplia a chamada imunidade de grupo ou de rebanho.
O que é a imunidade de rebanho?

Esse conceito está ligado a um número específico de indivíduos de uma população que adquire imunidade contra uma infecção e, por extensão, ajuda a deter sua propagação.

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Hipótese leva em conta que um número elevado de pessoas se infectem e desenvolvam imunidade

A partir dessa lógica, a imunidade coletiva não se daria por meio de uma vacina, como geralmente ocorre, mas por meio da infecção: quanto mais gente contrai o vírus, mais gente se recupera e desenvolve imunidade.

Segundo especialistas, o patamar de 60% a 70% da população imune sufocaria a circulação do vírus na sociedade. Mas esse conceito gera controvérsia na pandemia atual.

Uma pequena parcela de autoridades e especialistas defende que essa imunidade de rebanho deve ser buscada de forma ativa. Ou seja, não se adota nenhuma medida de isolamento social até que se atinja esse patamar.

Para eles, do jeito que está, o vírus pode ser contido, mas o impacto econômico é gigantesco e a população estaria vulnerável à volta do vírus, já que pouca gente teria sido exposta a ele e desenvolvido imunidade.

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A amplitude do confinamento obrigatório provocou reações em algumas regiões dos EUA

Por outro lado, os críticos, amplamente majoritários nesse debate, afirmam que esse patamar de imunidade coletiva deve ser alcançado gradual e naturalmente (ou por meio de vacinação), e de forma ativa com contágio, porque isso levaria a um número bastante elevado de mortes e uma enorme sobrecarga do sistema.

Além disso, ainda não se sabe com certeza se as pessoas que se recuperaram do vírus ficam de fato imunes a uma nova infecção.

Por isso, essa hipótese de distanciamento social intermitente poderia, em tese, ser um caminho intermediário para permitir a reabertura da economia sem sobrecarregar o sistema de saúde, recorrendo à volta do isolamento social sempre que o número de casos estiver alto demais.
'Brincar com fogo'

Mas isso é factível? Para Rodríguez, da Universidade Autônoma de Madri, há diversos riscos nessa hipótese até que ela possa funcionar na prática.

"É um pouco como brincar com fogo, porque à medida que o nível de contágios se eleva, se não atuarmos rapidamente confinando as pessoas ou se o sistema de vigilância epidemiológica não funciona bem, podemos agir tarde demais e saturar de novo o sistema de saúde."

O estudo de Harvard leva em conta essas eventuais lacunas. Para os pesquisadores, é preciso ampliar a capacidade do sistema de saúde, especialmente dos leitos de unidades de terapia intensiva, para que haja um controle mais eficaz desse fluxo de pacientes.

A ideia de um vaivém de quarentenas não é nova, mas sim a maneira como fazer isso.

"Sabemos que o confinamento é eficaz, mas nenhum país sabe quantas semanas de confinamento são necessárias para que praticamente não existam mais infecções. Vamos aprendendo aos poucos com experiências específicas", afirma Rodríguez.

Para Rebeca Cordero, professora de sociologia da Universidade Europeia, esse estudo de Harvard tenta responder a uma necessidade global de formas seguras de transição.

"Não se supõe que seja possível dar um salto definitivo do confinamento para o modo de vida que tínhamos anteriormente", diz à BBC News Mundo.

Segundo ela, muitas pessoas confinadas hoje têm expectativa voltar à normalidade que tinham antes, mas quando o confinamento for retirado, isso deve acontecer primeiro para pessoas de fora do grupo de risco em uma sociedade ainda com bastante distanciamento social.

"Na Espanha, é usado o termo 'descalcificação', de ir aos poucos. Isso está sendo feito nos países europeus e, na época, foi implementado na China."

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É possível que passemos por confinamentos intermitentes no futuro

A especialista explica que trata-se de abrir a sociedade aos poucos para um ambiente diferente daquele que tínhamos. E sempre monitorando de perto o avanço da pandemia.

Por exemplo, se houver evidências científicas de que no verão o vírus fique um pouco desativado na Espanha, talvez os integrantes dos grupos de risco possam sair do confinamento. Mas no outono, talvez eles devessem retornar.

Isso ocorreria em ciclos que continuariam a depender dos avanços em tratamentos e vacinas.

O que parece consenso entre os pesquisadores de Harvard e os dois ouvidos pela reportagem é que é altamente improvável que retornemos em breve à vida que tínhamos antes do surgimento do novo coronavírus.

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Pessoas podem vir a ser liberadas do confinamento numa estação do ano, e voltar a ele em outra

Como o maior buraco na camada de ozônio no Polo Norte finalmente se fechou



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O buraco na camada de ozônio antes de se fechar

O maior buraco na camada de ozônio já detectado sobre o Pólo Norte se fechou, quase um mês após sua descoberta.

No final de março, os cientistas do Serviço de Monitoramento de Atmosfera Copernicus (CAMS) detectaram o que chamavam de uma grande lacuna "sem precedentes" na atmosfera, pairando sobre a região do Ártico.

O buraco logo se tornou o maior que eles já haviam monitorado no hemisfério Norte.

Era do tamanho da Groenlândia, abrangendo a superfície da calota polar.

Mas, em 23 de abril, houve boas notícias: "O buraco sem precedentes na camada de ozônio do hemisfério norte em 2020 chegou ao fim", tuitou a CAMS.

Por que o ozônio é importante

A camada de ozônio fornece à Terra proteção essencial contra os raios nocivos do sol. A maior parte do ozônio da Terra é armazenada nos altos níveis da atmosfera — na estratosfera — a uma altitude entre 10 e 40 km acima da Terra.

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Buracos na camada de ozônio no Polo Norte são raros

A camada de ozônio é um dos escudos mais eficazes contra a radiação ultravioleta, que podem fazer mal à vida. Uma lacuna nesse escudo pode afetar a taxa de derretimento do gelo, pressionar mais o sistema imunológico dos organismos vivos e aumentar o risco de desenvolver câncer de pele e catarata para humanos.

Embora tenha havido pequenas lacunas na camada de ozônio sobre o Ártico antes, esta foi a "primeira vez que se viu um verdadeiro buraco na camada de ozônio no Ártico", de acordo com o CAMS.

Como o buraco apareceu e desapareceu?

A organização disse que o buraco de rápido crescimento foi resultado de condições climáticas incomuns no Ártico.

Quando ventos fortes prenderam o ar gelado sobre as calotas geladas por várias semanas seguidas, esse ar criou o que os cientistas chamaram de "vórtice polar" — uma força poderosa que gira sobre si mesma e gera impacto suficiente para abrir um buraco no ozônio da estratosfera.

Embora a lacuna esteja agora fechada, os cientistas dizem que ela poderá se abrir novamente se as condições meteorológicas permitirem.

"Esse buraco no ozônio do Ártico não tem nada a ver com bloqueios relacionados ao coronavírus, mas foi causado por um vórtice polar incomumente forte e duradouro", disse o CAMS em um tuíte.

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A camada de ozônio protege a Terra de raios nocivos do sol

"Esse buraco no ozônio foi basicamente um sintoma do maior problema de depleção do ozônio e foi fechado por causa dos ciclos anuais locais, e não pela cura a longo prazo. Mas há esperança: a camada de ozônio também está se recuperando, mas lentamente", acrescentou.
Buraco na camada de ozônio sobre a Antártica ainda está aberto

Um buraco sobre o Polo Norte é um evento raro, mas há um buraco muito maior reabrindo anualmente na Antártica pelos últimos 35 anos.

Embora seu tamanho varie de ano para ano, não há sinal de que ele vá, em um futuro próximo, se fechar de vez.

Houve uma recuperação lenta desde que o uso de CFCs - clorofluorcarbonos - foi proibido em 1996.

Estes são produtos químicos usados ​​na fabricação de aerossóis, espumas, solventes e refrigerantes e geram uma grande degradação nessa camada de proteção.

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o buraco na camada de ozônio na Antártica encolhe entre 1% e 3% por década desde 2000.

Até agora, o menor tamanho do buraco registrado na camada de ozônio da Antártica foino ano passado (2019), mas a OMM prevê que ele não "se cure" completamente até pelo menos 2050.

BBC Brasil

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Deserto do Atacama


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Paisagens do espaço, secura e poucos sinais de vida

Difícil ver sinal de vida ao redor da paisagem de pedras e areia. O único barulho, além dos próprios passos, é o do vento, que chega frio e com leve gosto de sal. O imenso céu azul está tão próximo que parece ao alcance das mãos. No desolado centro do deserto do Atacama, a sensação é a de que estamos em outro planeta, muito distante do nosso. O solo extremamente ressecado, até mesmo, é o mais parecido com o de Marte. A umidade do ar é tão baixa que, aliada à limpeza da atmosfera e à altitude elevada em relação ao nível do mar, tornou o lugar um dos mais propícios do planeta para observações espaciais, tamanha é a nitidez com que se pode observar o céu. Astrônomos do mundo inteiro deslocam-se para lá e montam seus observatórios. É um dos principais campos de observação para o desenvolvimento de pesquisas da Nasa. Mesmo sem luneta alguma, porém, as noites do Atacama tiram o fôlego de quem gosta de uma imensidão pipocada de infinitas estrelas.

Ao todo, essa região árida estende-se por mil quilômetros do norte do Chile até a fronteira com o Peru e cobre uma superfície de 106 513 quilômetros quadrados – grande parte dos quais formados por deserto arenoso e rochoso. A área que engloba o deserto do Atacama, no Chile, a 1 300 quilômetros de Santiago, na costa oeste da América do Sul, esconde um dos meios mais rígidos para o surgimento e desenvolvimento da vida na face da Terra. Nas regiões centrais dessa estreita faixa espremida entre o oceano Pacífico, ao oeste, e a cordilheira dos Andes, ao leste, existem lugares nos quais nunca foram registradas chuvas. A precipitação anual tem sido abaixo de 3 milímetros nos últimos 50 anos, as marcas mais baixas do mundo. É o deserto mais seco da Terra, um lugar onde as espécies estão condicionadas a uma série de surpreendentes adaptações. As temperaturas oscilam bastante: em janeiro, a média fica entre 18º C e 25º C; em julho, entre 12º C e 16º C.

Os flamingos rosados, habitantes da planície de sal desse deserto, o Salar de Atacama, são um bom exemplo de espécie adaptada. Nesse local, a água que veio da cordilheira dos Andes, formando lagos azuis, evapora mais rapidamente do que é reposta pelas chuvas, e os sais minerais permanecem. O resultado é uma quantidade enorme de imensos lagos de sal que impregnam o organismo do flamingo. A saída que esses animais encontraram foi eliminar o excesso através de pequenas aberturas ao lado das narinas.

Tal qual o flamingo, algumas plantas também dão um jeito de sobreviver nesse local inóspito. A vegetação de loma, mais importante ecossistema da região, por exemplo, vive da umidade da névoa que se condensa na superfície das pedras. Essa neblina, chamada de “camanchacas”, é o resultado da ação da corrente de Humboldt, que esfria o ar quente do Pacífico durante o inverno. A conseqüência biológica também colabora para deixar a paisagem mais charmosa com a neblina matinal. Poucas espécies animais habitam os lomas. Alguns mamíferos, pássaros e lagartos.


A lhama, da família do carneiro, é um animal que atrai a atenção dos visitantes e é bastante presente na paisagem desértica. Infelizmente, um dos tipos de lhama, o guanaco, que era comum nos lomas e nas áreas costeiras, está cada vez mais sumido devido à caça.

Os vulcões, na maioria extintos, fazem parte do visual e alguns propiciam o encantador fenômeno dos gêiseres. No vulcão El Tatio, por exemplo, ele ocorre: as águas subterrâneas encontram-se com a lava vulcânica e, no nascer do sol, saem jatos quentes de vapor que chegam a 10 metros de altura.

Apesar da secura e pobreza de opções para o desenvolvimento, diversos grupos humanos ocuparam o deserto durante os últimos 12 mil anos. Hoje, moram 750 mil habitantes concentrados em cidades litorâneas, pólos de mineração, vilas de pescadores e oásis. São descendentes de espanhóis, escravos africanos e índios que saíram dos Andes. O processo de povoamento da região costeira foi favorecido pela riqueza de nutrientes das águas da corrente marítima de Humboldt, no Pacífico.

A área próxima ao rio Loa, no norte do deserto, foi ocupada pelos chinchorros, o primeiro grupo humano a desenvolver a mumificação artificial. Algumas das múmias mais antigas do mundo (com mais de 9 mil anos) foram encontradas lá. Não é difícil entender o porquê: a ausência de umidade faz com que artefatos e objetos fabricados há milênios permaneçam em excelente estado de conservação. Um tesouro para arqueólogos. O aspecto assustador dessas condições é que há cidades fantasmas nas áreas centrais com casas onde não moram ninguém, mas que permanecem, por anos, com a mesma aparência de quando foram abandonadas – a impressão que se tem é de que poucas horas atrás havia pessoas ali.

Para quebrar a estabilidade desse deserto, só mesmo fenômenos climáticos de larga escala, como o El Niño, que é o aquecimento das águas do Pacífico. Essa anomalia oceanográfica origina chuvas na área desértica do Chile e do Peru e afeta ecossistemas terrestres. O nome foi criado por pescadores e significa “Menino Jesus”, porque aparece geralmente no mês do Natal.

O “Jesus” dos chilenos e peruanos traz chuvas fortes o bastante para penetrar o solo e dá origem a um dos maiores espetáculos naturais que podem ocorrer no Atacama: como em um passe de mágica, sementes que permaneceram latentes por anos se manifestam com todo o esplendor, numa explosão de cores e tipos vegetais. É mais uma vitória da vida sobre o deserto.

Área total – 106 513 km²

Área intacta – 80%

Área protegida – 1%




Conservação e ameaça


A natureza única dos ecossistemas do deserto do Atacama, a presença de espécies com capacidade surpreendente de adaptar-se às extremas condições áridas e o número significante de plantas e animais endêmicos fazem desta uma região de grande importância para a conservação. No entanto, a área protegida é irrisória. Há muitas propostas para aumentar o número de áreas de lomas a serem protegidas, mas nenhuma foi aprovada. As atividades de mineração, que contaminam os rios e poços d’água, são um perigo constante, e o impacto da densidade populacional ameaça as vegetações de lomas e seu singular ecossistema. Felizmente, as pessoas tendem a fugir das regiões desérticas e concentrar-se nas áreas urbanas, o que significa que largas extensões desse santuário devem continuar intactas.
Revista Superinteressante

domingo, 19 de janeiro de 2020

O que o cocô humano pode nos dizer sobre estilo de vida, dieta e saúde





Na Austrália, exatamente em um laboratório da Universidade de Queensland (UQ), um grupo de cientistas realiza uma atividade incomum: armazenar amostras de excrementos humanos de mais de 20% da população daquele país.

A extração de amostras ocorre em estações de tratamento de águas residuais localizadas em diferentes regiões australianas. Eles são congelados e posteriormente enviados aos cientistas da UQ.

O'Brien e Phil Choi, autores da pesquisa , consideram que esses espécimes são um "tesouro" que contém informações valiosas sobre os hábitos alimentares e o estilo de vida das diferentes comunidades.


Eles descobriram que em regiões onde o poder de compra é maior, o consumo de frutas cítricas, cafeína e fibras é maior. Enquanto em áreas com menos recursos, o uso de medicamentos prescritos foi significativo.

E todos esses dados foram obtidos de forma codificada através das fezes humanas dessas comunidades.
Principais dados de águas residuais

A pesquisa foi capaz de demonstrar o que outros cientistas vêm teorizando há alguns anos: que a partir das águas residuais de uma comunidade você pode obter dados confiáveis ​​sobre o consumo médio de alimentos e medicamentos.

Os dois cientistas dizem que esse procedimento é fundamental para coletar informações quase em tempo real sobre hábitos na população, o que poderia contribuir para a comunicação de políticas e mensagens de saúde pública.

O trabalho, conhecido há 20 anos como epidemiologia de águas residuais, é utilizado principalmente na Europa e América do Norte para a detecção e controle de drogas ilícitas nas comunidades.

Os cientistas coletaram amostras de plantas de esgoto em toda a Austrália.

Outras pesquisas se concentraram no uso de drogas legais e há planos para que esse procedimento seja aplicado na detecção precoce de surtos de doenças, mas até agora a evidência de indicadores de dieta tem sido amplamente teórica.

E, embora pesquisas sejam usadas para descobrir quais alimentos e medicamentos são consumidos, a análise das águas residuais pode ser um indicador mais objetivo do consumo médio em uma área de captação específica. De acordo com Choi:


Em geral, nas pesquisas, as pessoas aumentam o consumo de alimentos saudáveis ​​e subestimam o consumo de coisas menos saudáveis.
Consumo segundo indicadores socioeconômicos

Não apenas os excrementos e a urina são constituídos por águas residuais, mas também resíduos alimentares, produtos de higiene pessoal e restos industriais ou comerciais.

Os cientistas, de certos alimentos, precisavam encontrar biomarcadores específicos produzidos apenas por fezes humanas, ou pelo menos em maior medida.

A pesquisa empregou um par de biomarcadores relacionados ao consumo de fibras (derivados da ingestão de grãos e plantas) e outro associado ao consumo de citros. Ambos os tipos de alimentos (fibra e citros) são considerados típicos de uma dieta saudável.

As comunidades com os maiores indicadores socioeconômicos registraram maior correlação com as altas taxas de consumo desses alimentos. Em outras palavras, em geral, foi descoberto que os setores com maior poder de compra possuíam dietas mais ricas em fibras e citros.


O consumo de citros é considerado um dos componentes característicos de uma dieta saudável.

Além disso, verificou-se que café expresso e café moído geralmente são consumidos regularmente nessas comunidades.

O relatório observa que esse resultado deriva de uma economia mais forte desse grupo para adquirir esses produtos e de uma cultura de consumo de café adotada pelos australianos mais ricos.

Por outro lado, no lado oposto do status socioeconômico, as comunidades menos favorecidas registraram alto consumo de drogas como tramadol (um analgésico opioide), atenolol (um medicamento usado principalmente em doenças cardiovasculares) e pregabalina (antiepiléptico).

Havia também uma relação entre outros tipos de analgésicos e antidepressivos com as áreas mais pobres, mas não em igual medida.
Tendência à igualdade?

A pesquisa corrobora um fenômeno global chamado gradiente de saúde social , o que implica que quanto menor o nível socioeconômico de uma pessoa, pior a saúde que ela tem.

A cafeína foi encontrada nas águas residuais dos australianos que vivem em bairros com maior poder socioeconômico.

E, embora os australianos estejam totalmente convencidos de que seu país mantém a tendência à igualdade e até existam estudos internacionais que a confirmam, este novo trabalho sobre águas residuais sugere que também existem sérios problemas de desigualdade econômica.

Um australiano pertencente a 20% da população com maior poder aquisitivo tem cinco vezes mais dinheiro disponível em comparação com alguém do quintil de menor renda. E, em geral, mais renda significa uma maior capacidade de comprar alimentos perecíveis, como frutas e legumes, assim como uma melhor educação significa uma melhor compreensão da nutrição.

Por seu lado, a professora Catherine Bennett, diretora de epidemiologia da Universidade Deakin, na Austrália, destaca que a pesquisa em UQ tem seu escopo e limitações:


É um estudo ecológico em epidemiologia. O termo significa que não estamos usando dados individuais, mas dados coletivos.

É uma oportunidade realmente interessante, desde que não tentemos interpretar os dados excessivamente. Uma maneira útil de acompanhar o que está acontecendo no nível da população.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Conheça alguns hábitos alimentares que temos e deveríamos abandonar


Comer mal aumenta o risco de doenças cardiovasculares, câncer, diabetes, pressão alta, entre outras doenças





Ter bons hábitos alimentares auxiliam a afastar doenças e trazer longevidade(foto: Vinicius Cardoso Vieira/CB/D.A Press)Uma dieta equilibrada é essencial para qualidade de vida, ajuda no bom funcionamento do organismo e auxilia na perda de peso. Os bons hábitos alimentares auxiliam a afastar doenças e a trazer longevidade, pois a má alimentação é considerada um fator decisivo no surgimento de doenças crônicas.


A praticidade do dia a dia faz com que o brasileiro consuma alimentos industrializados cada vez mais. O Correio te ajuda a conhecer quais são os hábitos alimentares que muitos têm, mas todos deveriam evitar.


Pular refeições 


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Um dos erros alimentares mais comuns que prejudicam a saúde e contribuem para o ganho de peso é pular as refeições. A desculpa para tanto quase sempre é a falta de tempo. Mas isso é muito prejudicial à saúde. O intestino de quem pula refeições com muita frequência se adapta para absorver o máximo de nutrientes possível de cada refeição. O restante do corpo passa a economizar energia. Por isso, a necessidade de se ter uma alimentação balanceada e de comer a cada 3 horas ou 4 horas, o que ajuda a controlar a glicemia.

Para a nutricionista Patricia Guedes uma alimentação não balanceada prejudica muito o metabolismo. “Sempre procuro lembrar os pacientes de que nós somos os responsáveis pela nossa saúde e pela nossa doença. A vida é feita de equilíbrio. O segredo está em estabelecer uma rotina saudável, reduzindo o número de 'escapadas'. Quando elas acontecerem que sejam feitas sem culpa, sabendo que você irá voltar para a rotina normal”, completou.


Tomar refrigerantes e bebidas alcoólicas

Os refrigerantes são bebidas ricas em frutose, tipo de açúcar que aumenta o risco de resistência à insulina e diabetes, além de ter ácidos que ajudam a desgastar os esmaltes dos dentes e provocar gases que podem vir com dores abdominais e gastrites. São bebidas ricas em sódio e alguns sabores contêm bastante cafeína, o que pode provocar alterações na pressão arterial e retenção de líquidos.



Já as bebidas alcoólicas são pobres em nutrientes e possuem alto valor calórico. Por exemplo, uma lata de cerveja fornece aproximadamente 150 calorias, praticamente o mesmo do que um pão francês. 

A nutricionista Nathália Bandeira indica que os pacientes sempre optem por bebidas como o sucos da fruta sem açúcar, chás, água de coco natural e não exagerem em bebidas alcoólicas. “São bebidas com alto teor de sódio e açúcares. Estes produtos fazem mal para a saúde. A longo prazo elas auxiliam no desenvolvimento de doenças crônicas, sem contar que excesso de álcool é muito prejudicial”, explica.


Comer muito doce

Muitos açúcares e doces são inimigos da alimentação saudável e devem ser consumidos com bastante moderação. Eles são compostos praticamente por carboidratos simples, rapidamente absorvidos pelo organismo. 

Esse tipo de alimento tende a alterar a glicemia e a liberar grandes quantidades de insulina, podendo acarretar em diabetes tipo 2. O uso em excesso de açúcar na alimentação aumenta riscos de doenças vasculares, fígado gorduroso e até mesmo de alguns tipos de câncer.


O ideal é evitar o consumo de alimentos com muito açúcar e comer doces moderadamente. A nutricionista Gabriela Soares Batista ressalta que existem opções mais saudáveis nas prateleiras: “No mercado, existem alguns tipos diferentes de açúcar (demerara, mascavo, açúcar de coco) que geram um efeito metabólico mais desejável.”


Comer alimentos processados e embutidos

Comidas industrializadas e embutidas têm em sua composição diversas substâncias químicas que não são reconhecidas pelo nosso organismo. Por isso, elas podem fazer mal ao sistema imunológico e causar alergias.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera as carnes processadas como alimentos cancerígenos desde 2015. A grande maioria dos alimentos que consumimos passam por algum tipo de processamento.

“Alimentos processados e embutidos trazem vários ricos à saúde por serem ricos em conservantes, corantes, aditivos e açúcares. Causam prejuízos diretos à saúde podendo levar a doenças alérgicas, intestinais e até mesmo o câncer”, alerta Nathália Bandeira.


Beber pouca água

O pouco consumo de água está entre os maus hábitos alimentares mais comuns. O líquido é essencial para o bom funcionamento do corpo e a desidratação crônica pode causar doenças e envelhecimento precoce. Isso acontece porque o organismo “puxa” água dos órgãos para suprir a falta de líquidos nos tecidos.

Durante um dia se perde aproximadamente dois litros de água por meio de transpiração, urina, respiração e outras atividades. Por isso, a necessidade de repor essa perda e de se manter hidratado durante o dia inteiro.

Gabriela Soares explica que o ideal é não esperar sentir sede para beber água. “A falta de água pode causar várias doenças, fraqueza, cansaço e tontura. Dois litros por dia é uma referência. Para saber a quantidade exata para cada pessoa, calculamos 35ml por quilo do peso. Por exemplo, uma pessoa de 70kg deveria ingerir 2,5 litros”, contabiliza. 


Exagerar na quantidade

Ingerir muitos alimentos pode ser um sinal de compulsão alimentar, podendo levar à obesidade e a outros problemas de saúde. Algumas vezes essa compulsão tem como causa estresse ou depressão. Nesses casos, há necessidade de um tratamento médico.

O estômago pode se acostumar com o grande volume de comida, o que é prejudicial. Vale ressaltar que cada pessoa tem uma quantidade adequada de alimentação por dia. A nutricionista Patricia Guedes explica: “Não existe quantidade ideal de comida. Cada pessoa deve ser analisada de forma individual, considerando patologias existentes, exames bioquímicos, resposta metabólica, nível de atividade física, rotina, hábitos alimentares, etc...Tudo isso faz com que a quantidade de alimentos varie de pessoa para pessoa.”

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Astrônomos detetaram vapor de água num planeta potencialmente habitável



O fenômeno agora descoberto pode parecer “insignificante”, até porque a água é comum no universo. Contudo, detetar este elemento a 110 anos-luz pode ser um passo muito importante. Nesse sentido, astrônomos encontraram vapor de água no exoplaneta K2-18 b, numa zona habitável da sua estrela.

A descoberta foi levada a cabo por duas equipes e publicada no repositório de artigos científicos Nature Astronomy.



Exoplanetas podem ter vida

Com mais de 4000 exoplanetas pode parecer que estamos prestes a descobrir se estamos sozinhos no universo. No entanto, infelizmente, não sabemos muito sobre esses planetas – na maioria dos casos apenas temos uma ideia da sua massa e do seu raio. Assim, entender se um planeta pode hospedar vida requer muito mais informação.

No momento, uma informação extremamente importante que está a faltar é a presença, composição e estrutura das suas atmosferas. Sinais de água atmosférica, oxigénio e metano seriam sinais de que um planeta pode suportar vida. Agora, pela primeira vez, conseguiu-se detetar o vapor de água na atmosfera de um exoplaneta potencialmente habitável.


Como se consegue perceber se há vapor de água no planeta tão distante?

A atmosfera de um planeta desempenha um papel vital em moldar as condições dentro dele ou na sua superfície. Dessa forma, a sua composição, estabilidade e estrutura fornecem pistas importantes sobre como é estar lá. Assim, é através de estudos atmosféricos que se consegue aprender sobre a história do planeta. Posteriormente, é possível investigar a sua habitabilidade e, em última análise, descobrir sinais de vida.

O principal método que é utilizado ao examinarmos exoplanetas é a espectroscopia de trânsito. Por outras palavras, é uma técnica que os astrónomos usam que envolve olhar para a luz das estrelas à medida que um planeta passa em frente à sua estrela hospedeira.

Conforme ela transita, a luz estelar é filtrada através da atmosfera do planeta – com a luz a ser absorvida ou desviada com base em quais compostos a atmosfera consiste.

Portanto, a atmosfera deixa uma pegada característica na luz estelar que tentamos observar. Uma análise mais aprofundada pode, então, ajudar a combinar essa pegada com elementos e moléculas conhecidas, como água ou metano.


K2-18 b, que orbita uma estrela anã-vermelha, foi descoberto em 2015

Surpreendentemente, assinaturas moleculares de água foram encontradas nas atmosferas de planetas gasosos, semelhantes a Júpiter ou Neptuno. Nunca antes foi visto em planetas menores, até agora.

O K2-18 b foi descoberto em 2015, e encontra-se a 34 parsec da Terra — qualquer coisa como mil biliões de quilómetros. Este é apenas um entre centenas de planetas “super-terras”. Esta classificação é para planetas com uma massa entre a Terra e Neptuno encontrados pelo Kepler da NASA. No entanto, o K2-18 b é um planeta com oito vezes a massa da Terra que orbita uma estrela “anã vermelha”, que é muito mais fria que o sol.

Apesar disso, o K2-18 b está localizado na “zona habitável” da sua estrela. Quer isso dizer que tem a temperatura certa para suportar água líquida. Dada a sua massa e raio, o K2-18 b não é um planeta gasoso, mas tem uma alta probabilidade de ter uma superfície rochosa.

Além disso, o planeta está a “apenas” 21 milhões de quilómetros da sua estrela e tem uma temperatura estimada entre -73,15 e 46,85 graus Celsius.


Mas o que é necessário para um planeta acolher vida?

Para que um exoplaneta seja definido como habitável, existe uma longa lista de requisitos que precisam ser satisfeitos. Um deles é que o planeta precisa estar na zona habitável onde a água pode existir na forma líquida. É também necessário que o planeta tenha uma atmosfera para proteger o planeta de qualquer radiação nociva proveniente da sua estrela hospedeira.

Outro elemento importante é a presença de água, vital para a vida tal como a conhecemos. Embora existam muitos outros critérios para a habitabilidade, como a presença de oxigénio na atmosfera, a nova investigação fez do K2-18 b o melhor candidato até à data. É o único exoplaneta que cumpre três requisitos de habitabilidade: as temperaturas certas, uma atmosfera e a presença de água.

No entanto, não se pode dizer, com dados atuais, de que forma o planeta tem probabilidade de sustentar a vida. Os dados são limitados a uma área do espectro – isto mostra como a luz é partida pelo comprimento de onda – onde a água domina. Nesse sentido, não é possível determinar a existência de outras moléculas.


O primeiro de muitos?

Com a próxima geração de telescópios, como o Telescópio Espacial James Webb e a missão espacial ARIEL, serão dados passos muito importantes. Com este nível tecnológico será possível determinar a composição química, cobertura de nuvens e estrutura da atmosfera do K2-18 b.

Estas missões também podem facilitar a realização de deteções semelhantes para outros corpos rochosos nas zonas habitáveis das suas estrelas-mãe. Com o K2-18 b a 110 anos-luz de distância, não é realmente um planeta que poderíamos visitar – mesmo com pequenas sondas robóticas – no futuro previsível.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Floresta mais antiga do mundo é descoberta nos Estados Unidos


Localizada na cidade de Cairo, a região serve como um cemitério de árvores, que nos fornece uma espiada de um passado de mais de 300 milhões de anos atrás
Sabrina Brito

As folhas e troncos fossilizados em Cairo, Nova York WILLIAM STEIN / CHRISTOPHER BERRY/Divulgação



Em uma área abandonada em Cairo, cidade do estado de Nova York, cientistas acabam de encontrar a mais antiga floresta fossilizada do mundo. Formada há 386 milhões de anos, a mata recém-descoberta é dois ou três milhões de anos mais velha do que aquela que detinha o recorde até agora, também localizada em Nova York. O achado foi publicado no último dia 19 no periódico científico Current Biology.

A exploração da região começou há mais de dez anos, comandada por pesquisadores das Universidades Cardiff e Binghamton (Reino Unido) e do Museu do Estado de Nova York. Desde então, mais de 3 mil metros quadrados de floresta foram precisamente mapeados.

Há 386 milhões de anos, quando a floresta era viva, plantas, animais e as demais formas de vida atravessavam o período Devoniano. Conhecida como Era dos Peixes, foi nessa época que esses seres mais se proliferaram nas águas marítimas. Sobre a Terra, reinavam artrópodes, como os escorpiões e as centopeias.

Foi ainda durante o Devoniano que ocorreu no nosso planeta a transição entre um cenário onde matas eram ausentes para uma situação em que diversas florestas, inclusive algumas das atuais, recobrem grandes áreas da superfície terrestre. A hipótese é a de que a floresta encontrada tenha sido atingida por uma enchente. Isso porque na superfície da região, os pesquisadores encontraram alguns fósseis de peixe. De forma geral, o achado nos dá a oportunidade de ver, ainda que por uma pequena brecha, como o planeta funcionava muito antes do surgimento do ser humano (que se deu há 200.000 anos, aproximadamente; extremamente recente, pela perspectiva da idade da própria Terra).
Revista Veja

Estudo: Até 2100, precisaremos de mais de 250 calorias extras diárias


Nova pesquisa alemã revelou que o crescimento populacional e o aumento global do IMC médio farão com que nossa dieta típica necessite de mais alimentos
Sabrina Brito


A quantidade de alimento que demandaremos até o fim do século será muito maior do que a atual necessidade Akintunde Akinleye/Reuters


De acordo com um estudo publicado no último dia 23 no periódico científico PLOS ONE, a quantidade de comida necessária para alimentar a população mundial pode aumentar em quase 80% até 2100. Os pesquisadores responsáveis pelo artigo, da Universidade de Göttingen (Alemanha), afirmam que a tendência de aumento no Índice de Massa Corporal (IMC) observada em grande parte do planeta fará com que precisemos de mais calorias para nos satisfazer em um futuro próximo.

Segundo projeções da ONU, a população mundial será de aproximadamente 11 bilhões no final deste século. Segundo a pesquisa alemã, 60% do aumento calórico do qual precisaremos até então será resultado desse vertiginoso crescimento demográfico. Os outros 20% seriam fruto de um provável aumento na altura e no peso médio dos indivíduos até 2100.

A projeção dos cientistas é de que, até o final do século, a energia requerida por cada um sofrerá um crescimento de 253 calorias diárias. É o equivalente a duas bananas grandes ou uma porção de batatas fritas a mais que teremos que comer todos os dias para satisfazer nossos gastos metabólicos, de acordo com o artigo.

Os pesquisadores concluíram ainda que um fracasso em reformular a política alimentar global para lidar com essa mudança pode gerar grande desigualdade econômica e alimentar pelo planeta, o que evidentemente prejudicaria sobretudo as regiões mais pobres. Esse cenário vem do fato de que uma demanda por mais alimentos levará a aumento nos preços da comida. Enquanto os países mais ricos não demorarão a se acostumar com a nova situação, as nações pobres teriam esse desafio à frente, o que pode resultar em má nutrição.
Revista Veja

Rio Amazonas tem 9 milhões de anos, mais velho do que se pensava


Estudos anteriores apontavam para 2,6 milhões de anos, mas pode ser que o rio tenha mais de 9 milhões de anos de idade


Rio amazonas JohnnyLye/iStock


O rio Amazonas pode ter entre 9 e 9,4 milhões de anos, segundo um novo estudo liderado por cientistas da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade de Amsterdã, na Holanda. Análises anteriores apontavam para “apenas” 2,6 milhão de anos. A nova pesquisa encontrou sedimentos compostos de fósseis de plantas, na foz do rio, no Pará, que, além de revelarem a possível idade do Amazonas, contribuem para a investigação de como as mudanças climáticas alteraram a paisagem da região. A análise foi publicada nesta semana na revista científica Global and Planetary Change.


A pesquisa foi feita em uma fenda há mais de 4,5 quilômetros abaixo do nível do mar, na parte do Oceano Atlântico alimentada pelas águas do rio Amazonas. “Os sedimentos transportados por este rio são depositados na fenda submarina e, como resultado, registram com precisão sua história evolutiva. Foram aplicadas técnicas analíticas de alta resolução nesses detritos não realizadas anteriormente na região”, disse Farid Chemale, pesquisador do Instituto de Geociências da UnB, em comunicado. Um outro estudo feito neste mesmo poço havia datado o rio entre 1 e 1,5 milhões de anos.

Antigo rio Amazonas

Por meio da análise de dados geoquímicos e do estudo de pólen e esporos de plantas fossilizados, os cientistas identificaram ainda uma clara modificação no tipo de sedimentos depositados na área. Ao longo do tempo, eles passaram de detritos de planícies tropicais a sedimentos vindos dos Andes, que teriam sido levados pelo ‘recém-nascido’ rio Amazonas. Esses vegetais andinos teriam sido modificado ao longo dos anos, conforme aponta a pesquisa.

“Os nossos novos dados confirmaram que o rio Amazonas é mais velho, mas também apontam para uma expansão de prados – terrenos de vegetação baixa – durante o Pleistoceno (entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás) que não era conhecida antes. Pesquisas futuras podem dar mais respostas, mas requerem investimento em termos de perfuração continental e marítima”, disse Carina Hoorn, pesquisadora da Universidade de Amsterdã e principal autora do artigo, em nota. Os pesquisadores acreditam que o aumento de gramíneas na Cordilheira dos Andes teria sido impulsionado pelo resfriamento de cinco milhões de anos atrás, dando espaço para a vegetação aberta e sem árvores.

Esse estudo é parte do projeto Clim-Amazon, uma iniciativa brasileira e europeia para pesquisas climáticas. Os cientistas esperam, com estas análises, descobrir as mudanças na vegetação sofridas pela região há milhões de anos e, assim, compreender as alterações do clima.
Revista Veja

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