quarta-feira, 15 de abril de 2026
Conheça o Estreito de Malaca, um dos mais movimentados do planeta
domingo, 9 de novembro de 2014
Liberdade para o capital ou proteção aos capitalistas?
Antoine Schwartz é autor, com François Denord, de L'Europe sociale n'aura pas lieu, Raisons d'Agir, Paris, 2009.Le Monde Diplomatique Brasil
Ilustração: Rodrigo Leão
1 Ler Karl Marx, “Discours sur le libre-échange” [Discurso sobre o livre-comércio] (extratos), Le Monde Diplomatique, mar. 2009.
2 David Todd, L’identité économique de la France [A identidade econômica da França], Grasset, Paris, 2008.
3 Louis Reybaud, Jérôme Paturot à la recherche d’une position sociale [Jérôme Paturot em busca de uma posição social], tomo 2, Paulin, Paris, 1846. Disponível em: .
4 Charles Coquelin e Gilbert-Urbain Guillaumin (org.), Dictionnaire de l’économie politique[Dicionário da economia política], Librairie Guillaumin, Paris, 1852-1853.
5 Jean Jaurès, Socialisme et paysans, discours prononcés à la Chambre des députés les 19, 26 juin et 3 juillet 1897 [Socialismo e camponeses, discursos pronunciados na Câmara dos Deputados em 19 e 26 de junho e 3 de julho de 1897], impr. E. Crété, Corbeil, 1897.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Notícias Geografia Hoje
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Era dos contêineres
Michel Lussault*, do Le Monde de L´Éducation

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Qual é a participação da China na economia brasileira?

Qual é a participação da China na economia brasileira?
A República Popular da China, que foi fundada há 60 anos, hoje é o país que mais importa produtos brasileiros
Renata Costa
A China, assim como o Brasil, é considerado um país em pleno crescimento. Por isso, as relações comerciais entre ambos têm crescido muito na última década e a China já tem papel importante na economia brasileira. Para começar, nos primeiros três meses de 2009, ela foi o importador número 1 de nossos produtos, ultrapassando os Estados Unidos que, até então, sempre foram os maiores compradores do Brasil. Com isso, os chineses pagaram US$ 3,4 bilhões por produtos brasileiros, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.
Os produtos mais comprados são minério de ferro e soja, mas também petróleo, alimentos e carne. Além disso, segundo um estudo da Fundação Dom Cabral, até 2008, pelo menos 10 das 200 maiores indústrias chinesas já haviam se instalado por aqui.
Por outro lado, o Brasil também importa produtos da China, principalmente materiais eletroeletrônicos e carvão mineral. O sapato chinês era um item que preocupava os fabricantes brasileiros do setor, pois custava mais barato que o produzido aqui. Por isso, a partir de setembro, todo par de sapato que vier de lá terá um imposto fixo de US$ 12,47. Isso aumenta o preço do produto e deixa a concorrência mais leal com o produzido no Brasil.
Mas por que, afinal, o produto chinês é tão mais barato que o nosso? O economista João Pedro da Silva, membro do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), explica que o principal motivo é a mão-de-obra chinesa baratíssima. O país tem mais de um bilhão de habitantes, e boa parte está na zona rural, trabalhando com carvão, já que a área propícia para agricultura é muito pequena. Essas pessoas estão loucas para trabalhar na indústria e, por isso, aceitam salários muito baixos, explica o especialista. Segundo ele, um trabalhador em uma fábrica chinesa ganha em torno de US$ 25 mensais, ou seja, cerca de R$ 50. É muito pouco para um custo de vida que não é baixo. Um quilo de frutas, por exemplo, custa o equivalente a R$1,50.
Para o economista, a parceria entre os dois países só tende a crescer. O Brasil é um país de economia estável, por isso o interesse de tantos outros, entre eles a China, de investirem aqui, afirma.
O lugar da China no comércio exterior brasileiro

O lugar da China no comércio exterior brasileiro
por Diego Pautasso
19/01/2010
A China tornou-se o maior parceiro comercial brasileiro em 2009, superando os EUA depois de décadas. No entanto, as relações entre Brasil e China indicam mais do que a alteração na hierarquia dos parceiros comerciais brasileiros, mas uma mudança tanto das nossas relações exteriores quanto da própria correlação de forças no sistema internacional. O objetivo do presente artigo de conjuntura é, pois, tentar captar o lugar da China no comércio exterior brasileiro em face das transformações sistêmicas que se aprofundam desde o fim da Guerra Fria.
A mudança das relações exteriores do Brasil tem coincidido com grandes transformações da política e dos negócios internacionais. Durante o século XIX, a Grã-Bretanha tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil, em substituição a Portugal; e, durante o século XX, os EUA tomaram o lugar da Grã-Bretanha nos negócios com nosso país. Em outras palavras, a ascensão dos pólos hegemônicos do sistema mundial e as reestruturações do capitalismo têm tido repercussão direta sobre a inserção internacional do Brasil. Dessa forma, a virada do século XX-XXI marca a mudança de lugar da China nas relações exteriores brasileiras, indicando transformações que representam desafios e oportunidades de longa duração para o comércio exterior e a diplomacia do Brasil, justamente num quadro de transição sistêmica.
Em 2009, a China tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil, com um fluxo de comércio de 36,1 bilhões de dólares. Isto contribuiu para o país oriental torna-se o principal destino das exportações brasileiras, totalizando um valor de 20,1 bilhões de dólares ou mais de 13,1% do total exportado, enquanto o Brasil é destino de apenas 1,3% das exportações chinesas. E, se considerarmos Taiwan, Hong Kong e Macau, estes últimos que foram integrados real e formalmente à China, em 1997 e 1999 respectivamente, nas estatísticas oficiais do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a importância chinesa tem um acréscimo de quase 6 bilhões de dólares na corrente comercial brasileira.
Em razão da crise financeira, os EUA tornaram-se o segundo maior parceiro brasileiro, com 35,9 bilhões de dólares de fluxo comercial em 2009, bem abaixo dos 53,4 bilhões de 2008, em parte devido ao recuo de 42,4% de nossas exportações para o mercado norte-americano. Na verdade, devido à crise, o comércio internacional foi afetado e o brasileiro recuou 22% em relação a 2008, segundo o MDIC, constituindo-se na maior retração desde o início da série histórica em1950. Dessa forma, a crise contribuiu para acelerar a tendência de superação dos EUA pela China como maior parceiro do Brasil.
Neste ano de crise (2009), a Ásia foi o único continente que apresentou crescimento das exportações brasileiras, com aumento de 5,9%. Para a China, as exportações cresceram 23,1%, fazendo o país asiático subir na hierarquia dos parceiros do Brasil e assumir a liderança. Para outras regiões, a queda das exportações brasileiras foi expressiva, pois além da já citada retração de 42,4% dos EUA, a Europa Oriental recuou 38,6% e o Mercosul, 29,9% (com destaque para o recuo de 30,9% da Argentina).
O lugar da China no comércio exterior brasileiro reflete, portanto, um processo mais amplo de diversificação dos negócios realizados pelo Brasil, bem como de mudança da geografia econômica mundial. No âmbito do comércio exterior brasileiro, as iniciativas do Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, intensificaram as relações exteriores do país com países periféricos desde o início do governo Lula, em 2003. Os países periféricos, excluindo a OCDE, passaram de 40% em 2003 para quase 54% do comércio exterior do Brasil neste ano (2009).
No âmbito das transformações sistêmicas, o lugar da China nos negócios com o Brasil reflete o processo de multipolarização em curso, com destaque para a ascensão estrutural da economia chinesa e da Ásia Oriental no comércio internacional. O comércio exterior chinês passou de 38 bilhões de dólares em 1980 para 2,5 trilhões em 2008, com um crescimento de mais de 67 vezes em menos de três décadas. A participação chinesa no comércio internacional saltou de 1,02% em 1980 para 6,9% em 2008. A China que ocupava apenas a 16ª colocação em 1997, com exportações de 24,5 bilhões de dólares, tornou-se o maior exportador mundial em 2009, com um total de 1,2 trilhões de dólares, 16% menos do que 2008 (PAUTASSO, 2009). A crise fez o comércio chinês recuar 13,9% na comparação com o ano anterior, atingindo 2,21 trilhões de dólares, com superávit comercial chinês de 196,1 bilhão de dólares, 34,2% menor que 2008, conforme informou a agência Xinhua.
No caso das relações com o Brasil, a China partiu de um comércio de 19,4 milhões de dólares em 1974, ano do reatamento das relações diplomáticas, para 1,2 bilhões duas décadas depois (1994), chegando a 36,1 bilhões em 2009. A tendência de aumento da participação chinesa no comércio exterior do Brasil, tornou-se ainda mais evidente em 2002, quando a China suplantou o Japão como principal destino das exportações brasileiras na Ásia. De uma forma geral, o Brasil tem tido superávits no comércio bilateral, exceção ao período de 1996 a 2000, em que acumulamos déficit de cerca de 551 milhões, somente com a China. Somente em 2009, o superávit brasileiro foi de 4,1 bilhões de dólares com o país oriental.
Com efeito, a crescente importância da China no comércio exterior do Brasil, sugere um conjunto de desafios e oportunidades. Os desafios do Brasil ligam-se à primarização das exportações brasileiras e a falta de preparação para lidar com um novo parceiro como a China, tanto do ponto de vista da formulação de políticas industriais, comerciais e tecnológicas (ICT), quanto do amadurecimento das estratégias de negociação com os chineses.
O risco da especialização produtiva em commodities reflete-se na pauta de exportação do Brasil para a China. Cerca de 70% das exportações brasileiras são formadas de minério de ferro (31,4%), soja (31,4%), petróleo (6,6%), sendo que os outros produtos são essencialmente primários ou semimanufaturados. Como a China cresceu sua participação nas exportações brasileiras e estas estão centradas em commodities, consequentemente a pauta de exportação brasileira foi primarizada. Isto é, as exportações de produtos manufaturados recuaram mais (-27,3%) do que os semimanufaturados (-23,4%) e básicos (-14,1%) em relação a 2008, segundo o MDIC. Já a China, que exportava essencialmente petróleo (97%) para o Brasil entre 1980 e 1984, agora tem uma pauta de exportação centrada em manufaturados, sobretudo, componentes e aparelhos eletrônicos e máquinas, com uma diversificação muito grande de itens (BECARD, 2008).
Nota-se que China e Brasil adotaram opções diversas de inserção internacional no Pós-Guerra Fria. As políticas de ICT no Brasil foram precárias durante o ciclo de liberalização da década de 1990. A abertura comercial sem contrapartidas e planejamento (ou seja, com reforço do protecionismo e apoio às indústrias nacionais nos países centrais), elevação de juros e carga tributária, valorização cambial, restrição do crédito e baixos investimentos em logística reduziram a competitividade do Brasil, dificultando as exportações e favorecendo as importações. O resultando foi uma combinação oposta à opção chinesa de inserção internacional: o fechamento dos mercados externos e a abertura do mercado doméstico. Assim, houve uma quase-estagnação do comércio exterior do Brasil, que passou de 96,4 para apenas 107,6 bilhões de dólares entre 1995 e 2002, sendo que o déficit acumulado foi de cerca de 24,5 bilhões no período da paridade cambial (1995-2000).
Durante o governo Lula, a combinação de ações governamentais com a mudança de conjuntura internacional acabou por favorecer o comércio exterior brasileiro. Ou seja, o governo direcionou o Itamaraty para a busca de novos mercados, atuando em parceria com comitivas de empresários; fortaleceu os quadros técnicos e a dotação orçamentária da APEX; e ampliou o crédito para as exportações através de órgãos como o BNDES. Além disso, capacidade de resposta das empresas brasileiras ao aumento na demanda mundial (PUGA, 2006), combinou-se com a conjuntura internacional de valorização das commodities, como ferro, soja e petróleo, por exemplo, favorecendo a balança comercial. Com isso, o comércio cresceu de 121,5 bilhões de dólares em 2003 para 370,9 em 2008, antes da crise.
Como a China é um parceiro estratégico do Brasil (OLIVEIRA, 2004), as relações bilaterais representam novos desafios nos negócios internacionais do país. Por um lado, os desafios do Brasil nas relações com a China persistem, pois referem-se tanto à adversa política cambial brasileira e ao desvio de comércio com vizinhos (como Argentina), até a falta de preparo da elite brasileira, governamental, intelectual e empresarial, para lidar com esta nova realidade econômica, política e cultural. Por outro lado, abrem-se oportunidades para o Brasil aprofundar sua condição de global player, desbravando o mercado chinês, criando oportunidades de cooperação técnica (como o satélite sino-brasileiro CBERS – Chinese-Brazilian Earth Resources) e diplomática.
O lugar da China no comércio exterior brasileiro reflete, pois, um conjunto de processos de longa duração, representando mais do que uma questão conjuntural ou bilateral. Primeiro, a emergência da China como principal parceiro comercial do país para as próximas décadas, representando desafios e oportunidades inéditos. Segundo, o aprofundamento da diversificação dos negócios internacionais brasileiros, com destaque para a ampliação do peso dos países periféricos. Terceiro, a evolução do processo de multipolarização, cuja emergência dos grandes países da periferia (Brasil, China, Índia) são as principais expressões. Quarto, o fortalecimento de relações Sul-Sul, tornando mais complexo os negócios e as relações internacionais. Quinto, as conseqüentes aproximações sino-brasileiras no campo diplomático, como atestam a criação do Fórum de Cooperação Ásia do Leste-América Latina/FOCALAL (2001), do G20 voltado à OMC (2003) e do grupo BRIC (2009), por exemplo. Em suma, é preciso buscar captar a complexidade das relações sino-brasileiras no século XXI.
Referências bibliográficas
BECARD, Danielly. O Brasil e a República Popular da China. Brasília: FUNAG, 2008.
MDIC. Balança comercial brasileira – países e blocos. Disponível em: [http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=2033&refr=576]. Acesso em: 17/01/2010.
OLIVEIRA, Henrique. Brasil-China: trinta anos de uma parceria estratégica. In: Revista Brasileira de Política Internacional. 47 (1), 2004, pp. 7-30.
PAUTASSO, Diego. O comércio exterior na universalização da Política Exterior da Chinesa no século XXI. In: Meridiano 47 – Boletim de Análise de Conjuntura em Relações Internacionais. Brasília-IBRI v. 113, p. 14-16, 2009.
PUGA, Fernando. Por que crescem as exportações brasileiras? In: TORRES FILHO, Ernani (Org.). Visões do desenvolvimento. Rio de Janeiro, BNDES, 2006.
Diego Pautasso é Mestre e doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Atualmente é pesquisador do Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT-UFRGS) e professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM (dpautasso@espm.br).
Meridiano 47
terça-feira, 21 de julho de 2009
O Comércio Ambulante
por Eustógio Wanderley Correia Dantas*

A presença do comércio ambulante está ligada à vida das cidades. Em trabalhos e relatos desenvolvidos por cientistas, pintores e escritores encontram-se menções a este tipo de atividade que se desenvolve nas ruas de todas as cidades do mundo.
O comércio ambulante está presente nas cidades brasileiras desde os primórdios, construindo e fazendo parte do drama cotidiano urbano.
Pinturas do francês Jean-Baptiste Debret ilustram o comércio ambulante nas ruas do Rio de Janeiro no século XIX.
No Brasil, textos de escritores e poetas como Aluísio de Azevedo e Adolfo Caminha contêm informações sobre a presença do comércio ambulante na cidade já no século XIX. Ademais, ainda encontram-se registros feitos por artistas como Debret, cujos quadros documentaram a venda feita pelos escravos, que se deslocavam de porta em porta das casas do Rio de Janeiro em meados do século XIX para venderem aves, leite, frutas, carne defumada, pão-de-ló, linguiça, sonhos, café torrado, refrescos, cadeiras, cestos e ainda prestavam serviços de barbeador e carregador.
Por meio desses relatos, tem-se o registro da presença do comércio ambulante nas cidades brasileiras desde os seus primórdios, fazendo parte e construindo o drama cotidiano das cidades com suas cores, cheiros e sons característicos. Entretanto, a caracterização da atividade no passado — e que lembra o comércio ambulante atual exercido nas cidades brasileiras — passa por uma série de mudanças. Dois fatores são responsáveis por essas modificações: a ampliação do número de comerciantes e, posteriormente, a atividade passar a ser considerada ilegal.
Hipóteses sobre o comércio ambulante

Buscando resolver essa questão, são levantadas algumas teses. Uma delas é a de que o comércio ambulante acabaria tão logo o país atingisse certo grau de desenvolvimento. Tal argumentação baseava-se na ideia de que o comércio ambulante deixara de existir nos países desenvolvidos. A partir daí, cunhou-se a teoria do dualismo estrutural ou tecnológico nos países subdesenvolvidos e que atribuía a permanência de atividades como o comércio ambulante somente enquanto resquícios de atividades e formas herdadas do passado e, portanto, com o desenvolvimento do capitalismo nos países subdesenvolvidos, seria consubstanciada a suplantação deste terciário arcaico pelo terciário moderno.
Fenômeno Internacional
Embora tais considerações tenham sido colocadas enquanto verídicas nos países desenvolvidos, o historiador francês Fernand Braudel as desmistifica quando constata a continuidade do comércio ambulante em países como França e Inglaterra. Para o autor, caso o comércio ambulante estivesse fadado ao fim, na “Inglaterra teria desaparecido no século XVIII, e em França, no século XIX. Todavia, a venda ambulante inglesa conheceu um recrudescimento no século XIX, pelo menos nos arredores das cidades industriais mal abastecidas pelos circuitos normais de distribuição”.

Henri Lefébvre
Sociólogo e filósofo francês, foi um dos maiores estudiosos da vida urbana do século XX. É considerado por muitos um geógrafo da cidade, embora não tivesse formação como tal. Uma de suas maiores preocupações e objeto de grande parte de seus estudos é a importância da reprodução das relações sociais e da produção do capital no espaço.
Opiniões dos estudiosos
O economista peruano Hermano de Soto é um dos teóricos a analisar o comércio ambulante conforme este pressuposto. Para o autor, “no caso do comércio ambulante, as pessoas começaram a invadir a rua pública para nela dispor e realizar operações comerciais sem ter licença, nota fiscal nem pagar impostos, ainda que em alguns casos tenham sido favorecidas for algum regime de exceção legal que (…) proporciona a tolerância municipal”. A segunda tese consiste uma ruptura em relação às perspectivas anteriores, ao colocar em evidência as características do processo de desenvolvimento do capitalismo nos países subdesenvolvidos.
Assim, para alguns teóricos – como o sociólogo Emanuel Bandeira de Souza – a existência do comércio ambulante, resiste enquanto atividade (re)criada pelo capital. Para o autor, “a história do capitalismo revela que ora o capital recria, ora estimula a reprodução de trabalhos não assalariados como recurso para sua ampliação. O seu objetivo principal é a produção de mercadorias e não, necessariamente, a reprodução do trabalho assalariado, embora seja esta a sua relação de trabalho ideal”. Por meio da teoria do desenvolvimento desigual e combinado do capital, passa-se a considerar o processo de modernização ocorrido nos países subdesenvolvidos, processo que, por ser poupador de mão-de-obra, gera por um lado o desemprego e o subemprego.
A compreensão dessas transformações dá-se por meio da consideração da história do espaço como condição para compreensão da realidade, pois, conforme defendia o sociólogo e urbanista francês Henri Lefébvre , “toda realidade dada no espaço se expõe e se explica por uma gênese no tempo”. Nesses termos, envereda-se numa análise do processo de constituição da cidade moderna, a qual resulta de uma tendência posta à transformação do lúdico, do local de encontro e da festa em “locus” de consumo, dado que vai levar à redefinição da centralidade no tempo com a transformação do centro das cidades brasileiras em “locus” privilegiado do consumo, principalmente das classes de menor poder aquisitivo da sociedade brasileira.
Esse processo denota uma nova articulação entre as diversas partes da cidade e o centro, que perde sua hegemonia em relação às áreas nobres e tem seu uso redefinido a partir da inserção desses “novos usuários”, que geram um conflito inter e intra usos. Estes conflitos serão os determinadores da intervenção do Estado, visando estender a todos os espaços controle e fiscalização, ao adotar sua racionalidade, a do idêntico e do repetitivo. Com isto, ele não vai tentar resolver os problemas existentes, mas estabelecer e consolidar o espaço da circulação através da lógica formalista e funcionalista de intervenção no espaço.
Segundo essa lógica acena-se para o comércio ambulante com a legalização e fixação de sua atividade. São feitos cadastramentos e destinados pontos próprios para o exercício do comércio ambulante na maior parte das cidades brasileiras, fato que leva à incorporação de parte substancial dos comerciantes ambulantes a esta política de fixação, inaugurando- se uma ambiguidade que merece ser tratada: a do comércio ambulante fixado.

Conformismo e resistência
Livro de 1994 da filósofa Marilena Chauí. Ela entende a cultura popular como algo que se realiza, inerente à cultura dominante. Seria, assim, uma mescla de conformismo e resistência. Conformismo pois está inserida na cultura dominante e, resistência pois é, de certa forma, o contrário da cultura dominante.
Modificações quantitativas geradoras e inter-relacionadas a modificações qualitativas que levaram à alteração no atributo de mobilidade do comércio ambulante, bem como, no consequente caráter ambíguo que este mo(vi) mento adquire, por poder, em dados momentos e contextos, embora móvel, fixar-se e, embora fixo, movimentar-se pelo centro. Tudo como resultado dos embates que se dão inter e intra usos e da resultante perspectiva de intervenção racionalizadora do Estado.
Mobilidade e ilegalidade
Resultado do processo de normatização do espaço público, o que a fixação do comércio ambulante representaria? O fim do comércio ambulante ou uma estratégia de resistência adotada pelos envolvidos nesta atividade, visando sua reprodução? A perda de mobilidade com a fixação de parte substancial do comércio ambulante pode servir de argumentação poderosa para anunciar o seu fim, ao significar a incorporação do ideal de dados comerciantes ambulantes em tornarem-se pequenos comerciantes. No entanto, existem outros que aceitam a fixação, mas, nos momentos próprios, deslocam parte de seus produtos para comercializar em pontos melhores, adotando uma perspectiva de aceitação da ordem estabelecida como estratégia capaz de garantir o deslocamento quando possível. Seria o que a filósofa Marilena Chaui denomina de conformismo e resistência , por ser mais interessante considerá-lo ambíguo “(...) capaz de conformismo ao resistir, capaz de resistência ao se conformar. Ambiguidade que o determina radicalmente como lógica e prática que se desenvolvem sob a dominação”. Ambiguidade, nestes termos, que não seria carente de um sentido rigoroso, mas constituída de dimensões simultâneas.
São estas dimensões simultâneas as determinadoras da necessidade de relativização de estudos que consideram o comércio ambulante como móvel e ilegal. O contexto atual impõe a necessidade de ruptura com estas formas rígidas de compreender o comércio ambulante no centro, ao se constatar a incorporação da política de fixação e o aceite do cadastramento como estratégias capazes de viabilizar sua reprodução.
*Eustógio Wanderley Correia Dantas é professor pós-graduado em Geografia pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e bolsista de produtividade do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)
Revista Geografia






