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quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Lagos da Amazônia são 'guerreiros' contra aquecimento global, aponta estudo

Geógrafo brasileiro apontou que as regiões alagadas da Amazônia conseguem armazenar grande quantidade de carbono, um dos gases do efeito estufa. A degradação dessas áreas pode ser catastrófica para o planeta, aponta.




O pesquisador analisou o material orgânico de 13 lagos da Amazônia — Foto: Divulgação



Os lagos da Amazônia são tão importantes para o meio ambiente que foram classificados como "guerreiros" na luta contra o aquecimento global e as mudanças climáticas.


Já a degradação de boa parte deles, principalmente por causa do desmatamento desenfreado da floresta, pode ter grande impacto no planeta.


Essas são duas das conclusões de um estudo produzido pelo geógrafo brasileiro Leonardo Amora-Nogueira, doutor pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e publicado pela revista científica Nature em julho.


Nos últimos anos, o pesquisador percorreu cerca de 1.200 km de floresta para analisar as condições de 13 lagos nos Estados do Pará, Rondônia e Amazonas.



Descobriu que essas águas, mesmo em áreas de relativamente pequeno porte, são capazes de armazenar e absorver grandes quantidades de carbono, um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa que causa o aquecimento global.

"Os lagos da Amazônia armazenam muito mais carbono do que a média de lagos de outros biomas, como as florestas temperadas e boreais, e as regiões polares e subpolares", explica o geógrafo, que realizou o estudo com apoio da Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro).


As análises mostraram que esses lagos acumulam cerca de 113,5 gramas de carbono por metro quadrado ao ano — taxa entre 3 e 10 vezes maior do que regiões alagadas de outros biomas.


O volume gira em torno de 79 milhões de toneladas de carbono por ano — equivalente a 27% das emissões de carbono na atmosfera, aponta a pesquisa.

Os lagos da região amazônica acumulam muito mais carbono que áreas parecidas de outros biomas — Foto: Divulgação

Essas áreas alagadas na Amazônia, que compõem 3% de todos os lagos do planeta, estão próximas a grandes rios da região, como o Madeira, o Amazonas e o Negro.


São as águas deles que carregam a matéria que depois será "enterrada" no fundo dos lagos.


Ou seja, o gás carbônico é produzido pela decomposição do material orgânico da floresta: troncos de árvores, plantas mortas e outros tipos de sedimentos.


"Essa matéria produz muito carbono. Sem os lagos, esse gás iria para a atmosfera, aumentando o efeito estufa", explica Amora-Nogueira, que estuda o tema desde seu trabalho de conclusão de curso na graduação em Geografia.


"Os lagos são fundamentais nesse ciclo de entrada e saída de carbono, pois o material decomposto gera o carbono que, em vez de ir para a atmosfera, fica 'enterrado' no fundo da água", diz.

Humberto Marotta, professor de Geociências da UFF, e o geógrafo Leonardo Amora-Nogueira — Foto: Divulgação

Tipos de água

Na Amazônia, há três tipos de águas que transportam e guardam matéria orgânica: clara, branca e preta. E a coloração de cada uma depende de sua capacidade de carregar esses sedimentos.


A água clara — dos rios Tapajós e Xingu, por exemplo — tem essa tonalidade porque recebe menos material da floresta. São rios que nascem na região central do Brasil.


Os rios de água branca — o Madeira, nascido nos Andes — têm força para levar grande volume de sedimentos, como enormes troncos de árvores que flutuam ao longo de seu curso.


Já os de água preta — o rio Negro, por exemplo — nascem dentro da própria Amazônia e, mais próximos da mata, recebem mais material orgânico das margens, ganhando uma coloração mais escura.


Segundo Amora-Nogueira, ainda são necessários mais estudos para entender como a diferença das águas impacta o armazenamento do gás carbônico na Amazônia.


Por outro lado, o estudo do geógrafo mensurou como o desmatamento afeta a qualidade do serviço de acumuladores de carbono prestado pelos lagos.


"Constatamos que os lagos de áreas desmatadas acumulam de 2 a 3 vezes menos carbono do que as regiões de floresta preservada", explica o pesquisador.


Os lagos da Amazônia são considerados 'guerreiros' contra o aquecimento global — Foto: Divulgação


Ou seja, quanto mais degradada for a área do entorno do lago, menos ele vai atuar e mais gás carbônico vai atingir a atmosfera, piorando o cenário de aquecimento do planeta.


Por causa dessa ação, o pesquisador apelidou os lagos de "guerreiros contra o aquecimento global".


Para Humberto Marotta, professor de Geociências da UFF e orientador de Amora-Nogueira, o estudo aponta para a importância da conservação das áreas alagadas da Amazônia, muitas vezes deixadas de lado nas discussões sobre preservação da floresta.


"Os lagos amazônicos são grandes guardiões contra o aquecimento global. Então, precisamos pensar as áreas prioritária de conservação não apenas para as árvores em pé, mas também para áreas alagadas, que prestam um serviço importantíssimo para o planeta. É preciso pensar sistemas de preservação mais amplos", diz.


Desmatamento

O problema é que o desmatamento da Amazônia continua em ritmo acelerado.


Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre agosto de 2021 e julho deste ano, os alertas de desmatamento alcançaram 8.590 km² da floresta, uma pequena queda de 2% em relação ao mesmo período de 2021.


Foi o terceiro ano seguido que o órgão registrou alertas em uma área superior a 8 mil km² de floresta.


O Pará é o Estado com maior devastação, de acordo com o Inpe. Nele, foram 3.072 km² desmatados no período, seguido pelo Amazonas (2.292 km²), Mato Grosso (1.433 km²) e Rondônia (1.179 km²).


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Lagos que encolhem


Combinações de fatores naturais e interferência humana estão por trás da redução de tamanho de diversos lagos e mares interiores do mundo. Conheça aqui alguns dos casos mais emblemáticos desse fenômeno

Mar de Aral

Deserto criado pela redução do Aral: perdas econômicas e piora na saúde dos habitantes locais (Foto: iStock)

Um dos casos mais emblemáticos de desastre ambiental provocado por interferência humana é o do Mar de Aral, entre o Cazaquistão e o Usbequistão, ex-repúblicas soviéticas. Em seus tempos áureos, o grande lago de água salgada (quarto do mundo em extensão, com cerca de 68.000 km2 de área), abastecido pelos rios Amu Darya e Sir Darya, abrigava uma próspera indústria pesqueira. Nos anos 1960, porém, o governo soviético decidiu desviar água dos dois rios para irrigar plantações de algodão, arroz, melão e cereais no deserto. O Aral começou a diminuir e as partes secas ficaram contaminadas com os pesticidas usados nas plantações. Os ventos espalharam essas substâncias pela região, cuja saúde dos habitantes piorou drasticamente. Em 1987, o lago dividiu-se em duas partes, uma ao norte e outra ao sul, e a salinidade das águas foi aumentando. O Cazaquistão concluiu uma represa em 2005 que separou a parte norte, em seu território, da parte sul. Enquanto a primeira vem recuperando condições de abrigar vida, a segunda segue desaparecendo. As fotos de 1989 e 2014 mostram a dimensão da tragédia.




Mar Morto

Mar Morto: encolhimento em ritmo acelerado (Foto: iStock)

Os 605 km2 do Mar Morto banham territórios de Israel, Jordânia e Palestina. Esse lago salgado está 400 metros abaixo do nível do mar, e sua salinidade é tão alta que não permite vida. Num único dia quente e seco de verão, o nível da água ali pode baixar até três centímetros por causa da evaporação. Abastecido principalmente pela bacia do Rio Jordão, cuja água é desviada para irrigação, o Mar Morto tem encolhido nos últimos anos em ritmo acelerado: seu nível tem baixado cerca de um metro anualmente.­ Além da seca, a indústria de extração mineral (os minerais do Mar Morto têm sido explorados desde a época do Antigo Egito) contribui para o processo. Nas fotos ao lado, de 1972 e 2011, feitas com cores falsas, são visíveis na parte sul do lago (à direita nas imagens) os projetos de evaporação de sal, os quais expandiram muito a área que ocupam.



Lago Urmia

Lago Urmia: afetado pela seca e pelo desvio de água da sua bacia hidrográfica (Foto: iStock)

Situado no noroeste do Irã, o Lago Urmia (ou Orumiyeh) é o sexto maior lago salgado da Terra. No seu apogeu, ele tinha cerca de 5.200 km2 de área, mas nas últimas décadas seu tamanho diminuiu aproximadamente 10%. As observações via satélite revelaram que o nível das águas caiu cerca de quatro metros entre 1992 e 2011. Enquanto o governo do país alega que a redução se deve à seca e ao aquecimento global, muitos cidadãos iranianos afirmam que o problema está diretamente ligado ao represamento de rios que abastecem o lago. Um estudo publicado em 2007 revelou que tanto a seca quanto a intensificação no uso da irrigação na bacia hidrográfica do lago são responsáveis pelo encolhimento.




Lago Salton

Lago Salton: áreas agora secas não são próprias para a agricultura (Foto: iStock)

Localizado a cerca de 200 quilômetros de Los Angeles, o Lago Salton é o maior da Califórnia, com 960 km2. Ele foi formado acidentalmente quando, no início do século 20, águas desviadas do Rio Colorado romperam canais de irrigação e inundaram a parte mais baixa do vale. A região do lago era ocupada há milênios por um mar, o que explica sua salinidade. O Salton é alimentado basicamente pelo escoamento de água usada na irrigação (a região é fortemente agrícola), daquela oriunda de esgotos urbanos, de lençóis subterrâneos e da chuva, além dos rios New, Alamo e Whitewater. Desde meados dos anos 1980 se nota a redução no nível da água, que após 30 anos caiu 2,4 metros. As fotos aqui apresentadas, de 1984 e 2015, mostram em infravermelho o sul do lago, onde as mudanças foram mais nítidas. Elas se devem sobretudo à redução no despejo de águas vindas da agricultura e do esgoto, agora tratadas e destinadas a outras finalidades. As áreas que emergiram não são próprias para a agricultura.


Lago Chapala

Chapala: peixes endêmicos estão sumindo (Foto: iStock)

Maior lago do México, o Chapala situa-se 45 km ao sul de Guadalajara, no estado de Jalisco, e tinha cerca de 1.050 km2 antes de começar a sofrer, nos anos 1970, com as demandas sobre o uso de suas águas. A expansão da agricultura às margens do Rio Lerma, tributário do lago, começou a retirar-lhe volume, mas o principal fator de interferência foi a decisão do governo estadual de usar o lago para abastecer as indústrias e as residências de Guadalajara, a segunda cidade mexicana. Em março de 2001, o Chapala já havia perdido mais de 225 km2 de área, o que corresponde a uma baixa no nível do lago entre 2 e 4 metros desde 1986, como mostram as imagens (em cores falsas) de satélite. Além de quase não fornecer mais água para seu escoadouro, o Rio Santiago, Chapala passou a conviver com mais resíduos de produtos químicos usados na agricultura, metais pesados e sólidos dissolvidos. A fauna também saiu prejudicada: algas e plantas aquáticas exóticas prosperam, enquanto os peixes nativos estão sumindo, assim como aves migratórias e endêmicas que costumavam povoar a área.

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