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domingo, 29 de março de 2026

Consumo digital motivado por influenciadores redefine hábitos e decisões de compra entre jovens


Janaina de Moura Engracia Giraldi analisa como influenciadores digitais moldam hábitos de consumo nas mídias sociais




Influência digital e a formação dos hábitos de consumo – Foto: Freepik

Influenciadores digitais ocupam papel central na construção de preferências, comportamentos e estilos de vida, especialmente entre o público jovem, que já cresceu imerso nas redes sociais. Mais do que divulgar produtos, esses criadores de conteúdo interferem diretamente no processo de decisão de compra, encurtam caminhos entre desejo e consumo e reforçam dinâmicas de validação social que impactam o cotidiano de milhões de pessoas.

Para compreender esse fenômeno, a professora Janaina de Moura Engracia Giraldi, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, explica que o primeiro passo é entender quem são os influenciadores digitais e como eles atuam no ambiente on-line. Segundo ela, o influenciador digital é, basicamente, um criador de conteúdo, que vai utilizar as redes sociais, principalmente Instagram, TikTok, YouTube, para divulgar os conteúdos que ele cria. “Esse conteúdo busca gerar reações específicas do público, conhecidas como engajamento, com o objetivo de criar opiniões, modificar imagens ou comportamento, ou incentivar alguma decisão de compra, em diferentes nichos de mercado”, diz.

Janaina de Moura Engracia Giraldi – Foto: Arquivo pessoal

A professora ressalta que esse modelo de comunicação tem ganhado força, sobretudo entre os jovens. “Esses influenciadores digitais têm um papel cada vez maior na divulgação de produtos e na formação de hábitos entre os consumidores, mas em especial entre esse público mais jovem, que já é nativo digital”, afirma. Para ela, os influenciadores são vistos como inspiração de estilo de vida e como fonte confiável de informação, muitas vezes com mais credibilidade do que a publicidade tradicional. Esse vínculo, segundo Janaina, se constrói ao longo do tempo, a partir da interação e da percepção de autenticidade. “Esse é um ponto-chave. O influenciador consegue exercer esse poder de mudar comportamentos pela sua autenticidade”, explica.

Nos últimos anos, esse cenário foi intensificado pelo crescimento dos microinfluenciadores. De acordo com a professora, marcas têm buscado perfis menores por apresentarem maior proximidade com o público. “Eles têm um público muito cativo, conseguem um altíssimo engajamento e são considerados com alta autenticidade”, afirma. Segundo ela, muitas empresas preferem investir em vários microinfluenciadores a contratar grandes celebridades, já que isso garante menor custo e taxas de conversão mais elevadas.
Impactos

Ao analisar os impactos no comportamento do consumidor, Janaina destaca que a influência exercida vai muito além da promoção de produtos. “Os influenciadores digitais têm um papel central na construção das preferências e dos comportamentos dos jovens e têm impactos que vão muito além da promoção dos produtos”, avalia. Para ela, os jovens veem esses criadores como especialistas em determinados segmentos, o que amplia a credibilidade das recomendações. “Eles podem ver os influenciadores como um grupo aspiracional. Ele quer um dia ser como aquele influenciador, ter aquele estilo de vida”, afirma.

Esse processo, segundo a professora, está ligado à identificação social e à aspiração. “Eles são considerados modelos de comportamento, principalmente aqueles microinfluenciadores, que não são vistos como tão distantes quanto uma celebridade”, explica. Essa proximidade aumenta o poder de persuasão, especialmente em compras de apelo emocional. Janaina destaca ainda que a percepção de autenticidade reduz a resistência do consumidor. “Isso reduz a resistência desse comprador, especialmente do jovem, a aceitar a mensagem.”

Outro ponto levantado é o papel dos influenciadores como líderes de opinião. “Eles ajudam a criar a imagem da marca, porque as características e histórias desses influenciadores acabam se misturando com as da própria marca”, explica. Segundo ela, os influenciadores atuam em várias etapas do processo decisório, desde a descoberta de novas marcas até o pós-compra, quando reforçam a satisfação do consumidor.
Decisões de compra

Uma das questões a se analisar nesse processo é o impacto das tendências nas decisões de compra. “Quando a gente fala que alguma coisa é uma tendência, isso pode funcionar como um nudge, um empurrãozinho”, explica. Segundo ela, a credibilidade dos influenciadores encurta o ciclo de decisão, favorecendo compras por impulso. “Essas recomendações acabam gerando muitas vezes compras quase imediatamente após a exibição do vídeo”, afirma. Esse senso de urgência, segundo ela, pode afetar o bem-estar psicológico dos jovens.

No campo da identidade, Janaina destaca que o consumo vai além da utilidade. “Para o público jovem, o consumo é uma forma de expressar valores, identidade e pertencimento”, afirma. As redes sociais, segundo ela, funcionam como espaço de validação social, onde curtidas e compartilhamentos reforçam escolhas. “Os influenciadores têm um peso muito maior nessa decisão de compra do que uma propaganda tradicional”, avalia.

Por fim, a professora alerta para os riscos associados a esse poder de influência, especialmente nos hábitos alimentares. “Pode, sim, acontecer esse impacto nos hábitos alimentares, principalmente quando os jovens percebem alinhamento entre os seus valores e os valores do influenciador”, explica. Ela destaca a necessidade de regulamentação para evitar abusos, como publicidade disfarçada e falta de transparência. “É preciso uma exigência clara de [mostrar] quando é um conteúdo patrocinado e quando não é”, afirma, defendendo um uso mais responsável dos influenciadores, especialmente por marcas do setor alimentício.

*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


Jornal da USP

quinta-feira, 12 de março de 2026

Produção de roupas baratas tem um “alto custo ambiental e social”









A superabundância de ‘fast fashion’ – roupas prontamente disponíveis e baratas – criou um cenário de injustiça ambiental e social, principalmente em países de baixa e média renda.


Segundo um estudo da Universidade de Washington em St. Louis (Estados Unidos), divulgado na passada sexta-feria no Futurity, a nível mundial, são adquiridas 80 mil milhões de peças de roupa nova por ano, o que significa 1,2 biliões de dólares (cerca de 1,05 biliões de euros) para a indústria da moda.

Relativamente à produção, a China e o Bangladesh são os países que fabricam a maior parte desses produtos. Quanto à aquisição de roupa e tecidos, os Estados Unidos consomem mais do que qualquer outra nação no mundo. Aproximadamente 85% do vestuário que os americanos usam, são depois enviados para aterros sanitários.

“Desde o crescimento do algodão – com uso intensivo de água -, até a libertação de corantes não tratados em fontes de água locais, passando pelos baixos salários e condições de trabalho precárias, os custos ambientais e sociais envolvidos na fabricação de têxteis são generalizados”, refere uma das autoras do artigo, Christine Ekenga.


De acordo com a professora da Universidade de Washington em St. Louis, este é um “problema enorme”, visto que os impactos ambientais e sociais desproporcionais da ‘fast fashion‘ “garantem a sua classificação como uma questão de injustiça ambiental global”.

As consequências negativas de cada etapa da cadeia de fornecimento da ‘fast fashion‘ levaram à criação de um dilema global de injustiça ambiental, afirmam as autores.

“Embora a ‘fast fashion‘ ofereça aos consumidores a oportunidade de comprar mais roupas por menos valor, aqueles que trabalham ou moram perto de instalações têxteis suportam uma carga desproporcional de riscos relativamente à saúde ambiental”, frisam.
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Os padrões de consumo aumentados, referem ainda, criaram milhões de toneladas de resíduos têxteis em aterros e situações não regulamentadas.

“Isto é particularmente aplicável a países de baixa e média renda, já que grande parte desse lixo acaba nos mercados de roupas de segunda mão. Esses países necessitam, frequentemente, de apoios e de recursos para desenvolver e aplicar salvaguardas ambientais e ocupacionais para proteger a saúde humana”, acrescentam as investigadoras.

Além dos riscos ambientais e ocupacionais durante a produção de têxteis, particularmente para os países de baixa e média renda, e da questão dos resíduos têxteis, o artigo aborda potenciais soluções, incluindo fibras sustentáveis, sustentabilidade corporativa, política comercial e o papel do consumidor.
https://zap.aeiou.pt/

O ALTO CUSTO DA ROUPA BARATA




“O barato que sai caro.” Esse popular clichê fica nítido no documentário The true cost (“o verdadeiro custo”), do diretor Andrew Morgan, que investiga as práticas inconsequentes da indústria da moda ao inundar o mercado com roupas de baixo preço e quase descartáveis. O filme denuncia que alguém paga o preço para uma roupa custar muito barato, mostrando histórias chocantes, como um vilarejo em que há uma grande incidência de crianças nascidas com deficiências mentais e físicas devido aos resíduos da indústria têxtil que poluem as águas da região. Mas o documentário também traz uma contraposição: a ação de pessoas que estão trabalhando para mudar essa realidade, como a inglesa Safia Minney, uma das pioneiras do conceito de “comércio justo” no mundo. 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Quem tem o poder de mitigar a mudança climática: negócios ou consumidores?



Hanohiki / Shutterstock

“Segunda-feira sem carne”, “consumir produtos locais e sazonais”, “reciclar”, “usar mais transporte público e viajar menos de avião”, “comprar um carro híbrido ou elétrico” e até “ter menos filhos”. Essas e outras mensagens similares são aquelas que, como cidadãos e, acima de tudo, como consumidores, recebemos continuamente para que, através de nossas decisões, reduzamos nossa presença no planeta e, com ele, lutemos contra as mudanças climáticas.


No entanto, os agregados familiares, especialmente através de transportes privados ou aquecimento, geram diretamente apenas 26% das emissões de carbono da economia espanhola. Os restantes 74% são devidos a decisões de produção tomadas pelas empresas.

No final, são as empresas que decidem como produzir as mercadorias, onde localizam sua produção, quais fornecedores escolhem e se utilizam tecnologias com menor emissão de carbono. De que, de responsabilidade, vamos falar neste artigo.
A pegada das subsidiárias

Em nosso trabalho recente publicado na Nature Communications, avaliamos a pegada de carbono de subsidiárias de multinacionais norte-americanas espalhadas pelo mundo.

Com essa pegada, quantificamos as emissões diretas e indiretas geradas pelas multinacionais quando se trata de produzir bens e serviços que são consumidos em qualquer país do mundo. Assim, obtemos uma pegada de carbono das subsidiárias dos EUA que representa um volume de emissões de carbono maior do que o de muitos países. Por exemplo, essa pegada é quase o dobro das emissões geradas em toda a economia espanhola e as colocaria em um hipotético 12º lugar no ranking mundial dos países mais poluidores.

Do total da pegada dessas multinacionais, 60% correspondem a produtos que são consumidos nos países onde as subsidiárias realizam sua atividade, os 40% restantes são incorporados em bens e serviços que exportam para outros países. Apenas 8% é explicado pelo consumo de bens e serviços por cidadãos dos Estados Unidos.Representação do 'ranking' das emissões e da pegada de carbono das multinacionais norte-americanas. Os autores, Autor

Esses processos de realocação representam um risco para a mudança climática se vazamentos de carbono ocorrerem. Ou seja, se as empresas decidirem localizar parte de sua produção em países com leis ambientais mais frouxas. No entanto, essa mesma realocação pode ser uma oportunidade de mitigação se os critérios de sustentabilidade ambiental também forem levados em conta nas decisões de produção.

Por exemplo, as empresas podem selecionar fornecedores com certificados com garantia verde. Eles podem usar papel reciclado para suas embalagens ou mover suas mercadorias usando transporte elétrico. Ainda mais em um contexto no qual a maioria das emissões de CO₂ não são geradas diretamente por essas subsidiárias, mas são geradas por empresas que fornecem bens intermediários e energia nesses países.
"Segundas-feiras sem carne"

Um bom exemplo de manejo sustentável pode ser encontrado se falarmos novamente sobre "segunda-feira sem carne". Como as empresas podem reagir ao fato de que parte de seus consumidores exigem menos consumo de carne?

Por exemplo, a multinacional de fast food Burger King está avaliando, em colaboração com a empresa Imposible Foods , a possibilidade de incorporar hambúrgueres vegetais que degustam e sangram da mesma forma que os hambúrgueres de vitela: o Wopper Impossível.O Impossible Whopper, do Burger King. 

Na prática, a introdução desta opção implica uma mudança na cadeia de fornecimento, reduzindo a demanda por carne de vitela e aumentando a de proteínas à base de plantas, o que geraria uma redução significativa na pegada de carbono.

No entanto, essa ação deve ser complementada com outras na mesma linha para ser totalmente eficaz. Por exemplo, usando eletricidade em seus estabelecimentos que têm um certificado de origem verde , optando por fornecedores e distribuidores com veículos elétricos ou incentivando o uso de transporte público por seus trabalhadores quando eles se mudam para o local de trabalho.
A hora de agir é agora

Os compromissos de mitigação feitos pelos 185 países que ratificaram o Acordo de Paris ou as políticas que estão sendo realizadas pelos prefeitos de numerosas cidadesdo planeta, até agora se mostraram insuficientes. Assim, vimos recentemente como a estudante Greta Thunberg conseguiu abalar as consciências do continente europeu e proclamar uma ação política maior para conter a “crise climática”.

Multinacionais, com seu imenso poder econômico, também têm considerável responsabilidade ambiental. Eles são forçados a se tornarem atores principais na luta contra as mudanças climáticas. Seu desempenho relatará vantagens, já que eles podem cruzar fronteiras e influenciar centenas de milhares de empresas que lhes fornecem bens.Fluxos de carbono incorporados nas exportações de multinacionais dos EUA. Os autores, Autor

Além disso, os compromissos de mitigação das mudanças climáticas dos países serão mais facilmente adotáveis ​​se as multinacionais perceberem os riscos que a inação implica para seus negócios: da perda de consumidores à dificuldade de acesso ao financiamento no mercado de capitais. .

Algumas empresas já estão assumindo um preço interno de carbono para avaliar como seus negócios serão afetados pela possibilidade de estabelecer impostos sobre carbono.

Da mesma forma, essas empresas estarão mais propensas a tomar medidas para reduzir sua dependência de carbono se perceberem os benefícios que podem obter: da redução dos custos de energia associados ao autoconsumo de energia renovável à lealdade dos consumidores cada vez mais conscientes da crise Clima


Luis Antonio López Santiago , professor de Fundamentos de Análise Econômica, Universidade de Castilla-La Mancha ; Guadalupe Arce González , professora adjunta da Universidade Complutense de Madri ; Jorge Enrique Zafrilla Rodríguez , Médico Interino Interino - Fundamentos de Análise Econômica, Universidade de Castilla-La Mancha e Maria Angeles Cadarso , Professora Universitária, especialista em economia e meio ambiente, Universidade de Castilla-La Mancha

Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation . Leia o original .

quarta-feira, 27 de março de 2019

A influência do consumo


Uma ampla abordagem sobre os supérfluos essenciais e a cultura do hedonismo

Paulo César Galetto | Foto Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca


Promovida pela aceleração do consumo e ainda sugestionada pela mídia, pelas facilidades e confortos que a tecnologia nos proporciona, além de outros recursos disponíveis, somos constantemente influenciados e estimulados a conviver com o ideal do ego em uma cultura em que tudo é possível, tudo pode ser adquirido.

Pressionadas por essa cultura hedonista, as pessoas vivem atualmente em busca de um padrão de vida perfeito. Este novo cenário traz uma apologia sobre o que é necessário e o que é supérfluo, tornando-se este último, o essencial.

É fato que os processos de mudança fazem parte da nossa evolução e estão em evidência nos dias atuais. Tais eventos, por sua vez, trouxeram um aumento da necessidade de consumir que leva a um aumento da necessidade de produzir que por sua vez leva à necessidade de utilizar cada vez mais recursos. O esquema abaixo ilustra a situação apresentada.
A relação do consumo com a produção


Como reflexo desse ciclo, significativas mudanças ocorrem em todas as esferas, sociais, culturais e econômicas, e como consequência disso, também está influenciando a psique humana.

Se o supérfluo tornou-se necessário, será que atualmente vivemos em um mundo em que as aparências são mais importantes do que o conteúdo?

“Nada é o bastante para quem
considera pouco o que já é suficiente”.
Aristipo, filósofo grego

Sobre outro viés, as empresas já projetam seus produtos para serem descartados, chama-se isto de “descartabilidade”, ou seja, os produtos já são produzidos com um ciclo de vida cada vez menor, estimulando as pessoas a consumirem ainda mais.

Ao mesmo tempo, essa cultura tem produzido um sentimento de vazio e não foi capaz de livrar as pessoas do desamparo, da ilusão e da culpa. Sob este ponto de vista, será que é por isso que as neuroses, as angústias e estados depressivos estão cada vez mais evidentes em nossa época?


Se por um lado tivemos um amplo desenvolvimento para a sociedade, por outro podemos pensar que também tivemos mudanças de hábitos de consumo. Em paralelo, as empresas e a mídia descobriram ao longo das décadas através de estudos do comportamento, as fragilidades mais íntimas do indivíduo.

Fica evidente neste caso que, se há um público consumidor para determinada mercadoria produzida compulsoriamente, há uma necessidade de influenciar as condutas individuais.

Bauman (2005) descreve quando nossa capacidade de querer, desejar e de experimentar novas emoções passou a ser estimulada pela mídia, repetidas vezes, o consumo adquire o status de consumismo. Sendo assim, que fatores que levam as pessoas a serem compulsivamente consumistas?

“A ânsia de um reconhecimento
e a busca desenfreada para ocupar
tal lugar na sociedade geram
nas pessoas estados depressivos,
baixando sua autoestima, caso o
indivíduo não esteja preparado,
pois se sente frustrado.” Zimerman (2010, p 20).
Diferença entre o consumo e o consumismo

Mancebo (2002) define o consumo como o conjunto de processos socioculturais nos quais se realizam a apropriação e os usos dos produtos para atender as necessidades de sobrevivência.

Já o consumismo, segundo Aguiar (2002), tem origens emocionais, sociais, financeiras e psicológicas. Tudo isso, leva as pessoas a gastarem exageradamente, com o objetivo de suprirem alguma indiferença social, a falta de recursos financeiros, a baixa autoestima ou a perturbação emocional.


A cultura pós-moderna, cada vez mais, utiliza uma linguagem simbólica instituída pelo capitalismo através dos padrões de beleza, moda, marcas, status, etc. Sendo assim, cada vez mais as empresas vendem suas mercadorias projetadas para serem descartadas com maior rapidez, ditadas pelas tendências de mercado, baseados nas supostas vantagens e benefícios, e não pela real necessidade. Por sua vez, as pessoas assumem uma posição alienada de si, pois sua satisfação deve ser imediatamente atendida.

Se a cultura do excesso e a globalização passaram a ser uma ausência de fronteiras, então significa que o imediatismo exacerbado do “ter”, deixou o “ser” em segundo plano. Será que não existem mais fronteiras para mente?

Atualmente, o decorrente desejo pelo supérfluo e satisfação imediata através do consumismo está evidente em todas as camadas sociais. E está adquirindo um papel fundamental em nossa cultura e que através do consumismo, os valores humanos agora são outros.

Entretanto, Birman (2006) alerta sobre o assédio e os excessos do mundo pós-moderno como, por exemplo: frustração, culpa e desejos não atendidos, entre outros sentimentos podem manifestar-se, trazendo consequências psíquicas para o corpo.
O comportamento do consumidor

Podemos destacar como, por exemplo, John W. Watson, fundador do conceito “Behaviorismo” (comportamento); seus estudos foram essenciais para as organizações entenderem que uma propaganda repetitiva através de um forte apelo emocional reforçaria uma resposta e levaria a certos hábitos de compra.

Ernest Dichter, criador das pesquisas motivacionais, teve como base de estudos a psicanálise de Sigmund Freud e com estas referências, a ciência do comportamento ganhou uma posição mais segura.


A partir desses conceitos, as pesquisas de marketing e de motivação começaram a ter uma finalidade específica para as empresas, não só vender o produto, mas também a de descobrir as motivações ocultas nas pessoas.

Surgiu um novo campo de estudo, o estudo do comportamento dos consumidores, através de influências de Freud, Newman, Kanota, e Engel. As ciências comportamentais tornaram-se foco de estudo nas faculdades de Administração. O comportamento do consumidor começou a ser visto como um amplo campo de
pesquisa, envolvendo outras áreas do conhecimento como economia, marketing, psicologia e outras ligadas às ciências comportamentais, como sociologia e antropologia.

O exemplo de Engel (2005), que relata um caso de uma pesquisa de motivação foi utilizada observando que as mulheres assam um bolo a partir do desejo inconsciente de dar a luz. Descoberto isso, uma campanha desenvolvida pela Pillsbury capitalizou-se em cima da frase “Nada transmite tanto amor como algo saído do forno”.

Com base nessas pesquisas adquiriu-se novos conhecimentos e as empresas começaram a utilizar diversas técnicas para influenciar o comportamento do consumidor com declarações subliminares, atraindo-as pelo inconsciente com métodos para alcançar a mente das pessoas, induzindo-as e fazendo-as responder conforme o anunciante pretendia. Todas essas as ações desenvolvidas são estratégias de mercado para lançar seus produtos.

Sheth (2008) descreve que o comportamento do cliente é definido como as atividades físicas e mentais realizadas pelo cliente e que resultam em decisões e ações como comprar e utilizar um produto ou serviço bem como pagar por ele. O comportamento do consumidor é como atividade diretamente envolvida em obter, consumir e dispor de produtos e serviços, incluindo processos decisórios que antecedem e sucedem as ações.

Isto significa que: para o consumidor adquirir um produto é necessário passar por um processo de decisão de compra, pode-se destacar que ele precisa ter uma necessidade e um desejo em evidência.

No campo da Administração este processo decisório é definido como positivismo lógico, no qual há dois objetivos principais que precisam ser alcançados:

1. Entender e prever o comportamento do consumidor e;

2. Descobrir como influenciá-lo.
Variáveis que moldam a tomada de decisão e o comportamento de compra

As variáveis são determinadas por vários fatores, divididos em três categorias, conforme o esquema a seguir:


Importante enfatizar que, quando comportamento energizado é positivo, acelera o processamento de informação e reduz o tempo de decisão na seleção de produtos apropriados. E como as empresas projetam suas estratégias para descobrir essas influências motivadoras para satisfazer uma necessidade?

Tudo começa quando há um reconhecimento da necessidade. Uma necessidade é ativada e sentida à medida que esta energia aumenta e conduz a pessoa em direção a um objeto. Freud chamou isso de pulsão (impulso ou libido). E quanto maior é a pulsão, maior a investida e urgência em satisfazê-lo. Aqui pressupõe a falta que antecede a necessidade.


As empresas que estão atentas a esses fatores conseguem promover produtos que são mais eficazes para aumentar a urgência de atender este impulso. Estimulando certos padrões de comportamento e na busca para a satisfação de uma necessidade, estes surgem para funcionar como desejos.

Se uma pessoa tem sede ou fome, por exemplo, sente um desconforto, um desprazer (neste caso a falta de nutrientes); ou seja, uma necessidade biológica. Neste momento o comportamento é ativado, e o produto oferecido leva às associações positivas, que ativam estes impulsos. Essa necessidade quando ativada, conduz o indivíduo em direção ao objeto e ele passa a comportar-se de acordo com este desejo.

Neste caso, as empresas utilizam estratégias para ativar esta motivação pela aproximação. Este conceito é utilizado para descrever seus esforços reduzindo as associações negativas para aproximar o cliente do produto, oferecem certo tipo de compensação. Tudo isso tem um sentido óbvio: Fazer os consumidores se sentirem bem. Isto quer dizer que as necessidades podem ser criadas?

Segundo Engel (2008) é possível, pois já está evidente que os profissionais de marketing induzem a um hábito e a um novo padrão de comportamento, manipulando as pessoas a comprarem coisas que não precisam.

Por exemplo: A empresa lança a seguinte mensagem: “Você precisa deste produto porque você merece estar bem”.

Este forte apelo emocional segundo Engel (2008), remete inconscientemente a uma autogratificação e pode reforçar a autoestima e como consequência leva a um comportamento merecido, ou seja, neste caso, a frase acima pode induzir e envolver o consumidor a algo que realmente ele necessita, ou acha que necessita.

Entretanto, esta arte de influenciar as atitudes e comportamentos das pessoas é uma das tarefas fundamentais, porém mais desafiadoras que as empresas enfrentam atualmente para conquistar seus consumidores.
Revista Conhecimento Prático Filosofia

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ascensão e queda do consumismo

A terra precisa atualmente de quase 18 meses para repor o que a humanidade lhe tira em um ano. Para continuarmos a viver do que o planeta pode nos oferecer, só há uma alternativa: transformar substancialmente nossos padrões de consumo

Por Eduardo Araia

Algumas perguntas que estão, mais do que nunca, na ordem do dia: você precisa mesmo levar todas as suas compras de supermercado em sacolas plásticas? É indispensável ter na garagem aquele utilitário esportivo tão imponente quanto gastador? E o banho de 15 minutos, que tal encurtá-lo?

A revisão dos atuais (e inviáveis) modelos de consumo já havia sido objeto de um contundente alerta em novembro de 2009, dado pela organização internacional Global Footprint Network: de acordo com um estudo produzido por ela, a Terra precisa atualmente de quase 18 meses para produzir os serviços ecológicos que os quase 7 bilhões de humanos utilizam em um ano.


segundo o Worldwatch institute, um exame cuidadoso da rotina dos membros da “classe consumidora global” mostra que há várias situações nas quais é possível consumir de forma mais sensata e sustentável.

Invertendo a equação, estamos consumindo praticamente um planeta e meio em 12 meses. Não é preciso ser gênio para perceber que a conta não fecha. No atual ritmo, dizem os autores do estudo, no início da década de 2030, precisaremos de duas Terras para atender a nossa demanda anual – um nível tão alto de gasto ecológico que poderá causar um colapso de ecossistemas de grandes proporções.

No início deste ano, a advertência foi renovada, algumas oitavas acima, pelo Worldwatch Institute – uma das mais importantes instituições de pesquisa sobre desenvolvimento sustentável do mundo, sediada em Washington –, por meio de um impecável relatório, o State of the World 2010 – Transforming Cultures: From Consumerism to Sustainability (Estado do Mundo 2010 – Transformando Culturas: do Consumismo à Sustentabilidade). O trabalho, assinado por 60 autores, se apoia em uma profusão de números e informações, demonstrativos do descalabro consumista em que o mundo está mergulhado, para propor uma transformação radical nesse quadro.

“Os padrões culturais são a causa de uma convergência sem precedentes de problemas econômicos e sociais, incluindo a mudança do clima, uma epidemia de obesidade, um enorme declínio na biodiversidade, perda de terras agricultáveis e produção de resíduos tóxicos”, afirma Erik Assadourian, diretor do relatório. Devolver a saúde a esse quadro exige uma proposta de aplicação urgente: a necessidade de uma transformação radical dos padrões culturais dominantes, que segundo o economista bengali Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz de 2006, assinala no prefácio, envolve “uma das maiores mudanças culturais imagináveis: a partir de culturas de consumo para as culturas de sustentabilidade”.

NO RITMO DE HOJE, NO INÍCIO DOS ANOS 2030 PRECISAREMOS DE DUAS TERRAS PARA ATENDER A NOSSA DEMANDA ANUAL

Uma das iniciativas que se encaixam na proposta de um consumo mais sustentável é a incorporação ao cardápio de alimentos saudáveis, produzidos no local de acordo com princípios ambientais.
Como toda ação que mexe fundo na mente humana, essa promete inúmeras dificuldades. Afinal, o consumismo – “uma orientação cultural que leva as pessoas a encontrar sentido, felicidade e aceitação por aquilo que consomem”, na definição do Worldwatch Institute – pode parecer, ao olhar comum, algo indistinto da necessidade de consumir. De repente vamos deixar de comer, beber, nos vestir, tomar banho, usar meios de transporte ou investir em lazer? Claro que não. Mas um exame detalhado da rotina dos mais de 2 bilhões de pessoas que, segundo a instituição norte-americana, integram a “classe consumidora global” (o que muito provavelmente inclui você, leitor desta revista) revela que há vários aspectos em que é possível, sim, consumir com mais sensatez e economia de recursos.

Deve-se salientar, porém, que temos de aprender como fazer isso em ritmo acelerado, porque a inércia, nesse caso, é sinônimo de implosão do consumismo e de riscos substanciais para a própria necessidade de consumir. A discussão proposta pelo Worldwatch Institute precede, inclusive a grande polêmica sobre o aquecimento global que, bem ou mal, tem mobilizado a maior parte dos países do mundo.

Como menciona o estudo, quaisquer medidas adotadas pelos governos ou iniciativas científicas nesse sentido serão inúteis sem que as pessoas adotem um modelo mais simples de vida. “Para prosperar no futuro, as sociedades humanas terão de mudar suas culturas a fim de que a sustentabilidade se transforme na norma e o consumo excessivo, em tabu”, afirma Assadourian.

O State of the World 2010 informa que, em 2006, o consumo total no mundo em bens e serviços atingiu US$ 30,5 trilhões – 28% a mais do que dez anos antes, observa Fátima Cardoso, do Instituto Akatu, em texto que aborda o estudo. À medida que sua renda cresce, as pessoas usam mais recursos na aquisição de bens de consumo. “Somente em 2008, foram vendidos no mundo 68 milhões de veículos, 85 milhões de refrigeradores, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones celulares”, ressalta Fátima.

O aumento de demanda implica, naturalmente, um incremento na utilização de recursos naturais. Ao longo de 55 anos, entre 1950 e 2005, a produção mundial de metais foi multiplicada por 6; o consumo de petróleo, por 8; e o de gás natural, por 14.

A distribuição desse consumo retrata a desigualdade mundial. Em 2006, os 65 países com maior renda – cuja maioria dos habitantes, que totalizam 16% da população mundial, esbanja consumismo – responderam por 78% das despesas planetárias em bens e serviços. Líderes disparados dessa lista de desproporção, os Estados Unidos conseguiram, com apenas 5% da população terrestre, abocanhar 32% do consumo do planeta. “Se todos vivessem como os americanos, o planeta só comportaria uma população de 1,4 bilhão de pessoas”, sublinha Fátima no texto.

Outro número ressaltado no relatório é o consumo médio de recursos naturais feito diariamente por um norte-americano: espantosos 88 quilos, ou seja, mais do que o peso da maior parte da população do país. Um europeu médio consome 43 quilos – menos que a metade dos norte-americanos, mas ainda assim um valor muito alto.

O State of the World 2010 mostra, no entanto, que não basta apenas europeus e norte-americanos fazerem uma revisão radical em seus modelos de consumo. Um padrão considerado médio, como o da Tailândia ou o da Jordânia, já supera o nível adequado. (A propósito, o estudo do Global Footprint Network já mencionava que, atualmente, 80% dos países usam mais biocapacidade do que a disponível em seu território.) Para agravar o quadro, a poderosa expansão econômica da China e da Índia – os dois países mais populosos da Terra – está despejando um formidável contingente de pessoas na “classe consumidora global”, com impacto ainda difícil de prever.

Isso só aumenta a necessidade de uma revolução global nesse setor, que, quando estiver concretizada, deverá mudar substancialmente nosso cotidiano. O relatório traz diversos casos em que iniciativas por vezes aparentemente simples geram reflexos benéficos em diversos setores. Um desses exemplos é o de cardápios escolares que estão sendo reformulados na Itália e em outros países para usar alimentos saudáveis, produzidos no local e de acordo com princípios ambientais.

CHINA E ÍNDIA ESTÃO COLOCANDO UM ENORME NÚMERO DE PESSOAS NA CLASSE CONSUMIDORA GLOBAL E O IMPACTO DISSO AINDA É DIFÍCIL DE PREVER

Outras ideias mencionadas no estudo são o cultivo de alimentos em hortas comunitárias, o empréstimo (em vez da compra) de livros e brinquedos em bibliotecas, a troca rotineira do transporte individual pelo coletivo e, inclusive, o processo de manufatura dos produtos: eles teriam de ser elaborados para durar a vida inteira e ser inteiramente recicláveis.

À primeira vista, o relatório do Worldwatch Institute pode parecer quixotesco em seu desejo de transformar bilhões de corações e mentes em um prazo relativamente curto. Mas talvez não haja melhor momento para isso do que agora, reconhece seu presidente, Christopher Flavin: “Enquanto o mundo luta para se recuperar da mais séria crise econômica global desde a Grande Depressão, temos uma oportunidade sem precedentes para nos afastarmos do consumismo. No fim, o instinto humano de sobrevivência deve triunfar sobre a compulsão de consumir a qualquer custo.”


ALGO DE PODRE NO REINO DA ITÁLIA
Por Luis Pellegrini


E no resto do mundo também. Em 1990, percebi que algo muito estranho acontecia no meu país de origem, a Itália. Eram os dias da Copa do Mundo de futebol quando cheguei a Roma para ser hóspede na casa de um velho amigo, no bairro Nomentano.

Primeira surpresa: As calçadas do Corso Trieste, a mais bonita artéria do bairro, estavam literalmente forradas com espessos tapetes de falsa grama verde. Chovera pouco antes, encharcando os muitos quilômetros de erva plástica. Quando a gente caminhava sobre ela, ouvia o barulho dos sapatos fazendo flop-flop e respingando água para os lados. “Para que serve isso?”, perguntei, atônito, a meu amigo, Inigo zammarano. Ele, que não é romano e sim napolitano, respondeu com a fleuma habitual de seus conterrâneos: “Para encher ainda mais os bolsos dos políticos que administram a cidade. Imagine o que eles não ganharam de comissão só com essa falsa grama, totalmente inútil e além do mais muito feia...”

Segunda surpresa: no segundo dia dessa viagem, às 9 horas desci à rua para tomar meu café da manhã, um capuccino e um croissant. Pois bem: o garçom que me serviu usava uma camisa Valentino de seda pura, toda decorada com os “Vês” da grife e que, eu sabia, custava a bagatela de uS$ 800! Na tarde anterior, por coincidência, vira a camisa na vitrine da butique Valentino, na Piazza di Spagna, e me espantara com o preço.

Terceira Surpresa: Inigo resolveu organizar um jantar em minha homenagem e convidou uns dez amigos e amigas dos tempos em que éramos todos estudantes em Roma. Não nos víamos havia uns 15 anos e aquela seria uma maravilhosa oportunidade de reencontro. No jantar, comeu-se e bebeu-se à italiana, de modo farto e prazeroso. Tudo corria muito bem até que, na hora do cafezinho servido na sala, senti que algo estava errado.

Estavam todos chiquérrimos, com roupas de grife, riam muito e havia quase três horas não falavam de outra coisa que não fossem... roupas de grife e costureiros. Ou, como gostavam de dizer, estilistas. Teciam considerações importantíssimas sobre o tamanho da barra das calças do Versace naquele ano, do novo ponto de tricô do Missoni, do corte enviesado do Armani, das musselinas dos longos do Valentino, das fendas supersexy das saias de Cavalli e Dolce & Gabbana.

Tínhamos sido, no entanto, eu e as demais pessoas do grupo, colegas de escola, amigos íntimos, namorados, amantes e ninguém ainda me perguntara como eu estava, onde morava, se casara, se tinha filhos, em que trabalhava, se estava vivo, se já morrera e era apenas um fantasma. Nada. Quando tentei mudar o rumo das conversas e comecei a fazer perguntas pessoais, respondiam com monossílabos e rapidamente voltavam aos comentários de corte e costura.

Eu ouvia aquele blablablá ao mesmo tempo que imagens dos meus 20 anos, quando fui para Roma trabalhar e estudar, e quando conheci aquele pessoal todo, saltavam da memória, incitando-me à comparação. Quando cheguei lá, no final da década de 60, fui morar naquele mesmo bairro. Lembro-me bem que, nas manhãs de sábado, os homens da rua se reuniam nas calçadas para lavar seus carros. Carrinhos baratos da Fiat, Cinquecentos, Seicentos, comprados à prestação.

O país, naqueles tempos que hoje me parecem pré-históricos, ressurgia das cinzas da Segunda Guerra, última de uma sequência multissecular de conflitos catastróficos e penosos. Mas os valores tradicionais de economia rígida, de poupança, de consumir apenas o necessário e não desperdiçar nada – típicos da cultura italiana e da europeia em geral – estavam muito vivos na memória das pessoas.

Como fora possível que, em apenas 15 anos, tudo isso se perdesse, arrastado no tsunami insensato da società del benessere, a “sociedade do conforto e da prosperidade” preconizada pelo Partido Socialista, então no poder, comandado por Bettino Craxi e sua gangue? Algo estava errado, podre, no reino da Itália.

O desmoronamento de Craxi e dos que lhe faziam a corte aconteceu logo em seguida, no processo de assepsia policial e judicial conhecido como mani pulite (“mãos limpas”), e provou isso. Mas a verdade é que Craxi e cia. eram apenas a ponta do iceberg, o topo de uma pirâmide de equívocos que começava bem mais embaixo. Eram apenas o sintoma mais evidente de um fenômeno muito mais importante: a perigosa invasão da identidade tradicional italiana pela cultura da produtividade e do consumismo insustentáveis, oriunda do capitalismo selvagem norte-americano.

Cada povo tem o governo que merece, diziam os romanos antigos. Correto. Embora ainda mais apropriado fosse dizer que cada governo reflete o povo que o elegeu.

10 . AÇÕES PARA INÍCIO IMEDIATO
Consumir (e poluir) menos não significa renunciar a tudo imediatamente. Eis o que se pode fazer, com pouco esforço, a partir de agora.

1 Beba água da torneira filtrada, em vez da água mineral embalada em garrafas de plástico

2 Coma sobretudo frutas e verduras da estação. Prefira alimentos frescos, não embalados

3 Diminua ao máximo a ingestão de alimentos congelados – comida em geral de pouca qualidade, cuja produção requer o consumo de muita energia.

4 Quando possível, substitua a carne por um prato de vegetais. A pecuária de bovinos (sobretudo a intensiva) é uma importante fonte de poluição. Além disso, o consumo excessivo de proteínas faz mal à saúde.

5 Antes de ligar o automóvel, pergunte-se: “É realmente indispensável que eu use este meio de transporte?”

6 Substitua as lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes, que consomem muito menos energia. Em vários países, sobretudo europeus, as lâmpadas normais não serão mais comercializadas a partir deste ano.

7 Evite ao máximo o uso de sacolas de plástico. Habitue-se a usar uma shopping bag, um sacolão de compras de algodão que pode ser lavado e reutilizado muitas vezes.

8 Não use pratos e copos de plástico descartáveis. Utilize pratos e vasilhas de plástico, louça ou outro material lavável e reutilizável, ou no máximo pratos em plástico 100% biodegradável.

9 Substitua os guardanapItálicoos de papel por guardanapos de algodão.

10 No Natal e nos aniversários, presenteie as crianças com brinquedos que não precisem de pilhas e que usem a menor quantidade de plástico possível. Há grande variedade de brinquedos não poluidores, como os feitos com tecidos ou madeira colorida.

PEGADA ECOLÓGICA

A pegada ecológica indica quanto território é usado por um indivíduo, uma família, uma cidade, uma região, um país ou a humanidade inteira para produzir os recursos que consome e absorver os detritos que gera. a pegada ecológica da humanidade é atualmente de 2,2 hectares (22 mil metros quadrados) per capita. em países desenvolvidos, como a itália e a frança, ela gira ao redor de 5 hectares (50 mil m²). o cálculo da pegada ecológica pode ser feito em sites como o da WWf Brasil (www.wwf.org.br).

EVOLUÇÃO DA CONSCIÊNCIA CONSUMISTA

Para o sociólogo italiano Franco Ferrarotto, já é possível detectar na sociedade atual da produtividade e do consumismo uma mudança de estado de consciência. “A crise, que antes era apenas financeira e dizia respeito aos bancos e à sua ‘bulimia’, ou seja, a desmesurada intenção de produzir lucro a qualquer preço, agora atinge muito mais o plano produtivo e, assim sendo, alcança em primeiro lugar a empresa média: as encomendas diminuíram, é preciso que um número maior de trabalhadores permaneça em casa”, diz Ferrarotto. No caso dos europeus, as consequências da crise já são bem evidentes. As pessoas poupam mais, cortam ao máximo o consumo supérfluo: vai-se menos a restaurantes, compram-se roupas usadas, a classe média interrompe as lições de piano, o adolescente deixa de ganhar sua moto no aniversário. Tudo isso é luxo e pode esperar.

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