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domingo, 17 de julho de 2011

O muro que dividiu o século


Denis Russo Burgierman

O jovem operário Peter Fechter, 18 anos, sabia que era proibido pular o muro que separava Berlim Ocidental de Berlim Oriental. Sabia também que o governo de seu país — a Alemanha Oriental — estava empenhado em evitar que milhares de emigrantes continuassem deixando o país todos os dias em busca de salários melhores e de mais liberdade do outro lado. Mas certamente não calculou direito o risco de afrontar as regras. Era o dia 17 de agosto de 1962. Fechter ultrapassou as cercas de arame farpado e se aproximou do paredão para pulá-lo.
O que se seguiu — uma saraivada de balas, 24 das quais cravadas no corpo do rapaz — marcou profundamente a história deste século. Fechter se tornou a primeira das mais de 800 vítimas do Muro de Berlim. Sangrou por quase 1 hora, até morrer. Nenhum dos soldados autores dos disparos ousou aproximar-se. Queriam que servisse de exemplo. Aquela fronteira era para valer.
Um ano antes, em 13 de agosto de 1961, ela fora levantada literalmente da noite para o dia. Não separava só a Alemanha Oriental da Ocidental. Até 9 de novembro de 1989 cortou o mundo em dois. De um lado, um bloco sob a influência capitalista dos Estados Unidos; do outro, os países comunistas liderados pela União Soviética.
Ambas as superpotências consolidaram-se em 1945 com a vitória na Segunda Guerra Mundial sobre a Alemanha. Mas a história da fronteira berlinense é bem mais antiga. Começou em 1918, no fim da Primeira Guerra, quando a União Soviética já adotara o comunismo; continuou com a Guerra Fria, o confronto permanente, embora não consumado, entre comunismo e capitalismo; e foi até 1989, quando finalmente caiu, sob os gritos de "viva!" da população. Símbolo de uma era, seus últimos nacos hoje são disputados em leilões. Custam milhares de dólares. Grupos de artistas também lutam para manter de pé os poucos trechos que não caíram. Claro, trata-se de uma ruína preciosa: conta, como nenhuma outra obra humana, a história tumultuada do século que está por terminar.

drusso@abril.com.br
O Muro de Berlim, com 155 quilômetros de extensão, rodeava toda a parte ocidental da cidade. Media 3 metros de altura e era vigiado do alto de 302 torres por 14 000 soldados. Cruzava um rio, dois lagos, quatro linhas de metrô e cinco trilhos de trem.
Um mundo separado do outro
Para ser bem preciso mesmo, é necessário estabelecer o início da história do Muro de Berlim em 1918, quando a capital alemã era ainda uma só, à mercê dos bombardeios ingleses. A Primeira Guerra Mundial, que deixou a Alemanha destruída e sedenta de vingança, estava no fim, a União Soviética já era comunista e os Estados Unidos temiam sua expansão.
Em 1933, um atentado terrorista até hoje não esclarecido incendiou o prédio do Parlamento alemão — o Reichstag —, que fica muito próximo da linha onde seria construída a fronteira de tijolos. Foi o pretexto que o primeiro-ministro Adolf Hitler esperava para se tornar um ditador de verdade.

Tiro pela culatra
Cinco anos depois, ele começa a invadir os países vizinhos da Alemanha, pensando em construir seu próprio império. Mesmo com as selvagerias que praticou, perdeu a guerra e acabou suicidando-se em 1945, depois de passar meses escondido em um buraco no chão. Bem abaixo de outro local perto de onde passaria o muro.
O ditador sonhava fazer de Berlim a capital do mundo, mas o tiro saiu pela culatra. A Segunda Guerra transformou Washington e Moscou nos centros de um planeta polarizado. A Berlim coube o menos nobre e mais terrível dos papéis — o de fronteira.
No fim da guerra, quase toda a Europa estava destruída. Estados Unidos e União Soviética se apressaram em recolher os cacos. A Alemanha, derrotada, foi fatiada entre os aliados. Berlim também. "O plano era transformar a Alemanha em um país agrário para sempre", diz Christian Lohbauer, especialista em política alemã da Universidade de São Paulo (USP).
Só que, temendo o crescimento da influência soviética, que já se espalhava por todo o leste da Europa, os americanos mudaram de tática. Começaram a dar dinheiro para os germânicos, ex-inimigos, reconstruírem seu país. "A idéia era fortalecer os países sob sua influência", diz a cientista política Cristina Soreanu Pecequilo, da USP. "Tentavam provar que ser capitalista era mais vantajoso que ser socialista." Deu resultado. Milhões de alemães da área soviética espiavam a prosperidade por cima do muro, então invisível, e corriam para o outro lado.

Saída para o oeste
Para frear o êxodo, em 1949 os alemães do Leste transformaram a área sob influência soviética em um país, a Alemanha Oriental, e fecharam suas fronteiras. Berlim Ocidental ficou ilhada na nova nação. Só que os alemães orientais, descontentes, continuaram cruzando a fronteira em massa.
A solução encontrada para estancar a sangria foi prosaica e, ao mesmo tempo, apavorante. Construiu-se um muro de 3 metros de altura, fatiando praças em duas, deslocando túmulos de cemitérios, cortando lagos, interditando avenidas movimentadas, separando famílias e impedindo que trabalhadores chegassem aos seus empregos. Em 1967, o governo comunista recuou uns 100 metros em seu território e fez um segundo muro, "por segurança". Qualquer um que entrasse nessa "terra de ninguém" entre os muros era fuzilado sem direito a explicações.
Ele era "maciço, como se tivesse sido construído para sempre", escreveu o escritor alemão Günter Grass, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura deste ano. Mesmo assim, não resistiu ao assoprão do premiê russo Mikhail Gorbatchev, que, no final de 1988, liberou os países aliados para decidirem seu próprio destino. Em setembro de 1989, a Hungria acatou as recomendações do líder soviético e abriu a fronteira com a Áustria. Na mesma hora, centenas de milhares de alemães orientais se precipitaram para a Hungria para fugir para o Ocidente por lá. De repente, a muralha indevassável tornara-se inútil. Não houve outro remédio senão derrubá-la. E isso foi feito. Sem guerra nem sangue, em meio à festa dos berlinenses novamente reunidos.
O muro caiu! Salve o muro!
Imagine uma parede rasgando a praça central de sua cidade. Pense na avenida mais movimentada deixada às moscas e aos soldados, a fronteira entre dois Estados inimigos passando entre vizinhos. Por 38 anos, os cidadãos de Berlim conviveram com essa situação. Uma década não bastou para cicatrizar a ferida. "Até hoje, existe um muro psicológico", atesta Lohbauer. "São povos diferentes, criados sob ideologias distintas. Até os sotaques são fáceis de notar."
Uma das vozes mais ácidas que se levantaram contra a festejada união das Alemanhas foi a do ex-alemão oriental Grass, um dos mais célebres inimigos do muro. Ele acusou os ocidentais de terem exultado com a queda porque queriam comprar as empresas estatais comunistas a preço de banana.
Como souvenir de luxo, o Muro de Berlim continua um bom símbolo dessa nova ordem que surgiu quando as picaretas o pulverizaram. Seus pedaços, já no Natal de 1989, eram vendidos por 20 dólares na Bloomingdale’s, em Nova York, uma espécie de Politburo (comitê central, em russo) do consumismo. E a região por onde ele passava tornou-se a área mais valorizada de Berlim. A especulação imobilária varreu do mapa quase toda a muralha. Os mesmos artistas e ambientalistas que lutaram pela queda brigam para manter em pé os pedaços que restam — pouco mais de 1 quilômetro, ao todo, forrado de grafites. Querem, agora, preservar a memória histórica. O garoto Peter Fechter hoje teria 55 anos. O que será que ele pensaria disso tudo? Um Campo Vasto, Günter Grass, Record, Rio de Janeiro, 1998.

Berlim, um Muro na Cara, Roberto Menna Barreto, Summus, São Paulo, 1988.
Entre 1949 e 1989, Berlim Ocidental ficou isolada dentro da Alemanha Oriental, na fronteira entre capitalismo e comunismo. 1945 - O bolo dividido
Os tanques soviéticos invadem Berlim, derrotam os nazistas e ocupam a sua capital. Como chegaram antes dos outros aliados, os russos escolheram as melhores fatias da cidade. Ficaram com todo o centro velho. Os americanos, franceses e ingleses assumiram depois suas áreas e o país foi oficialmente dividido em dois em 1949 — soviéticos de um lado, franceses, ingleses e americanos do outro. Até 1989, as duas partes da cidade permaneceram sob ocupação militar estrangeira.

1961 - Ninguém passa
O governo da Alemanha Oriental decide construir o muro para brecar a saída dos descontentes com o regime comunista para o outro lado. Entre 1949 e 1961, foram 2 milhões de fugas, o que era muito em um país com 18 milhões de habitantes. Na foto à esquerda, berlinenses orientais fogem pela janela para a parte ocidental da cidade. Acima, um soldado pula o arame farpado, durante a construção do muro, transformando-se no primeiro desertor dos novos tempos.

1962 - Mortes e fugas
O alemão oriental Peter Fechter, 18 anos, é assassinado ao tentar cruzar a barreira (à esquerda). Outros 800 morreriam nos 37 anos seguintes, embora o número oficial de vítimas seja 180. Mas houve quem passasse — num porta-malas, num ultraleve, nadando sob o arame farpado, cavando um túnel (à direita), escondido em materiais de construção transportados por caminhões (acima) ou simplesmente pulando o muro.

1963 - Tribuna
John Kennedy é o primeiro presidente americano a visitar o símbolo da Guerra Fria. Discursou na beirada, para ser ouvido do outro lado, e condenou o comunismo. As duas cidades transformam-se em um centro estratégico para o mundo todo. Berlim infestou-se de espiões. Quem queria saber os rumos da Guerra Fria tinha que bisbilhotar o que acontecia por lá.

1970 - Protestos
Enquanto o lado oriental era cuidadosamente vigiado, no ocidental cresciam os protestos contra a divisão. O muro transformou-se em tela para registrar o descontentamento. Este grafite famoso mostra Leonid Brejnev, então dirigente soviético, beijando Erich Hönecker, o chefe do Partido Comunista alemão que ordenou a construção do Muro de Berlim. Embaixo está escrito "Deus me ajude a sobreviver a esse amor fatal".

1989 - Tijolos abaixo
Após uma alucinante sucessão de surpresas, o muro cai. Em 1987, o presidente americano Ronald Reagan vai até lá e discursa: "Senhor Gorbatchev, derrube este muro". No ano seguinte, o soviético permite que seus aliados abram as fronteiras. Hungria e República Checa são as primeiras a fazê-lo, em meados de 1989. Em 9 de novembro, o governo oriental libera a travessia entre as duas Berlins. No dia seguinte, a população espontaneamente demole o monumento opressor com picaretas e martelos. Kurfurstendamm
Como o velho centro da cidade ficou no lado oriental, os ocidentais tiveram que criar um novo. Ironicamente, ele surgiu lá na periferia, ao lado do antigo zoológico. A prosperidade de Berlim Ocidental fez com que esse segundo centro se tornasse mais movimentado que o primeiro.

Reichstag
O prédio do Parlamento, queimado em 1933, foi abandonado na área de segurança vizinha ao muro, aonde ninguém podia ir. Até hoje conserva as pichações dos soldados russos que tomaram a cidade em 1945. Em setembro de 1999, reformado, sediou a primeira sessão do novo Congresso.

Ponte Glienicke
Conhecida como a Ponte dos Espiões, era por onde ocidentais e orientais trocavam prisioneiros, geralmente agentes secretos. Por dentro da água passava o arame farpado e o muro prosseguia pelas margens.

Área de risco
Os dois muros eram separados por 100 metros em média. Entre eles havia arame farpado, minas, metralhadoras acionadas por células fotoelétricas, pedaços de trilhos de trem para obstruir a passagem de carros e cães treinados.

Potsdamer Platz
Esta praça era o centro econômico da antiga capital. Foi destruída nos tempos do muro, tornando-se "terra de ninguém" entre as duas Berlins. Restaurada, ela agora abriga a sede de algumas das mais importantes empresas alemãs
Revista Superinteressante

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O fantasma de Berlim

"O Muro". Vinte anos após sua queda, pouco resta da construção mais importante da capital alemã. E, mesmo assim, a antiga fronteira em torno da Berlim Ocidental ainda marca muitas biografias
Por Andreas Wenderoth (Texto) e Harf Zimmermann (Fotos Atuais)




A inda estão em pé duas das 302 torres de vigia que antigamente cercavam Berlim Ocidental. Em uma delas está sentado Jürgen Litfin, 69 anos, trajando jaqueta azul, ao lado de um manequim em tamanho natural. O boneco ostenta capacete e está metido em um velho uniforme militar da Alemanha Oriental. Equipado com um binóculo, Litfin espalha mal-estar. Suas lentes passam por placas blindadas, pela fenda produzida por um tiro, e se esvai por sobre o Rio Spree, para os lados da capital alemã que, durante anos, esteve sob o controle dos Estados Unidos, da França, da Inglaterra e de seus aliados. Seu olhar divagante pousa sobre uma misturadora de concreto, o hospital do Exército da extinta Alemanha Ocidental e as casas cor-de-rosa - de aluguel - que, após a virada política de 1989, surgiram ao redor.

"Antigamente", diz ele, "a vista era melhor". Na época da República Democrática Alemã (RDA), dois beliches ficavam ali, no quarto do primeiro andar da torre, guarnecida por uma dúzia de militares da tropa de fronteira. Litfin gosta de contar que às vezes, os soldados ficavam deitados bêbados nos campos, deixando a fronteira totalmente desprotegida. Mais tarde, porém, o governo colocou informantes da "Segurança Nacional" para reprimir o consumo de álcool entre os guardas. Mas essa é outra história.

Infelizmente, no episódio protagonizado pelo próprio berlinense oriental Litfin, os vigias da fronteira - "esses canalhas", nas palavras de Litfin - estavam bem acordados. Soldador de profissão, Litfin precisou do empenho do governo da República Federal da Alemanha (RFA), em 1981, para ser libertado de uma prisão política da Alemanha Democrática. O crime que cometera: tentar fugir da RDA para a RFA. Alguns anos depois da queda do muro, ele resolveu preservar a velha torre de fronteira Kieler Eck da destruição e fundar ali um minimuseu.

É "uma contribuição para a democracia", ele comenta acerca de seu memorial. Mas o lugar é também o seu local de trabalho, cujo objetivo parece ser a manutenção de um luto contínuo. Aqui em cima Jürgen Litfin conta todos os dias, ocasionalmente dúzias de vezes, a história de seu irmão Günter, o primeiro homem morto a tiros pelos guardas da RDA, em agosto de 1961, apenas 11 dias após o muro provisório ter sido levantado.

O irmão imaginara atravessar a nado as águas próximas ao porto Humboldt logo atrás do hospital universitário Charité. Günther, um alfaiate de 24 anos, nada sabia sobre a ordem de tiro, "senão ele não teria ousado", diz Jürgen. Muito menos que isso pudesse acontecer em plena luz do dia. A partir da ponte de ferro, a 40 metros de distância, os policiais o cercaram com uma barreira de fogo, de forma que ele não pudesse nem prosseguir nem voltar. Com um tiro direto na nuca o policial Herbert P. executou o fugitivo. Pelo feito ele recebeu do Ministro do Interior da RDA a condecoração de honra da Polícia Popular, mais um caro relógio e 200 marcos, além de uma medalha de bronze. "Esses patifes", irrita-se Litfin.


Naquela época, o jornal comunista Neues Deutschland (Nova Alemanha) retratou a morte de seu irmão dessa forma: Günter Litfin foi interceptado na tentativa de realizar um "ato criminoso". Com o salto no Spree quis fugir da prisão, momento em que "encontrou a morte".

O ex-prefeito da Berlim Ocidental, Willy Brandt, ordenou a construção de uma lápide em homenagem ao morto, mas ela desapareceu durante as obras nas margens do rio - e ficou perdida por quatro anos, até ser encontrada casualmente por um operário. Valendo-se de doações, Jürgen Litfin restaurou a lápide e providenciou para que a colocassem no lugar original. Entretanto, na luta pela preservação dessa memória, ele se sente abandonado - sobretudo pela prefeitura berlinense e pelos partidos políticos.

"O muro" - 156,4 km de fortificações com alturas que variam entre 3,40 e 4,20 m - possui, por trechos extensos, reforços de cercas de arame farpado, fossos, barreiras antitanque, passarelas que facilitam o controle à distância e torres de vigilância. Até o início dos anos de 1980, cerca de 1.000 cães de guarda circularam por corredores a eles destinados. O muro era considerado a construção de fronteira mais bem organizada do mundo. Ao longo de décadas esse sistema foi ampliado de forma contínua e metódica, o que implicava na implosão das casas existentes junto ao muro - cujos moradores foram obrigados a se mudar.

A derrubada dessas instalações praticamente levou a uma refundação da cidade de Berlim. Os berlinenses ocidentais exultaram em, finalmente, se livrar do muro; e a maioria dos orientais tinha ainda menos interesse em manter o símbolo de seu cativeiro para uma posteridade turística. Em 1990, iniciou-se um rápido desmonte da obra mais marcante da capital alemã. Em um trabalho ágil, marcado pela eficácia alemã, mal o fantasma da fronteira evaporara, os blocos de concreto, as torres de vigilância e as barricadas de controle foram sendo esmigalhados. A maior parte da tarefa foi realizada por ex-guardas - aqueles das tropas de fronteira da RDA. A eles coube dar ao "muro de proteção antifascista" sua nova função: de cascalho de rua. Os fragmentos restantes foram recolhidos por colecionadores do mundo todo, em Berlim conhecidos como os "pica-paus do muro".

Acima de tudo, decorridos 20 anos desde o desmonte, o vazio que ele deixou nos lembra o muro.

Muitas das histórias de fronteira mais conhecidas aconteceram na Bernauer Straße, rua em que as casas da parte sul pertenciam ao lado oriental; já a calçada à sua frente fazia parte do lado ocidental. Em 1963, Gertrud Kielberg teve que recorrer a um binóculo para acompanhar, de um ponto no alto, o enterro de sua mãe no cemitério Elisabeth, no bairro Mitte, situado do outro lado do muro.


E quem ainda se lembra do jovem turco de Kreuzberg que, em 1975, não muito longe da ponte Oberbaumbrücke, desapareceu nas águas escuras do Rio Spree e não pode ser resgatado, pois os guardas de fronteira da RDA, fortemente armados, proibiram os mergulhadores do corpo de bombeiros do lado ocidental de pular no rio?

A maioria das histórias é triste. E algumas verdadeiramente bizarras. Integra esse repertório de coisas estranhas o fato de o muro de Berlim não estar em quase nenhum local, assentado precisamente sobre a linha de fronteira entre as duas Alemanhas. O governo da RDA muitas vezes desistiu - por motivos de custo - de ocupar cada metro a que tinha direito. Especialmente se, para isso, o "muro de proteção antifascista" precisasse de novos ângulos e limites maiores. Esse fato ajudou, na década de 1980, não apenas a juventude disposta a se revoltar no bairro Kreuzberg - que, após os confrontos, podia sempre se refugiar em um terreno extraterritorial na praça Potsdamer. Um hortifrutigranjeiro turco também lucrou com ele.

Osman Kalin já era aposentado há vários anos, quando, um dia, olhando pela janela de sua casa em Bethaniendamm, avistou, à sombra do muro, um terreno baldio. Ele limpou a área, plantou cebolas, alho, repolho, e construiu uma casinha. Como o muro, nesse ponto, era recuado, ele se dedicava à jardinagem, literalmente, em território de Berlim Oriental. Por essa razão, certo dia um agente de fronteira da RDA atravessou uma porta no muro e exigiu a identidade de Kalin. Este retrucou, chamando seu visitante de "filho de um asno". Ambos se insultaram e, no fim da briga, o guarda autorizou o cultivo das verduras do teimoso jardineiro. Ele só não podia permitir que elas crescessem subindo pelo muro.

Kalin obedeceu e, uma vez por ano, no Natal, os guardas da fronteira enviavam ao seu vizinho aguardente e pães. Talvez o jardineiro não fosse mesmo inoportuno, pois, no fim das contas, ele amenizava um pouco do horror inerente ao muro.

Após o desmantelamento da muralha, o casebre ficou no meio da cidade que se refundia. A subprefeitura de Berlim-Mitte reclamou prontamente da utilização ilegal do terreno, mas como o bloco caiu em 2004, em decorrência de um alinhamento de fronteira em Kreuzberg, o então prefeito deixou que a família Kalin ali continuasse.

Nesse meio tempo, Osman Kalin tornou-se um ancião. É seu filho Mehmet que agora serra e parafusa até dez horas por dia, no lugar do pai, para contribuir com aquilo que se tornou o trabalho da vida do velho Osman: a melhoria do imóvel.

O casebre labiríntico, que jamais recebeu uma autorização da parte de algum órgão qualquer de fiscalização de edificações, consiste, basicamente, dos achados feitos na rua. Desses compensados, arames e tubos de ferro surgiu uma casinha quase que de contos de fada. Após a queda do muro, os Kalin ergueram um segundo pavimento, com área de piquenique interna e janela panorâmica. O balanço no jardim foi fixado em um tubo velho. E ali, onde o telhado apresenta algumas lacunas, um funil enorme direciona para fora as águas da chuva. Como houve preocupação com a solidez da casa, Mehmet Kalin reforçou a estrutura que a suporta. "Comporta três famílias", garante ele.

O ladrilhador de 43 três anos, com barba por fazer, não possui grande consciência histórica. "Estava lá em pé por acaso", diz ele. Para Mehmet, o sítio antes ocupado pelo muro não é um lugar de significado político-histórico, apenas um ponto geográfico. O local onde seu pai improvisou um abrigo.






Por 28 anos, dois meses e 28 dias o muro dividiu Berlim. Mas os poucos vestígios que restaram dessa construção perderam seu horror. As artérias nervosas da cidade incorporaram a ferida cicatrizada da faixa de morte. Contudo, em vez de estar cada vez mais disfarçada, diluída na expansão da cidade, essa cicatriz vem sendo, ultimamente, colocada de novo à mostra. A busca dos curiosos pelo muro desaparecido tem agora o auxílio de um caminho de paralelepípedos bem evidentes - por quase seis quilômetros ele mostra o antigo traçado da fronteira.

Há um caminho do muro. Ele circunda a antiga Berlim Ocidental, por quase 160 km, dividido em 14 estações. Atração especial são as ruínas da East Side Gallery, de 1.300 metros de extensão - o mais longo pedaço de muro conservado depois do desmonte, próximo à Estação Leste. Ali, os núcleos de ferro enferrujados são trocados, a superfície jateada com areia e pintada com novas cores. É como se agora a capital, que antigamente queria apenas esquecer, lutasse pela longevidade dos últimos restos de seu muro. Tarde demais.

E Pawlowski foi mais rápido. No jardim em frente ao prédio da empresa Souvenirs und Postkarten (Lembranças e Cartões Postais), no meio da área industrial de Berlim-Reinickendorf, ainda restam alguns elementos grandes do muro, com 3,40 m de altura e duas toneladas de peso. Um antigo comandante da tropa de Fronteira da RDA os descreveu, certa vez, como "de baixa manutenção e elegantes". Mas, a maior parte dessas peças Volker Pawlowski desmembrou - o que resultou em mais de 100 blocos cortados, desde a reunificação, em pequenos fragmentos. Por todos os lugares, protegidas sob coberturas, há caixas com pedaços de pedra. "Muro sem fim", comenta Pawlowski, 52 anos, com cabelos arrepiados e jeans. Nesse negócio bem berlinense, ele é líder de mercado mundial, por assim dizer. Ninguém possui tantos restos de concreto da RDA como ele - um patrimônio que não conseguirá nem mesmo processar em vida.


Para ele, o muro é uma ideia comercial, nada mais que isso. "Claro que se reflete sobre o que aconteceu lá", diz ele. "Mas em algum momento não se pensará mais tanto assim", completa, pragmático. Pawlowski cansou-se do muro. A barulheira do ar comprimido, a rotina diária de quebrar pedras, a poeira. "No fundo, estou cheio do muro", confessa. E, contudo, Pawlowski é seu prisioneiro, pois quase não lhe restam alternativas de sobrevivência. E ele nem é o seu principal comerciante: "É difícil de calcular o valor potencial do muro", diz ele. Pawlowski talvez seja responsável por 10% do que se fatura com os restos materiais e as lembranças dessa edificação. No máximo. De qualquer forma, ela é a origem de seu comércio, até o momento com quase 200 artigos.

Volker Pawlowski já acumulava um histórico de 18 anos de construção por empreitada, quando, em 1991, viu a chance de se tornar autônomo.

No início ele era apenas um das centenas de "pica-paus de muros" com martelo e cinzel (espécie de objeto perfurante). Contudo, quando em 1992 ele percebeu que isso lhe rendia pouco, percorreu os centros de reciclagem fazendo uma oferta em grande estilo: "comprei todos os restos de muro que estavam disponíveis!" - lembra. Interessavam-lhe, especialmente, as partes coloridas os restos grafitados da finada Berlim Ocidental.


Desde o momento em que percebeu que as peças maiores deixaram de ter saída ("Onde se pode colocá-las?"), Pawlowski vem priorizando os pedaços menores. Ele concebeu embalagens de acrílico e certificados de originalidade. E, em 1995, os cartões postais de Berlim com chip patenteado - o artigo mais vendido. Para tanto ele faz um orifício de três centímetros de largura em um cartão postal, e ali encaixa um envólucro plástico que contém um ou mais pedacinhos do Muro. "É a embalagem que decide a venda", diz o berlinense. Em dias especialmente produtivos ele consegue fabricar 150 dessas peças de história pronta. Elas são vendidas exclusivamente a atacadistas e lojas de souvenirs - que, de acordo com o artigo do Muro, as comercializam por preços que variam entre ? 2,00 e ? 4,50. Apesar desse empenho, o faturamento com os restos do muro vem caindo, e um aumento neste vigésimo aniversário da queda ainda não é perceptível. Não, Pwlowski não amealhou riqueza, mas está satisfeito.

Há pessoas que o acusam de processar as peças do muro, que ele aviva com a pistola de tinta onde as tonalidades originais já estão esmaecidas. Mas Pawlowski sabe que um pouco de cor faz bem para o negócio, "senão é apenas um pedaço cinza de concreto", observa. Ele não liga para o que os outros dizem. E, dessa forma - com a pistola de tinta -, talvez ajude a manter viva a lembrança do Muro, para que ela vá se apagando ainda mais devagar.

Caminhada na fronteira

Na trilha do Muro de Berlim

Despedaçado, martelado, fustigado - os berlinenses não deixaram de pé quase nada do muro de concreto que há muito os separava. Agora, o departamento de monumentos protege quase todas as partes remanescentes. Assim, além da torre de vigilância de Jürgen Litfin, em Kieler Eck, da Bernauer Straße, e do casebre da família Kalin em Bethaniendamm, esquina com a praça Mariannenplatz, ainda podem ser encontradas algumas outras relíquias.

Bernauer Strasse

Bernauer Str. 111, Tel.: +49/30/464 10 30, www.stiftung-berlinermauer. de (site em alemão, inglês, francês, italiano e espanhol); entrada gratuita, guia para adultos por ? 3,00 Dramáticas cenas de fuga pela janela ocorreram aqui, onde algumas casas pertenciam ao lado oriental, mas a calçada estava na Berlim Ocidental. Hoje em dia a Bernauer Straße abriga o mais importante memorial ao Muro.

Um trecho da fronteira original, com o Muro, as cercas de sinalização e a "faixa da morte", lembra a separação. Nas estações de audição do centro de documentação sobre o muro é possível escutar os depoimentos das testemunhas da época; na sala de leitura estão, entre outros, relatórios da "Segurança do Estado". Após registro prévio, crianças de oito a doze anos podem se tornar especialistas no Muro.

Checkpoint Charlie

Friedrichstr. 43-45, Tel. +49/30/253 72 50, www.mauermuseum.de (site em alemão, inglês e francês); Entrada ?5,50-12,50 A polícia popular ainda controla o Checkpoint. Nos uniformes estão os alunos de artes dramáticas. Por ?1,00 eles posam para foto. Ao lado, o Museu do Muro apresenta a história de forma mais realista. Além de fotos e narrativas das tentativas de fuga bem-sucedidas, são também mostrados os meios de escape: balões de ar quente, automóveis de fuga, teleféricos e até o minissubmarino, com o qual um fugitivo cruzou com sucesso o Mar Báltico.

O Museu do Muro está entre os museus berlinenses mais frequentados do ano de 2007, com 850 mil visitantes. A apresentação dos recursos de fuga reaviva o passado e protege esse trecho da história do esquecimento. Mas há também críticas: as salas de exposição são muito pequenas; o tipo de apresentação e também os textos expostos estão desatualizados e ideologicamente ultrapassados.

East Side Gallery

Mühlenstraße, Tel. +49/30/251 71 59, www.eastsidegallery-berlin. com (site em alemão) A poucos passos antes da Estação Oriental o muro cai todos os dias.

Ao menos na pintura de Kani Alavi, Aconteceu em novembro. Descubra na East Side Gallery, a faixa de muro que se estende por 1,3 km na cidade. A antiga parede de concreto sem adornos foi decorada em 1990 por artistas internacionais com 106 pinturas. Alavi esboçou sua obra, fácil de reconhecer, logo na noite da queda do muro. Siga pela Mühlenstraße, 170 m na direção da ponte Oberbaumbrücke, e encontrará os agrupamentos de pessoas do 9 de novembro, conservados para a eternidade. Acrílico sobre concreto.

Cemitério de Santa Edwiges

Liesenstr. 8, Tel. +49/30/97 10 41 05 Vinte e oito anos no meio da faixa da morte, e permaneceram ilesos - são os anjos de pedra do cemitério da catedral de Santa Edwiges (St. Hedwig). Na construção do muro, os soldados da RDA emparedaram os dois padroeiros de 3 m de altura - entre a parte frontal e traseira do muro.

Hoje, apenas restos da muralha na linha de bonde e na parte oriental do cemitério lembram a prisão dos anjos.

Torre de Vigilância da Fronteira

Flutgraben 3, Tel. +49/30/53 01 32 80, www.kunstfabrik.org (site em alemão); Entrada gratuita No térreo da antiga torre de fronteira em Schlesischer Busch lê-se "Próxima inspeção, março de 1991". Mas os inspetores de construção da RDA não voltaram para a manutenção - a queda do muro ocorrera nesse meio tempo. Apenas o holofote no teto ainda lembra a antiga função da torre de dez metros de altura. A associação Kunstfabrik am Flutgraben e.V. realiza exposições na torre.

Ciclovia do Muro

A melhor maneira de se descobrir os antigos limites é percorrendo a ciclovia em torno da Berlim Ocidental. Ponto de partida: por exemplo, praça Potsdamer . O especialista em Muro de Berlim, Ralf Gründer (tel.: +49/30/41 71 92 40), oferece passeio guiado. www.berlinermauer.de (site em alemão).



Revista GEO

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Queda


A Queda
por Antônio Lassance
10/11/2009
A queda do Muro de Berlim (1989) é um evento repleto de significados. O historiador Eric Hobsbawm o utiliza para delimitar o fim do século XX. Em termos geopolíticos, ou especificamente militares, ele demarca o fim da Guerra Fria. Para os Alemães, é o fim da divisão de seu país em dois e o início da unificação. Para os socialistas, foi a desintegração do monólito (conforme Boris Kagarlitsky denominou a derrocada do sistema soviético) e o emblema da ofensiva neoliberal que varreu o mundo nos anos 90 e tentou reduzir a pó as políticas de bem-estar social. Para os liberais mais teóricos, a queda significou a vitória final (sic) do capitalismo (a exemplo de Fukuyama e seu fim da História). Para os liberais mais pragmáticos, foi um evento “pop” e seus 20 anos merecem uma comemoração que lhes dê a oportunidade de faturar com shows de rock, visitas de celebridades e garrafas de champanhe.

O Muro nasceu com um sério problema. Muros são feitos em geral para evitar que pessoas entrem, e não que elas saiam. Muitos foram erigidos contra aqueles que já foram chamadas de “bárbaros”, “inimigos” e, hoje, são denominados simplesmente “estrangeiros”. Tal é a diferença entre uma fortaleza e uma prisão. O Muro de Berlim tinha a curiosa missão de aprisionar os alemães orientais em seu próprio País. Ele estava mais para uma Bastilha do que para uma Muralha da China.

O Muro caiu feito um castelo de cartas. Em 9 de novembro de 1989, um velho dirigente do governo da Alemanha Oriental, Günter Schabowski, concedeu uma coletiva para anunciar a decisão tomada pelo Conselho de Ministros de suspender as restrições para os que quisessem viajar para o lado Ocidental. Decisão tomada, milhares de alemães se interessaram prontamente em cumpri-la. O “sem restrições” só tinha um pequeno detalhe a ser contornado: o Muro. Os guardas que tinham cumprido, durante décadas, a ordem de reprimir os que quisessem transpô-lo, viram-se emparedados a não contrariar o anúncio. Vinha abaixo um símbolo.

Como explicar tal fragilidade? Na verdade, o Muro vinha sendo solapado ao longo de muitos anos. Seu terreno estava minado antes mesmo de sua construção. O monólito soviético já iniciara sua desintegração quando a Iuguslávia de Tito e a China de Mao se afastaram da condição de países satélites da União Soviética. Se aprofundou quando ficou clara a cisão do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) promovida por Kruchev, que resultou na execração de Stálin, durante o XX Congresso do Partido.

O Muro caiu mais um pouco em 1979, ano da ofensiva no Afeganistão, que se transformaria num Vietnã para os soviéticos. Coincidentemente, foi também em 1979 quando Mikhail Gorbachev foi alçado ao Politburo, sob a proteção de Iuri Andropov. Adropov se tornaria, de 1982 a 1984, chefe do Estado soviético (formalmente, o cargo era o de Secretário-Geral do PCUS) e transformaria Gorbachev em seu herdeiro político.

A queda representa o fim de uma geografia acostumada a dividir o planeta em Primeiro, Segundo e Terceiro Mundos. Teria lugar um processo de formação de blocos econômicos e o surgimento de um pólo dinâmico do capitalismo que muitos consideram como sinal de um novo ciclo hegemônico (asiático, capitaneado pela China). O risco de destruição por um conflito entre as grandes potências foi mitigado, como claramente se viu na estratégia russa de sugerir a reorientação da OTAN (a antiga aliança militar ocidental montada contra o “perigo vermelho”) para uma rede de países interessados em combater o terrorismo.

O mundo é outro, desde que o Muro desapareceu. Isso não significa que seus dilemas e riscos sejam menores do que os do passado. Que o digam a queda das torres gêmeas e o ataque ao Pentágono, no 11 de setembro de 2001, a proliferação de redes terroristas (a Al-Qaeda é apenas uma delas), a ameaça nuclear latente e as crises econômicas sistêmicas, como a que abalou os mercados recentemente. Mas o fato do muro que dividia as Alemanhas ter sido derrubado tem um grande feito positivo: permitir que, daqui pra frente, se dê mais atenção aos muros que são feitos para tratar pessoas como bárbaros e inimigos. Esses também merecem ser derrubados um a um.

Antônio Lassance é Pesquisador do IPEA, doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília – UnB (lassance@unb.br).

Meridiano 47

domingo, 15 de novembro de 2009

20 anos depois do Muro: Romênia vive crise econômica e política



20 anos depois do Muro: Romênia vive crise econômica e política

Raúl Sánchez Costa
Em Bucareste (Romênia)
Embaixo, um bar, e no primeiro andar, uma creche. Cerca de 30 crianças da localidade de Bagaciu, na província de Mures, norte da Romênia, estudam em condições deploráveis em um edifício insalubre onde há uma loja que vende bebidas alcoólicas. "Estamos preocupados; não podemos permitir que pessoas que consomem álcool rondem a escola e utilizem os mesmos banheiros que os estudantes", exclama Iustina Halmaciu, uma professora do centro escolar Iernut.

Mergulhados em uma crise econômica e sem governo desde meados de outubro, muitos romenos tentam sobreviver na penúria 20 anos depois da queda do regime ditatorial de Nicolas Ceausescu. Diversas escolas não recebem verbas nem para aquecer as classes. Em Vaslui, nordeste do país, os menores tremem porque não restam recursos econômicos para comprar lenha, por causa das dívidas. "Não recebemos nenhuma ajuda econômica, e por isso teremos de cortar as árvores para abastecer a escola de calefação", afirmou o jovem prefeito de Coroiesti, Cristian Lungu.

Mas os radiadores também não dão sinais de vida em alguns hospitais do país. Os pacientes que decidem continuar no centro hospitalar precisam se cobrir com várias mantas para suportar as baixas temperaturas, embora o principal problema seja a falta de material e de medicamentos. O chefe da seção de cardiologia do hospital de Giurgiu, Mihai Petre, conta que a situação é desastrosa: "Nunca sofremos uma crise dessas características. Temos de mandar os pacientes para as farmácias para que comprem seus próprios remédios".

Entretanto, a Romênia está há várias semanas com um primeiro-ministro interino, Emil Boc; outro designado pelo presidente, Lucian Croitoru - embora sua nomeação tenha fracassado ontem ao ser rejeitada pelo Parlamento -, e outro informal, o prefeito independente de Sibiu, Klaus Johannis, o favorito da maioria política e, segundo as pesquisas, também dos cidadãos, mas que o presidente romeno, Traian Basescu, ignora completamente. Assim, a Romênia continua na incerteza e espera o resultado das eleições presidenciais convocadas para 22 de novembro, o que aumenta a precariedade da situação.

"Há uma clara luta pelo poder enquanto o Estado precisa urgentemente de 3,5 bilhões de euros (R$ 9 bilhões)", salienta um editorial do jornal "Ziarul Financiar". O estancamento político ameaça deixar em suspenso o empréstimo de 20 bilhões de euros (R$ 51 bilhões) que o país deve receber até o fim do ano do Fundo Monetário Internacional, da UE e do Banco Mundial, que não têm interlocutor com quem negociar. O FMI já anunciou que a Romênia não receberá mais ajuda enquanto não elaborar os orçamentos de 2010, que deverão ser aprovados pelo novo governo.

Caso não venha a ajuda econômica do FMI e da UE, a Romênia teria de recorrer ao mercado interno, o que afetaria gravemente o financiamento do setor público. O vice-presidente do Partido Democrata Liberal, Theodor Stolojan, afirma que "os funcionários públicos terão seus salários reduzidos e as aposentadorias deverão ser congeladas" e acrescenta que "a solução passa por atrair novamente o investimento estrangeiro".

"A crise política solapa a recuperação econômica", adverte o ex-ministro das Finanças Ilie Serbanescu. "Para o próximo Executivo também não será fácil; a maioria das empresas que estão na Romênia pertence a investidores estrangeiros, de modo que dependemos deles para conseguir uma recuperação econômica", aponta. Calcula-se que a Romênia terá um crescimento zero, contra 7,8% no ano passado.

A esta situação de crise acrescenta-se o principal problema endêmico do país: a corrupção. Somente nos países pobres e parcialmente desenvolvidos o suborno e a influência indevida sobre as políticas públicas têm um custo de bilhões e são um obstáculo para o crescimento econômico sustentável. Na Romênia, a politização da função pública, devido à diminuição da pressão que a UE exercia, e a sucessão de campanhas eleitorais provocaram um aumento dos casos de corrupção. "Vemos que a legislação das compras públicas foi modificada cinco vezes ao longo de 2009 para responder às necessidades dos diferentes ministérios", denuncia o presidente da Transparência Internacional Romênia, Victor Alistar.

Durante a última legislatura, os parlamentares se opuseram às investigações dos fiscais anticorrupção, dando a impressão de que a luta contra esse problema não passa de simples retórica. Desde a criação da Agência Nacional contra a Corrupção, cerca de 20 autoridades - "peixes gordos", como os chamam em Bruxelas - têm processos abertos, mas ainda não houve qualquer condenação. A lista é encabeçada pelo ex-primeiro-ministro Adrian Nastase, que, para a opinião pública, é o político romeno mais corrupto. Segundo uma pesquisa encomendada por um veículo de comunicação, mais de 80% da população afirmam conhecer alguém que praticou suborno.
El País

terça-feira, 1 de setembro de 2009

13 de agosto de 1961: O dia em que nasceu o Muro de Berlim

.....Construindo o muro


Moradores de Berlim Ocidental observam operários erguendo o muro que viria a separar Berlim Ocidental e Berlim Oriental, em agosto de 1961


Trabalhador ergue o muro na Bernauer Strasse


Soldados vigiam trabalhadores que levantavam o muro com blocos de concreto pré-fabricados

Naquela época, ninguém sabia que os rolos de arame farpado se transformariam no símbolo supremo da Guerra Fria. Mas, quando os moradores de Berlim acordaram em 13 de agosto de 1961, policiais e soldados no setor soviético da cidade já haviam começado a bloquear as ruas e a fechar as vias de circulação com caminhões, tanques, tijolos e arame. Cidadãos perplexos observavam a cena impotentes, enquanto a cidade era dividida em duas partes.

A reação foi mais de confusão do que de indignação. Ninguém sabia quanto tempo o novo obstáculo duraria: os berlinenses haviam passado por muitas dificuldades nos 15 anos decorridos desde o final da guerra. Eles não tinham como saber que esta última surpresa acabaria dominando a cidade - e a atenção do mundo - durante os próximos 40 anos. O Muro de Berlim não nasceu de forma espetacular, mas sim com um suspiro de frustração.

Após quase 15 anos de tensão, o muro era visto como apenas mais um episódio de uma longa série de provocações soviéticas. Os berlinenses vivenciaram a traumática ocupação soviética, os anos de fome desesperadora após a guerra e um bloqueio soviético à cidade em 1948. Em 1953, as tropas soviéticas esmagaram uma revolta de trabalhadores em Berlim e em centenas de outras cidades menores na Alemanha Oriental, matando centenas de pessoas.

Após todos esses traumas, os berlinenses sentiram-se como peões no tabuleiro de xadrez da Guerra Fria. A cidade era administrada de acordo com o tratado assinado ao final da Segunda Guerra Mundial, que a dividiu em quatro setores. Na prática, os setores americano, francês e britânico formavam Berlim Ocidental, e o setor soviético era Berlim Oriental.

Impedindo ações de "criminosos"
A partir de 1958, o primeiro-ministro soviético Nikita Kruschev começou a pressionar os governos norte-americano, francês e britânico para deixarem a cidade. Eles formavam uma ilha no meio da Alemanha e tornaram-se um espinho cravado no flanco do bloco soviético. O presidente norte-americano John Fitzgerald Kennedy reagiu, deixando claro que os aliados ocidentais estavam compromissados com Berlim.

Temendo a situação precária, os berlinenses deslocaram-se em números cada vez maiores para o setor oeste. De 1949 a 1961, quase 2,5 milhões de alemães orientais fugiram para começar vida nova no setor oeste. A situação atingiu um ponto crítico em 1961. Apenas em julho, 30 mil alemães orientais mudaram-se para Berlim Ocidental.

Em 12 de agosto, a liderança alemã-oriental decidiu que tinha aguentado o suficiente. Às 16h, o líder da República Democrática Alemã, Walter Ulbricht, assinou a ordem de fechamento da fronteira. Em uma questão de horas, a cidade foi cercada de arame farpado e muros de tijolos toscamente construídos, uma barreira de 44 quilômetros que serpenteava pela cidade. A medida funcionou como um bloqueio invertido: em vez de lacrar os moradores de Berlim Ocidental dentro das suas fronteiras, a República Democrática Alemã estava impedindo o seu próprio povo de entrar na área ocidental. Oficialmente, o muro servia para proteger os alemães orientais dos males do capitalismo, para impedir "criminosos e indivíduos belicosos" de vitimizarem a nova nação. Mas, informalmente, ele foi uma tentativa drástica de salvar o Estado alemão oriental do colapso que seria provocado pela emigração.

Os efeitos foram dramáticos. Durante os próximos 38 anos, os berlinenses orientais foram proibidos de viajar ao setor oeste daquela que no passado fora a sua cidade. Naquela época, "Der Spiegel", criada em 1947, apelidou a barreira de "Muralha da China de Ulbricht", mas ela mais tarde ficaria famosa em todo o mundo como Muro de Berlim.

"A zona soviética foi transformada em um campo de concentração"
Fazendo uma retrospectiva, a construção do Muro de Berlim foi um dos acontecimentos mais famosos do século 20, a manifestação física de um mundo bipolar. Mas, à época, o arame farpado instalado ao longo da Brunnen Strasse e em frente ao Portão de Brandemburgo pareciam ser mais uma aposta em um jogo de poder. Pelo menos, como muitos disseram à época, nenhum tiro foi disparado - a sangrenta invasão da Hungria de 1956 ainda era uma memória forte. "Qualquer coisa, contanto que não haja uma Budapeste", disse aos repórteres o político berlinense ocidental Joachim Lipschitz, enquanto inspecionava as barreiras de arame farpado.

Na verdade, as palavras mais fortes foram dirigidas contra os aliados ocidentais da Alemanha. Dias depois da construção do muro - ou, conforme "Der Spiegel" disse na época, "88 horas após a zona soviética ter sido transformada em um campo de concentração" - 250 mil pessoas reuniram-se em Berlim Ocidental para protestar contra a reação "suave" das potências ocidentais. O embaixador britânico na Alemanha Ocidental visitou o setor leste da cidade após a construção do muro, aproveitando-se do acordo de divisão da cidade, que garantia aos cidadãos das quatro potências aliadas o direito de visitar livremente qualquer ponto de Berlim. Ao retornar, ele foi recebido com faixas acusatórias. "Traídos pelo Ocidente", "Onde estão as nossas potências defensoras?", "Será que o Ocidente não entende o que se passa?".

Antes de vir abaixo, 20 anos atrás, o Muro de Berlim acabaria sendo o pano de fundo para alguns dos discursos mais dramáticos e dos momentos mais carregados de emoção da Guerra Fria. Ele também custaria a vida de 136 pessoas que foram mortas ao tentar fugir para a zona ocidental.

Mas, em 13 de agosto de 1961, tudo isso ainda estava muito distante. Seriam necessários mais dois anos de indecisões diplomáticas para que John Fitzgerald Kennedy proferisse o seu famoso discurso "Ich bin ein Berliner". E, quando Reagan gritou, "Senhor Gorbachev, derrube este muro!", em 1987, o muro já não dizia respeito apenas a Berlim. Ele transformara-se em uma metáfora do comunismo e de todo o bloco soviético.

Tradução: UOL

DER SPIEGEL

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