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segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Floresta Amazônica emitiu mais dióxido de carbono do que absorveu na última década

Pesquisadores observaram que as taxas de emissão superaram em 20% as de absorção de CO2 entre os anos de 2010 e 2019. Resultados preocupam comunidade científica, por apontarem caminho para um cenário irreversível.





O bioma amazônico sempre foi um importante aliado na luta para conter a poluição causada pelo excesso de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. No entanto, um novo estudo traz resultados preocupantes. Entre os anos de 2010 e 2019, as emissões de dióxido de carbono da floresta Amazônia superaram em 20% as taxas de absorção. Foram liberadas 16.600 bilhões de toneladas de CO2, contra 13.900 bilhões de toneladas absorvidas.

A equipe responsável pela pesquisa publicada na Nature Climate Change envolveu especialistas de diversas nacionalidades. Eles analisaram a quantidades de gás carbônico eliminada durante queimadas e outros processos destrutivos, e compararam com o volume de CO2 absorvido enquanto a vegetação crescia.

“Essa é a primeira vez que observamos como a floresta amazônica mudou. Agora ela é um grande emissor” , disse Jean-Pierre Wigneron, coautor do estudo e cientista do Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica (INRAE) da França à agência de notícias francesa AFP. “Não sabemos quando essa mudança poderá se tornar irreversível”

Através de métodos inovadores de análise de dados captados por satélites, desenvolvidos pela Universidade de Oklahoma, os pesquisadores descobriram que a degradação florestal foi responsável por taxas de emissão de CO2 três vezes maiores que as do desflorestamento direto de florestas. A degradação acontece através da fragmentação, do corte seletivo e da realização de queimadas que danificam a vegetação, mas não chegam a eliminá-la.

Além disso, o estudo mostrou que em 2019, o desmatamento via fogo e exploração madeireira quase quadruplicou. Em comparação com os dois anos anteriores, a área desmatada passou de 1 milhão de hectares para 3,9 milhões, o equivalente ao tamanho da Holanda. Esse período coincide com a redução de controle ambiental da gestão presidencial de Jair Bolsonaro.

“O Brasil sofreu um enorme declínio na aplicação de medidas de proteção ambiental após a mudança de governo”, comentou a INRAE em uma declaração à imprensa.
Ponto de inflexão

A Amazônia representa aproximadamente metade das florestas tropicais do mundo, sendo o tipo de vegetação mais efetiva na captação e armazenamento de gás carbônico.

Como os dados analisam apenas a porcentagem da floresta que está presente no território brasileiro (60%), ainda não se sabe a situação da bioma como um todo. Para Jean-Pierre Wigneron, o quadro de emissão e captação de CO2 é “provavelmente neutro”.

No entanto, isso não significa que não há riscos. “Nos outros países que contém a floresta tropical amazônica, o desmatamento também está aumentando e a estiagem tem sido mais intensa. Caso a região se torne uma grande fonte emissora, lidar com a crise climática será muito mais difícil”, concluiu o especialista e sua equipe.


A mudança climática é uma grande ameaça, e pode levar a floresta tropical do continente a um estado de savana muito mais seco. Isso não afetaria apenas a América do Sul, pois a destruição da região, que hoje abriga enorme biodiversidade, tem o potencial para causar impactos globais. A floresta amazônica é considera um ponto estratégico no sistema climático, e é extremamente vulnerável ​​a transições irreversíveis, que alterariam radicalmente o mundo como nós conhecemos.

Publicado em 03/05/2021
Scientific American

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Petrolífera notifica presença de traços de óleo em rio da Amazônia peruana

Petrolífera notifica presença de traços de óleo em rio da Amazônia peruana

A petrolífera disse que enviou uma equipe de emergência à área para lidar com o ocorrido e ajudar cerca de 2.500 pessoas que vivem nas comunidades afetadas pelo vazamento

AFP

(crédito: ERNESTO BENAVIDES)

A empresa estatal Petroperú relatou nesta sexta-feira (16) a presença de traços de petróleo em um rio da região amazônica de Loreto, próximo ao oleoduto Norperuano, após denúncias de contaminação feitas por comunidades nativas.


A petrolífera disse que enviou uma equipe de emergência à área para lidar com o ocorrido e ajudar cerca de 2.500 pessoas que vivem nas comunidades afetadas pelo vazamento.

“Hoje se teve conhecimento da presença de traços de petróleo cru no rio Cuninico, com possível ponto de início no quilômetro 42 do Trecho I do Oleoduto Norperuano, distrito de Urarinas, província e região de Loreto", informou a Petroperú.

“A causa do presente evento está por ser determinada”, acrescentou a empresa após garantir que o bombeamento de óleo por esse trecho está paralisado desde fevereiro.

O vazamento afeta seis comunidades do povo Kokama da localidade de Cuninico, cujos líderes denunciaram à imprensa que o rio está contaminado.


"A população está desesperada porque até agora não come, as crianças não comem, porque não há água para cozinhar. Não há o que comer porque toda a ravina, o rio, está contaminado, os peixes estão morrendo", declarou à rádio RPP o 'apu' Galo Vásquez, representante do povo indígena de Cuninico. "A população não tem água para beber", acrescentou.

Desde janeiro, a Petroperú denunciou uma série de ataques a seu oleoduto na região de Loreto, que causaram vazamentos de óleo e lançaram planos de contingência ambiental.

Há registros de ao menos 29 atos de sabotagem contra o oleoduto desde 2014, de acordo com a Sociedade de Mineração, Petróleo e Energia.


O oleoduto Norperuano é uma das obras de maior porte do Peru. Foi construída há quatro décadas para transportar o petróleo dessa região amazônica até Piura, na costa, estendendo-se por cerca de 800 km.
https://www.correiobraziliense.com.br/

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Mudanças na vegetação moldaram temperaturas globais nos últimos 10 mil anos






Crédito: Unsplash/CC0 Public Domain



Siga o pólen. Registros da vida vegetal passada contam a história real das temperaturas globais, de acordo com a pesquisa de um cientista climático da Universidade de Washington em St. Louis (EUA). Temperaturas mais quentes trouxeram plantas – e depois vieram temperaturas ainda mais quentes, de acordo com novas simulações de modelos publicadas na revista Science Advances.

Alexander Thompson, pesquisador associado de pós-doutorado em ciências da terra e planetárias em Artes e Ciências da Universidade de Washington em St. Louis, atualizou as simulações de um importante modelo climático para refletir o papel da mudança da vegetação como um fator-chave das temperaturas globais nos últimos 10 mil anos.

Thompson há muito se preocupava com um problema com modelos de temperaturas atmosféricas da Terra desde a última era glacial. Muitas dessas simulações mostraram temperaturas subindo consistentemente ao longo do tempo. Mas os registros de variáveis climáticas contam uma história diferente. Muitas dessas fontes indicam um pico acentuado nas temperaturas globais que ocorreu entre 6 mil e 9 mil anos atrás.


Expansão subestimada

Thompson teve um palpite de que os modelos poderiam estar ignorando o papel das mudanças na vegetação em favor dos impactos das concentrações atmosféricas de dióxido de carbono ou da cobertura de gelo.


“Os registros de pólen sugerem uma grande expansão da vegetação durante esse período”, disse Thompson. “Mas os modelos anteriores mostram apenas uma quantidade limitada de crescimento da vegetação”, disse ele. “Então, embora algumas dessas outras simulações tenham incluído vegetação dinâmica, não foi uma mudança de vegetação suficiente para explicar o que os registros de pólen sugerem.”

Na realidade, as mudanças na cobertura vegetal foram significativas. No início do Holoceno, a época geológica atual, o deserto do Saara, na África, ficou mais verde do que hoje – era mais uma pastagem. Outras coberturas vegetais do hemisfério norte, incluindo as florestas de coníferas e caducifólias nas latitudes médias e o Ártico, também prosperaram.

Thompson pegou evidências de registros de pólen e projetou um conjunto de experimentos com um modelo climático conhecido como Community Earth System Model (CESM), um dos mais conceituados em uma ampla classe de tais modelos. Ele fez simulações para explicar uma série de mudanças na vegetação que não haviam sido consideradas anteriormente.


Interesse multidisciplinar

“A vegetação expandida durante o Holoceno aqueceu o globo em até 1,5 grau Fahrenheit [quase 1 grau Celsius]”, disse Thompson. “Nossas novas simulações se alinham de perto com variáveis paleoclimáticas. Portanto, é empolgante que possamos apontar a vegetação do hemisfério norte como um fator potencial que nos permite resolver o controverso enigma da temperatura do Holoceno.”

Compreender a escala e o tempo da mudança de temperatura ao longo do Holoceno é importante porque é um período da história recente, geologicamente falando. A ascensão da agricultura e da civilização humana ocorreu durante esse período, por isso muitos cientistas e historiadores de diferentes disciplinas estão interessados ​​em entender como o clima do início e do meio do Holoceno diferia dos dias atuais.

Thompson conduziu este trabalho de pesquisa como pós-graduando na Universidade de Michigan. Ele continua sua pesquisa no laboratório da cientista climática Bronwen Konecky na Universidade de Washington.

“No geral, nosso estudo enfatiza que a contabilização da mudança da vegetação é crítica”, disse Thompson. “As projeções para as mudanças climáticas futuras são mais propensas a produzir previsões mais confiáveis ​​se incluírem mudanças na vegetação.”
Revista Planeta

quarta-feira, 6 de julho de 2022

A caixa preta do Permafrost



O agravamento do aquecimento global pode liberar na atmosfera um gigantesco volume de metano e dióxido de carbono retido no permafrost, o solo perenemente congelado do Ártico


Permafrost é uma palavra cujo significado é conhecido apenas por cientistas e ambientalistas, mas pode cair na boca do povo em um espaço de tempo relativamente curto. O motivo é que essa camada de terra, gelo e rochas, em tese permanentemente congelada, presente nas regiões árticas (ver quadro na página 37), também está sentindo o avanço do aquecimento global.



Além de inclinar árvores, rachar a pavimentação de estradas e colocar em risco obras de infraestrutura, a elevação das temperaturas nessas áreas causa uma enorme liberação de gases de efeito estufa (GEE), sobretudo metano, cuja capacidade de reter calor é 25 vezes maior do que a do dióxido de carbono.

O permafrost recobre 13 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a 25% das terras do Hemisfério Norte. No total, o ecossistema representa 20% da superfície emersa da Terra, espalhando-se pelo Ártico, sub-Ártico e Antártida. Por volta de 63% do território russo é ocupado por ele. O solo abriga restos de plantas e animais, acumulados ao longo de milênios. Com o degelo nos meses mais quentes do ano, esses materiais orgânicos começam a se decompor, injetando metano e dióxido de carbono na atmosfera.

Cientistas integrantes do Permafrost Carbon Research Network calculam que, nos próximos 30 anos, cerca de 45 bilhões de toneladas métricas de carbono originado do metano e do dióxido de carbono chegarão à atmosfera quando o permafrost degelar ao longo dos verões. O volume é equivalente à emissão global de GEE durante cinco anos por queima de combustíveis como petróleo, carvão e gás.



Por volta de 2100, os pesquisadores preveem um cenário ainda mais sombrio: daqui até lá, 300 bilhões de toneladas métricas de carbono deverão ser liberados do permafrost. Para Edward Schuur, da Universidade da Flórida (EUA) e membro do Permafrost Carbon Research Network, toda essa emissão significa um aquecimento entre 20% e 30% mais rápido do que o produzido apenas pela liberação de combustíveis fósseis.

Ressaltando a gravidade da situação, a Organização Mundial de Meteorologia anunciou, em novembro, que o calor mais acentuado em 2011 ocorreu exatamente nas regiões setentrionais onde se concentra o permafrost, principalmente na Rússia. Desde 1970, o Ártico vem se aquecendo num ritmo duas vezes maior do que o do restante do mundo. De acordo com Schuur, até mesmo o carbono aprisionado antes da aurora da civilização humana já está sendo liberado na atmosfera.Nas regiões árticas como o Alasca, o degelo e a decomposição da matéria orgânica, como restos de plantas e animais, emitem vasta quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera

As florestas da taiga crescem e se decompõem sobre o permafrost. Seu degelo envia toneladas de gases de efeito estufa para a atmosfera. Abaixo, cientistas do Instituto de Estudos do Permafrost, em Yakutsk, na Sibéria, monitoram o solo.


Impacto duradouro


O degelo ártico no verão está mudando a profundidade do solo examinada pelos cientistas. Em áreas pesquisadas do Alasca o degelo ia de alguns centímetros a menos de um metro, mas agora observam-se derretimentos de até três metros. O permafrost pode se estender por centenas de metros abaixo da superfície, mas por enquanto o problema se limita aos níveis superiores.

No quarto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC), divulgado em 2007, a questão do permafrost nem sequer foi abordada. O assunto, porém, torna-se inevitável num momento em que a emissão de GEE não para de subir e a concentração de CO2 na atmosfera se aproxima perigosamente do nível de 400 partes por milhão (teto para que a elevação média de temperatura se limite a 2°C).

De acordo com a equipe de 41 cientistas do Permafrost Carbon Research Network, que publicou um estudo sobre o tema na revista Nature em novembro, as quantidades de GEE emitidas a partir do permafrost estão crescendo a cada ano. “Calculamos que o degelo do permafrost liberará a mesma ordem de magnitude de carbono que o desmatamento, se os atuais índices de desmatamento continuarem”, escrevem os autores no texto.

Para ressaltar a ameaça do permafrost, a professora Katey Walter Anthony, da Universidade do Alasca em Fairbanks, participante do grupo e coautora do estudo, divulgou mundialmente uma fotografia tirada no campus da universidade, na qual ateia fogo numa fresta de vazamento de metano em uma lagoa congelada no campus da universidade. As chamas se elevam até um ponto acima de sua cabeça. “Lugares com vazamentos como esse estão em toda parte. Estamos atingindo carbono antigo, que ficou armazenado no solo por 30 mil ou 40 mil anos”, disse ela.




Expansão para baixo


Permafrost, ou pergelissolo em português, significa solo permanentemente congelado, sendo o “permanente” definido como a continuidade, por dois ou mais anos, do registro de temperaturas abaixo de zero grau centígrado na superfície.

O principal fator formador de permafrost é o clima: nas áreas onde ele incide a temperatura média do ar é igual ou inferior a 0°C. Típico de altas latitudes, esse clima se caracteriza por invernos longos e gelados, com pequena precipitação de neve, e verões curtos, frios e relativamente secos.

Além de manterem o permafrost sólido, as baixas temperaturas impedem a decomposição de matéria orgânica e o movimento descendente de água. Nas áreas de temperatura abaixo de 0°C, uma parte do solo congelado durante o inverno não descongela ao longo do curto verão. Com isso, novas camadas de permafrost se formam e se expandem para baixo a cada ano, a partir do solo congelado no inverno. O resultado é que em algumas áreas há camadas de até mais de 700 metros de profundidade.

O congelamento e o descongelamento cíclico das águas subterrâneas situadas nas camadas superficiais fazem o solo se deslocar e se mexer, o que resulta em modificações estruturais consideráveis, um problema sério para a segurança e a construção de edifícios, estradas e obras de infraestrutura no Canadá e na Sibéria.



A previsão do Permafrost Carbon Research Network é dramática, considera o pesquisador brasileiro Jean Ometto, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Na realidade”, explica ele, “a estimativa de emissões do metano do permafrost nos próximos 30 anos baseia-se na premissa de que o aquecimento global é um processo contínuo e crescente.

Assim, parte do solo congelado nas regiões boreais descongelaria e a decomposição intensa da enorme quantidade de matéria orgânica liberaria uma quantidade muito grande de metano. Caso isso realmente aconteça, a concentração de metano na atmosfera aumentaria signifi cativamente, o que retroalimentaria o processo, provocando um maior aquecimento da atmosfera.”


Segundo a equipe do Permafrost Carbon Research Network, já entramos num ciclo de retroalimentação. Fatores determinados pelas emissões de combustíveis fósseis estão aquecendo o planeta. Isso faz o permafrost degelar, liberando mais GEE, o que incrementa a elevação de temperatura. “É importante controlarmos os níveis de emissões atuais para que o aquecimento global não extrapole os 2°C, em relação ao período pré-industrial. Se conseguirmos, parte do problema do degelo do permafrost seria contornada”, observa Ometto.


Mantendo-se o atual ritmo de emissões, entretanto, interromper o processo de retroalimentação será bastante difícil. A alternativa mais viável para amenizar a ameaça do permafrost, segundo Edward Schuur, é controlar as emissões originárias de combustíveis fósseis e reduzir o desmatamento – duas atitudes que a humanidade ainda reluta muito em tomar.
Revista Planeta

terça-feira, 21 de junho de 2022

Recursos marinhos não renováveis: vão durar ...


A exploração da base das mais avançadas tecnologias, os minerais, deve considerar o propósito da prosperidade sem esquecer a necessidade de conservação ambiental, sobretudo no ambiente marinho


CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK




Estanho, titânio, cascalho, calcário, enxofre, carvão e petróleo são exemplos de minerais utilizados amplamente pela sociedade atual. Estão na base das mais avançadas tecnologias que facilitam nossas vidas, mas, cabe lembrar, são recursos não renováveis. Sua exploração segue desenfreada, inclusive no ambiente marinho.

O oceano tem diferentes ecossistemas, cada um deles com variados e abundantes recursos, e os minerais marcam forte presença. Nas águas mais rasas da zona costeira e da plataforma continental, os principais são o cascalho e a areia – esta é muito utilizada para produção de cimento ou vidro e aquele, útil na produção de cosméticos, fertilizantes e cimentos. Em regiões costeiras também há os ditos minerais pesados, como ilmenita, rutilo, zircão, monazita e magnetita, todos importantes para a produção de pigmentos e de ligas metálicas.

Há também os evaporitos, um tipo de rocha sedimentar formada em ambientes marinhos com pouca influência de sedimentos de origem continental. Entre os evaporitos estão a halita, utilizada como sal de cozinha e fonte de cloro e derivados; a silvita, principal fonte de potássio para a produção de fertilizantes e fogos de artifício; a gipsita, matéria-prima para a fabricação de gesso; além da calcita, da anidrita e da dolomita, presentes na fabricação de cal para argamassa. Outro tipo de rocha sedimentar formada no ambiente marinho em grandes profundidades (maiores que mil metros) é a fosforita, bastante usada na produção de fertilizantes.


Energia mineral

Formados ao longo de milhões de anos a partir da matéria orgânica de seres vivos, os depósitos de carvão mineral, gás natural e petróleo são importantes fontes de energia para a sociedade. O petróleo, além de ser a principal matriz energética na atualidade, também é usado na fabricação de tecidos, plásticos, detergentes, entre outros produtos.

Há ainda um composto energético marinho, talvez mais abundante do que todo o petróleo e o carvão: os hidratos de gás. São sólidos cristalinos semelhantes ao gelo, presentes em todas as margens oceânicas abaixo dos 500 metros de profundidade. Com uma estrutura que aprisiona gases, principalmente o metano, eles têm alto potencial energético a ser explorado.

Em diferentes profundidades do oceano, encontram-se também outros minerais: os nódulos polimetálicos, as crostas cobaltíferas e os sulfetos metálicos. Os nódulos, que contém ferro e manganês, estão localizados sobre o sedimento marinho entre 4 mil e 5 mil metros de profundidade. Os sulfetos metálicos, ricos em ferro e cobre, são encontrados em zonas relacionadas ao vulcanismo e à expansão das placas tectônicas, a aproximadamente 3 mil metros de profundidade. As crostas cobaltíferas, ricas em cobalto, são formadas sobre estruturas rochosas em regiões entre 400 metros e 4 mil metros de profundidade.

O olhar sobre esses minerais é estratégico, uma vez que são ricos em elementos usados na construção de painéis solares, celulares, lâmpadas, ligas metálicas, vidro, lentes dos óculos, cabos de transmissão de dados, entre outros.


Desafios complexos

A obtenção desses e de outros recursos minerais do oceano apresenta desafios ambientais e tecnológicos complexos, mas que certamente não são insuperáveis. Acontece que, se nesse movimento pela exploração, a ganância pelo lucro prescindir do bem maior que é o meio ambiente, pode-se considerar o comprometimento das gerações atuais e futuras.

A diversidade biológica também é enorme nos fundos marinhos — grande parte ainda desconhecida —, e pode ser afetada de forma irreversível se os cuidados necessários não forem tomados. A obtenção desses recursos deve considerar os grandes custos envolvidos e ser feita para gerar e compartilhar prosperidade, sem inviabilizar a natureza.

Há quem se pergunte como contribuir para que a exploração não ocorra desnecessariamente e de modo predatório. Já é de grande valia uma atitude individual que considere o consumo de forma consciente e, melhor ainda, seria se, coletivamente, houvesse mais pressão para que as empresas desenvolvam produtos com maior eficiência e durabilidade, demandando menos recursos e reciclando materiais.


Felipe Toledo
Instituto Oceanográfico
Universidade de São Paulo

Tássia Biazon
Cátedra UNESCO para Sustentabilidade do Oceano
Universidade de São Paulo

*A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo.
Revista Ciência Hoje

segunda-feira, 20 de junho de 2022

De Tonga a São Paulo



Pluma da grande erupção vulcânica que ocorreu em janeiro na ilha do Pacífico é observada 27 quilômetros acima da capital paulista


A pluma atmosférica liberada pela erupção do vulcão de Tonga vista da Estação Espacial Internacional

Nasa Earth ObservatoryMarcos Pivetta



À1h56 da madrugada de 26 de janeiro, o radar meteorológico instalado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) registrou uma concentração de aerossóis, finas partículas em suspensão, cerca de 27 quilômetros (km) acima da cidade de São Paulo. A ocorrência tinha forma similar à de uma linha contínua que riscava a parte de cima da imagem que representava a área de céu observada. Tratava-se de um evento bastante raro, já dentro dos domínios da estratosfera, a segunda camada da atmosfera terrestre, logo após a troposfera, que se inicia entre 16 e 18 km de altitude na capital paulista e vai até 50 km.

Em noites sem chuva e com pouca névoa, como era aquela do verão paulistano, o radar costuma flagrar dois tipos de manchas horizontais no céu. A mais comum, e mais grossa, situa-se entre 3 e 4 km de altitude e representa o acúmulo da poluição atmosférica produzida por carros, indústrias e demais atividades da metrópole. A outra, menos densa e nem sempre presente, forma-se por volta dos 10 km de altitude e indica a existência de nuvens do tipo cirrus, constituídas por vapor-d’água supersaturado e cristais microscópicos de gelo. A única explicação plausível para um registro tão chamativo de aerossóis acima dos 20 km de altitude naquela madrugada era de que as cinzas de uma grande erupção vulcânica recente tinham alcançado a estratosfera.

“A última vez que tínhamos visto algo parecido foi em 2015, quando o vulcão chileno Calbuco entrou em atividade. Mas sua pluma de aerossóis atingiu no máximo 17 km de altitude”, conta o físico Eduardo Landulfo, coordenador do Laboratório de Aplicações Ambientais de Laser do Ipen, que gerencia o uso do radar. “Não esperávamos que o radar tivesse capacidade técnica para registrar aerossóis até quase 30 km de altitude.” Landulfo é um dos principais pesquisadores de um projeto financiado pela FAPESP que estuda a qualidade do ar na Região Metropolitana de São Paulo.


A erupção do vulcão de TongaCSU / CIRA e JAXA / JMA

A inusual concentração de partículas suspensas observada pelo radar era resultado da grande erupção de 15 de janeiro do vulcão submerso encravado na ilhota de Hunga Tonga-Hunga Haʻapai, situada 65 quilômetros ao norte da principal ilha do arquipélago de Tonga, no sul do Pacífico. A atividade da caldeira foi tão intensa que o território de Hunga Tonga-Hunga Haʻapai se partiu em dois. Logo após o cataclismo, pesquisadores de países do hemisfério Sul, como Austrália e Nova Zelândia, começaram a acompanhar a pluma por meio de radares, satélites e outros instrumentos.

A forte explosão vulcânica em Tonga provocou um tsunami com ondas de até 15 metros de altura que atingiu as ilhas do arquipélago, onde vivem 100 mil habitantes. Pelo menos seis pessoas morreram e milhares foram desabrigadas. O barulho da erupção foi ouvido a quase 2 mil quilômetros de distância, na Nova Zelândia. Uma gigantesca pluma de cinzas decorrentes da atividade vulcânica, que se prolongou por 11 horas, cobriu Tonga. Ela é formada basicamente por gases à base de enxofre, vapor-d’água e dióxido de carbono.

Em meados de fevereiro, pesquisadores da Nasa, agência espacial norte-americana, fizeram uma análise preliminar de dados de dois satélites meteorológicos geoestacionários, o Goes-17 e o Himawari-8, e concluíram que a pluma vulcânica do Hunga Tonga-Hunga Haʻapai (o vulcão é chamado com o nome da ilhota) atingiu a maior altitude já registrada por esse tipo de fenômeno. Trinta minutos após a explosão da caldeira, essa mistura de gás, vapor e cinzas expelida pelo monte submerso no Pacífico Sul chegou a 58 km de altitude. A pluma penetrou na mesosfera, a terceira camada da atmosfera, que se estende aproximadamente entre 50 e 100 km de altitude. “A intensidade desse evento excede em muito a de qualquer nuvem de tempestade que já estudei”, comentou o cientista do clima Kristopher Bedka, do Centro de Pesquisa Langley da Nasa, em comunicado à imprensa. O recorde anterior pertencia à pluma da erupção do vulcão Pinatubo, nas Filipinas, em 1991, que tinha alcançado 35 km de altitude.


Satélite captou a evolução da erupção submarina e a liberação da pluma vulcânicaNasa Earth Observatory

Erupções vulcânicas tão potentes a ponto de conseguir impulsionar seu rastro de fumaça até a estratosfera podem alterar temporariamente o clima global, mais especificamente reduzir a temperatura média do planeta por meses. Os aerossóis bloqueiam a chegada à Terra de parte da luz solar e esfriam o ambiente (ver Pesquisa FAPESP nº 308). Daí o interesse que esses eventos extremos provocam em pesquisadores das ciências atmosféricas, além, claro, dos próprios geólogos e vulcanólogos. “Os aerossóis do Pinatubo resfriaram a temperatura do planeta em cerca de 0,6 °C por quase dois anos”, diz a física Márcia Akemi Yamasoe, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). “Mas ainda é cedo para prevermos se a erupção de Tonga vai ter algum impacto semelhante no clima global.”

Diferentemente do que ocorre na troposfera, a primeira camada da atmosfera, não há nuvens de chuva na estratosfera ou na mesosfera. Essa característica dificulta e torna mais lenta a dispersão dos poluentes nas altas camadas da atmosfera, como ocorreu até agora com a pluma do vulcão de Tonga. “Os aerossóis podem ficar circulando por meses e até anos em torno do globo terrestre”, diz Landulfo.

O radar meteorológico do Ipen emprega a tecnologia de LiDAR, um método de sensoriamento remoto que usa o laser para medir a localização de objetos em relação à superfície terrestre. Como a velocidade da luz é conhecida (cerca de 300 mil km por segundo), o tempo necessário para que um feixe de laser seja emitido, refletido por uma camada de aerossóis e volte para sua fonte fornece a distância exata dessa nuvem de partículas em suspensão.


Radar meteorológico do Ipen mostra a pluma vulcânica da erupção do vulcão de Tonga 27 km de altitude sobre São Paulo (linha esverdeada no alto da imagem)Fábio Juliano da Silva Lopes / Ipen

O equipamento do Ipen é programado para registrar especificamente a presença de aerossóis que variam de poucos nanômetros a alguns micrômetros, como poluição urbana, fumaça de queimadas, vapor-d´água e grãos de poeira. Ele é prioritariamente usado para estudar a qualidade do ar e o clima na região metropolitana da capital paulista e faz parte da Latin American LiDAR Network (Lalinet).

“Desde que identificamos a pluma da erupção do vulcão de Tonga pela primeira vez, temos seguido sua movimentação com o radar sempre que as condições de observação noturna são boas”, diz o físico Fábio Juliano da Silva Lopes, que faz estágio de pós-doutorado no grupo de Landulfo no Ipen. Em certos dias, os pesquisadores do instituto viram que a pluma, na verdade, divide-se em três segmentos situados em altitudes diferentes, por volta dos 22, 25 e 27 km.

Dados preliminares de registros internacionais indicam que a erupção do monte submarino de Tonga atingiu provavelmente o nível 5 do Índice de Explosividade Vulcânica (VEI), uma escala logarítmica que vai de 0 a 8, do nível mais fraco ao mais forte. O número reflete uma classificação relativa da potência desse tipo de evento, similar à fornecida pela mais conhecida escala Richter, que dimensiona a magnitude de terremotos. Desde a erupção de 1991 do Pinatubo, que chegou ao nível 6 no VEI, não havia registro de uma explosão vulcânica tão potente, como a ocorrida no início do ano nos arredores do arquipélago do Pacífico Sul.


O arquipélago de Tonga fica no Pacífico Sul (ver globo). A erupção fez submergir quase toda a ilhota de Hunga Tonga-Hunga Ha‘apai, da qual restaram duas pequenas pontas em lados opostosNasa Earth Observatory

Vulcões em águas profundas raramente provocam grandes erupções que conseguem vencer a resistência do mar que os cobre. Normalmente, a presença do oceano represa substancialmente sua força explosiva. “Mas a erupção de Tonga foi tão intensa que compensou o fato de ter ocorrido debaixo d’água. É a primeira vez que um evento tão específico como esse do Pacífico Sul é observado por satélites, radares de LiDAR e outros instrumentos de sensoriamento remoto, todos desenvolvidos na segunda metade do século XX”, diz o físico cubano Juan Carlos Antuña-Marrero, da Universidade de Valladolid, na Espanha, especialista no estudo de aerossóis, em entrevista a Pesquisa FAPESP.

A base da ilhota de Hunga Tonga-Hunga Haʻapai se situa a 2 mil metros de profundidade, no assoalho do oceano, e faz parte do arco de Tonga-Kermadec, sujeito a terremotos e formado por uma cadeia de vulcões submarinos. Mas a boca do vulcão que entrou em atividade intensa em 15 de janeiro se encontrava apenas entre algumas dezenas e 250 metros debaixo d’água. Ou seja, raso o suficiente para que o oceano não suprimisse toda a força da erupção, mas profundo o bastante para que o magma expelido deparasse com um ingrediente explosivo. A lava aquece rapidamente a água que se transforma em vapor, gás que se expande de forma acelerada. Essa peculiaridade talvez explique a altura elevada que a pluma da erupção atingiu.

Apesar de não ter sido tão potente quanto a erupção do Pinatubo, a explosão do vulcão de Tonga tem produzido dados surpreendentes em menos de um mês de estudos. Nas horas seguintes ao evento no Pacífico, o satélite Aqua, da Nasa, observou a produção de ondas de choque, círculos concêntricos, que percorreram várias vezes a atmosfera de todo o globo terrestre. As ondas se iniciavam na superfície do oceano e atingiam até a ionosfera, a mais de 100 km de altitude.

Nas próximas semanas, Landulfo, Antuña-Marrero e outros pesquisadores do Brasil e do exterior devem realizar estudos conjuntos para tentar entender as características da pluma do vulcão de Tonga e seus possíveis impactos climáticos. O pesquisador do Ipen está em negociações com colegas da Nasa para soltar balões meteorológicos que podem chegar até a altura da pluma para realizar medições in loco. Isso já foi feito nas ilhas Reunião, no oceano Índico, de onde também se avista o rastro de fumaça da erupção de Tonga na troposfera. Até o fechamento desta reportagem, o radar do Ipen ainda registrava a pluma vulcânica cerca de 30 km acima da cidade de São Paulo.

Projeto
Área metropolitana de São Paulo: Abordagem integrada mudanças climáticas e qualidade do ar, Metroclima Masp (nº 16/18438-0); Modalidade Projeto Temático; Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG); Pesquisadora responsável Maria de Fátima Andrade (USP); Investimento R$ 5.763.389,75.
Revista Fapesp

segunda-feira, 13 de junho de 2022

ÁREAS ÚMIDAS







Você Sabia?

Importantes para o equilíbrio ecológico da Terra, as áreas úmidas são zonas de fronteira entre ambientes aquáticos e terrestres.

Ao todo, são classificados 42 diferentes tipos de áreas úmidas.

As áreas úmidas sofrem com vários problemas: drenagem, poluição, mineração, grandes obras de infraestrutura, exploração indevida de recursos naturais e desmatamento.



O que são áreas úmidas?

Áreas úmidas são zonas de fronteira entre ambientes aquáticos e terrestres, que possuem o solo encoberto por água periodicamente ou durante todo o ano, incluindo áreas de água doce ou marítima com menos de seis metros de profundidade.

Charcos, pântanos, várzeas, mangues, turfas, igapós e buritizais não são tão populares como as florestas tropicais, mas são ecossistemas tão importantes quanto para a vida em nosso planeta. Ao todo, são classificados 42 diferentes tipos de áreas úmidas.

A definição desse conceito surgiu na Convenção de Ramsar, tratado intergovernamental celebrado no Irã, em 1971, que marcou o início das ações nacionais e internacionais para a conservação e o uso sustentável das zonas úmidas e de seus recursos naturais. Atualmente, 150 países são signatários do tratado, incluindo o Brasil.

A Convenção também classificou as áreas úmidas de importância mundial, os chamados Sítios Ramsar. Existem 1.556 Sítios Ramsar reconhecidos mundialmente por suas características, biodiversidade e importância estratégica para as populações locais.

O Brasil possui a maior área alagável continental do mundo, o Pantanal.

Além do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense (MT), o país possui outras 23 áreas classificadas como Sítios Ramsar, como a Estação Ecológica Mamirauá (AM), Ilha do Bananal (TO), Reentrâncias Maranhenses (MA), Área de Proteção Ambiental da Baixada Maranhense (MA), Parque Estadual Marinho do Parcel de Manoel Luz (MA), Lagoa do Peixe (RS) e a Reserva Particular do Patrimônio Natural Sesc Pantanal (MT).


Qual a importância das áreas úmidas para o planeta?

Segundo o Relatório Ramsar 2018, as áreas úmidas oferecem lar para 40% das espécies de todo o mundo e fornecem água e alimento para mais de 1 bilhão de pessoas. Além disso, chegam a absorver e estocar 50 vezes mais carbono da atmosfera do que as florestas tropicais.

No mundo todo, as áreas úmidas somam aproximadamente 13,6 milhões de quilômetros quadrados. Ocupam quase 20% da América do Sul e quase o mesmo tanto do território brasileiro. Na Bacia Amazônica, são mais de 30% do território, totalizando mais de 2 milhões de quilômetros quadrados.

As áreas úmidas são importantes para o equilíbrio ecológico da Terra com papel fundamental nos ciclos de água, de nutrientes, na recarga dos lençóis freáticos e na manutenção da biodiversidade.

Nesses locais, geralmente há flora e fauna adaptadas às condições hídricas que resulta numa alta taxa de espécies endêmicas -ou seja, espécies que só existem ali. Essas formas de vida têm adaptações específicas, que lhes permitem sobreviver e coexistir nestes ambientes.

Como parte integrante desta biodiversidade, o ser humano também se beneficia da existência das áreas úmidas. A humanidade sempre procurou essas áreas para morar porque fornecem muitos recursos naturais, que podem ser considerados serviços ecossistêmicos ou ambientais.

Em biomas como Amazônia e Pantanal, tais serviços podem ser alimento para comunidades locais, como peixes e a caça de subsistência, mel e frutos nativos ou de manejo florestal como a madeira.

No caso das várzeas, que possuem solo rico em nutrientes, atividades como pecuária e agricultura normalmente se destacam.

Cursos fluviais servem como vias de acesso e mobilidade, além de formarem cenários paisagísticos que proporcionam experiências singulares para ecoturistas.


Que tipos de ameaças atingem as áreas úmidas?

As áreas úmidas sofrem com vários problemas. Um deles é a drenagem, pois há quem drene essas áreas para deixá-las mais secas e aproveitá-las para pecuária e agricultura.

Outras questões são: a poluição das águas pelos esgotos e resíduos domésticos; a mineração, que joga dejetos nesses espaços; a construção de hidrelétricas, que muda o regime hidrológico das áreas úmidas, causando mudanças nos ciclos de secas e cheias, acarretando grandes impactos nesses ambientes; a construção de hidrovias e diques; a exploração indevida de recursos naturais como peixes e madeiras; o desmatamento nas cabeceiras que também resultam na degradação desses ambientes.


De que maneira a população pode ajudar a conservar as áreas úmidas?

Ter cuidado com os resíduos e com o lixo é fundamental.

Além disso, é preciso combater o desmatamento, pois as áreas úmidas são muito sensíveis. Hoje parte delas são denominadas APP (Área de Preservação Permanente), como descrito no Código Florestal. Evitar o desmatamento das margens de rios ajuda a protegê-las e a manter a dinâmica saudável dos ambientes.
https://www.wwf.org.br/

Camada de Ozônio



Você sabia?

A camada de ozônio protege animais, plantas e seres humanos dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol.

A primeira vez que detectaram a existência de um buraco na camada de ozônio foi em 1977,
na Antártida.

A vida marinha também é seriamente afetada pela radiação dos raios ultravioletas.





O que é a camada de ozônio?

Em volta da Terra, há uma frágil camada de um gás chamado ozônio (O3), que protege animais, plantas e seres humanos dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol.

O ozônio tem comportamentos distintos na atmosfera a depender da altitude. Na superfície terrestre, o ozônio contribui para agravar a poluição do ar das cidades e a chuva ácida. Mas, nas alturas da estratosfera (entre 25 e 30 quilômetros acima da superfície), é um filtro a favor da vida, já que a exposição direta aos raios ultravioletas é nociva aos seres vivos.

Na atmosfera, a presença da radiação ultravioleta desencadeia um processo natural que leva à contínua formação e fragmentação do ozônio, como na imagem abaixo:


O que está acontecendo com a camada de ozônio?

Há evidências científicas de que substâncias fabricadas pelo homem estão destruindo a camada de ozônio.

Em 1977, cientistas britânicos detectaram pela primeira vez a existência de um buraco na camada de ozônio sobre a Antártida. Desde então, acumulam-se registros de que a camada está se tornando mais fina em várias partes do mundo, especialmente nas regiões próximas do Polo Sul e, recentemente, do Polo Norte.

Diversas substâncias químicas acabam destruindo o ozônio quando reagem com ele. Essas substâncias contribuem também para o aquecimento do planeta.

A lista dos produtos com efeitos destrutivos sobre a camada de ozônio inclui clorofluorcarbono (CFC), hidroclorofluorcarbono (HCFC), tetracloreto de carbono (CTC), brometo de metila e halon.


Como essas substâncias destroem a camada de ozônio?

Depois de liberados no ar, os gases permanecem na atmosfera por anos e, ao chegarem na estratosfera, são atingidos pela radiação ultravioleta, se desintegram e liberam radicais livres que destroem o ozônio. Consequentemente, vamos perdendo a proteção contra os raios ultravioletas.

Os CFCs são as principais substâncias que destroem a camada de ozônio. Foram amplamente usados em condicionadores de ar, geladeiras, aerossóis e em inaladores usados por pacientes asmáticos. Quando a molécula do CFC se decompõe, ela libera seus átomos de cloro. Um átomo de cloro pode destruir cem mil moléculas de ozônio.

A redução acentuada na concentração de ozônio causa o fenômeno conhecido como "buraco na camada de ozônio".


O que é o buraco na camada de ozônio?

O chamado "buraco na camada de ozônio" é o afinamento da camada de ozônio que ocorre em diversos lugares da estratosfera, a segunda camada da atmosfera da Terra.

Quando descoberto, o fenômeno causou grande preocupação já que acarreta um futuro com aumento de doenças como câncer de pele e catarata, plantas e colheitas destruídas e ecossistemas danificados.

Por uma série de fatores climáticos a camada sobre a Antártida é especialmente suscetível à destruição do ozônio. Toda primavera, quando o sol nasce, reações com substância produzidas pelo homem destroem o ozônio, afinando a camada na região e causando o "buraco na camada de ozônio".

Segundo cientistas das agências governamentais americanas Nasa (National Aeronautics and Space Administration) e da Noaa (The National Oceanic and Atmospheric Administration), em 7 de outubro 2021 o buraco de ozônio antártico atingiu sua área máxima, ocupando o 13º lugar desde 1979.


Quais os problemas causados pelos raios ultravioletas?

A exposição à radiação ultravioleta causa riscos de desenvolvimento de envelhecimento precoce, câncer de pele, danos à visão e danos ao sistema imunológico, reduzindo a resistência humana a doenças.

Os seres humanos não são os únicos atingidos pelo aumento da radiação dos raios ultravioletas. A vida marinha também é seriamente afetada: o plâncton (plantas e animais microscópicos) que vive na superfície do mar e está na base da cadeia alimentar marinha, além de peixes nos estágios iniciais, camarões, entre outros.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

PARA PREVER O FUTURO



Para compreender o que acontecerá com a costa brasileira se – ou quando – as previsões de aquecimento das águas e aumento da poluição se concretizarem, não é preciso usar uma bola de cristal. No sul da Bahia, um sistema experimental denominado mesocosmo marinho tem possibilitado a simulação de condições ambientais diversas para avaliar como a vida marinha se transformará a partir de mudanças relacionadas principalmente ao aquecimento global. Caso a temperatura dos oceanos aumente apenas dois graus Celsius, as consequências serão catastróficas para os recifes de corais.

Um dos principais objetivos do mesocosmo é servir como plataforma de testes das previsões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que reúne cientistas do mundo todo com contribuições em pesquisas sobre mudanças climáticas. “O sistema mesocosmo marinho foi concebido para ficar a céu aberto utilizando diversas variáveis para conseguirmos simular as previsões do IPCC para as próximas décadas. Dessa forma, houve um avanço nas pesquisas científicas realizadas sobre impactos futuros nos recifes de coral do Brasil, com espécies que somente ocorrem aqui, por exemplo”, afirma o biólogo marinho Gustavo Duarte, coordenador de políticas públicas do Projeto Coral Vivo, responsável pelo estudo.
As bactérias fixadoras de nitrogênio tiveram sua população aumentada em 27 vezes, demonstrando um claro desequilíbrio

Em um dos estudos conduzidos no mesocosmo, cientistas investigaram a relação simbiótica entre algas marinhas e alguns tipos de micro-organismos. Sob ação de uma temperatura 1°C mais elevada que o natural no oceano, não houve alterações significativas. Já com uma temperatura 2°C mais elevada, os impactos se mostraram maiores. As bactérias fixadoras de nitrogênio tiveram sua população aumentada em 27 vezes, demonstrando um claro desequilíbrio. “Também foram feitas simulações do impacto da temperatura em três cenários de aquecimento global na fotossíntese de corais, que apresentaram o mesmo limiar térmico, 2˚C, desencadeando a síndrome do branqueamento”, acrescenta o biólogo.


Baseado nos estudos até o momento, Duarte faz um alerta: “Nossos resultados são preocupantes, pois o Acordo de Copenhague prevê um limite de aumento de 2˚C na temperatura do planeta, e muitos países estão tentando aumentar este limite”, lembra. “Nossas simulações reforçam a tese de que mesmo este limite de aumento da temperatura poderá ser catastrófico para os oceanos, principalmente para os recifes de coral”, avisa o biólogo.Imagem de satélite mostra o mesocosmo marinho em terra e o local de onde a água é captada a 500 metros da costa. (foto: Projeto Coral Vivo)

O mesocosmo marinho está montado em Arraial d’Ajuda, na Bahia, desde 2012, e conta com dois módulos experimentais adaptáveis para uma grande variedade de testes. Ao todo, são quatro cisternas, com capacidade de 5 mil litros, que recebem água diretamente de um ponto no mar a 500 metros da costa. Os experimentos ocorrem em 16 tanques de 130 litros cada e em 48 aquários de dez litros cada, paralelamente. Esses dispositivos são separados em grupos de quatro e recebem as alterações definidas pelos pesquisadores, sendo que um tanque ou aquário do grupo sempre mantém as condições naturais como controle experimental – para depois ser comparado com as demais réplicas que têm as condições da água do mar manipuladas.

“Fazer pesquisa com impactos de temperatura, acidificação e contaminantes químicos, dentre outros estressores diretamente no ambiente natural, é arriscado e caro”, pondera Duarte. “Empregando o mesocosmo marinho, podemos reproduzir o ambiente natural e as variáveis que pretendemos testar do modo mais fiel possível, reduzindo custos e esforços em trabalhos de campo sem grande perda de qualidade dos resultados”, garante.
Complexo de tanques do mesocosmo marinho. (foto: Matheus Deocleciano)

Para a execução dos experimentos relacionados ao aumento da temperatura marinha, o mesocosmo conta com um sistema de aquecimento de alta capacidade especialmente desenvolvido para a iniciativa. O complexo conta ainda com reatores de dissolução de CO2 para testar as consequências da acidificação das águas. “Depois de bombeada do recife de coral, a água é dividida entre as quatro cisternas e não se misturará novamente. Nas cisternas, são instalados os equipamentos necessários a simulações de condições experimentais”, explica Duarte. A iniciativa teve seu funcionamento descrito na edição de outubro da revista Ecology and Evolution.
Quer falar sobre isso com uma criança? Clique aqui para ler o texto que a Ciência Hoje das Crianças preparou sobre este assunto.

Everton Lopes
Instituto Ciência Hoje/ RJ


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Árvores baixam temperaturas do solo em cidades em até 12°C


Efeito foi observado em dados coletados por satélites referentes a quase 300 cidades europeias
26/11/2021


Árvores em cidade: efeito significativo em relação às temperaturas nos períodos mais quentes. Crédito: Pxfuel


Já se sabia que as árvores beneficiam os ambientes urbanos ao gerar áreas de sombra e baixar as temperaturas, mas quantificar isso não é muito fácil. Um estudo recente de pesquisadores suíços encontrou evidências que indicam que grupos de árvores podem reduzir as temperaturas da superfície nas cidades em até 12°C. Em seu artigo, publicado na revista Nature Communications, a equipe, do Instituto de Ciência Atmosférica e Climática do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), relata o que descobriu a partir da análise de imagens de satélite de centenas de cidades pela Europa e suas conclusões a esse respeito.

Como as cidades são normalmente mais quentes do que as áreas circundantes devido às grandes áreas cobertas com asfalto e cimento, que absorvem o calor, há um certo consenso quanto à ideia de que criar e ampliar espaços verdes nos núcleos urbanos ajuda a baixar as temperaturas do ar nas épocas mais quentes. O estudo suíço se concentrou em um aspecto um pouco diferente: eles investigaram os possíveis impactos da temperatura no solo em vez da temperatura do ar. Como a temperatura analisada está abaixo dos pés, e não ao redor, ela não é sentida de forma tão incisiva.
Revista Planeta

Óleo que atingiu praias do Nordeste veio de petroleiro grego, diz PF


Empresa e comandante do navio são indiciados por crime de poluição; multa inicial seria de mais de R$ 188 milhões




Manchas de óleo em praias do Nordeste: Polícia Federal acusa petroleiro grego de ser o responsável pelo derramamento. Crédito: © Divulgação/Agência Petrobras


As manchas de óleo que apareceram em centenas de praias brasileiras entre agosto de 2019 e março de 2020 vieram de um petroleiro grego. A conclusão foi divulgada nesta quinta-feira (2) pela Polícia Federal (PF).

Segundo a PF, foram encontradas manchas de óleo em mais de mil localidades, em 11 estados litorâneos. Apenas os custos arcados pelos poderes públicos federal, estadual e municipal para a limpeza de praias e oceano foram estimados em mais de R$ 188 milhões, estabelecendo-se assim um valor inicial e mínimo para o dano ambiental.

“A Polícia Federal, a partir das provas e demais elementos de convicção produzidos, concluiu existirem indícios suficientes de que um navio petroleiro de bandeira grega teria sido o responsável pelo lançamento da substância oleaginosa que atingiu o litoral brasileiro. Foram indiciadas pela prática dos crimes de poluição, descumprimento de obrigação ambiental e dano a unidades de conservação a respectiva empresa e seus responsáveis legais, bem como o comandante e o chefe de máquinas do navio”, afirmou a PF em nota.

O valor total do dano ambiental está sendo apurado pela perícia da PF, que deverá encaminhar com brevidade o respectivo laudo às autoridades competentes. O inquérito policial relatado segue agora para o poder judiciário federal no Rio Grande do Norte e o Ministério Público Federal (MPF), para análise e adoção das medidas cabíveis.


Investigações

As investigações, realizadas em parceria com diversos órgãos e instituições nacionais e internacionais, foram centradas em três frentes. A primeira diz respeito à investigação das características da substância, por meio de análises químicas que buscaram determinar o tipo de material que chegou à costa brasileira, suas características e, especialmente, sua procedência, se nacional ou estrangeira, e qual país.

“Isso se fazia necessário, uma vez que surgiram diversas teorias sobre a origem do material (vazamento de oleodutos, plataformas ou reservas naturais, navios em trânsito ou naufragados, costa da África, etc.)”, explicou a PF.

A segunda frente diz respeito ao local exato onde ocorreu o vazamento/lançamento do óleo, na qual priorizou-se o uso de técnicas de geointeligência, que incluem imagens de satélite e modelos e simulações realizadas por softwares específicos. A terceira foi realizada com base em dados, documentos e informações que pudessem esclarecer os fatos, por meio de cooperação nacional e internacional, inclusive com apoio da Interpol.
Revista Planeta

Desmatamento na Amazônia não traz progresso social, diz estudo


Índice de Progresso Social aplicado à Amazônia Legal mostra que cidades que mais desmatam têm as piores colocações



Na Amazônia Legal, as condições sociais e ambientais das pessoas que vivem em seus 772 municípios estão se deteriorando. O cenário é capturado pelo Índice de Progresso Social (IPS) feito para a região, que atingiu a pontuação de 54,59 para todos os nove estados – abaixo dos 54,64 verificados no último levantamento, de 2018.

O IPS Amazônia 2021 é baseado numa metodologia internacional e realizado no país pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia). Os resultados, divulgados pelos pesquisadores na noite desta segunda-feira (06/12), mostram que a nota da região é inferior à média do Brasil, que é de 63,29.

As cidades onde o desmatamento mais avançou nos últimos anos têm as piores colocações no índice. “Isso mostra que o desmatamento em geral é acompanhado de pobreza e baixo progresso social. Desmatamento não melhora a vida das pessoas. Isso o estudo mostra de forma categórica”, comenta um dos autores do relatório, Adalberto Veríssimo.

Altamira e São Félix do Xingu, campeãs de destruição florestal, receberam pontuação abaixo da média da Amazônia: 52,95 e 52,94, respectivamente. No ranking dos 772 municípios listados, elas aparecem nas colocações 509 e 513.


Entre as cidades nas últimas posições, muitas são marcadas pela degradação florestal e conflitos sociais, como Pacajá (771º) e Pau D’Arco (763º); e o garimpo ilegal, como Jacareacanga (762º). Todas estão localizadas no Pará.

“A Amazônia é muito importante para o Brasil e para o mundo em termos de recursos naturais. Mas ela sofre com um quadro grave em termos sociais. Isso é incompatível e insustentável em relação à sua importância ambiental para o planeta”, pontua Veríssimo.
Dados sociais, nada de economia

Ao contrário de outros índices, o IPS exclui de propósito dados econômicos. Desenvolvida por pesquisadores da organização Social Progress Imperative, baseada em Washington, nos Estados Unidos, a ferramenta analisa apenas indicadores sociais e ambientais.


Segundo seus fundadores, os critérios rigorosos do índice têm sido aplicados para que países possam entender seus desafios sociais e acelerar esforços para a construção de sociedades inclusivas, igualitárias e sustentáveis.

O novo IPS Amazônia trabalha com 45 indicadores organizados em três dimensões. O grupo “necessidades humanas básicas” analisa componentes como mortalidade infantil, coleta de lixo e homicídios. Em “fundamentos para o bem-estar”, são analisadas informações referentes à qualidade da educação, densidade internet banda larga, desmatamento e emissões de CO2, entre outros.

Já em “oportunidades”, são considerados dados como mobilidade urbana, violência contra indígenas e contra a mulher, empregados com ensino superior.

No ranking de pontuação dos noves estados amazônicos, que vai 0 a 100, Mato Grosso tem a melhor colocação (57,94). Pará (52,94) e Roraima (52,37) ficam com as piores posições.

Quanto às cidades, Cuiabá (74,42), em Mato Grosso, e Palmas (70,23), em Tocantins, são as bem avaliadas. No geral, as capitais e parte dos municípios mais populosos obtiveram notas mais altas.



“São variações dentro de uma realidade difícil. A Amazônia está muito abaixo; e o Brasil já está muito atrás do resto do mundo”, afirma Veríssimo.

No ranking global do Social Progress Index, a Noruega tem a melhor avaliação, com 92,63.
Os empecilhos ao progresso social

Dentre os fatores que mais influenciam o progresso social e, portanto o IPS, estão acesso à saneamento básico, segurança pública, capacidade de atrair e reter mão de obra com ensino superior.

Segundo o relatório, a pontuação da componente segurança pessoal (56,25) demonstra que a violência se tornou um problema crônico em toda a Amazônia. “Isso é atestado pela alta taxa de homicídios nos municípios”, conclui o documento.



Acesso à internet rápida também é visto como um ponto crítico. “Essa é uma componente importante para o progresso social. Se não tem internet, não tem cidadania plena no século 21. Não tem como fazer trabalho remoto, ter acesso a serviços públicos e ao ensino”, argumenta Veríssimo.

Dos 12 componentes do IPS Amazônia, a metade (água e saneamento, segurança pessoal, acesso à informação e comunicação, direitos individuais, liberdades individuais e acesso à educação superior) possui um baixo índice médio, ou seja, menor que 60.

A Amazônia Legal é um conceito criado ainda na década de 1950 para promover uma agenda de desenvolvimento para a região. Sua delimitação não é baseada exclusivamente na vegetação, mas inclui conceitos geopolíticos. Por isso que, além da Floresta Amazônica, há uma parte de Cerrado e do Pantanal em seu mapa.


Segundo dados atualizados do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a região tem uma área de 5,2 milhões de km², o que corresponde a 59% do território brasileiro. Ela engloba os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão, onde vivem atualmente cerca de 28 milhões de habitantes.

Estados da região ocupam também posições inferiores em diversos outros indicadores sociais e econômicos: os que menos contribuem para o Produto Interno Bruto nacional, por exemplo, são Roraima, Acre e Amapá.

Por outro lado, a Amazônia tem sido nos últimos anos o epicentro da destruição ambiental no planeta, com aumento do desmatamento, invasão de terras indígenas e áreas protegidas, aumento do garimpo ilegal e grilagem.

“Desde o início do ciclo de ocupação da Amazônia com base no desmatamento, na década de 1970, até os dias atuais, os resultados sociais, econômicos e ambientais têm sido desastrosos”, alerta o relatório. Um exemplo é o fato de, em 2020, a Amazônia ter contribuído com apenas cerca de 9% do PIB nacional, mas ter gerado 52% das emissões de gases de efeito estufa do país.

Para Veríssimo, o que é visível aos olhos de quem vive na Amazônia fica evidente nas análises científicas. “Desmatamento não compensa, não melhora as condições sociais. Ao contrário. A gente tem visto que desmatamento tende a agravar a situação de desigualdade, de conflito, de violência”, conclui.
Revista Planeta

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Acidificação dos oceanos ameaça espécies que vivem em recifes de coral



Simulações em tanques artificiais sugerem que diminuição do pH da água do mar nas próximas décadas ameaça organismos da meiofauna

Rodrigo de Oliveira Andrade



Acidificação dos oceanos poderá causar impactos significativos, alguns ainda desconhecidos, em algumas espécies da meiofauna de recifes de coralProjeto Coral Vivo

Projeções do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) estimam que o processo de acidificação dos oceanos deve se acelerar com o aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, que em parte é absorvida pelo mar. No melhor dos cenários, a queda no pH — indicador de acidez, neutralidade ou alcalinidade — será entre 0,06 e 0,07 até o ano de 2100. No pior, entre 0,30 e 0,32. Em um estudo publicado na revista Coral Reefs, um grupo de pesquisadores do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) analisou como comunidades de organismos da chamada meiofauna de recifes de coral responderão à acidificação dos oceanos. Por meio de simulações em tanques artificiais, eles verificaram que exemplares jovens de minúsculos crustáceos da ordem Harpacticoida tiveram alta mortalidade devido à diminuição induzida do pH da água.

A meiofauna é composta por animais que vivem em estreitos e úmidos labirintos entre os grãos da areia e entre as algas das praias do litoral do Brasil. Nesse ambiente aparentemente inabitado, esses organismos, em geral com menos que 1 milímetro, desempenham um papel importante no ciclo de nutrientes e no fluxo de energia nos ecossistemas aquáticos, contribuindo com a transformação de matéria orgânica decomposta em nutrientes que ficam disponíveis para outros animais.

No estudo, os pesquisadores da UFPE usaram uma estrutura que busca reproduzir as condições naturais em aquários. Neste sistema, chamado mesocosmo marinho, eles coletaram a água do mar por um tubo subterrâneo com cerca de 500 metros de comprimento e a depositaram em tanques que buscam reproduzir a dinâmica da vida marinha. Cada tanque conta com um sensor de temperatura e recebe uma quantidade de CO2, ajustada de acordo com cada experimento. Para este estudo, os pesquisadores analisaram 20.371 organismos da meiofauna, todos coletados nos recifes de coral do Parque Municipal Marinho do Recife de Fora, em Porto Seguro, Bahia.

Os organismos — entre eles crustáceos, poliquetas, tardigrádos e moluscos — foram distribuídos pelos tanques e expostos à acidificação por até 30 dias. A água do mar usada, com pH em torno de 8,1, teve o pH diminuído em 0.3, 0.6 e 0.9 unidades por meio de injeção controlada de CO2. Como o ciclo de vida desses animais é curto, foi possível observar os efeitos da acidificação também nos descendentes produzidos durante o experimento. Apesar de os adultos de algumas espécies de poliquetas e crustáceos não sofrerem fortes impactos, os jovens dos copépodes da ordem Harpacticoida tiveram alta mortalidade.

“Considerando a importância da meiofauna na cadeia alimentar nos ecossistemas de recifes de corais, os resultados sugerem que a acidificação dos oceanos poderá causar impactos significativos — alguns ainda desconhecidos — em algumas espécies da meiofauna”, diz a bióloga Visnu Sarmento, pesquisadora da UFPE e uma das autoras do artigo. “Organismos adultos parecem conseguir lidar mais facilmente com a acidificação. No futuro, porém, poderá ocorrer uma mudança na dinâmica dessas populações porque a fisiologia dos indivíduos mais jovens é muito mais sensível”, diz a bióloga, que também é membro da Rede de Pesquisas Coral Vivo, patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

Segundo estimativas do IPCC, as últimas três décadas foram as mais quentes desde 1850. As concentrações atmosféricas de CO2 aumentaram em 40% desde os tempos pré-industriais, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis e mudanças no uso da terra. Os oceanos absorveram cerca de 30% desse gás que, em contato com a água, desencadeia uma série de reações químicas que levam a diminuição do pH da água do mar, processo que é popularmente conhecido como acidificação dos oceanos.

Artigo científico
SARMENTO, V. C. et al. Effects of seawater acidification on a coral reef meiofauna community. Coral Reefs. v. 34, n. 3, p. 955-66. set. 2015.
Revista Fapesp

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O mundo mais urbanizado e as cidades virando saunas





O mundo mais urbanizado e as cidades virando saunas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Todos os nossos problemas ambientais se tornam mais fáceis de resolver com menos pessoas e mais difíceis e, em última instância, impossíveis de resolver com cada vez mais pessoas”
David Attenborough

[EcoDebate] O mundo está ficando cada vez mais urbanizado, tanto em termos absolutos, quanto em termos relativos. A população urbana era de 750 milhões de habitantes em 1950, representando 29,6% da população total. Em 2008, a população urbana global chegou a 3,4 bilhões de habitantes, representando 50% da população total. A partir desta data o mundo passou a ter maioria da população vivendo em cidades.

Em 2020, a população urbana chegou a 4,4 bilhões de pessoas (56,2% da população total). Em 2050, deve haver 6,7 bilhões de habitantes urbanas, representando mais de dois terços (68,4%) do total populacional, conforme mostra o gráfico abaixo da Divisão de População da ONU.


A urbanização tem sido o principal vetor da transformação socioeconômica e demográfica do Planeta e do processo de modernização. Nos últimos 2 séculos, as cidades lideraram as inovações econômicas, tecnológicas, científicas e culturais que reconfiguraram as estruturas familiares, a organização social e as relações de trabalho, possibilitando avanços sem precedentes nos direitos de cidadania de parcelas cada vez mais amplas da população.

O processo de urbanização já trouxe muitos ganhos históricos, mas poderá trazer vantagens ainda maiores nas próximas décadas. As transições urbana e demográfica são dois fenômenos fundamentais da modernidade e acontecem de forma sincrônica. como mostraram Martine, Alves e Cavenaghi (2013).

Também de forma sincrônica ocorrem o processo de modernização e de aquecimento global. Entre 1770 e 2020, a economia global cresceu 135 vezes, a população mundial cresceu 9,2 vezes e a renda per capita cresceu 15 vezes. Este crescimento demoeconômico foi maior do que o de todo o período dos 200 mil anos anteriores, desde o surgimento do Homo sapiens. Mas todo o crescimento e enriquecimento humano ocorreu às custas do desequilíbrio climático que prevaleceu no Holoceno (últimos 12 mil anos).

Em função do crescimento das atividades antrópicas, as emissões globais de CO2 que estavam em 2 bilhões de toneladas em 1900, passaram para 6 bilhões de toneladas em 1950, chegaram a 25 bilhões de toneladas no ano 2000 e atingiram 37 bilhões de toneladas em 2019. A concentração de CO2 na atmosfera que permaneceu abaixo de 280 partes por milhão (ppm) durante todo o Holoceno, subiu rapidamente após a Revolução Industrial e Energética. A concentração de CO2 chegou a 300 ppm em 1920, atingiu 317 ppm em março de 1960 e pulou para 417 ppm em maio de 2020. Em consequência do efeito estufa, as temperaturas do Planeta estão subindo e acelerando as mudanças climáticas e seus efeitos danosos sobre a vida na Terra.
Indubitavelmente, o mundo vai ter um grande crescimento urbano até 2050 e também terá um aumento do aquecimento global. Mas a questão que se coloca é a seguinte: é melhor enfrentar os desafios do crescimento populacional na cidade ou no campo?

Existem muitas pessoas saudosistas que falam em desurbanização ou até mesmo “desmigração”. Alguns sonham com uma volta ao rural e com uma casa no campo, de preferência de “pau-a-pique e sapê, com carneiros e cabras pastando solenes no jardim”, como na música de Zé Rodrix. Mas o próprio mundo rural atualmente é bastante diferente do que foi no passado e a urbanidade já avançou para além das cercas que dividem o campo da cidade.

Diversos estudos mostram que os indicadores sociais e econômicos melhoram com o aumento da urbanização. Os países mais urbanizados tendem a ter maior renda, maior nível educacional, menor mortalidade infantil, maior esperança de vida, maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), menores níveis de violência, menor proporção de pessoas passando fome, menor mortalidade materna, menor desigualdade de gênero, etc. Em geral, a concentração urbana permite ganhos de escala e ganhos do efeito de aglomeração, ao contrário da dispersão rural ou das pequenas cidades.

David Owen, no livro Green Metropolis, mostra que os impactos ambientais (emissões, resíduos, ou consumo de terra per capita) é menor nas cidades densas do que nas cidades espraiadas ou nos países com população rural dispersa. Ele mostra que Nova Iorque, especialmente Manhattan, é muito mais eficiente no uso da energia e tem menor pegada ecológica per capita do que cidades como Washington ou Los Angeles. Por exemplo, a verticalização das moradias e escritórios torna mais eficiente o transporte coletivo, pois seria impossível manter metrôs e trens de alta velocidade em áreas rurais ou mesmo em áreas suburbanas de baixa densidade populacional. O fato é que a urbanização é uma tendência que veio para ficar e vai se expandir nas próximas décadas.

No artigo “Global multi-model projections of local urban climates” de Lei Zhao et. al., publicado na revista Nature Climate Change, em 04/01/2021, os autores usam uma nova técnica de modelagem para estimar que, no ano 2100, as cidades do mundo podem chegar a um aquecimento de 4,4º Celsius em média. Isto, deixaria muito para trás as metas do Acordo de Paris. Em geral, os modelos climáticos globais tendem a desprezar as áreas urbanas, pois estas representam apenas 3% da superfície terrestre do planeta. As cidades são apenas um pontinho do território global. Contudo, o artigo sugere que cidades mais quentes podem ser catastróficas para a saúde pública urbana, que já sofre os efeitos do aumento do calor. Entre 2000 e 2016, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, o número de pessoas expostas a ondas de calor saltou 125 milhões e o calor extremo ceifou mais de 166.000 vidas entre 1998 e 2017. Assim, o crescimento das cidades e o aumento do aquecimento global – provocando ilhas de calor nas cidades – podendo gerar uma situação de “cidades saunas”, tornando inabitáveis muitas megacidades do mundo, principalmente nas áreas tropicais. Milhões de pessoas, especialmente idosos e crianças, podem ser vítimas das ondas letais de calor.
Para conter o aquecimento global é preciso haver um decrescimento demoeconômico. Voltar para o meio rural não resolve o problema.

A solução é manter a taxa de urbanização em elevação, mas reduzir o tamanho das cidades por meio da redução demográfica. Assim, o mundo poderia ter maior proporção de habitantes nas cidades, mas as cidades seriam menores em função de um menor número de pessoas em decorrência da transição demográfica e da permanência de taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição.

Artigo de Jim Robbins (BBC Future/Yale e360, 23 novembro 2020) mostra a natureza está passando por um processo de extinção em massa à medida que habitats naturais são alterados pela atividade humana. À medida que o ser humano continua a expandir rapidamente seu domínio sobre a natureza — desmatando e incendiando florestas, exterminando espécies e interrompendo funções do ecossistema — um número cada vez maior de cientistas e conservacionistas influentes acredita que proteger metade do Planeta de alguma forma será a solução para mantê-lo habitável. A ideia ganhou notoriedade pela primeira vez em 2016, quando Edward O. Wilson, o importante biólogo conservacionista, publicou a sugestão no livro “Da Terra Metade: O nosso planeta luta pela vida”.

Desta forma, a melhor maneira de lutar contra o aquecimento global é concentrar a população global nas cidades, mas em cidades menores, com mais áreas verdes, com agricultura urbana e com uma economia sustentável, aumento das áreas anecúmenas e com regeneração ecológica do mundo.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:
ALVES, JED. A urbanização e o crescimento das megacidades, Ecodebate, 22/04/2015

George Martine, Jose Eustáquio Alves, Suzana Cavenaghi. Urbanization and fertility decline: Cashing in on Structural Change, IIED Working Paper. IIED, London, December 2013. ISBN 978-1-84369-995-8 https://pubs.iied.org/10653IIED/

Lei Zhao et. al. Global multi-model projections of local urban climates. Nature Climate Change, 04 January 2021

JIM ROBBINS. O plano para transformar metade do mundo em reserva ambiental, BBC Future / Yale e360, 23 novembro 2020
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