Mostrando postagens com marcador África. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador África. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de março de 2026

Como as redes sociais estão alimentando tensões geopolíticas no Chifre da África




por Endalkachew Chala

No Chifre da África, onde alianças políticas frágeis e tensões militares são vistos como normais, o conflito entre Etiópia, Egito e Somália encontrou um novo campo de batalha: as redes sociais. Plataformas como TikTok, X (antigo Twitter) e Facebook agora são jogadores-chave em uma guerra digital onde a desinformação está alimentando o fervor nacionalista e aumentando o risco de violência no mundo real.


Duas questões principais de tensão geopolítica alimentam esse conflito on-line: a construção da Grande Represa do Renascimento (GERD) pela Etiópia no rio Nilo e seu recente envolvimento diplomático com a Somalilândia, uma região autodeclarada independente que busca reconhecimento internacional. Para o Egito, que depende do Nilo para sua água, a represa é vista como uma ameaça direta à sua sobrevivência. Enquanto isso, a aproximação da Etiópia com a Somalilândia gerou indignação na Somália, que vê a mudança como um desafio à sua integridade territorial.

Embora esses conflitos derivem de disputas históricas e geográficas profundamente enraizadas, eles agora alcançaram milhões por meio das redes sociais.
Influência do TikTok

O TikTok, em particular, surgiu como um palco onde tensões geopolíticas complexas são reduzidas, dramatizadas e frequentemente distorcidas. Em uma tendência amplamente compartilhada, um usuário etíope postou um vídeo onde uma mulher simbolicamente despeja água de uma jarra marcada com a bandeira da Etiópia em jarras menores rotuladas Egito e Sudão, representando o controle da Etiópia sobre o Nilo. Acompanhado por música patriótica, o vídeo é uma demonstração ousada de orgulho nacional, amplificando as narrativas etíopes nas redes sociais.



Usuários egípcios do TikTok responderam da mesma forma. Em um vídeo, dois homens despejam água de uma tigela marcada com a bandeira da Etiópia em copos representando Egito e Sudão, apenas para devolver a água à tigela. O vídeo termina com a colocação de um dispositivo explosivo na tigela, sugerindo a frustração do Egito e aludindo à possibilidade de sabotagem. Embora esses vídeos sejam simbólicos, as tensões subjacentes que eles refletem são muito reais.

Com uma guerra de informações em andamento entre o Egito e a Etiópia como pano de fundo, o relacionamento crescente da Etiópia com a Somalilândia complicou ainda mais a dinâmica frágil da região. Em janeiro de 2024, a Etiópia assinou um memorando de entendimento com a Somalilândia, sugerindo um possível reconhecimento de sua independência — um movimento ao qual a Somália se opôs veementemente. Percebendo uma oportunidade, o Egito reforçou seus laços com a Somália por meio de um acordo de cooperação militar, aumentando as tensões na região.

Desde então, surgiram relatos de que o Egito forneceu equipamento militar e pessoal para a Somália.

À medida que as notícias da aliança Egito-Somália se espalhavam, o TikTok e outras plataformas de rede social foram inundadas com vídeos comemorativos, muitos dos quais dependiam de conteúdo gerado por IA e filmagens manipuladas.

Entre os mais provocativos estava um usuário anônimo do TikTok, operando sob o nome “user74220974543408“, que ganhou atenção por uma série de postagens incendiárias. Em uma delas, um mapa da Etiópia é mostrado sob os pés com a bandeira egípcia circulando ao redor, acompanhado por uma música ameaçadora criada para evocar uma sensação de ameaça./


Uma criadora egípcia do Tiktok, @100._._6, frequentemente posta vídeos elogiando o poder militar do Egito e celebrando sua aliança com a Somália. Seu conteúdo ganhou força significativa na Somália, tornando-se um ponto de encontro para aqueles que veem a parceria como vital para combater a influência regional da Etiópia. Esses vídeos atraíram centenas de comentários em árabe, amárico, oromo e inglês, destacando o impacto regional desse crescente conflito digital.

As seções de comentários estão repletas de retórica e bandeiras nacionalistas. Os apoiadores etíopes se gabam afirmando “A Etiópia está pronta” e “Somos reis na África”, enquanto aqueles que carregam a bandeira da Somalilândia oferecem seu apoio, referindo-se aos etíopes como “irmãos” prontos para “lutar”. As contas somalis, por outro lado, expressam prontidão para se alinhar ao Egito e unir forças contra a Etiópia.

Algumas contas vão um passo além, defendendo a violência contra comunidades específicas na Somália. Em particular, contas como @anti_qabiil2023 têm como alvo a comunidade oromo, alimentando tensões ao encorajar a violência contra eles, especialmente dada a herança oromo do primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed.

Até mesmo o recurso de “partida ao vivo” do TikTok — onde os usuários competem por presentes digitais de seguidores — foi cooptado para a briga. Alguns usuários encenam “batalhas” ao vivo, com uma pessoa representando a Etiópia e a outra o Egito, incentivando seus seguidores a enviar presentes digitais como uma demonstração de apoio. Essas disputas de cinco minutos, embora enquadradas como lúdicas, refletem tensões nacionalistas profundamente enraizadas. O lado com mais presentes virtuais vence, transformando o que parece ser uma interação despreocupada em um reflexo das divisões políticas do mundo real da região.
Táticas de IA e desinformação

As táticas de desinformação não se limitaram a vídeos virais e memes. Atores egípcios e somalis reutilizaram discursos de antigos líderes globais para alimentar tensões regionais. Um vídeo amplamente divulgado apresenta o comentário do ex-presidente dos EUA Donald Trump em 2020 de que o Egito poderia “explodir” a Grande Represa do Resnascimento, usado por figuras egípcias e somalis para atiçar o medo de um conflito iminente.



Enquanto isso, atores pró-Etíope e da Somalilândia usaram as críticas anteriores de Trump à congressista somali-americana Ilhan Omar, e comentários sobre a Somália ser um estado “sem lei” para minar o governo da Somália.

A guerra de informações também se baseou na exploração de divisões internas na Etiópia. Atores alinhados aos governos egípcio e somali têm como alvo grupos de oposição na diáspora etíope, particularmente grupos nacionalistas amhara, para aprofundar as divergências políticas. Esses grupos circularam conspirações sugerindo que a comunidade amhara poderia se alinhar ao Egito e à Somália se essas nações interviessem contra o governo de Abiy Ahmed. Essa narrativa, que coloca o governo etíope como uma ameaça à segurança nacional, foi avidamente adotada por figuras egípcias e somalis que buscam capitalizar a discórdia interna da Etiópia.

Usuários pró-governo etíope no TikTok não permaneceram em silêncio neste conflito digital. Eles responderam com conteúdo baseado na longa história de resistência da Etiópia a potências estrangeiras, incluindo conflitos anteriores com o Egito, enquadrando a GERD como um símbolo de soberania nacional. Essas narrativas enfatizam a luta mais ampla da Etiópia pela autodeterminação, colocando o projeto da barragem como um ponto de orgulho nacional.



Para complicar ainda mais a narrativa, usuários de rede social pró-governo etíope têm destacado os rivais regionais do Egito, como Argélia e Marrocos, em um esforço para mudar o discurso a favor da Etiópia. Um desenvolvimento recente viu a Etiópia assinar um acordo de cooperação militar com Marrocos, adicionando outra camada à intrincada rede de alianças e rivalidades da região.

Uma conta proeminente do TikTok publica regularmente propaganda gerada por IA glorificando as capacidades militares da Etiópia, apresentando imagens da bandeira etíope e um leão acompanhados por música motivacional, projetando a força da Etiópia para esmagar seus oponentes. Outra conta imita a voz do primeiro-ministro Abiy Ahmed falando em árabe, gerando milhares de comentários elogiando suas habilidades linguísticas e alcance diplomático.
Disseminação multiplataforma

A guerra da desinformação se espalhou por todas as plataformas, com conteúdo sendo republicado no Facebook e no X, muitas vezes sem verificação adequada. Isso alimentou a imitação e a disseminação viral de memes, amplificando o alcance da desinformação e aumentando as tensões em um ambiente político já frágil.


O TikTok lançou seu Conselho Consultivo de Segurança da África Subsaariana, modelado após o Conselho de Supervisão do Meta, embora seu sucesso em coibir conteúdo prejudicial nesta região turbulenta ainda esteja para ser visto.

Conforme a lacuna entre a desinformação on-line e o conflito do mundo real diminui no Chifre da África, as apostas nesta guerra digital estão se tornando cada vez mais severas.

Texto traduzido por Rami Alhames do artigo How social media is fueling geopolitical tensions in the Horn of Africa originalmente escrito por Endalkachew Chala, publicado por Global Voices sob a licença Creative Commons Attribution 3.0. Leia o original em: Global Voices.
Revista de Relações de Exteriores

A busca de 30 anos da Somalilândia por reconhecimento: os interesses dos EUA podem fazer a diferença?



Mais de três décadas após declarar unilateralmente independência da Somália, a Somalilândia ainda busca reconhecimento internacional como Estado soberano. Apesar da falta de reconhecimento formal, o território separatista construiu um sistema de governança relativamente estável. Isso tem despertado crescente interesse de potências globais, incluindo os Estados Unidos. Com mudanças nas dinâmicas regionais e a intensificação da competição entre grandes potências, a busca da Somalilândia por reconhecimento ganha novo impulso. Aleksi Ylönen, que estuda política no Chifre da África e a busca por reconhecimento da Somalilândia, explica os fatores em jogo.
Quais argumentos legais e históricos a Somalilândia utiliza?

O Movimento Nacional Somali foi um dos principais movimentos insurgentes baseados em clãs responsáveis pelo colapso do governo central na Somália. Ele reivindica o território do antigo protetorado britânico da Somalilândia. O Reino Unido concedeu status soberano à Somalilândia em 26 de junho de 1960.

O governo somali tentou suprimir os chamados pela secessão. Ele orquestrou o massacre brutal de centenas de milhares de pessoas no norte da Somália entre 1987 e 1989.Foto por Fataho dhaadsan. Via Wikicommons. (Domínio público)

Mas o Movimento Nacional Somali declarou independência unilateral em 18 de maio de 1991 e se separou da Somália.

Com o colapso do regime somali em 1991, o principal inimigo do movimento desapareceu. Isso levou a uma luta violenta pelo poder entre várias milícias.

Isso só diminuiu após o político Mohamed Egal consolidar o poder. Ele foi eleito presidente da Somalilândia em maio de 1993.

Egal fez acordos com comerciantes e empresários, oferecendo incentivos fiscais e comerciais em troca de apoio. Como resultado, obteve os meios econômicos para consolidar o poder político e promover a paz e a construção do Estado. Seus sucessores mantiveram essa abordagem desde sua morte em 2002.
O que a Somalilândia fez para buscar reconhecimento?

Sucessivos governos da Somalilândia continuam engajados em diplomacia informal. Eles se alinharam com o Ocidente, especialmente os EUA, que eram a potência dominante após a Guerra Fria, e o antigo colonizador, o Reino Unido. Ambos os países abrigam comunidades significativas da diáspora da Somalilândia.

EUA e Reino Unido flertam há décadas com a ideia de reconhecer a Somalilândia, que consideram um parceiro estratégico. No entanto, eles foram repetidamente contidos por suas políticas em relação à Somália, que priorizam fortalecer o governo de Mogadíscio, amplamente apoiado, para reafirmar sua autoridade sobre os territórios somalis.

Essa política em relação à Somália tem sido cada vez mais questionada nos últimos anos, em parte devido aos desafios de segurança em Mogadíscio. Em contraste, o governo de Hargeisa, na Somalilândia, demonstrou capacidade de fornecer segurança e estabilidade. Realizou eleições e sobreviveu como Estado por três décadas, apesar de enfrentar resistência política e oposição armada.

Com o surgimento de novas potências globais, os governos da Somalilândia adotaram uma política externa mais diversificada, com um objetivo: o reconhecimento internacional.

Hargeisa abriga consulados e escritórios representativos de Djibuti, Etiópia, Quênia, Taiwan, Reino Unido e União Europeia, entre outros.

O governo também estabeleceu relações informais com os Emirados Árabes Unidos. A monarquia do Oriente Médio serve como centro de negócios e destino para exportações de gado. Muitos somalilandeses migram para lá.

A Somalilândia mantém escritórios representativos em vários países, incluindo Canadá, EUA, Noruega, Suécia, Reino Unido, Arábia Saudita, Turquia e Taiwan. Hargeisa alienou a China ao colaborar com Taiwan desde 2020. Taiwan é uma ilha autogovernada reivindicada pela China.

Em 1º de janeiro de 2024, o então presidente da Somalilândia, Muse Bihi, assinou um memorando de entendimento com o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, para maior cooperação. Bihi sugeriu que a Etiópia seria o primeiro país a reconhecer formalmente a Somalilândia. O acordo causou um grave deterioração nas relações entre Adis Abeba e Mogadíscio.

Abiy posteriormente moderou sua posição e, com mediação turca, se reconciliou com seu homólogo somali, o presidente Hassan Mohamud.
O que está por trás do interesse dos EUA na Somalilândia?

Os EUA, como outras grandes potências, se interessam pela Somalilândia devido à sua localização estratégica. Ela está nas margens africanas do Golfo de Áden, em frente à Península Arábica. Sua posição geográfica ganhou relevância recentemente com os ataques dos rebeldes houthis do Iêmen ao tráfego marítimo nas movimentadas rotas de navegação. A Somalilândia também está bem posicionada para combater a pirataria e o contrabando nessa rota comercial global.

O Comando Africano dos EUA estabeleceu sua principal base no Chifre da África em Camp Lemonnier, em Djibuti, em 2002, após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Em 2017, a China, que se tornou a principal potência econômica estrangeira no Chifre da África, instalou uma base de apoio naval em Djibuti. Isso incentivou uma colaboração mais estreita entre as autoridades americanas e da Somalilândia. Os EUA consideraram estabelecer uma base em Berbera, que abriga o maior porto da Somalilândia.

Com a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA em 2024, houve relatos de um aumento nos esforços para o reconhecimento dos EUA à Somalilândia. Isso permitiria aos EUA aprofundar parcerias comerciais e de segurança na volátil região do Chifre da África.

Desde março de 2025, representantes do governo Trump têm negociado com autoridades da Somalilândia para estabelecer uma base militar dos EUA perto de Berbera. Isso seria em troca de um reconhecimento formal, mas parcial, da Somalilândia.
Quais são os riscos do reconhecimento dos EUA à Somalilândia?

Um maior envolvimento dos EUA com a Somalilândia corre o risco de negligenciar a Somália.

Mogadíscio depende de assistência militar externa em sua luta contra o grupo extremista islâmico Al-Shabaab, que avança. A Somália também enfrenta crescente desafio de duas regiões federais, Puntland e Jubaland.

O reconhecimento dos EUA recompensaria Hargeisa por seus esforços persistentes para manter a estabilidade e promover a democracia. No entanto, poderia encorajar outros países a reconhecer a Somalilândia. Isso seria um golpe para os nacionalistas somalis que desejam um Estado para todos os somalis.

Texto traduzido do artigo Somaliland’s 30-year quest for recognition: could US interests make the difference?, de Aleksi Ylönen publicado por The Conversation sob a licença Creative Commons Attribution 3.0. Leia o original em: The Conversation.
Revista de Relações Exteriores

A guerra no Sudão está longe de acabar — grupos armados civis estão se levantando





A guerra no Sudão, que está entrando em seu terceiro ano, deu mais uma reviravolta inesperada. Em março de 2025, as Forças de Apoio Rápido (RSF), também conhecidas como Janjaweed, retiraram-se de Cartum, abandonando o palácio presidencial e o aeroporto.

Esta retirada marca um contraste significativo com a vitória anterior do grupo paramilitar, quando tropas invadiram a capital em abril de 2023.

A queda de Cartum é um ponto de virada. Mas, com base em minha pesquisa sobre a turbulência política no Sudão nas últimas três décadas, não acredito que os recentes desenvolvimentos marquem o capítulo final da guerra.

O que começou como uma luta pelo poder entre duas facções militares está se transformando em um conflito muito mais amplo, marcado pelo aprofundamento da fragmentação e pelo surgimento de grupos armados civis. Em todo o país, novas milícias estão surgindo, muitas formadas por civis que antes não participavam da guerra.

O exército encorajou civis a lutar, mas agora enfrenta um número crescente de grupos armados independentes. Tanto em áreas urbanas quanto rurais, civis pegaram em armas.

Alguns estão lutando ao lado do exército, atendendo a chamados da liderança militar, incluindo o comandante do exército Abdel Fattah al-Burhan, para defender seus bairros e famílias. Outros formaram unidades de autodefesa para se proteger contra saques e violência. Alguns se juntaram a milícias dissidentes que têm suas próprias agendas.

Esses grupos não compartilham um único objetivo. Alguns lutam por autodefesa, outros por poder político. Alguns por recursos e riqueza. Outros buscam controle étnico – a população do Sudão tem 56 grupos étnicos e 595 subgrupos étnicos. É isso que torna a guerra no Sudão ainda mais perigosa: a fragmentação está criando múltiplas mini-guerras dentro do conflito maior.
Como as Forças de Apoio Rápido perderam Cartum

Vários fatores-chave forçaram as RSF a recuar de Cartum após terem assumido o controle da capital sudanesa dois anos antes.Fratura interna: As RSF, construídas sobre lealdade tribal, lutaram para se manter unidas à medida que a guerra se prolongava. Muitas facções sentiram-se marginalizadas por seu líder, Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti.
Resistência civil: A dependência das RSF em brutalidade saiu pela culatra, alienando até mesmo aqueles que poderiam tê-las apoiado. Em vez de consolidar o controle, transformaram civis em inimigos. As RSF confiaram no terror – saques, assassinatos em massa e violência sexual. Em vez de ganhar controle, provocaram resistência feroz. Civis armados, originalmente pegando em armas para autodefesa, tornaram-se uma rede de milícias informais trabalhando contra as RSF.
Intervenção estrangeira: Relatos sugerem que ataques aéreos egípcios e apoio tático ajudaram o exército a retomar Cartum. Além disso, drones Bayraktar fabricados na Turquia enfraqueceram as posições das RSF. Com linhas de suprimento cortadas, as RSF não tiveram escolha a não ser recuar.

Cartum não foi apenas uma derrota militar para as RSF. Foi um ponto de virada na forma como a guerra é travada – não é mais uma luta militar, mas uma batalha envolvendo civis armados em todo o Sudão.

Com base em relatos de organizações humanitárias, observadores de conflitos e testemunhos locais, emergiu um quadro mais claro do crescente número de grupos armados operando em todo o Sudão. Esses grupos se formaram em resposta ao conflito crescente.

Análises recentes destacam que o tráfico de armas e a mobilização comunitária intensificada aceleraram nos últimos dois anos.

Unidades de defesa de bairro surgiram em áreas urbanas como El-Gezira, no centro do Sudão, El-Fasher, em Darfur do Norte, Al-Dalang, em Kordofan do Sul, El-Obeid, em Kordofan do Norte, Babanusa, em Kordofan do Oeste e Cartum. Elas foram inicialmente formadas para proteger zonas residenciais das RSF, mas desde então expandiram seus papéis e operam cada vez mais fora do controle do exército.

Milícias tribais e regionais também se tornaram mais proeminentes, particularmente em Darfur e Kordofan. Nessas regiões, rivalidades étnicas e políticas arraigadas se entrelaçaram com a guerra atual. Alguns desses grupos de milícias se alinharam com o exército. Outros permanecem independentes, perseguindo suas próprias agendas, que incluem garantir território.

Em Darfur, a crescente raiva pelo favoritismo de Hemedti em relação a sua própria tribo (Rizeigat) levou a deserções. Divisões internas dentro das RSF desempenharam um papel importante em suas recentes perdas. Alguns ex-combatentes das RSF formaram suas próprias milícias. As RSF nunca foram uma força unificada, mas uma aliança tribal dominada pela família Dagalo e elites Rizeigat. Inicialmente, receitas do ouro garantiram lealdade, mas à medida que a guerra se arrastou, fratura interna se aprofundou.

Outro grupo ligado a etnias é o Movimento Popular de Libertação do Sudão-Norte. Ele expandiu seu controle em Kordofan e Nilo Azul, duas regiões ricas em recursos no sul do Sudão. O grupo aliou-se às RSF para promover sua própria agenda, que inclui garantir maior autonomia para essas regiões e promover um quadro político secular que desafia a governança com tendência islamista de Cartum. Outras milícias étnicas também operam no leste do Sudão, apoiadas por países vizinhos como a Eritreia, escalando ainda mais a situação.

Milícias ligadas ao islamismo também estão em ascensão. O principal exemplo desses grupos é a Brigada El Baraa Ibn Malik, que emergiu como um ator-chave apoiando o exército contra as RSF. Relatos vinculam o grupo a remanescentes do regime de Omar al-Bashir (1993-2019) – as dissolvidas Forças de Defesa Popular. Este era um grupo paramilitar estabelecido em meados dos anos 1980 para defender tribos árabes e apoiar o exército. Ele floresceu sob o regime de al-Bashir.
E agora?

Embora a retirada das RSF de Cartum seja uma grande vitória para o exército sudanês, isso não significa que a estabilidade esteja retornando. Em vez disso, o Sudão agora enfrenta uma nova e perigosa realidade: o aumento da militarização civil.

Se não forem contidos, esses grupos podem evoluir e estabelecer territórios de fato controlados por senhores da guerra, onde comandantes locais exercem poder sem controle. Isso minaria qualquer perspectiva de governança centralizada no Sudão.

Com milícias se multiplicando e nenhuma solução política clara, o Sudão corre o risco de se tornar um campo de batalha de facções guerreiras.

Enquanto isso, mediadores internacionais estão lutando para encontrar uma solução enquanto a interferência estrangeira continua. Os Emirados Árabes Unidos, um grande apoiador das RSF, ainda apoiam Hemedti financeiramente, garantindo que ele permaneça ativo no comércio de ouro do Sudão.

Texto traduzido do artigo Sudan’s war isn’t nearly over – armed civilian groups are rising, de Mohamed Saad publicado por The Conversation sob a licença Creative Commons Attribution 3.0. Leia o original em: The Conversation.
Revista de Relações Exteriores

segunda-feira, 16 de março de 2026

RD Congo e coltan: uma crise por recursos?





Por Marina Morena Caires

A República Democrática do Congo (RDC) é um país localizado na África Central que detém a quarta maior população do continente africano, com 102 milhões de habitantes. Desde sua independência da Bélgica em 1960, a nação, anteriormente chamada de Zaire, passa por enorme instabilidade política, guerras e conflitos armados entre seus diversos grupos étnicos nacionais e de nações vizinhas. O país vive há décadas a maior crise humanitária do mundo, que afeta, atualmente, mais de 26 milhões de pessoas (UNICEF, 2023). Os números de pessoas em situações deploráveis continuem a crescer, como as 1.44 milhões de pessoas deslocadas desde janeiro de 2023 (UNICEF, 2023).

No centro da instabilidade, surge a discussão sobre a extração de coltan, uma mistura dos metais columbita e tantalita, cuja tantalita tem propriedades úteis em diversas indústrias, como a automobilística e a telefônica. O leste da RDC é rico nesse metal que alimenta conflitos na região. Sua exploração é um epicentro de violações contra os direitos humanos, colocando até crianças em situações deploráveis para sua comercialização. A presente análise tem como intuito evidenciar o papel do coltan nos conflitos na região leste do país e discutir seu lugar como causa primária ou como financiador deles.



O coltan: produção e exportação

A tantalita é um metal com capacidade de resistência a altas temperaturas e a corrosão, grande força, ductilidade, entre outras, que levam ele a ser extremamente útil em indústrias eletrônicas, medicinal, militar, automobilística e química, entre outras (Auping et al., 2013).

O coltan é um dos muitos metais valiosos que existem e são explorados no país. A RD Congo, é o maior exportador mundial do metal, mantendo a liderança disparada em comparação a outros produtores. Em 2022, as minas do país produziram mais de 2 vezes a quantidade de coltan que o segundo maior produtor mundial, o Brasil, e o terceiro, a Ruanda (Pistilli, 2023). O último país é um dos que está ativamente ligado ao conflito na RDC, espacialmente no leste do território, onde há inúmeras reservas, e que se beneficia do metal congolês para alimentar a exportação ruandesa.

A extração do coltan é feita não só por grandes mineradoras, mas também por mineração artesanal e de pequena escala, realizada por indivíduos, famílias, trabalhadores e pequenas empresas (Auping et al., 2013). Essa atividade, na maioria, é irregular ou ilegal e acontece quando as pessoas não têm outra forma de renda, assim, fazendo até crianças e mulheres se colocarem em condições perigosas para a saúde (Materials World, 2005). Na República Democrática do Congo, esse fenômeno é prevalente e perpetua situações subumanas, além de contribuir para a competitividade do material, devido a sua exploração barata. O boom dos preços do metal nos anos 2000 gerou uma “febre do coltan” que fez com que diversas pessoas largassem tudo para tentar fazer dinheiro nesse mercado (ibid).



Os conflitos no Congo



A RDC é um país extremamente diverso, com mais de 200 etnias e diversas línguas oficiais, além dos dialetos locais, e a rivalidade entre esses grupos está na origem de diversas rebeliões que ocorrem desde a independência do país (ibid). Durante toda sua história, houve diversos conflitos por poder e controle do Estado, que sempre foi instável e falho. Cinco anos após a independência, no qual ocorreram diversos conflitos, o poder do país é assumido pelo ditador Joseph Mobutu, que liderou o país por 32 anos.

Antes da queda de Mobutu, a Primeira Guerra do Congo (1996-1997) aconteceu. O genocídio em Ruanda, país vizinho, levou Tutsis e Hutus do país ao território congolês. Essa migração levou políticos na província de Kivu, no leste do Congo, a querer expulsar o grupo Tutsi que se estabeleceu no país, conhecidos como Banyamulenge, do território. A existência de grupos armados formados de antigos apoiadores dos genocidas de Ruanda que não foram desarmados também era de preocupação para o governo do país vizinho. Assim, essas duas questões levaram Ruanda a invadir o Congo, apoiada por diversos outros governos africanos, iniciando a guerra e depondo Mobutu (ibid).

Em seu lugar, Laurent Kabila assumiu o poder e, entre 1998 e 2003, presenciou a Segunda Guerra do Congo. O então presidente pediu a retirada de tropas ruandesas, ferindo a relação diplomática dos países e gerando protestos de congoleses Tutsis que levaram à invasão das tropas novamente. Em nome de um novo grupo, o Rassemblement Congolais pour la Démocratie (RCD), a Ruanda e a Uganda, depois Burundi, buscaram derrubar Kabila e assegurar suas fronteiras, afirmando que o Congo tinha grupos armados que ameaçavam seus territórios (Auping et al., 2013). O novo grupo Rassemblement Congolais pour la Démocratie (RDC) chegou a controlar o leste do país até seu desmembramento. O conflito só acaba com a morte de Kabila e a ascensão de seu filho à presidência, que assinou tratados de paz com Rwanda e Uganda.

O último conflito, que perdura até o presente, é o Conflito Kivu no Leste do Congo, nas províncias de Kivu do Norte e do Sul, onde há grandes conflitos étnicos, grupos armados e falta de serviços básicos, como saúde e educação, do Estado (Auping et al., 2013). Algumas dessas milícias são financiadas continuamente por Ruanda e Uganda, como o March 23 Movement (M23), que domina várias partes da região, que traficam minerais para esses países e se financiam com essa exploração (Auping et al., 2013).



O papel do Coltan



Em 2000, o Conselho de Segurança do ONU solicitou um relatório para que pudessem deliberar sobre a exploração ilegal de recursos naturais no RDC que criou O Painel de peritos sobre a exploração ilegal dos recursos naturais e outras formas de riqueza da República Democrática do Congo. Esse relatório indicou que, além de causar danos sociais, econômicos e ambientais na região, a exploração desses recursos naturais estava gradualmente se tornando o “motivo primário” para Rwanda e Uganda, mesmo que tenham invadido a RDC, a princípio, por motivos de segurança (Taka, 2017).



According to the report, illegal exploitation of resources by Burundi, Rwanda and Uganda took different forms, including confiscation, extraction, forced monopoly and price-fixing. The first two forms reached proportions that made the war in the DRC a very lucrative business. There are strong indications that, even if security and political reasons were the professed motivation to move into the eastern DRC, some top army officials clearly had economic and financial objectives. (ONU, 2001)



É inegável que a parceria entre companhias privadas e militares sustentam e financiam o ciclo de violência. No entanto, é importante entender se essa exploração ilegal realmente se tornou a causa primária a ser combatida. Campanhas internacionais apoiadas por ONGs e pela própria ONU que buscam, desde o início do conflito, focar no fim do “blood coltan” (coltan de sangue), buscaram unir apoio para parar o comércio do metal vindo dessas regiões exploradas por milícias.

Independente dessas inúmeras tentativas, a situação se mantém fundamentalmente inalterada, mesmo que o coltan nunca tenha recuperado as proporções que atingiu no seu boom de 2000 (Taka, 2017).



Coltan: causa primária ou perpetuante do conflito

Existem várias abordagens distintas para compreender esse conflito, desde a análise das questões sociais, históricas e do Estado falho da RDC, até as econômicas. O debate entre greed vs grievance (ganância vs queixas), na qual as causas de ganância criam conflitos por questões econômicas e as de queixas por questões sociais, conduziu a visão internacional a crer na questão da ganância (Auping et al., 2013).

Isso acontece independentemente de estudos de 2008 que afirmam que somente 6% dos ganhos de grupos armados no conflito congolês vinham do coltan, sendo 62% da cassiterita e 28% do ouro (Auping et al., 2013). Outras nuances como os conflitos étnicos e religiosos, com milícias islâmicas também tentando invadir o país, foram pouco trabalhados no cenário internacional.



Conclusão



Se torna nítido que o conflito na República Democrática do Congo tem diversas camadas que tornam extremamente difícil apontar somente uma causa como primária ou primordial para ser resolvida pela comunidade internacional.

Em 2008, a ONU publicou outro relatório que comprovou que mesmo com suas campanhas, que buscam fazer empresas como a Nokia, Samsung e Motorola pararem de comprar coltan da região, o minério ainda era vendido em grandes quantidades na Europa e a Ruanda continuava contrabandeando ele para venda (Totolo, 2009).

Além disso, a ajuda humanitária para o conflito continua subfinanciada, sendo 80% dela de somente cinco doadores e recebendo menos de 74% das doações da Ucrânia em 2022, apesar de ter um número consideravelmente maior de pessoas necessitadas (NRC, 2023). Isso se dá por diversos fatores, desde o descaso internacional com conflitos africanos devido a questões sociais e econômicas, até a forma equivocada de tratar o conflito como um problema do coltan.

Como afirmou o World Bank após a Segunda Guerra do Congo, a mineração é vital para a recuperação econômica do país e o setor privado vai ser ator-chave nessa mudança (Bergh, 2021). Contudo, nesse momento de complexas teias de razões para o contínuo conflito, a comunidade internacional precisa deixar de tratar o coltan como uma das causas primárias do conflito e evidenciar o coltan como somente uma dos diversos fatores infortúnios, voltando seus esforços ao angariamento de fundos para ajuda humanitária.



Referências



AUPING, Willem et al. Coltan, Congo & Conflict. The Hague Centre for Strategic Studies (HCSS), 2023. Disponível em: https://hcss.nl/wp-content/uploads/2013/06/HCSS_21_05_13_Coltan_Congo_Conflict_web.pdf . Acesso em: 4 nov. 2023



BERGH, Sylvia et al. From ‘conflict minerals’ to peace? Reviewing mining reforms, gender, and state performance in eastern Democratic Republic of Congo. The Extractive Industries and Society, v. 8, n. 2, 2021. Disponível em: From ‘conflict minerals’ to peace? Reviewing mining reforms, gender, and state performance in eastern Democratic Republic of Congo - ScienceDirect. Acesso em: 4 nov. 2023



DR Congo: An unprecedented crisis goes ignored. Norwegian Refugee Council. 23 ago. 2023. Disponível em: DR Congo: An unprecedented crisis goes ignored | NRC. Acesso em: 4 nov. 2023



Nações Unidas. SECURITY COUNCIL CONDEMNS ILLEGAL EXPLOITATION OF DEMOCRATIC REPUBLIC OF CONGO’S NATURAL RESOURCES. 3 maio 2001. Disponível em: SECURITY COUNCIL CONDEMNS ILLEGAL EXPLOITATION OF DEMOCRATIC REPUBLIC OF CONGO’S NATURAL RESOURCES | UN Press . Acesso em: 4 nov. 2023



PISTILLI, Melissa. Top 5 Tantalum-mining Countries (Updated 2023). Investing News Network, 8 maio 2023. Tantalum-mining. Disponível em: Top 5 Tantalum-mining Countries (Updated 2023) (investingnews.com). Acesso em: 6 nov. 2023



TAKA, Miho. Colton Mining and Conflict in the eastern Democratic Republic of Cong. In: MCINTOSH, Malcolm; HUNTER, Alan. New Perspectives on Human Security. 2. ed. Nova York: Routledge, 2017, p 159-174. Disponível em: New Perspectives on Human Security - 1st Edition - Malcolm McIntosh - (routledge.com). Acesso em: 4 nov. 2023



TOTOLO, Edoardo. Coltan and conflict in the DRC. ISN Security Watch, 11 fev. 2009. Disponível em: Coltan and conflict in the DRC - Democratic Republic of the Congo | ReliefWeb. Acesso em: 4 nov. 2023



UNICEF. Humanitarian Situation Report No. 1. 13 set. 2023. Disponível em:UNICEF Democratic Republic of the Congo Humanitarian Situation Report No.1 (1 - 30 June 2023) - Democratic Republic of the Congo | ReliefWeb. Acesso em: 4 nov. 2023

https://petrel.unb.br/

quinta-feira, 12 de março de 2026

Um cofre de carbono oculto em África está a começar a vazar




Uma nova pesquisa desafia a antiga suposição de que o carbono amazenado nas turfeiras tropicais na Bacia do Congo não seria libertado para a atmosfera nos próximos milhares de anos.


Os cientistas descobriram que vastas turfeiras na África Central, que foram consideradas durante muito tempo reservas estáveis ​​de carbono, estão a libertar carbono ancestral para a atmosfera.

A Bacia do Congo alberga um dos maiores sistemas de turfeiras tropicais do mundo. Embora estas turfeiras cubram apenas 0,3% da superfície terrestre, armazenam aproximadamente um terço de todo o carbono contido nas turfeiras tropicais.

Durante décadas, os investigadores presumiram que este carbono estaria armazenado em segurança durante milhares de anos, a menos que condições extremas, como secas prolongadas, perturbassem o ecossistema, refere o SciTech Daily.


Uma nova investigação liderada por cientistas da ETH Zurique desafia esta suposição.

Num estudo publicado na Nature Geoscience, os investigadores examinaram dois lagos escuros de “águas negras” — Lac Mai Ndombe e Lac Tumba — cujas águas cor de chá são ricas em matéria orgânica proveniente das florestas pantanosas ricas em turfa circundantes.

As medições revelaram que quantidades significativas de dióxido de carbono estão a escapar destes lagos para a atmosfera.


Surpreendentemente, a datação por radiocarbono mostrou que até 40% do dióxido de carbono emitido provém de turfa acumulada há milhares de anos, e não de plantas que cresceram recentemente.

A descoberta sugere que os antigos reservatórios de carbono na Bacia do Congo já estão a “vazar”, mesmo sem provas claras de um colapso significativo da turfa causado pela seca.

Ainda não se sabe ao certo como é que este carbono antigo se move das camadas profundas de turfa para a água do lago, e os cientistas continuam a investigar se o processo representa uma mudança desestabilizadora ou um ciclo natural equilibrado pela formação de nova turfa.

O estudo aponta ainda para riscos climáticos futuros. Condições mais secas podem permitir que o oxigénio penetre mais profundamente nos solos turfosos, acelerando a decomposição microbiana e libertando ainda mais dióxido de carbono.


As pressões humanas podem agravar estas ameaças. O crescimento populacional e a desflorestação na região podem intensificar a secura, reduzindo a reciclagem da humidade impulsionada pelas florestas, o que pode manter os níveis dos lagos persistentemente baixos.

Os investigadores alertam que tais alterações podem transformar os pântanos da Bacia do Congo em importantes fontes de gases com efeito de estufa.
https://zap.aeiou.pt/

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos