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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Notícias Geografia Hoje


Japão atrasa por tempo indeterminado armazenamento de resíduos de Fukushima

Atraso se deve a nenhum depósito seguro ter sido construído; materiais radioativos retirados até agora estão atualmente depositados em vários terrenos próximos de central nuclear


O governo japonês atrasou, por tempo indeterminado, o armazenamento de resíduos radioativos recolhidos nos trabalhos de descontaminação perto da Central Nuclear de Fukushima, por não ter sido construído nenhum depósito seguro, segundo fontes oficiais citadas hoje (22) pela imprensa.

As autoridades tinham previsto começar a transferir os resíduos para depósitos nucleares em janeiro próximo, data que foi adiada de forma indefinida dadas as dificuldades em encontrar uma localização para as instalações, segundo a Agência Kyodo.

O governo central e os governos locais entraram em acordo para construir depósitos temporários destinados a abrigar os materiais radioativos nas localidades costeiras de Futaba e Okuma, as mais próximas da central nuclear, mas não chegaram a acordo com os proprietários dos terrenos escolhidos, informaram fontes governamentais à Kyodo.

Os materiais radioativos deveriam permanecer nessas instalações durante um prazo de 30 anos e depois seriam transferidos para depósitos permanentes de alta segurança, cuja localização ainda não foi definida.

Segundo o plano do governo, as instalações de armazenamento temporário vão ocupar 16 quilômetros quadrados em volta da central e vão ter capacidade para armazenar cerca de 30 milhões de toneladas de terra e resíduos recolhidos durante os trabalhos de descontaminação.

Os materiais radioativos retirados até agora estão atualmente depositados em vários terrenos próximos da central.

O terremoto e tsunami de março de 2011 geraram grandes quantidades desses materiais que se dispersaram em volta da central.

As emissões levaram à retirada de 46 mil pessoas que vivam perto de Fukushima e afetaram gravemente a agricultura, a pecuária e a pesca.
http://ultimosegundo.ig.com.br

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Xenofobia no Japão

Japão recebe críticas da ONU após onda de xenofobia nas ruas

Ewerthon Tobace
De Tóquio para a BBC Brasil



"Estrangeiros só poderão entrar se estiverem acompanhados de um japonês", diz a placa


Uma recente onda de casos de xenofobia tem causado grande preocupação no Japão e levou a ONU a pedir que o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe tomasse medidas concretas para lidar com o problema.

As principais vítimas nesse incidentes têm sido comunidades estrangeiras como a de coreanos e chineses, além de outras minorias chamadas de "inimigas do Japão".

Um exemplo dos abusos é um vídeo que se tornou viral e circula pelas redes sociais. Mostra um grupo de homens da extrema-direita com megafones em frente a uma escola sul-coreana em Osaka.

Eles insultam os alunos e professores com palavrões, fazem piadas com a cultura do país vizinho e ameaçam de morte os que se atreverem a sair do prédio.

Um relatório do Comitê de Direitos Humanos da ONU encaminhado ao governo japonês, destaca a reação passiva dos policiais em manifestações deste tipo.

As autoridades têm sido criticadas por apenas observarem, sem tomarem nenhuma atitude efetiva para conter os abusos.

No final de agosto, o Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial solicitou que o país "abordasse com firmeza as manifestações de ódio e racismo, bem como a incitação à violência racial e ódio durante manifestações públicas".

Desde 2013, o Japão registrou mais de 360 casos de manifestações e discursos racistas.

A questão ganhou os holofotes da mídia e está sendo amplamente debatida pelo partido governista, o Liberal Democrático.

Um caso que está sendo visto como teste para a Justiça japonesa nesta área é a ação movida, no mês passado, por uma jornalista sul-coreana, Lee Sinhae, contra Makoto Sakurai, presidente do grupo de extrema-direita Zaitokukai, por danos morais.


Ela quer uma indenização depois de ser "humilhada" por textos discriminatórios na internet.

"O que me preocupa é que muitos destes discursos estão deixando o anonimato da internet e já chegaram às ruas", disse Lee em uma coletiva de imprensa.

A jornalista alertou que várias crianças estão tendo contato com este tipo de pensamento e replicam no ambiente escolar, gerando casos de bullying.
Lei

No Japão, não há uma lei que proíba discursos difamatórios ou ofensivos. Para os opositores, banir os discursos de ódio pode acabar interferindo no direito das pessoas à liberdade de expressão.

Mas o país é signatário da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, que entrou em vigor em 1969, e que reconhece expressões discriminatórias como crime.

Pela Convenção, os países seriam obrigados a rejeitar todas as formas de propaganda destinadas a justificar ou promover o ódio racial e a discriminação e tomar ações legais contra eles.

Segundo as Nações Unidas, o governo japonês ainda tem muito para fazer nesta área. O comitê da ONU insistiu para que o Japão implemente urgentemente "medidas adequadas para rever a sua legislação", em particular o seu código penal, para regular o discurso de ódio.
Exclusão dos estrangeiros

Para o escritor, ativista e pesquisador norte-americano naturalizado japonês Arudou Debito, "(essas atitudes discriminatórias) têm se tornado cada vez mais evidentes, organizadas e consideradas 'normais'".

Debito coleciona, desde 1999, fotos de placas de lojas, bares, restaurantes, karaokês, muitas delas enviadas por leitores de todo o Japão, com frases em inglês - e até em português - proibindo a entrada de estrangeiros.

A coletânea virou livro, intitulado Somente japoneses: o caso das termas de Otaru e discriminação racial no Japão.

Debito se diz ainda preocupado que, com a divulgação cada vez maior dos pensamentos da extrema-direita, a causa ganhe cada vez mais "fãs".

"No Japão ainda há a crença de que é pouco provável haver o extremismo em uma 'sociedade tão pacífica'", explicou.

"Eu não acredito que seja tão simples assim. Ignorar os problemas de ódio, intolerância e exclusivismo para com as minorias esperando que eles simplesmente desapareçam é um pensamento positivo demais e historicamente perigoso."


Aviso em um hotel de águas termais alerta que estrangeiros não podem entrar


Brasileiros

A comunidade brasileira no Japão também é alvo constante de atitudes discriminatórias. Quarto maior grupo entre os estrangeiros que vivem no país, os brasileiros estão constantemente reclamando de abusos gerados por discriminação racial e o tema é sempre levantado em discussões com autoridades locais.

O brasileiro Ricardo Yasunori Miyata, 37, é um dos que foi à Justiça depois que o irmão foi confundido com um ladrão em um supermercado de uma grande rede, na cidade de Hamamatsu, província de Shizuoka.

"O problema foi a abordagem. O segurança chegou gritando, como se ele fosse bandido e, mesmo depois de provado que tudo não passou de um engano, ele (o segurança) justificou que faz parte da índole do brasileiro roubar e que não poderíamos reclamar pois deveríamos estar acostumado com este tipo de coisa", contou o rapaz, ainda indignado.

O caso aconteceu há quatro anos, mas até hoje Ricardo divulga a história para que outros não passem pelo mesmo constrangimento pelo qual ele e a família passaram.

"Acionamos a polícia, fizemos a reclamação na matriz da rede, procuramos um advogado e, por semanas, os gerentes do supermercado tentaram nos convencer a não entrar com processo", lembra.

Depois de três meses, foi feito um acordo. "A rede trocou a empresa que faz a segurança local, pagou todas as despesas com advogados e exigimos ainda que os gerentes pedissem desculpas em público", contou Ricardo.

Há 20 anos morando no Japão, o brasileiro lembra que antigamente a situação era bem pior. "Quando entrava brasileiro em supermercados, por exemplo, geralmente tocavam uma música brasileira. Era um sinal para avisar os funcionários de que havia estrangeiro na loja", contou.

Ricardo já foi barrado em bares e também sofreu todo tipo agressão verbal. "Esse tipo de discriminação existe, é visível e constante. Enquanto as autoridades e a própria mídia não tomarem uma posição, esses abusos vão continuar acontecendo", destacou.
BBC Brasil

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Notícias Geografia Hoje

Sem usinas nucleares, Japão corta meta de redução de emissões
Desastre de Fukushima provoca paralisação de todos os reatores e leva a aumento do uso de combustíveis fósseis



O Japão anunciou nesta sexta-feira (15) que vai cortar significativamente suas metas de redução de emissão de gases do efeito estufa como consequência do desastre nuclear de Fukushima, há dois anos e meio.

AP
Foto aérea mostra a usina nuclear de Fukushima Daiichi em Okuma, norte do Japão (31/8)

O país havia se comprometido a cortar suas emissões em 25% sobre os níveis de 1990 até 2020, mas promete agora uma redução de 3,8% sobre os níveis de 2005. A nova meta representa na prática uma elevação de 3% nas emissões em relação aos níveis de 1990.

O Japão mantém atualmente todas as suas usinas nucleares paralisadas, o que vem forçando o país a aumentar o uso de combustíveis fósseis. Ao contrário da queima de combustíveis fósseis, a produção de energia nuclear não produz gases do efeito estufa, apesar de gerar resíduos radioativos.

Ao anunciar a mudança de meta, o chefe de gabinete do governo japonês, Yoshihide Suga, afirmou que a meta inicial, estabelecida em 2009 pelo governo liderado pelo Partido Democrático, hoje na oposição, era "totalmente sem fundamento".

"Nosso governo tem dito que uma meta de redução de 25% era totalmente sem fundamento e não era factível", disse ele em Tóquio.

Nível de ambição

Em um discurso na conferência da ONU sobre mudanças climáticas em Varsóvia, na Polônia, o negociador-chefe do Japão afirmou que a mudança foi baseada em novas circunstâncias. "A nova meta é baseada em zero de energia nuclear no futuro. Temos que reduzir nosso nível de ambição", afirmou Hiroshi Minami.

Ele admitiu que a mudança deve ser alvo de críticas, mas disse que a meta será ajustada se a situação das usinas nucleares do país mudar.

Até o terremoto e o tsunami de 2011, que provocaram vazamento na usina de Fukushima, o Japão gerava mais de um quarto de sua energia em usinas nucleares.

Mas desde o desastre, seus 50 reatores foram paralisados para verificações de segurança ou manutenção programada, em meio a uma onda de rejeição popular da energia nuclear.

O último reator em operação, em Ohi, foi desligado em setembro. As companhias de energia já pediram autorização para religar cerca de uma dezena de reatores, mas isso poderia levar tempo por conta das exigências de segurança e das barreiras legais.

O primeiro-ministro Shinzo Abe deseja ver os reatores novamente em operação, já que são uma parte vital de seu plano para reativar a economia.

Desde o desastre em Fukushima, o Japão se viu forçado a importar grandes quantidades de carvão mineral, gás natural e outros combustíveis.
 http://ultimosegundo.ig.com.br

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Notícias Geografia Hoje



Japão 
Nova fuga de água radioactiva na central de Fukushima
Uma nova fuga de água radioactiva foi descoberta no Japão, na central nuclear de Fukushima, disse hoje o operador, de acordo com agências de notícias japonesas.

A Tokyo Eletric Power (TEPCO) informou que uma grande fuga de água radioativa foi registada no setor 1, num tanque diferente daquele em que já se tinha verificado uma situação semelhante em agosto, noticiaram as agências noticiosas Joji e Kyodo.

Não é conhecida a quantidade de água libertada do tanque de 450 toneladas.

A TEPCO disse que tinha constatado água contaminada acumulada à volta do tanque que pode ter trespassado as barreiras.

As barreiras foram instaladas para bloquear a água e impedir que se espalhasse quando ocorre uma fuga na central, que ficou gravemente danificada por um tremor de terra, seguido de tsunami, em março de 2011.

Em agosto, descobriu-se uma fuga de cerca de 300 toneladas de água tóxica de outro tanque, parte da qual se crê ter fluído para o oceano Pacífico.
http://www.noticiasaominuto.com

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Mar de Fukushima pode estar contaminado

Operadora da usina nuclear de Fukushima reconhece a possibilidade de fluxo de água contaminada para o oceano


A operadora da usina nuclear de Fukushima admite pela primeira vez a possibilidade da água subterrânea contaminada estar chegando ao oceano

TÓQUIO (Reuters) – A operadora da usina nuclear de Fukushima declarou na segunda-feira, [dia 21 de julho], que água contaminada do solo provavelmente está indo para o mar, reconhecendo esse vazamento pela primeira vez.

A Tokyo Electric Power Co., ou Tepco, fez o anúncio um dia após o Partido Liberal Democrático – que é pró-nuclear – do Primeiro Ministro Shinzo Abe e seu parceiro da coalizão júnior conseguirem uma vitória decisiva nas eleições para a Alta Câmara, garantindo sua permanência no poder. 

O chefe da Autoridade de Regulação Nuclear do Japão, criada desde que o terremoto e o tsunami de 2011 destruíram Fukushima, declarou neste mês acreditar que a contaminação do mar vem ocorrendo desde o acidente.

Mas a Tepco já tinha fracassado anteriormente em confirmar o vazamento de água do solo mais de dois anos após o pior acidente nuclear da história desde Chernobyl, em 1986.

“Nós gostaríamos de oferecer um profundo pedido de desculpas por preocupar muitas pessoas gravemente, especialmente em Fukushima”, declarou Masayuki Ono, administrador geral da Tepco, a uma conferência de imprensa durante uma transmissão na rede pública de televisão NHK.

De acordo com a Tepco, com base nos testes de amostras de água, qualquer impacto do vazamento pareceu ser contido por cercas de silte erguidas perto dos reatores devastados.

A empresa já está injetando silicato de sódio em parte da parede marítima que separa o oceano da usina para evitar que a água do solo passe por ela. A Tepco declarou que pretende solidificar uma parte maior da parede marítima com o químico.

O terremoto e o tsunami de março de 2011 desligaram sistemas de refrigeração da usina de Fukushima, provocando derretimentos e o vazamentos radioativos, contaminação alimentar e evacuações em massa.

Neste mês a Tepco reconheceu que os níveis de radiação na água do solo dispararam, sugerindo que materiais altamente tóxicos da usina estão se aproximando do Pacífico.

(Reportagem por Kiyoshi Takenaka; Edição por Ron Popeski)
 Scientific American Brasil

domingo, 15 de janeiro de 2012

As lições do Japão

A exemplo do que fez após a Segunda Guerra, o país se recupera da tragédia do tsunami, afasta recessão e começa 2012 com promessa de crescimento
Mariana Queiroz Barboza



RECONSTRUÇÃO
Destroços se acumulam em Otsuchi; três meses depois, o local recuperado


O roteiro de março de 2011 indicava um futuro dramático para o Japão. Em apenas dois minutos, um terremoto de 9 graus na escala Richter deixou um rastro de destruição, a ameaça de uma hecatombe nuclear e a certeza de que a economia do país sofreria os efeitos da tragédia por um longo período. Menos de um ano depois do tsunami, as previsões pessimistas não se confirmaram. Assim como fizeram logo após a Segunda Guerra Mundial, os japoneses novamente deram lições de perseverança. A recuperação não só foi rápida como veio com força. No terceiro trimestre do ano passado, o Produto Interno Bruto do país cresceu 5,6%, a taxa atual de desemprego está em 4,5% (um dos índices mais baixos entre as nações ricas), a indústria automotiva cresceu 24% em dezembro e as reservas internacionais superaram a marca de US$ 1 trilhão. Para efeito de comparação, nenhum dos gigantes europeus tem indicadores tão positivos para exibir.

Não faltam exemplos para ilustrar a competência e a agilidade dos japoneses. Totalmente destruída pela força do terremoto, uma estrada que liga a capital Tóquio à cidade de Naka foi reaberta em apenas seis dias e avenidas e prédios inteiros foram reerguidos em tempo recorde. Em seis meses, o aeroporto de Sendai, que viu seus aviões serem arrastados pelas águas como se fossem frágeis brinquedos, estava completamente restaurado. A rápida reconstrução do país abre caminho para a retomada da economia. Segundo Paulo Yokota, ex-diretor do Banco Central do Brasil, o dinheiro investido principalmente na construção civil teve um efeito multiplicador – milhares de operários foram contratados para executar os serviços e profissionais de diversas áreas foram acionados às pressas para fazer o país andar. O custo da reconstrução foi estimado em USS 235,8 bilhões. Em uma lição de decoro, os japoneses devolveram mais de US$ 100 milhões de doações feitas pela Cruz Vermelha.


FÔLEGO
Com a retomada da economia, as vendas de automóveis subiram 24%


A retomada é resultado também do envolvimento e do sacrifício da população. Segundo Yokota, que voltou recentemente de uma viagem ao Japão, após a catástrofe ampliou-se a conscientização sobre a necessidade de economia de energia. Para evitar sobrecargas nos horários de pico, algumas fábricas reduziram o expediente durante a semana e passaram a produzir a pleno vapor aos sábados e domingos. Os horários de escolas e do comércio também mudaram, o que reduziu os congestionamentos nas ruas e eliminou as cenas mundialmente conhecidas de empurra-empurra no metrô de Tóquio. “Para isso funcionar, foi preciso o engajamento da população”, diz Yokota. “Se não fosse pelo desastre, seria mais difícil as pessoas aderirem.” A resposta dos japoneses a seu histórico de infortúnios naturais vem da tecnologia. Os aparelhos elétricos, como ar-condicionado, televisão e lâmpadas, consomem significativamente menos energia – alguns chegam a gastar 10% do que gastam produtos equivalentes usados no Brasil –, e existem tecidos que resfriam ou aumentam a temperatura do corpo durante estações de calor ou frio intenso. Para um país que construiu uma das maiores economias do mundo após os estragos causados pela Segunda Guerra Mundial, nenhum desafio parece insuperável.


Revista Isto é

terça-feira, 21 de junho de 2011

Peritos concebem cenário para usina de Fukushima

Tipo de acidente ocorrido no Japão resulta de uma perda de corrente alternada fora da usina e de uma subsequente falha da energia de emergência do próprio local. Engenheiros trabalham para evitar a fusão do núcleo.

CORTESIA DA MARINHA DOS ESTADOS UNIDOS, ESPECIALISTA EM COMUNICAÇÃO DE MASSA MARINHEIRO STEVE WHITE
ÁGUA DO MAR: Destroços flutuam no Oceano Pacífico, ao largo da costa do Japão, depois que um terremoto de magnitude 9,0 e um subseqüente tsunami atingiram o país em 11 de março

Por Steve Mirsky

Primeiro veio o terremoto, com o epicentro ao largo da costa leste do Japão, perto da ilha de Honshu. O horror adicional do tsunami veio em seguida. Agora o mundo espera que não ocorra a fusão do núcleo no reator da estação Daichi de Fukushima.

Em 12 de Março, peritos americanos reuniram-se para oferecer um resumo da situação à mídia pelo sistema call-in. Vários participantes discutiram as ramificações para a política do setor provocadas pela crise; o físico Ken Bergeron forneceu a maior parte das informações relativas ao reator.

“Analistas gostam de caracterizar acidentes potenciais com reatores em grupos”, explicou Bergeron, que pesquisou simulações de acidentes com reatores nucleares no Laboratório Nacional de Sandia, no Novo México. “E o tipo de acidente que está ocorrendo no Japão é conhecido como station blackout (apagão de estação). Significa perda de energia por corrente alternada fora do local – as linhas de transmissão caem –, seguida de falha da energia de emergência no local. Isso é considerado extremamente improvável, mas o apagão da estação tem sido uma das maiores preocupações há décadas.

“A probabilidade de isso acontecer é difícil de calcular, principalmente devido à possibilidade do que se costuma chamar de “acidentes de causa comum”, nos quais a perda de energia fora do local e no próprio local é provocada pela mesma coisa. Nesse caso, a causa foi o terremoto. Então, estamos em território não mapeado, estamos em uma terra onde a probabilidade diz que não deveríamos estar. E temos esperança de que nem todas as barreiras para liberar a radiatividade funcionem.”

Bergeron abordou aspectos básicos do superaquecimento em uma usina por fissão nuclear. “As varetas de combustível são longas hastes de urânio cobertas com revestimento da liga de zircônio. Elas ficam dentro de uma estrutura cilíndrica toda coberta com água. Se a água desce abaixo do nível do combustível, então a temperatura começa a subir, e o revestimento se rompe, liberando parte dos produtos da fissão. Depois de algum tempo o núcleo começa a fundir. Algo muito semelhante a isso aconteceu na usina de Three Mile Island, na Pensilvânia, mas o vaso de pressão não falhou.”

Peter Bradford, ex-membro da Comissão Regulatória Nuclear dos Estados Unidos, acrescentou: “Outra coisa que acontece é que o revestimento, que está bem perto, no lado de fora do tubo, a alta temperatura, interage com a água. É essencialmente oxidação em alta velocidade, pela qual o zircônio se transforma em óxido de zircônio, e o hidrogênio é liberado. E hidrogênio em uma certa concentração na atmosfera é inflamável ou explosivo”.

“A combustão do hidrogênio não aconteceria necessariamente no prédio de confinamento”, detalha Bergeron, “que é inerte – não tem oxigênio algum –, mas eles tiveram de desafogar o confinamento, porque a pressão ganha força a partir de todo esse vapor. Assim, o hidrogênio está sendo desafogado com o vapor e está entrando em alguma área, algum prédio, onde há oxigênio, e é aí que a explosão aconteceu.”

Bergeron discutiu especificamente a usina nuclear em questão, a BWR Mark 1, projetada pela General Electric. “Trata-se de um reator de água fervente. Foi um dos primeiros projetados para reatores comerciais nesse país, e é amplamente usado também no Japão. Em comparação com outros reatores, se você examinar estudos da Comissão Regulatória Nuclear, de acordo com os cálculos, esse tem uma frequência de danos ao núcleo relativamente baixa. Em parte, isso acontece porque tem variedade maior de maneiras de fazer entrar água no núcleo. Assim, eles têm uma porção de opções – e estão recorrendo a elas agora mesmo – com o uso dessas turbinas a vapor, por exemplo. Não há necessidade de eletricidade para fazer funcionar essas turbinas a vapor. Mas elas ainda precisam de eletricidade de bateria para operar as válvulas e os controles.”

“Assim, há algumas vantagens oferecidas pela BWR em termos de acidentes graves. Mas uma das desvantagens é que a estrutura de confinamento é uma couraça de aço em forma de lâmpada que mede apenas 12 metros de lado a lado – feita de aço espesso, mas relativamente pequena, em comparação com confinamentos grandes e secos, como os de Three Mile Island. Ela não proporciona camada extra de defesa contra acidentes com reatores. Por isso, há uma grande dose de preocupação de que, se o núcleo fundir, o confinamento não será capaz de sobreviver. E, se o confinamento não sobreviver, teremos pior cenário possível.”

O que exatamente essa situação de pior cenário possível? “Estão desafogando, para impedir que o vaso de confinamento falhe. Mas, se um núcleo derreter, ele cairá bruscamente para o fundo do vaso do reator, provavelmente fundirá e passará através do vaso do reator para o piso de confinamento. É possível que ele se espalhe como uma poça em ponto de fusão – parecida com lava – até a borda da couraça de aço, derreta e atravesse-a. Isso resultaria numa falha de confinamento em questão de menos de 1 dia. Ainda bem que se trata de um sistema de confinamento melhor que o de Chernobyl, mas não é tão forte quanto o da maioria dos reatores dos Estados Unidos.”

Bergeron resumiu os eventos até agora: “Com base no que entendemos, o reator foi fechado, no sentido de que todas as varetas de controle foram inseridas – e isso significa que não há mais reação nuclear. Contudo, o que deve nos causar preocupação é o calor que ainda está no núcleo – isso vai durar por muitos dias”.

“Para impedir que esse calor faça o núcleo fundir, é preciso manter água nele. Além disso, as fontes convencionais de água e a eletricidade que fornece energia para as bombas falharam. Por isso, estão usando alguns métodos muito incomuns para fazer chegar água ao núcleo, estão usando turbinas a vapor – que operam com energia fornecida pelo próprio reator.”

“Mas até mesmo esse sistema necessita de eletricidade na forma de baterias. E as baterias não são projetadas para durar tanto assim, por isso elas acabaram falhando. Assim, não sabemos exatamente como estão fazendo chegar água ao núcleo ou se estão colocando água suficiente nele. Acreditamos, devido à liberação de césio, que o núcleo ficou exposto acima do nível da água, pelo menos durante algum tempo, e superaqueceu. O que realmente precisamos saber é por quanto tempo eles conseguirão manter aquele fluxo d´água. E isso precisa acontecer durante vários dias, para impedir a fusão do núcleo.”

“Acredito que o confinamento ainda esteja intacto. Porém, se o núcleo de fato fundir, a estrutura provavelmente não aguentará o dano, e o vaso de confinamento falhará. Tudo isso aconteceria em questão de dias. O crucial é restabelecer a energia por corrente alternada. Eles têm que devolver a energia por corrente alternada à usina para conseguir controlá-la. Tenho certeza de que estão trabalhando para isso.”

À medida que a situação na usina nuclear de Fukushima piora – quatro dos seis reatores em ponto de fervura foram danificados por explosões ou incêndios, e começou a vazar radiação para a atmosfera –, funcionários continuam a bombear água do mar nos reatores, tentativa desesperada de resfriar as varetas de combustível e evitar uma fusão completa. A iniciativa da Tokyo Electric Power Co. (Tepco), que opera a usina Daiichi, de usar água do mar misturada com boro (que absorve nêutrons) nos vasos de pressão dos reatores tem a contrapartida de que eles nunca mais vão funcionar adequadamente, danificando permanentemente uma das 25 maiores usinas nucleares do mundo.
Tais medidas extremas foram necessárias porque os sistemas de resfriamento normal e auxiliar, que fazem circular água purificada para evitar a fusão das varetas de combustível, falharam. O tsunami não só cortou o fornecimento de energia elétrica normal à Daiichi como também inundou e desativou os geradores a diesel de reserva. Três dos seis reatores da usina estavam desligados para manutenção quando o tsunami induzido pelo terremoto aconteceu. A falta de água suficiente para cobrir essas varetas levou a explosões de três reatores em operação, provavelmente devido a um acúmulo de gás hidrogênio.

O quarto reator, um dos que tinham sido desligados antes de 11 de março, houve um incêndio que ameaçou evaporar a água num tanque de armazenamento de combustível nuclear irradiado.

A perspectiva de arruinar meia dúzia de reatores nucleares não é nada em comparação com a alternativa: a fusão completa, que contaminaria o solo abaixo do complexo com material radiativo e depois seria espalhado pelo vento, chuva e águas subterrâneas, com potencial para causar doenças provocadas por radiação em milhares de pessoas.

Scientific American falou com Pavel Tsvetkov, professor assistente de engenharia nuclear na Texas A&M University, para saber por que a água do mar é o último recurso para resfriar reatores nucleares comprometidos, e quais as opções da TEPCO para as próximas etapas.


Por que uma instalação nuclear normalmente usa água purificada para resfriar seus reatores? Até que ponto ela é purificada?

Vou lhe dar um exemplo. Se você tem uma panela fervendo e a sua água tem minerais em excesso, então haverá condensação dentro dessa panela. Quando isso acontece num reator, interrompe as propriedades dos elementos do combustível. Empresas energéticas não querem pôr em risco o desempenho dos materiais de seu reator, por isso usam água purificada, normalmente de uma instalação especial de purificação no local.

Em que circunstâncias uma usina usaria água do mar para resfriar seus reatores?

Usar água não purificada não é prática normal – aliás, nunca se fez isso. Usinas não pegam água de rio ou mar para suplementar sua própria água interna, que fica em sistemas de circuito completamente fechado. É claro que elas colocam uma quantidade de água nova periodicamente para compensar a evaporação e outras perdas parecidas, mas essa água passa por purificação antes de ser usada.

Os reatores da Tepco ficaram abaixo da condição normal de operação devido a falta de água, por isso tiveram de colocar água adicional para o resfriamento. A água salgada obviamente contém uma porção de minerais e, se for tirada diretamente do mar, também tem todo tipo de materiais flutuando nela. Mesmo que tudo seja filtrado, a química da água salgada não é realmente compatível com o que normalmente circula no reator. Ela é corrosiva demais para os elementos do combustível. Acho que, depois que essa água foi introduzida nos núcleos do reator, eles ficaram completamente inutilizáveis. Isso acontece porque qualquer material na água vai “colar” na superfície das varetas de combustível e fazer com que a transferência de calor se torne imprevisível.

Que papel desempenha o boro na água do mar?

O boro pode ser injetado em sistemas de refrigeração por água para controlar a atividade do núcleo do reator porque ele é um forte absorvedor de nêutrons, especialmente de nêutrons térmicos. Mas o boro não é usado habitualmente em reatores de água fervente, como os da estação Daiichi em Fukushima, porque o boro também exerce efeito corrosivo sobre os elementos do combustível. Em casos de emergência, no entanto, boro e água do mar podem ser usados para suprimir as reações em cadeia por fissão nos elementos do combustível.

Então, o uso de água do mar e boro é um último recurso para resfriar um reator?

Provavelmente, se tivessem mais tempo, eles teriam tentado restaurar os geradores diesel, que acionavam o sistema de resfriamento substituto, e assim fariam circular a água que já estava lá. Porém, com a água no núcleo evaporando devido a altas temperaturas, eles precisaram acrescentar cada vez mais água para poder suprimir rapidamente as condições de fervura.

Dado que a construção de um novo reator custaria vários bilhões de dólares, não há maneira alguma pela qual eles poderiam limpar os elementos do combustível?

Uma alternativa seria tentar explorar se dá para restaurar o reator, porque é um investimento significativo. Mas não tenho lembrança de alguém usar água do mar por período de tempo prolongado em seus reatores como eles estão fazendo agora.

Scientific American Brasil

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Lição de samurais

Eles vieram para trabalhar nos cafezais, mas seus filhos e netos marcaram presença na ciência brasileira

EVANILDO DA SILVEIRA

Arte PB

As primeiras 165 famílias de imigrantes japoneses, compostas de 781 pessoas, desembarcaram do navio Kasato-Maru, no porto de Santos, no dia 18 de junho de 1908. Em 1941, eles já eram 188.986 no Brasil. Todos traziam na bagagem o sonho de ganhar dinheiro nos cafezais de São Paulo e retornar a sua pátria, mas a 2ª Guerra Mundial (1939-1945) forçou a uma mudança de planos. Sem alternativa, passaram a se integrar à sociedade brasileira, decisão que incluía encaminhar os filhos e netos para os estudos. Vieram para trabalhar na lavoura, mas aos poucos foram para a cidade a fim de estudar. Hoje, o resultado pode ser visto na contribuição constante que vêm dando ao desenvolvimento científico e tecnológico do país, principalmente em áreas como agricultura, saúde e medicina, física e engenharia.

O professor titular do Centro de História da Ciência da Universidade de São Paulo (USP), Shozo Motoyama, ele próprio um nissei (filho de imigrante japonês), lembra que apesar do desinteresse em relação às escolas superiores no período inicial, os imigrantes davam muita importância à educação, ensinando a língua japonesa e matemática elementar. “Todo agrupamento possuía uma escola”, explica ele.

Uns poucos, porém, foram mais longe e deram início, justamente nesse período em que a maioria de seus compatriotas estava presa à lavoura, a pesquisas científicas em solo brasileiro. É o que conta a professora titular da Escola de Enfermagem da USP Ana Maria Kazue Miyadahira, coordenadora do projeto Encontros e Memórias: a Inserção Nikkei na USP e na Sociedade Brasileira, que resultou num livro publicado em 2008 para marcar o centenário da imigração japonesa no Brasil. “Muita gente duvida quando se afirma que os imigrados ocuparam-se das ciências exatas e naturais já na década de 1930, antes mesmo do surgimento da USP”, diz.

Um exemplo citado por ela é o Instituto Kurihara de Ciência Natural Brasileira, fundado em 1931, em Mirandópolis, pelo lavrador Shihishi Kamiya e um grupo de amadores. Chamado por seus criadores de “o menor observatório astronômico do mundo”, o instituto realizou pesquisas com relativa importância nas áreas de astronomia, meteorologia, zoologia, botânica, arqueologia, antropologia e história. “Kamiya e seus amigos transformaram um velho galinheiro em observatório astronômico e enviavam dados de seus estudos para o Observatório de Kwazan, no Japão, e para o Observatório Nacional, no Brasil”, revela Ana Maria.

Números do sucesso

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do quadro de professores e de alunos da USP, a mais importante universidade do país, demonstram o sucesso do esforço de integração e o papel dos nikkeis (imigrantes japoneses e seus descendentes) na ciência brasileira. De acordo com o censo de 2000, o último realizado, 28,9% dos membros da raça amarela, na qual se incluem os nikkeis, concluíram o ensino superior, contra 10% dos brancos, 2,4% dos pardos, 2,2% dos índios e 2,1% dos negros. Na USP, o desempenho deles também chama a atenção. Embora não representem mais que 3% da população do estado de São Paulo, perfazem cerca de 15% dos alunos e de 4% a 5% dos professores. Nas áreas de saúde e medicina, os estudantes chegam a nada menos que 25%.

Uma das maiores contribuições tecnológicas dos imigrantes nipônicos até a 2ª Guerra Mundial deu-se sem dúvida na agricultura. Com o apoio do governo do país de origem, pode-se dizer que eles revolucionaram a produção agrícola brasileira. “Isso ocorreu sobretudo com a introdução de culturas que inexistiam no Brasil”, explica Alfredo Homma, do Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Úmido, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no Pará. “A lista é imensa. Na Amazônia, por exemplo, eles introduziram juta, pimenta-do-reino, mamão-havaí, melão, além de frutas como mangostão, rambutã e maracujá.”

Em outras regiões, os nikkeis foram os pioneiros no cultivo de plantas como abacaxi sem espinho e caqui. São contribuições muito significativas, pois na primeira metade do século passado os produtos agrícolas cultivados no Brasil não passavam de 20. Além disso, eles foram responsáveis pela introdução de tecnologia e do melhoramento genético de plantas, bem como de novas técnicas de cultivo, comercialização, difusão e importação.

Também foram pioneiros na sericultura, a criação do bicho-da-seda, que começou a partir de 1938, quando surgiu a Sociedade Colonizadora do Brasil (Bratac), que impulsionou essa atividade. A modernização da avicultura nacional se deve igualmente aos imigrantes, que, entre outros avanços, introduziram a comercialização de ovos, antes produzidos nos quintais brasileiros apenas para consumo familiar.

A cultura do associativismo foi outra contribuição que desembocou na introdução de novas tecnologias pelos nikkeis. Isso começou em 1927, com a criação da Sociedade Cooperativa de Responsabilidade Limitada dos Produtores de Batata em Cotia, mais tarde Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC), cujas atividades se mantiveram até 1994. Seus técnicos realizaram pesquisas e importaram conhecimentos que resultaram no uso de práticas desconhecidas até então no Brasil, como a correção do solo por meio do uso de adubos químicos e orgânicos, o que teve como consequência o aumento da qualidade e da produtividade agrícola. Deve-se a eles ainda a plantação de hortaliças em estufas, a criação de novas variedades e o uso de enxertos para aprimoramento de plantas.

Atendimento exclusivo

Na área médica, a contribuição dos nikkeis também não foi pequena. Nos primeiros anos, por causa das dificuldades com a língua, eles não conseguiam se comunicar satisfatoriamente nas comunidades onde viviam, o que dificultava o atendimento médico. Para sanar o problema, o Japão assinou um convênio com o governo brasileiro para que doutores daquele país pudessem vir para cá para atender as colônias. Eram os chamados haken-i, que só podiam tratar dos imigrantes japoneses. O Brasil, porém, também acabou se beneficiando, pois foram eles os primeiros a detectar e tratar o tracoma e verminoses como o amarelão, além de iniciar pesquisas para o controle da malária e a difusão de conhecimentos sobre a leishmaniose e a tuberculose.

A carência de médicos nas colônias japonesas levou a outro resultado positivo. Sentindo-se desamparados, muitos dos imigrantes se esforçaram para que pelo menos um de seus filhos se formasse nessa profissão. Assim, a partir de 1939, muitos nisseis começaram a cursar medicina na USP – tendência que perdura até hoje e que se expandiu para outras universidades do país. Cerca de 20% dos estudantes que ingressam em algumas das melhores faculdades de medicina do país são descendentes de japoneses.

Na área de física, acontecimentos trágicos que abalaram os japoneses aqui residentes logo depois do fim da guerra resultaram numa fértil colaboração entre pesquisadores japoneses e brasileiros que dura até hoje. Na época, a colônia se dividiu em dois grupos. De um lado estavam os katigumi, que acreditavam na vitória do Japão no conflito e eram maioria. Do outro, os makegumi, cerca de 20% da colônia, que sabiam da capitulação e eram considerados derrotistas. Entre os katigumi, alguns fanáticos fundaram a organização terrorista Shindo Remmei, que assassinou 23 makegumi e feriu centenas de outros.

Para controlar a situação e convencer os katigumi de que o Japão havia de fato perdido a guerra, dirigentes e intelectuais da colônia convidaram, em 1952, personalidades japonesas famosas a vir ao Brasil dar seu testemunho. Para custear a viagem dessas pessoas arrecadaram entre os imigrantes cerca de 1 milhão de ienes. Um dos convidados foi o físico Hideki Yukawa, o primeiro japonês a receber o Prêmio Nobel, em 1949. Como ele não pôde vir, conta Shozo Motoyama, o dinheiro arrecadado para a viagem foi enviado para financiar pesquisas na área de física nuclear, em que ele atuava no Japão.

Muitos anos depois, em 1958, quando se comemorava o cinquentenário da imigração japonesa, Yukawa e outro grande físico, Mituo Taketani, em visita ao Brasil, fizeram questão de agradecer a ajuda recebida anos antes. Mais: propuseram ao respeitado cientista brasileiro César Lattes a colaboração entre físicos teóricos e experimentais de ambos os países. Surgia assim, quatro anos mais tarde, o projeto Colaboração Brasil-Japão de Raios Cósmicos, conhecida pela sigla CBJ, que persiste até hoje.

O dinheiro enviado ao Japão renderia mais uma contribuição à ciência brasileira: no mesmo ano de 1958, o professor Taketani aceitou o convite para dirigir o Instituto de Física Teórica (IFT) de São Paulo, hoje incorporado à Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Seu trabalho no IFT mereceu os maiores elogios, a ponto de a prestigiosa revista de física ‘Nuovo Cimento’ [da Sociedade Italiana de Física] escrever que ele operou um verdadeiro milagre no instituto, colocando-o na fronteira da investigação”, revela Motoyama.

Além dessas áreas, em várias outras há descendentes de imigrantes japoneses que se destacam por sua contribuição à ciência brasileira. Num capítulo do livro Encontros e Memórias, intitulado “Os nikkeis na USP – Introdução Histórica”, Motoyama cita alguns, entre os quais Célio Taniguchi, engenheiro naval que chegou a diretor da Escola Politécnica da USP. Ele se dedicou ao estudo dos problemas relacionados à tecnologia de construção naval e de sistemas oceânicos, incluindo análise estrutural de plataformas de exploração de petróleo. “O professor Seizi Oga, por sua vez, tornou-se grande referência no campo da farmacologia aplicada, com muitos artigos e livros publicados”, diz Motoyama. “Seu livro Fundamentos de Toxicologia é um dos clássicos brasileiros da área.” Oga também foi diretor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

Saúde animal

Em geociências, um dos destaques é Jorge Kazuo Yamamoto, que começou no Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT) desenvolvendo a aplicação de computadores em geologia e mineração, linha de pesquisa que levou para a USP depois de 11 anos. Em medicina veterinária, Motoyama cita Massao Iwasaki, especialista em radiologia, que trabalha com tecnologia de ponta, utilizando aparelhos de ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética no estudo de doenças de cães. Entre as mulheres, uma das citadas é Mitika Kuribayashi Hagiwara, que também atua na área de veterinária. “Ela realizou muitos trabalhos sobre leptospirose canina, patogenia e clínica de retroviroses felinas e sobre clínica e epidemiologia de doenças de cães. Tudo isso dando aulas ininterruptamente por mais de 30 anos”, conta Motoyama.

A exigência das famílias em relação ao desempenho dos filhos nos estudos às vezes beirava o exagero. Um exemplo é o de Alfredo Homma, da Embrapa do Pará. Ele e seus irmãos sempre se destacaram na escola. “Tirar notas altas era motivo de honra, e as baixas, de surras”, lembra. “Tanto que passei em primeiro lugar no vestibular de agronomia da Universidade Federal de Viçosa, sem fazer cursinho, pois simplesmente não tínhamos condições de pagar um”. Sua irmã passou em primeiro lugar em medicina na Universidade Federal do Maranhão e o irmão caçula em primeiro lugar em metalurgia, na Universidade Federal de Ouro Preto.

Assim como Homma, praticamente todos os nikkeis têm uma história sobre a importância que seus pais davam à educação e aos valores culturais de seus antepassados. “Eu me lembro de minha mãe dizendo: ‘Somos pobres, mas descendemos de samurais, então somos ricos em valores como dignidade, honestidade’”, conta Ana Maria Miyadahira. “Aprendi com ela que a maior riqueza não é material, mas do espírito – uma coisa que também tento passar a meus filhos.”

Revista Problemas Brasileiros

domingo, 27 de setembro de 2009

Dilemas nipônicos

Pesquisa FAPESP - © Laura Beatriz


O Japão teme perder status na ciência mundial, sufocado pelo envelhecimento de sua comunidade científica e também por entraves culturais para atrair talentos de outros países e mandar os seus pesquisadores para o exterior. Segundo a revista Nature, um relatório divulgado no mês passado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia nipônico informa que iniciativas para preservar o fôlego científico não estão surtindo efeito. Nos últimos anos, 28 universidades e institutos de pesquisa criaram esquemas para garantir financiamento e ampliar a independência dos jovens pesquisadores. Isso não foi suficiente para rejuvenescer as instituições: o contingente de pesquisadores com menos de 37 anos caiu de 36.773 em 1998 para 35.788 em 2007, embora, no mesmo período, a comunidade científica tenha crescido 15%. Barreiras culturais tornam as perspectivas mais complicadas. Após décadas de estímulo à internacionalização, apenas 10% dos doutores formados em universidades japonesas são estrangeiros, ante 42% dos Estados Unidos e 41% do Reino Unido. E cada vez menos japoneses se interessam por ter experiência internacional. Embora dois dos quatro nipônicos que venceram o Nobel de 2008 estejam radicados nos Estados Unidos, o número de pesquisadores que passaram mais de três meses em laboratórios do exterior caiu de 7.118 em 1997 para 4.163 em 2006. Segundo o relatório, apenas 2% dos cientistas japoneses planejam trabalhar no exterior.

Revista FAPESP

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