Mostrando postagens com marcador Poluição da Águas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poluição da Águas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Os efeitos do garimpo sobre o rio Abacaxis, no Amazonas


Nicoly Ambrosio

Exploração ilegal de ouro na região impacta comunidades e traz preocupações sobre saúde, segurança alimentar e qualidade da água


FOTO: Daniel Beltrá/Greenpeace/2017

Floresta Nacional Reserva Urupadi, em Maués (AM), impactada por garimpo ilegal

Há mais de uma década, moradores das comunidades ribeirinhas e indígenas do rio Abacaxis, afluente do rio Madeira, no Amazonas, convivem com o medo de ameaças, da água contaminada e de que o garimpo ilegal nunca pare de avançar sobre a Floresta Nacional Urupadi, localizada na parte sul do município de Maués (a 267 km de Manaus). Desde 2018, moradores destas áreas denunciam ao Ministério Público Federal (MPF), por meio da Associação Nova Esperança do Rio Abacaxis (Anera), a atividade clandestina e de grande impacto no Filão do Abacaxis.

“Sai um comando do garimpo, entra outra milícia. Depois há uma operação, essa milícia sai e outra tenta voltar. É algo sistêmico”, diz o psicólogo Fábio Cunha Coêlho, um dos fundadores da associação, à Amazônia Real.

O esforço em denunciar não foi em vão. A Justiça Federal do Amazonas tornou réus, no início deste mês, 13 pessoas apontadas como integrantes da organização criminosa que extraiu, sem autorização, 71 quilos de ouro da Flona de Urupadi, uma unidade de conservação federal. O esquema movimentou mais de 258 milhões de reais e, segundo o MPF, submeteu trabalhadores a condições análogas à escravidão.

Os réus são oito homens e cinco mulheres do Pará, de Mato Grosso, de Rondônia, do Piauí e do Amazonas. Um dos epicentros do esquema era a cidade paraense de Itaituba, onde um dos réus possuía uma joalheria utilizada para o comércio do ouro ilegal.

Sobre o dano ambiental causado dentro da unidade de conservação, a ação penal afirma: “A Flona Urupadi é um espaço territorial especialmente protegido, que abriga uma das regiões mais ricas em biodiversidade do mundo, com estimativa de 800 espécies de aves e alto grau de endemismo de primatas . A exploração ilegal nesta área causou a degradação de milhares de hectares e um dano socioambiental estimado em mais de R$ 267.061.361, ferindo a integridade de bioma com proteção constitucional reforçada”, diz trecho da ação penal obtida pela Amazônia Real.

Registros da exploração ilegal de ouro na região remontam a 2015, quando a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Filão dos Abacaxis, para desarticular os criminosos do esquema milionário de garimpo na Flona de Urupadi. As investigações apontaram que cerca de 70 hectares de floresta foram devastados pela atividade garimpeira, com sinais de contaminação do solo por mercúrio e cianeto.

A denúncia aceita pela Justiça é resultado de investigações mais recentes sobre a atividade criminosa do garimpo. Na Operação Déjà Vu, em 2023, a PF cumpriu seis mandados de prisão temporária e dez de busca e apreensão em Manaus e Nova Olinda do Norte (AM), Itaituba (PA), Goiânia (GO) e Campo Grande (MS), além de determinar o bloqueio de bens e valores dos investigados. À época, o dano ambiental provocado pelo garimpo foi estimado em mais de 430 milhões de reais, valor recalculado nos anos seguintes conforme novas perícias.

Desde então, foram realizadas outras quatro operações policiais e fiscalizatórias na área: Aurum, Mineração Obscura, Mineração Obscura 2 e Barões do Filão, esta última é a mais recente e foi deflagrada em agosto de 2025.

Na Operação Barões do Filão, os agentes identificaram, além do garimpo ilegal, crimes correlatos como lavagem de dinheiro e exploração de 50 trabalhadores em condição análoga à escravidão. Os policiais federais cumpriram 4 mandados de prisão preventiva e 12 de busca e apreensão em residências dos investigados, localizadas em Itaituba e Novo Progresso (PA), Sinop (MT), Porto Velho (RO) e Regeneração (PI). Também foi decretado o sequestro de bens e bloqueio de ativos de até 74.110.528 de reais, quantia calculada com base no dano ambiental atribuído a essa fase da investigação.

Embora o foco da exploração fosse a Flona Urupadi, os impactos do garimpo ultrapassaram os limites da unidade de conservação e atingiram comunidades ribeirinhas e indígenas localizadas nas cidades de Borba e Nova Olinda do Norte, vizinhas de Maués. Os territórios indígenas afetados são a aldeia Terra Preta, do povo Maraguá, que não é demarcada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), e a TI Kwatá Laranjal, do povo Munduruku.
FOTO: Bruno Kelly/Amazônia Real

Vista aérea do rio Abacaxis, na área da aldeia Terra Preta, do povo Maraguá

Fábio Cunha destacou a chegada das operações da PF, sobretudo por ter havido um aumento da estrutura empregada nas ações, com helicópteros, lanchas e recursos de inteligência. Mas ele espera que os efeitos sejam duradouros.
A organização criminosa

Conforme as investigações, no topo da organização criminosa está o atual líder do garimpo, que teria assumido o comando após a prisão do antigo chefe, na Operação Déjà Vu, em 2023. Segundo o MPF, mesmo sem ir até a área de extração, ele coordenava as atividades à distância: arrendava os poços de mineração a outros integrantes do grupo e recebia parte do ouro produzido.

A investigação apontou que os chamados sócios-arrendatários administravam os poços de extração, supervisionavam trabalhadores e mantinham a logística da atividade garimpeira. Cadernos de contabilidade apreendidos pela PF durante a Operação Mineração Obscura 2, em fevereiro de 2025, registraram a produção de cada frente de exploração e a divisão dos lucros entre os envolvidos.

Já o núcleo financeiro da organização é formado por familiares e pessoas próximas aos principais investigados. Conforme o MPF, empresas formalmente registradas e pessoas físicas eram utilizadas como “laranjas” e o montante de recursos movimentado era incompatível com a renda declarada de seus proprietários, uma clara tentativa de ocultar a origem ilícita do dinheiro obtido com os lucros do garimpo.

Alguns dos acusados também foram apontados pelo Ministério Público do Trabalho (MTE) como responsáveis pela submissão de dezenas de trabalhadores a condições análogas à escravidão. Os profissionais cumpriam jornadas exaustivas em turnos de 24 horas de trabalho por 24 horas de descanso e eram obrigados a manusear substâncias altamente tóxicas (mercúrio e cianeto) sem Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

“O lançamento de rejeitos com mercúrio e cianeto contaminou os igarapés da bacia do rio Abacaxis. Segundo o Relatório do MTE, o minério era moído até virar areia fina, de onde o ouro era extraído com auxílio de mercúrio. Estima-se que 8.540,53 gramas de mercúrio foram convertidos em metilmercúrio e incorporados à cadeia trófica, expondo cerca de 67.370 pessoas ao risco de contaminação em um raio de 100 km”, afirmou a ação penal do MPF.

Os trabalhadores do garimpo não eram livres, pois dependiam de prévia autorização do “dono”, o que, segundo a ação penal, evidencia o controle absoluto sobre a locomoção dos empregados. Em dezembro de 2025, três trabalhadores morreram no garimpo após o desabamento de uma galeria subterrânea.

Em janeiro deste ano, ​o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Herman Benjamin, negou pedido liminar para revogação de prisão preventiva decretada contra um homem investigado no âmbito da Operação Barões do Filão. Segundo o Ministério Público, o homem seria um dos principais articuladores da extração e da comercialização ilícitas do ouro, exercendo papel de proprietário e administrador do garimpo clandestino.

Com a aceitação da denúncia pela Justiça Federal, os acusados responderão pelos crimes apontados pelo MPF, entre eles usurpação de bens da União, organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, redução à condição análoga à de escravo, crimes ambientais e posse ilegal de arma de fogo.
Saúde e segurança alimentar

Uma liderança da Associação Nova Esperança do Rio Abacaxis (Anera) contou à Amazônia Real, em condição de anonimato por medo de ameaças, que a atividade garimpeira modificou a rotina das comunidades e trouxe preocupações constantes com relação à qualidade da água, a saúde, a pesca e a segurança alimentar dos moradores.

“Com a vinda do garimpo, observamos o impacto ambiental que está causando dentro do rio, sendo um deles o uso de substâncias químicas tóxicas para extração do ouro. Isso afeta a vida aquática dos animais e das pessoas que consomem essa água. A poluição da água é uma das maiores preocupações”, descreveu ele.


Um estudo apresentado na ação penal do MPF relata que entre os possíveis efeitos à saúde estão os riscos graves de infarto e sintomas neuropsicológicos, além da perda de QI em cerca de 33% dos nascidos vivos na região.

A liderança tem expectativa de que as operações de fiscalização se tornem permanentes. Embora reconheça que seja difícil eliminar completamente o garimpo ilegal devido às riquezas minerais existentes na região do rio Abacaxis, ele acredita que a atuação contínua do poder público pode reduzir os impactos da atividade. “Esperamos que o poder público sempre faça essas ações. Sabemos que é difícil parar totalmente essas atividades, mas, se houver fiscalização constante, pelo menos será possível minimizar essa situação”, afirmou.

O rio Abacaxis é uma área de forte pressão de atividades ilícitas, tais como pesca e caça ilegal. Há também registros de tráfico de drogas e exploração de madeira. A atividade garimpeira sempre fez parte de relatos locais há anos. A área, em 2020, ficou marcada pelo episódio violento que ficou conhecido como Massacre do Rio Abacaxis.
Aliciamento e ameaças

Fábio Cunha Coêlho relatou à Amazônia Real que as invasões na Flora Urupadi culminaram no aliciamento de pessoas da própria região para trabalhar no garimpo.

“Pessoas são contratadas com as suas embarcações para levar combustível, levar produtos, levar alimentação, para levar e trazer pessoas no garimpo. Havia também uma suspeita de que fora o garimpo, tinha a questão do tráfico, porque houve aumento do consumo de entorpecentes como maconha do tipo skunk. Começamos esse processo de solicitar e pedir socorro devido aos relatos que os ribeirinhos traziam para nós”, disse o psicólogo à Amazônia Real.

O avanço do garimpo também trouxe um cenário de insegurança para moradores das comunidades do rio Abacaxis. Segundo Fábio, lideranças ribeirinhas, indígenas e colaboradores que auxiliaram nas denúncias passaram a sofrer intimidações.

Um dos casos envolveu um jovem indígena que atuava como guia durante as expedições das autoridades à região e recebeu ameaças para abandonar o trabalho. “Justamente porque alguns garimpeiros residem em Nova Olinda [do Norte], falaram que estava ficando perigoso para ele e que precisava parar”, contou.

Após o episódio, os moradores das comunidades foram afastados das ações em campo, e a própria PF passou a conduzir as operações com maior autonomia, utilizando tecnologias como GPS para mapear a área.

“Nenhum dos envolvidos na cadeia de comercialização possuía autorização da Agência Nacional de Mineração (ANM) para a compra de ouro de garimpo. A legislação vigente exige que as operações de primeira aquisição sejam realizadas exclusivamente por instituições autorizadas, mediante emissão de nota fiscal que identifique a origem do mineral e comprove o recolhimento dos tributos devidos”, sustenta o MPF na ação penal.
https://www.nexojornal.com.br/

terça-feira, 19 de maio de 2026

Mais da metade de Santa Catarina bebe água contaminada por agrotóxicos proibidos







Uma descoberta alarmante coloca em xeque a qualidade da água que chega às torneiras catarinenses. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) revelou que 155 municípios – mais da metade do estado – têm águas potáveis contaminadas por agrotóxicos. Entre os 42 tipos identificados, cinco são substâncias banidas no Brasil.


O veneno que chegou às torneiras


A investigação do MPSC, realizada através do Centro de Apoio Operacional do Consumidor, expõe uma realidade preocupante: o uso indiscriminado de agrotóxicos contaminou não apenas os recursos hídricos, mas também o solo e o ar catarinense.


Entre as substâncias encontradas estão cinco agrotóxicos banidos pela Anvisa: benomil, carbofurano, haloxifobe metílico, metolacloro e molinato. A presença desses produtos proibidos na água potável revela falhas graves no controle e fiscalização do uso de pesticidas no estado.


Mapa da contaminação


O levantamento, baseado em análises de águas tratadas em laboratórios credenciados entre 2018 e 2023, mostra que a contaminação se espalha por todas as regiões de Santa Catarina, com intensidades diferentes:
Sul: 35 de 46 municípios (76,1%)
Grande Florianópolis: 12 de 21 municípios (57,1%)
Oeste: 63 de 118 municípios (53,5%)
Vale do Itajaí: 24 de 54 municípios (44,4%)
Norte: 11 de 26 municípios (42,3%)
Serra: 10 de 30 municípios (33,3%)


Vale do Itajaí: a região mais crítica


O Vale do Itajaí emergiu como uma das regiões mais preocupantes. Em Imbuia, foram encontrados 17 pesticidas diferentes entre 2022 e 2023, incluindo dois ativos proibidos desde 2019. Um fungicida foi detectado em concentração considerada elevada pelos especialistas.
Agroquímicos


Ituporanga apresentou um cenário igualmente grave: dos 23 ingredientes ativos encontrados, nove estavam acima de 1 micrograma por litro (µg/L), limite que pode indicar concentrações acima do permitido, dependendo da substância.


Enquanto outras localidades identificaram entre um e três tipos de resíduos, esses municípios do Vale do Itajaí revelam uma contaminação múltipla e complexa, indicando uso intensivo e descontrolado de agrotóxicos na região.

Além da água: contaminação total


O estudo revela que a poluição por agrotóxicos não se limita aos recursos hídricos. Solo e ar também foram afetados, criando um ciclo de contaminação que permeia todo o ambiente. Essa contaminação sistêmica significa que os agrotóxicos estão presentes em múltiplos compartimentos ambientais, aumentando a exposição humana e dos ecossistemas.


Os riscos para a saúde pública


A presença de agrotóxicos na água potável representa uma ameaça silenciosa à saúde pública. Essas substâncias podem causar diversos problemas de saúde, desde irritações agudas até doenças crônicas como câncer, problemas neurológicos, distúrbios hormonais e reprodutivos.
Geologia




A situação é ainda mais grave quando consideramos que cinco das substâncias encontradas são banidas no Brasil justamente por seus riscos elevados à saúde humana e ambiental. Sua presença na água potável indica não apenas contaminação ambiental, mas também possível uso ilegal desses produtos.


A resposta institucional


Diante dos resultados alarmantes, o MPSC, em parceria com a Diretoria de Vigilância Sanitária de Santa Catarina e a Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, planeja criar grupos de trabalho intersetoriais.


Esses grupos contarão com equipes de saúde, assistência social, agricultura e proteção ao consumidor, focando na conscientização sobre o uso adequado de agrotóxicos pela população. É um primeiro passo importante, mas que precisa ser acompanhado de medidas mais rigorosas de controle e fiscalização.


Um problema que exige ação urgente


Os dados revelados pelo MPSC expõem uma crise de saúde pública e ambiental que demanda ação imediata. A contaminação da água potável por agrotóxicos, especialmente substâncias banidas, não pode ser tratada como um problema menor ou de longo prazo
Abastecimento e tratamento de águas


É necessário:
Intensificar a fiscalização do uso de agrotóxicos
Implementar programas de monitoramento contínuo da qualidade da água
Investir em tecnologias de tratamento mais eficazes
Promover práticas agrícolas sustentáveis
Responsabilizar quem usa produtos banidos


O direito à água limpa


Ter acesso à água potável livre de contaminantes é um direito básico. Quando mais da metade de um estado bebe água contaminada por agrotóxicos – incluindo substâncias banidas – estamos diante de uma violação sistemática desse direito fundamental.


A situação de Santa Catarina serve como alerta para todo o país. É urgente repensar nosso modelo agrícola e implementar medidas efetivas para proteger nossos recursos hídricos e, consequentemente, nossa saúde.


Cada gole de água contaminada representa não apenas um risco individual, mas um sintoma de um sistema que priorizou a produtividade agrícola em detrimento da segurança ambiental e da saúde pública. É hora de mudar essa equação.

domingo, 19 de abril de 2026

Os efeitos da chuva ácida no meio ambiente e nas pessoas


    O dióxido de enxofre e os óxidos de nitrogênio não são gases de Efeito Estufa primários que contribuem para o aquecimento global, um dos principais efeitos das mudanças climáticas; na verdade, o dióxido de enxofre tem um efeito de resfriamento na atmosfera.


    Mas os óxidos de nitrogênio contribuem para a formação de ozônio troposférico, um importante poluente que pode ser prejudicial às pessoas. Ambos os gases causam preocupações ambientais e de saúde, pois podem se espalhar facilmente através da poluição do ar e da chuva ácida.


    A chuva ácida tem muitos efeitos ecológicos, especialmente em lagos, riachos, pântanos e outros ambientes aquáticos. A chuva ácida torna essas águas mais ácidas, o que resulta em maior absorção de alumínio do solo, que é transportado para lagos e riachos. Essa combinação torna as águas superficiais tóxicas para os animais aquáticos.


    Algumas espécies toleram melhor as águas ácidas do que outras. No entanto, em um ecossistema interconectado, o que afeta algumas espécies acaba afetando muitas outras ao longo da cadeia alimentar, incluindo espécies não aquáticas, como pássaros.


    A chuva ácida e a neblina também danificam as florestas, especialmente aquelas em altitudes mais elevadas. A deposição seca de ácido rouba do solo nutrientes essenciais, como cálcio, e faz com que o alumínio seja liberado no solo, o que dificulta a absorção de água pelas árvores. Os ácidos também prejudicam as folhas e agulhas das árvores.


    Os efeitos da chuva ácida, combinados com outros fatores de estresse ambiental, deixam as árvores e as plantas menos saudáveis e mais vulneráveis às baixas temperaturas, aos insetos e às doenças. Os poluentes também podem inibir a capacidade de reprodução das árvores.


    Alguns solos são mais capazes de neutralizar ácidos do que outros. Mas em áreas onde a “capacidade tampão” do solo é baixa, os efeitos nocivos da chuva ácida são muito maiores.


    Além disso, os depósitos ácidos danificam estruturas físicas, como edifícios de calcário e carros. E quando assume a forma de neblina inalável, a precipitação ácida pode causar problemas de saúde nas pessoas, incluindo irritação nos olhos e asma.


    “A chuva ácida tem muitos efeitos ecológicos, especialmente em lagos, riachos, pântanos e outros ambientes aquáticos.”

    Existem soluções para a chuva ácida? A resposta passa pelo uso de combustíveis fósseis


    A única maneira de combater a chuva ácida é reduzindo a liberação dos poluentes que a causam. Isso significa queimar menos combustíveis fósseis e estabelecer padrões de qualidade do ar.


    Leis que regulam os níveis de limpeza do ar, como a Lei do Ar Limpo de 1990, nos Estados Unidos, teve como alvo a chuva ácida, estabelecendo limites de poluição que ajudaram a reduzir as emissões de dióxido de enxofre em 92% entre 1990 e 2023.


    Essas tendências ajudaram as florestas de abetos vermelhos em estados norte-americanos como a Nova Inglaterra, por exemplo, e algumas populações de peixes, por exemplo, a se recuperarem dos danos causados pela chuva ácida. Mas a recuperação geral leva tempo e as preocupações com a revogação dos padrões de poluição do ar complicam a questão.


    Os problemas da chuva ácida persistirão enquanto o uso de combustíveis fósseis continuar. Países como a China, que dependem fortemente do carvão para a produção de eletricidade e aço, estão lutando contra esses efeitos. Um estudo descobriu que a chuva ácida na China pode ter contribuído para um deslizamento de terra mortal em 2009.


    A China está implementando controles para as emissões de dióxido de enxofre, que caíram 75% desde 2007. Mas as emissões da Índia aumentaram pela metade. No entanto, pesquisadores que estudam os efeitos de um mercado de emissões encontraram resultados promissores para reduzir potencialmente a chuva ácida no país do sul da Ásia.
    National Geographic

segunda-feira, 30 de março de 2026

Pesquisadores encontram agrotóxicos em águas ribeirinhas da Amazônia




Estudo analisou 21 praguicidas de uso comum no Brasil em área de proteção ambiental; amostras continham substância proibida na União Europeia

Grupos de risco, como crianças, idosos e gestantes, podem estar sujeitos a possíveis efeitos adversos da ingestão direta da água analisada

Texto: Carolina Castro*
Arte: Moisés Dorado


 
Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP detectaram 13 praguicidas em concentrações consideráveis em amostras de águas urbanas e de comunidades ribeirinhas. O material foi coletado em uma área de proteção ambiental, na Bacia Amazônica. Ao todo, a equipe analisou a presença de 21 agrotóxicos de uso comum por produtores brasileiros.



Segundo a pesquisa publicada na revista científica Environmental Research, o composto mais detectado foi o inseticida fenitrotion, com uma taxa de detecção de 78%, seguido da cipermetrina, com 63%. Outro destaque foi o fipronil, encontrado acima dos limites em até 33% das amostras; este praguicida foi banido da União Europeia e países de outros continentes devido a sua alta toxicidade ambiental (principalmente às abelhas) e preocupação com a saúde humana.



Foto: Cedida pelos pesquisadores
Em contrapartida, 18% das amostras analisadas foram consideradas “limpas”, ou seja, comparadas às outras, elas apresentaram apenas um composto detectado. Segundo os pesquisadores, isso não as isenta de riscos ao ambiente e aos seres humanos. “É importante ressaltar que a área em que o estudo foi aplicado é habitada por diferentes comunidades ribeirinhas da Amazônia. É por isso que nós também avaliamos o risco, não cancerígeno, desses indivíduos desenvolverem algum efeito tóxico”, afirma Gabriel Neves Cezarette, responsável pelo estudo.


Segundo o pesquisador, o estudo utilizou diversos parâmetros na quantificação dos riscos à exposição desses agentes intoxicantes. No caso da concentração de praguicidas na água, usaram a dose de referência (limite aceitável para o consumo humano) do guia da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e também o índice da massa corporal de um humano adulto. Apesar de não terem identificado riscos das concentrações de praguicidas para o consumo de água pela população local, Cezarette lembra que os testes não levaram em consideração grupos de risco como as crianças, os idosos e as gestantes, por exemplo. Essa população não foi avaliada e pode estar sujeita a possíveis efeitos adversos quando expostos aos mesmos compostos químicos.


Gabriel Neves Cezarette – Foto: Arquivo pessoal


Para além da ingestão direta da água, outras formas de consumo podem aumentar esse risco. “É importante ressaltar que neste caso nós avaliamos somente uma fonte de exposição. Os indivíduos provavelmente também estão expostos a esses mesmos pesticidas através de outras fontes como a alimentação”, lembra o pesquisador.

Uso amplo e controverso de agrotóxicos


Para controlar, prevenir ou exterminar pragas da agricultura, os praguicidas são amplamente utilizados em lavouras em todo o mundo. No Brasil, 719,5 mil toneladas de venenos contra pestes foram utilizados em 2021, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o que coloca o País como líder no uso de agrotóxicos.

O excesso de praguicidas, também conhecidos como agrotóxicos, pode resultar em perda de biodiversidade, aumento da resistência de pragas-alvo e danos à saúde humana. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2023, a agricultura da região Norte tem como principais produtos a soja e o milho. Embora os pesticidas utilizados nessas plantações sejam aplicados no solo, eles podem ser transportados por longas distâncias através de fenômenos que ocorrem durante o ciclo ambiental, como a evaporação dos compostos, escoamento para águas superficiais de rios e lagos, ou infiltração no solo, atingindo aquíferos.


Além disso, os diversos rios da região amazônica são fundamentais no transporte do escoamento agrícola, incluindo resíduos de pesticidas. Como mostra a pesquisa, eles estão se tornando depósitos dessas substâncias que se acumulam e podem gerar reações adversas em conjunto tanto para o meio ambiente quanto para a população.

Com a falta de dados sobre essas substâncias na Floresta Amazônica brasileira, pesquisadores da FCFRP coletaram amostras de águas de dois rios da região, o Rio Tapajós e o Rio Amazonas. Ao todo foram 27 pontos de coleta próximos à cidade de Santarém, no Pará, em uma área de proteção ambiental em que o uso de praguicidas em plantações está proibido. As águas, com origem em outros rios, podem carregar essas substâncias por longas distâncias, avalia a professora Marília Cristina Oliveira Souza, umas das orientadoras do estudo, sobre a contaminação dos rios estudados.

Marília Cristina Oliveira Souza – Foto: Arquivo pessoal


“O uso de pesticidas é frequentemente controverso porque, apesar da sua capacidade de melhorar a produção de alimentos, a maioria desses compostos são resistentes à degradação e podem bioacumular no ambiente e biomagnificar [aumentar sua concentração] na cadeia alimentar”, afirma a professora Marília.

Na pesquisa, 21 pesticidas de uso comum pelos produtores brasileiros foram analisados, incluindo herbicidas, produtos destinados ao controle de plantas indesejadas, como a trazina e 24D, e cinco classes diferentes de inseticidas, das quais fazem parte organofosforados, carbamatos, piretroides, neonicotinoides e fipronil.

Quanto ao fipronil, um dos pesticidas mais detectados no estudo – e que está banido em toda a União Europeia e em outros países pela alta toxicidade -, Gabriel Cezarette lembra que os impactos não são apenas ambientais, mas também econômicos. O interesse de exportar um produto que foi tratado com “fipronil ou qualquer outro pesticida de uso proibido no exterior pode ter a exportação vetada”.


Bioinsumos x pesticidas


Em dezembro de 2024, o Governo Federal sancionou a Lei 15.070 que dispõe sobre a produção, a importação, a exportação, o registro, a comercialização, o uso, entre outros aspectos relacionados a bioinsumos. Ao destacar a importância da legislação para o desenvolvimento sustentável brasileiro, Cezarette alerta para o fato da origem natural não isentar os bioinsumos de apresentar algum efeito tóxico. Ao contrário, é também “necessário monitorá-los tanto na produção quanto posteriormente, no ambiente”.

O pesquisador informa que, diferentemente dos pesticidas sintéticos, os bioinsumos são produtos e tecnologias de origem biológica utilizados na agricultura para melhorar a produtividade e a sustentabilidade. Incluem, por exemplo, microrganismos, extratos vegetais, biofertilizantes, biodefensivos e bioestimulantes, que atuam tanto no controle de pragas e doenças quanto na nutrição do solo e melhoria do desenvolvimento das plantas.

Apesar das ressalvas, tanto Cezarette quanto a professora Marília concordam que os bioinsumos são alternativas mais sustentáveis para as lavouras. “O Brasil pode ser um dos maiores produtores agrícolas do mundo e tem grande potencial para liderar a adoção de bioinsumos, reduzindo os impactos ambientais e aumentando a competitividade global”, diz a professora.

Os resultados deste estudo integram a pesquisa de doutorado de Gabriel Neves Cezarette, que trabalha sob orientação do professor Fernando Barbosa Júnior e da equipe de pesquisadores orientados pela professora Marília Cristina Oliveira Souza, ambos da FCFRP.

O artigo Levels and health risk assessment of twenty-one current-use pesticides in urban and riverside waters of the Brazilian Amazon Basin está disponível neste link.

Mais informações: mcosouza@usp.br, com a professora Marília Cristina Oliveira Souza

*Estagiária sob supervisão de Rita Stella
Jornal da USP

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Brasil gasta milhões em saúde por falta de saneamento


O Brasil tem 12,46 casos de internação por doenças relacionados à água contaminada a cada 10 mil habitantes, com um custo de aproximadamente de R$ 99 milhões aos cofres públicos


Estação de Tratamento de Esgoto – Foto: Fernando Stankuns/Visual Hunt – CC



No último episódio em celebração ao Dia Mundial da Água, em 22 de março, a Rádio USP apresenta uma análise do potencial desperdiçado pelo Brasil ao não capitalizar recursos financeiros com o aproveitamento dos esgotos sanitários, enquanto despende milhões no tratamento de doenças decorrentes da carência de saneamento básico.

A incidência de internações no Brasil por doenças relacionadas à água contaminada, devido à falta de tratamento adequado, atingiu a marca de 12,46 casos para cada 10 mil habitantes, resultando em um custo aproximado de R$ 99 milhões aos cofres públicos, conforme dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus). Esses números, embora referentes a 2017, destacam o significativo impacto econômico provocado pela ausência de universalização do saneamento básico no País, que se traduz na falta de acesso à água potável encanada por 32 milhões de brasileiros e na ausência de sistemas de coleta e tratamento de esgoto para mais de 92 milhões de pessoas.

Giovana Tommaso – Foto: Reprodução / Acolhe FZEA

A professora Giovana Tommaso, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP em Pirassununga, lamenta que o índice de tratamento de esgotos em relação à quantidade coletada tenha diminuído entre 2015 e 2018, devido ao aumento na coleta ser maior do que no tratamento. Ela enfatiza que, embora não se possa generalizar, mantendo os investimentos atuais, a universalização da coleta poderia ser alcançada por volta de 2030, enquanto a universalização do tratamento só seria possível em torno de 2060.

O Brasil continua enfrentando altos custos para corrigir os problemas decorrentes da falta de saneamento básico universalizado, evidenciando a falta de compreensão das autoridades brasileiras sobre a necessidade urgente de resolver essa questão. Segundo a professora, os investimentos em saneamento e pesquisas são insuficientes para resolver esse problema grave, tanto em termos de saúde pública quanto ambiental.

Para a professora, é essencial que os representantes no poder público sejam indivíduos sérios, comprometidos em abordar de forma adequada a questão dos esgotos sanitários, que é de interesse público, estabelecendo um cronograma mais viável. Ela ressalta que não basta apenas discursar sobre a necessidade de atender às demandas da Organização das Nações Unidas (ONU), que são legítimas, mas é crucial compreender nossas próprias peculiaridades e necessidades locais.
Transformar prejuízo em lucro

Neste contexto, o Brasil perde uma oportunidade valiosa ao não utilizar a matéria orgânica proveniente dos esgotos domésticos e agroindustriais para gerar lucro em vez de prejuízo. Giovana ressalta a importância dessa matéria orgânica, destacando seu potencial na produção de biogás. Em grandes estações, o biogás pode ser convertido em energia elétrica e integrado à rede de distribuição, enquanto em instalações menores, mesmo quando não é economicamente viável, pode ser empregado como fonte de calor para desinfetar subprodutos como os lodos. Giovana também menciona a possibilidade de distribuição do biogás para uso na cocção, devido ao seu alto poder calorífico.

Quanto às águas residuais ou esgotos agroindustriais, há amplas oportunidades de reaproveitamento. Um exemplo, compartilhado pela professora, é a produção de ácidos orgânicos provenientes do tratamento de esgotos industriais concentrados, os quais podem ser usados na construção de bioplásticos. Esses processos, conforme destacado por Giovana, não só agregam valor ao produto final da estação de tratamento de águas residuais como também promovem uma abordagem mais sustentável.

Ao concluir, a professora enfatiza a importância de adotar medidas corretivas para mitigar os danos já causados, ao mesmo tempo em que instiga ações regenerativas em relação ao meio ambiente. “Cuidar da água, elemento que permeia todas as formas de vida, é condição primordial para que nossa existência seja garantida.”

Por: Rose Talamone e Ferraz Jr


Jornal da USP

Estudo investiga o destino de pesticidas e microplásticos nos recursos hídricos


Para Antonio Carlos Silva Costa Teixeira, esses compostos são capazes de provocar efeitos indesejados à saúde dos ecossistemas aquáticos

A persistência de pesticidas na água vai depender muito das condições ambientais específicas da localidade de uso – Foto: Freepik


Um estudo analisa o destino ambiental de poluentes emergentes em águas superficiais. A pesquisa aborda um problema crescente e importante da presença de pesticidas e microplásticos na água. Segundo o professor Antonio Carlos Silva Costa Teixeira, do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP e orientador da tese, o estudo é importante para fornecer dados a órgãos públicos e empresas do meio ambiente para repensarem a proposição legal desses compostos na água e seu monitoramento.


Antonio Carlos Silva Costa Teixeira – Foto: Lattes


O estudo se dedicou ao entendimento dos impactos tanto dos pesticidas quanto dos microplásticos presentes nas águas superficiais, como lagoas, rios, reservatórios de abastecimento e a região costeira. “Esses compostos podem causar efeitos tóxicos, que normalmente são efeitos crônicos que são observados na biota (algas, microcrustáceos, peixes, entre outros) e, eventualmente, também podem provocar desregulação hormonal e endócrina de diversos organismos. Isso pode gerar problemas, por exemplo, associados à reprodução. Se a gente for considerar o tamanho desse problema, a gente pode dizer que existe uma categoria muito ampla, já conhecida, de compostos em diferentes faixas de concentração, presentes nas águas, que são capazes de provocar esses efeitos. Agora, se a gente for pensar, no caso da saúde humana, os impactos ainda são pouco conhecidos. O que preocupa, porque a gente deve considerar não só o uso da água, mas também efeitos como bioacumulação, biomagnificação de diferentes poluentes.”

A pesquisa foi dividida em duas partes, como explica Ádila de Oliveira Sampaio Dantas, doutora do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP. “Nós avaliamos, na primeira parte do trabalho, os pesticidas que são frequentemente detectados nos rios reservatórios, como no caso do metomil no rio Paranapanema, e da metribuzin e da ciromazina, que são outros dois pesticidas, no rio Araguaia. Já na segunda parte do nosso trabalho, nós avaliamos o papel dos microplásticos nesse cenário. Investigamos se eles absorvem esses contaminantes e como eles envelhecem ao serem expostos à luz. Nós também analisamos se esses microplásticos podem gerar radicais livres ambientalmente persistentes, que têm uma persistência maior de dias a horas e se podem participar dessas reações de degradação do próprio material”, diz Ádila.
Conclusões

Ela ainda comenta as conclusões do projeto: ”Nós observamos que a persistência desses pesticidas na água vai depender muito das condições ambientais específicas da localidade de uso. Em alguns casos, a biodegradação foi o principal mecanismo de remoção desses contaminantes, mas os processos fotoquímicos, principalmente os processos fotoquímicos induzidos pela luz solar e com essas espécies reativas, tiveram uma contribuição significativa. Já em relação aos microplásticos, os resultados mostraram que eles não são apenas partículas inertes no meio ambiente. Quando expostos à luz e processos oxidativos, eles sofrem operações químicas, eles podem formar alguns grupos ali que nós chamamos de grupos oxigenados na superfície da molécula, podendo, sim, gerar esses radicais livres, ambientalmente resistentes, que afetam a microbiota. Além disso, nós verificamos que, após o envelhecimento com luz, os microplásticos aumentam a sua capacidade de absorver esses contaminantes”.

Teixeira finaliza acrescentando sobre a interação da pesquisa com outras linhas. “Agora essa pesquisa está também relacionada a uma outra linha de pesquisa da nossa equipe, que diz respeito ao desenvolvimento de tecnologias avançadas e mais eficientes para tratamento de efluentes da indústria, efluentes hospitalares e efluentes da agroindústria também, no caso específico dos pesticidas, e também tecnologias mais eficientes para o tratamento de água de abastecimento.”


Jornal da USP

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Poluição plástica contamina quase 50% dos ambientes aquáticos do planeta



foto: Naja Bertolt Jensen/unsplash


Bruna Akamatsu



Estudo mostra que mesmo em zonas protegidas, a poluição plástica em ambientes aquáticos cresce com o desenvolvimento econômico; bitucas de cigarro estão também entre os principais contaminantes.

Uma nova síntese global conduzida por pesquisadores da UNIFESP revelou que 46% dos ambientes aquáticos monitorados, incluindo rios, praias, estuários e manguezais, estão classificados como “sujos” ou “extremamente sujos”. Os dados foram publicados na revista científica Journal of Hazardous Materials e baseiam-se em 10 anos de estudos revisados entre 2013 e 2023, avaliados com o índice internacional Clean-Coast Index (CCI), que mede a densidade de resíduos sólidos em áreas costeiras.

O levantamento revelou uma composição homogênea do lixo: plásticos representam 68% dos resíduos encontrados, seguidos pelas bitucas de cigarro, que somam 11% e contêm mais de 150 substâncias tóxicas que ameaçam a vida aquática. Essa predominância de plástico e cigarro reflete um cenário preocupante de poluição plástica generalizada, independentemente de fatores culturais, econômicos ou geográficos.

Bitucas de cigarro são parte expressiva da poluição plástica nas praias e liberam substâncias tóxicas nocivas aos ecossistemas costeiros. Foto: iStock.


No Brasil, que lidera em número de monitoramentos no período, cerca de 30% dos ambientes avaliados foram considerados contaminados. Um exemplo crítico é o rio dos Bugres, na Baixada Santista (SP), identificado como o segundo mais poluído por microplásticos do mundo, um retrato grave da poluição plástica que atinge as áreas urbanas.

Considerado um dos mais contaminados por microplásticos no mundo, o rio dos Bugres revela a gravidade da poluição plástica nos cursos d’água brasileiros. Foto: Danilo Verpa/Folhapress



A pesquisa também confirmou o papel fundamental das áreas de proteção ambiental na redução da contaminação, essas zonas apresentam até sete vezes menos resíduos. Em 445 áreas protegidas analisadas em 52 países, metade foi classificada como “limpa” ou “muito limpa”.

Por outro lado, os pesquisadores observaram que, mesmo dentro de áreas protegidas, a poluição tende a crescer nas fases iniciais de desenvolvimento econômico. Segundo os autores, isso reforça a urgência de investimentos em gestão, fiscalização e infraestrutura ambiental, especialmente em regiões em crescimento. Controlar a poluição plástica e de outros resíduos sólidos nesse contexto exige ações que combinem proteção territorial com governança eficiente.

Os resultados fornecem evidências inéditas para subsidiar políticas ambientais e embasar negociações internacionais, como o Tratado Global do Plástico e o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal.


Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.
Portal Brasil Amazônia Agora

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A natureza dá a solução


O novo Relatório Mundial da ONU sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos defende a adoção de métodos naturais para melhorar o gerenciamento do uso da água. Algumas dessas soluções já mostram economia de recursos e aumento de produtividade


Zonas úmidas cobrem apenas cerca de 2,6% da superfície do planeta, mas têm impacto direto na qualidade da água (Foto: Konradlew)


As soluções baseadas na natureza podem ter um papel importante na melhora do abastecimento e da qualidade da água e na redução do impacto dos desastres naturais, segundo a edição de 2018 do Relatório Mundial da ONU sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, “Soluções baseadas na natureza para a gestão da água”. O estudo, apresentado em março por Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco, e Gilbert Houngbo, diretor do UN Water (ONU Água, em tradução livre), no 8º Fórum Mundial da Água, em Brasília, propõe que reservatórios, canais de irrigação e estações de tratamento de água não sejam os únicos instrumentos de gestão hídrica à disposição.

Em 1986, o estado do Rajastão (Índia) viveu uma de suas piores secas. Nos anos seguintes, uma ONG uniu-se às comunidades locais para definir estruturas de coleta de água e regenerar solos e florestas na região. Com a iniciativa, houve aumento de 30% na cobertura florestal, de alguns metros nos níveis das águas subterrâneas e de produtividade das terras aráveis.

Tais medidas são exemplos de soluções baseadas na natureza (SbN) defendidas na mais recente edição do relatório da ONU. O novo relatório reconhece a água não apenas como um elemento isolado, mas como parte de um processo natural complexo que envolve evaporação, precipitação e absorção da água pelo solo. A presença e a extensão da cobertura vegetal – como pastagens, zonas úmidas e florestas – influenciam o ciclo da água e podem representar o foco de ações para a melhoria da quantida­de e da qualidade da água disponível.

A chamada infraestrutura “verde”, em oposição à tradicional infraestrutura “cinza”, concentra-se em preservar as funções dos ecossistemas, sejam naturais ou artificiais, e na engenharia ambiental, em vez da engenharia civil, para melhorar a gestão dos recursos hídricos. A infraestrutura verde apresenta vários usos na agricultura, de longe o maior consumidor de água. Contribuindo para o desenvolvimento de sistemas de irrigação mais efetivos e econômicos, por exemplo, a infraestrutura verde pode reduzir as pressões sobre o uso da terra, limitando a poluição, a erosão do solo e as necessidades hídricas.
Vantagens múltiplas

Desse modo, o Sistema de Intensificação do Arroz, inicialmente desenvolvido em Madagascar, ajuda a restaurar o funcionamento hidrológico e ecológico dos solos, em vez de usar novas variedades de plantio ou produtos químicos. Esse sistema propicia uma economia de 25% a 50% na necessidade hídrica e de 80% a 90% em sementes, enquanto aumenta a produção de 25% a 50%, dependendo da região na qual está implantado.

A produção agrícola mundial poderia crescer cerca de 20% se fossem usadas práticas mais verdes de gestão da água. Um estudo citado pelo relatório avaliou projetos de desenvolvimento agrícola em 57 países de baixa renda e descobriu que o uso mais eficiente da água, aliado à redução do uso de pesticidas e a melhorias na cobertura do solo, elevou o rendimento das colheitas em 79%.
No árido Rajastão, ações para regenerar solos e florestas elevaram o nível das águas subterrâneas (Foto: Tonyja44)

Soluções verdes também mostram grande potencial em áreas urbanas. Além de “paredes verdes” e jardins nos terraços, as opções incluem medidas para reciclar e coletar água, reservatórios para recarga de águas subterrâ­neas e proteção de bacias hidrográficas que abastecem áreas urbanas. A cidade de Nova York tem protegido suas três maiores bacias desde o fim dos anos 1990. Dispondo do maior abastecimento de água não filtrada dos Estados Unidos, a metrópole agora poupa mais de US$ 300 milhões por ano em tratamento de água e custos de manutenção.

Confrontados pela necessidade cada vez maior de água, países e cidades têm demonstrado interesse crescente por soluções verdes. A China iniciou recentemente o projeto Cidade Esponja, para melhorar a disponibilidade de água em núcleos urbanos. Até 2020, serão construídas 16 cidades-esponja pilotos no país. A meta é reciclar 70% da água da chuva por meio de uma permeação maior do solo, por retenção e armazenamento, e pela purificação da água e restauração de zonas úmidas adjacentes.
Impacto direto

As zonas úmidas cobrem apenas cerca de 2,6% da superfície da Terra, mas têm um impacto direto na qualidade da água, filtrando substâncias tóxicas, de pesticidas a descargas industriais e da mineração. Existem evidências de que essas áreas, sozinhas, podem remover­ de 20% a 60% dos metais presentes na água e reter de 80% a 90% dos sedimentos de escoamento. Alguns países chegaram a criar zonas úmidas para tratar águas residuais industriais. Nos últimos anos, a Ucrânia tem utilizado zonas úmidas artificiais para filtrar produtos farmacêuticos de águas residuais.

Mas os ecossistemas, sozinhos, não conseguem executar 100% das funções de tratamento da água. Eles não filtram todos os tipos de substâncias tóxicas despejadas na água, e suas capacidades têm limites. Existem pontos críticos além dos quais os impactos negativos da carga de poluentes em um ecossistema se tornam irreversíveis. Vem daí a necessidade de se reconhecer os limites existentes e gerenciar os ecossistemas de maneira adequada. As zonas úmidas também agem como barreiras naturais que absorvem e captam água da chuva, reduzindo a erosão do solo e os impactos de inundações e outros desastres naturais. Com a mudança climática, prevê-se um aumento da frequência e da intensidade dos desastres naturais.

Alguns países já começaram a se precaver. O Chile anunciou medidas destinadas a proteger suas zonas úmidas litorâneas após o tsunami de 2010. O estado de Louisiana, no sul dos EUA, criou a Autoridade de Proteção e Restauração Costeira depois da passagem do furacão Katrina (2005), cuja devastação foi ampliada pela degradação das zonas úmidas no delta do rio Mississípi.

Entretanto, o emprego de soluções baseadas na natureza ainda é secundário, e quase todos os investimentos são canalizados para projetos de infraestrutura cinza. A fim de satisfazer a crescente demanda por água, no entanto, infraestruturas verdes parecem ser uma solução promissora, complementando abordagens tradicionais. Os autores do relatório da Unesco sugerem um maior equilíbrio entre as duas, sobretudo considerando que as soluções baseadas na natureza estão mais alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável adotados pela ONU em 2015.


Revista Planeta 

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Como o rio poluído pela mineração há 20 anos voltou a ser o lar de peixes e patos


Jim Robbins
Em Montana (EUA)


Janie Osborne / The New York Times

Foram necessárias duas décadas para limpar a maior parte do Silver Bow Creek, o rio poluído durante um século de mineração

Os primeiros indícios de ouro foram encontrados aqui, em 1864, em um riacho que ganhou o nome de Silver Bow. A descoberta se transformou em uma corrida de ouro desenfreada e, na década de 1860, inúmeros mineiros vieram para o córrego minúsculo em busca de suas riquezas.

Mas Butte nasceu do "útero de cobre", como escreveu um poeta, um veio muito mais rico. Depois que milhares de quilômetros de túneis foram dinamitados e perfurados, uma mina gigante foi escavada perto da cabeceira do riacho.


(Biblioteca Pública Butte-Silver Bow/The New York Times

Foto da Mina de Cobre Anaconda em Butte, Montana, em 1900Ao longo dos anos, o córrego acabou ficando extremamente poluído: os resíduos da mineração foram despejados por fábricas poluentes que trabalhavam o minério, e o riacho teve seu curso alterado, além de ser aproveitado para satisfazer as demandas industriais; uma grande inundação, em 1908, levou toneladas de detritos por toda a extensão do córrego; o esgoto não tratado foi nele despejado até a década de 1960. A maior parta da vida que existia no córrego e ao longo de suas margens foi dizimada. Ao lado do Silver Bow, ossos do gado adquiriram uma tonalidade quase azul-esverdeada por causa dos altos níveis de cobre na água.

"Minha vida toda ouvi as pessoas avisarem para a gente não chegar perto do Silver Bow", contou Ellen Crain, diretora do Arquivo Público do Silver Bow em Butte, que narra a história da mineração local.

Porém, nas últimas duas décadas, grande parte do córrego foi meticulosamente reconstruída e restaurada, com a remoção de mais de um milhão de metros cúbicos de solo e rocha contaminados, a um custo de cerca de US$ 150 milhões (cerca de R$ 587 milhões).

Agora só pouco mais de três quilômetros do riacho não estão recuperados, incluindo um trecho que atravessa bairros desta cidade. No final de maio, depois de oito anos de sigilo em torno da limpeza, determinado pelo tribunal, muitos segredos foram revelados, e a Agência de Proteção Ambiental (EPA) divulgou seu plano para terminar a empreitada.

Uma parcela será desviada, desta vez com metas ecológicas, mas não há planos para restaurar o último quilômetro do Silver Bow, que corre por alguns bairros, o que gerou mais preocupação nesta cidade de 34 mil habitantes.

"Quero ver um Silver Bow limpo e restaurado serpenteando pela cidade. Não só queremos e precisamos de um córrego limpo, mas temos direito a ele", disse Fritz Daily, ex-deputado estadual que já trabalhou nas minas e que agora é chefe da Coalizão Nascente do Riacho Silver Bow.

A prospecção de minérios da chamada "colina mais rica da Terra" durou mais de um século. O cobre retirado daqui eletrificou a nação e forneceu material para a guerra, transformando a Anaconda Copper Co. em uma empresa poderosa de Montana, que fazia o que bem entendia.

Com o declínio da mineração, a companhia foi comprada pela Atlantic Richfield Co, que logo fechou a mina e se envolveu com o maior fundo de restauração ecológica dos Estados Unidos para lidar com as áreas tóxicas espalhadas pelo oeste de Montana. Entre elas está a mina de cobre gigante da Anaconda, o solo contaminado em torno da cidade de Butte, o cavernoso Fosso Berkeley, o rio Clark Fork de quase 200 quilômetros e a Represa Milltown, já removida, e o Silver Bow, um afluente desse rio.


Janie Osborne / The New York Times
O poço de Berkeley, onde o cobre era minerado e que atualmente contém 50 bilhões de galões de água contaminada. Espera-se que a água, uma vez tratada, possa ser a "cabeceira" para parte do rio Silver Bow CreekEsse último já teve cerca de 40 quilômetros de extensão, cruzando a Divisão Continental, onde um pequeno fio de água se juntava aos riachos Yankee Doodle e Dixie, ambos sendo prospectados por mineiros de lados opostos na guerra civil. Cerca de 38 quilômetros do riacho ao sul de Butte, chegando até o ponto em que encontra o rio Clark Fork e o rio Columbia, foram restaurados.



Ele está muito mais limpo, mas nunca voltará a ser o que já foi. Nos melhores trechos, há cerca de 200 peixes pescáveis a cada 1,6 km, enquanto que em córregos semelhantes existem mil.

Porém, Butte ama seu Silver Bow recuperado. Em uma recente manhã cinzenta, os patos nadavam em uma área do córrego e os peixes pequenos eram visíveis. Os visitantes contam com trilhas para caminhadas e mesas de piquenique convidativas.

"Se há 20 anos alguém tivesse me dito que eu estaria pescando truta aqui, eu teria aceitado a aposta", disse Matt Vincent, ex-executivo do governo local e hoje consultor que trabalha na limpeza por duas décadas.


Janie Osborne / The New York Times
Água retirada do rio Silver Bow Creek, que se tornou azul brilhante devido à contaminação por cobreO plano anunciado recentemente visa a porção do Silver Bow que corre através do Cânion Slag, cujas paredes são feitas de resíduos de mineração, e que será desviado para um novo canal longe dos solos tóxicos. O plano também exige a limpeza de centenas de milhares de metros cúbicos de resíduos enterrados ao longo do curso do riacho.

Isso é um alívio para muitos que temiam que as negociações confidenciais entre o estado, a EPA e autoridades da Atlantic Richfield fossem deixar grandes quantidades de resíduos, ou de minério, no chão onde foram despejados pelas empresas. Muitos simplesmente não confiam na ciência que descobriu que deixá-los no lugar é uma alternativa segura. Na verdade, alguns resquícios enterrados liberavam uma água contaminada azulada no riacho recuperado. Eles serão desenterrados e levados nos próximos meses para uma propriedade de uma empresa mineradora daqui.

Mas ainda há a preocupação com o fato de que não existe um plano para recuperar o trecho final do córrego. Em um estado famoso por rios límpidos de trutas e pelo filme "Nada é Para Sempre", aqueles que defendem a limpeza do último pedaço a veem como uma forma de transformar Butte de um dos maiores locais do fundo de recuperação ecológica do país em algo mais lisonjeiro.

O trecho superior do Silver Bow, a leste do centro de Butte, tem um longo caminho a percorrer. Ele é uma sombra do que costumava ser, parecendo pouco mais que uma vala indistinta. Até dois anos atrás, era oficialmente chamado de "Metro Storm Drain" (ralo de tempestades da cidade), até que Daily e outros venceram uma batalha jurídica de quatro anos para que fosse renomeado Silver Bow, fazendo com que o estado fosse obrigado a restaurá-lo.

Qual seria o valor de um novo riacho? O preço para a limpeza está agora em torno de US$ 5 milhões (cerca de R$ 19 milhões) para cada quilômetro do córrego.

Segundo Daily, um regato limpo e a remoção de rejeitos ajudaria Butte a reduzir seu estigma tóxico, e poderia simbolizar um novo começo. "Em eventos esportivos, os times da cidade são insultados com gritos de 'água suja', e é difícil recrutar profissionais de saúde para o maior complexo de recuperação ecológica do país. Ainda há muito a ser feito", afirmou.

Jon Sesso, coordenador do projeto Butte Silver Bow, disse que, embora não haja nenhum plano para um novo riacho, ele espera que isso ocorra em alguns anos, assim que os resíduos nas proximidades forem removidos. "É complicado. Não há nascente, não há água com que você possa contar. É tudo plano feito uma panqueca de leste a oeste pelo corredor, e não dá para mudar a topografia", por isso o riacho não pode fluir, e não há nascentes porque elas foram isoladas.

Mas existe uma fonte de água que talvez possa ser garantida: o Fosso Berkeley, orifício de quase dois quilômetros de diâmetro ao lado de Butte, de onde o cobre era extraído.

Desde que a Atlantic Richfield desligou as bombas que mantinham o fosso gigante seco para a mineração, em 1982, ele está sendo preenchido com uma mistura de águas subterrâneas. Em 2016, o poço chegou às manchetes quando milhares de gansos migratórios exaustos pousaram nele e morreram ao beber sua água ácida.

Quando uma nova usina do tratamento for concluída, aproximadamente 30 milhões de litros de água potável serão bombeados dos 230 bilhões de litros do poço. Espera-se que essa se torne a nova "nascente" da última milha do Silver Bow.

Pode dar certo. A água tóxica no fosso contaminará o lençol freático se continuar a enchê-lo, por isso deve ser retirada e tratada perpetuamente para evitar que chegue a esse ponto. A Atlantic Richfield criou um fundo para manter a usina de tratamento para sempre.

Daily disse que ele e outros vão continuar lutando para que o riacho passe através de Butte. "Estamos em uma encruzilhada. Se não houver a limpeza do córrego, dos resíduos e da água no fosso, esta comunidade vai fracassar econômica, ambiental e socialmente."
The New York Times

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Baleia é encontrada morta com 29 quilos de plástico em seu estômago


Estima-se que cerca de oito milhões de toneladas de plástico adentrem nos oceanos todos os anos

BALEIA DA ESPÉCIE CACHALOTE ENCALHADA NA PRAIA DE MÚRCIA, NO SUL DA ESPANHA (FOTO: REPRODUÇÃO/ TWITTER (@ESPNATURALESMUR))

No início de fevereiro, uma baleia da espécie cachalote (conhecida por ser um dos maiores cetáceos do mundo) foi encontrada encalhada e morta na costa de Múrcia, cidade ao sul da Espanha.


Esse fato por si só já é bastante triste, porém, após uma autópsia do animal, que media dez metros, a história ficou ainda pior. Quando um grupo de especialistas do Centro de Recuperação de Vida Selvagem El Valle, na Espanha abriu o estômago do mamífero, foi encontrado o equivalente a 29 quilos de sacos plásticos – desses que utilizamos para ir ao mercado –, um galão de plástico e diversos pedaços de cordas e redes.

Após uma longa análise, os especialistas concluíram que a baleia havia morrido porque ela não conseguia expelir todo o plástico que havia engolido. A principal teoria é que esses materiais bloquearam o sistema digestivo do animal, causando uma infecção no abdômen (conhecida por peritonite) e desencadeando na morte do mamífero.

Estima-se que cerca de oito milhões de toneladas de plástico adentrem nos oceanos todos os anos. 

“A presença de plásticos nos mares e oceanos é uma das principais ameaças para a conservação da vida selvagem em todo o mundo, visto que muitos animais ficam presos em lixos ou ingerem grandes quantidades de plástico, o que lhes leva à morte”, afirmou porta-voz do meio ambiente do governo de Múrcia.

Recentemente, a fundação The Ocean Cleanup divulgou um estudo em que afirmou ter aproximadamente 79 mil toneladas de restos de plástico permeando o Oceano Pacífico. Para se ter uma noção, essa quantidade de material equivaleria a três vezes o tamanho da França.
PEDAÇOS DE PLÁSTICO QUE FORAM ENCONTRADOS DENTRO DO ESTÔMAGO DA BALEIA APÓS AUTÓPSIA (FOTO: REPRODUÇÃO/ TWITTER (@ESPNATURALESMUR))

Estima-se que no ano de 2050 teremos mais plástico do que peixes em nossos oceanos.

É por isso que histórias com destinos tão tristes como o dessa cachalote são comuns. Há outros tantos exemplos de baleias que aparecem encalhadas em praias com seus estômagos repletos de plástico – vale ressaltar que o plástico pode também conter substâncias tóxicas tal como os metais pesados.

Em 2017, o documentário Blue Planet II, protagonizado pelo naturalista David Attenborough, trouxe uma cena em que uma baleia aparece morta após a poluição por plástico (confira a cena no vídeo abaixo). “Ao menos que o fluxo de plástico no oceano seja reduzido, a vida marinha será intoxicada por esses materiais por muitos séculos que ainda virão”, afirmou Attenborough. 

Um dado positivo diante toda essa triste situação é que que estão surgindo medidas para a redução da utilização de sacolas plásticas descartáveis. Por exemplo, a cobrança por saquinhos em mercados na Inglaterra reduziu em 80% o uso desses materiais. Nesse mesmo sentido, vale a pena apostar em ecobags e sacolas de plástico reutilizáveis.
Revista Galileu

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Poluição humana atinge as regiões mais profundas do oceano


Anfípodas, que vivem a 10 mil metros de profundidade, apresentam níveis elevados de poluentes

Nem mesmo as profundezas dos oceanos, consideradas as áreas mais intocadas do planeta, estão livres de influência humana. Pesquisadores do Reino Unido identificaram níveis elevados de poluentes orgânicos usados por décadas nas atividades industriais em crustáceos capturados nas regiões mais distantes da superfície. Usando armadilhas submergíveis, eles coletaram amostras de anfípodas, crustáceos semelhantes a camarões, a profundidades que variaram de 7 mil metros (m) a 10 mil m em duas áreas do oceano Pacífico: a fossa de Marianas, ao norte, próximo às Filipinas, e a fossa de Kermadec, no sul, na vizinhança da Nova Zelândia. Essas duas zonas abissais se estendem por centenas de quilômetros e estão entre as mais profundas e menos exploradas da Terra – a de Marianas tem 10.994 m de profundidade e a de Kermadec, 10.047 m. Ao analisar a composição química dos anfípodas, Alan Jamieson, da Universidade de Newcastle, Inglaterra, e seus colaboradores detectaram níveis elevados de dois produtos químicos: os bifenilpoliclorados, compostos bastantes estáveis, tóxicos e pouco inflamáveis, usados por décadas em fluidos de refrigeração; e os éteres difenil-polibromados, empregados como retardador da propagação de chamas em tintas, tecidos e materiais da indústria automobilística e aeronáutica. Anfípodas da fossa de Marianas apresentavam concentrações desses poluentes ambientais mais elevadas do que as dos crustáceos de Kermadec e, em ambos os casos, superiores às de regiões costeiras consideradas limpas (Nature Ecology and Evolution, 13 de fevereiro). Entre os anfípodas de Marianas, o nível de bifenilpoliclorados foi 50 vezes superior ao registrado em caranguejos do rio Liaohe, um dos mais poluídos da China. Os dados, segundo o pesquisador, indicam que as águas profundas e superficiais são altamente conectadas. 
Revista FAPESP

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Mercúrio - Em nome do ouro

Às margens do rio e da lei, o garimpo de ouro flerta historicamente com a clandestinidade. Em iniciativa pioneira, Amazonas estabelece normas estaduais para regulamentar o ofício. A decisão, entretanto, incita questionamentos, sobretudo quanto ao uso do mercúrio.

  Henrique Kugler


A recente alta no preço do ouro parece motivar no Brasil uma renovada sede mineradora. As leis que regem a atividade no país são várias, mas não têm dado conta de proteger garimpeiros, meio ambiente e sociedade. (foto: Dieter Hawlan/ iStockphoto)


A saga do garimpeiro já foi enredo de contos, cobiça e violência. De conflitos de terra a pecados ambientais, histórias de garimpagem têm quase sempre um coadjuvante em comum: o mercúrio – um dos metais pesados mais tóxicos para a saúde humana.

Para o cientista, é um elemento químico de 86 prótons. Mas, para o garimpeiro, é mais do que isso: é o líquido prateado responsável pela alquimia da sobrevivência. Explica-se: como agulhas em um palheiro, os minúsculos fragmentos de ouro ficam aleatoriamente espalhados pelo cascalho arenoso que o minerador retira do subsolo ou do leito dos rios. A esse material bruto é adicionado mercúrio. Líquido à temperatura ambiente – é o único metal conhecido com tal propriedade –, ele agrega os pequeníssimos grãos dourados e forma uma liga metálica. Essa mistura é então aquecida; o mercúrio evapora; e assim o ouro puro chega às mãos do minerador. Tecnologia deveras rudimentar.

Mas, onipresente na mineração artesanal de ouro, o mercúrio tem preocupado a comunidade científica desde fins da década de 1960, quando se intensificaram os estudos sobre a toxicologia desse metal. “Danos irreversíveis ao sistema nervoso, inclusive o comprometimento de áreas do cerebelo associadas a funções motoras, auditivas e visuais, são alguns dos males que o mercúrio costuma causar em seres humanos”, diz o biólogo Wanderley Bastos, da Universidade Federal de Rondônia (Unir). “Uma vez lançado no ecossistema, o mercúrio foge totalmente de nosso controle; e ainda não temos tecnologias para frear os processos biogeoquímicos de sua disseminação.”
  
O mercúrio é um dos metais pesados mais tóxicos para a saúde humana. No garimpo do ouro, ele é usado para agregar os grãos dourados que ficam espalhados pelo cascalho arenoso retirado do subsolo ou do leito dos rios. (foto: Flickr/ p.Gordon – CC BY 2.0)
Garimpo revisitado

A relação entre mercúrio e garimpo é tema clássico para polêmicas ambientais. E a última delas – que reavivou um debate adormecido – veio à tona em maio de 2012, quando a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (SDS) publicou uma resolução que causou celeuma entre cientistas e legisladores.

Trata-se da Resolução 11/2012. Na contramão da história, o documento regulamenta o uso de mercúrio no garimpo artesanal – quando o mundo todo se movimenta para banir ou impor restrições severas no emprego desse perigoso elemento químico.

Delicado impasse. Pois há na iniciativa da SDS uma boa intenção – pôr ordem na casa e disciplinar o garimpo no estado. Pelos rincões da Amazônia, afinal, a lavra do ouro é uma labuta que historicamente flerta com a clandestinidade. Há gerações o valioso metal dourado é via de sobrevivência para famílias que habitam as remotas paragens da planície amazônica. Mesmo assim, os estados da região jamais se engajaram na tarefa de legislar sobre a atividade. “O garimpo, portanto, acontece há décadas sem qualquer tipo de controle legal ou critério”, contextualiza o procurador da República Leonardo Macedo, do Ministério Público Federal (MPF).
Macedo: “O garimpo, portanto, acontece há décadas sem qualquer tipo de controle legal ou critério”

Eis que entra em cena a Resolução 11/2012. Com ela, o Amazonas tornou-se o primeiro estado do país a rezar uma legislação específica sobre garimpo. Nada mal, em princípio. Mas o texto desagradou a muitos. A comunidade científica não tardou a se manifestar; a sociedade civil fez-se ouvir; e o próprio MPF não deixou barato.


Lei manca

“Regularizar a atividade garimpeira e retirá-la da clandestinidade é algo louvável, mas isso não pode acontecer à custa da liberação do despejo de mercúrio nos rios e no ambiente”, lê-se na carta aberta assinada pelo físico Ennio Candotti, diretor do Museu da Amazônia (Musa), em Manaus (AM), e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. “Desejamos alertá-lo, senhor governador, que o mercúrio é um metal extremamente tóxico, fato que não é mencionado na resolução.”

O documento foi acusado de ser permissivo – além de sugerir procedimentos de segurança pouco específicos e de duvidosa eficácia. Em linhas gerais, ele afirma que as regiões de garimpo devem ser previamente sujeitas a estudos de impacto ambiental; a origem do mercúrio deve ser comprovada; as áreas de lavra devem ser monitoradas por técnicos do estado; os rejeitos do mercúrio devem ser encaminhados à sede municipal, onde serão devidamente acondicionados; e o garimpeiro deve, obrigatoriamente, usar um equipamento chamado retorta (ou cadinho).
Candotti: “Regularizar a atividade garimpeira e retirá-la da clandestinidade é algo louvável, mas isso não pode acontecer à custa da liberação do despejo de mercúrio nos rios e no ambiente”

É um aparato metálico assemelhado a um forno, que aquece o amálgama e separa o ouro de forma segura, pois, sendo um sistema fechado, evita que o vapor de mercúrio seja emitido à atmosfera ou inalado pelo trabalhador. A retorta permite ainda reaproveitar o mercúrio que seria despejado no solo ou nas águas.

À primeira vista, a resolução soa bem razoável. Mas o preocupante não é o que o texto diz; e sim o que ele não diz. “Pois estão ausentes os mecanismos adequados de controle ambiental”, critica Macedo. Um exemplo: “Apesar de obrigar o garimpeiro a utilizar retorta, o texto ignora o processo de certificação necessário para garantir a eficiência do equipamento”, alerta o procurador.

Além disso, a resolução não proíbe o garimpo em áreas já degradadas ou em territórios onde a presença de mercúrio é naturalmente alta (ver ‘Natural ou antrópico’). “Diante das críticas, o estado do Amazonas abriu-se para o diálogo”, conta o procurador. Semestre agitado para os amazonenses: foram organizados debates, encontros e palestras para discutir o polêmico texto. “Assim conseguimos alterar a Resolução 11/2012 e substituí-la pela Resolução 14/2012”, atualmente em vigor.
Natural ou antrópico
Nos solos e rios amazônicos, que parcela do mercúrio é oriunda de atividades antrópicas e que parcela advém de condições naturais? Questão em aberto. Por suas características físicas, nossa floresta equatorial estoca quantidades naturalmente elevadas do metal – quatro vezes mais do que solos de regiões temperadas, segundo Wanderley Bastos, mesmo em áreas distantes de garimpo ou indústria. Erupções vulcânicas várias, ao longo da história geológica, emitiram mercúrio à atmosfera. Esse material foi se depositando nos solos. E a floresta amazônica, se intacta, estoca enorme quantidade mercurial. Se destruída, porém, o mercúrio ali armazenado é fatalmente carreado aos cursos d’água. “Uma vez no sistema aquático, não mais importa se ele é de origem antrópica ou natural”, diz Bastos. Nos rios ele passará da forma inorgânica para a forma orgânica, contaminando a cadeia alimentar. Sabe-se que, nos últimos 150 anos, a quantidade de mercúrio na atmosfera aumentou em mais de 300%, devido sobretudo às atividades industriais relacionadas à produção de carvão mineral.

Menos pior

O novo texto proíbe garimpo em regiões com altas concentrações de matéria orgânica – caso das áreas banhadas pelo rio Negro, por exemplo. Pois ambientes assim favorecem a reação que transforma o mercúrio metálico (Hg) em metilmercúrio (CH3Hg+) – a forma química mais tóxica do elemento. Uma vez transformado, o mercúrio é rapidamente absorvido pelos organismos vivos e incorporado à cadeia alimentar. “Acumula-se nos tecidos dos peixes e, cedo ou tarde, chega ao homem”, explica Bastos.

O novo texto prevê rigoroso controle do comércio de mercúrio metálico. E exige a certificação das retortas pelo Instituto de Pesos e Medidas (Ipem). Mas há aí um singelo entrave: “Não adianta o garimpeiro simplesmente ter a retorta, ainda que certificada; ele precisa usá-la”, enfatiza Macedo. “Em visitas a regiões de garimpo no Amazonas, averiguamos que várias balsas tinham, sim, esse equipamento. Mas estavam novos, isto é, jamais tinham sido utilizados.”
Forsberg: “A resolução é relativamente boa. Minha dúvida: sua implementação poderá mesmo ser fiscalizada?”

Se os pessimistas estiverem certos, a Resolução 14/2012 tem tudo para ser uma lei para amazonense ver. Exatamente por isso ela passará por um período de testes. “Serão três anos de avaliação”, prevê Macedo. “Se, ao longo desse período, o MPF entender que danos irreversíveis continuam sendo causados aos ecossistemas, nada impede que trabalhemos para impugnar a resolução.”

Por outro lado, se o novo texto funcionar a contento – o que requer otimismo panglossiano – ele será um marco histórico para o garimpo amazônico. “Pois será a primeira vez que o Brasil logrará êxito na regulamentação de uma atividade historicamente exercida à margem da lei”, diz Macedo, com ceticismo no tom de voz.

“A resolução é relativamente boa”, comenta o ecólogo Bruce Forsberg, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que participou das discussões e da reelaboração do texto. “Minha dúvida: sua implementação poderá mesmo ser fiscalizada?”


Garimpo na lei?
Enquanto cientistas e legisladores duelam, os afeiçoados pelos aspectos burocráticos do imbróglio certamente se interessarão pelo cenário jurídico em que se insere o debate. Além da legislação estadual recentemente aprovada no Amazonas, o Brasil tem, engavetado, um eclético cardápio de leis sobre garimpo e mineração. Eis as três principais:

Decreto 97.507/1989
Portaria 435/1989, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama)

Resolução 237/1997, do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) São documentos de abrangência federal que estabelecem diretrizes gerais sobre o trabalho da garimpagem. “Mas a legislação federal é ‘genérica’ e requer regulamentações específicas em âmbito estadual”, explica o procurador da República Leonardo Macedo. Segundo o Decreto 97.507/1989, “é vedado o uso de mercúrio na atividade de extração de ouro, exceto em atividade licenciada pelo órgão ambiental competente”. Em outras palavras, usar mercúrio é proibido – a não ser que o estado defina suas próprias regras. Daí a importância da nova resolução do Amazonas: ela traz especificidades e detalhamentos para complementar o conjunto de leis federais em vigor.

Dados aterradores

Enquanto leis e burocracias duelam, muitas regiões da Amazônia já apresentam quadros preocupantes de contaminação por mercúrio. Ao longo do rio Madeira, que passa por Porto Velho (RO) e deságua no rio Amazonas, a presença desse metal pesado no organismo dos ribeirinhos vem sendo monitorada há décadas.

Os habitantes de São Sebastião do Tapuru (AM) têm em média 62 mg/g de metilmercúrio no organismo – quando o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de apenas 7 mg/g. De municípios ao longo do curso das mesmas águas não vieram melhores notícias. Em Três Casas (AM), são 33,07 mg/g; Vista Nova (AM), 25,69 mg/g; Carará (AM), 18,13 mg/g; Santa Rosa (RO), 13,99 mg/g; Santo Antônio do Pau Queimado (RO), 14,69 mg/g; e por aí vai.

“A média de concentração mercurial nas populações isoladas do rio Madeira é de 15 partes por milhão, isto é, o dobro do valor considerado normal pela OMS”, preocupa-se Bastos.


Veja os dados completos no mapa interativo
‘Contaminação por mercúrio’


Mercúrio e saúde

Existem duas maneiras de se medir a quantidade de mercúrio no organismo humano. Se o vapor do metal é inalado, sua presença será detectada na urina. Mas, se ingerido a partir de peixes ou demais alimentos contaminados, será aferido em amostras de fio de cabelo.

“São quadros toxicológicos diferentes”, detalha Bastos. O mercúrio inorgânico – isto é, o vapor do metal inalado durante a queima do amálgama para separar o ouro – provoca danos aos rins e ao sistema respiratório. “Apesar de garimpeiros ainda sofrerem desses problemas, eles já foram muito mais comuns nas décadas passadas”, lembra o pesquisador da Unir.
“Na Amazônia, quanto mais isolada a população, maior seu consumo de peixe”

Hoje, pesquisadores preocupam-se especialmente com a forma orgânica, o metilmercúrio, que praticamente não é excretada. É um processo lento e cumulativo: o elemento permanece no organismo pelo resto da vida. “Por isso a contaminação por mercúrio é um grave problema de saúde pública há mais de 50 anos”, escreve a bióloga Sandra Hacon, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). “Retardo mental, paralisia cerebral, surdez, cegueira e disartria em indivíduos expostos ainda no útero materno; e danos sensoriais e motores graves em indivíduos expostos na idade adulta” são alguns exemplos de males elencados pela bióloga da Fiocruz.

“Na Amazônia, quanto mais isolada a população, maior seu consumo de peixe”, diz Bastos. No Brasil, a média nacional é de 60 a 90 g diárias. Mas cálculos da equipe da Unir constataram que, em algumas regiões amazônicas, o consumo de pescados per capita chega a 406 g ao dia. “Desconheço alguma população no mundo que apresente uma média tão elevada”, surpreende-se o pesquisador. 
 
O mercúrio ingerido a partir de peixes, consumidos em grande quantidade pelas comunidades amazônicas, permanece no organismo pelo resto da vida, podendo acarretar danos sensoriais e motores graves em indivíduos expostos. (Angela Peres, Secom-Acre/ Flickr – CC BY 2.0)

“Mas há aqui uma interrogação”, comenta Bastos. “Mesmo sendo o mercúrio um elemento neurotóxico, algumas populações não apresentam os efeitos clássicos da toxicologia mercurial”. Pesquisadores acreditam que outros componentes da dieta dos ribeirinhos possam atenuar os danos esperados. “Uma hipótese é que o selênio, presente na castanha-do-pará e frutas locais, evite quadros de contaminação por mercúrio”, arrisca o biólogo da Unir, lembrando que essa é ainda uma questão em aberto.


Mapa da mina

No Brasil, a produção industrial de ouro – a extração em minas de grande porte – concentra-se nos estados de Minas Gerais, Goiás e Bahia. Mas, ao falarmos da extração artesanal, a geografia é outra. Mato Grosso, Pará e Rondônia são os principais estados onde se concentra o garimpo de ouro. Destaque para as bacias dos rios Tapajós e Madeira.

Importante: nas grandes indústrias, a obtenção do ouro não utiliza mercúrio. Mas sim cianeto. Esse composto químico – formado por ligações entre átomos de carbono e nitrogênio – é diluído em uma solução aquosa, que, despejada sobre o minério bruto, provoca reações químicas capazes de diluir os fragmentos de ouro. O metal é então incorporado à solução líquida, e, em seguida, separado por um processo eletrolítico.

Há quem cogite o uso de cianeto – como alternativa ao mercúrio – também no garimpo artesanal. Substituição questionável. “É um processo bastante complexo que, além de exigir cálculos apurados, requer muitos cuidados; e o cianeto também é altamente tóxico”, comenta o cientista político Armin Mathis, da Universidade Federal do Pará (UFPA), que há tempos dedica-se ao estudo das relações sociais no garimpo. Cenário que nos remete a uma legítima dúvida: quantas pessoas, atualmente, trabalham no garimpo de ouro?

“Não existem dados oficiais sobre o número de pessoas ligadas à mineração de ouro”, informou o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). “E os números extraoficiais são bastante divergentes.” O que se sabe é que existem, hoje, 853 registros de Permissão de Lavra Garimpeira (PLG) – documento que permite a extração de ouro em garimpo. E, no momento, o DNPM analisa mais de 16 mil pedidos de permissões desse tipo – solicitadas por empresas ou indivíduos desejosos de tentar a sorte, ou a sobrevivência, na lavra do ouro. 
 
Queima do ouro. De acordo com o Departamento Nacional de Produção Mineral, não existem dados oficiais sobre o número de pessoas ligadas à mineração de ouro no Brasil. Pesquisador da UFPA estima que haja atualmente cerca de 20 mil pessoas trabalhando diretamente no garimpo. (foto: Marieke Heemskerk)

“Imagino que existam, hoje, algo em torno de 20 a 30 mil pessoas trabalhando diretamente com o garimpo”, estima Mathis. Sejam quais forem os números, é certo que estão aumentando. A recente e assombrosa alta no preço do ouro parece motivar uma sede mineradora sem precedentes na última década.


Alternativas

“Sou favorável à não utilização de mercúrio em qualquer processo, seja industrial ou artesanal”, defende Wanderley Bastos. “Quanto menos emissões de mercúrio, menos riscos para o ecossistema e os seres humanos.” Para alguns, entretanto, não há alternativas para substituir esse metal. Será? “Alternativas nós temos; mas nenhuma delas é de fácil implementação”, comenta o procurador Leonardo Macedo.
Macedo: “Alternativas nós temos; mas nenhuma delas é de fácil implementação”

“Existem técnicas gravimétricas”, lembra Bastos. São métodos que permitem ao garimpeiro separar o ouro do sedimento em uma espécie de mesa vibratória, que ao vibrar separa o cascalho, que é leve, do ouro, mais pesado. Impasse: essas mesas funcionam melhor em terrenos estáveis, e não nas balsas usadas para dragar o leito dos rios.

Apesar disso, há casos de sucesso. Em Humaitá (AM), a Cooperativa dos Garimpeiros da Amazônia (Coogam) já usa essa tecnologia em algumas balsas. “Os riscos ambientais são minimizados por se tratar de uma separação mecânica, e não química”, diz Geomário Leitão, gerente da cooperativa. “O governo poderia estimular estudos nessa direção”, sugere o biólogo da Unir. Mas, mesmo assim, problemas como erosão podem continuar.


Mercado e conspiração

A Organização das Nações Unidas (ONU) vem coordenando esforços para reduzir ou até restringir as vendas de mercúrio metálico no mundo. “Mas esses esforços vêm sendo frustrados, em parte, por um lobby bastante forte dos países em desenvolvimento; e o Brasil é um dos que lideram essa pressão”, alfineta Bruce Forsberg, do Inpa. “Mas, como sou gringo, não posso opinar muito”, brinca ele, que é estadunidense.

Forsberg diz que os maiores interessados em restringir uso e produção de mercúrio são os próprios Estados Unidos – que têm um belo estoque desse metal, estratégico para fins militares. “Se as minas de mercúrio ainda em operação, na China, na Rússia e na Espanha, encerrarem suas atividades, será um ótimo negócio para os norte-americanos, que terão domínio sobre esse mercado”, matuta o ecólogo do Inpa. Seriam, pois, os debates sobre mercúrio uma conspiratória estratégia geopolítica? “Depende do quão desconfiado você é”, ri Forsberg.

No território da diplomacia, entretanto, otimistas veem promissoras notícias. “O Brasil vem participando da preparação de um instrumento global juridicamente vinculante sobre mercúrio”, disse Letícia Reis de Carvalho, diretora do Departamento de Qualidade Ambiental, do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Em janeiro passado, representantes de 140 países se reuniram em Genebra (Suíça) para finalizar um documento que orientará políticas internacionais acerca da utilização de mercúrio em garimpo. Estamos falando da Convenção de Minamata – que entrará em vigor em outubro deste ano –, da qual o Brasil será provável signatário.
Carvalho: O governo acredita que formalizar a atividade, diminuir drasticamente a emissão e buscar alternativas propiciará resultados contra o uso indiscriminado do mercúrio no garimpo

A convenção fala em “taxas de redução”. Carvalho destaca alguns itens: o texto recomenda ações para eliminar processos de amalgamação de minério e queima a céu aberto; prevê formalização da atividade garimpeira e adoção de estratégias para reduzir a exposição ao mercúrio; e, é claro, incentiva estudos sobre alternativas aos métodos tradicionais da lavra garimpeira.

“Controlar o uso do mercúrio no garimpo artesanal de ouro é um desafio para o Brasil”, afirma Carvalho. “O governo acredita que formalizar a atividade, diminuir drasticamente a emissão e buscar alternativas propiciará resultados contra o uso indiscriminado desse metal no garimpo.” Mas, um momento... O que dizem, afinal, os próprios garimpeiros? “Algum dia o senhor imagina trabalhar sem mercúrio?”, perguntou Leonardo Macedo a um deles. “Não”, respondeu o velho homem. “Sou garimpeiro há 30 anos, e tanto meu pai quanto meu avô sempre usaram mercúrio. Foi sempre assim”

Henrique Kugler
Ciência Hoje/ RJ
Sugestões de leitura


S. Hacon e outros. Um panorama dos estudos sobre contaminação por mercúrio na Amazônia legal no período de 1990 a 2005. Geochimica Brasiliensis, v. 23, n° 1, 2009.
V. Moriyama. ‘Vila da ressaca: os restos de um sonho dourado’, O Eco, 14/03/2013.
Revista Ciência Hoje

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos