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quarta-feira, 29 de abril de 2026

O que são as zonas úmidas?


Existem três tipos destes ecossistemas essenciais e biodiversos. Conheça quais são eles.


Elefantes africanos cruzando a água na área de concessão de Chitabe, no Delta do Okavango, em Botsuana.



"As zonas úmidas são áreas de pântano, charco e turfa ou superfície coberta por água", define a quarta edição do Manual da Convenção sobre Zonas Úmidas ou Convenção de Ramsar.

De acordo com o documento que resume o que foi acordado no evento internacional "Dia Mundial das Zonas Úmidas 2022: Agir pelas Zonas Úmidas: Desafios e Oportunidades", organizado por Ramsar para celebrar a efeméride, o conceito de zonas úmidas poderia ser simplificado para "biodiversidade e ecossistemas essenciais".


Seguindo as definições oficiais do tratado internacional, as zonas úmidas podem ser de água salgada – incluindo áreas de água marinha cuja profundidade na maré baixa não exceda seis metros – ou água doce, interiores ou costeiras, naturais ou artificiais, permanentes ou temporárias. E, de acordo com esta classificação, podem ser estabelecidas as seguintes categorias:

• Água potável:

Inclui rios, lagos, lagoas, planícies aluviais, turfeiras, charcos e pântanos;

• Água salgada:

Compreendendo estuários, lodaçais, sapais, mangues, lagoas, recifes de coral, moluscos e recifes de crustáceos;

• Artificial:

Tanques de peixe, arrozais, reservatórios e salinas.

As 5 curiosidades sobre a Mata Atlântica que vão te surpreender



Você sabe quantos brasileiros vivem na região da Mata Atlântica? Descubra essa e outras curiosidades impactantes sobre um dos biomas mais importantes do Brasil.




Vista do Pico do Lopo, em Extrema, Minas Gerais. A 1780 metros de altitude, ele é um dos picos mais altos dentro da Mata Atlântica.
Foto de Juliana Stern


Uma grande beleza verde que abrange vários estados brasileiros, lar de inúmeras espécies animais e vegetais e, ao mesmo tempo, seriamente ameaçada pela ação humana.

Ao ler essa descrição, é natural pensar que ela trata da Amazônia – mas, na verdade, também compreende a Mata Atlântica. Ainda que menos comentada do que a floresta amazônica atualmente, a Mata Atlântica também é vital para o equilíbrio ambiental do Brasil e se espalha por boa parte dos estados do nordeste e do centro-sul do país.

A National Geographic separou cinco curiosidades que mostram a grandiosidade e a importância desse bioma composto por formações florestais nativas e ecossistemas associados (como manguezais e campos de altitude, por exemplo). Confira:

1. A Mata Atlântica está presente em 17 estados do Brasil

“O bioma ocupa 1,1 milhão de km² em 17 estados do território brasileiro, estendendo-se por grande parte da costa do país”, explica o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil.

A Mata Atlântica está presente nos seguintes estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí.

2. Na região da Mata Atlântica vivem cerca de 145 milhões de brasileiros

De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, 145 milhões de brasileiros vivem na região da Mata Atlântica – obviamente, não necessariamente em áreas de floresta, mas em estados e cidades que abrigam o bioma.

Dessa forma, a Mata Atlântica fornece serviços ecossistêmicos essenciais para a sobrevivência humana, tais como:
Regulação e equilíbrio climático
Produção de alimentos
Proteção de encostas
Fertilidade e proteção do solo
Madeira, fibras, óleos e matéria prima para remédios

3. Resta cerca de 10% da vegetação original da Mata Atlântica



Vegetação nativa da Mata Atlântica encontrada na Serra da Mantiqueira, na divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais.
Foto de Juliana Stern


Segundo a Agência de Notícias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), resta apenas cerca de 10% da vegetação original da Mata Atlântica.

A perda da vegetação se reflete também na diminuição da população de espécies nativas. Entre elas, os anfíbios, afetados pela destruição do habitat e a poluição ambiental.

“Desde o final do século 19, com base na coleta de dados de pesquisadores que trabalhavam em campo com anfíbios, foi registrada, ao longo de cerca de 130 anos, uma diminuição no número de indivíduos de populações de quase 15% das cerca de 700 espécies conhecidas de anuros [ordem que inclui sapos, rãs e pererecas] do bioma brasileiro”, informa a Agência Fapesp.

4. A Constituição Federal reconhece a Mata Atlântica como um patrimônio natural do Brasil

Promulgada em 1988, a Constituição Federal incluiu o bioma entre os patrimônios naturais do Brasil.

Em seu artigo 225, o texto da Constituição diz: “A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais”.

No ano de 2006, a Mata Atlântica ganhou uma lei específica (a lei nº 11.428) que estabelece regras sobre a utilização e conservação da sua vegetação nativa.

Um dos pontos definidos pela lei é a exploração econômica sustentável do bioma: para fazer o corte de determinadas espécies de árvores nativas, por exemplo, é necessária a autorização dos órgãos ambientais. No caso de vegetação primária (de grande diversidade biológica) que abranja espécies ameaçadas de extinção, o corte fica vedado pela legislação.

5. Cogumelos que brilham no escuro? Um dos segredos da Mata Atlântica

Na Reserva Betary, trecho de 60 hectares da Mata Atlântica localizado na cidade de Iporanga, no estado de São Paulo, é possível ver exemplares de Mycena lucentipes, uma das seis novas espécies de cogumelos bioluminescentes encontradas no bioma.

Durante o dia, esses fungos podem passar despercebidos, mas à noite eles emitem um brilho luminoso verde neon, como mostrado em reportagem da National Geographic de março de 2023.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Vegetação inteligente e riqueza cultural: a Caatinga que é muito mais que seca e escassez





A Caatinga nordestina é o único bioma exclusivamente brasileiro, com aproximadamente 380 espécies endêmicas – Foto: Andreia Bezerra de Araújo

Texto: Ivanir Ferreira

Arte: Beatriz Haddad*


A Caatinga cobre cerca de 11% do território brasileiro, incluindo todos os Estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais, e é o único bioma exclusivamente brasileiro, com aproximadamente 380 espécies endêmicas. No entanto, a região é vista como paisagem proscrita, renegada e frequentemente associada a rusticidade, escassez, seca e miserabilidade. Uma pesquisadora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP investigou os significados negativos atribuídos a esse bioma e propõe abordagens pedagógicas para promover uma visão mais positiva do semiárido brasileiro.

A partir de entrevistas, visitas ao sertão nordestino e acesso a bibliografia científica, jornais e obras literárias, a pesquisa encontrou indícios de que a desvalorização desse bioma pode estar associada a narrativas deturpadas difundidas pela mídia, obras literárias e ações governamentais. RI.CA.ATINGA: o semiárido clama pela valorização de sua riqueza é o título da tese defendida pela nordestina Andreia de Araújo. Há quase duas décadas morando em São Paulo, a arquiteta não esquece de suas raízes e deseja ver a riqueza do semiárido nordestino reconhecida.


A investigação começou por visitas às cidades nordestinas no Agreste Pernambucano – Bezerros, Caruaru e Gravatá – em busca de um entendimento da relação entre a região e as pessoas que nela viviam. A pesquisadora conversou com distintos atores da sociedade, usando uma abordagem fenomenológica em que “a construção de um olhar é feita a partir da imersão, com intenção aberta a todas as possibilidades, sem julgamento nem conceito prévio”. Entre os entrevistados, estavam o famoso xilogravurista J. Borges, um agente turístico e um casal de advogados. Alguns temas de pertencimento surgiram na conversa, como o laço emocional que eles tinham com a terra e com as pessoas, que as mantinham conectadas ao lugar. A valorização dos aspectos locais e relatos nostálgicos referenciavam imagens bucólicas na infância. “Os relatos encontrados contrariavam as narrativas que as mídias divulgavam sobre o povo nordestino”, diz.

Andreia Bezerra de Araújo


Em seguida, Andreia coletou depoimentos – de forma virtual, por conta da pandemia – em uma oficina montada por ela. O tema foi Visões das paisagens brasileiras, e atividade foi feita durante a Semana de Arquitetura e Urbanismo & Design. A proposta era investigar a percepção das pessoas (64% do Sudeste, 20% do Nordeste e 14% do Sul) sobre a Caatinga antes e depois de uma ação pedagógica que ela faria logo depois da oficina.

Inicialmente, foram apresentadas ao público imagens de diversas paisagens brasileiras, incluindo Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica, Campos Sulinos e Cerrado. As pessoas foram questionadas a respeito de impressões que tinham sobre essas regiões e os adjetivos que associavam a cada paisagem. Em relação à Caatinga, as respostas foram predominantemente negativas, com palavras como “morte”, “secura”, “aridez”, “deserto”, “tristeza”, “povo sofrido” sendo frequentemente mencionadas. “As imagens verdejantes, mesmo sendo da Caatinga, foram menos apontadas, ou sequer foram selecionadas pelos participantes”, conta a pesquisadora.

Vegetação inteligente


Em outra etapa, a pesquisadora ministrou ao público aulas sobre questões ecológicas, culturais e sociais relacionadas à Caatinga, buscando dissociar a paisagem do estigma de sofrimento e ressequido e promover a construção de uma nova percepção sobre a região.




Vegetação inteligente: flor e frutificação da Ceiba Glaziovii (barriguda) – Foto: Fernanda Kalina da Silva Monteiro via Biota Neotropica





Vegetação que armazena água da chuva em seu caule para sua autonomia e reprodução – Foto: Fernanda Kalina da Silva Monteiro via Biota Neotropica




O umbuzeiro da Caatinga (xiropódio) é capaz de armazenar água suficiente para sobreviver longos períodos de estiagem – Foto: Nilton de Brito/Embrapa



Entre os assuntos abordados, a arquiteta explorou características geomorfológicas como a história da formação do relevo e a sagacidade da vegetação local ao desenvolver estratégias de armazenamento de água e adaptações que minimizam perdas hídricas durante a seca. Andreia explicou que as espécies são inteligentes e se adaptam às altas temperaturas e à falta de água através de mecanismos de economia hídrica e regulagem de excesso de luz. Foram citados alguns exemplos da família de cactáceas: o xique-xique, o mandacaru e a coroa-de-frade, que armazenam água em seus tecidos, e o umbuzeiro, em suas raízes tuberosas. Outras vegetações mantêm suas folhas em paralelo aos raios solares, de forma que uma menor superfície fique exposta ao Sol. As árvores são de pequeno porte e os arbustos, de troncos retorcidos e com espinhos. Durante a seca, eles perdem as folhas como se estivessem mortos, mas bastam os primeiros pingos de chuva para tudo voltar à vida, reforçou a pesquisadora na atividade.

Defensora de processos educacionais como ferramentas de transformação social, a arquiteta aplicou um questionário aos participantes após a aula sobre o potencial paisagístico da região. “As pessoas demonstraram surpresa e admiração pelas descobertas”, afirma. Alguns relatos refletiram sentimentos de comoção e lamento, evidenciando que a abordagem pedagógica revelou uma falta de percepção sobre a Caatinga, o que limitava a apreciação de sua rica paisagem. Um participante comentou que sua visão sobre a região era influenciada por meios de comunicação, que reforçavam desigualdades regionais. Outro destacou que a oficina ampliou sua perspectiva sobre as paisagens brasileiras, especialmente a da Caatinga, que antes via apenas como árida. “Agora sei que esse bioma tem muito mais vida, fauna e flora do que o pensamento popular sugere”, concluiu.



Foto: reprodução da tese “Ri.ca.atinga: o semiárido clama pela valorização de sua riqueza”, com autoria de Andreia Bezerra de Araújo



Estereótipo do sertão nordestino


A pesquisadora investigou também artigos científicos, jornais e literatura para entender a construção da imagem coletiva do sertão ao longo do tempo. Ela explica que o imaginário coletivo é um complexo ideoafetivo inconsciente, onde associações de ideias e emoções influenciam práticas individuais e coletivas de um grupo social em relação a um fenômeno específico.

Andreia afirma que a mídia favorece uma imagem estereotipada do sertanejo. Em novelas, seriados e filmes, ele é retratado como um povo triste, sofredor e faminto, sempre com um visual rústico em tons de bege e terracota, similar aos retirantes descritos na literatura. Além disso, o sertanejo é muitas vezes associado à brutalidade, com tendências criminosas ou amorais – conforme estudos eugenistas antigos que ligavam o comportamento humano à morfologia corporal – e a fenômenos como o Cangaço.

Peça decorativa exposta na 20 FENEARTE. Foto: reprodução da tese "Ri.ca.atinga: o semiárido clama pela valorização de sua riqueza", com autoria de Andreia Bezerra de Araújo


Em análise de práticas de políticas públicas, Andreia constatou que os governantes do País quase sempre negligenciaram a região sertaneja, privilegiando outras áreas do Brasil, o que, em sua opinião, resultou em isolamento do Nordeste, sofrimento da população e domínio dos grandes latifundiários. Segundo a arquiteta, essa estética conveniente perpetuou as desigualdades na Caatinga e também foi reforçada por parte da literatura brasileira, como as obras de Euclides da Cunha, em Os Sertões, Graciliano Ramos, em Vidas Secas, e Raquel de Queiroz, em O Quinze, postura que foi combatida pelo cancioneiro popular Luiz Gonzaga, como faz questão de ressaltar.

Literatura: Os Sertões


Em trechos da obra de Euclides da Cunha Os Sertões, o escritor denomina o sertão como fronteira entre o moderno e o arcaico. “A descrição da paisagem passa a sensação de monotonia e imobilidade. O lugar é envolto por sentimentos de tristeza e morte. O sertanejo sofrido é retratado em sua peleja e determinação em seu cotidiano”, diz a pesquisadora.



… quadro tristonho de um horizonte monótono em que se esbate, uniforme, sem traço diversamente colorido, o pardo requeimado das caatingas […) localizadas em depressões, entre colinas nuas, envoltas pelos mandacarus despidos e tristes, como espectros de árvores […] o sertanejo, por mais escoteiro que siga, jamais deixa de levar uma pedra que calce as suas junturas vacilantes […] pequenas ondulações, todas da mesma foram e do mesmo modo dispostas, o viajante mais rápido tem a sensação de imobilidade. Patenteiam-se lhe, uniformes, os mesmos quadros, num horizonte invariável. (Cunha, 1909, p. 14)


Outro autor analisado pela pesquisa foi Graciliano Ramos, que é reconhecido por sua representação literária marcada por angústia e desolação. “Seus personagens desesperançados vivem em um mundo desprovido de amor e alegria”, diz ela.



“Ultimamente vivia esmorecido, mofino, porque as desgraças eram muitas […] necessário abandonar aqueles lugares amaldiçoados […] Fabiano (personagem principal de Vidas Secas) espiava a caatinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No céu azul, as últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre […] os mandacarus e os alastrados vestiam a campina, espinho, só espinho. Precisava fugir daquela vegetação inimiga. (Ramos, 2013 p. 116, 117, 120)


No entanto, outros ícones importantes da cultura brasileira, como Luiz Gonzaga e Ariano Suassuna, enaltecem o Nordeste e a cultura regional. Em uma de suas canções, Luiz Gonzaga ilustra a representatividade das grandes feiras – que foram responsáveis pelo surgimento e crescimento de algumas importantes capitais regionais, como Feira de Santana, Caruaru, Garanhuns, Mossoró, entre outras, abastecidas pelas produções vindas dos brejos (áreas úmidas e pantanosas).

 



Na canção A Feira de Caruaru, Luiz Gonzaga dizia: “A Feira de Caruaru faz gosto a gente ver, de tudo que há no mundo nela tem pra vender… Tem massa de mandioca, batata assada, tem ovo cru, banana, laranja e manga, batata-doce, queijo e caju, cenoura, jabuticaba, guiné, galinha, pato e peru. Tem bode, carneiro e porco, se duvidar isso é cururu. Tem bode, carneiro e porco, se duvidar isso é cururu”.

Na canção Luar do Sertão, Luiz Gonzaga celebrou a noite sertaneja: “Não há, ó gente, oh! Não, luar como esse do sertão…Oh que saudade do luar da minha terra. Lá na serra branquejando, folhas secas pelo chão. Este luar cá na cidade tão escuro não tem aquela saudade, do luar lá do sertão”.

A pesquisadora cita também o escritor modernista Mário de Andrade, que defendeu o semiárido nordestino em relatos de suas viagens ao Norte e Nordeste do Brasil, no final da década de 1920. Suas observações foram publicadas em crônicas, colunas e entrevistas no jornal Diário Nacional, onde atuava como redator, em janeiro de 1929.


“Vatapá, cavala em molho de coco, doces de comer pouco, deliciosos […] creme de camarão, casquinhas de caranguejos, o chouriço daqui é um doce, a canjica daqui inteiramente diversa da sulista … (Trecho das crônicas de Mário de Andrade, Diário Nacional, janeiro/1929).

“Chega um crono. Clarineta, violões, ganzá numa série deliciosa de samba, maxixes versos de origem pura […] coco […] No povo nordestino até o passo básico do Charleston, era usual antes da dança ianque aparecer […] a Rebeca está clara e enfim visível, mexidinho num ‘baiano’ (dança) monótono, mas admirável” … (Trecho das crônicas de Mário de Andrade, Diário Nacional/ janeiro/1929).

Depois, em seu retorno à capital paulista, Mário de Andrade concedeu entrevista ao Diário Nacional falando de suas impressões de viagem como os “três meses mais gostosos de minha vida...” (Diário Nacional, março/1929).


A arquiteta faz questão de enfatizar que não se trata de romantizar a dureza da vida no sertão, mas de viabilizar condições de vida mais pacíficas durante os períodos secos, desvinculando os sentimentos de sofrimento, sem que a aridez represente um fardo ou uma fonte de angústia. “Trata-se ainda de reivindicar o reconhecimento e valorização de toda riqueza que envolve a Caatinga e as paisagens semiáridas, tanto sob o ponto de vista ambiental, mas principalmente sob o aspecto cultural e social”, completa. O título RI.CA.ATINGA quer dizer que a caatinga é rica e viva, e seu povo, assim como sua vegetação, é resiliente e feliz.

O trabalho teve a orientação da professora Catharina Pinheiro Cordeiro dos Santos Lima, da FAU, e pode ser acessado neste link.

Mais informações: Andréia Maria Bezerra de Araújo, e-mail deia.m.bezerra@gmail.com ou arq.andreia.bezerra@gmail.com e Catharina Pinheiro Cordeiro dos Santos Lima, e-mail cathlima@usp.br

*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado
Jornal USP

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Bioma Caatinga



Hoje a lição vem das tribos tupis-guaranis, que já habitavam o Brasil muito antes da chegada dos colonizadores portugueses. Os índios deram nome a um dos principais biomas da região Nordeste do País: a Caatinga – caa quer dizer “mata”, e tinga quer dizer “branca”. A mata branca, que ocupa pouco mais de um décimo do território nacional, forma-se em regiões de clima árido e semiárido, onde as chuvas são escassas e as secas podem durar até nove meses.

Os solos do bioma Caatinga são rasos, pedregosos e pouco permeáveis. Assim, a maior parte da água das chuvas evapora, em vez de penetrar no chão. Por sua vez, os rios da região são, em sua maioria, temporários – ou seja, ficam cheios em determinadas épocas do ano e têm o leito seco nos outros meses. Com todas essas características, você pode estar pensando que nenhuma espécie vegetal ou animal escolheria como lar a Caatinga, não é? Pois se enganou!

Várias plantas e bichos acostumados a condições extremas fazem deste bioma a sua casa. No primeiro grupo, os arbustos são predominantes, e as espécies são adaptadas para sobreviver à falta de água. Por exemplo: algumas delas mantêm pequenas folhas, e outras ficam totalmente sem suas folhas durante o período da seca – dois tipos de adaptação que permitem às plantas perder menos água. As chamadas plantas “suculentas”, como cactos e bromélias, armazenam bastante água em seu interior e, assim, podem suportar a falta de chuva. Outras espécies, ainda, têm raízes tuberosas, ou seja, crescem debaixo da terra, e, como principal característica, têm grandes reservas de substâncias. Portanto, são capazes de guardar água e nutrientes: é o caso do umbuzeiro.

Além da flora, a fauna da Caatinga é também um verdadeiro desfile de animais especializados em enfrentar o clima seco. Vários répteis, como o teiú e calangos, e aves, como a asa-branca e a arara-maracanã-verdadeira, podem ser encontrados na região. Entre os mamíferos, os morcegos e os roedores são maioria.

O mocó, roedor dócil que chega aos 40 centímetros de comprimento, vive nas sombras de rochedos e de lajes de pedra, onde há mais umidade. O rato-bico-de-lacre aproveita arbustos e até abrigos de outros animais, como cupinzeiros e ninhos de passarinho, para se proteger do calor. Já o tatu-bola evita sair durante o dia e deixa para realizar suas atividades à noite, quando as temperaturas são mais frescas.

Os anfíbios, que geralmente preferem ambientes úmidos, também desenvolveram, no bioma Caatinga, “estratégias” para lidar com o clima árido. Alguns se enterram no solo durante os períodos secos e só saem após as primeiras chuvas, para se reproduzirem. Outros vivem abrigados em plantas, como a perereca-verde-pequena.

Algumas espécies vivem apenas nas poucas áreas de floresta que ainda existem na Caatinga – é o caso do macaco-guariba e do guigó-da-caatinga. Outras, como o jacaré-de-papo-amarelo, típico da região, vivem nas margens dos riachos, o que lhes garante água para sobreviver.

Apesar de rica, a fauna do bioma Caatinga vem sofrendo baixas – algumas espécies já foram extintas na natureza, como a ararinha-azul (os poucos exemplares vivem em cativeiro); outras estão em risco de extinção, como o tatu-bola, a onça-parda e o soldadinho-do-araripe. Além da caça, também o desmatamento contribui para isso, pois intensifica ainda mais a aridez do bioma.

Como muitas espécies só existem no bioma Caatinga, você já pode imaginar o quanto a sua preservação e conservação são fundamentais. Mas não é isso que está acontecendo: são poucas as iniciativas de conservação e, até agora, o bioma já perdeu quase metade de sua vegetação original. A extração de madeira, a criação de animais domésticos em áreas muito extensas, a agricultura e as queimadas têm prejudicado bastante a região, e, se nada for feito, será impossível recuperá-la. Isso seria uma pena, não acha?



Volte, ararinha-azul!






Infelizmente, esta bela espécie do bioma Caatinga desapareceu da natureza brasileira. Foi vista pela última vez em 2000! Disputada por colecionadores desde o século 19, a ararinha-azul enfrentou também a destruição de seu habitat e, hoje, existe apenas em cativeiro. Há, porém, esforços para reintroduzi-la na natureza – quem sabe, um dia, poderemos vê-la voando novamente?! 
EMBRAPA

Bioma Cerrado





O segundo maior bioma do Brasil é o Cerrado que cobre uma área de 2 milhões de km2, que corresponde a 204 milhões de hectares! Isso representa quase um quarto de toda a extensão territorial do país. Pra você ter uma ideia, um hectare, que mede 10.000 m2, equivale ao tamanho do gramado de um campo de futebol. Viu como é grande?

O bioma Cerrado é encontrado na parte mais central do País, incluindo os estados de Goiás, Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal. Mas com esse tamanho todo (mais de 200 milhões de campos de futebol!), ele está presente também em pequenas porções dos estados do Paraná, no sul do Brasil, e de Rondônia, na região Norte.

Lá, onde o bioma Amazônia é predominante, a gente ainda encontra áreas enormes de vegetação típica de Cerrado, nos estados do Amapá, Roraima, Amazonas e Pará.

Habitantes

Então, amiguinho e amiguinha, se vocês moram em um desses estados e no Distrito Federal, vocês podem fazer parte dos cerca de 46 milhões de habitantes que vivem na área coberta pelo bioma Cerrado. Mas saiba que a maior parte deles se concentra nas áreas metropolitanas das regiões Sudeste e Centro-Oeste.

O homem ocupa o Cerrado há mais de 11 mil anos. Os povos tradicionais do Cerrado são constituídos por uma variedade considerável de grupos com diferentes referências culturais. Atualmente, a área coberta por esse bioma abriga 95 territórios indígenas, 44 territórios quilombolas e 13 tipos de comunidades tradicionais não indígenas, que fornecem um testemunho vivo da rica tradição de convivência humana com a natureza. Juntos eles compõem os Povos do Cerrado que sabem cuidar e usar os recursos naturais de forma sustentável.

Povos e Comunidades Tradicionais são grupos culturalmente diferenciados que possuem formas próprias de organização social, ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição.

As comunidades indígenas estão aqui desde antes da vinda dos colonizadores. Os quilombolas são os descendentes dos negros que viveram nos Quilombos fundados por afrodescendentes que fugiam de seus "senhores" na triste época da escravidão... E até os dias atuais algumas destas comunidades ainda permanecem nestes locais preservando sua identidade cultural.

Algumas das comunidades tradicionais são mestiças e têm relação com o ambiente onde vivem. São eles: os geraizeiros (norte de Minas Gerais), geraizenses (Gerais de Balsas/MA), as quebradeiras de coco babaçu (Zonas dos Cocais/MA, PI e TO), os veredeiros (veredas do norte de Minas), varjeiros e ribeirinhos (ao longo dos rios São Francisco, Grande e Paraná), entre outros.

Biodiversidade

O Cerrado é a savana tropical mais rica do mundo, pois nele há cerca de 5% de toda a diversidade do planeta. O Cerrado abriga 30% dos diversos seres vivos identificados no nosso país.


Você sabe o que é flora e o que é fauna?

Então vamos ver: flora é o conjunto de espécies de plantas que se desenvolvem naturalmente numa região. E fauna é o conjunto de espécies de animais próprios de uma região. Fácil, né?

Em cada bioma, a gente encontra uma flora e uma fauna típicas, que, juntas, compõem a diversidade de plantas e a diversidade de animais nativos da região coberta por aquele bioma.

Agora vamos ver alguns números de espécies de cada grupo que os estudiosos já registraram, até o momento, para o bioma Cerrado.

São 262 espécies de répteis, das quais há:

158 espécies de serpentes;
74 de lagartos;
30 de cobras-cegas;
209 de anfíbios (como sapos, pererecas, rãs, etc);
800 de peixes;
856 de aves;
251 de mamíferos;

E tem mais! São conhecidas também:mais de 1.000 espécies de borboletas;
cerca de 10 mil de mariposas;
300 de formigas;
139 de vespas;
820 de abelhas;
140 gêneros de cupins.

Sobre a diversidade vegetal do bioma Cerrado, os cientistas sabem que sua flora é composta por 12.385 espécies de plantas. E 4.400 delas são endêmicas. Essa palavra é um pouco diferente, mas o significado é simples: endêmicas são as plantas que nasceram numa região e que são restritas a essa região. Como exemplo, o pequi, pau-terra, barbatimão, ipê, capim-dourado, arnica-do-cerrado, canela-de-ema.

A gente encontra três formações vegetacionais no Cerrado: a primeira é a Florestal, que se subdivide em Mata Ciliar, Mata de Galeria, Mata Seca e Cerradão. A segunda é a Savânica, e suas subdivisões são Cerrado Sentido Restrito, Parque de Cerrado, Palmeiral e Vereda. E a terceira formação vegetacional que existe nesse bioma é a Campestre, na qual a gente tem o Campo Limpo, o Campo Sujo e o Campo Rupestre.

Água


Na área coberta por esse bioma, a gente encontra muitas nascentes de rios. Por isso, o bioma Cerrado pode ser considerado como o berço das águas do Brasil, pois suas nascentes alimentam oito das 12 regiões hidrográficas do País, com destaque para três: as bacias dos rios Araguaia/Tocantins, do Rio São Francisco e do Rio Paraná. Isso porque é em seu território que a gente encontra as fontes de uma boa quantidade da água que banha essas bacias hidrográficas.


Clima

De clima tropical, com verão chuvoso e inverno seco, o bioma Cerrado tem como principal característica a ocorrência de duas estações: uma chuvosa (outubro a abril), quando caem mais de 90% das chuvas, e uma seca (maio a setembro), com ausência quase total de chuvas. As temperaturas médias anuais variam de 18 ºC a 27 ºC, sendo que a temperatura mínima pode chegar a 8 ºC e a máxima, a 34 ºC.

Geologia

A Geologia é a ciência que estuda a origem, a história, a vida, a estrutura, a composição da crosta terrestre e sua transformação e evolução no tempo. Alguns objetos dessa ciência são: as rochas, os minerais, os fenômenos e as formações naturais, como os vulcões, e outros elementos que influenciam na estrutura do nosso planeta.

As diversas paisagens no Cerrado são o resultado das formações geológicas que compõem uma geodiversidade formada por rochas de diversas composições e origens.

Essas rochas, do tipo sedimentares, metamórficas e magmáticas, têm idades diversas, pois começaram a se formar há milhões, e mesmo há bilhões de anos. Durante todo esse tempo, essas rochas estiveram expostas às intempéries, ou seja, sofreram os efeitos da exposição contínua a chuvas, ventos, calor extremo e a outros fenômenos e condições naturais próprias ao clima tropical. Essas ações contribuíram para a formação dos solos do bioma Cerrado e para as características que eles apresentam.


Solo

No bioma Cerrado, os solos, que são o resultado da ação conjunta do clima, material de origem (rochas), organismos, relevo e tempo, apresentam diferentes cores que vão de matizes do avermelhado, vermelho-amarelado, preto, cinza e até mosqueado. São solos relativamente planos, com várias profundidades, texturas, porosidades e com diferentes fertilidades.

A gente encontra uma flora nativa tão diversificada nos diferentes ambientes do Cerrado porque os solos desse bioma oferecem as condições necessárias para essa abundância.

Mas, do ponto de vista da agricultura, em condições naturais, esses solos não têm os alimentos de que as plantas agrícolas, como aquelas que servem de comida pra gente, precisam. Ele é pobre em nutrientes e isso faz com que esses solos, naturalmente, apresentam baixa fertilidade.

Esse contexto inspirou os cientistas a estudarem como mudar a condição de pobreza agrícola dos solos do Cerrado. Como resultado desse estudo, nas últimas décadas, foram criadas tecnologias capazes de transformar a região coberta por esse bioma numa área bastante produtiva para a agricultura e a pecuária brasileiras. Hoje, o Cerrado é referência em produtividade agrícola.

Embrapa

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Mudanças na vegetação moldaram temperaturas globais nos últimos 10 mil anos






Crédito: Unsplash/CC0 Public Domain



Siga o pólen. Registros da vida vegetal passada contam a história real das temperaturas globais, de acordo com a pesquisa de um cientista climático da Universidade de Washington em St. Louis (EUA). Temperaturas mais quentes trouxeram plantas – e depois vieram temperaturas ainda mais quentes, de acordo com novas simulações de modelos publicadas na revista Science Advances.

Alexander Thompson, pesquisador associado de pós-doutorado em ciências da terra e planetárias em Artes e Ciências da Universidade de Washington em St. Louis, atualizou as simulações de um importante modelo climático para refletir o papel da mudança da vegetação como um fator-chave das temperaturas globais nos últimos 10 mil anos.

Thompson há muito se preocupava com um problema com modelos de temperaturas atmosféricas da Terra desde a última era glacial. Muitas dessas simulações mostraram temperaturas subindo consistentemente ao longo do tempo. Mas os registros de variáveis climáticas contam uma história diferente. Muitas dessas fontes indicam um pico acentuado nas temperaturas globais que ocorreu entre 6 mil e 9 mil anos atrás.


Expansão subestimada

Thompson teve um palpite de que os modelos poderiam estar ignorando o papel das mudanças na vegetação em favor dos impactos das concentrações atmosféricas de dióxido de carbono ou da cobertura de gelo.


“Os registros de pólen sugerem uma grande expansão da vegetação durante esse período”, disse Thompson. “Mas os modelos anteriores mostram apenas uma quantidade limitada de crescimento da vegetação”, disse ele. “Então, embora algumas dessas outras simulações tenham incluído vegetação dinâmica, não foi uma mudança de vegetação suficiente para explicar o que os registros de pólen sugerem.”

Na realidade, as mudanças na cobertura vegetal foram significativas. No início do Holoceno, a época geológica atual, o deserto do Saara, na África, ficou mais verde do que hoje – era mais uma pastagem. Outras coberturas vegetais do hemisfério norte, incluindo as florestas de coníferas e caducifólias nas latitudes médias e o Ártico, também prosperaram.

Thompson pegou evidências de registros de pólen e projetou um conjunto de experimentos com um modelo climático conhecido como Community Earth System Model (CESM), um dos mais conceituados em uma ampla classe de tais modelos. Ele fez simulações para explicar uma série de mudanças na vegetação que não haviam sido consideradas anteriormente.


Interesse multidisciplinar

“A vegetação expandida durante o Holoceno aqueceu o globo em até 1,5 grau Fahrenheit [quase 1 grau Celsius]”, disse Thompson. “Nossas novas simulações se alinham de perto com variáveis paleoclimáticas. Portanto, é empolgante que possamos apontar a vegetação do hemisfério norte como um fator potencial que nos permite resolver o controverso enigma da temperatura do Holoceno.”

Compreender a escala e o tempo da mudança de temperatura ao longo do Holoceno é importante porque é um período da história recente, geologicamente falando. A ascensão da agricultura e da civilização humana ocorreu durante esse período, por isso muitos cientistas e historiadores de diferentes disciplinas estão interessados ​​em entender como o clima do início e do meio do Holoceno diferia dos dias atuais.

Thompson conduziu este trabalho de pesquisa como pós-graduando na Universidade de Michigan. Ele continua sua pesquisa no laboratório da cientista climática Bronwen Konecky na Universidade de Washington.

“No geral, nosso estudo enfatiza que a contabilização da mudança da vegetação é crítica”, disse Thompson. “As projeções para as mudanças climáticas futuras são mais propensas a produzir previsões mais confiáveis ​​se incluírem mudanças na vegetação.”
Revista Planeta

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Árvores baixam temperaturas do solo em cidades em até 12°C


Efeito foi observado em dados coletados por satélites referentes a quase 300 cidades europeias
26/11/2021


Árvores em cidade: efeito significativo em relação às temperaturas nos períodos mais quentes. Crédito: Pxfuel


Já se sabia que as árvores beneficiam os ambientes urbanos ao gerar áreas de sombra e baixar as temperaturas, mas quantificar isso não é muito fácil. Um estudo recente de pesquisadores suíços encontrou evidências que indicam que grupos de árvores podem reduzir as temperaturas da superfície nas cidades em até 12°C. Em seu artigo, publicado na revista Nature Communications, a equipe, do Instituto de Ciência Atmosférica e Climática do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), relata o que descobriu a partir da análise de imagens de satélite de centenas de cidades pela Europa e suas conclusões a esse respeito.

Como as cidades são normalmente mais quentes do que as áreas circundantes devido às grandes áreas cobertas com asfalto e cimento, que absorvem o calor, há um certo consenso quanto à ideia de que criar e ampliar espaços verdes nos núcleos urbanos ajuda a baixar as temperaturas do ar nas épocas mais quentes. O estudo suíço se concentrou em um aspecto um pouco diferente: eles investigaram os possíveis impactos da temperatura no solo em vez da temperatura do ar. Como a temperatura analisada está abaixo dos pés, e não ao redor, ela não é sentida de forma tão incisiva.
Revista Planeta

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Apenas três biomas ocorrem em terras brasileiras


 Felipe A. P. L. Costa

Examinando as terras emersas mais de perto, é possível observar certas afinidades entre blocos de vegetação descontínuos, presentes em continentes diferentes.



Vista do espaço, a Terra é uma bolinha azul. A cor azul reflete o fato de que 75% da superfície do planeta estão cobertos pelos oceanos. Outras porções da Terra exibem outras colorações, principalmente tons esverdeados (florestas fechadas), amarronzados (desertos, áreas desflorestadas ou de vegetação rarefeita) ou esbranquiçados (calotas polares e topos de montanhas, ameaçados hoje de derretimento).

Examinando as terras emersas mais de perto, é possível observar certas afinidades entre blocos de vegetação descontínuos, presentes em continentes diferentes. A cada um desses conjuntos daremos aqui o nome de bioma. No caso das terras emersas, o termo pode ser aplicado a um tipo característico de paisagem, ocupando uma área geográfica relativamente extensa e descontínua, quase sempre envolvendo dois ou mais continentes.

O conceito de bioma – do grego, bi(o)-, vida + –oma, agrupamento, massa – foi apresentado publicamente pelo biólogo estadunidense Frederic [Edward] Clements (1874-1945), em um encontro científico ocorrido em 1916. O ponto de partida de tal elaboração foi a noção de que plantas e animais são elementos essenciais em virtualmente todas as grandes comunidades do mundo.

Embora o significado original levasse em conta a composição de espécies, o termo mais tarde passou a ser usado tão somente em alusão à fisionomia da paisagem – i.e., como um substituto mais amplo para outras expressões, como formação ou fitofisionomia.


Em 1939, o conceito de bioma apareceu pela primeira vez em um livro-texto (Clements & Shelford 1939). Curiosamente, porém, a palavra não foi incluída na extensa lista de termos (e.g., formação, associação, consórcio, sociedade, família, colônia etc.) apresentados e definidos em uma obra publicada apenas um ano antes (Weaver & Clements 1938).

A interface clima/vegetação

O clima de uma região é muito influenciado pela sua latitude. O que ajuda a explicar por que os grandes padrões climáticos tendem a se distribuir em faixas latitudinais ao redor do planeta.

A vegetação de um lugar é muito influenciada pelo clima. Sendo assim, deveríamos igualmente detectar padrões latitudinais na distribuição da vegetação. E é justamente isso o que ocorre [1].

A vegetação que prospera nas proximidades da linha do equador, por exemplo, tende a exibir certas características que definem um tipo comum de paisagem, quer estejamos na América Central ou do Sul, na África, na Ásia ou na Austrália. Tal similaridade é o resultado de um fenômeno mais geral chamado evolução convergente [2].

O que ocorre é que linhagens de plantas que vivem sob circunstâncias ecológicas semelhantes (e.g., grau de insolação e regime de chuvas) tendem a desenvolver soluções igualmente semelhantes, o que muitas vezes se reflete em uma mesma conformação geral do corpo ou em comportamentos bem parecidos.


Em regiões de clima quente e úmido, por exemplo, predominam árvores de grande porte, cujas folhas são largas e duradouras. Se o clima é quente e seco, passam a predominar plantas de porte mais baixo, armazenadoras de água e cujas folhas tendem a ser diminutas e decíduas. Padrões característicos correspondentes podem ser igualmente identificados em plantas que prosperam em regiões de clima frio e úmido ou frio e seco. E assim por diante.

Tais paralelismos ajudam a explicar as espantosas coincidências entre os mapas de clima e os de vegetação, a tal ponto que é possível prever a presença de um sabendo apenas da presença do outro.

Dicotomias básicas e o número de biomas

Os biomas de terra firme costumam ser definidos em razão do aspecto geral da vegetação dominante, não importando a composição de suas biotas. A fitofisionomia, por sua vez, varia de acordo com a abundância relativa de diferentes formas de vida. Vejamos.

Levando em conta a dicotomia árvore perene v. erva anual, nós podemos identificar três fisionomias básicas [3], a saber: (1) florestas, quando há um predomínio de plantas arbóreas; (2) campos, quando predominam as plantas herbáceas; e (3) savanas, quando árvores e ervas são codominantes.

O aspecto da vegetação de um lugar reflete, entre outras coisas, as dimensões e o comportamento da superfície fotossinteticamente ativa (folhas, habitualmente). No primeiro caso, uma distinção fundamental costuma ser feita entre as plantas que sustentam folhas largas (plantas latifoliadas, quase todas angiospermas) e as que sustentam folhas estreitas (p. de folhas aciculares, muitas das quais são gimnospermas). No segundo, é costume distinguir entre as plantas que nunca ficam desfolhadas por abscisão (plantas sempre verdes ou perenifólias) e aquelas que ficam sem folhas em alguma época particular do ano (p. de folhas decíduas ou caducifólias).


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FIGURA. A figura que acompanha este artigo (extraída de Givnish 2002) chama a atenção para dois padrões fisionômicos. Os percentuais de terra firme cobertos (originalmente) por árvores sempre verdes (folhas largas ou aciculares) (A) e por árvores decíduas (B). Note que as sempre verdes tendem a dominar em duas faixas latitudinais: nas proximidades do equador (florestas latifoliadas) e nas do círculo polar ártico (florestas boreais). As decíduas tendem a prosperar em regiões de relevo montanhoso ou no interior dos continentes, em diferentes latitudes.

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Com base nessas dicotomias, é possível arranjar a vegetação das terras emersas em sete biomas [4]. São eles: (1) floresta ombrófila (vegetação arbórea, latifoliada e sempre verde); (2) f. caducifólia (idem, idem, mas decídua); (3) f. boreal (v. arbórea e sempre verde, mas com folhas aciculares); (4) savana (v. herbácea, mas entremeada por árvores isoladas ou agrupamentos de árvores); (5) campo (v. herbácea, formando um estrato contínuo); (6) tundra (idem, mas sem formar um estrato contínuo); e (7) deserto (v. escassa, efêmera ou inexistente).

No que segue (A-G), listo algumas particularidades de cada um deles.

A. Floresta ombrófila


A floresta ombrófila (= floresta pluvial, floresta úmida ou floresta tropical) é caracterizada pela presença de vegetação arbórea, latifoliada e sempre verde.

Os climas sob o qual esse bioma prospera são predominantemente quentes e úmidos. A temperatura média anual é sempre igual ou superior a 18° C. A pluviosidade anual costuma ser superior a 1.500 mm. As médias mensais variam pouco ao longo do ano, sobretudo as de temperatura. A depender do grau de sazonalidade no regime de chuvas, algumas árvores podem perder suas folhas na época mais seca do ano.

Tais condições climáticas caracterizam três regiões do planeta (situadas em sua maior parte no hemisfério Sul): (a) a bacia amazônica, com áreas adicionais na América Central, e a borda oriental do Brasil; (b) a bacia do rio Congo e Madagascar, na África; e (c) o Sudeste da Ásia, parte do Nordeste da Austrália e mais as ilhas entre a Ásia e a Austrália (incluindo Nova Guiné e Bornéu).

B. Floresta caducifólia


A floresta caducifólia (= floresta decídua) é caracterizada pela presença de vegetação arbórea, com folhas largas (latifoliadas) e decíduas. Durante uma determinada época do ano, portanto, todas ou quase todas as árvores perdem suas folhas.

Os climas sob o qual esse bioma prospera são em geral moderados. A temperatura média anual é sempre inferior a 18° C. A pluviosidade anual gira em torno de 1.000 mm. As médias mensais variam muito ao longo do ano, com verões amenos e invernos frios, durante os quais a água congela. Dependendo do rigor e da extensão do inverno, as árvores podem permanecer mais ou menos tempo desprovidas de folhas.

Essas condições climáticas caracterizam três grandes regiões do planeta: (a) a borda oriental da América do Norte (EUA e Canadá); (b) quase toda a Europa e parte do Noroeste da Ásia (incluindo partes da Rússia e da China); e (c) parte da borda oriental da Ásia, incluindo o Japão e ilhas próximas.


C. Floresta boreal

A floresta boreal (= floresta de coníferas ou taiga) é caracterizada pela presença de vegetação constituída por árvores sempre verdes e com folhas aciculares.

Os climas sob os quais esse bioma prospera são frios ou gelados e relativamente secos. A temperatura média anual varia entre -5 e 5° C. A pluviosidade anual em geral é inferior a 700 mm. As médias mensais variam muito ao longo do ano – invernos rigorosos alternam com verões relativamente brandos. Embora o volume de chuvas seja modesto, o solo está sempre úmido, pois as baixas temperaturas inibem a evaporação.

Essas condições climáticas caracterizam duas regiões do planeta: (a) o Norte da América do Norte (Canadá e Alasca); e (b) o Norte da Europa e da Ásia.

D. Savana

A savana é caracterizada pela presença de um estrato denso e quase contínuo de vegetação herbácea (gramíneas, ciperáceas e plantas afins), entremeado por vegetação arbórea.

Os climas sob o qual esse bioma prospera são quentes e relativamente úmidos. A temperatura anual é igual ou superior 18º C. A pluviosidade anual gira em torno de 1.000 mm ou mais. As médias mensais variam muito, principalmente as da pluviosidade, com verões quentes e úmidos alternando com invernos quentes e secos. A densidade do extrato arbóreo costuma variar de acordo com o rigor e a duração (de 3 a 8 meses) da estação seca. No inverno, com a diminuição acentuada no volume de chuvas e a manutenção de temperatura elevadas, as camadas superficiais do solo passam por um período mais ou menos prolongado de déficit hídrico.

Essas condições climáticas caracterizam três regiões do planeta: (a) o Centro-Oeste e o interior do Nordeste brasileiro; (b) a África meridional (com exceção da bacia do Congo e do extremo Sul); e (c) o Norte da Austrália.

E. Campo


O campo (= campina, pampa, pradaria ou estepe) é caracterizado pela presença de um estrato denso e contínuo de vegetação herbácea (gramíneas, ciperáceas e afins), naturalmente desprovida de árvores.

Os climas sob o qual esse bioma prospera são frios e secos. A temperatura média anual varia entre -10 e 10º C. A pluviosidade anual em geral é inferior a 500 mm. As médias mensais variam bastante ao longo do ano: verões quentes ou brandos e úmidos alternam com invernos frios e secos. A pluviosidade pode oscilar bastante de um ano para o outro, caracterizando o clima como particularmente variável e incerto no curto prazo.

Essas condições climáticas caracterizam quatro regiões do planeta, duas em cada hemisfério. No hemisfério Norte: (a) o Centro-Oeste da América do Norte; e (b) a Ásia Central. No hemisfério Sul: (c) o Centro-Sul da América do Sul; e (d) a borda oriental do extremo Sul da África.

F. Tundra

A tundra (ou planície pantanosa) é caracterizada pela presença de um estrato descontínuo de vegetação herbácea. A vegetação está concentrada em moitas mais ou menos esparsas, as quais podem abrigar alguns arbustos.

Os climas sob os quais prospera esse bioma são muito frios e secos. A temperatura média anual é sempre negativa, variando entre -15 e -5° C. A pluviosidade anual é inferior a 200 mm. As médias mensais variam bastante, de tal modo que invernos longos e rigorosos alternam com verões curtos e brandos.

Uma espessa camada do solo (permafrost), situada em geral a apenas alguns centímetros da superfície, permanece congelada o ano inteiro, inclusive no verão. Essa camada, que pode ter centenas de metros de espessura, funciona como uma dupla barreira, impedindo tanto a penetração das raízes como a infiltração da água. Esta fica então acumulada acima do permafrost, umedecendo ou encharcando as camadas superficiais do solo.

Essas condições climáticas caracterizam duas grandes regiões do planeta: (a) o Norte da América do Norte, incluindo a Groenlândia; e (b) o extremo Norte da Europa e o Norte da Ásia. Essas regiões estão acima da latitude 60º N, dentro do chamado círculo polar ártico.

G. Deserto

Os desertos podem ser quentes ou frios. Em ambos, a vegetação permanente é escassa ou inexiste. No que segue, vamos tratar apenas dos desertos quentes.

Os climas sob o quais esse bioma prospera são quentes e secos. A temperatura média anual é superior a 18º C. A precipitação anual é baixa (quase sempre inferior a 250 mm) e errática. A variação sazonal é relativamente pequena, exceto pela concentração dos dias de chuva, que geralmente caem durante o inverno. Embora a temperatura do ar varie relativamente pouco ao longo do ano, há uma acentuada oscilação diária: de 40º C ao meio-dia a 15º C ou menos durante a noite. (A oscilação da temperatura na areia é ainda maior, indo de mais de 60º C durante o dia a cerca de 0º C durante a noite.) Em alguns desertos, o regime de chuvas é supraanual – i.e., a queda de chuvas ocorre a intervalos superiores a um ano. O solo em geral é arenoso, estando em permanente estado de déficit hídrico.

Essas condições climáticas caracterizam seis regiões do planeta, três em cada hemisfério, todas nas proximidades da latitude de 30º (N ou S). No hemisfério Norte: (a) Sudoeste dos EUA e Noroeste do México; (b) norte da África; e (c) Oriente Médio. No hemisfério Sul: (d) borda ocidental da América do Sul (Chile e Peru); (e) pequena borda ocidental no Sul da África (Namíbia); e (f) grande parte do interior da Austrália.

Zonação altitudinal

Os sete tipos mencionados acima nem sempre são fácil e prontamente reconhecíveis. Isso porque às vezes nos defrontamos com algumas complicações, como as zonas de transição ou a presença de manchas isoladas de um bioma dentro dos domínios de outro. Um modo de intrusão particularmente comum é a reprodução dos padrões latitudinais em gradientes altitudinais.

Em grandes elevações montanhosas, costuma ocorrer uma zonação equivalente àquela que observamos à medida que nos deslocamos desde a zona equatorial até os pólos [5]: vegetação arbórea latifoliada e sempre verde dá lugar a florestas decíduas; estas são então substituídas por uma vegetação do tipo savânica ou, dependendo do lugar, por árvores de folhas aciculares. A depender das dimensões da montanha, o padrão de substituição pode ir além, dando em seguida origem a uma vegetação inteiramente herbácea (campo ou tundra, dependendo do lugar) e a um topo praticamente desértico.

Em regiões próximas à linha do equador, por exemplo, a floresta ombrófila que prospera no sopé da montanha tende a ser substituída (em pontos acima de 1.000 m) por uma vegetação mais aberta, com predomínio crescente de plantas de pequeno porte: a floresta fechada dá lugar a uma paisagem savânica, esta podendo vir a ser substituída por uma vegetação exclusivamente herbácea, desprovida de árvores.

Quantos biomas existem no país?

Dos sete biomas descritos acima, três – e apenas três – ocorrem em terras brasileiras: floresta ombrófila, savana e campo.

Salvo melhor juízo, no entanto, nenhum dos livros didáticos disponíveis hoje no mercado adota uma classificação tão enxuta e, ao mesmo tempo, tão consistente. O que ocorre é que os autores contemporâneos tratam como ‘biomas’ aquilo que os autores do passado costumavam caracterizar como ‘paisagens regionais típicas’ [6].

Um exame ligeiro revela o tamanho da confusão: a depender do autor ou da editora, o número de ‘biomas’ varia desde um mínimo de cinco (floresta amazônica, cerrado, floresta atlântica, caatinga e campo sulino) ou seis (os cinco anteriores, mais o pantanal) até oito (os seis anteriores, mais a restinga e a mata de cocais) ou mais.

Visando contornar essas inconsistências, caberia aqui dizer que a ‘paisagem original’ do país incluía [7]: (1) 61% de florestas do tipo ombrófila (47% de floresta amazônica, 14% de floresta atlântica), compostas por árvores altas, que em geral sustentam folhas o ano inteiro e crescem próximas entre si; (2) outros 37% de f. abertas ou vegetação do tipo savana (24% de cerrado, incluindo o pantanal mato-grossense, e 13% de caatinga), compostas por árvores baixas, que crescem afastadas umas das outras, de troncos retorcidos (cerrado) ou espinhentos (caatinga), e que em geral perdem as folhas na estação mais seca do ano; e (3) 2% de vegetação essencialmente herbácea (campo sulino), onde as árvores são naturalmente raras ou ausentes.

Para ajustar esses complexos vegetacionais à classificação mundial, bastaria ter em mente o seguinte: as florestas fechadas (floresta amazônica e floresta atlântica) correspondem ao bioma floresta ombrófila; as florestas abertas (cerrado, incluindo o pantanal, e caatinga), ao bioma savana; e o campo sulino, desprovido de árvores, ao bioma campo.

Coda

O conceito de bioma é necessariamente um conceito a ser usado em comparações intercontinentais, em larga escala. Alardear que o pantanal é um bioma ou que a caatinga é o único “bioma exclusivamente brasileiro”, como é costume na mídia e nos livros didáticos, é induzir o leitor a erros e mal-entendidos.

Há termos mais apropriados quando se quer fazer alusão a padrões de vegetação mais localizados (intracontinentais ou regionais). Um deles é o termo ecorregião [8].

Mas há problemas adicionais a corrigir. Como a profunda assimetria em nosso conhecimento a respeito de diferentes ecorregiões. (Basta dizer o seguinte: o que sabemos a respeito da floresta atlântica é bem superior ao que conhecemos a respeito do cerrado, da caatinga etc.)

E a falta de conhecimento apropriado, como todos nós já sabemos, leva a generalizações grosseiras. Por trás do rótulo caatinga, por exemplo, o que encontramos não é um padrão vegetacional único e homogêneo [9], como alguns autores ainda hoje dão a entender. Assim como acontece em outras regiões de tamanho equivalente, a caatinga é um mosaico dos mais heterogêneos. Mas essa já seria outra conversa…

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Notas

[*] Versão anterior deste artigo foi publicada no Observatório da Imprensa, em 25/3/2014. O autor está a lançar O que é darwinismo (2019) – ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. No âmbito do universo acadêmico, o livro deverá ser objeto de resenhas em revistas técnicas. Todavia, dificilmente será objeto de algum tipo de registro na grande impressa. Infelizmente, portanto, permanecerá invisível a muitos leitores brasileiros. (Há motivos para isso – nenhum deles tendo necessariamente a ver com o conteúdo da obra –, mas o mais curioso deles talvez seja o seguinte: o autor não tem cacife financeiro para distribuir exemplares de cortesia entre colegas jornalistas, editores, professores universitários, formadores de opinião etc.) Para detalhes e informações adicionais sobre o livro, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Para exemplos, detalhes e comentários adicionais, ver Walter (1986).

[2] Para detalhes técnicos e exemplos, ver Costa (2019).

[3] Tais diferenças, no entanto, nem sempre são definitivas. O que muitas vezes ocorre é um equilíbrio dinâmico. Para uma discussão, ver Accatino et al. (2010).

[4] Para detalhes e comentários adicionais, ver McNaughton & Wolf (1984).

[5] Descoberto pelo naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), o fenômeno da zonação altitudinal é particularmente notável em grandes elevações montanhosas. Sobre a vida e obra de Humboldt, v. Wulf (2016).

[6] Sobre os grandes complexos vegetacionais do país, ver Eiten (1992); para comentários e detalhes adicionais, ver Rizzini (1997).

[7] Percentuais extraídos de Costa (2014).

[8] Para detalhes técnicos e exemplos, ver Omernik (2004).

[9] Para detalhes e comentários adicionais, ver Egler (1951) e Andrade-Lima (1981).

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Referências citadas

** ACCATINO, F & mais 4. 2010. Tree-grass co-existence in savanna: interactions of rain and fire. Journal of Theoretical Biology 267: 235-42.

** ANDRADE-LIMA, D. 1981. The caatingas dominium. Revista Brasileira de Botânica 4: 149-63.

** CLEMENTS, FE & SHELFORD, VE. 1939. Bio-ecology. NY, Wiley.

** COSTA, FAPL. 2014. Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas, 2ª ed. Viçosa, Edição do autor.

—. 2019. O que é darwinismo. Viçosa, Edição do autor.

** EGLER, WA. 1951. Contribuição ao estudo da caatinga pernambucana. Revista Brasileira de Geografia 13: 65-77.

** EITEN, G. 1992. Natural Brazilian vegetation types and their causes. Anais da Academia Brasileira de Ciências 64 (Supl.): 35-65.

** GIVNISH, TJ. 2002. Adaptive significance of evergreen vs. deciduous leaves: solving the triple paradox. Silva Fennica 36: 703-43.

** McNAUGHTON, SJ & WOLF, LL. 1984. Ecología general, 2ª ed. Barcelona, Omega.

** OMERNICK, JM. 2004. Perspectives on the nature and definition of ecological regions. Environmental Management 34 (Suppl. 1): S27-S38.

** RIZZINI, CT. 1997. Tratado de fitogeografia do Brasil, 2ª ed. RJ, Âmbito Cultural.

** WALTER, H. 1986. Vegetação e zonas climáticas. SP, EPU.

** WEAVER, JE & CLEMENTS, FE. 1938. Plant ecology, 2nd ed. NY, McGraw-Hill.

** WULF, A. 2016. A invenção da natureza. SP, Crítica.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

A corrosão da Caatinga


Extração de madeira e uso da terra para roças e pastagens reduzem biodiversidade e transformam a paisagem do sertão



Retirada de lenha no interior de Pernambuco
Ricardo Azoury / olhar imagem

Durante três dias de sol forte, na segunda semana de março de 2018, uma equipe da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) cavou crateras na terra seca de roças abandonadas no Parque Nacional do Catimbau, na região central de Pernambuco, para examinar o interior de ninhos de saúva. Os pesquisadores viram que, em áreas de solo raso como as que escavavam, as formigas guardavam matéria orgânica a até 3 metros (m) de profundidade, dificultando o acesso das plantas a nutrientes e retardando a regeneração da vegetação original. Em outras expedições, já tinham observado que a densidade das colônias de saúva aumentava de duas por hectare (ha) nas áreas de vegetação nativa para 15 por ha (1 ha corresponde a 10 mil metros quadrados) nos trechos usados para cultivo agrícola ou pastagem. As saúvas sobrepõem-se a outras espécies de formigas à medida que a vegetação nativa é retirada.

A proliferação dos ninhos de saúva evidencia o empobrecimento da Caatinga causado pela retirada lenta e contínua de árvores e de animais das matas. Por consistir na extração de pequenas porções de recursos naturais, esse processo escapa das imagens de satélite, mas, em silêncio, transforma a paisagem do sertão nordestino e aumenta o risco de desertificação. Outro sinal visível da metamorfose é a proliferação de plantas invasoras como a algaroba (Prosopis juliflora), árvore nativa dos Andes usada para extração de madeira e alimentação do gado. As invasoras crescem com rapidez em ambientes mais abertos e tornam-se dominantes em roças ou pastos abandonados.

Situado no município de Buíque, com 622 quilômetros quadrados (km2), o parque do Catimbau abriga cerca de 1.500 pessoas, que já viviam ali no momento de sua criação, em 2002. Os moradores usam as áreas de mata para plantar milho e feijão, criar cabras, retirar madeira para fazer cerca ou cozinhar e caçar para se alimentar. Ali, concluíram os pesquisadores da UFPE, as intervenções dos pequenos produtores rurais causaram a perda de pelo menos um terço da biodiversidade, principalmente de plantas.

“Não é um quadro isolado”, diz o ecólogo Marcelo Tabarelli, da UFPE, coordenador do grupo de pesquisa. “A trajetória da degradação, com a transformação da floresta em uma vegetação dominada por arbustos e depois por herbáceas, ocorre em toda a Caatinga. Quanto maior a pressão humana sobre a vegetação nativa e quanto menos água, mais pobres serão o ambiente e as pessoas que vivem dele.”

A ação humana sobre a vegetação nativa do interior do Nordeste é antiga. No século XVI, o sertão produzia carne e alimentos para os moradores do litoral, que priorizavam a produção de cana-de-açúcar. Como resultado de cinco séculos de exploração econômica, quase metade (45%) da área original da Caatinga – 826 mil km2, o equivalente a 11% do território nacional – já foi desmatada, como resultado principalmente da ação dos grandes produtores rurais.

Na introdução ao livro Caatinga – The largest tropical dry forest region in South America, publicado em 2017, Tabarelli, os biólogos Inara Leal, também da UFPE, e José Maria Cardoso, da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, observaram que os moradores de comunidades rurais da Caatinga dependem da vegetação nativa para sobreviver, o que causa uma lenta e contínua alteração do ambiente. Segundo eles, somando a ação dos moradores do sertão com os grandes projetos de infraestrutura e a agricultura comercial, pelo menos 63% da Caatinga já deve ter sofrido os efeitos da ação humana.


Mantidas em cercados, as cabras alimentam-se de plantas da Caatinga, dificultando a regeneração da vegetação
INARA LEAL/UFPE

Das 89 famílias que vivem no parque do Catimbau, 85% dependem da extração da madeira para cozinhar, de acordo com um levantamento de 2012 da bióloga da UFPE Laís Rodrigues. O consumo médio de lenha foi de 606 quilogramas (kg) por ano por pessoa, o que equivale a 10 ha por ano, somente para abastecer os fogões a lenha. “Dentro do parque”, observa o biólogo Felipe Melo, professor da UFPE, “como o governo impõe restrições ao uso da terra, as famílias são mais pobres e mais dependentes dos recursos naturais que as de fora, mas também não conseguem sair de lá porque não têm para onde ir”.

Fora das áreas de proteção ambiental, há também a extração de lenha para abastecer as empresas de produção de gesso, olarias, padarias e pizzarias. O consumo doméstico e comercial implica uma perda estimada em 30 milhões de metros cúbicos por ano de mata nativa, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

A situação é similar na Mata Atlântica no Nordeste. Um estudo de 2015 na Global Ecology and Conservation, com base em 270 famílias de sete comunidades de Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba, registrou um consumo médio de 686 kg de lenha por ano por pessoa, o que implicaria a retirada de 2 mil ha de mata por ano nos 270 municípios da região com esse tipo de vegetação. “Quanto menor a renda das famílias, maior a dependência e a retirada de lenha”, diz Melo. Florestas de clima semiárido ou desértico da África e da Índia que abrigam comunidades humanas registram o mesmo fenômeno.

Menos espécies nativas
No Catimbau, espécies típicas como aroeira (Myracrodruon urundeuva) e angico-branco (Anadenanthera colubrina) são as mais extraídas para construção de cercas ou casas, de acordo com um estudo de fevereiro deste ano na Environmental Research Letters. Em Parnamirim, município pernambucano a 350 km a oeste do Catimbau, cujos 20 mil moradores vivem da extração de madeira e de plantas, os pesquisadores verificaram que as espécies de árvores típicas tendem a ser substituídas por outras, que crescem com rapidez e suportam as alterações provocadas pelas roças e pastos itinerantes, como marmeleiro-do-mato (Croton sonderianus) e jurema-preta (Mimosa tenuiflora). As cabras, por sua vez, comem os galhos de árvores com folhas mais macias, deixando de lado arbustos menores e plantas herbáceas com folhas mais duras, que se tornam as predominantes em áreas de pastagens.

Além da proliferação de saúvas, a ação humana altera as interações de outros grupos de formigas e insetos com as plantas. “Vimos que se perdem dois tipos de serviço que as formigas prestam às plantas: a proteção contra insetos herbívoros e a dispersão de sementes”, diz Inara. No primeiro caso, segundo ela, por sofrerem mais estresse em áreas mais abertas, as plantas acumulam menos néctar em seus nectários extraflorais, que atraem formigas. Por sua vez, as formigas se alimentam de insetos herbívoros, que, sem elas, atacariam as plantas. Com menos néctar e menos formigas, as plantas tornam-se mais vulneráveis aos insetos herbívoros. No segundo caso, as ações humanas causam uma redução das populações e da atividade de espécies de formigas consideradas boas dispersoras de sementes, como a tocandira (Dinoponera quadriceps). “Em consequência”, diz Inara, “as sementes são dispersas em menor quantidade e por menores distâncias.”

Vista geral do Parque Nacional do Catimbau (PE), com áreas de roças e pastos abandonados com solo exposto, em primeiro plano
KATIA RITO/UNAM

Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a bióloga Gislene Ganade pode ter encontrado uma solução para um antigo problema da recomposição da Caatinga: as árvores plantadas em campo dificilmente sobrevivem ao clima seco, apesar de adaptadas a ambientes inóspitos. Em seus experimentos, árvores de 16 espécies foram inicialmente cultivadas em tubos plásticos até as raízes atingirem 1 m de comprimento. Depois, foram plantadas em uma cova regada com 4 litros de água, na Floresta Nacional de Assu, no Rio Grande do Norte, em junho de 2016.

“Com água para abastecer as raízes, as árvores mantiveram-se verdes por dois meses, mesmo na seca, e depois de oito meses, quando choveu, produziram folhas novas e frutos”, Gislene observou. Segundo ela, um ano após o plantio, 75% das árvores tinham sobrevivido. Com base nesse método, as equipes da UFRN e da UFPE pretendem recompor a vegetação do Catimbau. O plano é criar uma área experimental de 5 ha com árvores que possam servir para a produção de mel ou de alimento para os moradores do parque e para os animais de criação.

A integração entre a criação de cabras, a agricultura e o plantio de espécies de árvores usadas como lenha é outra estratégia cogitada para evitar a degradação ambiental e favorecer a renda dos proprietários rurais. “Como não haveria recursos próprios para implementar os sistemas integrados do tipo lavoura-pecuária, a participação dos órgãos governamentais é essencial, por meio de linhas de crédito e do apoio a pesquisas”, diz o engenheiro-agrônomo Luiz Antonio Martinelli, professor da Universidade de São Paulo.

Políticas públicas já em vigor têm ajudado a preservar a Caatinga, observa Tabarelli, que desde 2012 percorre com frequência o Catimbau. “Os programas de transferência de renda, principalmente a aposentadoria rural, desaceleraram a exploração da Caatinga e deixaram as famílias menos dependentes dos recursos naturais”, observa. “Em vez de caçar, os sertanejos podem comprar frango e, em vez de tirar lenha da mata, podem comprar gás para cozinhar.”

Artigos Científicos
SFAIR, J. C. et al. Chronic human disturbance affects plant trait distribution in a seasonally dry tropical forest. Environmental Research Letters. v. 13, 025005, fev. 2018.
RIBEIRO, E. M. S. et al. Chronic anthropogenic disturbance drives the biological impoverishment of the Brazilian Caatinga vegetation. Journal of Applied Ecology. v. 52, p. 611–620, mar. 2015.
SIQUEIRA, F. F. S. et al. Leaf-cutting ant populations profit from human disturbances in tropical dry forest in Brazil. Journal of Tropical Ecology. v. 33, n. 5, p. 337-44, set. 2017.
SPECHT, M. J. et al. Burning biodiversity: Fuelwood harvesting causes forest degradation in human-dominated tropical landscapes. Global Ecology and Conservation. v. 3, p. 200-9, jan. 2015.

Livro
SILVA, J. M. C. da, LEAL, I. R. e TABARELLI, M. (eds.) Caatinga – The largest tropical dry forest region in South America. Cham: Springer, 2017.
Revista FAPESP

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