Mostrando postagens com marcador India. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador India. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de abril de 2026

Qual é a cidade com o ar mais poluído do mundo? Veja como o Brasil está neste ranking




Desmatamento, incêndios e emissões de gases foram as principais causas da poluição atmosférica na América Latina em 2024. Mas a cidade mais poluída do planeta não está na região.


As emissões de gases vindas dos automóveis são uma das importantes fontes de poluição atmosférica no mundo. Acima, uma densa nuvem de partículas vindas dos carros cobre o Cairo, capital do Egito.



“A poluição do ar é atualmente o maior risco ambiental para a saúde humana”, afirma a Organização das Nações Unidas (ONU). As minúsculas partículas podem penetrar no corpo e chegar aos pulmões e à corrente sanguínea, causando asma, doenças respiratórias crônicas e até mesmo acidentes vasculares cerebrais (AVC).


Esse tipo de poluição é responsável por cerca de 6,5 milhões de mortes prematuras em todo o mundo, mas pode piorar e, se não houver uma intervenção agressiva, “o número de mortes causadas pela poluição do ar em espaços abertos deve aumentar em mais de 50% até 2050”.


Além disso, a poluição atmosférica agrava os efeitos das mudanças climáticas, causa perdas econômicas e reduz a produtividade agrícola, continua a entidade.


Diante desse cenário, a Assembleia Geral da ONU declarou o dia 7 de setembro como o Dia Internacional do Ar Limpo por um Céu Azul. Nesta data, vale a pena conhecer quais são as cidades que lideram os rankings de poluição atmosférica e qual a posição dos países latino-americanos na lista.




Na foto, o céu completamente esfumaçado de Delhi, na Índia, cidade que sofre com a queima lixo e os gases tóxicos gerados pelo aterro sanitário de Ghazipur.FOTO DE MATTHIEU PALEY

Qual é a cidade com o ar mais contaminado do mundo?


A organização suíça IQAir, especializada em tecnologia contra a poluição do ar, publica anualmente um Relatório Anual sobre a Qualidade do Ar no mundo, no qual apresenta dados sobre a qualidade do ar em relação às partículas PM2,5 (partículas com um diâmetro igual ou inferior a 2,5 micrômetros e que representam a maior ameaça à saúde).


Para o relatório sobre 2024, a organização coletou informações de 8.954 cidades em 138 países, regiões e territórios, utilizando dados provenientes de mais de 40 mil estações de controle da qualidade do ar e sensores de baixo custo, operados por agências governamentais, instituições de pesquisa, ONGs, escolas, universidades, empresas do setor privado e cientistas cidadãos de todo o mundo.


Com base nessas referências, a IQAir concluiu que as cidades mais afetadas estão concentradas na Ásia, onde se encontram cinco dos dez países mais poluídos e nove das dez cidades com pior qualidade atmosférica a nível mundial.


Especificamente, a área metropolitana mais poluída do mundo em 2024 foi Byrnihat, na Índia, com uma concentração média anual de PM2,5 de 128,2 microgramas por metro cúbico (μg/m³), de acordo com o relatório da IQAir. Este valor excede consideravelmente o valor de 5 µg/m3 da diretriz anual de PM2,5 da Organização Mundial da Saúde (OMS).




Cães e aves procuram comida no aterro sanitário de Ghazipur, em Nova Délhi, Índia. Seis das dez cidades mais poluídas do mundo estão localizadas neste país asiático. De acordo com o relatório da IQAir, a capital, Nova Délhi, “manteve níveis de poluição constantemente elevados, com uma média anual de 91,6 µg/m³, praticamente inalterada em relação aos 92,7 µg/m³ de 2023”.FOTO DE STÉPHANIE SINCLAIR

As 9 cidades com a pior poluição atmosférica


Além de Byrnihat, a lista das cidades mais poluídas do mundo é completada por: Byrnihat, Índia com 128,2 μg/m³

Delhi, Índia (com uma concentração média de 108,3 µg/m3)

Karagandá, Cazaquistão (104,8 µg/m3)

Mullanpur, Índia (102,3 µg/m3)

Lahore, Paquistão (102,1 µg/m3)

Faridabad, Índia (101,2 µg/m3)

Dera Ismail Khan, Paquistão (93 µg/m3)

N'Djamena, Chade (91,8 µg/m3)

Loni, Índia (91,7 µg/m3)


Além disso, a análise do relatório reconhece que “quase um terço das cidades (do mundo) registraram concentrações anuais de PM2,5 que excedem em dez vezes as diretrizes da OMS, o que representa um grave risco para a saúde de milhões de pessoas”.




A foto registra a cidade de Brasília coberta pela fumaça causada pelos incêndios florestais durante agosto de 2024. De acordo com a IQAir, o desmatamento e as queimadas são duas das principais fontes de poluição atmosférica na América Latina, juntamente com as emissões dos veículos e a poluição causada pelas indústrias extrativas.

domingo, 25 de setembro de 2022

Morre adolescente indiana da casta dalit que foi estuprada e queimada viva

Dalit já foi chamada de "intocável" e é considerada casta hindu mais baixa
Por AFP



Uma adolescente indiana de 16 anos que teria sido estuprada e queimada viva por seus agressores morreu no hospital, informou, nesta terça-feira (20), a polícia indiana.

A jovem, membro da comunidade dalit, que já foi chamada de "intocável" e é considerada como a casta hindu mais baixa, morreu na segunda-feira (19) em um hospital de Lucknow, em Uttar Pradesh (norte), depois de ter sido agredida no início de setembro.

Os dois homens acusados de estuprá-la e queimá-la foram detidos "duas horas depois da denúncia do incidente" e a polícia prometeu à família da vítima um acompanhamento adequado do caso, disse à AFP o chefe da polícia local, Dinesh Kumar Prabhu.


Agentes cercaram a casa da família da jovem "para evitar incidentes indesejáveis". A polícia é frequentemente acusada de não levar a sério as denúncias feitas pela comunidade dalit.

Em circunstâncias semelhantes, familiares de classe baixa foram ameaçadas ou atacadas para impedir que testemunhassem.

As mulheres dalit são vítimas de delitos sexuais, de forma desproporcional, em um país onde a taxa de crimes contra mulheres é alta.

A morte desta jovem ocorre menos de uma semana depois que os corpos de duas irmãs dalit, de 15 e 17 anos, foram encontrados pendurados em um árvore.

Aparentemente, elas foram estupradas e estranguladas por seis homens que foram detidos.

Ambos os casos ocorreram em Uttar Pradesh, um estado pobre de quase 230 milhões de habitantes, onde estes crimes estampam as capas de jornais com frequência.
https://www.folhape.com.br/

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Índia promete conquistar cada vez mais o espaço a baixo custo


A Índia promete levar um de seus habitantes para além das fronteiras terrestres até 2020. A proposta deve ser viabilizada graças sobretudo à forma supereconômica como o país tem desenvolvido seu programa espacial

Júlio César Borges

Lançamento de veículo transportador de satélites da Índia em 2016: espaço também para sondas da Argélia, do Canadá e dos EUA (Foto: iStock)

Quando o primeiro-ministro indiano Narendra Modi anunciou em agosto que seu país enviaria um astronauta ao espaço até 2022, as rea­ções de desconfiança não se avolumaram como se poderia esperar de início. A Índia é, sem dúvida, um país de terceiro mundo, com gigantescos desafios internos, que certamente mereceriam mais investimentos do que um programa espacial. Mas o país tem demonstrado ao longo dos anos que consegue feitos nessa área a custos bem menores do que as outras potências espaciais, e o desenvolvimento nessa área pode lhe abrir muitas portas num setor cuja importância só tem crescido.


Se depender de Kailasavadivoo Sivan, presidente da Organização de Pesquisas Espaciais da Índia (Isro, na sigla em inglês), a promessa de Modi será cumprida. “O premiê deu o objetivo de 2022 e é nosso dever atendê-lo”, disse na ocasião. “Desenvolvemos muitas tecnologias, como módulo de tripulação e sistemas de escape. O projeto está em andamento; agora precisamos priorizar e atingir a meta.” Segundo ele, os pilotos e a tripulação, frequentemente chamados de vyomanautas (“vyom” significa espaço em sânscrito), passariam pelo menos sete dias no espaço.



Para Sivan, a missão, proposta pela primeira vez há quase uma década, custaria à Índia cerca de US$ 1,2 bilhão. Ela seria seguida por duas expedições não tripuladas, a primeira delas a ser lançada em 2020. O programa espacial indiano foi criado em 1962 e lançou sua primeira sonda lunar há uma década. Desde 2014, a iniciativa tem ganhado novas proporções. Naquele ano, o país colocou com sucesso um satélite na órbita de Marte, tornando-se a primeira nação a fazê-lo em sua tentativa inicial e o primeiro país asiático a alcançar o Planeta Vermelho. O preço da expedição também foi destaque: US$ 74 milhões, ante US$ 671 milhões da missão Maven, que a Nasa, a agência espacial americana, enviou naquele ano para estudar a atmosfera marciana. De 2014 para cá, a Índia já lançou 237 satélites para clientes internacionais de 29 países, e em 2017 levou à órbita terrestre 104 microssatélites em um único foguete. São números admiráveis sob qualquer ângulo de análise.
Revista Planeta

sábado, 23 de janeiro de 2010

Colheita de água

A Índia vive à mercê das monções desde tempos imemoriais. Agricultores enriquecem a terra e a vida vai esculpindo encostas para captar a água da chuva.

Um caprichoso céu de monção decepciona os agricultores que atravessam o rio Bhima em uma peregrinação hindu a Pandharpur. Em vez da tromba d'água, as nuvens mandam um chuvisco.
Foto de Lynsey Addario

Como as novas regras sobre as vertentes em Satichiwadi proíbem cortar árvores, Nandabai, à esquerda, e Sakhuba Thama Pawar preparam uma refeição para 20 parentes com fogo abastecido por pequenos galhos.
Foto de Lynsey Addario

Seguindo uma rotina matutina antiquíssima, mulheres em um local próximo a Darewadi tiram água do poço para cozinhar, beber e lavar naquele dia. Na medida em que o programa de conservação foi progredindo no vilarejo e o nível da água subiu, este poço também passou a ser capaz de fornecer irrigação para as plantações durante a estação da seca.
Foto de Lynsey Addario

Com uma oferta de pequenos tomates em exibição a sua frente, Suman Maruti Avadh prepara-se para um ritual de colheita em sua casa, em Darewadi. Os aldeões costumavam comprar muitas das frutas e verduras necessárias para esta cerimônia hindu. Agora, dependem mais da própria produção, cada vez mais variada desde que as obras da represa começaram.
Foto de Lynsey Addario

Processando a colheita de milho da família, Nausabai Kangane separa as espigas. O vilarejo dela, Darewadi, deu início a um programa de conservação de água em 1996, e os agricultores aqui agora podem alimentar a família mesmo quando as chuvas de monções são erráticas. Em anos bons, eles têm excedente de produção para vender.
Foto de Lynsey Addario

A família Karande planta e vende cebola, uma cultura que exige muita água, beneficiando-se de mais de uma década de remodelação do perfil do terreno em Darewadi. Antes, subsistiam com painço arrancado a muito custo dos campos ressequidos.
Foto de Lynsey Addario

Retida por um sistema de valas e barragens construído em Satichiwadi, a água da chuva é lentamente absorvida pelo solo. Essa umidade ajudará a sustentar as plantações e engordará o pasto para bois e cabras.
Foto de Lynsey Addario

Em três anos, aldeões de Satichiwadi cavaram uma vala para captar a chuva que corre pela encosta. Os sem terra são remunerados pela tarefa, e quem possui, beneficiados pelo aumento do nível de água no lençol freático, faz trabalho parcialmente voluntário.
Foto de Lynsey Addario

Quando chegam as chuvas de monção, entre junho e setembro, um tapete verdejante revigora os campos cultivados e os pastos.
Foto de Lynsey Addario

Na estação seca, as plantações de Satichiwadi queimam sob o sol impiedoso.
Foto de Lynsey Addario

Narya Pathari, de 10 anos, migrou com a família de Beed para cortar cana-de-açúcar nas proximidades de Sangamner. Negócio que vale centenas de milhões de dólares por ano no estado de Maharashtra, o plantio da cana exige irrigação copiosa. Canais carregam água subsidiada pelo governo de reservatórios criados por grandes represas.
Foto de Lynsey Addario

Vilarejos que não aproveitam suas vertentes, como Yethewadi, dependem de cascatas de caminhões-pipa para reabastecer seus poços.
Foto de Lynsey Addario

Durante a temporada da seca, a chegada de um caminhão de água dá início a uma correria na cidadezinha de Beed. Para recolher a água, garotos pulam em cima do caminhão e enfiam mangueiras lá dentro. As mulheres colocam o fluxo em latões e também em recipientes de metal com gargalo fino, que elas vão carregar para casa em cima da cabeça.
Foto de Lynsey Addario

Um campo empoeirado próximo ao vilarejo de Morabgi oferece pastagem rala para as ovelhas de Janoba Tambe, de 65 anos. Rebanhos como o dele, conhecidos como "cheques ambulantes", com frequência são vendidos animal por animal, na medida em que o proprietário precisa de dinheiro. Essa terra foi tão devastada pela falta de chuva que os dois filhos de Tambe precisaram se mudar para outro sítio e trabalhar como empregados.
Foto de Lynsey Addario

National Geographic Brasil

Índia - Colheita de água

A Índia vive à mercê das monções desde tempos imemoriais. Agricultores enriquecem a terra e a vida vai esculpindo encostas para captar a água da chuva.
Por Sara Corbett
Foto de Lynsey Addario

Vilarejos que não aproveitam suas vertentes, como Yethewadi, dependem de cascatas de caminhões-pipa para reabastecer seus poços.

Os agricultores na índia falam muito sobre o tempo - especialmente, pelo visto, quando ele não muda. Em maio, quando a terra vira uma fornalha e boa parte dos campos fica sem cultivo, quando os poços secam e o Sol olha zombeteiro de seu braseiro no céu sem nuvens, não há assunto mais absorvente - e menos certo - que a hora e o modo como chegará a monção de verão. A estação chuvosa, que começa no início de junho e em menos de quatro meses descarrega sobre a região mais de três quartos das chuvas anuais, começará delicada como uma corça, dizem os lavradores, depois ganhará a violência de um elefante desembestado. Ou começará como um elefante e depois se transformará numa corça. Ou será de veneta e irritante o tempo todo como uma galinha. Trocando em miúdos: ninguém sabe, na verdade. Mas falar, todos falam.

É assim num dia de 2008 em um vilarejo chamado Satichiwadi, quando um grupo familiar de agricultores sobe o monte até o templo da deusa local pensando em pedir por chuva. Maio está no meio, faz 41 graus, e Satichiwadi, habitado por 83 famílias em um ressequido vale rural no estado de Maharashtra, cerca de 160 quilômetros a noroeste de Mumbai, há sete meses não vê chuva que se preze. A maior parte da Índia, a essa altura, está enredada na inescapável espera anual. Em Nova Délhi, o calor acarretou cortes de energia elétrica. Terríveis tempestades de poeira varrem os estados do norte. Caminhões-pipa congestionam as estradas rurais, ao levar a água potável mandada pelo governo aos vilarejos em que os poços secaram. No rádio, os noticiários apenas começam a mencionar uma promissora espiral de nuvens de chuva passando sobre as ilhas Andaman, na costa sudeste.

O dia todo os moradores matutam sobre aquelas nuvens distantes. É tempo de apostar para os lavradores dependentes da chuva em toda a Índia. Nas semanas que antecedem a monção, muitos investem uma quantia significativa, o mais das vezes emprestada, na compra de fertilizante e sementes de painço, que precisam ser plantadas antes das chuvas. Há muitos modos de perder essa aposta. Se a monção atrasar, as sementes podem assar na terra e morrer. Se chover forte demais antes de elas criarem raízes, a água pode levá-las embora. "Nossa vida está embrulhada na chuva", explica uma mulher chamada Anusayabai Pawar numa versão interiorana do marathi, a língua regional. "Quando ela vem, temos tudo. Quando não vem, não temos nada." Enquanto isso, todos sondam o céu vazio. "Ficamos aqui sentados feito bobos, à espera", diz um velho lavrador chamado Yamaji Pawar.

Antes crentes de que deuses controlavam a chuva, os moradores de Satichiwadi começam a enxergar mais longe. Mesmo levando noz-de-areca e incenso ao templo da deusa, mesmo com as mulheres se ajoelhando uma a uma diante do ídolo de pedra que a representa, eles parecem fazer aquilo só por via das dúvidas. Bhaskar Pawar, um ponderado lavrador de bigode com 30 e poucos anos, observa indiferente enquanto suas parentes oram. "Hoje os jovens compreendem que o problema é ambiental", comenta ele.

Satichiwadi situa-se na sombra de chuva da Índia, uma faixa de terra privada de água por barreiras do relevo, na qual se inclui a área central do estado de Maharashtra. Todo ano a monção de verão desaba sobre a costa ocidental, desloca-se para as planícies interioranas e topa com os picos de 1,5 mil metros das montanhas Ghats Ocidentais, que bloqueiam as nuvens, deixando o outro lado da cordilheira seco.

Para diminuir sua dependência das monções, os moradores do vilarejo ingressaram em um ambicioso programa de três anos voltado para maior aproveitamento da pouca água trazida pelas chuvas. O programa é uma iniciativa da ONG Watershed Organization Trust (Wotr), mas o trabalho, uma grande remodelação da paisagem de boa parte do vale, fica por conta dos moradores. Grupos de lavradores passam cinco dias por semana cavando, movendo solo e plantando sementes ao longo das cristas montanhosas. A Wotr, responsável por projetos semelhantes em mais de 200 vilarejos da Índia central, paga aos aldeões próximo a 80% das horas trabalhadas, mas exige que cada família contribua todo mês com trabalho não remunerado no projeto: uma manobra deliberada para que todos tenham interesse pessoal na obra.

Do templo vê-se bem o esforço: para além dos pequenos reticulados de casas de barro e telhados de telha com sua crestada colcha de retalhos de campos secos, muitas das encostas castanho-avermelhadas estão terraceadas, e várias valas recém-cavadas aguardam para captar a chuva. Se ela chegar, é claro.

Complexa e caprichosa, a monção sul-asiática, que muitos consideram o mais poderoso sistema climático sazonal da Terra, pois afeta quase metade da população mundial, nunca foi fácil de prever. E, com o aquecimento global distorcendo os padrões climáticos, não são apenas os cientistas que estão confusos. Agricultores cujas famílias há gerações usam o Panchangam - um grosso almanaque sobre os movimentos das constelações hindus - para determinar quando virão as chuvas de monção e assim saber a hora de plantar, lamentam que seu sistema já não é confiável.

"É uma verdadeira charada", diz B.N. Goswami, diretor do Instituto Indiano de Meteorologia Tropical, com sede em Pune. Depois de estudar cinco décadas de dados pluviométricos do centro da Índia, Goswami e seus colegas concluíram que, embora a quantidade de chuva não tenha mudado, ela cai em aguaceiros mais breves e mais intensos, com menos períodos intermediários de chuva leve. Esse padrão reflete os atuais extremos no clima do mundo todo.

A água do subsolo ajuda alguns agricultores a amenizar as incertezas do tempo. Mas os lençóis freáticos da Índia estão minguando rápido, pois agricultores que hoje têm acesso a bombas elétricas extraem água mais depressa do que ela é reabastecida pelas monções. Segundo o Instituto Internacional de Manejo da Água, sediado no Sri Lanka, metade dos poços antes usados na Índia ocidental não servem mais. "Há 30 anos, podíamos encontrar água cavando 10 metros", diz o chefe do vilarejo de Khandarmal, um poeirento lugarejo com cerca de 3 mil habitantes na crista de um monte a 32 quilômetros de Satichiwadi. "Agora precisamos cavar 120 metros." E não há certeza. Ao longo dos anos, os moradores abriram 500 poços. Ele calcula que 90% secaram.

A falta de água lançou os lavradores em um implacável ciclo de dívida e preocupação, impelindo muitos - até 100 milhões por ano - a procurar trabalho em fábricas e em campos distantes, mais bem irrigados. Durante os meses secos, entre novembro e maio, é comum avistar nas estradas famílias em carros de boi e caminhões de aluguel abarrotados de comunidades inteiras de mudança. Os riscos às vezes parecem estratosféricos. Dados do governo indicam que o número de suicídios de homens agricultores triplicou entre 1995 e 2004 em Maharashtra.

Numa tarde, do lado de fora de uma usina de cana-de-açúcar perto de Satichiwadi, encontro um rapaz chamado Valmik. Ele tem 16 anos, sorriso meigo e orelhas de abano. Em pé na frente de seu carro puxado por dois bois e carregado com 2 toneladas de cana, ele explica que o conduziu por 175 quilômetros com seu irmão mais velho e sua mãe viúva para passar cinco meses cortando cana com foice. O trabalho deixou suas mãos e seus braços cobertos de cicatrizes.

Valmik detalha em voz branda um dos mais cruéis paradoxos de depender das chuvas. Um ano antes, sua família tomara emprestado de um agiota 40 000 rúpias (uns 800 dólares) para pagar despesas com sementes e fertilizantes na plantação, e não saldara a dívida. Por quê? Porque não chovera o suficiente, e as sementes torraram no chão. E o que fariam depois de quitar a dívida? O mesmo que tinham feito nos últimos três anos depois do corte de cana: pediriam outro empréstimo, plantariam mais sementes e tornariam a esperar uma monção decente.

Diante dos colossais problemas hídricos na Índia, incentivar vilarejos isolados a reviver e proteger suas vertentes pode parecer uma resposta medíocre a uma crise nacional. Mas, comparado aos polêmicos esforços encabeçados pelo governo para construir grandes represas e regular a abertura indiscriminada de poços profundos, um cuidadoso manejo local da água pelos próprios moradores pode ser uma iniciativa sensata e sustentável. Quando visito Khandarmal com Ashok Sangle, engenheiro civil da Wotr, o povo da região fala sobre um malogrado projeto de 500 000 dólares para bombear água do rio mais próximo por vários quilômetros monte acima. Sangle não se conforma. "Qual é a lógica de transportar água para o alto de uma encosta se é mais fácil captar a água da chuva quando ela cai?", pergunta ele.

A ideia do desenvolvimento das vertentes é simples: se as pessoas cortarem menos árvores, aumentarem a cobertura vegetal e construírem uma série de barragens e terraços para desviar e desacelerar o fluxo da água da chuva que desce pelas encostas, o solo terá mais tempo para absorver a umidade. O terraceamento e a nova vegetação também controlarão a erosão, impedindo que a camada superficial do solo, rica em nutrientes, seja levada pela chuva ou pelo vento, e isso aumentará a produtividade da terra.

"Quando a chuva corre, nós a obrigamos a andar; quando ela anda, nós a fazemos rastejar", explica Crispino Lobo, um dos fundadores da Wotr, em uma analogia muito usada por sua organização ao apresentar aos lavradores os conceitos que alicerçam o planejamento das vertentes. "Quando ela rasteja, nós a fazemos afundar no solo." O escoamento se reduz. O lençol de água subterrâneo aumenta em toda a área, os poços secam menos e, com esforços simultâneos para usar a água de modo mais eficiente, todos podem ficar menos preocupados com a época em que virá a próxima temporada de chuvas.

Os benefícios - ao menos em teoria - espraiam-se daí. Terras mais produtivas significam mais alimentos e melhor saúde para os moradores, além de trazer a possibilidade de plantar para vender. "A primeira coisa que as pessoas fazem quando suas vertentes se regeneram e a renda aumenta", diz Lobo, "é tirar as crianças da lavoura e mandá-las para a escola."

Lobo começou a trabalhar com recursos hídricos no começo dos anos 1980, em um programa de desenvolvimento do governo alemão. Hoje a Wotr é dirigido pela médica Marcella D’Souza, mulher de Lobo. Os esforços de Marcella para incentivar a participação de mulheres na regeneração das vertentes ganharam reconhecimento internacional. Na opinião do casal, o trabalho tem também importante dimensão emocional. “Quando as pessoas conseguem melhorar a terra e restaurar o solo, notamos uma mudança no modo como elas veem a si mesmas”, diz Lobo. “A terra lhes devolve a esperança.”

Que fique bem claro: isso nem sempre é fácil. Desde fins dos anos 1990, o governo indiano e várias ONGs canalizaram cerca de 500 milhões de dólares por ano para a recuperação de vertentes em áreas rurais sujeitas à seca. Mas especialistas dizem que muitos desses esforços não atingem seu objetivo ou se revelam insustentáveis, em grande medida porque se concentram demais nos aspectos técnicos da reconstituição e de menos nas complexidades da dinâmica dos vilarejos agrícolas. Em outras palavras, nenhum esforço avança muito sem uma boa dose de cooperação local. E, se você se pergunta o que poderia haver de tão complicado em um pequeno grupo de lavradores marginalizados vivendo num fim de mundo, precisa ir a Satichiwadi e passar um tempo com os Kale e os Pawar.

Satichiwadi dista vários quilômetros de uma estrada de duas pistas que corta uma planície elevada semiárida pontilhada de plantações mirradas e de árvores nim, que resistem bem à seca. A estrada até o vilarejo, concluída no ano passado, ainda é pouco mais que um ziguezague de terra destruidor de eixos de veículo; ela desce cerca de 180 metros na vertical pelos penhascos até a planície do vale. Muitos dos moradores ainda vêm e vão do jeito antigo: uma suarenta subida de 45 minutos por uma vertiginosa trilha de pedestres.

Os membros da família Pawar gostam de dizer que chegaram lá primeiro, por volta de 100 anos atrás, quando o local era uma mata quase desabitada. O bisavô Soma Pawar, pastor nômade da tribo Thakar, desceu as colinas íngremes e gostou do que viu. Conta-se que algum tempo depois - exatamente quanto é um tema de discussão -, o bisavô Goma Genu Kale, outro takhar, passou por ali e também se fixou.

Por um período, as famílias Kale e Pawar deram-se bem, morando próximas em um pequeno agrupamento de casas de barro e teto de colmo, construídas perto do templo. Trabalhando juntas, cortavam árvores e plantavam arroz e outros grãos. Mas, há uns 40 ou 50 anos, os Kale se mudaram de forma súbita para o outro lado do vale. A razão também é polêmica: os Kale dizem que apenas se cansaram de ter de andar quase 1 quilômetro de suas casas até a plantação de painço. Mas os Pawar afirmam, meio amuados, que os Kale se cansaram dos Pawar.

Seja lá o que tenha sido, as duas famílias, apesar de separadas por apenas 450 metros de plantação, pararam de se falar. Passaram a observar de maneira independente suas próprias semanas santas em honra à deusa Sati e deixaram de comparecer aos casamentos da família rival. Os Pawar evitam chamar os Kale pelo nome, referindo-se a eles como "os entendiados". O povoado em que hoje vivem os Kale é conhecido apenas como Vaitagwadi, a "Cidade dos Entediados".

Com a deterioração da harmonia em Satichiwadi, outro tipo de diminuição teve início. Ovelhas e vacas pisotearam os prados e as últimas árvores desapareceram. As colheitas também começaram a vacilar. Os lavradores desistiram de plantar arroz, uma cultura que requer bastante água. Em março deste ano, a maior parte dos poços no vale havia secado.

Sem alimento e renda suficientes, os moradores começaram a migrar em busca de trabalho em fazendas de cana-de-açúcar, construção de estradas e olarias. "Se há apenas três anos você chegasse durante a estação seca", diz Sitaram Kale, agricultor e dono de uma pequena loja em Satichiwadi, "só encontraria anciões e crianças muito pequenas vivendo aqui."

Os moradores não se convenceram fácil da ideia de que poderiam trabalhar juntos e reviver o vale. Conseguir que pusessem de lado suas desavenças demandou meses de reuniões, várias “visitas de exposição” preliminares a outros vilarejos onde o programa de vertentes da Wotr fora bem-sucedido e a diligente atenção de uma jovem assistente social, Rohini Raosaheb Hande, que por seis meses subiu e desceu a trilha até Satichiwadi dia sim, dia não. Rohini foi a segunda assistente social enviada a Satichiwadi pela Wotr - a primeira desistiu em poucas semanas. "Ela me disse que era um lugar sem esperança", lembra Rohini. "Ninguém sequer falava com ela."

Esse tipo de resistência é comum. No vilarejo de Darewadi, onde as obras das vertentes foram concluídas em 2001, um morador, de machado em punho, pusera os funcionários da Wotr para correr. Como a organização incentiva uma reconfiguração social de forma simultânea à mudança ambiental, seus esforços de início desagradam aos agricultores. A Wotr exige, por exemplo, que as decisões sobre a água no povoado incluam as mulheres, os não proprietários de terra e os membros das castas inferiores. Normalmente, eles poderiam ficar de fora. Para que a vegetação local tenha chance de se recuperar, os moradores também precisam concordar com as proibições de cortar árvores para lenha e de deixar seus animais pastarem livres durante vários anos. Finalmente, eles têm de confiar nos potenciais benefícios do trabalho nas vertentes, o bastante para se comprometer com o tédio que ele implica: três a quatro anos movendo terra com pás e picaretas de um lugar para outro a fim de redirecionar o fluxo da água da chuva.

Em Darewadi, Chimaji Avahad, um lavrador idoso que mora com sua parentela numa casa de dois cômodos engastada numa plantação de sorgo, recorda as dificuldades iniciais de ajustar-se às novas regras. Ele conta que ficou atordoado com a tagarelice da mulherada em sua casa. "Cada uma delas tinha uma opinião - minha mulher, minhas filhas, as noras e até as netas", ri ele. Sua esposa, Nakabai, de corpo mirrado e feições consumidas pelo trabalho na lavoura, logo emenda: "Foi uma excelente mudança".

Uma volta por Darewadi confirma. Descrito como um povoado deprimente e seco antes de o projeto começar há mais de uma década, hoje o vilarejo tem arbustos, árvores e prados de grama selvagem. Os poços continuam cheios, mesmo no auge da estação seca. Com mais água, os agricultores de Darewadi sentem pela primeira vez o gosto da prosperidade. Eles, que antes produziam apenas painço em quantidade suficiente para sobreviver, agora cultivam cebola, tomate, romã e lentilha, vendendo o excedente. Avahad deposita cerca de 5 000 rúpias (mais ou menos 100 dólares) no banco por ano. As mulheres de Darewadi usaram sua nova influência para conseguir a proibição da venda de álcool e formaram grupos femininos de poupança - outra característica dos projetos da Wotr. Esses consórcios femininos arrecadam uma pequena contribuição mensal das participantes e fazem empréstimos às que precisam pagar por casamentos, assistência veterinária ou a energia solar que hoje pontilha de luzes a noite do vilarejo.

Quando volto a satichiwadi em janeiro, os moradores mostram esperança em suas terras. As jovens árvores nas cumeeiras dos montes estão viçosas. Encostas e lavouras foram emolduradas por pequenas barragens e valas - lembram um lago cor de barro encrespado por pequenas ondas. Bhaskar Pawar, o lavrador que se sentou comigo no templo oito meses atrás, esperando para ver se o trabalho nas vertentes compensaria, agora conta, animado, que o nível da água nos poços do povoado está uns 3 metros acima do normal. Isso é ótimo, pois a monção, mais uma vez, enganou os aldeões. Não caiu uma só gota no vale em junho e nas três primeiras semanas de julho. Suas sementes de painço haviam murchado e morrido. "Foi um período terrível", lembra Bhaskar.

Mas, em fins de julho, quando as chuvas chegaram torrenciais, eles estavam preparados para captar a água e dar-lhe uso. Passaram os meses de outono colhendo tomates. Agora cultivam cebola e sorgo. E colhem também algo menos tangível: uma tênue harmonia recém-descoberta.

Em uma manhã, vejo Sitaram Kale, o lojista que é um dos nove membros do Comitê para o Desenvolvimento das Vertentes do Vilarejo, chegar de bicicleta ao bairro dos Pawar para informar sobre uma reunião que haverá mais tarde, na escola de seu lado da cidade. Ele dá a notícia a uma matrona, Chandrakhanta Pawar, que trata de espalhá-la enfiando a cabeça pela porta das casas vizinhas, certificando-se de que todo mundo irá comparecer e participar. "Vai ter reunião mais tarde, lá na Cidade dos Entediados", anuncia ela. "Um dos entediados veio avisar."

National Geographic Brasil

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Monções - Colheita de água

A Índia vive à mercê das monções desde tempos imemoriais. Agricultores enriquecem a terra e a vida vai esculpindo encostas para captar a água da chuva.
Um campo empoeirado próximo ao vilarejo de Morabgi oferece pastagem rala para as ovelhas de Janoba Tambe, de 65 anos. Rebanhos como o dele, conhecidos como "cheques ambulantes", com frequência são vendidos animal por animal, na medida em que o proprietário precisa de dinheiro. Essa terra foi tão devastada pela falta de chuva que os dois filhos de Tambe precisaram se mudar para outro sítio e trabalhar como empregados.
Foto de Lynsey Addario

Um caprichoso céu de monção decepciona os agricultores que atravessam o rio Bhima em uma peregrinação hindu a Pandharpur. Em vez da tromba d'água, as nuvens mandam um chuvisco.
Foto de Lynsey Addario
Como as novas regras sobre as vertentes em Satichiwadi proíbem cortar árvores, Nandabai, à esquerda, e Sakhuba Thama Pawar preparam uma refeição para 20 parentes com fogo abastecido por pequenos galhos.
Foto de Lynsey Addario
Seguindo uma rotina matutina antiquíssima, mulheres em um local próximo a Darewadi tiram água do poço para cozinhar, beber e lavar naquele dia. Na medida em que o programa de conservação foi progredindo no vilarejo e o nível da água subiu, este poço também passou a ser capaz de fornecer irrigação para as plantações durante a estação da seca.
Foto de Lynsey Addario
A família Karande planta e vende cebola, uma cultura que exige muita água, beneficiando-se de mais de uma década de remodelação do perfil do terreno em Darewadi. Antes, subsistiam com painço arrancado a muito custo dos campos ressequidos.
Foto de Lynsey Addario
Em três anos, aldeões de Satichiwadi cavaram uma vala para captar a chuva que corre pela encosta. Os sem terra são remunerados pela tarefa, e quem possui, beneficiados pelo aumento do nível de água no lençol freático, faz trabalho parcialmente voluntário.
Foto de Lynsey Addario
Quando chegam as chuvas de monção, entre junho e setembro, um tapete verdejante revigora os campos cultivados e os pastos.
Foto de Lynsey Addario
Na estação seca, as plantações de Satichiwadi queimam sob o sol impiedoso.
Foto de Lynsey Addario
Gozando o luxo de ficar ensopados, convidados do parque Wet’N Joy, perto de Shirdi, dançam músicas de Bollywood. Usar água na região assolada por secas para fins não essenciais priva os agricultores de um recurso vital.
Foto de Lynsey Addario
Narya Pathari, de 10 anos, migrou com a família de Beed para cortar cana-de-açúcar nas proximidades de Sangamner. Negócio que vale centenas de milhões de dólares por ano no estado de Maharashtra, o plantio da cana exige irrigação copiosa. Canais carregam água subsidiada pelo governo de reservatórios criados por grandes represas.
Foto de Lynsey Addario
Vilarejos que não aproveitam suas vertentes, como Yethewadi, dependem de cascatas de caminhões-pipa para reabastecer seus poços.
Foto de Lynsey Addario
Alinhar ao centroDurante a temporada da seca, a chegada de um caminhão de água dá início a uma correria na cidadezinha de Beed. Para recolher a água, garotos pulam em cima do caminhão e enfiam mangueiras lá dentro. As mulheres colocam o fluxo em latões e também em recipientes de metal com gargalo fino, que elas vão carregar para casa em cima da cabeça.
Foto de Lynsey Addario

Revista National Geographic

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Intocáveis


No caos das cidades indianas, os actos flagrantes de discriminação ilegal estão a desaparecer. Mas na Índia profunda eles continuam lá. Texto de Tom O'Neill; Fotografias de William Albert Allard

Girdharilal Maurya acumula pecados, acusam os seus atacantes. Tem um mau karma: por que outra razão teria nascido numa casta intocável se não fosse para pagar pelas vidas passadas? Reparem, ele é um curtidor de peles: segundo o direito hindu, os trabalhadores dos curtumes tornam-se impuros, e as outras pessoas devem evitá-los e ultrajá-los. Para mais, a sua indecorosa prosperidade é um pecado. Quem julga este intocável que é para comprar um pequeno lote de terreno nos arredores da aldeia? Ainda por cima, atreveu-se a reclamar junto da polícia e das outras autoridades, exigindo servir-se do novo poço. Teve o que merecem os intocáveis. Uma noite, quando Girdharilal se encontrava numa cidade vizinha, oito homens da casta superior rajput foram à sua quinta, derrubaram as vedações, roubaram o tractor, espancaram a mulher e a filha e queimaram a casa. A mensagem era clara: fica lá bem no fundo, onde pertences. Girdharilal Maurya pegou na família e fugiu da aldeia de Kharkada, no estado de Rajastão. Só se sentiu seguro para voltar a casa ao fim de dois anos - e apenas porque uma equipa de advogados defensores dos direitos humanos aceitou representá-lo em juízo, dando-lhe um ténue escudo de protecção. "Vejo-os quase todos os dias", diz Girdharilal referindo-se aos seus agressores. "Andam por aí, em liberdade." Acedeu a encontrar-se comigo - depois de escurecer - no pátio de terra da sua casa na aldeia. É um homem alto, de 52 anos, com o rosto vincado pelas preocupações. Nesta noite gelada de Fevereiro, ajeita o roupão bem aconchegado ao corpo. A mulher movimenta- -se nas sombras, preparando o chá. Vivem com outros membros da mesma casta no extremo sul da aldeia, a sotavento das famílias das castas superiores, que entendem não dever cheirar o odor dos intocáveis.

National Geographic Portugal

Índia - Via rápida para o futuro

sandrarocha-fotografia.blogspot.com

Uma nova auto-estrada aproxima as quatro cidades principais da Velha e da Nova Índia texto de don belt
fotografias de ed kashi

Tal como projectado, a nova auto-estrada da Índia rodopia por Bangalore a caminho do Sul do subcontinente, carregando as esperanças de mil milhões de pessoas, desde o mar Arábico até à baía de Bengala. Na Baixa de Bangalore, os veículos detêm-se, por breves instantes, junto de um templo hinduísta com 15 metros de altura, onde, todas as noites, um homem bem-disposto chamado R. L. Deekshith, o sacerdote do templo, presta o equivalente hindu ao serviço de um restaurante drive-in. R. L. Deekshith especializou-se no ritual denominado puja, através do qual distribui a generosidade do deus Ganesha a um desfile de veículos recém- -comprados cujos donos jamais se atreveriam a fazer-se à estrada sem as bênçãos do deus com quatro braços e cabeça de elefante, portador de prosperidade e boa sorte. Os hindus acreditam que Ganesha protege sobretudo as máquinas e as pessoas que se aventuram em coisas novas. Menaka Shekaran, de 23 anos, contabilista numa empresa que importa equipamento para exercício físico, aguarda que o senhor Deekshith celebre um puja pela sua moto, comprada naquela tarde. Esguia, de olhos muitos vivos, Menaka está vestida tal como milhares de jovens indianas que observamos em cima de motos: calças de ganga de marca, túnica garrida, sapatos negros de salto alto e um lenço branco sobre a cabeça, enrolado de maneira a tapar o nariz e a boca.

National Geographic Portugal

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Crescimento com desigualdade pode ameaçar Índia como potência em 2020


Daniel Gallas
Enviado especial da BBC Brasil a Nova Délhi e Hyderabad

O forte crescimento econômico que colocou a Índia na lista de emergentes aumentou a desigualdade social do país e pode comprometer seriamente sua inclusão no clube das potências mundiais até 2020. Analistas e lideranças políticas ouvidas pela BBC Brasil afirmam que o fato de a Índia ter milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza impõe um limite ao crescimento do PIB nacional, comprometendo a continuidade do desenvolvimento e aumentando o risco de instabilidade social e violência.

Para continuar a manter seu ritmo de crescimento e evitar distúrbios sociais que venham a ameaçar a segurança do país, afirmam especialistas, o governo indiano terá que enfrentar o desafio de estender os benefícios dessa prosperidade a mais camadas da sociedade.

"Os indianos precisam parar de acreditar que o país vai continuar crescendo acima de 6% ao ano automaticamente, sem que nenhum esforço seja feito, e que nosso destino inevitável é se tornar uma potência", diz Rajiv Kumar, analista do instituto de pesquisa Indian Council for Research on International Economic Relations (ICRIER), sediado em Nova Délhi

O modelo de desenvolvimento econômico adotado pela Índia - que resultou num crescimento médio de 8% ao longo dos últimos quatro anos - foi paradoxalmente a mesma causa do aumento da desigualdade. O país apostou em grande parte nos setores de tecnologia da informação, serviços e telecomunicações, o que aumentou a prosperidade da Índia urbana. Mas, em contrapartida, a Índia rural, onde vive cerca de 60% da população do país, foi mantida amplamente à margem dessa prosperidade - limitada a atividades agrícolas de baixa rentabilidade e por uma força de trabalho sem qualificação.

O Banco Mundial afirma que a Índia até conseguiu retirar pessoas de baixo da linha da miséria extrema: o percentual de indianos com renda inferior a US$ 1 por dia caiu de 42% em 1981 para 24% em 2005. No entanto, a camada mais rica da sociedade melhorou seus padrões de consumo de forma muito mais acelerada do que os mais pobres.

O indicador que mede a diferença de renda entre ricos e pobres - o coeficiente Gini - se manteve estável ao longo dos anos 80, mas disparou a partir das décadas seguintes e continua crescendo. Igualmente, os Estados indianos que concentram a maior riqueza crescem mais rápido do que os Estados mais pobres. Alarmado com essa disparidade, o Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a afirmar em estudo recente que "a maré da economia indiana sobe, mas nem todos os barcos estão conseguindo subir junto".

Prosperidade

Do lado da Índia que cresce estão empresas com mão-de-obra altamente qualificada, que passaram a competir no mercado internacional com multinacionais de países desenvolvidos com custos mais competitivos. Para essa Índia, os prognósticos para 2020 são positivos:

"A competitividade do setor de tecnologia indiano vai continuar ao longo da próxima década, e até por mais anos", acredita B. Krishnamurthy, um dos vices-presidentes da empresa Wipro Technologies, na cidade de Hyderabad.

A empresa é um dos símbolos da camada de cima da Índia, que não para de enriquecer. Há 60 anos, a empresa produzia óleo de cozinha. Hoje, com 97 mil funcionários, ela é a segunda maior empresa de tecnologia da informação do país.

Assim como muitos indianos, Krishnamurthy confia no fator demográfico para continuar elevando o crescimento da Índia.

O país tem a segunda maior população do mundo. Após as reformas de liberalização da economia promovidas nos anos 90, a renda per capita do país disparou (132% entre 1990 e 2006) e os 1,3 bilhão de indianos passaram a ser vistos, por investidores estrangeiros e empresários locais, como um enorme mercado consumidor em potencial. Muitos especialistas afirmam, inclusive, que a vantagem demográfica da Índia foi um dos principais motores do crescimento econômico do país.

"A Índia tem a maior população de trabalhadores jovens do mundo, 28% da nossa população é jovem", diz o executivo. "Eles falam inglês e são bem educados e capazes. Isso será a nossa grande vantagem. Enquanto outros países ainda estão tentando nos alcançar, eu tenho certeza que essa vantagem vai nos manter à frente dos demais."

Instabilidade

Nem todos concordam, entretanto. Analistas costumam prever dois cenários para o futuro do país. Um é positivo, no qual o governo conseguiria incluir a população "no barco que sobe", e a Índia manteria um crescimento sustentável em torno de 10%. O outro é sombrio, com estagnação econômica e instabilidade social.

Nos últimos anos, o crescimento da desigualdade, sobretudo no meio rural, fortaleceu movimentos extremistas de inclinação maoísta, como o dos nexalitas, que pregam uma revolução social e insurgência contra o governo. Hoje eles já atuam em 40% do território indiano. O primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, já disse que os nexalistas são a principal ameaça à segurança da Índia.

BBC Brasil

quinta-feira, 26 de março de 2009

O Caminho Rosa das Índias e o Terrorismo Afetivo em Mumbai


O Caminho Rosa das Índias e o Terrorismo Afetivo em Mumbai, por Paulo Antônio Pereira Pinto
Com engenho e arte, a nova novela da TV Globo - Caminho das Índias - tem prestado inestimável contribuição para apresentar, com olhos brasileiros, a realidade perene do país que faz parte de nosso imaginário, bastante cedo, desde que nós brasileiros começamos a estudar nosso “descobrimento”, com a expansão marítima de Portugal, no século XVI.
Tendo vivido, há dois anos e meio, em Mumbai, Índia, tenho lido muitos textos locais e estrangeiros e assistido a diversos filmes sobre seus costumes locais. Confesso, no entanto, que só através de explicações, ora prestadas pelos personagens Tony Ramos e Lima Duarte, consegui entender certos aspectos da cultura e história indianas.
A primeira cena, do capítulo inicial da novela, parece estabelecer o tom e nível de clareza adotado pela autora e diretores. Aparece a cidade sagrada de Varanasi, com fundo musical da composição de Raul Seixas, “Há dez mil anos atrás”. Daí, fica o sentimento de que a complexa realidade daquela civilização de milênios começa a ser explicada com simples versos brasileiros.
O fato de que atores conhecidos - como os mencionados acima - estão esclarecendo didaticamente fatos e costumes tão distintos, concede enorme credibilidade perante nosso público. Cenas de beijos e “amassos”, sempre ao nosso gosto, estariam sendo propositalmente evitadas, como gesto de respeito às produções cinematográficas indianas, que, conforme será mencionado a seguir, não exibem afetividade excessiva. Sem dúvida, a novela contribuirá para o melhor entendimento dos brasileiros com respeito à história e costumes daquele país.
Existem, no entanto, outros pontos da realidade indiana atual, que fogem do contexto da novela e que merecem ser explicados, na medida em que cresce o interesse brasileiro pelo outro país. O primeiro é sobre as características gerais do cinema indiano. O segundo diz respeito a tendência recente, nesta cidade, de reverter avanços sociais obtidos desde que o nome Bombaim foi substituído por Mumbai.
Assim, cabe lembrar que o filme indiano típico é uma mistura de coreografia sensual - o que agrada à platéia masculina - e um final sempre conservador - que condiz com a expectativa das esposas e mães. Isto é, Bollywood é capaz de, em suas películas, exibir parte de ou sugerir “formas femininas”, enquanto conclui desaprovando qualquer exposição do corpo da mulher.
As audiências, na Índia, esperam que as atrizes sejam, ao mesmo tempo, sensuais e conservadoras. Quando uma delas casa - na vida real - espera-se que deixe a carreira. Quase sempre acontece assim. Em poucos casos, como o de Jaya Bachchan, retornam após o casamento para desempenhar o papel de matronas, do tipo de sogras sizudas, mas bondosas.
Os personagens principais do cinema indiano são mais manequins de desfile, do que atores com grandes talentos dramáticos. Espera-se, portanto, que sejam, acima de tudo, muito bonitos. Em segundo lugar, devem saber dançar. Quanto às atrizes, cabe saberem conduzir com sedução, mas dentro dos limites púdicos locais, as cenas em que aparecem - invariavelmente - com o sari molhado, sobre o corpo.
Se forem capazes de atuar de forma razoável, melhor ainda - mas não é uma prioridade. O principal é provocar o imaginário popular, com cenas de riqueza, casamentos opulentos, sugestões de erotismo, sem que nada tenha a ver com a realidade da vida no país.
Logo após a independência da Índia, sua indústria cinematográfica, então no início, produziu documentários que fortaleciam o sonho da consolidação da liberdade política, do desenvolvimento econômico e da modernização. Os filmes, com frequência, tinham como cenário áreas rurais e apresentavam heróis que combatiam contra os males herdados do sistema colonial e do feudalismo.
Mais recentemente, as produções de Bollywood passaram a ser gravadas no exterior, sendo a Suiça um destino preferido, pelo fato de suas montanhas geladas sugerirem cenários indianos, como a Kashimira - onde, devido a situação de conflito com o Paquistão, não é possível efetuar filmagens. Como consequência, o fluxo de turistas da Índia para aquele país aumentou sensivelmente. Cingapura, Nova Zelândia, Reino Unido, África do Sul e Austrália, entre outros disputam a preferência dos produtores locais, com vistas a atrair a vinda de equipes de filmagem e a consequente divulgação de suas belezas a atrações turísticas.
Na prática, Bollywood, hoje atende à demanda de uma crescente classe média urbana representativa da maior cidade indiana que, a partir de 1996, deixou de ser chamada de Bombaim e adotou - por razões nacionalistas - o nome Mumbai.
Bombaim era, justamente, o símbolo do sonho de progresso individual, da ruptura com o rígido sistema social tradicional indiano - este tão bem representado na novela brasileira. Aqui, predominava enorme tolerância, quanto à presença de imigrantes de outras partes do país, bem como à diversidade cultural. Praticava-se uma saudável convivência, entre comportamentos modernos - como a emancipação feminina e a diluição das castas - e a preservação de tradições - como as celebrações anuais do festival do Ganesha (deus hindu), do Ramadam (muçulmano) e de festas religiosas diversas.
Nos últimos anos, contudo, Mumbai torna-se, cada vez mais, apenas a capital do Estado de Maharashtra - perdendo os ideais típicos de Bombaim. Isto se reflete, entre outros aspectos, em crescente intolerância contra o que alguns “líderes conservadores” definem como agressão à cultura indiana.
Assim, durante período que antecedeu o Dia dos Namorados (”Valentine’s Day”), em 14 do corrente, Mumbai - que foi vítima de atos terroristas, no final de novembro de 2008 - passou a ser palco de declarações contra o que poderia ser identificado como “terrorismo afetivo”, pelos referidos auto proclamados “guardiões das tradições nacionais”.
Segundo, por exemplo, um certo Sri Ram Sene, caberia exigir que as mulheres indianas usem apenas saris, não frequentem bares, não comemorem o Dia dos Namorados e não beijem em público. Houve ameaças de agressões físicas àquelas que contrariassem tais sentenças talibãs e de queima de lojas que vendessem cartões comemorativos da data (Talvez seja possível acessar gravação de sisudo pronunciamento deste simpático grupo, em http://cosmos.bcst.yahoo.com/up/player/popup/index.php?cl=12025057) .
Como reação, formou-se o consórcio das “Pubgoing, Loose and Forward Women” (Mulheres que frequentam bares e adotam comportamento liberal) que se dispuseram a enviar calcinhas cor de rosa para o referido líder conservador, no “Valentine’s Day”.
Desenvolveu-se, então, curioso debate, tendo, por um lado o novo símbolo das calcinhas rosas, como protestos contra ações com forte coloração contrária à emancipação feminina. Por outro, o sari - parece que, de preferência, de outra cor - permanece sendo o símbolo da feminilidade indiana.
No dia 14 de fevereiro de 2009, a “polícia ideológica” (alguns integrantes envergavam seus uniformes de policiais) espancou casais, por simplesmente estarem juntos. Assim, houve caso em que um irmão e uma irmã foram agredidos, por engano. Rapazes e moças, por estarem próximos, foram obrigados a “casar” - ou trocaram votos matrimoniais. Sem maiores explicações, por não ter sido encontrada a companheira com quem havia sido visto antes, os vigilantes casaram um adolescente com um burro (??!!). Cabe notar, que, na novela, a personagem Maya, de Juliana Paes, casa com uma árvore.
Em contrapartida, na mesma data, houve vendas recordes de cartões do Dia do Namorados. O rosa tornou-se extremamente popular, inclusive para preservativos. Jovens desafiaram os que querem ditar-lhes normas de conduta ditas “culturais” e celebraram, publicamente, seu afeto mútuo.
Percorrem-se, nessa perspectiva, caminhos “nunca dantes navegados”. A “Incredible India”, das propagandas turísticas oficias com suas múltiplas cores, passa a ser vista como um país monocromático.
O lindo colorido da novela da TV Globo corre o risco, aqui, de tornar-se, seja numa enorme área cinzenta, pelo terror dos comportamentos impostos pelos ditos conservadores, seja numa vasta mancha rosa, em reação aos que se opõem às manifestações de afeto e emancipação feminina em Mumbai.
Enquanto isso, continua sendo politicamente correto homens andarem de mãos dadas ou intimamente abraçados - parece que como forma tradicional de demonstrar amizade masculina.

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata de carreira e atualmente exerce a função de Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai. As opiniões expressas neste artigo são de sua inteira responsabilidade e não refletem posições do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (papinto2006@gmail.com).
Meridiano 47

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Verdades do hinduísmo


Por Juliana Di Thomazo
Ainda não amanheceu e milhares de homens e mulheres se aglomeram nos ghats, as famosas escadarias que cercam o rio Ganges, ou Ganga, como preferem os indianos. Ali, nessa parte onde corta a mais antiga cidade da Índia, Varanasi, quase tudo tem um toque sagrado. Os milhares de homens e mulheres parecem se preparar para um banho, mas um olhar mais apurado evidencia não se tratar de algo comum. A intensidade e repetição dos movimentos, além dos apetrechos utilizados, denotam a diferença. Trata-se de um ritual de purificação. Está escrito nos textos sagrados. Aqueles que o praticam livram-se das impurezas, que não devem ser confundidas com pecado, pois elas podem acometê-los a qualquer momento e independem dos seus atos e vontades.

A alguns metros dos ghats, na mesma margem, uma fumaça branca chama a atenção. Durante todo o dia são cremadas centenas de pessoas que depois têm suas cinzas atiradas como presente ao Ganga. Segundo a crença antiga, essa é uma forma de se libertar do samsara, uma necessidade da alma que deve voltar para liquidar o saldo em um ciclo de existências sucessivas. O mais antigo e importante documento da literatura indiana, um dos quatro livros dos Vedas – Rig Veda – é repleto de formas de rituais e ritos. Entre eles, é possível encontrar o do funeral. A cremação é o mais habitual dos funerais. Ela é precedida por um cortejo fúnebre de parentes homens que transportam o defunto envolvido por um pano e cercado de flores. A cor do pano corresponde ao sexo. Em homens, usa-se o branco, nas mulheres, vermelho. Antes da incineração, os presentes dançam e cantam para libertar o espírito de todos os demônios.
Ganesha pertence à família dos deuses mais populares do Hinduísmo. Ele é o primogênito de Shiva e Parvati. Shiva é a terceira pessoa da trindade hindu.

Para aqueles que não conquistaram a libertação, a morte é apenas um desaparecimento momentâneo. Já os que conseguem se libertar têm o caminho dos deuses. A fogueira é acesa. Para os santos ou pessoas de castas superiores a madeira usada é mais cara, o sândalo. Também para esses, fica reservado o melhor e mais alto espaço do crematório artesanal à beira do Ganga. O crematório elétrico, que fica bem ao lado, dá conta dos cadáveres menos abastados, cuja família não pode pagar os 110 dólares mínimos pelo ritual artesanal.

Choque ocidental A poucos passos dali um cão remexe um pedaço de carne.
– O que ele está comendo?
– O pedaço de um corpo que o Ganga devolveu, responde um guia local.
Sem muita cerimônia ele acrescenta: “é o ciclo natural da vida”. Após a cremação, alguns membros do corpo que não se tornaram cinzas são atirados ao Ganga. Atiradas ao rio também são as crianças e vítimas de doenças contagiosas, como a lepra. Isso porque se crê que eles não cumpriram o ciclo da vida, por seus corpos terem sido invadidos por espíritos malignos que não devem ser desafiados.

Esses corpos são amarrados numa pedra e jogados no rio. Evidentemente se desprendem, sobem e se tornam alimento de urubus, cães e outros bichos. O curioso é que, com tudo isso, o Ganga, incluindo os corpos queimando em fogueiras que mais parecem as montadas nas festas de São João, não exala odor forte. E isso acaba servindo de justificativa para os guias locais defenderem que o rio é limpo e que não há problema algum em se banhar nele ou mesmo beber de sua água.

Como em qualquer outra religião ocidental, o inexplicável se responde através da fé. Mas o que parece mais diferenciar o hinduísmo das religiões ocidentais é o fato de estar presente em quase todos os aspectos da vida cotidiana e extrapolar completamente os espaços sagrados. Do vestuário e alimentação à forma de organização social e política, não há o que não tenha seu toque.

Basta entrar em uma residência hindu. Elas são como um templo. O ritual se inicia na porta, onde devem ser deixados os sapatos, que por tocarem as ruas são considerados impuros. Principalmente se forem de couro, já que foram produzido a partir de um animal morto. Dali pra dentro, as manifestações continuam. Nas paredes e cantos da casa há diversas formas de homenagem aos deuses preferidos dos moradores. Elas se dão através de altares, calendários com imagens e até de adesivos. Incenso, lamparina com azeite e flores são alguns dos objetos colocados ao lado das imagens.

A vaca sagrada A religiosidade também se manifesta na cozinha. O povo hindu é majoritariamente vegetariano. Acredita-se que os animais são seres sagrados e, portanto, não podem ser mortos. Entre eles e os homens existe apenas uma diferença no grau de evolução. Dentre os animais, a vaca é o destaque. Sua sacralização é algo que muito intriga os ocidentais.

Há três mil anos, elas eram tratadas como qualquer outro animal. Serviam para dar leite e também carne, e eram até sacrificadas e depois oferecidas aos deuses. Mas os sábios daquele tempo chegaram à conclusão de que o animal, importantíssimo para a sobrevivência, caminhava para a extinção e então a sacralizaram como mãe e deusa. Hoje ela desfila tranqüilamente pelas ruas de grandes metrópoles, como Mumbai.

Tudo o que vem da vaca também é sacralizado. O leite é usado em muitos alimentos e o esterco serve para purificar as casas. Durante muito tempo matar uma vaca era considerado crime mais grave do que matar alguém nascido em uma casta inferior, como um sudra ou dalit.

Com toda a opressão que existe contra os indivíduos de classes mais desfavorecidas, a Índia é um país pacífico. Até porque, entre os caminhos propostos pelo hinduísmo, o da não-violência é o que mais se destaca. E isso resiste mesmo em meio a enorme miséria do país. É verdade que a distribuição de renda na Índia é melhor do que no Brasil, o que pode ser uma explicação. Mas o desprendimento material, pregado pelos livros sagrados hindus, é o principal motivo.

Entre outras coisas, os textos sagrados dizem que nenhum ser é submetido a provações maiores que sua força e que a condição em que cada homem foi colocado na terra se refere ao seu dever ou dharma que, por mais duro que seja, deve ser cumprido. Essa é a noção que fundamenta o hinduísmo ou o Sanatana Dharma como preferem seus seguidores. O dharma universal é a ordem cósmica, o suporte dos seres e de todas as coisas. Mas ele é ao mesmo tempo um “dever individual”. Aquele que se afasta do seu dharma renascerá em uma condição pior. O que se faz em vida, seus atos e pensamentos, produzem o kharma de cada ser. O corpo nasce e morre inúmeras vezes até que seja “liquidado o seu saldo”, o kharma.

Mas, de qualquer forma, é preciso considerar, como lembra Fernando Altemeyer Júnior, professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP, que conformismo diante da injustiça não é exclusividade da Índia: “No Brasil, parte da população miserável se acha culpada por sua miséria”.

juliana@revistaforum.com.br
Revista Forum

Neoliberalismo aprofunda exclusão de Dalits

Maurício Hashizume
O coordenador da Conferência Nacional de Organizações Dalit (National Conference of Dalit Organisations), Ashok Bharti, que representa cerca de 200 movimentos organizados de dalit espalhados por toda a Índia conta como é ser um “intocável”, explica quais as principais reivindicações e lutas desse segmento da população e diz que com a agenda neoliberal a situação só piorou.


O que é ser um dalit na Índia? Ashok Bharti – A nossa situação, hoje, mesmo depois de alguns avanços, é bem pior que a discriminação dos negros que lutaram sob o comando de Martin Luther King.


Para um estrangeiro, não é simples identificar um dalit. Existe alguma forma de distinguir um “intocável” de um indiano das outras castas? Uma das identificações visuais de um dalit, que em Mumbai se concentram em conglomerados humanos parecidos com favelas chamados de “villages”, são os colares e as pulseiras negras feitas de pequenas miçangas. E se um dalit ou uma dalit estiver vestindo uma roupa considerada de qualidade “superior”, ou uma jóia mais valiosa que o ornamento negro nos pescoços, pode ter seus pertences confiscados por qualquer um.
Quais dados concretos podem evidenciar melhor essa constatação de que a política com base no neoliberalismo atinge preponderantemente os “intocáveis”? Fizemos um estudo e notamos que os empregos para dalit dentro do setor público foram reduzidos em 10% nos cinco primeiros anos de política neoliberal na Índia. Percebemos também que o número de empregados públicos não-dalit de todo o país caiu 3% de 1992 a 1997. No mesmo período, esse mesmo índice para os “intocáveis” foi de 5,8%. E segundo números oficiais, os gastos governamentais com bem-estar social para a população não-dalit vêm aumentando muito mais do que o mesmo gasto voltado para os dalit. Somos os primeiros a ter a dignidade perdida. O ônus da adoção de políticas neoliberais recai preponderantemente sobre nós.
O senhor citou aspectos relacionados à educação em uma de suas respostas. Como o senhor avalia essa relação entre o ensino e os dalit? Existem basicamente três problemas centrais a serem superados na questão da educação. Primeiro, qualquer referência à cultura e à história dos dalit está fora de todos os currículos escolares, desde os cursos básicos até a educação superior. Não há também cursos de pós-graduação sobre nós, os dalit. Ou seja, quem formula as políticas públicas da educação na Índia ignora cabalmente a existência dos dalit. Segundo, não existe uma atmosfera propícia para a educação das crianças dalit. Elas são obrigadas a estudar a subjugação. Por exemplo: a vida e o papel cívico de praticar genocídios contra a população dalit. Para completar, os cursos de formação de professores não prevêem o tratamento especial de crianças “intocáveis”. Sabemos de histórias como a de uma garota que foi punida com agressões no rosto e perdeu a visão por “conduta inadequada” para uma dalit em uma escola comum da Índia. O que nós defendemos é que se o problema for ignorado, não haverá modos de resolvê-lo.

ImprimirEnviar por e-mailMaurício Hashizume, da Agência Carta Maior
Revista Forum

Os Intocáveis

Eles não andam carimbados como animais em fila para o matadouro e também não há um selo colado na testa que diga se são brahmanes, kshatriyas, vaishyas, sudras ou, pior ainda, dalits e parias, os intocáveis. Para a cultura ocidental, esse é um dos aspectos da sociedade hindu que mais intriga. O sistema de castas.

Não há exatamente um dia consagrado como o primeiro da vigência dessa estúpida forma de classificação de seres humanos, mas alguns livros apontam que começou há 4,5 mil anos, com a invasão dos arianos – mistura de europeus com indianos e que por isso eram mais claros. E também mais robustos, selvagens e rudes. Imagina-se que eram pastores e teriam vindo das estepes do sul da Rússia. Em pouco tempo, dominaram boa parte do território que hoje forma a Índia, o Paquistão e Bangladesh. Na verdade, a antiga Índia, que foi dividida após a independência da Inglaterra por questões religiosas e interesses geopolíticos dos antigos colonizadores.

Em sânscrito, casta é varna, que significa cor. Ou seja, no princípio (e de algum jeito até hoje), as diferentes classificações sociais guardam relação com a cor da pele. Os arianos, mais claros, eram os superiores. Até aí, nada muito diferente do que vivemos no Brasil.

Na lógica do sistema de castas existem quatro grandes grupos. O primeiro, os brahmanes. Eles se encarregam da educação, tanto religiosa como de outros saberes. É a casta superior, que detém o conhecimento. Depois vêm os kshatriyas. São funcionários públicos, administradores e defensores do povo. A terceira casta é a do vaishyas, os que trabalham na indústria, no comércio e na prestação de serviços. Por fim, o sudras, que existem para servir às outras castas. São os faxineiros e servidores em geral.

Há ainda uma quinta classificação, que é “extracasta”, os dalits, para nós ocidentais, os intocáveis. Aqueles que os membros de outras castas evitam qualquer contato. Em outros tempos tinham de carregar algum objeto sonoro para fazer notar sua presença. Para que pessoas de castas superiores pudessem se esconder, já que até a sombra de um dalit ou mesmo de um sudra era algo contaminável.

Eles trabalham com todo tipo de dejeto, principalmente lixo. Vivem em cantos isolados, em meio ao que há de mais degradante do ponto de vista da miséria. Cerca de 62% de sua população é analfabeta, enquanto nas demais castas a cifra não ultrapassa os 48%. Metade das crianças dalits abandona a escola no nível primário e somente 0,6% dos professores indianos possuem esta origem. Mais de 45% dos dalits trabalham na agricultura, mas nem 15% destes possuem terra. Menos de 31% deles têm eletricidade em casa e mais de 50% vivem abaixo da linha de pobreza. Sem falar, por exemplo, que os casos de estupro entre as mulheres dalits são freqüentes que em apenas dois anos (de 1995 a 1997), aconteceram mais de 90 mil crimes contra membros dessa comunidade.

Por que aceitam essa condição sem grandes revoltas? Porque, na verdade, pagam o que fizeram na outra encarnação. Eles nasceram numa casta inferior por predestinação. Ou seja, esse é o kharma que têm de cumprir para atingirem algo melhor numa nova vida. A justificativa para a imobilidade social na Índia também se explica pelos textos sagrados. Manu, um famoso pensador hindu do século I, foi o primeiro a justificar essa situação:

“Para proteger esse universo, o ser resplandecente determinou deveres e ocupações diferentes para aqueles que nasceram de sua boca, braços, músculos e pés. Aos brahmanes destinou a vocação de ensinar e de ler o Veda (texto sagrado), oferecer sacrifícios para seu próprio benefício e dos outros. Aos kshatriyas ordenou proteger as pessoas, fazer doações, oferecer sacrifícios, estudar o Veda e se abster dos prazeres sexuais. Aos vaishya encomendou o cuidado do arrecadado, fazer doações, oferecer sacrifícios, estudar o Veda, fazer negócios, emprestar dinheiro e cultivar a terra. O senhor prescreveu somente uma ocupação aos sudras, a de servir mansamente às outras castas.”


A história de que a sociedade indiana é muito complexa e de que existem milhares de castas e subcastas é meia-verdade. De fato, o que vale é a existência dessas quatro grandes castas e dos fora-delas, os dalits. As outras são, na verdade, subcastas, criadas para que dentro da própria casta haja diferenciação. Ou então invencionices do tipo “castas dos limpadores de ouvidos” ou dos “trabalhadores de informática”.

Para se ter uma idéia, entre os brahmanes, os sacerdotes, aqueles que ministravam cultos em templos onde só podiam entrar os seus, eram de uma subcasta superior aos outros brahmanes que trabalhavam em contato com os sudras. E assim por diante, até chegar aos intocáveis, que trabalham com a podridão e cujos filhos estariam condenados a seguir o mesmo caminho.

Ghandi foi um dos homens que mais se indignou contra esse esquema. Hoje, ele ainda perdura, mas não é algo determinado pelo do Estado. Ao mesmo tempo é útil.
O sistema de castas deve ser derrotado pela lógica do capitalismo, que precisa alimentar o sonho de que todos podem galgar o paraíso ainda em vida. E isso de algum jeito já está começando. Quando um deles deixa seu pequeno vilarejo (existem 575 mil na Índia, onde vivem 75% da população) e ruma para a cidade grande, não é mais reconhecido como de uma ou outra casta. Torna-se mais um. O que pode até significar um momento de libertação. Mas o que não garante que se torne o caminho para uma vida melhor. Até porque, o neoliberalismo só tem piorado a vida daqueles que vivem no porão da sociedade indiana (leia entrevista abaixo).


rovai@revistaforum.com.br

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos