Mostrando postagens com marcador Cáucaso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cáucaso. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Notícias Geografia Hoje


Regiões NATO pede à Rússia que reveja reconhecimento de barreiras
O secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, apelou hoje à Rússia para retirar as barreiras levantadas nas linhas que separam as regiões separatistas da Ossétia do Sul e Abkházia do resto da Geórgia.

Num comunicado, Rasmussen exprimiu a sua "preocupação" por essas atividades, que "contradizem os compromissos internacionais da Rússia e não contribuem para uma solução pacífica do conflito".

"Tem um impacto negativo na situação no terreno e afeta a vida dos cidadãos da Geórgia que vivem em qualquer dos lados das linhas de limite administrativo", assinalou.

Rasmussen recordou que a posição da NATO sobre o conflito georgiano é "muito clara" e passa por apoiar a "integridade territorial e a soberania da Geórgia dentro das suas fronteiras, reconhecidas internacionalmente".

"Pedimos à Rússia que recuse no seu reconhecimento das regiões georgianas da Ossétia do Sul e Abkházia como Estados independentes", sublinhou.

A mensagem da Aliança Atlântica chega depois de o Governo da Geórgia ter criticado duramente a construção de fortificações na fronteira entre Geórgia e Ossétia do Sul, iniciada recentemente por guardas fronteiriços russos.

Depois da guerra russo-georgiana de 2008 pelo controlo da Ossétia do Sul, Moscovo reconheceu esta região e a Abkházia Estados independentes, levando a que a Geórgia rompesse relações diplomáticas com a Rússia.

A NATO, entretanto, mantém o compromisso de admitir a Geórgia como Estado independente desde que cumpra com todos os requisitos.
http://www.noticiasaominuto.com

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Cáucaso Norte e a falência das ideologias e da repressão


O uso da violência por parte da Rússia em conjunto com problemas estruturais tem proporcionado o contexto perfeito para a disseminação de ações extremistas na região

Por Raphael Tsavkko Garcia
Cáucaso Norte, também conhecido como Cáucaso Russo. Nesta região de extrema diversidade étnica convivem as repúblicas da Chechênia, Ingushétia, Daguestão, Karatchaievo-Tcherkássia e Kabardino-Balkária, todas de maioria islâmica, além da Ossétia do Norte, de maioria cristã-ortodoxa. A região é historicamente conflituosa: ossetas e ingushes já entraram em guerra por questões de fronteira (1991, na esteira do fim da URSS), os chechenos já protagonizaram duas guerras sangrentas com os russos (1994-97 e 1999-2000), e o Daguestão vive em constante conflito interno, mas um novo fator de tensão vem surgindo na região.
A resistência à ocupação russa se deu estritamente em bases étnico-linguísticas e na história independente desses povos em relação à Rússia, porém, nos últimos anos, particularmente depois do 11 de setembro e da derrota chechena nas duas guerras contra a Rússia, o terrorismo de viés islâmico, salafista e com suposto apoio da Al-Qaeda, vem crescendo de forma assustadora.
Em meio à resistência e guerrilhas chechenas é possível encontrar um enorme contingente de muçulmanos de países do Golfo engajados na luta pela criação não mais da República Chechena de Ichkeria, islâmica mas moderada, e sim do Califado do Cáucaso, comprimindo todas as repúblicas islâmicas – ou não – da região.
Ao mesmo tempo em que cresce a repressão contra os ativistas de direitos humanos, crescem também os ataques a "autoridades" russas ou cooptadas pela Rússia na região. O caso mais notável foi o ataque à bomba que quase tirou a vida do presidente da Ingushétia, Yunus-Bek Yevkurov, em junho de 2009, mas os ataques e assassinatos continuam e são cada vez mais audaciosos.
A Chechênia e o Daguestão
Desde que assumiu a presidência da República Autônoma da Chechênia (em 2007), indicado por Putin – que havia abolido qualquer tipo de eleição para a presidência de repúblicas autônomas –, Ramzan Kadyrov vem promovendo uma escalada de violência sem precedentes na região. Inegavelmente este homem é um dos maiores responsáveis pelo completo descontrole na região.
Kadyrov, um ex-rebelde que traiu a causa nacionalista e assumiu a presidência após o assassinato de seu pai, presidente – nacionalista – da Chechênia nos anos 1990, é conhecido por sua brutalidade e violência extrema no trato com rebeldes e qualquer um que o afronte ou o desagrade. Ele é tido como responsável por perseguições, torturas e assassinatos diversos, como os das ativistas de direitos humanos Natalya Esterminova, Anna Politkovskaya e do advogado Stanislav Markelov. Um dos episódios mais marcantes da sua trajetória na presidência chechena foi a encomenda do assassinato de seu ex-guarda-costas, Umar Israilov, que vivia no exílio na Áustria e se dedicava a denunciar seu ex-chefe.
Junto com o problema das guerrilhas islâmicas, no Daguestão há ainda a questão do conflito inter-étnico entre as dezenas de minorias que habitam a república, que está longe de ser homogênea. Sob o mesmo teto convivem ávaros, lezgins, kumyks, russos, laks, e mais outra dezena de grupos minoritários, nenhum dos quais tem uma maioria significativa. Além disso, é válido notar que, ao longo da história, estes nunca foram grandes amigos.
O Daguestão é uma república artificial que agregou povos díspares sob uma mesma administração repressiva e um número impressionante de forças de segurança. Já em Kabardino-Balkária e Karatchaievo-Tcherkássia é visível o aumento das ações de grupos islâmicos. A perseguição a clérigos independentes e a ideia de que todo islâmico é um fanático em potencial – ou seja, a promoção de perseguições, prisões, tortura e assassinados de "elementos perigosos" – acabou por criar, de fato, este inimigo em lugares jamais imaginados anteriormente.
A raiz do conflito
Obviamente esta onda de violência e o crescimento do radicalismo islâmico na região possui razões várias. Em primeiro lugar, as sucessivas derrotas (ou o não cumprimento de seus objetivos) das guerrilhas e da resistência local ao longo dos anos 1990. Mas não só, também o fracasso generalizado dos grupos de orientação marxista ou similar por todo o Oriente Médio e proximidades (notadamente na luta Palestina, como Fatah, FPLP etc).
O fracasso dos regimes "pan-arabistas" no período 1960-1980, culminou com o surgimento e crescimento de grupos de caráter islâmico militante como Hizbollah, Hamas e o crescimento acelerado da Irmandade Muçulmana até, enfim, Talibã e Al-Qaeda. Ou seja, a ideia de guerrilha com viés de esquerda, majoritariamente laica, não "funcionou", ou ao menos esta é a visão corrente e propagada.
Em segundo lugar, Txente Rekondo, do Gabinete Basco de Análises Internacionais (GAIN), na página do Rebelion.org em 2009, aponta “o desemprego, a corrupção, a brutalidade policial, todos eles temperados com grandes doses de impunidade, os importantes bolsões de refugiados e deslocados” como “alguns dos fatores locais que fornecem altas doses de desestabilização à situação”.
Juntando estes dois momentos, a falência da ideologia dominante nos anos 1960-1980 e o aumento da repressão em conjunto com problemas estruturais e também advindos dos anos de conflito, temos o campo perfeito para a disseminação de uma ideologia extremista que deturpa os ensinamentos islâmicos e os utiliza como arma de ódio para a criação não de uma república baseada não mais no componente étnico local, mas na religião.
Cabe ainda uma terceira razão ou elemento, reflexo da Guerra ao Terror criada pelos EUA, a globalização/internacionalização dos grupos terroristas com o objetivo de angariar maior apoio, melhorar a logística e conseguir maior visibilidade. Com o surgimento da Al-Qaeda e de grupos de caráter islâmico, a solidariedade e alcance entre eles cresceu de forma assustadora. Se até o começo dos anos 1990 mal se ouvia falar em "terrorismo islâmico" – ainda que por vezes o termo seja absolutamente mal empregado – hoje em dia esta é a única expressão que se ouve.
Para além do perigo real do fanatismo religioso – que não é exclusividade islâmica – existe uma enorme máquina de propaganda, controlada notadamente por Israel e pelos EUA. Em muitos casos torna-se difícil definir o que é exatamente o “terrorismo islâmico” e quando um determinado ataque pode ser caracterizado como “terrorista”.
A internacionalização do que se convencionou chamar de terrorismo, porém, não é nova. Já nos anos 1960-1970 a ETA, a Fração Exército Vermelho (Baader-Meinhof) e outros grupos treinavam lado a lado com grupos palestinos e deles recebiam financiamento. Guerrilheiros brasileiros treinavam em Cuba e assim por diante.
O mito do “terrorismo islâmico”
O que parece novo é a suposta centralidade ideológica ou de ação na Al-Qaeda. Até onde isto é verdade não se sabe, mas as agências de inteligência costumam ligar a Al-Qaeda a quase todo tipo de ação coordenada islâmica. A mera presença de elementos árabes lutando junto à guerrilha islâmica chechena foi suficiente para que a máquina de propaganda russa logo anunciasse que a Al-Qaeda estava presente e que a resposta deveria ser à altura, ou seja, sangrenta. Até onde existe esta influência não se sabe.
O cientista político Robert Pape analisou – por meio das biografias e de entrevistas com familiares –, entre 1982 e 1986, 38 dos 41 "terroristas" suicidas do Hizbollah, um dos bastiões do que chamam de “terrorismo islâmico”. O senso comum diria que todos foram ataques cometidos por "militantes islâmicos" quando, na verdade, apenas 8 eram efetivamente “fundamentalistas” religiosos; 27 eram de grupos de esquerda (logo, não poderiam ser considerados militantes islâmicos) e 3 eram cristãos.
Ou seja, muitas vezes o que se trata por "terrorismo islâmico" é uma deturpação completa. Assim como a ideia de que absolutamente tudo é ação da Al-Qaeda e de supostas ramificações.
Sabe-se que representantes no exílio da República Chechena da Ichkeria estão tentando entrar em acordo com o líder linha-dura dos islâmicos para frear a onda de violência na região. O pior dos cenários, vale sempre lembrar, é de uma luta não só da resistência chechena contra a Rússia, mas entre as facções dos próprios chechenos, entre laicos e islâmicos, o que apenas contribuiria para uma piora na já frágil situação dos direitos humanos na região.
A receita do Kremlin de menos democracia e mais repressão vem demonstrando ser catastrófica. A imposição de Kadyrov ao povo checheno e de Yevkurov na Ingushétia (ainda que no lugar de um carniceiro odiado), não ajudaram a conquistar a população local, muito pelo contrário. Conjugando os fatores históricos e conjunturais já analisados com o crescimento da repressão russa sobre suas minorias, e o assassinato indiscriminado de opositores e ativistas, teremos no Cáucaso uma região prestes a explodir ou, na verdade, já explosiva e incontrolável, por maiores que sejam os esforços russos que, como se sabe, são esforços mal direcionados e desesperados.
Por fim, vale ainda lembrar que a recente intervenção russa na Geórgia (já no Cáucaso Sul) para "libertar" a Ossétia do Sul e Abkházia não contribuiu para acalmar os ânimos da região; na verdade, serviu apenas para demonstrar a hipocrisia da Russa e aumentar ainda mais a força dos ataques e o sentimento nacionalista das minorias.
A única conclusão possível é a de que as políticas russas para o Cáucaso Norte são, no mínimo, ineficazes e, mais ainda, são as grandes responsáveis ou pelo menos uma das responsáveis pelo crescimento do terrorismo dito islâmico na região, da resistência feroz e violenta e da mudança de paradigma da resistência na região. REVISTA FÓRUM

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Cáucaso - Em torno do Mar Negro

Em torno do Mar Negro

Fechado, fortemente afetado pela poluição, às vezes tido como um espaço “marginal”, o Mar Negro está no coração da redefinição de entraves estratégicos maiores. Nesse diário de viagem, é possível entender o mosaico de países, interesses e histórias que compõem a diversidade dessa região

por Jean-Arnault Dérens , Laurent Geslin

SINOPSE, Turquia

No dia 1° de maio de 2010, enquanto os sindicatos juntavam suas tropas na Praça Atatürk, os barcos pesqueiros do Porto de Sinope mostravam-se a favor da mobilização antinuclear: “Sinop nukleer istemiyor!”- “Sinope não quer central nuclear!”.

Nessa pequena cidade do litoral turco do Mar Negro, o projeto cristaliza a cólera dos habitantes, enquanto a costa que se estende de Istambul a Sinope continua selvagem e preservada. A porção que vai de Sinope até a fronteira com a Geórgia, com aproximadamente 600 km, foi completamente cimentada. Uma autoestrada priva as cidades de qualquer acesso à costa e várias delas têm centenas de imóveis inacabados, que abrigam uma população chegada recentemente das montanhas na esperança de alcançar melhores condições de vida.

Em alguns pontos, a autoestrada foi construída sobre aterros hoje ameaçados pela erosão. Para tentar prevenir o fenômeno, foram feitos diques de cimento a alguns quilômetros uns dos outros. O remédio é talvez pior que a doença, pois eles bloqueiam as correntes, retêm os sedimentos e transferem o problema para alguns metros adiante. Às vezes, os barcos de pesca ficam atracados ao abrigo desses diques, mas é somente atravessando a autoestrada que se tem acesso a esses novos portos, que não oferecem nenhum serviço e onde muitos barcos parecem estar abandonados.

A pesca em outros tempos lucrativa no Mar Negro está ameaçada pelo esgotamento dos recursos haliêuticos. A Rússia impôs à Turquia uma limitação estrita das zonas de pesca. As águas do Mar Negro estão particularmente ameaçadas pela eutrofização, ou seja, uma quantidade altíssima de material orgânico, especialmente de algas. Esse fenômeno é a consequência direta do excesso de nutrientes jogados no mar, como o azoto e o fósforo produzidos pela exploração agrícola. A eutrofização “sufoca” o mar, rarefazendo a circulação de oxigênio; um fenômeno amplificado no Mar Negro, um mar relativamente pouco salgado, porque as águas são provenientes de grandes rios, que nele desembocam, como o Dniester ou o Danúbio.

Várias organizações intergovernamentais, como a Comissão pela proteção do Mar Negro contra a poluição, alertam há anos sobre o problema; mas, desprovidas de competências operacionais, elas podem apenas fazer recomendações1. Porém, a proteção ambiental não faz parte das prioridades desses países do entorno.

Depois de ter cimentado a costa, o governo turco mudou o foco para o desenvolvimento da produção elétrica. Os projetos de barragens multiplicam-se desde a privatização do mercado de energia, há mais ou menos 15 anos, e puseram fim ao monopólio do Turkiye Elektrik Kurumu, empresa nacional. O Estado contenta-se em interpretar um papel de regulador do mercado por meio da sua agência EPDK e cede os rios às empresas privadas em concessões por 49 anos. No total, nada menos do que 1.300 estudos para a construção de barragens teriam sido feitos em todo o país, dos quais 600 na região do Mar Negro. “A mobilização permitiu adiar, por enquanto, um projeto de central hidrelétrica no nosso vale. Essa barragem teria coberto 0,14% das necessidades energéticas do país, enquanto estimamos as perdas ligadas ao transporte da eletricidade em mais de 30% sobre o total da rede”, explica Selco Günay, proprietário de um pequeno hotel no Vale de Firtina e porta-voz da plataforma ecologista da região.

Samsun, Turquia

“Há seis gerações, os Tcherkesses não comem peixe. Nossos ancestrais povoavam toda a atual costa russa, de Novorossiisk a Sochi. Desde o início do século XIX, a Rússia czarista lutou para conquistar a Circássia2. E só parou em 1864, com o esmagamento das tribos tcherkesses na batalha de Kbaada. Os sobreviventes não tiveram outra escolha, além de fugir para o Império Otomano. Eles foram encurralados próximo às costas, esperando pelos navios que deveriam levá-los3. Muitos morreram de malária e de outras doenças adquiridas nas regiões insalubres; outros, durante o trajeto. Os corpos eram jogados na água. É por isso que rejeitamos sempre comer peixes”, lança Othan Dögbay, que preside a associação dos Tcherkesses, de Samsun. Esses últimos chegaram à Turquia depois da conquista russa das margens setentrionais do Mar Negro.

Uma grande causa mobiliza os Tcherkesses da Turquia, que compõem o total de 4 a 5 milhões de pessoas: a oposição aos Jogos Olímpicos de Inverno, que serão realizados em Sochi, em 2014. De fato, o local principal desses jogos serão as montanhas que ficam bem acima das cidades, na estação de esqui de Krasnaia Poliana, que corresponde ao local da batalha de Kbaada. “Na Rússia, ‘Krasnaia Poliana’ significa “o bosque vermelho”, e os russos dizem que esse nome vem da cor das samambaias que lá crescem. Mas nós sabemos que esse lugar ficou avermelhado por conta do sangue dos nossos ancestrais”, enfatiza Dögbay.

As organizações tcherkesses pediram embargo ao Comitê Olímpico Internacional, sem obter resposta satisfatória. Elas exigem o reconhecimento do “genocídio tcherkesse”. No início de abril, uma delegação do congresso mundial tcherkesse, baseada nos Estados Unidos, encontrou parlamentares georgianos. Com o governo de Mikheïl Saakachvili utilizando todos os meios para se opor a Moscou, a Geórgia pode ser o primeiro país no mundo a reconhecer oficialmente esse “genocídio”.

Trabzon, Turquia

Ao longo de todo o século XX, a costa do Mar Negro também viu intensas misturas de populações. Os gregos “pontiques”4 praticamente desapareceram das margens turcas desde os acordos de Lausanne (1923), que previram a troca de populações entre a Grécia e a Turquia. Trabzon, antiga Trebizonde grega, representa o centro do nacionalismo turco. Desta cidade veio o presumido assassino do jornalista armênio Hrant Dink, morto em Istambul no dia 19 de janeiro de 20075. Gültekin Yücesan anima o comitê local de defesa dos direitos da pessoa, sempre se proclamando “revolucionário luxemburguista”, em referência à alemã Rosa Luxemburgo. Durante uma noite longa, ele nos explica que a armada e os diferentes serviços secretos fazem de Trabzon sempre um símbolo: “De onde viemos, a tradição militar kemalista6 não está morta”. Portanto, a cidade é igualmente marcada por uma prática do islã cada vez mais ostentatória e rigorosa. É necessário descer nos bairros do porto para encontrar bares que servem abertamente bebidas alcoólicas, enquanto mulheres jovens se insinuam aos marinheiros que passam. É verdade que a clientela visada é mais russa do que turca.

Todo dia os barcos de travessia ligam Trabzon a Sochi, na Rússia. A qualidade do transporte é ruim e os horários são incertos, mas uma multidão atarefada apressa-se para embarcar. Entre os companheiros de viagem, há mulheres russas “sacoleiras”, que levam ao país algumas malas de roupas ou artigos facilmente revendíveis; trabalhadores georgianos emigrados na Rússia, que devem passar pela Turquia, já que todas as ligações diretas entre seu país e a Rússia foram interrompidas desde a guerra de 2008; há também muitos caucasianos.

Sokhumi, Abkházia

Essa carga particular não impede os passageiros de desembarcarem em Sochi, onde os preparativos para os Jogos estão bem adiantados. Está sendo construída uma autoestrada que vai ligar a futura cidade olímpica de Adler, na costa, à Krasnaia Poliana. A pequena estação balneária de Adler se situa na fronteira da Abkházia separatista.

“Nós esperamos, certamente, o retorno econômico dos Jogos” assegura, com um sorriso, Viatcheslav Chilikba, conselheiro do presidente abkhaze. A Abkházia, antiga “pérola” do rio soviético, que se separou da Geórgia, em 1994, depois de terríveis combates que deixaram mais de 8 mil mortos, proclamou sua independência após a guerra de agosto de 2008 entre a armada georgiana e as forças russas7. Os abkhazes representariam hoje 45% dos 250 mil habitantes da pequena república onde vivem igualmente os armênios, os russos e os gregos pontiques. A maioria dos 250 mil georgianos fugiu da Abkházia ou foi expulsa depois da guerra de 1994. Um retorno não parece possível. “Se os refugiados voltarem, haverá nova guerra. A maior parte deles tem sangue nas mãos.”, martela o presidente Sergeï Bagaptch.

A Abkházia8 é ainda atingida por um embargo proclamado pela Geórgia e aplicado por quase todos os países da comunidade internacional. O porto da capital, Sukhumi, que tem no alto uma imensa bandeira Abkházia e que domina o Mar Negro, acolhe regularmente cargueiros provenientes de Trabzon. Esses navios vão supostamente para Batumi, na Geórgia, mas saem da rota para vir descarregar na Abkházia.

Os habitantes da capital frequentam cafés em frente ao mar, onde os turistas ainda são poucos, mesmo com os grandes investimentos de Moscou. Sukhumi defende-se de ser um peão da Rússia. “Nós acolhemos duas bases militares russas, ou seja, 10 mil homens para assegurar a proteção dos nossos cidadãos ante as forças georgianas, e, pela primeira vez desde 1994, podemos dormir em paz”, justifica-se Bagaptch. O tom se endurece: “Se a Abkházia é um protetorado russo, a Geórgia não seria um protetorado americano? E por que o Kosovo seria reconhecido como um país independente, e não a Abkházia?”

Em torno da capital, a vida retoma pouco a pouco seu rumo. Os imóveis são habitados mesmo se ameaçados de ruína. Alguns cafés e pequenos comércios surgem em todos os lugares. Na baía de Sokhumi, os prédios da universidade do Estado Abkhze mostram suas sequelas da guerra, mas quase 10 mil estudantes se apresentam. Gudisa Tskalia, de 20 anos, estudante de relações internacionais, sonha em tornar-se diplomata e representar seu país no exterior. Por enquanto, seu país é representado apenas pela Rússia, Nicarágua, Venezuela e a Ilha de Nauru – assim como para o pequeno “clube” das outra repúblicas não reconhecidas, a Transdnístria, a Ossétia do Sul ou a República Turca do Chipre do Norte. As negociações efetuadas com a Geórgia sob a proteção das Nações Unidas estão em ponto morto. A Abkházia obteve, em junho de 2009, o fim da missão da ONU e fechou seu território aos observadores militares europeus.

Batumi, Geórgia

A “fronteira entre a Abkházia e a Geórgia passa pela ponte sobre o rio Inguri, reservada aos pedestres. Cruzamos uma multidão de georgianos residentes na Abkházia que se apressa para fazer compras na cidade georgiana de Zugdidi, do outro lado do rio. A passagem fica submetida à boa vontade das milícias abkhazes e dos policiais georgianos. Incidentes surgem regularmente na zona fronteiriça. Em 8 de junho último, um guarda de fronteira abkhaze foi morto. A Geórgia não espera outro cenário que a reconquista militar da Abkházia. Desde a Revolução das Rosas, que o levou ao poder em 23 de novembro de 2003, Saakachvili não para de querer reintegrar ao Estado da Geórgia as entidades separatistas da Adjaria, da Abkházia e da Ossétia do Sul. Seu único sucesso foi com a Adjaria.

O governo muito pró-ocidental de Tbilisi quer fazer da Geórgia uma vitrine atraente. Pessoas próximas ao presidente tomaram todas as alavancas de comando importantes, e o Estado investiu sem parar em Batumi.

Na antiga estação balneária com charme antiquado, luxuosos hotéis saem do chão. Um Sheraton de 24 andares abriu suas portas em 1° de abril. Vários outros prédios estão em construção: um Hyatt, um Hilton, um Radisson... Desde a guerra de 2008, quase todos os turistas abandonaram Batumi, mas a cidade conta com os turcos atraídos pelos cassinos, que são proibidos na Turquia e que aqui são mais numerosos do que os hotéis.

O porto de comércio, muito próximo da vila velha, também está sendo completamente renovado. Ele foi cedido em concessão por 49 anos a uma holding cazaque de petróleo, a KasTransOil. O tráfego anual elevou-se, em 2009, para 7 milhões de toneladas de petróleo, enviadas por via férrea na direção de Batumi, desde o Azerbaijão, o Cazaquistão e o Turcomenistão.

O escritório do diretor do porto é decorado com o retrato de dois presidentes: Saakachvili e seu homólogo cazaque, Noursoultan Nazarbaïev. Zourab Shoulgaïa foi diplomata soviético durante 22 anos, efetuando o essencial de sua carreira em países árabes, onde ele era responsável pela cooperação econômica. Em seguida, foi embaixador da Geórgia no Cazaquistão. Ele reconhece que foram as autoridades cazaques que lhe pediram para deixar a diplomacia e tomar a direção do porto de Batumi.

Muito ligado à Rússia, o Cazaquistão investe massivamente na Geórgia. Entre os conhecedores do dossiê, duas teorias opõem-se: as empresas cazaques poderiam servir de fachada para os capitais russos; a menos que, ao contrário, o Cazaquistão procure novos mercados para sair de uma relação econômica muito exclusiva com a Rússia. Shoulgaïa, sempre reconhecendo a perda por causa da quase ruptura das relações entre a Geórgia e a Rússia, vê-se otimista: “Todas as guerras têm um fim”, ele assegura.

Poti, Geórgia

Por volta de 50 km ao norte de Batumi está o Porto de Poti, bombardeado intensamente pela marinha russa do Mar Negro, no conflito de 2008, e que foi cedido igualmente em concessão por 49 anos ao Emirado de Ras-al-Khaimah. A reconstrução vai bem, e Poti foi convidado a se tornar o principal porto de entrada marítima na direção do Cáucaso e da Ásia Central.

Maxim Shonin, responsável por uma associação de portos do Mar Negro, baseada em Odessa, na Ucrânia, ressalta a importância do desenvolvimento da relação entre Poti e o porto búlgaro de Varna. A intensificação das trocas entre os rios a leste e oeste do Mar Negro inscreve-se no contexto do Corredor de Transporte Europa-Cáucaso-Ásia (Traceca). Definido em 1998, reúne a União Europeia e 14 estados da região9. Nisso está em jogo não somente o envio de hidrocarburantes do mar Cáspio e da Ásia Central, mas também o acesso à Ásia Menor. O Porto de Poti dá acesso à Armênia e por esse canal é fácil alcançar o Irã.

Uma forte rivalidade se opõe os portos de Odessa e Varna. O desenvolvimento atual das relações econômicas tende igualmente a marginalizar a Ucrânia, em pleno realinhamento com Moscou desde a vitória de Viktor Ianoukovitch na eleição presidencial de 7 de fevereiro de 2010. No entanto, a situação continua indefinida e o eixo Poti-Varna segue marginal em relação às trocas entre a Rússia e a Turquia. Shonin estima que “perto de 80% dos barcos que passam pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos são russos ou se dirigem em direção à Rússia”.

Sebastopol, Ucrânia

Sebastopol há muito tempo cristalizou as tensões entre a Ucrânia e a Rússia. Na época soviética, a cidade tinha um estatuto especial, sem pertencer à República autônoma da Crimeia religada à Ucrânia. Depois da independência ucraniana, em 1991, a Rússia recusou ainda por muito tempo reconhecer a soberania de Kiev sobre a cidade, que conservava o status de “cidade fechada”: Era necessário um direito de passagem especial para entrar nela. Um acordo foi concluído em 1997: Moscou não contesta mais os direitos da Ucrânia sobre Sebastopol. Mas aluga portos para sua marinha sobre o Mar Negro. O contrato de aluguel foi prolongado, em abril último, por Ianoukovitch, e o prazo vai até 2042. Os militares russos seriam aproximadamente 20 mil em Sebastopol, onde eles vivem frequentemente com as suas famílias.

Na enseada de Sebastopol, ao lado da imensa estatua de Lênin, encontra-se o imóvel do serviço hidrográfico da marinha russa. A pintura está um pouco passada e a decoração patriótica não mudou desde a época soviética, mas Evgeni Georgievitch nos acolhe com um grande sorriso e um franco aperto de mão. “A marinha do Mar Negro vive sob vigília”, assegura esse oficial russo de nacionalidade ucraniana. De fato, no conflito de agosto de 2008, foi de Sebastopol que partiram aqueles que esmagaram a frota georgiana no Porto de Poti.

Encostado no parapeito do mirante da cidade, Andreï Chobolev olha esse porto que ele conhece tão bem. Proprietário do jornal Sevastopolskaia Gazeta, o homem é também um cancionista muito apreciado em Sebastopol. “Para muitos habitantes, Sebastopol é antes de tudo a cidade que resistiu aos nazistas durante a guerra, o orgulho da União Soviética. Sebastopol não pode pertencer à Ucrânia, mas a cidade não é tão pouco verdadeiramente russa. É um porto, um mundo em si mesmo, uma cidade definitivamente à parte.”

Chobolev começa a sonhar alto para que Sebastopol, cidade de guerra, se transforme numa cidade de paz, que se beneficiaria de algum tipo de extraterritorialidade. Continuando sempre a abrigar a marinha russa do Mar Negro, pois todos sabem que a Rússia não pode nem sonhar em abandonar sua “cidadela no Mar Negro”, sobretudo depois que a OTAN reforçou suas bases na Bulgária e na Romênia.

Jean-Arnault Dérens redator-chefe do Courrier des Balkans.

Laurent Geslin é jornalista do Correio dos Bálcãs

1 Ler “La région du Danube et de la Mer Noire”, Europa.eu, junho de 2005.
2 Antiga região do Cáucaso, com uma população essencialmente muçulmana.
3 Ler Alexandre Grigoriantz, Les Caucasiens. Aux origines d`une guerre sans fin, Gollion, Infolio, 2006.
4 Este termo provém da denominação grega do Mar Negro, Pont Euxin. Sobraram ainda importantes comunidades pontiques na Rússia e na Crimeia, mesmo se muitos gregos da antiga URSS foram para a Grécia, desde o início dos anos 1990.
5 Hrant Dink foi o fundador do jornal bilíngue Agos e um dos intelectuais mais influentes da comunidade Armênia na Turquia.
6 Ideologia herdada de Mustafá Kemal Atatürk (1881-1938), fundador da república turca, que insiste sobre a laiciedade e o nacionalismo.
7 Ler Vicken Cheterian, “Cinq jours qui ont fait trembler le Caucase”, Le Monde Diplomatique, fevereiro de 2009.
8 Ler Leon Colm, Improbable Abkhazie. Récits d’un Etat-fiction, Autrement, Paris, 2009; Jean-Radvanyi e Nicolas Beroutchachvili, Atlas Géopolitique du Caucase, Autrement, Paris, 2010.
9 Ler Jean Radvanyi, “Transports et Géostratégie au sud de la Russie”, Le Monde Diplomatique, junho 2008.

Le Monde Diplomatique Brasil

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Azerbaijão – Uma Visão da Situação no Cáucaso (sobre os atentados em Moscou e Daguestão)



Azerbaijão – Uma Visão da Situação no Cáucaso (sobre os atentados em Moscou e Daguestão)
Paulo Antônio Pereira Pinto

Imagine-se uma região apertada pelo Irã – ao Sul – Rússia - ao Norte - e Turquia - a Oeste - banhada tanto pelo Mar Negro, quanto pelo Mar Cáspio. Se o Cáucaso já não fosse as mais alta cadeia de montanhas da Europa, tais pressões políticas, certamente, teriam forçado a terra a levantar-se e criar tal cordilheira.

Escolha, agora, um grande conquistador: Genghis Khan, Alexandre o Grande, Imperadores Persas, Pedro o Grande, Hitler e Stalin, todos reivindicaram ter conquistado a região caucasiana. Pense numa religião: Muçulmanos Shiitas, ao Sul, Sunnis, ao Norte, e três expressões do Cristinismo em diferentes localidades. Todas convivem nesta parte do mundo.

O escritor Essad Bey, a propósito de outras diversidades regionais, escreve amplamente sobre príncipes e ladrões, no Cáucaso.1 Revela, então, as diferentes formas que legitimavam as duas “categorias sociais”. Ademais, com frequência, segundo o autor, um membro de um grupo transitava para o outro, passando de príncipe a assaltante de caravana ou de saqueador a nobre, com perfeita naturalidade.

Um príncipe caucasiano distingue-se de um europeu, por diferentes razões, além da ausência de brazão de realeza.. Assim, no Azerbaijão, até o início do século XX, antes da invasão soviética, havia: príncipes com terras próprias e súditos; com terras, mas sem súditos; com súditos e sem terras; ou sem terras nem súditos. O ladrão poderia herdar sua profissão ou conquistá-la, por mérito pessoal. Cabia-lhe cobrar tributos dos mais favorecidos, em troca de proteção, ou simplesmente proceder ao saque, no caso de resistência do contribuinte. O Cáucaso, no momento, tem sido objeto de noticiário, não pelos roubos de seus príncipes ou méritos de seus ladrões, mas pelos atos terroristas em Moscou e no Daguestão.

Procuro expor, a seguir, que tais atos de violência são resultado, ainda, da forma desordenada como ocorreu o processo de desintegração da União Soviética. Isto porque, na medida em que o mecanismo ideológico que a sustentava desapareceu, sobreviveram rivalidades criadas e consolidadas pelo modelo de governança stalinista. Este privilegiava lideranças das chamadas “repúblicas soviéticas” que, após o desaparecimento da URSS, insistem em defender prerrogativas próprias que lhes foram outorgadas pelo “velho regime”.

Tais privilégios diziam respeito, principalmente, ao conceito de “autodeterminação”, que veio a provocar o surgimento de “repúblicas soviéticas” – etapa intermediária para a consolidação do socialismo – com capacidade de decisões próprias, com o emprego, até mesmo, de forças armadas a sua disposição. O objetivo final, após aquele período, seria a inserção de todos estes mini governos na moldura de governança maior da então poderosa União Soviética. A etapa posterior, sabe-se, ocorreria, com a universalização do poder do proletariado. A dialética marxista garantiria que, com o desaparecimeto da luta de classes, as referidas repúblicas se dissolveriam, em favor do interesse maior compartilhado por todos, ansiosos por serem conduzidos ao comunismo.

Nessa perspectiva, a origem dos problemas que ainda permanecem no Caúcaso, Norte e Sul – segundo literatura disponível sobre o assunto – encontra-se na complexa interpretação stalinista sobre o significado de “nação”. Em termos reconhecidamente simplificados, é possível entender que, para aquele líder soviético – natural, como se sabe, da Georgia caucasiana – caberia distinguir nação, de raças, tribos, grupos linguísticos ou pessoas que simplesmente habitassem o mesmo território. A nação, segundo ele, seria uma comunidade que teria “evoluído historicamente e se tornado estável”. Tal conceito poderia ser definido em termos de uma cultura comum, a incluir “idioma, território, vida econômica e características psicológicas semelhantes”.

Coerente com o raciocínio do “materialistmo histórico”, Stalin idenficaria, como contradição principal, o surgimento do nacionalismo, principalmente, como resposta à opressão por algum outro grupo social. Isto é, a consciência nacional – da mesma forma que a de classe – surgiria em função da circunstância de que uma comunidade nacional se encontrasse subordinada a outra.

A diferença entre o conceito stalinista de nação e o pensamento “burguês” sobre o tema é, como entendido aqui, que, para este “o nacionalismo seria o caminho para a guerra e o imperialismo”. Para os seguidores do líder soviético, no entanto, apenas um sistema político, que permitisse a nações exprimirem seu desejo de autodeterminação, evitaria conflitos e eliminaria a burguesia do poder. Tal autodeterminação, contudo, deveria ser claramente percebida como sendo “em benefício dos interesses do proletariado”.

Dessa forma, por exemplo, não seria permitido a líderes religiosos revindicarem autodeterminação de uma área, apenas para satisfazer anseios de muçulmanos ou cristãos. Os interesses dos trabalhadores, como um todo, deveriam ser levados em conta, para obter o benefício em questão.”

A integração do Cáucaso à União Soviética – objeto deste estudo – era descrita como “a determinação voluntária de seus povos de unirem-se à classe proletária ao Norte”. Na prática, tratava-se de reviver o antigo Império Russo. Nesse processo, houve tentativas de tratar a região como um agrupamento regional próprio, inclusive com a criação de uma Federação de Repúblicas Soviéticas do Transcáucaso, sobre a qual não haveria espaço para tratar neste texto, que pretende ser sucinto.

O importante para este exercício de reflexão, no entanto, é o fato de que, em meados da década de 1930, foram reconhecidas, em Moscou, três “Repúblicas Autônomas”, ao Sul do Cáucaso, a saber: Armênia, Georgia e Azerbaijão. Ao Norte das referidas montanhas, outras regiões – que interessam a esta pesquisa – foram criadas, com o mesmo nível de autonomia das vizinhas autrais e configuração territorial semelhante à existente nos dias atuais:a Noroeste, o Daguestão tornou-se unidade administrativa; e a Chechênia adquiriu status semelhante. Estas regiões administrativas ao Norte e ao Sul do Cáucaso podiam reivindicar algum nível de legitimidade, em termos de contornos étnicos e certo grau de vínculos culturais e econômicos entre seus habitantes.

Fica claro, hoje, que a liderança da URSS não poderia antecipar, então, que as fronteiras que estavam traçando, viriam, a partir da década de 1980, tornarem-se pretexto para explosões de violência, em defesa, justamente das prerrogativas que tais delimitações geográficas viriam a beneficiar pessoas ou grupos de indivíduos.

Na medida em que novas classes dirigentes foram se consolidando nessas “Repúblicas”, métodos de governança soviéticos vieram a ser adotados, tais como julgamentos e execuções sumários, e “desaparecimentos”. Enquanto estas “modalidades de controle social” íam se incorporando aos hábitos locais, vínculos de cumplicidades fortaleciam as elites que se mantinham no poder, às custas do emprego da violência contra seus próprios nacionais.

A fase pós-Stalin testemunhou a subida ao poder de nova geração, adepta de métodos menos truculentos para se preservar no Governo, na medida em que as repúblicas soviéticas foram se tornando estados-nações. Ao Sul do Cáucaso, “déspotas esclarecidos” assumiam a direção na Armênia – Karen Demirchian (1974-88) – no Azerbaijão – Heydar Aliyev (1969-82) – e na Georgia – Eduard Shervadnadze (1972-85) . Os três se beneficiaram da ânsia por estabilidade decorrente da turbulência e terror vigentes na fase stalinista. Todos consolidaram feudos virtuais em seus domínios. O problema é que, cada vez mais, grupos fortaleciam seus interesses recíprocos, em detrimento do benefício maior dos habitantes do territórios sobre sua autoridade.

Ao Norte da região, não se desfrutava de processo idêntico. Ao contrário da busca da estabilidade, mesmo que fosse com a consagração de ambições pessoais, Chechênia, e Daguestão – entre as áreas objeto deste estudo que, cabe reiterar, busca identificar explicações gerais para problemas atuais, sem reivindicar exatidão científica – foram marcadas por período de turbulência política, com o início da fase pós-soviética da década de 1990 e início do milênio.

A Rússia, como é sabido, envolveu-se em duas guerras na Chechênia, no período de 1994-96, durante o Governo de Yeltsin, e 1999, no de Putin. Desnecessário lembrar os massacres na escola de Beslan, Ossétia de Norte, e em teatro em Moscou, por combatentes pela independência daquela região ao Sul da Rússia..

De acordo com documentação aqui disponível, haveria três pricipais explicações para tais conflitos e atos de violência. A primeira diria respeito ao fato de que, no Norte do Cáucaso, como ao Sul, revindicações étnicas por antigas classes dominantes foram incorporadas por novas lideranças políticas – já referidas repetidas vezes acima – como argumentos legítimos, de forma a se perpetuarem no poder. A segunda envolve disputas fundiárias históricas, que passaram a alimentar ímpetos genocidas, no interesse de grupos sociais, sempre dispostos a consolidar suas prerrogativas. A terceira pode ser encontrada no repetido emprego da força, por governos de Moscou, tanto para eliminar opositores, quanto para manter governantes que lhe fossem simpáticos. Este último fator contribuiu, sem dúvida, para polarizar as tensões regionais.

Mais importante, com a fase pós-soviética, chegou ao Norte do Cáucaso outra forma de mobilização, expressa no fundamentalismo islâmico. Rapidamente, o discurso radical foi assimilado pelos militantes chechênios, com pesada herança de combate contra os russos, seja contra o Império, na década de 1840-50, seja contra a dominação soviética. Em momento algum – sempre de acordo com a literatura disponível aqui – tais lutas tiveram conotação religiosa, na forma adotada após a implosão da URSS.

Cabe notar, a propósito, que os guerrilheiros passaram a adotar vocabulário de combatentes islâmicos em outros cenários de guerra. Assim, os russos passaram a ser chamados de “infiéis”, seus mortos passaram a ser “mártires” e os simpatizantes de Moscou denominados “hipócritas”. Houve, no entanto, inovações nos procedimentos de relações públicas. Assim, enquanto o rebelde chechênio Imam Shamil 2, no século XIX, escrevia cartas ao Sultão Otomano, hoje, os líderes daquela região criam “sites”, como o “Book of a Mujahideen” e cobram acesso por múltiplos cartões de crédito.

Este texto tem procurado argumentar, portanto, que a violência ocorrida, no Cáucaso, após a desintegração da URSS, decorre, por um lado, da fraqueza e forma desordenada de extinção do Estado Soviético e, por outro, da determinação dos “governos nacionais” que o sucederam – tanto os que obtiveram reconhecimento internacional, quanto os que não o conseguiram, no sentido do emprego da força para preservarem seus egoismos pessoais ou regionais. Não representam, nessa perspectiva, exatamente a defesa histórica de identidade ou destino nacionais.

Assim, reitera-se, cada parte que se envolveu em conflito havia sido privilegiada, durante o período soviético, com uma chamada “administração autônoma”. Daí, a classe dirigente destes enclaves, sem querer renunciar a prerrogativas consagradas, decidiu recorrer ao emprego da força – com o benefício do abundante material militar deixado pelos exércitos soviéticos, em retirada – para transformar antigas instituições soviéticas em novos estados. Não fossem as estruturas administrativas herdadas e certas ambições pessoais que motivavam a preservação de privilégios adquiridos, as guerras pós-soviéticas talvez não tivessem ocorrido.

Na medida em que tais conflitos foram adquirindo vida própria, disputas que, conforme já reiterado, tinham origem pessoal ou regional, passaram a adquirir conotação étnica. Hoje, os conflitos são lembrados como lutas de libertação nacional ou lutas trágicas em defesa de integridade territorial da mãe pátria. Uma geração completa de crianças cresceu sustentada por tais afirmações patrióticas.

Segundo consta, em algumas regiões que hoje reivindicam autonomia, currículos escolares foram reescritos, para convencimento de gerações futuras de que haveria conecção entre supostos estados antigos e atuais.

Em resumo, a desordem pós-soviética no Caúcaso não foi resultado de rivalidades naturais, entre nações em busca de independência, mas, sim, o reflexo da capacidade da comunidade internacional de tolerar algumas formas de secessão e não outras. Assim, secessões bem sucedidas, como as da Armênia, Azerbaijão e Georgia, foram legitimizadas com o reconhecimento internacional e admissão em organizações internacionais.

Aqueles regimes não reconhecidos – Nagorno-Karabakh, Abcássia e Ossétia do Sul – foram vistos, no exterior, como tentativas desesperadas de racionalizar a secessão. Uma diferença óbvia, entre os reconhecidos e não reconhecidos foi, simplesmente, o tamanho. Os não reconhecidos eram insignificantes, em termos populacionais: menos de 200.000 na Abcássia e Nagorno-Kabakh, e talvez ao redor de 70.000 na Ossétia do Sul. Representavam, no entanto, parte expressiva do território dos países reconhecidos, dos quais queriam se separar: cerca de 15% da Georgia e do Azerbaijão.

No início do milênio – segundo dados disponíveis – era difícl para visitantes identificar diferenças de estilo de vida, a ponto de estabelecer identidades nacionais distintas, entre as terras ocupadas pelos habitantes de estados reconhecidos ou não. A falta de eletricidade e outras deficiências de infra-estrutura, a corrupção, a ausência de governança e de governabilidade eram as mesmas.

As diferenças se encontravam, apenas, entre os projetos dos personagens que não queriam renunciar aos privilégios e prerrogativas obtidos durante o período soviético. Suas ambições, no entanto, eram idênticas, através do Cáucaso, fossem seus países reais ou imaginários: manter-se no poder.

Conclui-se afirmando que, no final da década de 1990, e início dos anos 2000, reivindicações herdadas do período de hegemonia da URSS, sobre o Cáucaso, continuavam a ressugir, sem que modalidades de governança adotadas durante aquelas sete décadas de escuridão tivessem sido desmanteladas.

Assim, velhos hábitos ligados à doutrina stalinista perduravam, mesmo diante do colapso da estrutura do Estado Soviético. Ao mesmo tempo, partes do Caúcaso, vinculadas a estas práticas antigas mantinham mitos consgrados nos lugares de sempre. Isto tem sido possível, em virtude do legado do pensamento stalinista de vincular nações a territórios, bem como à disponibilidade de armamento soviético, deixado para trás, quando do recuo de seus exércitos, alimentando, assim, a capacidade de destruição mútua das partes que retomaram seus conflitos históricos.

Apenas quando houver o compromisso de desenterrar o passado recente e os responsáveis pelos erros cometidos, durante o período de dominação soviética, tenham seus erros devidamente avaliados, poderia haver mudanças significativas nas formas de governança ou desgovernança no Cáucaso, Sul e Norte.

Nesta região, o presente parece repetir o passado recente, enquanto príncipes e saqueadores continuariam a conviver e confundir-se, sempre em proveito de projetos pessoais.

Notas
1 Essad Bay, “Blood and Oil in the Orient”..Bridges Pulblishing. Germany. 2008.
2 Nicholas Griffin. “Caucasus – A Journey to the Land between Christianity and Islam”. The Chicago University Press. 2004.


Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata. Primeiro Embaixador do Brasil residente em Baku, Azerbaijão. Serviu, anteriorimente, como Cônsul-Geral em Mumbai e, a partir da década de 1980, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores (papinto2006@gmail.com).

Meridiano 47

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Cinco anos depois, sobreviventes de Beslan consideram-se abandonados




Matthias Schepp
Meia década após a crise de reféns de Beslan, os sobreviventes e as famílias das vítimas sentem-se abandonados pelo Estado russo. As autoridades não desejam ser lembradas de como as forças de segurança russas mostraram-se incapazes de lidar com um ataque terrorista que provocou a morte de tantas crianças.

Era um dia escaldante de verão quando Alan Adyrkhayev, um médico, recebeu uma carta da sua filha de 11 anos, Emília. A carta era incomum, até porque pai e filha moram na mesma casa em Beslan, uma pequena e poeirenta cidade na Ossétia do Norte, situada entre as mntanhas do Cáucaso. Mas o pedido de Emília era suficientemente importante para merecer a redação de uma carta.
Mulher chora em túmulo de vítima da tragédia


"Esta carta é dedicada à nossa mãe Ira", escreveu a menina com a sua letra de criança. "Os anos passaram, mas eu nunca esquecerei o seu sorriso, os seus olhos e o seu carinho". A declaração de amor de Emília à sua mãe morta terminou com um pedido de vingança. "Os russos devem matar os inguches, da mesma forma que eles mataram a nossa Beslan".

Foram terroristas inguches, bem como alguns tchetchenos, que invadiram a escola Número Um, em Beslan, em 1º de setembro de 2004, tomando como reféns 1.127 alunos, professores e pais. As autoridades russas, despreparadas para tal ação, não perderam muito tempo com negociações, e lançaram uma operação de resgate insensível que terminou em um caos sangrento.

Nunca antes um ataque terrorista tirou a vida de tantas crianças. Dentre os 334 mortos, 186 eram alunos da escola ou irmãos dos alunos. Além disso, 17 crianças perderam o pai e a mãe, e 72 ainda padecem de graves deficiências físicas. A mulher de Adyrkhayev, também médica, morreu durante o ataque. Beslan foi o 11 de setembro da Rússia.

"Um ato de desespero"
"Eu não quero que a minha filha passe a vida com tanto ódio", diz Adyrkhayev. "Mas sinto-me impotente". Adyrkhayev, um homem de cabelos negros e olhos tristes, está sentado no seu consultório no segundo andar do hospital municipal. Ele está mais familiarizado do que qualquer dos outros 36 mil moradores de Beslan com as consequências de longo prazo da tragédia. Adyrkhayev enxerga essas consequências nos seus pacientes, incluindo Kristina, de 12 anos, que ele tratou na manhã da entrevista, e cuja pressão arterial era de 160. Um outro paciente de 12 anos de idade, Vladimir, cortou a própria mão com uma faca. "Não foi uma tentativa de suicídio, mas um ato de desespero. Ele provavelmente encontra-se inconscientemente torturado pela sensação de que não merece estar vivo depois que uma quantidade tão grande dos seus colegas de classe morreu."

Adyrkhayev descreve um outra paciente sua, Karina Kussova, uma menina bonita de 13 anos, cuja perna esquerda ficou desfigurada por queimaduras do pé aos quadris. Com uma renda total de aproximadamente 250 euros (cerca de R$ 661) por mês, o seu pai, um trabalhador da construção civil, e a sua mãe, que é operadora de guindaste, não conseguem arcar com a despesa semanal de 540 rublos (aproximandamente R$ 32) com a compra de uma pomada cicatrizante, e muito menos com os cinco mil euros (cerca de R$ 13.257) necessários para um transplante de pele e remoção de quatro estilhaços de munição, uma cirurgia que teria que ser realizada em Moscou.

Mas aquilo do qual a garota de cabelos longos e castanhos mais precisa é de ajuda psicológica. À noite ela imagina que os seus bichos de pelúcia transformam-se em terroristas que usam máscaras negras. Certa noite, Karina acordou gritando, após sonhar que a sua perna ferida tinha sido arrancada do seu corpo magro e jazia, sem vida, ao seu lado na cama.


"O governo não faz nada"
Após a brutal crise dos reféns, que durou 52 horas, Beslan foi inundada por uma onda de compaixão e ofertas de assistência. Pacotes de ajuda humanitária chegaram do mundo inteiro, da Austrália à Jordânia, incluindo 46 aparelhos de televisão, 19 fornos de microondas, 196 telefones, 35 câmeras e "uma quantidade de bichos de pelúcias suficiente para encher os quartos de todas as crianças desta província", como diz uma professora que sobreviveu ao ataque.

O prefeito de Moscou construiu duas escolas modernas na cidade, celebridades do setor russo de entretenimento fizeram shows beneficentes, bancos financiaram a construção de playgrounds e doadores privados e governamentais pagaram o equivalente a 30 mil euros (cerca de R$ 79,5 mil) por cada pessoa morta e 20 mil euros (cerca de R$ 53 mil) a cada indivíduo gravemente ferido no incidente - quantias que não são pequenas na região pobre do Cáucaso.

Entretanto, cinco anos depois, muitos dos sobreviventes e familiares das vítimas sentem-se abandonados. Devido ao legado do sistema de saúde soviético, pouquíssimos moradores de Beslan têm seguro saúde. "O governo não faz nada", critica Adyrkhayev. "Não há exames regulares, e não existe um departamento central do governo para prestar assistência àqueles que buscam ajuda."

O novo hospital, com as suas paredes brancas brilhantes e o telhado azul reluzente - tão atraente e de aparência tão diferente como se tivesse caído dos céus sobre o Cáucaso - foi construído dois anos atrás na periferia de Beslan. Trata-se do hospital mais caro da região, mas ele tem dois problemas. Primeiro, a falta de verbas e de licenciamento significa que este hospital novo em folha ainda não abriu as suas portas. Segundo, o plano inicial não incluiu um departamento de psicologia pediátrica. "Isso significa que os meus jovens pacientes terão que esperar até que cresçam?", resmunga Adyrkhayev.

Enquanto isso, um em cada dois dos 60 leitos do hospital existente no município precisa ficar vazio porque não há dinheiro para reformar o prédio caindo aos pedaços. No início deste mês, a prefeitura da cidade reduziu em 20% os salários de médicos e enfermeiros. Antes disso, Adyrkhayev ganhava 9.000 rublos (aproximadamente R$ 530) por mês, mas somente fazendo vários plantões noturnos.


Suprimindo memórias do banho de sangue
Ao que parece, a Rússia, que possui a terceira maior reserva monetária mundial, preferiria simplesmente suprimir as memórias do banho de sangue de Beslan, da mesma forma como se esqueceu do massacre de mais de 170 pessoas perpetrado por terroristas tchetchenos em um teatro de Moscou em outubro de 2002. Beslan tornou-se um sinônimo da destruição de crianças como "uma demonstração de poder completamente destituída de remorso", diz o escritor russo Victor Erofeyev. O episódio significa também que atualmente os russos veem qualquer uso da violência como "um fenômeno de ordem metafísica".

Vladimir Putin, que era o presidente quando ocorreu a tragédia de Beslan, só foi uma vez ao local desse crime, logo após o massacre. Os responsáveis pela invasão amadorística do prédio da escola por parte das forças russas de segurança não foram punidos, e alguns foram até promovidos. Ainda há dúvidas quanto à versão de que havia 32 sequestradores. Muita gente em Beslan acredita que alguns terroristas conseguiram escapar.

O assunto é mais ou menos um tabu na televisão russa controlada pelo Estado. Membros de um grupo chamado Mães de Beslan reclamam de que passaram anos tentando sem sucesso contar a sua história em algum programa importante de entrevistas televisivas. Isso fez com que uma das líderes do grupo, Susanna Dudieva, rotulasse o incidente de Beslan e os fatos que se seguiram a ele como "uma desgraça dupla". Ela diz que, mesmo tendo informações sobre a possibilidade de um ataque terrorista iminente nos dias que antecederam a crise dos reféns, o governo foi incapaz de proteger as crianças. E agora ela acrescenta que o governo as esqueceu.

Há um álbum de fotografias em um canto do pequeno escritório dela perto da escola destruída. Uma das fotos mostra o torso queimado do seu filho, Saur. Ele estava sentado exatamente embaixo de uma das cargas explosivas que os sequestradores colocaram na cesta de basquete na quadra esportiva da escola. Os reféns ficaram agachados lá, amontoados em meio ao calor escaldante em sem água para beber. As crianças foram obrigadas a ver os terroristas matarem a tiros o professor de educação física Ivan Kanidi.

Os custos de longo prazo
"Quem quer que tenha presenciado isso ficou traumatizado por toda a vida", afirma Adyrkhayev. O médico afirma que alguns dos seus pacientes reclamam de dores de cabeça constantes, para as quais ele não tem explicação. As suas próprias filhas, Emília e Milana, só conseguem dormir com as luzes acesas. Na mesa dele há uma lista com os nomes de oito crianças que necessitam urgentemente de cirurgias, mas não há dinheiro para pagar pelas operações. O nome de Fatima Dzgoeva está no topo da lista.

Fatima tem 15 anos, mas os seus familiares dizem que ficam satisfeitíssimos se ela consegue somar os números 20 e 20. Quando unidades policiais de elite russas invadiram a escola, um fragmento de munição penetrou na testa dela e saiu na parte anterior da cabeça.
Miraculosamente, sobreviveu, mas passou 19 dias em estado de coma.
Ela passou os três anos seguintes deitada em uma cama, usando fraldas e incapaz de pronunciar uma palavra sequer. Após cinco cirurgias, duas delas no Hospital Charité, em Berlim, ela pode agora caminhar e dizer algumas palavras.

Georgiy, o irmão de Fatima, que nasceu após a crise dos reféns, está brincando na areia em frente ao prédio de tijolos vermelhos onde a família mora. A tia dela, Lana, que deixou o emprego de professora de jardim de infância para ajudar a sobrinha portadora de deficiências graves, está falando freneticamente ao telefone com médicos da província, já que ninguém consegue encontrar na região o medicamento que reduz a pressão intracraniana de Fatima. Ela trouxe o remédio consigo da Alemanha, mas o estoque atual só é suficiente para mais uns poucos dias.


O cemitério mais bonito da Rússia
A tia de Fátima escreveu para o governador na capital da província, Vladikavkaz, a 21 quilômetros de Beslan, para arrecadar dinheiro para a operação e tratamento da sobrinha em Berlim. "Estou muito grata pelo fato de o governo nos ter ajudado", diz. Mas, logo após, a indiferença instalou-se. Ninguém quer pagar pelas consequências de longo prazo, e os sobreviventes enfermos foram relegados à condição de suplicantes.

E não são apenas as crianças que sofrem com esse problema. Os adultos traumatizados também precisam de ajuda. Perto do hospital novo, mas ainda inútil, fica a "Cidade dos Anjos", o cemitério mais bonito e bem cuidado da Rússia, com as suas 268 sepulturas.

O diretor do cemitério, Kaspolat Ramonov, colocou rosas na sepultura da filha no início da manhã. Ela estava no segundo ano secundário quando morreu, e atualmente teria 20 anos de idade. "Mariana era tudo para mim", diz.

Ele fala baixo, somente elevando a voz e manifestando indignação quando lhe perguntam há quanto tempo trabalha neste cemitério. "Eu não trabalho nele", declara Ramonov. "Eu moro aqui".

Tradução: UOL

Revista DER SPIEGEL

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos