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sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Situação em usina nuclear de Zaporizhzhia 'segue se deteriorando', diz AIEA


Alerta foi feito pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi
Por AFP




A situação na usina nuclear de Zaporizhzhia, no sul da Ucrânia, “segue se deteriorando”, alertou nesta quarta-feira (21) o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, enquanto os ucranianos acusavam a Rússia de voltar a realizar bombardeios.

A situação segue se deteriorando e não podemos nos dar ao luxo de esperar que aconteça uma catástrofe, disse Grossi, após uma reunião sobre a representação da França nas Nações Unidas.

O diretor da AIEA afirmou que discutiu o assunto com o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, com quem se reuniu mais cedo à margem da Assembleia Geral da ONU em sua sede em Nova York.

“Enquanto continuarem os bombardeios, os riscos são enormes”, acrescentou.

As autoridades ucranianas acusaram nesta quarta a Rússia de ter voltado a bombardear as instalações da maior usina nuclear da Europa, mas garantiram que o índice de radiação no local não estava acima do normal.

“Mesmo nas piores condições, a diplomacia nunca pode parar (...) É nossa responsabilidade fazê-lo com propostas pragmáticas e realistas, e isso é o que estamos tentando fazer”, comentou Grossi.

Ao seu lado, a ministra francesa de Relações Exteriores, Catherine Colonna, explicou que o objetivo é “uma desmilitarização da planta no marco da soberania da Ucrânia”.

Ao saber sobre os novos bombardeios, o operador público das usinas nucleares ucranianas, Energoatom, pediu nesta quarta-feira que a AIEA “atue com maior determinação” contra Moscou.

A usina de Zaporizhzhia, ocupada pelas tropas russas desde as primeiras semanas de sua invasão da Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro, tem sido alvo de constantes bombardeios nos últimos meses.

Kiev e Moscou negam a responsabilidade e acusam um ao outro de chantagem nuclear.
https://www.folhape.com.br/

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Custo para a Ucrânia da invasão russa calculado em US$ 1 trilhão


Custo para a Ucrânia da invasão russa calculado em US$ 1 trilhão
Para o atual ano, as autoridades ucranianas esperam uma redução considerável do PIB
Por AFP






O custo para a Ucrânia da invasão russa, iniciada em 24 de fevereiro, é calculado em quase um trilhão de dólares, afirmou em Berlim um conselheiro do presidente Volodymyr Zelensky.

"Nos primeiros dias da agressão, os russos destruíram 100 bilhões de dólares de nossos ativos", afirmou o conselheiro econômico do presidente ucraniano, Oleg Ustenko, em uma conferência organizada pelo Conselho Alemão de Assuntos Internacionais.

"Este valor agora é muito maior. Estamos falando de custos diretos e indiretos que se aproximam atualmente de um trilhão de dólares", completou, ou seja, o equivalente a "cinco PIB anuais".

Para o atual ano, as autoridades ucranianas "esperam uma redução considerável do PIB, calculada entre -35 e -40%, a queda mais expressiva de nosso PIB desde 1991", lamentou Ustenko.

O déficit orçamentário aumentaria em quase 5 bilhões de dólares por mês, segundo o conselheiro de Zelensky.

"Em vez de ter 7 bilhões de dólares (déficit) no conjunto do ano, administramos 5 bilhões por mês", lamentou.

Em 2023, o déficit pode alcançar 40 bilhões de dólares, ressaltou o conselheiro.

Além dos danos e do custo da resistência militar à invasão russa, Kiev não pode contar mais com receitas fiscais.

"Obviamente, quando você está neste tipo de circunstância, é um grande problema para as finanças públicas saber como você poderá arrecadar e receber as receitas para o orçamento estatal", explicou.

Algumas empresas foram "destruídas pelos russos. Outras não trabalham todos os dias ou não operam com plena capacidade", disse Ustenko. "Isto significa que o orçamento vai receber, sem dúvida, muito menos na comparação com o que estava previsto inicialmente".

Em agosto, a Ucrânia pediu ao FMI um novo programa de ajuda, que deve se parte de um esforço internacional mais amplo liderado pelos Estados Unidos e a União Europeia.

O Banco Mundial calculou em 9 de setembro o custo da reconstrução do país em 350 bilhões de dólares, mas destacou que o valor deve "aumentar nos próximos meses enquanto a guerra prossegue".
https://www.folhape.com.br/

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Com base em que critérios se pode dizer que uma guerra é justa?






Maíra Matthes
26 de março de 2022

Teoria desenvolveu critérios objetivos que podem ser usados por quem busca chegar a uma conclusão sobre quando o uso da força é moralmente justificável
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No início dos anos 1970, o filósofo americano Michael Walzer teve uma ideia – ou quase isso. Ao acompanhar pela imprensa a Guerra do Vietnã, Walzer se deu conta de que tinha uma convicção íntima, profunda, de que a atuação dos Estados Unidos naquele conflito era injusta e moralmente indefensável. Não é que Walzer fosse um pacifista, e se opusesse a toda e qualquer guerra – de forma alguma. Alguns anos antes, quando Israel atacara preventivamente seus vizinhos árabes, o gesto lhe parecera não só compreensível, mas justificável. Agora, apesar da força do sentimento de repulsa pela ação americana, não lhe estava claro, contudo, de que maneira poderia justificar aquele sentimento moral. O que fundamentava o seu julgamento, a sua intuição sobre a guerra? Será que era possível discernir critérios claros e rigorosos para julgar quando uma guerra era justa?

Meio século mais tarde, muitos de nós compartilhamos de sensação semelhante à de Walzer – só que desta vez em relação à guerra iniciada pela Rússia contra a Ucrânia. A atuação do Exército sob o comando de Vladimir Putin tem sido condenada quase universalmente por cidadãos, países e atores internacionais os mais diversos. A linguagem dessa condenação, antes de ser jurídica ou política, é sobretudo uma linguagem moral. Ao usarmos termos como “agressão”, “atrocidade”, “massacre”, “horror” e “legítima defesa” nos alçamos ao campo do debate normativo sobre a guerra. Apesar da crença disseminada que não existe moral nem lei quando as armas falam, segundo o velho adágio romano (Inter arma silente leges), a realidade nos mostra um mundo bastante articulado, no qual encontramos uma série de posições e julgamentos sobre a justiça e a legitimidade da guerra.

Parte do debate rigoroso que hoje se faz sobre a guerra da Ucrânia – e sobre as guerras em geral – se baseia na contribuição feita por Michael Walzer, que afinal organizou suas ideias, ainda na década de 1970, no livro “Just and Unjust Wars - A Moral Argument with Historical Illustrations”, publicado em 1977. Na obra, Walzer realiza o projeto idealizado alguns anos antes, buscando embasar filosoficamente intuições sobre a justiça ou a injustiça de uma dada guerra. O livro, que hoje é considerado um clássico na área de filosofia política e nos estudos éticos e morais sobre a guerra, retoma e atualiza uma tradição filosófica ocidental muito antiga a qual remonta, no Ocidente, à era cristã, a teoria da guerra justa.

Essa teoria pretende abordar a questão normativa sobre a guerra de modo sério e criterioso. Para isso ela desenvolveu critérios formais e objetivos que podem ser usados por todos aqueles que buscam chegar a uma conclusão sobre a justiça ou a injustiça do uso da força no mundo. Antes de mais nada ela traça uma distinção fundamental entre as questões pertinentes à entrada em guerra (jus ad bellum) e àquelas pertinentes ao comportamento durante a guerra (jus in bello). Em relação ao primeiro, os seguintes critérios são pertinentes para julgar sobre a justiça de uma guerra: 1. Podemos identificar uma causa justa para ir para a guerra? 2. A guerra foi iniciada por uma autoridade legítima?; 3. A guerra será feita com uma boa intenção?; 4. As soluções pacíficas de controvérsia foram esgotadas e a guerra é lançada em último recurso?; 5. A guerra é uma resposta proporcional à violação de direito que se pretende remediar? 6. Existe uma probabilidade razoável de sucesso militar de modo que a guerra não represente o suicídio coletivo das forças armadas? Em relação ao jus in bello, a preocupação central é sobre os métodos e maneiras de se fazer a guerra de modo aceitável moralmente. Podemos distinguir dois critérios essenciais: 1. Um dado ataque militar é discriminatório? (Ele visa apenas objetivos militares e não a população civil e seus bens?) 2. O ataque militar é proporcional? (A vantagem militar do ataque supera os possíveis efeitos colaterais negativos que ele proporciona?). No coração dos critérios referentes ao jus in bello jaz a distinção moral entre civis e combatentes. O amadurecimento e desenvolvimento desses critérios se transformou no que hoje chamamos de “direito internacional dos conflitos armados” ou simplesmente direito internacional humanitário codificados nas Convenções de Genebra de 1949 e em seus Protocolos Adicionais.


A LINGUAGEM USADA NA CONDENAÇÃO DA INVASÃO RUSSA À UCRÂNIA, ANTES DE SER JURÍDICA OU POLÍTICA, É SOBRETUDO UMA LINGUAGEM MORAL



Para Michael Walzer, a separação existente entre jus ad bellum e jus in bello não é meramente técnica ou didática, como para outros autores contemporâneos escrevendo sobre a teoria da guerra justa. Ela revela uma dupla dimensão moral da guerra já que as decisões relativas à entrada ou não em guerra recaia basicamente sobre representantes políticos enquanto as decisões relativas à escolha dos alvos militares não são apenas de responsabilidade política, mas também daqueles que estão voluntária ou involuntariamente portando uniformes e atirando no inimigo (oficiais, soldados ou milícias recrutadas). Assim, a guerra é sempre julgada duas vezes e a cada vez, de modo independente: é possível que uma guerra seja injusta no tocante ao jus ad bellum e justa no tocante ao jus in bello ou o contrário. Mas também é possível que uma guerra seja injusta nos dois campos, caso ela 1. não tenha uma causa justa; 2. Não seja iniciada por uma autoridade política que representa legitimamente o povo; 3. Não seja feita com uma intenção correta que tem a paz como objetivo maior; 4. Tenha sido “uma guerra de escolha” sem que os meios diplomáticos tenham sido esgotados; 6. A probabilidade de sucesso militar não é clara. Além do desrespeito a todos esses critérios, uma guerra injusta também no quesito in bello seria aquela travada desrespeitando a distinção básica entre pessoas e bens civis de pessoas e bens militares, resultando no bombardeamento direto daqueles que não combatem (civis) ou daqueles que não combatem mais por estarem machucados ou aprisionados (prisioneiros de guerra).

A guerra iniciada por Vladimir Putin contra a Ucrânia no dia 24 de fevereiro parece ser um desses tristes exemplos. Bombardeamentos aéreos em centros urbanos se dão sem a exigência de precaução ditada pelo direito humanitário. Desde a primeira semana de guerra, o mundo pode observar, atônito, o bombardeamento aéreo de maternidades, residências e até de um teatro que acolhia civis e indicava, em grandes letras brancas desenhadas sobre a grama, a palavra “crianças” em russo. O desrespeito aos princípios in bello foram tão alarmantes que, de forma sem precedentes, um grupo de 39 países entraram com um pedido de investigação no Tribunal Penal Internacional contra crimes de guerra na Ucrânia. O casus belli apresentado por Vladimir Putin num discurso transmitido pela televisão na manhã do dia 24 de fevereiro não satisfaz os critérios delineados acima que regulam o jus ad bellum. À ausência de uma causa justa objetiva e comunicável da parte do Kremlin se soma a ausência de uma intenção correta. O fato que meros pretextos são apresentados no lugar de razões justificatórias abre espaço para várias opções interpretativas sobre qual seria a verdadeira intenção do chefe de Estado. Dentre elas podemos destacar algumas tais como: o desejo nostálgico de reconstruir um império russo perdido, o desejo de rediscutir o acordo territorial do fim da Guerra Fria ou o receio das repercussões na Rússia das recentes ondas de liberalização e democratização na Ucrânia. Seja qual for a verdadeira intenção orientando a escolha armada do Kremlin, como lembra Saba Bazarga-Foward, o que é notório nessa situação é que nenhuma delas está em condições de justificar moralmente a invasão de uma nação pacífica e soberana. A opção da Rússia de se valer do uso da força contra um país vizinho é um ato de agressão cristalino que encontra seu aparato justificatório apenas numa campanha de desinformação, confusão mental e revisionismo histórico.

Diante da imoralidade latente dessa guerra de acordo com os critérios da guerra justa, Michael Walzer nos lembra que sua justificação só encontra esteio em três grupos distintos cujas preocupações se distanciam dos problemas morais reais apresentados pela guerra: os realistas que acreditam na validade moral do conceito de “esferas de influência”, os representantes da extrema direita que admiram líderes autoritários, e os da extrema esquerda – que acreditam que os Estados Unidos e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) são sempre os responsáveis por todos os males deste mundo.

Maíra Matthes é doutora em filosofia pela Université de Paris, foi visiting PhD na European University Institute (Itália). Possui formação em direito humanitário no Institut International de Droit Humanitaire (Itália).
NEXO

terça-feira, 26 de julho de 2022

Um "exército fantasma" na guerra na Ucrânia?



Um "exército fantasma" na guerra na Ucrânia?
Tanques militares, sistemas antiaéreos e até aviões - tudo inflável. Uma empresa tcheca se especializou em construir um arsenal inflável no estilo soviético.

A história mostra que tentar enganar o inimigo no campo de batalha é uma das táticas de guerra mais antigas. Equipamento inflável enganou os nazistas durante a Segunda Guerra, por exemplo, e agora alguns especialistas pleiteiam que também seja usado no conflito na Ucrânia.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Notícias Geografia Hoje

Análise: Como um tuíte virou uma guerra com milhares de mortos na Ucrânia

O protesto foi convocado pelo Twitter em novembro de 2013 e ficou fora de controle nos meses seguintes

O Parlamento da Ucrânia aprovou na terça-feira uma resolução para renunciar ao status de país que não participa de alianças militares. Isto inicia o processo para que o país se converta em um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que esta decisão é contraproducente e que poderia gerar tensões no futuro.

A tensão entre a Ucrânia e a Rússia, com conflitos em áreas de fronteira e a anexação da Crimeia pelos russos, foi uma das notícias mais importantes de 2014. E o jornalista ucraniano Olexiy Solohubenko, editor de notícias do Serviço Mundial da BBC, analisa o que aconteceu no país durante o ano.

"Imagine que, no México, os moradores do Estado de Yucatán resolvam que não querem ter mais nada a ver com o governo mexicano. Que são diferentes, que falam com um sotaque diferente e têm suas próprias tradições e história.

Além disso, eles convocam um referendo e o governador do Estado de Yucatán se transforma no presidente da República Popular de Yucatán.

E mais: grupos armados estabelecem postos de controle e barricadas. Pessoas morrem. E tudo isso ocorre diante do olhar impassível do resto do continente americano.

Isto pode ser uma fantasia, mas foi exatamente o que aconteceu em 2014 na Ucrânia.

E, um elemento adicional aprofunda a diferença entre o caso real e o que estamos imaginando: a presença de uma força externa.
Pelo menos cem pessoas morreram apenas em Kiev durante os primeiros dias de protestos

É difícil conceber a possibilidade de que um agente externo possa intervir em uma disputa no México.

Mas, no caso da Ucrânia, isto é real: há um país e um presidente que apoia movimentos separatistas em uma área importante do território. A área a que me refiro é a Crimeia e o presidente é Vladimir Putin, da Rússia.
Terreno fértil

Tudo começou, acredite ou não, com um tuíte de Mustafa Nayem, um jornalista ucraniano famoso, filho de imigrantes afegãos, descontente com o que o então presidente Victor Yanukovich decidiu fazer de última hora: não assinar um acordo de associação com a União Europeia.

A Rússia não queria este acordo e sentia que havia uma possibilidade de a Ucrânia se afastar para sempre da influência do governo de Moscou. E, para evitar tal acordo, os russo injetaram uma quantidade enorme de dinheiro e prometeram ainda mais fundos, algo que Yanukovich aceitou.

Em novembro de 2013, Nayem pediu que seus seguidores no Twitter protestassem na Praça da Independência, conhecida como Maidan. Primeiro, vieram centenas, logo eram milhares... depois eram dezenas de milhares.

Não era o primeiro protesto dos ucranianos.
Os confrontos resultaram na derrubada do presidente Victor Yanukovich e a eleição de um novo líder

A tecnologia pode ter mudado, agora existem smartphones, mas o desejo, o espírito era o mesmo de dez anos atrás, na chamada Revolução Laranja.

O protesto tinha como base a não aceitação da manipulação, da intenção de "comprar" o país, fazê-lo voltar para os padrões soviéticos em uma espécie de união com a Rússia.

É importante entender que boa parte dos manifestantes de Maidan pertencem a esta primeira geração que nasceu, cresceu e se educou depois da independência do país. Queriam um novo pacto social que mudasse os conceitos do que é bom e do que é ruim.

Foi neste terreno fértil que caiu o tuíte de Nayem.

A polícia tentou dispersar os manifestantes de forma violenta: mais de cem pessoas morreram em Kiev, no centro de uma capital do continente europeu.

A partir de então começaram as tentativas de acordo, que não conseguiram resultados.

O presidente foi derrotado em algo que a Rússia descreveu como um golpe e os ucranianos chamaram que revolução popular. Foram convocadas eleições, foi eleito um novo presidente, Petro Poroshenko, e um novo Parlamento. E, infelizmente, ocorreu uma nova guerra.

E, para isto, o país não estava preparado.

História

O que aconteceu na Ucrânia em 2014 ilustra o fato de que, na Europa, a história nunca desaparece.
Em 1994, os presidentes dos EUA, Bill Clinton, da Rússia, Boris Yeltsin (centro) e da Ucrânia, Leonid Kravchuk, firmaram um acordo para o desarmamento da Ucrânia

Há pouco mais de 20 anos, no dia 5 de dezembro de 1994, as três potências nucleares da época, Rússia, Estados Unidos e Ucrânia, junto com a Grã-Bretanha, assinaram um memorando em Budapeste no qual o governo ucraniano aceitava renunciar à sua condição nuclear.

Em troca, a Ucrânia recebia garantias de manter sua integridade territorial, a inviolabilidade de suas fronteiras e o respeito à sua política interna. Nada disso se concretizou.

E, para piorar a questão da integridade territorial, a Rússia anexou a Crimeia em março.

A Crimeia, no sul da Ucrânia, sempre foi um ponto sensível para a Federação Russa. É o lugar de onde o Império Russo travou suas muitas guerras contra o Império Otomano.

Alguns analistas afirmam que, se prestarmos atenção ao presidente Putin, é possível notar que ele não quer reescrever a história, mas fazê-la voltar para as fronteiras que marcam o passado imperial russo. A instabilidade na Ucrânia foi uma oportunidade que o presidente russo não perdeu.
A maioria dos moradores da Crimeia votou a favor da anexação pela Rússia, mas a validade do referendo foi questionada

Para a Ucrânia foi muito difícil reagir: havia vendido a maior parte de seu arsenal bélico e reduzido seu enorme exército de 400 mil soldados nos anos 1990 para cerca de 130 mil em 2013.

O governo russo aproveitou para atacar, para tomar um território que também era um local estratégico do ponto de vista militar. E fez exatamente isso alegando apoio popular.

Logo vieram os movimentos separatistas no leste do país. Algumas regiões seguiram o exemplo da Crimeia e convocaram referendos, o que levou à proclamação de novas repúblicas, não necessariamente reconhecidas, mas, segundo muitos, financiadas e apoiadas pela Rússia.

A Rússia negou que estivesse envolvida militarmente, mas muitos cidadãos russos estão lutando ao lado dos rebeldes.
Vítimas
A Rússia não admite que seus soldados tenham participado dos confrontos na Ucrânia

A área que estas "repúblicas" controlam é muito pequena, mas o número de vítimas é alto.

Até o começo de dezembro, mais de 5 mil pessoas haviam morrido.

As baixas ocorrem entre civis, soldados ucranianos, forças rebeldes e efetivos russos.

A tragédia também teve repercussão internacional. A mais palpável foi a morte dos estrangeiros inocentes que estavam no voo MH17 da Malaysian Airlines e que foi derrubado na Ucrânia no dia 17 de julho, em circunstâncias que ainda não foram totalmente esclarecidas.

As sanções econômicas também fizeram a Rússia buscar apoio de países que não estão necessariamente aliados com os Estados Unidos, incluindo Argentina, Venezuela, Cuba e Turquia, além de países que fazem parte da União Europeia, como Hungria e Itália. Com este dois, a Rússia tenta desequilibrar a postura adotada pela União Europeia em relação às sanções aplicadas aos russos.

Enquanto isso, dentro da Rússia, o sentimento contra o Ocidente como resultado do apoio dos Estados Unidos ao governo ucraniano é inédito.
As 298 pessoas que estavam no voo MH17 morreram no incidente ocorrido na Ucrânia em julho

Muitos também afirmam que aquilo que era apenas uma possibilidade teórica há uns três ou quatro anos, uma nova Guerra Fria, agora já está ocorrendo.
Estagnação

Hoje, a situação é de estagnação e é difícil ver como resolver isto sem recorrer à força militar.

Economicamente, ninguém saiu ganhando. Do lado humanitário, todos são perdedores. Do lado político, alguns observadores acreditam que, se a Rússia realmente quisesse, o conflito acabaria em breve.
O apoio dos EUA à Ucrânia alimentou a oposição ao ocidente na Rússia; na foto, o secretário de Estado John Kerry visita manifestantes em Kiev

Mas, neste momento, parece não haver nenhuma vontade política para isto.

O acordo com a União Europeia, que deu início aos protestos, foi firmado e já entrou em vigência.

É possível que o movimento iniciado por aquela geração da praça Maidan tenha sido "sequestrado" pela intervenção russa, que o transformou em um conflito armado pelo controle do território? Não acredito nisto.

Os manifestantes conseguiram entre 50% e 60% do que reivindicavam. O inesperado foi a guerra, as vidas perdidas, parte do território ucraniano perdido, todos os custos que ninguém poderia prever. Estes foram os outros 40%.

Mas a história frequentemente não se mede por pontos percentuais. Ela simplesmente acontece."
BBC Brasil

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Notícias Geografia Hoje

Após 'trégua', 1 mil já morreram por conflito na Ucrânia, diz ONU

Relatório do Escritório do Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos descreve "colapso total da lei e da ordem" no leste do país

Uma média de 13 pessoas foi morta diariamente no leste da Ucrânia desde que passou a vigorar o cessar-fogo firmado no início de setembro, afirmou nesta quinta-feira o Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (EACDH).

Segundo a ONU, 957 pessoas morreram em meio à escalada de violência dos dois lados do conflito, que opõe o governo ucraniano a rebeldes separatistas pró-Rússia.

Um novo relatório da EACDH evidencia o "colapso total da lei e da ordem" nas cidades de DONETSK e Luhansk, controladas pelos insurgentes.

O INFORME também destaca as acusações de abusos supostamente praticados por forças do governo.

Desde o início do confronto, a Rússia vem sendo repetidamente acusada de incentivar a violência ao fornecer armas aos rebeldes – alegação negada por Moscou.

O primeiro-ministro ucraniano, Arseny Yatseniuk, acusou a Rússia nesta quinta-feira de BUSCAR "deliberadamente uma guerra de larga escala".

Segundo afirmou Yatseniuk a jornalistas, as ações do presidente da Rússia,Vladimir Putin, "são uma ameaça a todo mundo, à ordem global, à paz global".

Em outro desdobramento do conflito, Dalia Grybauskaite, presidente da Lituânia, país que integra a Otan e é membro da União Europeia, descreveu a Rússia COMO "um Estado terrorista" em entrevista a uma rádio.

Enquanto isso, Putin afirmou durante um encontro em Moscou que a "onda das chamadas revoluções coloridas" (levantes populares na Ucrânia, Geórgia e Quirguistão" vem provocando "consequências trágicas".

"Para nós é uma lição e um ALERTA", disse Putin em reunião no Conselho de Segurança da Rússia. "Devemos fazer tudo que é necessário para que nada parecido jamais aconteça na Rússia".


O cessar-fogo, firmado no dia 5 de setembro, não interrompeu o ciclo de violênciaSoldados e milícias ainda atuam no leste da Ucrânia; confrontos com rebeldes pró-Rússia são frequentes
'Colapso total'

O conflito entre o governo ucraniano e rebeldes separatistas pró-Rússia teve início no leste da Ucrânia em abril deste ano, quando Kiev lançou uma operação para retomar o CONTROLE de áreas dominadas pelos insurgentes, após a anexação da península da Crimeia por Moscou.

Desde que o confronto começou, CERCA de 900 mil pessoas já abandonaram suas casas. Desse total, 400 mil fugiram para a Rússia, informou o relatório da ONU, que cobre o período até o último dia 31 de outubro.

Os novos dados sobre as mortes em decorrência do conflito, contidos em um comunicado de imprensa de 18 de novembro, registram que outras 9.921 pessoas ficaram feridas no conflito.

Das 957 pessoas mortas desde o cessar-fogo, 119 eram mulheres, acrescenta a ONU. No total, pelo menos 4.317 pessoas foram mortas desde o conflito eclodiu em abril.

No relatório divulgado nesta quinta-feira, a ONU descreve a situação no leste da Ucrânia como "um colapso total da lei e da ordem, e uma falta de proteção de direitos humanos para a população" especialmente nas regiões de DONETSK e Luhansk.

O informe assinala que "casos de abusos de direitos humanos por grupos armados continuam a ser REGISTRADOS, incluindo tortura, arbitrariedade e detenção incomunicável, execuções sumárias, trabalho forçado, violência sexual e destruição e apropriação ilegal de propriedade."
Relatório da ONU registrou abusos de ambos os lados do conflito

Tais abusos, segundo a ONU, "podem ser considerados CRIMES CONTRA a humanidade".

Para as Nações Unidas, os direitos humanos estão sendo diretamente afetados, pela GRANDE quantidade de armas e de rebeldes que incluem "funcionários da Federação Russa".

Forças do governo da Ucrânia e milícias que lutam voluntariamente contra os rebeldes também vêm sendo acusadas por abusos dos direitos humanos tais como detenção ilegal, tortura e maus-tratos, diz o relatório.

A ONU também pede uma investigação completa do uso de bombas de fragmentação no conflito. O governo da Ucrânia foi acusado pela ONG HUMAN RIGHTS Watch no mês passado por usar armas em áreas residenciais, uma alegação que Kiev nega.

Sob fogo

O Ocidente acusa a Rússia de estar por trás do confronto armado, financiando os rebeldes que lutam CONTRA o governo de Kiev

Como parte da trégua firmada na capital bielorrussa, Minsk, MONITORES do órgão de segurança da Europa, OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, na sigla em inglês), inspecionaram as áreas no leste da Ucrânia que fazem fronteira com a Rússia.

Eles reclamaram que foram recebidos a tiros na quarta-feira por soldados uniformizados operando nos territórios controlados pelo governo.

Dois tiros foram disparados CONTRA o comboio da OSCE perto de Mariinka, a 15 km a oeste da Donetsk, de uma distância de cerca de 80 metros, afirmou o órgão, mas ninguém se feriu.

Uma porta-voz da OSCE se recusou a especular se soldados do governo ucraniano estariam envolvidos na ação.

Raio-X do conflito na Ucrânia

Familiares choram no enterro dos jovens Andrei Yeliseyev (18) e Daniil Kuznetsov (14), mortos por bombardeios em DONETSK

4,317 mortos desde abril, 957 deles desde a trégua de 5 de setembro, e 9.921 feridos.

466,829 desabrigados dentro da Ucrânia

454,339 refugiados morando no exterior, 387,355 deles na Rússia
BBC Brasil

domingo, 3 de agosto de 2014

Notícias Geografia Hoje

Acordos entre UE e ex-repúblicas soviéticas devem agravar crise com Rússia


Márcia Bizzotto

Acordo de Moldávia, Geórgia e Ucrânia com União Europeia irritou Rússia

A União Europeia (UE) assinou nesta sexta-feira acordos de associação e livre comércio com a Ucrânia, Moldávia e Geórgia, provocando uma reação imediata da Rússia, que alertou, em tom de ameaça, as ex-repúblicas soviéticas sobre a tentativa de aproximação com o Ocidente.

O presidente da Ucrânia, por outro lado, classificou o pacto como histórico e "o dia mais importante" desde a independência do país, em 1991.

Já o governo russo afirmou que o acordo teria "traria sérias consequências" para as economias das três ex-repúblicas soviéticas.

A aproximação da Ucrânia com o Ocidente foi um dos estopins para a atual crise que assola o país.

De acordo com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, forçar a Ucrânia a escolher entre a Rússia e a União Europeia dividiria o país ao meio.

Na avaliação de analistas ouvidos pela BBC Brasil, a iniciativa das três ex-repúblicas soviéticas poderá agravar a crise que já enfrentam com a Rússia.

"A Rússia vê a assinatura dos pactos como uma intrusão massiva no que considera sua esfera especial de influência e está determinada a fazer o que for necessário para destruir o processo com a UE. Comércio, energia e mercado laboral são algumas das cartas que usará", afirmou Amanda Paul, dothink tank Centro de Política Europeia (EPC, do inglês).

Antes mesmo da conclusão dos acordos, Moscou advertiu às ex-repúblicas soviéticas de que uma associação com a UE teria "sérias consequências" para suas economias.

"Não há dúvida de que é um direito soberano de cada Estado. Mas eles têm que entender que isso terá sérias consequências sobre as relações com seus outros sócios, entre eles Rússia, com a que tanto Moldávia como Ucrânia têm acordos comerciais", disse o vice-chanceler russo, Grigori Karasin.
Mais impostos e menos vistos

Em represália, Moscou poderia impor novas tarifas para as importações de produtos dos três países e revogar os vistos de milhares de seus cidadãos que trabalham na Rússia, explicou à BBC Brasil Paul Quinn-Judge, diretor para Europa e Ásia Central do International Crisis Group, organização independente dedicada à análise de conflitos globais.

"Teremos que ver se (o presidente russo, Vladimir) Putin realmente tomará medidas desse tipo ou se ficará só nas ameaças. A resposta deve aparecer nas próximas duas semanas", disse.

O analista não quis especular entre as duas opções por considerar que, quando de trata de Rússia, "o imprevisível pode acontecer".

"Esses acordos são um teste interessante para o humor de Moscou, que tem dado sinais de que está se acalmando e buscando um diálogo com o Ocidente", destacou.
Prejuízo

Para neutralizar o risco que a imposição de barreiras comerciais russas representaria para a economia ucraniana, Amanda Paul, do EPC, defende que a UE deve assegurar ao país "o maior acesso possível a seu mercado" de 500 milhões de consumidores.

Também deveria oferecer tanto à Ucrânia como à Geórgia e à Moldávia, "uma perspectiva de integração", claramente descartada nos três acordos.

Ainda assim, acredita que a sociedade ucraniana "está disposta" a enfrentar eventuais prejuízos econômicos.

"A Ucrânia tem uma luta difícil em suas mãos, mas os ucranianos são lutadores e sobreviventes. Deram suas vidas para mudar de futuro e continuarão a lutar por isso, apesar da contínua intransigência russa", afirma Paul.

O acordo entre Ucrânia e UE foi negociado durante sete anos e finalizado pelo presidente deposto Viktor Yanukovich.

Em novembro, sucumbindo à pressão de Moscou, ele desistiu de ratificar o documento, desencadeando os violentos protestos que levaram à sua queda, em fevereiro.
Benefícios

Os três acordos contemplam a abertura gradual dos mercados, a harmonização de normas e padrões e uma ampla cooperação bilateral para a realização de reformas estruturais nas ex-repúblicas soviéticas, com ênfase para a luta contra a corrupção e a independência do setor judiciário.

A UE afirma que o pacto contribuirá para aumentar em 1,2 bilhão de euros (R$ 3,6 bilhões) anuais os ingressos da Ucrânia, cujas exportações para os países europeus cresceriam em 1 bilhão de euros (R$ 3 bilhões), beneficiando principalmente os setores têxtil, alimentar, de óleos vegetais e de minerais (excluído o ferro).

O acordo com a Geórgia dará ao país um crescimento de 292 milhões de euros (R$ 877 milhões) anuais e o com a Moldávia melhorará em 5,4% o produto interno bruto (PIB) "caso se completem as reformas" exigidas.

Durante as assinaturas, o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, assegurou a Moscou que "não há nada nos acordos, nem na postura da UE, que possa prejudicar a Rússia de alguma maneira".

Também o presidente da Comissão Europeia (o braço Executivo da UE), José Manuel Durão Barroso, afirmou que o bloco "não está buscando uma relação exclusiva" com Ucrânia, Moldávia e Geórgia e que o objetivo dos acordos "não é competir ou interferir em suas relações com qualquer outro vizinho".

No entanto, tanto o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, como o georgiano, Irakli Garibashvili, declararam em Bruxelas que a iniciativa faz parte de um plano de europeização de seus países, que esperam fazer parte da UE no futuro.
BBC Brasil

Notícias Geografia Hoje

EUA e UE aplicarão novas sanções para minar a economia da Rússia


Junto com a UE, os EUA vêm pressionando a Rússia por meio de sanções desde o início do conflito

A União Europeia (UE) e os Estados Unidos aplicarão novas sanções econômicas contra a Rússia, por conta do envolvimento no conflito no leste da Ucrânia, onde rebeldes estão enfrentando o governo local.

A nova leva tem como alvo os setores de petróleo, equipamentos de defesa, de tecnologia e de finanças. O objetivo é elevar o custo do apoio dado pela Rússia a rebeldes pró-Moscou na Ucrânia e enfraquecer a economia do país.

"Dissemos que, se a Rússia continuasse nesse caminho, haveria um custo crescente. Hoje, estamos cumprindo essa promessa. A previsão de crescimento da Rússia para este ano é quase nula", disse o presidente americano Barack Obama em pronunciamento na tarde desta terça-feira, na Casa Branca.

"Não precisa ser assim, mas essa é a escolha da Rússia e do presidente (Vladimir) Putin. Há uma outra escolha: a Rússia se unir ao resto do mundo na busca por uma solução diplomática."

Moscou nega as acusações feitas pela UE e pelos Estados Unidos de que estaria fornecendo armamentos pesados aos rebeldes.
Pressão

Avião derrubado por míssil no leste da Ucrânia levou a maior pressão por sanções

Os detalhes das novas sanções aplicadas pela UE - que foram aprovadas pelos embaixadores de seus 28 Estados - virão à tona em um comunicado oficial que deve ser feito na quarta-feira.

A UE também provavelmente anunciará novos nomes de autoridades russas que terão os bens congelados e ficarão proibidas de viajar na Europa.

A pressão por uma ação mais energética dos Estados Unidos e da UE aumentou depois que o voo MH17 foi derrubado enquanto sobrevoava o leste da Ucrânia, no dia 17 de julho, causando a morte das 298 pessoas a bordo, muitas das quais eram cidadãos holandeses.

Uma equipe internacional não conseguiu ter acesso ao local da queda, em meio a intensos combates entre forças do governo ucraniano e os rebeldes.

Governos ocidentais dizem acreditar que os separatistas pró-Rússia derrubaram o avião com um míssil russo. Moscou e os rebeldes negam e culpam o Exército ucraniano.

Em pronunciamento feito em Washington, o secretário de Estado americano, John Kerry, exigiu que os rebeldes e a Rússia deem acesso total ao local da queda aos investigadores.

"Eles sequer conseguiram recuperar todos os corpos, e isso é inaceitável e insuportável para as famílias", disse Kerry. "O local tem de ser isolado. As provas têm de ser preservadas. E a Rússia precisa usar sua influência diante dos separatistas para garantir o mínimo de decência."
Ofensiva

Governo ucraniano tenta cercar rebeldes em conflito no leste do país

As tropas ucranianas continuam a ofensiva para cercar os rebeldes na região de Donetsk.

Ao menos dez soldados ucranianos e 22 civis, entre eles três crianças e cinco pessoas que estavam em um asilo para idosos, foram mortos nas últimas 24 horas.

Segundo Gavin Hewitt, correspondente da BBC, a revolta com o bloqueio do acesso de investigadores internacionais foi crucial no anúncio de novas sanções.

"Também há o fato de que, desde o incidente, a Rússia vem permitindo que armas pesadas sejam levadas para a Ucrânia por suas fronteiras", afirma Hewitt.

"A Europa tinha de agir em nome de sua própria credibilidade e pode ter que ir ainda mais longe para garantir que Vladimir Putin e seu círculo interno entendam que suas ações têm consequências."

Ainda não está claro qual será a reação russa.

Na última segunda-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, pediu aos líderes da sua indústria de equipamentos de defesa que fosse reduzida a dependência de componentes e fornecedores estrangeiros, que devem ser substituídos por alternativas nacionais.

E o ministro de Relações Exteriores, Sergeu Lavrov, disse que a Rússia não retaliará nem "cairá na histeria".
BBC Brasil

domingo, 13 de abril de 2014

Notícias Geografia Hoje

Ucrânia prepara retaliação militar a ataques de grupos pró-Rússia no leste do país

Exército será usado para conter ataques a edifícios do governo ucraniano no leste do país

O presidente ucraniano interinom Oleksandr Turchynov, anunciou uma grande "operação militar anti-terror" será lançada depois que edifícios do governo foram tomados por grupos pró-Rússia em diversas cidades no leste do país nos últimos dias.

Em um discurso em cadeia nacional, Turchynov disse que não permitirá que a Rússia repita a situação da Crimeia, república autônoma que foi anexada pela Federação Russa no mês passado, se repita.

"O agressor continua a incitar a desordem no leste do país", disse Turchynov.

Ele ainda afirmou que não punirá os membros de grupos pró-Rússia que entregarem suas armas até a manhã de segunda-feira.

Hoje mais cedo, o secretáro-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, já havia expressado preocupação com a crise nesta região da Ucrânia e traçou paralelos entre os novos ataques e o ocorrido na Crimeia.

Ele disse que "o ressurgimento de homens com armas russas e um uniforme idêntico sem insígnias,que foram usados por tropas russas durante a tomada ilegal da península, é algo grave".
Envolvimento russo

Ataques são muito similares ao que ocorreu na península da Crimeia

Uma fonte da BBC na Otan afirmou que o órgão acredita que forças russas estiveram envolvidas nas invasões de edifícios do governo.

"O aviso de Rasmussen é claro e direto ao ponto", diz Johnathan Marcus, correspondente diplomático da BBC.

"O medo é que o governo russo esteja usando a falta de clareza nestes atos para ganhar tempo. Ao mesmo tempo, ameaça que qualquer resposta da Ucrânia só tornará a situação pior."
Coordenado e profissional

A embaixadora americana na ONU, Sarah Power, também disse acreditar no "envolvimento de Moscou" nestes recentes ataques.

"É algo coordenado e profissional. Não há nada de amador nisso", disse Power em entrevista à ABC News.

O Kremlin negou sua participação.

O leste da Ucrânia tem uma grande população de origem russa e vive uma série de protestos desde que o então presidente Viktor Yanukovych foi deposto, em fevereiro.
BBC Brasil

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Notícias Geografia Hoje

Leste da Ucrânia vive insurgência; entenda diferenças em relação à Crimeia

O movimento pela independência de Donetsk provavelmente não acabará da mesma forma que na Crimeia

O movimento separatista da cidade de Donetsk, na Ucrânia oriental, parece muito similar ao que ocorreu entre fevereiro e março na península da Crimeia, no sudoeste do país.

No último domingo, um grupo de manifestantes pró-Rússia ocupou edifícios do governo e declarou o município uma "república popular independente".

Agora, eles exigem que um referendo seja realizado em maio, assim como foi feito na Crimeia, para que a população local vote a favor ou contra sua anexação pela Federação Russa.

"Mas Donetsk não é a Crimeia", explica o jornalista Daniel Sandford, da BBC News, em Moscou.
República autônoma

Em primeiro lugar, a Crimeia já era uma república autônoma antes mesmo da crise ucraniana - que começou em novembro, quando o então presidente Viktor Yanukovytch decidiu recuar num acordo comercial com a União Europeia para se aproximar da Rússia.

Isso desagradou a oposição no país, que foi às ruas em protesto. As manifestações foram reprimidas violentamente e culminaram na deposição de Yanukovycth pelo Parlamento nacional e na instauração de um governo provisório.

Esse novo governo encontrou resistência na Crimeia, onde a maioria da população é de origem russa.

Por ser uma república autônoma dentro da Ucrânia, a Crimeia tem um Parlamento próprio, que votou pela sua independência.

Já em Donetsk, os manifestantes que "aprovaram" sua independência nunca foram eleitos para nenhum cargo público. Ou seja, para muitos ucranianos, lhes falta legitimidade popular para tomar esse tipo de decisão em nome do povo da cidade.
Opinião pública

Manifestantes dizem que, se suas demandas não foram atendidas, eles recorrerão à Rússia

A Crimeia ainda tem um governo local, que podia organizar um referendo. Essa consulta popular ratificou a decisão do Parlamento da península.

A absoluta maioria dos 1,5 milhão de eleitores optou pela anexação, uma decisão que, apesar de não ter o reconhecimento do Ocidente, foi aprovada também pela Rússia em um tratado assinado por seu presidente, Vladimir Putin.

Em Donetsk, mesmo que haja um referendo, o resultado pode ser bem diferente do que na Crimeia por causa da opinião pública.

Apesar de a maior parte dos habitantes também ser de origem russa, pesquisas de opinião feitas até agora indicam que a maioria da população quer ver uma Ucrânia unida.
Minoria

Em entrevista ao jornal ucraniano Segodnya, o analista político Oleksandr Paliy diz que os manifestantes pró-Rússia são minoria em Donetsk.

"Não é toda a cidade que pede a anexação, mas apenas 800 pessoas que tentam falar em nome dos 4 milhões de habitantes, dos quais, segundo pesquisas, 75% apoiam a integridade territorial do país."

Mas, segundo Sandford, da BBC News, isso não torna a situação menos perigosa.

"Os manifestantes já disseram que, se o governo da Ucrânia não ceder às suas demandas, eles pedirão à Rússia para enviar 'forças de paz'."
'Segunda onda'

Tudo indica que a situação não se resolverá facilmente.

Autoridades de segurança nacional da Ucrânia foram enviadas a Donetsk, além de Luhansk e Kharkiv, onde prédios do governo também foram ocupados.

Manifestantes são minoria em Donetsk

O presidente interino do país, Oleksandr Turchynov, cancelou uma viagem à Lituânia para lidar com os protestos.

Ele disse que se trata de uma "segunda onda da operação russa", numa tentativa de "desmembrar e desestabilizar a Ucrânia para derrubar o governo e impedir as eleições presidenciais" marcadas para 25 de maio.

Nesta segunda-feira, o ministro de Relações Exteriores da Ucrânia, Andriy Deshchytsya, foi ainda mais longe e disse à agência de notícias russa Ekho Moskvy que Kiev "irá à guerra se a Rússia enviar tropas à Ucrânia oriental".
'Reação em cadeia'

Em artigo para o diário Segodnya, o comentarista Volodymir Fesenko alerta que a realização de um referendo local em Donetsk vai contra a lei ucraniana.

"Se o governo ceder aos manifestantes, pode gerar uma reação em cadeia em toda a região", escreveu Fesenko.

Até mesmo por isso, a crise gerou ainda uma escalada de tensão em outros países do leste europeu. O presidente da República Tcheca, Milos Zeman, defendeu que a Otan (aliança militar ocidental) envie tropas à Ucrânia se houver uma invasão russa.

"Se a Rússia estender sua expansão territorial para o leste ucraniano, a festa acabará", disse Zeman em pronunciamento em uma rádio pública no último domingo.
BBC Brasil

segunda-feira, 10 de março de 2014

Entenda por que Ucrânia e Rússia brigam pelo controle da Crimeia

O território da Crimeia está no centro da atual disputa entre a Ucrânia e a Rússia que ameaça a segurança mundial.

Entenda a crise:

OS PROTESTOS

Os problemas começaram em novembro, quando multidões começaram a ir às ruas da capital ucraniana, Kiev, para pressionar o então presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, a fechar um acordo comercial com a União Europeia em detrimento de um com a Rússia.

Yanukovich, que é de etnia russa e só aprendeu a falar ucraniano na vida adulta, porém, acabou dando as costas à UE e fechando com Moscou, que lhe prometeu um pacote de ajuda financeira incluindo um empréstimo bilionário e desconto no preço do gás natural.

O movimento se fortaleceu diante da derrota e ocupou a Prefeitura de Kiev e a Praça da Independência. O governo reagiu com violência e prisões arbitrárias, além de uma lei que proibia o uso de capacetes, a reunião de grupos de mais de cinco pessoas e a ocupação de prédios públicos.

Os manifestantes reagiram com força dobrada.
Vasily Fedosenko/Reuters
Manifestantes antigoverno incendeiam barricadas na Praça da Independência, em Kiev


TROCA

No fim de fevereiro, governo e oposição assinaram um acordo de paz que, no entanto, não durou 24 horas. Yanukovich deixou o país, e um governo interino pró-UE assumiu o poder.

O Ocidente reconheceu a troca, mas o governo russo viu nela um golpe de Estado. Com base nisso, alegou que havia ameaça aos cidadãos de etnia russa que vivem na Crimeia e foi, aos poucos, tomando o controle da área.
Maxim Shemetov/Reuters
O presidente deposto da Ucrânia Viktor Yanukovich


CRIMEIA

Das cerca de 2 milhões de pessoas que moram naquela península, mais da metade se considera de origem russa e, inclusive, fala russo no dia a dia.

Simferopol é a capital da Crimeia, onde fica o Parlamento, e Sebastopol é a sede da poderosa Frota do Mar Negro, que pertence à Rússia.

Isso não surpreende, já que a Crimeia foi transferida à Ucrânia pela União Soviética só em 1954, e a Ucrânia em si se tornou independente só em 1991.

Na verdade, a Crimeia resume uma divisão política e cultural que acontece em toda a Ucrânia. O leste do país tende a ser pró-Rússia e o oeste, pró-UE. Isso se reflete, por exemplo, nos resultados das eleições. A maioria dos votos de Yanukovich saiu do leste.

Editoria de Arte/Folhapress





Editoria de Arte/Folhapress



GÁS

Cerca de 80% das exportações russas de gás para a Europa passam pela Ucrânia, e a Europa importa da Rússia cerca de um terço do gás que consome

Os gasodutos mais importantes são aqueles que levam à Eslováquia e, depois, à Alemanha, à Áustria e à Itália, e existe a preocupação de que uma guerra atrapalhe o abastecimento.
Zurab Kurtsikidze/Efe
Soldados ucranianos observam navio de guerra russo em Sebastopol


HISTÓRIA

No século 18, a Crimeia foi absorvida pelo império russo, e a base da Frota do Mar Negro foi fundada.

Entre 1853 e 1856, mais de 500 mil pessoas morreram na Guerra da Crimeia entre a Rússia e o Império Otomano, o último apoiado pelo Reino Unido e França. O conflito resultou em uma virada no quadro diplomático da Europa, e serviu como precursor da Primeira Guerra.

Em 1921, a península, então povoada principalmente por tártaros adeptos do islamismo, se tornou parte da União Soviética. Os tártaros foram deportados em massa pelo líder soviético Joseph Stálin, no final da Segunda Guerra, por supostamente colaborarem com os nazistas.

Em 1954, a Crimeia foi transferida à Ucrânia, outra república soviética, por decisão de Nikita Khrushchev, sucessor de Stálin e ucraniano. 
 Folha de S. Paulo

sábado, 8 de março de 2014

Notícias Geografia Hoje

Cientistas da Ucrânia pedem união acadêmica em prol da paz
Pedem ainda que a comunidade acadêmica mundial ajude a preservar a paz e a integridade do país

Wikimedia Commons,

Dina Fine Maron

A agitação política que vem reverberando por toda a Ucrânia levou seus principais cientistas a emitir um apelo de paz.

Desde a escalada da crise, no início de março, depois que a Rússia se mobilizou para estabelecer controle sobre a península da Crimeia, no sul da Ucrânia onde predomina largamente o idioma russo, o conflito vem alimentando temores de se transformar em uma ação militar entre a Federação Russa e o Ocidente.

Enquanto os Estados Unidos e muitos países europeus pressionam Moscou a reduzir suas tropas na Crimeia, a Academia Nacional de Ciências da Ucrânia (ANCU) publicou uma carta pedindo paz e contenção russa, e apoio da comunidade acadêmica internacional.

A ANCU tem 95 anos e está em importantes centros científicos espalhados pelo país, inclusive na Crimeia. Ao longo de toda a sua história “acadêmicos de suas instituições nunca se dividiram de acordo com o princípio territorial, nem admitiram qualquer discriminação com base em motivos étnicos, linguísticos ou religiosos”, a organização salientou em seu apelo datado de 3 de março.

“Agora todos nós temos que nos unir e, ao unificarmos nossos esforços, impedir o contínuo agravamento da situação social e política, o derramamento de sangue e uma divisão do país. Todos os cientistas ucranianos, todos os nossos compatriotas, tanto faz se eles vivem no Norte, no Sul, no Leste ou no Oeste, devem permanecer unidos para alcançar o objetivo de toda a nação ucraniana — viver no país onde a paz domina, onde os direitos e as liberdades de cada pessoa são respeitados”, declarou a carta, pedindo ao povo russo que não permita o uso de armas.

“Nesse momento crucial da história do nosso país apelamos à comunidade acadêmica mundial para que faça todos os esforços necessários para preservar a paz e a integridade territorial da Ucrânia”, acrescentou o texto da carta.

O documento foi assinado por seis graduados membros da instituição, inclusive seu presidente de longa data, o cientista metalúrgico e de materiais Borys Paton, e um de seus vice-presidentes, o físico Anton Naumovets.

Leia o texto original da carta abaixo:

Apelo da Academia Nacional de Cientistas da Ucrânia a todos os cidadãos da Ucrânia e da Federação Russa

Neste momento difícil e crucial na vida de nossa Pátria Mãe, causado tanto por uma crise política interna, como por uma ameaça estrangeira à sua segurança e integridade territorial, a Academia Nacional de Ciências da Ucrânia apela a seus acadêmicos e a todos os cidadãos da Ucrânia e da Rússia para que preservem a paz e a tranquilidade, para evitar conflitos e a agravação dos confrontos.

Cientistas da ANC [Academia Nacional de Ciências da Ucrânia] trabalham com dedicação em todas as regiões da Ucrânia, fazendo sua contribuição para o estabelecimento e o progresso do Estado ucraniano. Além de Kiev, nossa Academia tem importantes centros científicos em Dnipropetrovsk, Donetsk, Crimeia, Lviv, Odessa e Kharkiv, que integram a pesquisa e o potencial educacional de todo o país. Durante todos os 95 anos de história da Academia, acadêmicos de suas instituições nunca se dividiram de acordo com o princípio territorial, nem permitiram qualquer discriminação por motivos étnicos, linguísticos ou religiosos.

E agora todos nós temos que nos unir e, ao unirmos esforços, evitar o contínuo agravamento da situação social e política, do derramamento de sangue e de uma divisão do país. Todos os cientistas ucranianos, todos os nossos compatriotas — independente de viverem no Norte, no Sul, no Leste ou no Oeste — devem permanecer unidos para realizar o objetivo de toda a nação ucraniana que é viver em um país onde domina a paz e onde os direitos e as liberdades de cada pessoa são respeitados.

A Academia Nacional de Ciências da Ucrânia tem relações frutíferas e de longa duração com acadêmicos da Academia de Ciências Russa e de outras instituições científicas da Rússia. Há mais de 20 anos nossas academias iniciaram, juntas, o estabelecimento da Associação Internacional de Academias de Ciências — a organização que combinou os esforços de cientistas de todos os países da Comunidade de Estados Independentes (CEI) da Federação Russa para manter e promover laços acadêmicos tradicionais para a benefício de nossas nações.

Apelamos aos nossos colegas e amigos na Academia de Ciências Russa, a todos os acadêmicos da Federação Russa para que façam todo o possível para uma resolução pacífica da situação. Apelamos ao povo russo, que sempre consideramos fraternal, que não permita o uso de armas. Raízes comuns, uma em história comum e o desejo comum de viver como bons vizinhos são nossa meta suprema. Valores que precisamos proteger.

Neste momento crucial da história de nosso país apelamos a toda a comunidade mundial de acadêmicos para que ela faça todos os esforços necessários para preservar a paz e a integridade territorial da Ucrânia.

Presidente
Academia Nacional de Ciência da Ucrânia
Acadêmico da ANC da Ucrânia e da RAS (Academia de Ciências Russa) B. Paton

Vice-Presidente
Academia Nacional de Ciência da Ucrânia
Acadêmico da ANC da Ucrânia A. Naumovets

Vice-Presidente
Academia Nacional de Ciência da Ucrânia
Membro Estrangeiro da RAS V. Pokhodenko

Vice-Presidente
Academia Nacional de Ciência da Ucrânia
Acadêmico da ANC da Ucrânia e da RAS,
Membro estrangeiro da RAS V. Heyets

Vice-Presidente
Academia Nacional de Ciência da Ucrânia
Acadêmico da ANC da Ucrânia,
Membro Estrangeiro da RAS A. Zagorodny

Secretário Científico Chefe
Academia Nacional de Ciência da Ucrânia
Acadêmico da ANC da Ucrânia V. Machulin

Sobre a autora: Dina Fine Maron é editora associada para saúde e medicina da Scientific American. Siga-a no Twitter em @Dina_Maron.
 Scientific American.Brasil

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Notícias Geografia Hoje


Destituição de presidente agrava turbulência na Ucrânia; entenda

BBC BRASIL

A destituição, pelo Parlamento, do presidente Viktor Yanukovych aumentou, neste sábado, a turbulência sociopolítica na Ucrânia, após uma semana de sangrentos protestos na capital Kiev.

Yanukovych recusou-se a abandonar o governo e afirmou que a medida do Parlamento - que prevê eleições em maio - é um "golpe de Estado". Na prática, porém, a administração presidencial e a própria Kiev já estão fora de seu controle.

Ao mesmo tempo, a líder opositora e ex-premiê Yulia Tymoshenko foi libertada (após ter sido condenada, em 2011, a sete anos de prisão, por abuso de poder) e discursou a uma multidão na Praça da Independência, em Kiev, pedindo a continuação dos protestos.

Protestos na Ucrânia

Os desdobramentos deste sábado se seguem a três meses de protestos antigoverno. Em 18 de fevereiro, a violência dos enfrentamentos entre manifestantes e forças de segurança chegou a níveis inéditos - até o momento, o governo calcula 88 mortos na onda de confrontos.

A crise coloca em xeque o futuro dos 45 milhões de habitantes da Ucrânia, que ficam no meio de uma disputa de poder estratégica entre Rússia e o Ocidente.

A BBC Brasil fez um guia para explicar o que está em jogo:

O que motiva os protestos?

Os protestos começaram quando Yanukovych rejeitou, em novembro, um acordo com a União Europeia, preferindo uma aproximação comercial com a Rússia.

Milhares de pessoas - favoráveis à integração com a Europa - deram início a manifestações pacíficas e à ocupação da Praça da Independência.

Desde então, houve repressão policial aos protestos, a aprovação de leis restringindo as manifestações e a prisão de ativistas - fazendo com que as demonstrações antigoverno se intensificassem.

Muitas pessoas começaram a protestar menos por causa da integração à Europa e mais por temer que Yanukovych estivesse tentando servir aos seus próprios interesses e aos de Moscou.

O que causou a violência de fevereiro?

O derramamento de sangue de 20 de fevereiro foi o mais grave até o momento. Acredita-se que 77 pessoas tenham sido mortas e 600 feridas em 48 horas.

Vídeos mostram franco-atiradores disparando contra manifestantes. Os dois lados se culpam mutuamente, mas ainda não está claro quem atirou a primeira pedra ou disparou o primeiro tiro.

Governo e oposição fizeram, então, um acordo, que previa anistia a manifestantes presos e a desocupação, por parte dos opositores, de prédios estatais.

A oposição também pedia que o Parlamento discutisse mudanças na Constituição para reduzir os poderes presidenciais. Como isso não foi aceito, opositores promoveram manifestações diante do Legislativo.

Quem são os manifestantes?

Os protestos são mais fortes na região de Kiev e no oeste ucraniano (onde é maior a afinidade com a Europa e o Ocidente) do que no leste e no sul, onde fala-se russo graças à imigração durante o período soviético.

Os líderes de três partidos da oposição - Vitali Klitschko, do movimento Udar, pró-UE; Arseniy Yatsenyuk, do Fatherland, maior grupo opositor; e Oleh Tyahnybo, da extrema direita Svoboda- estão na Praça da Independência, tentando direcionar os protestos e angariar apoio.

Mas parte da população mantém sua desconfiança quanto a eles. O partido Fatherland, em especial, é criticado por seus anos recentes no governo e considerado como parte do establishment político.

Alguns grupos de extrema direita estão na dianteira dos confrontos com a polícia, mas não está claro se eles têm apoio de grande parte dos ucranianos.

O que está em jogo?

A crise na Ucrânia faz parte de um cenário maior. O presidente russo, Vladimir Putin, quer fazer de seu país uma potência global, que rivalize com EUA, China e UE. Para isso, ele está criando uniões aduaneiras com outros países e vê a Ucrânia como parte crucial disso - inclusive pelos profundos laços históricos e culturais entre ambos.

Já a UE defende que a aproximação com a Europa e eventual entrada no bloco europeu trariam bilhões de euros à Ucrânia, modernizando sua economia e dando-lhe acesso ao mercado comum europeu.

No leste, muitos ucranianos que trabalham em indústrias (fornecedoras da Rússia) temem perder seus empregos se Kiev se aproximar da Europa. Mas, no oeste, muitos anseiam pela prosperidade e pelo estado de direito que, acreditam, podem ser alcançados com acordos com a UE.

O país será dividido em dois?

Muito se fala das divisões linguísticas e culturais entre leste e oeste da Ucrânia.

Mapas mostram que áreas onde grande parte da população fala russo votaram em massa por Yanukovych em 2010. Para alguns analistas, isso indica que o país pode rachar ao meio, de forma violenta, caso não se negocie uma saída para a crise.

Outros alegam que essa divisão é improvável - e que, mesmo no leste pró-Rússia, muitos se identificam como ucranianos.

O que aconteceu com Yanukovych?

O presidente havia assinado um acordo com líderes da oposição, após conversas com chanceleres de três países europeus (França, Alemanha e Polônia).

Ele ofereceu eleições antecipadas (em dezembro) e a formação de uma nova coalizão de governo, dizendo-se preparado para reformar a Constituição e devolver mais poderes ao Parlamento.

Mas na noite deste sábado, a guarda armada ao redor dos escritórios governamentais sumiu; o destino de Yanukovych também se tornou incerto.

Aparentemente, ele deixou a capital, mas deu uma entrevista de TV insistindo que ainda está no poder.

Só que sua arquirrival Yulia Tymoshenko foi libertada e levada a Kiev, cidade que Yanukovych parece não mais controlar. Muitos de seu partido também parecem desertá-lo.

Qual o papel da Rússia?

A Rússia claramente tem uma forte influência sobre Yanukovych, o qual foi apoiado por Moscou durante a Revolução Laranja de 2004 - quando sua eleição foi considerada fraudulenta.

A Rússia suspendeu empréstimos quando o governo ucraniano renunciou e restringiu o comércio bilateral quando a Ucrânia flertou com o Ocidente. A UE chamou isso de pressão econômica "inaceitável".

Moscou acusa a UE de tentar fazer o mesmo ao oferecer acordos de livre comércio a Kiev.

Nos bastidores, acredita-se que esteja operando também a grande força de ricos oligarcas ucranianos. O mais rico deles, Rinat Akhmetov, emitiu comunicado apoiando protestos pacíficos. Outros oligarcas parecem apoiar Yanukovych. 

Folha de S.  Paulo

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