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quinta-feira, 25 de agosto de 2022

'Pedras da fome' e 'falso outono': como pior seca em 500 anos afeta Europa


24 agosto 2022


CRÉDITO,EPA
Legenda da foto,

Seca está produzindo cenas como esta de um barco encalhado na lama da margem do Lago franco-suíço Brenets — agora seco


Dois terços da Europa estão sob algum tipo de alerta de seca, no que é provavelmente a pior seca em 500 anos no continente.


O último relatório do Observatório Global da Seca, ligado ao braço de pesquisa da Comissão Europeia, diz que 47% da região estão em estado de alerta, o que significa que o solo secou.


Outros 17% estão em situação de emergência — ou seja, que a vegetação "mostra sinais de estresse".

O relatório adverte que o período de seca vai afetar o rendimento das colheitas, provocar incêndios florestais e pode durar vários meses a mais em algumas regiões do sul da Europa.

Em comparação com a média dos últimos cinco anos, as previsões da União Europeia (UE) para a colheita estão 16% menores para o milho em grão, 15% para a soja e 12% para o girassol.


A Comissão Europeia alertou que dados preliminares sugerem que "a seca atual ainda parece ser a pior desde há pelo menos 500 anos".


A onda de calor em curso e a escassez de água "criaram um estresse sem precedentes nos níveis de água em toda a União Europeia", disse a comissária de pesquisa Mariya Gabriel.


"Estamos notando uma temporada de incêndios florestais acima da média e um impacto importante na produção agrícola. A mudança climática é, sem dúvida, mais perceptível a cada ano", acrescentou.


O relatório alertou que quase todos os rios da Europa secaram de certa forma.


Além do óbvio impacto nas embarcações, os rios secos também atingem o setor de energia, que já está em crise. A energia hidrelétrica caiu 20%, de acordo com o relatório.


Uma "seca severa" esteve presente em muitos lugares durante todo o ano, mas "está se expandindo e piorando desde o início de agosto", diz o texto. As condições devem durar pelo menos até novembro deste ano ao longo do Mediterrâneo europeu.


CRÉDITO,EPA
Legenda da foto,

Barcos em lama seca no lago francês-suíço de Brenets


O relatório alerta que a situação está piorando em países como Itália, Espanha, Portugal, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Romênia, Hungria, norte da Sérvia, Ucrânia, Moldávia, Irlanda e Reino Unido.


A dura advertência dos pesquisadores segue os níveis de água dos rios que estão baixando rapidamente em toda a Europa, expondo relíquias do passado — incluindo as chamadas "pedras da fome", pressagiando possíveis períodos de miséria, e os restos de naufrágios de navios nazistas da Segunda Guerra Mundial.


E no Reino Unido, que declarou oficialmente estado de seca em várias regiões, algumas árvores adquiriram um tom outonal castanho-avermelhado — no que é considerado um "falso outono" devido ao calor.


- Este texto foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62657240

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Mendigos de cidade sueca têm de pagar R$ 100 para poder pedir dinheiro

Licença é válida por três meses; quem desrespeitar a lei que regula a mendicância em Eskilstuna poderá ser multado em mais de R$ 1.600

Pedinte: se ele estivesse em Eskilstuna, precisaria de uma licença para esmolar que custa cerca de R$ 100 por trimestre


Eskilstuna, a oeste de Estocolmo, é a primeira cidade da Suécia a criar uma autorização oficial para mendigos pedirem dinheiro nas ruas, informa o jornal “The Guardian”. Para tanto, cada pedinte deve solicitar uma licença, disponível online ou em delegacias de polícia, e fornecer dados de um documento de identidade válido.

A autorização custa 250 coroas suecas (cerca de R$ 100) e vale por três meses. Quem for flagrado sem ela terá de pagar uma multa de 4 mil coroas (cerca de R$ 1.640).



A medida entrou em vigor no início de agosto, depois de quase um ano de atrasos legais. Segundo Jimmy Jansson, conselheiro social-democrata de Eskilstuna, ela visa “burocratizar” a mendicância para “tornar mais difícil” o ato de as pessoas pedirem dinheiro. “Vamos ver onde isso vai dar”, disse ele à mídia local.

Jansson afirmou também acreditar que a nova política deve ajudar a pôr pessoas desabrigadas e outros indivíduos em situação vulnerável em contato com as autoridades locais, sobretudo os serviços sociais.

Polêmica

A medida é polêmica. Para alguns de seus críticos, ela legaliza a mendicância e deixa os pedintes (muitos dos quais são ciganos vindos de países como Romênia e Bulgária) em situação ainda mais vulnerável.

Para Tomas Lindroos, da organização de caridade Stadsmission, o novo sistema aumenta as oportunidades de exploração. Gangues criminosas poderiam pagar pelos pedidos de licença das pessoas e exigir delas pagamentos indevidos.

Jansson defende a abordagem adotada. “Não se trata de assediar pessoas vulneráveis, mas de tentar resolver a questão maior: se consideramos que a mendicância deve ser normalizada dentro do modelo sueco de assistência social”, afirma.

Várias cidades suecas proibiram a mendicância nos últimos meses, depois que o Supremo Tribunal Administrativo confirmou em dezembro a proibição da prática em Vellinge, no sul do país.

Segundo a emissora estatal SVT, oito autorizações foram solicitadas em Eskilstuna no fim de semana. Três cidadãos da União Europeia que mendigavam no centro da cidade sem licença foram informados pela polícia sobre a nova lei e deixaram o local.
Revista Planeta

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Brexit: 4 perguntas para entender por que a fronteira irlandesa é crucial no acordo entre UE e Reino Unido



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Bem-vindo à Irlanda do Norte', diz placa na fronteira, que hoje é mantida aberta por conta do histórico acordo de entre as Irlandas

"Este é o melhor acordo possível."

A premiê britânica, Theresa May, tem repetido há semanas essa frase na tentativa de convencer o Parlamento de seu país a aprovar o acordo que ela negociou com a União Europeia, estabelecendo os termos do Brexit - o processo de saída do Reino Unido do bloco.

Mas, na segunda-feira, a premiê adiou indefinidamente a votação do acordo no Parlamento, reconhecendo que ele seria rejeitado pela maioria dos parlamentares britânicos. Na quarta-feira, ainda enfrentou um voto de desconfiança de seus pares - ela sobreviveu por 200 votos a seu favor e 117 contra, mas prometeu renunciar à liderança do partido antes das próximas eleições e agora permanece em uma posição enfraquecida para convencê-los a aprovar os termos negociados com a UE.

"Há um amplo apoio a muitos aspectos do tratado. Mas também há oposição", afirmou May, que voltou a se reunir com líderes europeus para transmitir a eles as preocupações dos parlamentares britânicos, em especial aquela ligada ao tema mais espinhoso do acordo: a fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte.

Saiba, a seguir, por que esse se tornou o ponto mais controverso da saída britânica do bloco europeu:

1. Por que a fronteira é um tema sensível?

O acordo de paz de 1998 que pôs fim a três décadas de sangrentos conflitos entre a República da Irlanda (país independente e membro da UE) e a Irlanda do Norte (parte do Reino Unido) contempla a ausência de barreiras físicas entre os dois lados.

Desde aquele ano, pode-se cruzar a fronteira sem passar por nenhum controle físico. A venda de bens e serviços ocorre com poucas restrições, já que ambos os lados fazem parte do mercado comum europeu e da união aduaneira.

Mas, quando o Brexit se concretizar em 29 de março de 2019 e o Reino Unido deixar de fazer parte da UE, a fronteira entre as duas Irlandas passará a ser, na prática, a fronteira física entre a UE e o Reino Unido.Direito de imagem
PARLAMENTO BRITÂNICO Image caption
Theresa May foi obrigada a adiar votação do Brexit no Parlamento porque não conseguiu obter maioria para aprovar acordo

As duas Irlandas ficarão sob regimes distintos, o que implica que produtos poderiam ser inspecionados na fronteira - algo que os britânicos não querem, justamente por temerem que checagens na divisa tragam à tona antigas tensões entre irlandeses e norte-irlandeses.

O controle tampouco é desejável sob o ponto de vista da UE, mas o bloco vê dificuldades em evitá-lo a partir do momento em que os britânicos abandonarem o mercado comum e a união aduaneira.

No âmbito político, a Comissão Conjunta Norte-Sul da Irlanda advertiu que eventuais controles fronteiriços advindos do Brexit sinalizam que estará sendo rompido o acordo de paz de 1998.
2. E o que diz o acordo Reino Unido-UE a respeito da fronteira irlandesa?

Embora Londres e Bruxelas tenham acordado, desde o princípio, em não fixar uma fronteira "dura" (ou altamente controlada) na divisa irlandesa, o grande obstáculo foi definir os termos para tal.

A opção foi por uma espécie de "escudo", chamado em inglês de "backstop".

O mecanismo prevê que a Irlanda do Norte continue alinhada a algumas regras aduaneiras da UE, para dispensar a necessidade de checagem na fronteira com a Irlanda, mas exigirá que alguns produtos vindos do restante do Reino Unido sejam sujeitados a controles, para averiguar se cumprem com as normas da UE.

O "backstop" também envolverá uma união aduaneira temporária, o que, na prática, mantém a UE e o Reino Unido dentro de um mercado comum - contrariando, para alguns, o princípio básico do Brexit.

Esse mecanismo acabou se convertendo na principal dor de cabeça nas negociações do Brexit, gerando forte oposição ao acordo.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Cartaz de protesto contra o Brexit e mudanças na fronteira irlandesa; temor é que processo de paz seja colocado em risco

3. Por que o "backstop" gera tanta oposição?

A ideia é de que o "backstop" só entre em vigor em último caso, na hipótese de UE e Reino Unido não conseguirem definir rapidamente como será o controle aduaneiro e a relação comercial bilateral após o Brexit.

O mecanismo prevê, assim, que a Irlanda do Norte siga sob o regimento do mercado único europeu caso nenhuma solução bilateral seja alcançada até dezembro de 2020.

May defende o "backstop" argumentando que ele só será colocado em prática como último recurso. No entanto, críticos afirmam que sua implementação causaria uma fratura na unidade territorial do Reino Unido.

A premiê tem enfrentado dura oposição nesse ponto, sobretudo do Partido Unionista Democrático, o principal aliado de May (que é do Partido Conservador) no governo de coalizão britânico.

Os unionistas rejeitam a ideia de a Irlanda do Norte ficar em um regime diferente do restante do Reino Unido, temendo que isso implique em um distanciamento em relação ao país e um flerte não desejado com uma eventual união entre as duas Irlandas.

Além disso, até mesmo parlamentares do Partido Conservador consideram a proposta do "backstop" inviável, por submeter a Irlanda do Norte a regras europeias (e não britânicas) e pelo temor de que, uma vez que o mecanismo entre em vigor, não possa ser suspenso sem a aprovação da UE.

Sob essa visão, o "backstop" significaria manter o Reino Unido submetido, de alguma forma, à vontade europeia e pode dificultar a assinatura de outros tratados comerciais que pudessem beneficiar o Reino Unido.

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Sinais dados até agora pela UE é de que não há abertura para renegociar acordo do Brexit
4. Há alternativas?

Diante da forte oposição, é grande a possibilidade de a rejeição ao "backstop" implique na não aprovação do acordo do Brexit entre UE e Reino Unido. E o fato é que, caso isso se concretize, não há um "plano B".

Na ausência de um acordo, os parlamentares britânicos terão de decidir entre:
"se divorciar" da UE sem nenhum termo definido, o que pode causar insegurança e fricções em fronteiras, na circulação de bens e pessoas e em acertos comerciais
voltar a negociar com a UE, possibilidade que o bloco descarta no momento
realizar uma votação no Parlamento
voltar a consultar a população, em plebiscito, sobre o tema

Todas as alternativas implicam em dificuldades e, possivelmente, em adiar a implementação do Brexit - o desligamento do Reino Unido do bloco -, prevista para 29 de março de 2019.

Após sobreviver ao voto de desconfiança, May voltou a Bruxelas para buscar mais salvaguardas legais para o "backstop", mas não teve sucesso.

O acordo "não está aberto para renegociação", afirmou nesta sexta-feira Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu.

Mais tarde, ele chamou o "backstop" de uma "apólice de seguros", agregando que a União Europeia se mantém determinada a buscar alternativas que evitem que ele seja implementado.

O premiê da Irlanda, Leo Varadkar, também afirmou que o acordo do Brexit "é o único sobre a mesa" e que "não é possível reabrir um aspecto do acordo sem reabrir todos".

Se a atual proposta em discussão for rejeitada pelo Parlamento, "não haverá um acordo para a saída do Reino Unido nem para um período de transição", destacou o editor de economia e negócios da BBC na Irlanda do Norte, John Campbell.

"Isso significa um Brexit duro, possivelmente caótico", prevê. "Se chegar a esse ponto, a UE e o governo da Irlanda terão de tomar decisões difíceis sobre o que ocorrerá na fronteira."

Ao mesmo tempo, o Tribunal de Justiça da UE acrescentou outra possível cartada ao jogo, ao determinar, na segunda-feira, que o Reino Unido pode revogar o Brexit unilateralmente a qualquer momento, sem acordo unânime com os demais Estados-membros do bloco.

May, por sua vez, afirmou que a data limite para o Parlamento votar a questão é 21 de janeiro de 2019, a depender de como avancem as negociações com a UE.
BBC Brasil

terça-feira, 27 de março de 2018

Carne alemã contribui para desmatamento na América do Sul


Milhares de hectares de floresta são desflorestados para cultivo de soja, que alimenta gado no país europeu, aponta relatório

CARL DE SOUZA / AFP
Segundo o estudo, parte do Pantanal brasileiro é desflorestado para o cultivo de soja


A produção de carne na Alemanha está diretamente ligada ao desmatamento na América do Sul, aponta um relatório da organização de proteção ambiental Mighty Earth.

Segundo o estudo, milhares de hectares do Gran Chaco – região na fronteira entre Argentina, Bolívia e Paraguai e que inclui parte do Pantanal brasileiro – são desflorestados para o cultivo de soja, planta que serve de alimento para o gado na Alemanha e em outros países da Europa.

Além do desmatamento, a organização acusa o uso de "enormes quantidades de fertilizantes químicos e pesticidas tóxicos, como o produto fitossanitário glifosato".

Segundo a Mighty Earth, três quartos da soja produzida mundialmente são transformados em alimentos para animais. Em 2016, a Europa importou um total de 27,8 milhões de toneladas de soja da América Latina – grande parte, ou 3,7 milhões de toneladas de grãos e farinha de soja por ano, teve a Alemanha como destino.

"Assim que a soja chega à Alemanha, é comprada por produtores de ração para animais ou de carne e usada para criação de animais. De lá [dessas empresas], a soja chega a supermercados e restaurantes e é comprada pelos consumidores", alerta a organização.

De acordo com a Mighty Earth, redes de supermercado na Alemanha com frequência vendem salsichas, Schnitzel e hambúrgueres como sustentáveis e de origem local. "[Mas] enquanto o frango e a carne suína e bovina vendidos por eles [supermercados] normalmente são criados na Alemanha, os alimentos desses animais costumam ser comprados a milhares de quilômetros de distância e, assim, têm consequências muito mais amplas para o meio ambiente", diz a organização em um texto publicado em seu site.

Além do mercado alemão, a Holanda, a França e a Espanha estão entre os países que mais importam soja latino-americana, aponta a organização ambiental.

Desmatamento evitável

As pesquisas da Mighty Earth documentam como a soja plantada para a ração animal alemã faz avançar o desmatamento nos dois principais países produtores de soja na América do Sul, a Argentina e o Paraguai.

"Os resultados batem com o nosso estudo anterior sobre o desmatamento em grande escala para a produção de soja no Cerrado brasileiro e na Bacia Amazônica na Bolívia. Somados, esses quatro países são responsáveis pela maior parcela da produção de soja latino-americana", constata a Mighty Earth.


O que é trágico no quadro pintado pelos ambientalistas americanos é que a destruição poderia ser "completamente" evitada. "Há mais de 650 milhões de hectares já desmatados só na América Latina, onde se pode cultivar soja ou criar gado sem ameaçar os ecossistemas nativos", explica o texto.

"Especialistas que conseguiram praticamente eliminar o desmatamento para a soja na região amazônica do Brasil estimam que a ampliação do sistema de vigilância da floresta a outras regiões produtoras de soja latino-americanas – incluindo o Gran Chaco – custaria apenas entre 750 mil e um milhão de dólares", afirma a Mighty Earth, citando a chamada "Moratória da soja", pacto ambiental firmado em 2006 por ongs ambientais e empresas produtoras de soja, como a Cargill e a Bunge.

"Infelizmente, essa iniciativa se restringe apenas à região amazônica brasileira, possibilitando a continuidade do amplo desmatamento na Argentina, no Paraguai, na Bolívia e no Cerrado brasileiro", acusa a organização.

Tina Lutz, consultora da Mighty Earth para florestas tropicais, afirma que, respostas dadas por empresas alemãs cujas cadeias produtivas ou de fornecimento incluem a soja evidenciaram que "não existe um sistema exato o suficiente para que as empresas reconheçam a origem da soja que utilizam ou para que constatem se os seus produtos contribuem para a destruição do meio ambiente".

A Mighty Earth e outras organizações pedem que os produtores de soja ampliem o sistema da Moratória da Soja a outras áreas de produção do grão na América Latina, incluindo o Gran Chaco, a região amazônica da Bolívia e o Cerrado no Brasil.

Além disso, a organização também pede que empresas alemãs compradoras de soja aumentem o controle que têm sobre a origem do grão, contribuindo assim para a preservação das florestas.

"Já que 97% da soja usada para a produção de ração na Europa são importados, é responsabilidade da Europa exigir que essa soja não contribua para o desmatamento das florestas e [a destruição] dos ecossistemas locais", diz a Mighty Earth.
Revista Carta Capital

terça-feira, 30 de maio de 2017

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Notícias Geografia Hoje


Premiê britânica cede a pressão e anuncia debates antes de saída da UE


DIOGO BERCITO
DE MADRI

Theresa May, premiê britânica, anunciou nesta quarta-feira (12) que haverá discussão no Parlamento antes de o Reino Unido dar início formal a sua saída da União Europeia.

Não há detalhes de como será o debate, e parlamentares por ora não terão direito a voto para decidir a estratégia do chamado "brexit", nome que se dá a esse processo.

Associated Press


A premiê britânica, Theresa May, responde a perguntas de parlamentares sobre 'brexit'


Mas o anúncio já é, em si, um indício de que May se dobrou à pressão do Partido Trabalhista e a membros de sua própria sigla, o Partido Conservador, que exigem maior transparência em uma decisão que terá tamanho impacto no futuro do país.

O Reino Unido decidiu, na votação de 23 de junho, deixar a União Europeia. A saída, sem precedentes, tem criado temor nos mercados.

O "brexit" só será iniciado quando o governo acionar o Artigo 50 do Tratado de Lisboa. A partir desse momento, as negociações devem durar em torno de dois anos. May já afirmou ter planos de dar início ao processo até o final de março de 2017.

Não está claro até agora, porém, como será a saída. Questões fundamentais, como o futuro dos migrantes e dos acordos de comércio, permanecem sem resposta.

Ademais, há desafios vindos de todas as partes do país, incluindo grupos de cidadãos que exigem transferir a decisão final ao Parlamento, em lugar do governo.

PRESSÃO

May se nega, por ora, a permitir que o Parlamento vote a saída do Reino Unido. A decisão, diz, é prerrogativa do governo. Mas ela estará sob maior pressão se a estratégia do "brexit" for de fato debatida pelos legisladores.

O cenário até então previso era apresentar um plano já consolidado, em discussões a portas fechadas.

May tem insistido em que "brexit significa brexit", no que já virou seu bordão, sem definir porém concretamente como será realizada a saída.

A situação é agravada pelo fato de que o voto popular pelo "brexit", em junho, não incluía um modelo específico, e sim apenas a ruptura com a União Europeia. Não há, assim, um ponto de partida.

O Partido Trabalhista apresentou ao governo uma lista de 170 perguntas sobre a saída do Reino Unido. Segundo o diário britânico "Guardian", as dúvidas vão desde a permanência no mercado comum até o impacto no sistema de saúde.

É importante, para a oposição, que haja clareza. Parlamentares afirmaram na quarta-feira, afinal, que a falta de informações tem assombrado os mercados, causando dano à economia.

A libra, moeda britânica, por exemplo, desvalorizou-se 18% em relação ao dólar desde o referendo de junho. 
Folha de São Paulo

domingo, 4 de janeiro de 2015

Como a Europa enfrenta o desafio da imigração?


Navio com imigrantes foi abandonado pela tripulação no Mediterrâneo

A chegada de barcos cheios de imigrantes pobres e desesperados à Europa pelo mar Mediterrâneo está exercendo uma enorme pressão sobre a União Europeia, que busca soluções para o fluxo crescente de pessoas.

Nesta semana, dois navios com centenas de imigrantes foram abandonados pela tripulação e deixados à deriva no Mediterrâneo. Em um deles, os traficantes de pessoas deixaram o piloto automático ligado.

A Itália, para onde estas duas embarcações acabaram sendo levadas, é o país mais exposto.

Entre 2013 e 2014, milhares de pessoas se afogaram tentando chegar à Europa. Foram inúmeros os chamados para que a UE levasse a cabo uma ação coordenada para interceptar contrabandistas e lidar com os muitos imigrantes que tentam buscar asilo antes de chegar à terra.

O lucro do tráfico

A polícia italiana informou neste sábado que os traficantes de pessoas que abandonaram um cargueiro com mais de 350 imigrantes em pleno mar Mediterrâneo receberam cerca de US$ 3 milhões pela operação. Muitos dos imigrantes são originários da Síria.

Defender os direitos dos migrantes torna-se mais difícil quando a conjuntura econômica ainda é complicada, em que muitos europeus estão desempregados e muitos outros rejeitam a possibilidade de trazer mais trabalhadores estrangeiros.

Além disso, não há consenso entre os países da UE sobre como lidar com o "fardo" dos refugiados.

A BBC, a seguir, levanta questões importantes sobre o tema.
Qual o tamanho do desafio de migração que a Europa enfrenta?

A agitação social que resultou da Primavera Árabe trouxe novas pressões migratórias sobre a Europa ao levar mais pessoas a arriscar suas vidas atravessando o Mediterrâneo em barcos lotados e em péssimo estado.

Imigrantes podem receber asilo se atenderem a determinadas condições

A sangrenta guerra civil na Síria também aumentou o número de sírios em busca de refúgio na Europa. Essa é a principal nacionalidade que está migrando ilegalmente à UE, superando afegãos e eritreus.

Em outubro de 2014, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) disse que mais de 165 mil imigrantes ilegais tentaram atravessar o Mediterrâneo para a Europa nos últimos nove meses, ante 60 mil em 2013. Em 2014, quase metade dos que chegaram eram sírios e eritreus.

O principal ponto de pressão é a rota do centro do Mediterrâneo: a Itália recebeu mais de 140 mil imigrantes em 2014, diz o ACNUR.

Em 2014, mais de 3 mil morreram ou desapareceram no mar, em comparação com pouco mais de 600 em 2013.

Em 2011, o grande desafio foram os milhares de tunisianos que chegaram à pequena ilha italiana de Lampedusa. Agora, muito menos gente faz essa viagem, mas Lampedusa permanece como um gargalo devido à sua proximidade com o norte da África.

Tanto Itália quanto Malta pediram mais ajuda da UE para resolver o problema. Seus centros de recepção, que também existem na Grécia, estão superlotados e sem recursos.

Em novembro de 2014, a Itália encerrou sua missão de busca e salvamento chamada Mare Nostrum. Ela foi substituída por uma operação da UE mais barata e limitada chamada Triton, com foco em patrulhamento de um trecho de 30 milhas náuticas a partir da costa italiana.



Mais de 3 mil pessoas morreram ou desapareceram tentando chegar à Europa em 2014

Dados da Agência de Fronteiras da UE, a Frontex, confirmam um grande aumento de migrantes que tentam chegar em barcos frágeis, em viagens perigosas do Egito e da Líbia.

Em 2013, a Frontex detectou 40.304 imigrantes em situação irregular na rota do Mediterrâneo Central, aumento de 288% em relação a 2012. Esses números subiram em 2014, atingindo mais de 150 mil.

O Mediterrâneo Oriental é o segundo lugar onde mais se encontram imigrantes irregulares, com mais de 40 mil em 2014.

Esses dados não incluem os muitos que chegam às fronteiras europeias sem ser detectados e sem documentos, por outras rotas.

A Grécia continental continua a ser o principal ponto de trânsito, e muitos migrantes usam os Balcãs como ponto de passagem até o norte da Europa.
O que fez com que aumentasse o número de migrantes?

As guerras na Síria e no Iraque são claramente importantes catalisadores de migração para a Europa. Os vizinhos da Síria no Oriente Médio receberam cerca de 3 milhões de refugiados, enquanto milhões de pessoas foram deslocadas dentro do próprio território sírio.

Por outro lado, muitos migrantes continuam a fazer viagens perigosas a partir do Chifre da África, sendo muitas vezes tratados com violência por traficantes e enfrentando o calor do deserto e o conflito na Líbia, um país que se tornou o principal ponto de partida para a travessia do Mediterrâneo.

A guerra também afetou a Somália, e as autoridades italianas acreditam que muitos dos que pedem asilo têm razões genuínas para pedir asilo, já que fogem de perseguição.

No caso da Eritreia, muitos jovens estão fugindo do serviço militar obrigatório que alguns classificam como trabalho escravo. A Eritreia também enfrenta a repressão política, de acordo com relatórios de organizações de defesa dos direitos humanos.

Número de requisitantes de asilo que fogem da guerra aumentou recentemente

Muitos afegãos continuam a fugir da pobreza e perseguição no seu país, na medida em que se generalizaram os ataques do Talebã e de grupos criminosos.

Em termos de asilo, os sírios aparecem novamente no topo da lista da UE em 2013. Foram 46.960 sírios que pediram asilo. Os russos apareciam em segundo lugar, com 35.140 candidatos. Os afegãos ficaram em terceiro, com 21.320.

Os chechenos e outros migrantes do norte do Cáucaso também fogem da guerra e da pobreza extrema.

A maioria dos requerentes de asilo provenientes do Kosovo e da Sérvia são ciganos (romas), muitas vezes marginalizados e habitantes de áreas empobrecidas.
E o que ocorre com os imigrantes europeus?

É importante lembrar que há um grande número de cidadãos da UE que se deslocam de um país para o outro livremente. Eles também são descritos como "migrantes", mas estão protegidos pelas leis da UE, a menos que sejam criminosos fugitivos.

Seu status é muito diferente do de imigrantes que não são na UE. Em alguns países do bloco, incluindo o Reino Unido, isso tornou-se uma questão controversa por causa da pressão sobre os serviços sociais e da concorrência por emprego.

A maioria dos países da UE estão na área coberta pelo Acordo de Schengen, que permite aos europeus atravessar fronteiras sem ter que apresentar passaporte.
Como a União Europeia está lidando com a imigração?

Durante anos, a UE teve problemas para harmonizar sua política de asilo. É algo complicado considerando que há 28 países membros, cada um com sua própria polícia e sistema de justiça.

Há novas regras estabelecidas pelo Sistema Europeu Comum de Asilo, mas uma coisa é ter regras e outra é colocá-las em prática em todo o bloco.

O Regulamento de Dublin engloba as principais regras para lidar com pedidos de asilo. Indica que a responsabilidade por examinar os pedidos recai principalmente sobre o Estado-Membro que desempenha o papel principal na chegada de quem pede asilo - em geral, o primeiro país da União Europeia que o migrante pisou, mas nem sempre. Em muitos casos, os migrantes chegam em um país ao sul mas querem se unir a familiares que estejam, por exemplo, no Reino Unido ou na Holanda.

Autoridades italianas montaram acampamentos para imigrantes em Gallipoli

Há muitas tensões na UE por causa do Regulamento de Dublin. A Grécia se queixa de que é inundada com pedidos, porque a maioria dos candidatos entra na UE pelo país.

Finlândia e Alemanha estão entre os que decidiram parar de enviar imigrantes de volta à Grécia.

A UE tem também o sistema Eurodac, base de dados comum com as impressões digitais dos requerentes a que se pode ter acesso sob rígido controle. A polícia usa a base para interceptar pedidos de asilos falsos ou múltiplos.
Como os migrantes obtêm asilo na UE?

Eles têm de provar às autoridades que estão fugindo de perseguição e que poderiam enfrentar perigo ou morte se voltassem para seus países de origem. O direito internacional dá proteção a refugiados genuínos.

A proibição de expulsões em massa, conhecidas como "não devoluções", é um princípio da UE. No entanto, em alguns casos, não foi respeitada. A Grécia foi acusada de não permitir a entrada de migrantes.

De acordo com a legislação da UE, o requerente de asilo tem direito de ser alimentado, receber primeiros socorros e cuidados em um centro de acolhimento. Pode pedir asilo depois de tirar impressões digitais e ser entrevistado por um funcionário treinado.

O asilo pode ser concedido em "primeira instância" mas, se isso não ocorrer, a decisão pode ser recorrida na Justiça. Nove meses após sua chegada, podem obter empregos.

A Comissão Europeia, braço executivo da UE, indica que ainda há muitas variações nas formas em que cada Estado lida com solicitações.
Quantos pedidos de asilo são bem-sucedidos?

Houve 435.760 pedidos de asilo na UE em 2013, aumento de 30% em relação a 2012.

No final de 2013, mais de 352 mil esperavam uma decisão sobre seus pedidos.

A Alemanha liderou a lista de pedidos, com um quarto do total.

Em 2013, aproximadamente um terço dos pedidos dentro da UE tiveram sucesso. Quem mais obteve asilo foram os sírios, seguidos de refugiados eritreus e apátridas.

Quase 100 mil sírios receberam asilo na UE, segundo a Comissão Europeia.

No primeiro semestre de 2014, os países do sul da Europa receberam 60.800 pedidos de asilo, um aumento de 73% sobre o mesmo período de 2013. A maioria dos pedidos foram feitos na Itália e na Turquia, de acordo com um relatório do ACNUR.
BBC Brasil

Por que a Grécia volta a assustar a Europa?

Laurence Peter
BBC

Partido de esquerda Syriza é favorito para ganhar as eleições na Grécia, apontam pesquisas

A instabilidade política está de volta à Grécia após eleições antecipadas terem sido convocadas para o próximo dia 25 de janeiro. E a Europa acompanha atentamente a sucessão de acontecimentos no pequeno país mediterrâneo.

O partido de esquerda Syriza é o favorito para ganhar as eleições, apontam as sondagens.

A sigla, liderada por Alexis Tsipras, rejeita as medidas de austeridade impostas pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), culpados, em sua visão, pelo aumento do desemprego e da pobreza no país.

Mas por que a Grécia voltou a assustar a Europa? A BBC enumerou cinco perguntas para entender como o pequeno país mediterrâneo pode colocar novamente em risco o futuro do euro e do bloco comum europeu.
1. Por que a Grécia está em uma situação tão complicada?

Na sequência da adoção do euro em 2002, o governo grego aumentou a dívida pública aproveitando que a estabilidade da moeda única europeia permitia a tomada de empréstimos mais baratos.

Mas o aumento da dívida não foi acompanhado das medidas necessárias para combater a evasão fiscal e a ineficiência dos gastos da administração pública.

Assim, o déficit do país aumentou e, após a eclosão da crise financeira de 2008, o mundo ficou sabendo que a dívida grega era, na verdade, muito maior do que as autoridades divulgavam oficialmente.

Sem alternativas, a Grécia precisava de uma linha de crédito emergencial para evitar a moratória.

Em 2010, a União Europeia (UE) e Fundo Monetário Internacional (FMI) concederam à Grécia um pacote de resgate de mais de US$ 130 bilhões (R$ 350 bilhões).

Em 2012 verificou-se que esses fundos não eram suficientes e um resgate adicional foi anunciado, desta vez no valor de mais de US$ 150 bilhões (R$ 404 bilhões). A contrapartida para a concessão do novo empréstimo era que o governo grego adotasse medidas rigorosas de austeridade para reduzir os gastos com saúde, educação e outros áreas.

O custo dessas medidas tem sido enorme, com cerca de um terço dos gregos em risco de pobreza e exclusão social e uma taxa de desemprego superior a 25%.
2. Mas as reformas não estavam funcionando?


Depois de seis anos de recessão, em 2014, a economia grega conseguiu crescer modesto 0,6%.

No entanto, a instabilidade política no país ameaça a frágil recuperação econômica.

As eleições tiveram de ser convocadas porque o primeiro-ministro Antonis Samaras não conseguiu que seu candidato – o ex-comissário europeu Stavros Dimas – fosse eleito presidente em três diferentes votações parlamentares.

Essa incerteza fez com que o custo do endividamento grego aumentasse e a bolsa de Atenas afundasse.

Nas pesquisas de intenção de voto, o Syriza aparece 3% à frente da coalizão de centro-direita Nova Democracia, encabeçada por Samaras.

Para ganhar a eleição, o Syriza disse que pretende renegociar o resgate grego, para que a dívida do país seja reduzida à metade.

As autoridades da UE e do FMI afirmam, no entanto, que Atenas deve continuar a implementar medidas de austeridade.

O resgate grego só deve continuar por mais dois meses, deixando o governo grego em uma encruzilhada.
3. A situação agora é tão grave quanto as crises gregas anteriores?


Provavelmente não. Em 2012 falava-se de uma saída da Grécia da moeda única, o que poderia contagiar e causar instabilidade em outras economias da zona do euro.

Muitos analistas acreditam que a UE tem feito o possível para evitar os piores cenários previstos há dois anos.

A UE tem agora o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), com um financiamento de mais de US$ 1,6 trilhão, podendo desembolsar assistência financeira, se necessário.

Além disso, na memória dos investidores, estão as palavras do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, que disse, em 2012, que iria fazer "o que fosse necessário" para salvar o euro.

Por outro lado, algumas das economias mais afetadas da zona do euro, como a Irlanda e a Espanha, parecem ter ultrapassado os piores momentos da crise e estão crescendo.

A própria Grécia conseguiu equilibrar seu orçamento, embora tenha uma enorme dívida de mais de US$ 350 bilhões (R$ 941 bilhões).
4. O que podemos esperar das eleições de janeiro?


A política grega está muito volátil neste momento e os eleitores mais receptivos a declarações antiausteridade.

O Syriza pode ganhar eleições, mas seria necessário formar uma coalizão para governar, o que poderia suavizar sua oposição à austeridade.

Por outro lado, uma vitória do Syriza poderia inspirar outras coligações de esquerda que já vem ganhando força na Europa, como o partido ‘Podemos’, na Espanha ou o ‘Die Linke’, na Alemanha.

As coalizões de extrema direita Frente Nacional, da França, e UKIP, no Reino Unido, também poderiam sair beneficiadas.

A instabilidade política pode atrasar o crescimento econômico que a Europa precisa desesperadamente para reduzir o desemprego e aumentar o investimento.
5. É possível que a Grécia abandone o euro?

O Syriza já disse que quer a permanência da Grécia no euro e, nos últimos anos, as principais economias da zona do euro, com a Alemanha à frente, têm investido muito tempo e dinheiro para que os países que adotam a moeda única se mantenham unidos.

Ainda assim, teme-se que haja uma crise de confiança na economia grega. No pior cenário, os gregos poderiam correr aos bancos para retirar suas economias, como aconteceu em 2012 no Chipre, país que teve de ser resgatado.

O temor de que um governo liderado pelo Syriza se recuse a pagar a dívida poderá levar o país para a moratória, minando a confiança dos investidores.

O BCE pode rejeitar outro resgate, o que forçaria o Banco Central grego a socorrer os bancos do país, uma situação que culminaria no abandono do euro.

Analistas acreditam que uma saída desordenada da moeda única europeia seria catastrófica para a Grécia, levando a inflação às alturas e prejudicando ainda mais a vida dos cidadãos do país.

No longo prazo, entretanto, uma saída do euro deixaria a economia grega mais competitiva, apesar de que o custo imediato seria muito alto para a estabilidade da zona do euro.
BBC Brasil

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A Europa é a principal ameaça para a economia mundial?

Marcelo Justo
Da BBC Mundo



Desemprego na Zona do euro atinge níveis recorde

A zona do euro dá sinais de desalento. O pacote de austeridade implementado após a crise não funcionou, o desemprego segue em níveis recorde, dois de seus principais países, França e Itália, estão em recessão, o fantasma da deflação avança e o conflito na Ucrânia parece não ter fim.

Nem sequer o motor da economia alemã foi suficiente para estancar a queda de crescimento nos 18 países que usam o euro como moeda.


De abril a julho, a economia alemã contraiu 0,2%. A Zona do euro, por sua vez, teve crescimento nulo (0%).

A última tentativa de reverter tal cenário foi tomada na quinta-feira, 4, quando o Banco Central Europeu (BCE) anunciou um pacote para estimular os empréstimos no bloco e evitar a recessão. Cerca de 1 trilhão de euros (R$ 3 trilhões) podem ser injetados na economia. Além disso, os juros caíram mais uma vez, passando de 0,15% ao ano para 0,05% ao ano. Os detalhes da operação, contudo, só serão conhecidos no mês que vem.

Segundo Simon Tilford, vice-diretor do Centro para a Reforma Europeia, entidade sediada em Londres, o euro tornou-se "o elo mais fraco" da economia global.

"O único atenuante é que o mundo acabou se adaptando a uma crise de anos. Mas a Zona do euro é o maior parceiro comercial dos Estados Unidos e tem um impacto direto sobre outras regiões", disse ele à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Austeros x Keynesianos

A nível global, a zona do euro é a região que registrou o pior crescimento em 2013 e que também deve crescer menos neste ano e no próximo, bem abaixo dos Estados Unidos, dos emergentes asiáticos ou da África Subsaariana.

A região também vive um dilema do ponto de qual modelo econômico seguir. Os europeus estão polarizados entre a austeridade imposta pela Alemanha (com o apoio da Holanda, Áustria, Finlândia e até Espanha) e o aumento do gasto público defendido por França e Itália (apoiados por Portugal e Grécia) para combater os efeitos da crise.

A recente turbulência no gabinete do presidente francês, François Hollande, é o melhor exemplo de como essa dicotomia austero-keynesiana se reflete em cada país.

No caso da França, o "socialismo liberal" do novo ministro da Economia, Emmanuel Macron, acabou se sobrepujando ao modelo keynesiano-intervencionista encarnado pelo ministro de Renovação Industrial, Arnaud Montebourg.


Desemprego na Zona do euro atinge níveis recorde

"A mudança que François Hollande defendia em conjunto com a Itália e a Espanha para combater a austeridade defendida pela Alemanha não aconteceu. O resultado é que a austeridade de Angela Merkel segue fortalecida. O problema é que essa austeridade também não tem dado muito resultado", diz Tilford.
Cúpulas

A vitória frágil da austeridade aconteceu na última cúpula dos 28 países da União Europeia (18 da Zona do euro mais dez que mantiveram suas moedas), no final de agosto.

Diante dos dados econômicos negativos e o risco de agravamento da crise, os líderes europeus defenderam, no início do encontro, a necessidade de medidas urgentes.

Mas em que consistiram as medidas aprovadas?

No próximo dia 7 de outubro, vai ser realizada uma nova cúpula, a terceira em menos de um ano sem resultados expressivos.

Os encontros cada vez mais constantes se devem em grande parte à necessidade de os líderes europeus responderem ao público interno ante as suas promessas, por necessidade ou convicção, sob as bandeiras da austeridade ou do keynesianismo.

O problema é que o tempo está se esgotando, pelo menos economicamente.

A crise europeia, que começou nos setores bancário e financeiro (2008) e se tornou soberana, é hoje, também, uma crise de crescimento.

Alemanha, França e Itália, que juntas respondem por dois terços do PIB na área do euro, estão ou à beira de uma recessão (Alemanha), ou estagnada (França) e com quase nenhum crescimento desde o lançamento do euro há 15 anos (Itália).

O restante não pode compensar a queda dos três gigantes e nenhuma estratégia alternativa se vislumbra no horizonte.

"Não há investimento estatal porque a austeridade fiscal reina. Não há investimento privado porque o setor só quer se endividar novamente quando tiver certeza que a crise já passou. Já os consumidores não estão gastando por causa das dívidas acumuladas e pela cautela frente à atual conjuntura econômica. O resultado é que não há como retomar o crescimento", diz Tilford.

Para piorar a situação, o think-tank DER estima que a crise na Ucrânia poderia custar para a Europa cerca de 400 bilhões (R$ 1,1 trilhão) devido às perdas resultantes das exportações, do financiamento do Estado ucraniano e dos negócios no setor de energia. O país mais atingido seria a Alemanha.


Economia alemã dá sinais de desaceleração
Super Mario?

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, reconheceu que a política atual não estava dando o resultado esperado em uma conferência da autoridade monetária no último dia 22 de agosto.

Draghi disse que faria "tudo o que fosse necessário" para evitar uma queda maior da inflação (também chamada de "deflação").

A declaração lembrou outra intervenção bem sucedida do italiano em 2012, quando discorreu sobre como as taxas de juros da Itália e da Espanha poderiam colocar em risco a sobrevivência da Zona euro.

A declaração valeu-lhe o apelido "Super Mario". O dilema agora é se Draghi conseguirá reproduzir os feitos do personagem que lhe inspirou na economia real.

Em junho, o BCE cortou novamente as taxas de juros, que estão em seu nível mais baixo desde que a criação do euro, e prometeu empréstimos mais baratos a bancos para aumentar o volume de crédito à produção e o consumo.

Mas a luta que Draghi trava com a Alemanha no BCE diz respeito ao afrouxamento monetário, conhecido em inglês como "quantitative easing".


Protestos eclodiram nas principais cidades europeis contra as medidas de austeridade

Por esse sistema, o banco central europeu compra títulos de governos na mão de bancos privados para aumentar a liquidez dessas instituições e permitir-lhes ter dinheiro para emprestar, o que, em última análise, ajuda a movimentar a economia.

A política vem sendo aplicada nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Japão, com resultados distintos.

Parte desse capital adicional impulsionou o crédito, mas também levou à especulação financeira, especialmente nos chamados países emergentes, incluindo o Brasil e Chile, causando instabilidade nos mercados.
Sobrevivência do euro

Diante desse cenário, o fantasma de uma eventual dissolução da zona do euro – prenunciada com a crise da dívida soberana em 2010 - volta a rondar a região.

Entre as razões pelas quais isso ainda não aconteceu estão o custo multimilionário e a extrema instabilidade que seria trazida com a re-adoção das moedas nacionais (fraco, peseta, lira, marco alemão, etc).

No entanto, em sua edição de agosto, para marcar os dez anos de criação da moeda comum europeia, a revista britânica The Economist afirmou que o perigo ainda está no ar.

"Se o euro continuar a trazer estagnação, desemprego e deflação, as pessoas vão acabar por abandoná-lo. O risco que um ou mais países optem por esse caminho cresce a cada dia”, assinalou a revista.


Presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi ganhou o apelido de 'Super Mario'

Essa crise política se manifestou nas eleições para o Parlamento Europeu em maio deste ano com o crescimento de partidos extremistas e xenófobos, de um lado, e com apostas sobre uma Europa sem o euro, de outro.

Tilford, do Centro para a Reforma Europeia, diz acreditar que o euro só sobreviveu até agora porque não houve “crises políticas graves”.

"Houve protestos, novos movimentos e partidos, mas nada que não seja administrável", diz.

"É uma faca de dois gumes, pois criou uma complacência na classe política que parece esperar que, de uma forma ou de outra, que essa situação se resolverá sozinha. O resto do mundo terá que conviver por mais tempo com crise na Zona do euro".
BBC Brasil

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Notícias Geografia Hoje

Dia da Catalunha tem manifestações pró e contra a independência


Milhares de pessoas em Barcelona participaram de ato com bandeiras e vestindo camisetas com a frase 'agora é a hora'

BARCELONA - Milhares de pessoas participaram nesta quinta-feira, 11, de uma manifestação em Barcelona em favor de um referendo pela soberania proposta pelo governo regional da Catalunha, que seria realizado em 9 de novembro e é considerado ilegal pelo Executivo.

Segundo a delegação do governo espanhol na Catalunha, entre 470 e 520 mil pessoas participaram do ato, hasteando bandeiras, vestindo camisetas nas cores amarelo e vermelho com a frase "agora é a hora" e gritando "independência!" em catalão. A Guarda Urbana de Barcelona afirmou que a manifestação contou com a presença de 1,8 milhão de pessoas.

A manifestação da Via Catalã, convocada pela Assembleia Nacional Catalã e a associação Omnium Cultural, ocorreu sem incidentes e terminou em um clima festivo, com apresentações musicais e de castelos humanos, típicos da Catalunha.

Participaram da manifestação dirigentes de diversos partidos nacionalistas que apoiam explicitamente a consulta de soberania. O presidente regional catalão e principal incentivador do plebiscito, Artur Mas, não esteve presente.

O movimento separatista foi impulsionado pelo referendo de independência escocês que ocorrerá dia 18. Diferentemente do caso escocês, um referendo na Catalunha não resultaria automaticamente na cisão com a Espanha. O plebiscito proposto por Mas perguntaria aos catalães se eles são a favor da secessão. Se a resposta for sim, Mas afirma, isso daria a ele uma margem política para negociar um caminho em direção à independência.

Ao mesmo tempo, foi realizado em Tarragona, no sul da Catalunha, uma manifestação contra a independência da região que contou com a participação de milhares de pessoas, organizada pela plataforma Societat Civil Catalã (SCC).

A manifestação foi apoiada pelo Partido Popular da Catalunha, braço do Partido Popular na comunidade autônoma.

Os dois protestos ocorreram no Dia da Catalunha, que neste ano coincide com o 300.º aniversário da queda de Barcelona diante do assédio das tropas bourbônicas durante a Guerra de Sucessão.

Pesquisas sugerem que a votação sobre a Escócia está quase empatada e isso cativou uma variedade ampla de grupos além dos separatistas catalães. Eles incluem os bascos pró-independência no norte da Espanha, os corsos que querem sua separação da França, os italianos de diversas regiões no norte e os flamengos Bélgica. / DOW JONES e EFE
JORNAL O ESTADO DE S. PAULO

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Catalunha independente

Muitos catalães defendem a independência da Espanha. A língua é diferente, e por muitos séculos a Catalunha existiu como nação. Eles querem criar um novo país na Europa em pleno século 21

Mauro Tracco, De Barcelona

Todo domingo, às 11 h da manhã, o programa diante da Catedral de Barcelona é sempre o mesmo: jovens e idosos dão as mãos, formam uma roda e começam a bailar a sardana, uma dança que existe desde o século 19, mas quase foi proscrita durante a ditadura de Francisco Franco, entre 1939 e 1975. A sardana é, a um só tempo, exemplo e demonstração do orgulho catalão - e das diferenças entre a região e o resto da Espanha. Essas diferenças afloraram no dia 11 de setembro do ano passado quando 1,5 milhão de catalães, 10% da população, tomaram as ruas de Barcelona para reivindicar um estado próprio. O nacionalismo catalão é real e cresce a cada geração. Mas de onde ele vem? Baseado em que a Catalunha se intitula uma nação? Aliás, o que exatamente constitui uma nação? "Na velha Europa, são comunidades culturais assentadas em um território, com uma história comum, uma língua, uma cultura e o que poderíamos definir como uma psicologia coletiva, resultado de um processo de longa duração", dizAugustí Alcoberro, diretor do Museu de História da Catalunha e professor de história moderna na Universidade de Barcelona. "A Catalunha é uma nação europeia porque reúne todas essas características." 


Protestos pró-independência no Dia Nacional da Catalunha, em 11 de setembro (foto: Getty Images)

Forte desde os gregos 
A região da Catalunha, no nordeste da Península Ibérica, é velha conhecida da humanidade. Os gregos desembarcaram ali e fundaram as cidades de Emporion (atual Empuries) e Rodhes (Roses). Depois chegaram os fenícios, vindos do norte da África, que usaram a região como caminho para Roma durante a Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.). Os romanos também passaram (e ficaram) por ali. Em sua longa estada fundaram cidades como Tarraco (Tarragona) - capital da Hispania Cisterior e depois da província Tarraconense -, Gerunda (Girona) e Barcino (Barcelona). Trouxeram as leis, o latim e, no final do império, o cristianismo. Ainda há ruínas do circo romano em Tarragona.

Em 472, os visigodos puseram fim a 600 anos de domínio romano, mas não foram capazes de evitar a invasão árabe no começo do século 8. Foi justamente a luta do Império Carolíngio, liderado pelo imperador franco Carlos Magno, para expulsar os muçulmanos da Europa, que plantou o gérmen da futura Catalunha - os exércitos francos tomaram Barcelona em 801. Carlos Magno dividiu seu reino em condados, subordinados ao poder central. Aos poucos, durante o século 9, os nobres foram se desvinculando dos francos e deram origem a dinastias locais. "Esse processo foi a base da futura independência do país", explica Jaume Sobrequés, catedrático de história da Catalunha da Universidade Autônoma de Barcelona, no livro Història de Catalunya. Diz a lenda que após uma batalha contra os muçulmanos, Guifré, El Pilòs, que unificou os vários condados catalães, ficou gravemente ferido. O imperador carolíngio Carlos II colocou a mão direita na ferida do conde e passou os quatro dedos ensanguentados sobre o escudo dourado. Desde então, as quatro barras vermelhas sobre fundo amarelo se tornaram o escudo dos Condes de Barcelona. 

Os termos "Catalunha" e "catalães" para definir o lugar e sua gente são documentados a partir do século 12, na mesma época em que foram produzidos os primeiros textos de caráter literário, jurídico e religioso em catalão, uma língua evoluída do latim. 

Em 1137, o casamento entre o Conde de Barcelona, Ramón Berenguer IV, e a herdeira do reino de Aragão, Petronila, criou a confederação catalão-aragonesa, ou Coroa de Aragão. "O pacto garantiu a sobrevivência do reino de Aragão, ameaçado pelos de Castela e Navarra, e a supremacia da Casa de Barcelona sobre esse território", diz Alcoberro. Os dois domínios mantiveram suas leis, idiomas e impostos próprios. Tinham em comum apenas a figura do soberano, que em um lugar era chamado de rei de Aragão e no outro de conde de Barcelona. Foi um período dourado. Durante o século 13, o conde-rei Jaime I, o Conquistador, empreendeu uma bem-sucedida política expansionista (veja ao lado). Sob seu comando, os reinos de Majorca e Valência foram incorporados à Coroa de Aragão. Seus descendentes conquistariam as ilhas de Sardenha e Sicília, os ducados gregos de Atenas e Neopátria e o reino de Nápoles. "Foi formado um verdadeiro império político e econômico catalão no mediterrâneo, em dura rivalidade com Gênova e outras cidades-estado italianas", afirma Sobrequès. Foi também nessa época que começaram a tomar forma definitiva as instituições que governariam o país até 1714, como o Conselho de Cento de Barcelona, responsável pela vida municipal, e as Cortes Catalãs, o legislativo que controlava a atuação do rei. A partir de 1362 se consolidou uma representação permanente das Cortes, chamada Diputació del General, ou Generalitat, que se converteria no mais importante organismo político da Catalunha durante os séculos 14 e 15. 


O declínio sob Castela 
Quando o rei Martin, o Humano, morreu em 1410 sem deixar herdeiros, colocou fim à dinastia catalã. Em 1469, veio o casamento entre Fernando II de Aragão e Isabel de Castela, que passaram à História como os Reis Católicos. Seus respectivos domínios continuaram sendo governados separadamente, seguindo um modelo semelhante à da confederação catalã-aragonesa. Carlos I, da Casa de Áustria, neto de Fernando II, foi o primeiro monarca a receber a dupla herança de Castela e Aragão, em 1516.

Apesar da manutenção das instituições, a união beneficiou Castela, que de forma progressiva conquistou relevância no cenário internacional, principalmente com o descobrimento da América, em 1492. O surgimento da figura do vice-rei, representante do soberano na Catalunha, erodiu o poder local e alimentou o atrito com uma Madri cada vez mais absolutista. O golpe de misericórdia à Catalunha foi dado em um dos últimos episódios da Guerra da Sucessão Espanhola, que opôs os estados bourbônicos (França e a Espanha de Felipe V) aos da Grande Aliança de Haia (Inglaterra, Países Baixos, o Império Alemão, Savoia e Portugal). A Catalunha apostou pela causa aliada para garantir a preservação de suas leis. Mas Felipe V de Bourbon, primeiro monarca da dinastia que até hoje reina na Espanha, saiu vitorioso do conflito. No dia 11 de setembro de 1714, após 13 meses de sítio, ocupou Barcelona. "A pior consequência da derrota foi a dissolução do Estado catalão", diz Alcoberro. Desde então, a Espanha passou a ser um estado juridicamente uniforme, com apenas uma língua oficial - o castelhano - e administração centralizada em Madri. 

Luta pela autonomia 
A Catalunha experimentou um notável crescimento econômico durante o século 18 e iniciou um processo de industrialização em 1830. As fábricas a vapor configuraram um novo modelo de produção baseado no setor têxtil. "Ao longo do século 19, a industrialização diferenciou a Catalunha e o País Basco do resto dos territórios da Espanha, ainda de predomínio rural", diz Jordi Casassas, catedrático de história contemporânea da Universidade de Barcelona. A sociedade catalã protagonizou a eclosão de um movimento cultural conhecido como Reinaxença (Renascimento). Guiados pelo ideal romântico do século 19, toda uma geração de intelectuais, poetas e artistas sentiu a necessidade de ressuscitar a identidade e o idioma nativos. 

"Os atores da Reinaxença tiveram papel vital para o catalanismo, uma vez que criaram a bagagem cultural sobre a qual se codificaria a moderna identidade catalã", diz Casassas. O partido conservador Liga Regionalista, criado em 1901, deu origem à aliança Solidaritat Catalana, que se transformou em uma potência eleitoral e social. "Foi um passo definitivo para a consolidação do nacionalismo catalão", afirma Sobrequés. Paralelamente a essa corrente conservadora, surgiu outra mais radical, representada pelo Estat Català, fundado por Francesc Macià em 1922. A união do Estat Català com outros grupos deu origem à Esquerra Republicana, partido que está ativo até hoje e advoga pela independência da Catalunha. 

Após a ditadura de Primo de Rivera (1923-1930), as eleições municipais de 1931 acabaram com a monarquia e inauguraram o curto perío-do da Segunda República Espanhola. Macià aproveitou para proclamar a República Catalã, gerando uma crise que obrigou o governo de Madri a aceitar a criação de um governo autônomo. Em 1932, as Cortes Constituintes espanholas aprovaram o Estatuto de Autonomia da Catalunha, que garantia um presidente (Macià), um governo e um Parlamento. Porém, "a transferência de atribuições do Estado estava longe de acabar quando estourou a Guerra Civil, em 1936", diz Sobrequés. 

A vitória franquista anulou o Estatuto, destruiu instituições e impôs uma feroz repressão. O uso público do catalão foi proibido. Mas a violência só alimentou o sentimento independentista. Com a morte de Franco, em 1975, a Espanha começou sua transição para a democracia. A nova Constituição, de 1978, abriu as portas para a Catalunha aprovar um novo estatuto. 

A Generalitat estava de volta. Em 1983, foi criada a Lei da Normalização Linguística, que transformou o catalão em idioma co-oficial, ensinado nas escolas. Surgiram estações de rádio e TV com programação no idioma local. Ao contrário do que queria o governo de Madri, as comunidades autônomas não apaziguaram o nacionalismo. A cada geração cresce o sentimento antiespanhol e o número dos que reivindicam um plebiscito que permita à Catalunha abandonar a Espanha. Faz sentido? "Pedem a independência de Madri e politicamente querem depender de Bruxelas. Os governos nacionais hoje pouco podem interferir nas decisões tomadas na União Europeia", diz Juan Sisinio, da Universidade de Castilla-La Mancha 


Sangue na armadura 
Diz a lenda que o escudo que representa a região nasceu depois que o conde Guifre, el Pilòs, o unificador do Estado Catalão, foi ferido em batalha por muçulmanos. O imperador Carlos II passou os dedos na ferida e depois na armadura do conde. 

Eles e o Brasil 
Em 1580, Portugal foi anexado à Espanha, o período da União Ibérica. Décadas depois, a Catalunha, aliada à França, proclamou a República. Em seguida, Portugal tornou-se independente. "Uma Catalunha aliada à França era mais temível que Portugal independente na órbita da Inglaterra", diz Augustí Alcoberro, da Universidade de Barcelona.

A Catalunha e outros rebeldes 
Como seria o novo país independente da Europa e as outras regiões autônomas da Espanha 

Galícia 
O Reino da Galiza teve curtos períodos de independência até ser anexado por Castela. Ainda que menos ruidoso que o catalão e o basco, conta com um movimento nacionalista que reivindica a autodeterminação. 

Navarra 
O Reino de Navarra nasceu no século 9. Após ser anexado à Espanha, manteve suas instituições e leis, os Foros. Hoje tem autonomia política e econômica e regula seu próprio regime tributário. Os catalães exigem um convênio similar. 

País Basco 
Isolados pelos Pirineus, os bascos têm um idioma próprio. O Partido Nacionalista Vasco, separatista, é de 1895. Em 1959, nasceu o ETA, que depôs armas no ano de 2012. Tem regime tributário próprio. 

Espanha x Catalunha 
Área (em km2): 505 992 x 32 114 
População (em milhões) 47 x 7,5 
PIB (em milhões de euros) 1 063 x 200 
PIB per capita (em euros) 23 100 x 27 627

Culturas diferentes 
Como diferenciar um catalão de um espanhol

Castellers x Tourada 
Os castelos humanos são a mais popular tradição catalã. A cultura taurina é um dos principais símbolos da identidade espanhola. E foi proibida na Catalunha em 2010. 

Sardana X Flamenco 
A idéia da dança de roda típica dos catalães é mostrar a unidade do seu povo. O flamenco tem raízes nas culturas ciganas e mouras da Andaluzia. 

Salvador Dalí x Pablo Picasso 
O mestre surrealista é catalão. O gênio cubista nasceu em Málaga, na Andaluzia. 

Gaudí x Cervantes 
A arquitetura de Gaudí criou a identidade visual da Catalunha. Já a obra Dom Quixote, de Cervantes, escrita em castelhano, é considerada o primeiro romance moderno. 

Fuet x Jamón 
Na Península Ibérica, você é o embutido que você come. O fuet catalão é uma espécie de salame e o jamón, um presunto cru. 

Cava x Jerez 
A independência não terá champanhe, mas cava, o vinho espumante catalão. Os espanhóis vão ter que digerir a notícia com uma dose de jerez, um vinho fortificado com aguardente. 

Campeões mundiais 
Dos 11 ganhadores da Copa de 2010, 5 são catalães: Puyol, Piqué, Capdevila, Busquets e Xavi. Os espanhóis são Casillas, Sergio Ramos, Xabi Alonso, Iniesta, Pedro e Villa. (Os três últimos jogam no Barcelona.)

Saiba mais 
Livro 
Història de Catalunya, Jaume Sobrequés, Editorial Base, 2011
Revista Aventuras na História

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Notícias Geografia Hoje


União Europeia freia ambições em prol da energia limpa

STANLEY REED
STEPHEN CASTLE
MELISSA EDDY
"NEW YORK TIMES"

A União Europeia, que durante anos procurou liderar o mundo no combate às mudanças climáticas, estuda a possibilidade de converter suas metas obrigatórias de energia renovável em simples propostas não compulsórias.

E é provável que o bloco também não imponha restrições à exploração de gás de xisto com a técnica conhecida como fraturamento hidráulico (fracking), contestada por seu alto impacto ambiental.

O desaquecimento econômico profundo e de longa duração, os preços persistentemente altos das fontes de energia renováveis e os anos de negociações internacionais inconclusivas estão levando autoridades europeias a repensar como reformular agressivamente os setores de produção energética da Europa.

Os detalhes ainda estão sendo negociados em Bruxelas, mas autoridades dizem que a proposta energética e climática da Comissão Europeia provavelmente vai incluir uma meta compulsória de redução de emissões de 35% a 40% até 2030. Mas as metas seriam aplicadas à União Europeia como um todo, não a cada país individualmente, segundo um representante.

Gordon Welters/The New York Times

Parque eólico na Alemanha, onde autoridades estão decepcionadas com a ausência de metas compulsórias para a energia renovável


Alguns membros da Comissão queriam tornar não compulsórias as novas metas de energia renovável. Está em curso um esforço intenso de lobby, com defensores de diversos setores estudando detalhadamente os diferentes aspectos do pacote.

Jens Tartler, porta-voz da Federação Alemã de Energia Renovável, que representa o setor de energia solar e eólica, descreveu a ausência de metas compulsórias para as fontes de energia renováveis como "uma decepção total" e disse que isso irá "contribuir para uma forte desaceleração no ritmo de crescimento das energias renováveis".

Apesar disso, mesmo algumas fontes do setor de energia renovável dizem que o pacote que está emergindo é o melhor pelo qual se podia esperar, em vista do ambiente econômico difícil.

"Claro que as pessoas dizem que deveríamos estar fazendo mais, mas estamos avançando no rumo certo", diz Tom Murley, que administra fundos com US$ 1,15 bilhão em renováveis na HG Capital, em Londres.

As preocupações ambientais perderam espaço na agenda política. Os políticos estão tentando dar uma resposta às queixas do setor industrial e dos consumidores em relação aos custos da eletricidade na Europa, que subiram cerca de 40% desde 2005, enquanto nos EUA diminuíram no mesmo período.

A revolução do gás de xisto nos EUA suscitou um debate sobre se a Europa deve ou não explorar suas próprias reservas potenciais de xisto.

A Comissão Europeia parece tender a recomendações não compulsórias que governos de países como Reino Unido e Polônia, os mais ativos na busca do gás de xisto, poderão diluir ainda mais.

As propostas estão sendo influenciadas por discussões acirradas sobre o papel da energia nuclear na Europa. O plano da Alemanha de fechar suas usinas nucleares e ampliar seu setor de energia renovável vem enfrentando problemas. Os consumidores alemães enfrentam contas de eletricidade mais altas, e as empresas receiam que os custos da energia as estejam deixando em desvantagem.

Mesmo assim, políticos alemães expressaram receios quanto às propostas. Barbara Hendricks, a ministra do Meio Ambiente, disse: "A Europa precisa continuar a ser líder na proteção climática. Para isso, precisamos de metas inequívocas."
Folha de S. Paulo

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