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sábado, 24 de setembro de 2022

Presidente da Colômbia denuncia na ONU o fracasso do combate às drogas

Gustavo Petro direcionou seu discurso aos países consumidores e pediu para que acabassem com a "irracional guerra contra as drogas"
Por AFP




O presidente colombiano Gustavo Petro denunciou, em seu primeiro discurso perante a ONU, o fracasso da guerra antidrogas e seu rastro sangrento na América.

O consumo mortal tem aumentado, de drogas leves até as pesadas, ocorreu um genocídio em meu continente e em meu país, milhões de pessoas foram condenadas à prisão, destacou o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, principal país produtor mundial de cocaína.

Em um discurso direcionado aos países consumidores, Petro pediu para "acabar com a irracional guerra contra as drogas".

O presidente enfatizou que a estratégia que vem sendo usada há quatro décadas para acabar com o negócio lucrativo deixa apenas centenas de milhares de mortos na América do Norte e presídios superlotados no restante do continente.


Se não corrigirmos o rumo e esta (guerra) se prolongar outros 40 anos, os Estado Unidos verão 2.800.000 jovens morrerem de overdose" e "mais um milhão de latino-americanos serão mortos, disse o líder.


Desde sua posse no dia 7 de agosto, Petro insiste em focar na prevenção do consumo no lugar da perseguição aos cultivadores de folha de coca, a base da cocaína.
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sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Uruguai freia narcotráfico de cannabis, mas mercado ilegal ainda predomina


A descriminalização da maconha no Uruguai ajudou a tirar os narcotraficantes do mercado
Por AFP




A descriminalização da maconha no Uruguai ajudou a tirar os narcotraficantes do mercado, mas uma oferta estatal insuficiente e de baixa potência nas farmácias leva a maioria dos consumidores a recorrer ao mercado clandestino.

Em 2013, o Uruguai fez história ao se tornar o primeiro país do mundo a legalizar e regulamentar a produção e o consumo de cannabis, uma medida que começou a ser aplicada há pouco mais de cinco anos.


Impulsionada pelo ex-presidente José Mujica, a medida foi apresentada como uma alternativa à fracassada "guerra contra as drogas" e significou mais de US$ 20 milhões para a economia uruguaia, que antes ficavam nas mãos dos narcotraficantes.

Também permitiu o surgimento de uma incipiente indústria exportadora de maconha, que cresce ano a ano.

Segundo dados do portal Uruguay XXI, em 2020 dobraram as exportações em relação ao ano anterior, chegando a 7,3 milhões de dólares. Em 2021, a receita foi de 8,1 milhões de dólares e no primeiro semestre de 2022, de 4,4 milhões de dólares.


No momento, as exportações se concentram em flores para uso medicinal e têm como principais destinos Estados Unidos, Suíça, Alemanha, Portugal, Israel, Argentina e Brasil.

Apesar de ter sido pioneiro nessa indústria, o Uruguai ainda exporta menos do que outros concorrentes na América Latina, como Chile, que em 2020 faturou 59 milhões de dólares, Peru (US$ 40 milhões) e Colômbia (US$ 37 milhões), segundo um informe da Câmara de Comércio de Quito.

A legislação implementou três mecanismos para adquirir maconha: o autocultivo, os clubes canábicos e a compra em farmácias, todos sob regulamentação estatal e restritos a quem mora no país, embora o Parlamento esteja considerando abrir o mercado aos turistas.


"A regulamentação da cannabis foi mais eficaz do que a repressão no que se refere ao impacto no narcotráfico", explica Mercedes Ponce de León, diretora do Cannabis Business Hub e da ExpoCannabis Uruguay.

Variedade mais forte

O governo planeja agora vender no fim do ano uma cannabis mais forte nas farmácias para atrair um número maior de consumidores recreativos ao mercado formal.


"Há alguns usuários que demandam um maior percentual de THC ou mais variedade e isso conspira contra a eficácia do sistema porque determina que alguns usuários que poderiam comprar em farmácias busquem outras opções do mercado regulado ou no mercado clandestino", assegura Daniel Radío, secretário-geral da Junta Nacional de Drogas.

Apenas 27% das pessoas que compram cannabis o fazem de forma legal, segundo um estudo publicado pelo IRCCA (Instituto de Regulação e Controle de Cannabis), que compila os dados anuais de 2021.


Este percentual corresponde às pessoas registradas em alguma das três opções do mercado regulado.

O percentual chega a 39% se for levado em conta que alguns compradores compartilham o produto com amigos e conhecidos.

Poucas farmácias

Joaquín, nome fictício de um consumidor de cannabis que compra no mercado clandestino, explica que "muitas vezes é muito difícil conseguir maconha sem marcar hora para retirar na farmácia". "O mercado clandestino é simplesmente ter um contato, falar com ele e no dia, ou no dia seguinte, marcar e comprar".

Além disso, as farmácias habilitadas são poucas em relação à população total e persistem as dificuldades de acesso ao sistema financeiro devido às legislações internacionais.

O problema dos dados também afeta os consumidores. Para se ter acesso às três vias de compra legal, é preciso se registrar, uma medida que alguns preferem evitar, embora esta informação seja usada exclusivamente para o estudo do consumo.

No caso dos clubes, há um número limitado de sócios (entre 15 e 45), e existe, inclusive, uma lista de espera para entrar.

"Pulla", apelido do tesoureiro e encarregado técnico de um clube canábico de Montevidéu, explica que a lista de espera "é um indício de que a demanda não está atendida. Há muito mais gente querendo acessar o mercado legal que ainda não consegue".

A norma também estabelece que a coleta de cada membro não pode passar das 40 gramas mensais e, em muitos casos, também há um mínimo.

Autocultivo clandestino

Da mesma forma que o consumo foi sendo normalizado, a percepção do mercado ilegal também mudou. Os especialistas indicam que os principais abastecedores do mercado sejam os cultivadores locais.

Agus, nome fictício de uma consumidora de 28 anos, explica que se registrou para comprar cannabis em farmácias, mas agora adquire o entorpecente no mercado clandestino ao mesmo tempo em que cultiva suas próprias plantas, sem estar registrada.


"Eu não vejo como mercado clandestino. Entendo que é próximo, tem preços bons para o que vende e não parece que a gente esteja recorrendo ao narcotráfico", diz. Tem "um amigo ou conhecido que te passa o contato de alguém que tem flores e as vende".

Segundo Marcos Baudean, professor da Universidade ORT do Uruguai e pesquisador do projeto Monitor Cannabis, "há muito mais cultivadores domésticos que não constam dos registros", e por isso não é possível fazer uma estimativa concreta da abrangência do mercado clandestino.

Apesar disso, o professor assegura que os cultivadores não registrados "já ultrapassaram" as redes de tráfico na venda de cannabis. Apesar disso, os traficantes continuam presentes no Uruguai, principalmente vendendo o que chamam de 'paraguayos', prensados de maconha mais baratos.
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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Skid Row: como a maior cracolândia dos EUA se mantém há décadas 'nos fundos' de Hollywood


Ricardo Senra
Enviado da BBC News Brasil a Los Angeles


Direito de imagemAPU GOMES/BBCImage caption
Pelo menos 4 mil pessoas ocupam as ruas da área conhecida como Skid Row, em Los Angeles

"O crack bota você para cima. A heroína derruba. São drogas diferentes, bem diferentes", diz Tonya, enquanto acende o penúltimo Winston Red da carteira na ponta luminosa do cigarro anterior.

Desde os 16 anos, ela alterna momentos de intensidade e apatia pelas ruas da Skid Row, uma área de 54 quarteirões no centro de Los Angeles, a poucos passos dos cinemas e teatros do equivalente local da Broadway e dos arranha-céus de vidro do centro financeiro da cidade californiana.

"Minha irmã me trouxe para cá, essa era a área dela. Ela era um ano mais velha que eu e me deu a primeira droga. Era heroína", diz a descendente de mexicanos, hoje com 50 anos, enquanto ajeita uma manta empoeirada na cadeira de rodas que usa desde 2014, quando perdeu a perna direita por uma infecção vinda de uma agulha contaminada.

Pelo menos 4 mil pessoas dividem as ruas da Skid Row com Tonya - e a metade delas, estimam ONGs da região, usa drogas pesadas todos os dias.

A menos de meia hora de carro das mansões de Hollywood e da Calçada da Fama, a Skid Row reúne a maior concentração de pessoas em situação de rua dos Estados Unidos (a cracolândia de São Paulo, para efeito de comparação, reúne em média 1860 usuários, segundo um levantamento do governo do Estado publicado em 2017).

Depois de anos de predominância do crack, a heroína se tornou a droga mais popular da região, conta Santiago, que aplicou uma seringa com heroína pela primeira vez aos 13 anos. Há dez, ele dorme em uma das centenas de barracas que se aglomeram em frente a muros de transportadoras e grandes depósitos na região.


Por dentro da Skid Row, a maior 'cracolândia' dos EUA

"Eu fui abusado quando criança. Eu fui para as drogas para diminuir a dor. Agora sou um viciado e preciso disso."

Ele mostra uma seringa para a reportagem e fala sobre sua rotina.

"Tem a picada do café da manhã, uma picada no almoço, uma no jantar e um picada à meia noite. Isso me faz funcionar."
'Ímã' para os mais vulneráveis

No início do século 20, a Skid Row já era conhecida por reunir trabalhadores sem emprego fixo, alcoólatras e desempregados em uma das franjas do centro da cidade. O termo (caminho de derrapagem) surgiu no século 17, associado às áreas onde trabalhadores temporários organizavam o escoamento de troncos para a produção de madeira e celulose.

Desde então, áreas urbanas degradadas, em cujas ruas se reúnem pessoas em situação precária, ficaram conhecidas nos EUA como "skid rows" - a mais famosa dos Estados Unidos é a de Los Angeles, mas há outras grandes skid rows no país, como a de Chicago.

No fim dos anos 1980, o termo ficou conhecido internacionalmente por dar nome à banda de hair metal liderada por Sebastian Bach.

Em Los Angeles, apesar do crescimento acelerado nos últimos anos, acompanhando a epidemia de opióides (analgésicos altamente viciantes e derivados do ópio, incluindo heroína) que se espalha pelos EUA, a Skid Row ganhou seu principal impulso há quatro décadas.

Em 1976, o Conselho Municipal de Los Angeles lançou um plano urbanístico que mais tarde ficou conhecido como "política de contenção". A estratégia da prefeitura consistia em concentrar em um único lugar da cidade toda a oferta de abrigos, refeições populares, ONGs de reabilitação e serviços para a população desempregada, sem moradia e com problemas de saúde mental.

Direito de imagemAPU GOMES/BBCImage caption
Depois do predominância do crack, usuários de drogas de Skid Row passaram a usar principalmente heroína

A área da Skid Row passaria a funcionar como um ímã para a população de rua da cidade, que encontraria serviços básicos apenas ali - deixando as outras áreas cidade para a população de classe média e rica.

O resultado, dizem especialistas, foi um perverso ciclo vicioso: com a população mais vulnerável nas ruas, albergues e pequenos hotéis da região, a oferta de drogas cresceu muito mais rápido do que a de empregos ou serviços de saúde.

Assim, o consumo de substâncias pesadas e a população da área explodiram - sobrecarregando as ONGs e órgãos públicos que se instalaram na região com a premissa de contê-lo.
'Eu e você divididos por uma circunstância'

"Ninguém nunca sonhou em ser sem-teto, esse não é o sonho de ninguém. As pessoas que estão vivendo nas ruas somos nós. Não são nós e eles. Só há nós. Eles são você e eu - divididos por alguma circunstância", diz Georgia Berkovich, diretora da Midnight Mission, misto de abrigo e clínica de recuperação que existe há mais de 100 anos.

Quem vê de tailleur vermelho, maquiagem pesada e cabelos escovados caminhando apressada de uma reunião para outra em um dos casarões da região pode questionar seu conhecimento de causa.

Ela própria explica. "Eu era uma criança solitária, criada por uma mãe solteira. Então, comecei a beber muito jovem. A ficar bem louca", diz, enquanto olha, do terraço da ONG, um grupo vendendo isqueiros e cachimbos para crack em uma esquina próxima.

"O que aconteceu comigo também acontece com muita gente, mas, como sou alcoólatra, isso me trouxe, aos 24 anos, para o crack."

Em 2018, ela completa 25 anos sóbria. "O que é algo grande, pelo menos para uma garota como eu", ela diz.

Direito de imagemAPU GOMES/BBCImage caption
Assim como na cracolândia, moradores de rua também usam drogas em barracas montadas na rua

Para Berkovich, o poder público erra ao se concentrar em remediar a falta de casas e o abuso de substâncias proibidas.

"Estamos tentando parar o sangramento, em vez lidar com o que causa a falta de moradia, que é nosso sistema de adoções, os sistemas prisional, educacional, de moradia, de doenças mentais, de abusos de drogas e álcool. Todas essas coisas estão alimentando a falta de moradias e precisam ser corrigidas."
Cachimbos e seringas para reduzir danos

Entre os principais desafios para os abrigos e programas sociais locais estão a "tentação" durante a processo de reabilitação, seja pela oferta e ou pela convivência com drogas pesadas, e a escolha, por alguns, de simplesmente continuar consumindo as substâncias nas ruas da área.

Para ter acesso à maioria dos programas de moradia ou desintoxicação da região, os pacientes precisam se comprometer a abandonar completamente a droga antes de iniciar o tratamento - o que afasta muitos potenciais candidatos ou gera desistências e pacientes reincidentes.

Algumas instituições, como a Homeless Health Care Los Angeles, financiada por dinheiro público e de doadores, recorrem a técnicas menos radicais, como a conhecida como "redução de danos".

Desde 1985, a ONG já reverteu mais de 400 overdoses com a aplicação de remédios, e distribuiu milhares de seringas, agulhas, kits de esterilização e piteiras para cachimbos, enquanto mantém serviços de desintoxicação, testes de doenças transmissíveis por sangue ou via sexual e encaminhamento para programas de moradia da prefeitura.

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Programas de assistência concentrou moradores de rua e dependentes químicos na região

"Não queremos que eles usem agulhas sujas ou as dividam com seus amigos, porque elas podem espalhar HIV, hepatite C e outras doenças", explica um funcionário, enquanto prepara um kit para uma jovem de menos de 20 anos com o pescoço, os braços e as pernas cobertos de cicatrizes.

Ele ressalta que a ideia não é manter as pessoas no vício, mas ajudá-los a reduzir sua exposição a doenças e overdoses enquanto eles se preparam para o processo de desintoxicação.

"Nosso serviço não depende da abstinência de drogas. Nós não tentamos subestimar os riscos potenciais delas. Ao contrário, queremos tentar reduzir as consequências negativas que surgem durante o uso de drogas injetáveis para que as metas de reabilitação sejam realistas e alcançáveis."
'Não é que eu ame minhas drogas mais que meu filho'

A BBC News Brasil conheceu Tonya, que abre esta reportagem, na saída da clínica de redução de danos. Ela havia acabado de entregar seringas usadas em troca de outras.

"Eu não peguei HIV graças a eles. Vi muita gente morrer contaminada porque não sabe usar drogas com responsabilidade."

Ela se emociona quando perguntada sobre família.

"Minha mãe veio aqui me procurar no Natal. Ela queria ter certeza de que eu estava bem e veio direto para a minha barraca, eu estava saindo quando ela estava entrado", lembra, sorrindo.

"É difícil lidar com isso diariamente. Especialmente (para) meu filho, meu pequeno menino. Eu digo a ele para não usar drogas para não terminar como a mamãe. Não é que eu ame minhas drogas mais do que ele. Eu sou viciada, entende?"

Segundo o departamento de planejamento da prefeitura, moradias e oferta de serviços de recuperação aos usuários são prioridade central para a cidade - o número total de sem-teto, incluindo regiões fora da Skid Row (como a popular Praia de Venice, que vem se tornando um novo polo) varia de acordo com estimativas oficiais e de ONGs entre 34 mil e 60 mil pessoas.

A população da cidade parece concordar com a urgência e os eleitores aprovaram, por meio de voto, a cobrança de um novo imposto sobre propriedades, que renderá US$ 1,2 bilhão para os cofres públicos - o valor será 100% destinado à construção de 10 mil moradias populares nos próximos 10 anos.

A BBC News Brasil acompanhou uma operação da polícia de LA em busca de traficantes na região e perguntou a um dos oficiais sobre as perspectivas da região na próxima década.

"Em 10 anos… eu não vejo isso melhorando. Para mim, não. Estamos aqui tentando lutar por eles e ajudá-los, mas os números estão crescendo e não há abrigo suficiente", ele responde. "Sabemos que há muitas pessoas aqui usando drogas, e tentamos lidar com isso da melhor maneira, mas não temos agentes suficientes aqui para lidar com todas as situações."

Uma colega policial aponta para a esquina. "Aquela missão ali é uma área de recuperação, você vê? E eles estão vendendo drogas bem na frente."
'Cansado de ficar cansado'

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A região tem o dobro de pessoas da cracolândia, área de consumo e venda de crack no centro de São Paulo

Perto dali, Santiago leva a reportagem até a barraca azul onde dorme há 10 anos.

"Esta é minha casa na Skid Row. Eu durmo, como e uso minhas drogas aqui. É assim que vivo. Em uma barraca."

A BBC News Brasil pergunta como ele consegue dinheiro para se manter.

"Os EUA não são um pais rico para todos. Acho que há interpretação errada. No Brasil, se virem ou ouvirem que LA é rica, que tem ajuda financeira e serviços públicos para todo mundo… nao é tão simples."

O homem continua: "Mensalmente, em drogas, gasto quase mil dólares. O que eu não tenho. Mas o dinheiro vai aparecendo com a colega de material reciclável, bicos no posto de gasolina, limpeza carros ou ajudando uma mulher como esta que está passando a carregar as coisas…"

Santiago está em um dos intervalos do uso de crack e heroína e conversa com a reportagem enquanto penteio o cabelo longo - ele acabou de tomar banho em uma das ONGs locais.

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Em Skid Row, uma ONG de assistência a usuários de drogas distribui seringas e cachimbos a dependentes químicos

"A onda de US$ 15 ou US$ 20 de crack dura por volta de 2 ou 3 horas. É o tempo de quebrar um pedaço da pedra, fumar, depois fumar alguns cigarros, fumar um baseado, beber uma cerveja, e depois fumar outro trago e sentir aquela aceleração, uma sensação de calor, e você sente mais ou menos como se não pudesse pensar, mas você ainda pode se controlar", diz.

Sua droga preferida dos últimos anos é a heroína.

"Se eu não tiver, fico em abstinência. E eu odeio acordar e ter diarreia, não ser capaz de controlar meu vômito. É para aí que a heroína vai te levar. Eu preciso ter pelo menos uma dose para seguir em frente, se não estaria vomitando, com um cheiro ruim, e eu não gostaria que você me visse assim."

Tem vontade de recomeçar?

"Eu estou ficando cansado de ficar cansado. Eu sei que quando eu ficar limpo e sóbrio, não vou precisar olhar para trás, para isso. Vou deixar o passado e caminhar para frente", diz.

"Quero estudar computação gráfica, gestão de pequenos negócios e filosofia e atingir meus objetivos. Vou usar meus objetivos de curto prazo para ajudar meus objetivos de longo prazo de ser produtivo e bem-sucedido."
Fonte: BBC Brasil

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Dados do IBGE confirmam que violência mata mais homens jovens


Para cada mulher de 20 a 24 anos vítima de causas violentas, país perde quatro rapazes
ALESSANDRA DUARTE

Por causa da violência, para cada mulher entre 20 e 24 anos que morre no Brasil, o país perde quatro homens na mesma faixa etária. Em Alagoas, o primeiro do ranking, morrem oito homens nessa faixa para cada mulher. O registro de óbitos foi uma das principais novidades do Censo de 2010, divulgado nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pela primeira vez, o órgão incluiu no questionário a pergunta sobre se algum integrante da família havia morrido.
A pesquisa registrou um total de 1.034.418 óbitos no país de agosto de 2009 a julho de 2010. Foram 133,4 mortes de homens para cada 100 de mulheres. É, porém, nas faixas de 15 a 19 anos, 20 a 24, e 25 a 29 que o número de óbitos de homens é bem maior. No grupo de 20 a 24 anos, 80,8% dos que morrem são homens.
- Todas as políticas voltadas para a redução da violência devem mudar esse quadro, porque os jovens do sexo masculino morrem em número muito maior pelas chamadas causas externas (homicídios e acidentes de trânsito). Políticas, por exemplo, como um maior controle para se evitar que pessoas alcoolizadas dirijam - afirmou a presidente do IBGE, Wasmália Bivar.
Alagoas é o estado em que mais homens morrem, em relação às mortes de mulheres: enquanto a média do Brasil é de 419,6 óbitos de homens para 100 de mulheres de 20 a 24 anos de idade, em Alagoas são 798 óbitos de homens para cada 100 de mulheres. A Paraíba vem em segundo, com 581,6 mortes de homens para cada 100 de mulheres. No Sudeste, estão acima da média nacional o Rio (476,7 por 100) e o Espírito Santo (466,9 por 100).

Subregistro de mortes de crianças
Além de medir o impacto da violência nas famílias brasileiras, o registro de óbitos do Censo também mostra a evolução do quadro socioeconômico do país, ao contabilizar as mortes das crianças menores de 1 ano, grupo considerado o mais vulnerável a condições de vida precárias. A comparação do Censo com os registros de óbitos do Registro Civil de 2009, também do IBGE, mostra ainda que os dados do Censo, em regiões como o semiárido do Nordeste, chegam a ser quase 300% maiores, apontando o subregistro das mortes de crianças no país.
O Censo registrou 3,4% de mortes de crianças menores de 1 ano no país - queda de 85,4% em relação aos dados do Registro Civil de 1980, quando esse percentual era de 23,3%. Segundo o IBGE, a redução foi devido à melhora no acesso à saúde, por exemplo. No entanto, apesar da queda, o Censo de 2010 aponta que morrem por dia, em média, 96 crianças menores de 1 ano.
Além disso, todos os estados do Norte estão acima da média nacional - enquanto todos os das regiões Sudeste e Sul estão abaixo. A distância entre as áreas urbana e rural também é grande: no grupo de 1 a 4 anos, o percentual rural é 118,9% maior.
Na comparação com os óbitos do Registro Civil, o Censo registrou, no Maranhão, número de mortes de bebês menores de 1 ano 276% maior. No Amapá, a diferença é de 92%. Em todo o país, no grupo de 1 a 4 anos, o Censo traz um registro 30,6% maior.
- A discrepância é maior em áreas de população ribeirinha e no semiárido. É pelo baixo registro das mortes em cartório, que é o que baseia o Registro Civil. Mas, no Norte, um cartório cobre uma área média de 6 mil quilômetros quadrados, enquanto, no Sudeste, um cartório cobre 324 quilômetros quadrados. Nas regiões pobres e mais distantes, a criança nasce e não é registrada, morre e continua sem registro. É como se não tivesse existido - diz o pesquisador do IBGE Fernando Albuquerque. - É claro que esse subregistro prejudica, por exemplo, as políticas de saúde para essas áreas.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/dados-do-ibge-confirmam-que-violencia-mata-mais-homens-jovens-3256278#ixzz1gXOURcGT
Jornal O Globo

domingo, 13 de novembro de 2011

Notícias Geografia Hoje


Bolívia é o maior abastecedor de cocaína na América do Sul, diz ONU

DA FRANCE PRESSE, EM LA PAZ
A Bolívia é o maior abastecedor do mercado sul-americano de cocaína, segundo o peruano César Guedes, representante das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime (ONUDC), entrevistado no domingo por um jornal local. De acordo com a entidade, o negócio da cocaína move anualmente, só nos países andinos da região (Bolívia, Colômbia e Peru), cerca de US$ 85 bilhões.

"Sobre a droga boliviana, sabe-se que apenas 1% que sai do país chega ao mercado americano. A Bolívia é o maior abastecedor do mercado sul-americano, a outra parte vai para a Europa", disse ao jornal "Página Siete".

"A Bolívia é um país de passagem. Ela serve de ponte para a droga da Colômbia e do Peru para o mercado sul-americano emergente", apontou.

Segundo o funcionário "a maior parte da droga colombiana vai para os Estados Unidos, 20% para a Europa e outros locais. Do Peru, a metade vai para o mercado americano e a outra metade para Europa e América do Sul".

Guedes parabenizou o recente acordo para normalizar as relações entre Bolívia e Estados Unidos e afirmou que "seria bom que fossem analisadas as novas propostas da DEA [agência americana contra o narcotráfico] para trabalhar com a nova Bolívia". Recentemente a população interna do país recusou a retomada das ações da DEA.

Segundo ele, o Brasil, que trabalha com a Bolívia em um acordo de cooperação na luta antidroga, "não tem todas as capacidades técnicas da DEA, mas tem muitas outras que podem servir para paliar o problema entre os dois países" em uma fronteira comum de 3.100 km permeada pelo narcotráfico e o crime.

A Bolívia é o terceiro produtor mundial de cocaína, depois da Colômbia e Peru.

Folha de São Paulo

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Crack - Falsos dilemas e controvérsias


Com uma lógica de comercialização e distribuição diferente em relação às demais drogas, o crack impõe como principal desafio a elaboração de estratégias em áreas distintas, como saúde, segurança e assistência social. E exige que mitos sejam derrubados
Por Glauco Faria e Thalita Pires

De acordo com o II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, feito em 2005 em 108 cidades com mais de 200 mil habitantes, apenas 0,7% dos entrevistados havia experimentado crack alguma vez na vida, sendo que um percentual ainda menor – de 0,1% - tinha feito uso da droga no ano anterior. O número parece baixo, ainda mais se comparado ao uso de outros entorpecentes: 8,8% dos entrevistados declararam haver experimentado maconha pelo menos uma vez na vida, enquanto 2,6% disseram ter consumido a droga no ano anterior. O uso de crack também fica atrás do de solventes (5,8% disseram ter experimentado), benzodiazepínicos (3,3%) e cocaína (2,3%). No entanto, para entender o porquê de hoje o crack ser uma preocupação que muda os parâmetros tanto na saúde público como na área de segurança, é preciso ir além dos números frios.
Primeiro, muitos especialistas levam em consideração que os dados acima estão desatualizados, havendo motivos para supor que o consumo do crack tenha aumentado. E, ainda que se note uma baixa prevalência do uso do crack em relação a outras substâncias, os efeitos causados nos usuários justificam a atenção que seu consumo vem recebendo. A combinação do efeito estimulante, por ser derivado da cocaína, e da rapidez com que faz efeito é explosiva para a saúde. “O mecanismo da dependência é semelhante em todas as drogas. O que muda no crack é o tempo que o processo leva”, explica o psiquiatra Jairo Werner, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador do Grupo Transdisciplinar de Estudo e Tratamento de Alcoolismo e outras Dependências da Universidade Federal Fluminense (UFF). “O crack chega mais rapidamente ao cérebro, porque o caminho é menor do que o da cocaína inalada”, diz. A maconha, outra droga fumada, também chega rapidamente ao cérebro, mas como o efeito é relaxante e mais duradouro, a dependência também é um processo mais longo.
O efeito rápido e estimulante, somado ao preço relativamente baixo de uma pedra (que pode variar, de acordo com o lugar, entre 5 e 10 reais), fazem com que essa seja a substância preferida entre moradores de rua. “O crack é a oportunidade de um segmento de baixa renda usar uma droga com efeito semelhante ao da cocaína”, conta Luiz Flávio Sapori, coordenador do Centro de Pesquisas em Segurança Pública da PUC-MG. “Ele geralmente custa um terço ou metade de um papelote de cocaína”, afirma o pesquisador mineiro. “Pessoas que não têm o que comer não vão escolher a maconha, que relaxa e dá ainda mais fome. O crack é tão estimulante que faz com que a fome desapareça, por isso é tão utilizado por moradores de rua”, acrescenta Jairo Werner.
No entanto, o vício pode ser muito mais dispendioso para o usuário, já que o número de pedras utilizado pelos dependentes é muito alto. “O crack tem um alto potencial para viciar: a quantidade de pedras favorece o que costumamos chamar de tolerância, além de sintomas de abstinência que levam à recaída”, explica Felix Kessler, vice-diretor do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da UFRGS. Segundo a pesquisa “Perfil do usuário de crack e fatores relacionados à criminalidade em unidade de internação para desintoxicação no Hospital Psiquiátrico São Pedro de Porto Alegre (RS)”, divulgada em 2008, 70% dos usuários entrevistados faziam uso diário, com uma média de 11,57 pedras por dia no período anterior à internação para desintoxicação. Isso representava, à época, uma despesa média de R$ 57,85 por dia.
Com um efeito tão forte e adequado às necessidades de pessoas em situação social vulnerável, o crack é uma droga muito difícil de ser combatida, assim como todos os efeitos que seu uso gera. Essa é uma das conclusões de um estudo coordenado por Flávio Sapori, intitulado “Os impactos do crack na saúde pública e na segurança pública”, divulgado em agosto de 2010. “Do ponto de vista da prevenção e do tratamento, estamos falando de uma droga que tem efeito farmacológico mais compulsivo, dificultando qualquer política de tratamento convencional. A pesquisa revelou que os profissionais médicos, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais têm muita dificuldade para se lidar com esse novo personagem”, explica o pesquisador.
A necessidade de esforços em áreas distintas fica ainda mais evidente quando se levam em conta alguns outros aspectos, como o fato de os problemas para quem usa crack não se resumirem somente aos efeitos da droga no cérebro. Desde a primeira “pipada”, o usuário, ainda que não tenha desenvolvido o vício, está vulnerável a queimaduras na boca e nas vias aéreas, problemas pulmonares, taquicardia e aumento da pressão arterial. O risco de derrames e problemas cardíacos imediatos é real. O panorama fica ainda pior quando se sabe que, nas ruas, os usuários têm poucas possibilidades de serem socorridos imediatamente em caso de complicações.
Os níveis de violência
A lógica de comercialização e de distribuição do crack também traz elementos complicadores, que o distinguem do que ocorre com outras drogas ilícitas. “A tendência de uma parte dos usuários de crack, que não temos como mensurar, mas mais expressiva do que do que os que usam o pó e a maconha, é de se incorporar ao varejo, se tornando vapores, aviõezinhos. Isso se dá pela dimensão compulsiva do consumo”, argumenta Spori. “Nesse sentido, eles se tornam pequenos traficantes, não por conta de um grande ganho econômico, mas pela possibilidade de um dinheiro pequeno ou remuneração pela própria droga, ou seja, traficam para sustentar seu próprio vício. Isso tem implicações na ação policial, no âmbito da própria lei.”
A pulverização do comércio do crack é umas das características que o distingue de outras drogas. As fronteiras entre tráfico e consumo são sutis e difíceis de enquadrar na lei brasileira. “É uma droga mais difícil no ponto da repressão. Há um grande número de pequenos traficantes que, em geral, são pequenos usuários, então, há o risco de prender um grande contingente de pessoas que vendem, mas que na verdade são usuários”, diz Sapori. São pessoas que precisam de tratamento para se livrar do vício, já que só traficam para comprar a droga, e não para lucro pessoal. A identificação do perfil do usuário-traficante é um desafio para o qual ainda não existem respostas sistêmicas. Hoje, essa diferenciação depende da sensibilidade com quem os envolvidos no caso – policiais, delegados, juízes, assistentes sociais – tratam a questão.
Em que pesem os efeitos devastadores do crack no organismo, a maior causa de letalidade relacionada a essa droga tem a ver com a violência. A pesquisa feita por Sapori em Belo Horizonte mostra que os dependentes morrem, principalmente, por conta de homicídios ligados ao tráfico. O período da disseminação e da consolidação do comércio da droga na capital mineira coincide com o crescimento da vitimização dos jovens entre 15 a 24 anos de idade, principal público consumidor. A taxa de homicídios nessa faixa etária se distancia da faixa acima de 25 anos a partir da segunda metade da década de 1990, tornando-se 2,5 vezes maior em 2005 e invertendo a tendência anterior. “Estou convencido de que a realidade de BH é replicável para as demais capitais brasileiras. Acredito que o crack tem relação com o grande crescimento de homicídios nas capitais nordestinas ao longo dessa década, as que mais tiveram crescimento da violência urbana”, acredita. “Trata-se de um mercado que gera mais homicídios que o das outras drogas, porque gera mais endividamento por parte dos usuários, propiciando acertos de contas muitas vezes com base na morte.”
O estudo também contou com entrevistas de traficantes, e mostra que eles são objetivos ao afirmar que o meio de garantir a lucratividade desse negócio é administrar essas dívidas até o ponto em que o usuário busca outro fornecedor. Apesar de conhecer a dinâmica, a fissura pela droga faz com que os dependentes assumam o risco. Um dos depoimentos de um traficante, relatado na pesquisa, mostra como se dá essa “gestão de negócios”: “O traficante não mata o usuário porque ele tá devendo. Ele mata porque ele é um sem-vergonha e tá devendo e foi comprar na outra boca. É nessa situação que ele mata o usuário. Se ele comprou num pagou, mas num tá devendo, não tá usando, o traficante segura mais a onda. Mas se vê que ele tá chapado, tá tirando mercado dele, ‘cê tá achando que eu sou otário’?”
Em função dessas especificidades, Sapori defende uma quebra de paradigmas em relação aos dependentes. “Por conta de cobertura midiática parcial, estereotipada e estigmatizante, você pode ver usuários que, pela compulsão da droga, agridem pais ou podem até mesmo matar um parente próximo em busca do dinheiro. Isso acontece, mas não é um padrão”, diz. Felix Kessler lembra que outras drogas – algumas lícitas – têm uma relação muito mais direta entre o uso e os comportamentos violentos. “O álcool, por exemplo, é uma das drogas que está mais relacionada à violência. Mas como o crack alcança essa população de baixa renda, aumenta a criminalidade, os usuários recorrem a furtos e assaltos para obter dinheiro para o consumo”, sustenta. “Não conseguimos evidências de que ele é o principal ator da violência urbana, mas, sim, uma grande vítima, conclusão que vai contra o senso comum”, acredita Sapori
A metodologia e o combate ao tráfico
O Plano Nacional de Combate ao Crack, lançado em maio de 2010, tem como ideia principal a integração de esforços de diversos órgãos do poder público. Fazem parte da força-tarefa os Ministérios da Saúde, do Desenvolvimento Social, da Defesa e da Educação, entre outros, capitaneados pelo Ministério da Justiça. Estão previstas ações de curto e longo prazos. Entre as medidas urgentes, estão: a ampliação no número de leitos para tratamentos de dependentes químicos, ampliação da rede de assistência social e de programas de reinserção social, capacitação dos envolvidos no atendimento a usuários e dependentes, ampliação das ações da Polícia Federal contra o narcotráfico e fortalecimento das polícias estaduais em áreas de maior consumo. Entre as medidas sistêmicas, estão: a ampliação da rede de saúde e assistência social, realização de estudos para a mensuração do problema e para o aperfeiçoamento das políticas públicas na área, capacitação de lideranças comunitárias, criação de um centro de combate ao crime organizado e a ampliação do monitoramento da fronteira com aviação não tripulada.
Apesar da aceitação geral do fato de que o crack é um problema que deve ser combatido com urgência, não existe consenso quanto às ações que devem ser tomadas em relação aos usuários nem entre especialistas. O plano lançado pelo governo federal é uma tentativa de construir esse padrão, mas, apesar das boas intenções, parece longe de atingir esse objetivo. A opinião geral é de que o pacote de medidas é positivo, já que antes disso havia um vácuo. Ao mesmo tempo, no entanto, o problema se expandiu tanto que um só plano não seria capaz de lidar com ele. “Qualquer plano já é alguma coisa. Mas a Uerj, por exemplo, está há cinco anos denunciando a expansão do uso do crack no Rio e nada foi feito, então, o plano já chega atrasado”, diz Jairo Werner.
Já Luiz Flávio Sapori afirma que falta conteúdo ao plano. “O mais importante não foi feito: produzir conhecimento básico, protocolos médicos para o tratamento do usuário do crack. Isso não exige dinheiro e precisa ser implantado imediatamente pelo Ministério da Saúde”, defende. “Não adiante abrir vagas para acolhimento desse usuário se a política não está definida. E os governos estaduais e municipais também precisam entrar nesse esforço.”
Esse é um dos pontos mais delicados desse debate. De maneira esquemática, é possível dividir a opinião de estudiosos entre conservadores e permissivos. “O que acontece no Brasil é que a discussão é muito extremada. Há aqueles que defendem a prisão ou internação de todos os usuários, criando depósitos de viciados, e outros que acreditam que são contra qualquer intervenção que afete os usuários, uma vez que o problema seria social”, acredita Jairo Werner. “O debate fica, assim, preso a essas opiniões completamente opostas.” Isso não quer dizer que não existam profissionais com opiniões intermediárias, mas, sim, que há dificuldade em avançar em um debate delicado e que tem diferenças de pensamento tão gritantes. O plano prevê o investimento em pesquisa justamente para sanar esse problema, mas não se sabe quanto tempo será necessário para construir um consenso em torno do assunto.
Críticos mais contundentes, como Ronaldo Laranjeira, citam outras fraquezas no documento. A primeira é a falta de ênfase nas internações. A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) defende a multiplicidade de opções de tratamento. Em resposta às questões encaminhadas pela reportagem, o órgão afirma que a internação não é a única forma de tratamento, apesar da sua popularidade. “É comum que os pais queiram seus filhos internados, para vê-los distanciados das drogas, dos amigos que fazem uso de drogas e dos problemas associados ao consumo. No entanto, muitas vezes a internação não é necessária, sendo indicada a realização de tratamento em nível ambulatorial, mantendo o usuário de drogas no seu contexto, aprendendo a lidar com os problemas e as dificuldades do tratamento. O importante é que haja uma avaliação de um profissional da área, que definirá qual a modalidade de tratamento mais indicada, traçando um programa terapêutico adequado ao caso e que contemple a participação dessa família”, diz o texto.
A parte do plano que trata da atuação das forças de segurança na questão do tráfico parece estar no caminho certo. Há dados que mostram que as ações de combate ao tráfico estão surtindo efeitos. “Já sabemos que o preço da maconha subiu muito no mercado interno. Isso é consequência da maior dificuldade na entrada da droga no país”, afirma Oslain Santana, delegado da Polícia Federal e coordenador-geral da Polícia de Repressão a Entorpecentes. Em entrevista feita durante a 27ª Conferência Mundial Antidrogas, no Rio de Janeiro, o ex-diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, afirmou que o crack é consequência de uma política de combate às drogas que deu certo. “Desde a década de 1980, o Brasil implementou a política de controle de insumos, que, unidos à matéria-prima, cria o produto final, como a cocaína. E temos conseguido evitar o encontro da matéria-prima da coca com os insumos. Infelizmente, o crack é sinal de sucesso de política mundial de repressão. E as quadrilhas vão se adequando, e o Brasil é onde esse subproduto deságua.” O plano prevê um orçamento maior para a Polícia Federal lidar com o tráfico, especialmente nas fronteiras.
Há dúvidas, entretanto, sobre o comportamento que deveria ser adotado pelo Brasil no relacionamento com países vizinhos produtores de cocaína. Na Bolívia, por exemplo, o plantio de coca é legalizado, já que o país consome a planta há anos, in natura, como forma de se adaptar à altitude. “Há uma visão de que a Bolívia é a culpada pela cocaína que vem para o Brasil, mas isso não é verdade. A Colômbia, que tem uma política pesada de combate ao cultivo, possui uma área plantada duas vezes maior que a da Bolívia. O segundo produtor é o Peru, e só depois aparece a Bolívia”, afirma Santana. Esses dados aparecem no último relatório anual da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a produção mundial de drogas, referente a 2008. A Colômbia produz mais da metado (51%) de toda a cocaína do mundo. O Peru produz 36% e a Bolívia, apenas 13%. “Outro mito é que os grandes vilões do tráfico aqui são os países vizinhos. É claro que eles têm sua parcela de culpa, mas quem leva a droga para o Brasil são os próprios brasileiros. Não há colombiano nem boliviano vendendo droga na porta da escola. É preciso assumir responsabilidade nessa história”, defende.
Oslain acredita que a atual política de cooperação do Brasil com esses três países (mais o Paraguai, grande produtor de maconha) vem dando resultado. “Os países produtores também sofrem com o tráfico. Quem produz a droga também é criminoso, também é violento, também corrompe e cria um poder paralelo. Por isso, as ações de cooperação, que vêm ocorrendo nos dois lados da fronteira, são bem aceitas por lá”, assegura. Mesmo assim, o controle das fronteiras não teria sido deixado de lado pela PF. “Já colocamos em prática a Operação Sentinela, que é um controle permanente das fronteiras com os países produtores. Apesar da extensão das divisas entre os países, os caminhos para a droga não são tão numerosos assim, então, esse controle é possível.”
É preciso ainda colocar em perspectiva o peso do Brasil no tráfico internacional de cocaína. É fato que algumas rotas de tráfico passam pelo país, especialmente se o destino é a África, mas o papel brasileiro na distribuição internacional é pequeno e, muitas vezes, superestimado. “O Brasil é periférico no tráfico internacional”, decreta Santana. Mais uma vez, os dados da ONU corroboram essa visão. O Brasil representa 8% das apreensões de cocaína em trânsito no mundo, em número de ocorrências. Além disso, o país passa longe da liderança da prevalência de consumo de cocaína na América do Sul. O posto pertence à Argentina, onde 2,6% da população usou a droga no último ano. Para efeito de comparação, a ONU usa os dados brasileiros de 2005, que mostram que 0,7% da população usou a droga.
Colocar o problema do crack na sua devida proporção é importante para solucionar a questão. A droga devasta a vida de dependentes, afetando família, estudo e futuro profissional. Não é, entretanto, um problema incontornável. Mas superar estigmas, preconceitos e dogmas que impedem uma discussão mais ampla é o grande desafio da sociedade e do poder público. Não será fácil.

sábado, 20 de novembro de 2010

O narcotráfico na estratégia imperial

Os EUA na América Latina / México, Colômbia e Peru

O narcotráfico na estratégia imperial

A “Iniciativa Mérida”, firmada com o México em 2008, as bases na Colômbia e a IV Frota estacionada no Peru não são projetos isolados, mas parte de uma arquitetura de segurança que se enquadra no que Thomas Shannon, membro da administração Bush, chamava de um “novo paradigma de cooperação regional”

por Adriana Rossi

A decisão colombiana de franquear aos Estados Unidos novas bases militares em seu território, sob o argumento da luta contra o narcotráfico e a insurgência, agitou as águas políticas na América Latina. Causou preocupação e fortes reações entre governos progressistas da União das Nações Sul-Americanas (Unasul).

A V Cúpula de Líderes da América do Norte, realizada entre 9 e 10 de agosto de 2009 em Guadalajara, e da qual participaram o primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, e os presidentes Barack Obama, dos Estados Unidos, e Felipe Calderón, do México, foi, de certa maneira, decepcionante. O golpe de Estado em Honduras mereceu breve menção, sem muitos gestos significativos, e temas espinhosos e de grande interesse para os mexicanos, como a migração, ficaram para uma próxima vez.1 Apesar disso, Calderón mostrou-se satisfeito com o forte respaldo recebido de Obama sobre um problema que o incomoda muito e que, do seu ponto de vista, coloca o México sob o risco de ser considerado um “Estado fracassado”2: o combate ao narcotráfico.

Calderón, que mantém com as Forças Armadas de seu país uma relação especial de favoritismo, reforçou os efetivos militares desde o início de seu mandato e, em 2007, criou uma força especial do exército sob a sua supervisão3. Também pensou, ou recebeu ajuda para pensar, em um instrumento de maior alcance para reduzir e acabar com a onda de violência: o “Plano México”.

Rebatizada como “Iniciativa Mérida”, para evitar qualquer suspeita e os possíveis e pouco agradáveis paralelismos com o “Plano Colômbia”, essa ideia foi aprovada pelo Congresso estadunidense e assinada pelo presidente George W. Bush em 30 de junho de 2008.

Os objetivos da “Iniciativa” enfatizam a otimização das atividades de inteligência, o fortalecimento da coordenação das forças de segurança e de informações entre os dois países signatários e o fornecimento de novas tecnologias, com a finalidade de garantir a ordem pública, impedir o tráfico de drogas e atuar contra o crime organizado e outras ameaças4.

Foram previstos fundos de US$ 1,4 milhão para o triênio 2008-2010. A primeira remessa de US$ 400 milhões para o México, e US$ 60 milhões para os países da América Central e do Caribe, chegou com grande atraso. A crise econômico-financeira e a incerteza das eleições presidenciais estadunidenses impediram que fosse colocado em prática, dentro dos prazos previstos, esse grande plano que ultrapassa as fronteiras mexicanas e envolve toda a região.

Do total do pacote de ajuda, 60% estão destinados a uma grande variedade de programas: combate à corrupção, adoção de mecanismos de transparência, melhoria do sistema judicial e reorganização do temível Centro de Investigação e Segurança Nacional (CISN) mexicano, entre outros. Este último programa prevê a reestruturação dos bancos de dados do CISN e do Instituto Nacional de Migração (INM), que se integrarão à Plataforma México5. O CISN gerenciará todas as informações sobre os agentes a cargo de cada um dos órgãos mexicanos, junto com os Estados Unidos, países da América Central e outros parceiros potenciais na luta contra o crime organizado e pela manutenção da segurança. Com isso, criou-se uma enorme rede de espionagem.

Militarizar a sociedade

A “Iniciativa” não prevê instalação de bases ou presença de tropas estadunidenses. Entretanto, há a suspeita de que Washington possa recorrer, como faz com frequência nos conflitos nos quais interfere, a empresas de segurança privada, bastante atuantes no domínio da inteligência e na implementação de tecnologia de ponta.

De qualquer forma, com ou sem soldados estadunidenses, a “Iniciativa” tem um forte componente militar, além de policial: 30% do orçamento são destinados às Forças Armadas, que ao longo dos anos receberão equipamentos, tais como aviões de patrulha marítima, helicópteros, suprimentos e capacitação6. Elas são consideradas a espinha dorsal do programa, mesmo com a ameaça de se tornarem um problema para o governo mexicano.

No segundo semestre do ano passado, a autorização para o desembolso dos fundos passou a depender de um relatório sobre a situação dos direitos humanos no México, elaborado pelo Departamento de Estado e aprovado pelo Congresso estadunidense. O relatório não foi considerado satisfatório pelo senador democrata Patrick Leahy, presidente da Subcomissão de Operações Externas do Comitê de Apropriações, que analisou o pacote de ajuda ao México. Segundo declarações de Leahy, as conclusões do Departamento de Estado são contraditórias com as denúncias de repetidas violações dos direitos humanos, que incluem tortura e desaparecimentos forçados no cenário da luta contra o narcotráfico. De acordo com documentos oficiais, há 140 denúncias por mês, e as queixas contra a atuação do exército aumentaram 600% desde que Felipe Calderón assumiu a presidência7.

Ainda que esse tenha sido um grave revés para o governante mexicano, durante a Cúpula de Líderes, Obama louvou o desempenho e o compromisso de Calderón em matéria de segurança, afirmando que seus esforços estão na direção certa. O presidente dos Estados Unidos discordou sobre a “inevitabilidade” da violação dos direitos humanos na guerra contra as drogas, mas ao mesmo tempo afirmou que são os narcotraficantes os mais cruéis.

Sem dúvida, esse apoio verbal permite prever que a “Iniciativa” não sofrerá tropeços que a coloquem em perigo8. Além disso, ele foi acompanhado por medidas concretas, como o acordo bilateral assinado em San Antonio, Texas, em 13 de agosto de 2009, entre o procurador-geral mexicano, Eduardo Medina Mora e a secretária de segurança nacional estadunidense, Janet Reno. O pacto concentra-se nas medidas de controle do fluxo de armas que, a partir dos Estados Unidos, alimentam o muito bem nutrido arsenal dos grandes grupos criminosos9.

O presidente Calderón voltou a respirar graças a esse balão de oxigênio, e imediatamente solidarizou-se com um aliado-chave no continente: o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.

Um acordo polêmico

No final de agosto último, a Colômbia assinou com os Estados Unidos um acordo mais que polêmico10, que prevê a utilização por tropas estadunidenses, durante dez anos, de sete bases militares espalhadas em território colombiano: Palanquero, no centro do país, Apiay e Malambo (as três da Força Aérea); Baía de Málaga, no Pacífico, a meio caminho entre Equador e Panamá, e Bolívar de Cartagena, no Atlântico (ambas navais); e ainda as instalações terrestres Larandia e Tolemaida. Na verdade, as de Apiay e Larandia já haviam sido utilizadas pelos Estados Unidos11 e há ainda a de Tres Esquinas, em Caquetá – sede do Joint Intelligence Center –, o que elevaria o número de locais para oito.

O objetivo declarado do acordo é o aprofundamento da luta contra o narcotráfico e o terrorismo, supostamente dentro da Colômbia. Não obstante às reiteradas afirmações, por parte das autoridades colombianas, de que não abrirão mão da soberania, de que as decisões sobre os agentes nas fronteiras serão tomadas conjuntamente pelos dois países e de que o comando das bases permanecerá em mãos colombianas, a região reagiu com estardalhaço ao anúncio. Existe a suspeita de que, a partir dessas bases, estariam previstas operações fora do território colombiano e sobre as quais o país sul-americano não teria a menor ingerência.

Vale lembrar que, em 2008, o Equador já havia sofrido uma incursão militar da Colômbia – por conta disso, aliás, o presidente Rafael Correa decidiu, em 2009, não renovar a permissão para os EUA utilizarem a base de Manta, em território equatoriano12. A agressão levou a uma ruptura nas relações diplomáticas entre os dois países. Nesse interím, o presidente Correa foi acusado pela Colômbia de ter recebido financiamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) para sua campanha eleitoral. A denúncia baseava-se num vídeo de origem duvidosa. Por sua vez, Hugo Chávez foi alvo de acusações relativas a armamento supostamente fornecido aos guerrilheiros, a partir da descoberta de lança-foguetes vendidos pela Suécia para o governo venezuelano na década de 1980. Tanto o Equador como a Venezuela veem a presença militar estadunidense na região como uma ameaça. O clima beligerante gerado por acusações cujos fundamentos suscitam mais que estranheza, nada mais faz que confirmar esta percepção.

Enquanto isso, o Brasil, cuja possibilidade de conflito reside na penetração de uma potência estrangeira na Amazônia, assiste à materialização dos seus piores receios. Uma das bases colombianas, a de Palanquero, provoca os principais temores. De acordo com um documento de planejamento do Comando de Mobilidade Aérea (AMC), o Comando Sul-estadunidense pretenderia, a partir de Palanquero, exercer o controle de quase metade do continente. Palanquero disporia do C-17, uma aeronave que pode cobrir toda a área sem reabastecer. Somente o Cabo Horn, na Terra do Fogo chilena, estaria fora do alcance do dispositivo13.

Segurança blindada

Na III Sessão Ordinária de Chefes de Estado da União Sul-Americana (Unasul), realizada em Quito, em 10 de agosto de 2009, o tema ocupou muito espaço, apesar de o presidente colombiano, Álvaro Uribe, ter optado por fazer uma turnê por sete países da região para tentar explicar o âmbito do acordo bilateral com os Estados Unidos. Apesar da recomendação de não abordar a questão, pela falta de uma posição consensual entre os chefes de Estado, ela não pôde ser evitada. Transgressor, como é seu estilo, Hugo Chávez colocou-a em discussão e, com a afirmação de que “sopram os ventos da guerra”, forçou, de certa maneira, o acerto de uma reunião a ser realizada em Bariloche, Argentina, em 28 de agosto de 2009. A reunião teria como objetivo obter garantias de Uribe e descontrair um clima que está se tornando cada vez mais tenso. O Brasil, por sua vez, sugeriu um encontro da Unasul, com o próprio presidente Obama.

Apenas duas vozes se levantaram a favor da Colômbia: uma de dentro da Unasul, do presidente peruano, Alan García, que compartilha com Uribe a visão de segurança made in USA e que concedeu aos Estados Unidos permissão para a fixação da sua IV Frota em dois portos – Callao e Salaverry, a 600 quilômetros ao norte de Lima; outra, vinda de fora, a do presidente do México. Numa visita a Bogotá, Calderón respaldou a decisão de Uribe sobre as bases e definiu com o presidente colombiano os termos de uma aliança entre os dois países. Em seguida, anunciou a criação de um “grupo de alto nível em matéria de segurança para enfrentar o crime organizado transnacional”14 e um acordo pelo qual se capacitariam, na Colômbia, 11 mil agentes da polícia federal mexicana no combate aos narcotraficantes e para formar grupos antissequestro.

A “Iniciativa Mérida”, as bases na Colômbia, a IV Frota estacionada no Peru, não são projetos isolados, mas parte de uma arquitetura de segurança que se enquadra no que Thomas Shannon, ex-secretário de Estado Adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental durante a administração Bush, chamava de um novo paradigma de cooperação regional15. Trata-se de programas integrados que vão além dos âmbitos locais, que criam um sistema interligado e constituem um corredor blindado com múltiplos propósitos, se estendendo desde os Andes até a fronteira sudoeste dos Estados Unidos, com reflexos em todo o continente.

Uma arquitetura concebida para proporcionar segurança contra o narcotráfico, o crime organizado, as gangues da América Central, a insurgência e o terrorismo, que ameaçam a democracia e a governança. O argumento é sólido, mas os resultados concretos pelos meios escolhidos foram, até agora, paupérrimos.

Tendo em mente os antecedentes históricos, não se deve perder de vista que essa arquitetura é, ao mesmo tempo, o braço armado de um projeto hegemônico que busca a expansão de mercados, o controle de territórios, populações e recursos, e para o qual a segurança nunca é pensada em termos de justiça social. Uma arquitetura que se reforça e se expande justamente quando no continente surgem projetos políticos de cunho progressista: novas formas de governar, novas lideranças, novos atores sociais.

Finalmente, trata-se de uma arquitetura, de um modelo que, como tantas vezes foi demonstrado, não hesita em recorrer a qualquer tipo de instrumento – incluindo o terrorismo e até o narcotráfico que diz combater – para debilitar os oponentes, dividir as águas e dificultar os esforços de composição. Inclusive, como ocorreu em abril de 2002 na Venezuela, e recentemente em Honduras, concorrendo com o apoio ou a participação direta em um golpe de Estado. O conceito de segurança se transforma, assim, exatamente em seu oposto.

Esse artigo foi cedido pela edição argentina de Le Monde Diplomatique.
Adriana Rossi é doutora em filosofia, professora na Universidade Nacional de Rosário , na Argentina, e do Mestrado em Uso Indevido de Drogas da Faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires. Ex-secretária executiva da Rede Latino-Americana de Redução de Danos (RELARD), é especialista na temática do narcotráfico e das doutrinas militares.

1 Os tópicos discutidos foram os acordos sobre migração, meio ambiente e alterações climáticas, recuperação econômica, gripe A (H1N1), crime organizado e terrorismo.
2 No sentido de países com b aixos níveis de institucionalidade e incapazes de se administrarem por si mesmos.
3 Laura Carlsen, “Um abecedário sobre o Plano México. Relatório especial do Programa das Américas”, 28/7/08, www.ircamericas.org4 Câmara dos Deputados, “Iniciativa Mérida. Compêndio”, Cidade do México, junho de 2008.
5 A Plataforma México é o sistema nacional de segurança para onde conflui a informação de todos os órgãos de ordem interna.
6 Vale ressaltar que os fundos para o equipamento nunca chegarão ao México, uma vez que irão diretamente para as contas bancárias das fornecedoras: as indústrias bélicas estadunidenses.
7 “Congressista dos Estados Unidos bloqueia US$ 100 milhões da Iniciativa Mérida”, 5/8/09, www.alertaperiodista.com.mx8 Chegou-se inclusive a cogitar uma possível extensão do acordo por parte do subsecretário de Segurança Interna para Assuntos Internacionais e Fronteiriços, Alan Bersin, “Os Estados Unidos poderiam expandir a Iniciativa Mérida”, 11/8/09, www.elreporterodelacomunidad.com
9 Ver Anne Vigna, “Viagem ao coração de Sinaloa,” Le Monde diplomatique, edição Cone Sul, Buenos Aires, novembro de 2008.
10 O acordo foi selado em 14 de agosto; presume-se que a assinatura se deu em duas semanas.
11 Todavia, ainda não está claro o número de militares que poderiam chegar à Colômbia. Supõe-se que não poderiam ser mais de 800, e os contratistas mais de 600, conforme acordos anteriores firmados pelos dois países.
12 A. Rossi, “Adeus à base de Manta no Equador?”, Le Monde diplomatique, edição Cone Sul, junho de 2008.
13 John Lindsay-Poland, “Uma nova base militar na Colômbia ampliaria o alcance do Pentágono através da América Latina”, www.ircamerica.org14 “México e Colômbia criam grupo de segurança de alto nível”, Notimex, 13/8/09.
15 Thomas A. Shannon, “Iniciativa Mérida. Depoimento à Comissão de Assuntos Externos da Câmara de Representantes dos Estados Unidos”, Washington, 14/11/07.
Le Monde Diplomatique Brasil

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Longe da pátria

O drama dos colombianos que fogem da violência e buscam abrigo no Brasil

JOÃO MAURO ARAUJO

Tabatinga e Leticia: Rua da Amizade
Foto: João Mauro Araujo

Não é de hoje que o Brasil figura como local de refúgio para estrangeiros que, por correrem risco de vida, são obrigados a deixar seu local de origem. Durante as duas Grandes Guerras, por exemplo, foi expressivo o número de famílias que para cá vieram, provenientes de diversas partes do mundo. Na última década, intensificou-se o fluxo de refugiados colombianos, pressionados a abandonar seu país por causa da guerra civil travada entre os cerca de 30 mil soldados irregulares – distribuídos entre grupos guerrilheiros e paramilitares – e as forças de segurança do Estado.

No período entre 1995 e junho de 2007, segundo dados da Agência Presidencial para a Ação Social e a Cooperação Internacional, da Colômbia, foram registrados mais de 2 milhões de deslocamentos internos motivados pela violência. Entre as causas estão ameaças à população civil por suposta colaboração com grupos rivais, massacres, intensificação da atividade armada, controle sobre terras onde há cultivos ilícitos, disputa de territórios em zonas estratégicas, recrutamento forçado e exigência de contribuição financeira (chamada de "vacina"). Por se tratar de um conflito disseminado por quase todo o território colombiano, muitas vezes às pessoas resta apenas a saída pelas fronteiras e posterior tentativa de conseguir refúgio em países vizinhos, como Equador, Venezuela, Costa Rica e Brasil.

A lei brasileira 9.474/97, que define a implementação do Estatuto dos Refugiados, é considerada uma das mais avançadas da América Latina. "É interessante porque, na maioria dos países, em todo o mundo, esse tema está incorporado nas leis migratórias. No Brasil, porém, há uma legislação específica, que se baseia no diploma internacional – a Convenção de 1951, reformada pelo protocolo de 1967 da Organização das Nações Unidas [ONU], que traz os padrões mínimos de proteção", comenta Liliana Lyra Jubilut, advogada do Centro de Acolhida para Refugiados da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. Para ser reconhecida como refugiada, a pessoa tem de comprovar seu temor de perseguição por um dos motivos previstos na lei: raça, religião, nacionalidade, opinião política ou grupo social, ou grave e generalizada violação dos direitos humanos.

A grande maioria dos colombianos que chegam ao Brasil não tem nenhum envolvimento direto com as partes em luta, mas mesmo assim precisou abandonar casa, emprego, familiares, em questão de horas ou dias. O número de refugiados provenientes da Colômbia reconhecido pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) gira em torno de 350, ou seja, 10% do total (3,5 mil), que inclui pessoas de outras 68 nacionalidades atendidas no Brasil. Esse dado, contudo, não reflete a realidade, uma vez que muitos "preferem" entrar e permanecer sem registros legais, pois temem ser deportados ao se apresentar à Polícia Federal. Há estimativa de até 17 mil colombianos em situação irregular no país. Outro motivo para não ter a documentação em ordem seria a falta de confiança em policiais, uma vez que em seu local de origem a imagem dos serviços de segurança está diretamente associada a grupos paramilitares.

Assim, essa população permanece invisível, calada e, quando questionada, tende a dizer que é de outro país, para não correr o risco de ser localizada por seus perseguidores. Por motivo de segurança, alguns dos entrevistados pediram para não ser identificados nesta reportagem, e seus nomes foram substituídos.

Violência

"Quando nasci, já havia guerra. Tenho 58 anos, e ela continua. Penso que vou morrer sem ver seu fim. Em meu país várias gerações não sabem o que é paz", afirma Carlos Ramírez Pérez, refugiado colombiano que está no Brasil desde junho de 2006. Natural do departamento de Boyacá, seus pais tiveram de se mudar quando ele ainda era criança para a capital, fugindo das lutas generalizadas entre grupos conservadores e liberais. Era o período conhecido como "A Violência", que teve início em 9 de abril de 1948, após o assassinato em Bogotá do carismático político Jorge Eliecer Gaitán. Um golpe de Estado do general populista Rojas Pinilla, em 13 de junho de 1953, amenizou parcialmente a guerra, que àquela altura já causara a morte de 300 mil pessoas. Contudo, cinco anos depois ele foi substituído pela Frente Nacional, resultado de um acordo firmado entre os partidos Liberal e Conservador, que decidiram alternar-se no poder.

Apesar do irônico entendimento entre as duas correntes políticas rivais, alguns grupos camponeses que tinham lutado ao lado dos liberais consideraram-se desfavorecidos com tal desfecho e permaneceram em armas. Foram surgindo assim as primeiras guerrilhas rurais, em comunidades autônomas, logo influenciadas pela Revolução Cubana, o que fez com que os ideais, até então de caráter liberal, assumissem um radical teor marxista. Já em 1964 as forças militares organizaram uma operação nas montanhas de Marquetalia (departamento de Tolima) para sufocar um foco rebelde, mas tiveram de enfrentar a resistência de 48 homens liderados por Manuel Marulanda Vélez, o "Tirofijo".

Foi a partir desse núcleo de combatentes que se formaram as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o maior e mais atuante grupamento guerrilheiro do país, que há 43 anos luta para tomar o poder. A partir de meados da década de 1960, foram surgindo outras facções guerrilheiras de esquerda, mas só as Farc e o Exército de Libertação Nacional (ELN) – que constituíram a Coordenadoria Guerrilheira Simon Bolívar – permanecem em atividade.

O nome das Farc não traz boas lembranças a Carlos Pérez. Os grupos guerrilheiros cobram tributos nas áreas em que atuam e, se uma pessoa não paga, pode sofrer represálias. A família de Pérez, porém, não queria colaborar financeiramente com as Farc, o que levou todos os homens a se reunir e fazer um acordo, que só valeria para eles: "Nenhum de nós que for pego vai ser resgatado. Se tiver de morrer, morre", combinaram.

O seqüestro é bastante utilizado pela guerrilha na Colômbia como "capital de negociação" – serve tanto para exigir dinheiro dos familiares das vítimas como para pressionar o Estado a libertar prisioneiros e fazer concessões políticas. Em 2001, houve mais de 3,7 mil casos naquele país, com o recorde mundial de 50 em apenas 72 horas.

Em janeiro de 2006, Pérez seguia pela estrada que liga os departamentos colombianos de Santander e Norte de Santander, quando um "bloqueio que parecia do exército" interrompeu o trânsito. Era um grupo das Farc que abordava as pessoas, pedindo documentos. Por ter irmãos abastados, o nome de Pérez constava da lista que traziam. "Uma mulher se aproximou e bateu em mim com a ponta do fuzil. Fizeram-me caminhar um quilômetro, até onde um homem fazia uma palestra sobre a causa do seqüestro." Com a intervenção do exército colombiano, nove das pessoas que estavam presas – entre elas Pérez – conseguiram escapar, mas onze morreram. Pérez precisou, então, sair do país. Ele veio para São Paulo, onde buscou o auxílio da Cáritas Arquidiocesana, organização que integra a rede de proteção do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Em sua opinião, o maior problema do refugiado é a solidão: "A gente se sente só, porque não encontra pessoas com os mesmos costumes. A língua e a comida são diferentes. É muito triste não poder abraçar as filhas, falar com a mãe, além da angústia de não saber o que pode acontecer com a família", lamenta. Depois de atender à reportagem, ele mostra, sobre uma mesa da Cáritas, algumas caixas com imagens coloridas, feitas de madeira reciclada, que confecciona e vende. "Pego uma caixinha nua e a visto", diz. Essa técnica, aprendida no Brasil, é hoje o principal ganha-pão de Pérez.

Paramilitares

As Farc não são, entretanto, o único exército ilegal a provocar deslocamentos. O Brasil também recebe pessoas que fogem dos paramilitares – ou "paras", como também são conhecidos –, cujo maior representante são as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), grupo surgido no início dos anos 1980, como extensão das milícias privadas das indústrias ilegais do narcotráfico e do comércio de esmeraldas. As AUC são o segundo maior grupo armado do país, bastante conhecido pela atrocidade de suas ações.

Claudia Castillari, que trabalhava no auxílio aos deslocados que fugiam para a região norte da Colômbia, onde vivia, foi expulsa do país devido às ameaças de um ex-líder das AUC, conhecido como Mancuso. Os conflitos não a atingiam diretamente, até o dia em que denunciou o envolvimento de paramilitares com pessoas do alto escalão do governo: "Eles têm deputados, conseguem eleger congressistas, uma vez que pressionam as pessoas nos povoados para que votem em seus candidatos", conta Claudia, que passou a ser vigiada em casa, no trabalho, e a receber telefonemas de desconhecidos. "Não foi brincadeira, sofri ameaças muito fortes. Eles sabiam de cada movimento meu, por isso não tive mais possibilidade de ficar na Colômbia."

Claudia tinha opções de refúgio em outros países, mas escolheu o Brasil pela proximidade e por já ter passado férias no Rio de Janeiro e em São Paulo. Ela achava que seria por um curto período, mas hoje sabe que seu retorno à Colômbia é algo quase inviável. Por isso, busca uma melhor adaptação. "É assim que se fala?", pergunta, após repetir determinadas palavras para corrigir a pronúncia em português. Claudia também vê certa semelhança entre os brasileiros e as pessoas de sua região: "São muito hospitaleiros e acolhedores".

Já a teóloga María de Jesús López foi duplamente ameaçada, primeiro pelos paramilitares e, depois, pelas Farc. A história de sua fuga começou no povoado onde morava, numa área de cultura cafeeira da Colômbia. Ela era proprietária de uma loja de roupas na cidade e, certo dia, quando retornava à sua casa, tomou conhecimento do assassinato de um rapaz que já havia sido interrogado por um comandante dos "paras", sob suspeita de colaborar com as Farc nos serviços de transporte que fazia. "Fiquei indignada. Tinha raiva porque sabíamos quem o havia matado e não podíamos fazer nada", conta María. Depois, foi seu sobrinho quem entrou na lista negra deles, por não concordar em fazer um frete "solicitado".

María, então, decidiu ocultá-lo e, por isso, passou a ser perseguida. Não lhe restou alternativa senão pegar o filho e o sobrinho e partir imediatamente para o Equador, deixando para trás tudo o que tinham. Por dois anos e nove meses eles permaneceram naquele país, onde tiveram a companhia de outros familiares que seguiram seu exemplo. Lá, María participou de uma associação que tinha entre seus objetivos expor a situação dos refugiados colombianos por toda a América do Sul. "Se uma mãe sai às pressas da Colômbia com três filhos, não é a passeio, mas porque tem problemas. Os rapazes de 13, 14 anos são muito perseguidos tanto pela guerrilha quanto pelos paramilitares, para que integrem suas fileiras", afirma. A associação organizou uma marcha que deveria percorrer todas as capitais do continente levando um apelo, mas teve de ser interrompida no Brasil, a terceira nação visitada, pois o irmão de María, que permanecera no Equador, foi agredido, como forma de "aviso prévio", por membros das Farc, os quais exigiam o fim imediato da manifestação.

María queria ter ido para algum lugar onde o idioma fosse o espanhol, porém, como diz, "o refugiado não escolhe para onde vai, tem de ficar no primeiro país que lhe dê abrigo". A língua costuma ser um grande desafio para os colombianos, seja nas relações sociais do dia-a-dia, seja para o ingresso no mercado de trabalho: "É um obstáculo", diz María, que faz cursos de computação e de português. No albergue em que reside atualmente, ela tenta reorganizar sua vida pela segunda vez, junto dos irmãos que também solicitaram refúgio no Brasil.

Fronteira

Ao redor do Parque Santander, em Leticia, estão as duas instituições mais procuradas pelos deslocados por motivo de violência que se dirigem à capital do departamento colombiano do Amazonas: a Pastoral Social e a Agência Presidencial para a Ação Social e a Cooperação Internacional. Ambas desenvolvem um trabalho de assistência e orientação. A Ação Social é fruto de uma lei federal de julho de 1997 e foi criada para atender a população vítima dos grupos armados. Nos últimos sete anos, o escritório de Leticia já assistiu a mais de 170 famílias, cerca de 600 pessoas.

Por ser de difícil acesso – uma vez que a cidade é separada do restante do país pela floresta Amazônica – e fazer fronteira com o Brasil e o Peru, em Leticia não há registro da presença ativa dos exércitos ilegais. A cidade pode ser alcançada de duas maneiras, a partir de outras regiões da Colômbia: por avião, saindo de Bogotá, e através do rio Putumayo – um trajeto longo e nada aconselhável, que passa por áreas de ação armada. Geralmente, os deslocados solicitam auxílio para custeio das passagens aéreas em vôos de carga – mais baratos – e assim conseguem chegar com maior segurança, conforme explica Carolina Fonseca, assessora de comunicação da Ação Social.

Se, por um lado, devido a sua localização, a capital do departamento do Amazonas constitui uma boa opção para quem deseja fugir dos conflitos sem deixar o país, por outro ela também serve de passagem para um possível refúgio no lado brasileiro, pois apenas alguns passos a separam de Tabatinga, cidade brasileira localizada no alto Solimões. Nesse ponto fronteiriço, a circulação entre os dois países é livre, sem a necessidade de apresentação de qualquer documento. Na Rua da Amizade, basta transpor o ponto demarcado por duas bandeiras nacionais, uma placa de "boas-vindas" e um posto militar.

Por essa facilidade de locomoção, não se sabe ao certo quantas pessoas atravessam a fronteira, e quantos desses transeuntes estão em busca de abrigo no Brasil. Uma promotora comunitária da Cáritas-Leticia se mostra preocupada porque, segundo ela, muitos pedidos são negados pelo governo brasileiro, o que aumenta a quantidade de colombianos em situação de clandestinidade. Juan Carlos Oviedo veio para o Brasil sozinho em dezembro de 2006, fugindo dos paramilitares que o ameaçavam por não querer pagar a "vacina" no departamento de Quindío. Seu primeiro pedido de asilo foi negado, mas ele ainda aguarda o resultado de um recurso. Enquanto isso, segue trabalhando como barqueiro em Tabatinga, onde já está há nove meses sem ver a esposa. Ela aguarda o resultado do pedido para poder vir morar com o marido. "Todos os dias nos comunicamos por telefone. É dura a solidão", conta Oviedo.

A Igreja é sempre procurada antes de qualquer entidade estatal. Há um acordo entre as arquidioceses dos países da tríplice fronteira para colaborar no auxílio aos migrantes e, em 2005, foi constituída a Pastoral da Mobilidade Humana, cujo escritório funciona na Igreja dos Santos Anjos de Tabatinga, com o apoio do Acnur. Segundo o vigário dessa paróquia, Gonzalo Franco, a pastoral trabalha principalmente com "colombianos que fogem da violência e peruanos que tentam escapar da pobreza". O Peru começa do outro lado do rio Solimões, no município de Santa Rosa. Por isso, há também em Tabatinga um grande número de pessoas daquele país.

Mesmo com certo ar de tranqüilidade, porém, a cidade brasileira "não é cem por cento segura para os refugiados", comenta Franco, lembrando o caso de uma família que fugiu para Manaus por sofrer ameaças em Tabatinga. Ele diz ter muita satisfação em poder ajudar com seu trabalho: "Para a gente não importa a religião, mas sim a pessoa, a dignidade humana antes de tudo".

Estigma

Em novembro de 2006, quando substituiu um colega na editoria de Mundo do jornal "A Crítica", de Manaus, Neuton Corrêa de Souza tomou conhecimento da presença de refugiados colombianos no Brasil. Seu primeiro impulso foi tentar localizá-los para fazer uma reportagem, na expectativa de descobrir pessoas que estivessem em melhores condições do que em seu país de origem. "Foi justamente o que não encontrei", afirma. Neuton conta ter visto gente que ainda enfrentava o trauma da guerra e que mesmo assim tinha vontade de voltar. Seu maior espanto, contudo, foi o relato de uma colombiana de 27 anos, que disse sofrer preconceito no Brasil por conta de sua nacionalidade, que estaria associada ao tráfico de drogas. "Quando a gente vai em busca de um emprego e diz de onde é, a primeira pergunta que fazem é: ‘Pablo Escobar?’ "

Refletindo sobre as origens desse estigma, Neuton teve a atenção chamada para o poder da mídia: "Suponho que os jornais estão colaborando para erguer o muro que divide brasileiros e colombianos. Aqui a gente vê muitas notícias do tipo: ‘Quadrilha colombiana presa com tanto de droga’, ‘Colombianos guerrilheiros atravessam a fronteira com droga’. Se não estiver associada ao tráfico da Colômbia, não é uma grande matéria." Ele questiona também a "mão única" dessa comunicação, pois os supostos criminosos não são ouvidos: "Eles são realmente da Colômbia? São mesmo traficantes?" Desde o início de 2007 Neuton participa de um programa de pós-graduação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em que pretende estudar a questão do preconceito por meio da análise do discurso, e assim colaborar na elaboração de políticas públicas.

Márcia Maria de Oliveira, professora da Ufam e membro do Serviço de Ação, Reflexão e Educação Social (Sares), considera necessário o governo federal criar uma instituição específica para lidar com a imigração e os refugiados: "Uma das dificuldades que as pessoas em situação de refúgio encontram, quando chegam ao Brasil, é ter de se apresentar à Polícia Federal, que tem toda uma preparação para enfrentar o narcotráfico e fazer a guarda da fronteira, mas não para lidar com o refugiado".

Desde 1998, quando trabalhava na Pastoral dos Migrantes, em Manaus, Márcia acompanha o fluxo de estrangeiros. A partir de 2002, passou a perceber a chegada não de colombianos isolados, mas de grupos familiares. "Hoje é possível encontrar refugiados no mercado de trabalho, nas matrículas das escolas, no atendimento médico, na universidade e assim por diante." Para a professora da Ufam, as políticas migratórias carecem de mudanças profundas: "É preciso que a sociedade esteja informada sobre os processos e as causas das migrações compulsórias, e entenda a situação dos refugiados para poder exercitar a reciprocidade e evitar a sutileza da xenofobia velada".

Há comumente um mal-entendido com a palavra "refugiado", que por vezes é confundida com "foragido", talvez pela semelhança fonética. Yessica Torres, que vive no Brasil há seis anos, conta que as pessoas estranhavam ver em sua carteira de identidade a palavra "refugiada". "Diziam: ‘Nossa, quem você matou? Você foi expulsa?’, e eu explicava: ‘Não é bem assim, o refugiado sai de seu país por causa da violência, não porque é delinqüente ou assassino’ ". Yessica estava com 12 anos quando veio para São Paulo com a irmã mais velha e a mãe, para morar com o pai, Jorge Torres, que havia chegado pouco tempo antes. Apesar de se dizer "praticamente brasileira", Yessica, estudante de gestão empresarial, afirma ter saudade da Colômbia: "Vamos supor que você entre num lugar e sinta o cheiro da casa de seu tio. Então começa a lembrar..." Para ela, ser refugiado é "como ter começado a viver uma vida sem ter morrido na anterior".

Jorge Torres também parece tranqüilo. Faz planos de regressar à Colômbia, mas só a passeio, para a esposa poder reencontrar a família. Ele trabalha como pedreiro, participa de um grupo religioso e gosta de ouvir forró. Da mesma forma que Torres e outros refugiados vêm assimilando traços da cultura local, esta por certo não ficará imune aos inúmeros elementos trazidos por eles ao Brasil, já enriquecido pela contribuição de tantos outros estrangeiros aqui instalados.


Adaptação difícil

Preocupado com a situação dos refugiados, que muitas vezes, mesmo após anos de permanência no país, ainda enfrentam problemas para se integrar, o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) está fazendo um estudo sociológico com o propósito de entender os motivos que dificultam essa adaptação. Segundo Luiz Paulo Teles Barreto, presidente do órgão, aceitar refugiados no país apenas para honrar um acordo internacional não basta.

"Todo trabalho relativo a essa questão deve ser estruturado na solidariedade", afirmou Teles Barreto durante a solenidade em comemoração aos dez anos da lei 9.474/97, que, em dezembro último, premiou com o "Reconhecimento Solidário 2007" indivíduos e instituições que apóiam os refugiados no Brasil. Foram agraciados, entre outros, o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e o Serviço Social do Comércio (Sesc), pela contribuição à integração dos refugiados que vivem em São Paulo, por meio da oferta de cursos técnicos gratuitos, aulas de português e espaços de cultura e lazer, além de alimentação a preços mais acessíveis. A unidade do Sesc Carmo, por exemplo, é um dos locais procurados pelos colombianos que vivem na capital paulista.
Jan.fev de 2008


Revista Problemas Brasileiros

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