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domingo, 3 de agosto de 2014

Notícias Geografia Hoje

Pacto que ajudou a pôr fim à Guerra Fria está abalado?


Tratado de 1987 baniu armas nucleares de médio alcance e colaborou para fim da Guerra Fria

Depois que o presidente Barack Obama acusou o colega russo, Vladimir Putin, de ignorar um tratado histórico para redução de armas nucleares, nesta semana, levantou-se um debate sobre o destino da iniciativa.

O acordo de Forças Nucleares Intermediárias (INF, na sigla em inglês) foi assinado entre Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan em 1987. Previa a remoção de parte do arsenal nuclear de EUA e União Soviética com fins de conter a ameaça para a segurança global representada pelas duas superpotências.

Considerado o "começo do fim da Guerra Fria," o Tratado INF proibiu possuir, produzir e testar mísseis nucleares de distância intermediária (entre 500 e 5,5 mil km).

"Foi um acordo fundamental na Guerra Fria. Essencialmente, eliminou uma controversa classe de armas nucleares. E, por essa razão, ainda tem repercussão", diz Nick Child, correspondente de assuntos internacionais da BBC.

Na época, o pacto foi um marco especialmente na segurança da Europa, uma vez que tanto os EUA quanto a URSS possuíam arsenal desse tipo.

A Casa Branca não tornou públicos os detalhes da sua acusação, feita no seu seu relatório anual sobre o cumprimento do controle de armas. Esses foram apresentados por Obama em uma carta a Putin, e em contato por telefone entre os ministros das Relações Exteriores, John Kerry e Sergei Lavrov.

O mal-estar contribui para o deterioro das relações EUA-Rússia, que já vinham abaladas e que foram novamente afetadas pela queda do avião da Malaysia Airlines que fazia o voo MH17, supostamente atingido por um míssil disparado por rebeldes pró-Moscou no leste da Ucrânia.
Proibições

O Tratado INF entrou em vigor em 1 de Janeiro de 1988 e previa que até 1991 fossem banidos os mísseis nucleares de distância intermediária dosEstados Unidos e da Rússia.

Tom Collina, da Associação de Controle de Armas, disse à BBC que o acordo "proibiu e eliminou todo lançamento de um míssil de alcance intermediário nos territórios americano e russo".

"Em qualquer lugar do mundo, mas na época eles estavam todos dentro e ao redor da Europa", acrescenta Hill.

Collina acredita que o tratado em questão era de vital importância, uma vez que foi primeiro a eliminar as armas nucleares e representou uma mudança nas relações entre os EUA e a União Soviética.

"Foi realmente o começo do fim da Guerra Fria, foi o símbolo da melhoria das relações entre os dois países e uma mudança dramática na União Soviética, com a chegada de Mikhail Gorbachev ao poder", acrescenta Collina. Era a primeira vez em que os Estados Unidos e a União Soviética "se propuseram a reduzir e eliminar seus arsenais nucleares", disse o especialista.

"Foi um precedente muito importante para os pactos que foram feitos mais tarde sobre a redução e a eliminação das armas nucleares com rigoroso controle."
Rússia

Apesar da diplomacia dos Estados Unidos ter se manifestado oficialmente apenas na terça-feira, divulgando a queixa, em determinados círculos o assunto já era comentado há meses.

Em abril, em depoimento perante o Congresso, Anita Friedt, secretária-assistente de Política Nuclear e Estratégica, havia tratado da preocupação do Departamento de Estado sobre o assunto do Tratado INF.

"Nós comunicamos a Rússia e estamos pressionando para obter respostas claras, para resolver as nossas preocupações devido à importância do Tratado INF na segurança euro-atlântica", disse Friedt na ocasião.

Em janeiro, o jornal americano The New York Times relatou contatos de Washington com seus aliados da Otan para informar evidências de que um míssil russo levantou dúvidas sobre o cumprimento do tratado.

A Rússia tem falado pouco sobre o assunto. Para o correspondente da BBC Nick Childs, Moscou terá várias soluções possíveis.

"Argumentar que os americanos estão simplesmente enganados e que seus mísseis estão abaixo da faixa de alcance proibida é uma delas", diz Childs.

"Outra possibilidade é argumentar que o tratado se tornou obsoleto, que outros países estão desenvolvendo mísseis semelhantes e que, afinal, os Estados Unidos abandonaram o tratado de mísseis balísticos quando foi conveniente."

Mas, acima de tudo, está uma das razões pelas quais a Rússia há muito tempo considera que o Tratado INF é injusto: enquanto os Estados Unidos não sofre nenhuma ameaça desses mísseis, a Rússia sofre, especialmente na China.

A tensão entre os Estados Unidos e a Rússia, por conta da crise na Ucrânia e da queda do voo MH17 da Malaysia Airlines, se intensificou com o relatório anual sobre o cumprimento do controle de armas em que a Obama acusa Moscou de violar o tratado.
BBC Brasil

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Notícias Geografia Hoje


Desobediência de soviético pode ter evitado guerra atômica há 30 anos


BBC BRASIL

Há trinta anos, no dia 26 de setembro de 1983, o mundo escapou de um possível desastre nuclear.

Nas primeiras horas do dia, os sistemas de alerta balístico da União Soviética detectaram mísseis indo em direção à região. Leituras de dados de computador sugeriam que havia sido lançado um ataque dos Estados Unidos. O protocolo soviético determinava que a atitude a ser tomada em casos como esse seria o lançamento imediato de um ataque nuclear de retaliação.

Mas Stanislav Petrov --cujo trabalho era monitorar lançamentos de mísseis de países inimigos-- decidiu não relatar o ataque a seus superiores, apostando na interpretação de que se tratava de um alerta falso.

Ele tinha ordens claras de, em casos como esse, reportar imediatamente o ocorrido a seus superiores. A opção segura seria a de passar a responsabilidade das decisões para eles.

Mas sua decisão pode ter salvado o mundo.

"Eu tinha todos os dados [para sugerir que havia um ataque de mísseis em andamento]. Se eu tivesse mandado meu relato para meus superiores, ninguém teria contestado meus dados", disse Petrov à BBC 30 anos depois daquele dia.

Petrov --que se aposentou e hoje vive em uma pequena cidade perto de Moscou-- era parte de uma equipe treinada que trabalhava em uma das primeiras bases de alerta da União Soviética, não muito longe da capital. Seu treinamento foi bastante rigoroso, e suas ordens sempre foram claras.

Seu trabalho era registrar qualquer ataque com mísseis e relatá-los aos líderes militares e políticos. No clima político de 1983, uma retaliação imediata seria a opção mais provável.

Mas Petrov congelou diante da situação.

"A sirene tocou, mas eu fiquei parado por alguns segundos, encarando a tela vermelha com a palavra 'lançado' escrita", diz. O sistema, com bom nível de confiabilidade, estava alertando sem grandes margens para dúvida de que os Estados Unidos tinham lançado um míssil.

"Um minuto depois, a sirene soou de novo. Um segundo míssil havia sido disparado. Depois um terceiro, um quarto e um quinto. Os computadores mudaram o alerta de 'lançado' para 'ataque de mísseis'."

"Não havia regras sobre quanto tempo tínhamos para ponderar antes de relatar um ataque. Mas nós sabíamos que cada segundo de adiamento era uma perda de tempo precioso, e que a liderança política e militar da União Soviética precisava ser alertada sem atrasos."

"Tudo que eu precisava fazer era pegar o telefone e fazer contato direto com os altos comandantes, mas eu não conseguia me mexer. Eu me sentia como se estivesse sentado em cima de uma frigideira", lembra Petrov.

Ele resolveu consultar fontes secundárias, como especialistas que operam radares de satélites, que disseram não ter detectado mísseis.

Mas o que mais chamou sua atenção foi a intensidade dos alertas feitos pelos computadores.

"Havia 28 ou 29 testes de segurança. Depois que o alvo fosse identificado, o alerta teria que passar por todos esses testes. Eu não via como isso podia ser possível nessas circunstâncias."

Petrov chamou o plantonista do quartel-general do Exército soviético e alertou para uma falha no sistema. Caso estivesse errado, a primeira explosão nuclear poderia acontecer em poucos minutos.

"Vinte e três minutos depois eu percebi que nada tinha acontecido. Se um ataque de verdade tivesse acontecido, eu já teria recebido notícias. Foi um alívio enorme", ele lembra, com um sorriso.

Agora, 30 anos depois, Petrov avalia que a probabilidade de o ataque ser real era de 50%. Ele admite que nunca teve certeza de que se tratava de um alerta falso.

Ele afirma que foi o único entre seus colegas que tinha tido uma educação em escolas civis. "Meus colegas eram soldados profissionais, ensinados a dar e receber ordens."

Ele acredita que, caso tivesse sido outra pessoa no seu lugar, provavelmente o alerta teria sido informado aos superiores.

Dias depois, Petrov foi repreendido por suas ações naquele dia. Mas, curiosamente, não por ter tratado tudo como alerta falso --e sim por erros cometidos na hora de escrever sobre o caso no livro de registros.

Por dez anos, ele não falou sobre o assunto. "Eu achava que era uma vergonha para o Exército soviético que nosso sistema tivesse falhado desta forma."

Depois do colapso da União Soviética, a história foi amplamente contada na imprensa e Petrov ganhou vários prêmios internacionais.

Apesar de tudo, ele não se vê como um herói.

"Era meu trabalho", diz. "Mas eles tiveram sorte que era eu quem estava trabalhando naquela noite." 
Folha de S. Paulo

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