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domingo, 29 de março de 2026

“Guia Alimentar” dos EUA vai contra todas as evidências científicas




Segundo Ricardo Abramovay, o novo “Guia Alimentar” dos EUA, que recomenda o consumo cada vez maior de proteína animal, parece atender a interesses econômicos

O gado bovino emite gás metano, que é ainda pior que o dióxido de carbono para a produção de gases do efeito estufa – Foto: Pedro Bolle/USP Imagens


A economia com excesso: diversidade é a base de um padrão alimentar saudável é o título de um artigo que trata do recém-adotado Guia Alimentar dos EUA 2025/2030, o qual preconiza que a redução no consumo de ultraprocessados foi ofuscada pela ênfase reiterada na ampliação do consumo de proteínas, em especial de origem animal, agora apresentada como eixo central de uma alimentação saudável, uma recomendação que, até então, era descartada pela ciência, que a via como danosa à saúde humana. Qual seria a razão dessa mudança de paradigma? Como um dos autores do artigo acima citado, o professor Ricardo Abramovay, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia ( INCT Superar a Tríplice Monotonia dos Sistemas Agroalimentares, do Instituto de Estudos Avançados), diz que tem uma explicação. De acordo com ele, os EUA estão entre os maiores consumidores de proteínas de origem animal, consumo que vai muito além das necessidades metabólicas dos seres humanos, mas o fato é que, no mundo contemporâneo, está se fortalecendo o mito de que é imprescindível o consumo cada vez maior de proteína para atender às nossas necessidades alimentares.

“Isso não é verdade, o consumo de proteína para uma pessoa que tenha uma atividade física média é em torno de 0,8 grama por quilo. O atual Guia Alimentar americano praticamente dobra a recomendação dessas 0,8 grama”, argumenta Abramovay. “Um dos grandes problemas desse excesso do consumo de proteína é que as proteínas animais, que são consumidas sobretudo nos Estados Unidos, uma boa parte delas é consumida em fast foods, e o fast food oferece uma comida ultraprocessada, uma comida que obviamente não é saudável. A única razão plausível para que haja essa recomendação é que houve interesses industriais pressionando o governo norte-americano para fazer essa mudança.”




Os guias alimentares de outros países, inclusive o do Brasil, preconizam uma redução no consumo de carne e uma maior diversidade alimentar. Ocorre, porém, como já aconteceu, por exemplo, com a indústria do tabaco, que os interesses econômicos se sobrepõem ao interesse científico, como no caso em questão. Para Abramovay, trata-se de um absurdo “e que corresponde a um ataque não só à democracia, mas à ciência, que o governo norte-americano atual está sistematicamente patrocinando”. Ele reforça seu ponto de vista com outro exemplo, citando que, no início deste século, um artigo científico publicado numa importante revista científica afirmava que o glifosato, um herbicida, não era cancerígeno.


Anos depois, porém, descobriu-se que os autores do artigo eram ligados à Monsanto e que, portanto, foram pagos para escrevê-lo. O artigo, frisa Abramovay, foi despublicado. “Ouçam essa expressão, despublicado, porque ela vai ser cada vez mais frequente, porque isso acontece com frequência. Por isso as revistas científicas sérias exigem uma declaração formal de se há ou não conflito de interesses, como é que foi financiada a pesquisa para publicar esse artigo etc., é um resguardo que a ciência tem.”

Anos depois, porém, descobriu-se que os autores do artigo eram ligados à Monsanto e que, portanto, foram pagos para escrevê-lo. O artigo, frisa Abramovay, foi despublicado. “Ouçam essa expressão, despublicado, porque ela vai ser cada vez mais frequente, porque isso acontece com frequência. Por isso as revistas científicas sérias exigem uma declaração formal de se há ou não conflito de interesses, como é que foi financiada a pesquisa para publicar esse artigo etc., é um resguardo que a ciência tem.”

Gases do efeito estufa


O professor chama atenção ainda para um outro aspecto. Ao preconizar o aumento no consumo de produtos animais, o Guia Alimentar norte-americano não leva em conta o fato de que o sistema agroalimentar responde por um terço dos gases de efeito estufa e que as proteínas animais estão na origem da metade desse um terço, ou seja, cerca de 15% da emissão desses gases estão ligados ao consumo de produtos de origem animal. Afinal, o gado bovino é responsável pela emissão de gás metano. “Essas emissões de metano são mais de cem vezes mais potentes, no que se refere à destruição do sistema climático, do que o dióxido de carbono. Elas ficam menos tempo na atmosfera do que o dióxido de carbono, mas têm um poder destrutivo muito maior”, afirma Abramovay. “A humanidade precisa reduzir esse consumo de carne e, sobretudo, precisa modificar os métodos de criação bovina para neutralizar e reduzir essas emissões de metano, e isso não entra no Guia Alimentar americano.”

Por outro lado, a simples substituição da carne bovina por carne suína ou de frango também não é a solução, “porque os métodos de criação de carne suína e de carne de frango também são altamente consumidores de antibióticos e são altamente consumidores de grãos. Nós precisamos fazer uma remodelação do sistema agroalimentar para poder enfrentar essas questões”. Ele encerra com uma boa notícia, a de que o Brasil “tem todas as condições de liderar isso, porque o Brasil possui tecnologias – sobretudo bioinsumos – que permitem que as tecnologias hoje usadas sejam ultrapassadas em benefício de tecnologias que se apoiem no respeito e na valorização da vida para a produção agropecuária”.


Jornal da USP

quarta-feira, 18 de março de 2026

Obesidade avança no Brasil e acende alerta para impactos na saúde pública




Dados mostram crescimento de 118% nas últimas duas décadas e apontam aumento preocupante do excesso de peso entre crianças e adolescentes



Hoje cerca de um em cada quatro adultos brasileiros vive com obesidade, e mais de 60% da população está acima do peso, segundo dados do Ministério da Saúde 

Ocrescimento da obesidade no Brasil tem chamado a atenção de especialistas e autoridades de saúde. Nas últimas duas décadas, a prevalência da doença no País aumentou 118%, segundo dados do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde (SNVS) do Ministério da Saúde (MS). O avanço está associado a transformações no estilo de vida da população, como mudanças nos hábitos alimentares, maior consumo de alimentos ultraprocessados e redução da prática de atividades físicas. O que mais assusta nesse cenário é a situação de crianças e adolescentes.

De acordo com o World Obesity Atlas 2026 da Federação Mundial de Obesidade, o Brasil registra quase o dobro de jovens com excesso de peso em comparação com a média global. A tendência levanta um alerta para possíveis impactos na saúde ao longo da vida e reforça a importância de ampliar as estratégias de prevenção e promoção de hábitos saudáveis.

José Ernesto dos Santos – Foto: USP Imagens

Para o professor José Ernesto dos Santos, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o crescimento da obesidade está relacionado principalmente ao alto valor calórico dos alimentos consumidos, especialmente os ultraprocessados, aliado à redução da atividade física. “Isso acontece especialmente porque a capacidade de identificar fome e saciedade tem tido um lugar muito distante na vida dos seres humanos. Nós não conseguimos comer só quando estamos com fome e parar de comer quando nós matamos essa fome. Comemos vendo televisão, em um shopping center, com uma barulheira que você nem repara no que está comendo.”

Segundo o cirurgião pediátrico Evandro Luís Cunha de Oliveira, do Hospital das Clínicas da FMRP, a obesidade é uma condição multifatorial e pode começar ainda na infância. “Nós sabemos que 50% das crianças obesas se tornarão adolescentes obesos e 80% desses adolescentes se tornarão adultos obesos. Ano passado, no Brasil, foi a primeira vez que o número de obesos ultrapassou o número de desnutridos.”

Oliveira destaca ainda que o aumento do tempo de tela, a diminuição da atividade física e a falta de um padrão alimentar adequado estão entre os principais fatores que contribuíram para o agravamento do problema. “Quando nós paramos para pensar nos alimentos que ingerimos, o valor de um alimento ultraprocessado, enquanto o pacote de bolacha custa por volta de R$ 2 e o valor de um alimento in natura, como uma maçã, custa por volta de R$ 7, fica fácil entender por que uma família compra uma bolacha ou uma massa, algo que seja um ultraprocessado, em detrimento de um alimento mais natural, com melhor qualidade nutricional.”
Consequências da doença

De acordo com Santos, entre os principais problemas clínicos associados à obesidade estão a hipertensão arterial, diabetes, intolerância à glicose e problemas ortopédicos. “As consequências que a hipertensão, diabetes e os problemas articulares podem causar, por si só, já são um problema grave e, com o decorrer dos anos, esses problemas podem se tornar cada vez mais graves.”


Para Oliveira, a obesidade também se torna um problema de saúde pública quando se consideram os custos gerados para o sistema de saúde. “Os pacientes obesos têm maior risco de asma, problemas renais, problemas hepáticos, hipertensão, AVC, infartos, gerando custos extremamente elevados, além de diabetes mellitus. Isso acaba levando a uma demanda maior por atendimentos, exames, internações, com toda certeza. Por isso a importância de se trabalhar antes que essas complicações aconteçam”, explica o cirurgião pediátrico.
Políticas públicas adequadas

Segundo Santos, o enfrentamento da obesidade envolve tanto o tratamento individual quanto a implementação de políticas públicas. “Políticas que controlem, por exemplo, a produção e a divulgação de alimentos obesogênicos. Nós devemos começar a ensinar as crianças na escola o que é uma boa alimentação, porque no celular elas não são expostas a nenhuma propaganda de vegetais ou de frutas, e sim a alimentos obesogênicos.”

Evandro Luís Cunha de Oliveira – Foto: Arquivo pessoal

Para Oliveira, o combate à obesidade também exige políticas que incentivem mudanças estruturais no ambiente alimentar e nos hábitos da população. “É preciso uma política pública austera, em que eu tenha uma limitação nas propagandas de processados e ultraprocessados, estímulo para atividade física ao ar livre, diminuição do tempo de tela, alteração da merenda na escola. Precisa ser um trabalho conjunto, não adianta eu querer apenas que as mudanças individuais dos pacientes possam surtir algum efeito.”

A cartilha Guia Alimentar para a População Brasileira, lançada pelo Ministério da Saúde em 2014 e constantemente atualizada, apresenta orientações práticas para uma alimentação saudável no dia a dia. O material aborda temas como a importância de refeições equilibradas, a valorização de alimentos naturais e a redução do consumo de produtos ultraprocessados.

Com relação a Ribeirão Preto, Evandro Luís Cunha de Oliveira afirma que a cidade já desenvolve iniciativas voltadas ao tratamento da obesidade. “No ano passado foi assinado, e é a primeira cidade do País em que isso existe, uma lei para criar um Centro de Tratamento de Prevenção e Tratamento à Obesidade Infantil, que é a fonte inicial que vai gerar no futuro a obesidade no adulto. Além disso, foi criada uma estrutura de atendimento em diferentes níveis. O atendimento primário acontece nos postos de saúde, onde as crianças recebem acompanhamento e ações de prevenção. Já o nível secundário funciona em um centro localizado na Rua Minas, com tratamento multidisciplinar. Nos casos em que há indicação cirúrgica, os pacientes são encaminhados para o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, responsável pelo atendimento terciário.”

*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares
Jornal USP

quinta-feira, 12 de março de 2026

Os antigos gregos e romanos tinham segredos para a longevidade




Uma pintura sobre romanos e a Roma Antiga

Tal como no mundo moderno, as pessoas na Antiguidade já se preocupavam em saber como viver uma vida longa e saudável. Eis como envelhecer bem, segundo médicos da Grécia e de Roma antigas.


Os gregos e os romanos já ouviam histórias fantásticas sobre povos distantes que viviam muito para além dos 100 anos, embora de forma exagerada.

O ensaísta grego Luciano (cerca de 120–180 d.C.) escreve: “De facto, existem mesmo nações inteiras que são muito longevas, como os Seres [chineses], que se diz viverem 300 anos: alguns atribuem a sua velhice ao clima, outros ao solo e ainda outros à sua alimentação, pois dizem que toda esta nação não bebe nada senão água. Diz-se também que o povo do Atos vive 130 anos, e relata-se que os caldeus vivem mais de 100, usando pão de cevada para preservar a nitidez da sua visão.”

Seja qual for a verdade destas histórias, muitos gregos e romanos antigos desejavam uma vida longa e saudável. Eis como pensavam que isso poderia acontecer.

A perspetiva de um médico antigo

Os médicos da Antiguidade interessavam-se pelo que as pessoas que viviam longas vidas faziam todos os dias e por como isso poderia ter ajudado.

O médico grego Galeno (129–216 d.C.), por exemplo, fala de duas pessoas que conheceu pessoalmente em Roma e que viveram até idade avançada.

Primeiro, há um gramático (alguém que estuda e ensina gramática) chamado Teléfus, que viveu até quase aos 100 anos.

Segundo Galeno, Teléfus comia apenas três vezes por dia. A sua dieta era simples: “Papa cozida em água misturada com mel cru da melhor qualidade, e apenas isso lhe bastava na primeira refeição. Também jantava à sétima hora ou um pouco antes, comendo primeiro legumes e depois provando peixe ou aves. À noite, costumava comer apenas pão, humedecido em vinho que tinha sido misturado.”

Galeno também nos diz que Teléfus tinha alguns hábitos de banho que hoje nos poderiam parecer invulgares. Teléfus preferia ser massajado com azeite todos os dias e tomar banho apenas algumas vezes por mês: “Tinha o hábito de tomar banho duas vezes por mês no inverno e quatro vezes por mês no verão. Nas estações intermédias, tomava banho três vezes por mês. Nos dias em que não tomava banho, era ungido por volta da terceira hora com uma breve massagem.”

Em segundo lugar, havia um médico idoso chamado Antíoco, que viveu até aos seus 80 e tal anos. Segundo Galeno, também tinha uma dieta simples.

De manhã, Antíoco comia normalmente pão torrado com mel. Depois, ao almoço, comia peixe, mas normalmente apenas peixe “das rochas e os do mar profundo”. Ao jantar, comia “ou papa com oxímel [uma mistura de vinagre e mel] ou uma ave com um molho simples”.

A par desta dieta simples, Antíoco fazia uma caminhada todas as manhãs. Também gostava de ser conduzido numa carruagem, ou fazia com que os seus escravos o transportassem numa cadeira pela cidade.

Galeno disse também que Antíoco “realizava os exercícios adequados a um homem idoso”: “Há uma coisa que se deve fazer pelos idosos de manhã cedo como exercício: após a massagem com óleo, fazê-los depois caminhar e realizar exercícios passivos sem se fatigarem, tendo em conta a capacidade da pessoa idosa.”

Galeno conclui que a rotina de Antíoco provavelmente contribuiu para a sua boa saúde até uma idade avançada: “Cuidando de si desta forma na velhice, Antíoco continuou assim até ao fim, sem prejuízo dos seus sentidos e são em todos os seus membros.”

Galeno sublinha que Teléfus e Antíoco tinham algumas coisas óbvias em comum. Comiam apenas algumas vezes por dia; a sua dieta consistia em carnes de animais selvagens, cereais integrais, pão e mel; e mantinham-se ativos todos os dias.

O que pode fazer?

Nem todos nós podemos viver até aos 100 anos ou mais, como os gregos e romanos bem sabiam.

No entanto, Luciano oferece-nos algum consolo no seu ensaio Sobre os Octogenários: “Em todos os solos e em todos os climas, as pessoas que fazem o exercício adequado e a dieta mais apropriada à saúde têm sido longevas.”

Luciano aconselhava que devíamos imitar os estilos de vida das pessoas que viveram vidas longas e saudáveis, se quisermos fazer o mesmo.

Assim, se vivesse em Roma no século II d.C., pessoas como Teléfus e Antíoco, que tinham uma dieta simples e se mantiveram ativos toda a vida, seriam bons modelos a seguir.

https://zap.aeiou.pt/

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Água é fundamental para a vida, inclusive na alimentação


“A insegurança hídrica tem estreita relação com a insegurança alimentar, ou seja, há uma parcela expressiva da população brasileira que tem fome e sede simultaneamente“, diz Pedro Jacobi


A água está intrinsecamente ligada aos sistemas agroalimentares, já que a produção de alimentos depende de uma boa quantidade de irrigação – Foto: feraugustodesign via Pixabay – Foto: feraugustodesign via Pixabay



Dia 22 de março é comemorado o Dia Mundial da Água e foi estabelecido pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1993. Porém, a relação desse líquido com a vida humana vai além da simples ingestão e passa também pela produção de alimentos.
Crise hídrica

Cada lugar possui um índice pluviométrico diferente, isto é, o volume da chuva varia de acordo com diversos fatores que incluem, além do geográfico, a presença ou não de vegetação natural, impacto da ação humana, tratamento das águas, entre outros. Quando se pensa na intervenção do ser humano, outra palavra recorrente é a escassez hídrica. “A partir do desmatamento nos biomas, dos processos de degradação dos solos, da poluição atmosférica e das águas, todas condições comprometem as bacias hidrográficas fundamentais para o consumo humano, ampliando os danos à saúde”, explica Pedro Jacobi, professor titular sênior do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente.

O poder público também tem responsabilidade nesse impacto: a má qualidade das águas dos rios por falta de tratamento de esgoto doméstico e ocupação em áreas de mananciais, falta de planejamento para a construção de novos reservatórios, falta de investimentos para a redução de perdas e falta de coordenação institucional são alguns pontos elencados pelo professor.
Água e alimentação

A água está intrinsecamente ligada aos sistemas agroalimentares, já que a produção de alimentos depende de uma boa quantidade de irrigação e até mesmo da água em si para os demais processos. No Brasil, Jacobi comenta que, como a maior parte das terras agrícolas é irrigada sazonalmente, dependendo das chuvas, situações de escassez hídrica decorrentes das mudanças climáticas são cada vez mais preocupantes
.
Pedro Roberto Jacobi – Foto: IEA/USP

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor agropecuário foi responsável por 97,4% do consumo total de água no Brasil em 2017. “O setor agropecuário busca constantemente pela alta produtividade, que promove a expansão das lavouras como as de soja e milho e dos espaços destinados à pecuária, demandando a expansão da fronteira agrícola para regiões como a Amazônia e o Cerrado”, diz o professor. A consequência disso é o desmatamento e as queimadas florestais, que não comprometem apenas a região, mas também muitos outros locais que dependem da formação de chuvas.

Os reflexos desses problemas atingem tanto a quantidade quanto a qualidade das águas, o que, em cadeia, afeta diretamente a produção de alimentos, com consequências para as populações vulneráveis socialmente. “Os agricultores familiares são os mais duramente afetados, com a queda da qualidade das pastagens e da produção agrícola, gerando endividamento que dificulta desenvolver os próximos plantios”, explica Jacobi.
Sede e fome

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6 da ONU pretende “garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água potável e do saneamento para todos”. A água é um direito universal reconhecido pela ONU, mas ele não é cumprido integralmente. “Existe um dado para o qual não podemos deixar de olhar: a insegurança hídrica tem estreita relação com a insegurança alimentar, ou seja, há uma parcela expressiva da população brasileira que tem fome e sede simultaneamente, de acordo com relatório da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar“, ressalta o professor.

Para tentar controlar a situação, Jacobi diz que o Brasil precisará ampliar os estoques de alimentos e privilegiar culturas mais resistentes a secas, por causa das mudanças climáticas, além de difundir o nexo água, energia e alimentação, já que a água é um eixo estruturador. “A partir daí, entende-se que a governança e gestão da água devem ser integradas aos demais setores pelo seu papel fundamental para a produção de alimentos e garantidor de energia devido à importância da hidroeletricidade no País.”

*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo
Jornal USP

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

A curiosa história do tomate: da má fama a ser estrela de vários pratos da culinária





Os tomates foram criticados durante séculos — então, como é que passamos a apreciá-los? Esta pequena cidade de Nova Jersey afirma ter desempenhado um papel importante.


Em outros tempos chamados de “maçãs venenosas”, os tomates eram considerados sobrenaturais e pecaminosos, especialmente por causa de sua cor vermelha.
Foto de The Maas Gallery, London, Bridgeman Images
Por Yolanda Evans

Publicado 15 de ago. de 2025, 15:30 BRT


Embora a cidade de Salem, em Massachusetts, nos Estados Unidos, seja famosa pelos infames julgamentos de bruxas de 1692, há outra cidade chamada Salem — mas no estado norte-americano de Nova Jersey — que está ligada a uma história bastante lendária em que os tomates eram os inimigos.


Existem muitos mitos e lendas sobre como o tomate era visto como uma “maçã envenenada”, mas como ele perdeu sua reputação maligna e se tornou um produto alimentício amado é uma história complicada. De acordo com o historiador Andrew F. Smith, autor do livro “The Tomato in America: Early History, Culture, and Cookery” (em tradução livre, “O tomate na América do Norte: história inicial, cultura e culinária”), a história envolve um agricultor e horticultor que fez de tudo para provar que o tomate era seguro para consumo.


Mas até que ponto essa história é verdadeira? Aqui está o que sabemos sobre o passado conturbado dessa fruta infame e como ela se tornou um símbolo nesta cidade de Nova Jersey.


Por que as pessoas temiam o tomate?



Os astecas, povos da América Central e do Sul pré-colombianos, são creditados por cultivar, consumir e dar nome ao tomate, e a fruta foi posteriormente levada para a Europa pelos colonizadores espanhóis e portugueses no século 16.


A lenta introdução do tomate em toda a Europa deveu-se, em parte, ao receio em relação à cor vermelha, que era vista como pecaminosa e sobrenatural.




Os aristocratas adoeciam e/ou morriam quando consumiam tomates, mas o problema era os pratos em que comiam.Foto de O. F. Cook, Nat Geo Image Collection


Em 1544, o herbalista italiano Pietro Andrea Mattioli classificou o tomate como uma solanácea e uma mandrágora — uma categoria de alimentos conhecida como afrodisíaca. O tomate era frequentemente referido como uma “maçã do amor” e mantido à distância.


Mais tarde, em 1597, o proeminente herbalista e botânico inglês John Gerard falou que os tomates tinham “sabor forte e fétido” em seu livro “Herbal”. Essa afirmação negativa basicamente selou o destino do tomate na Grã-Bretanha e, mais tarde, nas colônias inglesas nas Américas.


No século 18, o tomate foi apelidado de “maçã venenosa” porque os aristocratas adoeciam e/ou morriam após consumi-lo. Porém, não foi o consumo do tomate que provocou sua doença ou morte. Em vez disso, o motivo real foram os pratos que os ricos usavam para jantar — especificamente os pratos de estanho. Esses pratos continham altos níveis de chumbo que, quando misturados com a acidez natural do tomate, causavam envenenamento por chumbo.




Em seu livro, Smith observa que algumas das primeiras referências ao tomate nas colônias norte-americanas datam do final do século 18, mas as pessoas cultivavam a fruta por curiosidade, não para consumi-la.


“Para aqueles que chegaram às Américas no período colonial, isso simplesmente não fazia parte de seus planos”, comenta Smith.
A ascensão dos tomates em mitos e folclores



De acordo com Smith, a imigração em grande escala para os Estados Unidos no final do século 19 e início do século 20 — particularmente de italianos, que trouxeram consigo a invenção da pizza — contribuiu para o consumo eventual de tomates.


Mas foi Robert Gibbon Johnson, que era um agricultor e horticultor da cidade de Salem, Nova Jersey, que finalmente causou uma impressão duradoura na opinião pública sobre os tomates.


Segundo a lenda falada até os dias de hoje, Johnson subiu os degraus do tribunal de Salem em 1820, comendo uma cesta cheia de tomates para que todos pudessem ver. Quando ele não morreu envenenado após ingeri-los, espalhou-se a notícia de que os tomates eram seguros para consumo.


No entanto, nunca foi encontrado nenhum registro das ações de Johnson. A história foi mencionada pela primeira vez pelo chefe dos correios de Nova Jersey e historiador amador Joesph S. Sickler em seu livro de 1937, “History of Salem County, New Jersey: Being the Story of John Fenwick's Colony, the Oldest English Speaking Settlement on the Delaware River” (em tradução livre, “História do condado de Salem, Nova Jersey: a história da colônia de John Fenwick, o mais antigo assentamento de língua inglesa no rio Delaware”), e rapidamente se tornou uma lenda sobre o tomate.mato lore.




Apesar de não haver registros das ações de Johnson nos degraus do tribunal em Salem, isso não impediu que esta cidade de Nova Jersey entrasse na brincadeira e fizesse do tomate seu símbolo ao longo do tempo.Foto de Justin Locke, Nat Geo Image Collection


Smith encontrou evidências de que Johnson realmente cultivava tomates, então “é certamente possível que seu trabalho tenha incentivado outras pessoas a consumir”, afirma ele. Mas Smith observa que muitas outras pessoas cultivavam tomates na época, então essa não é a única razão pela qual a fruta se tornou popular. Na década de 1830, uma série de livros de receitas com tomate estava sendo publicada nos Estados Unidos.


Rich Guido, diretor executivo e bibliotecário da Sociedade Histórica do Condado de Salem (NJ), acredita que essa história fantástica é típica de uma pequena cidade rural apaixonada por sua história local, mesmo que a história possa ter muitas meias verdades.


“Sempre tivemos uma conexão com a história e com o fato de sermos uma comunidade agrícola rural — é por isso que a história do tomate realmente entra em jogo”, diz Guido.


Como o tomate continua vivo em Salem, Nova Jersey



Embora não haja provas físicas ou documentação do teste do tomate de Johnson, isso não impediu as pessoas de acreditarem nessa história. Sickler acabou por contar a história a Harry Emerson Wildes, um sociólogo e historiador norte-americano, que escreveu sobre ela no seu livro de 1940, “The Delaware”. Pouco depois, Stewart Holbrook acrescentou mais detalhes ao evento no seu livro de 1946, “Lost Men of American History” (algo como “Homens perdidos da história americana”, em tradução livre).


Em 30 de janeiro de 1949, a rádio norte-americana CBS deu ainda mais notoriedade à narrativa ao transmitir uma reconstituição do famoso momento em que Johnson comeu um tomate no programa “You Are There”; Sickler atuou como consultor histórico do programa.


Em Salem, Nova Jersey, de 1989 a 2022, a cidade realizou o “Salem Tomato Festival”, onde moradores e visitantes assistiam a reconstituições do evento de Johnson, vestiam fantasias e, é claro, comiam tomates. No entanto, de acordo com Guido, o festival foi suspenso quando foi revelado que Johnson era proprietário de pessoas escravizadas.


Quanto ao motivo pelo qual Salem e Nova Jersey adotaram essa lenda como a história obscura do Garden State, Curtis Harker, gerente de registros do condado de Salem, acredita que seja pelo amor ao tomate de Salem — que também envolveu uma certa empresa de ketchup em determinado momento.


“É uma combinação do amor pelo enorme e saboroso tomate de Salem colocado em um hambúrguer, o aroma da Heinz Company que se espalhou pela cidade ao fabricar ketchup em Salem por 100 anos até 1977 e a divertida história de Johnson comendo corajosamente um tomate na escadaria do tribunal”, diz ele.


Embora a tradição em torno de Johnson tenha sido manchada por sua escravidão, o tomate continua a manter seu domínio sobre esta pequena cidade de Nova Jersey.
National Geographic Brasil

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Alimentos ultraprocessados são mais nocivos ao meio ambiente, diz pesquisa


Estudo britânico mostra que a fabricação dos produtos à base de plantas causa de 10% a 20% menos prejuízos ao meio ambiente do que a das combinações de carnes e queijos

Gabriella Tiscoski


(crédito: STRINGER SHANGHAI)

Nos últimos anos, diversas pesquisas mostram que alimentos processados e ultraprocessados, além de terem efeito negativo na saúde humana, prejudicam o meio ambiente. Um novo estudo britânico faz uma estimativa do impacto gerado por 57 mil produtos do tipo, tanto os à base de plantas quanto os à base de carne, no Reino Unido e na Irlanda. A conclusão é de que os primeiros têm uma pegada ambiental de 10% a 20% menor do que os do segundo grupo. Detalhes do trabalho conduzido pelo programa Livestock, Environment and People (LEAP) e pela Universidade de Oxford foram divulgados na revista Pnas.


A análise teve como base dados do foodDB — uma plataforma de pesquisa de Big Data da Universidade de Oxford que coleta e processa, diariamente, dados sobre todos os alimentos e bebidas disponíveis em 12 supermercados on-line no Reino Unido e na Irlanda — e uma revisão abrangente de 570 estudos sobre impacto ambiental da produção de alimentos, que inclui dados de 38 mil fazendas em 119 países.

Para realizar a pesquisa, os cientistas analisaram as emissões de gases de efeito estufa, o uso da terra, o estresse hídrico e o potencial de eutrofização — quando os corpos de água se tornam enriquecidos com nutrientes, muitas vezes causando a proliferação de algas nocivas. A equipe combinou essas quatro pontuações em um único escore estimado de impacto ambiental considerando 100g do produto ultraprocessado, feito com partes de vários ingredientes.


Os pesquisadores quantificaram as diferenças entre esses produtos e descobriram que aqueles feitos de frutas, vegetais, açúcar e farinha, como sopas, saladas, pães e cereais matinais, têm pontuações de baixo impacto. Já aqueles feitos de carne, peixe e queijo estão no topo da lista.

Segundo os autores, o método inédito e reprodutível fornece um primeiro passo para permitir que consumidores, varejistas e formuladores de políticas tomem decisões informadas sobre o tema. "Ao estimar o impacto ambiental de alimentos e bebidas de forma padronizada, demos um primeiro passo significativo para fornecer informações que podem permitir a tomada de decisões. Ainda precisamos encontrar a melhor forma de comunicar essas informações, a fim de mudar o comportamento para resultados mais sustentáveis, mas avaliar o impacto dos produtos é um passo importante", avalia Michael Clark, autor principal do estudo.

Peter Scarborough, professor de saúde populacional da Universidade de Oxford, vê o estudo como uma forma de instruir os consumidores. "Mais importante, poderia levar varejistas e fabricantes de alimentos a reduzir o impacto ambiental do fornecimento de alimentos, tornando mais fácil para todos ter dietas mais saudáveis e sustentáveis", enfatiza.

Correio Brasiliense

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Geografia da Fome


Josué de Castro e a Geografia da Fome no Brasil

Josué de Castro and The Geography of Hunger in Brazil

Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos

Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil 

RESUMO

O objetivo deste artigo é realizar uma releitura do clássico Geografia da Fome, publicado pela primeira vez em 1946. Realiza-se uma síntese dos mapas das cinco áreas alimentares e das principais carências nutricionais existentes no Brasil, de acordo com o delineamento realizado por Josué de Castro. Nos dias atuais, ao perfil epidemiológico nutricional desenhado por Josué de Castro, caracterizado pelas carências nutricionais (desnutrição, hipovitaminoses, bócio endêmico, anemia ferropriva etc.), sobrepuseram-se as doenças crônicas não-transmissíveis (obesidade, diabetes, dislipidemias etc.). Entretanto, a questão da complexa e paradoxal problemática da fome permanece como uma temática recorrente no Brasil. Diante de alguns dilemas da atualidade, tais como aqueles que dizem respeito à sustentabilidade ecológica do planeta e à garantia do direito humano à alimentação, torna-se imperante reacender a luta defendida por Josué de Castro pela adoção de um modelo de desenvolvimento econômico sustentável e uma sociedade sem miséria e sem fome.

Introdução

Josué de Castro nasceu em 5 de setembro de 1908, em Recife, Pernambuco, Brasil. Filho de um agricultor do Sertão Nordestino que em 1877, em função da seca, migrou para a capital, viveu sua infância e adolescência em um bairro pobre, às margens do rio Capibaribe 1,2,3. Em 1929, após concluir o Curso de Medicina da Universidade do Brasil, retornou ao Recife para dar início a uma consagrada trajetória político-intelectual, dedicada, particularmente, à complexa e paradoxal problemática da fome e suas formas de enfrentamento 4. A sua vastíssima produção intelectual, de abrangência internacional, composta por mais de 200 títulos, tem sido objeto de estudo de distintas investigações 3,4,5,6,7,8,9.

O objetivo geral do presente artigo é realizar uma releitura do clássico Geografia da Fome, publicado pela primeira vez em 1946 10. Como objetivos específicos, em um primeiro momento, realiza-se uma síntese do mapa das cinco áreas alimentares do Brasil traçado em Geografia da Fome, procurando identificar as principais características dos seus regimes alimentares. Em um segundo momento, realiza-se uma síntese do mapa das principais carências nutricionais existentes no Brasil, de acordo com o delineamento de Josué de Castro 10.

Em Geografia da Fome, Josué de Castro introduz os conceitos de áreas alimentares, áreas de fome endêmica, áreas de fome epidêmica, áreas de subnutrição, mosaico alimentar brasileiro e, por conseqüência, traça o primeiro mapa da fome no país. Por áreas alimentares, concebe uma determinada região geográfica que dispõe de recursos típicos, dieta habitual baseada em determinados produtos regionais e com seus habitantes refletindo, em suas características biológicas e sócio-culturais, a influência marcante da dieta. Por área de fome endêmica, concebe uma determinada área geográfica em que pelo menos metade da população apresenta nítidas manifestações de carências nutricionais permanentes. Por áreas de fome epidêmica, concebe uma determinada área geográfica em que pelo menos metade da população apresenta nítidas manifestações nutricionais transitórias. Por áreas de subnutrição, concebe uma determinada área geográfica em que os desequilíbrios e as carências alimentares, sejam em suas formas discretas ou manifestas, atingem grupos reduzidos da população. E por mosaico alimentar brasileiro, concebe a diferenciação regional dos tipos de dieta existentes no país, oriundas das variadas categorias de recursos naturais (alimentos) e das distintas etnias que constituíram a nação brasileira 9.

De acordo com Castro 10, o método de investigação que norteou a elaboração da Geografia da Fome foi baseado nos princípios estabelecidos pelos geógrafos alemães Carl Ritter (1779-1859) e Alexander von Humboldt (1769-1859), pelo geógrafo francês Paul Vidal de La Blache (1845-1918), entre outros. Para seu autor, o objetivo básico da Geografia da Fome consiste em "localizar com precisão, delimitar e correlacionar os fenômenos naturais e culturais que ocorrem à superfície da terra10 (pp. 34-5). Assim sendo, afirma que o propósito do seu estudo foi realizar uma sondagem de natureza ecológica sobre o fenômeno da fome no Brasil, orientado pelos princípios geográficos da localização, extensão, causalidade, correlação e unidade terrestre 10.

Por outro lado, ao introduzir o uso dos termos fome endêmica e fome epidêmica, em nota explicativa, Castro faz alusão à adoção do conceito de epidemiologia da fome, explicitando a influência que sofreu do conceito de epidemiologia admitido por Wade Hampton Frost (1880-1938) e do conceito de epidemiologia do diabetes e do câncer defendido por Wilson George Smillie (1886-1971). Sendo assim, embora explicitando sua maior identificação com o método geográfico, os aspectos biológicos, médicos e higiênicos do fenômeno da fome também são enfocados em seu ensaio ecológico.

 

O mapa das áreas alimentares do Brasil

A partir de Geografia da Fome, o país seria dividido em cinco diferentes áreas alimentares assim distribuídas: (1) Área Amazônica - à época, abrangia os estados do Amazonas e Pará, parte dos estados do Mato Grosso, Goiás e Maranhão e os territórios do Amapá e Rio Branco; (2) Nordeste Açucareiro ou Zona da Mata Nordestina - à época, correspondia a todo o litoral nordestino, do Estado da Bahia ao Ceará, compreendendo uma faixa territorial com largura média de 80km; (3) Sertão Nordestino - correspondendo, à época, às terras centrais dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia; (4) Centro-Oeste - compreendia os estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grasso; e (5) Extremo Sul - que à época abrangia os estados da Guanabara, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O regime alimentar da Área Amazônica

De acordo com o mapa das áreas alimentares do Brasil (Figura 1), a Área Amazônica apresentava como dieta básica o consumo de farinha de mandioca, associada ao feijão, peixe e rapadura. Em relação aos fatores etno-culturais que influenciavam a constituição da dieta, Castro 10 aponta a predominância da cultura indígena sobre as culturas dos brancos portugueses e negros africanos. O alimento básico da dieta, a farinha de mandioca, era consumido em diferentes preparações sob a forma de farofas, mingaus, beijus e bebidas fermentadas, sendo misturado a outros alimentos, oriundos da flora silvestre (frutos, sementes e ervas), da fauna aquática e terrestre (peixes, crustáceos, tartarugas, tracajás, jabutis, antas, macacos e patos), além da incipiente agricultura regional. Destaca o largo consumo de pimentas e outras ervas na preparação dos pratos regionais como uma importante contribuição da cultura indígena. Em relação aos frutos regionais, é interessante notar que, já àquela época, ele apontava algumas importantes características nutricionais do buriti e açaí (ricos em betacaroteno ou vitamina A) e castanha-do-pará (proteínas completas e ácidos graxos). A conclusão do autor sobre a dieta amazônica foi que se tratava de uma alimentação pouco trabalhada e atraente e que sua análise biológica e química revelava inúmeras deficiências nutritivas 10.

O regime alimentar do Nordeste Açucareiro

No Nordeste Açucareiro a dieta básica era o consumo de farinha de mandioca, associada ao feijão, aipim e charque (Figura 1). De acordo com Castro 10, esse regime alimentar era produto da inter-relação das culturas alimentares dos indígenas da região, dos colonizadores portugueses e dos negros africanos, tendo a cultura alimentar do negro africano uma influência mais expressiva e valorizadora sobre os hábitos alimentares do que as demais.

Ele aponta a existência de distintas subáreas alimentares nessa região nordestina. Inicialmente, faz distinção entre duas subáreas alimentares: a litorânea e a da mata ou da cana-de-açúcar. Ao longo da sua abordagem aparece referência a uma subárea alimentar do sururu no Estado de Alagoas e à especificidade da cozinha baiana. Ao final, também descreve a área alimentar do cacau que, à época, se estendia do Recôncavo para o sul da Bahia até o Espírito Santo 10.

Na descrição da área litorânea destaca a riqueza de proteínas e sais minerais, oriundos dos alimentos marinhos (peixes, moluscos e crustáceos) e a participação de dois produtos vegetais de alto valor nutritivo: o coco e o caju. O coco contribuía com o aporte de gordura, proteínas e sais minerais da dieta, participando de uma infinidade de preparações típicas: feijão de coco, peixe de coco, arroz de coco, vatapá, canjica, pamonha, mungunzá, doce de coco, cocada, entre outras. O caju, por sua vez, era rico em vitaminas (em ácido ascórbico) e em proteínas de alto valor biológico contidas na castanha 10.

Vale destacar a análise apresentada sobre os tabus alimentares da região, sobretudo em relação ao consumo de frutas como manga, jaca, abacaxi, melancia, abacate, laranja, entre outras. Para Castro 10, o grande número de superstições e restrições ao consumo de certos alimentos, sem nenhum fundamento biológico, decorria da sobrevivência cultural das interdições alimentares impostas por questões econômicas pelos senhores de engenho a seus escravos e moradores. Nesse aspecto, vale lembrar que grande parte dos tabus alimentares identificados continua sua reprodução no imaginário alimentar da população brasileira 11,12,13.

O regime alimentar do Sertão Nordestino

O Sertão Nordestino tinha como dieta básica o consumo de milho, associado ao feijão, carne (gado, carneiro e cabra) e rapadura (Figura 1). De acordo com Castro 10, esse regime alimentar tinha predominância da influência cultural colonial (árabe-portuguesa), sendo o mais isento das influências das culturas dos índios e negros.

O milho foi considerado o alimento básico da dieta, sendo consumido quase que pela totalidade da população em quantidades consideradas elevadas. Constituía a base calórica da dieta, sendo usado no preparo de vários pratos típicos: cuscuz, angu, pamonha e canjica. Segundo Castro 10, seu consumo associado ao do leite resultava numa combinação nutricional muito feliz, uma vez que a proteína caseína do leite completava as deficiências em aminoácidos da proteína zeína do milho.

O leite e seus derivados como coalhada fresca ou escorrida, queijo e manteiga eram consumidos em abundância, constituindo alimentos integrantes da dieta do sertanejo nordestino. Para completar o aporte de proteínas de origem animal, observava-se o consumo habitual de carne (boi, carneiro e cabra) em distintas preparações: carne com abóbora e leite; carne-de-sol; charque; paçoca, buchada, panelada etc. 10.

Completava o regime habitual do sertanejo nordestino o consumo de feijão (principalmente do tipo macassar), farinha de mandioca, batata-doce, inhame, rapadura e café. O consumo habitual de frutas e verduras era muito limitado, constituindo falha visível da alimentação do sertanejo. Sendo assim, ele identificava a ingestão limitada de frutas regionais como umbu, piqui, quibá, cajarana e quixaba. Identificava também o consumo limitado de verduras como abóbora, maxixe, e cebolinha e coentro, usados como temperos.

Castro 10 concluiu que o regime alimentar habitual da área do Sertão Nordestino apresentava-se quantitativa e qualitativamente equilibrado, atendendo sem déficits e sem excessos às necessidades nutricionais do sertanejo: "É esta mesma parcimônia calórica, sem margens a luxo, que faz do sertanejo um tipo magro e anguloso, de carnes enxutas, sem arredondamentos de tecidos adiposos e sem nenhuma predisposição ao artritismo, à obesidade e ao diabetes, doenças essas provocadas, muitas vezes, por excesso alimentar10 (p. 207).

Entretanto, esse equilíbrio nutricional estava sujeito às rupturas cíclicas dos períodos de seca, quando se desorganizava completamente a economia regional e instalava-se a fome epidêmica. Nesse sentido, Castro 10 relata que nos períodos de seca o sertanejo passava imediatamente para um regime de subalimentação, limitando a quantidade e a variedade de alimentos, reduzindo a sua dieta ao consumo de um pouco de milho, feijão e farinha de mandioca. Quando a seca persistia e esses recursos alimentares se esgotavam, o sertanejo lançava mão de outras estratégias de sobrevivência, passando a consumir as "iguarias bárbaras" do sertão: raízes, sementes, frutos e animais resistentes à seca. Entre as "iguarias bárbaras" ele destaca: farinha de macambira, xique-xique, pereira brava, macaúba e mucunã, palmito de carnaúba, raízes de umbuzeiro, pau-pedra, serrote e maniçoba, sementes de fava-brava, manjerioba, beijus de catolé, gravatá e macambira.

Em relação ao consumo desses alimentos exóticos Castro 10 (p. 220-1) conclui: "Quando o sertanejo lança mão destes alimentos exóticos é que o martírio da seca já vai longe e que sua miséria já atingiu os limites de sua resistência orgânica. É a última etapa de sua permanência na terra desolada, antes de se fazer retirante e descer aos magotes, em busca de outras terras menos castigadas pela inclemência do clima".

O regime alimentar do Centro-Oeste

No Centro-Oeste a dieta básica era o consumo de milho, associado ao feijão, carne e toucinho (Figura 1). O prato típico foi identificado como o "tutu de feijão mineiro", preparado à base de farinha de milho, feijão, gordura, toucinho e lombo de porco. Esse foi considerado por Castro como de "alto valor calórico", mas qualitativamente de valor nutritivo inferior ao do "angu ou do cuscuz de milho com leite" da área do Sertão Nordestino, principalmente por seu teor mais baixo em cálcio e vitaminas. Entretanto, salienta que a dieta básica da região ganhava valor biológico a partir do consumo associado de vegetais verdes, principalmente couve mineira, outras hortaliças e frutas, principalmente laranja, mamão, banana e abacate. Com base na análise química do regime alimentar, afirma que não havia deficiência calórica na região, pelo contrário, deveria haver excesso calórico. Concluiu sua análise de forma um tanto preconceituosa ao afirmar que esse padrão alimentar resultava em "maior incidência da obesidade e do diabete, e na formação do tipo biológico dos mineiros lentos e pesados, conservadores e pachorrentos10 (p. 267).

O regime alimentar do Extremo Sul

O Extremo Sul consumia basicamente o arroz, pão, batata e carne (Figura 1). À época, por constituir a área mais rica e de maior desenvolvimento, tanto agrícola como industrial, também foi considerada a região de maior variedade alimentar, de mais alto consumo de verduras e frutas e, portanto, de mais elevado padrão alimentar. Além dos fatores econômicos e geográficos (clima, solo, pluviosidade etc.), Castro 10 ressalta os determinantes etno-culturais que possibilitavam diversificação e melhoria do padrão alimentar da região. Assim, as distintas etnias que migraram para a região, compostas por italianos, japoneses, alemães, poloneses, lituanos, entre outros, em muito contribuíram para a constituição do seu diversificado mosaico alimentar. Ele destaca a presença de distintas subáreas alimentares nessa região: (1) Subárea de influência italiana, caracterizada pelo largo consumo de trigo sob a forma de macarrão, ravioli e spaghetti; (2) Subárea localizada no Rio Grande do Sul, caracterizada pelo complexo alimentar do churrasco e do mate-chimarrão; (3) Subárea de influência japonesa, localizada em torno da capital de São Paulo e outros centros urbanos, caracterizada por abundante consumo de verduras; e (4) Subárea de influência germânica, caracterizada por um consumo mais freqüente de aveia, centeio, lentilhas, hortaliças, frutas, carne de porco (salsichas, bacon, presunto, defumados), pão preto, chucrute e cerveja.

 

O mapa das carências nutricionais do Brasil

As carências nutricionais da Amazônia

A Região Amazônica, considerada uma das áreas de fome endêmica, caracterizava-se pela presença de deficiências protéicas, vitamínicas e de sais minerais (Figura 2). À época, as carências nutricionais endêmicas eram: carências protéicas, de vitamina B2 (arriboflavinose); de ferro (anemias) e de cloreto de sódio. As formas frustas ou subclínicas eram: carências protéicas; de vitaminas A, B1 e niacina (pelagra) e de cálcio (sem manifestação de raquitismo). A carência de vitamina B1 (beribéri) aparecia em forma típica epidêmica. Em relação ao beribéri, vale ressaltar que ele destaca o período de 1870 a 1910, conhecido como ciclo econômico da borracha amazônica, como uma fase epidêmica desta carência nutricional na região. Ressalta-se ainda a interessante análise que ele faz sobre a associação entre a insuficiência alimentar quantitativa, caracterizada por um baixo consumo calórico, a adaptação orgânica forçada a partir desta situação permanente e a apregoada preguiça dos povos dessa região equatorial. Para Castro 10 (p. 76), "a preguiça dos povos equatoriais é um meio de defesa ou sobrevivência, funcionando como um sinal de alarme numa caldeira que diminui a intensidade de suas combustões, quando lhe falta o combustível".

As carências nutricionais do Nordeste Açucareiro

O Nordeste Açucareiro, considerado uma área de fome endêmica, apresentava como manifestações diretas da deficiência do regime alimentar: carências calóricas, protéicas, de vitaminas e minerais. As formas endêmicas das carências nutricionais identificadas foram: carências protéicas, de vitaminas A, B1 e B2 e dos minerais ferro e cloreto de sódio. As manifestações subclínicas identificadas foram: carências protéicas; de vitaminas B1, C (escorbuto) e niacina e do mineral cálcio (Figura 210.

Castro destaca que em conseqüência da deficiência calórica da dieta, decorria a reduzida capacidade de trabalho do nordestino da Zona da Mata, em relação aos trabalhadores mais bem alimentados de outras regiões do país. Chama a atenção para uma possível associação entre a deficiência permanente de proteínas da dieta e os índices de baixa estatura dos habitantes do brejo nordestino, os trabalhadores dos engenhos e usinas de açúcar. Como confronto, também chama a atenção para uma possível associação entre a dieta rica em proteínas e sais minerais e os índices de estatura elevada dos habitantes do litoral, as populações costeiras de pescadores.

Ao descrever o mapa das carências de vitaminas A, B1, B2, C e niacina, relativiza a magnitude e a gravidade do quadro, ressaltando que estas carências não eram tão abundantes como deveria se esperar. Como exceção, destaca a carência de vitamina B2 (arriboflavinose), afirmando ser esta abundante e generalizada entre crianças pobres das áreas rurais e urbanas da região. É interessante notar que ele aponta como explicação a possível influência de fatores protetores ou preventivos presentes na dieta regional, tais como condimentos e ingredientes especiais usados, sobretudo na cozinha baiana: o azeite-de-dendê (fonte de beta-caroteno ou provitamina A) e as variadas espécies de pimenta (fontes de ácido ascórbico) 10.

Em relação às carências minerais, aponta a deficiência de ferro (anemia alimentar) como a manifestação endêmica mais generalizada, a qual seria responsável pelo estereótipo de palidez, apatia e depressão física do habitante do brejo - o Jeca-Tatu Nordestino. Entretanto, apenas um estudo sobre a prevalência de anemia ferropriva é referido, segundo o qual 40% dos escolares da cidade de Salvador (Bahia) apresentavam baixas taxas de hemoglobina 10.

Ressalta-se ainda a importante análise realizada a respeito das conseqüências do consumo alimentar excessivo ou desequilibrado verificado entre os habitantes mais abastados, os senhores de engenhos e suas famílias. De acordo com Castro 10, a dieta com excesso de carboidratos, sobretudo, com excesso de açúcar e falta de frutas, apresentava como conseqüência a grande incidência de diabetes e avitaminoses B em certas famílias de senhores de engenhos. Nesse aspecto, faz uso de uma brilhante metáfora: "O açúcar em excesso de sua dieta desequilibrando as trocas metabólicas, como a cana desequilibrou de maneira tão nociva o metabolismo econômico da região. É como se a terra se vingasse do homem, fazendo-o sofrer de uma doença semelhante à sua - o organismo todo saturado de açúcar10 (pp. 155-6).

As carências nutricionais do Sertão Nordestino

De acordo com Castro 10, a área do Sertão do Nordeste caracterizava-se pela atuação de um tipo de fome diferente, aquela que se apresentava em surtos epidêmicos ou agudos nos períodos de seca ou estiagem. Eram epidemias de fome global quantitativa e qualitativa que afetavam de forma bastante violenta e sem discriminação todos os habitantes da região. Apresentava como formas endêmicas: carências protéicas, de vitaminas A, B1, B2, C e niacina e dos minerais cálcio, ferro e cloreto de sódio. A carência de iodo (bócio) apresentava-se em sua forma subclínica (Figura 2).

As carências nutricionais do Centro-Oeste

A área do Centro-Oeste foi considerada como uma "área de subnutrição, de desequilíbrio e de carências parciais, restritas a determinados grupos ou classes sociais10 (p. 265). A única forma endêmica descrita foi a carência de iodo (bócio endêmico). As carências de proteínas, de vitamina B1, de ferro e de cloreto de sódio foram identificadas como formas típicas esporádicas. As carências de vitaminas A, B1, B2, C e niacina e de cálcio foram identificadas em suas formas frustas (Figura 210.

Em relação ao bócio endêmico, relata que esta deficiência nutricional grassava no país desde os tempos coloniais, apresentando maior incidência nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Goiás e Mato Grosso. De acordo com Castro 10, à época, estudos realizados com escolares de Minas Gerais e São Paulo verificaram incidências de 44% e 60% de bócio endêmico, respectivamente.

As carências nutricionais do Extremo Sul

O Extremo Sul também foi considerado uma área de deficiências alimentares discretas e menos generalizadas, apresentando "carências parciais, restritas a determinados grupos ou classes sociais10 (p. 265) Era a região que tinha o melhor perfil epidemiológico nutricional. As carências de vitaminas A, B2, C e niacina, de cálcio e de ferro apareciam em suas formas subclínicas. A carência de vitamina D (raquitismo) aparecia sob forma típica esporádica. A carência de iodo manifestava-se de forma endêmica (Figura 2). Entretanto, ao concluir sua análise ele faz um alerta sobre o aumento da incidência da carência de proteínas, que se manifestava em quadros típicos de kwashiorkor, entre crianças das classes pobres e proletárias dos grandes centros urbanos da região, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo 10.

 

Considerações finais

A releitura de Geografia da Fome evidencia quão viva, polêmica e sedutora permanece esta obra sexagenária. Nos dias atuais, ao perfil epidemiológico nutricional traçado por Josué de Castro, caracterizado pelas carências nutricionais (desnutrição, hipovitaminoses, bócio endêmico, anemia ferropriva etc.), sobrepuseram-se as doenças crônicas não-transmissíveis (obesidade, diabetes, dislipidemias etc.). Nesse aspecto, tanto o mapa das cinco áreas alimentares como o das principais carências nutricionais existentes no Brasil traçados em Geografia da Fome precisam ser redesenhados em função deste novo perfil epidemiológico nutricional brasileiro. Tarefa imprescindível, mas que ainda está por vir. A questão da complexa e paradoxal problemática da fome, entretanto, permanece como uma temática recorrente no Brasil. Portanto, diante de alguns dilemas da atualidade, tais como aqueles que dizem respeito à sustentabilidade ecológica do planeta e à garantia do direito humano à alimentação, torna-se imperante reacender a luta defendida por Josué de Castro pela adoção de um modelo de desenvolvimento econômico sustentável e uma sociedade sem miséria e sem fome.

 

Referências

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 REVISTA CADERNOS DE SAÚDE PUBLICA

domingo, 19 de janeiro de 2020

O que o cocô humano pode nos dizer sobre estilo de vida, dieta e saúde





Na Austrália, exatamente em um laboratório da Universidade de Queensland (UQ), um grupo de cientistas realiza uma atividade incomum: armazenar amostras de excrementos humanos de mais de 20% da população daquele país.

A extração de amostras ocorre em estações de tratamento de águas residuais localizadas em diferentes regiões australianas. Eles são congelados e posteriormente enviados aos cientistas da UQ.

O'Brien e Phil Choi, autores da pesquisa , consideram que esses espécimes são um "tesouro" que contém informações valiosas sobre os hábitos alimentares e o estilo de vida das diferentes comunidades.


Eles descobriram que em regiões onde o poder de compra é maior, o consumo de frutas cítricas, cafeína e fibras é maior. Enquanto em áreas com menos recursos, o uso de medicamentos prescritos foi significativo.

E todos esses dados foram obtidos de forma codificada através das fezes humanas dessas comunidades.
Principais dados de águas residuais

A pesquisa foi capaz de demonstrar o que outros cientistas vêm teorizando há alguns anos: que a partir das águas residuais de uma comunidade você pode obter dados confiáveis ​​sobre o consumo médio de alimentos e medicamentos.

Os dois cientistas dizem que esse procedimento é fundamental para coletar informações quase em tempo real sobre hábitos na população, o que poderia contribuir para a comunicação de políticas e mensagens de saúde pública.

O trabalho, conhecido há 20 anos como epidemiologia de águas residuais, é utilizado principalmente na Europa e América do Norte para a detecção e controle de drogas ilícitas nas comunidades.

Os cientistas coletaram amostras de plantas de esgoto em toda a Austrália.

Outras pesquisas se concentraram no uso de drogas legais e há planos para que esse procedimento seja aplicado na detecção precoce de surtos de doenças, mas até agora a evidência de indicadores de dieta tem sido amplamente teórica.

E, embora pesquisas sejam usadas para descobrir quais alimentos e medicamentos são consumidos, a análise das águas residuais pode ser um indicador mais objetivo do consumo médio em uma área de captação específica. De acordo com Choi:


Em geral, nas pesquisas, as pessoas aumentam o consumo de alimentos saudáveis ​​e subestimam o consumo de coisas menos saudáveis.
Consumo segundo indicadores socioeconômicos

Não apenas os excrementos e a urina são constituídos por águas residuais, mas também resíduos alimentares, produtos de higiene pessoal e restos industriais ou comerciais.

Os cientistas, de certos alimentos, precisavam encontrar biomarcadores específicos produzidos apenas por fezes humanas, ou pelo menos em maior medida.

A pesquisa empregou um par de biomarcadores relacionados ao consumo de fibras (derivados da ingestão de grãos e plantas) e outro associado ao consumo de citros. Ambos os tipos de alimentos (fibra e citros) são considerados típicos de uma dieta saudável.

As comunidades com os maiores indicadores socioeconômicos registraram maior correlação com as altas taxas de consumo desses alimentos. Em outras palavras, em geral, foi descoberto que os setores com maior poder de compra possuíam dietas mais ricas em fibras e citros.


O consumo de citros é considerado um dos componentes característicos de uma dieta saudável.

Além disso, verificou-se que café expresso e café moído geralmente são consumidos regularmente nessas comunidades.

O relatório observa que esse resultado deriva de uma economia mais forte desse grupo para adquirir esses produtos e de uma cultura de consumo de café adotada pelos australianos mais ricos.

Por outro lado, no lado oposto do status socioeconômico, as comunidades menos favorecidas registraram alto consumo de drogas como tramadol (um analgésico opioide), atenolol (um medicamento usado principalmente em doenças cardiovasculares) e pregabalina (antiepiléptico).

Havia também uma relação entre outros tipos de analgésicos e antidepressivos com as áreas mais pobres, mas não em igual medida.
Tendência à igualdade?

A pesquisa corrobora um fenômeno global chamado gradiente de saúde social , o que implica que quanto menor o nível socioeconômico de uma pessoa, pior a saúde que ela tem.

A cafeína foi encontrada nas águas residuais dos australianos que vivem em bairros com maior poder socioeconômico.

E, embora os australianos estejam totalmente convencidos de que seu país mantém a tendência à igualdade e até existam estudos internacionais que a confirmam, este novo trabalho sobre águas residuais sugere que também existem sérios problemas de desigualdade econômica.

Um australiano pertencente a 20% da população com maior poder aquisitivo tem cinco vezes mais dinheiro disponível em comparação com alguém do quintil de menor renda. E, em geral, mais renda significa uma maior capacidade de comprar alimentos perecíveis, como frutas e legumes, assim como uma melhor educação significa uma melhor compreensão da nutrição.

Por seu lado, a professora Catherine Bennett, diretora de epidemiologia da Universidade Deakin, na Austrália, destaca que a pesquisa em UQ tem seu escopo e limitações:


É um estudo ecológico em epidemiologia. O termo significa que não estamos usando dados individuais, mas dados coletivos.

É uma oportunidade realmente interessante, desde que não tentemos interpretar os dados excessivamente. Uma maneira útil de acompanhar o que está acontecendo no nível da população.

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