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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Por que no Brasil não tem grandes terremotos?





O território brasileiro registra – sim – pequenos tremores de terra, mas os riscos de um grande terremoto são extremamente baixos. Entenda o motivo.


Foto de São Paulo feita do telhado do Edificio Copan, no centro da capital paulista.



Sempre que algum país é atingido por um terremoto de intensa magnitude surge a dúvida sobre se esse tipo de evento da natureza poderia ocorrer no Brasil. Como é o caso agora do terremoto que ocorreu dia 30 de julho de 2025 na Península de Kamchatka, na Rússia, a uma profundidade de 19 Km, atingiu 8.8 de magnitude – o mais forte dos últimos 14 anos.

A pergunta pode ser instigada pelo fato do Brasil estar, geograficamente, localizado muito próximo de uma nação como o Chile, por exemplo, um território que constantemente enfrenta tremores de terra.

Foi no país andino, inclusive, que se registrou o maior terremoto do mundo, ocorrido em 1960 e de magnitude 9.5, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês).

No entanto, o que explica um país tão próximo, na América do Sul, sofrer com terremotos e o Brasil não?

A explicação para o Brasil não ter grandes terremotos


Primeiramente, é necessário saber que existem, sim, tremores de terra no Brasil. “O Nordeste é a região mais vulnerável. Em estados como o Ceará e Rio Grande do Norte já ocorreram diversos tremores com magnitude 5 causando danos e até desabamentos em casas fracas”, afirma Marcelo Assumpção, professor da Universidade de São Paulo (USP) e doutor em Geofísica pela Universidade de Edimburgo, na Escócia.

No entanto, nem todo abalo sísmico é perceptível pela população ou destrutivo como os que atingiram Turquia, Síria e Marrocos, em setembro de 2023 e agora em 2025, o fortíssimo tremor na Rússia, que causou inclusive alertas de possíveis tsunami em diversos lugares, como no Japão, Havaí e costa Oeste dos Estados Unidos e litoral do Peru e Chile.

Uma consulta ao site do Centro de Sismologia da USP, que monitora a atividade sísmica do país, mostra que o Brasil teve tremores poucos dias antes do feriado da Independência em 2023. Em 4 de setembro de 2023, a cidade de Uaua, na Bahia, registrou abalos sísmicos de magnitude 2.2 e 2.3 no começo da manhã.

Já o risco de grandes tremores de terra, no entanto, é extremamente baixo. A explicação para isso está na localização do território brasileiro em relação às bordas das placas tectônicas. Isso porque terremotos são resultado do deslizamento e atrito entre essas placas.

“Os terremotos mais fortes ocorrem nas bordas das placas tectônicas. O Chile está ao longo do limite entre a placa oceânica de Nazca (parte do fundo oceânico do Pacífico) e a placa da América do Sul. Já o Brasil está no meio da placa Sul-Americana, longe das suas bordas”, explica Assumpção.

A título de comparação, “no Brasil, ocorre um terremoto de magnitude 5 a cada cinco anos. No Chile, a cada semana”, acrescenta o pesquisador.

Qual o maior terremoto já registrado no Brasil


Em 27 de janeiro de 1955, ocorreu o maior sismo já registrado até então no Brasil, na região da Serra do Tombador, no norte do Mato Grosso, informa o site da USP. O terremoto teve magnitude de 6.2.

“O tremor chegou a acordar várias pessoas em Cuiabá, a 370 km de distância. Na época, a região epicentral era desabitada. Hoje, causaria muitos danos em cidades como Porto dos Gaúchos, por exemplo”, diz Assumpção.

Justamente pela baixa densidade populacional da região na época, o evento não gerou uma grande tragédia, ao contrário do que acontece quando terremotos atingem centros urbanos e locais extremamente habitados.

sexta-feira, 20 de março de 2026

A enorme fenda que pode separar o Chifre da África do resto do continente




Crédito,Reuters Legenda da foto, A estrada que liga as cidades quenianas de Narok e Nairobi foi atravessada pela fenda que se abriu  no sudoeste do país

Em Mai Mahiu, um pequeno vilarejo rural no sudoeste do Quênia, a 50 km da capital, Nairobi, ocorrem há algumas semanas chuvas intensas, inundações e tremores. Mas, em 18 de março, algo estranho aconteceu: a terra começou a se abrir.


"Minha mulher começou a gritar para os vizinhos, pedindo ajuda para tirar nossos pertences de casa", contou Eliud Njoroge à agência de notícias Reuters.


Desde então, a fenda no piso de cimento de sua casa não parou de crescer, fazendo com que a família de Njoroge e muitas outras fossem evacuadas.


"As fendas correm quase em linha reta, então, dá para projetar para onde vão. Se você vê uma vindo em sua direção, você sai dali correndo", disse o geólogo David Adede à Reuters.


A enorme fissura já tem quilômetros de comprimento e alguns metros de largura. Ela está ligada a uma falha tectônica conhecida como Vale do Rift, ou Vale da Grande Fenda, na África Ocidental.



Segundo os geólogos, esse é um sinal de que, daqui a dezenas de milhões de anos, a África pode ser separada em duas.


Crédito,ReutersLegenda da foto,A fissura já levou a evacuações de zonas rurais no sudoeste do Quênia e seguirá se expandindo pelo continente

África sem o Chifre


Assim como ocorreu com a América do Sul, separada da África há 138 milhões de anos, os geólogos estimam que chegará um momento em que o Chifre da África também se desprenderá do continente.


O Vale da Grande Fenda se estende por mais de 3 mil km, "desde o Golfo de Adén, no norte, até o Zimbábue, no sul, dividindo a placa africana em duas partes iguais", afirma a geóloga Lucía Pérez Díaz na revista científica The Conversation.


A pesquisadora do Grupo de Investigação de Falhas Dinâmicas da universidade Royal Holloway defende que "a atividade ao longo da parte oriental do Vale da Grande Fenda, que corre ao longo da Etiópia, Quênia e Tanzânia, tornou-se evidente quado a grande fissura apareceu repentinamente no sudoeste do Quênia".


Para Pérez Díaz, a fenda é única no planeta, porque permite observar as diferentes etapas de seu processo de fissura ao vivo.



A fratura mais interessante, escreve, começou na região de Afar, no norte da Etiópia, há cerca de 30 milhões de anos. Desde então, está se propagando rumo ao sul, na direção do Zimbábue, a uma média de 2,5 a 5 centímetros por ano.


Atualmente em Afar, a camada exterior sólida da Terra, chamada de litosfera, tem sido reduzida a ponto de a ruptura ser quase completa.


Quando a quebra estiver completa, detalha Pérez Díaz, um novo oceano começará a se formar e, "em um período de dezenas de milhões de anos, o leito marinho avançará ao longo de toda a fenda".


"O oceano inundará e, como resultado, o continente africano ficará menor, e haverá uma grande ilha no Oceano Índico composta por partes da Etiópia, Somália, incluindo o Chifre da África", afirma.
BBC Brasil

quarta-feira, 18 de março de 2026

Anatomia de um Tsunami






Um tsunami, também conhecido como onda sísmica marinha, é um fenômeno natural poderoso e destrutivo que pode ter efeitos devastadores em áreas costeiras. O termo "tsunami" tem origem nas palavras japonesas "tsu" (que significa porto) e "nami" (que significa onda). Os tsunamis são geralmente desencadeados por atividades sísmicas subaquáticas, como terremotos , erupções vulcânicas ou deslizamentos de terra submarinos . Ao contrário das ondas oceânicas comuns, causadas pelo vento, os tsunamis podem atravessar bacias oceânicas inteiras, carregando imensa energia e representando uma ameaça significativa para as comunidades costeiras.


Esta introdução explorará a anatomia de um tsunami, aprofundando-se nos principais fatores que contribuem para sua formação, propagação e impacto. Compreender os mecanismos por trás dos tsunamis é crucial para o desenvolvimento de sistemas de alerta eficazes, medidas de preparação e estratégias de mitigação para minimizar a perda de vidas e bens em regiões vulneráveis.

Componentes-chave da anatomia de um tsunami:Gatilhos sísmicos:Terremotos: A maioria dos tsunamis é desencadeada por terremotos submarinos, particularmente aqueles com alta magnitude e componente vertical de movimento. Terremotos em zonas de subducção, onde as placas tectônicas convergem ou colidem, são causas comuns.
Erupções vulcânicas: Erupções vulcânicas explosivas, especialmente aquelas que envolvem o deslocamento repentino de água, podem gerar tsunamis.
Deslizamentos submarinos: Os deslizamentos submarinos, sejam causados ​​por processos geológicos ou atividades humanas, podem deslocar a água e desencadear ondas de tsunami.
Geração de ondas:Deslocamento vertical: O movimento vertical do fundo do mar durante um terremoto submarino é um dos principais mecanismos de geração de tsunamis. A mudança abrupta no fundo do oceano desloca um grande volume de água, iniciando a formação de ondas.
Características iniciais das ondas: Os tsunamis normalmente têm comprimentos de onda longos e viajam a altas velocidades em mar aberto, muitas vezes atingindo velocidades de até 800 a 1.000 quilômetros por hora (500 a 600 milhas por hora).
Propagação através dos oceanos:Comportamento em mar aberto: Em águas profundas, os tsunamis podem ter uma altura de onda relativamente baixa, o que dificulta sua detecção. A energia que carregam, no entanto, é imensa e capaz de percorrer vastas distâncias sem perdas significativas.
Áreas costeiras rasas: À medida que os tsunamis se aproximam de regiões costeiras mais rasas, sua energia é comprimida, levando a um aumento significativo na altura das ondas. É nesse momento que os tsunamis representam a maior ameaça para as comunidades costeiras.
Impacto nas áreas costeiras:Inundação: O movimento das ondas de tsunami em direção à costa, conhecido como inundação, pode causar graves alagamentos em áreas costeiras baixas. A força e o volume de água transportados pelos tsunamis podem resultar na destruição de edifícios, infraestrutura e vegetação.
Ondas de retorno: Os tsunamis geralmente apresentam múltiplas ondas, e a onda de retorno (água que recua) pode ser tão perigosa quanto a onda inicial, causando danos adicionais.
Sistemas de alerta precoce e preparação:Monitoramento sísmico: Detectar e analisar a atividade sísmica em tempo real é crucial para emitir alertas de tsunami em tempo hábil. Sismógrafos e outros dispositivos de monitoramento ajudam a avaliar o potencial de geração de tsunamis.
Divulgação de alertas: Sistemas de comunicação eficazes, incluindo centros de alerta de tsunami e redes de aviso, desempenham um papel vital no fornecimento de informações oportunas às comunidades costeiras, permitindo a evacuação e o preparo.

Ao examinarmos a anatomia de um tsunami, podemos compreender melhor a complexa interação entre as forças geológicas e a dinâmica oceânica que contribuem para a formação e o impacto desses eventos naturais formidáveis. À medida que os avanços na tecnologia de monitoramento e nos sistemas de alerta precoce continuam a evoluir, o objetivo é aprimorar nossa capacidade de mitigar as consequências de

Formação de Tsunamis



A formação de tsunamis está intimamente ligada à atividade sísmica subaquática, como terremotos, erupções vulcânicas ou deslizamentos de terra submarinos. Aqui está uma visão geral detalhada do processo:Terremotos submarinos:A maioria dos tsunamis é desencadeada por terremotos submarinos, especialmente aqueles associados a zonas de subducção. Zonas de subducção ocorrem onde placas tectônicas convergem e uma placa é forçada a mergulhar sob a outra no manto terrestre.
Quando um terremoto ocorre em uma zona de subducção, ele pode levar ao deslocamento vertical repentino do fundo do mar. Esse movimento ascendente ou descendente perturba a coluna d'água acima e inicia a formação de ondas de tsunami.
Erupções vulcânicas:Erupções vulcânicas que envolvem o deslocamento de água também podem gerar tsunamis. Por exemplo, se uma erupção vulcânica subaquática explosiva causar o deslocamento da água sobrejacente, pode criar uma série de ondas com energia significativa.
A própria erupção pode resultar no colapso das encostas das ilhas vulcânicas, desencadeando deslizamentos submarinos que contribuem ainda mais para a formação de tsunamis.
Deslizamentos submarinos:Os deslizamentos submarinos, sejam causados ​​por processos geológicos naturais ou por atividades humanas, têm o potencial de deslocar grandes volumes de água e gerar tsunamis.
O movimento repentino de sedimentos ou rochas sob o oceano pode criar uma perturbação na coluna de água, iniciando a propagação de ondas de tsunami.
Deslocamento vertical e geração de ondas:O principal mecanismo de geração de tsunamis é o deslocamento vertical do fundo do mar. Quando o fundo do mar sofre um súbito soerguimento ou subsidência, desloca uma enorme quantidade de água acima dele.
Esse deslocamento desencadeia uma série de ondas que se irradiam em todas as direções a partir do ponto de origem, formando as ondas iniciais do tsunami.
Características das ondas de tsunami:As ondas de tsunami possuem características distintas que as diferenciam das ondas oceânicas comuns. Elas geralmente apresentam comprimentos de onda longos, o que significa que a distância entre as cristas das ondas sucessivas é muito maior. Isso resulta em uma baixa frequência de onda e alto conteúdo energético.
Em mar aberto, os tsunamis podem ter amplitudes de onda relativamente baixas, o que dificulta sua detecção sem equipamentos especializados. No entanto, sua energia se distribui por uma vasta área.
Propagação através dos oceanos:Os tsunamis podem viajar por bacias oceânicas inteiras, percorrendo milhares de quilômetros. Devido aos seus longos comprimentos de onda e altas velocidades, os tsunamis podem atravessar o oceano profundo a velocidades de 800 a 1.000 quilômetros por hora (500 a 600 milhas por hora) com perda mínima de energia.
Em mar aberto, a altura das ondas pode ser de apenas um metro ou menos, mas à medida que o tsunami se aproxima de áreas costeiras rasas, a energia é comprimida, levando a um aumento significativo na altura das ondas.

Compreender a formação de tsunamis é crucial para a detecção precoce, sistemas de alerta e medidas de preparação. Os avanços nas tecnologias de monitoramento sísmico e comunicação aprimoraram nossa capacidade de detectar e mitigar o impacto de tsunamis em comunidades costeiras. Os sistemas de alerta precoce desempenham um papel vital ao fornecer avisos oportunos para áreas de risco, permitindo a evacuação e minimizando o potencial de perda de vidas e bens.
Características de um tsunami



Os tsunamis apresentam diversas características distintas que os diferenciam das ondas oceânicas comuns. Compreender essas características é essencial para identificar e responder com precisão às ameaças de tsunami. Aqui estão algumas características principais dos tsunamis:Comprimento de onda:Os tsunamis têm comprimentos de onda muito maiores em comparação com as ondas oceânicas típicas. A distância entre cristas de ondas sucessivas pode chegar a centenas de quilômetros em mar aberto.
Velocidade da onda:Os tsunamis viajam a velocidades incrivelmente altas, muitas vezes ultrapassando 800 quilômetros por hora (500 milhas por hora) em águas profundas do oceano. Essa velocidade permite que eles atravessem bacias oceânicas inteiras.
Período da onda:O período de uma onda é o tempo que leva para um ciclo completo passar por um único ponto. Os tsunamis têm períodos longos, que variam de 10 a 60 minutos ou mais, o que contribui para sua baixa frequência.
Amplitude da onda:Embora os tsunamis tenham comprimentos de onda longos, suas amplitudes (altura da onda) em mar aberto são relativamente baixas, frequentemente inferiores a um metro. Essa característica torna sua detecção difícil sem equipamentos especializados.
Conteúdo energético:Os tsunamis carregam uma quantidade significativa de energia devido aos seus longos comprimentos de onda e altas velocidades. Essa energia é proporcional ao quadrado da altura da onda, o que significa que mesmo pequenos aumentos na altura da onda resultam em aumentos substanciais de energia.
Propagação em águas profundas:Em águas oceânicas profundas, os tsunamis podem passar despercebidos devido à sua baixa altura. No entanto, sua energia se espalha por uma vasta área abaixo da superfície do oceano, tornando-os poderosos e potencialmente destrutivos à medida que se aproximam de regiões costeiras mais rasas.
Formação de bancos de areia e amplificação:À medida que os tsunamis se aproximam de áreas costeiras rasas, sua velocidade diminui, mas sua energia fica comprimida, levando a um aumento significativo na altura das ondas. Esse efeito de assoreamento pode resultar em ondas gigantescas que inundam regiões costeiras.
Ondas múltiplas:Os tsunamis geralmente consistem em múltiplas ondas separadas por intervalos de vários minutos a mais de uma hora. A onda inicial nem sempre é a maior, e as ondas subsequentes podem ser igualmente ou mais destrutivas.
Efeito de refluxo e contracorrente:Antes da chegada das ondas principais do tsunami, geralmente ocorre um recuo significativo do nível do mar. Isso pode expor o fundo do oceano e servir como um sinal de alerta. A onda de retorno, ou seja, a água que recua, pode ser tão perigosa quanto a onda inicial, causando danos adicionais.
Não-periodicidade:Ao contrário das ondas oceânicas comuns, geradas pelo vento e com frequência relativamente constante, os tsunamis não são periódicos. Os intervalos irregulares entre as ondas tornam sua previsão mais difícil de ser feita com precisão.

Compreender essas características é crucial para o desenvolvimento de sistemas eficazes de alerta de tsunamis , medidas de preparação e estratégias de mitigação. Os avanços tecnológicos, incluindo sismógrafos, bóias oceânicas e modelagem numérica, contribuem para nossa capacidade de monitorar e responder a ameaças de tsunamis, minimizando assim o potencial de perda de vidas e bens em áreas costeiras vulneráveis.

Conclusão



Em conclusão, os tsunamis são fenômenos naturais formidáveis ​​com características distintas que os diferenciam das ondas oceânicas comuns. Desencadeados por atividades sísmicas subaquáticas, como terremotos, erupções vulcânicas ou deslizamentos submarinos, os tsunamis demonstram comportamentos únicos que dificultam sua detecção e previsão precisa. Compreender a anatomia e as características dos tsunamis é crucial para o desenvolvimento de sistemas de alerta eficazes, medidas de preparação e estratégias de mitigação para proteger as comunidades costeiras.

Os tsunamis são caracterizados por seus longos comprimentos de onda, altas velocidades e significativo conteúdo energético. Em mar aberto, a altura das ondas é relativamente baixa, dificultando a detecção sem equipamentos especializados. No entanto, à medida que os tsunamis se aproximam de áreas costeiras rasas, sofrem um efeito de "shallowing", resultando em um aumento substancial na altura das ondas e no potencial destrutivo. A natureza não periódica dos tsunamis, os padrões de múltiplas ondas e a ocorrência de refluxos e ondas de retorno complicam ainda mais os esforços de previsão e resposta.

Os avanços tecnológicos, incluindo o monitoramento sísmico, as bóias oceânicas e a modelagem numérica, melhoraram significativamente nossa capacidade de detectar e monitorar eventos geradores de tsunamis. Os sistemas de alerta precoce desempenham um papel crucial no fornecimento de avisos oportunos para áreas costeiras em risco, permitindo a evacuação e a implementação de medidas de preparação para mitigar o impacto dos tsunamis.

À medida que aprofundamos nossa compreensão sobre tsunamis e melhoramos as capacidades de monitoramento, o objetivo é minimizar as consequências devastadoras desses eventos sobre vidas humanas, infraestrutura e meio ambiente. Por meio da colaboração internacional, da pesquisa e da implementação de sistemas robustos de alerta e resposta, buscamos criar comunidades costeiras resilientes que possam se preparar eficazmente para tsunamis e mitigar seus impactos, reduzindo, em última análise, o risco e a gravidade desses desastres naturais.
Geology Science

Colisão de placas




Referência Dias, A.J.G., Freitas, M.C.A.O., Guedes, F., Bastos, M.C., (2014) Colisão de placas, Rev. Ciência Elem., V2(1):011


A colisão das placas tectónicas pode dar-se entre:Placa oceânica e placa continental – nesta colisão a placa oceânica, de maior densidade, mergulha sob a placa continental, menos densa, formando-se uma fossa tectónica, tal como acontece, por exemplo, com a placa de Nazca que mergulha sob a Sul-Americana. Este fenómeno designa-se subducção, e é acompanhado de forte atividade sísmica e vulcânica. Pode acontecer que uma porção da litosfera oceânica cavalgue um bordo continental, o que é, à priori, anormal, dadas as densidades respectivas dos dois meios. Para descrever este fenómeno, inverso da subducção, foi criado o termo obducção;
Figura 1. Colisão entre placa oceânica e placa continental.

Placas continentais – nesta colisão, como as placas apresentam densidades semelhantes, originam-se enrugamentos, com a formação de uma cadeia montanhosa. É o que acontece com a placa Indiana que, em deslocação para norte, colide com a placa Asiática, originando as cadeias montanhosas dos Himalaias e do Tibete. Atualmente, estas placas ainda se empurram, mutuamente, provocando a elevação dos Himalaias, à velocidade de 1 a 2 cm/ano;
Figura 2. Colisão entre placas continentais.

Placas oceânicas – nesta colisão a placa mais densa mergulha sob a outra (subducção), formando-se uma fossa oceânica e ilhas de origem vulcânica (arco insular). É o que acontece com os arcos insulares situados na bordadura oriental dos continentes Asiático e Australiano. Nestas regiões ocorre forte atividade sísmica e vulcânica. Quando a margem oceânica de uma placa mista colide com uma placa continental, a crusta oceânica é destruída por subducção e, quando toda a crusta oceânica é destruída, passa a ocorrer colisão entre as duas margens continentais.
Figura 3. Colisão entre placas oceânicas.

https://rce.casadasciencias.org/

domingo, 7 de julho de 2019

Indonésia é o país que mais sofre efeitos do “Anel de Fogo”


Tremores de terra, erupções vulcânicas e muitas vítimas são a trágica rotina da populosa Indonésia, cuja área está quase toda assentada sobre essa área turbulenta na borda do Oceano Pacífico


Anak Krakatau em erupção: o vulcão está se reconstruindo (Foto: Mohammed Huwais / AFP)


Talvez nenhum país sofra tanto os efeitos de estar no Anel de Fogo – o cinturão na fronteira de placas tectônicas que cerca o Oceano Pacífico, marcado por abalos sísmicos e erupções vulcânicas – quanto a Indonésia. Esse conjunto de cerca de 17 mil ilhas no Sudeste da Ásia, habitado por uma população de mais 260 milhões de pessoas, é castigado frequentemente por ocorrências significativas do gênero.

Só em 2018 foram três. O primeiro foi o terremoto de magnitude 6,4 ocorrido em agosto na ilha turística de Lombok (pelo menos 100 mortos), e o segundo veio menos de dois meses depois: o terremoto de 7,5 graus seguido de tsunami na ilha de Sulawesi, no fim de setembro (pelo menos mais de 2 mil mortos).

O mais recente, em 22 de dezembro, foi o tsunami causado pela erupção do vulcão Anak Krakatau (situado no Estreito de Sunda, entre Sumatra e a populosa ilha de Java), que fez um de seus flancos entrar em colapso. O desastre, que tirou a vida de pelo menos 437 pessoas e deixou mais de 14 mil feridos, teve origem praticamente no mesmo lugar em que, em 1883, ocorreu uma das maiores erupções vulcânicas da história terrestre, seguida de tsunami: a do Krakatoa, responsável por mais de 36 mil mortes.

Os vulcanologistas garantem que o Anak Krakatau (em indonésio, “Filho do Krakatoa”) vai bem de saúde e está se reconstruindo. Ou seja: a ameaça segue mais firme do que nunca.
Revista Planeta

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Rachadura gigante no Quênia mostra que África se dividirá em duas


Imagem chama atenção para o processo de separação de boa parte da porção leste da África

RACHADURA GIGANTE QUE SURGIU NO VALE DA FENDA, NO QUÊNIA (FOTO: REPRODUÇÃO / YOUTUBE)

Uma rachadura gigante, que se estende por vários quilômetros, apareceu de repente no sudeste do Quênia. A fenda, que não para de crescer, dividiu ao meio a estrada Nairobi-Narok e relembrou um fato geralmente esquecido: a África está se dividindo.

Como há 138 milhões de anos, quando o Brasil começou a se afastar do continente africano, a região conhecida como Chifre da África deve, daqui algumas dezenas de milhões de anos, formar um novo continente.

Apesar de haver divergências sobre o que está causando a rachadura, o mais provável é que as fortes chuvas que caíram sobre o país no mês de março tenham provocado uma atividade geológica que faz com que as camadas mais macias do subsolo fiquem sob pressão e colapsem. 

A rachadura apareceu próxima a uma cidade chamada Rift Valley, ou Vale da Fenda, em português, que percorre 3 mil quilômetros, desde o Golfo de Áden, na Somália, e segue sentido sul até o Zimbábue, passando ainda por Etiópia e Tanzânia, além do próprio Quênia. É esse o local de encontro de duas placas tectônicas: a Africana e a Somali.

TOPOGRAFIA DO VALE DA FENDA, NO QUÊNIA (FOTO: JAMES WOOD AND ALEX GUTH, MIT. IMAGE BY NASA)

A litosfera, formada pela crosta e a parte superior do manto terrestre, é dividida em várias placas tectônicas. Elas não são estáticas: estão em constante movimentação, flutuando sobre a viscosa astenosfera. Em situações extremas, essa movimentação pode causar uma ruptura da litosfera, ou um rifte, como é chamado na geologia.

É o que está acontecendo no Vale da Fenda. A situação extrema é causada por uma superpluma, uma espécie de jorro de lava que emerge desde as profundezas do planeta, causando um enfraquecimento da litosfera como resultado do aumento de temperatura e pressão. Além de causar o rifte, o fenômeno também é usado para explicar a topografia anormalmente alta no planalto africano.
ESQUEMA MOSTRA COMO SURGE A SUPERPLUMA (FOTO: CREATIVE COMMONS / DBOYD13)

O Vale da Fenda, porém, não foi formado todo de uma vez. Foram uma séries de rachaduras que tiveram início na região de Afar, no norte da Etiópia, cerca de 30 anos atrás e se propagou para o sul, em direção ao Zimbábue, a uma velocidade de 2,5 centímetros a 5 centímetros por ano.

Em Afar, o Vale da Fenda é todo coberto de pedras vulcânicas, o que indica que a litosfera é tão fina que pode estar a ponto de romper. Quando isso acontecer, um novo oceano começará a se formar pela solidificação do magma no espaço criado pelas placas quebradas.

Eventualmente, em um período de dezenas de milhões de anos, o oceano vai se espalhar por todo o Vale. Por fim, a África ficará menor, e uma ilha gigante surgirá no Oceano Índico. Embora o processo seja acompanhado de terremotos, na maior parte do tempo ele se dará de forma silenciosa, sem que ninguém perceba.

O FUTURO CONTINENTE. (FOTO: REPRODUÇÃO / TWITTER)
Revista   GALILEU

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Zelândia, o novo continente, quase todo submerso, proposto por geólogos


 
Não é Atlântida, ilha lendária que teria afundado, mas Zelândia, um continente real, situado no sudoeste do oceano Pacífico, cujo território de 4,9 milhões de quilômetros quadrados se encontra 94% submerso. Entre os 6% que estão acima do nível do mar, destacam-se as duas ilhas que formam a Nova Zelândia (inspiração para o nome do continente) e o arquipélago da Nova Caledônia. A proposta de considerar esse grande bloco da crosta terrestre como um continente — a exemplo da África, América do Norte, América do Sul, Antártida, Austrália e Eurásia — foi feita por uma equipe coordenada por Nick Mortimer, do GNS Science, nome atual do antigo Instituto de Ciências Geológicas e Nucleares neozelandês (GSA Today, 9 de fevereiro). Segundo os autores do estudo, a Zelândia, embora majoritariamente coberta pelo Pacífico, apresenta as principais características geológicas e geofísicas que definem as áreas da crosta continental em oposição às da crosta oceânica. Sua composição é essencialmente granítica, mais “leve” do que a da crosta oceânica, formada por basalto. Apresenta altitudes mais elevadas (por isso, a maior parte dos outros continentes está acima do nível do mar). Sua espessura é maior, por volta de 35 quilômetros. A da crosta oceânica atinge, em média, 8 quilômetros. A Terra é o único planeta do Sistema Solar cuja crosta é dividida em dois tipos, a continental e a oceânica. Ao movimento das placas tectônicas, os geólogos atribuem o surgimento da crosta granítica, ou seja, dos continentes. Além dessa definição geológica de continente, há também outras, como as geográficas e as geopolíticas. 
Revista Fapesp

terça-feira, 3 de maio de 2016

Qual foi o maior tsunami da história?


Patricia Hargreaves

A maior onda do mundo da qual se tem notícia aconteceu em 9 de julho de 1958, na baía de Lituya, no Alasca. Tudo começou quando um terremoto enorme (que atingiu entre 7,9 e 8,3 pontos na escala Richter) sacudiu a falha de Fairweather, a 13 km de onde a onda estourou. O sacode, que foi sentido numa área de 400 mil km², fez com que aproximadamente 30 milhões de m³ de terra e pedras fossem lançados no mar. O impacto dessa massa na água levantou um vagalhão de 524 m de altura! Só para ter uma ideia, a maior onda já surfada, pelo havaiano Garrett McNamara em novembro do ano passado, tinha “apenas” 27 m! O tsunami campeão ganharia fácil do Empire State, prédio de 102 andares em Nova York, que tem cerca de 443 m. A sorte é que esse desastre atingiu uma área desabitada, destruindo apenas a vegetação local.
Revista Mundo  Estranho

sábado, 26 de dezembro de 2015

Estamos livres de abalos sísmico


Sismo em Minas, em 2007 / Foto: João Wainer/Folhapress

EVANILDO DA SILVEIRA


Os relógios marcavam 3h22 da madrugada do dia 30 de novembro de 1986 quando a pequena cidade de João Câmara (RN), a 90 quilômetros de Natal, foi sacudida por um dos maiores terremotos já registrados no país em área habitada, atingindo 5,1 pontos na escala Richter. Essa magnitude foi apenas 0,6 pontos inferior ao tremor que quase riscou do mapa San Salvador, na América Central, no dia 10 de outubro daquele ano. Além de casas e construções comerciais, o sismo também jogou por terra a certeza de que a maioria dos brasileiros tinha sobre a inviabilidade desses eventos acontecerem em território nacional.

O pesquisador Luis Alberto D’ávila Fernandes, professor titular do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), garante que é totalmente falsa a ideia de que o Brasil está imune a tremores. “Muitas localidades brasileiras acreditavam estar fora das zonas de perigo e dos riscos sísmicos”, diz. Porém, ele complementa, “dois fatores mudaram esse cenário nos últimos 20 anos. O primeiro, o inegável avanço da pesquisa geológica e sismológica no Brasil, que tornou possível a produção de mapas com a catalogação das ocorrências. O segundo, a expansão demográfica decorrente da ocupação territorial. Eventuais abalos que poderiam ocorrer nessas regiões agora ocupadas sem que fossem sentidos ou provocassem qualquer dano à sociedade, hoje passam a ser extremamente importantes, mesmo que de baixa magnitude”.

Os primeiros estudos sobre o assunto realizados no país são mais antigos do que se imagina. Eles foram feitos na segunda metade do século 19 pelo engenheiro Guilherme Schüch (1824-1908), também conhecido por barão de Capanema, título que recebeu de Dom Pedro II. “Incentivado pelo imperador, ele coletou e analisou dados de tremores em todo o país e publicou, em 1859, o primeiro artigo científico sobre o tema no Brasil”, conta o sismólogo José Alberto Vivas Veloso, pesquisador aposentado e ex-chefe do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB). “O trabalho de Capanema é de inestimável valor para a sismologia, já que foi precursor na organização sistemática das informações sobre terremotos em nosso solo”.

O próprio Dom Pedro II sentiu a terra tremer sob seus pés. Às três da tarde do dia 9 de maio de 1886, passou por aquela experiência quando se encontrava em seu palácio na cidade fluminense de Petrópolis. “Foi um abalo de magnitude estimada em 4,3 pontos na escala Richter”, conta Veloso. “Imediatamente, o monarca quis saber o que de fato havia acontecido e determinou que se buscassem informações a respeito daquilo”. E foi além: como membro da Academia de Ciências de Paris, o imperador achou importante relatar os detalhes do tremor ao mundo científico. Com dados do astrônomo Luis Cruls, do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, escreveu um informe que foi publicado nos anais da academia francesa e depois na prestigiosa revista científica “Nature”. Com isso, Dom Pedro II teria se tornado o primeiro brasileiro a ter um trabalho impresso na famosa publicação inglesa.

A história dos terremotos no Brasil, entretanto, começa, pressupõe-se, de um ponto bem mais remoto, num passado longínquo. Trata-se de um tremor de proporções inimagináveis, que pode ter atingido assombrosos 11 pontos na escala Richter, ocorrido há 250 milhões de anos no território nacional. Para uma breve noção de seu gigantismo, ele foi 150 vezesmais forte que o mais poderoso ocorrido no planeta em tempos históricos, que aconteceu no Chile, em 22 de maio de 1960, com 9,5 pontos. Essa forma de medir os sismos que chacoalham a Terra em alguns pontos, inventada em conjunto pelo físico e sismólogo norte-americano Charles Francis Richter (1900-1985) – daí o nome da escala – e seu colega alemão Beno Gutenberg (1889-1960), usa uma progressão logarítmica.

Magnitude 11

Isso significa, em linguagem simples, que cada ponto a mais na escala representa uma magnitude – ou força destruidora – dez vezes maior. Ou seja, um terremoto de 7 pontos na escala Richter libera dez vezes mais energia que um de 6, e cem vezes mais do que um de 5. Também é mito a ideia de que a escala Richter vai até 10. Na verdade, ela não tem limites, nem inferior nem superior. Por isso, matematicamente ela é considerada aberta. A ideia de que ela vai até 10 deve ter surgido pelo fato de que na prática nunca foi registrado um abalo maior do que o do Chile. “Para os grandes sismos, a história mostra que existe uma barreira natural, imposta pela própria geologia, já que as rochas têm um limite de resistência ao esforço e não podem acumular deformações indefinidamente, pois acima de certo patamar, elas se rompem”, explica Veloso.

O pesquisador acompanhou in loco e estudou por um longo período o tremor de João Câmara, experiência retratada no livroO Terremoto que Mexeu com o Brasil. No caso do evento de 250 milhões de anos atrás, Veloso conta que ele não foi causado por movimento das rochas internas da Terra, como todos os outros, mas pela queda de um corpo celeste, um meteorito, a cerca de 500 quilômetros onde hoje está Brasília. O bólido deixou uma cratera no solo, hoje erodida, com 40 quilômetros de diâmetro. “Eu e um colega calculamos que o impacto causado por esse meteorito foi de magnitude 11”, diz Veloso. “Isso provavelmente causou uma destruição absurda”.

Para a sorte dos terráqueos, essas quedas são muito raras. A mais recente a fazer um estrago considerável ocorreu há 65 milhões de anos e resultou na extinção dos dinossauros. Os terremotos comuns, que acontecem todos os dias em algum ponto da Terra, têm causas que vêm do interior do planeta. O globo terrestre é feito de camadas como, grosso modo, uma cebola. No centro está o núcleo, que se divide em duas partes, uma mais interna sólida, por causa da imensa pressão, com 960 quilômetros de diâmetro; e uma de material líquido – devido ao intenso calor –, com cerca de 2.400 quilômetros de espessura, que circunda o núcleo interno. O ponto central desta estrutura dupla – que também é o do planeta –, chamada endosfera, está a uma profundidade de cerca de 6.370 quilômetros.

Acima do núcleo líquido vem o manto, uma camada de consistência pastosa, semelhante à de um asfalto quente, com algumas partes sólidas e uma espessura de cerca de 2.950 quilômetros. Trata-se do magma, que pode ser visto quando expelido pelos vulcões em erupção. A Terra também se divide em duas partes, o manto superior, cuja temperatura é de cerca de 100ºC na sua parte de cima; e o inferior, onde ela pode chegar a 3.500ºC, na sua parte mais profunda, na interface com o núcleo. O manto é recoberto pela crosta, a camada mais superficial e menos espessa do planeta, onde vivemos, com uma média de 40 quilômetros de profundidade. Para comparar, ela é tão fina em relação ao globo terrestre quanto a casca de maçã em relação à fruta. Ela se divide em crosta continental, que pode chegar a 65 quilômetros de espessura nas regiões montanhosas; e oceânica, que em alguns lugares, como as fossas abissais submarinas, tem apenas 5 quilômetros.

A crosta, junto com a camada superior do manto, sólida, forma a litosfera, com 100 quilômetros de espessura. Abaixo dela, até 350 quilômetros de profundidade está a astenosfera, meio pastosa, meio sólida. Na verdade, tecnicamente a definição seria uma consistência dúctil, mais ou menos como o cobre ou o alumínio, por exemplo. Em seguida, até o núcleo, vem a mesosfera. Com outras palavras, Veloso explica que na faixa de 100 quilômetros de profundidade as rochas estão em estado de semifusão. “É nessa zona que se dá a separação da camada superior constituída de material rígido e quebradiço, a litosfera, de outra abaixo, mais dúctil e maleável, a astenosfera”, explica. É aqui que entram as personagens principais na história dos terremotos, as responsáveis diretas por sua ocorrência: as placas tectônicas.

Sua descoberta, na década de 1960, serviu para confirmar uma teoria mais antiga, proposta em 1912 pelo jovem cientista alemão Alfred Wegener (1880-1930), então com 32 anos, e que vinha sendo contestada havia cinco décadas: a deriva continental. Baseado em algumas evidências, como a semelhança das linhas costeiras da África e da América do Sul, que parecem se encaixar como um objeto côncavo e outro convexo, além da existência de rochas, fósseis e animais do mesmo tipo em terras hoje separadas por oceanos, ele propôs que há 200 milhões de anos todos os continentes estavam unidos num supercontinente, que denominou de Pangeia. Ao longo do tempo, essas massas terrestres foram se separando até adquirirem a conformação de hoje.

Fundo do mar

Exposta em seu livro The Origin of Continents and Oceans (A Origem dos Continentes e Oceanos), publicado na Alemanha, em 1915, a teoria de Wegener conseguiu o que raramente uma ideia científica atinge, a quase unanimidade. O problema é que esse consenso era contra a sua teoria. Havia dois motivos para a hipótese levantada por ele não ter sido aceita por seus pares no mundo científico. Um deles, sugerido por Hal Hellman, em seu livro Great Feuds in Science – Ten of the Liveliest Disputes Ever (Grandes Debates da Ciência – Dez das Maiores Contendas de Todos os Tempos), é que o cientista alemão era um estranho no ninho dos geólogos e geofísicos. “Algumas reações soaram também como um protesto do tipo ‘não-no-meu-quintal’, pois Wegener – um astrônomo e meteorologista – era visto como um intruso pelos geocientistas”, escreve no capítulo “Wegener Contra todo Mundo – A Deriva dos Continentes”.

Segundo o próprio Hellman e cientistas de hoje, o motivo principal para a rejeição da teoria era outro, no entanto. O que faltava a ela era um mecanismo, uma força capaz de mover os continentes, erguer montanhas e cavar abismos oceânicos. Wegener propunha que as enormes massas continentais se deslocavam deslizando pelo assoalho marinho sólido. Não sem razão, a ideia foi taxada de absurda. O próprio pesquisador reconhecia a falta de uma força capaz de realizar essa proeza. Na tentativa de encontrar uma solução, ele propôs que a gravidade do Sol e da Lua, atuando como faz com as marés, era a força que movia os continentes. Ou mais precisamente, os segurava.

Wegener imaginou que as gigantescas massas continentais derivavam lentamente para o Oeste, por que a gravidade do Sol e da Lua as seguravam, enquanto a Terra girava para Leste por debaixo delas. “Os físicos reagiram com sarcasmo e mostraram matematicamente que as forças gravitacionais são fracas demais para gerar tamanha peregrinação”, escreveu o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-2002), no ensaio “A Validação da Deriva Continental”, em seu livro Darwin e os Grandes Enigmas da Vida. “Por isso, Alexander du Toit, o defensor sul-africano de Alfred Wegener, tentou uma estratégia diferente. Defendeu a ideia de um derretimento local, radiativo, do solo oceânico nas fronteiras continentais, que permitiu aos continentes deslizarem”. Não ajudou muito. A teoria da deriva continuou em descrédito.

Os fatos só começaram a se mover a favor de Wegener no final da década de 1950. O primeiro passo foi dado bem antes, no entanto, em 1928, quando o professor de geologia da Universidade de Edimburgo, na Escócia, Arthur Holmes, propôs a existência de correntes de convecção no interior da Terra, que poderiam servir como um mecanismo para mover os continentes. Trata-se de um fenômeno que ocorre em líquidos, gases (como no Sol) ou material pastoso (como no interior da Terra) sob aquecimento. Como numa caneca com água fervendo. Grosso modo, o material aquecido sobe à superfície, resfria e desce, para ser aquecido de novo e reiniciar o ciclo, num movimento mais ou menos circular.

Ainda que correta, a ideia não foi de muita ajuda para a teoria de Wegener – só viria a ser mais tarde, quando outras peças do quebra-cabeça foram descobertas. “Embora as correntes de convecção pudessem servir de motor (para a deriva dos continentes) ainda não estava claro como isso funcionaria exatamente”, escreve Hellman. Só passou a ser entendido quando começaram a se acumular novas informações sobre as dorsais oceânicas, descobertas um século antes, durante a instalação, em 1858, do primeiro cabo submarino metálico transatlântico, interligando a América do Norte e a Inglaterra. Trata-se de enormes cadeias de montanhas submersas, que existem em todos os oceanos e podem chegar a 4 mil metros de altura a partir do assoalho marinho – há uma delas a meio caminho entre o Brasil e a África.

Conhecidas como cordilheiras ou dorsais meso-oceânicas, elas formam uma espécie de costura no fundo dos oceanos, como as de uma bola de futebol, só que com linhas irregulares, com 50 mil quilômetros de extensão. Mas a característica principal delas não está nisso, mas no fato de que elas criam o fundo do mar. A hipótese foi proposta em 1960, por Harry Hess (1906-1969), da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. “A ideia era simples e brilhante: o fundo do mar está sendo criado nas dorsais oceânicas, vindo das profundezas da Terra sob a forma de lava quente e maleável (ou magma)”, escreve Hellman. “Como um novo e longo vulcão erguendo-se de dentro da Terra, o material acumula-se ao emergir, formando a grande cadeia de montanhas que se erguem quilômetros acima do fundo do oceano. O magma também se espalha em duas direções opostas, para fora da dorsal, formando um novo fundo oceânico”.

Essa teoria, comprovada por vários tipos de observações e experimentos, ficou conhecida como espraiamento do fundo mar. A principal implicação é que ela forneceu um mecanismo, um poderoso motor para a deriva continental de Wegener. Como diz Hellman em seu livro, “os continentes pegam carona nesse processo global, que é impulsionado por correntes de convecção no interior do manto”. O próprio Hess explicou sua ideia: “Os continentes não vagam pela crosta oceânica impelidos por forças desconhecidas, mas são passivamente conduzidos pelo material do manto, conforme este chega à superfície da crista dorsal e passa a se afastar lateralmente dela”.

Placa sob tensão

Ainda restava um problema, porém. Como as dorsais podem estar criando e expandindo o assoalho oceânico se a Terra não está crescendo, ou seja, continua do mesmo tamanho que sempre teve desde o seu surgimento, há 4,6 bilhões de anos? Parecia claro para os cientistas que se uma região do planeta está crescendo outra deve estar diminuindo. E de fato, não demorou a se descobrir as chamadas zonas de subducção. Elas ocorrem principalmente às margens do oceano Pacífico, onde a crosta oceânica, mais densa, formada de rochas basálticas, mergulha sob a crosta continental, de granito, menos densa, se consumindo nas profundezas do magma incandescente do manto. Assim, o ciclo se fecha: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma – como diria Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794), considerado o pai da Química moderna, falando de outros elementos. Trocando em miúdos: ou o ciclo se fecha ou retorna ao estágio anterior.

O quebra-cabeça ainda não estava montado, no entanto. Isso foi feito pela Teoria da Tectônica de Placas, surgida em 1968, que uniu as peças-chave, ou seja, a deriva continental, de Wegener, e o espraiamento do assoalho oceânico, de Hess. Essa nova proposta mostrou que a litosfera terrestre está dividida em gigantescas placas rochosas, que flutuam sobre o manto de magma, carregando oceanos e continentes. Existem dez dessas grandes jangadas de pedra – Africana, Antártica, Arábica, Eurasiática, Filipinas, Indo-Australiana, Nazca, Norte-Americana e Caribe, Pacífico e Sul-Americana – e várias outras menores. São essas estruturas que modelam a superfície da Terra, erguendo montanhas e causando terremotos e tsunamis.

Veloso explica que isso ocorre porque elas deslizam e tem contato entre si, ora pressionando umas contra as outras e, por vezes, afastando-se de sua vizinha. Há três tipos de limites ou encontro entre as placas: conservativo (elas deslizam lateralmente uma em relação a outra, sem criação ou destruição de crosta); convergente (chocam-se, podendo formar cadeias de montanhas); e divergentes (afastam-se, formando nova crosta no espaço que ficaria vazio). São nesses limites que acontecem os maiores e mais frequentes terremotos. “Apesar de tudo se mexer, os deslocamentos são organizados e regidos por um ritmo já apelidado de ‘dança dos continentes e dos oceanos’”, ele explica. “A velocidade dessa ‘dança’ é variável. A Sul-Americana e a Africana, por exemplo, separam-se a 35 milímetros/ano, a de Nazca desloca-se rumo à América do Sul a 151 mm/ano. No geral, a velocidade anual é de algumas dezenas de milímetros, mais ou menos a média de crescimento da unha humana”.

Os resultados visíveis dessa “dança” são muitos, além dos terremotos. Os Andes, por exemplo, são o resultado do choque entre a Placa de Nazca, que mergulha sob a parte oeste da Sul-Americana, erguendo a cordilheira. A cadeia do Himalaia, onde estão as maiores montanhas do mundo, como o Everest, com 8.848 metros de altitude, também é resultado do choque de placas tectônicas. O Brasil está integralmente assentado no centro da “jangada” Sul-Americana, longe de suas bordas. Por isso os sismos que ocorrem em seu território não estão entre os mais intensos e destruidores.

As causas dos abalos que vez por outra atingem o território brasileiro, todavia, são semelhantes aos demais tremores registrados no mundo. A placa inteira está sob tensão e como a crosta superior apresenta fraturas ou zonas mais frágeis em alguns pontos, quando as tensões são suficientes para vencer o atrito entre as superfícies adjacentes das quebraduras, elas se movimentam, liberando enorme energia e, por consequência, originando um terremoto. Os sismos que ocorrem no interior de placas tectônicas costumam ser muito mais destrutivos, pois são inesperados e, é comum, não há nenhuma preparação ou prevenção, seja física ou até mesmo psicológica.

Os danos do mais intenso terremoto já registrado no Brasil na era moderna só não foram maiores, porque ocorreu numa área até então pouco habitada. Foi no dia 31 de janeiro de 1955, na Serra do Tombador, no Mato Grosso, e atingiu a magnitude de 6,2 na escala Richter. Cerca de um mês depois, no dia 28 de fevereiro, um novo abalo, o segundo maior da história do país, só que desta vez no mar, ao largo de Vitória, no Espírito Santo, que atingiu 6,1 pontos. Outros sismos com intensidade superior a 5 foram registrados no país, entre eles um em Tubarão (SC), no dia 28 de junho de 1939, e outro em Codajás (AM), em 5 de agosto de 1983, ambos com 5,5 na escala Richter.

O maior terremoto

“A sismicidade da enorme área amazônica foi menos estudada do que a das demais regiões e começou a ser monitorada com atraso em relação ao resto do país”, diz Veloso, salientado que como ela é pouco conhecida, ainda pode apresentar surpresas. Na realidade, ele próprio descobriu uma dessas surpresas, e ela diz respeito ao que pode ter sido o maior terremoto acontecido no Brasil em tempos históricos, mais precisamente em 1690. Baseado em informações de dois jesuítas, Samuel Fritz (1654-1725) e Felipe Bettendorf (1625-1698), que estiveram na região epicentral em épocas diferentes, conversaram com testemunhas e observaram os seus efeitos no terreno. Veloso concluiu que o evento teve o epicentro na margem esquerda do rio Amazonas, a 45 quilômetros abaixo de Manaus. “Após longos estudos concluí pela veracidade das informações dos religiosos e as combinei com conhecimentos modernos de sismologia para estimar a sua magnitude em 7 e sua área de percepção em 2 milhões de km2”, conta.

De acordo com ele, esse sismo alterou significativamente a topografia do terreno devido ao fenômeno da liquefação – passagem do estado sólido para o líquido – do solo e também produziu ondas parecidas a um pequeno tsunami que reverteu momentaneamente a corrente do rio Urubu, inundando aldeias indígenas situadas a 5 quilômetros de sua foz com o Amazonas. “Não existe nada similar em nossa história e assim esse evento, percebido a mais de mil quilômetros do epicentro, ganha o status do maior terremoto brasileiro”, diz. “Há cerca de 300 anos não se falou de grandes prejuízos materiais, ou de vítimas fatais. Hoje não seria assim, pois aquela região se desenvolveu e há maior exposição de pessoas, de construções e de importantes infraestruturas que não foram desenhadas para resistir a sismos tão fortes”.

O terremoto brasileiro que causou impacto econômico e social, no entanto, foi sem dúvida o de João Câmara. “Na verdade, naquele dia aconteceu o maior de uma série de 50 mil abalos, aproximadamente”, explica Veloso. “Em pouco menos de duas horas, além do tremor principal, ocorreram quatro outros com magnitudes entre 4 e 4,3, intercalados por dezenas de réplicas importantes. Em 10 de março de 1989, aconteceu outro de 5 pontos. Em todo o ciclo de atividade, que durou sete anos, foram registrados 20 eventos iguais ou maiores que 4 pontos na escala Richter”. É o que se chama tecnicamente de enxame de sismos.

Em consequência, a pequena cidade, então com 23 mil habitantes, saiu do anonimato e mostrou que o Brasil não está livre de abalos destrutivos. Nada menos que 4.348 edificações tiveram de ser recuperadas ou reconstruídas. Subitamente, surgiram milhares de desabrigados, inclusive de municípios vizinhos, e algumas pessoas perderam praticamente tudo o que tinham. A maior parte da população deixou a cidade e a zona rural, paralisando o comércio, os serviços municipais, as escolas e as atividades agrícolas. O então presidente da República, José Sarney, esteve no local, prometendo reconstruir a cidade, o que de fato aconteceu, com ajuda do corpo de engenharia do Exército.

É um evento que Veloso não esquece. “Tive a oportunidade de viver parte dessa história, pois já estudava aquela atividade sísmica desde agosto de 1986, instalando sismógrafos na área”, lembra. “No dia do terremoto principal, um domingo, curiosamente a data do meu aniversário, fui levado de avião para João Câmara e lá fiquei por duas semanas. Dividi meu tempo atuando como sismólogo, para estudar, com outros colegas, o fenômeno sísmico; como agente de defesa civil, para ajudar e orientar as pessoas; e como repórter/cinegrafista, para documentar os acontecimentos, que depois fizeram parte do livro que lancei recentemente e que é acompanhado por um DVD”. O ex-chefe do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília alerta: “Tremores parecidos com o de 1690 e com o de João Câmara poderão repetir-se em qualquer outra região do país”.
Revista Problemas Brasileiros

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Notícias Geografia Hoje

Supervulcões seguem regras próprias
Nas mega-erupções a rocha derretida fratura espessas camadas de cobertura

josep salvia i bote/Flickr

Erupções de vulcões pequenos, como o italiano Stromboli, são produzidas pela pressão gerada enquanto a rocha derretida se acumula no subsolo.

Alexandra Witze e Revista Nature

Enormes explosões vulcânicas ocorrem com menos frequência que o esperado por cientistas, e agora vulcanólogos acreditam poder explicar o porquê: super-erupções e erupções menores são disparadas por processos fundamentalmente diferentes.

Vulcões pequenos, como o italiano Stromboli, entram em erupção quando a rocha derretida se eleva a partir das profundezas da Terra e se acumula em uma câmara subterrânea até que a pressão seja suficiente para explodir na superfície. Mas as câmaras de magma de vulcões gigantes – como o que entrou em erupção há dois milhões de anos abaixo do que hoje é o Parque Nacional Yellowstone, no oeste dos Estados Unidos – são grandes demais para que a pressão de vazamentos de magma provoquem uma erupção.

Em vez disso, pesquisadores relatam que a rocha derretida se acumula até que sua flutuabilidade crie um tipo diferente de estresse que quebre o cobertura da câmara e inicie uma erupção.

“Na prática nós identificamos dois mecanismos diferentes que disparam erupções – um para vulcões pequenos de aproximadamente 500 quilômetros cúbicos de magma, e um em que é possível produzir super-erupções”, declara Luca Caricchi, vulcanólogo da Universidade de Genebra, na Suíça.

Caricchi e seus colegas descreveram esse cenário na Nature Geoscience de 5 de janeiro (Scientific American é parte do Nature Publishing Group). Grandes erupções são mais comuns no registro geológico do que cientistas esperariam se simplesmente baseassem as estimativas no número de erupções pequenas que ocorrem com o tempo. Essa diferença poderia decorrer de um problema com a amostragem, ou a uma diferença fundamental entre erupções grandes e pequenas.

Caricchi e sua equipe usaram modelos e simulações para estudar os diversos atores envolvidos em uma erupção: do calor do magma, até as forças necessárias para destruir a cobertura de uma câmara. Para vulcões pequenos, os cientistas confirmaram que a pressão do magma se elevando era suficiente para disparar uma erupção. “É como soprar uma bexiga de festa – se soprar com velocidade suficiente, você pode fazê-la estourar”, compara Caricchi.

Mas adicionar magma a uma câmara muito maior seria como soprar inutilmente um balão de passageiros. Em vez disso, um supervulcão acumula uma quantidade imensa de magma, que é menos densa que a rocha adjacente e portanto mais flutuável. Em algum momento, de acordo com Caricchi, há magma suficiente na câmara para que sua flutuabilidade quebre a rocha acima dela e dispare uma erupção.

A ideia é apoiada por um estudo de laboratório, também publicado em 5 de janeiro na Nature Geoscience. Uma equipe conduzida pelos geocientistas Wim Malfait e Carmen Sanchez-Valle, da ETH Zurique na Suíça, mediu a densidade de rochas derretidas com composição química semelhante à encontrada em muitos vulcões. Os cientistas usaram a Instalação Europeia de Radiação Síncrotron em Grenoble, na França, para recriar as altas pressões e temperaturas encontradas no interior da Terra.

A partir das medidas de densidade eles puderam determinar a flutuabilidade do magma. “Quanto maior fica a câmara de magma, mais importante se torna a flutuabilidade”, observa Malfait.

Caricchi e sua equipe também calcularam o tamanho teórico máximo que uma câmara de magma poderia atingir. O tamanho máximo para uma câmara de magma sem erupções depende de um equilíbrio entre sua espessura e sua extensão horizontal: uma câmara muito espessa entra em erupção, enquanto uma câmara muito vasta começa a se refriar e cristalizar nas bordas.

De acorco com Caricchi, a maior câmara possível teria cerca de 90 quilômetros de diâmetro e conteria cerca de 35 mil quilômetros cúbicos de magma. Isso é sete vezes a quantidade de magma expelido durante a maior erupção conhecida – a da caldeira La Garita, há 28 milhões de anos no que hoje é o Colorado.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 5 de janeiro de 2014.
Scientific American Brasil

Notícias Geografia Hoje


Cientistas associam luminosidade do solo a terremotos
É muito provável que grandes falhas geológicas gerem luzes estranhas


Downing Street/Flickr
Luzes foram relatadas pouco antes de um terremoto devastador atingir L’Aquila, na Itália, em 2009. Imagem: Flickr/Downing Street

Alexandra Witze e Revista Nature

Um novo catálogo de luzes de terremotos – brilhos misteriosos que às vezes são relatados antes ou durante movimentos sísmicos – descobriu que elas aparecem com mais frequência em ambientes com fendas geológicas, onde o solo está se afastando. O trabalho é a abordagem mais recente dessas luzes enigmáticas, que são descritas há séculos por testemunhas oculares mas que ainda não foram totalmente explicadas por cientistas.

O estudo, publicado no volume de janeiro/fevereiro do periódico Seismological Research Letters, reúne vários campos de pesquisa para propor um mecanismo de emissão das luzes. Os autores sugerem que, durante um terremoto, o estresse do atrito entre rochas produz cargas elétricas, que viajam ao longo das falhas geológicas quase verticais que são comuns em áreas com fendas. Quando as cargas atingem a superfície da Terra e interagem com a atmosfera, elas geram luminosidade.

“Luzes de terremotos são um fenômeno real – elas não são OVNIs”, explica o principal autor do estudo, Robert Thériault, geólogo do Ministério de Recursos Naturais do Quebec, em Quebec City, no Canadá. “podem ser explicadas cientificamente”.

Na fronteira

Um dos problemas de estudar luzes de terremotos é que relatos legítimos se misturam com relatos imprecisos. Algumas testemunhas descrevem coisas improváveis, como chamas e fumaça saindo do solo; outras mencionam nuvens brilhantes que poderiam ser uma aurora, ou faixas de fogos celestes que poderiam ser meteoros.

Mas alguns relatos não podem ser explicados com facilidade, observa John Ebel, geofísico do Boston College em Massachusetts. Em 1727, por exemplo, um homem da Nova Inglaterra passeando com seu cachorro em uma tarde de outubro sentiu o chão começar a tremer e observou uma bola de luz atingir seu animal, que começou a latir.

“Estamos todos interessados em descobrir mais sobre luzes de terremotos”, declara Ebel, não envolvido no novo estudo. “Essa só não é uma área comum de pesquisa científica porque não há como fazer experimentos”.

A equipe de Thériault decidiu compilar todos os relatos confiáveis que conseguiram encontrar, desde o ano 1600 até os dias de hoje. Eles se concentraram em 27 terremotos das Américas e 38 da Europa, e descartaram muitas histórias bizarras. Na costa peruana, em agosto de 2007, um pescador relatou que o céu se tornou violeta durante alguns minutos antes de o mar começar a tremer. Perto de Ebingen, na Alemanha, em novembro de 1911, uma mulher relatou ver luzes no solo que se moviam “como cobras” no início de um terremoto.

Dos 65 terremotos estudados, 56 ocorreram ao longo de uma área com fendas ativas ou antigas. E 63 dos 65 terremotos ocorreram onde as falhas geológicas que se romperam eram quase verticais – em contraste com os ângulos mais rasos de muitas grandes falhas.

De acordo com Thériault e seus colegas, essa geometria aguda poderia explicar o aparecimento de luzes de terremotos. Um dos membros da equipe, Friedemann Freund, físico mineral do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa em Moffett Field, Califórnia, suspeita que tudo isso comece com defeitos em uma rocha, onde átomos de oxigênio dentro da estrutura química do mineral tenham um elétron faltando. Quando o estresse de um terremoto atinge a rocha, isso quebra as ligações químicas envolvidas nesses defeitos, criando buracos com carga elétrica positiva. Esses “buracos p” podem fluir verticalmente para a superfície, disparando fortes efeitos de campos elétricos que podem gerar luz.

Espremendo

Experimentos em laboratório mostraram que campos elétricos podem ser gerados ao espremer alguns tipos de rocha. Mas a ideia de Freund é apenas um de muitos mecanismos possíveis para explicar luzes de terremotos. “Isso faz bastante sentido, mas não significa que esteja certo”, observa Ebel.

O catálogo fornece outras ideias para o estudo de luzes de terremotos, conta Thériault. Sismólogos que monitoram falhas ativas, por exemplo, podem procurar mudanças na condutividade elétrica do solo imediatamente antes ou durante um terremoto.

De maneira mais geral, disseminar ideias sobre essas luzes poderia aumentar a consciência de que elas podem sinalizar terremotos, observa Thériault. O fenômeno já alertou pessoas no passado: perto de L’Aquila, na Itália, em abril de 2009, um homem viu o reflexo de luzes brancas nos móveis de sua cozinha nas primeiras horas da manhã e tirou sua família de casa por precaução. Duas horas depois, um terremoto devastador atingiu a cidade.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 2 de janeiro de 2014.
Scientific American Brasil

domingo, 29 de dezembro de 2013

Qual é o lugar mais profundo da Terra?

Ele está a 11 mil metros de profundidade! Veja onde fica
Débora Zanelato, Ludmilla Balduino, Marina Melo e Silvia Regina ♦ Ilustração: Rico


É a Fossa das Marianas, com cerca de 11 mil metros de profundidade! A região fica no Oceano Pacífico, perto das Ilhas Marianas, ao sudeste do Japão.

A profundidade tem a ver com as placas tectônicas, que na área estão mais separadas do que o normal, criando um buraco.
Revista Recreio

segunda-feira, 5 de março de 2012

Tectônica de Placas - Uma dinâmica de 3,8 bilhões de anos

A rocha acima, encontrada no sudoeste da Groenlândia, se formou há 3,8 bilhões de anos. Geólogos acabam de mostrar que ela tem um padrão típico das rochas formadas no processo de expansão do assoalho oceânico (foto: Science )


Mais antigo pedaço conhecido da crosta terrestre ajuda a entender origem da tectônica de placas

Bernardo Esteves

Geólogos descobriram na Groenlândia rochas que se formaram à medida que o fundo do oceano se expandia há 3,8 bilhões de anos, quando a Terra ainda era um planeta adolescente. O material constitui a mais antiga amostra conhecida da crosta terrestre e prova que a tectônica de placas – mecanismo que regula o movimento e a evolução dos grandes blocos rochosos que compõem a crosta terrestre – já estava em ação muito antes do que imaginavam os cientistas.

A equipe de Harald Furnes, da Universidade de Bergen, na Noruega, mostrou que as rochas encontradas na Groenlândia se formaram em cadeias montanhosas situadas no fundo dos mares – as cordilheiras meso-oceânicas. Erupções periódicas de lava em falhas ao longo dessas cordilheiras trazem à tona material do interior do planeta, que se solidifica à medida que resfria. Esse mecanismo garante que a crosta terrestre esteja em constante renovação. Em compensação, blocos mais velhos da crosta são “engolidos” de volta pelo manto, quando duas placas tectônicas colidem e a mais pesada delas “entra” sob a outra.

Não se sabia, no entanto, desde quando esse mecanismo está em ação. A evidência mais antiga de seu funcionamento era de menos de 2 bilhões de anos atrás. Alguns cientistas acreditavam que esse mecanismo não teria começado a operar logo após a formação da Terra, há cerca de 4,5 bilhões de anos, quando o planeta ainda era muito quente. O estudo liderado por Furnes, publicado esta semana na Science , mostra que a renovação da crosta terrestre pela tectônica de placas acontece há pelo menos 3,8 bilhões de anos.

A equipe chegou a essa conclusão após analisar amostras do cinturão de Isua, uma formação rochosa de 12 km de extensão situada no sudoeste da Groenlândia. O cinturão já havia tido sua idade determinada em estudos anteriores. O grupo de Furnes havia decidido examiná-lo em busca de vestígios de vida microscópica, mas acabou fazendo a surpreendente descoberta de que havia ali vestígios da crosta oceânica.

Ofiólitos
Os geólogos notaram que alguns trechos do cinturão de Isua tinham características típicas de ofiólitos – rochas da crosta oceânica que, devido ao movimento das placas tectônicas, acabaram se elevando e ficando expostas na porção continental da crosta. Havia no cinturão de Isua rochas vulcânicas com um padrão encontrado apenas no material formado nas cordilheiras meso-oceânicas. Análises geológicas e químicas empreendidas pela equipe confirmaram que se tratava de fato de um ofiólito.

No artigo que descreve a descoberta, os autores demonstram com argumentos sólidos que as rochas analisadas se formaram na crosta oceânica e refutam outras interpretações possíveis para o padrão encontrado. “Sustentamos que o cinturão de Isua preserva vestígios do ofiólito mais antigo da Terra”, afirmam. “Isso implica que a expansão do assoalho oceânico e processos de tectônica das placas [observados hoje] já estavam em operação há cerca de 3,8 bilhões de anos.”
Bernardo Esteves
Revista Ciência Hoje

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Pangéia

Pangéia, o retorno
A ciência já sabe: daqui a 250 milhões de anos, a cara do nosso planeta será bem parecida com uma fotografia do passado distante. Bem-vindo ao próximo supercontinente
CAROLINE WILLIAMS E TED NIELD


Você embarcou em sua máquina do tempo. Para o futuro, 250 milhões de anos adiante. A Terra está viva e bem. Os humanos há muito pereceram, mas o planeta continua a ser o lar de formas de vida desconcertantes. Com exceção de alguns poucos fósseis misteriosos, não há nenhuma evidência de que um dia existimos. Para alguém que viveu no século 21, como eu e você, a Terra é quase irreconhecível. Os continentes estão unidos em uma única e gigantesca massa cercada por um oceano global. A maior parte do solo seco é um deserto hostil, enquanto a costa é atacada por tempestades ferozes. Os oceanos são turbulentos na superfície, estagnados nas profundezas e constantemente famintos por oxigênio e nutrientes. Doenças, guerras e colisões de asteróides levaram humanos e muitas outras espécies do passado à extinção. Pronto, voltemos ao presente.

Esse supercontinente do futuro não é o primeiro e não será o último. Geólogos suspeitam que o movimento das massas de terra em nosso planeta é cíclico e que a cada 500 ou 700 milhões de anos elas se juntam. Esse ciclo é três vezes mais longo do que o tempo gasto pelo nosso Sistema Solar para orbitar o centro da galáxia. Isto posto, resta saber o que rege esse fenômeno, e como a vida será na próxima vez que os continentes se encontrarem.

Os continentes se movem graças à circulação do manto terrestre sob as sete grandes placas tectônicas. Quando elas se encontram, uma placa é forçada a ficar sob a outra, em um processo chamado subducção. Ele separa a crosta do outro lado da placa, permitindo que novas camadas de magma cheguem à superfície para preencher a lacuna. Esse processo faz com que a crosta oceânica seja constantemente criada e destruída. Como os continentes são feitos de rocha menos densa do que aquela mais pesada e mais fina da crosta oceânica, que forma o chão marinho, eles passam acima do manto e escapam da subducção.

Como resultado de tudo isso, os continentes mantêm sua forma por centenas de milhões de anos enquanto deslizam vagarosamente pelo planeta. Entretanto, as massas de terra acima da água do mar colidem sempre. E, às vezes, juntam-se para formar um supercontinente.

O mais recente e célebre deles, Pangéia, foi formado há 300 milhões de anos e sucumbiu 100 milhões de anos depois, quando os dinossauros surgiram. Cerca de 1,1 bilhão de anos atrás, outro supercontinente, Rodínia, formou-se e fragmentou-se 250 milhões de anos depois. Com toda certeza, eles não foram os únicos - a lista inclui Pannotia, Columbia (ou Nuna), Kenorland e Ur (veja "Passado e futuro dos supercontinentes"). O problema é que ninguém sabe ao certo quantos deles existiram porque a formação de um supercontinente tende a destruir evidências de seu antecessor. Se há um ponto sobre o qual todos concordam é que existiram dois deles contendo toda, ou quase isso, a terra do planeta: Pangéia e Rodínia.

MAPAS-MÚNDI
Há 250 milhões de anos, havia Pangéia, um supercontinente que cobria o globo de norte a sul. Daqui a outros 250 milhões de anos, os continentes se juntarão mais uma vez. Eis três hipóteses a respeito do futuro de nosso planeta.


No meio do caminho
Neste exato momento, vivemos a metade de um ciclo. O Oceano Pacífico está gradualmente se fechando, a crosta oceânica afunda nas zonas de subducção do Pacífico Norte, um sulco do Atlântico Central está alimentando novo solo marinho e as Américas separam-se cada vez mais da Europa e da África. Por falar em África, o continente está se movendo para o norte, em direção ao sul da Europa. A Oceania também caminha para o norte, rumo ao Sudeste Asiático. Os continentes movem-se cerca de 15 milímetros por ano, velocidade similar ao crescimento das unhas de um ser humano.

Adiante o relógio em algum ponto entre 50 e 100 milhões de anos e será fácil ter uma idéia básica de como tudo será. Se olharmos ainda mais para o futuro, descobriremos que as mudanças não se resumem ao movimento contínuo dos continentes. Christopher Scotese, da Universidade do Texas, em Arlington, compara o problema a dirigir em uma estrada. "Você pode ter um palpite de onde estará em 5 ou 10 minutos, mas sempre há acidentes. As pessoas mudam de faixas ou a estrada pode ter um desvio inesperado. Se algo assim acontecer, você terá de fazer uma escolha." Há duas maneiras de os continentes como os conhecemos se juntarem. Se o Oceano Atlântico continuar a se expandir, as Américas em algum momento irão trombar com a Ásia. Por outro lado, uma zona de subducção pode se abrir no Atlântico e trazer o solo marinho de volta, forçando a Europa e a América a ficarem juntas novamente. Isso, essencialmente, recriaria a Pangéia.

Em 1992, o geólogo Chris Hatnady, da Universidade da Cidade do Cabo (África do Sul), aceitou o desafio de projetar o próximo supercontinente. Segundo ele, enquanto o Atlântico continua a aumentar, "as Américas seguem em sentido horário, ao redor de um eixo a noroeste da Sibéria, parecendo destinadas a juntar-se com a margem leste do futuro supercontinente", o qual é chamado de Amásia pelo geólogo Paul Hoffman, da Universidade de Harvard (EUA). Nessa visão do futuro, a Oceania continuará seu caminho para o norte, e a África ficará mais ou menos no mesmo lugar. Enquanto isso, a Antártica permanecerá no Pólo Sul. "Ela não está ligada a nenhuma zona de subducção. Portanto, não existe razão para qualquer movimento", afirma Hoffman.

Roy Livermore, da Universidade de Cambridge (Inglaterra), chegou a conclusão parecida. No fim dos anos 1990, ele criou sua própria versão de Amásia, um futuro supercontinente que chamou de Novopangéia. "Tomei a liberdade de abrir uma nova fenda entre o Oceano Índico e o Atlântico Norte", diz. "Sabemos que a Grande Fenda [complexo de falhas tectônicas na costa da África] é ativo, então o projetamos abrindo um pequeno oceano no futuro. A África oriental e a ilha de Madagáscar movem-se através do Oceano Índico para colidir com a Ásia. A Oceania já teria colidido com o sudeste da Ásia." Além disso, uma cadeia de montanhas terá surgido no mar que seguirá junto à zona de subducção ao sul da Índia.

No futuro de Livermore, todos os continentes atuais estão unidos. "Eu não acredito que a Antártica permanecerá no Pólo", diz. Para tanto, ele supõe que uma nova zona de subducção será aberta para levar tudo embora. "A beleza disso é que ninguém nunca poderá provar que estou errado", afirma o geólogo.

PASSADO E FUTURO DOS SUPERCONTINENTES
Os geólogos já sabem que pelo menos dois deles já existiram no passado, Pangéia e Rodínia. Evidências concretas da existência de outros supercontinentes são controversas, já que a nascimento de um praticamente elimina os sinais de seus antecessores. Eis algumas das suspeitas dos cientistas.
UR ; cerca de 3 bilhões de anos atrás
Kenorland; 2,5 bilhões de anos atrás
COLUMBIA (ou NUNA); cerca de 1,9 bilhões de anos atrás
RONDÍNIA; cerca de 900 milhões de anos atrás
PANNOTIA ; 600 milhões de anos atrás
PANGÉIA ; 300 milhões de anos atrás
HOJE
PRÓXIMO SUPERCONTINENTE; 250 milhões de anos no futuro

Isso pode ser verdade, mas outros pesquisadores discordam. Scotese gastou muito de sua carreira reconstruindo o passado da Terra e agora aplica esse conhecimento para projetar os continentes no futuro. Ele não o vê como Hoffman e Livermore. Como eles, Scotese prevê que nos próximos 50 milhões de anos a África continuará indo para o norte, fechando o Mediterrâneo e impulsionando uma cadeia montanhosa do tamanho do Himalaia ao sul da Europa. A Austrália irá girar e colidir com Bornéu e o sul da China. Mas, segundo ele, tudo irá mudar 200 milhões de anos mais tarde. A subducção começa do lado ocidental do Atlântico. A abertura pára e o Atlântico começa a encolher, unindo novamente a maior parte das grandes áreas de terra, enquanto a América do Norte tromba com o continente Euro-Africano. Originalmente, Scotese chamou o supercontinente resultante de Pangéia Última, mas recentemente o renomeou de Pangéia Próxima. "O nome Última me incomodava porque dá a idéia de ser o supercontinente derradeiro", diz Scotese. "Esse processo irá continuar por outros bilhões de anos."

O geólogo diz que uma nova zona de subducção no Atlântico poderia ser aberta se uma pequena zona já existente, como uma parte da Fossa de Porto Rico (Caribe), se espalhar até a costa americana como resultado da mudança das tensões no planeta. Sob as condições certas, ele diz, a crosta poderia começar a quebrar ao longo de sua linha, sinalizando o começo do fim para a Dorsal Meso-Atlântica. Hoje ela fica no meio do caminho entre a Europa e as Américas, mas, "se estivéssemos para começar a subducção no Atlântico ocidental ou no Atlântico oriental, a Dorsal seria forçada a se mover em direção à zona de subducção", diz. "Ela seria reduzida e teríamos um oceano com uma zona de subducção e sem a fenda. Isso significa que o Atlântico seria fechado rapidamente."

No momento, não há nada que mostre qual dos modelos está correto. Mas todos concordam que a vida em qualquer um deles será bem difícil. "Supercontinentes criam extremos", diz Paul Valdes, climatologista da Universidade de Bristol (Inglaterra). Podemos dizer como era o clima da Pangéia graças a evidências geológicas como as posições dos depósitos sensíveis ao clima, entre eles os de carvão, originados em condições quentes e úmidas. Esse tipo de evidência pode ser usado para construir modelos de computador capazes de prever o clima do futuro. Os modelos resultantes sugerem que supercontinentes estão propensos a mudanças violentas nas estações do ano.

"Em Pangéia, as latitudes tropicais poderiam ser bem quentes, talvez acima de 44°C. Latitudes medianas teriam verões muito quentes e invernos muito frios, com temperaturas chegando a 20°C ou 30°C negativos, com muita neve", diz Valdes. "Tudo derreteria nos verões seguintes, causando grandes inundações." Apesar disso, vastas áreas no interior ficariam secas, porque as nuvens de chuva não teriam como avançar para terras mais internas. Em climas tão extremos, apenas uma pequena porção do supercontinente seria capaz de sustentar formas de vida. Em Pangéia, segundo Valdes, as terras com melhores condições ficavam em uma zona estreita logo depois dos trópicos. A vastidão do supercontinente futuro também provocará climas extremos. Monções se formarão por causa das diferenças de temperatura entre terra e oceano. "Se você tem uma grande massa de terra, ela aquece e estimula uma megamonção", diz Valdes.


Se abrigar vulcões em atividade, o novo supercontinente será castigado por furacões extremos
Devastação no ar
Pior: se o supercontinente abrigar vulcões em atividade, teremos uma atmosfera rica em dióxido de carbono e um planeta mais aquecido. Águas superficiais mais quentes poderiam formar furacões extremos. Com milhares de quilômetros de diâmetro e cerca de 50% mais fortes do que os mais destruidores furacões de hoje em dia, eles iriam devastar a paisagem com ventos de mais de 400 km/h.

A vida também será difícil nos oceanos. O sistema global de condução das correntes, que atualmente mantém a oxigenação e o estoque de nutrientes, dependerá do tamanho e do formato da bacia oceânica, além da posição dos continentes. Mova-os e esses condutores poderão desaparecer. O resultado será desastroso: as águas se tornarão estratificadas e com pouco oxigênio, e muito pouco da vida marinha será capaz de sobreviver.

As costas cheias de recifes perto do equador ainda serão férteis, mas a vida não será fácil mesmo ali. Quando os continentes se juntarem, haverá uma redução drástica da área de mares rasos. Muito provavelmente, essa diminuição levará à extinção em massa de espécies colocadas no mesmo ambiente e forçadas a competir. Algo parecido também acontecerá em terra. A formação de Pangéia é freqüentemente responsabilizada por uma das maiores mortandades de todos os tempos, a extinção Permiana, em parte devido à redução de hábitat disponível.

Entretanto, a vida é pródiga ao tirar o melhor de novas situações. Há 290 milhões de anos, quando a Pangéia se formou e as calotas polares derreteram, surgiram alguns dos ecossistemas mais misteriosos até hoje. Florestas densas de árvores Glossopteris (do grego "glossa", "língua", porque as suas folhas tinham esse formato) cresceram a mais de 25 metros de altura na costa sul do Mar de Tétis (surgido com a separação de Pangéia) e avançaram para o interior a 20 graus do Pólo Sul.

Apesar de serem sustentadas por um verão de luz fraca, essas árvores eram capazes de sobreviver por meses na escuridão do inverno. Toda a vegetação próxima à costa era fustigada por monções poderosas e chuvas barulhentas vindas do Mar de Tétis, com nuvens escuras obstruindo o já enfraquecido sol. Quando o inverno se aproximava, as folhas da Glossopteris caíam graças à falta de oxigênio. Não é surpresa que análises de anéis de crescimento fossilizados mostraram que a Glossopteris crescia freneticamente enquanto podia.

De qualquer maneira, os humanos não estarão aqui para ver esse futuro. O próximo supercontinente ainda não passa de um punhado de especulações, mas já tem lições valiosas para nos passar. Até podemos ficar cada vez mais espertos, mas a Terra continuará sua jornada pelo Cosmos. Com ou sem a nossa presença por aqui.
Revista Galileu

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