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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Quais os benefícios das florestas para a saúde humana





Frequentar lugares com árvores fortalece a função imunológica e ajuda a reduzir o estresse, entre outros benefícios.


Vista aérea da floresta nas terras tradicionais do povo tla-o-qui-aht, no Canadá.



Muitos aspectos da vida estão relacionados com as florestas, como a qualidade do ar, refrigeração natural, água fresca e o fato de abrigarem diversos recursos naturais. Além disso, as florestas trazem benefícios para a saúde física e mental das pessoas.

No Dia Internacional das Florestas, proclamado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2012 e comemorado todo dia 21 de março, conheça alguns dos benefícios desse ecossistema para a saúde.
As florestas limpam o ar que respiramos

“As florestas sustentam a vida: beneficiam as pessoas, as plantas e os animais por todo o trabalho invisível que realizam absorvendo carbono. Também ajudam a controlar o clima do planeta e as precipitações [chuvas]”, explica The Nature Conservancy (TNC), uma organização ambiental global sem fins lucrativos fundada em 1951.

Além disso, as árvores eliminam o material particulado, um tipo de contaminante atmosférico produzido pela combustão de combustíveis fósseis (petróleo e seus derivados, por exemplo) que podem alcançar concentrações perigosas nas cidades.

As folhas filtram esse contaminante perigoso. Logo, uma maior quantidade de árvores nas cidades (especialmente em vizinhanças localizadas próximas a rodovias e fábricas) pode reduzir problemas de saúde como a asma, destaca o TNC.
Fornecimento de alimentos

As florestas produzem alimentos com macro e micronutrientes importantes para uma alimentação saudável e balanceada, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês).

Frutas, folhas, nozes, sementes e fungos são alguns dos alimentos que a floresta produz, além da carne de animais silvestres para comunidades indígenas.
Medicamentos

Nos países desenvolvidos, cerca de 25% de todos os medicamentos são de origem vegetal, enquanto nos países em desenvolvimento esse número chega a 80%, indica o documento da FAO.

Itens higiênicos e sanitários básicos como papel higiênico, toalhas de papel, lenços, máscaras, roupas de proteção médica e etanol para desinfetantes também têm origem vegetal, informa a Organização das Nações Unidas (ONU).
Contribuição para o bem-estar e saúde mental

As florestas têm uma importância cultural que é fundamental para a saúde mental de várias comunidades, indica a FAO.

“As populações indígenas costumam associar o bem-estar da floresta com um maior bem-estar coletivo e comunitário, enxergando um vínculo entre terras saudáveis e pessoas saudáveis.”

Por outro lado, o desmatamento e a degradação das florestas possuem efeitos negativos na saúde mental desses grupos.



Natureza na Costa Rica. As florestas têm uma importância cultural que é fundamental para a saúde mental de várias comunidades.


“Foi demonstrado que as áreas verdes contribuem na redução do estresse e promovem estados de ânimos e sentimentos mais positivos.”

Segundo a FAO, a prática de atividades físicas ao ar livre colabora também para a redução do risco de doenças cardiovasculares, de câncer, diabetes e depressão.

Em países desenvolvidos, o contato da população urbana com parques, jardins e bosques gerou efeitos benéficos para a saúde em geral, como no combate à obesidade e na redução da mortalidade.

“Acredita-se também que a inalação de ar fresco e dos compostos orgânicos voláteis (fitocidas) que as árvores emitem fortalecem a função imunológica do ser humano e melhoram a saúde física e mental”, relata a FAO.
Nas cidades, áreas verdes reduzem o ruído e absorvem a poluição

Áreas verdes urbanas e semi-urbanas oferecem espaços de atividade física e recreação que ajudam a aliviar o estresse do dia a dia, afirma a FAO.

Esses locais amortizam ruídos, reduzem o efeito das ilhas de calor (fenômeno em que há zonas de elevada temperatura dentro da cidade) e absorvem a poluição gerada pelos veículos e pelas indústrias.
Prevenção contra futuras pandemias

De acordo com dados da ONU, 60% de todas as doenças infecciosas têm origem em animais. Se forem consideradas as doenças infecciosas emergentes (doenças novas ou identificadas recentemente, como o ebola), o percentual chega a 75%.

A origem dessas doenças está ligada à transmissão de patógenos de animais a humanos, que costumam ocorrer quando habitat naturais (como as florestas) são desmatados.

As 5 curiosidades sobre a Mata Atlântica que vão te surpreender



Você sabe quantos brasileiros vivem na região da Mata Atlântica? Descubra essa e outras curiosidades impactantes sobre um dos biomas mais importantes do Brasil.




Vista do Pico do Lopo, em Extrema, Minas Gerais. A 1780 metros de altitude, ele é um dos picos mais altos dentro da Mata Atlântica.
Foto de Juliana Stern


Uma grande beleza verde que abrange vários estados brasileiros, lar de inúmeras espécies animais e vegetais e, ao mesmo tempo, seriamente ameaçada pela ação humana.

Ao ler essa descrição, é natural pensar que ela trata da Amazônia – mas, na verdade, também compreende a Mata Atlântica. Ainda que menos comentada do que a floresta amazônica atualmente, a Mata Atlântica também é vital para o equilíbrio ambiental do Brasil e se espalha por boa parte dos estados do nordeste e do centro-sul do país.

A National Geographic separou cinco curiosidades que mostram a grandiosidade e a importância desse bioma composto por formações florestais nativas e ecossistemas associados (como manguezais e campos de altitude, por exemplo). Confira:

1. A Mata Atlântica está presente em 17 estados do Brasil

“O bioma ocupa 1,1 milhão de km² em 17 estados do território brasileiro, estendendo-se por grande parte da costa do país”, explica o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil.

A Mata Atlântica está presente nos seguintes estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí.

2. Na região da Mata Atlântica vivem cerca de 145 milhões de brasileiros

De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, 145 milhões de brasileiros vivem na região da Mata Atlântica – obviamente, não necessariamente em áreas de floresta, mas em estados e cidades que abrigam o bioma.

Dessa forma, a Mata Atlântica fornece serviços ecossistêmicos essenciais para a sobrevivência humana, tais como:
Regulação e equilíbrio climático
Produção de alimentos
Proteção de encostas
Fertilidade e proteção do solo
Madeira, fibras, óleos e matéria prima para remédios

3. Resta cerca de 10% da vegetação original da Mata Atlântica



Vegetação nativa da Mata Atlântica encontrada na Serra da Mantiqueira, na divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais.
Foto de Juliana Stern


Segundo a Agência de Notícias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), resta apenas cerca de 10% da vegetação original da Mata Atlântica.

A perda da vegetação se reflete também na diminuição da população de espécies nativas. Entre elas, os anfíbios, afetados pela destruição do habitat e a poluição ambiental.

“Desde o final do século 19, com base na coleta de dados de pesquisadores que trabalhavam em campo com anfíbios, foi registrada, ao longo de cerca de 130 anos, uma diminuição no número de indivíduos de populações de quase 15% das cerca de 700 espécies conhecidas de anuros [ordem que inclui sapos, rãs e pererecas] do bioma brasileiro”, informa a Agência Fapesp.

4. A Constituição Federal reconhece a Mata Atlântica como um patrimônio natural do Brasil

Promulgada em 1988, a Constituição Federal incluiu o bioma entre os patrimônios naturais do Brasil.

Em seu artigo 225, o texto da Constituição diz: “A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais”.

No ano de 2006, a Mata Atlântica ganhou uma lei específica (a lei nº 11.428) que estabelece regras sobre a utilização e conservação da sua vegetação nativa.

Um dos pontos definidos pela lei é a exploração econômica sustentável do bioma: para fazer o corte de determinadas espécies de árvores nativas, por exemplo, é necessária a autorização dos órgãos ambientais. No caso de vegetação primária (de grande diversidade biológica) que abranja espécies ameaçadas de extinção, o corte fica vedado pela legislação.

5. Cogumelos que brilham no escuro? Um dos segredos da Mata Atlântica

Na Reserva Betary, trecho de 60 hectares da Mata Atlântica localizado na cidade de Iporanga, no estado de São Paulo, é possível ver exemplares de Mycena lucentipes, uma das seis novas espécies de cogumelos bioluminescentes encontradas no bioma.

Durante o dia, esses fungos podem passar despercebidos, mas à noite eles emitem um brilho luminoso verde neon, como mostrado em reportagem da National Geographic de março de 2023.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Conheça a aldeia Apiwtxa, trazendo lições do interior da floresta amazônica para o mundo


Como estratégia de sobrevivência em uma sociedade que dizima indígenas e os recursos naturais, os Ashaninka da terra indígena Kampa do rio Amônia, no Acre, fundaram a Associação Apiwtxa.






O modo de vida Apiwtxa garante a sustentação da comunidade sem exaurir os recursos da floresta amazônica. Crédito: © André Dib / Scientific American

A cidade mais próxima da aldeia Apiwtxa, a pequena Marechal Thaumaturgo, no Acre, fica a três horas de viagem de barco para dentro da floresta amazônica. Ela é acessível por um voo fretado a partir de Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do estado. Por mais distante que esteja dos centros urbanos, a comunidade de cerca de mil pessoas do povo indígena Ashaninka nos traz importantes lições em seu modo de vida e organização, transpassado por uma rica história de resistência e convívio sustentável com a natureza.

A fundação da comunidade remonta à década de 1930, quando o local da aldeia começou a receber diversas famílias da região, se afastando da violência e exploração por madeireiros, pecuaristas, colonizadores e mineradores. Desde o início, o grupo lutou pelo certificado de suas terras e para preservá-las das incursões cada vez mais intensas buscando extrair os recursos naturais da região do rio Amônia.

A oportunidade de obter um registro oficial só surgiu com a Constituição de 1988, que assegurava aos indígenas o uso dos recursos de suas terras, além de abrir mais espaço para políticas de demarcação e preservação através da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Por mais notável que seja a luta dos Ashaninka, no entanto, o grande destaque do artigo de capa da edição especial de julho de 2022 — “Lições da Amazônia para o mundo”, de Carolina Schneider Comandulli, antropóloga pela Universidade College de Londres que estuda povos indígenas desde os anos 2000 — é o modo de vida Apiwtxa.

Derivada de um extenso planejamento que leva em conta diversas dimensões de sua vida — desde aspectos espirituais e religiosos até as necessidades mais práticas de renda —, a comunidade fundou a Associação Apiwtxa. Seu objetivo é representar os interesses do grupo para a sociedade não-indígena, garantindo que a comunidade tenha, acima de tudo, independência e capacidade autossuficiência.

Extraindo (quase) todos os recursos de que necessita para viver de seus entornos naturais, entre caça, agricultura e extrativismo, a aldeia garante sua autonomia alimentar. E, através da produção de peças artísticas para venda, garante também autonomia econômica.

Essas autonomias são essenciais para que o grupo permaneça unido e consiga resistir às frequentes incursões em suas terras — muitos dos mesmos desafios que levaram a formação da comunidade em primeiro lugar. Mas, sem depender de seus recursos, a Apiwtxa se torna um agente ativo na sua história, capaz de moldar as circunstâncias ao seu redor.


Para resistir aos desafios, a Apiwtxa trabalha junto de ONGs e está em constante contato com instituições ambientais e governos, marcando presença na mídia. Em seu texto, Comandulli entende que o trabalho da comunidade não é moderno, “no sentido de que não buscavam um estado de desenvolvimento modelado em um ideal de progresso e crescimento que muitos aspiram mas poucos podem alcançar”. Mas, ao contrário, pode certamente ser considerado contemporâneo, “no sentido de encontrar suas próprias soluções para os problemas atuais”. É através dessa contemporaneidade que algumas de suas maiores lições se revelam: viver com a natureza (e não a partir dela) não se trata de um ideal nostálgico, mas sim de uma necessidade do mundo atual diante das circunstâncias de crise ambiental e climática.

Se interessou pela aldeia Apiwtxa e seu modo de vida? Então leia o artigo “Lições da Amazônia para o mundo” de Comandulli na edição de julho de 2022 (nº 232), comemorativa de 20 anos da Scientific American Brasil. Venha celebrar conosco e adquira a sua, disponível por compra avulsa ou assinatura nas versões impressa e digital.

Publicado em 20/07/2022.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Biodiversidade de árvores tropicais é maior na América do Sul



Florestas úmidas do continente tem quatro vezes mais espécies arbóreas do que na África



Jabuticabeira…Bruno Karklis / Wikimedia Commons

AAmérica do Sul é o continente com mais espécies de árvores conhecidas, cerca de 40% do total do mundo. Boa parte da riqueza em termos de biodiversidade arbórea se concentra em áreas tropicais. Em terras quentes há mais disponibilidade de água e as estações climáticas são pouco definidas, condições mais propícias para o florescimento de novas formas de vida vegetal do que nos ambientes temperados ou frios. Um estudo publicado em março no periódico científico PNAS indica que as florestas úmidas sul-americanas, como a Amazônia e a Mata Atlântica, têm quase quatro vezes mais espécies de árvores do que as matas africanas similares. Com menos intensidade, esse padrão se repete nas formações vegetais com disponibilidade de água mais limitada: biomas da América do Sul, como o Cerrado, abrigam o dobro de espécies arbóreas do que as savanas africanas.

Os pesquisadores não sabem porque a África tem menos espécies de árvores que a América do Sul, cujo território equivale a 59% daquele continente. Entre os possíveis fatores que podem explicar o fenômeno estariam a grande aridez e a redução da área florestal na África, além de uma maior fragmentação de sua cobertura vegetal em razão dos ciclos de glaciação ao longo de sua história geológica. Na América do Sul, a existência de uma maior disponibilidade hídrica e de ambientes naturais mais variados pode ter favorecido o surgimento de mais espécies.

Segundo o trabalho na PNAS, cerca de 50% da maior diversidade de espécies arbóreas tropicais na América do Sul pode ser debitada na conta do excepcional desenvolvimento de apenas oito ou nove grandes famílias de árvores. Nesse grupo, quatro famílias megadiversas se destacam: Fabaceae, as populares leguminosas, como o feijão, a lentilha e a ervilha e até o pau-brasil; Lauraceae, que incluem o abacateiro, a caneleira e o loureiro; Myrtaceae, com muitas espécies frutíferas, como jambeira, pitangueira, goiabeira e jabuticabeira; e Melastomataceae, que reúne espécies com papel de destaque em áreas sob restauro ambiental.

Esse número reduzido de grupos botânicos congrega muitas formas de vida vegetal em ambos os continentes, mas aqui a variedade de plantas tropicais é muito maior: 2.837 espécies na América do Sul ante 657 na África. “A maior parte das espécies dessas quatro famílias é de biomas quentes e úmidos, como a Amazônia e a Mata Atlântica, mas algumas também ocorrem em áreas mais secas”, comenta o biólogo brasileiro Pedro Luiz Silva de Miranda, principal autor do estudo, que atualmente faz estágio de pós-doutorado na Universidade de Liège, na Bélgica. Colegas de outras universidades da Europa e do Brasil também assinam o artigo.

… e Pau-brasil, duas espécies típicas da América do SulMiguel Boyayan / Revista Pesquisa FAPESP

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores consultaram vários bancos de dados internacionais que listam as espécies de árvores tropicais presentes na América do Sul e na África. Eles analisaram a composição de espécies encontradas em 1.444 áreas florestais (722 em cada continente) de biomas úmidos e secos, mas sempre quentes. Nesta margem do Atlântico, contaram 152 famílias e 8.842 espécies de árvores. Na outra, 131 famílias e 3.048 espécies. As famílias presentes nos dois continentes são 99 e abrangem 95% das espécies mapeadas na América do Sul e 97% da África. As famílias encontradas apenas em um dos continentes respondem por somente 5% das espécies de árvores sul-americanas e 3% das africanas.

Em linhas gerais, a flora de cada continente se organiza em torno dos mesmos grupos de espécies arbóreas. Tanto na América do Sul como na África, um número pequeno de famílias botânicas abrange boa parte das espécies de árvores locais. Na América do Sul, o papel daquelas quatro famílias megadiversas em termos de espécies é ainda mais preponderante. “Esse resultado intrigante passa uma importante mensagem para os pesquisadores da biodiversidade: dissecar os processos evolutivos dessas famílias-chave pode ser um caminho efetivo para desvendar os mecanismos por trás da formação e manutenção dos padrões de diversidade de plantas em savanas e florestas tropicais”, afirma o ecólogo Danilo Neves, da UFMG, que não participou do trabalho.

É comum os botânicos pensarem que ambos os continentes têm floras similares por terem formado uma massa continental contígua e única na parte oeste do antigo supercontinente austral Gondwana entre 550 milhões e 130 milhões de anos atrás. Esse longo período de história geológica partilhada teria levado à homogeneização das espécies vegetais antes da abertura do Atlântico Sul e a consequente separação da África da América do Sul.

Mas a análise dos dados de ocorrência de espécies arbóreas feita pelo novo estudo sugere que a realidade pode ter sido diferente. “Constatamos que a maior parte das famílias botânicas partilhadas pelos dois continentes surgiu quando ambos já estavam separados e isolados, depois da grande extinção de espécies ocorrida no final do período Cretáceo, há 65 milhões de anos”, comenta Miranda. “Portanto, as similaridades observadas estão ligadas, provavelmente, à dispersão de plantas da África para a América do Sul e vice-versa por meio de rotas que cruzaram o Atlântico.”

Artigo científico
MIRANDA, P. L. S. et al. Dissecting the difference in tree species richness between Africa and South America. PNAS. v. 19, n. 14. 29 mar. 2022.
Revista FAPESP

quarta-feira, 8 de junho de 2022

ERA DO GELO E DA FLORESTA




Talvez seja o cinema: confesso que o famoso filme de animação da Fox teve forte influência sobre a imagem mental que faço da era do gelo, com aquelas enormes áreas esbranquiçadas, poucas espécies zanzando solitárias por aí e uma realidade tão distante quanto possível das florestas tropicais como a Amazônia ou a mata atlântica. Mas um trabalho brasileiro publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) desta semana veio para virar meus devaneios glaciais do avesso. Segundo o artigo, há cerca de 21 mil anos, nossa mata atlântica se expandiu, ocupando uma área maior do que aquela que lhe costumamos atribuir. Os resultados contrariam o que até agora se dava como certo na história das florestas tropicais.

Desde 1969, a teoria mais aceita pela comunidade científica para explicar a enorme biodiversidade das florestas tropicais é a “hipótese dos refúgios florestais”, publicada pelo geólogo alemão Jurgen Haffer na prestigiosa revista Science em julho daquele ano. Segundo o trabalho, as florestas da América do Sul, durante os períodos glaciais, teriam se retraído e fragmentado, criando “refúgios ecológicos” isolados – isto é, cercados de campos abertos e sem comunicação com as outras áreas de floresta – nos quais as espécies haveriam evoluído de forma independente, gerando a enorme diversidade de animais e plantas que vemos hoje.
Desde 1969, a teoria mais aceita pela comunidade científica para explicar a enorme biodiversidade das florestas tropicais é a “hipótese dos refúgios florestais”

Para elaborar sua hipótese, Haffer se baseou em estudos da distribuição geográfica de aves amazônicas, mas a teoria foi logo aceita como verdadeira também para outros grupos de plantas e animais e outras florestas tropicais. Ao tentar replicar o estudo com espécies de pequenos mamíferos da mata atlântica, no entanto, uma equipe da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) surpreendeu-se com o resultado.

“Nosso objetivo era testar se espécies de mamíferos que dependem de floresta, ou seja, que não ocorrem em áreas abertas e, portanto, sofrem com a fragmentação atual da mata atlântica (causada pelo homem) teriam também sofrido reduções populacionais no último período glacial em função da suposta fragmentação (causada pelo clima) apontada pela hipótese dos refúgios”, conta o biólogo Yuri Leite, da Ufes, que coordenou a pesquisa. “Ou seja, a hipótese dos refúgios era o ponto de partida do nosso trabalho, assumida como verdadeira. No entanto, os dados obtidos não mostraram reduções nas populações de mamíferos de floresta durante o período glacial, mas sim expansões”.
Nossa Atlântida particular

Pesquisa científica é assim: por vezes, o resultado obtido é exatamente o oposto do que se esperava – o que, neste caso, tornou as coisas ainda mais interessantes. Instigados pela sugestão de que a mata atlântica teria ocupado, no último período glacial, uma área ainda maior (estamos comparando, vale lembrar, com a área que atribuímos à mata atlântica antes da devastação do bioma pelo homem nos últimos séculos), os cientistas começaram a buscar uma explicação para isso.
Revista Ciência Hoje

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O segredo da longevidade do Ginkgo biloba, a árvore que "não envelhece"





A passagem do tempo não parece ser um problema para a árvore do Ginkgo biloba , também conhecida como a árvore dos quarenta escudos ou simplesmente ginkgo. Ao longo de dezenas de milhões de anos e várias extinções em massa, essa "raridade botânica" mantém-se firme à medida que o mundo à sua volta envelhece.

A espécie constitui um dos melhores exemplos de “fóssil vivo”, uma árvore que, sem exagero, pode viver por mais de 1.000 anos (até alguns relatos indicam 3.000 ). Agora, novas pesquisas , as mais detalhadas até o momento, sugerem que a vida do ginkgo é teoricamente ilimitada.
"1.000 anos de um Ginkgo biloba são iguais a 20 anos humanos"

Embora o envelhecimento e a morte sejam uma parte natural da vida, algumas plantas como o ginkgo mostram poucos sinais de envelhecimento.

Apesar do fato de os anéis anuais dessas árvores serem mais finos ao longo dos anos, os cientistas descobriram pouca diferença em sua capacidade de fotossintetizar, germinar sementes, cultivar folhas ou resistir a doenças em comparação com as árvores mais jovens.

Mesmo depois de examinar amostras de tecido de nove árvores de Ginkgo biloba com mais de 600 anos, os cientistas não conseguiram encontrar nenhuma evidência de senescência ou deterioração.


A espécie constitui um dos melhores exemplos de "fósseis vivos"

Como o professor Richard Dixon , biólogo da Universidade do Norte do Texas, disse ao The New York Times :


Nos seres humanos, à medida que envelhecemos, nosso sistema imunológico começa a não ser tão bom. O sistema imunológico dessas árvores, apesar de ter 1.000 anos, é equivalente ao de uma criança de 20 anos.
Analisando o câmbio vascular

Diferentemente da pesquisa anterior, focada principalmente nas folhas de ginkgo, este novo trabalho se concentra no câmbio vascular da árvore, uma fina camada de tecido no tronco que produz novas cascas e madeira.

Essa região é composta de células meristemáticas , semelhantes às células-tronco em animais, mas muito menos investigadas em nível molecular.

Para descobrir como o câmbio vascular varia com a idade, os especialistas analisaram sua atividade em cada indivíduo, os níveis hormonais e os genes associados à resistência, bem como os fatores de transcrição relacionados à morte celular.

Em todas as idades das árvores, não foram encontradas diferenças significativas na atividade genética ou na resistência a doenças. De fato, a única coisa que realmente mudou foi a largura dos anéis das árvores, que pareciam diminuir drasticamente durante os primeiros 100 e 200 anos, antes de continuar a diminuir a um ritmo mais lento nas próximas centenas de anos.

Mas isso não significa que todo o crescimento tenha sido prejudicado. Curiosamente, o crescimento secundário das árvores (medido pelo aumento na área basal da árvore, ou BAI), não mostrou nenhuma diminuição nas árvores de ginkgo de 10 para 600 anos. Isso foi explicado pelos autores do estudo:


Como o BAI é um indicador confiável do crescimento de árvores, parece que o câmbio vascular no ginkgo pode reter a capacidade de crescimento contínuo por centenas de anos ou mesmo milênios.

Eles consideram que essa característica é o que permite a essa espécie "escapar da senescência em todo o nível da planta".

Na verdade, isso não significa que as árvores de ginkgo sejam imortais, apenas que provavelmente não vão morrer de envelhecimento. Assim, os ginkgos geralmente caem devido a outros fatores externos, como fogo, vento, raio, doença ou extração excessiva de madeira, que consequentemente levou a espécie à beira da extinção nos últimos anos.

Na primavera, suas folhas, rígidas e apertadas, são amarelas com um brilho dourado.

 

Então, quando uma árvore de ginkgo envelhece?

Como explicou o fisiologista da planta Sergi Munné-Bosch da Universidade de Barcelona (que não participou do estudo) à revista Science , os seres humanos acham difícil entender o fato de que não precisam se preocupar com o envelhecimento. E eu adiciono:


O envelhecimento não é um problema para esta espécie. O problema mais importante que eles precisam enfrentar é o estresse.

No entanto, o que acontece com a árvore do Ginkgo biloba depois de viver 600 anos ainda é uma questão de discussão. Ainda há uma chance de que essas espécies de árvores antigas comecem a mostrar sinais de envelhecimento molecular nos estágios posteriores de seu ciclo de vida, mas o escopo desta pesquisa não foi suficiente para afirmar com certeza.

Mais estudos serão necessários antes de descobrir o que acontece com essa árvore especial ao longo de sua longa e longa vida.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Floresta mais antiga do mundo é descoberta nos Estados Unidos


Localizada na cidade de Cairo, a região serve como um cemitério de árvores, que nos fornece uma espiada de um passado de mais de 300 milhões de anos atrás
Sabrina Brito

As folhas e troncos fossilizados em Cairo, Nova York WILLIAM STEIN / CHRISTOPHER BERRY/Divulgação



Em uma área abandonada em Cairo, cidade do estado de Nova York, cientistas acabam de encontrar a mais antiga floresta fossilizada do mundo. Formada há 386 milhões de anos, a mata recém-descoberta é dois ou três milhões de anos mais velha do que aquela que detinha o recorde até agora, também localizada em Nova York. O achado foi publicado no último dia 19 no periódico científico Current Biology.

A exploração da região começou há mais de dez anos, comandada por pesquisadores das Universidades Cardiff e Binghamton (Reino Unido) e do Museu do Estado de Nova York. Desde então, mais de 3 mil metros quadrados de floresta foram precisamente mapeados.

Há 386 milhões de anos, quando a floresta era viva, plantas, animais e as demais formas de vida atravessavam o período Devoniano. Conhecida como Era dos Peixes, foi nessa época que esses seres mais se proliferaram nas águas marítimas. Sobre a Terra, reinavam artrópodes, como os escorpiões e as centopeias.

Foi ainda durante o Devoniano que ocorreu no nosso planeta a transição entre um cenário onde matas eram ausentes para uma situação em que diversas florestas, inclusive algumas das atuais, recobrem grandes áreas da superfície terrestre. A hipótese é a de que a floresta encontrada tenha sido atingida por uma enchente. Isso porque na superfície da região, os pesquisadores encontraram alguns fósseis de peixe. De forma geral, o achado nos dá a oportunidade de ver, ainda que por uma pequena brecha, como o planeta funcionava muito antes do surgimento do ser humano (que se deu há 200.000 anos, aproximadamente; extremamente recente, pela perspectiva da idade da própria Terra).
Revista Veja

domingo, 7 de abril de 2019

Entre florestas e savanas

Variabilidade nas chuvas pode ser determinante na permanência das florestas
Regime de chuvas determina a resiliência da Amazônia

Léo Ramos Chaves

Artigo publicado nesta segunda-feira (25/2) na revista Nature Geoscience por pesquisadores brasileiros e colaboradores da Alemanha indica que florestas tropicais em áreas com maior variação no regime de chuvas podem ter sobrevida maior do que aquelas que têm um padrão previsível de chuvas. Os resultados apontam direções de investigação sobre as variáveis que determinam a sobrevivência das florestas (ou resiliência, termo cada vez mais utilizado em ecologia). “Percebemos que a variedade interanual é mais importante do que a chuva média”, afirma a matemática Marina Hirota, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Existe uma faixa tropical de latitudes onde pode haver tanto florestas exuberantes, como a Amazônia, quanto fisionomias mais esparsas e de menor estatura, como as savanas. Nas áreas chuvosas predomina a floresta, nas mais secas a savana é típica. Onde a média de chuva é intermediária, podem coexistir os dois tipos de vegetação. Hirota e colegas se concentraram no Brasil, na parte que abrange do Amazonas ao Brasil Central e abriga floresta amazônica e Cerrado, por haver mais dados e ser possível analisar regiões com pouca interferência humana, ressaltando os processos naturais.

Os resultados mostraram que, além da quantidade de chuva característica de cada lugar, também é importante a variabilidade que está escondida pelo valor médio. O estudo surgiu de conversas entre Hirota e o biólogo Rafael Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que a levaram a produzir um mapa unindo, ao longo de vários eixos, variáveis como a média de chuvas de cada local, a sazonalidade e os efeitos esporádicos como El Niño – esse conjunto é chamado de regime de chuvas. Esse mapa, que não foi publicado por si só, serviu como ferramenta para a alemã Catrin Ciemer quando passou um período no laboratório de Hirota na UFSC, como parte de seu doutorado em física na Universidade Humboldt de Berlim, na Alemanha. Ao analisar as variáveis do mapa, Ciemer selecionou como fator principal a variabilidade interanual – causada por eventos do tipo El Niño, por exemplo – em vez da média de chuva.


Fisionomia aberta do Cerrado não é necessariamente o futuro da florestaRafael Oliveira / Unicamp

Em alguns lugares é fácil prever a quantidade e a distribuição das chuvas – e as espécies que vivem ali estão adaptadas a essas condições. Em outros, as precipitações são imprevisíveis e as florestas passam por longos períodos chuvosos ou de seca, sem um ritmo regular. Um lugar com 1.600 milímetros de chuva por ano pode ter essa pluviosidade distribuída de maneira uniforme ou esporádica quando se compara anos sucessivos. Para os pesquisadores, é essa irregularidade que conta.

“Existe um mecanismo compensatório que chamamos de efeito de treino”, diz Hirota. Esse efeito faz com que, nas áreas de maior variabilidade, tanto a floresta como a savana consigam existir em uma faixa mais ampla de média de chuva. Oliveira explica que por trás dessa capacidade estão características funcionais das árvores que lhes permitem resistir a secas prolongadas, por exemplo. Entram nessa equação a densidade da madeira, a estatura das árvores, as propriedades hidráulicas que lhes permitem resistir à seca, entre outras. “Ainda não entendemos todas as propriedades do sistema”, ressalta ele. A importância detectada agora para a resistência à variabilidade é uma pista importante para, daqui em diante, esmiuçar aspectos ecofisiológicos da vegetação.

Oliveira também explica que, para testar as hipóteses levantadas no artigo da Nature Geoscience, o ideal é que existam séries temporais muito longas registrando o que acontece com a floresta conforme as variações climáticas, algo bastante demorado de fazer. No longo prazo, ele propõe que o regime de chuvas selecione espécies capazes de subsistir naquelas condições.


Na área hachurada, analisada no estudo, floresta e savana podem coexistir; zona com maior variabilidade interanual é mais resiliente
Ciemer et al./Nature Geoscience

Todas essas ideias amadureceram ao longo de um projeto financiado pela FAPESP que terminou no início de 2018, e agora continuarão a se desenvolver com apoio do Instituto Serrapilheira. “É preciso tempo para que uma inspiração inicial dê origem a um modelo que possa gerar conhecimento”, diz Hirota, que coordena o projeto atual em parceria com Oliveira e outros colegas. A partir dos achados publicados agora, eles pretendem entender como o clima, a presença humana, o tipo de vegetação, a água e o fogo atuam para determinar a resiliência da floresta.

Por enquanto, Oliveira não parece ser preocupar com a possível transformação da Amazônia em savana. Não só é um conhecedor e apreciador do Cerrado, mas também vem observando, nos resultados de sua pesquisa, que as florestas são mais resilientes do que se esperava. “Com as mudanças que ocorrem no clima pode haver uma dinâmica de substituição de espécies mais adaptadas”, pondera. A floresta pode se tornar mais resistente ou com uma feição mais aberta diferente de savana, como aconteceu no experimento que simulou uma seca na Amazônia (ver Pesquisa FAPESP nº 238).

Projetos
1. Towards an understanding of tipping points within tropical South American biomes (nº 13/50169-1); Modalidade Parceria para Inovação Tecnológica (Pite); Convênio Microsoft Research; Pesquisador responsávelRicardo da Silva Torres (Unicamp); Investimento R$ 446.798,40 (FAPESP).
2. Interações entre solo-vegetação-atmosfera em uma paisagem tropical em transformação (nº 11/52072-0); Modalidade Parceria para Inovação Tecnológica (Pite); Convênio Microsoft Research; Pesquisador responsávelRafael Silva Oliveira (Unicamp); Investimento R$ 1.249.709,83 (FAPESP).
3. Fenômenos dinâmicos em redes complexas: fundamentos e aplicações (nº 15/50122-0); Modalidade Projeto Temático; Convênio DFG; Pesquisadores responsáveis Elbert Einstein Nehrer Macau (Inpe) e Jurgen Kurths (Universidade Humboldt); Investimento R$ 3.757.320,00 (FAPESP).

Artigo científico
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