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terça-feira, 19 de maio de 2026

Você sabia que um grau a mais na temperatura também gera uma catástrofe para o ecossistema dos desertos?






Quando pensamos em aquecimento global, é natural imaginar que os desertos, por já serem ambientes extremamente quentes e secos, seriam menos afetados pelas mudanças climáticas. Essa percepção, no entanto, está longe da realidade. Mesmo pequenas alterações na temperatura ou precipitação podem afetar drasticamente as plantas e animais que habitam essas regiões aparentemente inóspitas.

A verdade é que os desertos abrigam ecossistemas complexos e delicadamente equilibrados, onde cada grau de aquecimento pode representar uma ameaça existencial para espécies que levaram milhões de anos para se adaptar às condições extremas. E o mais preocupante: as previsões indicam que o aquecimento global não apenas afetará os desertos existentes, mas também aumentará as terras desérticas, que já cobrem um quinto da superfície terrestre.


A riqueza oculta dos ecossistemas desérticos
Contrariando a imagem de ambientes vazios e sem vida, os desertos são biologicamente ricos e abrigam uma impressionante variedade de flora e fauna. Existem desertos em todos os continentes, compreendendo cerca de 20% da massa terrestre do planeta, divididos em quatro tipos principais: desertos quentes e secos, desertos frios, desertos costeiros e desertos semiáridos.


O deserto do Saara, provavelmente o mais famoso entre os desertos quentes e secos, pode atingir temperaturas de 50°C. Em contraste, desertos frios como os do Ártico e da Antártida estão entre os lugares mais gelados do mundo. Os desertos costeiros, como o de Atacama no Chile, permanecem secos apesar da proximidade com o oceano, pois o ar frio marinho é incapaz de reter umidade antes de atingir a terra.


Esses ambientes hostis sustentam besouros que correm pelo deserto da Namíbia, cactos saguaro que se erguem majestosos no sudoeste dos Estados Unidos, e inúmeras outras espécies perfeitamente adaptadas às condições extremas. Cada uma dessas adaptações representa milhões de anos de evolução, criando um equilíbrio frágil que pode ser facilmente perturbado.

A importância dos desertos para a humanidade


Os desertos não são apenas importantes pela biodiversidade que abrigam, mas também pelo papel fundamental que desempenham na vida humana. Mais de 1 bilhão de pessoas vivem em grandes áreas áridas, dependendo desses ambientes como fonte de alimento e recursos. O ambiente seco é ideal para preservar artefatos arqueológicos e fósseis, oferecendo janelas únicas para o passado da humanidade.

Além disso, os desertos ajudam a prevenir tempestades de areia prejudiciais através da biocrosta – a camada superior do solo que contém microorganismos responsáveis por manter o solo intacto. Essa função reguladora é fundamental para a estabilidade climática regional e global.

Como o aquecimento global ameaça os desertos



O aquecimento global está aumentando dramaticamente a incidência de secas, secando poços de água que são vitais para a sobrevivência de plantas e animais do deserto. Temperaturas mais altas produzem um número crescente de incêndios florestais que alteram drasticamente as áreas desérticas, eliminando árvores e arbustos de crescimento lento e substituindo-os por gramíneas de crescimento rápido.

Essa mudança na vegetação altera completamente a estrutura do ecossistema, afetando desde a disponibilidade de abrigo para animais até os padrões de erosão do solo. O que pode parecer uma mudança sutil tem efeitos cascata que se espalham por toda a teia alimentar do deserto.


A irrigação usada na agricultura pode, a longo prazo, elevar os níveis de sal no solo a patamares que se tornam altos demais para sustentar a vida das plantas. Animais de pastagem, como o gado, podem destruir muitos outros animais e plantas do deserto através do pisoteio e do pastejo excessivo.

Ameaças humanas aos ecossistemas desérticos
Além das mudanças climáticas, os desertos enfrentam pressões diretas das atividades humanas. O cianeto de potássio usado na mineração de ouro pode envenenar a vida selvagem das áreas desérticas. Veículos off-road, quando usados de forma irresponsável para turismo ou transporte, causam danos irreparáveis aos habitats do deserto, destruindo a frágil biocrosta que leva décadas para se formar.


A produção de petróleo e gás pode perturbar habitats sensíveis, enquanto resíduos nucleares são frequentemente despejados em desertos, que também têm sido usados como campos de testes nucleares. Essas atividades criam zonas de contaminação que podem persistir por séculos.


Atividades humanas como a coleta de lenha e o pastoreio de animais estão convertendo regiões semiáridas em desertos através de um processo conhecido como desertificação. O crescimento populacional e a maior demanda por terras são sérios obstáculos no esforço para combater esse problema.

O processo de desertificação


A desertificação é um tema que deve ser debatido na COP30 no Brasil, afinal mais de 1 bilhão de pessoas vivem em zonas áridas, tornando as ameaças do deserto uma questão global. Esse processo não é apenas uma expansão natural dos desertos, mas frequentemente resultado direto de práticas humanas insustentáveis.

Quando terras férteis se transformam em desertos devido ao uso inadequado, perdemos não apenas a capacidade produtiva do solo, mas também a biodiversidade única que caracteriza as zonas de transição entre diferentes ecossistemas. Essas áreas de transição são frequentemente as mais ricas em espécies e as mais vulneráveis às mudanças.

Soluções para proteger os desertos

Apesar dos desafios, existem maneiras eficazes de preservar os desertos do mundo. Podemos usar os recursos hídricos existentes de forma mais eficiente e controlar melhor a salinização para melhorar as terras áridas. Encontrar novas maneiras de fazer a rotação de culturas protege o solo frágil, enquanto plantar arbustos e árvores que fixam a areia ajuda a estabilizar o ambiente.


O plantio de leguminosas, que extraem nitrogênio do ar e o retêm no solo, pode ajudar a restaurar a fertilidade do solo. A escavação de sulcos artificiais no solo ajuda a reter a chuva e capturar sementes levadas pelo vento, promovendo a regeneração natural da vegetação.


Turismo sustentável nos desertos
O turismo e o lazer conscientes e sustentáveis são componentes importantes da conservação dos desertos. A designação de trilhas e estradas específicas ajuda a evitar que os viajantes danifiquem a frágil biocrosta, uma ameaça frequentemente negligenciada mas extremamente importante para a saúde do ecossistema.


Educar visitantes sobre a importância da biocrosta e como suas ações podem afetar o ambiente por décadas é fundamental. Um único passo fora da trilha pode destruir microorganismos que levaram anos para se estabelecer.


A conexão global dos ecossistemas desérticos
Os desertos não existem em isolamento – eles estão conectados aos sistemas climáticos globais de maneiras complexas. Tempestades de areia do Saara, por exemplo, transportam nutrientes essenciais para a Floresta Amazônica, demonstrando como ecossistemas aparentemente distantes estão interconectados.


Essa conectividade significa que mudanças nos desertos podem ter efeitos em cascata que se espalham pelo planeta. Proteger os desertos não é apenas uma questão local ou regional – é uma responsabilidade global que afeta o equilíbrio climático de todo o planeta.

Tecnologia e monitoramento


O uso de tecnologia avançada para monitorar as mudanças nos ecossistemas desérticos é fundamental para a conservação. Satélites podem detectar mudanças na vegetação, temperatura do solo e padrões de precipitação, permitindo respostas rápidas a ameaças emergentes.

Sensores no solo podem monitorar a umidade, temperatura e atividade microbiana, fornecendo dados valiosos sobre a saúde da biocrosta e outros indicadores ecológicos. Essa informação é essencial para desenvolver estratégias de conservação eficazes e adaptativas.


O papel da educação e conscientização
A educação pública sobre a importância dos ecossistemas desérticos é fundamental para sua proteção. Muitas pessoas ainda veem os desertos como “terras vazias” sem valor ecológico, uma percepção que precisa ser mudada através de programas educacionais e campanhas de conscientização.


Escolas, universidades e organizações ambientais podem desempenhar um papel vital na educação sobre a biodiversidade dos desertos, sua importância para o clima global e as ameaças que enfrentam. Quanto mais pessoas compreenderem o valor desses ecossistemas, maior será o apoio para sua conservação.


Adaptação e resiliência
Desenvolver estratégias de adaptação para comunidades que vivem em regiões desérticas é essencial diante das mudanças climáticas. Isso inclui técnicas de agricultura sustentável adaptadas ao clima árido, sistemas de captação e armazenamento de água, e desenvolvimento de fontes de renda alternativas que não degradem o ambiente.


As comunidades tradicionais que vivem em desertos frequentemente possuem conhecimento ancestral valioso sobre como viver de forma sustentável nesses ambientes. Integrar esse conhecimento tradicional com a ciência moderna pode resultar em soluções inovadoras e eficazes.

Ciência


Um futuro incerto, mas não sem esperança
O futuro dos ecossistemas desérticos depende das ações que tomamos hoje. Cada grau de aquecimento global representa uma ameaça crescente para esses ambientes únicos, mas ainda temos tempo para implementar soluções eficazes.


A proteção dos desertos requer uma abordagem integrada que combine conservação, uso sustentável dos recursos, educação e cooperação internacional. Não podemos nos dar ao luxo de ignorar esses ecossistemas aparentemente resistentes – eles são mais frágeis do que imaginamos e mais importantes do que muitos reconhecem.


O planeta não pode perder a riqueza biológica e os serviços ecossistêmicos únicos que os desertos proporcionam. Cada ação de conservação, cada política de proteção e cada mudança de comportamento individual contribui para garantir que as futuras gerações possam conhecer e se beneficiar da extraordinária diversidade da vida no deserto.

A mensagem é clara: mesmo um grau a mais pode ser catastrófico, mas ainda temos o poder de fazer a diferença. O tempo de agir é agora.

sábado, 9 de maio de 2026

O que é albedo e o que ele tem a ver com o aquecimento global?




Autores
Jovens revisores


Resumo

Resumo
Albedo é o termo que descreve a quantidade de luz solar que é refletida pela Terra. O conceito de albedo é muito importante para as discussões sobre o clima da Terra, pois se relaciona à quantidade de calor absorvida por várias partes do nosso planeta. O albedo da Terra é influenciado pelas propriedades físicas das diversas superfícies do planeta. Algumas superfícies, como gelo e neve, refletem mais luz solar e absorvem menos calor do que superfícies como oceanos e florestas. No entanto, as propriedades físicas das superfícies da Terra podem mudar, tanto naturalmente quanto devido às atividades humanas. Para proteger a Terra e seus habitantes do aquecimento global, pode haver maneiras de projetar o albedo da Terra para que mais calor do Sol seja refletido para longe do nosso planeta, mas essas teorias exigem mais pesquisas. Neste artigo, explicaremos o que é albedo, como o albedo da Terra pode mudar e como o albedo influencia o clima.
O que é albedo?

A palavra “albedo” é usada para descrever a quantidade de luz solar que é refletida pela Terra. Ela está relacionada à palavra latina “albus”, que significa branco. Albedo é uma propriedade que todo objeto não brilhante possui, como uma folha de papel, um carro, uma montanha e até mesmo a Terra inteira. Quando um objeto é iluminado pelo Sol, o albedo desse objeto descreve a quantidade de radiação solar que é refletida por esse objeto e a quantidade que é absorvida por ele (a radiação solar é o que nos dá luz e calor).

Você pode experimentar o efeito de diferentes valores de albedo tocando em carros de cores diferentes sob o sol de verão. Um carro preto estará muito mais quente do que um carro branco. Por que isso acontece? O albedo de um carro branco é maior do que o albedo de um carro preto. O carro branco reflete uma quantidade maior de radiação solar incidente, portanto, há menos radiação solar sendo absorvida para aquecê-lo. O carro preto não consegue refletir tanta radiação, então ele absorve o resto e, portanto, esquenta mais (Figura 1).

Figura 1 – Um carro branco tem um albedo maior que um carro preto.
Isso significa que um carro branco reflete a maior parte da luz solar que o atinge, enquanto um carro preto absorve mais luz solar e, portanto, aquece mais do que um carro branco.

Esse efeito também se aplica a toda a Terra. A Terra possui diversas superfícies: neve nos polos, água nos oceanos, areia nos desertos e árvores nas florestas, para citar apenas algumas. Todas essas superfícies têm albedos diferentes, que podem variar dependendo de diversos fatores — alguns dos quais descreveremos na próxima seção.

O albedo é medido em uma escala de 0 a 1, onde 0 significa que um objeto não reflete nenhuma luz solar e 1 significa que um objeto reflete toda a luz solar, e não a absorve. Por exemplo, a neve fresca tem um albedo alto, de 0,8, enquanto as árvores têm um albedo em torno de 0,15. O albedo pode ser medido por dispositivos chamados piranômetros. A palavra vem do grego para “fogo” e “céu”.
Mudanças no Albedo da Terra

Um fator do qual o albedo depende, é a intensidade do brilho de uma superfície. Quando falamos das superfícies da Terra, o brilho pode mudar. Às vezes, essas mudanças no albedo da Terra são naturais, como quando as folhas mudam de cor no outono e caem no chão, ou quando a neve cobre a terra, ou quando faz calor e algumas áreas ficam secas e as plantas morrem. Outras vezes, esses fatores são influenciados pelo homem, como a construção de casas em pastagens ou o desmatamento para agricultura.

As nuvens também podem afetar o albedo da Terra. A estrutura das nuvens pode variar, dependendo se estão se movendo para o norte ou para o sul, por exemplo, e também podem variar dependendo da altura em que se encontram. Essas diferenças são causadas principalmente por variações de temperatura e vento. A maneira como as nuvens se movem determina quais áreas da Terra serão cobertas por nuvens, portanto, o movimento das nuvens pode alterar o albedo de regiões inteiras da Terra. As mudanças nos padrões climáticos, que podem afetar a formação e o movimento das nuvens, são influenciadas pelas mudanças climáticas — que são, pelo menos em parte, causadas pelo homem.

Outros eventos naturais, como vulcões em erupção ou grandes incêndios florestais, também podem alterar o albedo da Terra de forma extrema. As erupções liberam cinzas, gases e outras partículas na atmosfera, o que altera a quantidade de luz solar refletida. Em alguns casos, essas mudanças podem durar muito tempo.
Retroalimentação Gelo-Albedo

Vamos analisar mais de perto um exemplo interessante da importância do albedo da Terra. Imagine que todo o planeta Terra esteja inundado de água e não haja mais terra firma para viver; poderia ser esse o resultado final de algo chamado retroalimentação gelo-albedo, que ocorre quando o gelo derretido expõe superfícies mais escuras, como água ou terra, que absorvem mais luz solar, causando o derretimento de mais gelo e tornando a Terra ainda mais quente.

Assim como o carro branco que mencionamos anteriormente, a neve fresca tem um valor de albedo muito alto (em torno de 0,8), que pode refletir a maior parte da radiação solar incidente de volta para a atmosfera. Isso significa que menos calor é absorvido e, portanto, menos neve derreterá no futuro. No entanto, devido ao aquecimento global, até mesmo as regiões frias do Ártico estão experimentando mais derretimento de neve. Quando a neve derrete (especialmente a neve fresca e muito branca), o albedo diminui muito rapidamente. Como resultado, mais radiação solar é absorvida pela superfície da Terra, aquecendo o planeta, o que pode causar o derretimento de ainda mais neve… e esse ciclo de retroalimentação gelo-albedo pode se prolongar (Figura 2) [1]. No cenário mais drástico, toda a Terra poderia ser inundada.

Figura 2 – Se a Terra estivesse completamente coberta de gelo, o albedo seria alto, de modo que a maior parte da luz solar seria refletida e não aqueceria a Terra.
Se houver mais superfícies sem gelo com albedo mais baixo, a luz solar que atinge essas superfícies não será tão refletida, e a Terra absorverá mais luz solar e se aquecerá. O aquecimento leva a um maior derretimento do gelo, o que reduz ainda mais o albedo da Terra. Esse ciclo de retroalimentação gelo-albedo pode continuar até que a Terra esteja completamente sem gelo.
Podemos modificar o albedo da Terra para combater as mudanças climáticas?

As mudanças climáticas do estado do sistema climático da Terra podem ser causadas por atividades naturais e humanas. Quando falamos sobre mudanças climáticas causadas pelo homem, usamos o termo aquecimento global, que, agravado por algumas atividades humanas, leva a muitos efeitos danosos em larga escala, incluindo mudanças no albedo da Terra, como mencionado anteriormente. No entanto, podemos reduzir o impacto das mudanças climáticas, principalmente reduzindo a quantidade de gases de efeito estufa liberados na atmosfera, já que esses gases estão aquecendo lentamente o nosso planeta.

Há outras coisas que também podemos fazer, algumas das quais envolvem geoengenharia. A geoengenharia é como os experimentos científicos da Terra. As pessoas tentam mudar o clima usando grandes ideias, como refletir a luz solar ou remover o carbono do ar, para corrigir o aquecimento global, mas não é simples nem isento de riscos fazer mudanças específicas no meio ambiente para neutralizar o aquecimento global.

Aqui está um possível exemplo de como a geoengenharia poderia ser usada para combater as mudanças climáticas. Se mais radiação solar fosse refletida da Terra e, portanto, menos fosse absorvida, o clima poderia ser resfriado. Portanto, para resfriar a Terra, poderíamos tentar alterar o albedo da superfície terrestre ou de sua atmosfera. Já existem muitas ideias sobre como isso poderia ser feito. Uma ideia é aumentar o albedo de nossos ambientes construídos, como cidades. Se telhados, ruas e calçadas fossem pintados de branco, refletiriam mais radiação. Esse método seria mais eficaz em regiões ensolaradas e poderia até mesmo diminuir a necessidade de ar-condicionado.

Outra ideia é cultivar plantas com albedo alto. Diferentes tipos de plantas têm diferentes valores de albedo dependendo de fatores como a refletividade de suas folhas. Se cultivássemos mais dessas plantas “reflectivas”, poderíamos aumentar o albedo de algumas superfícies da Terra.

Muitas dessas ideias são apenas hipóteses; algumas podem ser mais fáceis de implementar do que outras. Embora algumas soluções de geoengenharia para aumentar o albedo da Terra pareçam ter um efeito de resfriamento, ninguém sabe ainda quais serão os efeitos a longo prazo dessas soluções em nosso sistema climático. Isso significa que precisamos ser cautelosos com esse tipo de solução e realizar mais pesquisas para melhor compreender e avaliar seus efeitos. Acreditamos que vale a pena pesquisar soluções de geoengenharia, pois reduzir o aquecimento global é uma das tarefas mais importantes que a humanidade enfrenta hoje. Com um trabalho cuidadoso, podemos tomar medidas que protegerão nosso meio ambiente a longo prazo [2, 3]!
Glossário

Albedo: Albedo é o termo que descreve a quantidade de luz solar que reflete na Terra.

Radiação Solar: A radiação solar é como a luz solar quente do sol, que nos fornece luz e calor.

Retroalimentação Gelo-Albedo: A retroalimentação gelo-albedo ocorre quando o derretimento do gelo expõe superfícies mais escuras, como água ou terra, que absorvem mais luz solar, causando o derretimento de mais gelo e tornando a Terra ainda mais quente.

Mudanças Climáticas: Mudança no estado do sistema climático da Terra, que pode ser devido a atividades naturais e humanas. Quando falamos em mudanças climáticas causadas pelo homem, usamos o termo aquecimento global.

Geoengenharia: A geoengenharia é como os experimentos científicos da Terra. As pessoas tentam mudar o clima usando grandes ideias, como refletir a luz solar ou remover carbono do ar, para corrigir o aquecimento global, mas não é algo simples nem isento de riscos.


Referências

[1] Kashiwase, H., Ohshima, K. I., Nihashi, S., e Eicken, H. 2017. Evidence for ice-ocean albedo feedback in the Arctic Ocean shifting to a seasonal ice zone. Sci. Rep. 7:8170. doi: 10.1038/s41598-017-08467-z

[2] Irvine, P. J., Ridgwell, A., Lunt, D. J. 2011. Climatic effects of surface albedo geoengineering. J. Geophys. Res. 116:D24. doi: 10.1029/2011JD016281

[3] The Royal Society. Geoengineering the Climate: Science, Governance and Uncertainty. Available online at: https://royalsociety.org/topics-policy/publications/2009/geoengineering-climate/ (acessado em 21 de Outubro de 2023).
Citação

Esters L, Wirtz P, Brückner S, Li Y e Kracheletz M (2023) What Is Albedo and What Does It Have to Do With Global Warming?. Front. Young Minds. 11:1113553. doi: 10.3389/frym.2023.1113553
Unesp para Jovens

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Recifes sob estresse





Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, Rede Ressoa Oceano
Instituto Oceanográfico
Universidade de São Paulo


Aquecimento global, acidificação do oceano, sobrepesca, turismo mal gerenciado, poluição, espécies invasoras, dragagem… A lista de estressores desse ecossistema é longa e não afeta somente os corais




Os recifes de coral são ambientes extremamente diversos, abrigando cerca de 25% de toda a biodiversidade marinha. Suas estruturas rígidas são constituídas por organismos marinhos de esqueleto calcário, os corais. Mas há outros tipos de organismos que vivem nos recifes, como algas, moluscos e peixes.

Além de sua importância biológica, recifes também são valiosos do ponto de vista socioeconômico. A elevada biodiversidade produz bastante pescado, de modo que, hoje, cerca de 10% da proteína animal consumida no planeta provêm de recifes de coral. Outro fator a considerar é que a beleza natural estimula o turismo, e, consequentemente, o estabelecimento de operadoras de mergulho, pousadas, restaurantes… Há também a indústria da biotecnologia, que se beneficia da extração e posterior síntese de compostos farmacêuticos a partir de tecidos de corais. E não se pode esquecer da proteção costeira: a barreira formada pelos recifes atenua a intensidade das ondas, de modo a impedir que a costa sofra erosão e coloque edificações em risco. Juntas, essas atividades geram renda e emprego, beneficiando, aproximadamente, 500 milhões de pessoas ao redor do planeta.

Apesar da sua importância, atualmente os recifes de coral se encontram em franco declínio. A razão? Os impactos de múltiplos estressores. O mais grave é o aquecimento global, porque o estresse térmico provoca um fenômeno chamado branqueamento, no qual os corais perdem as microalgas parceiras que vivem em seus tecidos e lhes fornecem alimento. Sem as microalgas, os corais perdem a pigmentação natural e seus esqueletos ficam visíveis por baixo do tecido transparente, formando amplas paisagens esbranquiçadas e, eventualmente, promovendo elevada mortalidade desses seres vivos. Outra consequência das mudanças climáticas é a acidificação do oceano: o aumento da concentração de dióxido de carbono na água do mar gera uma reação química que impede os corais de calcificar e produzir seus esqueletos. Resultado: os corais se quebram com facilidade, enfrentando uma forma de “osteoporose coralínea”.

Aquecimento global e acidificação são estressores de escala global, ou seja, consequências de práticas realizadas no planeta como um todo. No entanto, os recifes também enfrentam estressores de escala local ou regional, resultantes de práticas realizadas em determinada parte do planeta, como a sobrepesca. Embora seja positiva quando bem gerenciada, a pesca se torna um problema quando não há controle. A remoção excessiva de espécies que contribuem para a saúde dos recifes – como os budiões, que controlam o crescimento de algas – gera um declínio do ecossistema como um todo.

Similarmente, o turismo, quando mal gerenciado, promove perda de corais com o pisoteio, a ancoragem e outras práticas de destruição física. Outro importante impacto de escala local é a poluição – seja de origem orgânica ou inorgânica, suas consequências são severas e incluem uma infinidade de efeitos ecofisiológicos nos organismos que habitam os recifes. A introdução de espécies exóticas invasoras e a dragagem em zonas recifais também compõem a longa lista de impactos de escala local.

Por conta do efeito combinado desses múltiplos estressores, nos últimos 40 anos, mais de 50% da comunidade de corais do planeta se perdeu. Projeções demonstram que, com a continuidade dessas práticas destrutivas, esse número deve chegar a 95% até o ano de 2050.

Ao contrário do que possa parecer, a perda não ocorre somente para corais. Com a sua morte, as inúmeras espécies de peixes e invertebrados que vivem no recife perdem o seu local de abrigo, alimentação e reprodução, de modo a também sofrerem declínios populacionais severos. Portanto, cerca de 25% da biodiversidade marinha se encontra em risco. A maneira de reverter isso é informar as pessoas e os tomadores de decisões de todo o planeta, para que ajam no combate ao aquecimento global, sobrepesca, poluição e outros impactos em ecossistemas marinhos.
Revista Ciência Hoje

domingo, 29 de março de 2026

“Guia Alimentar” dos EUA vai contra todas as evidências científicas




Segundo Ricardo Abramovay, o novo “Guia Alimentar” dos EUA, que recomenda o consumo cada vez maior de proteína animal, parece atender a interesses econômicos

O gado bovino emite gás metano, que é ainda pior que o dióxido de carbono para a produção de gases do efeito estufa – Foto: Pedro Bolle/USP Imagens


A economia com excesso: diversidade é a base de um padrão alimentar saudável é o título de um artigo que trata do recém-adotado Guia Alimentar dos EUA 2025/2030, o qual preconiza que a redução no consumo de ultraprocessados foi ofuscada pela ênfase reiterada na ampliação do consumo de proteínas, em especial de origem animal, agora apresentada como eixo central de uma alimentação saudável, uma recomendação que, até então, era descartada pela ciência, que a via como danosa à saúde humana. Qual seria a razão dessa mudança de paradigma? Como um dos autores do artigo acima citado, o professor Ricardo Abramovay, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia ( INCT Superar a Tríplice Monotonia dos Sistemas Agroalimentares, do Instituto de Estudos Avançados), diz que tem uma explicação. De acordo com ele, os EUA estão entre os maiores consumidores de proteínas de origem animal, consumo que vai muito além das necessidades metabólicas dos seres humanos, mas o fato é que, no mundo contemporâneo, está se fortalecendo o mito de que é imprescindível o consumo cada vez maior de proteína para atender às nossas necessidades alimentares.

“Isso não é verdade, o consumo de proteína para uma pessoa que tenha uma atividade física média é em torno de 0,8 grama por quilo. O atual Guia Alimentar americano praticamente dobra a recomendação dessas 0,8 grama”, argumenta Abramovay. “Um dos grandes problemas desse excesso do consumo de proteína é que as proteínas animais, que são consumidas sobretudo nos Estados Unidos, uma boa parte delas é consumida em fast foods, e o fast food oferece uma comida ultraprocessada, uma comida que obviamente não é saudável. A única razão plausível para que haja essa recomendação é que houve interesses industriais pressionando o governo norte-americano para fazer essa mudança.”




Os guias alimentares de outros países, inclusive o do Brasil, preconizam uma redução no consumo de carne e uma maior diversidade alimentar. Ocorre, porém, como já aconteceu, por exemplo, com a indústria do tabaco, que os interesses econômicos se sobrepõem ao interesse científico, como no caso em questão. Para Abramovay, trata-se de um absurdo “e que corresponde a um ataque não só à democracia, mas à ciência, que o governo norte-americano atual está sistematicamente patrocinando”. Ele reforça seu ponto de vista com outro exemplo, citando que, no início deste século, um artigo científico publicado numa importante revista científica afirmava que o glifosato, um herbicida, não era cancerígeno.


Anos depois, porém, descobriu-se que os autores do artigo eram ligados à Monsanto e que, portanto, foram pagos para escrevê-lo. O artigo, frisa Abramovay, foi despublicado. “Ouçam essa expressão, despublicado, porque ela vai ser cada vez mais frequente, porque isso acontece com frequência. Por isso as revistas científicas sérias exigem uma declaração formal de se há ou não conflito de interesses, como é que foi financiada a pesquisa para publicar esse artigo etc., é um resguardo que a ciência tem.”

Anos depois, porém, descobriu-se que os autores do artigo eram ligados à Monsanto e que, portanto, foram pagos para escrevê-lo. O artigo, frisa Abramovay, foi despublicado. “Ouçam essa expressão, despublicado, porque ela vai ser cada vez mais frequente, porque isso acontece com frequência. Por isso as revistas científicas sérias exigem uma declaração formal de se há ou não conflito de interesses, como é que foi financiada a pesquisa para publicar esse artigo etc., é um resguardo que a ciência tem.”

Gases do efeito estufa


O professor chama atenção ainda para um outro aspecto. Ao preconizar o aumento no consumo de produtos animais, o Guia Alimentar norte-americano não leva em conta o fato de que o sistema agroalimentar responde por um terço dos gases de efeito estufa e que as proteínas animais estão na origem da metade desse um terço, ou seja, cerca de 15% da emissão desses gases estão ligados ao consumo de produtos de origem animal. Afinal, o gado bovino é responsável pela emissão de gás metano. “Essas emissões de metano são mais de cem vezes mais potentes, no que se refere à destruição do sistema climático, do que o dióxido de carbono. Elas ficam menos tempo na atmosfera do que o dióxido de carbono, mas têm um poder destrutivo muito maior”, afirma Abramovay. “A humanidade precisa reduzir esse consumo de carne e, sobretudo, precisa modificar os métodos de criação bovina para neutralizar e reduzir essas emissões de metano, e isso não entra no Guia Alimentar americano.”

Por outro lado, a simples substituição da carne bovina por carne suína ou de frango também não é a solução, “porque os métodos de criação de carne suína e de carne de frango também são altamente consumidores de antibióticos e são altamente consumidores de grãos. Nós precisamos fazer uma remodelação do sistema agroalimentar para poder enfrentar essas questões”. Ele encerra com uma boa notícia, a de que o Brasil “tem todas as condições de liderar isso, porque o Brasil possui tecnologias – sobretudo bioinsumos – que permitem que as tecnologias hoje usadas sejam ultrapassadas em benefício de tecnologias que se apoiem no respeito e na valorização da vida para a produção agropecuária”.


Jornal da USP

sexta-feira, 20 de março de 2026

O impacto destruidor do aquecimento global no Alasca






Crédito,Alamy Legenda da foto, À medida que o vilarejo de Kwigillingok descongela, a infraestrutura está desmoronando | Foto: AlamyArticle InformationAuthor,Sara Goudarzi
Role,BBC Future


Vladimir Romanovsky atravessa a densa floresta de coníferas com facilidade. Não para ou diminui o passo nem sequer para se equilibrar diante do musgo macio que cobre o permafrost - superfície que permanece congelada nas regiões polares.


É um dia quente de julho, e o cientista está procurando uma caixa que ele e sua equipe deixaram no solo. Ela está escondida cerca de 10 quilômetros ao norte do Instituto de Geofísica da Universidade do Alasca, em Fairbanks, onde Romanovsky é professor de geofísica e responsável pelo Laboratório de Permafrost.


O recipiente, coberto por galhos de árvores, contém um coletor de dados conectado a um termômetro, instalado abaixo do solo para medir a temperatura do permafrost em diferentes profundidades.


O permafrost é qualquer material terrestre que permaneça a 0°C ou abaixo dessa temperatura por pelo menos dois anos consecutivos.

Legenda da foto,Vladimir Romanovsky coleta registros de temperatura abaixo do solo da floresta | Foto: Anthony Rhoades


Romanovsky conecta então seu laptop ao coletor de dados para transferir os registros de temperatura desta localidade, chamada Goldstream 3, que mais tarde serão adicionados a um banco de dados online, acessível tanto para cientistas quanto para qualquer pessoa interessada.


"O permafrost é definido com base na temperatura. Esse é o parâmetro que caracteriza a sua estabilidade", explica o professor.


Quando a temperatura do permafrost é inferior a 0°C, por exemplo, - 6°C, ele é considerado estável, o que significa que vai demorar muito para mudar ou descongelar. Já se está perto de 0°C, é classificado como vulnerável.


Todo verão, a porção de solo que cobre o permafrost, chamada de camada ativa, derrete - e congela de novo no inverno seguinte.


Em Goldstream 3, naquele dia de julho (verão no hemisfério norte), o derretimento chegava a 50 cm de profundidade.

Legenda da foto,Solo escuro indica a presença de carbono orgânico acumulado | Foto: Anthony Rhoades


À medida que a Terra aquece e as temperaturas aumentam no verão, o degelo está se expandindo e ficando mais profundo, fazendo com que o permafrost fique menos estável.


Se o derretimento continuar, haverá consequências profundas para o Alasca e para o mundo. Cerca de 90% do Estado é coberto por permafrost, o que significa que vilarejos inteiros precisarão ser realojados, conforme as fundações dos edifícios e as estradas desmoronarem.


E se o permafrost liberar o carbono acumulado e retido há milênios dentro dele, poderá acelerar o aquecimento do planeta - muito além da nossa capacidade de controlá-lo.

Estado de vulnerabilidade


À medida que o permafrost derrete, casas, estradas, aeroportos e outras infraestruturas construídas sobre o solo congelado podem rachar e até mesmo ruir.


"Estamos vendo mais serviços de manutenção em estradas que passam sobre o permafrost", diz Jeff Currey, engenheiro de materiais do Departamento de Transportes Públicos do Alasca.


"Um dos nossos superintendentes de manutenção contou recentemente que sua equipe está tendo que remendar certos trechos das rodovias com mais frequência do que há 10 ou 20 anos. "


Da mesma forma, as infraestruturas construídas no subsolo - para atender os serviços de utilidade pública, por exemplo - estão sendo afetadas, conforme as temperaturas aumentam.


"Em Point Lay, na costa noroeste do Alasca, por exemplo, eles estão tendo todos os tipos de problema com as redes de água e esgoto no solo de permafrost", afirma William Schnabel, diretor do Centro de Pesquisa de Água e Meio Ambiente da Universidade do Alasca.

Legenda da foto, Leituras feitas a partir de sensores no solo indicam mudanças significativas em andamento | Foto: Anthony Rhoades


A preocupação é ainda maior para aqueles que vivem em áreas rurais, que não dispõem de fundos suficientes para combater os efeitos do derretimento do permafrost.


Para esses moradores, não são apenas os edifícios que estão ruindo, o que é comum agora, mas também o abastecimento de água.


Muitas vezes, quando o permafrost derrete ao lado de um lago usado por um vilarejo como fonte de água, há uma fenda e ocorre um dreno lateral.


"Geralmente, é necessária uma infraestrutura bem cara para tirar água de um lago, levar para uma vila e armazená-la. E todos os componentes desta infraestrutura são vulneráveis ao degelo do permafrost", diz Romanovsky.


Crédito,AlamyLegenda da foto,Permafrost é qualquer solo que permaneça congelado a 0°C ou menos por pelo menos dois anos consecutivos | Foto: Alamy


Se um vilarejo depende de um lago afetado para conseguir água, os membros da comunidade têm de levar sua infraestrutura e, às vezes, a vila inteira para outro lago, o que pode custar muito dinheiro.


De acordo com uma análise realizada pelo órgão de pesquisas geológicas americano US Geological Survey, aldeias como Kivalina, no noroeste do Alasca, terão que se mudar nos próximos 10 anos.


"Mas estimativas sugerem que o custo desta mudança seria de cerca de US$ 200 milhões por cada vila de 300 pessoas", explica Romanovsky.


Chegar a uma quantia como essa só seria possível com o financiamento do governo federal - mas não há garantias de que uma nova localização também não seria afetada.


"Acredito que agora existam 70 vilas que realmente precisam ser realojadas em decorrência do derretimento do permafrost", avalia.


"Mas transferir os vilarejos para outra área no permafrost é muito difícil de garantir por uns 30 anos. E o governo federal não quer pagar por algo que precisará pagar novamente."

Legenda da foto,Vladimir Romanovsky no Laboratório de Permafrost, da Universidade do Alasca, em Fairbanks | Foto: Anthony Rhoades


Além disso, é possível que a construção de assentamentos no permafrost também possa agravar o problema no Alasca.


"Quando você pensa em água e esgoto, você precisa mantê-los sem congelar. E, no caso do permafrost, você tem que mantê-lo congelado", diz Schnabel.


"Ou seja, vai correr água relativamente quente pelo permafrost e haverá alguma dissipação de calor lá."


Do mesmo jeito, quando uma estrada é construída, parte da vegetação que cobre o permafrost é removida para que a rodovia seja pavimentada com asfalto, o que aumenta a quantidade de radiação solar absorvida.


Por isso, embora os serviços de manutenção tenham aumentado, nem todos os problemas relacionados à infraestrutura podem ser atribuídos à mudança climática.

Freezer cheio de carbono


O Alasca, está, sem dúvida na linha de frente das mudanças climáticas, mas as questões relacionadas ao permafrost vão além da "última fronteira selvagem", como é conhecido. O derretimento do material afetará outros 48 estados americanos, localizados abaixo dele, assim como todo o planeta.


De acordo com Romanovsky, metade do estado e 90% do permafrost do interior do Alasca vão descongelar se houver um aumento médio global de 2°C na temperatura.


Isso é especialmente preocupante porque uma enorme quantidade de carbono orgânico é sequestrada no permafrost e na camada ativa que se sobrepõe a ele.


Uma vez que não há calor suficiente no solo congelado para ajudar os micro-organismos a decompor a vegetação morta, a matéria orgânica foi se acumulando durante milhares de anos no permafrost.


Algumas análises estimam que a quantidade de carbono no permafrost equivale a mais de duas vezes a de dióxido de carbono na atmosfera.


"Se mantivermos o curso atual, é bem provável que até 2100 uma parte significativa do permafrost, nos cinco metros superiores, descongele. E, com ele, toda a matéria orgânica que está atualmente retida ali", diz Kevin Schaefer, pesquisador do National Snow and Ice Data Center da Universidade do Colorado.

Legenda da foto,No Parque Nacional Denali, o aumento da temperatura começou a afetar a vida selvagem | Foto: Anthony Rhoades


"Isso significaria uma liberação de dióxido de carbono e metano, que aumentaria o aquecimento devido à queima de combustíveis fósseis."


Em artigo publicado em 2012 na revista científica Nature, Schaefer e seus colegas sugerem que os eventos de aquecimento súbito ocorridos anteriormente foram essencialmente desencadeados pela liberação de dióxido de carbono e metano do permafrost há cerca de 50 milhões de anos na Antártida.


E as projeções não parecem otimistas: "Teoricamente, se esse carbono for liberado para a atmosfera, a quantidade de CO2 será três vezes maior do que a que está lá (na atmosfera) agora", diz Romanovsky.


Desta forma, há uma genuína retroalimentação, uma vez que aquecimento aumenta em decorrência da queima de combustíveis fósseis.


Mas, apesar do fato de o aquecimento estar acelerando, os efeitos da retroalimentação serão graduais, levando tempo para serem sentidos.


"É um feedback muito lento", diz Schaefer.


"Imagine tentar conduzir um navio a vapor com o remo de uma canoa, esse é o tipo de feedback que estamos falando", compara.


Infelizmente, uma vez que o permafrost começa a derreter, é difícil congelá-lo novamente - pelo menos enquanto estivermos vivos. Além disso, a partir do momento que material sai do solo e vai para a atmosfera, não existe uma maneira fácil de enviar esse carbono de volta ao chão.


"A única maneira de fazer isso seria baixar a temperatura global e congelar de novo o permafrost, o que significaria que você estaria removendo o dióxido de carbono da atmosfera", diz Schaefer.


Segundo Romanovsky, os modelos climáticos mostram que os atuais compromissos intergovernamentais para reduzir o aquecimento global - conforme estabelecido no Acordo de Paris - podem não ser suficientes.


Em artigo publicado em 2016 na revista Nature Climate Change, a pesquisadora Sarah Chadburn e seus colegas estimam que, mesmo que o clima fosse estabilizado, conforme acordado pelos 196 países em 2015, "a área de permafrost seria eventualmente reduzida em mais de 40%".


No entanto, após o anúncio do presidente Donald Trump de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, em junho do ano passado, é de se esperar uma perda ainda maior de permafrost no horizonte.

O jogo de culpa


O Alasca é um Estado conservador politicamente, então quem está de fora pode supor que seus moradores rejeitam a ideia do aquecimento global. Mas a realidade é mais complexa.


Uma pesquisa realizada no início deste ano pelo Alaska Dispatch News, com um total de 750 participantes, mostrou que mais de 70% da população local está preocupada com os efeitos da mudança climática.


"No Alasca, a quem você perguntar, vai responder 'sim, há aquecimento'", afirma Romanovsky.


"Quanto mais para o norte você for, especialmente no noroeste, mais forte é esse sentimento. Porque está acontecendo, você consegue ver. Claro, a questão sobre de quem é a responsabilidade depende das crenças políticas."


No Parque Nacional Denali, a guarda florestal Anna Moore testemunhou como o aquecimento pode afetar em pouco tempo a vida selvagem.


Ela reparou que a lebre do ártico, que muda a cor da pele de acordo com as estações do ano para se camuflar, parece não estar acompanhando mais as mudanças, como resultado do aumento da temperatura, o que a deixa mais exposta a predadores.


Crédito,Getty Images Legenda da foto, A lebre do ártico está tendo dificuldade para se camuflar, conforme a neve derrete, diz guarda florestal | Foto: Getty Images


"No inverno, eles ficam brancos", diz Moore.


"À medida que está ficando mais quente, a neve está derretendo mais rápido, mas seus corpos são aclimatados a certas mudanças de temperatura e, portanto, mesmo que a neve já esteja derretendo, eles continuam brancos - e correndo perigo por causa dos predadores."


Moore acrescenta que, apesar de acreditar nas mudanças climáticas e estar observando seus efeitos na fauna e flora do parque, ela considera isso um resultado tanto das atividades humanas quanto de um ciclo natural.


Ashley Tench, sua colega, compartilha o mesmo sentimento:


"Eu concordo com ela (em) como isso é em parte feito pelo homem, mas é também natural."


Por isso, Tench não acredita que a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris faça diferença no clima.


Mas nem todo mundo no Alasca tem essa opinião. Para Bill Beaudoin, mergulhador e educador aposentado, que agora é proprietário de uma pensão em Fairbanks, é óbvio que os humanos são culpados e que devemos trabalhar para reverter os efeitos de nossas ações.


"Acredito que o Acordo de Paris era necessário ", diz ele.


"Na verdade, eu não achava (que era) suficiente. Há um país, a Nicarágua, que não assinou o acordo porque achou que não era forte o suficiente. Eu ficaria provavelmente ao lado da Nicarágua nesta questão", acrescenta.

Legenda da foto,‘O Acordo de Paris era necessário. Na verdade, eu não achava (que era) suficiente’, afirma Bill Beaudoin, morador do Alasca | Foto: Anthony Rhoades


Mas não importa quem seja o culpado pelo aquecimento e o consequente derretimento do permafrost. A população do Alasca está, em sua maioria, preocupada com seu futuro.


"As pessoas estão preocupadas, porque, claro, não existe seguro para derretimento do permafrost", diz Romanovsky.


"Os seguros não estão cobrindo os danos causados pelo permafrost, assim como por terremotos na Califórnia."

Em busca do carbono


De volta a Goldstream 3, Romanovsky observou que a 50 cm de profundidade, a temperatura do solo era de - 0,04°C. Em um metro, chegava a - 0,23 °C.


Na última vez que tinha verificado os dados, em março, a temperatura a um metro do solo era de -1,1°C.


Ele pega sua pá e faz um buraco no chão para observar o solo e checar se há presença de carbono. A superfície mais escura indica carbono orgânico acumulado.


Quanto mais ele cava, mais frio fica o solo. Ele escava tanto até que sua pá toca o permafrost - e aparentemente ele não pode ir além.

Legenda da foto, Pesquisadores do Instituto Geofísico da Universidade do Alasca estão monitorando mudanças de temperatura no longo prazo | Foto: Anthony Rhoades


Romanovsky força um pouco mais e consegue desenterrar um pedaço do permafrost - do tamanho de uma pequena moeda. Segundos após segurar o solo congelado entre os dedos, ele derrete como se fosse um cubo de gelo.


Ele devolve a terra removida de volta ao buraco, desconecta seu laptop do coletor de dados, fecha a caixa, cobre novamente com galhos de árvore e se prepara para voltar.


Em uma semana, ele vai se deslocar para o norte do Estado para registrar a temperatura em outras áreas, acrescentando mais informações a uma das bases de dados de permafrost mais abrangentes do mundo.


Enquanto isso, pouco a pouco, o Alasca vai derretendo - e o que vem pela frente não se sabe. O certo é que o grande degelo mudará para sempre a paisagem como é hoje - e provavelmente o planeta e seus habitantes.
BBC Brasil

quinta-feira, 12 de março de 2026

Um cofre de carbono oculto em África está a começar a vazar




Uma nova pesquisa desafia a antiga suposição de que o carbono amazenado nas turfeiras tropicais na Bacia do Congo não seria libertado para a atmosfera nos próximos milhares de anos.


Os cientistas descobriram que vastas turfeiras na África Central, que foram consideradas durante muito tempo reservas estáveis ​​de carbono, estão a libertar carbono ancestral para a atmosfera.

A Bacia do Congo alberga um dos maiores sistemas de turfeiras tropicais do mundo. Embora estas turfeiras cubram apenas 0,3% da superfície terrestre, armazenam aproximadamente um terço de todo o carbono contido nas turfeiras tropicais.

Durante décadas, os investigadores presumiram que este carbono estaria armazenado em segurança durante milhares de anos, a menos que condições extremas, como secas prolongadas, perturbassem o ecossistema, refere o SciTech Daily.


Uma nova investigação liderada por cientistas da ETH Zurique desafia esta suposição.

Num estudo publicado na Nature Geoscience, os investigadores examinaram dois lagos escuros de “águas negras” — Lac Mai Ndombe e Lac Tumba — cujas águas cor de chá são ricas em matéria orgânica proveniente das florestas pantanosas ricas em turfa circundantes.

As medições revelaram que quantidades significativas de dióxido de carbono estão a escapar destes lagos para a atmosfera.


Surpreendentemente, a datação por radiocarbono mostrou que até 40% do dióxido de carbono emitido provém de turfa acumulada há milhares de anos, e não de plantas que cresceram recentemente.

A descoberta sugere que os antigos reservatórios de carbono na Bacia do Congo já estão a “vazar”, mesmo sem provas claras de um colapso significativo da turfa causado pela seca.

Ainda não se sabe ao certo como é que este carbono antigo se move das camadas profundas de turfa para a água do lago, e os cientistas continuam a investigar se o processo representa uma mudança desestabilizadora ou um ciclo natural equilibrado pela formação de nova turfa.

O estudo aponta ainda para riscos climáticos futuros. Condições mais secas podem permitir que o oxigénio penetre mais profundamente nos solos turfosos, acelerando a decomposição microbiana e libertando ainda mais dióxido de carbono.


As pressões humanas podem agravar estas ameaças. O crescimento populacional e a desflorestação na região podem intensificar a secura, reduzindo a reciclagem da humidade impulsionada pelas florestas, o que pode manter os níveis dos lagos persistentemente baixos.

Os investigadores alertam que tais alterações podem transformar os pântanos da Bacia do Congo em importantes fontes de gases com efeito de estufa.
https://zap.aeiou.pt/

A maioria dos estudos falhou ao analisar o nível do mar







Novo estudo alerta: nível do mar pode ser muito mais alto do que se pensava. Risco de inundações aumenta para dezenas de milhões de pessoas.


Um novo estudo científico indica que o nível do mar poderá ser significativamente mais elevado do que estimativas anteriores sugeriam; e isso aumenta o risco de inundações costeiras para dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

A investigação aponta para falhas metodológicas na forma como a altura do mar tem sido medida em muitos estudos climáticos.

Segundo os investigadores, muitos modelos científicos utilizam um ponto de referência considerado “zero metros” para calcular o nível do mar.


No entanto, esse valor nem sempre corresponde à realidade observada nas zonas costeiras.

Em algumas regiões do Indo-Pacífico, por exemplo, a diferença entre o valor teórico e o nível real pode ser perto de um metro, sublinha o Euronews.

A análise de centenas de estudos concluiu que cerca de 90% das avaliações de risco costeiro subestimaram a altura de referência do mar, em média cerca de 30 centímetros.


Esta discrepância pode parecer pequena, mas tem impacto significativo na previsão de cheias e tempestades costeiras, especialmente quando combinada com a subida do nível do mar causada pelas alterações climáticas.

Os responsáveis por este novo estudo alertam que esta subestimação significa que o risco de inundações extremas pode ser maior do que o previsto para milhões de pessoas.

Anders Levermann, cientista climático do Instituto Potsdam para a Investigação do Impacto Climático, afirma que há populações costeiras cujo perigo de cheias severas “é muito maior do que se pensava”.

O Sudeste Asiático surge como a região mais vulnerável, devido à elevada densidade populacional nas zonas costeiras e à maior discrepância identificada nos cálculos. Países com menos recursos para adaptação climática poderão enfrentar dificuldades adicionais para proteger infraestruturas e comunidades.


Os autores do estudo defendem que melhorar a medição do nível do mar e integrar dados locais mais precisos é essencial para desenvolver políticas eficazes de adaptação às alterações climáticas. Sem essa correção, planeamentos urbanos, mapas de risco e estratégias de proteção costeira poderão continuar a subestimar um dos efeitos mais perigosos do aquecimento global.
https://zap.aeiou.pt/

sexta-feira, 6 de março de 2026

Estudo revela 36 empresas de combustíveis fósseis responsáveis por metade das emissões globais de CO2





Um estudo recente do think tank InfluenceMap, denominado Carbon Majors, trouxe à tona dados alarmantes sobre a responsabilidade das empresas de combustíveis fósseis nas emissões globais de CO2. A pesquisa revelou que apenas 36 empresas são responsáveis por metade das emissões mundiais, produzindo mais de 20 bilhões de toneladas de CO2 no ano passado.

Entre as principais empresas citadas estão gigantes como Saudi Aramco, Coal India, ExxonMobil e Shell, além de várias companhias chinesas. Para contextualizar a magnitude dessas emissões, o estudo aponta que se a Saudi Aramco fosse um país, seria o quarto maior poluidor do mundo, ficando atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia.



O relatório enfatiza a urgência de ação, alertando que as emissões precisam diminuir 45% até 2030 para atingir a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5°C. Especialistas argumentam que essas empresas mantêm o mundo dependente de combustíveis fósseis, sem planos concretos para reduzir a produção.

O estudo também destaca que, das 36 empresas responsáveis por metade das emissões globais, 25 são estatais, com 10 delas localizadas na China, o maior país poluidor do mundo. A distribuição das emissões por fonte mostra que o carvão foi responsável por 41%, o petróleo por 32%, o gás por 23% e o cimento por 4%.


COMPENSAÇÃO POR DANOS CLIMÁTICOS

Os dados do Carbon Majors têm sido utilizados como evidência em ações legais e regulatórias contra empresas de combustíveis fósseis, buscando compensação por danos climáticos e responsabilização corporativa. Além disso, o estudo inclui dados históricos que remontam a 1854, mostrando que dois terços das emissões de carbono desde a Revolução Industrial provêm de 180 empresas.

Diante desse cenário, especialistas e ativistas climáticos enfatizam a necessidade urgente de ação governamental para frear a expansão dos combustíveis fósseis e promover a transição para um sistema econômico descarbonizado. A responsabilização das corporações e a implementação de políticas efetivas para redução de emissões são apontadas como passos essenciais para enfrentar a crise climática global.
Pensamento Verde

Amazônia é o grande reservatório de carbono que pode salvar o planeta





A Amazônia continua surpreendendo o mundo com sua importância para o equilíbrio climático global. Um novo estudo do MapBiomas revela dados impressionantes: a região concentra mais da metade (52%) de todo o carbono orgânico armazenado no solo brasileiro. Estamos falando de um verdadeiro tesouro ambiental que pode ser decisivo na luta contra as mudanças climáticas.

O Brasil armazena 37,5 gigatoneladas de carbono orgânico na camada superficial do solo, com uma média de 44,1 toneladas por hectare. Esse número representa um dos maiores estoques de carbono do planeta, funcionando como um gigantesco “aspirador” natural de CO₂ da atmosfera.


Para entender a magnitude desses números, é importante saber que o solo armazena aproximadamente quatro vezes mais carbono que toda a vegetação do planeta e três vezes mais que a própria atmosfera. Quando bem preservado, esse carbono pode permanecer estocado por décadas ou até séculos, ajudando a manter o equilíbrio climático global.


A ciência por trás do armazenamento de carbono
O relatório do MapBiomas, que analisou dados de 1985 a 2024, oferece um panorama único sobre a composição dos solos brasileiros e sua relação com o uso da terra. Alessandro Samuel-Rosa, coordenador do MapBiomas Solo, explica que “no Brasil, a distribuição é marcadamente heterogênea, refletindo a diversidade climática, hidrológica, geológica e ecológica do território”.


Essa heterogeneidade é fundamental para compreender por que diferentes regiões têm capacidades distintas de armazenar carbono. O solo funciona como um arquivo do tempo, acumulando sinais de clima, vegetação e relevo que moldaram o território ao longo da história.


Quando falamos de carbono orgânico no solo, estamos nos referindo a um elemento essencial não apenas para o clima, mas também para a produtividade agrícola. Esse carbono melhora a retenção de água e nutrientes, reduz a erosão e aumenta a fertilidade natural do solo, criando um ciclo virtuoso entre conservação ambiental e produção sustentável.


Mata Atlântica: pequena em área, gigante em densidade
Embora a Amazônia detenha o maior volume total de carbono armazenado, uma descoberta interessante do estudo é que a Mata Atlântica supera a média nacional em densidade de armazenamento, com 53,4 toneladas por hectare. Isso acontece porque o bioma se beneficia de regiões de clima mais frio, como campos de altitude e florestas de araucária, além de áreas úmidas como restingas e mangues.


A Amazônia aparece em segundo lugar com 46,3 t/ha, seguida pelo Pampa com 43,7 t/ha. Esses dados revelam que 35,9% do solo brasileiro estoca entre 40 e 50 toneladas de carbono por hectare, demonstrando o potencial extraordinário do país como regulador climático global.


Na Mata Atlântica, predominam solos com teores de argila superiores a 60%, o que confere maior capacidade de armazenamento de água e retenção de nutrientes. Essa característica permite que o carbono orgânico permaneça estocado por longos períodos, funcionando como uma espécie de “cofre” natural de carbono.


A relação entre uso da terra e armazenamento de carbono


O estudo evidencia padrões claros de ocupação territorial que impactam diretamente a capacidade de armazenamento de carbono. Entre 1985 e 2024, a pastagem se expandiu principalmente sobre solos de textura média e arenosa, perdendo área nas regiões muito argilosas, que foram majoritariamente ocupadas pela agricultura.


Essa informação é valiosa para o planejamento territorial sustentável. A agricultura se desenvolveu preferencialmente sobre áreas com baixa pedregosidade nos primeiros 90 cm de solo, enquanto a silvicultura teve expansão mais expressiva em locais onde a pedregosidade aparece nas camadas superficiais.


Compreender essas dinâmicas é fundamental para desenvolver estratégias que maximizem tanto a produtividade agrícola quanto o armazenamento de carbono, criando um modelo de desenvolvimento que beneficia simultaneamente a economia e o meio ambiente.


O papel dos diferentes tipos de solo
Os dados mostram que solos argilosos, muito argilosos e siltosos possuem os maiores estoques de carbono, frequentemente acima de 50 t/ha em todos os biomas, enquanto os arenosos têm estoque médio de 32 t/ha. Essa diferença está relacionada à capacidade de retenção de matéria orgânica de cada tipo de solo.


No Cerrado, Caatinga e Pantanal, concentram-se áreas com teores de areia acima de 60%, onde a capacidade de retenção é menor e a infiltração de água ocorre de forma mais rápida. Já na Caatinga, o solo se torna progressivamente mais pedregoso a profundidades entre 10 e 50 cm, representando 9% do território brasileiro com mais de 50% de seu volume ocupado por pedregosidade dominante nos primeiros 100 cm.


O carbono como aliado da produtividade
Uma descoberta importante é que o carbono orgânico no solo não beneficia apenas o clima global, mas também a produtividade agrícola. Taciara Zborowski Horst, coordenadora da iniciativa MapBiomas Solo, destaca que “esses mapas das propriedades dos solos brasileiros, como carbono, textura e pedregosidade, permitem avanços nas análises voltadas aos usos agrícolas e urbanos do solo”.


Isso significa que preservar e aumentar o carbono no solo é uma estratégia que beneficia tanto fazendeiros quanto o planeta. Solos ricos em carbono orgânico são mais férteis, retêm mais água e são mais resistentes à erosão, reduzindo a necessidade de fertilizantes químicos e irrigação.


A importância da preservação para o futuro
O estudo revela que quando o solo é degradado por desmatamento ou práticas agrícolas inadequadas, ele libera esse carbono como CO₂, agravando o efeito estufa. Por outro lado, quando bem manejado e preservado, o solo pode continuar armazenando carbono por décadas ou séculos.

Essa descoberta reforça a importância de políticas públicas que incentivem práticas agrícolas sustentáveis e a preservação de áreas naturais. Cada hectare de solo preservado representa uma contribuição significativa para o combate às mudanças climáticas.


Alessandro Samuel-Rosa observa que “a distribuição do carbono orgânico é um exemplo disso. Compreender esses padrões é olhar para o país também pelo que se conserva abaixo da superfície”. Essa perspectiva nos lembra que a conservação vai além do que vemos – inclui também os processos invisíveis que acontecem no subsolo.


Um repositório único de dados
Para os pesquisadores, o repositório de dados criado pelo MapBiomas é um recurso único para localizar rapidamente dados de referência, verificar lacunas de monitoramento e comparar resultados de diferentes regiões brasileiras. Essa ferramenta permite que cientistas, gestores públicos e produtores rurais tomem decisões mais informadas sobre o uso da terra.


O acesso a esses dados é fundamental para desenvolver estratégias regionais específicas que maximizem o potencial de armazenamento de carbono de cada área, respeitando suas características naturais e vocações produtivas.


O Brasil como protagonista climático global


Os dados do MapBiomas posicionam o Brasil como um protagonista fundamental na luta contra as mudanças climáticas. Com 37,5 gigatoneladas de carbono orgânico armazenado apenas na camada superficial do solo, o país possui um dos maiores estoques de carbono do mundo.

Essa posição de destaque traz tanto oportunidades quanto responsabilidades. O Brasil tem o potencial de liderar iniciativas globais de sequestro de carbono, mas também precisa garantir que suas políticas de uso da terra protejam esse valioso estoque natural.


Tecnologia e monitoramento para o futuro
O uso de tecnologia avançada para monitorar o carbono no solo representa um avanço significativo na nossa capacidade de compreender e proteger esse recurso. O MapBiomas utiliza imagens de satélite e algoritmos sofisticados para mapear mudanças no uso da terra e seus impactos no armazenamento de carbono.

Essa tecnologia permite identificar rapidamente áreas onde o carbono está sendo perdido e implementar medidas de proteção antes que os danos se tornem irreversíveis. É uma ferramenta poderosa para a gestão sustentável do território brasileiro.


Construindo um futuro sustentável
A descoberta sobre o carbono armazenado no solo brasileiro nos mostra que a natureza já nos ofereceu uma solução poderosa para o combate às mudanças climáticas. Agora, cabe a nós proteger e potencializar essa solução natural.


Cada decisão sobre o uso da terra, cada política pública implementada e cada prática agrícola adotada pode contribuir para manter ou aumentar esse estoque de carbono. É uma responsabilidade que vai além das fronteiras nacionais, pois o carbono armazenado no solo brasileiro beneficia todo o planeta.


O momento é de agir com sabedoria e urgência. Temos em nossas mãos – ou melhor, sob nossos pés – uma das mais poderosas ferramentas naturais contra as mudanças climáticas. Preservar esse tesouro subterrâneo é preservar o futuro da humanidade.

Pensamento Verde

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O que é a transição energética



O que é a transição energética, tema urgente da COP30 que coloca o Brasil como exemplo
Entenda o movimento para substituir petróleo e carvão por fontes solares e eólicas, vital para frear National Geographic Brasil




O Brasil é um dos líderes mundiais na transição energética, com parques eólicos localizados majoritariamente no Nordeste. Atualmente, o país possui um total de 568 parques eólicos, com uma capacidade instalada de 14,34 GW. Estima-se que até 2026, a capacidade instalada dos parques eólicos brasileiros seja de 28,5 GW (com taxa de crescimento de 1,1 a 2 GW por ano), segundo dados da ABEEólica (Associação Brasileira de Energia Eólica). Foto de Divulgação ABEEólica (Associação Brasileira de Energia Eólica)


Os apelos para que a transição no uso de energia no mundo se intensifique e o uso majoritário de fontes energéticas deixe de ser ancorado nos combustíveis fósseis (como petróleo e carvão) e migre para a chamada energia limpa alcançou níveis urgentes, explica um relatório da agência do clima da Organização das Nações Unidas (ONU).


Ainda que a civilização humana passe por algum tipo de transição energética desde seus primórdios, o nível de extração, queima e consumo de combustíveis fósseis a partir da Revolução Industrial vem gerando níveis de poluição recordes nos últimos anos, os quais são responsáveis pelo aquecimento do planeta e pela mudança climática.


Por isso mesmo e de acordo com a OMM, “estamos lutando contra o tempo”. A adoção do uso de energias consideradas renováveis – como a solar, a eólica, a hidrelétrica e os biocombustíveis – ainda está em ritmo mais lento do que deveria, apesar de seu uso estar previsto para dobrar até 2030, continua a entidade.


O setor energético global sozinho é responsável por cerca de 75% das emissões globais de gases de Efeito Estufa (os GEEs), continua a fonte. “A melhoria da eficiência energética e a busca por matrizes mais limpas são vitais para prosperarmos no século 21”, defende Petteri Taalas, chefe da OMM.





Painéis solares mostram o desenvolvimento da energia renovável no deserto da Califórnia, nos Estados Unidos, um dos estados mais "verdes" do país. Segundo a agência do clima da Organização das Nações Unidas, a transição energética chegou a um momento urgente e crucial por causa da crise climática e o aquecimento do planeta.Foto de Tom Brewster/Agência de Gestão de Terras da Califórnia (Bureau of Land Management California)

O Brasil é referência mundial na transição energética


Dentro do cenário de transição energética, o Brasil sai na frente, já que a matriz elétrica brasileira já é renovável e baseada em fontes com baixa emissão de GEEs”, informa um artigo sobre o tema da Agência Nacional de Energia, um órgão do Ministério de Minas e Energia brasileiro.


Atualmente, “o país já utiliza 48% de energia renovável, acima da média mundial que é de 15%", informam dados do Ministério de Minas e Energia, ainda que o potencial para explorar recursos hídricos, solares e eólicos continue sendo grande.


O Brasil também é líder em uso de energia limpa dentro do G20, à frente de Canadá, Alemanha e Reino Unido, por exemplo, como explica um ranking da EMBER, uma organização independente de energia que promove a transição para energia limpa.


Em relação ao uso de biocombustíveis, o Brasil também se sai bem, a ponto de servir de consultor para outras nações, como a Índia, por exemplo. A nação mais populosa do mundo vem adotando o uso do etanol (e a produção de cana-de-açúcar) depois de ser assessorada por um time brasileiro de especialistas, como contou o presidente da COP30 André Corrêa do Lago, em entrevista ao podcast de notícias “A Hora”.


A Índia, inclusive, tem uma ambiciosa meta de atingir 500 GW de capacidade de energia não-fóssil em 2030, afirma a Agência Internacional de Energia.




O fim da energia baseada em combustíveis fósseis é essencial para controlar a crise climática e evitar o aumento da temperatura do planeta até um ponto de não-retorno. Foto de Kim Seng (CC BY-NC-ND 2.0)

Transição energética: em busca da meta zero de emissões para 2050


A Organização Meteorológica Mundial afirma também que a meta com a qual as nações devem trabalhar é a de zerar as emissões de GEEs até o ano de 2050. “Mas só chegaremos lá se dobrarmos o fornecimento de eletricidade de baixa emissão nos próximos oito anos”, diz.


Ao mesmo tempo e segundo o relatório “World Energy Outlook 2024”, da Agência Internacional de Energia (AIE), “até 2035, é esperado que o mundo adicione, a cada ano, o valor equivalente às necessidades de energia elétrica do Japão (que é de 909 terawatts-hora)”.


Neste cenário também tem se destacado atualmente a China. Apesar de ainda estar entre os países que mais emitem gases do Efeito Estufa, a nação “vem liderando aumento da capacidade de eletricidade renovável”, diz a AIE, “com quase 350 GW adicionados em 2023, dois terços de toda a implantação global”, detalha a fonte.


Ainda de acordo com a EMBER, que faz o monitoramento sobre o uso de energia renováveis, alguns dados recentes merecem destaque. Entre eles estão:41% é a participação global da eletricidade limpa em 2024;
1,29% foi o crescimento da geração de energia solar em 2024;
7,9% foi a porcentagem de crescimento da geração eólica em 2024;


Em contrapartida, em 2024 ainda se registrou um crescimento de 1,4% na geração a partir de combustíveis fósseis e 40Mt (milhões de toneladas) de gás metano vazado de minas de carvão em 2024, o que significa que ainda há muito, muito trabalho para ser feito na transição energética.

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