Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de março de 2026

Crescimento da dívida pública por juros nominais pode causar aumento da desigualdade no País


Clara Brenck explica que a dívida causada por pagamento de juros nominais impede a economia de circular

O pagamento de juros nominais afeta o custo do governo com a dívida, já que ele paga juros sobre esse valor – Foto: Freepik/ Fotomontagem Jornal da USP

Uma nota de política econômica produzida por pesquisadores da USP questiona as relações entre a dívida pública brasileira e a desigualdade no País, a partir da análise dos efeitos do déficit primário e dos juros nominais sobre a participação dos trabalhadores na renda agregada. Clara Brenck, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP e uma das autoras da nota, explica os objetivos do estudo.

“O nosso objetivo principal era entender o debate sobre a dívida pública, que estava em alta. Há vários fatores que podem aumentar ou diminuir a dívida pública, como ajustes cambiais e privatizações, mas focamos em dois componentes principais. O primeiro é o pagamento de juros nominais, porque os juros estão muito altos e esse elemento afeta o custo do governo com a dívida, já que ele paga juros sobre esse valor. Esses juros, em grande parte, acompanham a taxa Selic, que está em 15%.
Clara Brenck – Foto: x.com

O segundo componente é o déficit primário, uma variável normalmente associada à política fiscal. Quando observamos a discussão sobre a dívida no debate público, ela costuma ficar muito vinculada à ideia de gasto excessivo do governo, ou seja, quando o gasto é maior do que a arrecadação. Esses dois componentes são os mais associados à política macroeconômica de maneira geral.”

“A ideia é entender qual é o movimento desses fatores e como isso afeta a desigualdade. Nós nos inspiramos em um estudo feito para a Itália, que analisa exatamente isso, observando o pagamento de juros e o resultado primário. No nosso caso, escolhemos analisar a parcela de salários na renda. Essa variável é uma medida de desigualdade que indica, aproximadamente, qual porcentagem do PIB fica com os trabalhadores. O PIB é distribuído entre todas as pessoas do país, seja entre os donos de empresas, seja entre os trabalhadores que recebem salários. Para fazer essa análise, realizamos uma estimação econométrica, que basicamente procura observar a associação entre esses fatores”, explica a pesquisadora.
Consequências dos juros nominais e do déficit primário

A pesquisadora explica os efeitos das diferentes razões para o aumento da dívida. “Quando a dívida pública aumenta porque o governo está gastando mais do que arrecada, isso tende a ter um efeito positivo na redução da desigualdade. Nesse caso, a parcela salarial na renda aumenta e os trabalhadores passam a ganhar mais. Esse gasto do governo funciona como uma transferência de renda para a sociedade, o que pode gerar empregos.

Isso pode ocorrer na forma de compras públicas, pagamento de salários ou benefícios sociais. Todos esses mecanismos geram gasto na economia. As pessoas que recebem esse dinheiro do governo tendem a gastá-lo, o que gera empregos e, consequentemente, aumento de salários.”

“No caso dos juros nominais, a lógica é diferente. Se a dívida pública aumenta porque o governo está pagando juros, ocorre uma piora na desigualdade e uma redução da parcela de salários na renda. Isso acontece porque essa transferência de recursos do governo para a sociedade acaba sendo direcionada principalmente para as pessoas mais ricas.”

A pesquisadora acrescenta que “quem consegue comprar títulos da dívida pública e emprestar dinheiro para o governo é, em sua maioria, quem tem recursos sobrando e pertence às camadas mais ricas da sociedade. Isso também tende a aumentar o desemprego, porque essas pessoas não necessariamente vão gastar esse dinheiro na economia real, já que já possuem renda elevada. Em muitos casos, elas recebem os juros pagos pelo governo e reinvestem esse dinheiro no próprio mercado financeiro”, comenta.
Principais conclusões do estudo

Clara esclarece que o objetivo do estudo não é inocentar ou responsabilizar integralmente o Estado, mas ampliar o debate sobre as causas da desigualdade. “O nosso ponto principal não é dizer que não deve haver preocupação com as contas do governo no âmbito da política fiscal. Um déficit primário aumenta a dívida, e precisamos olhar para isso. Mas também não podemos criminalizar a política fiscal no sentido de achar que a responsabilidade é apenas do governo por gastar mais.”

A questão dos juros também precisa ser levada em consideração, acrescenta a pesquisadora. “Principalmente se estamos preocupados com o emprego e com a desigualdade. Se a nossa preocupação é, além do crescimento e da dívida pública, aumentar o emprego e melhorar o salário do trabalhador, precisamos olhar para os juros. Queremos trazer a taxa de juros para essa discussão e debater um ajuste que realmente considere a estabilidade da dívida, mas que também se preocupe com a desigualdade. Não é possível discutir esses temas sem considerar o papel da taxa de juros, que é, inclusive, uma das principais críticas do setor produtivo, que reclama frequentemente dos níveis elevados”, finaliza.
Jornal da USP

sexta-feira, 6 de março de 2026

Precariedade de estradas vicinais gera perda de produtividade e prejuízos ambientais no Brasil


Estudo feito em parceria entre grupo da USP e CNA traz amplo diagnóstico das estradas vicinais no País, apontando onde há prioridade de investimentos

Texto: Amanda Wendland*

Arte: Simone Gomes

Pesquisa propôs a criação do Índice de Priorização das Estradas Vicinais, ferramenta que indica as prioridades de investimento e intervenção em cada região do Brasil - Foto: Roaming Owls.com / Pixabay


As estradas vicinais são vias majoritariamente municipais e não pavimentadas, que conectam áreas rurais a centros urbanos e às principais rodovias estaduais e federais. Diretamente associadas à logística da produção da agropecuária, representam o primeiro elo do transporte da safra, superando 1,4 bilhão de toneladas movimentadas anualmente. Um estudo do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (Esalq-Log) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP feito em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) descreve a situação desta malha no País.

O diagnóstico traz também um alerta. Apesar de sua relevância no escoamento da produção agropecuária, as estradas vicinais apresentam condições precárias de manutenção e trafegabilidade, o que gera enormes prejuízos econômicos, ambientais e sociais. A frequente presença de buracos, erosões, atoleiros, excesso de pó, dentre outros gargalos de infraestrutura presentes nessas vias, resulta em interrupções do transporte, atrasos e dificuldades de mobilidade de bens e pessoas, além de perdas de produtos e riscos de acidentes. A precariedade das vias gera ainda atrasos, perda de produtividade operacional no transporte, aumento do custo logístico e maiores emissões de gases de efeito estufa (GEE), dentre outros problemas.


Uma infraestrutura adequada de estradas vicinais assegura acessibilidade, dignidade e segurança para o deslocamento de pessoas e o transporte de cargas nas áreas rurais do País. Além disso, fortalece a competitividade econômica, promove a sustentabilidade e impulsiona o desenvolvimento local e nacional.

A malha vicinal brasileira soma 2,2 milhões de quilômetros, distribuídos em 557 microrregiões, o que representa uma extensão dez vezes superior a das rodovias pavimentadas do País. A limitação de recursos públicos e a falta de planejamento estratégico dificultam a priorização dos investimentos e a melhoria das condições das estradas vicinais no País. O professor Thiago Guilherme Péra, coordenador do Esalq-Log comenta que o problema das estradas vicinais não deve ser mais negligenciado. “Muito se discute no Brasil sobre a criação e o desenvolvimento de grandes infraestruturas logísticas para o escoamento da produção agroindustrial. No entanto, ainda se faz muito pouco para melhorar as condições das estradas vicinais — justamente o elo mais crítico e estratégico de toda a cadeia logística, por onde circulam diariamente a produção, os insumos e as pessoas que sustentam o agronegócio nacional e tem sido pouco valorizada”, diz Péra.

A pesquisa propôs a criação do Índice de Priorização das Estradas Vicinais (Ipev), ferramenta que indica as prioridades de investimento e intervenção em cada região do Brasil. A partir da análise de uma série de dados econômicos, sociais, ambientais e de infraestrutura referentes a estradas vicinais, combinados com a produção agropecuária brasileira, a metodologia desenvolvida permite encontrar regiões prioritárias para o investimento de melhoria nas estradas. O Ipev fornece um instrumento técnico e transparente de apoio à decisão pública, permitindo identificar regiões prioritárias para investimentos.

A partir da identificação das regiões prioritárias, foram selecionadas oito microrregiões para uma análise mais detalhada dos problemas enfrentados nas estradas vicinais e da realidade vivenciada pelos produtores rurais. Durante o trabalho de campo, mais de 1.200 quilômetros de estradas foram percorridos e 150 produtores rurais e gestores municipais das áreas de infraestrutura e agricultura foram entrevistados. O estudo abrangeu microrregiões situadas na Bahia, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e Paraná, permitindo identificar os principais gargalos logísticos e reunir subsídios técnicos para a formulação de propostas de melhoria da malha vicinal. A pesquisa de campo identificou graves desafios de gestão na manutenção das estradas vicinais, marcados por limitações orçamentárias diante de uma malha extensa, dependência de repasses estaduais e federais, frota de máquinas obsoleta, falta de planejamento técnico e coordenação entre Secretarias, além de dificuldades logísticas e de acesso a insumos, escassez de mão de obra qualificada e fortes heterogeneidades regionais que agravam as disparidades na infraestrutura rural do País.

Ao comentar os resultados do levantamento, a assessora técnica da CNA, Elisangela Lopes, destaca a relevância do estudo para o planejamento da infraestrutura rural brasileira. “Esse estudo mostra, de forma inédita, a real situação de estradas que são essenciais para a logística da produção agropecuária. Com base em critérios técnicos, conseguimos propor soluções práticas e criar o Ipev, que ajuda a priorizar investimentos e orientar políticas públicas em todos os níveis de governo. A ideia é usar melhor os recursos, capacitar os gestores locais e integrar a mobilidade rural às estratégias nacionais de infraestrutura.”

Principais impactos


Estima-se que as condições precárias atuais das estradas vicinais gerem R$ 16,2 bilhões anuais em custos de transporte para o escoamento da produção agropecuária. Esses custos, hoje inevitáveis, poderiam ser significativamente reduzidos com intervenções adequadas na malha vicinal, resultando em ganhos operacionais e logísticos de até R$ 6,4 bilhões por ano a partir de melhorias. Por exemplo, a melhoria das condições viárias poderia representar reduções anuais superiores a R$ 2,3 bilhões no transporte de cana-de-açúcar, R$ 2,1 bilhões na movimentação de grãos e cerca de R$ 1 bilhão no escoamento da produção animal, evidenciando o impacto direto da infraestrutura rural sobre a competitividade do agronegócio.

Outro impacto importante está relacionado às emissões de dióxido de carbono (CO₂) diretamente no transporte. Os caminhões que atualmente trafegam nessas estradas emitem 3 milhões de toneladas de CO₂ por ano, quantidade que poderia ser reduzida em mais de 30% após melhorias nas vias, permitindo maior fluidez e eficiência energética da frota.

Imagem: reprodução da capa do relatório

Onde investir e quanto custa?


A pesquisa dimensionou os recursos necessários para sanar o problema das condições precárias das estradas vicinais em diferentes cenários e regiões a partir de dados primários e secundários. Ao contrário do que poderia parecer a solução mais óbvia, o estudo não propõe pavimentar a malha vicinal. As análises indicam 177 microrregiões altamente prioritárias para ações de melhoria das condições estradas de terra. Os investimentos necessários variam de R$ 4,9 bilhões a R$ 22,7 bilhões, e são decorrentes das ações de engenharia adotadas (de um padrão mínimo, envolvendo nivelamento do solo e material de cobertura, até um padrão superior, com projeto técnico mais robusto, incluindo preparo da base, abaulamento e sistemas de drenagem), e também da estrutura atual da estrada (de vias mais simples e estreitas, até estradas mais largas, permitindo passagem de dois veículos de grande porte simultaneamente).

Os resultados do estudo oferecem subsídios para políticas públicas, orientando o desenvolvimento de projetos prioritários e fomentando iniciativas de inovação tecnológica, com suporte técnico, maquinário especializado e equipes capacitadas. Ao fazer um diagnóstico das condições das estradas e apontar as microrregiões prioritárias para investimentos, o estudo direciona a utilização de recursos públicos escassos para regiões que apresentam, simultaneamente, grande vulnerabilidade de infraestrutura, elevada demanda por acessibilidade da população e grande volume de produção agropecuária. É uma ferramenta que auxilia a gestão pública e otimiza o uso do recurso para regiões cujos impactos positivos são mais amplamente percebidos.

“Durante a pesquisa, ficou evidente que a falta de planejamento e a limitação de recursos — sejam orçamentários, técnicos, operacionais ou de maquinário — continuam sendo obstáculos reais para os gestores públicos que buscam melhorar as estradas vicinais. Nesse contexto, o Ipev surge como uma ferramenta prática e transparente, capaz de orientar o planejamento, otimizar investimentos e gerar resultados concretos na vida de quem produz e vive no campo — fortalecendo o desenvolvimento local e a competitividade do agronegócio brasileiro”, destaca a pesquisadora do Esalq-Log, Daniela Bartholomeu.

O relatório final ainda será divulgado, mas já é possível acessar o relatório do diagnóstico de prioridades por Unidade da Federação – seção do estudo que mostra as regiões prioritárias de cada UF e o dimensionamento dos recursos necessários para o problema das vicinais.
Jornal da USP

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Crime organizado é um problema mundial, mas está avançando nos países latinos


Para Marcelo Gomes, Brasil criou uma equipe de “compliance” muito qualificada por conta da Operação Lava Jato


No caso da América Latina o crime organizado tem ganhado forças – Foto: DC Studio/Freepik



O crime organizado afeta corriqueiramente as empresas no Brasil e no mundo ao ponto de que cerca de 6% do seu faturamento é desviado por fraudes, como fraudes internas. Segundo Marcelo Gomes, mestre e doutor em Ciências Contábeis pela Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, pesquisador do Grupo de Investigações Periciais, Forenses e Tecnológicas (Perfort), vinculado à faculdade, o dado é originado de uma pesquisa feita por uma associação de investigadores de fraude global.

“É uma pesquisa muito comum, feita por várias consultorias, várias entidades. A mais famosa pesquisa nessa área é o Report to the Nation, que é reproduzida pela Association of Certified Fraud Examiners, que é uma associação de investigadores de fraude global, mas sediada nos Estados Unidos, e tem esse relatório para as nações, em que apura também dentro do mesmo critério, ou seja, o que aconteceu em termos de fraude nos últimos 12 meses. Primeiro, vamos desmistificar essa questão numérica. Ele é espalhado no mundo inteiro, não tem um problema específico no Brasil. Ele é igual no Brasil, ele é igual na Itália, ele é igual na Uganda, a fraude não tem cor, não tem raça, não tem sexo e não tem nacionalidade. É uma situação obviamente preocupante para todas as empresas, mas é um fenômeno infelizmente espalhado mundialmente.”

Gomes explica que, no caso da América Latina, o crime organizado tem ganhado forças. “O primeiro diferencial que está acontecendo, principalmente nos países latino-americanos, com o crescimento das organizações criminosas locais. O que tem diferenciado é como ela tem se inserido na atividade econômica legal. É muito comum a gente enxergar empresas que são franquias, seja perfumaria, seja lavanderia, seja qualquer tipo de serviço que demande ou que traga recursos dos clientes, supostamente em dinheiro.”

“A partir daí, quando ele começa a faturar e trazer muito dinheiro para essa franquia, ele usa essa franquia para comprar outros negócios legais, por exemplo, postos de gasolina. Ligados ao crime organizado começaram a comprar fazendas de açúcar, adentrando no mundo empresarial. Eles entraram em outras ramificações que começam a prejudicar uma gama maior da economia. E é para isso que, hoje em dia, é uma preocupação muito grande dos compliances das empresas tentar identificar essa situação e impedir que a empresa para qual trabalha faça negócios com essas empresas que estão ligadas ao crime organizado”, acrescenta.
Sinais

Gomes alerta sobre o principal sinal de que uma empresa possa estar ligada ao crime organizado. “Uma empresa que estava com uma dificuldade financeira, que o mercado inteiro conhecia, por exemplo, um fornecedor de plásticos para sua indústria, de repente começa ter facilidade financeira e passa a oferecer os melhores preços, melhores que os concorrentes. O julgamento que vem primeiro é que ela deve ter passado por uma reorganização e está ‘sob nova direção’. Assim, a empresa decide fazer negócio com ele, porque ele está fazendo o melhor preço. Porém, tem que tomar um cuidado enorme, porque nem sempre o melhor preço é realmente é o melhor preço, em vista daquele novo fornecedor estar conectado ao crime organizado.”

Gomes finaliza comentando métodos do compliance, ou seja, formas das empresas de assegurar que estão agindo dentro da regularidade legal e, portanto, não interagindo com o crime organizado. “Tem um procedimento que os profissionais usam chamado due diligence, ou seja, a investigação daquela empresa sobre os seus antecedentes, sobre os antecedentes dos seus sócios, com quem eles fazem negócios. O processo investiga até o terceiro nível de relação societária. A empresa X tem o sócio A e o sócio B. No due diligence você pega o sócio B que, além dele ser sócio da empresa X, ele é da Y. Assim, você vai investigar quais são as relações que esses sócios têm com as empresas e se elas também possuem alguma relação com o crime organizado. A investigação vai até o terceiro nível para ter certeza de que você está lidando com pessoas que não têm qualquer conexão com o crime organizado.”


Jornal da USP

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Como a alta no preço do ouro alimenta os temores de uma recessão global


Cristina J. Orgaz
BBC News Mundo


Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Cotação do ouro superou os US$ 1,5 mil pela primeira vez em seis anos

Guerra comercial, mercados financeiros em queda e, em última análise, medo de uma recessão. Essa combinação de fatores tem levado investidores ao redor do mundo a tirar seu dinheiro das ações cotadas nas bolsas e a colocá-lo no ouro.

O raciocínio por trás disso seria de que as empresas com ações nas bolsas não vão dar o lucro esperado e o temor de uma mudança no panorama econômicoglobal. Assim, esses investidores preferem limitar seus riscos buscando ativos que consideram mais seguros, como o próprio ouro e o dólar, o franco suíço, o iene, os títulos de dívida emitidos por países como Alemanha e EUA.

Outros fatores, como as tensões geopolíticas e as baixas no mercado de títulos de dívidas, reforçaram essa incerteza.

Diante disso, o preço da onça do ouro superou, pela primeira vez em mais de seis anos, o valor de US$ 1,5 mil, maior nível desde março de 2013.

Apenas nos últimos três meses e meio, seu valor passou de US$ 1.270 a US$ 1.516, cotação da última sexta-feira (16/8). É uma alta de quase 20%.


"O mercado está se preparando para uma mudança de ciclo e isso tem feito (o preço do) ouro disparar", diz Javier Molina, porta-voz da plataforma de negociação de moedas eToro.

Como acontece em todas as crises, o precioso metal segue sendo uma das pistas a serem analisadas com cuidado quando o cenário econômico global se deteriora – que parece ser o caso agora.


Direito de imagemAFPImage caption
Em tempos turbulentos, investidores deixam as ações na bolsa em busca de ativos seguros, como o ouro
De que os mercados têm medo?

O principal temor é a desaceleração do crescimento. A escala mundial da economia pode ter já entrado em uma fase de recessão.

O primeiro sinal disso vem de um indicador-chave: a curva de rentabilidade.

Pela primeira vez desde 2007, um ano antes da grande crise financeira mundial, essa curva mudou.

Isso significa que, para os governos de EUA e Reino Unido, sai mais barato emitir dívida para daqui a dez anos do que para dois anos (embora o risco seja maior quanto mais tempo durar o empréstimo).

Esse fenômeno é incomum e costuma prenunciar uma recessão ou, ao menos, uma significativa desaceleração do crescimento econômico em escala global.

"Sem dúvida, durante este trimestre, o colapso da rentabilidade dos títulos de dívida tem sido o principal impulsor da alta do ouro", diz à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) Ole Hansen, chefe de estratégias em matérias-primas do banco dinamarquês Saxo Bank.
Alemanha e China

A essa conjuntura se somam os dados recém-divulgados da economia alemã: o PIB do país no segundo trimestre caiu 0,1%, puxada para baixo pela queda nas exportações e na produção industrial – seus dois grandes pilares –, em meio à guerra comercial entre EUA e China e ao caótico processo do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia, cujos termos ainda não estão definidos).


Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Fábrica de automóveis alemã; economia do país se contraiu no segundo trimestre do ano

Ao mesmo tempo, a China publicou seus dados de vendas ao varejo e de produção industrial – o que, segundo analistas, evidenciou a debilidade de sua demanda interna e freio no consumo.

Para Mark Haefele, chefe de investimentos do banco suíço UBS, esses dados "dão sequência a uma tendência de crescimento global baixo que já dura vários meses".

As expectativas de que a economia mundial siga claudicante vão puxar para baixo as taxas de juros de muitos países, como forma de os bancos centrais estimularem o crescimento internamente.

Mas, desta vez, não está claro que os bancos centrais vão contar em seu arsenal com políticas eficazes para levar a cabo essa tarefa, algo que também colabora para gerar ainda mais incerteza.

"Todos os olhos estão sobre o Fed (banco central americano). Qualquer corte adicional (na taxa de juros) em uma conjuntura de incerteza geopolítica pode fazer subir ainda mais o preço do ouro", opinam especialistas da M&G Investments.
Segundo fator

Em segundo lugar, os mercados têm medo da escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China.

Muitos analistas creem que essa disputa não vai arrefecer tão cedo.


Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
China desvalorizou sua moeda, para tornar suas exportações mais competitivas

"A disputa comercial se intensificará nas próximas semanas, já que nenhuma das partes têm interesse em recuar, o que deve alimentar a inquietação atual dos mercados e respaldar (a busca por) ativos seguros, como o ouro", explica Norbert Rücker, chefe de Economia do banco suíço Julius Baer.

De fato, o que começou como uma guerra tarifária entre EUA e China agora é cambial, uma vez que a China decidiu desvalorizar o yuan para tornar suas exportações mais competitivas, com impactos na economia de todo o mundo.

"Não acreditamos que as autoridades chinesas vão deixar cair ainda mais sua moeda, mas tampouco vemos uma solução rápida" para a guerra comercial, diz a equipe de análise global do Bank of America Merrill Lynch.
Terceiro fator

Por fim, a demanda pelo ouro tem se mantido forte, em uma busca pela diversificação de ativos.

Em âmbito global, bancos centrais aumentaram sua compra do metal precioso no primeiro semestre de 2019, para o maior nível em seis anos, totalizando reservas de US$ 15,7 bilhões.

No total, suas reservas subiram 145,5 toneladas de ouro no período, uma alta de 68% em comparação com o primeiro trimestre de 2018.


Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Bancos centrais aumentaram sua compra de ouro, particularmente os de países atingidos por sanções americanas

Os principais países compradores de ouro são Rússia, China e Irã, que respondem às sanções impostas pelos EUA vendendo dólares e comprando ouro para suas reservas.
Reino Unido e Argentina

A situação no Reino Unido, que está politicamente paralisado pelo Brexit, e na Argentina, cujo mercado despencou depois das primárias das eleições presidenciais, também contribui para esse cenário.

"Alguns mercados emergentes, como a Argentina, estão em crise", afirma Nitesh Shah, analista da empresa de investimentos WisdomTree. "Historicamente, quando eventos similares ocorreram na economia argentina, houve um efeito de contágio em outros países emergentes."

sexta-feira, 17 de maio de 2019

A nova ordem mundial é jogada na Internet



Gorodenkoff / Shutterstock

A Internet, como o melhor exemplo dos avanços na globalização econômica e política, desenvolveu um modelo particular de governo. O modelo tem sido capaz de lidar com os conflitos que inevitavelmente surgem em face da tecnologia disruptiva e manter sua natureza global.


Embora a Internet é muitas vezes percebida como um bem público global, seus recursos-a infra-estrutura crítica que faz a Internet funcionar como um único vermelhos são principalmente nas mãos de organizações privadas que coexistem com outros jogadores no ecossistema, incluindo os governos.

Vamos começar lembrando o que é que mantém a Internet funcionando como uma rede tecnicamente única.

Internet é concebido como uma rede projetada para permitir a interligação de diferentes equipamentos, com a única exigência de protocolo de comunicação usado como o IP (Internet Protocol) e tiver atribuído um endereço IP, que serve como um identificador exclusivo para a máquina. Para que uma rede funcione adequadamente e pacotes de informações para saber para onde ir, os endereços IP devem ser necessariamente únicos e, consequentemente, devem ser gerenciados centralmente.

Assim, quando queremos acessar ou enviar conteúdo pela Internet, precisamos conhecer o endereço IP do destinatário. Na verdade, os endereços IP são traduzidos, por exemplo, em endereços da Web - como telos.fundaciontelefonica.com -, mais fáceis de serem lembrados pelos humanos. Para que não haja conflitos, essa conversão também deve ser feita de maneira coordenada em todo o mundo.

No início da Internet, a tarefa de coordenar o uso de endereços IP foi realizada por um estudante da Universidade da Califórnia, Jon Postel, que gravou e anotou manualmente cada nova máquina conectada à rede. Como a Internet cresceu em tamanho, a criação de um sistema de gerenciamento global e mais escalável tornou-se essencial. Em 1998, foi criada a Corporação para Atribuição de Nomes e Números na Internet ( ICANN ), uma organização privada sem fins lucrativos que ainda continua coordenando a alocação e adjudicação de identificadores que devem ser únicos, como Endereços IP e nomes de domínio - endereços da web.
Quem controla a Internet

A questão de quem controla a Internet não tem uma resposta imediata. A Internet desenvolveu um ecossistema e estrutura de governança muito complexos.

Os governos e os parlamentos têm, naturalmente, um papel muito importante no que podemos chamar de governação socioeconómica da Internet, no exercício das suas competências para desenvolver padrões e regular o funcionamento dos agentes económicos, e através de sua participação em organismos organizações multilaterais como as Nações Unidas (ONU). No entanto, a governança técnica da Internet - que controla recursos críticos e mantém a coordenação de endereços IP e nomes de domínio em todo o mundo - se desenvolveu com alguma independência dos governos, ou pelo menos da maioria dos governos.

Desde a sua criação, a ICANN estava plenamente consciente de que a sua missão principal era altamente técnico, mas que seu papel foi além destas questões e tinha implicações políticas, e que, como a Internet expandiu seu alcance geográfico, deve se esforçar para envolver-se em participantes processos de todas as partes do mundo.

Portanto, a ICANN usa uma estrutura organizacional conhecida como multistakeholder ou multi-stakeholder, na qual a sociedade civil, a comunidade técnica, os governos e o setor privado são tratados em pé de igualdade. O modelo de múltiplas partes interessadas foi bem-sucedido, na medida em que conseguiu manter uma rede aberta e segura operando globalmente.

Por outro lado, a governança socioeconômica da Internet é tremendamente fragmentada e longe de encontrar uma solução para enfrentar os desafios que ela enfrenta. Sim, consolidou um mecanismo consultivo muito relevante por meio de instituições como o Fórum de Governança da Internet (IGF), que serve como catalisador de debates. No entanto, o estabelecimento de mecanismos sólidos de cooperação transnacional para questões de privacidade, segurança, direitos humanos ou economia digital ainda é limitado.
ICANN e o governo dos Estados Unidos

Essa internet surge nos Estados Unidos é certamente conhecida por muitos leitores. Poderíamos dizer que a NSFNet, uma rede que criou a National Science Foundation para conectar universidades e centros de pesquisa, é a internet original.

Com a criação da World Wide Web, uma tecnologia que é construído sobre Internet e facilita o acesso à informação do cidadão médio através de endereços e links que você pode navegar, experiência de internet comercial um acelerado crescimento desde 1995 Diante dessa situação, o governo dos EUA privatizou a NSFNet e delegou a gestão de identificadores exclusivos da Internet em 1998 à ICANN, uma organização fundada para esse fim.

No entanto, o governo dos EUA reservou uma função de supervisão por meio de um contrato entre a ICANN e o Departamento de Comércio (DoC). Neste contrato, a ICANN se comprometeu a continuar sendo uma corporação sem fins lucrativos, com sede nos Estados Unidos, transparente, responsável e com participação múltipla .

O restante dos governos tem participado historicamente da ICANN como um grupo de interesse mais dentro da comunidade internacional, representado no GAC (Governmental Advisory Group, grupo consultivo governamental). O GAC desempenha um papel muito importante ao assessorar a diretoria em questões que cruzam as atividades e políticas da ICANN e as leis nacionais ou tratados internacionais.

Embora o papel do governo dos Estados Unidos tenha sido puramente de supervisão e nunca tenha tomado medidas sobre o controle de recursos críticos da Internet, o poder residual de supervisão dos Estados Unidos foi desconfortável para muitos outros governos.

Em 2014, o governo dos Estados Unidos anunciou sua intenção de renunciar ao seu contrato com a ICANN, desde que fosse encontrado um mecanismo para substituí-lo e que o sistema de prestação de contas fosse aprimorado. Entre as demandas dos Estados Unidos, o mecanismo de substituição deve manter a natureza aberta da Internet e o modelo multissetorial . Em outras palavras, a solução não poderia ser substituir o governo dos Estados Unidos por um conjunto de governos.

A solução adotada foi a criação de uma nova entidade legal subsidiária da ICANN que gerencia recursos críticos em todo o mundo. A nova fórmula tem encontrado grande apoio tanto do setor privado e as associações representativas da sociedade civil, e, obviamente, tendo tido o apoio do governo dos EUA, que avaliou a possibilidade de que um governo ou grupo de governos para levar a O controle da ICANN nas novas circunstâncias foi extremamente remoto.
O Fórum de Governança

O fato de uma organização internacional sem fins lucrativos ter sido criada com sucesso e independente de governos para o gerenciamento de recursos críticos da Internet não significa que os governos tenham sido deixados de fora da Internet. De fato, a Internet virou de cabeça para baixo o sistema de organização política estabelecido há quase 400 anos em torno do conceito de soberania nacional.

Já em 2003, o início da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação (CMSI) canalizou as preocupações dos governos em todo o mundo para as questões que surgiram sobre a governança de uma rede toda vez mais global Esta cimeira foi patrocinada pelas Nações Unidas em duas fases, em 2003 e 2005, realizadas respectivamente em Genebra e na Tunísia.

A WSIS culminou com a Agenda de Túnis popular eo acordo para realizar todos os anos sob fórum da ONU sobre a governança da Internet, a IGF, reunindo as diversas partes interessadas e servir como um espaço aberto e descentralizado para o debate sobre políticas que favoreçam a sustentabilidade e a solidez da Internet. O mandato inicial confiado à ONU foi de 10 anos, que foi renovado em 2015 por mais dez anos.

O IGF tem sido uma boa plataforma para o debate sobre os muitos desafios que a Internet gerou, em questões como a proteção de menores, propriedade intelectual, privacidade, segurança, o fosso digital e assim por diante. No entanto, há uma visão crescente dentro da comunidade global de múltiplas partes interessadas , que acredita que é hora de procurar mecanismos para gerar resultados mais tangíveis.

O próprio Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou na última edição do IGF em Paris que "os debates sobre a governação da Internet não podem ser deixados em paz nos debates". E é que nos últimos anos tem havido uma série de eventos que tornaram adeptos a uma visão evolucionária da governança da Internet.
Espionagem maciça

Poderíamos dizer que esses eventos começaram em 2013 com as revelações de Edward Snowden, da ex-CIA, sobre os programas de espionagem do governo dos Estados Unidos. O massivo escândalo de espionagem foi o início da manifestação pública da magnitude do campo de batalha que a Internet tinha sido para a geopolítica.

Em 2014, o Brasil , cujo presidente era a vítima de espionagem escândalo masivo- Cúpula Global organizou um multistakeholder Governança da Internet chamado NetMundial , cujo objetivo era a desenvolver a Declaração de multissectorial de São Paulo com uma série de princípios fundamentais na Internet e uma folha de rota para o futuro de sua governança. Apesar da não - natureza vinculativa da declaração, muitos valorizado NetMundial como um passo na direção certa para o seu formato multistakeholder e resultados tangíveis.

Os escândalos estão ajudando a impulsionar a busca de mecanismos para a cooperação transnacional e a coordenação de padrões na Internet. Assim, o recente caso Cambridge Analytica colocou a questão de volta nas agendas políticas. Este escândalo mostrou que a empresa dedicada a campanhas comerciais e políticas utilizou indevidamente informações pessoais de pelo menos 50 milhões de usuários do Facebook para favorecer a campanha de Donald Trump. De fato, em 2018, assistimos a diversos apelos para consolidar os esforços realizados ao longo dos anos nos mecanismos de governança da Internet.

Outro apelo para consolidar os esforços feitos na governança da Internet veio de Tim Berners-Lee, inventor da Web, que apresentou seu projeto " Contrato para a Web " durante a cerimônia de abertura da Web Summit em novembro de 2018. Este documento contém princípios aos quais governos, empresas e cidadãos de todo o mundo podem se comprometer para proteger um site aberto e contribuir para o desenvolvimento de um "contrato para a web" real, que "estabelecerá as funções e as responsabilidades dos governos, empresas e cidadãos ".
Multilateralismo

Entre as últimas propostas incluíam o presidente francês Emmanuel Macron, que anunciou um "apelo à confiança e segurança no ciberespaço" na décima terceira edição do IGF, realizado em Paris em novembro de 2018. Em sua chamada, Macron cunhou um novo termo, multilateralismo inovador, porque "precisamos inventar novas formas de cooperação multilateral que envolvam não apenas os estados, mas todos os atores".

O apelo de Paris abre um novo caminho na busca de uma mudança de paradigma para a governança socioeconômica da Internet que, com a crescente hibridização entre o mundo físico e o mundo digital, poderíamos dizer que é simplesmente governança socioeconômica.

No entanto, existem importantes diferenças culturais e interesses geoestratégicos relevantes que não facilitam o caminho. A chamada de Paris foi assinada por mais de cem governos e mais de mil atores não-governamentais, incluindo empresas como Facebook, Google e Microsoft, e todos os Estados-membros da União Européia. Entre os não-signatários estão os gigantes tecnológicos chineses, os governos da Rússia e da China, e também os Estados Unidos.


A versão original deste artigo é publicada na edição 110 da Revista Telos , Fundação Telefônica.

Zoraida Frías , Professora Assistente do ETSI Telecomunicación, Universidade Politécnica de Madri (UPM)

Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation . Leia o original .
 https://grandesmedios.com

quarta-feira, 27 de março de 2019

A influência do consumo


Uma ampla abordagem sobre os supérfluos essenciais e a cultura do hedonismo

Paulo César Galetto | Foto Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca


Promovida pela aceleração do consumo e ainda sugestionada pela mídia, pelas facilidades e confortos que a tecnologia nos proporciona, além de outros recursos disponíveis, somos constantemente influenciados e estimulados a conviver com o ideal do ego em uma cultura em que tudo é possível, tudo pode ser adquirido.

Pressionadas por essa cultura hedonista, as pessoas vivem atualmente em busca de um padrão de vida perfeito. Este novo cenário traz uma apologia sobre o que é necessário e o que é supérfluo, tornando-se este último, o essencial.

É fato que os processos de mudança fazem parte da nossa evolução e estão em evidência nos dias atuais. Tais eventos, por sua vez, trouxeram um aumento da necessidade de consumir que leva a um aumento da necessidade de produzir que por sua vez leva à necessidade de utilizar cada vez mais recursos. O esquema abaixo ilustra a situação apresentada.
A relação do consumo com a produção


Como reflexo desse ciclo, significativas mudanças ocorrem em todas as esferas, sociais, culturais e econômicas, e como consequência disso, também está influenciando a psique humana.

Se o supérfluo tornou-se necessário, será que atualmente vivemos em um mundo em que as aparências são mais importantes do que o conteúdo?

“Nada é o bastante para quem
considera pouco o que já é suficiente”.
Aristipo, filósofo grego

Sobre outro viés, as empresas já projetam seus produtos para serem descartados, chama-se isto de “descartabilidade”, ou seja, os produtos já são produzidos com um ciclo de vida cada vez menor, estimulando as pessoas a consumirem ainda mais.

Ao mesmo tempo, essa cultura tem produzido um sentimento de vazio e não foi capaz de livrar as pessoas do desamparo, da ilusão e da culpa. Sob este ponto de vista, será que é por isso que as neuroses, as angústias e estados depressivos estão cada vez mais evidentes em nossa época?


Se por um lado tivemos um amplo desenvolvimento para a sociedade, por outro podemos pensar que também tivemos mudanças de hábitos de consumo. Em paralelo, as empresas e a mídia descobriram ao longo das décadas através de estudos do comportamento, as fragilidades mais íntimas do indivíduo.

Fica evidente neste caso que, se há um público consumidor para determinada mercadoria produzida compulsoriamente, há uma necessidade de influenciar as condutas individuais.

Bauman (2005) descreve quando nossa capacidade de querer, desejar e de experimentar novas emoções passou a ser estimulada pela mídia, repetidas vezes, o consumo adquire o status de consumismo. Sendo assim, que fatores que levam as pessoas a serem compulsivamente consumistas?

“A ânsia de um reconhecimento
e a busca desenfreada para ocupar
tal lugar na sociedade geram
nas pessoas estados depressivos,
baixando sua autoestima, caso o
indivíduo não esteja preparado,
pois se sente frustrado.” Zimerman (2010, p 20).
Diferença entre o consumo e o consumismo

Mancebo (2002) define o consumo como o conjunto de processos socioculturais nos quais se realizam a apropriação e os usos dos produtos para atender as necessidades de sobrevivência.

Já o consumismo, segundo Aguiar (2002), tem origens emocionais, sociais, financeiras e psicológicas. Tudo isso, leva as pessoas a gastarem exageradamente, com o objetivo de suprirem alguma indiferença social, a falta de recursos financeiros, a baixa autoestima ou a perturbação emocional.


A cultura pós-moderna, cada vez mais, utiliza uma linguagem simbólica instituída pelo capitalismo através dos padrões de beleza, moda, marcas, status, etc. Sendo assim, cada vez mais as empresas vendem suas mercadorias projetadas para serem descartadas com maior rapidez, ditadas pelas tendências de mercado, baseados nas supostas vantagens e benefícios, e não pela real necessidade. Por sua vez, as pessoas assumem uma posição alienada de si, pois sua satisfação deve ser imediatamente atendida.

Se a cultura do excesso e a globalização passaram a ser uma ausência de fronteiras, então significa que o imediatismo exacerbado do “ter”, deixou o “ser” em segundo plano. Será que não existem mais fronteiras para mente?

Atualmente, o decorrente desejo pelo supérfluo e satisfação imediata através do consumismo está evidente em todas as camadas sociais. E está adquirindo um papel fundamental em nossa cultura e que através do consumismo, os valores humanos agora são outros.

Entretanto, Birman (2006) alerta sobre o assédio e os excessos do mundo pós-moderno como, por exemplo: frustração, culpa e desejos não atendidos, entre outros sentimentos podem manifestar-se, trazendo consequências psíquicas para o corpo.
O comportamento do consumidor

Podemos destacar como, por exemplo, John W. Watson, fundador do conceito “Behaviorismo” (comportamento); seus estudos foram essenciais para as organizações entenderem que uma propaganda repetitiva através de um forte apelo emocional reforçaria uma resposta e levaria a certos hábitos de compra.

Ernest Dichter, criador das pesquisas motivacionais, teve como base de estudos a psicanálise de Sigmund Freud e com estas referências, a ciência do comportamento ganhou uma posição mais segura.


A partir desses conceitos, as pesquisas de marketing e de motivação começaram a ter uma finalidade específica para as empresas, não só vender o produto, mas também a de descobrir as motivações ocultas nas pessoas.

Surgiu um novo campo de estudo, o estudo do comportamento dos consumidores, através de influências de Freud, Newman, Kanota, e Engel. As ciências comportamentais tornaram-se foco de estudo nas faculdades de Administração. O comportamento do consumidor começou a ser visto como um amplo campo de
pesquisa, envolvendo outras áreas do conhecimento como economia, marketing, psicologia e outras ligadas às ciências comportamentais, como sociologia e antropologia.

O exemplo de Engel (2005), que relata um caso de uma pesquisa de motivação foi utilizada observando que as mulheres assam um bolo a partir do desejo inconsciente de dar a luz. Descoberto isso, uma campanha desenvolvida pela Pillsbury capitalizou-se em cima da frase “Nada transmite tanto amor como algo saído do forno”.

Com base nessas pesquisas adquiriu-se novos conhecimentos e as empresas começaram a utilizar diversas técnicas para influenciar o comportamento do consumidor com declarações subliminares, atraindo-as pelo inconsciente com métodos para alcançar a mente das pessoas, induzindo-as e fazendo-as responder conforme o anunciante pretendia. Todas essas as ações desenvolvidas são estratégias de mercado para lançar seus produtos.

Sheth (2008) descreve que o comportamento do cliente é definido como as atividades físicas e mentais realizadas pelo cliente e que resultam em decisões e ações como comprar e utilizar um produto ou serviço bem como pagar por ele. O comportamento do consumidor é como atividade diretamente envolvida em obter, consumir e dispor de produtos e serviços, incluindo processos decisórios que antecedem e sucedem as ações.

Isto significa que: para o consumidor adquirir um produto é necessário passar por um processo de decisão de compra, pode-se destacar que ele precisa ter uma necessidade e um desejo em evidência.

No campo da Administração este processo decisório é definido como positivismo lógico, no qual há dois objetivos principais que precisam ser alcançados:

1. Entender e prever o comportamento do consumidor e;

2. Descobrir como influenciá-lo.
Variáveis que moldam a tomada de decisão e o comportamento de compra

As variáveis são determinadas por vários fatores, divididos em três categorias, conforme o esquema a seguir:


Importante enfatizar que, quando comportamento energizado é positivo, acelera o processamento de informação e reduz o tempo de decisão na seleção de produtos apropriados. E como as empresas projetam suas estratégias para descobrir essas influências motivadoras para satisfazer uma necessidade?

Tudo começa quando há um reconhecimento da necessidade. Uma necessidade é ativada e sentida à medida que esta energia aumenta e conduz a pessoa em direção a um objeto. Freud chamou isso de pulsão (impulso ou libido). E quanto maior é a pulsão, maior a investida e urgência em satisfazê-lo. Aqui pressupõe a falta que antecede a necessidade.


As empresas que estão atentas a esses fatores conseguem promover produtos que são mais eficazes para aumentar a urgência de atender este impulso. Estimulando certos padrões de comportamento e na busca para a satisfação de uma necessidade, estes surgem para funcionar como desejos.

Se uma pessoa tem sede ou fome, por exemplo, sente um desconforto, um desprazer (neste caso a falta de nutrientes); ou seja, uma necessidade biológica. Neste momento o comportamento é ativado, e o produto oferecido leva às associações positivas, que ativam estes impulsos. Essa necessidade quando ativada, conduz o indivíduo em direção ao objeto e ele passa a comportar-se de acordo com este desejo.

Neste caso, as empresas utilizam estratégias para ativar esta motivação pela aproximação. Este conceito é utilizado para descrever seus esforços reduzindo as associações negativas para aproximar o cliente do produto, oferecem certo tipo de compensação. Tudo isso tem um sentido óbvio: Fazer os consumidores se sentirem bem. Isto quer dizer que as necessidades podem ser criadas?

Segundo Engel (2008) é possível, pois já está evidente que os profissionais de marketing induzem a um hábito e a um novo padrão de comportamento, manipulando as pessoas a comprarem coisas que não precisam.

Por exemplo: A empresa lança a seguinte mensagem: “Você precisa deste produto porque você merece estar bem”.

Este forte apelo emocional segundo Engel (2008), remete inconscientemente a uma autogratificação e pode reforçar a autoestima e como consequência leva a um comportamento merecido, ou seja, neste caso, a frase acima pode induzir e envolver o consumidor a algo que realmente ele necessita, ou acha que necessita.

Entretanto, esta arte de influenciar as atitudes e comportamentos das pessoas é uma das tarefas fundamentais, porém mais desafiadoras que as empresas enfrentam atualmente para conquistar seus consumidores.
Revista Conhecimento Prático Filosofia

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Por que tantos países estão fazendo as pazes com a maconha?


John CollinsLondon School of Economics

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Novo governo do México quer legalizar o uso recreativo de maconha

Ao redor do mundo, atitudes em relação ao consumo de cannabis estão mudando.

O novo governo do México planeja legalizar o uso recreativo de maconha, assim como o de Luxemburgo. Enquanto isso, a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, está avaliando fazer um referendo sobre o assunto.

Como a opinião pública – e a dos governos – muda, parece cada vez mais provável que outros países sigam o exemplo, levantando questões sobre, por exemplo, trabalhar em conjunto para gerenciar o uso e o fornecimento de maconha.

O que levou um país após o outro a avançar na direção o relaxamento de suas leis e, em muitos casos, a legalização total?
Guerra às drogas

Foi somente em 2012 que o Uruguai anunciou que seria o primeiro país do mundo a legalizar o uso recreativo de maconha. Em grande parte, a medida visava substituir as ligações entre o crime organizado e o comércio de cannabis por meio de uma regulamentação estatal.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Em 2012, o Uruguai anunciou que seria o primeiro país do mundo a legalizar o uso recreativo de cannabis

Mais tarde, no mesmo ano, eleitores do Estado de Washington e do Colorado se tornaram os primeiros nos EUA a apoiar a legalização da erva para uso não medicinal.

Sob o presidente Barack Obama, um crítico da guerra liderada pelos EUA contra as drogas, o governo americano recuou da aplicação das leis federais e efetivamente deu aos Estados uma luz verde para explorar alternativas.

Mais oito Estados e Washington DC apoiaram desde então a legalização da maconha recreativa e as penalidades estão diminuindo em outros lugares. O uso da maconha para fins medicinais é permitido em 33 dos 50 estados.

Em muitos aspectos, ainda se discute os efeitos da legalização na sociedade e na saúde dos indivíduos, mas não há dúvida de que a opinião pública e a política do governo se atenuaram.

A maré se espalhou pelas Américas, com o Canadá legalizando a venda, posse e uso recreativo de maconha em todo o país em outubro.

Que o México vai realmente legalizar a maconha parece quase uma certeza. O novo governo de Andrés Manuel López Obrador apresentou um projeto de lei que legalizaria seu uso médico e recreativo, e a Suprema Corte do país recentemente autorizou o uso recreativo da erva.

Outros países estão avançando. Embora a venda de maconha permaneça ilegal, a posse de pequenas quantias não é mais um crime em países como Jamaica e Portugal. Na Espanha, é legal usar cannabis em locais privados, enquanto a droga é vendida abertamente em cafeterias na Holanda. Outros países permitem o uso de cannabis medicinal.

Ao redor do mundo, há muitos outros países onde a mudança está em andamento:

- No Reino Unido, os médicos foram autorizados a prescrever produtos à base de cannabis desde novembro

- A Coreia do Sul legalizou o uso médico estritamente controlado, apesar de processar moradores por uso recreativo no exterior

- Uma sentença de morte dada a um jovem vendedor de óleo de cannabis provocou debate sobre a legalização na Malásia

- A mais alta corte da África do Sul legalizou o uso de cannabis por adultos em lugares privados

- Lesoto tornou-se o primeiro país africano a legalizar o cultivo de maconha para fins medicinais

- O Líbano está considerando a legalização da produção de cannabis para fins médicos, para ajudar sua economia
Crianças doentes

Em muitos países, o movimento em direção à legalização começou com um abrandamento da opinião pública.

Nos EUA e no Canadá, imagens de crianças doentes a quem foram negados medicamentos que poderiam mudar suas vidas ​​tiveram um tremendo impacto na opinião pública - uma preocupação que trouxe a legalização para fins médicos.

Um abrandamento similar foi visto no Reino Unido.

Direito de imagemPAImage caption
A mãe de Alfie Dingley, Hannah Deacon, disse que o óleo de cannabis ajudou a controlar a epilepsia do menino

Em junho, Billy Caldwell, 12 anos, que sofre de epilepsia grave, foi internado no hospital depois que seu óleo medicinal de cannabis foi confiscado. Um mês depois, uma licença especial para usar o óleo de cannabis foi concedida a Alfie Dingley, de 7 anos, que tem uma forma rara de epilepsia.

Após campanhas encabeçadas por celebridades, o governo do Reino Unido mudou a lei para permitir que os médicos prescrevam produtos de cannabis.

Estados americanos como a Califórnia descobriram nos anos 1990 e 2000 que a cannabis medicinal pode suavizar as atitudes em relação ao uso recreativo.

Mas no Reino Unido, o Ministério do Interior diz que o uso recreativo de cannabis permanecerá proibido, embora figuras importantes, incluindo o ex-líder conservador William Hague, tenham sugerido uma revisão.

O México também teve casos de crianças que não receberam cannabis medicinal. O país ainda foi motivado pela extraordinária violência de sua guerra às drogas.

Embora a maconha represente uma parcela relativamente pequena das receitas do cartel de drogas, continuar banindo-a é visto cada vez mais em desacordo com a realidade.

Diplomatas mexicanos advertiram os EUA de que era difícil reforçar a luta contra a cannabis quando o estado norte-americano vizinho da Califórnia legalizou o uso recreativo.
O mercado de maconha

Com os países em todo o mundo caminhando para alguma forma de legalização, outros estão correndo para recuperar o atraso.

Muitas vezes, como em muitas partes da América Latina, os governos querem que seus agricultores tenham acesso aos mercados de cannabis medicinal potencialmente lucrativos que estão se desenvolvendo.

Corporações também manifestaram interesse. Por exemplo, a Altria, que possui marcas de cigarros, incluindo a Marlboro, fez um investimento de US$ 1,86 bilhão (cerca de R$ 7,2 bilhões) em uma empresa canadense de maconha.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Altria, que possui marcas de cigarros, incluindo a Marlboro, fez um investimento de US $ 1,86 bilhão (cerca de R$ 7,2 bilhões) em uma empresa canadense de maconha

Com o passar do tempo, como os Estados Unidos demonstram, é bem possível que o comércio medicinal possa facilmente transformar-se em vendas recreativas - potencialmente abrindo um mercado ainda maior.

Um obstáculo imediato é que a cannabis para fins recreativos não pode ser comercializada através das fronteiras. Os países só podem importar e exportar maconha medicinal sob um sistema de licenciamento supervisionado pelo Conselho Internacional de Controle de Narcóticos.

Fazendeiros em países como Marrocos e Jamaica podem ter uma reputação de produzir cannabis, mas não podem acessar mercados onde os produtores domésticos às vezes têm dificuldades para fornecer - como aconteceu no Canadá após a legalização.
Os efeitos da cannabis

- Pode causar confusão, ansiedade e paranoia

- Se fumada com tabaco, pode aumentar o risco de doenças como câncer de pulmão

- O uso regular tem sido associado a um risco maior de doenças psicóticas

- Usada em alguns lugares para tratar os efeitos colaterais da esclerose múltipla e câncer

- Testes em andamento analisam como ela pode ser usada para tratar outras doenças, incluindo epilepsia e HIV/ aids

Fonte: NHS Choices
Desenvolvendo regras

Embora haja alguns rumores de mudança dentro do sistema legal internacional, até agora isso parece distante.

Os governos que querem avançar para a legalização enfrentam um desafio: seguir um curso entre a legalização descontrolada e a proibição rígida.

Uma indústria mal regulada aliada a substâncias que alteram a mente não são uma combinação com a qual muitas sociedades se sentiriam confortáveis em conviver.

Mas parece praticamente certo que mais países mudarão sua abordagem da cannabis nas próximas décadas.

Assim, as regras domésticas e internacionais precisarão ser atualizadas.

Esta análise foi encomendada pela BBC de um especialista que trabalha para uma organização externa. John Collins é o diretor-executivo da Unidade Internacional de Políticas sobre Drogas da Escola de Economia e Ciência Política de Londres.
BBC Brasil

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

As 3 economias da América Latina próximas de se tornarem as maiores decepções de 2018


Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
A Nicarágua e a Argentina estão entre os países cujas economias devem sofrer em 2018

Enquanto a crise se agrava na Venezuela, país com o pior desempenho econômico na América Latina, três outras economias da região correm o risco de fechar o ano sob fortes quedas.


É o caso da Nicarágua, da Argentina e do Equador, que têm dado sinais de que terminarão 2018 numa situação complicada.

No início do ano, poucos imaginavam que haveria uma revolta popular nicaraguense e que ela provocaria centenas de mortes.

Na Argentina, o bom desempenho econômico no primeiro trimestre não indicava que meses depois haveria uma corrida contra a moeda local, o peso, e que a taxa básica de juros chegaria a 60% (no Brasil, ela é de 6,5%).

Quanto ao Equador, os analistas se preocupam com o alto nível de endividamento público.

Já o Brasil, que nos últimos anos se habituou a figurar nos rankings das economias com pior desempenho do continente, escapou desta vez. Segundo a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), o país deve crescer 1,6% em 2018 - 0,1 ponto percentual acima da média de crescimento de toda a América Latina, segundo a comissão.
Nicarágua: o impacto da crise social e política

A crise social e política na Nicarágua resultou em mais de 300 mortes e quase 2.000 pessoas feridas, segundo o Escritório do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos.

A organização denunciou execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados e barreiras ao acesso à assistência médica num país que enfrenta protestos massivos contra o presidente Daniel Ortega.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Manifestantes na Nicarágua, onde a repressão já provocou mais de 300 mortes

Em meio à crise, a Cepal projeta uma busca queda no crescimento econômico, que deve passar de 4,9%, em 2017, para 0,5% neste ano.

O conflito teve um impacto profundo no turismo, no comércio e na agricultura, além de afetar exportações e investimentos.

"Se o baixo crescimento persistir e as tensões sociais não se resolverem, deve-se esperar que os indicadores sociais comecem a deteriorar", disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Daniel Titelman, diretor da Divisão de Desenvolvimento Econômico da Cepal.

Mas há um elemento importante na economia local, que são as remessas de nicaraguenses no exterior - o economista estima que não haverá redução desse volume, ao menos um fator positivo num país tão convulsionado.

A Nicarágua representa 0,3% do PIB da América Latina e registrou no ano passado um PIB per capita de US$ 2.217 (cerca de R$ 8.600). O país tem 6,2 milhões de habitantes.
Argentina em situação de emergência

A Argentina, com 44,5 milhões de habitantes, tem vivido dias sombrios. O presidente Mauricio Macri declarou que o país está em uma "situação de emergência" e anunciou um plano de ajuste que inclui uma redução no número de ministérios a menos da metade e volte a impor impostos sobre as exportações agrícolas.

O peso argentino perdeu 50% de seu valor ante o dólar no último ano, e espera-se que a depreciação acelere ainda mais a inflação, que já superou os 30%.

Além disso, a taxa de juros chegou a 60%, algo difícil de imaginar no primeiro trimestre, quando as coisas caminhavam dentro do previsto.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
Mutirão para alimentar pessoas durante protesto em Buenos Aires

Macri busca diminuir o déficit orçamentário para convencer investidores de que o país pagará sua dívida, uma das condições acordadas como parte de um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de US$ 50 bilhões (o equivalente a quase R$ 195 bilhões).

O governo esperava atingir um equilíbrio fiscal até 2020 e o adiantou para 2019, impondo-se uma meta difícil de alcançar.

"A Argentina tem problemas de baixo crescimento, alta inflação e baixa credibilidade por parte dos mercados. Não é fácil manejar essa situação", afirma Titelman, da Cepal.

A Cepal projeta que a economia argentina, que cresceu 2,9% em 2017, tenha uma queda de 0,3% neste ano.

Terceira maior economia da região, a Argentina representa 11,7% do PIB regional e registrou no ano passado um PIB per capita de US$ 14.305 (cerca de R$ 56 mil).
O Equador e o ajuste do gasto público

O Equador cresceu 3% em 2017, principalmente graças ao aumento do consumo privado e do gasto público, financiado por meio de endividamentos.

É justamente o tamanho da dívida uma das pressões econômicas que inquietam os analistas estrangeiros.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
O Equador iniciou um plano de austeridade em meio a um forte endividamento

Outro aspecto preocupante é que no ano passado o investimento caiu 0,5%, um dos fatores que fizeram a Cepal projetar um crescimento de 1,5% na economia do país neste ano.

Como essa queda ocorreu em apenas 12 meses? "Os motores que empurravam a economia em 2017 se debilitaram", diz Titelman, da Cepal.

No Equador, o petróleo tem um papel muito importante na economia, e a produção total do óleo teve uma queda de quase 3,4% em 2017.

Isso, somado a outras incertezas, como o ajuste de gastos promovido pelo governo de Lenín Moreno, influenciaram na redução das projeções.

A Cepal estima que haverá queda no consumo em meio a uma política monetária mais restritiva.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption
A economia do Equador está dolarizada

O Equador é uma economia dolarizada altamente sujeita aos vaivéns externos. "Quando o dólar se valoriza, isso não convém ao Equador, porque ele perde competitividade", disse Titelman.

E já que os EUA estão subindo as taxas de juros, novas nuvens podem surgir no horizonte. Frente a esses desafios, o governo equatoriano apostou em medidas de austeridade para reduzir o déficit e a dívida pública, com o intuito de aumentar a arrecadação.

O plano foi anunciado em abril deste ano e deixou organismos internacionais e investidores esperançosos. O Equador representa 1,9% da economia latino-americana e registrou no ano passado um PIB per capita de US$ 6.199 (cerca de R$ 24 mil). O país tem 16,8 milhões de pessoas.
BBC Brasil

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

As 7 forças que mudarão o futuro da economia global


Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption

Atualmente, a produtividade econômica de algumas cidades da China é maior do que a de países inteiros

A chegada da internet no início dos anos 1990 é uma das últimas quebras de paradigma que transformaram profundamente a economia e a vida das pessoas.

A internet foi uma mudança com impacto tão radical (ou quase tão radical), quanto teve uma vez o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico ou a teoria da relatividade de Albert Einstein, argumenta Jeff Desjardins, editor do livro Visualizing change: a data-driven snapshot of our world ("Visualizando a mudança: um retrato baseado em dados do nosso mundo", em tradução livre).

No mundo dos negócios, acrescenta o fundador do site Visual Capitalist, a transformação tecnológica é a maneira mais óbvia de promover mudanças nos mercados.

Mas também os novos consensos nesta área podem ser impulsionados por indivíduos (como Steve Jobs, Warren Buffett ou Jeff Bezos); modelos inovadores (como SpaceX, Uber ou Spotify); mudanças na mentalidade dos consumidores (como a inclinação para energias renováveis); ou alterações no equilíbrio da influência econômica no mundo (como a ascensão da China).

"Isso significa que grandes oportunidades podem vir de qualquer lugar", diz Desjardins.

nullDireito de imagemGETTY IMAGESImage caption

A tecnologia e o comércio se uniram de tal maneira que a informação se tornou mais valiosa do que os ativos físicos

"A mudança de paradigma de amanhã está acontecendo em algum lugar hoje", acrescenta.

E pode vir de mãos dadas com o crescimento econômico da África, a explosão das criptomoedas, a onipresença da inteligência artificial, a revolução verde ou em qualquer outro fator, ressalta o editor.

Nesta reportagem, selecionamos sete forças que vão mudar o futuro da economia, de acordo com as informações contidas no livro.
1. A invasão dos gigantes da tecnologia

Durante décadas, as empresas líderes no mundo focaram na produção industrial em série e em larga escala ou na extração e processamento de recursos naturais. É o caso de companhias como a Ford, General Electric e ExxonMobil.

Ao longo do tempo, corporações da área de finanças, telecomunicações ou vendas de produtos de varejo entraram na lista das 10 empresas com valor de mercado mais alto. Mas agora a tecnologia e o comércio se uniram de tal maneira que a informação se tornou mais valiosa do que os ativos físicos.

A mudança de paradigma se acelerou tão rapidamente que, nos últimos cinco anos, a lista das maiores empresas com ações negociadas na bolsa mudou radicalmente, como mostra o gráfico abaixo.

2. Aceleração do crescimento chinês

Embora não seja algo novo, chama a atenção a velocidade com que a economia e o desenvolvimento tecnológico chinês avançam. Atualmente, a produtividade econômica de algumas cidades da China é maior do que a de países inteiros.

De fato, o país tem mais de cem cidades com mais de um milhão de habitantes. Elas foram desenvolvidas com base na criação de fábricas, na extração de recursos naturais ou no gerenciamento de dados.

Um exemplo é o desenvolvimento observado em cidades ao redor do rio Yangtze, onde estão localizadas Xangai, Suzhou, Hangzhou, Wuxi, Nantong, Ningbo, Nanjing e Changzhou. Esta última, com um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 2,6 trilhões, superior ao da Itália.

Por enquanto, as estimativas indicam que, entre 2017 e 2019, a China será a economia com a taxa de crescimento mais alta (35,2%) e que, até 2030, ultrapassará os Estados Unidos como líder na economia mundial.
3. Ascensão das megacidades

Nas próximas décadas, o crescimento populacional das cidades transformará a economia global. As projeções sugerem que haverá uma estabilização das taxas de natalidade nos países ocidentais e na China, enquanto será observado um boom demográfico e uma rápida urbanização em nações africanas e no restante da Ásia.

Esse fenômeno, muito estudado, é conhecido como a ascensão das megacidades.

Até o fim deste século, a África terá pelo menos 13 megacidades maiores do que Nova York.
4. O aumento da dívida

Estima-se que haja no mundo uma dívida acumulada de mais de US$ 240 trilhões, dos quais US$ 63 trilhões são empréstimos de governos.

Os Estados Unidos, a Europa e algumas economias emergentes aumentaram seu nível de endividamento nos últimos anos, aproveitando o ciclo de baixas taxas de juros. Nos Estados Unidos, a dívida pública subiu recentemente, enquanto o déficit fiscal do país continua a crescer rapidamente.

Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), o Japão tem uma dívida de 253%; Estados Unidos, de 105%; Espanha, de 98%; Reino Unido, de 85%; Brasil, de 74%; e México, de 46%, para citar alguns exemplos.

E a nível global, os países que acumulam mais dívidas em relação aos outros são os Estados Unidos, o Japão e a China.

5. A velocidade da mudança tecnológica

Entre as grandes inovações tecnológicas da história moderna, estão, por exemplo, a criação da eletricidade, do telefone, do carro ou do avião. A massificação desses produtos levou, em alguns casos, várias décadas, considerando o tempo decorrido entre o desenvolvimento do primeiro protótipo e a ampla adesão por parte dos consumidores.

Estima-se que no caso do carro foram cerca de seis décadas; do telefone, cinco; e dos cartões de crédito, mais de 20 anos.

Hoje, no entanto, pode levar apenas alguns meses para o mercado adotar uma nova tecnologia.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption

O mercado está adotando inovações tecnológicas a uma taxa exponencial

6. Barreiras comerciais

Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo começou a eliminar progressivamente as barreiras comerciais entre os países.

Mas essa tendência foi recentemente desafiada por países como os Estados Unidos que, em 2018, impuseram tarifas a vários produtos chineses, desencadeando uma guerra comercial de bilhões de dólares entre Washington e Pequim.

A dúvida nesse sentido é se o mundo continuará avançando rumo ao livre comércio ou se vão surgir novas regras nas relações comerciais entre os países, fenômeno que o livro descreve como o "paradoxo comercial".Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption

A guerra comercial entre os EUA e a China pode ser o início de uma mudança de tendência no comércio global
7. A Revolução Verde

O uso crescente de energias renováveis se acelerou nos últimos anos, à medida que os custos de produção diminuíram e as tecnologias avançaram.

Algumas projeções indicam que, em duas décadas, a energia solar e a eólica vão responder por quase metade da capacidade elétrica instalada no mundo. Outras sugerem que até o ano de 2047 haverá cerca de 1 bilhão de carros elétricos em trânsito pelo mundo.

E o investimento global em energias mais limpas pode chegar a US$ 10,2 trilhões no ano de 2040, segundo as cifras apresentadas no livro.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption

Em duas décadas, a energia eólica e solar vão representar quase metade da capacidade elétrica instalada no mundo

BBC Brasil

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos