domingo, 12 de abril de 2026

Trabalho por plataformas digitais

Com a reclusão imposta pela pandemia de covid-19, intensificou-se a já crescente dependência de plataformas digitais – aplicativos, videoconferências, serviços dos mais diversos – para obter algum tipo de tarefa remunerada, o que vem transformando o perfil das atividades econômicas e dos trabalhadores. Embora a chamada ‘plataformização do trabalho’ tenda a se generalizar – a se espalhar para todos os setores e funções –, há brechas que permitem desenvolver tecnologias autônomas capazes de gerar benefícios para os trabalhadores.





A pesquisa mais recente do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) sobre o uso de internet no Brasil durante a pandemia apontou que 76% das pessoas com acesso à internet que trabalhou neste período vendeu algum produto ou serviço por meio de plataformas digitais – incluindo distintos aplicativos e redes sociais digitais. A investigação também mostrou que 8% trabalharam como motoristas ou entregadores por meio desse tipo de plataformas.

Isso evidencia um fenômeno que temos chamado de ‘plataformização do trabalho’, a crescente dependência de plataformas digitais para conseguir alguma forma de ocupação remunerada. O que são essas plataformas? São infraestruturas digitais abastecidas com dados e automatizadas por algoritmos e que podem ter diferentes perfis e desenhos.


De alimentos a pornografia

Plataformas seriam, então, aplicativos? Não necessariamente. O aplicativo pode ser só a fase mais visível – o software – de uma lógica de gestão que está relacionada a toda uma cadeia de suprimentos e de valor. As plataformas oferecem serviços dos mais diferentes tipos – desde alimentação até pornografia.

Em uma dimensão, a plataformização do trabalho é, ao mesmo tempo, resultado e radicalização de processos históricos presentes na sociedade brasileira, como a apropriação do trabalho informal e a intensificação da flexibilização do trabalho. Mas não se trata de algo exótico. Esse processo se materializa em contexto de reestruturação do capital – com altas taxas de desemprego. E os novos mecanismos das plataformas envolvem extração de dados como forma de capital, gerenciamento algorítmico e novas formas de vigilância sobre os trabalhadores.

Tudo isso é embalado por uma retórica de inovação por parte das plataformas digitais, dirigida tanto a trabalhadores quanto a consumidores. Vemos recorrentemente a promessa de “Conheça agora a plataforma que vai mudar sua vida”. Hackathons (maratona em que se criam projetos tecnológicos) fablabs (espaços para experimentação e prototipagem digital) e linkedins (rede profissional) acabam sendo espaços de disseminação de discursos, aliando o empreendedorismo como obrigatoriedade à tecnologia feita no Vale do Silício (região na Califórnia, EUA, que reúne empresas de alta tecnologia).


Perfis diversos

Esses processos são ingredientes para a generalização da plataformização do trabalho, com diferentes perfis de plataformas e trabalhadores. E também distintas lógicas. Isso significa que não são apenas entregadores e motoristas. Há plataformas de trabalho para jornalistas, trabalhadoras domésticas, professores, dentistas, Papai Noel, treinadores de inteligência artificial. Há, inclusive, inúmeros canais vendendo a “oportunidade de ganhar uma renda extra”.


Não são apenas entregadores e motoristas. Há plataformas de trabalho para jornalistas, trabalhadoras domésticas, professores, dentistas, Papai Noel, treinadores de inteligência artificial


Tudo isso materializado em distintas plataformas, inclusive para trabalhar clicando e comentando em conteúdos em redes sociais. Além disso, o OnlyFans (serviço de conteúdo por assinatura) é um exemplo da plataformização do trabalho sexual. Por outro lado, tem até plataformas vip de freelancers (trabalhadores temporários). Plataformas para todos os perfis, gostos e necessidades.

Quando você está vendendo algo via Instagram ou WhatsApp, ou mesmo trabalhando como ‘criador de conteúdo’ para plataformas, seu trabalho também depende de lógicas e mecanismos dessas tecnologias digitais, embora o processo de trabalho seja distinto de um motorista ou entregador.

No plano de seu dia a dia, se a rede social muda alguma funcionalidade, seu trabalho precisa ser reestruturado a partir dessas novidades. Na dimensão econômica, essas plataformas pertencem a conglomerados tecnológicos – como Google e Facebook – e tornam-se oligopólios para transações financeiras, marketplaces (lojas virtuais), coleta, extração e venda de dados. O trabalho remoto também nos deixou mais dependente de plataformas digitais – videoconferências, gestão de tarefas, entre outras – também pertencentes a conglomerados digitais.


Trabalhadores ‘plataformizados’

Há, então, uma multiplicidade de trabalhadores ‘plataformizados’ – nas ruas, nas casas e nos escritórios –, como um verdadeiro laboratório das transformações no mundo do trabalho. Laboratório porque podem ser vistos como experimentos por parte das empresas – inclusive, a relação com o rentismo (ganhos obtidos de atividades econômicas não produtivas) – em relação aos trabalhadores, mudando regras com o jogo em andamento (quando não o próprio jogo). Em alguns países, já há, por exemplo, a adoção de drones (veículos aéreos não tripulados) para entrega de alimentos.

Para onde essa plataformização nos levará? Certamente, os robôs não nos substituirão. Para a automação acontecer de forma cada vez mais intensa, é preciso de um crescente papel de trabalhadores alimentando dados para a inteligência artificial (IA). A australiana-americana Kate Crawford, no livro Atlas of AI, lembra que o que se chama de IA não é nem inteligente, nem artificial, e depende de uma série de recursos materiais, logística, dados e trabalho humano.


Diferentes manifestações

Precisamos, então, prestar mais atenção a todo esse cenário do trabalho por plataformas, e suas distintas manifestações. Por exemplo, no Brasil há mais de 40 plataformas em atividade para as quais trabalhadores alimentam sistemas de inteligência artificial.

Em primeiro lugar, há plataformas em que trabalhadores produzem e treinam dados para sistemas de inteligência artificial, como algoritmos de reconhecimento facial, avaliação de publicidade e transcrição de áudios de redes sociais e assistentes virtuais. Alguns exemplos são Amazon Mechanical Turk (cujo slogan é “inteligência artificial artificial”), Appen (com frases do tipo “dados com um toque humano”) e Lionbridge.

Em segundo, há plataformas de moderação de conteúdo, cujos trabalhadores, em geral, são terceirizados de Facebook e Google, como Cognizant e Pactera. Nesses lugares, os trabalhadores passam o dia analisando imagens e vídeos de pedofilia, esquartejamento, suicídio, entre outros, para decidir o que manter e o que remover da plataforma. Isso, inclusive, traz consequências à saúde mental dos trabalhadores. Recentemente, o Facebook foi obrigado a pagar uma indenização de 52 milhões de dólares a trabalhadores que desenvolveram estresse pós-traumático – como se tivessem voltado de uma guerra.

Em terceiro lugar, há plataformas de fazendas de cliques – a maioria brasileiras –, em que os trabalhadores passam o dia curtindo, comentando e compartilhando posts (publicações) em Instagram, Tiktok e YouTube (plataformas de imagens e vídeos) em troca de pouquíssimas frações de centavos por tarefa. Os solicitantes dessas tarefas vão desde influenciadores até duplas sertanejas e candidatos a prefeitos.

Essas plataformas ‘parasitas’ servem-se dos mecanismos das redes sociais para impulsionar manualmente os conteúdos por meio do trabalho mal remunerado desses ‘bots (robôs) humanos’. Além disso, há todo um mercado paralelo de contas fakes (falsas) e bots como estratégias de trabalhadores para que consigam ganhar um mínimo de dinheiro nessas plataformas.


Brechas e dribles

Prestar atenção para essas atividades de trabalho nos ajuda a compreender as mudanças pelas quais o mundo do trabalho vem atravessando. Contudo, isso não significa que os trabalhadores são entes passivos ou amorfos nesses processos. Pelo contrário, eles procuram brechas e fissuras em algoritmos e plataformas para construir táticas cotidianas no trabalho, desde tentar ‘produzir’ coletivamente a tarifa dinâmica em plataformas para motoristas até se recusar a trabalhar e/ou burlar as lógicas das plataformas – no que Gavin Mueller, da Universidade de Amsterdam (Holanda), tem chamado de táticas neoludistas.


Prestar atenção para essas atividades de trabalho nos ajuda a compreender as mudanças pelas quais o mundo do trabalho vem atravessando. Contudo, isso não significa que os trabalhadores são entes passivos ou amorfos nesses processos


Além dessas táticas cotidianas, temos visto a emergência de formas de organização de trabalhadores em contextos de plataformas, desde coletividades informais – como experiências coletivas de escrita de trabalhadores – até mobilizações e construções de associações e sindicatos. Isso decorre do fortalecimento da própria comunicação entre trabalhadores por meio de grupos de WhatsApp, por exemplo, como forma inicial de organização. Os exemplos vão desde a greve de entregadores em 2020 até construções de sindicatos de gamers, youtubers e influenciadores.

Assim, é preciso pensar as defesas de trabalhadores em um contexto de plataformização, não só no sentido de se recusar a aceitar o cenário vigente, mas também no de se apropriar das lógicas em prol de trabalhadores e do bem comum. Por exemplo, o WeClock é uma tecnologia construída para que trabalhadores consigam quantificar seu dia de trabalho. Com ela, é possível verificar se as plataformas estão pagando-lhes conforme o combinado. Além disso, em caso de alguma discordância com a empresa, a ferramenta pode ser usada na defesa de trabalhadores


Novos arranjos

As possibilidades de reapropriação da plataformização por parte dos trabalhadores também podem envolver a construção de plataformas que sejam de suas propriedades, seja em cooperativas de plataforma ou em outros arranjos de trabalho e desenhos institucionais. O cooperativismo de plataforma simboliza a união das potencialidades tecnológicas digitais com a força da organização cooperativista. Algo como: e se motoristas e entregadores possuíssem suas próprias plataformas?


De cinco anos para cá, diversas plataformas controladas por trabalhadores têm surgido pelo mundo, em áreas como fotografia, música, arte, entrega de comida, trabalho doméstico, atividades autônomas diversas


De cinco anos para cá, diversas plataformas controladas por trabalhadores têm surgido pelo mundo, em áreas como fotografia, música, arte, entrega de comida, trabalho doméstico, atividades autônomas diversas.

Essas plataformas controladas por trabalhadores podem ser também laboratórios, construindo experiências locais para desafiar a noção dominante de plataformização. Elas podem reinventar circuitos econômicos locais de produção e consumo por meio de plataformas que melhorem condições de trabalho e, ao mesmo tempo, promovam políticas de mobilidade, melhorias de transporte público, serviços de cuidados, com integração ao sistema de saúde.

Realisticamente, elas não substituirão em curto prazo as grandes plataformas de trabalho, pois existe a forte pressão da concorrência – envolvida em capital de risco e possibilidades de lobby – e riscos de autoexploração, entre outras contradições. Mesmo sabendo dos desafios, é preciso enfrentar essas contradições. Elas podem tornar-se referenciais para políticas públicas a partir da construção de iniciativas que envolvam trabalho decente e se articulem com o combate às desigualdades – inclusive algorítmicas – e a construção de tecnologias para o bem comum.

A noção de plataforma digital, ao contrário do que muita gente pensa, não é somente tecnológica. Envolve questões como governança, propriedade, organização do trabalho, política e modelos econômicos, além das próprias infraestruturas tecnológicas. Dessa forma, as plataformas controladas por trabalhadores são atravessadas por múltiplas dimensões, sendo a questão tecnológica o resultado de um processo. Caso contrário, incorremos em um fetichismo tecnológico, com o risco de a plataforma se tornar um elefante branco. Assim, esses experimentos não têm fórmula pronta, nem se fazem da noite para o dia, como um aplicativo solucionador de todos os problemas.


Direitos nas plataformas

Lutar por trabalho decente em plataformas envolve: salário-mínimo, condições de trabalho adequadas que proporcionem saúde e rede de segurança, contratos claros e acessíveis, processo de gestão que garanta equidade entre trabalhadores e combata desigualdades – como de raça e gênero – na plataforma, algoritmos que não prejudiquem trabalhadores, e espaço para que, de fato, eles tenham voz. Além desses princípios, a autogestão pressupõe ainda que, além do trabalho para a plataforma, haja um trabalho de cuidado coletivo. Isto é, a saúde – física e mental – de trabalhadores é uma responsabilidade coletiva.

As plataformas controladas por trabalhadores também desafiam a ideia de que a economia de plataformas necessita de escala. Pensando nos trabalhadores, nem as startups (empresas, principalmente de base tecnológica, em fase inicial) possuem muitos trabalhadores. Um levantamento da Associação Brasileira de Startups mostra que 63% das startups brasileiras possuem até cinco pessoas. Da mesma forma, não necessariamente cooperativas e coletivos de entregadores ou motoristas contarão com 30 mil pessoas envolvidas ou algo em torno dessa quantidade. E não há argumentos para deslegitimar iniciativas autogestionárias com três ou cinco trabalhadores apenas por causa de seu tamanho. A questão da escala no cooperativismo de plataforma não se dá necessariamente pelo número de trabalhadores na própria empresa, mas a partir de seu potencial de articulação.

Uma das fortalezas das plataformas de propriedade de trabalhadores é justamente a sua capacidade de articulação e cooperação entre iniciativas. Por exemplo, a cooperativa de entregadores Resto.Paris, a partir de financiamento da prefeitura da capital francesa, articulou-se com a federação CoopCycle – que construiu software para iniciativas desse tipo – e adotou um selo de alimentação saudável, sendo uma importante política pública para fazer girar a economia local.


Carros autônomos construídos por grandes empresas de tecnologia tendem a atropelar mais negros do que brancos porque não os reconhecem como pessoas. A justiça social, portanto, deve estar presente ao projetar tais plataformas digitais


Por fim, o papel das tecnologias, embora não seja o único fator envolvido, deve ser considerado. O design (projeto) e os algoritmos das plataformas controladas por trabalhadores devem considerá-los no centro. Já é muito sabido que algoritmos e outras tecnologias podem reproduzir desigualdades históricas (de classe, raça, gênero, sexualidade), agora automatizadas. Por exemplo, carros autônomos construídos por grandes empresas de tecnologia tendem a atropelar mais negros do que brancos porque não os reconhecem como pessoas. A justiça social, portanto, deve estar presente ao projetar tais plataformas digitais.

As políticas de dados também são um elemento central nesse processo, uma vez que a extração de dados tem sido uma nova forma de rentismo, ampliando nosso colonialismo digital. Já há, por exemplo, cooperativas de dados, como a Driver’s Seat, em que trabalhadores coletam informações deles mesmos em suas atividades para as grandes empresas de tecnologia, e depois revendem para órgãos públicos, de modo a que o setor público não sofra de dependência de tais conglomerados tecnológicos. Isso significa pensar as infraestruturas digitais das plataformas controladas por trabalhadores a partir de tecnologias livres e dados para o bem comum.

Assim, se a plataformização do trabalho tende à generalização por uma série de mecanismos ligados aos oligopólios digitais e a suas cadeias de fornecimento, há também possibilidades de construção de tecnologias autônomas e de defesa de trabalhadores, lutando por outro tipo de plataformização do trabalho.


Rafael Grohmann
Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Revista Ciência Hoje

Quais áreas são consideradas pontos críticos (hotspots) para a conservação da biodiversidade global?



Departamento de Ecologia
Universidade de São Paulo


 As espécies e as linhagens não se distribuem de modo homogêneo ou aleatório no planeta. Existem regiões mais ricas, outras mais pobres em determinadas linhagens. Temos ainda que algumas espécies ou linhagens têm distribuição ampla, por vezes até cosmopolita. Outras estão restritas a regiões pequenas e a ambientes específicos e raros. Assim, quando falamos de conservação da biodiversidade, temos que agregar, além da riqueza, outro fator central para o entendimento da diversidade da vida no planeta: a singularidade espacial, ou, em termos biogeográficos, o conceito de endemismo. Não basta selecionar as áreas com mais espécies, mas levar em conta também o quão singular, em termos espaciais (biogeográficos) é uma dada região. Uma espécie ou linhagem endêmica a uma dada área só ocorre naquela área, e em nenhuma outra região do planeta. Em geral, são linhagens com associações evolutivas, históricas com aquela dada região, ou seja, que evoluíram naquela e em suas condições naturais específicas de clima, topografia, tipos de ambiente. 

Assim, um estudo clássico da Conservação Internacional, em 2000, definiu 25 regiões globais prioritárias para a conservação da biodiversidade, denominadas hotspots de biodiversidade, por abrigarem alta riqueza de espécies endêmicas e estarem amplamente impactadas pela perda de hábitat (menos de 30% de áreas íntegras). 

Portanto, os hotspots são regiões ricas em biotas muito singulares, endêmicas, e que estão severamente impactadas por desmatamento e fragmentação de hábitat. Se nada for feito nessas áreas, um conjunto grande de espécies estará sob alto risco de extinção em um curto espaço de tempo. No Brasil, Mata Atlântica e Cerrado foram elencados na lista dos hotspots globais de biodiversidade. E, de modo nada surpreendente, segundo dados oficiais sobre risco de extinção, são as duas regiões que abrigam maior número de espécies ameaçadas de extinção na fauna brasileira. É preciso agir de modo rápido para conter a perda de hábitat, reduzir a fragmentação e os riscos a essas biotas únicas, e cada vez melhor conhecidas pela ciência, que, nas últimas duas décadas, descreveu centenas de novas espécies de vertebrados nessas duas regiões prioritárias globais.https://cienciahoje.org.br/artigo/quais-areas-sao-consideradas-pontos-criticos-hotspots-para-a-conservacao-da-biodiversidade-global/

As nuvens brancas e o azul do céu e do mar


Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos (SP)


Pare um instante e observe o azul do céu e o branco das nuvens. Por trás dessas cores, está o chamado espalhamento da luz, fenômeno óptico só explicado no século 19. Até onde sabemos, esse espetáculo único só pode ser apreciado em nosso maravilhoso planeta


CRÉDITO: IMAGEM ADOBESTOCK



É fim da tarde. Depois de rápida chuva, o ambiente ficou mais fresco, e o céu ganhou um azul lindo, com nuvens brancas. Cena comum em dias de verão.

As nuvens são feitas de partículas de água e gelo em suspensão, em uma atmosfera que é basicamente composta por nitrogênio e oxigênio, ambos em forma gasosa.

A água transformada em vapor – por causa da ação do Sol e do calor do ambiente – é mais leve que o ar. Portanto, sobe para o céu, onde encontra regiões atmosféricas mais rarefeitas e, por isso, com temperaturas mais baixas.

O vapor se condensa na forma de gotas ou gelo, formando as nuvens. A grande maioria das gotas tem dimensões microscópicas (da ordem de um milésimo de milímetro).

Mas por que elas são brancas?

A luz que nossos olhos observam está restrita a uma faixa do chamado espectro eletromagnético que denominamos visível, que vai do vermelho ao violeta. Cada cor corresponde a uma frequência de oscilação da luz – ou a um comprimento de onda, distância entre dois ‘picos’ (máximos) ou ‘vales’ (mínimos) da onda eletromagnética.

Para a luz visível, essas distâncias estão entre 380 e 720 bilionésimos de metro (nanômetros). Como as gotículas de água na nuvem estão em uma escala mil vezes maior (micrômetros), todos os comprimentos de onda da luz visível, ao interagirem com essas gotículas, se espalham em todas as direções, combinando-se entre ele
Revista Ciência Hoje

sábado, 11 de abril de 2026

Experimentos indicam que agrotóxicos e fertilizantes desequilibram ecossistemas aquáticos


Contaminantes provocaram desaparecimento de predadores e interferiram em papeis ecológicos de organismos aquáticos

Texto: Ivanir Ferreira
Arte: Leonor T. Shiroma




Pesquisadores enchendo os tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto próximo a áreas agrícolas para análise da água e monitoramento dos macroinvertebrados como larvas, insetos, moluscos e minhocas – Foto: Allan Pretti Ogura


Em meio à expansão do setor sucroenergético brasileiro que demanda uso intensivo de defensivos agrícolas, pesquisa da USP alerta para os impactos desses contaminantes na base da cadeia alimentar aquática, com efeitos indiretos sobre peixes e outros predadores. O estudo mostra que os macroinvertebrados bentônicos — como larvas de insetos, moluscos e minhocas — estão entre os organismos mais sensíveis às substâncias. A aplicação isolada ou combinada do inseticida fipronil e do herbicida 2,4-D (herbicida), além da vinhaça — resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar —, levou ao desaparecimento de predadores e a desequilíbrios ecossistêmicos. A contaminação comprometeu funções essenciais desempenhadas por esses organismos, como a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e o controle populacional de espécies.

A coleta e a análise das amostras de água, assim como o monitoramento dos macroinvertebrados, foram realizados em tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto, próximos a áreas agrícolas no município de Itirapina (SP), onde a cana-de-açúcar é a principal atividade econômica. As observações ocorreram 7, 14, 28, 75 e 150 dias após a exposição aos contaminantes.

Os resultados foram publicados no artigo científico Impacts of pesticides and vinasse on the composition and functional diversity of aquatic macroinvertebrates exposed in a mesocosm system, assinado, entre outros autores, pela professora Raquel Aparecida Moreira, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, e pelo pesquisador Thandy Junio da Silva Pinto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).




Macroinvertebrados – Larvas, insetos, moluscos e minhocas afetados pelos poluentes – Foto: Allan Pretti Ogura

Vinhaça
Raquel Aparecida Moreira, FZEA/ USP - Foto: Arquivo pessoal


A professora Raquel destaca que os resultados confirmaram a toxicidade da vinhaça e seu elevado potencial de impacto ambiental, especialmente quando aplicada em conjunto com agrotóxicos, prática comum na agricultura brasileira. Segundo a pesquisadora, a vinhaça é um resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar e é utilizada como fertilizante, por [td1.1]fertirrigação. O produto apresenta altas concentrações de nutrientes, como potássio, magnésio, fósforo e nitrogênio.

“É justamente a elevada carga de nutrientes e de matéria orgânica que compromete o ecossistema aquático”, relata. A vinhaça analisada apresentou Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) de 46.500 miligramas por litro e Demanda Química de Oxigênio (DQO) de 107.000 miligramas por litro — indicadores de grande quantidade de matéria orgânica e alto consumo de oxigênio na água.


“A redução do oxigênio pode ter consequências graves. Se os níveis caem muito, peixes e outros organismos aquáticos podem morrer por asfixia. Por isso, a DBO é um dos principais parâmetros para medir a qualidade da água e o grau de poluição de rios e lagoas”, explica Raquel.




Visão geral dos mesocosmos instalados próximos a áreas agrícolas – Foto: Allan Pretti Ogura

Contaminação por fertilizantes e agrotóxicos potencializa efeitos


Thandy da Silva Pinto- afirma que, nas amostras em que a vinhaça foi aplicada junto aos agrotóxicos, houve prolongamento da permanência do fipronil na água e aceleração da degradação do 2,4-D em subprodutos (metabólitos) que, segundo o pesquisador podem ser tão ou mais tóxicos que a molécula original.

De acordo com o pesquisador, essas alterações químicas tiveram impacto direto sobre a fauna aquática. “Na prática, o ecossistema deixa de funcionar de forma equilibrada, mesmo que nem todas as espécies desapareçam”, diz. Nos tanques contaminados com 2,4-D, foi registrado aumento de organismos conhecidos como coletores-catadores — que se alimentam de partículas orgânicas — e redução acentuada de raspadores, grupo essencial no controle de algas, sobretudo na amostragem realizada aos 75 dias.
Thandy Junio da Silva Pinto, Unicamp - Foto: Arquivo pessoal


O fipronil foi o contaminante mais tóxico. Nas amostras contaminadas com inseticida, os pesquisadores observaram ausência total de predadores após a exposição. O mesmo ocorreu quando os dois agrotóxicos foram aplicados em conjunto.


Já nos ambientes com aplicação exclusiva de vinhaça, houve predominância de predadores e redução de coletores-catadores. Quando a vinhaça e os agrotóxicoss foram utilizados simultaneamente, os coletores-catadores permaneceram até o sétimo dia, mas posteriormente foram registradas mudanças significativas na composição dos grupos funcionais, evidenciando o efeito combinado dos poluentes.

Os pesquisadores destacam que os resultados reforçam a necessidade de monitoramento contínuo e de critérios mais rigorosos para o uso combinado de agrotóxicos e fertilizantes em áreas próximas a corpos d’água. Segundo eles, a adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis é fundamental para reduzir os riscos de contaminação e evitar impactos duradouros sobre a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

Mais informações: Raquel Aparecida Moreira, raquelmoreira@usp.br e Thandy Junio da Silva Pinto, thandyjuniosilva@gmail.com
JORNAL DA USP

PROVA CEFET-MG 2026 - SIMULADO

 1. Analise o gráfico. 


De acordo com esse gráfico, a geração de energia elétrica no Brasil é mais dependente da(do): 

A) matriz de petróleo, que assegura o funcionamento das usinas. 

B) intensidade dos ventos, que determina o movimento das turbinas. 

C) padrão de nebulosidade, que interfere no desempenho dos painéis. 

D) regime de chuvas, que condiciona o abastecimento dos reservatórios.

2. As exportações brasileiras de carne bovina dão sinais de que – em meio à queda acentuada registrada nas vendas para os Estados Unidos, devido à sobretaxa imposta pelo presidente Donald Trump – já estão migrando para outros destinos. A principal evidência desse movimento vem do México, que, até o ano passado, sequer figurava na lista dos dez maiores importadores da carne brasileira. Esse país acaba de ultrapassar as compras feitas pelos Estados Unidos, ficando em segundo lugar do ranking, só atrás da China, que também segue em expansão. 

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/08/mexico-desbanca-eua-eja-e-segundo-maior-comprador-de-carne-brasileira.shtml Acesso em 25 ago. 2025. (adaptado). 

A mudança nos fluxos comerciais descrita nesse texto reforça a 

A) subordinação dos países periféricos, evidenciando sua submissão às economias centrais. 

B) consolidação de barreiras sanitárias, limitando a efetivação de acordos bilaterais de comércio. 

C) redução do protecionismo comercial, indicando a suspensão de tarifas pelos países desenvolvidos. 

D) cooperação de países emergentes, reduzindo suas vulnerabilidades às ameaças comerciais externas.

3. Analise a figura. IBGE. 



Os dados apresentados na figura revelam que, no Brasil, nos últimos anos, tem ocorrido a 

A) redução do fenômeno da verticalização nos espaços urbanos. 

B) ampliação do comprometimento da renda com domicílio no país.

C) erradicação de espaços habitacionais irregulares nas cidades. 

D) diminuição do quantitativo de unidades domiciliares ao longo do tempo. 

4.  Nas últimas décadas, principalmente após a crise financeira de 2008, tornou-se evidente a limitação do modelo de globalização econômica baseada na financeirização e na desindustrialização acelerada. A pandemia da Covid-19, a emergência climática e os choques nas cadeias globais de valor reforçaram a centralidade do Estado e do planejamento estratégico para garantir a resiliência, a segurança produtiva e o bem-estar coletivo. O retorno da política industrial ao centro do debate internacional – por meio de estratégias nacionais como a Lei de Redução da Inflação (2022) dos Estados Unidos, os programas industriais da União Europeia e o modelo chinês de Estado desenvolvimentista – expressa essa nova fase do capitalismo global, mais orientada por interesses geopolíticos. FREDDO, D.; ROVENTINI, A.; BARROS, P. S. O tempo da política industrial no mundo. Revista Tempo do Mundo, IPEA: Brasília, n. 36, dez. 2024. (adaptado) 

De acordo com o texto, a nova fase do capitalismo global utiliza a 

A) elevação tarifária como uma estratégia para liberalização comercial. 

B) desregulamentação ambiental como condição para comercialização mundial. 

C) reorganização produtiva como um instrumento para desenvolvimento econômico. 

D) padronização das condições de trabalho como ferramenta para maximização de lucros.

5. As imagens a seguir referem-se a dois biomas localizados no hemisfério sul do Brasil.









Os gráficos que representam as características climáticas das regiões dos biomas I e II são, respectivamente: 

7. Analise a figura. 


Conforme a figura, a ocupação do espaço agrário amazônico tem-se caracterizado predominantemente pela 

A) adoção do sistema agroflorestal de cultivos intercalados. 

B) expansão de práticas redutoras da biodiversidade regional. 

C) ampliação de áreas agrícolas com produção de base familiar. 

D) manutenção do baixo Coeficiente de Gini fundiário na região. 


GABARITO:

1. D   2. D   3.  B  4. C  5.  A  6.  B 

PROVA DE GEOGRAFIA CEFET-MG 2025 - SIMULADO

 1. Nas asas do pensamento o homem remonta-se aos ardentes sertões da África, vê os areais sem fim da Pátria e procura abrigar-se debaixo daquelas árvores sombrias do oásis, quando o sol requeima e o vento sopra quente e abrasador: vê a tamareira benéfica junto à fonte, que lhe amacia a garganta ressequida; vê a cabana onde nascera, e onde livre vivera! REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. Belo Horizonte: LED/Cefet-MG, 2024, p. 34-35. 

Os elementos mencionados nesse texto indicam um clima caracterizado por 

A) elevado indicador de nebulosidade e baixa insolação. 

B) baixa amplitude térmica e elevada pluviosidade média. 

C) baixo índice pluviométrico e elevada temperatura média. 

D) elevada umidade relativa do ar e baixa pressão atmosférica.

2. O crescimento das cidades brasileiras ocorreu sem que o emprego industrial tomasse grande proporção na estrutura ocupacional. Isso fez com que a população recém-chegada às cidades, empurrada pelo êxodo rural, tivesse como alicerce a inserção no setor de serviços, em grande parte em atividades informais e com baixos rendimentos. Nesse processo, parte da população inseriu-se de forma periférica tanto na estrutura ocupacional quanto no território das cidades, habitando as zonas periféricas ou as regiões com sérias deficiências de estrutura urbana. COSTA, Marco Aurélio. Diálogos para uma Política Nacional de Desenvolvimento Urbano: temas transversais à PNUD. Brasília: IPEA, 2024, p.136. 

A dinâmica socioespacial descrita teve como consequência a 

A) redução significativa do emprego no setor terciário. 

B) distribuição equitativa dos habitantes rurais e urbanos. 

C) ampliação expressiva da segregação no espaço urbano. 

D) inserção predominante da força de trabalho no setor primário.

3. Analise o mapa. 



 Escala 1:200 000 000 0 1 250 2 500 km PROJEÇÃO DE ECKERT III N Formas de relevo Formas de relevo Planície Depressão Planalto Montanha Outros Deserto IBGE. Atlas geográfico escolar. 9ª ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2023, p.67. 

Sobre essa representação, afirma-se que: 

I- O mapa apresenta pequena escala cartográfica, razão pela qual não existem muitos detalhes. 

II- A área possui grande extensão espacial e permite o reconhecimento das feições locais do relevo. 

III- As altas latitudes estão com suas áreas superdimensionadas devido à dificuldade em representar, no plano, uma superfície semelhante a uma esfera. 

IV- O Brasil está em uma posição equivocada ao ser representado cartografado no centro. 

Estão corretas apenas as afirmativas 

A) I e II. 

B) I e III. 

C) II e IV. 

D) III e IV.

4. Entretanto em uma risonha manhã de agosto, em que a natureza era toda galas, em que as flores eram mais belas, em que a vida era mais sedutora — porque toda respirava amor —, em que a erva era mais viçosa e rociada, em que as carnaubeiras, outras tantas atalaias ali dispostas pela natureza, mais altivas, e mais belas se ostentavam, em que o axixá com seus frutos imitando purpúreas estrelas esmaltava a paisagem, um jovem cavaleiro melancólico, e como que exausto de vontade, atravessando porção dum majestoso campo, que se dilata nas planuras de uma das nossas melhores, e mais ricas províncias do Norte, deixava-se levar ao través dele por um alvo e indolente ginete. REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. Belo Horizonte: LED/Cefet-MG, 2024, p. 12. 



AB’SÁBER, Aziz Nacib. Ecossistemas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008. p. 119. 

A imagem ilustra a descrição da paisagem feita no texto que caracteriza a transição entre os ecossistemas 

A) Amazônia e Caatinga. 

B) Campos e Mangues. 

C) Cerrado e Araucárias. 

D) Mata Atlântica e Restingas.

5. Analise o mapa. 

 

A concentração populacional no Brasil resulta de um processo de 

A) priorização do modal hidroviário na interligação da rede urbana brasileira. 

B) incentivo governamental de ocupação das planícies centroocidentais do país. 

C) retração da fronteira agrícola do norte para o sudeste nas últimas décadas. 

D) centralização de espaços industriais nas principais cidades do leste e do centro-sul

6. Analise o gráfico.

 

A evolução na liberação de agrotóxicos para uso no espaço agrário brasileiro teve como consequência a 

A) supressão dos cultivos de transgênicos nas grandes propriedades monocultoras. 

B) ampliação no risco da poluição de aquíferos com contaminação crônica de humanos. 

C) restrição do uso em cultivos agrícolas para exportação excluindo aqueles para consumo interno. 

D) aproximação do Brasil aos padrões quantitativos de países europeus quanto ao uso desses insumos.


GABARITO:

1. C  2.C  3. B  4. A  5. D  6.   B

Estrelas com mais de 10 bilhões de anos trazem novas pistas sobre a origem da Via Láctea



Estimativa que considera dados sobre composição química, temperatura e distância da Terra aponta estrelas mais antigas que a fusão de galáxias que teria originado parte da Via Láctea



Texto: Júlio Bernardes


Via Láctea, onde está o nosso sistema solar, é uma galáxia do tipo espiral, onde a maior parte das estrelas está distribuída em uma grande estrutura de poeira achatada (disco), que também contém nuvens de gás e poeira, fundamentais na formação de novas estrelas – Imagem: European Space Agency (ESA)


Um trabalho de pesquisadores da USP traz novos indícios para o estudo da origem da nossa galáxia, a Via Láctea. Os cientistas produziram estimativas da idade de estrelas ao combinar dados de telescópios sobre composição química, temperatura e distância da Terra, com auxílio do código de computador Star Horse. As análises identificaram estrelas com idade superior a 10 bilhões de anos, e que seriam anteriores à fusão de galáxias que teria dado origem ao disco fino, área mais concentrada da Via Láctea. O estudo é descrito em artigo da publicação científica The Astrophysical Journal.


“No Universo, as galáxias podem apresentar diferentes formatos”, afirma ao Jornal da USP a pesquisadora Lais Borbolato, doutoranda do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, primeira autora do artigo. “Existem galáxias elípticas, que têm uma forma mais esférica, galáxias irregulares, que não possuem um formato bem definido, e galáxias espirais, que apresentam uma estrutura achatada, semelhante ao formato de um disco.”

“A Via Láctea é uma galáxia do tipo espiral, o que significa que a maior parte de suas estrelas está distribuída em uma grande estrutura achatada. O Sol é uma dessas estrelas e, portanto, nós também estamos localizados dentro desse disco galáctico”, explica a pesquisadora. “Além das estrelas, o disco da Via Láctea contém nuvens de gás e poeira, que desempenham um papel fundamental na formação de novas estrelas.”


Lais Borbolato - Foto: Arquivo Pessoal


De acordo com Lais Borbolato, a diferença entre os discos da Via Láctea está na composição química das estrelas, em seus movimentos e na forma como estão distribuídas no espaço. “De maneira simplificada, podemos imaginar esses dois componentes como dois discos sobrepostos”, observa. “O disco espesso é, como o nome indica, mais “grosso” verticalmente e está mais concentrado nas regiões internas da galáxia, ou seja, não se estende tanto para longe do centro. Já o disco fino é mais achatado e se espalha por distâncias maiores.”

“Do ponto de vista da composição química, as estrelas do disco espesso apresentam maiores quantidades de elementos químicos como magnésio (Mg) e oxigênio (O), quando comparadas às estrelas do disco fino. Já o disco fino é mais rico em outros elementos como Ferro (Fe) e Níquel (Ni)”, relata a pesquisadora.

“Por fim, há diferenças também na cinemática, isto é, no movimento das estrelas. Embora todas orbitem o centro da galáxia, as estrelas do disco espesso se movem com velocidades intermediárias e em órbitas menos circulares. Em contraste, as estrelas do disco fino, como o Sol, apresentam velocidades maiores e órbitas mais próximas de círculos.”

Idade das estrelas


Os pesquisadores analisaram a distribuição de idades das estrelas dos discos fino e espesso da Via Láctea. “Usamos uma amostra maior e mais confiável do que a disponível em trabalhos anteriores, comparando essas idades com a estimativa do momento da última grande fusão sofrida pela Via Láctea, ocorrida com uma galáxia menor há 10 bilhões de anos”, aponta Lais Borbolato. “Essa comparação é um ponto central do estudo, pois o modelo mais aceito para a formação do disco galáctico propõe que o disco espesso teria se formado inteiramente antes dessa fusão, enquanto o disco fino teria se formado posteriormente, a partir do gás trazido por essa galáxia satélite.”

“Ao empregar essa nova amostra de dados foi possível mostrar que esse cenário não explica completamente as observações. Identificamos centenas de estrelas com características do disco fino que possuem idades anteriores à fusão, comparáveis às idades das estrelas do disco espesso”, diz a pesquisadora. “Esses resultados indicam que essas estrelas não podem ter se formado segundo o modelo tradicional, apontando para a necessidade de revisar os cenários de formação dos discos da Via Láctea.”

As idades das estrelas do disco foram determinadas com o auxílio de um código computacional chamado StarHorse, desenvolvido principalmente na Alemanha, mas por um grupo de pesquisadores majoritariamente brasileiro. “Esse código combina informações obtidas por três técnicas observacionais diferentes, fotometria, espectroscopia e astrometria, fornecidas por telescópios e instrumentos astronômicos”, descreve Lais Borbolato. “De forma simplificada, a fotometria fornece informações relacionadas à temperatura da estrela, a espectroscopia revela sua composição química, e a astrometria indica a distância da estrela em relação a nós.”



Telescópio espacial realiza observações de estrelas do disco da Via Láctea (em amarelo); idade das estrelas foi estimada a partir de dados sobre temperatura, composição química e distância em relação à Terra – Imagem: European Space Agency (ESA)


“O StarHorse reúne esses três tipos de dados e os compara com modelos teóricos de evolução estelar, permitindo estimar a idade mais provável de cada estrela. As bases de dados utilizadas na pesquisa fornecem medidas muito precisas de composição química e velocidade das estrelas, o que é essencial para distinguir quais pertencem ao disco fino e quais fazem parte do disco espesso”, ressalta a pesquisadora. “Quando essas informações são combinadas com as idades estelares estimadas pelo código, obtemos uma amostra robusta e confiável para o estudo dessas duas populações da Via Láctea. O método em si já é conhecido há algum tempo, seu caráter inovador está na aplicação de forma automática e consistente a um volume muito grande de estrelas.”

O trabalho identificou e analisou centenas de estrelas que apresentam características químicas e cinemáticas típicas do disco fino, mas com idades superiores a 10 bilhões de anos. “Essas idades são anteriores à última grande fusão sofrida pela Via Láctea. Esse achado é particularmente relevante porque não pode ser explicado pelos modelos tradicionais em que essa fusão seria um evento necessário para a formação do disco fino”, salienta Lais Borbolato. “Assim, os resultados indicam que o disco fino pode ter começado a se formar mais cedo do que se pensava, de forma simultânea ao disco espesso. Isso aponta para a necessidade de investigar outros mecanismos de formação capazes de explicar a origem conjunta desses dois componentes do disco da Via Láctea.”

A pesquisa contou com a participação de Lais Borbolato e Fabrícia Barbosa, doutorandas em Astronomia, João Nogueira Santos, graduando, e Silvia Rossi, professora do Departamento de Astronomia do IAG, Hélio Perottoni, professor no Observatório Nacional (ON) no Rio de Janeiro, Guilherme Limberg, pós-doutorando na University of Chicago (Estados Unidos), João Amarante, em pós-doutorado na Shanghai Jiao Tong University (China), Anna Queiroz, pós-doutoranda no Instituto de Astrofísica de Canarias (Espanha), Cristina Chiappini, pesquisadora no Leibniz-Institut für Astrophysik Potsdam (Alemanha), Friedrich Anders, pós-doutorando na Universitat de Barcelona (Espanha). Limberg, Anna Queiroz, Cristina Chiappini e Anders são membros da colaboração do StarHorse, responsável pelas estimativas das idades estelares.

O artigo pode ser acessado neste link.

Mais informações: e-mail laisborbolato@usp.br, com Lais Borbolato
Jornal da USP

Por que Vênus gira ao contrário? Modelo matemático encontra solução na própria atmosfera do planeta





Explorando as vizinhanças do nosso sistema solar, professor da USP explica como exoplanetas podem girar ao contrário a partir de forças de maré e torque atmosférico



Texto: Sthephany Oliveira*
Arte: Gustavo Radaelli**


Imagem do planeta Vênus com filtro ultravioleta e infravermelho – Imagem: Kevin Gill/Flickr


Trabalho publicado na revista The Astronomical Journal traz uma nova perspectiva para o giro retrógrado de planetas na Zona Habitável, região da órbita de um planeta que permite a existência de água líquida em sua superfície. Descartando que a persistência da rotação reversa de Vênus tenha sido causada por uma colisão espacial, o estudo propõe uma solução matemática que aponta para a evolução da atmosfera em conjunto com as forças de maré – deformações causadas pela variação da gravidade em um corpo extenso – como explicação para a rotação atípica do nosso planeta vizinho.

É o caso de Vênus: ao contrário dos demais planetas, que giram ao redor dos seus eixos na mesma direção do movimento orbital, Vênus o faz ao contrário; roda para trás e lentamente.


A explicação estaria na origem dos sistemas planetários, em que uma estrela recém-formada encontra-se rodeada de uma nuvem de gás e poeira em rotação – chamada na astronomia de Disco Protoplanetário. Esta nuvem fornece o material necessário para que a gravidade atue na construção dos planetas. Por causa disso, é esperado que os planetas guardem “memória” da rotação da nuvem a partir da qual eles se formaram, influenciando no sentido de translação e de rotação, comum aos planetas de um sistema solar.

“Todos os planetas de um sistema se formam de uma mesma nuvem e herdam a rotação no mesmo sentido. No nosso sistema solar, a única exceção real é Vênus, apesar da meia exceção que é Urano, que tem o eixo de rotação ‘deitado’ e gira como se estivesse rolando em sua órbita. No caso de Urano o que se supõe é que, realmente, tenha ocorrido uma pequena colisão durante o momento de sua formação”, afirma ao Jornal da USP o professor Sylvio Ferraz Mello, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e autor do artigo.



Sylvio Ferraz Mello – Foto: IAG-USP


O mistério da rotação retrógrada de Vênus existe há mais de 50 anos, pois a hipótese de colisão não é suficiente para explicar o fenômeno observado em sua totalidade. O trabalho do professor apresenta uma solução matemática simples e geral, através da dinâmica entre as forças de interação gravitacional e resultantes atmosféricas. A explicação pode ser aplicada a qualquer planeta semelhante à Terra, próximo de sua estrela central e que tenha uma evolução atmosférica parecida com o caso de Vênus.

Um planeta “do contra”


O planeta Vênus se assemelha bastante à Terra em termos de tamanho, massa e proximidade em relação ao Sol. No entanto, além de girar ao contrário, Vênus demora cerca de 243 dias terrestres para completar sua rotação e leva 225 dias terrestres para girar ao redor do Sol. Isso significa que o ano venusiano (tempo de translação) é mais curto que a duração de um dia no planeta (tempo de rotação). Além disso, apesar de não ser o planeta mais próximo do Sol, Vênus é o planeta mais quente do sistema solar devido à atividade vulcânica e sua densa atmosfera, composta em mais de 95% de gás carbônico. Essa composição provoca intenso efeito estufa, refletido na temperatura superficial média de 462ºC do planeta.

De acordo com o artigo, as protuberâncias térmicas da atmosfera podem afetar fortemente a rotação de um planeta, de modo que a rotação retrógrada de Vênus teria sido “freada” e revertida em um tempo relativamente curto caso não houvesse atmosfera no planeta.

“A rotação contrária do planeta não persistiria por um longo tempo se a rotação tivesse sido invertida devido a uma colisão no passado, e a natureza da rotação observada atualmente é uma indicação clara da existência de uma força que continua agindo, impelindo o movimento no sentido contrário”, afirma Mello.



Representação artística da missão Plato da ESA, na qual o estudo do professor Mello está inserido, que descobrirá planetas potencialmente habitáveis ao redor de estrelas semelhantes ao nosso Sol – Imagem: ESA/ATG Europe/Wikipédia


Efeitos da radiação solar


A atração do Sol produz deformações na atmosfera de Vênus, adicionando torque – força que produz rotação em um corpo – que desacelera a rotação do planeta. Além disso, a radiação solar aumenta a temperatura no entardecer, o que faz as massas de ar fluirem para regiões mais frias.

Em determinada região da superfície, a protuberância das marés seria sentida depois do meio-dia. Dessa forma, a atração gravitacional do Sol na atmosfera introduz um torque em direção oposta ao da força de maré gravitacional que, associado à transferência de massa da superfície do planeta para a atmosfera, aumenta o momento de inércia do corpo, tornando favorável o desenvolvimento do movimento retrógrado de rotação do planeta.

O principal resultado do trabalho indica que nenhuma colisão com outros corpos é necessária para converter a rotação de um planeta semelhante à Terra – com uma atmosfera significativa, formada ao longo de sua evolução – em uma rotação retrógrada. Basta que o planeta esteja a uma distância da estrela hospedeira suficientemente pequena para que os torques de maré quase sincronizem a rotação do planeta antes que a maior parte de sua atmosfera se forme.

Forças de maré surgem porque a gravidade não atua de forma uniforme em um corpo extenso. Partes mais próximas de um astro massivo sentem uma atração ligeiramente maior do que partes mais distantes. Essa diferença, embora sutil, é suficiente para deformar o objeto: ele se alonga na direção do astro e se comprime nas direções perpendiculares, como uma bola de borracha sendo puxada.

Na Terra, esse efeito aparece de forma clara nos oceanos. A interação com a Lua gera duas “elevações” do nível do mar – uma voltada para ela e outra no lado oposto. Com a rotação do planeta, essas regiões passam por diferentes pontos da superfície, produzindo o sobe e desce das marés ao longo do dia.




As marés sobem e descem à medida que a rotação da Terra faz os continentes atravessarem as protuberâncias de maré geradas pela gravidade da Lua; ao passar por essas regiões, o nível do mar sobe, e cai nos intervalos entre elas. Na prática, fatores como continentes, formato da Terra e profundidade dos oceanos também influenciam o tempo e a altura das marés em cada lugar – Imagem: Vi Nguyen/NASA


Mas esse fenômeno não se limita à água. A atmosfera também responde às forças de maré. Em Vênus, por exemplo, cuja atmosfera é extremamente densa, essas deformações – combinadas ao aquecimento solar – criam pequenos desalinhamentos que geram torque. Ao longo do tempo, esse processo influencia diretamente a rotação do planeta. Mais do que explicar as marés, esse “esticamento gravitacional” é uma peça-chave na evolução de planetas e luas – podendo desacelerar, sincronizar ou até redefinir o giro de um planeta, como no caso de Vênus.

A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) no projeto temático ligado à participação do Brasil na missão Planetary Transits and Oscillation of Stars (Plato) da Agência Espacial Europeia (ESA), que pretende descobrir e caracterizar exoplanetas – planetas que orbitam estrelas de fora do sistema solar – semelhantes à Terra, focando em zonas habitáveis de estrelas do tipo solar. Em 1983, a União Astronômica Internacional deu o nome do autor da pesquisa, Ferraz Mello, ao asteroide 1983 XF (5201), como prêmio por suas contribuições na área de Astronomia Dinâmica.

O artigo Exoplanet Synchronization in the Habitable Zone: Learning from Venus’ Retrograde Rotation pode ser acessado neste link.

Mais informações: sylvio@iag.usp.br, com Sylvio Ferraz Mello

*Estagiária sob orientação de Tabita Said. Com informações da Assessoria de Comunicação do IAG

**Estagiário sob orientação de Simone Gomes
Jornal da USP

terça-feira, 7 de abril de 2026

Chuvas orográficas ou de relevo

 







Chuvas orográficas, ou de relevo, ocorrem quando massas de ar úmido encontram barreiras geográficas (montanhas/serras) e são forçadas a subir. Ao elevar-se, o ar resfria, condensando o vapor e gerando precipitação no lado voltado para o vento (barlavento). O lado oposto (sotavento) recebe ar seco, criando áreas de sombra de chuva.

Locais de ocorrência: Litoral paulista (Serra do Mar), Planalto da Borborema (Nordeste), áreas serranas em geral.
Barla vento vs. Sotavento: O lado que recebe o vento (barlavento) é úmido e chuvoso; o lado oposto (sotavento) é seco.

Essas chuvas são de pequena a média intensidade, mas podem ser de longa duração. Elas são cruciais para a pluviosidade em áreas como o litoral do Nordeste e Sudeste do Brasil

segunda-feira, 30 de março de 2026

Pesquisadores encontram agrotóxicos em águas ribeirinhas da Amazônia




Estudo analisou 21 praguicidas de uso comum no Brasil em área de proteção ambiental; amostras continham substância proibida na União Europeia

Grupos de risco, como crianças, idosos e gestantes, podem estar sujeitos a possíveis efeitos adversos da ingestão direta da água analisada

Texto: Carolina Castro*
Arte: Moisés Dorado


 
Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP detectaram 13 praguicidas em concentrações consideráveis em amostras de águas urbanas e de comunidades ribeirinhas. O material foi coletado em uma área de proteção ambiental, na Bacia Amazônica. Ao todo, a equipe analisou a presença de 21 agrotóxicos de uso comum por produtores brasileiros.



Segundo a pesquisa publicada na revista científica Environmental Research, o composto mais detectado foi o inseticida fenitrotion, com uma taxa de detecção de 78%, seguido da cipermetrina, com 63%. Outro destaque foi o fipronil, encontrado acima dos limites em até 33% das amostras; este praguicida foi banido da União Europeia e países de outros continentes devido a sua alta toxicidade ambiental (principalmente às abelhas) e preocupação com a saúde humana.



Foto: Cedida pelos pesquisadores
Em contrapartida, 18% das amostras analisadas foram consideradas “limpas”, ou seja, comparadas às outras, elas apresentaram apenas um composto detectado. Segundo os pesquisadores, isso não as isenta de riscos ao ambiente e aos seres humanos. “É importante ressaltar que a área em que o estudo foi aplicado é habitada por diferentes comunidades ribeirinhas da Amazônia. É por isso que nós também avaliamos o risco, não cancerígeno, desses indivíduos desenvolverem algum efeito tóxico”, afirma Gabriel Neves Cezarette, responsável pelo estudo.


Segundo o pesquisador, o estudo utilizou diversos parâmetros na quantificação dos riscos à exposição desses agentes intoxicantes. No caso da concentração de praguicidas na água, usaram a dose de referência (limite aceitável para o consumo humano) do guia da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e também o índice da massa corporal de um humano adulto. Apesar de não terem identificado riscos das concentrações de praguicidas para o consumo de água pela população local, Cezarette lembra que os testes não levaram em consideração grupos de risco como as crianças, os idosos e as gestantes, por exemplo. Essa população não foi avaliada e pode estar sujeita a possíveis efeitos adversos quando expostos aos mesmos compostos químicos.


Gabriel Neves Cezarette – Foto: Arquivo pessoal


Para além da ingestão direta da água, outras formas de consumo podem aumentar esse risco. “É importante ressaltar que neste caso nós avaliamos somente uma fonte de exposição. Os indivíduos provavelmente também estão expostos a esses mesmos pesticidas através de outras fontes como a alimentação”, lembra o pesquisador.

Uso amplo e controverso de agrotóxicos


Para controlar, prevenir ou exterminar pragas da agricultura, os praguicidas são amplamente utilizados em lavouras em todo o mundo. No Brasil, 719,5 mil toneladas de venenos contra pestes foram utilizados em 2021, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o que coloca o País como líder no uso de agrotóxicos.

O excesso de praguicidas, também conhecidos como agrotóxicos, pode resultar em perda de biodiversidade, aumento da resistência de pragas-alvo e danos à saúde humana. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2023, a agricultura da região Norte tem como principais produtos a soja e o milho. Embora os pesticidas utilizados nessas plantações sejam aplicados no solo, eles podem ser transportados por longas distâncias através de fenômenos que ocorrem durante o ciclo ambiental, como a evaporação dos compostos, escoamento para águas superficiais de rios e lagos, ou infiltração no solo, atingindo aquíferos.


Além disso, os diversos rios da região amazônica são fundamentais no transporte do escoamento agrícola, incluindo resíduos de pesticidas. Como mostra a pesquisa, eles estão se tornando depósitos dessas substâncias que se acumulam e podem gerar reações adversas em conjunto tanto para o meio ambiente quanto para a população.

Com a falta de dados sobre essas substâncias na Floresta Amazônica brasileira, pesquisadores da FCFRP coletaram amostras de águas de dois rios da região, o Rio Tapajós e o Rio Amazonas. Ao todo foram 27 pontos de coleta próximos à cidade de Santarém, no Pará, em uma área de proteção ambiental em que o uso de praguicidas em plantações está proibido. As águas, com origem em outros rios, podem carregar essas substâncias por longas distâncias, avalia a professora Marília Cristina Oliveira Souza, umas das orientadoras do estudo, sobre a contaminação dos rios estudados.

Marília Cristina Oliveira Souza – Foto: Arquivo pessoal


“O uso de pesticidas é frequentemente controverso porque, apesar da sua capacidade de melhorar a produção de alimentos, a maioria desses compostos são resistentes à degradação e podem bioacumular no ambiente e biomagnificar [aumentar sua concentração] na cadeia alimentar”, afirma a professora Marília.

Na pesquisa, 21 pesticidas de uso comum pelos produtores brasileiros foram analisados, incluindo herbicidas, produtos destinados ao controle de plantas indesejadas, como a trazina e 24D, e cinco classes diferentes de inseticidas, das quais fazem parte organofosforados, carbamatos, piretroides, neonicotinoides e fipronil.

Quanto ao fipronil, um dos pesticidas mais detectados no estudo – e que está banido em toda a União Europeia e em outros países pela alta toxicidade -, Gabriel Cezarette lembra que os impactos não são apenas ambientais, mas também econômicos. O interesse de exportar um produto que foi tratado com “fipronil ou qualquer outro pesticida de uso proibido no exterior pode ter a exportação vetada”.


Bioinsumos x pesticidas


Em dezembro de 2024, o Governo Federal sancionou a Lei 15.070 que dispõe sobre a produção, a importação, a exportação, o registro, a comercialização, o uso, entre outros aspectos relacionados a bioinsumos. Ao destacar a importância da legislação para o desenvolvimento sustentável brasileiro, Cezarette alerta para o fato da origem natural não isentar os bioinsumos de apresentar algum efeito tóxico. Ao contrário, é também “necessário monitorá-los tanto na produção quanto posteriormente, no ambiente”.

O pesquisador informa que, diferentemente dos pesticidas sintéticos, os bioinsumos são produtos e tecnologias de origem biológica utilizados na agricultura para melhorar a produtividade e a sustentabilidade. Incluem, por exemplo, microrganismos, extratos vegetais, biofertilizantes, biodefensivos e bioestimulantes, que atuam tanto no controle de pragas e doenças quanto na nutrição do solo e melhoria do desenvolvimento das plantas.

Apesar das ressalvas, tanto Cezarette quanto a professora Marília concordam que os bioinsumos são alternativas mais sustentáveis para as lavouras. “O Brasil pode ser um dos maiores produtores agrícolas do mundo e tem grande potencial para liderar a adoção de bioinsumos, reduzindo os impactos ambientais e aumentando a competitividade global”, diz a professora.

Os resultados deste estudo integram a pesquisa de doutorado de Gabriel Neves Cezarette, que trabalha sob orientação do professor Fernando Barbosa Júnior e da equipe de pesquisadores orientados pela professora Marília Cristina Oliveira Souza, ambos da FCFRP.

O artigo Levels and health risk assessment of twenty-one current-use pesticides in urban and riverside waters of the Brazilian Amazon Basin está disponível neste link.

Mais informações: mcosouza@usp.br, com a professora Marília Cristina Oliveira Souza

*Estagiária sob supervisão de Rita Stella
Jornal da USP

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