terça-feira, 24 de março de 2026

O enorme custo da obesidade



Problema de sobrepeso afeta 2,1 bilhões de pessoas

Duas pessoas obesas em rua da Cidade de México.JUSTIN WILSON (GETTY)

A recente decisão do Tribunal Europeu de Justiça que reconhece que a obesidade “pode representar uma deficiência” no trabalho voltou a colocar em primeiro plano um dos maiores problemas de saúde dos países desenvolvidos e emergentes, com graves implicações sobre o futuro da atividade econômica. O reconhecimento do excesso de peso como “deficiência” obrigaria as empresas, por exemplo, a fornecer espaços de trabalho maiores para estes empregados, designar-lhes tarefas mais leves, ou habilitar zonas de estacionamento apropriadas. E, levando-se em conta que cerca de 20% dos homens e 23% das mulheres da Europa são obesos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a questão do sobrepeso representa um fator de tensão nas relações trabalhistas a médio prazo.

Pela primeira vez na história da humanidade há mais pessoas com excesso de peso do que desnutridas. Cerca de 2,1 bilhões de pessoas no mundo sofrem de sobrepeso, das quais 670 milhões padecem de obesidade. O número total já representa em torno de 30% da população mundial, e um estudo da consultoria McKinsey estima que o percentual subirá para a metade dos habitantes do planeta em 2030. “A obesidade está em crescimento nos países desenvolvidos e, agora, também está presente nas economias emergentes”, afirmam os especialistas da consultoria, que apontam que o problema não só se agrava rapidamente, como também será cada vez mais difícil de ser revertido. “Só um plano que ataque em várias frentes, desde o tamanho das porções dos alimentos, passando pelo controle sobre o fast-food até o estímulo ao exercício físico e à educação alimentar, entre outras questões, poderá começar a frear a crise”, dizem na McKinsey.
Pela primeira vez há mais obesos do que pessoas desnutridas

O impacto da obesidade na economia mundial é calculado em cerca de 2 trilhões de dólares (5,3 bilhões de reais), o equivalente a 2,8% do produto interno bruto (PIB) global, segundo a McKinsey. A gravidade do problema está à altura do tabagismo, da violência armada e do terrorismo, e suas consequências se expandem para muitas áreas da economia, desde os custos de saúde –públicos e particulares— passando pela queda da produtividade e o aumento do absentismo trabalhista, até um maior consumo de alimentos e de energia.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o custo anual da obesidade em função da produtividade para as empresas chega a 153 milhões de dólares, segundo a consultoria Gallup. Na Europa, o valor ronda os 160 bilhões, segundo estudo do Bank of America-Merrill Lynch. Um levantamento realizado há quatro anos por especialistas da Clínica Mayo, dos EUA, calculou que, enquanto o tabagismo aumenta o custo dos cuidados médicos em 20% a cada ano, a obesidade eleva esse percentual a 50%.

O mesmo centro médico, assim como as universidades norte-americanas de Duke e Cornell, dedicaram recursos para estudar o impacto do excesso de peso das empresas do país. Os diferentes estudos calcularam que as faltas ao trabalho derivadas da obesidade elevam os custos das empresas em 6 bilhões de dólares anuais, enquanto a menor produtividade destes mesmos empregados aumenta essa perda em outros 30 bilhões. O problema não afeta apenas a empresa, mas também o trabalhador, uma vez que as pessoas obesas têm menor probabilidade de serem contratadas e inclusive ganham menos, especialmente no caso das mulheres.

Ainda que em países industrializados, como EUA e Reino Unido, que estão entre os mais afetados pela crise, tenham surgido campanhas governamentais e privadas para estimular hábitos que ajudem a combater o problema, a maioria das empresas ainda não tem consciência da importância de incentivar programas internos para estimular pelo menos o cuidado com a alimentação e o exercício físico. A maioria dos especialistas concorda que as empresas devem subvencionar os programas de emagrecimento, os medicamentos contra a obesidade que os empregados podem necessitar e investir no replanejamento do local de trabalho (sala de exercícios, refeitório, máquinas com produtos saudáveis, entre outros). Planos amplos contra a obesidade teriam um custo de entre 20 e 30 dólares anuais por pessoa em países como Japão, Itália, Canadá ou Reino Unido.
Problema custa 160 bilhões de dólares em produtividade na Europa

A obesidade ainda tem outras implicações. A empresa aérea australiana Qantas calculou que o peso dos passageiros adultos aumentou dois quilos desde 2000, o que representa um custo extra de 1 milhão de dólares por ano em combustível. A Samoa Air, por exemplo, é a primeira a cobrar dos passageiros de acordo com seu peso. A fabricante de aeronaves Airbus já oferece assentos mais largos para seu modelo A320, e várias companhias fabricantes de ônibus e trens estudam fazer o mesmo. No setor de automóveis, calcula-se que os passageiros obesos aumentam o consumo de gasolina em milhões de litros por ano só nos EUA. A Universidade de Buffalo (Nova York) constatou que as pessoas sem excesso de peso são 70% mais propensas a usar o cinto de segurança do que os obesos, o que reduz a gravidade e o custo dos acidentes.

Um estudo recente dos professores Núria Mas (IESE) e Joan Costa (London School of Economics), intitulado Globesity? The Effects of Globalization on Obesity and Caloric Intake, (Globesidade? Os Efeitos da Globalização na Obesidade e Ingestão Calórica) faz a correlação entre a globalização e a obesidade. “A obesidade é um fenômeno complexo que implica tanto aspectos econômicos como sociais”, diz Mas. “Nós observamos que as normas sociais e culturais têm um impacto fundamental sobre a obesidade. Os elementos da globalização social que têm mais efeito sobre a obesidade são os fluxos de informação e os contatos pessoais. Há evidências que indicam que o grupo de pessoas com quem comemos ou com quem nos relacionamos tem um impacto sobre como e quanto ingerimos. De fato, já se fala de um ‘entorno obesogênico’, que propicia a obesidade se forem seguidas suas normais sociais: por exemplo, o tempo que se leva para comer e o tamanho das porções, entre outros”, acrescenta.
Jornal El País

sexta-feira, 20 de março de 2026

O impacto destruidor do aquecimento global no Alasca






Crédito,Alamy Legenda da foto, À medida que o vilarejo de Kwigillingok descongela, a infraestrutura está desmoronando | Foto: AlamyArticle InformationAuthor,Sara Goudarzi
Role,BBC Future


Vladimir Romanovsky atravessa a densa floresta de coníferas com facilidade. Não para ou diminui o passo nem sequer para se equilibrar diante do musgo macio que cobre o permafrost - superfície que permanece congelada nas regiões polares.


É um dia quente de julho, e o cientista está procurando uma caixa que ele e sua equipe deixaram no solo. Ela está escondida cerca de 10 quilômetros ao norte do Instituto de Geofísica da Universidade do Alasca, em Fairbanks, onde Romanovsky é professor de geofísica e responsável pelo Laboratório de Permafrost.


O recipiente, coberto por galhos de árvores, contém um coletor de dados conectado a um termômetro, instalado abaixo do solo para medir a temperatura do permafrost em diferentes profundidades.


O permafrost é qualquer material terrestre que permaneça a 0°C ou abaixo dessa temperatura por pelo menos dois anos consecutivos.

Legenda da foto,Vladimir Romanovsky coleta registros de temperatura abaixo do solo da floresta | Foto: Anthony Rhoades


Romanovsky conecta então seu laptop ao coletor de dados para transferir os registros de temperatura desta localidade, chamada Goldstream 3, que mais tarde serão adicionados a um banco de dados online, acessível tanto para cientistas quanto para qualquer pessoa interessada.


"O permafrost é definido com base na temperatura. Esse é o parâmetro que caracteriza a sua estabilidade", explica o professor.


Quando a temperatura do permafrost é inferior a 0°C, por exemplo, - 6°C, ele é considerado estável, o que significa que vai demorar muito para mudar ou descongelar. Já se está perto de 0°C, é classificado como vulnerável.


Todo verão, a porção de solo que cobre o permafrost, chamada de camada ativa, derrete - e congela de novo no inverno seguinte.


Em Goldstream 3, naquele dia de julho (verão no hemisfério norte), o derretimento chegava a 50 cm de profundidade.

Legenda da foto,Solo escuro indica a presença de carbono orgânico acumulado | Foto: Anthony Rhoades


À medida que a Terra aquece e as temperaturas aumentam no verão, o degelo está se expandindo e ficando mais profundo, fazendo com que o permafrost fique menos estável.


Se o derretimento continuar, haverá consequências profundas para o Alasca e para o mundo. Cerca de 90% do Estado é coberto por permafrost, o que significa que vilarejos inteiros precisarão ser realojados, conforme as fundações dos edifícios e as estradas desmoronarem.


E se o permafrost liberar o carbono acumulado e retido há milênios dentro dele, poderá acelerar o aquecimento do planeta - muito além da nossa capacidade de controlá-lo.

Estado de vulnerabilidade


À medida que o permafrost derrete, casas, estradas, aeroportos e outras infraestruturas construídas sobre o solo congelado podem rachar e até mesmo ruir.


"Estamos vendo mais serviços de manutenção em estradas que passam sobre o permafrost", diz Jeff Currey, engenheiro de materiais do Departamento de Transportes Públicos do Alasca.


"Um dos nossos superintendentes de manutenção contou recentemente que sua equipe está tendo que remendar certos trechos das rodovias com mais frequência do que há 10 ou 20 anos. "


Da mesma forma, as infraestruturas construídas no subsolo - para atender os serviços de utilidade pública, por exemplo - estão sendo afetadas, conforme as temperaturas aumentam.


"Em Point Lay, na costa noroeste do Alasca, por exemplo, eles estão tendo todos os tipos de problema com as redes de água e esgoto no solo de permafrost", afirma William Schnabel, diretor do Centro de Pesquisa de Água e Meio Ambiente da Universidade do Alasca.

Legenda da foto, Leituras feitas a partir de sensores no solo indicam mudanças significativas em andamento | Foto: Anthony Rhoades


A preocupação é ainda maior para aqueles que vivem em áreas rurais, que não dispõem de fundos suficientes para combater os efeitos do derretimento do permafrost.


Para esses moradores, não são apenas os edifícios que estão ruindo, o que é comum agora, mas também o abastecimento de água.


Muitas vezes, quando o permafrost derrete ao lado de um lago usado por um vilarejo como fonte de água, há uma fenda e ocorre um dreno lateral.


"Geralmente, é necessária uma infraestrutura bem cara para tirar água de um lago, levar para uma vila e armazená-la. E todos os componentes desta infraestrutura são vulneráveis ao degelo do permafrost", diz Romanovsky.


Crédito,AlamyLegenda da foto,Permafrost é qualquer solo que permaneça congelado a 0°C ou menos por pelo menos dois anos consecutivos | Foto: Alamy


Se um vilarejo depende de um lago afetado para conseguir água, os membros da comunidade têm de levar sua infraestrutura e, às vezes, a vila inteira para outro lago, o que pode custar muito dinheiro.


De acordo com uma análise realizada pelo órgão de pesquisas geológicas americano US Geological Survey, aldeias como Kivalina, no noroeste do Alasca, terão que se mudar nos próximos 10 anos.


"Mas estimativas sugerem que o custo desta mudança seria de cerca de US$ 200 milhões por cada vila de 300 pessoas", explica Romanovsky.


Chegar a uma quantia como essa só seria possível com o financiamento do governo federal - mas não há garantias de que uma nova localização também não seria afetada.


"Acredito que agora existam 70 vilas que realmente precisam ser realojadas em decorrência do derretimento do permafrost", avalia.


"Mas transferir os vilarejos para outra área no permafrost é muito difícil de garantir por uns 30 anos. E o governo federal não quer pagar por algo que precisará pagar novamente."

Legenda da foto,Vladimir Romanovsky no Laboratório de Permafrost, da Universidade do Alasca, em Fairbanks | Foto: Anthony Rhoades


Além disso, é possível que a construção de assentamentos no permafrost também possa agravar o problema no Alasca.


"Quando você pensa em água e esgoto, você precisa mantê-los sem congelar. E, no caso do permafrost, você tem que mantê-lo congelado", diz Schnabel.


"Ou seja, vai correr água relativamente quente pelo permafrost e haverá alguma dissipação de calor lá."


Do mesmo jeito, quando uma estrada é construída, parte da vegetação que cobre o permafrost é removida para que a rodovia seja pavimentada com asfalto, o que aumenta a quantidade de radiação solar absorvida.


Por isso, embora os serviços de manutenção tenham aumentado, nem todos os problemas relacionados à infraestrutura podem ser atribuídos à mudança climática.

Freezer cheio de carbono


O Alasca, está, sem dúvida na linha de frente das mudanças climáticas, mas as questões relacionadas ao permafrost vão além da "última fronteira selvagem", como é conhecido. O derretimento do material afetará outros 48 estados americanos, localizados abaixo dele, assim como todo o planeta.


De acordo com Romanovsky, metade do estado e 90% do permafrost do interior do Alasca vão descongelar se houver um aumento médio global de 2°C na temperatura.


Isso é especialmente preocupante porque uma enorme quantidade de carbono orgânico é sequestrada no permafrost e na camada ativa que se sobrepõe a ele.


Uma vez que não há calor suficiente no solo congelado para ajudar os micro-organismos a decompor a vegetação morta, a matéria orgânica foi se acumulando durante milhares de anos no permafrost.


Algumas análises estimam que a quantidade de carbono no permafrost equivale a mais de duas vezes a de dióxido de carbono na atmosfera.


"Se mantivermos o curso atual, é bem provável que até 2100 uma parte significativa do permafrost, nos cinco metros superiores, descongele. E, com ele, toda a matéria orgânica que está atualmente retida ali", diz Kevin Schaefer, pesquisador do National Snow and Ice Data Center da Universidade do Colorado.

Legenda da foto,No Parque Nacional Denali, o aumento da temperatura começou a afetar a vida selvagem | Foto: Anthony Rhoades


"Isso significaria uma liberação de dióxido de carbono e metano, que aumentaria o aquecimento devido à queima de combustíveis fósseis."


Em artigo publicado em 2012 na revista científica Nature, Schaefer e seus colegas sugerem que os eventos de aquecimento súbito ocorridos anteriormente foram essencialmente desencadeados pela liberação de dióxido de carbono e metano do permafrost há cerca de 50 milhões de anos na Antártida.


E as projeções não parecem otimistas: "Teoricamente, se esse carbono for liberado para a atmosfera, a quantidade de CO2 será três vezes maior do que a que está lá (na atmosfera) agora", diz Romanovsky.


Desta forma, há uma genuína retroalimentação, uma vez que aquecimento aumenta em decorrência da queima de combustíveis fósseis.


Mas, apesar do fato de o aquecimento estar acelerando, os efeitos da retroalimentação serão graduais, levando tempo para serem sentidos.


"É um feedback muito lento", diz Schaefer.


"Imagine tentar conduzir um navio a vapor com o remo de uma canoa, esse é o tipo de feedback que estamos falando", compara.


Infelizmente, uma vez que o permafrost começa a derreter, é difícil congelá-lo novamente - pelo menos enquanto estivermos vivos. Além disso, a partir do momento que material sai do solo e vai para a atmosfera, não existe uma maneira fácil de enviar esse carbono de volta ao chão.


"A única maneira de fazer isso seria baixar a temperatura global e congelar de novo o permafrost, o que significaria que você estaria removendo o dióxido de carbono da atmosfera", diz Schaefer.


Segundo Romanovsky, os modelos climáticos mostram que os atuais compromissos intergovernamentais para reduzir o aquecimento global - conforme estabelecido no Acordo de Paris - podem não ser suficientes.


Em artigo publicado em 2016 na revista Nature Climate Change, a pesquisadora Sarah Chadburn e seus colegas estimam que, mesmo que o clima fosse estabilizado, conforme acordado pelos 196 países em 2015, "a área de permafrost seria eventualmente reduzida em mais de 40%".


No entanto, após o anúncio do presidente Donald Trump de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, em junho do ano passado, é de se esperar uma perda ainda maior de permafrost no horizonte.

O jogo de culpa


O Alasca é um Estado conservador politicamente, então quem está de fora pode supor que seus moradores rejeitam a ideia do aquecimento global. Mas a realidade é mais complexa.


Uma pesquisa realizada no início deste ano pelo Alaska Dispatch News, com um total de 750 participantes, mostrou que mais de 70% da população local está preocupada com os efeitos da mudança climática.


"No Alasca, a quem você perguntar, vai responder 'sim, há aquecimento'", afirma Romanovsky.


"Quanto mais para o norte você for, especialmente no noroeste, mais forte é esse sentimento. Porque está acontecendo, você consegue ver. Claro, a questão sobre de quem é a responsabilidade depende das crenças políticas."


No Parque Nacional Denali, a guarda florestal Anna Moore testemunhou como o aquecimento pode afetar em pouco tempo a vida selvagem.


Ela reparou que a lebre do ártico, que muda a cor da pele de acordo com as estações do ano para se camuflar, parece não estar acompanhando mais as mudanças, como resultado do aumento da temperatura, o que a deixa mais exposta a predadores.


Crédito,Getty Images Legenda da foto, A lebre do ártico está tendo dificuldade para se camuflar, conforme a neve derrete, diz guarda florestal | Foto: Getty Images


"No inverno, eles ficam brancos", diz Moore.


"À medida que está ficando mais quente, a neve está derretendo mais rápido, mas seus corpos são aclimatados a certas mudanças de temperatura e, portanto, mesmo que a neve já esteja derretendo, eles continuam brancos - e correndo perigo por causa dos predadores."


Moore acrescenta que, apesar de acreditar nas mudanças climáticas e estar observando seus efeitos na fauna e flora do parque, ela considera isso um resultado tanto das atividades humanas quanto de um ciclo natural.


Ashley Tench, sua colega, compartilha o mesmo sentimento:


"Eu concordo com ela (em) como isso é em parte feito pelo homem, mas é também natural."


Por isso, Tench não acredita que a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris faça diferença no clima.


Mas nem todo mundo no Alasca tem essa opinião. Para Bill Beaudoin, mergulhador e educador aposentado, que agora é proprietário de uma pensão em Fairbanks, é óbvio que os humanos são culpados e que devemos trabalhar para reverter os efeitos de nossas ações.


"Acredito que o Acordo de Paris era necessário ", diz ele.


"Na verdade, eu não achava (que era) suficiente. Há um país, a Nicarágua, que não assinou o acordo porque achou que não era forte o suficiente. Eu ficaria provavelmente ao lado da Nicarágua nesta questão", acrescenta.

Legenda da foto,‘O Acordo de Paris era necessário. Na verdade, eu não achava (que era) suficiente’, afirma Bill Beaudoin, morador do Alasca | Foto: Anthony Rhoades


Mas não importa quem seja o culpado pelo aquecimento e o consequente derretimento do permafrost. A população do Alasca está, em sua maioria, preocupada com seu futuro.


"As pessoas estão preocupadas, porque, claro, não existe seguro para derretimento do permafrost", diz Romanovsky.


"Os seguros não estão cobrindo os danos causados pelo permafrost, assim como por terremotos na Califórnia."

Em busca do carbono


De volta a Goldstream 3, Romanovsky observou que a 50 cm de profundidade, a temperatura do solo era de - 0,04°C. Em um metro, chegava a - 0,23 °C.


Na última vez que tinha verificado os dados, em março, a temperatura a um metro do solo era de -1,1°C.


Ele pega sua pá e faz um buraco no chão para observar o solo e checar se há presença de carbono. A superfície mais escura indica carbono orgânico acumulado.


Quanto mais ele cava, mais frio fica o solo. Ele escava tanto até que sua pá toca o permafrost - e aparentemente ele não pode ir além.

Legenda da foto, Pesquisadores do Instituto Geofísico da Universidade do Alasca estão monitorando mudanças de temperatura no longo prazo | Foto: Anthony Rhoades


Romanovsky força um pouco mais e consegue desenterrar um pedaço do permafrost - do tamanho de uma pequena moeda. Segundos após segurar o solo congelado entre os dedos, ele derrete como se fosse um cubo de gelo.


Ele devolve a terra removida de volta ao buraco, desconecta seu laptop do coletor de dados, fecha a caixa, cobre novamente com galhos de árvore e se prepara para voltar.


Em uma semana, ele vai se deslocar para o norte do Estado para registrar a temperatura em outras áreas, acrescentando mais informações a uma das bases de dados de permafrost mais abrangentes do mundo.


Enquanto isso, pouco a pouco, o Alasca vai derretendo - e o que vem pela frente não se sabe. O certo é que o grande degelo mudará para sempre a paisagem como é hoje - e provavelmente o planeta e seus habitantes.
BBC Brasil

A enorme fenda que pode separar o Chifre da África do resto do continente




Crédito,Reuters Legenda da foto, A estrada que liga as cidades quenianas de Narok e Nairobi foi atravessada pela fenda que se abriu  no sudoeste do país

Em Mai Mahiu, um pequeno vilarejo rural no sudoeste do Quênia, a 50 km da capital, Nairobi, ocorrem há algumas semanas chuvas intensas, inundações e tremores. Mas, em 18 de março, algo estranho aconteceu: a terra começou a se abrir.


"Minha mulher começou a gritar para os vizinhos, pedindo ajuda para tirar nossos pertences de casa", contou Eliud Njoroge à agência de notícias Reuters.


Desde então, a fenda no piso de cimento de sua casa não parou de crescer, fazendo com que a família de Njoroge e muitas outras fossem evacuadas.


"As fendas correm quase em linha reta, então, dá para projetar para onde vão. Se você vê uma vindo em sua direção, você sai dali correndo", disse o geólogo David Adede à Reuters.


A enorme fissura já tem quilômetros de comprimento e alguns metros de largura. Ela está ligada a uma falha tectônica conhecida como Vale do Rift, ou Vale da Grande Fenda, na África Ocidental.



Segundo os geólogos, esse é um sinal de que, daqui a dezenas de milhões de anos, a África pode ser separada em duas.


Crédito,ReutersLegenda da foto,A fissura já levou a evacuações de zonas rurais no sudoeste do Quênia e seguirá se expandindo pelo continente

África sem o Chifre


Assim como ocorreu com a América do Sul, separada da África há 138 milhões de anos, os geólogos estimam que chegará um momento em que o Chifre da África também se desprenderá do continente.


O Vale da Grande Fenda se estende por mais de 3 mil km, "desde o Golfo de Adén, no norte, até o Zimbábue, no sul, dividindo a placa africana em duas partes iguais", afirma a geóloga Lucía Pérez Díaz na revista científica The Conversation.


A pesquisadora do Grupo de Investigação de Falhas Dinâmicas da universidade Royal Holloway defende que "a atividade ao longo da parte oriental do Vale da Grande Fenda, que corre ao longo da Etiópia, Quênia e Tanzânia, tornou-se evidente quado a grande fissura apareceu repentinamente no sudoeste do Quênia".


Para Pérez Díaz, a fenda é única no planeta, porque permite observar as diferentes etapas de seu processo de fissura ao vivo.



A fratura mais interessante, escreve, começou na região de Afar, no norte da Etiópia, há cerca de 30 milhões de anos. Desde então, está se propagando rumo ao sul, na direção do Zimbábue, a uma média de 2,5 a 5 centímetros por ano.


Atualmente em Afar, a camada exterior sólida da Terra, chamada de litosfera, tem sido reduzida a ponto de a ruptura ser quase completa.


Quando a quebra estiver completa, detalha Pérez Díaz, um novo oceano começará a se formar e, "em um período de dezenas de milhões de anos, o leito marinho avançará ao longo de toda a fenda".


"O oceano inundará e, como resultado, o continente africano ficará menor, e haverá uma grande ilha no Oceano Índico composta por partes da Etiópia, Somália, incluindo o Chifre da África", afirma.
BBC Brasil

Como as redes sociais estão alimentando tensões geopolíticas no Chifre da África




por Endalkachew Chala

No Chifre da África, onde alianças políticas frágeis e tensões militares são vistos como normais, o conflito entre Etiópia, Egito e Somália encontrou um novo campo de batalha: as redes sociais. Plataformas como TikTok, X (antigo Twitter) e Facebook agora são jogadores-chave em uma guerra digital onde a desinformação está alimentando o fervor nacionalista e aumentando o risco de violência no mundo real.


Duas questões principais de tensão geopolítica alimentam esse conflito on-line: a construção da Grande Represa do Renascimento (GERD) pela Etiópia no rio Nilo e seu recente envolvimento diplomático com a Somalilândia, uma região autodeclarada independente que busca reconhecimento internacional. Para o Egito, que depende do Nilo para sua água, a represa é vista como uma ameaça direta à sua sobrevivência. Enquanto isso, a aproximação da Etiópia com a Somalilândia gerou indignação na Somália, que vê a mudança como um desafio à sua integridade territorial.

Embora esses conflitos derivem de disputas históricas e geográficas profundamente enraizadas, eles agora alcançaram milhões por meio das redes sociais.
Influência do TikTok

O TikTok, em particular, surgiu como um palco onde tensões geopolíticas complexas são reduzidas, dramatizadas e frequentemente distorcidas. Em uma tendência amplamente compartilhada, um usuário etíope postou um vídeo onde uma mulher simbolicamente despeja água de uma jarra marcada com a bandeira da Etiópia em jarras menores rotuladas Egito e Sudão, representando o controle da Etiópia sobre o Nilo. Acompanhado por música patriótica, o vídeo é uma demonstração ousada de orgulho nacional, amplificando as narrativas etíopes nas redes sociais.



Usuários egípcios do TikTok responderam da mesma forma. Em um vídeo, dois homens despejam água de uma tigela marcada com a bandeira da Etiópia em copos representando Egito e Sudão, apenas para devolver a água à tigela. O vídeo termina com a colocação de um dispositivo explosivo na tigela, sugerindo a frustração do Egito e aludindo à possibilidade de sabotagem. Embora esses vídeos sejam simbólicos, as tensões subjacentes que eles refletem são muito reais.

Com uma guerra de informações em andamento entre o Egito e a Etiópia como pano de fundo, o relacionamento crescente da Etiópia com a Somalilândia complicou ainda mais a dinâmica frágil da região. Em janeiro de 2024, a Etiópia assinou um memorando de entendimento com a Somalilândia, sugerindo um possível reconhecimento de sua independência — um movimento ao qual a Somália se opôs veementemente. Percebendo uma oportunidade, o Egito reforçou seus laços com a Somália por meio de um acordo de cooperação militar, aumentando as tensões na região.

Desde então, surgiram relatos de que o Egito forneceu equipamento militar e pessoal para a Somália.

À medida que as notícias da aliança Egito-Somália se espalhavam, o TikTok e outras plataformas de rede social foram inundadas com vídeos comemorativos, muitos dos quais dependiam de conteúdo gerado por IA e filmagens manipuladas.

Entre os mais provocativos estava um usuário anônimo do TikTok, operando sob o nome “user74220974543408“, que ganhou atenção por uma série de postagens incendiárias. Em uma delas, um mapa da Etiópia é mostrado sob os pés com a bandeira egípcia circulando ao redor, acompanhado por uma música ameaçadora criada para evocar uma sensação de ameaça./


Uma criadora egípcia do Tiktok, @100._._6, frequentemente posta vídeos elogiando o poder militar do Egito e celebrando sua aliança com a Somália. Seu conteúdo ganhou força significativa na Somália, tornando-se um ponto de encontro para aqueles que veem a parceria como vital para combater a influência regional da Etiópia. Esses vídeos atraíram centenas de comentários em árabe, amárico, oromo e inglês, destacando o impacto regional desse crescente conflito digital.

As seções de comentários estão repletas de retórica e bandeiras nacionalistas. Os apoiadores etíopes se gabam afirmando “A Etiópia está pronta” e “Somos reis na África”, enquanto aqueles que carregam a bandeira da Somalilândia oferecem seu apoio, referindo-se aos etíopes como “irmãos” prontos para “lutar”. As contas somalis, por outro lado, expressam prontidão para se alinhar ao Egito e unir forças contra a Etiópia.

Algumas contas vão um passo além, defendendo a violência contra comunidades específicas na Somália. Em particular, contas como @anti_qabiil2023 têm como alvo a comunidade oromo, alimentando tensões ao encorajar a violência contra eles, especialmente dada a herança oromo do primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed.

Até mesmo o recurso de “partida ao vivo” do TikTok — onde os usuários competem por presentes digitais de seguidores — foi cooptado para a briga. Alguns usuários encenam “batalhas” ao vivo, com uma pessoa representando a Etiópia e a outra o Egito, incentivando seus seguidores a enviar presentes digitais como uma demonstração de apoio. Essas disputas de cinco minutos, embora enquadradas como lúdicas, refletem tensões nacionalistas profundamente enraizadas. O lado com mais presentes virtuais vence, transformando o que parece ser uma interação despreocupada em um reflexo das divisões políticas do mundo real da região.
Táticas de IA e desinformação

As táticas de desinformação não se limitaram a vídeos virais e memes. Atores egípcios e somalis reutilizaram discursos de antigos líderes globais para alimentar tensões regionais. Um vídeo amplamente divulgado apresenta o comentário do ex-presidente dos EUA Donald Trump em 2020 de que o Egito poderia “explodir” a Grande Represa do Resnascimento, usado por figuras egípcias e somalis para atiçar o medo de um conflito iminente.



Enquanto isso, atores pró-Etíope e da Somalilândia usaram as críticas anteriores de Trump à congressista somali-americana Ilhan Omar, e comentários sobre a Somália ser um estado “sem lei” para minar o governo da Somália.

A guerra de informações também se baseou na exploração de divisões internas na Etiópia. Atores alinhados aos governos egípcio e somali têm como alvo grupos de oposição na diáspora etíope, particularmente grupos nacionalistas amhara, para aprofundar as divergências políticas. Esses grupos circularam conspirações sugerindo que a comunidade amhara poderia se alinhar ao Egito e à Somália se essas nações interviessem contra o governo de Abiy Ahmed. Essa narrativa, que coloca o governo etíope como uma ameaça à segurança nacional, foi avidamente adotada por figuras egípcias e somalis que buscam capitalizar a discórdia interna da Etiópia.

Usuários pró-governo etíope no TikTok não permaneceram em silêncio neste conflito digital. Eles responderam com conteúdo baseado na longa história de resistência da Etiópia a potências estrangeiras, incluindo conflitos anteriores com o Egito, enquadrando a GERD como um símbolo de soberania nacional. Essas narrativas enfatizam a luta mais ampla da Etiópia pela autodeterminação, colocando o projeto da barragem como um ponto de orgulho nacional.



Para complicar ainda mais a narrativa, usuários de rede social pró-governo etíope têm destacado os rivais regionais do Egito, como Argélia e Marrocos, em um esforço para mudar o discurso a favor da Etiópia. Um desenvolvimento recente viu a Etiópia assinar um acordo de cooperação militar com Marrocos, adicionando outra camada à intrincada rede de alianças e rivalidades da região.

Uma conta proeminente do TikTok publica regularmente propaganda gerada por IA glorificando as capacidades militares da Etiópia, apresentando imagens da bandeira etíope e um leão acompanhados por música motivacional, projetando a força da Etiópia para esmagar seus oponentes. Outra conta imita a voz do primeiro-ministro Abiy Ahmed falando em árabe, gerando milhares de comentários elogiando suas habilidades linguísticas e alcance diplomático.
Disseminação multiplataforma

A guerra da desinformação se espalhou por todas as plataformas, com conteúdo sendo republicado no Facebook e no X, muitas vezes sem verificação adequada. Isso alimentou a imitação e a disseminação viral de memes, amplificando o alcance da desinformação e aumentando as tensões em um ambiente político já frágil.


O TikTok lançou seu Conselho Consultivo de Segurança da África Subsaariana, modelado após o Conselho de Supervisão do Meta, embora seu sucesso em coibir conteúdo prejudicial nesta região turbulenta ainda esteja para ser visto.

Conforme a lacuna entre a desinformação on-line e o conflito do mundo real diminui no Chifre da África, as apostas nesta guerra digital estão se tornando cada vez mais severas.

Texto traduzido por Rami Alhames do artigo How social media is fueling geopolitical tensions in the Horn of Africa originalmente escrito por Endalkachew Chala, publicado por Global Voices sob a licença Creative Commons Attribution 3.0. Leia o original em: Global Voices.
Revista de Relações de Exteriores

A busca de 30 anos da Somalilândia por reconhecimento: os interesses dos EUA podem fazer a diferença?



Mais de três décadas após declarar unilateralmente independência da Somália, a Somalilândia ainda busca reconhecimento internacional como Estado soberano. Apesar da falta de reconhecimento formal, o território separatista construiu um sistema de governança relativamente estável. Isso tem despertado crescente interesse de potências globais, incluindo os Estados Unidos. Com mudanças nas dinâmicas regionais e a intensificação da competição entre grandes potências, a busca da Somalilândia por reconhecimento ganha novo impulso. Aleksi Ylönen, que estuda política no Chifre da África e a busca por reconhecimento da Somalilândia, explica os fatores em jogo.
Quais argumentos legais e históricos a Somalilândia utiliza?

O Movimento Nacional Somali foi um dos principais movimentos insurgentes baseados em clãs responsáveis pelo colapso do governo central na Somália. Ele reivindica o território do antigo protetorado britânico da Somalilândia. O Reino Unido concedeu status soberano à Somalilândia em 26 de junho de 1960.

O governo somali tentou suprimir os chamados pela secessão. Ele orquestrou o massacre brutal de centenas de milhares de pessoas no norte da Somália entre 1987 e 1989.Foto por Fataho dhaadsan. Via Wikicommons. (Domínio público)

Mas o Movimento Nacional Somali declarou independência unilateral em 18 de maio de 1991 e se separou da Somália.

Com o colapso do regime somali em 1991, o principal inimigo do movimento desapareceu. Isso levou a uma luta violenta pelo poder entre várias milícias.

Isso só diminuiu após o político Mohamed Egal consolidar o poder. Ele foi eleito presidente da Somalilândia em maio de 1993.

Egal fez acordos com comerciantes e empresários, oferecendo incentivos fiscais e comerciais em troca de apoio. Como resultado, obteve os meios econômicos para consolidar o poder político e promover a paz e a construção do Estado. Seus sucessores mantiveram essa abordagem desde sua morte em 2002.
O que a Somalilândia fez para buscar reconhecimento?

Sucessivos governos da Somalilândia continuam engajados em diplomacia informal. Eles se alinharam com o Ocidente, especialmente os EUA, que eram a potência dominante após a Guerra Fria, e o antigo colonizador, o Reino Unido. Ambos os países abrigam comunidades significativas da diáspora da Somalilândia.

EUA e Reino Unido flertam há décadas com a ideia de reconhecer a Somalilândia, que consideram um parceiro estratégico. No entanto, eles foram repetidamente contidos por suas políticas em relação à Somália, que priorizam fortalecer o governo de Mogadíscio, amplamente apoiado, para reafirmar sua autoridade sobre os territórios somalis.

Essa política em relação à Somália tem sido cada vez mais questionada nos últimos anos, em parte devido aos desafios de segurança em Mogadíscio. Em contraste, o governo de Hargeisa, na Somalilândia, demonstrou capacidade de fornecer segurança e estabilidade. Realizou eleições e sobreviveu como Estado por três décadas, apesar de enfrentar resistência política e oposição armada.

Com o surgimento de novas potências globais, os governos da Somalilândia adotaram uma política externa mais diversificada, com um objetivo: o reconhecimento internacional.

Hargeisa abriga consulados e escritórios representativos de Djibuti, Etiópia, Quênia, Taiwan, Reino Unido e União Europeia, entre outros.

O governo também estabeleceu relações informais com os Emirados Árabes Unidos. A monarquia do Oriente Médio serve como centro de negócios e destino para exportações de gado. Muitos somalilandeses migram para lá.

A Somalilândia mantém escritórios representativos em vários países, incluindo Canadá, EUA, Noruega, Suécia, Reino Unido, Arábia Saudita, Turquia e Taiwan. Hargeisa alienou a China ao colaborar com Taiwan desde 2020. Taiwan é uma ilha autogovernada reivindicada pela China.

Em 1º de janeiro de 2024, o então presidente da Somalilândia, Muse Bihi, assinou um memorando de entendimento com o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, para maior cooperação. Bihi sugeriu que a Etiópia seria o primeiro país a reconhecer formalmente a Somalilândia. O acordo causou um grave deterioração nas relações entre Adis Abeba e Mogadíscio.

Abiy posteriormente moderou sua posição e, com mediação turca, se reconciliou com seu homólogo somali, o presidente Hassan Mohamud.
O que está por trás do interesse dos EUA na Somalilândia?

Os EUA, como outras grandes potências, se interessam pela Somalilândia devido à sua localização estratégica. Ela está nas margens africanas do Golfo de Áden, em frente à Península Arábica. Sua posição geográfica ganhou relevância recentemente com os ataques dos rebeldes houthis do Iêmen ao tráfego marítimo nas movimentadas rotas de navegação. A Somalilândia também está bem posicionada para combater a pirataria e o contrabando nessa rota comercial global.

O Comando Africano dos EUA estabeleceu sua principal base no Chifre da África em Camp Lemonnier, em Djibuti, em 2002, após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Em 2017, a China, que se tornou a principal potência econômica estrangeira no Chifre da África, instalou uma base de apoio naval em Djibuti. Isso incentivou uma colaboração mais estreita entre as autoridades americanas e da Somalilândia. Os EUA consideraram estabelecer uma base em Berbera, que abriga o maior porto da Somalilândia.

Com a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA em 2024, houve relatos de um aumento nos esforços para o reconhecimento dos EUA à Somalilândia. Isso permitiria aos EUA aprofundar parcerias comerciais e de segurança na volátil região do Chifre da África.

Desde março de 2025, representantes do governo Trump têm negociado com autoridades da Somalilândia para estabelecer uma base militar dos EUA perto de Berbera. Isso seria em troca de um reconhecimento formal, mas parcial, da Somalilândia.
Quais são os riscos do reconhecimento dos EUA à Somalilândia?

Um maior envolvimento dos EUA com a Somalilândia corre o risco de negligenciar a Somália.

Mogadíscio depende de assistência militar externa em sua luta contra o grupo extremista islâmico Al-Shabaab, que avança. A Somália também enfrenta crescente desafio de duas regiões federais, Puntland e Jubaland.

O reconhecimento dos EUA recompensaria Hargeisa por seus esforços persistentes para manter a estabilidade e promover a democracia. No entanto, poderia encorajar outros países a reconhecer a Somalilândia. Isso seria um golpe para os nacionalistas somalis que desejam um Estado para todos os somalis.

Texto traduzido do artigo Somaliland’s 30-year quest for recognition: could US interests make the difference?, de Aleksi Ylönen publicado por The Conversation sob a licença Creative Commons Attribution 3.0. Leia o original em: The Conversation.
Revista de Relações Exteriores

A guerra no Sudão está longe de acabar — grupos armados civis estão se levantando





A guerra no Sudão, que está entrando em seu terceiro ano, deu mais uma reviravolta inesperada. Em março de 2025, as Forças de Apoio Rápido (RSF), também conhecidas como Janjaweed, retiraram-se de Cartum, abandonando o palácio presidencial e o aeroporto.

Esta retirada marca um contraste significativo com a vitória anterior do grupo paramilitar, quando tropas invadiram a capital em abril de 2023.

A queda de Cartum é um ponto de virada. Mas, com base em minha pesquisa sobre a turbulência política no Sudão nas últimas três décadas, não acredito que os recentes desenvolvimentos marquem o capítulo final da guerra.

O que começou como uma luta pelo poder entre duas facções militares está se transformando em um conflito muito mais amplo, marcado pelo aprofundamento da fragmentação e pelo surgimento de grupos armados civis. Em todo o país, novas milícias estão surgindo, muitas formadas por civis que antes não participavam da guerra.

O exército encorajou civis a lutar, mas agora enfrenta um número crescente de grupos armados independentes. Tanto em áreas urbanas quanto rurais, civis pegaram em armas.

Alguns estão lutando ao lado do exército, atendendo a chamados da liderança militar, incluindo o comandante do exército Abdel Fattah al-Burhan, para defender seus bairros e famílias. Outros formaram unidades de autodefesa para se proteger contra saques e violência. Alguns se juntaram a milícias dissidentes que têm suas próprias agendas.

Esses grupos não compartilham um único objetivo. Alguns lutam por autodefesa, outros por poder político. Alguns por recursos e riqueza. Outros buscam controle étnico – a população do Sudão tem 56 grupos étnicos e 595 subgrupos étnicos. É isso que torna a guerra no Sudão ainda mais perigosa: a fragmentação está criando múltiplas mini-guerras dentro do conflito maior.
Como as Forças de Apoio Rápido perderam Cartum

Vários fatores-chave forçaram as RSF a recuar de Cartum após terem assumido o controle da capital sudanesa dois anos antes.Fratura interna: As RSF, construídas sobre lealdade tribal, lutaram para se manter unidas à medida que a guerra se prolongava. Muitas facções sentiram-se marginalizadas por seu líder, Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti.
Resistência civil: A dependência das RSF em brutalidade saiu pela culatra, alienando até mesmo aqueles que poderiam tê-las apoiado. Em vez de consolidar o controle, transformaram civis em inimigos. As RSF confiaram no terror – saques, assassinatos em massa e violência sexual. Em vez de ganhar controle, provocaram resistência feroz. Civis armados, originalmente pegando em armas para autodefesa, tornaram-se uma rede de milícias informais trabalhando contra as RSF.
Intervenção estrangeira: Relatos sugerem que ataques aéreos egípcios e apoio tático ajudaram o exército a retomar Cartum. Além disso, drones Bayraktar fabricados na Turquia enfraqueceram as posições das RSF. Com linhas de suprimento cortadas, as RSF não tiveram escolha a não ser recuar.

Cartum não foi apenas uma derrota militar para as RSF. Foi um ponto de virada na forma como a guerra é travada – não é mais uma luta militar, mas uma batalha envolvendo civis armados em todo o Sudão.

Com base em relatos de organizações humanitárias, observadores de conflitos e testemunhos locais, emergiu um quadro mais claro do crescente número de grupos armados operando em todo o Sudão. Esses grupos se formaram em resposta ao conflito crescente.

Análises recentes destacam que o tráfico de armas e a mobilização comunitária intensificada aceleraram nos últimos dois anos.

Unidades de defesa de bairro surgiram em áreas urbanas como El-Gezira, no centro do Sudão, El-Fasher, em Darfur do Norte, Al-Dalang, em Kordofan do Sul, El-Obeid, em Kordofan do Norte, Babanusa, em Kordofan do Oeste e Cartum. Elas foram inicialmente formadas para proteger zonas residenciais das RSF, mas desde então expandiram seus papéis e operam cada vez mais fora do controle do exército.

Milícias tribais e regionais também se tornaram mais proeminentes, particularmente em Darfur e Kordofan. Nessas regiões, rivalidades étnicas e políticas arraigadas se entrelaçaram com a guerra atual. Alguns desses grupos de milícias se alinharam com o exército. Outros permanecem independentes, perseguindo suas próprias agendas, que incluem garantir território.

Em Darfur, a crescente raiva pelo favoritismo de Hemedti em relação a sua própria tribo (Rizeigat) levou a deserções. Divisões internas dentro das RSF desempenharam um papel importante em suas recentes perdas. Alguns ex-combatentes das RSF formaram suas próprias milícias. As RSF nunca foram uma força unificada, mas uma aliança tribal dominada pela família Dagalo e elites Rizeigat. Inicialmente, receitas do ouro garantiram lealdade, mas à medida que a guerra se arrastou, fratura interna se aprofundou.

Outro grupo ligado a etnias é o Movimento Popular de Libertação do Sudão-Norte. Ele expandiu seu controle em Kordofan e Nilo Azul, duas regiões ricas em recursos no sul do Sudão. O grupo aliou-se às RSF para promover sua própria agenda, que inclui garantir maior autonomia para essas regiões e promover um quadro político secular que desafia a governança com tendência islamista de Cartum. Outras milícias étnicas também operam no leste do Sudão, apoiadas por países vizinhos como a Eritreia, escalando ainda mais a situação.

Milícias ligadas ao islamismo também estão em ascensão. O principal exemplo desses grupos é a Brigada El Baraa Ibn Malik, que emergiu como um ator-chave apoiando o exército contra as RSF. Relatos vinculam o grupo a remanescentes do regime de Omar al-Bashir (1993-2019) – as dissolvidas Forças de Defesa Popular. Este era um grupo paramilitar estabelecido em meados dos anos 1980 para defender tribos árabes e apoiar o exército. Ele floresceu sob o regime de al-Bashir.
E agora?

Embora a retirada das RSF de Cartum seja uma grande vitória para o exército sudanês, isso não significa que a estabilidade esteja retornando. Em vez disso, o Sudão agora enfrenta uma nova e perigosa realidade: o aumento da militarização civil.

Se não forem contidos, esses grupos podem evoluir e estabelecer territórios de fato controlados por senhores da guerra, onde comandantes locais exercem poder sem controle. Isso minaria qualquer perspectiva de governança centralizada no Sudão.

Com milícias se multiplicando e nenhuma solução política clara, o Sudão corre o risco de se tornar um campo de batalha de facções guerreiras.

Enquanto isso, mediadores internacionais estão lutando para encontrar uma solução enquanto a interferência estrangeira continua. Os Emirados Árabes Unidos, um grande apoiador das RSF, ainda apoiam Hemedti financeiramente, garantindo que ele permaneça ativo no comércio de ouro do Sudão.

Texto traduzido do artigo Sudan’s war isn’t nearly over – armed civilian groups are rising, de Mohamed Saad publicado por The Conversation sob a licença Creative Commons Attribution 3.0. Leia o original em: The Conversation.
Revista de Relações Exteriores

quarta-feira, 18 de março de 2026

Vale do Fogo, Nevada




O Vale do Fogo de Nevada exibe penhascos de arenito asteca em um tom vermelho brilhante sob a luz do sol do deserto.



O Labirinto de Arenito Vermelho do Deserto de Mojave

Há um lugar no meio do Deserto de Mojave; enquanto se dirige, a cor da paisagem muda repentinamente. Os tons amarelo-acastanhados do deserto se transformam instantaneamente em um vermelho incandescente. Como se as rochas tivessem sido expostas a uma chama, queimadas, mas sem desmoronar... Essa é a sensação do Vale do Fogo em Nevada. Uma das paisagens geológicas mais antigas e preservadas do sudoeste americano, e um lugar que realmente faz jus ao nome "Vale do Fogo".

O que torna este vale especial?
A cor que chama a atenção primeiro. Esse tom avermelhado vem do óxido de ferro que tinge os grãos de areia. Não desbota com a chuva nem clareia com o sol; pelo contrário, quando a luz incide sobre ele, fica ainda mais brilhante. É por isso que, durante o nascer do sol ou sob a luz alaranjada do final da tarde, o Vale do Fogo parece estar literalmente em chamas.

1. A História de 150 Milhões de Anos de Arenito Vermelho


Camadas de arenito vermelho e branco em forma de onda em Fire Wave, mostrando estratificação cruzada de dunas antigas.

Os arenitos vermelhos do Vale do Fogo são os restos fossilizados de um gigantesco mar de dunas conhecido como Arenito Asteca . Há cerca de 150 a 200 milhões de anos, o que hoje é Nevada era um vasto deserto. Dunas intermináveis, ventos constantes, ondas de areia... exatamente as cenas que vemos hoje no Saara.

Com o tempo, as areias compactaram-se, foram cimentadas por minerais e transformaram-se em rocha sólida. A estratificação cruzada dentro deste arenito ainda carrega a assinatura de antigos padrões eólicos: camadas inclinadas, linhas curvas, estruturas onduladas... como um livro aberto para um geólogo.
2. O verdadeiro motivo pelo qual o vale parece tão vermelho


Arco de arenito natural conhecido como Rocha do Elefante, que lembra a cabeça e a tromba de um elefante.

Explicar a cor do Vale do Fogo não se resume a "aqui há ferro". Três processos intensificam a tonalidade vermelha:Alta concentração de óxido de ferro → Revestimento dos grãos de areia com uma coloração vermelha semelhante à ferrugem.
Oxidação pelo ar e chuvas esporádicas → Aprofundamento dos tons vermelhos na rocha exposta.
Luz solar baixa no deserto → Fazendo com que o vermelho brilhe quase como neon ao nascer e pôr do sol.

É por isso que a aparência excessivamente saturada que você vê nas fotos não é um filtro; a cor é realmente assim.
3. Por que as formas das rochas parecem tão estranhas (Rocha em Arco, Onda de Fogo, Rocha do Elefante…)


Arco de arenito fino no Vale do Fogo.

O Vale do Fogo não se resume apenas à cor; as formas são inacreditáveis. As superfícies parecem sabonetes esculpidos, onduladas, encaracoladas, por vezes até orgânicas.

A razão:Erosão diferencial → O arenito não é uniforme; algumas partes são mais duras, outras mais macias. O vento e a água removem as partes macias e deixam as duras.
Direções predominantes do vento → A abrasão repetitiva pelo vento cria padrões repetitivos.
Tempestades curtas, porém intensas, no deserto → A água da chuva abre pequenos canais que posteriormente se transformam em bolsas e cavidades.

A combinação desses processos confere ao Vale do Fogo sua icônica geologia escultural.
4. Onda de Fogo: Uma onda congelada na rocha



O local mais fotografado do parque é a Onda de Fogo . Realmente parece uma onda congelada. As faixas de cor se sucedem: vermelho, rosa, bege, branco… Essas listras se formaram porque as areias carregaram diferentes minerais em diferentes períodos. À medida que as antigas dunas secavam e se acumulavam, deixavam linhas finas. Hoje, essas linhas parecem uma pintura horizontal.

Para um geólogo, essas faixas não são apenas estéticas; elas registram a direção do vento, o tamanho dos grãos e as condições de umidade do antigo sistema de dunas.
5. Rocha do Elefante e Arcos Naturais



Uma das formações mais famosas é a Pedra do Elefante , um arco natural que lembra a cabeça de um elefante. A parte inferior do arenito aqui é mais frágil, então o vento a escava, deixando para trás uma fina ponte. Esses arcos não duram para sempre; eventualmente, eles desabam. Portanto, o Vale do Fogo terá formas diferentes no futuro — a geologia é um processo vivo.
6. Evidências paleoclimáticas: um deserto de tempos remotos



O arenito asteca também evidencia grandes mudanças climáticas na história da Terra. As estruturas de estratificação cruzada nas camadas superiores mostram a altura e a direção das dunas. É possível até mesmo estimar a velocidade e a direção predominante do vento no antigo deserto.

Algumas superfícies apresentam pequenas cavidades arredondadas (estruturas tafoni), que comprovam o quão severas foram as condições no deserto durante milhões de anos.
7. Detalhes negligenciados escondidos nas rochas vermelhas


Os visitantes costumam se concentrar nas grandes formações, mas os pequenos detalhes são incríveis:Padrões ondulados chamados texturas de rolo de gelatina .
Revestimentos pretos brilhantes formados por películas de óxido de ferro, conhecidos como verniz do deserto .
Bolsões circulares de intemperismo químico influenciados pela água, não pela atividade biológica.
Revestimentos finos de carbonato de cálcio depositados em algumas superfícies.

Essas características microgeológicas mostram que o Vale do Fogo é rico não apenas em grandes formas, mas também em história microscópica.
8. Linha do Tempo Geológica

A maioria das rochas expostas pertence à era Mesozoica.Limite Triássico-Jurássico : a era do mar de dunas gigantes.
Kimmeridgiano–Cretáceo Inferior : aparecem algumas camadas finas de carbonato e argilito.
Cenozoico : falhas geológicas e soerguimento criam a topografia atual.

Assim, a paisagem moderna é a combinação de 150 milhões de anos de deposição e milhões de anos de erosão.
9. Condições Desérticas: Os Arquitetos da Erosão

Revestimento de verniz preto do deserto sobre arenito, formado por óxidos de manganês e ferro.

O deserto não significa apenas calor; significa contraste térmico extremo.
No Vale do Fogo:45°C durante o dia, caindo para 10°C à noite.
Essas mudanças rápidas racham as rochas.
O vento alarga as cavidades.
A chuva esculpe as superfícies rapidamente.

Esse equilíbrio dinâmico preserva o aspecto escultural do vale.
10. Por que este lugar se tornou tão famoso?

A fama do Vale do Fogo não começou com as redes sociais; ela cresceu em Hollywood ao longo de décadas. Star Trek, Total Recall, Transformers — muitas cenas foram filmadas aqui. Porque, com a luz certa, esse brilho vermelho parece de outro mundo.

Mas para um geólogo, o verdadeiro valor está na história por trás do vermelho: o registro do vento, a memória de um deserto antigo, a longa linha do tempo da erosão moldando algo que parece quase irreal.
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