sexta-feira, 17 de abril de 2026

Violência urbana: discurso midiático e manipulação da realidade




Violência urbana: discurso midiático e manipulação da realidade 
Raimundo Nonato Lima dos Santos 
Resumo 
O artigo analisa a construção da identidade de "cidade-sem-lei", atribuído à cidade de TimonMA, a partir da produção de discursos operada pela imprensa escrita de Teresina-PI, nos periódicos "O Dia" e "O Estado", com matérias publicadas sobre esta cidade maranhense na década de 1980. Discute também o conceito de violência urbana e o processo de manipulação da realidade realizado pela mídia impressa que contribuiu para a construção de uma memória social deturpada. Palavras-chave: Violência urbana. Timon. Manipulação. Abstract The article analyzes the construction of the identity of " city-without-lei" , attributed to the Timon-MA city, from the production of speeches operated by the written press of Teresina-PI, in periodic “The Day” and “The State”, with substances published on this maranhense city in the decade of 1980. It also argues the concept of urban violence and the process of manipulation of the reality carried through for the media printed that contributed for the construction of a deturpada social memory. Word-key: Urban violence. Timon. Manipulation. Este trabalho analisa a relação entre Timon, uma cidade do interior maranhense e Teresina, a capital do Piauí. O foco central da pesquisa consiste no estudo da construção das identidades a partir de representações formuladas e veiculadas em meios de comunicação impressa, as quais marcaram Timon, devido sobretudo à manipulação da realidade operada pela mídia, como uma cidade atrasada, violenta, enfim, como o “outro” relativamente a Teresina. Durante a década de 1980, as páginas policiais dos jornais O Dia e O Estado, produzidos em Teresina, foram recheadas por notícias de atos violentos realizados em Timon. Ressaltamos que todas as cidades do Brasil e do mundo sofrem com problemas de violência, e não apenas Timon. Segundo a historiadora Claudete Maria Miranda Dias (2005:139-141), a violência se apresenta nas relações sociais, familiares, amorosas e de trabalho, ou seja, nos diversos setores da vida e está historicamente ligada a diferentes processos de dominação como a Colonização, ou a sistemas sócio-econômicos como o Escravismo, o Feudalismo e o Capitalismo. A questão da violência nas cidades torna-se um problema quando se percebe a existência constante de roubos, assaltos, assassinatos, em suma, de ameaças à integridade  Mestre em História do Brasil pela Universidade Federal do Piauí. 1 ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009. material, física e moral dos indivíduos em sua vida cotidiana. Essa linha de raciocínio também é compartilhada pelo sociólogo Luís Antônio Machado da Silva, que concebe a violência urbana como sendo algo que [...] refere-se, primeiro, à constatação da existência maciça de saques à propriedade privada (assaltos, roubo) e ameaças à integridade física, em situações relacionadas à vida cotidiana; e ao mesmo tempo, segundo, a modelos de conduta subjetivamente justificados, no âmbito destas situações (SILVA, 1993:131). O que diferencia as cidades, no que se refere à violência urbana, é o grau de intensidade desses acontecimentos e as formas como eles são realizados. Geralmente, nas grandes cidades, existem altos índices de criminalidade devido à complexidade da vida cotidiana (MORAIS, 1981: 28-45), ao contrário das pequenas cidades, onde a vida simples tornaria as relações sociais menos propensas a práticas de sociabilidade violenta. Entretanto, não é uma tarefa simples identificar uma “violência urbana”, uma vez que uma interpretação de um ato como violento é muito subjetiva. A sua classificação vai depender do contexto histórico-social em que ele está inserido, posição que pode ser percebida nas palavras do filósofo brasileiro Nilo Odalia: O ato violento não traz em si uma etiqueta de identificação. O mais óbvio dos atos violentos, a agressão física, o tirar a vida de outrem, não é tão simples, pois pode envolver tantas sutilezas e tantas mediações que pode vir a ser descaracterizado como violência. [...] Matar em defesa da honra, qualquer que seja essa honra, em muitas sociedades e grupos sociais, deixa de ser um ato de violência para se converter em ato normal – quando não moral – de preservação de valores que são julgados acima do respeito a vida humana (ODALIA, 2004:23). Além de ser necessário observar o contexto histórico-social, para se classificar um ato como violento, deve-se singularizar esses atos, pois existem múltiplas formas de violência ou práticas de sociabilidade violenta. Sem se preocupar com a singularização das ações humanas, os jornais de Teresina, O Dia e O Estado, publicavam a maioria das notícias sobre Timon nas páginas policiais, como pode ser observado no quadro a seguir: 





O quadro acima mostra que o tema da violência se destacava nos jornais teresinenses, em detrimento de outros assuntos, como esporte, cultura e educação, referentes à cidade de Timon. Sobre práticas de sociabilidade violenta foram contabilizadas 423 notícias no jornal O Dia e 455 no jornal O Estado, totalizando 878 matérias ao longo de dez anos. Os outros assuntos veiculados nesses dois jornais somam menos da metade desse montante, apenas 416 casos. Por que o tema da violência aparecia mais nos jornais teresinenses? Na cidade de Timon não havia outros acontecimentos que merecessem destaque na imprensa local? Havia muitos casos de violência, cotidianamente, naquela cidade maranhense e esses assuntos interessariam uma maior parte da população de Timon e também de Teresina? Quem decide o que é, e o que não é, de interesse da população? O que pode e o que não pode ser veiculado nos jornais? Os jornalistas dos referidos jornais, desconheciam a existência de outros fatos que poderiam ser noticiados? Essas indagações nos levam a concluir que houve uma manipulação da realidade a partir do processo de ocultamento de uma realidade não-violenta em Timon, haja vista o fato de que, antes de os jornalistas saírem em busca das informações, são realizadas as chamadas reuniões de pauta, onde se decide a estrutura da edição e os assuntos que serão veiculados naquele determinado dia, portanto, não se trata de desconhecer outros assuntos, já que os jornalistas, seguindo a linha editorial dos meios de comunicação nos quais trabalham, fazem a cobertura apenas dos eventos que já foram predeterminados na reunião de pauta. Essa manipulação da realidade timonense, segundo o jornalista Perseu Abramo (2003), seguiu um padrão de ocultação, que ele considera como sendo […] o padrão que se refere à ausência e à presença dos fatos reais na produção da imprensa. Não se trata, evidentemente, de fruto do desconhecimento, e nem mesmo de mera omissão diante do real. É, ao contrário, um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade. Esse é um padrão que opera nos antecedentes, nas preliminares da busca da informação, isto é, no ‘momento’ das decisões de planejamento da edição, da programação ou da matéria particular daquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta. A ocultação do real está intimamente ligada àquilo que freqüentemente se chama de fato jornalistíco. A concepção predominante – mesmo quando não explícita – entre empresários e empregados de órgãos de comunicação sobre o tema é a de que existem fatos jornalísticos e fatos não-jornalísticos e que, portanto, à imprensa cabe cobrir e expor os fatos jornalísticos e deixar de lado os não jornalísticos. Evidentemente, essa concepção acaba por funcionar, na prática, como uma racionalização a  posteriori do padrão de ocultação na manipulação do real (ABRAMO, 2003: 25-26. Grifos do autor). Essa manipulação do real discutida por Perseu Abramo foi detectada no jornal O Dia, antes da década de 1980, mais especificamente em 1976. O referido periódico publicou duas matérias com manchetes sensacionalistas: “Quem quer morrer em Timon?”1 e “Timon continua um município sem lei”. 2 Na primeira, denunciavam as arbitrariedades da polícia de Timon, que não estaria cumprindo com o seu dever de proteger a sociedade e prender os criminosos, ocupado-se em realizar torturas e todos os tipos de humilhações contra indivíduos acusados de crimes pelos quais ainda não haviam sido julgados e que eram reconhecidos no meio popular como sendo pessoas de boa índole. A matéria “Timon continua um município sem lei” proporcionava ao leitor timonense e/ou teresinense uma reflexão sobre os problemas de segurança naquele município, com o intuito, direto ou indireto, de sensibilizar a sociedade, instigando-a a se organizar para reivindicar melhorias para aquela cidade do leste maranhense. Entretanto, essa mesma matéria banalizava as práticas de sociabilidade violenta realizadas em Timon, como pode ser observado a seguir: […] A pergunta de advertência feita na página publicada recentemente por O Dia sobre as ocorrências constantes e graves, que inquietam os timonenses pacatos e responsáveis, feita nos termos: ‘quem quer morrer em Timon?’, está confirmada mais uma vez pelos fatos recentes ali acontecidos e aqui narrados. Tiros, facadas e espancamentos praticados por elementos que não vão presos e são dados todos por desconhecidos. A passagem de uma pessoa que quase morre a 28 metros de profundidade. Os inúmeros afogamentos que em relação com a população de Teresina, ocorrem em percentagem 10 vezes maior. Os atropelamentos são muitos também. Um velhinho de 76 anos veio de Nazaré do Bruno somente ser atropelado em Timon.[…] As tocas, como são chamadas pela polícia os locais de refúgio dos marginais, muitas vezes casas abandonadas, muitas vezes palhoças situadas na periferia da cidade, são muito comuns em Timon, como uma prova da inexistência de ação policial na cidade.[…]3 Analisando o conteúdo da matéria acima, podemos considerar que as críticas às ações da polícia de Timon puderam ser publicadas, sem censura, porque no cenário político nacional, estava havendo um retorno à democracia, de forma “lenta, gradual e segura”, a partir do governo do penúltimo presidente do Regime Militar, o general Ernesto Geisel (1974- 1979). A censura prévia à imprensa foi gradualmente suspensa entre 1975 e 1978; inicialmente para os jornais de grande circulação como o Estado de São Paulo, e, depois de 1978, para os da imprensa alternativa. Porém, isso não significou o fim do controle e das 1 PÁDUA, Antônio de. Quem quer morrer em Timon? O Dia. Teresina, ano 25, n. 4475, 6 maio 1976. p. 7 2 Timon continua um município sem lei. O Dia. Teresina, ano 25, n. 4479, 11 maio 1976. p. 7. 3 Ibid., p. 7.  perseguições políticas, que ainda continuaram, como por exemplo, em 1976, foi proibida a apresentação pela TV de uma gravação do Balé Bolshoi pelo fato de ser uma Companhia russa e, assim, pudesse fazer apologia ao comunismo da União Soviética (HABERT, 2003: 40-68). Uma outra consideração que se pode fazer sobre a matéria citada é que, no trecho “Um velhinho de 76 anos veio de Nazaré do Bruno somente ser atropelado em Timon”, percebemos um sensacionalismo desenfreado, visto que ninguém sai de sua casa, excetuandose os casos de suicidas, somente para ser atropelado. Os acidentes de trânsito ocorrem por fatalidade e/ou por imprudência de motoristas, geralmente com maior incidência nos trânsitos complexos de grandes cidades, o que não é o caso de Timon, onde havia pouca circulação de veículos nas ruas, característica de uma paisagem típica das pequenas cidades do interior do Brasil. Ressaltamos que a linha editorial sensacionalista não era um privilégio da imprensa escrita teresinense no ano de 1976, já que também estava presente na imprensa nacional e se perpetuou durante a década de 1980, fato atestado por Abramo (2003: 23): “uma das principais características do jornalismo no Brasil, hoje [final da década de 1980], praticado pela maioria da grande imprensa, é a manipulação da informação”. Nesse sentido, as matérias sensacionalistas publicadas no jornal O Dia sobre práticas de sociabilidade violenta em Timon destacavam assassinatos, “Homem encontrado morto em Timon”, como pode ser observado no trecho abaixo: Francisco Pereira de Oliveira, vulgo chibeu, foi assassinado a golpes de faca peixeira anteontem pôr volta das 22 horas nas proximidades de uma garagem de ônibus, à Avenida Presidente Médici, em Timon. O criminoso é desconhecido da polícia daquela cidade, uma vez que após praticar o crime evadiu-se do local sem deixar pista 4 O jornal O Estado também destacava os assassinatos na cidade de Timon, em manchetes como “Morte no início do carnaval”, cujo conteúdo da notícia ressaltava o possível medo que estaria se generalizando por toda a população motivado por uma suposta falta de segurança, anunciada por esse meio de comunicação, como pode ser observado no trecho abaixo: O carnaval de 1981 começou com uma morte no interior, exatamente na cidade de Timon, onde a violência está apavorando os moradores. O operário Francisco Matos Fontinele, foi assassinado ontem com cinco facadas no peito esquerdo, pelo estivador Manoel Carlos de Sousa.5 4 Homem encontrado morto em Timon. O Dia. Teresina, ano 28, n. 7154, 8 jan. 1980. p. 8. 5 Morte no início do carnaval. O Estado. Teresina, ano 11, n. 2417, 28 fev. 1981. p. 1. 
 Além dos homicídios, o jornal O Dia destacava também os roubos e assaltos, com manchetes do tipo “Lanceiros presos no centro”: Os lanceiros José Genésio Almada, “O Pretinho” e Bartolomeu Gomes Barreto foram presos e autuados em flagrante pelo delegado do 1º Distrito Policial José da Silva Torres, depois de terem sido presos no centro comercial de Teresina praticando lances [...] Os dois lanceiros disseram que vinham agindo há muito tempo em Teresina, e que logo após um golpe fugiram para a cidade de Timon e somente depois de comerem (sic!) todo o produto do lance (furto) voltavam a agir6 Noutra matéria, com a manchete “Brasília puxada é encontrada em Timon”, aquele mesmo jornal noticiava as ações de ladrões de carro, “puxadores”, na gíria policial, que estavam atuando de forma constante e impunemente nas cidades de Timon e Teresina, no início da década de 1980. A constância desses roubos chamava a atenção dos delegados de Timon e de Teresina, como pode ser observado abaixo: ‘creio que este puxador de carros, desta vez, quer botar uma oficina de veículos’. A declaração é do delegado Luis Evangelista do 3º DP [de Teresina], referindo-se a Brasília de cor branca, sem placa [roubada em Teresina], encontrada ontem pelos agentes desta delegacia, na localidade Piçarreira a cinco quilômetros da cidade de Timon. 7 Essas duas matérias referem-se a pequenos e grandes furtos que eram realizados em Teresina, sendo que, depois, os ladrões fugiam com os produtos do roubo para a cidade de Timon. Percebemos aí, a construção de um discurso representando Timon como uma cidadesem-lei, uma terra onde os criminosos agiriam impunemente, e que, por isso, atrairia bandidos de outras regiões com o intuito de dividir os seus “lucros” e planejar novos crimes. A veiculação de matérias no jornal O Dia destacando Timon como uma cidade desprovida de segurança pública eficiente, ocorre desde meados da década de 1970, com manchetes sensacionalistas do tipo “Timon continua um município sem lei”. Num trecho dessa matéria, o referido periódico afirmou, de forma arbitrária, uma vez que houve generalização na exposição das idéias, a existência de grande quantidade de esconderijos de marginais em Timon, onde os criminosos residiriam tranqüilamente, como pode ser observado abaixo: Recentemente o delegado Moura, do 1º DP de Teresina, foi diretamente para Timon na certeza de encontrar a toca [refúgio] de um marginal, o golpista de carradas de cereais. São dezenas de casos desta natureza, em que a Polícia do Piauí encontra antro de ladrões em Timon, residindo ali tranqüilamente.8 6 Lanceiros presos no centro. O Dia. Teresina, ano 28, n. 7162, 17 jan. 1980. p. 8. 7 Brasília puxada é encontrada em Timon. O Dia. Teresina, ano 29, n. 7186, 13 fev. 1980. p. 8. 8 Cf. Nota 34.  No início da década de 1980 a imagem de Timon como uma cidade- sem-lei continuava sendo construída nos meios de comunicação escrita de Teresina. O jornal O Estado, na coluna Ronda Policial, assinada pelo jornalista Pedro Silva, noticiava várias matérias curtas enunciando o possível clima de insegurança naquela cidade maranhense. Como exemplo, citamos a manchete “Timon” que destaca a possível fragilidade da Polícia daquele município: “Com várias tocas de ladrões espalhadas em quase todas as ruas de Timon, o delegado Paulo Augusto já não sabe como combater os marginais, que a cada dia aumentam mais”9 . Noutra manchete, “Timon sem lei”, o jornalista Pedro Silva representa, arbitrariamente, Timon como um lugar que esconderia os piores criminosos do Brasil e, por esse motivo, todas as práticas de sociabilidade violenta imagináveis poderiam ser encontradas excessivamente naquela cidade: “Todo tipo de malandragem que possa existir, há em TimonMA. As principais ‘tocas’ dos mais audaciosos ladrões estão ali”10 Essa representação negativa da cidade de Timon era reforçada por outros acontecimentos violentos, a exemplo dos casos de acidentes de trânsito, como anunciado na matéria com a manchete “Atropelamento de carro mata anciã em Timon,” na qual o jornal O Estado noticiava que A anciã Maria da Conceição Assunção [...] foi anteontem atropelada e morta por uma caçamba [...] na avenida Presidente Médici em Timon [...] A velhinha, que foi jogada pelo veículo, que desenvolvia alta velocidade segundo populares que assistiram o acidente, ficou com suas vísceras e miolos expostos no meio do asfalto, sendo conduzida por um homem que passava no momento em uma camioneta, levando-a para o Pronto Socorro do HGV [Hospital Getúlio Vargas em Teresina], onde foi removida para o necrotério [...]11 Tradicionalmente, os jornais são entendidos – pela maioria das pessoas – como possuidores da função de informar a verdade, comunicando fatos do cotidiano local, nacional e internacional, mesmo que ele desagrade aos leitores (ou uma parcela deles), uma instituição ou um grupo social. Esse ponto de vista concebe a notícia como um espelho da realidade e defende a “objetividade” como um elemento chave da atividade jornalística. Tal objetividade, entretanto, pode ser questionada, como fazem os estudos dos jornalistas Clóvis Rossi (1986) e Alfredo Vizeu (2002). O primeiro é contra o ponto de vista que concebe a notícia como um “espelho da realidade,” pois, segundo ele, entre o fato e a sua publicação no jornal, existe um processo de filtragem – o enfoque dado às matérias, tamanho do texto, tamanho do título – que sempre resulta em uma versão e nunca no “espelho da realidade”: 9 SILVA, Pedro. Timon. O Estado. Teresina, ano 14, n. 3055, 22-23 maio 1983. p. 8. 10 SILVA, Pedro. Timon sem lei. Teresina, ano 14, n. 3066, 5-6 jun. 1983. p. 8. 11 Atropelamento de carro mata anciã em Timon. O Estado. Teresina, ano 11, n. 2401, 10 fev. 1981. p. 12.  Afinal, entre o fato e a versão que dele publica qualquer veículo de comunicação de massa há a mediação de um jornalista (não raro, de vários jornalistas), que carrega consigo toda uma formação cultural, todo um background pessoal, eventualmente opiniões muito firmes a respeito do próprio fato que está testemunhando, o que leva a ver o fato de maneira distinta de outro companheiro com formação background e opiniões diversas (ROSSI, 1986: 10). O jornalista Alfredo Vizeu entende que, no jornalismo, a linguagem não é apenas um campo de ação, mas a sua dimensão constitutiva. É a condição pela qual o sujeito constrói um real, um real mediatizado. Nesse sentido, a enunciação jornalística é bastante singular em função desse campo deslocar-se sempre como um lugar que retrata e cria o lugar do outro, a partir de leis e regras determinadas. A notícia ajuda a constituir a realidade como um fenômeno social compartilhado, uma vez que no processo de definir um acontecimento, a notícia define e dá forma a esse acontecimento. Desse modo, a notícia está permanentemente definindo e redefinindo, constituindo e reconstituindo fenômenos sociais (VIZEU, 2002: 2). Partindo desse pressuposto, percebemos que a narração do acidente de trânsito, na matéria citada, além de informar, produziu um discurso. Os detalhes desse atropelamento, juntamente com o de outras notícias congêneres – tais como “Degolaram homem a facadas e tocaram fogo no cadáver”12; “Carbonizado corpo de anciã”13; “Jovem é assasssinada pelo namorado com 25 facadas”14; “Corpo sem cabeça jogado na estrada”15; “Estudante é morto a facadas e pauladas por delinqüentes”16; “Menor é espancada e estuprada”17 – contribuíram para a construção de um imaginário de medo entre os habitantes de Teresina, sobre a vizinha cidade maranhense. A partir da análise do quadro 5, comentado anteriormente, percebemos que, durante a década de 1980, a maioria das notícias sobre Timon veiculadas nos jornais teresinenses O Dia e O Estado destacavam o tema da violência. Acreditamos que essa constante associação da cidade com o tema da violência, contribuiu para esse imaginário de medo, como pode ser observado no quadro a seguir: 12 Degolaram homem a facadas e tocaram fogo no cadáver. O Dia. Teresina, ano 34, n. 6970, 14 mar. 1985. p. 1. 13 Carbonizado corpo de anciã. O Dia. Teresina, ano 35, n. 8172, 26 jul. 1986. p. 12. 14 Jovem é assassinada pelo namorado com 25 facadas. O Dia. Teresina, ano 37, n. 8855, 4 nov.1988. p. 12. 15 Corpo sem cabeça jogado na estrada. O Estado. Teresina, ano 17, n. 4346, 26 jun. 1987. p. 1. 16 Estudante é morto a facadas e pauladas por delinqüentes. O Estado. Teresina, ano 18, n. 4756, 13 out. 1988. p. 14. 17 Menor é espancada e estuprada. O Estado. Teresina, ano 19, n. 4946,12 maio 1989. p. 12. 





Esse discurso do medo – assim como qualquer outro discurso produzido nos jornais – ocorre(u) a partir da enunciação jornalística, na qual o jornalista dá conta daquilo que aconteceu recentemente e, portanto, daquilo que ainda não acedeu à memória coletiva e que poderá gravar-se nela, em primeira mão, precisamente pelo fato de o jornalista enunciar (RODRIGUES, 1996). A repetição de enunciados sobre assassinatos, furtos e acidentes de trânsito ocorridos na cidade de Timon e noticiados na imprensa teresinense produziram uma identidade ligada à performatividade (SILVA, 2000), ou seja, a simples menção a um acidente de trânsito – que Rossi (1986) considera que pode haver objetividade por parte do repórter, quando este não está envolvido pessoalmente ou algum amigo ou parente – que, supostamente, se está apenas descrevendo contribui para definir ou reforçar a identidade de algo/alguém. O conceito de performatividade desloca a ênfase na identidade como descrição, como aquilo que é – uma ênfase que é, de certa forma, mantida pelo conceito de representação – para a idéia de “tornar-se”, para uma concepção da identidade como movimento e transformação (SILVA, 2000: 92). Nessa perspectiva, a cidade de Timon “tornou-se” uma cidade-sem-lei no imaginário social dos teresinenses, a partir da excessiva repetição de enunciados sobre violência urbana, em detrimento de raros casos de notícias sobre fatos não violentos. Esse olhar da mídia pode ser exemplificado pelas notícias sobre violência em cidades como Rio de Janeiro, onde a maior parte das notícias se relacionam à violência urbana, amedrontando os cidadãos. Muitos  10 brasileiros são influenciados pela representação da mídia sobre esta cidade e assim, evitam visitá-la, sem fazer o devido dicernimento da notícia e da realidade. Esse exemplo serve para se compreender melhor o que se passou em Timon. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 FONTES JORNAL O DIA, Teresina, jan – dez., 1980-1989. JORNAL O ESTADO, Teresina, jan - dez., 1980-1989. BIBLIOGRAFIA ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003. ABREU, Irlane Gonçalves de. Cidade: conceitos e interpretações. Scientia et Spes. Teresina, ano 1, n. 1, p. 77-83, 2002. DIAS, Claudete Maria Miranda. Que História é essa?. Teresina: EDUFPI, 2005. HABERT, Nadine. A década de 70: apogeu e crise da ditadura militar brasileira. 3. ed. São Paulo: Ática, 2003. (Série Princípios). MORAIS, Regis. O que é violência urbana. São Paulo: Brasiliense, 1981. (Coleção Primeiros Passos). ODALIA, Nilo. O que é violência. São Paulo: Brasiliense, 2004. (Coleção Primeiros Passos). RODRIGUES, A. D. O discurso mediático. Lisboa, 1996. (mimeo). ROSSI, Clóvis. O que é jornalismo. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. (Coleção Primeiros Passos). SILVA, Luís Antônio Machado da. Violência urbana: representação de uma ordem social. In: NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do; BARREIRA, Irlys Alencar F. (Org). Brasil urbano: cenário da ordem e da desordem. Rio de Janeiro: Notrya; Fortaleza: SUDENE: Universidade Federal do Ceará, 1993. p. 131-142. SILVA, Tomaz Tadeu da. A produção social da identidade e da diferença. In: Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000, p. 73-102. VIZEU, Alfredo. A produção de sentidos no jornalismo: da teoria da enunciação a enunciação jornalística. Disponível em: . Acesso em: 13 set. 2005.

Violência Urbana





Violência Urbana

Postado por Esther Santana 
Um grave problema social


A violência urbana é um fenômeno social que tem se espalhado com grande velocidade nas cidades. A raiz desse problema pode estar no modo como a sociedade está estruturada, quais são seus valores culturais, sociais, morais padrões econômicos e também ideologia política.



No Brasil, por exemplo, pode-se dizer que a violência urbana se agravou nos últimos anos por conta da ausência do Estado e de outras instituições assistenciais, que não têm fornecido o básico para que as pessoas tenham condições de sobreviver.


O descaso com a educação, saúde e segurança pública, aumento das taxas de desemprego, narcotráfico, políticas armamentistas, discurso de ódio e tantos outros, são alguns dos exemplos.



Vale lembrar que a violência urbana não é um fenômeno limitado às grandes metrópoles. Infelizmente, esse problema já chegou nas cidades do interior e pequenos centros urbanos.


Cada dia que passa fica mais comum assistirmos os meios de comunicação noticiando as explosões nos caixas de bancos, sequestros, assaltos a mão armada, homicídios, feminicídios, estupros e tantas outras formas de violência.
        

Para piorar, em muitos casos a violência parte da instituição responsável por garantir a proteção dos cidadãos: a polícia. Engana-se quem pensa que esse fenômeno é exclusivamente brasileiro, tendo em vista que esse comportamento se repete em outros países. Praticamente incontrolável, a condição carece de uma saída eficiente.


Entendendo a violência urbana


Dentro do campo sociológico, a violência urbana e todos os outros tipos de violência podem ser consideradas como um elemento inerente a toda e qualquer sociedade.


O sociólogo Emile Durkheim afirmou que a violência devia ser analisada sob a perspectiva de fato social, decorrente de fatores como a desigualdade, condições financeiras e sociais, e seu uso provém da necessidade de poder que os indivíduos de uma determinada realidade têm.

Muitas vezes, as instituições a utilizam, de forma legítima, como mecanismo de coerção, como é o caso da polícia, que já foi citada aqui. Independentemente da “justificativa”, a violência está presente em todos os âmbitos, com destaque para os espaços urbanos.

O grande problema está em tentar compreender o fenômeno, suas causas, e o porquê desse caminho ser utilizado para a resolução de quaisquer que sejam as situações.

Por que uma “fechada” no trânsito se transforma em uma discussão mais violenta? Por que uma discussão no bar se transforma em assassinato? Por que o fim de um relacionamento resulta em feminicídio? Por que um grupo de pessoas está mais sujeito a ser agredido ou morto? O que está por traz das motivações?

Essas perguntas são feitas pelas ciências sociais para que seja possível não só compreender a complexidade que há nessas reações, mas também para dar soluções para a incidência da violência urbana.

Dentre as diversas causas, é claro que não dá para negligenciar alguns aspectos que influenciam as relações sociais e como a sociedade está estabelecida. A pobreza, racismo, divisão de classes, machismo, todos esses fatores são estruturantes e potencializam a violência.


Pessoas em situação de rua estão entre os mais vulneráveis à violência urbana. Entre 2015 e 2017, foram registrados mais de 17 mil casos de violência contra o grupo. (Imagem: Wikimedia)


Quando se tem uma sociedade que já é construída sob esses pilares, na qual já existe uma ramificação entre as camadas sociais e ela determina o que cada um desses conjuntos têm acesso (inclusive a segurança), são os órgãos públicos que devem criar meios de garantir a seguridade e bem-estar dos que não têm como financiar isso.


Porém o que se tem visto, ao menos aqui no Brasil, é que as instituições estão tão enfraquecidas e sucateadas que elas não conseguem prover isso. Quanto mais pobres e mais excluídos socialmente, mais expostos à violência urbana essas pessoas ficam. E conhecendo apenas a violência, muitos acabam por reproduzi-la.


Violência institucionalizada


Muitas pessoas defendem que a violência e o aumento nas taxas de criminalidade decorrem somente do enfraquecimento das forças policiares. Porém, é importante destacar aqui alguns dados: de acordo com informações do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a polícia do Brasil é a que mais mata.


Além de mortes em conflito armado, há também as execuções sumárias e os inúmeros casos de violência policial que aparecem nos noticiários. Geralmente, ocorrem dentro das periferias e favelas das cidades.


É claro que investir na força policial, no sentido de prover melhores condições e instrumentos de trabalho, pode ter bons resultados. Porém, de nada adianta fornecer esses recursos, se não houver um preparo específico para que esses profissionais possam lidar com as situações de risco diário.


Além disso, é muito importante que o combate a violência esteja lado a lado com o incentivo à educação, cultura e lazer, meios de acesso à igualdade social.

O que é Violência Urbana

 



Resumo da Obra: 

O que é Violência Urbana Autor: Régis de Morais 

O entendimento da violência urbana vai muito além da conceituação de homens bons e homens ruins, até porque não se pode definir quem são os homens bons e quem são os homens ruins. É conseqüência da nossa sociedade e não uma característica dela. Régis de morais, no livro, inicia o seu trabalho focando o medo. O medo que eu tenho de sair às ruas, que você tem e que, por si só, é um fator de geração da violência urbana. Isto acontece porque, quanto mais reprimidos os homens, mais drásticas são as suas atitudes. Explicando, o homem que se mantém reprimido o tempo todo, escondendo-se na sociedade, permite que outros que dominam tomem as rédeas do que será desenvolvida na cidade, gerando um nível de poder extremo, o homem, que ao se ver reprimido reage, vai ao encontro de uma afirmação constante no livro, a de que a brutalidade é a arma dos fracos. Em qualquer das duas hipóteses, o homem é uma marionete. Isto porque, como afirmado no segundo trecho, o espaço é político, e quando se fala em política, se fala em poder. No espaço das cidades, principalmente grandes cidades, que é o alvo principal do estudo, o poder encaminha a população e por conseqüência delimita o seu nível de ação, como acontece em qualquer das organizações, das mais simples as mais evoluídas. Como conseqüência da impotência dos menos poderosos, pra não dizer sem poder, surge à brutalidade dos fracos, tidos por muitos como a raiz da violência urbana, mas ai, nos perguntamos, a raiz representa a base, a base é começo, onde começa tudo isso? Na brutalidade dos fracos ou na opressão de um sistema que difere a todos. Creio eu que todos já sabem essa resposta... Por todas essas situações, o homem perde a sua maior riqueza, a sua identidade, a sua capacidade de enxergar em si a pretensão de ser melhor. Isto gera violência. Como podemos julgar o detento rebelado que fora preso por roubar, mas que, dentro da cadeia, possui seus pertences roubados e não vê ninguém ser punido por isso? Como podemos julgar o homem que pode produzir grandes produtos sem que possa ter o poder de consumi-los? É um mundo que, por mais que o homem tente se livrar dos descaminhos e do barbarismo, ele está sendo constantemente sendo persuadido a viver assim. Um sistema que estimula a violência na medida em que não estimula a inserção social dos oprimidos. E o futuro, sobre o qual nós temos grandes expectativas, representa o mesmo presente que as pessoas tinham grandes expectativas há 30 anos atrás. Nossas crianças, antes açoitadas por um mundo de miséria e repressão, quando hoje, além da miséria, vivem sobre a mira de uma ideologia programática. Se antes havia ao menos a humanidade como atenuante, hoje elas crescem com máquinas no auxilio do desenvolvimento. No livro, ele coloca a seguinte idéia: Sociedade no mundo contemporâneo está resumida á: homem = produção = dinheiro, crianças não produzem, logo, não se encaixam no ideal e, até que possuam aptidão para tal, são apenas mais um problema ou mais uma boca pra se alimentar, como ele relata. Concluindo, a grande contribuição do livro é que, violência urbana vai muito além dos fatos, muito além das causas superficiais. Violência urbana é apenas uma conseqüência do princípio desejo e poder. Se você deseja e pode, está tudo perfeito, se o desejo existe e o poder não vem acompanhando, diferentemente de outras pessoas, surge esta realidade social, afinal, ninguém abre mão do poder e da mesma forma, ninguém abre mão do desejo. 

Bibliografia 

• MORAIS, R. de. O que é violência urbana. São Paulo: Brasiliense, 1981.)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Extração de petróleo na Margem Equatorial, afinal, por que não?




Extração de petróleo na Margem Equatorial, afinal, por que não?

Faz mais de uma década que discute-se a extração de petróleo na Margem Equatorial, a questão não avança. Antes, saiba que Margem Equatorial significa cerca de 2,2 mil quilômetros, desde o Estado do Amapá, na Região Norte, até o Rio Grande do Norte, no Nordeste Em 2023, o governo estimou que seria possível extrair 10 bilhões de barris de petróleo só do bloco 59 na Foz do Amazonas, que fica a 160 km da costa, e a mais de 500 km da foz do rio. No entanto, mesmo pedindo apenas para ‘pesquisar’, sondar a área, e confirmar ou não o potencial de barris, o Ibama negou a licença.

Ilustração, Sumaúma.

Técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) recomendaram que a chefia do órgão negue a licença à Petrobras para explorar a Margem Equatorial na região do Amapá. O Globo revelou a informação, posteriormente confirmada pela CNN.


De todo modo, a capacidade da Margem Equatorial se aproxima da do pré-sal. Este post certamente renderá discussões, mas era uma obrigação com nossos leitores. Também será mais uma oportunidade para o Mar Sem Fim expor seu pensamento e se distanciar ainda mais dos… “ambientalistas”.
23 plataformas na região do pré-sal e 126 bilhões para a sociedade

A propósito, hoje a Petrobras tem 23 plataformas nesta região. Segundo a empresa, ‘o pré-sal é um sucesso que gera resultados para a Petrobras e também para o país. Entre 2008 e 2023, a Petrobras pagou cerca de U$ 63 bilhões em participações governamentais, entre royalties e participações especiais, associados diretamente à produção do pré-sal. Além disso, outros U$ 63 bi foram pagos ao estado, para aquisição de blocos e direitos em ativos da atividade, em um total de 126 bilhões de dólares em retorno do pré-sal para a sociedade civil’. Em outras palavras, foi a sociedade que ganhou estes 126 bilhões de dólares. Será que somos tão ricos assim que não precisamos do dinheiro, possivelmente, ainda mais que nos rendeu o pré-sal?


E, neste link, você pode conhecer o estudo ambiental da Petrobras sobre o bloco FZA-M-59.
“Inconsistências preocupantes para a operação segura”

Para o Ibama, há “inconsistências preocupantes para a operação segura” em uma área de “alta vulnerabilidade socioambiental”. Daí vem a negativa, apoiada pela grande maioria dos ‘ambientalistas’, entre outros. Contudo, para nós, esta é uma decisão ideológica, e não uma análise puramente técnica como deveria.




Veja o caso da Guiana, já abordado nestas páginas. Até então, o país figurava entre os mais pobres da América Latina. Em 2015, um consórcio liderado pela Exxon, que incluía a Hess e a chinesa Cnooc, fez uma grande descoberta no Campo Liza. Segundo o Financial Times, a produção deve garantir à Exxon um fluxo contínuo de petróleo bruto por décadas. Como resultado, a economia guianense cresceu a impressionantes 62,3% em 2022, a maior taxa do mundo. Na época, analistas de Wall Street classificaram o investimento como “o melhor negócio petrolífero da história moderna”.



Em 2023, a Guiana registrou o sexto maior PIB per capita das Américas, segundo o site especializado Trading Economics. Com um valor de 23.103 dólares, o país ficou atrás, nessa ordem, das Ilhas Caimã, Estados Unidos, Canadá, Bahamas e Porto Rico. No mesmo ano, o Brasil ocupou a 20ª posição, com 9.728 dólares.

Para nós, o maior problema segue sendo a polarização. Essa divisão extrema entre brasileiros apenas atrapalha, prejudica e paralisa o país. Enquanto isso, poucos veículos da imprensa ou perfis nas redes sociais mencionam a importância da Corrente Norte do Brasil.
A Corrente Norte do Brasil

A Corrente Norte do Brasil atravessa o Equador, transportando águas tropicais do hemisfério sul para o hemisfério norte. No entanto, essa dinâmica raramente aparece nas discussões sobre a possível exploração na Margem Equatorial. Em outras palavras, em caso de vazamento, há grande chance de o óleo nem sequer alcançar o litoral do país.

Mapa da Corrente Norte do Brasil. Repare bem para onde vão as águas no extremo Norte do Brasil. Elas atravessam o Equador e seguem para o Caribe. Vamos lembrar que o bloco hoje discutido fica a 160 km da costa, e a mais de 500 km da foz do Amazonas.
Especialistas falam com o Mar Sem Fim: Ilson da Silveira

O Mar Sem Fim conversou com o especialista Ilson da Silveira, Bacharel em Oceanografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1984), Mestre em Oceanografia (Oceanografia Física) pela Universidade de São Paulo (1990) e Ph. D. em Ciências da Terra – Oceanografia Física pela University of New Hampshire (1996).

A única pergunta foi: Se houver vazamento, para onde iria o óleo? ‘Alguns estudos simples de dispersão precisariam ser conduzidos (ou foram e eu não sei dos resultados) para afirmar com mais propriedade. Mas, em função da distância da costa dos blocos de exploração ao largo do Amapá e a presença da muito intensa Corrente Norte do Brasil, acredito que a grande chance é que o derramamento seja transportado para o hemisfério norte junto à corrente. Talvez este até possa alcançar a costa mais à frente, mas fora de águas territoriais brasileiras (mas mesmo assim me parece improvável). Para responder além dos “achismos” e de forma quantitativa, só com estudos de modelagem numérica’.

O mapa da Petrobras mostra onde se localiza o bloco 59, quase na fronteira com a Guiana, acima de Macapá que é atravessada pela linha do Equador, por isso parte da capital fica no hemisfério norte.

Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo

Também conversamos com Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, e Chefe da Cátedra UNESCO de Sustentabilidade Oceânica.


Eis o que ele nos disse: ‘Participo de um grupo que vem buscando identificar contrapartidas que precisarão ser implementadas para que a eventual riqueza trazida pelo óleo trabalhe efetivamente na transformação da região para um futuro cada vez mais sustentável’.
Isso passa por, por exemplo pelo fortalecimento das Unidades de Conservação existentes (elaboração e implementação de planos de manejo, fundo de compensação ambiental…); ampliação das Unidades de Conservação para aumentar a proteção de ambientes pouco representados, fomentar à ciência (ex. aumentar a massa crítica nas universidades e institutos de pesquisa da região (previsão orçamentária), dar mais suporte aos cursos de graduação e pós-graduação sobre a temática na área; aumentar os recursos destinados à ciência; instalação e manutenção do Sistema de Vigilância da Amazônia Azul (SisGAAz/Marinha); fortalecimento do tecido social e dos processos participativos como uma estratégia de controle social para aplicação dos royalties; promoção da economia sustentável do oceano e zona costeira por meio da criação de uma agência de desenvolvimento da economia azul na região; e, finalmente, a aprovação da Lei do Mar (PL 6.969/2013)’.

Agora é conosco


Diante dessa realidade, da desigualdade e pobreza do Brasil e da vastidão da região Norte, não tenho dúvidas de que devemos seguir em frente.

Macapá enfrenta a pior infraestrutura de esgoto do país. Segundo o IBGE, apenas 15,5% da população tem acesso a saneamento por meio de rede geral, pluvial ou fossa ligada à rede. Os números são alarmantes: 174.996 pessoas dependem de fossas sépticas ou filtros sem conexão com a rede, 2.813 recorrem a outras soluções improvisadas e 389 sequer têm banheiro ou sanitário. A capital do Amapá ocupa a última posição no ranking de saneamento básico no Brasil. E, de acordo com o Instituto Trata Brasil, a cidade despeja diariamente no rio Amazonas o equivalente a 15 piscinas de esgoto in natura. Em toda a Amazônia, esse número salta para 831 piscinas por dia.

Agora imagine o impacto dos royalties da Petrobras caso as suspeitas se confirmem. Bilhões de reais poderiam transformar Macapá em um exemplo de saneamento universal no Brasil, além de viabilizar outras melhorias essenciais.
Marina Silva

Marina Silva, com seu messianismo e clara posição política, pode protestar, e daí? Sim, Marina é um ícone do ambientalismo nacional e internacional, tem uma trajetória de superação admirável, mas, como ministra do Meio Ambiente, é fraca. Seu foco se limita à Amazônia, ao Pantanal e à criação das famigeradas Reservas Extrativistas. Mesmo após mais de dois anos no cargo, nunca se pronunciou sobre o litoral e o mar territorial brasileiros, que seguem abandonados.

Investimentos na Margem Equatorial segundo a Petrobras.

Em seu primeiro mandato, mais uma vez concentrou esforços na Amazônia e obteve sucesso. Foi nessa gestão que o desmatamento atingiu a maior queda já registrada. Em 2012, o governo anunciou uma redução de 83%, enquanto o INPE indicava 72%. Seja qual for o número exato, a queda foi impressionante.

Imagem, Petrobras.

No governo Lula 2, com o apoio decisivo do Itamaraty, Marina Silva consolidou o Brasil como um dos líderes nas discussões ambientais globais. Apesar das críticas à sua atuação interna, é preciso reconhecer esse e outros méritos.


Por outro lado, cometeu um grande erro ao desmembrar o Ibama para criar o ICMBio, numa homenagem a Chico Mendes. No entanto, deixou de estruturar os órgãos ambientais, que já eram precários e acabaram ainda mais sucateados, tornando-se quase inoperantes. E chega de Marina, o assunto é outro.
24 petrolíferas atuam na costa da Guiana e Suriname

É interessante notar que pesquisadores estimam um potencial de 20 a 30 bilhões de barris de óleo cru apenas na bacia Pará-Maranhão. Para comparação, as bacias de Campos e Santos têm reservas comprovadas e contingentes de 40 bilhões de barris.

O Estadão ainda lembrou que ‘desde 2015, 24 petrolíferas atuam na costa da Guiana e do Suriname em 60 pontos de exploração, sem nenhum incidente’.
“Intromissão ideológica”

O problema, diz o jornal em editorial, é que a zona cinzenta de discricionariedade política é também sujeita à intromissão ideológica. Boa parte da militância ambientalista considera a combinação Amazônia + petróleo – ainda que já haja extração na própria floresta e a perfuração solicitada seja a centenas de quilômetros da foz – inexoravelmente catastrófica, e há indícios de que o Ibama e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, levaram em conta esses humores para transformar a controvérsia em uma espécie de cause célèbre.

Para encerrar, o Estadão lembrou que ‘o próprio Ibama participou do comitê que autorizou, há dez anos, a oferta de mais de 40 blocos na região que agora diz ser inviável.’

Imagem, Petrobras.

Segundo a Petrobras por enquanto o Brasil pretende explorar um poço de óleo e gás no Rio Grande do Norte. A Colômbia abriu onze poços exploratórios e oito descobertas de gás. Trinidad e Tobago tem 37 poços exploratórios e 21 descobertas de óleo e gás. a Guiana, 64 poços exploratórios e 42 descobertas de óleo e gás. O Suriname extrai em 40 poços e teve 19 descobertas de óleo e gás.Finalmente, a Guiana Francesa trabalha em sete poços exploratórios e teve duas descobertas de óleo. E, até o momento, ainda não houve qualquer acidente. Ou seja, o Brasil não pode ficar atrás, não temos como dispensar os bilhões que a Margem Equatorial pode render.
Potencial do petróleo e gás até 2050

Em outro editorial, o Estadão levantou questões que vale a pena destacar. Para começar, estima-se que, em 2050, o petróleo e o gás ainda representarão cerca de um terço da matriz energética global. Mesmo no cenário mais agressivo – e improvável – de descarbonização, os combustíveis fósseis ainda responderiam por 15% dessa matriz. A Empresa de Pesquisa Energética alerta que, se o Brasil deixar de explorar suas reservas potenciais, poderá perder R$ 5 trilhões entre 2031 e 2050.


Mais adiante, o editorial revela outros fatos importantes para esta discussão. Por exemplo, ‘o Brasil tem vantagens. Se boa parte do mundo precisa trocar o carvão por fontes limpas, o País já tem 48% de sua matriz energética ligada a fontes renováveis, enquanto a média mundial é de 15%’.

‘No mundo, o setor de energia responde por 70% das emissões de carbono. No Brasil, são 17%. O País tem áreas continentais fartamente servidas por água, vento, luz solar, biomassa e metais cruciais para a transição energética, e tem condições materiais de se tornar um exportador de hidrogênio verde e aproveitar a expertise com o etanol para desenvolver alternativas de biocombustíveis’.
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O mar sem fim é portuguez…Saiba por quê





O mar sem fim é portuguez…


…E ao imenso e possível oceano, ensinam essas Quinas que aqui vês, que o mar com fim será grego ou romano, o mar sem fim é portuguez…

Uma pequena grande obra

O documentário abaixo é uma pequena grande obra. Pequena porque tem menos de 50 minutos. Grande porque consegue, em curto espaço de tempo, resumir para aqueles que não leem, uma das maiores obras da humanidade: a aventura marítima portuguesa. Antes deles outros povos também avançaram na construção naval, conseguindo assim serem potências marítimas ao seu tempo. Os fenícios parecem ser os primeiros, logo depois os egípcios, por fim, e ainda antes dos lusos, a China, potência marítima um século antes!
Saga portuguesa – desconhecida e desvalorizada

Há muito que sou fã desta epopeia. Estudo, divulgo, e não me canso de reclamar das falhas das escolas brasileiras que passam pelo assunto como se fosse menor não lhe dando a importância devida. Talvez resida aí um dos motivos pelos quais o mar, os oceanos e tudo que acontece neles, seja visto aqui como algo que não nos diz respeito.



O mar sem fim é portuguez…e a globalização


O movimento náutico português foi o precursor da globalização, cujo ápice vive a nossa geração. Naquela época eles seguraram o mundo ‘nas mãos’. Enfrentaram mitos, credos, pavores os mais horríveis. Aliás, não só os lusos mas, quase ao mesmo tempo, a Espanha também contribuiu com a globalização ao dominar a rota dos galeões de Manila desde 1565 e até 1815.


Foram necessários mais de cinco séculos para que a tecnologia das comunicações atingisse aquilo que nossos antepassados conseguiram entre 1415 e 1522. Foi a saga portuguesa quem deu ao mundo a ‘cara’ que tem hoje. Facilitou o comércio, a integração entre os povos, a difusão do conhecimento em escala planetária.
Brasil quinhentista, um grande estaleiro

O documentário peca só por um detalhe: dá pouca importância ao papel do Brasil durante os quatro séculos da Carreira das Índias (Saiba mais), motivo que me fez escrever.


Como se sabe a Bahia foi nossa primeira capital. O motivo, entretanto, é prosaico: ventos e correntes favoráveis para quem sai da Península Ibérica, à vela, com intenção de dobrar o cabo da Boa Esperança.

Esta ‘estrada invisível’, formada pelos elementos fluídos, mar e vento, traz qualquer coisa que saia daquele ponto direto para nosso litoral: de uma rolha, até uma caravela, tudo vem dar aqui, na latitude da Bahia, seu ponto final.

Na ida, ou na volta, era inevitável passar pelo ‘grande estaleiro’, o Brasil.
Até nos mapas fomos retratados como um imenso estaleiro

Veja o mapa de Giovanni Batista Ramusio, de 1557, mostrando o corte da madeira de lei para reformar as caravelas latinas.

Brasil: enorme e rico estaleiro.

Ao arribarem nestas plagas nossos irmãos logo perceberam a riqueza da terra nova: Mata Atlântica cobrindo o litoral do Rio Grande do Sul até o Ceará. Ou seja, madeira de lei em abundância. O que sobrava era cortado para tingir tecidos, como se sabe…

Como era, e como ficou, nosso destruído litoral.

E qual o material dos barcos da época? Madeira, claro. Por séculos fomos o estaleiro perfeito para o reparo das naus e caravelas da Carreira das Índias. As naus mal aguentavam três ou quatro meses no mar, quanto mais o período de um ano que duravam as viagens portuguesas de ida e volta.
Embarcações típicas da costa brasileira são filhos da saga do mar sem fim portuguez

Hoje, devido ao descaso, o brasileiro médio mal sabe o que é Mata Atlântica, muito menos conhece ou valoriza uma de nossas maiores riquezas culturais: as embarcações típicas.



É preciso lembrar que durante os primeiros 200, 250 anos após a chegada, nos restringimos ao litoral usando o mar como ponte entre uma capitania e outra. Para isso desenvolvemos barcos que até os dias atuais lembram as caravelas. Sejam no formato do casco, sejam no tipo de velas: as mesmas das caravelas, as velas latinas bastardas.
 
A caravela latina e sua vela bastarda.O mar sem fim é portuguez…
Bem cultural ameaçado

Não por outro motivo o IPHAN considera estes barcos, fadados ao desaparecimento pela ignorância, burrice e ‘progresso’, como bens culturais dos brasileiros. Notem a enorme semelhança entre o bote-bastardo, ainda em uso nos litorais do Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí, com as caravelas portuguesas.

O bote-bastardo e o mesmo tipo de vela passados mais de 500 anos…O mar sem fim é portuguez…
O mar sem fim é portuguez…

Como só valorizamos aquilo que vem de fora, segue o que disse sobre nossos barcos típicos, e a natural habilidade dos brasileiros com as coisas do mar, um dos maiores ícones da vela mundial: o norte-americano Joshua Slocum, em 1889:


Estas canoas produzidas a partir de árvores gigantescas são ao mesmo tempo a carruagem e a carriola da família para o sítio, ou do arroz para o moinho. Estradas são quase desconhecidas onde a canoa está disponível; consequentemente, homens, mulheres e crianças são todos adestrados quase à perfeição na arte da canoagem. (…) a navegação é usada com grandes vantagens pelos habitantes quase anfíbios da costa, que amam a água e movem-se nela como patos e marinheiros natos.

Barcos -do-recôncavo, o avô dos atuais 13 saveiros- de-vela-de-içar que ainda resistem…
Conheça o mais navio do mundo made in Brazil

Conheça uma das obras monumentais que foram construídas na Terrinha, o galeão Padre Eterno, tido como maior navio de sua época. O Padre Eterno é fruto do ‘achado’, e da convivência com os nautas portugueses.
Pequena cronologia da epopeia náutica lusitana

Para os historiadores, o início foi a conquista de Ceuta, em 1415. Três anos depois, a ilha da Madeira foi descoberta e, em 1427 foi a vez dos Açores. Daí para a frente era preciso atravessar o Cabo Bojador, um mítico empecilho para que descessem a costa da África. Mas o navegador Gil Eanes conseguiu a façanha em 1434. Ele não sabia mas acabava de abrir as portas para que o mar sem fim fosse portuguez.

As descobertas e respectivas datas.

Daí para baixo, considerando que desciam o Atlântico Sul, foi uma conquista atrás da outra, até que Vasco Da Gama dobrou o Cabo da Boa Esperança e navegou para a Índia, em 1498. Neste mesmo ano, segundo o historiador Jaime Cortesão, o navegador Duarte Pacheco Pereira teria sido o descobridor do Brasil. No entanto, a história oficial como se sabe, reconhece o mérito como sendo de Cabral em 1500. Treze anos depois os lusos chegavam na China. O Japão, ponto culminante nas navegações, foi atingido em 1542.


Saiba como tudo começou

E se você é daqueles que leem recomendo vivamente o trabalho do mestre Jaime Cortesão, Os Descobridores Portugueses, ed. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, dezembro de 1990.

Cortesão esgota o assunto, indo fundo nas descobertas e aprimoramento náutico português. Não existe obra mais completa em seus três volumes.
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Conheça o Estreito de Malaca, um dos mais movimentados do planeta



Por João Lara Mesquita 17 de janeiro de 2025


Conheça o Estreito de Malaca, um dos mais movimentados do planeta

Pode parecer estranho, mas os oceanos também têm as ‘esquinas movimentadas’ das grandes cidades. Neste caso, são as passagens marítimas que se revelam as mais importantes e estratégicas. É o caso do Canal da Mancha, o mais movimentado do mundo com mais de 500 navios passando por ele todos os dias, ou da Passagem Noroeste que agora está se abrindo com o aquecimento, ou o Estreito de Ormuz, do outro lado do mundo e principal rota do petróleo no Oriente Médio. E ainda existem aquelas construídas pelo homem, caso do Canal do Panamá, ou o monumental Canal de Suez, aberto em meados do século 19 e terminado em apenas 10 anos. Aqui, na América do Sul, temos a Passagem, ou Estreito de Drake, que interliga o Atlântico ao Pacífico. Contudo, atualmente uma das mais movimentadas, e assim mais importantes passagens marítimas, é o Estreito de Malaca.

Imagem, Organização Marítima Mundial.
O principal gargalo da Ásia

Com cerca de 900 quilômetros de comprimento (550 milhas), o Estreito de Malaca é o principal gargalo da Ásia e uma das rotas marítimas mais congestionadas. O canal liga o continente ao Oriente Médio e à Europa, e por ele passam cerca de 40% do comércio mundial. Mais de 100 mil navios o atravessam todos os anos.


Em seu ponto mais estreito, em Singapura, ele tem apenas 2,7 quilômetros de largura, criando um gargalo natural e uma área propícia a colisões, encalhações, etc.

Imagem, UNESCO.

Sentiu a importância de uma ‘esquina’ oceânica? Quando elas ‘entopem’, como as esquinas mais movimentadas de São Paulo ou Manhattan, o mundo todo para. Vamos recordar o pânico mundial com o encalhe do navio porta-contêineres de quase 400 metros de comprimento, Ever Given, em 2021 no Canal de Suez.


O incidente destacou o papel vital do transporte marítimo na economia mundial. E, de maneira idêntica, os custos do bloqueio da passagem marítima foram à estratosfera, como lembra a BBC.

‘Separadamente, dados da Lloyd’s List mostraram que o navio encalhado bloqueava aproximadamente US$ 9,6 bilhões em comércio ao longo da via navegável a cada dia. Isso equivale a US$ 400 milhões e 3,3 milhões de toneladas de carga por hora, ou US$ 6,7 milhões por minuto’.



Os limites do Estreito de Malaca

O Estreito de Malaca conecta o Oceano Indico com o Oceano Pacífico. Ele está situado entre a Península Malaia, a nordeste, e a ilha indonésia de Sumatra, a sudoeste, ligando o Mar de Andaman e o Mar do Sul da China. É a rota marítima mais curta, mais de 1/3 mais curta do que sua alternativa mais próxima, entre fornecedores de petróleo e gás natural do Oriente Médio e os mercados em crescimento do Leste e Sudeste Asiático.

Segundo o Paradigm Shift, ‘o estreito propicia pelo menos 1 trilhão de dólares em comércio global anualmente. Tem nove dos dez portos mais movimentados do mundo, e cerca de 60% do comércio marítimo global passa por esta região.


Imagem, www.worldhistory.org.
O controle do Estreito no passado

O Estreito de Malaca também foi crucial para o comércio e viagens nos tempos medievais. Por textos históricos, o porto foi nomeado após o Sultanato de Malaca, que controlava a região e o Estreito do século XIV ao início do século XV.

Este canal natural tem sido usado continuamente desde a antiguidade por comerciantes como romanos, gregos, chineses e indianos. Sua importância estratégica também o tornou uma fonte de atrito internacional do século XV até os dias modernos.

Segundo o Asia Scotland Institute, ‘o lendário almirante chinês Zheng He estabeleceu uma base aqui no início dos anos 1400, transformando-a em uma das grandes cidades comerciais do mundo’. Um século depois foi conquistada pelos portugueses.

No século 16 a fiscalização do estreito de Malaca era particularmente importante para o comércio de especiarias e estava a cargo dos portugueses, a nação marítima preponderante daquele tempo. Nós já mostramos a importância de Malaca como um ‘empório asiático‘.

Depois passou ao comando holandês e britânico.

O desenho foi publicado pelo World History com a seguinte legenda: Um desenho mostrando a Malaca portuguesa na Malásia. A colônia foi portuguesa de 1511 a 1641. (Imagem, Domínio Público).
O Estreito na antiguidade

Como uma importante passagem marítima, sempre teve o controle das nações mais avançadas na arte da construção naval e da navegação. E a referência mais antiga que se tem é do século 7.

Quem explica é Sinara Bueno. ‘No século 7, o império marítimo de Srivijaya (antigo império malaio localizado na ilha de Sumatra), subiu ao poder e sua influência se expandiu para a península malaia e Java. O império obteve controle efetivo sobre dois principais pontos de estrangulamento no sudeste da Ásia marítima: o Estreito de Malaca e o Estreito de Sunda’.
Todas estas rotas marítima utilizam o estreito de Malaca.

‘Ao lançar uma série de conquistas e ataques a portos rivais em potencial em ambos os lados do estreito, Srivijaya garantiu seu domínio econômico e militar na região, que durou cerca de 700 anos. Srivijaya obteve grandes benefícios com o lucrativo comércio de especiarias com mercadores chineses, indianos e árabes’.
O controle do Estreito de Malaca hoje

Os Estreitos de Malaca e Singapura estão dentro das águas territoriais da Indonésia, Malásia e Singapura. De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que entrou em vigor em 1994, a administração da segurança do Estreito, incluindo a manutenção de auxílios à navegação, é de responsabilidade desses três países.
A pirataria moderna é um problema

Para encerrar, as informações mais recentes sobre o Estreito a cargo da Marine Insight. ‘Embora a maior parte da cobertura da mídia se concentre nos piratas da Somália, o Sudeste Asiático é um dos mais perigosos e inseguros em termos de crime marítimo. Os mais vulneráveis são o Estreito de Singapura, o Estreito de Malaca e as águas da Indonésia’.


Se o Estreito fosse bloqueado, seria difícil para a China obter seu suprimento de energia e matérias-primas de nações africanas onde investiu bilhões em projetos de mineração e empreendimento de construção.

Imagem, RG21.

O renomado autor naval e criador da série de jogos de guerra Harpoon, Larry Bond, disse que a China tem uma preocupação real de que a Índia possa fechar o Estreito. “Se a Índia quisesse interromper o comércio com a China, tudo o que teria que fazer seria estacionar um grupo de navios no Estreito de Malaca. E pronto, nada mais passará por ali.”

Finalmente, afirma o Marine Insight, ‘o Estreito de Malaca tem cerca de 34 naufrágios desde a década de 1880. Eles são perigosos. Os navios podem colidir com alguns deles, já que as águas são bastante rasas e ele é ‘estreito em alguns pontos.
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Como população dos Andes ingere arsênio sem se intoxicar


Para comunidades andinas, que bebem água com arsênio acima do limite há milênios, a evolução parece ter seguido um caminho diferente





Em qualquer outro contexto, consumir água com uma concentração de arsênio muito acima dos níveis recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) representaria um sério risco à saúde. Mas em San Antonio de los Cobres, no altiplano do noroeste argentino, a mais de 3,7 mil metros de altitude, essa tem sido, durante séculos – e provavelmente milênios –, uma condição cotidiana de vida.


Antes da instalação de um sistema de filtragem em 2012, a água da localidade continha cerca de 200 microgramas de arsênio por litro. Detalhe: o limite recomendado pela OMS é de apenas 10. Ainda assim, trata-se de uma região ocupada por seres humanos há pelo menos 7 mil anos, talvez até 11 mil. A pergunta inevitável é: como isso é possível?

O arsênio não é exatamente um veneno de risco desprezível. A exposição crônica está associada a câncer, lesões cutâneas, malformações congênitas e morte prematura. Uma vez no organismo, ele é processado por enzimas que o transformam em diferentes compostos químicos.


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Mas nem todos têm o mesmo efeito. O composto monometilado, ou MMA, é particularmente tóxico, enquanto o dimetilado, conhecido como DMA, é mais facilmente eliminado pela urina. O problema é que, na maioria das pessoas, o metabolismo do arsênio gera proporções relativamente altas desse composto intermediário mais nocivo antes de transformá-lo na forma que o organismo consegue excretar com mais facilidade.
Um gene-chave na resistência ao arsênio

Em meados da década de 1990, um estudo identificou na população feminina dessa região um processamento incomum do arsênio: o organismo acumulava menos do derivado mais tóxico e avançava com maior eficiência para a forma eliminável pela urina. Em outras palavras, o metabolismo do arsênio era excepcionalmente eficiente entre as mulheres estudadas.


Durante anos, o fenômeno permaneceu como uma curiosidade bioquímica. Mas, em 2015, uma equipe liderada pelas biólogas evolutivas Carina Schlebusch e Lucie Gattepaille, da Universidade de Uppsala, publicou na revista especializada Molecular Biology and Evolution uma possível explicação genética.

Para investigar, os cientistas analisaram o DNA de 124 mulheres de San Antonio de los Cobres e compararam os dados com os de populações do Peru e da Colômbia. O que encontraram foi revelador.


Os cientistas concentraram uma parte central da explicação em torno do AS3MT, um gene essencial no metabolismo do arsênio. Em seu entorno, detectaram variantes cuja presença se relacionava a um processamento biológico mais eficiente do metaloide. Essas variantes apareciam com muito mais frequência nos habitantes de San Antonio de los Cobres do que em populações geneticamente semelhantes do Peru e da Colômbia, regiões onde os níveis ambientais de arsênio são muito menores, segundo o estudo.

A análise revelou ainda sinais claros do que os geneticistas chamam de “varredura seletiva”, a marca deixada pela seleção natural quando um traço é rapidamente favorecido em uma população. Em termos simples, esse padrão sugere que as variantes protetoras do gene AS3MT podem ter conferido uma vantagem em ambientes com altos níveis de arsênio. Com o passar das gerações, essa vantagem teria feito com que tais variantes se tornassem cada vez mais frequentes na população.

“A adaptação para tolerar o arsênio como fator de estresse ambiental provavelmente impulsionou um aumento na frequência de variantes protetoras de AS3MT”, escreveu a equipe em seu estudo, que classificou o achado como “a primeira evidência de adaptação humana a uma substância química tóxica”.
Adaptação ao arsênio em outras populações andinas

Trata-se de um caso isolado? Os dados sugerem que não. Um estudo posterior, publicado na Chemosphere em 2022, examinou populações indígenas dos Andes bolivianos – grupos aimará-quéchua e uru – e encontrou sinais igualmente fortes de seleção positiva perto do mesmo gene. De fato, os bolivianos apresentavam a maior frequência já registrada de alelos associados a um metabolismo eficiente do arsênio, e o sinal de seleção estava entre os 0,5% mais intensos de todo o genoma.


Tudo isso aponta para o fato de que a adaptação ao arsênio não é um fenômeno local nem pontual, mas um processo evolutivo que pode ter ocorrido em paralelo em diferentes comunidades andinas expostas durante gerações ao mesmo veneno natural. Quando a pressão ambiental persiste por séculos, a evolução pode favorecer adaptações semelhantes em populações submetidas a pressões ambientais comparáveis.
A epigenética – muito além do DNA

A evolução humana, no entanto, nem sempre implica mudanças diretas no DNA. Além das mutações hereditárias, existem os chamados mecanismos epigenéticos, que modificam a forma como os genes são ativados ou silenciados em resposta ao ambiente. Essas alterações não mudam a sequência genética e podem ser mais flexíveis, já que nem sempre são transmitidas de forma estável entre gerações.


Alguns geneticistas passaram a olhar justamente nessa direção, enquanto outros buscavam respostas no código do genoma. Mais recentemente, por exemplo, pesquisadores da Universidade de Emory se perguntaram se a adaptação andina à altitude – um enigma em si, já que os povos andinos não possuem o mesmo “gene da altitude” identificado nos tibetanos – poderia estar escrita não tanto no DNA, mas na forma como ele se expressa.

Para explorar essa hipótese, eles examinaram as marcas epigenéticas distribuídas ao longo do DNA em 39 participantes de dois ambientes muito diferentes: os Andes equatorianos, representados pelos kichwa, e a bacia amazônica, representada pelos ashaninca.


O estudo, publicado na revista Environmental Epigenetics, detectou mudanças epigenéticas em genes relacionados ao funcionamento do sistema vascular e do músculo cardíaco, além de sinais na via PI3K/AKT, um circuito biológico envolvido em processos como o crescimento muscular e a formação de novos vasos sanguíneos.

Segundo os pesquisadores, essas diferenças epigenéticas poderiam ajudar a explicar alguns traços fisiológicos característicos das populações andinas de grande altitude, como o espessamento das paredes arteriais e o aumento da viscosidade do sangue. Ambos poderiam estar relacionados à adaptação fisiológica à hipóxia – a escassez de oxigênio típica da altitude –, embora também tenham sido associados a um risco maior de hipertensão pulmonar.

“Os achados são particularmente interessantes porque não estamos vendo esses sinais fortes no genoma, mas quando observamos o metiloma, essas mudanças aparecem”, explica John Lindo, professor de antropologia da Emory e autor principal do estudo, em um comunicado da instituição.

Além do caso específico, as mudanças epigenéticas podem constituir uma resposta mais flexível ao ambiente e nem sempre são transmitidas de forma estável entre gerações. O fato de essas modificações aparecerem em populações cuja presença nas terras altas andinas remonta a quase 10 mil anos levanta uma questão importante: até que ponto a epigenética desempenha um papel constante na adaptação humana a ambientes extremos?

Modelo tibetano: outra solução evolutiva

Para compreender melhor como os seres humanos se adaptam à vida em grandes altitudes, vale observar outro laboratório natural da evolução: o planalto tibetano. Ali, a evolução parece ter seguido um caminho diferente.

Um estudo publicado recentemente na revista PNAS, liderado pela antropóloga Cynthia Beall, da Universidade Case Western Reserve, analisou 417 mulheres tibetanas entre 46 e 86 anos, vivendo a altitudes entre 3 mil e 4 milmetros no Alto Mustang, no Nepal. O objetivo era identificar quais características fisiológicas se associavam a maior sucesso reprodutivo, um dos indicadores mais diretos de adaptação evolutiva.


O resultado não foi o que muitos esperavam. As mulheres com mais filhos – algumas chegaram a ter 14 – não apresentavam níveis excepcionalmente altos de hemoglobina. Pelo contrário, mantinham níveis próximos da média, mas com maior saturação de oxigênio no sangue.

Essa combinação está associada a uma maior eficiência no transporte de oxigênio sem engrossar o sangue, evitando assim a sobrecarga do coração. Além disso, as mulheres mais fecundas apresentavam maior fluxo sanguíneo para os pulmões e ventrículos cardíacos mais largos, características que melhoram a eficiência do sistema circulatório em condições de hipóxia.


Parte dessa adaptação tem uma origem inesperada. Uma variante do gene EPAS1, que regula a concentração de hemoglobina e é característica das populações tibetanas, parece ter sido herdada dos denisovanos, uma espécie humana extinta que viveu na Sibéria há cerca de 50 mil anos. Seus descendentes a teriam disseminado ao migrar para o planalto tibetano.
“A adaptação à hipóxia em grande altitude é fascinante porque o estresse é grave, todos o experimentam da mesma forma em uma determinada altitude e ele é quantificável”, explicou Beall à publicação Science Alert. “É um belo exemplo de como e por que nossa espécie apresenta tanta variação biológica.”


Considerados em conjunto, esses estudos traçam um panorama que desafia a ideia de que a evolução humana seja um processo encerrado. Pelo contrário, sugerem que nossa espécie continua a se adaptar aos ambientes em que vive.

Nos Andes, populações expostas durante milhares de anos a toxinas naturais e à escassez de oxigênio desenvolveram respostas genéticas, epigenéticas e 

fisiológicas distintas. No Tibete, diante do mesmo desafio da hipóxia, a evolução seguiu uma via genética diferente. A biologia humana, ao que tudo indica, continua negociando com o ambiente.

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