domingo, 19 de abril de 2026

Quem criou a teoria do Big Bang





A Nasa conta que, em 1927, um cientista belga chamado Georges Lemaître – que também atuava como sacerdote católico – foi o primeiro a falar da origem do universo como uma expansão infinita, com um passado igualmente infinito, ou seja, que a criação do universo não seria igual ao começo do tempo.


Cerca de dois anos depois, observações do astrônomo norte-americano Edwin Hubble completaram a ideia da expansão contínua do universo. De acordo com ele, as galáxias seguiam se afastando e, quanto mais distante, mais rápido se moviam.


Por sua contribuição, o pesquisador americano foi homenageado ao ter seu nome dado para o Telescópio Espacial Hubble, da Nasa, que viaja pelo espaço desde 1990. As observações desse equipamento já geraram imagens impressionantes de estrelas, galáxias e outros bjetoos astronômicos a até 13,4 bilhões de anos luz da Terra.
National Geographic

Os efeitos da chuva ácida no meio ambiente e nas pessoas


    O dióxido de enxofre e os óxidos de nitrogênio não são gases de Efeito Estufa primários que contribuem para o aquecimento global, um dos principais efeitos das mudanças climáticas; na verdade, o dióxido de enxofre tem um efeito de resfriamento na atmosfera.


    Mas os óxidos de nitrogênio contribuem para a formação de ozônio troposférico, um importante poluente que pode ser prejudicial às pessoas. Ambos os gases causam preocupações ambientais e de saúde, pois podem se espalhar facilmente através da poluição do ar e da chuva ácida.


    A chuva ácida tem muitos efeitos ecológicos, especialmente em lagos, riachos, pântanos e outros ambientes aquáticos. A chuva ácida torna essas águas mais ácidas, o que resulta em maior absorção de alumínio do solo, que é transportado para lagos e riachos. Essa combinação torna as águas superficiais tóxicas para os animais aquáticos.


    Algumas espécies toleram melhor as águas ácidas do que outras. No entanto, em um ecossistema interconectado, o que afeta algumas espécies acaba afetando muitas outras ao longo da cadeia alimentar, incluindo espécies não aquáticas, como pássaros.


    A chuva ácida e a neblina também danificam as florestas, especialmente aquelas em altitudes mais elevadas. A deposição seca de ácido rouba do solo nutrientes essenciais, como cálcio, e faz com que o alumínio seja liberado no solo, o que dificulta a absorção de água pelas árvores. Os ácidos também prejudicam as folhas e agulhas das árvores.


    Os efeitos da chuva ácida, combinados com outros fatores de estresse ambiental, deixam as árvores e as plantas menos saudáveis e mais vulneráveis às baixas temperaturas, aos insetos e às doenças. Os poluentes também podem inibir a capacidade de reprodução das árvores.


    Alguns solos são mais capazes de neutralizar ácidos do que outros. Mas em áreas onde a “capacidade tampão” do solo é baixa, os efeitos nocivos da chuva ácida são muito maiores.


    Além disso, os depósitos ácidos danificam estruturas físicas, como edifícios de calcário e carros. E quando assume a forma de neblina inalável, a precipitação ácida pode causar problemas de saúde nas pessoas, incluindo irritação nos olhos e asma.


    “A chuva ácida tem muitos efeitos ecológicos, especialmente em lagos, riachos, pântanos e outros ambientes aquáticos.”

    Existem soluções para a chuva ácida? A resposta passa pelo uso de combustíveis fósseis


    A única maneira de combater a chuva ácida é reduzindo a liberação dos poluentes que a causam. Isso significa queimar menos combustíveis fósseis e estabelecer padrões de qualidade do ar.


    Leis que regulam os níveis de limpeza do ar, como a Lei do Ar Limpo de 1990, nos Estados Unidos, teve como alvo a chuva ácida, estabelecendo limites de poluição que ajudaram a reduzir as emissões de dióxido de enxofre em 92% entre 1990 e 2023.


    Essas tendências ajudaram as florestas de abetos vermelhos em estados norte-americanos como a Nova Inglaterra, por exemplo, e algumas populações de peixes, por exemplo, a se recuperarem dos danos causados pela chuva ácida. Mas a recuperação geral leva tempo e as preocupações com a revogação dos padrões de poluição do ar complicam a questão.


    Os problemas da chuva ácida persistirão enquanto o uso de combustíveis fósseis continuar. Países como a China, que dependem fortemente do carvão para a produção de eletricidade e aço, estão lutando contra esses efeitos. Um estudo descobriu que a chuva ácida na China pode ter contribuído para um deslizamento de terra mortal em 2009.


    A China está implementando controles para as emissões de dióxido de enxofre, que caíram 75% desde 2007. Mas as emissões da Índia aumentaram pela metade. No entanto, pesquisadores que estudam os efeitos de um mercado de emissões encontraram resultados promissores para reduzir potencialmente a chuva ácida no país do sul da Ásia.
    National Geographic

O que é chuva ácida?



Chuva ácida, ou deposição ácida, é um termo amplo que inclui qualquer forma de precipitação com componentes ácidos, como ácido sulfúrico ou nítrico, que caem no solo a partir da atmosfera em formas úmidas ou secas. Isso pode incluir chuva, neve, neblina, granizo ou mesmo poeira ácida.
O que causa a chuva ácida?


Esta imagem ilustra o caminho da chuva ácida em nosso ambiente: (1) Emissões de SO2 e NOx são liberadas no ar, onde (2) os poluentes são transformados em partículas ácidas que podem ser transportadas por longas distâncias. (3) Essas partículas ácidas então caem na terra como deposição úmida e seca (poeira, chuva, neve, etc.) e (4) podem causar efeitos nocivos no solo, florestas, rios e lagos.


A chuva ácida resulta da emissão de dióxido de enxofre (SO₂ ) e óxidos de nitrogênio (NOₓ ) para a atmosfera, que são transportados pelo vento e pelas correntes de ar. O SO₂ e o NOₓ reagem com a água, o oxigênio e outras substâncias químicas, formando ácidos sulfúrico e nítrico. Estes, por sua vez, misturam-se com a água e outros materiais antes de se depositarem no solo.

Embora uma pequena parte do SO₂ e do NOₓ que causam a chuva ácida provenha de fontes naturais, como vulcões, a maior parte resulta da queima de combustíveis fósseis. As principais fontes de SO₂ e NOₓ na atmosfera são:Queima de combustíveis fósseis para geração de eletricidade. Dois terços do SO₂ e um quarto do NOₓ na atmosfera provêm de geradores de energia elétrica.
Veículos e equipamentos pesados.
Indústrias de transformação, refinarias de petróleo e outras indústrias.

Os ventos podem transportar SO₂ e NOₓ por longas distâncias e através de fronteiras, tornando a chuva ácida um problema para todos, e não apenas para aqueles que vivem perto dessas fontes.
Formas de deposição ácida
Deposição úmida

A deposição úmida é o que geralmente chamamos de chuva ácida . Os ácidos sulfúrico e nítrico formados na atmosfera caem no solo misturados com chuva, neve, neblina ou granizo.
Deposição a seco

Partículas e gases ácidos também podem se depositar da atmosfera na ausência de umidade, em um processo conhecido como deposição seca . Essas partículas e gases ácidos podem se depositar rapidamente em superfícies (corpos d'água, vegetação, edifícios) ou reagir durante o transporte atmosférico, formando partículas maiores que podem ser prejudiciais à saúde humana. Quando os ácidos acumulados são lavados da superfície pela chuva seguinte, essa água ácida escoa sobre e através do solo, podendo prejudicar plantas e animais, como insetos e peixes.

A quantidade de acidez na atmosfera que se deposita na Terra por meio da deposição seca depende da quantidade de chuva que uma área recebe. Por exemplo, em áreas desérticas, a proporção entre deposição seca e úmida é maior do que em uma área que recebe vários centímetros de chuva por ano.
Medindo a chuva ácida


A acidez e a alcalinidade são medidas usando uma escala de pH, na qual 7,0 é neutro. Quanto menor o pH de uma substância (menor que 7), mais ácida ela é; quanto maior o pH de uma substância (maior que 7), mais alcalina ela é. A chuva normal tem um pH de cerca de 5,6; ela é ligeiramente ácida porque o dióxido de carbono (CO₂ ) se dissolve nela, formando ácido carbônico fraco. A chuva ácida geralmente tem um pH entre 4,2 e 4,4.
https://www.epa.gov/acidrain/what-acid-rain

Qual é a cidade com o ar mais poluído do mundo? Veja como o Brasil está neste ranking




Desmatamento, incêndios e emissões de gases foram as principais causas da poluição atmosférica na América Latina em 2024. Mas a cidade mais poluída do planeta não está na região.


As emissões de gases vindas dos automóveis são uma das importantes fontes de poluição atmosférica no mundo. Acima, uma densa nuvem de partículas vindas dos carros cobre o Cairo, capital do Egito.



“A poluição do ar é atualmente o maior risco ambiental para a saúde humana”, afirma a Organização das Nações Unidas (ONU). As minúsculas partículas podem penetrar no corpo e chegar aos pulmões e à corrente sanguínea, causando asma, doenças respiratórias crônicas e até mesmo acidentes vasculares cerebrais (AVC).


Esse tipo de poluição é responsável por cerca de 6,5 milhões de mortes prematuras em todo o mundo, mas pode piorar e, se não houver uma intervenção agressiva, “o número de mortes causadas pela poluição do ar em espaços abertos deve aumentar em mais de 50% até 2050”.


Além disso, a poluição atmosférica agrava os efeitos das mudanças climáticas, causa perdas econômicas e reduz a produtividade agrícola, continua a entidade.


Diante desse cenário, a Assembleia Geral da ONU declarou o dia 7 de setembro como o Dia Internacional do Ar Limpo por um Céu Azul. Nesta data, vale a pena conhecer quais são as cidades que lideram os rankings de poluição atmosférica e qual a posição dos países latino-americanos na lista.




Na foto, o céu completamente esfumaçado de Delhi, na Índia, cidade que sofre com a queima lixo e os gases tóxicos gerados pelo aterro sanitário de Ghazipur.FOTO DE MATTHIEU PALEY

Qual é a cidade com o ar mais contaminado do mundo?


A organização suíça IQAir, especializada em tecnologia contra a poluição do ar, publica anualmente um Relatório Anual sobre a Qualidade do Ar no mundo, no qual apresenta dados sobre a qualidade do ar em relação às partículas PM2,5 (partículas com um diâmetro igual ou inferior a 2,5 micrômetros e que representam a maior ameaça à saúde).


Para o relatório sobre 2024, a organização coletou informações de 8.954 cidades em 138 países, regiões e territórios, utilizando dados provenientes de mais de 40 mil estações de controle da qualidade do ar e sensores de baixo custo, operados por agências governamentais, instituições de pesquisa, ONGs, escolas, universidades, empresas do setor privado e cientistas cidadãos de todo o mundo.


Com base nessas referências, a IQAir concluiu que as cidades mais afetadas estão concentradas na Ásia, onde se encontram cinco dos dez países mais poluídos e nove das dez cidades com pior qualidade atmosférica a nível mundial.


Especificamente, a área metropolitana mais poluída do mundo em 2024 foi Byrnihat, na Índia, com uma concentração média anual de PM2,5 de 128,2 microgramas por metro cúbico (μg/m³), de acordo com o relatório da IQAir. Este valor excede consideravelmente o valor de 5 µg/m3 da diretriz anual de PM2,5 da Organização Mundial da Saúde (OMS).




Cães e aves procuram comida no aterro sanitário de Ghazipur, em Nova Délhi, Índia. Seis das dez cidades mais poluídas do mundo estão localizadas neste país asiático. De acordo com o relatório da IQAir, a capital, Nova Délhi, “manteve níveis de poluição constantemente elevados, com uma média anual de 91,6 µg/m³, praticamente inalterada em relação aos 92,7 µg/m³ de 2023”.FOTO DE STÉPHANIE SINCLAIR

As 9 cidades com a pior poluição atmosférica


Além de Byrnihat, a lista das cidades mais poluídas do mundo é completada por: Byrnihat, Índia com 128,2 μg/m³

Delhi, Índia (com uma concentração média de 108,3 µg/m3)

Karagandá, Cazaquistão (104,8 µg/m3)

Mullanpur, Índia (102,3 µg/m3)

Lahore, Paquistão (102,1 µg/m3)

Faridabad, Índia (101,2 µg/m3)

Dera Ismail Khan, Paquistão (93 µg/m3)

N'Djamena, Chade (91,8 µg/m3)

Loni, Índia (91,7 µg/m3)


Além disso, a análise do relatório reconhece que “quase um terço das cidades (do mundo) registraram concentrações anuais de PM2,5 que excedem em dez vezes as diretrizes da OMS, o que representa um grave risco para a saúde de milhões de pessoas”.




A foto registra a cidade de Brasília coberta pela fumaça causada pelos incêndios florestais durante agosto de 2024. De acordo com a IQAir, o desmatamento e as queimadas são duas das principais fontes de poluição atmosférica na América Latina, juntamente com as emissões dos veículos e a poluição causada pelas indústrias extrativas.

Realmente é verdade que a camada de ozônio da Terra está se recuperando?



Se medidas concretas não tivessem sido tomadas nos últimos anos, todos os seres vivos que habitam a Terra estariam expostos à radiação solar de forma bastante perigosa.


Esta imagem da Nasa que mostra parte do globo terrestre em cores distintas mostra a média mensal do ozônio total sobre a região do polo antártico em setembro de 2025. As cores em diferentes tons de azul indicam as zonas com menos ozônio na estratosfera, enquanto as cores amarelo e vermelho se referem aquelas que mantém maior quantidade deste elemento na camada protetora da Terra.


Em meados da década de 1970, os cientistas detectaram que a camada de ozônio (uma região de alta concentração de ozônio na estratosfera, a uma altitude de 15 a 35 quilômetros acima da superfície terrestre), estava ameaçada de desaparecer.


Já na década de 1980 ficou provado que havia esgotamento severo sobre a Antártida (ou seja, o que popularmente se chamou de “buraco”), como explica a Secretaria do Ozônio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Vale lembrar que a camada de ozônio atua como um “escudo invisível” e protege a Terra da radiação ultravioleta (UV) prejudicial do Sol.


Pela importância do tema, foi criado o Dia Internacional da Preservação da Camada de Ozônio, comemorado anualmente em 16 de setembro em referência à data na qual foi assinado o Protocolo de Montreal, em 1987. Em 2025, as celebrações em torno da efeméride reconhecem como a adoção do que foi pedido nos tratados mostram ser possível passar “da ciência à ação global” na hora de proteger o meio ambiente.


Em uma mensagem por ocasião ao dia, o Secretário-Geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, foi enfático sobre o sucesso das iniciativas que enfrentaram o problema: “Esta conquista nos lembra que, quando as nações dão ouvidos aos alertas da ciência, o progresso é possível”.





Registro do lançamento de uma sonda de ozônio, um instrumento transportado por balão que mede o perfil vertical da camada de ozônio. A foto foi feita na estação Amundsen-Scott, no Polo Sul, na Antártida.FOTO DE NOAA PHOTO LIBRARY (CC BY 2.0)

O que causou o buraco na camada de ozônio


Os pesquisadores alertaram que o enfraquecimento da camada de ozônio, que causou um “buraco” sobre a Antártida, se devia principalmente ao uso de substâncias químicas artificiais com halogênios, conhecidas como substâncias que destroem a camada de ozônio (da sigla SDO em português) e que estavam presentes em milhares de produtos de uso cotidiano.


“Os halogênios mais importantes eram os clorofluorcarbonetos (conhecidos pela sigla CFC) os quais, na época, eram amplamente utilizados em aparelhos de ar condicionado, geladeiras, aerossóis e inaladores para pacientes com asma”, detalha a fonte. Eles também alertaram sobre outras substâncias químicas nocivas, como os hidroclorofluorcarbonetos (HCFC), os halons e o brometo de metilo.


O Protocolo de Montreal e outros acordos globais para preservar a camada de ozônio


“Diante da crescente evidência de que os CFCs danificavam a camada de ozônio e da compreensão das múltiplas consequências de seu esgotamento descontrolado, cientistas e legisladores instaram as nações a controlar seu uso”, lembra o órgão das Nações Unidas.


Em resposta, os países estabeleceram um quadro político global para enfrentar o problema. Em 1985, foi adotada a Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozônio, que entrou em vigor em 1988 e pela qual os países concordaram em “investigar e monitorar os efeitos das atividades humanas sobre a camada de ozônio e adotar medidas concretas de controle”.


Posteriormente, as nações adotaram o Protocolo de Montreal relativo às Substâncias que Destroem a Camada de Ozônio. Assinado em 1987, este tratado entrou em vigor dois anos depois, em 1989, e cumpriu seus objetivos: estabelecer um conjunto de “medidas práticas e viáveis para a eliminação gradual das substâncias destrutivas para a camada de ozônio”.


Já em 2016 foi assinada a Emenda de Kigali – mais uma emenda relacionada ao tema – que estabeleceu um calendário para a diminuição gradual do uso dos gases nocivos à camada de ozônio, bem como incluiu medidas de controle para reduzir os hidrofluorcarbonetos (HFC), substitutos dos químicos que também se mostraram potentes gases de Efeito Estufa.




Esta fotografia tirada em 1987 e mostra Noel J. Brown (terceiro da esquerda), diretor do Escritório de Ligação de Nova York do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), falando em um fórum chamado "Questões ambientais críticas: o esgotamento da camada de ozônio" e organizado pelo Pnuma. Na imagem também aparecem, da esquerda para a direita, Michael Oppenheimer, cientista sênior do Fundo de Defesa Ambiental; Stephen R. Seidel, analista sênior da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos; e Russell M. Sasnet, executivo sênior da General Electric Co.FOTO DE UN PHOTO/YUTAKA NAGATA

Quais ações foram tomadas para a proteção da camada de ozônio?


Em virtude do Protocolo de Montreal, os CFCs foram completamente eliminados, indica a Secretaria do Ozônio. Inicialmente, foram substituídos por HCFC e, posteriormente, por HFC. Após a emenda de Kigali, está sendo promovida uma maior transição para HFC de baixo impacto ambiental.


Conforme indica a fonte, os CFCs eram encontrados em sistemas de refrigeração e ar condicionado, e também eram usados para insuflar espumas isolantes em edifícios e em inaladores utilizados para asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).


Por outro lado, “a produção de halons foi gradualmente eliminada desde 2010. No entanto, um desafio pendente é que os halons produzidos antes desse ano ainda são usados para proteção contra incêndios na aviação civil”.


Enquanto isso, o brometo de metilo (que até 2024 era comumente usado na agricultura para controlar pragas e doenças) foi substituído por novos métodos de controle.


Em suma, 99% das SDOs controladas pelo Protocolo de Montreal foram gradualmente eliminadas. Embora os danos causados ainda não tenham sido completamente reparados, há evidências científicas que demonstram que a camada de ozônio está se recuperando e os pesquisadores monitoram periodicamente o progresso. Estima-se que a recuperação possa ocorrer em meados deste século.



Homens pulverizam herbicidas para eliminar espécies invasoras de plantas em projetos de reflorestamento da Mata Atlântica em Itatinga, no interior de São Paulo. Antes do Protocolo de Montreal, era comum usar brometo de metilo (uma substância potente que destrói a camada de ozônio) para controlar pragas e doenças durante a produção agrícola.FOTO DE VICTOR MORIYAMA

O que teria acontecido se não tivessem sido tomadas medidas para proteger a camada de ozônio?


Se não fosse controlada, a destruição da camada de ozônio teria gerado diversas consequências perigosas. Estima-se que, como efeito da superexposição à radiação UV-B vinda do Sol, o risco de câncer de pele teria aumentado substancialmente em todo o mundo, assim como a ocorrência de doenças oculares como a catarata, por exemplo.


Além disso, um esgarçamento da proteção causada por esta camada da estratosfera terrestre teria prejudicado o equilíbrio dos ecossistemas e danificado plantas, animais e micróbios.


A produção de alimentos também já teria sido afetada; bem como a troca de dióxido de carbono entre a atmosfera e a biosfera; e haveria maior dano a materiais (naturais ou sintéticos) presentes no planeta, completa a Secretaria do Ozônio do PNUMA.

Um mundo oculto sob o gelo da Antártida: cientistas revelam o lugar onde os rios correm para cima




Montanhas, vales, lagos e rios invisíveis estão sob uma espessa camada de gelo na Antártica. As mudanças nesses rios ocultos podem ter consequências globais dramáticas.





Entender como os rios e lagos ocultos sob a camada de gelo da Antártida estão mudando é fundamental para prever o aumento futuro do nível do mar. Foto de Tyler Pelle


A enorme camada de gelo da Antártida parece plana. Embora a extensa camada gelada do continente se eleve mais de 4 mil metros acima do nível do mar perto de seu centro, as suaves encostas dessa cúpula são imperceptíveis ao olho humano.


Mas abaixo desse gelo de 1 Km de espessura há algo surpreendente: uma paisagem de montanhas e vales íngremes, atravessada por rios sinuosos. E esses rios ocultos podem desempenhar um papel decisivo na forma como a camada de gelo responde a um calor sem precedentes.


Os cientistas agora preveem que, à medida que o manto de gelo da Antártica derreter e afinar nas próximas décadas, esses rios ocultos crescerão, saltarão suas margens e mudarão para novos caminhos de fluxo. Isso pode desestabilizar as grandes geleiras costeiras que controlam a taxa de elevação do nível do mar.


“As mudanças são bastante drásticas”, diz Christine Dow, hidróloga glacial da Universidade de Waterloo, no Canadá, cuja equipe foi coautora do novo estudo. Esses rios em evolução podem fazer com que as geleiras derretam e deslizem mais rapidamente para o oceano. “Estamos subestimando a velocidade com que as coisas vão mudar e a quantidade de perda de gelo que ocorrerá nos próximos 80 anos”, explica ela.


Essas descobertas, publicadas em 20 de março de 2025 na revista científica Nature Communications, resultam de 20 anos de trabalho para mapear o continente oculto sob as camadas de gelo da Antártica.


Um mundo inexplorado sob o gelo



Nenhum ser humano jamais viu essas montanhas e vales ocultos. No entanto, nas últimas décadas, aviões voaram centenas de linhas cruzando a Antártida, usando radares de penetração no gelo e medições precisas da gravidade e dos campos magnéticos para examinar o gelo.


Essas pesquisas encontraram cadeias de montanhas com quilômetros de altura, vales amplos e cânions profundos. O radar também revelou os reflexos planos e brilhantes de várias centenas de lagos subglaciais abaixo. Esses lagos são alimentados pela água que derrete lentamente da base da camada de gelo, uma fração de 2,54 cm por ano, devido ao calor geotérmico que se infiltra das profundezas da terra e ao atrito do gelo que desliza sobre a terra.


Os cientistas também perceberam que os rios subglaciais frequentemente fluem para dentro ou para fora dos lagos. Esses rios podem agir de formas estranhas, pois obedecem não apenas à gravidade, mas também à pressão de esmagamento do gelo sobre a superfície, diz Anna-Mireilla Hayden, estudante de doutorado em hidrologia glacial que faz parte da equipe de Dow na Universidade de Waterloo, no Canadá.


“A água pode, de fato, fluir para cima”, afirma ela, de locais onde o gelo é espesso e a pressão é alta, para locais onde o gelo é mais fino e a pressão é mais baixa. Em alguns casos, a água pode fluir centenas de metros para cima nas encostas íngremes das montanhas subglaciais.


Esses rios estreitos são difíceis de encontrar com o radar. Assim, a equipe de Dow passou 11 anos mapeando os rios de uma forma mais meticulosa. Eles combinaram mapas da paisagem subglacial com medições precisas da espessura do gelo para prever as rotas pelas quais a água subglacial fluirá ao reagir à gravidade e à pressão.


Eles descobriram que a maioria das geleiras que se movem mais rapidamente na Antártica tem muita água embaixo delas, lubrificando o gelo à medida que ele desliza sobre a terra. Isso é especialmente verdadeiro para as geleiras mais instáveis do continente, as geleiras Thwaites e Pine Island, que estão derramando gelo no oceano mais rapidamente do que nunca. A paisagem sob essas geleiras é repleta de vulcões e vales de fendas que emitem altos níveis de calor geotérmico e, portanto, muita água de derretimento lubrificante.




À medida que a Geleira Totten, na Antártida, escorre da costa antártica e flutua no oceano, ela se fragmenta em icebergs – cada um com cerca de 20 vezes o tamanho de um porta-aviões. Os pesquisadores descobriram que um grande rio subglacial flui por baixo do gelo nesse local.Foto de Image courtesy NASA and USGS, processed by Ted Scambos, University of Colorado Boulder

Misteriosos pontos de derretimento sob o gelo



Com suas novas percepções sobre os rios ocultos da Antártida, eles também ajudaram a resolver um mistério. A maior parte do litoral da Antártica é margeada por placas de gelo, com centenas de metros de espessura, que flutuam no oceano. Essas plataformas de gelo flutuantes retêm as geleiras costeiras, diminuindo seu fluxo para o oceano.


Os cientistas sabiam que essas plataformas de gelo derretem constantemente por baixo, pois suas partes inferiores são banhadas pela água do mar alguns graus acima de zero. Mas as medições por satélite mostraram repetidamente algo estranho.


Muitas dessas plataformas de gelo têm pontos quentes, com 2 Km ou mais de largura, onde estão derretendo várias vezes mais rápido do que deveriam, com base na temperatura da água do mar. Em alguns casos, esses pontos quentes estão afinando o gelo em 30 a 92 metros por ano.


Em 2020, uma grande equipe de pesquisadores, que incluía a Dow, apresentou uma explicação.


Observando a plataforma de gelo Getz, na costa da Antártida Ocidental, eles descobriram recentemente que esses pontos de derretimento rápido ocorreram nos mesmos locais em que previram que rios subglaciais estavam saindo da borda da camada de gelo para o oceano.


A água jorra debaixo do gelo como uma mangueira de jardim de alta pressão, diz Dow.


À medida que essa água doce em movimento rápido encontra a água do mar densa e salgada, ela sobe flutuando, criando uma cachoeira turbulenta e de cabeça para baixo. Essa cachoeira rodopiante e ondulante levanta uma camada de água quente, densa e salgada que normalmente envolve o fundo do mar e a empurra contra o fundo do gelo, aumentando consideravelmente a taxa de derretimento.

Rios ocultos começam a “fazer barulho”



“É necessário o efeito dessa descarga [subglacial] para explicar as taxas de derretimento observadas”, afirma Jamin Greenbaum, geofísico glacial do Scripps Institution of Oceanography, em San Diego, nos Estados Unidos, que passou 15 anos mapeando a paisagem sob o gelo da Antártida.


Mas os modelos de computador que os cientistas usam atualmente para projetar a futura perda de gelo e o aumento do nível do mar não incluem esses efeitos, explica Greenbaum.


Em 2024, Greenbaum, Dow e seu então pós-doutorando Shivani Ehrenfreucht relataram que esse derretimento impulsionado pelos rios teria um grande impacto sobre a geleira Totten da Antártida Oriental, que, por si só, contém gelo suficiente para elevar o nível do mar em 3 metros. Eles descobriram que, até 2100, os rios subglaciais aumentarão a perda de gelo da Totten em 30% em relação aos modelos padrão.


“Ficamos um pouco surpresos”, diz Tyler Pelle, o pós-doutorando que fez grande parte da modelagem no laboratório de Greenbaum.


Esse experimento foi apenas uma aproximação grosseira, pois presumiu que os rios não mudariam com o tempo. Mas Dow acredita que os rios mudarão, pois, à medida que o gelo diminui, as pressões variáveis podem fazer com que os rios se desloquem. E como Totten desliza mais rapidamente, o aumento do atrito pode causar mais derretimento.





À medida que os rios subglaciais fluem para o mar, eles agitam a água do oceano, fazendo com que a parte inferior da geleira derreta e enfraqueça mais rapidamente. Até 2100, esse rio poderá se multiplicar por quase cinco, aumentando ainda mais o derretimento.Foto de Tyler Pelle


Dow, Hayden e Pelle levaram esses experimentos um passo adiante em seu novo estudo: eles permitiram que os rios evoluíssem à medida que a geleira Totten se afinava e recuava. Os resultados em seu artigo recém-publicado são preocupantes.


Eles projetaram que, até 2100, a quantidade de água subglacial que flui para fora da geleira Totten aumentaria em quase cinco vezes, atingindo mais de 16 mil litros por segundo, cerca de 1/4 do fluxo atual do Rio Colorado. Eles estimaram que a velocidade dessa água subglacial que flui para o oceano também pode aumentar – potencialmente atingindo uma velocidade de cerca de um metro por segundo – semelhante à de muitos rios de fluxo rápido no oeste dos Estados Unidos.


“O importante”, diz Dow, “é a velocidade com que a água está sendo empurrada para fora”. Isso provocará uma turbulência mais forte quando atingir o oceano, levando mais água quente e salgada a entrar em contato com o gelo.


Hayden, Dow e Pelle estimaram que a taxa de derretimento do gelo e afinamento aumentaria de 20 a 50% em uma ampla faixa da plataforma de gelo.


Esse tipo de aumento do derretimento em uma área específica pode ser “extremamente importante”, afirma Karen Alley, glaciologista da Universidade de Manitoba, no Canadá, que não participou do projeto atual. “Isso se torna um ponto fraco na plataforma de gelo”, diz ela. A plataforma pode acabar se rompendo nesse ponto, “e você pode perder a plataforma de gelo mais cedo do que imagina”.


De acordo com Greenbaum, à medida que nossos mapas e estimativas de calor geotérmico melhorarem, também melhorará nossa compreensão dos rios subglaciais. “Provavelmente, estamos subestimando enormemente a quantidade de água lá embaixo”, comenta ele.


Até que a ciência se atualize, “nossas projeções de aumento do nível do mar serão muito conservadoras”.
Revista National Geographic

sexta-feira, 17 de abril de 2026

O que é racismo ambiental? Por que falar disso é importante?



O que é racismo ambiental? Por que falar disso é importante?

Ângela Gomes*
Departamento de Engenharia Ambiental
Centro Universitário de Belo Horizonte (UNIBH)
Integrante do Movimento Negro Unificado



CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK


O racismo ambiental é um conceito que expressa a transversalidade do recorte racial, que diferencia quem se beneficia e quem sofre com a destruição e desastres ambientais. Em sociedades desiguais, os riscos ambientais e, portanto, os desastres ambientais não se distribuem igualitariamente por todas as camadas da população. Sociedades racistas, construídas com base na injustiça racial escravocrata como a do Brasil, expõem principalmente os grupos vulnerabilizados historicamente à intensidade dos chamados desastres ambientais. Assim, no caso do Brasil, os negros, fenotipicamente não brancos, pobres, são os mais expostos a qualquer impacto ambiental, principalmente, os de maior gravidade, duração e intensidade. Isso fica evidente, por exemplo, ao olharmos para as áreas de risco por todo o Brasil. Quem as ocupa? Quem vive ali? São as populações majoritariamente negras. E isso não é de hoje. Os negros foram empurrados, obrigados a ocupar as áreas de risco para refugiarem-se da escravidão. Nas áreas rurais, os quilombos ficavam nas grotas, que, com o desmatamento, foram os primeiros locais a sofrerem com as enchentes. Na área urbana, a mesma coisa. O resultado da exclusão territorial escravocrata desenha as cidades de hoje: quem está nas encostas, onde há o maior índice de deslizamento, são os negros. As baixadas, lugares com a pior drenagem, sem saneamento básico, são territórios que as imobiliárias não desejam e são deixados para as comunidades marginalizadas do espaço urbano, a população negra. Por exemplo, o desastre criminoso de Mariana (MG) foi uma barragem de mineração que se rompeu, e os primeiros atingidos foram os quilombolas de Bento Rodrigues. Depois atingiu as comunidades restantes da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Os primeiros atingidos, os mais gravemente atingidos sempre serão os negros pobres.

Em grande parte, as mudanças climáticas são resultado da escolha de modelos/paradigmas dos países ricos e das elites. Um modelo tecnológico energívoro e poluidor, consumista, modelo civilizatório eurocêntrico ocidental, racista. Por isso, temos que discutir a desnaturalização dos desastres, das mudanças climáticas e de suas consequências, como os desastres.

São escolhas políticas e econômicas. Dificilmente são usadas tecnologias de mitigação, como um aterro sanitário, num bairro de classe média, de maioria branca, por exemplo. As áreas escolhidas são invariavelmente pobres.

Frente a isso, o movimento de justiça ambiental requer reparação histórica com os que estão na diáspora africana, com os que foram migrados forçadamente do continente africano e com os que são atingidos pelos desastres ambientais modernos. Precisamos de prevenção a esses desastres, e a prevenção passa pelo fim do racismo, pela ecologia urbana e a agroecologia resguardada pelos povos tradicionais. Só assim enfrentaremos o racismo, que vai se requalificando: racismo estrutural, racismo ambiental, racismo climático. Em síntese, é enfrentar a violência e a injustiça socioambiental. Só assim podemos construir o bem viver.

Violência urbana: discurso midiático e manipulação da realidade




Violência urbana: discurso midiático e manipulação da realidade 
Raimundo Nonato Lima dos Santos 
Resumo 
O artigo analisa a construção da identidade de "cidade-sem-lei", atribuído à cidade de TimonMA, a partir da produção de discursos operada pela imprensa escrita de Teresina-PI, nos periódicos "O Dia" e "O Estado", com matérias publicadas sobre esta cidade maranhense na década de 1980. Discute também o conceito de violência urbana e o processo de manipulação da realidade realizado pela mídia impressa que contribuiu para a construção de uma memória social deturpada. Palavras-chave: Violência urbana. Timon. Manipulação. Abstract The article analyzes the construction of the identity of " city-without-lei" , attributed to the Timon-MA city, from the production of speeches operated by the written press of Teresina-PI, in periodic “The Day” and “The State”, with substances published on this maranhense city in the decade of 1980. It also argues the concept of urban violence and the process of manipulation of the reality carried through for the media printed that contributed for the construction of a deturpada social memory. Word-key: Urban violence. Timon. Manipulation. Este trabalho analisa a relação entre Timon, uma cidade do interior maranhense e Teresina, a capital do Piauí. O foco central da pesquisa consiste no estudo da construção das identidades a partir de representações formuladas e veiculadas em meios de comunicação impressa, as quais marcaram Timon, devido sobretudo à manipulação da realidade operada pela mídia, como uma cidade atrasada, violenta, enfim, como o “outro” relativamente a Teresina. Durante a década de 1980, as páginas policiais dos jornais O Dia e O Estado, produzidos em Teresina, foram recheadas por notícias de atos violentos realizados em Timon. Ressaltamos que todas as cidades do Brasil e do mundo sofrem com problemas de violência, e não apenas Timon. Segundo a historiadora Claudete Maria Miranda Dias (2005:139-141), a violência se apresenta nas relações sociais, familiares, amorosas e de trabalho, ou seja, nos diversos setores da vida e está historicamente ligada a diferentes processos de dominação como a Colonização, ou a sistemas sócio-econômicos como o Escravismo, o Feudalismo e o Capitalismo. A questão da violência nas cidades torna-se um problema quando se percebe a existência constante de roubos, assaltos, assassinatos, em suma, de ameaças à integridade  Mestre em História do Brasil pela Universidade Federal do Piauí. 1 ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009. material, física e moral dos indivíduos em sua vida cotidiana. Essa linha de raciocínio também é compartilhada pelo sociólogo Luís Antônio Machado da Silva, que concebe a violência urbana como sendo algo que [...] refere-se, primeiro, à constatação da existência maciça de saques à propriedade privada (assaltos, roubo) e ameaças à integridade física, em situações relacionadas à vida cotidiana; e ao mesmo tempo, segundo, a modelos de conduta subjetivamente justificados, no âmbito destas situações (SILVA, 1993:131). O que diferencia as cidades, no que se refere à violência urbana, é o grau de intensidade desses acontecimentos e as formas como eles são realizados. Geralmente, nas grandes cidades, existem altos índices de criminalidade devido à complexidade da vida cotidiana (MORAIS, 1981: 28-45), ao contrário das pequenas cidades, onde a vida simples tornaria as relações sociais menos propensas a práticas de sociabilidade violenta. Entretanto, não é uma tarefa simples identificar uma “violência urbana”, uma vez que uma interpretação de um ato como violento é muito subjetiva. A sua classificação vai depender do contexto histórico-social em que ele está inserido, posição que pode ser percebida nas palavras do filósofo brasileiro Nilo Odalia: O ato violento não traz em si uma etiqueta de identificação. O mais óbvio dos atos violentos, a agressão física, o tirar a vida de outrem, não é tão simples, pois pode envolver tantas sutilezas e tantas mediações que pode vir a ser descaracterizado como violência. [...] Matar em defesa da honra, qualquer que seja essa honra, em muitas sociedades e grupos sociais, deixa de ser um ato de violência para se converter em ato normal – quando não moral – de preservação de valores que são julgados acima do respeito a vida humana (ODALIA, 2004:23). Além de ser necessário observar o contexto histórico-social, para se classificar um ato como violento, deve-se singularizar esses atos, pois existem múltiplas formas de violência ou práticas de sociabilidade violenta. Sem se preocupar com a singularização das ações humanas, os jornais de Teresina, O Dia e O Estado, publicavam a maioria das notícias sobre Timon nas páginas policiais, como pode ser observado no quadro a seguir: 





O quadro acima mostra que o tema da violência se destacava nos jornais teresinenses, em detrimento de outros assuntos, como esporte, cultura e educação, referentes à cidade de Timon. Sobre práticas de sociabilidade violenta foram contabilizadas 423 notícias no jornal O Dia e 455 no jornal O Estado, totalizando 878 matérias ao longo de dez anos. Os outros assuntos veiculados nesses dois jornais somam menos da metade desse montante, apenas 416 casos. Por que o tema da violência aparecia mais nos jornais teresinenses? Na cidade de Timon não havia outros acontecimentos que merecessem destaque na imprensa local? Havia muitos casos de violência, cotidianamente, naquela cidade maranhense e esses assuntos interessariam uma maior parte da população de Timon e também de Teresina? Quem decide o que é, e o que não é, de interesse da população? O que pode e o que não pode ser veiculado nos jornais? Os jornalistas dos referidos jornais, desconheciam a existência de outros fatos que poderiam ser noticiados? Essas indagações nos levam a concluir que houve uma manipulação da realidade a partir do processo de ocultamento de uma realidade não-violenta em Timon, haja vista o fato de que, antes de os jornalistas saírem em busca das informações, são realizadas as chamadas reuniões de pauta, onde se decide a estrutura da edição e os assuntos que serão veiculados naquele determinado dia, portanto, não se trata de desconhecer outros assuntos, já que os jornalistas, seguindo a linha editorial dos meios de comunicação nos quais trabalham, fazem a cobertura apenas dos eventos que já foram predeterminados na reunião de pauta. Essa manipulação da realidade timonense, segundo o jornalista Perseu Abramo (2003), seguiu um padrão de ocultação, que ele considera como sendo […] o padrão que se refere à ausência e à presença dos fatos reais na produção da imprensa. Não se trata, evidentemente, de fruto do desconhecimento, e nem mesmo de mera omissão diante do real. É, ao contrário, um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade. Esse é um padrão que opera nos antecedentes, nas preliminares da busca da informação, isto é, no ‘momento’ das decisões de planejamento da edição, da programação ou da matéria particular daquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta. A ocultação do real está intimamente ligada àquilo que freqüentemente se chama de fato jornalistíco. A concepção predominante – mesmo quando não explícita – entre empresários e empregados de órgãos de comunicação sobre o tema é a de que existem fatos jornalísticos e fatos não-jornalísticos e que, portanto, à imprensa cabe cobrir e expor os fatos jornalísticos e deixar de lado os não jornalísticos. Evidentemente, essa concepção acaba por funcionar, na prática, como uma racionalização a  posteriori do padrão de ocultação na manipulação do real (ABRAMO, 2003: 25-26. Grifos do autor). Essa manipulação do real discutida por Perseu Abramo foi detectada no jornal O Dia, antes da década de 1980, mais especificamente em 1976. O referido periódico publicou duas matérias com manchetes sensacionalistas: “Quem quer morrer em Timon?”1 e “Timon continua um município sem lei”. 2 Na primeira, denunciavam as arbitrariedades da polícia de Timon, que não estaria cumprindo com o seu dever de proteger a sociedade e prender os criminosos, ocupado-se em realizar torturas e todos os tipos de humilhações contra indivíduos acusados de crimes pelos quais ainda não haviam sido julgados e que eram reconhecidos no meio popular como sendo pessoas de boa índole. A matéria “Timon continua um município sem lei” proporcionava ao leitor timonense e/ou teresinense uma reflexão sobre os problemas de segurança naquele município, com o intuito, direto ou indireto, de sensibilizar a sociedade, instigando-a a se organizar para reivindicar melhorias para aquela cidade do leste maranhense. Entretanto, essa mesma matéria banalizava as práticas de sociabilidade violenta realizadas em Timon, como pode ser observado a seguir: […] A pergunta de advertência feita na página publicada recentemente por O Dia sobre as ocorrências constantes e graves, que inquietam os timonenses pacatos e responsáveis, feita nos termos: ‘quem quer morrer em Timon?’, está confirmada mais uma vez pelos fatos recentes ali acontecidos e aqui narrados. Tiros, facadas e espancamentos praticados por elementos que não vão presos e são dados todos por desconhecidos. A passagem de uma pessoa que quase morre a 28 metros de profundidade. Os inúmeros afogamentos que em relação com a população de Teresina, ocorrem em percentagem 10 vezes maior. Os atropelamentos são muitos também. Um velhinho de 76 anos veio de Nazaré do Bruno somente ser atropelado em Timon.[…] As tocas, como são chamadas pela polícia os locais de refúgio dos marginais, muitas vezes casas abandonadas, muitas vezes palhoças situadas na periferia da cidade, são muito comuns em Timon, como uma prova da inexistência de ação policial na cidade.[…]3 Analisando o conteúdo da matéria acima, podemos considerar que as críticas às ações da polícia de Timon puderam ser publicadas, sem censura, porque no cenário político nacional, estava havendo um retorno à democracia, de forma “lenta, gradual e segura”, a partir do governo do penúltimo presidente do Regime Militar, o general Ernesto Geisel (1974- 1979). A censura prévia à imprensa foi gradualmente suspensa entre 1975 e 1978; inicialmente para os jornais de grande circulação como o Estado de São Paulo, e, depois de 1978, para os da imprensa alternativa. Porém, isso não significou o fim do controle e das 1 PÁDUA, Antônio de. Quem quer morrer em Timon? O Dia. Teresina, ano 25, n. 4475, 6 maio 1976. p. 7 2 Timon continua um município sem lei. O Dia. Teresina, ano 25, n. 4479, 11 maio 1976. p. 7. 3 Ibid., p. 7.  perseguições políticas, que ainda continuaram, como por exemplo, em 1976, foi proibida a apresentação pela TV de uma gravação do Balé Bolshoi pelo fato de ser uma Companhia russa e, assim, pudesse fazer apologia ao comunismo da União Soviética (HABERT, 2003: 40-68). Uma outra consideração que se pode fazer sobre a matéria citada é que, no trecho “Um velhinho de 76 anos veio de Nazaré do Bruno somente ser atropelado em Timon”, percebemos um sensacionalismo desenfreado, visto que ninguém sai de sua casa, excetuandose os casos de suicidas, somente para ser atropelado. Os acidentes de trânsito ocorrem por fatalidade e/ou por imprudência de motoristas, geralmente com maior incidência nos trânsitos complexos de grandes cidades, o que não é o caso de Timon, onde havia pouca circulação de veículos nas ruas, característica de uma paisagem típica das pequenas cidades do interior do Brasil. Ressaltamos que a linha editorial sensacionalista não era um privilégio da imprensa escrita teresinense no ano de 1976, já que também estava presente na imprensa nacional e se perpetuou durante a década de 1980, fato atestado por Abramo (2003: 23): “uma das principais características do jornalismo no Brasil, hoje [final da década de 1980], praticado pela maioria da grande imprensa, é a manipulação da informação”. Nesse sentido, as matérias sensacionalistas publicadas no jornal O Dia sobre práticas de sociabilidade violenta em Timon destacavam assassinatos, “Homem encontrado morto em Timon”, como pode ser observado no trecho abaixo: Francisco Pereira de Oliveira, vulgo chibeu, foi assassinado a golpes de faca peixeira anteontem pôr volta das 22 horas nas proximidades de uma garagem de ônibus, à Avenida Presidente Médici, em Timon. O criminoso é desconhecido da polícia daquela cidade, uma vez que após praticar o crime evadiu-se do local sem deixar pista 4 O jornal O Estado também destacava os assassinatos na cidade de Timon, em manchetes como “Morte no início do carnaval”, cujo conteúdo da notícia ressaltava o possível medo que estaria se generalizando por toda a população motivado por uma suposta falta de segurança, anunciada por esse meio de comunicação, como pode ser observado no trecho abaixo: O carnaval de 1981 começou com uma morte no interior, exatamente na cidade de Timon, onde a violência está apavorando os moradores. O operário Francisco Matos Fontinele, foi assassinado ontem com cinco facadas no peito esquerdo, pelo estivador Manoel Carlos de Sousa.5 4 Homem encontrado morto em Timon. O Dia. Teresina, ano 28, n. 7154, 8 jan. 1980. p. 8. 5 Morte no início do carnaval. O Estado. Teresina, ano 11, n. 2417, 28 fev. 1981. p. 1. 
 Além dos homicídios, o jornal O Dia destacava também os roubos e assaltos, com manchetes do tipo “Lanceiros presos no centro”: Os lanceiros José Genésio Almada, “O Pretinho” e Bartolomeu Gomes Barreto foram presos e autuados em flagrante pelo delegado do 1º Distrito Policial José da Silva Torres, depois de terem sido presos no centro comercial de Teresina praticando lances [...] Os dois lanceiros disseram que vinham agindo há muito tempo em Teresina, e que logo após um golpe fugiram para a cidade de Timon e somente depois de comerem (sic!) todo o produto do lance (furto) voltavam a agir6 Noutra matéria, com a manchete “Brasília puxada é encontrada em Timon”, aquele mesmo jornal noticiava as ações de ladrões de carro, “puxadores”, na gíria policial, que estavam atuando de forma constante e impunemente nas cidades de Timon e Teresina, no início da década de 1980. A constância desses roubos chamava a atenção dos delegados de Timon e de Teresina, como pode ser observado abaixo: ‘creio que este puxador de carros, desta vez, quer botar uma oficina de veículos’. A declaração é do delegado Luis Evangelista do 3º DP [de Teresina], referindo-se a Brasília de cor branca, sem placa [roubada em Teresina], encontrada ontem pelos agentes desta delegacia, na localidade Piçarreira a cinco quilômetros da cidade de Timon. 7 Essas duas matérias referem-se a pequenos e grandes furtos que eram realizados em Teresina, sendo que, depois, os ladrões fugiam com os produtos do roubo para a cidade de Timon. Percebemos aí, a construção de um discurso representando Timon como uma cidadesem-lei, uma terra onde os criminosos agiriam impunemente, e que, por isso, atrairia bandidos de outras regiões com o intuito de dividir os seus “lucros” e planejar novos crimes. A veiculação de matérias no jornal O Dia destacando Timon como uma cidade desprovida de segurança pública eficiente, ocorre desde meados da década de 1970, com manchetes sensacionalistas do tipo “Timon continua um município sem lei”. Num trecho dessa matéria, o referido periódico afirmou, de forma arbitrária, uma vez que houve generalização na exposição das idéias, a existência de grande quantidade de esconderijos de marginais em Timon, onde os criminosos residiriam tranqüilamente, como pode ser observado abaixo: Recentemente o delegado Moura, do 1º DP de Teresina, foi diretamente para Timon na certeza de encontrar a toca [refúgio] de um marginal, o golpista de carradas de cereais. São dezenas de casos desta natureza, em que a Polícia do Piauí encontra antro de ladrões em Timon, residindo ali tranqüilamente.8 6 Lanceiros presos no centro. O Dia. Teresina, ano 28, n. 7162, 17 jan. 1980. p. 8. 7 Brasília puxada é encontrada em Timon. O Dia. Teresina, ano 29, n. 7186, 13 fev. 1980. p. 8. 8 Cf. Nota 34.  No início da década de 1980 a imagem de Timon como uma cidade- sem-lei continuava sendo construída nos meios de comunicação escrita de Teresina. O jornal O Estado, na coluna Ronda Policial, assinada pelo jornalista Pedro Silva, noticiava várias matérias curtas enunciando o possível clima de insegurança naquela cidade maranhense. Como exemplo, citamos a manchete “Timon” que destaca a possível fragilidade da Polícia daquele município: “Com várias tocas de ladrões espalhadas em quase todas as ruas de Timon, o delegado Paulo Augusto já não sabe como combater os marginais, que a cada dia aumentam mais”9 . Noutra manchete, “Timon sem lei”, o jornalista Pedro Silva representa, arbitrariamente, Timon como um lugar que esconderia os piores criminosos do Brasil e, por esse motivo, todas as práticas de sociabilidade violenta imagináveis poderiam ser encontradas excessivamente naquela cidade: “Todo tipo de malandragem que possa existir, há em TimonMA. As principais ‘tocas’ dos mais audaciosos ladrões estão ali”10 Essa representação negativa da cidade de Timon era reforçada por outros acontecimentos violentos, a exemplo dos casos de acidentes de trânsito, como anunciado na matéria com a manchete “Atropelamento de carro mata anciã em Timon,” na qual o jornal O Estado noticiava que A anciã Maria da Conceição Assunção [...] foi anteontem atropelada e morta por uma caçamba [...] na avenida Presidente Médici em Timon [...] A velhinha, que foi jogada pelo veículo, que desenvolvia alta velocidade segundo populares que assistiram o acidente, ficou com suas vísceras e miolos expostos no meio do asfalto, sendo conduzida por um homem que passava no momento em uma camioneta, levando-a para o Pronto Socorro do HGV [Hospital Getúlio Vargas em Teresina], onde foi removida para o necrotério [...]11 Tradicionalmente, os jornais são entendidos – pela maioria das pessoas – como possuidores da função de informar a verdade, comunicando fatos do cotidiano local, nacional e internacional, mesmo que ele desagrade aos leitores (ou uma parcela deles), uma instituição ou um grupo social. Esse ponto de vista concebe a notícia como um espelho da realidade e defende a “objetividade” como um elemento chave da atividade jornalística. Tal objetividade, entretanto, pode ser questionada, como fazem os estudos dos jornalistas Clóvis Rossi (1986) e Alfredo Vizeu (2002). O primeiro é contra o ponto de vista que concebe a notícia como um “espelho da realidade,” pois, segundo ele, entre o fato e a sua publicação no jornal, existe um processo de filtragem – o enfoque dado às matérias, tamanho do texto, tamanho do título – que sempre resulta em uma versão e nunca no “espelho da realidade”: 9 SILVA, Pedro. Timon. O Estado. Teresina, ano 14, n. 3055, 22-23 maio 1983. p. 8. 10 SILVA, Pedro. Timon sem lei. Teresina, ano 14, n. 3066, 5-6 jun. 1983. p. 8. 11 Atropelamento de carro mata anciã em Timon. O Estado. Teresina, ano 11, n. 2401, 10 fev. 1981. p. 12.  Afinal, entre o fato e a versão que dele publica qualquer veículo de comunicação de massa há a mediação de um jornalista (não raro, de vários jornalistas), que carrega consigo toda uma formação cultural, todo um background pessoal, eventualmente opiniões muito firmes a respeito do próprio fato que está testemunhando, o que leva a ver o fato de maneira distinta de outro companheiro com formação background e opiniões diversas (ROSSI, 1986: 10). O jornalista Alfredo Vizeu entende que, no jornalismo, a linguagem não é apenas um campo de ação, mas a sua dimensão constitutiva. É a condição pela qual o sujeito constrói um real, um real mediatizado. Nesse sentido, a enunciação jornalística é bastante singular em função desse campo deslocar-se sempre como um lugar que retrata e cria o lugar do outro, a partir de leis e regras determinadas. A notícia ajuda a constituir a realidade como um fenômeno social compartilhado, uma vez que no processo de definir um acontecimento, a notícia define e dá forma a esse acontecimento. Desse modo, a notícia está permanentemente definindo e redefinindo, constituindo e reconstituindo fenômenos sociais (VIZEU, 2002: 2). Partindo desse pressuposto, percebemos que a narração do acidente de trânsito, na matéria citada, além de informar, produziu um discurso. Os detalhes desse atropelamento, juntamente com o de outras notícias congêneres – tais como “Degolaram homem a facadas e tocaram fogo no cadáver”12; “Carbonizado corpo de anciã”13; “Jovem é assasssinada pelo namorado com 25 facadas”14; “Corpo sem cabeça jogado na estrada”15; “Estudante é morto a facadas e pauladas por delinqüentes”16; “Menor é espancada e estuprada”17 – contribuíram para a construção de um imaginário de medo entre os habitantes de Teresina, sobre a vizinha cidade maranhense. A partir da análise do quadro 5, comentado anteriormente, percebemos que, durante a década de 1980, a maioria das notícias sobre Timon veiculadas nos jornais teresinenses O Dia e O Estado destacavam o tema da violência. Acreditamos que essa constante associação da cidade com o tema da violência, contribuiu para esse imaginário de medo, como pode ser observado no quadro a seguir: 12 Degolaram homem a facadas e tocaram fogo no cadáver. O Dia. Teresina, ano 34, n. 6970, 14 mar. 1985. p. 1. 13 Carbonizado corpo de anciã. O Dia. Teresina, ano 35, n. 8172, 26 jul. 1986. p. 12. 14 Jovem é assassinada pelo namorado com 25 facadas. O Dia. Teresina, ano 37, n. 8855, 4 nov.1988. p. 12. 15 Corpo sem cabeça jogado na estrada. O Estado. Teresina, ano 17, n. 4346, 26 jun. 1987. p. 1. 16 Estudante é morto a facadas e pauladas por delinqüentes. O Estado. Teresina, ano 18, n. 4756, 13 out. 1988. p. 14. 17 Menor é espancada e estuprada. O Estado. Teresina, ano 19, n. 4946,12 maio 1989. p. 12. 





Esse discurso do medo – assim como qualquer outro discurso produzido nos jornais – ocorre(u) a partir da enunciação jornalística, na qual o jornalista dá conta daquilo que aconteceu recentemente e, portanto, daquilo que ainda não acedeu à memória coletiva e que poderá gravar-se nela, em primeira mão, precisamente pelo fato de o jornalista enunciar (RODRIGUES, 1996). A repetição de enunciados sobre assassinatos, furtos e acidentes de trânsito ocorridos na cidade de Timon e noticiados na imprensa teresinense produziram uma identidade ligada à performatividade (SILVA, 2000), ou seja, a simples menção a um acidente de trânsito – que Rossi (1986) considera que pode haver objetividade por parte do repórter, quando este não está envolvido pessoalmente ou algum amigo ou parente – que, supostamente, se está apenas descrevendo contribui para definir ou reforçar a identidade de algo/alguém. O conceito de performatividade desloca a ênfase na identidade como descrição, como aquilo que é – uma ênfase que é, de certa forma, mantida pelo conceito de representação – para a idéia de “tornar-se”, para uma concepção da identidade como movimento e transformação (SILVA, 2000: 92). Nessa perspectiva, a cidade de Timon “tornou-se” uma cidade-sem-lei no imaginário social dos teresinenses, a partir da excessiva repetição de enunciados sobre violência urbana, em detrimento de raros casos de notícias sobre fatos não violentos. Esse olhar da mídia pode ser exemplificado pelas notícias sobre violência em cidades como Rio de Janeiro, onde a maior parte das notícias se relacionam à violência urbana, amedrontando os cidadãos. Muitos  10 brasileiros são influenciados pela representação da mídia sobre esta cidade e assim, evitam visitá-la, sem fazer o devido dicernimento da notícia e da realidade. Esse exemplo serve para se compreender melhor o que se passou em Timon. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 FONTES JORNAL O DIA, Teresina, jan – dez., 1980-1989. JORNAL O ESTADO, Teresina, jan - dez., 1980-1989. BIBLIOGRAFIA ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003. ABREU, Irlane Gonçalves de. Cidade: conceitos e interpretações. Scientia et Spes. Teresina, ano 1, n. 1, p. 77-83, 2002. DIAS, Claudete Maria Miranda. Que História é essa?. Teresina: EDUFPI, 2005. HABERT, Nadine. A década de 70: apogeu e crise da ditadura militar brasileira. 3. ed. São Paulo: Ática, 2003. (Série Princípios). MORAIS, Regis. O que é violência urbana. São Paulo: Brasiliense, 1981. (Coleção Primeiros Passos). ODALIA, Nilo. O que é violência. São Paulo: Brasiliense, 2004. (Coleção Primeiros Passos). RODRIGUES, A. D. O discurso mediático. Lisboa, 1996. (mimeo). ROSSI, Clóvis. O que é jornalismo. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. (Coleção Primeiros Passos). SILVA, Luís Antônio Machado da. Violência urbana: representação de uma ordem social. In: NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do; BARREIRA, Irlys Alencar F. (Org). Brasil urbano: cenário da ordem e da desordem. Rio de Janeiro: Notrya; Fortaleza: SUDENE: Universidade Federal do Ceará, 1993. p. 131-142. SILVA, Tomaz Tadeu da. A produção social da identidade e da diferença. In: Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000, p. 73-102. VIZEU, Alfredo. A produção de sentidos no jornalismo: da teoria da enunciação a enunciação jornalística. Disponível em: . Acesso em: 13 set. 2005.

Violência Urbana





Violência Urbana

Postado por Esther Santana 
Um grave problema social


A violência urbana é um fenômeno social que tem se espalhado com grande velocidade nas cidades. A raiz desse problema pode estar no modo como a sociedade está estruturada, quais são seus valores culturais, sociais, morais padrões econômicos e também ideologia política.



No Brasil, por exemplo, pode-se dizer que a violência urbana se agravou nos últimos anos por conta da ausência do Estado e de outras instituições assistenciais, que não têm fornecido o básico para que as pessoas tenham condições de sobreviver.


O descaso com a educação, saúde e segurança pública, aumento das taxas de desemprego, narcotráfico, políticas armamentistas, discurso de ódio e tantos outros, são alguns dos exemplos.



Vale lembrar que a violência urbana não é um fenômeno limitado às grandes metrópoles. Infelizmente, esse problema já chegou nas cidades do interior e pequenos centros urbanos.


Cada dia que passa fica mais comum assistirmos os meios de comunicação noticiando as explosões nos caixas de bancos, sequestros, assaltos a mão armada, homicídios, feminicídios, estupros e tantas outras formas de violência.
        

Para piorar, em muitos casos a violência parte da instituição responsável por garantir a proteção dos cidadãos: a polícia. Engana-se quem pensa que esse fenômeno é exclusivamente brasileiro, tendo em vista que esse comportamento se repete em outros países. Praticamente incontrolável, a condição carece de uma saída eficiente.


Entendendo a violência urbana


Dentro do campo sociológico, a violência urbana e todos os outros tipos de violência podem ser consideradas como um elemento inerente a toda e qualquer sociedade.


O sociólogo Emile Durkheim afirmou que a violência devia ser analisada sob a perspectiva de fato social, decorrente de fatores como a desigualdade, condições financeiras e sociais, e seu uso provém da necessidade de poder que os indivíduos de uma determinada realidade têm.

Muitas vezes, as instituições a utilizam, de forma legítima, como mecanismo de coerção, como é o caso da polícia, que já foi citada aqui. Independentemente da “justificativa”, a violência está presente em todos os âmbitos, com destaque para os espaços urbanos.

O grande problema está em tentar compreender o fenômeno, suas causas, e o porquê desse caminho ser utilizado para a resolução de quaisquer que sejam as situações.

Por que uma “fechada” no trânsito se transforma em uma discussão mais violenta? Por que uma discussão no bar se transforma em assassinato? Por que o fim de um relacionamento resulta em feminicídio? Por que um grupo de pessoas está mais sujeito a ser agredido ou morto? O que está por traz das motivações?

Essas perguntas são feitas pelas ciências sociais para que seja possível não só compreender a complexidade que há nessas reações, mas também para dar soluções para a incidência da violência urbana.

Dentre as diversas causas, é claro que não dá para negligenciar alguns aspectos que influenciam as relações sociais e como a sociedade está estabelecida. A pobreza, racismo, divisão de classes, machismo, todos esses fatores são estruturantes e potencializam a violência.


Pessoas em situação de rua estão entre os mais vulneráveis à violência urbana. Entre 2015 e 2017, foram registrados mais de 17 mil casos de violência contra o grupo. (Imagem: Wikimedia)


Quando se tem uma sociedade que já é construída sob esses pilares, na qual já existe uma ramificação entre as camadas sociais e ela determina o que cada um desses conjuntos têm acesso (inclusive a segurança), são os órgãos públicos que devem criar meios de garantir a seguridade e bem-estar dos que não têm como financiar isso.


Porém o que se tem visto, ao menos aqui no Brasil, é que as instituições estão tão enfraquecidas e sucateadas que elas não conseguem prover isso. Quanto mais pobres e mais excluídos socialmente, mais expostos à violência urbana essas pessoas ficam. E conhecendo apenas a violência, muitos acabam por reproduzi-la.


Violência institucionalizada


Muitas pessoas defendem que a violência e o aumento nas taxas de criminalidade decorrem somente do enfraquecimento das forças policiares. Porém, é importante destacar aqui alguns dados: de acordo com informações do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a polícia do Brasil é a que mais mata.


Além de mortes em conflito armado, há também as execuções sumárias e os inúmeros casos de violência policial que aparecem nos noticiários. Geralmente, ocorrem dentro das periferias e favelas das cidades.


É claro que investir na força policial, no sentido de prover melhores condições e instrumentos de trabalho, pode ter bons resultados. Porém, de nada adianta fornecer esses recursos, se não houver um preparo específico para que esses profissionais possam lidar com as situações de risco diário.


Além disso, é muito importante que o combate a violência esteja lado a lado com o incentivo à educação, cultura e lazer, meios de acesso à igualdade social.

O que é Violência Urbana

 



Resumo da Obra: 

O que é Violência Urbana Autor: Régis de Morais 

O entendimento da violência urbana vai muito além da conceituação de homens bons e homens ruins, até porque não se pode definir quem são os homens bons e quem são os homens ruins. É conseqüência da nossa sociedade e não uma característica dela. Régis de morais, no livro, inicia o seu trabalho focando o medo. O medo que eu tenho de sair às ruas, que você tem e que, por si só, é um fator de geração da violência urbana. Isto acontece porque, quanto mais reprimidos os homens, mais drásticas são as suas atitudes. Explicando, o homem que se mantém reprimido o tempo todo, escondendo-se na sociedade, permite que outros que dominam tomem as rédeas do que será desenvolvida na cidade, gerando um nível de poder extremo, o homem, que ao se ver reprimido reage, vai ao encontro de uma afirmação constante no livro, a de que a brutalidade é a arma dos fracos. Em qualquer das duas hipóteses, o homem é uma marionete. Isto porque, como afirmado no segundo trecho, o espaço é político, e quando se fala em política, se fala em poder. No espaço das cidades, principalmente grandes cidades, que é o alvo principal do estudo, o poder encaminha a população e por conseqüência delimita o seu nível de ação, como acontece em qualquer das organizações, das mais simples as mais evoluídas. Como conseqüência da impotência dos menos poderosos, pra não dizer sem poder, surge à brutalidade dos fracos, tidos por muitos como a raiz da violência urbana, mas ai, nos perguntamos, a raiz representa a base, a base é começo, onde começa tudo isso? Na brutalidade dos fracos ou na opressão de um sistema que difere a todos. Creio eu que todos já sabem essa resposta... Por todas essas situações, o homem perde a sua maior riqueza, a sua identidade, a sua capacidade de enxergar em si a pretensão de ser melhor. Isto gera violência. Como podemos julgar o detento rebelado que fora preso por roubar, mas que, dentro da cadeia, possui seus pertences roubados e não vê ninguém ser punido por isso? Como podemos julgar o homem que pode produzir grandes produtos sem que possa ter o poder de consumi-los? É um mundo que, por mais que o homem tente se livrar dos descaminhos e do barbarismo, ele está sendo constantemente sendo persuadido a viver assim. Um sistema que estimula a violência na medida em que não estimula a inserção social dos oprimidos. E o futuro, sobre o qual nós temos grandes expectativas, representa o mesmo presente que as pessoas tinham grandes expectativas há 30 anos atrás. Nossas crianças, antes açoitadas por um mundo de miséria e repressão, quando hoje, além da miséria, vivem sobre a mira de uma ideologia programática. Se antes havia ao menos a humanidade como atenuante, hoje elas crescem com máquinas no auxilio do desenvolvimento. No livro, ele coloca a seguinte idéia: Sociedade no mundo contemporâneo está resumida á: homem = produção = dinheiro, crianças não produzem, logo, não se encaixam no ideal e, até que possuam aptidão para tal, são apenas mais um problema ou mais uma boca pra se alimentar, como ele relata. Concluindo, a grande contribuição do livro é que, violência urbana vai muito além dos fatos, muito além das causas superficiais. Violência urbana é apenas uma conseqüência do princípio desejo e poder. Se você deseja e pode, está tudo perfeito, se o desejo existe e o poder não vem acompanhando, diferentemente de outras pessoas, surge esta realidade social, afinal, ninguém abre mão do poder e da mesma forma, ninguém abre mão do desejo. 

Bibliografia 

• MORAIS, R. de. O que é violência urbana. São Paulo: Brasiliense, 1981.)

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