quinta-feira, 7 de maio de 2026

Extraindo água do ar




Materiais nanoporosos ajudam a combater uma crise mundial
Programa de Pós-graduação em Química,
Universidade Federal do Rio de Janeiro


A escassez de água potável é um problema sério, enfrentado por mais de 500 milhões de pessoas no mundo. As mudanças climáticas, o crescimento populacional e o aumento da poluição agravam a situação, exigindo novas tecnologias para produzir água de forma acessível e sustentável. Pesquisas recentes mostram que materiais com poros diminutos (com diâmetros na casa dos bilionésimos de metro) são uma solução promissora para produzir água potável a partir do ar – mesmo em regiões desérticas.


O acesso à água é fundamental para a sobrevivência e o bem-estar da humanidade: em sua forma potável, esse líquido é essencial para a saúde, higiene e alimentação. De fato, a vida não existiria sem essa molécula preciosa, cujo papel é igualmente preponderante para o desenvolvimento econômico e social de um país – basta lembrar de áreas como irrigação, geração de energia, transporte, turismo etc.

O acesso à água potável tem sido um desafio constante, desde os primórdios da civilização. Por exemplo, o rio Nilo possibilitou o surgimento das primeiras grandes cidades no Egito antigo; romanos e incas desenvolveram sistemas relativamente avançados de captação e distribuição de água potável.

Séculos depois, apesar dos avanços tecnológicos, a escassez e dificuldade de acesso à água potável continuam sendo problemas globais. Pior: que tendem a se agravar. Estima-se que, até 2050, quase metade da população mundial viverá em regiões com escassez de água, o que pode levar a conflitos entre nações motivados por esse bem natural.

A escassez global de água é um problema complexo. Ela resulta da falta de correspondência geográfica – algumas regiões têm acesso abundante à água, enquanto outras não têm fontes naturais disponíveis – ou temporal – por causa da sazonalidade de períodos de chuvas e secas – entre a demanda e a disponibilidade de água doce. Segundo relatório da Organização das Nações Unidas, 31 países estão no limite físico do chamado estresse hídrico; e 22 deles já ultrapassaram esse patamar.

Projeções indicam que o número de nações nessa situação pode aumentar, por causa das mudanças climáticas, do crescimento da população global e da contínua poluição da água. Em seu mais recente relatório anual de riscos, o Fórum Econômico Mundial lista crises hídricas como o maior risco global em termos de impacto potencial.


Em seu mais recente relatório anual de riscos, o Fórum Econômico Mundial lista crises hídricas como o maior risco global em termos de impacto potencial



A distribuição desigual no espaço e tempo dos recursos de água doce é particularmente problemática. Embora sistemas aprimorados de gestão hídrica possam aliviar a situação em alguns países, em geral, será necessário gerar água doce suplementar – especialmente, em regiões áridas ou naquelas de grande densidade urbana afetadas por longos períodos de seca severa.

Diante desse cenário, é crucial o desenvolvimento de novas tecnologias que permitam a obtenção de água a partir de fontes alternativas, de modo contínuo e barato.

Fontes alternativas


A Terra tem um volume gigantesco de água, estimado em cerca de 1,3 bilhão de km3. Mas só percentual mínimo dele (3%) é doce e, em sua maior parte, existe na forma de glaciares e aquíferos subterrâneos. Portanto, apenas cerca de 0,3% da água doce está disponível para consumo direto.


Apenas cerca de 0,3% da água doce está disponível para consumo direto



A dessalinização da água do mar tem sido vista como técnica promissora para fornecer água potável em áreas com escassez – afinal, mares e oceanos são a maior reserva de água do planeta. Mas, mesmo com os avanços recentes, a tecnologia de dessalinização ainda consome muita energia e tem baixa produtividade. Esses problemas, combinados ao fato de seu emprego estar limitado só a regiões costeiras, impedem que essa técnica seja amplamente usada.

Mas há outra fonte menos conhecida: a atmosfera. Nela, estima-se haver 13 mil trilhões de litros de água, na forma de vapor e pequenas gotas. Esse volume seria suficiente para satisfazer o consumo atual e futuro das regiões com problemas de acesso à água.

Então, coletar água da atmosfera pode ser um caminho promissor para obter água potável de maneira descentralizada e contínua. Esse tipo de abordagem pode ser ainda mais importante em regiões áridas e desérticas sem infraestrutura de distribuição ou fontes de água potável.

Captura atmosférica


Antes de falarmos nos métodos de captura de água da atmosfera, é preciso fazer breve distinção entre dois processos: adsorção e absorção.

A absorção é o processo pelo qual uma substância líquida ou gasosa entra em outra substância (geralmente sólida ou líquida), e as moléculas da substância absorvida penetram o interior da substância absorvente, dispersando-se nela. Essas moléculas podem se dissolver ou reagir com a substância absorvente.

A adsorção é o processo em que as moléculas adsorventes aderem à superfície de uma substância sólida ou líquida. Isso pode ocorrer de duas maneiras: i) fisissorção, na qual as moléculas adsorvidas interagem com a superfície do material adsorvente por meio apenas de interações intermoleculares ‘físicas’ (como as chamadas forças de van der Waals ou ligações de hidrogênio); ii) quimissorção, quando ocorre algum tipo de reação química entre as moléculas adsorvidas e a superfície do material adsorvente.

Os materiais adsorventes – sólidos com poros internos capazes de capturar moléculas em sua superfície – são uma possível alternativa para coletar água diretamente da atmosfera. Exemplo desse tipo de material em nosso dia a dia é a sílica-gel, usada como agente dessecante para transporte e conservação de produtos sensíveis à água.

Mas a sílica-gel e outros adsorventes comuns não são adequados para a construção de um sistema de coleta de água atmosférica em grande escala, pois não conseguem capturar grandes quantidades de água. Além disso, o processo de adsorção é lento.

Recentemente, surgiu um candidato promissor para essa tarefa: os chamados materiais reticulares, nova classe de materiais porosos adsorventes que já está sendo usada com sucesso tanto em escala de laboratório quanto em testes de campo.

Os materiais reticulares são estruturas cristalinas e porosas formadas pela conexão: i) de moléculas orgânicas entre si; ii) destas com aglomerados (clusters) inorgânicos, por meio de ligações químicas fortes.

Quando uma dessas moléculas é um cluster inorgânico e outra uma molécula orgânica, o material é denominado MOF (sigla, em inglês, para retículos metalo-orgânicos). Quando ambas são moléculas orgânicas, o material obtido é denominado COF (retículos orgânicos covalentes) (figura 1).



Figura 1. Representação de um COF em diferentes escalas. Em a, b e c, microscopia eletrônica de tunelamento de alta resolução de amostra do COF RIO-12; em d, representação esquemática da estrutura do COF RIO-12, com moléculas de gás carbônico (CO2) dentro do poro – a sigla ‘nm’ significa nanômetro (bilionésimo de metro)


CRÉDITO: CEDIDA PELO AUTOR


Os materiais reticulares têm estruturas cristalinas com poros na escala de poucos nanômetros (bilionésimos de metro). Pelo fato de seus poros serem tão pequenos, podem apresentar áreas superficiais extremamente altas, ultrapassando a casa de 10 mil m² para cada grama de material – em uma analogia simples, é como se cada grama desse material tivesse mais área de superfície do que o campo de futebol do Maracanã, que tem cerca de 7.140 m² de área superficial.


Pelo fato de seus poros serem tão pequenos, podem apresentar áreas superficiais extremamente altas, ultrapassando a casa de 10 mil m² para cada grama de material



Além da grande área superficial, esses materiais apresentam outro diferencial importante: a capacidade de desenhar sua estrutura e ajustar suas propriedades físico-químicas em nível atômico, por meio da escolha e modificação de suas moléculas formadoras.

A escolha da geometria molecular, dos grupamentos químicos e do comprimento dessas moléculas permite o desenho preciso do formato, do tamanho e das propriedades químicas dos poros do material, oferecendo grande variedade de opções para projetar materiais com características e funções específicas.

Água no deserto


Em trabalho pioneiro publicado no periódico científico Science em 2021, um grupo de pesquisadores liderados por Omar Yaghi, da Universidade da Califórnia, em Berkeley (Estados Unidos), demonstrou a viabilidade de um sistema autônomo de captura atmosférica de água que empregou o material reticular MOF-303.

O MOF-303 – formado pela conexão de uma molécula orgânica com um cluster de átomos de alumínio – foi capaz gerar três copos de água por quilograma do material por dia no deserto de Mojave (sudoeste norte-americano), onde a umidade relativa do ar é menor do que 10%.

Esse tipo de tecnologia – que parece retirada do livro de ficção científica Duna, do escritor norte-americano Frank Herbert (1920-1986) – pode possibilitar a produção de água potável, mesmo nas regiões mais secas e desafiadoras.


Esse tipo de tecnologia – que parece retirada do livro de ficção científica Duna, do escritor norte-americano Frank Herbert (1920-1986) – pode possibilitar a produção de água potável, mesmo nas regiões mais secas e desafiadoras



Para realizar essa façanha, os pesquisadores desenvolveram um dispositivo que usa o ciclo dia e noite para gerar água. Esse dispositivo é composto por uma câmara transparente, com um recipiente que pode ser preenchido com o MOF. À noite, o dispositivo é aberto manualmente, e a parte interna é exposta ao ambiente, fazendo com que o ar úmido entre em contato com o MOF.

Nesse contato, as moléculas de água dispersas no ar acabam adsorvidas na superfície dos poros do material, ficando retidas no dispositivo. De manhã, o dispositivo é fechado, também manualmente. Com o aumento da temperatura causado pela incidência do sol, as moléculas adsorvidas no material são liberadas, formando uma atmosfera cheia de vapor na câmara.

Esse vapor, então, passa por um condensador, gerando água limpa, que pode ser coletada. Esse dispositivo não necessita de fonte de energia externa, podendo realizar grande quantidade de ciclos e, assim, gerar água de maneira autônoma.

Esse processo de captura pode ser acelerado com o uso de uma fonte de aquecimento artificial. Com isso, é possível a realização de ciclos rápidos de captura e coleta de água de dia e noite.

Apesar de cada ciclo artificial gerar quantidade menor de água do que no ciclo dia e noite, um número grande de ciclos pode fazer com que a quantidade de água capturada seja até três vezes maior dessa forma (figura 2).



Figura 2. Esquema de dispositivo passivo e ativo de captura de água do ar. À esquerda, os gráficos representam a quantidade de água capturada nos poros do material. À direita, esquema de como ocorre o processo de captura de água: entrada do ar úmido; geração do vapor por aquecimento; condensação; e coleta da água


CRÉDITO: CEDIDA PELO AUTOR

Em nível molecular


Em trabalho recente, Yaghi e colegas combinaram técnicas de difração de raios X e cálculos computacionais para elucidar o mecanismo de captura de água molécula a molécula, demonstrando em detalhes o mecanismo de preenchimento dos poros do material.

Ao sequenciar a captura de moléculas de água uma a uma, como em um filme, os pesquisadores conseguiram ver claramente como a estrutura do MOF-303 se contrai e se expande no processo de adsorção. Mais: viram como as primeiras moléculas de água se ligam aos sítios de adsorção mais fortes, seguidas por outras, que formam clusters isolados; depois, cadeias de clusters; e, finalmente, uma rede de água.

Esse nível de entendimento do processo é importante e permite que novos materiais sejam projetados para ser ainda mais eficientes.

Este ano, um grupo de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Pequim (China) demonstrou que a incorporação de grupos hidrofílicos – moléculas que têm ‘atração’ pela água – à estrutura de materiais reticulares do tipo COF aumenta não só a quantidade de água capturada, mas também a velocidade de difusão dessas moléculas no material.

Isso faz com que tanto a captura quanto a liberação da água ocorram mais rapidamente, permitindo maior eficiência do processo de geração. Em tempo: a incorporação desse tipo de grupamento químico à estrutura de materiais nanoporosos orgânicos já havia sido usada com sucesso para aumentar a captura de gás carbônico por esses materiais.

Desenvolvimento futuro


Ainda há um longo caminho a ser percorrido até que esse tipo de tecnologia esteja comercialmente disponível e possa causar real impacto em nossa sociedade. Para atingir esse objetivo, é crucial compreender as interações entre as moléculas de água e as estruturas reticulares, o que permitirá projetar materiais mais eficientes, com maior capacidade de captura de água e mais acessíveis economicamente.

Para isso, pesquisadores – inclusive, no Brasil – estão trabalhando principalmente em técnicas de simulação computacional, para entender como as alterações na estrutura química dos materiais reticulares afetam suas propriedades de captura de água.


Ainda há um longo caminho a ser percorrido até que esse tipo de tecnologia esteja comercialmente disponível e possa causar real impacto em nossa sociedade.
Revista Ciência Hoje

Recifes sob estresse





Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, Rede Ressoa Oceano
Instituto Oceanográfico
Universidade de São Paulo


Aquecimento global, acidificação do oceano, sobrepesca, turismo mal gerenciado, poluição, espécies invasoras, dragagem… A lista de estressores desse ecossistema é longa e não afeta somente os corais




Os recifes de coral são ambientes extremamente diversos, abrigando cerca de 25% de toda a biodiversidade marinha. Suas estruturas rígidas são constituídas por organismos marinhos de esqueleto calcário, os corais. Mas há outros tipos de organismos que vivem nos recifes, como algas, moluscos e peixes.

Além de sua importância biológica, recifes também são valiosos do ponto de vista socioeconômico. A elevada biodiversidade produz bastante pescado, de modo que, hoje, cerca de 10% da proteína animal consumida no planeta provêm de recifes de coral. Outro fator a considerar é que a beleza natural estimula o turismo, e, consequentemente, o estabelecimento de operadoras de mergulho, pousadas, restaurantes… Há também a indústria da biotecnologia, que se beneficia da extração e posterior síntese de compostos farmacêuticos a partir de tecidos de corais. E não se pode esquecer da proteção costeira: a barreira formada pelos recifes atenua a intensidade das ondas, de modo a impedir que a costa sofra erosão e coloque edificações em risco. Juntas, essas atividades geram renda e emprego, beneficiando, aproximadamente, 500 milhões de pessoas ao redor do planeta.

Apesar da sua importância, atualmente os recifes de coral se encontram em franco declínio. A razão? Os impactos de múltiplos estressores. O mais grave é o aquecimento global, porque o estresse térmico provoca um fenômeno chamado branqueamento, no qual os corais perdem as microalgas parceiras que vivem em seus tecidos e lhes fornecem alimento. Sem as microalgas, os corais perdem a pigmentação natural e seus esqueletos ficam visíveis por baixo do tecido transparente, formando amplas paisagens esbranquiçadas e, eventualmente, promovendo elevada mortalidade desses seres vivos. Outra consequência das mudanças climáticas é a acidificação do oceano: o aumento da concentração de dióxido de carbono na água do mar gera uma reação química que impede os corais de calcificar e produzir seus esqueletos. Resultado: os corais se quebram com facilidade, enfrentando uma forma de “osteoporose coralínea”.

Aquecimento global e acidificação são estressores de escala global, ou seja, consequências de práticas realizadas no planeta como um todo. No entanto, os recifes também enfrentam estressores de escala local ou regional, resultantes de práticas realizadas em determinada parte do planeta, como a sobrepesca. Embora seja positiva quando bem gerenciada, a pesca se torna um problema quando não há controle. A remoção excessiva de espécies que contribuem para a saúde dos recifes – como os budiões, que controlam o crescimento de algas – gera um declínio do ecossistema como um todo.

Similarmente, o turismo, quando mal gerenciado, promove perda de corais com o pisoteio, a ancoragem e outras práticas de destruição física. Outro importante impacto de escala local é a poluição – seja de origem orgânica ou inorgânica, suas consequências são severas e incluem uma infinidade de efeitos ecofisiológicos nos organismos que habitam os recifes. A introdução de espécies exóticas invasoras e a dragagem em zonas recifais também compõem a longa lista de impactos de escala local.

Por conta do efeito combinado desses múltiplos estressores, nos últimos 40 anos, mais de 50% da comunidade de corais do planeta se perdeu. Projeções demonstram que, com a continuidade dessas práticas destrutivas, esse número deve chegar a 95% até o ano de 2050.

Ao contrário do que possa parecer, a perda não ocorre somente para corais. Com a sua morte, as inúmeras espécies de peixes e invertebrados que vivem no recife perdem o seu local de abrigo, alimentação e reprodução, de modo a também sofrerem declínios populacionais severos. Portanto, cerca de 25% da biodiversidade marinha se encontra em risco. A maneira de reverter isso é informar as pessoas e os tomadores de decisões de todo o planeta, para que ajam no combate ao aquecimento global, sobrepesca, poluição e outros impactos em ecossistemas marinhos.
Revista Ciência Hoje

Guerras contemporâneas





Departamento de História
Centro de Letras e Ciências Humanas
Universidade Estadual de Londrina


A guerra é um acontecimento presente em todos os grupos e sociedades humanas conhecidas desde a chamada pré-história até os dias atuais. Este artigo busca apresentar a história desses conflitos ao longo dos últimos séculos – dando destaque às guerras mais recentes –, mostrando como as formas de luta e os atores vão mudando de acordo com os diferentes interesses envolvidos.


A ideia de pré-história surgiu no século 19 como efeito do desconhecimento do passado, que não produziu documentos escritos, mas que a arqueologia e a antropologia contemporâneas têm desfeito de modo completamente satisfatório. Esse conhecimento é fundamental para demonstrar que, embora as guerras produzam morte e destruição, elas são completamente diferentes, e só a História delas permite a sua compreensão.

O recente livro de David Graeber e David Wengrow, O despertar de tudo: por uma nova história da Humanidade, é significativo nesse sentido: não apenas reúne os conhecimentos da arqueologia e da antropologia dos últimos 50 anos, como também permite compreender uma miríade de povos do passado e suas formas e modos de fazer as guerras.

É importante destacar que este artigo se dedica à compreensão das guerras contemporâneas e, para isso, procura diferenciá-las das guerras modernas feitas no e pelo Ocidente (entendido aqui como os estados europeus e norte-americanos).

Revoluções e genocídios


Em termos bem genéricos, as guerras nos séculos 16 e 17 configuraram uma carnificina mais ou menos generalizada. A formação dos estados europeus implicou uma sucessão de conflitos entre os grupos que procuraram criar os monopólios de poder que configuraram esses novos espaços políticos.

No período, isso significou um extenso conflito global que envolvia guerras religiosas, uma vez que, não havendo a ideia e a prática de uma comunidade internacional, tratava-se da expansão e consolidação de uma civilização cristã. Decorreram as guerras contra as civilizações orientais, guerras entre católicos e protestantes. Mas também as guerras de conquista colonial na América, na África e na Ásia.

O maior genocídio já perpetrado na história conhecida da humanidade foi a conquista da América, com o extermínio estimado de mais de 90 milhões de pessoas que integravam os mais variados povos e civilizações indígenas. Mas não estão excluídos dessas guerras coloniais os processos de escravização de milhões de africanos e o início da conquista da Ásia.

Iluminismo e Revolução Industrial


Na virada do século 18 para o 19, esse panorama começa a mudar. Na Europa, o Iluminismo e a Revolução Industrial vão promover o entendimento da guerra como progresso, uma vez que permitem a reconfiguração dos estados e o estabelecimento do monopólio estatal do emprego da violência, com base na formação de forças armadas profissionais. Com a Revolução Industrial, a maquinaria da guerra se amplifica devido ao desenvolvimento tecnológico que permite a produção de armamentos cada vez mais sofisticados, com a propulsão a vapor, a artilharia raiada, o surgimento dos submarinos, dos navios de ferro e depois de aço.

O surgimento da ideia de dissuasão, embora visasse teoricamente a estabelecer um limite para a guerra, apenas a incrementou. De fato, foi o químico sueco Alfred Nobel (1833-1896), o inventor do dinamite, que afirmava sonhar em construir uma arma tão terrível que, de posse da mesma, nenhum estado se atreveria a atacar o outro.



O surgimento da ideia de dissuasão, embora visasse teoricamente estabelecer um limite para a guerra, apenas a incrementou


Essa ideia conduziu a uma corrida armamentista sem precedentes e resultou no surgimento do complexo industrial-militar norte-americano para a construção da bomba atômica. Ou seja, a guerra total – isto é, uma guerra que agora implicava o emprego de todos os recursos humanos e tecnológicos no conflito – data do século 19 e pode ser circunscrito até 1945, quando se conclui a grande guerra civil internacional, de 1914 a 1945.

Racismo e dominação


Por outro lado, o desenvolvimento das teorias racialistas que buscaram conferir um caráter científico ao racismo, potencializaram a conquista colonial justificada – não mais pela tentativa de inserção dos povos em uma comunidade cristã, mas pelos processos de branqueamento e de implantação de uma civilização burguesa global. O racismo é a base da dominação britânica na Índia.

Perpetraram-se guerras de conquista nos locais que resistiam à presença ocidental, como as guerras do ópio contra a China, quando a Inglaterra procurou realizar a conquista colonial, introduzindo a maior rede de tráfico de drogas do século 19 na Ásia. Caso distinto foi o do Japão, que buscou se ocidentalizar rapidamente. Mas, no então chamado Oriente Médio, a ‘inferioridade dos povos’ – os palestinos, por exemplo – justificou a conquista.

Os Estados Unidos (EUA) avançaram na conquista das ilhas do Pacífico e se chocaram, ao final do século, com os interesses japoneses e russos naquele espaço. Não foi por acaso que a chamada Segunda Guerra Mundial se inicia com a invasão da Manchúria e termina com as explosões nucleares em Hiroshima e Nagasaki.

É importante destacar que datam desse período – com a invenção da imprensa e da imprensa ilustrada (a veiculação de imagens) e, posteriormente, do cinema – os processos de desumanização do inimigo, que começam em 1850. A guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai é um exemplo concreto e impactante disso, pois paraguaios e brasileiros representavam seus inimigos como animais na imprensa. Ilustrações de brasileiros como macacos e de paraguaios como cachorros são frequentes nas imprensas desses dois países.

Indústria do extermínio


Assim, o ditador alemão Adolf Hitler (1889-1945) não inventou nada de muito novo quando equiparou os judeus, testemunhas de Jeová, homossexuais, comunistas e outros grupos humanos a pragas que deveriam ser exterminadas. E, mais uma vez, a tecnologia produziu um fenômeno novo, que foi o surgimento da indústria do extermínio, com a eliminação organizada e sistemática – transporte, seleção, câmaras de gás e crematórios – desses grupos, baseada em uma divisão de trabalho igual à de uma fábrica de salsichas.



Mais uma vez, a tecnologia produziu um fenômeno novo, que foi o surgimento da indústria do extermínio, com a eliminação organizada e sistemática – transporte, seleção, câmaras de gás e crematórios – desses grupos, baseada em uma divisão de trabalho igual à de uma fábrica de salsichas


Também nesse período surge, pela pena do militar prussiano Karl von Clausewitz (1792-1831), a mais influente teoria sobre a guerra. Para ele, a guerra é um fenômeno complexo que se caracteriza como “a continuação da política por outros meios”. Como os interesses dos vários grupos e as políticas são conflituosas interna e externamente, só é possível compreender as guerras modernas de uma perspectiva histórica: suas motivações, origens, interesses em jogo.

Diplomacia versus guerra


Com a globalização, as guerras entre os estados entraram em declínio e passaram por mutações, ainda que a política seja o elemento-chave para sua compreensão.

Com o final da guerra civil internacional (1914-1945), também chamada pelos especialistas de ‘guerra dos 30 anos do século 20’, uma nova ordem global se configura: de um lado, com a construção da Organização das Nações Unidas (ONU) e a proclamação dos direitos humanos, que buscam a resolução de conflitos pela diplomacia e não pela guerra, e, de outro, pelo surgimento da assim chamada ‘Guerra Fria’; isto é, o confronto entre EUA e União Soviética (URSS).

Vários analistas apontaram já a incongruência da definição, pois o que se abre nesse caso é um período em que as duas potências vencedoras da guerra não entram em um conflito direto, uma vez que este poderia resultar em um confronto nuclear, resultando na extinção da humanidade.

É fundamental, no entanto, perceber que, desde o século 19, o comunismo apresentou-se para o Ocidente como uma grande ameaça dado o seu programa revolucionário que visava à superação da sociedade capitalista (fundada na desigualdade) e à criação de outra sociedade mais igualitária (é a promessa!). Assim, as revoluções socialistas de 1848 e a Comuna de Paris de 1871 foram muito diferentes das revoluções burguesas do século 19. As revoluções francesa e norte-americana (Independência dos EUA) criaram países republicanos e, ao longo do tempo, mais democráticos.

A França – a despeito das promessas de liberdade, igualdade e fraternidade – passou por um processo convulsivo até final do século 19, com aquela série de movimentos revolucionários se sucedendo, mas a elite política encarava e resistiu por todos os meios ao avanço do socialismo. Os EUA, embora tenham se ‘libertado de uma potência colonial (a Inglaterra)’ e fundado uma república, não resolveram problemas sociais – como, por exemplo, a escravidão, cuja extinção ocorre ao final da Guerra Civil ou Guerra da Secessão. Foi somente no final do século 19, no caso das mulheres, e no século 20, no caso dos africanos libertos, que esses grupos logram conquistar uma série de direitos que ampliaram as liberdades democráticas naquele país, como nos demais países do Ocidente.

Fascismo e comunismo


No final da Primeira Guerra Mundial, uma série de revoluções ocorre na Europa: o fim das monarquias na Alemanha, o fim do Império Austro-húngaro e o surgimento de uma série de novos países no continente europeu. Em 1917, ocorre a Revolução Russa, que resultou na criação – pela primeira vez na história – de um estado socialista.

A partir daí, o grande medo do avanço do comunismo e do socialismo existente no século 19 amplificou-se e os governos ocidentais agiram no sentido de conter esse avanço que a todos se apresentou como possibilidade real. A Rússia – e posteriormente a URSS – tornou-se, portanto, o grande inimigo do Ocidente, e o objetivo estratégico desses governos foi conter a expansão revolucionária e criar um cordão de isolamento daquela União.



A partir daí, o grande medo do avanço do comunismo e do socialismo existente no século 19 amplificou-se e os governos ocidentais agiram no sentido de conter esse avanço que a todos se apresentou como possibilidade real


Nesse sentido, é fundamental destacar que a ascensão do fascismo – devido, entre outros aspectos, a seu caráter anticomunista – foi apoiado pelo Ocidente, cujos governos viam com mais ou menos simpatia a possibilidade de estados fascistas, como a Itália e principalmente a Alemanha, constituírem um ‘muro de contenção’ ao avanço do comunismo.

Foi somente quando este se tornou uma ameaça ao Ocidente e com o início da guerra que o Ocidente firma uma aliança com a URSS para derrotar a Alemanha, a Itália e, no caso dos conflitos de interesses dos EUA no Pacífico, o Japão. Com o fim da guerra, o fascismo foi substituído pelo comunismo como o grande inimigo do Ocidente, e a formação de alianças militares, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), visava contê-lo.

EUA e Rússia


Se não houve um confronto direto entre EUA e URSS, a revolução russa inspirou uma série de lutas e insurreições de caráter anticolonial, isto é, as guerras de independência na África e na Ásia – com destaque para a Revolução Chinesa –, onde as repúblicas burguesas confrontaram-se com o socialismo. Esse foi o caráter das guerras do Vietnã, da Coreia, e também das lutas pela independência africanas, como a da Argélia francesa.


Se não houve um confronto direto entre EUA e URSS, a revolução russa inspirou uma série de lutas e insurreições de caráter anticolonial, isto é, as guerras de independência na África e na Ásia


Com o fim da URSS, em 1989, muitos no Ocidente imaginaram que o socialismo e a Rússia haviam sido derrotados e que se estava, então, diante de um mundo unipolar – sob o domínio dos EUA. Lembremos que os Estados Unidos assumiram, desde 1945, o papel de polícia internacional, reprimindo, onde fosse, a possibilidade do surgimento de países socialistas – como foi o caso do isolamento de Cuba e da implantação das ditaduras em vários países na América Latina – como no Chile, na Argentina e no Brasil.

Acreditava-se que a Rússia e os demais países da ex-URSS fossem se incorporar ao Ocidente. O ressurgimento russo, no entanto, opôs, cada vez mais, a expansão ocidental e os governos de Vladimir Putin – o mais longevo governante russo desde Josef Stalin (1878-1953), que presidiu a Rússia entre 2000 e 2008 e voltou ao cargo desde 2012 – vem retomando o contorno ‘estratégico’ da antiga URSS desde então. Isso, de certo modo, joga luz sobre a invasão da Crimeia, em 2014, e da Ucrânia, em 2022. Trata-se, portanto, do prolongamento da antiga guerra fria, mas com aspectos e atores completamente novos.

Uma nova ordem mundial


Após o fim da URSS e com o surgimento de novos atores globais e novas alianças – como o Mercosul (1991), a União Europeia (1997), o BRICS (2009), a China, a Coreia do Sul e o Irã, entre outros –, o mundo passou a ser multipolar, o que implica hoje o retraimento dos EUA como ‘polícia do mundo’ a despeito das sucessivas intervenções no Oriente e na África, como no caso do Iraque, da Líbia e da Síria. Essa nova configuração da ordem mundial – a formação de governos islâmicos no Oriente e na África – tem desafiado a ordem tradicional, o que levou a diferentes e sucessivas intervenções.

Além dos estados, uma série de grupos e de movimentos tornaram-se agentes de conflitos em várias partes do mundo. O momento de redefinição dessa nova ordem mundial ocorreu com os ataques aos EUA, em 2001, quando então a guerra ao ‘terror’, associado muitas vezes ao islamismo, tornou-se a ordem do dia.

Em suma, se a guerra é a ‘continuação da política por outros meios’, assistimos hoje ao declínio das guerras interestatais e ao surgimento das chamadas guerras irregulares, pós-modernas ou guerras de quarta geração.


Se a guerra é a ‘continuação da política por outros meios’, assistimos hoje ao declínio das guerras interestatais e ao surgimento das chamadas guerras irregulares, pós-modernas ou guerras de quarta geração


Se a invasão da Ucrânia pode ser vista, do ponto de vista russo, como o confronto estratégico tradicional com o Ocidente, isto é apenas parcialmente correto. Ela é exemplo também de uma guerra de quarta geração, que não se inicia com um confronto armado. Ela começa com os protestos contra o governo de Víktor Fédorovytch Ianukóvytch na Ucrânia, em 2014, num processo conhecido como Revolução da Dignidade – que promoveu a ascensão de distintos governos (centro, direita, extrema direita e esquerda) contrários à Rússia.

Esses movimentos – assim como na Primavera Árabe – são financiados pelo capital do Ocidente visando à derrubada de governos pró-russos, de esquerda e de centro-esquerda, e até social-democráticos, que representam uma contraposição aos interesses ocidentais. Eles se utilizam das novas tecnologias de comunicação (redes sociais e mídias) para a difusão de ideias e valores ocidentais, bem como para a articulação e organização dos vários grupos insurgentes.

A resposta russa foi tradicional; isto é, com a invasão da Crimeia primeiro, em 2014, e da Ucrânia depois. Assim a guerra híbrida se inicia com o surgimento de movimentos aparentemente democráticos, mas que podem redundar em guerras civis, como é o caso da Síria, ou guerras mais convencionais, como a da Ucrânia.

Israel e Palestina


O conflito Israel-Palestina é diferente. Ele se arrasta desde 1945 e representa, de fato, o último conflito anticolonial desde o século 19. A permanente recusa, por parte de Israel e de seu principal aliado – os EUA –, em aceitarem a existência de um estado palestino, alimentam e estimulam grupos terroristas, como o Hamas, que terminam por se sobrepor aos grupos e segmentos palestinos e israelenses, que buscam uma solução pacífica para o conflito.

Nesse caso, também as novas mídias ocidentais têm um papel fundamental de difundir a ideia de que qualquer crítica ao Estado de Israel se caracteriza como antissemitismo. Particularmente, essa situação é grave, pois usa com frequentemente uma o extermínio judaico promovido pelos nazistas – conhecido como Holocausto – como propaganda. Isso embaralha as análises sobre a guerra e suas motivações. Com o pretexto de combater o terrorismo, dizima-se a população civil (não poupando mulheres e crianças), dificultando a construção da paz e prolongando a guerra.

Duas últimas considerações são importantes. A primeira diz respeito ao fato de que os conflitos contemporâneos – cada vez mais difusos – multipliquem-se por razões diversas. É o caso das guerras por recursos naturais, especialmente a água, diante da catástrofe climática que vivemos. Em segundo lugar, como os interesses políticos e econômicos são cada vez mais difusos, as guerras híbridas tendem a se multiplicar e configuram esse novo modo de enfrentamento, que nada tem a ver com as guerras do passado.

Finalmente, é importante destacar um aspecto fundamental das guerras modernas e contemporâneas. Desde que a guerra se industrializou, ela se tornou um negócio como outro qualquer. A sociedade capitalista depende do consumo para o acúmulo do lucro.

Assim, o complexo industrial-militar dos EUA criado para a construção da bomba atômica e, posteriormente, todo o arsenal nuclear daquele país não foram desativados após 1945. Ao contrário. Para obter lucros, foi preciso fabricar guerras que consumissem armas cada vez mais sofisticadas, como é o caso daquelas de urânio empobrecido com efeitos localizados, mas também fatais e duradouros. Além disso, o desenvolvimento de armas químicas e biológicas se faz constante desde o início do século 20, quando durante a Primeira Guerra, tanto Alemanha como aliados utilizaram gás cloro, mostarda e fosgênio.

Se os aparelhos eletrônicos fossem duradouros, se as lâmpadas não queimassem, não haveria consumo. Uma mercadoria não utilizada não gera consumo. Assim é o caso das armas. Sem guerras não haveria indústria bélica. E isso vale para todos os fabricantes de armas e de empresas terceirizadas que fazem as guerras.



Uma mercadoria não utilizada não gera consumo. Assim é o caso das armas. Sem guerras não haveria indústria bélica


Ocidente tornam-se impagáveis. Mas o fabricante de armas não tem prejuízo, pois essas despesas entram na ‘dívida pública’ dos países que liberam recursos para a guerra. É o contribuinte que paga essa conta de um volume extraordinário de capital, o qual deveria ser empregado para a educação, saúde, arte, cultura, combate a doenças, combate à fome e para a resolução do colapso ambiental, entre outras possibilidades humanistas e produtivas. Do ponto de vista dos direitos humanos, a guerra é somente calamidade, destruição e morte.

Nesse sentido a ideia da dissuasão, que remonta ao provérbio latino Si vis pacem para bellum (Se queres a paz, prepara-te para a guerra), atribuído a Flavio Vegécio, romano do século 4, apenas gera infindáveis guerras. Como diz o físico inglês Peter D. Smith, autor do magnífico livro Os homens do fim do mundo, a única forma de haver paz e de acabar com todas as guerras é o desarmamento geral da humanidade.
Revista Ciência Hoje

terça-feira, 5 de maio de 2026

Quem pode falar do Antropoceno?





Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde
Casa de Oswaldo Cruz
Fundação Oswaldo Cruz


Embora o Antropoceno tenha sido proposto pelos cientistas do Sistema Terra (campo multidisciplinar surgido na década de 1950) como uma nova era na história planetária, marcada por eventos climáticos extremos e pelo fim das condições ambientais estáveis do Holoceno, essa ideia segue rejeitada pelos geólogos. Em meio a recordes de calor em pleno inverno e à fumaça dos incêndios no Brasil, fica a pergunta: quem sabe o que está acontecendo no planeta?


Fogo e fumaça sufocante para todos os lados: este é o Brasil de setembro de 2024, um cenário de filme de fim de mundo. Incêndios com suspeita de origem criminosa varrem o Pantanal e a Amazônia, se alastram por outras regiões do país, de São Paulo a Brasília, e se somam a ondas recorde de calor em pleno inverno.

A Amazônia experimenta a sua segunda seca consecutiva, já considerada um evento climático sem precedentes. Seus icônicos rios, como o Madeira, o Solimões e o Negro, sofrem baixas históricas do seu nível de água. Isso tudo acontece poucos meses depois da calamidade climática no Rio Grande do Sul, de maio de 2024, quando chuvas torrenciais devastaram partes inteiras do estado com inúmeras mortes de moradores e animais.




A Amazônia experimenta a sua segunda seca consecutiva, já considerada um evento climático sem precedentes. Seus icônicos rios, como o Madeira, o Solimões e o Negro, sofrem baixas históricas do seu nível de água


Os eventos climáticos extremos não se restringem ao Brasil. Secas, tempestades, enchentes, ondas de frio, incêndios florestais, recordes de calor, ciclones e furacões atingem a América Latina. E o planeta. Desigualdades variadas – sociais, regionais, nacionais, de raça e gênero – tornam assimétricos, e mais cruéis para uns do que para outros, os impactos das mudanças climáticas.


Desigualdades variadas – sociais, regionais, nacionais, de raça e gênero – tornam assimétricos, e mais cruéis para uns dos que para outros, os impactos das mudanças climáticas


Como se vê na tevê, nos jornais, nas redes sociais e na janela de casa, estamos em período recorde de desastres ecológicos globais, com altos riscos para segurança hídrica, alimentar e de saúde para humanos e não-humanos. Esta situação redobra o alerta dos cientistas de que estamos sob novo regime climático, cujas condições adversas se agravam em escala e velocidade não previstas.

Debate público


Estudiosos defendem, assim, que estamos em uma nova época geológica, nomeada como Antropoceno. A seguir essa proposta, nós, os Homo sapiens, como espécie biológica, somos uma força geológica de transformação da história planetária.

O Antropoceno ainda está sob forte disputa para sua formalização científica, sobretudo, entre geólogos, que recusaram a proposta da nova época geológica, em decisão que teve muita repercussão na mídia – inclusive, nas importantes revistas Science e Nature em março de 2024.

Apesar dessa negativa, o conceito já tem ampla circulação e aceitação em publicações científicas, na grande imprensa e na esfera cultural. Vai ser até enredo de carnaval da escola de samba carioca Unidos da Ponte em 2025.

Representa, nesse debate público, o conjunto complexo e interligado de transformações sistêmicas de florestas, oceanos, rios e solos, da aceleração da taxa de extinção de espécies e do aumento da concentração na atmosfera de gases de efeito estufa, principalmente, do dióxido de carbono.

Esses gases são os responsáveis pelas mudanças climáticas e pelo aquecimento global, os elementos mais conhecidos do Antropoceno na opinião pública, como afirmou o historiador das ciências André Felipe Cândido da Silva, em entrevista para o Invivo, portal do Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em 2022.

Os vários ‘Antropocenos’


Então, não existe um único Antropoceno. Nas ciências, por exemplo, há três grandes definições para o conceito: a da geologia, a das Ciências do Sistema Terra (CST) e a das ciências sociais e humanas.

Na geologia, o processo de reconhecimento de uma nova época é complexo, rigoroso e bastante demorado. A estratigrafia é a área do conhecimento geológico responsável por certificar o estabelecimento de um novo período a partir da identificação de um registro fóssil entre camadas de rocha que possa ser apontado como o marcador da época. Esse marcador precisa ser encontrado entre os sedimentos rochosos de qualquer parte do mundo. É preciso também definir quando se inicia esse novo período.

No caso do Antropoceno, entre os geólogos, o início é exatamente o ponto de mais difícil e controversa definição. Discutem se teria começado no século 20, com o uso da energia nuclear e vertiginosa aceleração da queima de combustíveis fósseis, da perda de biodiversidade e do uso do solo e da água, dentre outros fatores; ou com os impactos ecológicos originados do aparecimento da agricultura, há 10 mil anos; ou da revolução industrial, na Europa Ocidental, a partir do século 18; ou da colonização das Américas e do Pacífico a partir dos séculos 15 e 16.

Para os geólogos, o Antropoceno, para ser formalizado, precisaria ter raízes muito profundas no tempo geológico. A hipótese, então, do início da nova época no século 20 é a que mais enfrenta oposição e resistência.


Para os geólogos, o Antropoceno, para ser formalizado, precisaria ter raízes muito profundas no tempo geológico


Ocorre, no entanto, que a proposta do início do Antropoceno no século 20 é a mais aceita entre os cientistas do Sistema Terra. Aliás, foi desse campo multidisciplinar que partiram as discussões sobre mudanças climáticas e a própria proposta do Antropoceno nos anos 2000.

As Ciências do Sistema Terra (CST), por sua vez, investigam objetos completamente diferentes dos geólogos: estudam as condições biotermodinâmicas do planeta, ou seja, como está seu equilíbrio na relação com os seres vivos, considerando fatores como temperatura, clima e energia. Argumentam que o sistema terrestre se encontra em um novo estado, sem precedentes na sua história geológica, e que esse novo estado deriva, em grande medida, do impacto das ações humanas.

O planeta, então, está desequilibrado nas dinâmicas interconectadas que permitem a vida. Os humanos interferiram nesse equilíbrio, e a Terra está ‘esquentando’, como em uma febre planetária.

Limites planetários


Se os geólogos estão buscando identificar um marcador estratigráfico global, os cientistas das CST têm se ocupado em investigar mudanças no sistema terrestre, a partir dos chamados ‘limites planetários’. Esses limites dizem respeito ao clima, à acidez dos oceanos, à biodiversidade, ao uso da terra e da água doce, à densidade do ozônio estratosférico, dentre outros elementos.

Como esses limites vêm sendo ultrapassados – e mesmo exauridos até a irreversibilidade em taxas jamais vistas, sobretudo, a partir da segunda metade do século 20 –, o Antropoceno marcaria, a partir dessa data, o fim do Holoceno, época que começou há 11 mil e 700 anos e foi caracterizada pela estabilidade climática e ambiental que permitiu a dispersão da espécie humana pelo planeta.

Não haveria mais possibilidade de retorno ao Holoceno, porque o Antropoceno não é uma crise ecológica provisória, ou expressão de destruição ambiental que se replanta ou se despolui. É, na verdade, uma completa transformação sistêmica no funcionamento do Sistema Terra. Não é mudança, mas ruptura, um ponto de não retorno, como tem afirmado o cientista brasileiro Carlos Nobre em entrevistas.



Não haveria mais possibilidade de retorno ao Holoceno, porque o Antropoceno não é uma crise ecológica provisória, ou expressão de destruição ambiental que se replanta ou se despolui. É, na verdade, uma completa transformação sistêmica no funcionamento do Sistema Terra



Então, apesar de a proposta do Antropoceno envolver uma nova periodização geológica, ela já se configurou efetivamente como problemática científica a partir da emergência das Ciências do Sistema Terra. Não se trata de uma disputa de ‘o certo’ versus ‘o errado’, de conhecimento atualizado versus conhecimento ultrapassado, mas de diferentes abordagens disciplinares sobre o mesmo objeto. A recusa dos geólogos, portanto, não invalida nem encerra a discussão científica sobre o Antropoceno.

O debate segue vivo, inclusive, nas ciências sociais e humanas, que também têm se dedicado a análises, como dizem os historiadores franceses Christophe Bonneuil e Jean-Baptiste Fressoz no seu livro O Acontecimento Antropoceno (2024), que configurem respostas às perguntas: como chegamos até aqui? O que fazer agora? Quais humanos estão efetivamente implicados na origem das mudanças climáticas?

Alguns teóricos das humanidades têm criticado o conceito de Antropoceno tanto quanto proposto outras nomenclaturas que evidenciem aspectos invisibilizados nas propostas geológica e climática, uma vez que atribuem, de maneira indiscriminada, à toda a espécie humana, a responsabilidade pelas transformações planetárias.

Esses conceitos não são recomendações alternativas formais para a geologia e as Ciências do Sistema Terra. Buscam chamar a atenção para processos históricos e socioeconômicos que estão na origem das mudanças no sistema terrestre e formular fortes críticas aos empreendimentos coloniais e modernizantes que resultaram em processos de perda da sociobiodiversidade, ou seja, de domesticação de espécies vegetais, animais e populações humanas racializadas; violência que atinge sobretudo os territórios dos povos originários e tradicionais.

Bonneuil e Fressoz, no seu livro citado acima, explicam esses termos, como Tecnoceno, Plantationceno, Capitaloceno, Lixoceno, Sojaceno, Negroceno, Angloceno e Termoceno, dentre outros. Independentemente da definição usada, a responsabilidade por termos chegado até aqui, como dizem esses autores, é colonial, urbana, industrial, consumista, nuclear e química.

Pontos de consenso


Por trás dessa enorme diversidade de conceitos, metodologias e abordagens das ciências sociais e humanas no debate do Antropoceno, há dois pontos de consenso: o primeiro deles, a necessidade de superação do chamado excepcionalismo humano, ou seja, da ideia secular de que o Homo sapiens é a espécie mais importante em 4,5 bilhões de anos de história planetária, a medida de todas as coisas, uma entidade de direitos exclusivos sobre o planeta, apartada do que se conhece por natureza, podendo dela dispor quando e como quiser.

O outro consenso é que a negativa da formalização do Antropoceno pelos geólogos pode alimentar o negacionismo científico, confundindo a sociedade, como se as mudanças climáticas não existissem, ou como se as mudanças climáticas não tivessem origem nas ações humanas, o que pode resultar no apagamento completo das responsabilidades históricas pelas atuais calamidades climáticas.

Defendemos então, urgentemente, que deixemos de ver a natureza como algo externo, separado do mundo humano, como mercadoria, como diz o filósofo e liderança indígena Davi Kopenawa, ou como ‘meio ambiente’, como nas palavras de Bonneuil e Fressoz, ou seja, como o que meramente nos circunda, o lugar de onde extraímos recursos, onde despejamos lixo e devemos deixar algumas coisas virgens.

É preciso uma rediscussão também do que significa a própria humanidade, generalizada como categoria antinatural e agregada em números na pesquisa global sobre mudanças climáticas. Não existe uma única maneira completamente uniformizada de habitar o planeta, sem nenhuma ligação com o local, com as condições objetivas de sobrevivência e as relações com as pessoas e outras espécies do lugar em que se vive. Isso significa que as injustiças ambientais e sociais invisibilizadas pela pretensa universalidade do Antropoceno precisam ser discutidas por todos os cientistas.



As injustiças ambientais e sociais invisibilizadas pela pretensa universalidade do Antropoceno precisam ser discutidas por todos os cientistas


Como vemos, para entender melhor a complexidade e o desafio existencial que o Antropoceno significa para todas as espécies, é preciso rever enquadramentos disciplinares rígidos e mais tradicionais: geólogos, cientistas climáticos e cientistas sociais precisamos trabalhar juntos. Nenhuma disciplina detém a exclusividade como porta-voz do planeta, da espécie ou da reconexão dos humanos com a biosfera.

Entramos em um mundo e um tempo de limites, inclusive dos próprios conhecimentos científicos. Estudiosos temem que o planeta tenha entrado em território desconhecido e imprevisível.

Por isso, nós, cientistas sociais, também insistimos em uma ampliação do debate público sobre o Antropoceno, porque, afinal, envolve questões existenciais que interessam a todas as diferentes sociedades: como será o futuro? Como devemos trabalhar, criar filhos? O que vamos poder comer? Onde vamos poder morar?

A filósofa das ciências belga Isabelle Stengers, no seu livro Uma outra ciência é possível (2023), sugere que cada parte interessada no futuro do planeta deve ter o direito de apresentar o seu saber, de forma que todas e todos nos beneficiemos da multiplicidade de pontos de vista.

No lugar de conhecimento ‘sobre’ algo, optemos pela cosmopolítica, ou seja, uma política que produz novos mundos, tal como já defende o conhecimento indígena, sugere a historiadora Alessandra Gonzalez de Carvalho Seixlack, em seu artigo ‘Um fazer histórico xamânico’ (2023). Ou seja, Seixlack destaca que importam outras formas de fazer as coisas.

Fazer ciência passa a ser uma simbiogênese, como propõe a bióloga e historiadora estadunidense Donna Haraway, em o Manifesto das espécies companheiras (2021), ou seja, são as conexões que permitem a vida dos envolvidos.

Então, além das alianças transdisciplinares entre as ciências e da intensificação do debate público, os saberes indígenas também são cruciais para a vida no planeta agora. As sociedades indígenas têm pegada de carbono zero, promovem biodiversidade e se orientam por forte ética relacional e horizontal com outras espécies.

Além disso, como ressalta o filósofo indígena Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo (2019), as sociedades indígenas já enfrentaram seu Antropoceno, o fim do seu mundo com a colonização europeia. São, assim, especialistas na criação de novos mundos e seu conhecimento pode nos ajudar a pensar alternativas ao imaginário apocalíptico frequentemente associado ao Antropoceno.

Como dizem a filósofa Déborah Danowski e o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, no seu livro Há mundo por vir? (2017), engajar-se em diálogo com o conhecimento indígena representa o único futuro possível, não um retorno ao passado.

Então, todas e todos podemos e devemos falar do Antropoceno. Aliás, nossa única chance de vidas menos hostis é com a completa transformação dos saberes e alianças para o Antropoceno.
Revista Ciência Hoje

Milton Santos - O negro e neto de escravizado que explicou os 'Quatro Brasis': quem foi Milton Santos, o maior geógrafo brasileiro






Crédito,Saint-Dié-des-Vosges via Wikimedia CommonsLegenda da foto,Milton Santos estaria completando 100 anos esta semanaArticle InformationAuthor,Edison Veiga
Role,De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil


Em 1994, o brasileiro Milton Santos (1926-2001) foi laureado com o prêmio internacional Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia. Até hoje, ele é o único pesquisador latino-americano a obter tal reconhecimento.


Esta é uma amostra da relevância global do geógrafo Milton Almeida dos Santos, um dos maiores intelectuais do século 20.


Negro e neto de um escravizado, o baiano de Brotas de Macaúbas nasceu há 100 anos — lembrados em 3 de maio deste ano — e se tornou figura fundamental no entendimento do Brasil e do mundo globalizado.


Um dos editores do livro Milton Santos: A Pioneer in Critical Geography from the Global South ("Milton Santos: um Pioneiro do Sul Global em Geografia Crítica", em tradução livre), o geógrafo Lucas Melgaço, professor na Vrije Universiteit Brussel (VUB), situa as contribuições do brasileiro como "essenciais para a geografia" — e que vão "além dela".


"Embora bastante disciplinar, no sentido de que ele se preocupava em repensar o que era a geografia, seu objeto e o trabalho do geógrafo, ele conseguiu ultrapassar os limites da disciplina, tornando-se uma referência para várias ciências sociais", contextualiza Melgaço.



"Ele deixou vários legados. Acredito que a principal contribuição de Milton Santos para as ciências sociais, no Brasil e no mundo, foi a construção de um método, um conjunto de conceitos e teorias coerentes, que se complementam e se transformam em ferramentas poderosas para compreender o mundo contemporâneo", acrescenta.


"Ele não criou apenas neologismos, algo comum na academia hoje, muitas vezes ligado ao ego dos pesquisadores buscando crédito por ideias que outros já trabalharam, mas revisitou termos existentes ou criou novos, de uma forma que eles dialogam entre si."

Crédito,Arquivo IEB. Fundo Milton Santos. MS-F23-001-1Legenda da foto,Milton Santos foi influente em diversas áreas do pensamento acadêmico, e não apenas na geografia


Milton Santos se destacou por seus estudos a respeito da urbanização no Terceiro Mundo e pelas pesquisas a respeito da globalização. Ele também criou uma proposta teórica de regionalização do país em quatro regiões, batizadas de "Quatro Brasis".


Levando em consideração as diferenças de infra-estrutura e o suporte a redes de informações, mercadorias, capitais e pessoas entre os Estados, ele propôs uma visão sobre o Brasil considerando a região amazônica, a região nordeste, a região centro-oeste e a região concentrada.


Pela sua definição, a região amazônica conteria os Estados do Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Pará e Amapá — conjunto de unidades com pouca densidade demográfica e escassos centros urbanos.


A concentrada seria a área que englobaria os Estados do Sul e do Sudeste brasileiros, centro tecnológico do Brasil, com urbanização densa e intenso desenvolvimento científico e comercial.


Crédito,Getty ImagesLegenda da foto,Milton Santos separou país em 'Brasis' diferentes


O nordeste de Milton Santos é muito parecido com a região oficialmente chamada de Nordeste, compreendendo Zona da Mata, Agreste, Sertão e Meio-Norte.


Seria uma área dependente do turismo — no litoral —, com indústrias sobretudo na Zona da Mata e uma base subdesenvolvida agropecuarista no interior.


Por fim, o centro-oeste de tal divisão abrange Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal, uma região voltada para a agropecuária mas com desenvolvimento tecnológico comparável à região concentrada.


"Essa divisão proposta por ele do Brasil mostra não só a base física, mas as regiões como palco de uma série de relações e conflitos, com suas diferenças não só nas geografias física e humana, mas na própria relação entre estados, elites e poder econômico, impactando nas pessoas que ali vivem", pontua o o geólogo Marco Moraes, autor do livro Planeta Hostil.

Biografia


Santos nasceu na Chapada Diamantina. Tantos seus pais como seus avós maternos eram professores primários — e foi com eles que o garoto aprendeu a ler e a escrever. Seu avô paterno havia sido escravizado.


Quando entrou para o internato do Instituto Baiano de Ensino, aos 10 anos, tomou gosto pela geografia, influenciado por um professor. Cursou direito na Universidade Federal da Bahia — graduou-se em 1948. Durante a faculdade, militou em grupos estudantis de esquerda.


Formado em direito, prestou concurso para professor de geografia. Acabou indo embora para Ilhéus, onde deu aulas no colégio municipal. Lá trabalharia como jornalista para o jornal A Tarde.


Desta passagem nasceria seu livro Zona do Cacau.


Mais tarde, Santos se mudaria para Salvador, onde se tornou professor na Universidade Católica em 1956. Foi convidado a fazer seu doutorado na Universidade de Estrasburgo, na França — concluído em 1958.


Sua carreira ascendia no início dos anos 1960. Tornou-se livre-docente na Universidade Federal da Bahia e, como editor do jornal A Tarde, viajou a Cuba na comitiva do então presidente Jânio Quadros (1917-1992).


A convite do governo estadual da Bahia, tornou-se presidente da Comissão de Planejamento Econômico.


O golpe militar de 1964, contudo, interrompeu sua trajetória.


Santos foi preso pelo regime e, em seguida, exilou-se na França. Trabalhou na Universidade de Toulouse e, depois, em Sorbonne.


Em 1971 trocou Paris por Toronto, no Canadá. Ele havia aceitado a proposta para se tornar professor na principal universidade de lá.


Em seguida, tornou-se pesquisador no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. Aí nasceu sua amizade com o famoso sociólogo americano Noam Chomsky.


Também foi nessa época que Santos preparou sua obra mais importante, O Espaço Dividido, que seria publicada em 1979.


Crédito,Getty ImagesLegenda da foto,Nos anos 1970, nos EUA, Santos fez amizade com Noam Chomsky


O geógrafo trabalhou ainda na Venezuela, em missão da ONU, e no Peru, na Universidade de Lima.


Ainda moraria dois anos na Tanzânia, onde criou o curso de pós-graduação em geografia na Universidade de Dar es Salaam.


Antes de voltar ao Brasil ainda passaria novamente pela Venezuela e pelos EUA — com uma temporada na Universidade Columbia, em Nova York.


No retorno ao país, já na segunda metade dos anos 1970, Milton Santos trabalhou como consultor do governo estadual de São Paulo e na Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa).


Por alguns anos, lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1984, foi contratado pela Universidade de São Paulo, onde seguiria até o fim da vida — mesmo após ter se aposentado, em 1997.


Para o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (FESPSP), Milton Santos se tornou um autor fundamental na geografia porque "ele reviu o conceito de globalização", percebendo como o fenômeno, operado "pelo modelo neoliberal", produz desigualdades entre centro e periferia.


"Ele desejou uma globalização mais humanizada, pensando nas periferias e em como um processo de acumulação capitalista poderia contribuir para a maior distribuição de renda", diz Ramirez.


"É um autor lapidar, fundamental em todo o mundo, para podermos entender as contradições do processo de globalização", afirma Ramirez.


Melgaço argumenta que o pensamento de Santos "permanece relevante para entender o presente".


"De forma mais concreta, talvez a sua concepção de que o espaço geográfico não é apenas o palco das ações humanas, mas um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações seja um de seus principais legados", explica o professor.


"Grande parte de sua teoria gira em torno dessa ideia central, principalmente na última fase de sua vida acadêmica. Também é altamente relevante sua visão de que a geografia funciona como uma filosofia das técnicas. Esse conceito, por vezes abstrato e complexo, é fundamental para entender o período atual, incluindo as perversidades da globalização, as desigualdades técnicas, as opacidades dos territórios, as contrarracionalidades e as inventividades dos espaços que ele chamava de hegemonizados."


Para Melgaço, há um otimismo na obra de Santos. Não era ingênuo, mas "muitas vezes provocador", às vezes "até um pouco ácido". "Ele não tinha medo de causar desconforto ou de fazer as pessoas pensarem", diz.


Crédito,Saint-Dié-des-Vosges via Wikimedia CommonsLegenda da foto,Depois de 1964, Santos trabalhou em diversos lugares do mundo, como França, Peru, Tanzânia, Venezuela e Canadá


"Isso porque sua teoria frequentemente convida à ação, não necessariamente militante, mas uma ação que desafia estruturas. Acho que esse foi a origem de seu otimismo, já que ele via possibilidades de mudanças, muitas vezes vindas de lugares marginalizados, dos de baixo, do sul global. Ele inclusive fala da globalização como um conjunto de possibilidades", afirma Melgaço.


Professor na Universidade Estadual do Maranhão (Uema), o geógrafo Cristiano Nunes Alves ressalta que a "potência e a força" da obra de Milton Santos estão no fato de que suas ideias são "aplicáveis".


"Ele nos traz um conjunto de ferramentas teóricas e metodológicas que efetivamente podem ser aplicadas na análise dos territórios, na análise espacial", afirma.


"Sua obra tem um fundo filosófico muito claro e presente, mas, ao mesmo tempo, não está apartada da concretude", define Alves. O geógrafo destaca o papel de Santos ao situar a informação como força que move os territórios.

Negritude


A questão negra, se não foi central em seu trabalho, permeava suas preocupações de maneira constante.


"Embora ele não tenha teorizado no sentido amplo sobre a questão de raça, sua perspectiva de homem negro está em todo o seu trabalho", argumenta Alves.


"Ele dá ferramentas para pensar e para ler a formação social brasileira com o elemento racial como estruturante de nossa história territorial."


"Quando ele traz à tona situações das populações pobres e das periferias, ele chama a atenção para os subalternos. Sabemos quem são os subalternos: as mulheres, os indígenas e os negros", ressalta Alves.


"Ele, por várias vezes, refletiu sobre a questão racial e, sobretudo, sobre o fato de ser um intelectual negro no Brasil, numa universidade elitista e pouco diversa. Mas a questão racial não foi central na sua elaboração teórica", diz Melgaço. "Ele sempre buscava ver a questão racial dentro de uma estrutura mais ampla e complexa."


O professor lembra que Santos era favorável às cotas, embora enfatizasse que só elas não bastavam — era preciso que fossem acompanhadas de iniciativas que dessem aos negros devidas condições de sucesso acadêmico. "E isso tinha a ver com mobilidade, comida, lazer, descanso e tudo o mais", explica.


"Ele dizia que não era um especialista na questão negra, mas que a questão negra era a sua história", pontua Melgaço. "Há relatos dele, mas principalmente dos seus colegas, das inúmeras vezes que o racismo o impediu de acessar cargos e posições dentro e fora da academia."


Essa postura muitas vezes fazia de Santos uma pessoa percebida de forma ambígua pelos ativistas de seu tempo. "Por vezes, era criticado por, na visão de alguns, ser demasiadamente isento ou tangencial no assunto", diz Melgaço.

Crédito,Arquivo IEB. Fundo Milton Santos. MS-F28-001-1Legenda da foto,Santos 'refletiu sobre a questão racial e sobre ser um intelectual negro no Brasil', diz o geógrafo Lucas Melgaço


"Mas, na minha opinião, acho que era uma visão um pouco simplista do que realmente pensava Milton Santos. Para mim, parecia que ele se preocupava com transformações estruturais e que a questão negra fosse parte de mudanças mais profundas."


"Ele tinha bastante consciência sobre o papel de um intelectual negro no mundo acadêmico. Viveu na pele o racismo da sociedade. E, obviamente, tinha uma percepção muito mais claras sobre essa relações, trazendo suas contribuições sobre como enxergar e fazer as políticas públicas que visam a fortalecer os direitos humanos, direitos sociais e as próprias políticas", acredita Ramirez.

No mundo


O geólogo Moraes comenta que Milton Santos deveria "ser muito mais celebrado e reconhecido no Brasil".


"Não só por sua história, de um negro de origem humilde que ganhou o principal prêmio da geografia, mas pela contribuição incrível de seu trabalho", afirma.


"Sua compreensão de espaço geográfico não como substrato inerte para atividade humana, mas como coisa dinâmica que influencia e é influenciada pela atividade humana, é essencial", diz Moraes. "Permite analisar a geografia como interação permanente e contínua."


"Ele analisou as relações e a configuração geográfica a partir das periferias. Tanto das desigualdades sociais e regionais dentro do Brasil como das periferias do mundo", analisa Moraes.


"Olhar a geografia não do ponto de vista eurocêntrico é uma contribuição importante. E ele fez isso enquanto intelectual negro."


"Ele criticou a globalização. Nisso foi visionário. Desmistificou o fenômeno, de coisa boa que integraria o mundo, mostrando que há muitos excluídos do processo, prejudicados", explica Moraes.


Por outro lado, Santos enxergou possibilidades para o fenômeno. "Se nos unirmos e encararmos a globalização de outra forma, ela pode ser uma coisa boa, inclusive uma forma de reação às elites dominantes."

Crédito,Getty ImagesLegenda da foto,Santos ressaltava que globalização produzia muitos excluídos no processo


"A obra de Milton Santos tem como principal legado o entendimento do espaço geográfico. Com os seus estudos, ao teorizar o espaço como um sistema de objetos e ações, a geografia começa a se debruçar também sobre as atividades humanas e as relações econômicas, deixando de se fixar majoritariamente no estudo da paisagem e aumentando sua interdisciplinaridade", contextualiza o relações públicas Breno Costa, estudioso da obra de Santos e pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.


Segundo ele, no sistema de Santos, os objetos e as ações humanas estão interligados na formação das cidades e regiões. "Portanto, seus trabalhos criaram uma escola de pensamento bastante complexa e rica de conceitos", aponta.


"Ele se esforçou em entender, sobretudo, os países subdesenvolvidos e as formas de urbanização precárias", diz Costa. "Foi um crítico incansável do fenômeno da globalização."


Para o geógrafo, o mecanismo age como "um motor de desigualdades", tendo um impacto perverso para o países do Sul Global. "Entender isso tem um impacto muito grande na escolha do papel que o Brasil deve ter em um sistema mundial de produção e consumo", afirma.


Há uma redescoberta da obra de Santos no exterior, sobretudo no mundo anglófono. Nesse cenário, o trabalho de Melgaço é fator de destaque.


Em 2017, em parceria com o acadêmico canadense Tim Clarke, ele lançou a tradução em inglês do livro Por Uma Outra Globalização, do geógrafo brasileiro.


No mesmo ano, foi publicada uma coletânea em inglês, de artigos sobre o trabalho de Santos.


De lá para cá, outras obras do geógrafo também ganharam versões em inglês, como A Natureza do Espaço e Por Uma Geografia Nova.


Os estudos de Santos seguem atuais. "Ajuda a entender os problemas contemporâneos", diz Costa. Ele faz um exercício observando o que acontece hoje com as grandes empresas de tecnologia. Segundo o pesquisador, o Vale do Silício acaba servindo com "um centro produtor de tensões, intencionalidades e ideologias, espalhando seu modo de pensar por todo o planeta".


"Nesse caso, a América Latina acaba se tornando mera consumidora desse conjunto de técnicas, criando-se aqui uma psicosfera, uma forma de pensar e um conjunto de valores que foram inoculados em nós por esses Cavalos de Troia", analisa ele, sob uma perspectiva da teoria de Milton Santos.
BBC Brasil

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