sexta-feira, 24 de julho de 2026

Imagens de satélite: selfies para preservar o meio ambiente da Terra



Autores
Jovens revisores


Resumo

Fotografias não são apenas lembranças. As imagens geradas a partir do espaço exterior ajudam-nos a acompanhar o que está acontecendo com o planeta Terra e os seus recursos. Os satélites são equipados com sensores especiais (como olhos) que podem ver “cores” de luz que os olhos humanos não conseguem ver. Esses satélites orbitam bem acima de nós e viajam em torno da Terra o tempo todo. A visão panorâmica e a observação constante permitem que eles nos ajudem a obter informações sobre desastres naturais, mudanças climáticas e o clima. Este artigo oferece uma visão geral de como os satélites observam a Terra e menciona algumas das aplicações importantes dessa técnica para a conservação dos valiosos recursos naturais do planeta.
Introdução

O número de seres humanos na Terra está constantemente aumentando. Uma população maior significa que mais pessoas necessitam de acesso aos recursos naturais, como água, terra e minerais. No entanto, esses recursos são finitos, isto é, existe somente uma certa quantidade deles [1]. Como mais pessoas precisam de acesso ao mesmo número de recursos, tornou-se cada vez mais importante mapear e monitorar esses recursos com rapidez e precisão.

Governos e comunidades monitoram recursos em âmbito local, nacional e global. Precisamos saber quais os recursos naturais que estão disponíveis, em quais quantidades e se estão em bom estado ou se mudaram recentemente. Quando os países dispõem dessas informações, podem limitar a utilização de recursos que são escassos, para que não sejam utilizados em demasia.

Pense nas florestas. Há muitos anos, os humanos derrubavam árvores para obter combustíveis, madeira para móveis ou casas e para construir ferrovias. Nos séculos 18, 19 e até boa parte dos anos 1990, as pessoas não davam muita atenção à quantidade de florestas (especialmente aquelas tropicais, que possuem árvores que levam centenas de anos para crescer) ainda existentes para proteger o solo contra a erosão ou servir de habitat para pássaros e outros animais selvagens. Nosso pensamento mudou: agora percebemos que as florestas são os pulmões da Terra, e governos e organizações trabalham para protegê-las, para limitar o desmatamento e para replantar árvores em algumas áreas.

Para fazer isso, as pessoas devem primeiro saber onde as árvores foram derrubadas ao longo dos anos, quanta derrubada ocorreu e onde ainda existem árvores valiosas que precisam de proteção. Isso é chamado de gestão de recursos naturais e as fotos tiradas de cima da Terra em vários momentos podem fornecer informações sobre onde, quando e quantas árvores foram derrubadas.

Se quisermos saber quantos recursos podemos utilizar e com que rapidez podemos desenvolver uma área, precisamos de informações frequentes, consistentes e precisas sobre grandes áreas da Terra, capturadas de cima. Uma vez de posse dessas informações, ficamos capacitados a compreender melhor como as formas de vida estão interagindo com seus ambientes, a fim de monitorar e prever com segurança quão saudáveis são o solo, as costas e os oceanos, e quais objetos ou substâncias estão presentes nessas áreas. Felizmente, a tecnologia disponível para fornecer essas informações, chamada observação da Terra, tornou-se mais sofisticada ao longo do tempo [2].
O que é a observação da Terra?

A primeira foto aérea bem-sucedida da Terra, tirada de um veículo não tripulado, foi feita com uma pipa, em 1887. Mais tarde, em 1907, um farmacêutico alemão chamado dr. Neubronner teve a ideia de montar uma câmera em uma pomba. Com o tempo, a tecnologia de observação da Terra tornou-se mais avançada. Os seres humanos aprenderam a lançar satélites equipados com câmeras, que orbitam a Terra e tiram fotos regulares do planeta.

Aproximadamente 2.200 satélites orbitam a Terra e 446 deles a observam. Seus dados ajudaram os cientistas a mapear muitos fenômenos naturais, como secas, inundações e derretimentos glaciares. Os cientistas utilizam essas informações para compreender melhor o estado dos recursos naturais da Terra. Os satélites também podem ajudá-los a detectar áreas onde as atividades humanas estão prejudicando o ambiente por meio de atividades como o desmatamento, a mineração ilegal ou o pastoreio excessivo de terras agrícolas.
Os satélites detectam cores que não podemos ver

As imagens de satélite são semelhantes a fotografias, como as tiradas com um smartphone e postadas no Instagram. Dependem tanto da luz que os olhos humanos conseguem ver quanto da que não conseguem ver. Nossos olhos só conseguem ver a luz em certos comprimentos de onda – os que correspondem às cores vermelha, verde e azul –, enquanto os satélites conseguem vê-la em muitos. Imagine que seus ouvidos só ouvissem a rádio FM, enquanto os satélites ouvissem tanto a FM quanto a AM. Os satélites têm sensores – uma espécie de olhos – que podem detectar certos comprimentos de onda de luz que não podemos ver. Os cientistas transformam a informação luminosa obtida pelos satélites em imagens que lhes fornecem dados sobre a Terra.

Algumas imagens de satélites, iguais às utilizadas como uma camada noGoogleMaps, usam as cores azul, verde e vermelha que nossos olhos podem ver. Outros satélites tiram fotos usando luz infravermelha, que é invisível ao olho humano. Mesmo não podendo vê-la, usamos luz infravermelha em nossas vidas cotidianas. Por exemplo, o pequeno olho de vidro na parte superior do controle remoto de uma TV usa luz infravermelha para se comunicar com ela.

No Instagram, quando você olha uma foto em que foi usado um filtro para iluminar ou alterar as cores, talvez pense que se trata de algo muito artístico ou achar que parece falso. Se vir uma imagem de satélite com uma floresta vermelha brilhante (Figura1), pode pensar a mesma coisa – que deve ser uma imagem falsa. Mas uma floresta vermelha é tão real quanto uma verde-escura! A diferença é que essas imagens de satélites são feitas a partir de comprimentos de onda de luz que não podemos ver, como a infravermelha, por isso elas não nos parecem reais. Chamamos a isso imagens de cor falsa e, para saber o que significam, precisamos entender o que é uma imagem de satélite.
Figura 1. Imagem de satélite tirada durante os incêndios florestais na Austrália em dezembro de 2019. (A) Essa imagem combina informações dos comprimentos de onda azul, verde e vermelho, de modo que você pode ver a paisagem em suas cores naturais (note a fumaça que vem da queimada). (B) A cicatriz da queimada aparece em preto na visão infravermelha, enquanto florestas e pastagens aparecem em cores avermelhadas.

O que um satélite mede para produzir uma imagem?

Cada sensor de um satélite é ajustado para detectar uma faixa estreita de comprimento de onda – apenas luz azul, por exemplo. Imagens feitas com apenas um comprimento de onda aparecem em tons de cinza (Figura 2). Os objetos na Terra que produzem muitos comprimentos de onda específicos de luz aparecem como pontos brilhantes, enquanto os objetos que refletem ou produzem poucos (ou nenhum) comprimentos de onda aparecem como cinza-escuros ou até pretos. As informações captadas por todos os sensores do satélite são armazenadas em imagens denominadas dados de sensoriamento remoto multiespectral (Figura 2). 

Figura 2. (A) Imagem de satélite multiespectral que combina luz vermelha, verde e azul. [(B), B1] Uma parte da paisagem que reflete uma grande quantidade de luz aparece como pontos brilhantes nessa imagem tirada pelo olho azul do satélite. [(B), B2] A água do lago não reflete praticamente nenhuma luz e aparece em preto. [(C), C1] Nessa imagem tirada do olho praticamente nenhuma luz e aparece em preto. [(C), C1] Nessa imagem tirada do olho infravermelho do satélite, toda vegetação reflete muita luz (muitos pontos brilhantes). [(C). C2] A água do lago não reflete nenhuma luz e aparece em preto. O círculo vermelho mostra os pontos brilhantes.

Por exemplo, para o olho humano, as plantas saudáveis parecem verdes porque seus pigmentos refletem mais luz verde do que outros comprimentos de onda e elas absorvem mais luz vermelha e azul [3]. Mas tipos especiais de sensores em satélites captam luz infravermelha e a vegetação saudável reflete uma grande quantidade de luz infravermelha do sol [3]. Portanto, as plantas saudáveis aparecem vermelhas devido ao sensoriamento remoto.
A distância da Terra é importante

Os satélites podem orbitar a várias distâncias da Terra – de cerca de 36.000 km até meros 800 km. Os satélites que orbitam a 36.000 km acima da Terra são chamados de geoestacionários e ajudam nas previsões meteorológicas. Os satélites geoestacionários observam apenas um dos hemisférios da Terra e tiram fotos a cada 10 minutos aproximadamente. Eles auxiliam os cientistas a mapear como as nuvens e furacões se movem, podendo até coletar informações sobre quando os vulcões entrarão em erupção! Todavia, por estarem muito no alto, eles fornecem imagens da Terra de baixa qualidade, como se fossem filmes antigos. Os menores objetos que eles conseguem ver têm o tamanho de 500 a 1000 m.

Satélites que orbitam mais perto da Terra tiram fotos usando comprimentos de luz visíveis (para os humanos) e invisíveis. Eles conseguem ver objetos de 0,5 a 30 m – isto é, do tamanho de um carro até o de um quintal comum! Como orbitam em torno da Terra, tiram fotografias do mesmo local a cada 5–16 dias ou com menos frequência se vários satélites estiverem trabalhando em conjunto (para um exemplo, consulte PlanetLabs).
Como proteger os recursos da Terra

Os satélites são como guarda-costas da Terra. Observar a Terra a partir de satélites tem muitas vantagens. Eles conseguem cobrir grandes regiões como o continente americano inteiro e até a Terra inteira. O monitoramento dos recursos da Terra pode ser sistemático e contínuo usando-se imagens de satélites. Por exemplo, a GlobalForestWatch utiliza imagens de satélites para monitorar a quantidade de desmatamento florestal em locais como a Amazônia ou o Congo.

As observações de satélite nos fornecem dados consistentes, que podem ser compartilhados por muitos usuários para diferentes propósitos. Esses dados disponibilizam as informações necessárias para identificar problemas, tomar decisões e medidas de proteção ao ambiente natural, mobilizar ajuda após catástrofes, detectar e prever mudanças para preservar os preciosos recursos do nosso planeta. Geleiras derreteram no último ano? Quanto dano os incêndios florestais causaram? Quantos hectares de floresta foram desmatados nos últimos doze meses? Graças às centenas de satélites de observação que orbitam nosso planeta, podemos responder a perguntas como essas e aprender sobre a condição do solo, da água e da atmosfera.

A observação da Terra por satélite joga um olhar atento sobre nossos recursos naturais inestimáveis e nos fornece informações para gerir melhor nosso mundo – agora e no futuro.
Glossário

Gestão de Recursos Naturais: Gestão integrada dos recursos naturais que compõem as paisagens naturais do planeta, como terra, água, plantas e animais.

Observação da Terra: Visão da Terra a partir de aeronaves ou satélites, usando-se vários sensores que criam imagens para estudar o que está acontecendo na superfície ou próximo a ela.

Seca: Um longo período de precipitação anormalmente baixa, levando à escassez de água.

Comprimento de onda: Distância entre os picos das ondas, como as luminosas. O comprimento de onda de luz determina as cores que vemos.

Infravermelho: A luz infravermelha é parte do espectro de radiação eletromagnético. As ondas infravermelhas são mais longas que as ondas de luz visíveis, mas não tão longas quanto as ondas de rádio.

Dados do sensoriamento remoto multiespectral: Aquisição de imagens visíveis, próximas da luz infravermelha, e infravermelhas de ondas curtas em diversas faixas de comprimento.

Luz infravermelha: Parte dos comprimentos de ondas invisíveis que fica próxima à extremidade vermelha da luz visível.

Sensoriamento remoto: Processo de detecção e monitoração das características físicas de uma área, medindo-se sua luz emitida e refletida a distância, geralmente de satélites ou aviões.

Geoestacionário: Satélite que, do ponto de vista de um observador na Terra, parece quase estacionário no céu.


Agradecimentos

Este projeto contou com fundos do European Union’s Horizon 2020 Research and Innovation Programme, nos termos do acordo de subvenção nº 870518.
Referências

[1] Rockström, J., Steffen, W., Noone, K., Persson, A., Chapin, F. S., Lambin, E. F. et al. 2009. “A safe operating space for humanity”. Nature 461:472–5. DOI: 10.1038/461472a.

[2] CRCSI. 2016. Earth Observation: Data, Processing and Applications. Volume 1A: Data–Basics and Acquisition. Melbourne, VIC: Australia and New Zealand CRC for Spatial Information.

[3] Huete, A. 2004. Remote Sensing for Environmental Monitoring and Characterization. Amsterdã: Elsevier, pp. 183–206.
Citação

Metternicht, G. e Teece, B. L. (2023). “Satellite images: selfies for preserving Earth’s environment.” Front Young Minds. 11:886767. DOI: 10.3389/frym.2022.886767.
https://parajovens.unesp.br/

O coração envelhece mais rápido no espaço?



Autores
Jovens revisores


Resumo

Viver no espaço não é tão simples quanto viver na Terra. O ambiente lá é prejudicial para os seres humanos: os astronautas experimentam a ausência de peso e ficam expostos a radiações perigosas. Além disso, vivem numa área minúscula, longe de seus entes queridos. Esses fatores prejudicam todos os nossos órgãos. O coração, por exemplo, começa a envelhecer muito mais rápido no espaço que na Terra, o que significa que os astronautas correm um risco maior de doenças cardíacas depois de ir ao espaço. Por isso, é importante investigar as causas desse problema, para que se possa evitá-lo. No passado, os estudos se baseavam em experimentos feitos com animais ou seres humanos. Hoje, podemos criar minicorações em laboratório para substituí-los. Neste artigo, explicaremos como fabricamos os minicorações e como os empregamos para entender e prevenir o envelhecimento do coração no espaço.
O espaço envelhece nossos corações

Muitas pessoas acham que é excitante ir ao espaço! Imagine flutuar sem peso na Estação Espacial Internacional, viajar numa nave espacial ou, simplesmente, ver nossa casa, o planeta Terra, lá de cima. Nos próximos anos, colocaremos uma nova estação espacial ao redor da Lua e enviaremos para nosso satélite os primeiros seres humanos desde 1972. Como se isso não bastasse, antes de 2040 o primeiro humano pisará em Marte e em breve quem quiser ir ao espaço poderá fazê-lo! Mas permanecer ali tem seus riscos. Quanto mais fundo mergulhamos no espaço, mais perigoso ele se torna.

O coração é um órgão importante para o ser humano, responsável por bombear o sangue que leva energia a todas as partes do corpo. Naturalmente, quanto mais velhos ficamos, menos eficientes e mais fracos ficam nossos corações. Também nos tornamos mais lentos (Figura 1), conforme você pode perceber observando seus avós. No espaço, esse fenômeno é acelerado, o que significa que lá os nossos corações se debilitam e envelhecem mais rápido do que na Terra.
 
Figura 1. (A) Um coração jovem comparado com (B) um coração velho.

Quando envelhecemos, nossos corações se tornam menos eficientes. Isso acontece por vários processos, tais como a perda de músculos, o espessamento das fibras cardíacas e a diminuição da capacidade de se recuperar de lesões. Os círculos mostram close-ups das células de (A) um coração humano jovem e (B) um coração humano velho. As células vermelhas com listras são células do músculo cardíaco, enquanto as células azuladas são células não musculares. (Figura criada usando-se elementos da Servier Medical Art; smart.servier.com.)
Por que o espaço envelhece o coração?

Muitas são as razões pelas quais o espaço acelera o envelhecimento do coração. A primeira e mais importante é a radiação – invisível aos olhos, mas muito perigosa. Embora nem toda radiação cause danos (usamos radiação para nos conectar à internet ou fazer chamadas telefônicas, por exemplo), a que existe no espaço é bastante prejudicial, o que faz com que seja arriscado permanecer lá mesmo que por um curto período. Quando nossas células são expostas à radiação espacial, sofrem danos, particularmente no seu DNA, e o risco de várias doenças cardíacas aumenta. Por causa disso, os astronautas expostos à radiação espacial sofrem mais de doenças cardiovasculares [1].

A segunda razão é a ausência de peso. Embora pareça muito divertido flutuar no ar ou dar cambalhotas sem esforço, na verdade a ausência de peso é prejudicial ao corpo e aos órgãos, pois então os músculos não precisam trabalhar para suportar a carga corporal. Isso faz com que os músculos do astronauta se atrofiem lentamente. O coração também é um músculo: portanto, quando a gravidade não puxa o sangue em direção aos pés, o coração não precisa trabalhar tanto a fim de bombeá-lo pelo corpo. Isso faz com que mais sangue permaneça na parte superior do corpo, ao contrário do que ocorre na Terra. Assim, o formato do coração fica mais redondo e parecido com uma bola. Algumas partes ficam também menores e perdem o tônus muscular [2].

O terceiro motivo pelo qual o espaço envelhece o coração envolve os sentimentos de solidão e de estresse. É difícil enviar ajuda ao espaço; os astronautas permanecem sozinhos e só podem se ajudar uns aos outros, o que os deixa estressados. Além de tudo, as naves são geralmente muito pequenas, com pouco espaço para a movimentação, o que as torna um lugar nem um pouco agradável. Sentir estresse e solidão por muito tempo pode fazer com que os astronautas fiquem menos motivados, mais fracos e com pior desempenho no trabalho em equipe. Eles são cuidadosamente selecionados para garantir que conseguirão suportar esse ambiente estressante da melhor maneira possível [2].

Juntas, essas três razões fazem com que o coração envelheça mais rapidamente no espaço [3]. Se quisermos enviar mais humanos para lá e explorar mais a galáxia, teremos de aprender a impedir esse envelhecimento acelerado. Infelizmente, ainda sabemos muito pouco sobre o que acontece com o coração nas profundezas do espaço, de modo que precisamos fazer mais pesquisas sobre esse tema.
Como os pesquisadores estudam o envelhecimento no espaço?

Uma maneira comum de estudar os órgãos é fazer experiências em animais. Podemos, por exemplo, testar medicamentos neles ou observar o que acontece com o coração de um rato quando o enviamos ao espaço. Isso não funciona muito bem no estudo do envelhecimento, por duas razões principais. A primeira, e mais importante, é que os órgãos dos animais são diferentes dos órgãos dos seres humanos. Como você bem pode imaginar, o coração de um rato não é igual ao coração humano. Isso significa que muitas das pesquisas feitas em animais não correspondem ao que acontece no corpo humano. Por exemplo, um medicamento que trata uma doença do coração em ratos pode não funcionar nos humanos ou até ser perigoso.

Em segundo lugar, experiências em animais às vezes provocam sofrimento neles. Para contornar esse problema, os pesquisadores podem agora criar órgãos humanos em miniatura no laboratório. Chamamos esses miniórgãos de organoides. Os organoides substituem os órgãos humanos reais melhor que os órgãos de animais. Por causa disso, podemos ter mais certeza de que um medicamento que funciona em um organoide também funcionará nos humanos. Os pesquisadores conseguem até produzir organoides personalizados. Como os humanos não são iguais, cada pessoa pode reagir de maneira diferente a um determinado medicamento ou ambiente. Graças aos organoides personalizados, podemos fabricar medicamentos especificamente para você ou dizer exatamente quanto seu coração envelhecerá no espaço [4].
Como fabricar um organoide

Para fabricar um organoide, os pesquisadores começam com os menores blocos de construção das células do corpo, podendo utilizar tanto células cardíacas quanto células-tronco. Estas são de um tipo especial e, como conseguem se transformar em diferentes células do corpo, os pesquisadores podem “programá-las” para se tornarem todas as células necessárias à fabricação de um minicoração. Ao instruir as células-tronco a se tornarem células cardíacas, os pesquisadores logram por fim formar um minicoração que bate. Um minicoração que bate também é chamado de organoide cardíaco [5].

O processo de transformação das células-tronco em outras células, como as cerebrais ou cardíacas, recebe o nome de diferenciação. A diferenciação ocorre em laboratório quando fornecemos às células-tronco nutrientes e moléculas específicas. A combinação única a que são sujeitas determina em que tipo de células as células-tronco se transformarão. Assim, os pesquisadores seguem uma receita muito precisa de nutrientes e moléculas para formar células cardíacas e minicorações [4].

Primeiro, juntam as células-tronco em uma pequena bola. Essa bola têm a largura de uns poucos fios de cabelo, mas contém alguns milhares de células-tronco. Após a formação da bola de células-tronco, aplica-se a receita muito precisa de nutrientes e moléculas. Depois de alguns dias, bolsas ocas se formam dentro da bola e, ao mesmo tempo, as células-tronco se transformam lentamente em células cardíacas, que por fim começam a bater. Após uma a duas semanas, uma bola oca de células cardíacas se forma. Esse é o minicoração, que tem cerca de 1 – 3 mm de largura (Figura 2) [5].
 
Figura 2. O tamanho de um minicoração comparado com uma mão, uma abelha e um fio de cabelo. O círculo menor à direita mostra o tamanho real de um minicoração ao lado de um cabelo humano. Na ampliação, vemos o minicoração ao lado do cabelo humano. A ampliação ainda maior, acima do microcoração, mostra o tamanho de suas células em comparação com a largura de um fio de cabelo humano. (Figura criada usando-se Biorender; biorender.com.)

Os minicorações também podem ser criados usando-se impressão 3D. Células cardíacas funcionais são misturadas em um líquido que vira uma gelatina. A combinação de células com esse líquido é chamada debiotinta. Ao combinar diferentes células com diferentes líquidos, diferentes biotintas são criadas. Elas são em seguida impressas em 3D num formato específico para se construir um minicoração [6].

Os minicorações também podem ser postos em um dispositivo de treinamento que funciona como uma miniacademia. No começo, são muito fracos. Colocando-se pressão nas células quando elas batem e dando-lhes pequenos choques elétricos, os minicorações são treinados para ficar mais fortes, exatamente como nosso coração real quando nos exercitamos. Isso é importante para que o minicoração imite o coração humano [7].
Como os minicorações podem tornar as viagens espaciais mais seguras?

Ao enviar minicorações para o espaço, os pesquisadores estudam como o ambiente espacial afeta o coração humano e por que ele envelhece mais rápido por lá. Também investigam como e por que a capacidade do coração de bater muda no espaço. Além disso, podem simular condições espaciais (ausência de peso, radiação e estresse) usando máquinas e medicamentos na Terra. As missões espaciais são muito caras e pouco comuns, de modo que fazer um experimento aqui mesmo antes de reproduzi-lo no espaço pode dar aos pesquisadores boas informações adicionais.

Ainda não temos uma forma específica para prevenir o envelhecimento mais rápido do coração no espaço. Com a ajuda de organoides (minicorações, neste caso), os pesquisadores podem estudar as causas desse envelhecimento acelerado e o modo de preveni-lo. Com minicorações personalizados, os pesquisadores também poderão determinar até que ponto o coração de cada pessoa envelhecerá no espaço, e decidir qual será o melhor tratamento para cada indivíduo. Sem dúvida, essa pesquisa ajudará a tornar a viagem espacial mais segura para todos no futuro!
Glossário

Radiação: Partículas ou ondas invisíveis que transferem energia. Radiação altamente energética pode causar danos aos nossos corpos.

Doenças cardiovasculares: Doenças que afetam o coração e/ou o sistema vascular.

Organoide: Miniórgão cultivado em laboratório, geralmente criado a partir de células-tronco.

Células-tronco: Células que têm a capacidade de se transformar em vários tipos de células diferentes.

Diferenciação: Processo mediante o qual uma célula se torna mais especializada. Por exemplo, uma célula-tronco se transformando em uma célula cardíaca.

Biotinta: Combinação de células com um material líquido capaz de ser impressa em 3D e solidificar-se. Esse material tem de incrementar o crescimento e a sobrevivência das células.
Agradecimentos

Os autores são gratos à Vejbystrands Skola e Förskola, bem como aos alunos do 4º e 6º anos pela contribuição valiosa durante a confecção das figuras. Este artigo contou com o apoio de ESA PRODEX, IMPULSE (PEA4000134310) e do projeto EIC Pathfinder Open PULSE (convênio de subvenção número 101099346).
Referências

[1] Rehnberg, E., Quaghebeur, K., Baselet, B., Rajan, N., Shazly, T., Moroni, L. et al. 2023. “Biomarkers for biosensors to monitor space-induced cardiovascular ageing.” Front. Sens. 4:1015403. DOI: 10.3389/fsens.2023.1015403.

[2] Baran, R., Marchal, S., Garcia Campos, S., Rehnberg, E., Tabury, K., Baselet, B. et al. 2022. “The cardiovascular system in space: focus on in vivo and in vitro studies.” Biomedicines. 10:59. DOI: 10.3390/biomedicines10010059.

[3] Hughson, R. L., Helm, A. e Durante, M. 2018. “Heart in space: effect of the extraterrestrial environment on the cardiovascular system.” Nat. Rev. Cardiol. 15:167–80. DOI: 10.1038/nrcardio.2017.157.

[4] Clevers, H. 2016. “Modeling development and disease with organoids.” Cell. 165:1586–97. DOI: 10.1016/j.cell.2016.05.082.

[5] Hofbauer, P., Jahnel, S. M., Papai, N., Giesshammer, M., Deyettt, A., Schmidt, C. et al. 2021. “Cardioids reveal self-organizing principles of human cardiogenesis.” Cell. 184:3299–317.e22. DOI: 10.1016/j.cell.2021.04.034.

[6] Sun, W., Starly, B., Daly, A. C., Burdick, J. A., Groll, J., Skeldon, G. et al. 2020. “The bioprinting roadmap.” Biofabrication. 12:022002. DOI: 10.1088/1758-5090/ab5158.

[7] Ronaldson-Bouchard, K., Ma, S.P., Yeager, K., Chen, T., Song, L., Sirabella, D. et al. 2018. “Advanced maturation of human cardiac tissue grown from pluripotent stem cells.” Nature. 556:239–43. DOI: 10.1038/s41586-018-0016-3.
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Conheça o Butão


Conheça o Butão, país com zero emissão de carbono e que leva a felicidade a sério
Uma nova trilha de 400 quilômetros atrai turistas para longe dos picos populares através de florestas densas, fortalezas antigas e plantações de arroz em terraços.
Por Henry Wismayer



Um monge observa gralhas-de-bico-vermelho voando acima do Jakar Dzong, no vale de Chamkhar, Butão. A fortaleza, construída em 1549, foi uma das principais fortalezas defensivas do Butão oriental e agora é um destaque cultural para os viajantes ao longo da nova Trilha Trans Butão.


Para o viajante, é o passeio dos sonhos, implacavelmente belo, costurando vales profundos com florestas e aldeias idílicas, em um dos países mais encantadores do mundo. Para muitas pessoas no Butão, entretanto, é um símbolo de renascimento e de acerto de contas.

Em 28 de setembro, o príncipe Jigyel Ugyen Wangchuck inaugurou a Trilha Trans Butão (TBT), uma nova rota de trekking de 400 quilômetros, no que pareceu um momento fatídico para o Butão. Alguns dias antes, o reino do leste do Himalaia, espremido entre os vizinhos gigantes China e Índia, reabriu suas fronteiras após um fechamento de dois anos e meio durante a pandemia da Covid-19 . Mas o retorno de visitantes estrangeiros também trouxe à tona uma questão familiar: quanto o Butão deve deixar o mundo exterior entrar?




Uma macaco hanuman fêmea (Semnopithecus entellus) e seu bebê sentam-se nas florestas subtropicais de folhas largas do Himalaia, no Butão central.


O mosteiro Paro Taktsang é um templo budista à beira de um penhasco no vale superior de Paro, no Butão. Acessível apenas a pé, o local é um dos 13 pequenos “covis de tigres” onde o mestre budista do século 8 Padmasambhava, também conhecido como Guru Rinpoche, teria meditado.


Uma parte da estratégia chegou na forma de mais barreiras à entrada. A “taxa de desenvolvimento sustentável”, uma tarifa turística diária, triplicou de US$ 65 para US$ 200. A TBT constitui outra parte. Cruzando quase toda a metade o país, de Haa, no oeste, a Trashigang, no leste, a trilha foi concebida para afastar os visitantes dos populares vales ocidentais, áreas que, antes do bloqueio da Covid-19, estavam começando a ficar sobrecarregadas. Em vez disso, a trilha é projetada para atrair turistas para regiões periféricas, onde a escassez de oportunidades fez com que jovens ambiciosos deixassem o interior agrícola para buscar empregos nas cidades ou no exterior.

Nesse contexto, a TBT não é apenas uma nova adição à lista de caminhadas espetaculares do Butão. É uma declaração de intenção. Seus arquitetos esperam que se torne uma pedra angular dos esforços contínuos do Butão para equilibrar a preservação cultural e ambiental com a prosperidade econômica.

“Esta não é apenas uma rota turística”, diz Sam Blyth, fundador da Butan Canada Foundation, uma ONG com sede em Toronto, criada em 2018. “É um dos tesouros perdidos do Butão.”
Florestas e fortalezas do Butão

No mês passado, juntei-me ao guia Kinley Wangmo em uma floresta primordial de cicuta, cedro e rododendro, em uma seção da Trilha Trans Butão a leste da capital do país, Thimpu.

Esta seção da rota, da passagem de Dochu La até a vila de Toeb Chandana, tipifica a paisagem que a TBT foi projetada para mostrar não o Butão das neves altas, mas o sopé das antigas fortalezas, mosteiros budistas e gewogs, propriedades rurais tradicionais e plantações de arroz em terraços. A maior parte das 28 etapas da trilha percorre as densas florestas, tanto de coníferas quanto decíduas, que cobrem 71% do país.



Kinley Wangmo, um guia turístico no Butão, está em uma trilha na floresta de pinheiros acima de Gyetsa, no distrito de Bumthang.


O caminho descia para um desfiladeiro nitidamente recortado. Cada galho de árvore estava enfeitado com musgo e samambaias translúcidas. Aranhas joro com abdômen listrado de amarelo e preto sentavam-se imóveis em suas teias na beira da trilha.

Naquele dia, o único som era o canto dos pássaros e do críquete. Mas houve um tempo em que esse caminho ressoava com o tráfego de pedestres. A TBT segue a rota do que já foi a artéria central do Butão, uma via para comerciantes, monges e garps, corredores velozes que transportam mensagens entre seus 20 distritos, ou dzongkhangs.

Na década de 1960, quando o avô do atual rei iniciou a primeira fase provisória de modernização do Butão, a construção de uma rodovia leste-oeste tornou a trilha redundante, e o antigo caminho caiu em desuso. Desde 2019, e especialmente durante o fechamento de 30 meses do Butão devido à Covid, 900 trabalhadores licenciados e mil voluntários reconstituíram toda a sua extensão, limpando a vegetação, construindo pontes de madeira e fazendo marcos brancos na casca das árvores.

Para Kinley Dorje, que conheci mais tarde naquele dia no templo de Chimi Lhakhang, o caminho representou uma chance de redescobrir os mitos e memórias do Butão. A primeira vez que o homem de 65 anos veio a este santuário, ele era um bebê de colo, carregado por seus pais da cidade de Paro ao longo da trilha que eu havia acabado de percorrer. Agora ele planeja refazer aquela jornada de infância. “Não pude participar este ano porque estou com uma perna dolorida”, disse ele. “Mas no próximo ano pretendo caminhar com os amigos.”



Originalmente parte da Rota da Seda, a Trilha Trans Butão leva os viajantes por 27 aldeias, quatro dzongs (fortalezas monastérios), 12 passagens nas montanhas e 21 templos, como o retratado aqui em Paro.


No dia seguinte, acordamos em um acampamento TBT sob a vila de Thinleygang, com uma chuva forte martelando a lona da barraca. O resíduo do ciclone Sitrang, que causou estragos quando atingiu a costa de Bangladesh, agora ocupava os vales centrais do Butão.

Embora pretendêssemos continuar caminhando em direção a Punakha, a configuração logística da trilha permitiu uma fácil mudança de itinerário. Os grupos que reservam através da agência oficial Trans Butão Trail recebem um motorista que transporta a bagagem para os alojamentos da noite seguinte – e que também pode transportar os caminhantes para a próxima etapa. Isso permite que os viajantes escolham quais etapas desejam caminhar e quais dirigir, com base na dificuldade da trilha, pontos turísticos da região ou, como no meu caso, clima inclemente.



Vendedores vendem artesanato ao longo da trilha em Pele La, a porta de entrada para o Butão Central.


À medida que o motorista Tashi Wangchuk nos conduzia mais para o leste, na província de Bumthang, as florestas íngremes davam para pastagens abertas, como um lençol amarrotado sendo suavemente puxado para baixo. Yaks, um bovinídeo local, ruminavam sobre as moitas. Nos arredores do Parque Nacional Jigme Singye Wangchuck, uma trupe de cem langures cinzentos nos examinava da beira da estrada.

Quando as nuvens finalmente se dissiparam na manhã seguinte, seguimos para o vilarejo de Gyetsa, onde o estágio 16 da TBT nos levou a uma subida constante por pinheiros azuis. O mundo exterior pode associar o Butão às montanhas, mas essas florestas cobrem a maior parte de suas terras protegidas; os parques nacionais ocupam metade da área do país. Essa profusão de árvores sequestradoras de carbono, ao lado de uma indústria hidrelétrica vital – a maior exportação do Butão – sustenta sua afirmação de ser o único país negativo em carbono do mundo.
A reviravolta por trás da felicidade do Butão

Sob o estereótipo sereno de integridade cultural e “Felicidade Nacional Bruta”, o Butão está lutando contra a agitação social, como em qualquer outro lugar. A capital, Thimpu, está passando por um boom de construção. Wangmo me disse que seu marido recentemente conseguiu um emprego em bitcoin, “um projeto para o rei”.

No norte, em direção à fronteira tibetana, pastores transumantes estão abandonando o antigo estilo de vida de conduzir yaks para colher raízes de cordyceps, um fungo parasita cobiçado na China por suas supostas propriedades revigorantes, que vale três vezes seu peso em ouro. “Os pastores costumavam viajar de pônei”, disse Wangmo. “Agora alguns deles viajam de helicóptero.”

O turismo também está em transição. O novo imposto turístico diário de US$ 200 coloca o Butão fora do alcance de muitos viajantes em potencial. O país sempre foi um termômetro do “modelo de alto valor e baixo impacto”, e os resorts internacionais de alto padrão já têm um ponto de apoio aqui. As hospedagens mais caras do país cobram 2 mil dólares por noite.



A vila de Jakar, melhor vista de cima na passagem Kiki La, no Vale Chokhor de Bumthang, é uma das muitas áreas ainda inexploradas pelos turistas. A trilha TBT pode mudar isso.


No entanto, antes da Covid-19, o crescente fluxo de turistas estava atingindo sua capacidade máxima. Em 2019, quando o número de visitantes chegou a 316 mil, a infraestrutura existente de hotéis rústicos de três estrelas, construída desde a chegada dos primeiros turistas há quase 50 anos, rachou com a demanda. As estradas estavam repletas de procissões de ônibus de turismo, em meio a temores de que o Butão pudesse estar a caminho de repetir o excesso de turismo do Nepal.

“Monumentos foram invadidos. Os moradores locais não conseguiam entrar no Ninho do Tigre”, lembra Carissa Niamh, da Tourism Bhutan, referindo-se ao mosteiro à beira do penhasco no vale de Paro, que é o garoto-propaganda do Butão. “Alguma coisa tinha que mudar.”

O aumento de impostos é uma tentativa de recalibrar o ponto ideal, já que o governo busca equilibrar os benefícios econômicos do turismo com a preservação cultural e ambiental.

“Há ansiedade, sim, mas também vejo oportunidades”, disse-me Jamyang Chhopel, proprietário do Yangkhil Resort, em Trongsa. “Sob as regras antigas, tudo passaria por um agente. Agora podemos fazer reservas diretamente.”

A trilha cruzou um cume de 3.500 metros, fazendo a transição para a floresta de folhas largas. Então, as árvores se abriram para uma cena extraordinária: o Jakar Dzong, imponente em um promontório.

Tais espetáculos, comuns no Butão, parecem ainda mais fascinantes quando você os aborda a pé, e ainda mais quando você o faz sozinho. Ainda não se sabe se esta nação notável pode sustentar tal magia diante da invasão da modernidade. Esta trilha, pelo menos, veio para ficar.


Henry Wismayer é um escritor baseado em Londres.
National Geographic

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Enfrentar a crise do clima exige encarar as desigualdades



Foto: Lula Oficial/Wikimedia Commons




Impactos de eventos extremos no Brasil se somam a deficits históricos de infraestrutura urbana, saneamento básico e acesso a serviços públicos

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No mês em que celebramos o meio ambiente, uma pergunta se impõe diante das enchentes, deslizamentos e eventos extremos que se repetem em diferentes regiões: quem está pagando a conta da crise climática no Brasil?

Embora os investimentos em financiamento climático tenham crescido nos últimos anos, a distribuição desses recursos revela uma importante desigualdade. Segundo o relatório “Panorama do financiamento climático no Brasil”, da Climate Policy Initiative, apenas 7% dos investimentos climáticos no país foram destinados à adaptação — ou seja, às ações voltadas a preparar as cidades e proteger as populações diante dos impactos já inevitáveis das mudanças climáticas.

Enquanto a maior parte dos recursos segue direcionada à mitigação das emissões de gases de efeito estufa, milhões de brasileiros continuam vivendo em territórios sem infraestrutura adequada de drenagem, contenção de encostas, monitoramento de riscos e políticas habitacionais capazes de responder ao aumento da frequência e intensidade dos eventos extremos.


A crise climática aprofunda desigualdades já existentes e torna ainda mais vulneráveis populações que convivem diariamente com a ausência de direitos básicos

Os resultados dessa escolha orçamentária aparecem todos os anos. Em 2026, enchentes voltaram a atingir estados como Pernambuco, Maranhão, Rio de Janeiro e Minas Gerais. São territórios onde as populações mais afetadas costumam ser as mesmas: moradores de periferias, favelas, comunidades tradicionais e áreas historicamente negligenciadas pelo poder público.

Essa realidade demonstra que a crise climática não afeta todas as pessoas da mesma forma. Populações negras, periféricas, indígenas e comunidades tradicionais estão mais expostas aos riscos e têm menos acesso aos mecanismos de proteção e recuperação após os desastres. O que está em jogo não é apenas uma questão ambiental, mas também social, racial e econômica.

A pesquisa “Retratos das enchentes”, realizada pelo Instituto Decodifica por meio da metodologia de geração cidadã de dados, evidencia esse cenário. Na primeira etapa do levantamento, foram ouvidas 718 famílias em territórios periféricos do Rio de Janeiro e de Pernambuco. Os resultados revelam que 70,5% dos entrevistados vivem em ruas que alagam com frequência; 43% não têm tratamento de esgoto; 21% não têm acesso à água encanada; e quase metade relatou adoecer após períodos de chuva intensa.

Os dados mostram que os impactos das mudanças climáticas se somam a deficits históricos de infraestrutura urbana, saneamento básico e acesso a serviços públicos. Em outras palavras, a crise climática aprofunda desigualdades já existentes e torna ainda mais vulneráveis populações que convivem diariamente com a ausência de direitos básicos.

O debate sobre financiamento climático ganhou ainda mais relevância durante as negociações internacionais que antecederam a COP30. Países do Sul Global pressionaram por mais recursos destinados à adaptação climática e por mecanismos que garantam que esses investimentos cheguem efetivamente às populações mais vulneráveis.

A proposta conhecida como “Mapa do Caminho de Baku a Belém” prevê a mobilização de US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 para o financiamento climático global. Atualmente, os compromissos internacionais giram em torno de US$ 300 bilhões por ano. Ainda assim, organizações da sociedade civil alertam para a falta de clareza sobre a origem dos recursos, os mecanismos de implementação e a garantia de que os investimentos chegarão aos territórios mais impactados.

A discussão torna-se ainda mais urgente quando observamos os custos da ausência de prevenção. Apenas a tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024 gerou gastos públicos de mais de 14 bilhões de reais em reconstrução, assistência e recuperação econômica. O episódio reforça uma lógica recorrente: os recursos aparecem depois do desastre, enquanto os investimentos preventivos continuam insuficientes.

Os impactos vão muito além das perdas materiais. A pesquisa “Retratos das enchentes” mostra que esses eventos produzem consequências duradouras sobre a saúde física e mental das comunidades afetadas. Um dado chama atenção: 55% dos moradores entrevistados afirmaram que pensar nas enchentes afeta regularmente seu sono ou sua capacidade de concentração. Trata-se de um retrato da ansiedade climática, uma consequência cada vez mais presente em comunidades que convivem com o medo constante de perder suas casas, seus bens e até suas vidas a cada novo período chuvoso.

Os prejuízos também recaem sobre a economia. Segundo dados do Atlas de Desastres do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, os eventos extremos provocaram perdas de aproximadamente R$ 432 bilhões no Brasil entre 1995 e 2024. Em escala global, os desastres climáticos geram prejuízos médios de US$ 143 bilhões por ano, de acordo com pesquisa publicada na revista Nature.

Diversos estudos demonstram que investir em adaptação climática é mais eficiente e menos custoso do que reconstruir cidades após tragédias. Pesquisas do World Resources Institute, por exemplo, apontam que cada dólar investido em adaptação gera benefícios econômicos, sociais e ambientais significativamente superiores aos custos iniciais.

Por isso, discutir financiamento climático não significa apenas debater valores financeiros. Significa decidir quais territórios serão protegidos, quais comunidades terão condições de enfrentar os impactos da crise climática e quais vidas continuarão sendo colocadas em risco pela ausência de planejamento.

O Brasil tem avançado nas discussões internacionais sobre clima e desempenhado papel relevante na defesa da adaptação climática. Transformar esse protagonismo em políticas públicas concretas exige ampliar investimentos em prevenção, fortalecer planos municipais e estaduais de adaptação, qualificar sistemas de monitoramento e garantir que os recursos cheguem às populações mais vulneráveis.

A crise climática já é uma realidade. A pergunta que permanece é quem continuará pagando a conta de um modelo que investe pouco em prevenção e muito em reconstrução.

É necessário discutir como os investimentos climáticos são distribuídos, quem está sendo protegido e quais territórios continuam invisibilizados nas decisões sobre o futuro do país. Afinal, enfrentar a crise climática também significa enfrentar as desigualdades que ela escancara.
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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Os efeitos do garimpo sobre o rio Abacaxis, no Amazonas


Nicoly Ambrosio

Exploração ilegal de ouro na região impacta comunidades e traz preocupações sobre saúde, segurança alimentar e qualidade da água


FOTO: Daniel Beltrá/Greenpeace/2017

Floresta Nacional Reserva Urupadi, em Maués (AM), impactada por garimpo ilegal

Há mais de uma década, moradores das comunidades ribeirinhas e indígenas do rio Abacaxis, afluente do rio Madeira, no Amazonas, convivem com o medo de ameaças, da água contaminada e de que o garimpo ilegal nunca pare de avançar sobre a Floresta Nacional Urupadi, localizada na parte sul do município de Maués (a 267 km de Manaus). Desde 2018, moradores destas áreas denunciam ao Ministério Público Federal (MPF), por meio da Associação Nova Esperança do Rio Abacaxis (Anera), a atividade clandestina e de grande impacto no Filão do Abacaxis.

“Sai um comando do garimpo, entra outra milícia. Depois há uma operação, essa milícia sai e outra tenta voltar. É algo sistêmico”, diz o psicólogo Fábio Cunha Coêlho, um dos fundadores da associação, à Amazônia Real.

O esforço em denunciar não foi em vão. A Justiça Federal do Amazonas tornou réus, no início deste mês, 13 pessoas apontadas como integrantes da organização criminosa que extraiu, sem autorização, 71 quilos de ouro da Flona de Urupadi, uma unidade de conservação federal. O esquema movimentou mais de 258 milhões de reais e, segundo o MPF, submeteu trabalhadores a condições análogas à escravidão.

Os réus são oito homens e cinco mulheres do Pará, de Mato Grosso, de Rondônia, do Piauí e do Amazonas. Um dos epicentros do esquema era a cidade paraense de Itaituba, onde um dos réus possuía uma joalheria utilizada para o comércio do ouro ilegal.

Sobre o dano ambiental causado dentro da unidade de conservação, a ação penal afirma: “A Flona Urupadi é um espaço territorial especialmente protegido, que abriga uma das regiões mais ricas em biodiversidade do mundo, com estimativa de 800 espécies de aves e alto grau de endemismo de primatas . A exploração ilegal nesta área causou a degradação de milhares de hectares e um dano socioambiental estimado em mais de R$ 267.061.361, ferindo a integridade de bioma com proteção constitucional reforçada”, diz trecho da ação penal obtida pela Amazônia Real.

Registros da exploração ilegal de ouro na região remontam a 2015, quando a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Filão dos Abacaxis, para desarticular os criminosos do esquema milionário de garimpo na Flona de Urupadi. As investigações apontaram que cerca de 70 hectares de floresta foram devastados pela atividade garimpeira, com sinais de contaminação do solo por mercúrio e cianeto.

A denúncia aceita pela Justiça é resultado de investigações mais recentes sobre a atividade criminosa do garimpo. Na Operação Déjà Vu, em 2023, a PF cumpriu seis mandados de prisão temporária e dez de busca e apreensão em Manaus e Nova Olinda do Norte (AM), Itaituba (PA), Goiânia (GO) e Campo Grande (MS), além de determinar o bloqueio de bens e valores dos investigados. À época, o dano ambiental provocado pelo garimpo foi estimado em mais de 430 milhões de reais, valor recalculado nos anos seguintes conforme novas perícias.

Desde então, foram realizadas outras quatro operações policiais e fiscalizatórias na área: Aurum, Mineração Obscura, Mineração Obscura 2 e Barões do Filão, esta última é a mais recente e foi deflagrada em agosto de 2025.

Na Operação Barões do Filão, os agentes identificaram, além do garimpo ilegal, crimes correlatos como lavagem de dinheiro e exploração de 50 trabalhadores em condição análoga à escravidão. Os policiais federais cumpriram 4 mandados de prisão preventiva e 12 de busca e apreensão em residências dos investigados, localizadas em Itaituba e Novo Progresso (PA), Sinop (MT), Porto Velho (RO) e Regeneração (PI). Também foi decretado o sequestro de bens e bloqueio de ativos de até 74.110.528 de reais, quantia calculada com base no dano ambiental atribuído a essa fase da investigação.

Embora o foco da exploração fosse a Flona Urupadi, os impactos do garimpo ultrapassaram os limites da unidade de conservação e atingiram comunidades ribeirinhas e indígenas localizadas nas cidades de Borba e Nova Olinda do Norte, vizinhas de Maués. Os territórios indígenas afetados são a aldeia Terra Preta, do povo Maraguá, que não é demarcada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), e a TI Kwatá Laranjal, do povo Munduruku.
FOTO: Bruno Kelly/Amazônia Real

Vista aérea do rio Abacaxis, na área da aldeia Terra Preta, do povo Maraguá

Fábio Cunha destacou a chegada das operações da PF, sobretudo por ter havido um aumento da estrutura empregada nas ações, com helicópteros, lanchas e recursos de inteligência. Mas ele espera que os efeitos sejam duradouros.
A organização criminosa

Conforme as investigações, no topo da organização criminosa está o atual líder do garimpo, que teria assumido o comando após a prisão do antigo chefe, na Operação Déjà Vu, em 2023. Segundo o MPF, mesmo sem ir até a área de extração, ele coordenava as atividades à distância: arrendava os poços de mineração a outros integrantes do grupo e recebia parte do ouro produzido.

A investigação apontou que os chamados sócios-arrendatários administravam os poços de extração, supervisionavam trabalhadores e mantinham a logística da atividade garimpeira. Cadernos de contabilidade apreendidos pela PF durante a Operação Mineração Obscura 2, em fevereiro de 2025, registraram a produção de cada frente de exploração e a divisão dos lucros entre os envolvidos.

Já o núcleo financeiro da organização é formado por familiares e pessoas próximas aos principais investigados. Conforme o MPF, empresas formalmente registradas e pessoas físicas eram utilizadas como “laranjas” e o montante de recursos movimentado era incompatível com a renda declarada de seus proprietários, uma clara tentativa de ocultar a origem ilícita do dinheiro obtido com os lucros do garimpo.

Alguns dos acusados também foram apontados pelo Ministério Público do Trabalho (MTE) como responsáveis pela submissão de dezenas de trabalhadores a condições análogas à escravidão. Os profissionais cumpriam jornadas exaustivas em turnos de 24 horas de trabalho por 24 horas de descanso e eram obrigados a manusear substâncias altamente tóxicas (mercúrio e cianeto) sem Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

“O lançamento de rejeitos com mercúrio e cianeto contaminou os igarapés da bacia do rio Abacaxis. Segundo o Relatório do MTE, o minério era moído até virar areia fina, de onde o ouro era extraído com auxílio de mercúrio. Estima-se que 8.540,53 gramas de mercúrio foram convertidos em metilmercúrio e incorporados à cadeia trófica, expondo cerca de 67.370 pessoas ao risco de contaminação em um raio de 100 km”, afirmou a ação penal do MPF.

Os trabalhadores do garimpo não eram livres, pois dependiam de prévia autorização do “dono”, o que, segundo a ação penal, evidencia o controle absoluto sobre a locomoção dos empregados. Em dezembro de 2025, três trabalhadores morreram no garimpo após o desabamento de uma galeria subterrânea.

Em janeiro deste ano, ​o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Herman Benjamin, negou pedido liminar para revogação de prisão preventiva decretada contra um homem investigado no âmbito da Operação Barões do Filão. Segundo o Ministério Público, o homem seria um dos principais articuladores da extração e da comercialização ilícitas do ouro, exercendo papel de proprietário e administrador do garimpo clandestino.

Com a aceitação da denúncia pela Justiça Federal, os acusados responderão pelos crimes apontados pelo MPF, entre eles usurpação de bens da União, organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, redução à condição análoga à de escravo, crimes ambientais e posse ilegal de arma de fogo.
Saúde e segurança alimentar

Uma liderança da Associação Nova Esperança do Rio Abacaxis (Anera) contou à Amazônia Real, em condição de anonimato por medo de ameaças, que a atividade garimpeira modificou a rotina das comunidades e trouxe preocupações constantes com relação à qualidade da água, a saúde, a pesca e a segurança alimentar dos moradores.

“Com a vinda do garimpo, observamos o impacto ambiental que está causando dentro do rio, sendo um deles o uso de substâncias químicas tóxicas para extração do ouro. Isso afeta a vida aquática dos animais e das pessoas que consomem essa água. A poluição da água é uma das maiores preocupações”, descreveu ele.


Um estudo apresentado na ação penal do MPF relata que entre os possíveis efeitos à saúde estão os riscos graves de infarto e sintomas neuropsicológicos, além da perda de QI em cerca de 33% dos nascidos vivos na região.

A liderança tem expectativa de que as operações de fiscalização se tornem permanentes. Embora reconheça que seja difícil eliminar completamente o garimpo ilegal devido às riquezas minerais existentes na região do rio Abacaxis, ele acredita que a atuação contínua do poder público pode reduzir os impactos da atividade. “Esperamos que o poder público sempre faça essas ações. Sabemos que é difícil parar totalmente essas atividades, mas, se houver fiscalização constante, pelo menos será possível minimizar essa situação”, afirmou.

O rio Abacaxis é uma área de forte pressão de atividades ilícitas, tais como pesca e caça ilegal. Há também registros de tráfico de drogas e exploração de madeira. A atividade garimpeira sempre fez parte de relatos locais há anos. A área, em 2020, ficou marcada pelo episódio violento que ficou conhecido como Massacre do Rio Abacaxis.
Aliciamento e ameaças

Fábio Cunha Coêlho relatou à Amazônia Real que as invasões na Flora Urupadi culminaram no aliciamento de pessoas da própria região para trabalhar no garimpo.

“Pessoas são contratadas com as suas embarcações para levar combustível, levar produtos, levar alimentação, para levar e trazer pessoas no garimpo. Havia também uma suspeita de que fora o garimpo, tinha a questão do tráfico, porque houve aumento do consumo de entorpecentes como maconha do tipo skunk. Começamos esse processo de solicitar e pedir socorro devido aos relatos que os ribeirinhos traziam para nós”, disse o psicólogo à Amazônia Real.

O avanço do garimpo também trouxe um cenário de insegurança para moradores das comunidades do rio Abacaxis. Segundo Fábio, lideranças ribeirinhas, indígenas e colaboradores que auxiliaram nas denúncias passaram a sofrer intimidações.

Um dos casos envolveu um jovem indígena que atuava como guia durante as expedições das autoridades à região e recebeu ameaças para abandonar o trabalho. “Justamente porque alguns garimpeiros residem em Nova Olinda [do Norte], falaram que estava ficando perigoso para ele e que precisava parar”, contou.

Após o episódio, os moradores das comunidades foram afastados das ações em campo, e a própria PF passou a conduzir as operações com maior autonomia, utilizando tecnologias como GPS para mapear a área.

“Nenhum dos envolvidos na cadeia de comercialização possuía autorização da Agência Nacional de Mineração (ANM) para a compra de ouro de garimpo. A legislação vigente exige que as operações de primeira aquisição sejam realizadas exclusivamente por instituições autorizadas, mediante emissão de nota fiscal que identifique a origem do mineral e comprove o recolhimento dos tributos devidos”, sustenta o MPF na ação penal.
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quarta-feira, 27 de maio de 2026

As ameaças ambientais no plano do Chile para o lítio


John Bartlett

Governo Kast promete a investidores atalho para explorar um dos minerais mais disputados do mundo. Impactos sobre ecossistemas locais preocupam

FOTO: Víctor Burgos/Presidência da República do Chile


Em 15 de maio, o presidente chileno José Antonio Kast, junto ao ministro de Economia e Minas, Daniel Mas, assinou um projeto de lei que simplifica o sistema de concessões de mineração

Nos planaltos áridos compartilhados por Chile, Argentina e Bolívia, uma cadeia de salinas varridas pelo vento é considerada peça central para a transição energética global. Essa região forma o Triângulo do Lítio, que concentra mais da metade das reservas mundiais conhecidas do mineral crítico para baterias de veículos elétricos e outras tecnologias de energia renovável.

No caso sul-americano, o lítio geralmente é extraído de uma salmoura encontrada a cerca de dez metros abaixo da superfície de lagos salgados. O Chile detém a maior parte dessas reservas, que estão localizadas na Cordilheira dos Andes.

O ex-presidente Gabriel Boric buscou impulsionar as receitas do setor por meio de sua Estratégia Nacional de Lítio, lançada em 2023. Porém, seus planos sofreram um revés com a eleição do ultraconservador José Antonio Kast. Desde que assumiu a presidência em 11 de março, Kast está dando uma guinada radical em relação ao lítio, deixando empresas, comunidades e investidores em um cenário incerto.

Uma das primeiras medidas do governo Kast foi unir o comando das pastas de Economia e Minas na figura do “biministro” Daniel Mas — sinal de que o crescimento econômico, a flexibilização das regras de licenciamento e a política de mineração avançarão juntas. “Nosso foco será reduzir a carga regulatória e tributária, garantindo segurança para criar um mercado competitivo e atrair novos investimentos”, afirmou Kast em campanha.

Ao mesmo tempo, Kast terá a missão de manter um delicado equilíbrio entre as relações do Chile com os Estados Unidos e a China. Tudo isso enquanto o futuro de alguns dos ecossistemas andinos mais sensíveis está em jogo.

Estratégia inacabada

A estratégia de Boric buscava garantir que o Chile fosse o maior produtor mundial de lítio, ao mesmo tempo em que fortalecia o papel do Estado no setor e mantinha regras ambientais rigorosas. Ela também criou uma rede para proteger 30% das salinas até 2030 — até agora, 7,7% estão sob proteção.

Em dezembro passado, os planos de nacionalização deram origem à joint venture Novaandino Litio, formada pela estatal de cobre Codelco e a gigante química chilena SQM. A empresa tem licença para operar no Salar de Atacama até 2060.

Para Francisco Urdinez, diretor do Núcleo Milênio sobre Impactos da China na América Latina, a política de Boric deve ser abandonada pela nova gestão. “No fim das contas, ela ficou inacabada no governo anterior e a atual administração não tem interesse em levá-la adiante”, disse ao Dialogue Earth.

Em uma sinalização desses novos rumos, o Ministério de Minas disse ao Dialogue Earth que o Chile não conseguiu aproveitar ao máximo as ondas recentes do lítio no mercado internacional. Em um comunicado, a pasta afirmou que seu objetivo é “garantir que os projetos sejam efetivamente desenvolvidos, usando os instrumentos criados pelo atual marco legal e proporcionando segurança aos investidores que acreditam em nosso país”.

“Sempre que um projeto não é executado ou seu processo é desnecessariamente prolongado, a possibilidade de o Chile se desenvolver, gerar empregos e melhorar a qualidade de vida das pessoas é adiada”, acrescentou o ministério.

O Chile segue em segundo lugar, atrás da Austrália, na produção global de lítio. Os dois países respondem por 59% da produção global, mas o cenário está mudando: nos últimos anos, grandes reservas foram descobertas em outros lugares e, somado à queda no preço para um quarto de seu valor em novembro de 2022, o entusiasmo na exploração do mineral reduziu.
Ecossistemas sensíveis em risco

Até agora, Kast tem buscado enfraquecer a legislação ambiental do país. Em sua primeira semana no cargo, o presidente revogou 43 decretos ambientais da gestão Boric. Isso removeu o status de proteção atribuído a algumas espécies ameaçadas de extinção e derrubou a normativa que teria dado ao Chile a quarta maior área marinha protegida do mundo. Entre os decretos revogados, seis criavam áreas protegidas em salinas e lagos dos planaltos chilenos.


As populações que vivem perto das salinas temem que o foco pró-mercado de Kast ameace esses ecossistemas, considerando que a agilização dos processos de licenciamento também pressiona a elaboração dos estudos de impacto ambiental e as consultas às comunidades. Autoridades do governo Kast têm criticado o que eles chamam de “cultura do licenciamento” em projetos de exploração de recursos naturais.

A extração de lítio da salmoura retira água dos sistemas subterrâneos que sustentam as áreas de reprodução dos flamingos. Um estudo de 2024 constatou que o Salar de Atacama (a maior planície salina do Chile) está afundando de 1 a 2 cm por ano devido à extração de lítio.

“Como resultado do aumento da evaporação da água nas piscinas de lítio, estamos observando menos cobertura vegetal, diminuição das populações de flamingos e perda de locais de nidificação, além de danos às estruturas microbianas nas zonas úmidas”, explicou a microbiologista Cristina Dorador, professora da Universidade de Antofagasta que pesquisa os ecossistemas das salinas.

A indústria está prestes a se expandir para outras salinas além do Atacama, preocupando outras comunidades: hoje, o Salar de Maricunga abriga o segundo maior depósito de lítio do Chile. A Codelco está explorando um projeto de US$ 900 milhões com a Rio Tinto, gigante britânica da mineração, e a produção deve começar em 2030.

“O complexo do Salar de Maricunga é um lugar sagrado para o povo Colla”, contou Cindy Quevedo, presidente do Conselho Nacional do Povo Colla, ao Dialogue Earth.

FOTO: Alex Ibañez/Presidência da República do Chile



Ex-presidente chileno Gabriel Boric na cerimônia de assinatura do contrato para a extração de lítio no Salar de Maricunga, segundo maior depósito de lítio do Chile, em fevereiro

“Não é apenas uma salina: ele abriga biodiversidade em suas lagoas e é um importante corredor biológico onde há flora e fauna, mas também onde nosso principal apu [espírito sagrado da montanha] cuida de nós – o vulcão Copayapu”, acrescentou Quevedo.
Entre Washington e Beijing

A corrida para controlar as cadeias globais de baterias elétricas também é um fator importante para o futuro do lítio chileno. O país é pressionado pelos interesses dos EUA e da China. Por enquanto, Beijing mantém uma posição dominante nas cadeias de minerais, enquanto os EUA, sob o governo de Donald Trump, têm buscado mudar isso, particularmente na América Latina.

Kast parece ter escolhido um lado rapidamente: em seu primeiro dia no cargo, ele deixou às pressas a cerimônia de posse na cidade de Valparaíso para assinar um acordo sobre minerais críticos com os EUA. O presidente argentino e seu aliado de extrema direita, Javier Milei, também assinou um memorando de entendimento com os EUA. Mas a China é a maior compradora de cobre do Chile, o que ainda a mantém como um ator vital da economia chilena.

“Acho que o objetivo agora é usar o lítio e outros metais como moeda de troca por favores geopolíticos”, disse Urdinez. “Parte do objetivo desses memorandos [com os EUA] é impedir que a China tenha acesso a certos minerais e elementos críticos, como as terras raras”.

Independente da política adotada por Kast, o acesso ao lítio dependerá do marco regulatório definido pelo governo. Há atualmente dez projetos na fila para aprovação, e ele afirmou que vai dar sequência a esses pedidos.

Enquanto isso, as comunidades temem os efeitos de uma nova leva de investimentos no setor. “Eu moro aqui nas montanhas. Por que eu deveria ter que destruir minhas terras sagradas para fornecer soluções para pessoas em outro continente que não pararam suas emissões de CO₂?”, questionou Quevedo. “Estamos pagando as consequências socioambientais para criar uma solução para as mudanças climáticas – um problema que não criamos”.
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Faces da precarização do mercado de trabalho no Brasil





Cristiane Leite, Ergon Silva, Letícia Collado, Vinicius Nogueira e Yasmin Pinheiro


Os desalentados, grupo formado por pessoas que desejam trabalhar, porém deixaram de procurar trabalho, cresceu cerca de três vezes de 2014 a 2019 no Brasil

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A precarização do trabalho é um processo internacional que tem se verificado com intensidades distintas em vários países. Inúmeros indicadores sociais demonstram a centralidade da categoria “precariado” : contratos terceirizados e/ou informais, baixos salários, alta rotatividade e exposição extrema ao risco social do trabalho. Em 2020, a pandemia da covid-19 escancarou a vulnerabilidade e precariedade do mercado de trabalho, tanto pelo aumento da informalidade quanto do desemprego e desalento.

Aos que puderam se isolar, o home office se tornou realidade que, na prática, transferiu os custos do trabalho aos trabalhadores. Com o crescimento das demandas pelo trabalho uberizado e a flexibilização dos contratos em vários setores, diversas faces da precarização do trabalho se manifestam, mas é na relação entre desalento e pejotização que é possível observar uma massa de trabalhadores migrando para a vulnerabilidade.

De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2018, existem diversos motivos para que as pessoas desistam de procurar trabalho: não encontrar trabalho na localidade, não conseguir trabalho por ser considerado muito jovem ou idoso, não ter experiência profissional ou qualificação. Os desalentados, grupo formado por pessoas que desejam trabalhar, porém deixaram de procurar trabalho, cresceu cerca de três vezes de 2014 a 2019 no Brasil, partindo de 1,46 milhões e chegando a 4,98 milhões .

Como aponta o estudo de Saboia , crises econômicas historicamente acentuam a taxa de desemprego e deixam como herança aumento dos desalentados. Com a pandemia da covid-19 e suas implicações na atividade econômica, tais índices tendem a aumentar. A PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) covid-19 mostra que o contingente total de desalentados apresentou crescimento expressivo nos primeiros meses de pandemia, atingindo seu pico em julho de 2020, com 28,25 milhões de pessoas.


Dentre as faces da precarização do trabalho impulsionada pela pandemia, a relação entre a crescente herança do desalento e da pejotização tem evidenciado a fragilidade do contexto enfrentado no Brasil

Além disso, dados de 2020 do IBGE mostram que parcela considerável do total de desalentados são residentes de domicílios em que alguém recebe auxílio emergencial. Neste sentido, o auxílio reprimiu, parcialmente, a retração econômica – em geral, tais famílias em vulnerabilidade o utilizam para compra de bens imediatos que movimentam a economia local. No entanto, com a redução de seu valor e o relaxamento das políticas de isolamento social, já se observa uma massa populacional voltando a buscar emprego – mesmo com a pandemia tendo suas máximas históricas.

Neste contexto, o enxugamento do auxílio emergencial somado à descoordenada gestão do isolamento social tende a propiciar dois cenários:parte dos desalentados deve passar a procurar trabalho e migrar para o contingente de desempregados; parte deles deve permanecer em situação de desalento permanentemente, como herança deste período de crise .

De qualquer forma, o impacto expressivo da redução do valor do auxílio emergencial deverá ter efeitos no mercado de trabalho que vão além da dualidade emprego/desemprego, impactando o já significativo grupo de pessoas que se encontram em situação de desalento, além de possivelmente retrair o potencial de consumo, de arrecadação e a atividade econômica.

Em outra face da precarização, a pejotização ocorre quando a mão de obra é contratada com o empregado na posição de pessoa jurídica, ao invés de pessoa física. Tal modalidade é, certamente, do interesse do empregador, que deixa de ser onerado por custos tais como pagamento de benefício do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), FGTS (Fundo de Garantia de Tempo de Serviço) e seguro desemprego. Do lado do empregado, flexibiliza-se a jornada de trabalho e se reduz o Imposto de Renda. No entanto, internaliza-se individualmente diversos custos, como os do CNPJ, e perde-se os direitos trabalhistas clássicos . O fato de a decisão de pejotizar ser, principalmente, do empregador , entretanto, é um forte indício de que apenas esta parte do acordo é beneficiada.

Os gráficos abaixo – com dados da PNAD Contínua de 2020 – permitem visualizar a pejotização no estado de São Paulo por meio da quantidade de trabalhadores com carteira assinada e a relação com os trabalhadores com CNPJ. O primeiro mede a proporção de trabalhadores de cada modalidade; enquanto o segundo evidencia a razão entre ambos:

 

A tendência de queda da participação de empregados com carteira assinada (de 50,31% para 45,29%) é simultânea ao aumento da parcela da população que trabalha com CNPJ (de 5,88% até 7,89%), indicando que a pejotização foi um processo presente entre 2015 e 2020 no estado. O cenário de incerteza econômica levou, por hipótese, empregadores a optar por formas de contratação de menor custo de demissão como uma forma de se preparar para a possível interrupção da produção.

A análise dos setores produtivos desses CNPJs indica de forma ainda mais robusta que o aumento de fato ocorreu graças à pejotização, e não à elevação, por exemplo, do número de autônomos. Afinal, os dados da PNAD Contínua de 2020 mostram também que a variação foi mais acentuada nas áreas típicas do fenômeno : publicidade, jornalismo, arquitetura e saúde, com destaque para psicólogos e enfermeiros. No conjunto, se avolumaram tanto que aumentaram a participação no total de CNPJs do estado: de 25,75% para 30,53% entre o último trimestre de 2019 e o terceiro de 2020.

Dentre as faces de precarização do trabalho impulsionada pela pandemia, a relação entre a crescente herança do desalento e da pejotização tem evidenciado a fragilidade do contexto enfrentado no Brasil. Infelizmente, o futuro não é animador. O novo auxílio emergencial foi reduzido em valores e número de atendidos , mesmo com a continuidade da crise econômica, sanitária e social. Além disso, lidamos com o lento ritmo de vacinação e a ampliação do custo de vida, com aumentos de preços em produtos de cesta básica . Tais fatores, combinados com o aumento do desemprego e a precarização do trabalho, deixam os trabalhadores ainda mais vulneráveis à fome e ao vírus, enquanto a descoordenação federal vira tendência em múltiplas áreas.

Cristiane Kerches da Silva Leite é professora no curso de graduação em gestão de políticas públicas e no PromusPP (Programa de Pós-graduação em Mudança Social e Participação Política) da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (Universidade de São Paulo). Pesquisadora do OIPP (Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas Professor Doutor José Renato de Campos Araújo).

Ergon Cugler de Moraes Silva é pesquisador da USP, associado ao OIPP (Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas), colaborador do OxCGRT (Oxford Covid-19 Government Response Tracker) e representante da sociedade civil para São Paulo na Comissão da Agenda 2030 da ONU.

Letícia Figueiredo Collado é arquiteta e urbanista pela PUC-Campinas, pesquisadora do NEEPP (Núcleo de Estudos em Economia e Políticas Públicas) na USP e colaboradora do OxCGRT (Oxford Covid-19 Government Response Tracker).

Vinicius Nogueira é pesquisador de economia do setor público na FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo), foi membro da gestão da FEA Social (2019) e da coordenação da FEA Pública (2020).

Yasmin Pinheiro é pesquisadora júnior do CEM-USP (Centro de Estudo da Metrópole da Universidade de São Paulo), colaboradora do OxCGRT (Oxford Covid-19 Government Response Tracker) e graduanda em gestão de políticas públicas na USP.
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