Violência urbana: discurso midiático e manipulação da realidade
Raimundo Nonato Lima dos Santos
Resumo
O artigo analisa a construção da identidade de "cidade-sem-lei", atribuído à cidade de TimonMA, a partir da produção de discursos operada pela imprensa escrita de Teresina-PI, nos periódicos "O Dia" e "O Estado", com matérias publicadas sobre esta cidade maranhense na década de 1980. Discute também o conceito de violência urbana e o processo de manipulação da realidade realizado pela mídia impressa que contribuiu para a construção de uma memória social deturpada. Palavras-chave: Violência urbana. Timon. Manipulação. Abstract The article analyzes the construction of the identity of " city-without-lei" , attributed to the Timon-MA city, from the production of speeches operated by the written press of Teresina-PI, in periodic “The Day” and “The State”, with substances published on this maranhense city in the decade of 1980. It also argues the concept of urban violence and the process of manipulation of the reality carried through for the media printed that contributed for the construction of a deturpada social memory. Word-key: Urban violence. Timon. Manipulation. Este trabalho analisa a relação entre Timon, uma cidade do interior maranhense e Teresina, a capital do Piauí. O foco central da pesquisa consiste no estudo da construção das identidades a partir de representações formuladas e veiculadas em meios de comunicação impressa, as quais marcaram Timon, devido sobretudo à manipulação da realidade operada pela mídia, como uma cidade atrasada, violenta, enfim, como o “outro” relativamente a Teresina. Durante a década de 1980, as páginas policiais dos jornais O Dia e O Estado, produzidos em Teresina, foram recheadas por notícias de atos violentos realizados em Timon. Ressaltamos que todas as cidades do Brasil e do mundo sofrem com problemas de violência, e não apenas Timon. Segundo a historiadora Claudete Maria Miranda Dias (2005:139-141), a violência se apresenta nas relações sociais, familiares, amorosas e de trabalho, ou seja, nos diversos setores da vida e está historicamente ligada a diferentes processos de dominação como a Colonização, ou a sistemas sócio-econômicos como o Escravismo, o Feudalismo e o Capitalismo. A questão da violência nas cidades torna-se um problema quando se percebe a existência constante de roubos, assaltos, assassinatos, em suma, de ameaças à integridade Mestre em História do Brasil pela Universidade Federal do Piauí. 1 ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009. material, física e moral dos indivíduos em sua vida cotidiana. Essa linha de raciocínio também é compartilhada pelo sociólogo Luís Antônio Machado da Silva, que concebe a violência urbana como sendo algo que [...] refere-se, primeiro, à constatação da existência maciça de saques à propriedade privada (assaltos, roubo) e ameaças à integridade física, em situações relacionadas à vida cotidiana; e ao mesmo tempo, segundo, a modelos de conduta subjetivamente justificados, no âmbito destas situações (SILVA, 1993:131). O que diferencia as cidades, no que se refere à violência urbana, é o grau de intensidade desses acontecimentos e as formas como eles são realizados. Geralmente, nas grandes cidades, existem altos índices de criminalidade devido à complexidade da vida cotidiana (MORAIS, 1981: 28-45), ao contrário das pequenas cidades, onde a vida simples tornaria as relações sociais menos propensas a práticas de sociabilidade violenta. Entretanto, não é uma tarefa simples identificar uma “violência urbana”, uma vez que uma interpretação de um ato como violento é muito subjetiva. A sua classificação vai depender do contexto histórico-social em que ele está inserido, posição que pode ser percebida nas palavras do filósofo brasileiro Nilo Odalia: O ato violento não traz em si uma etiqueta de identificação. O mais óbvio dos atos violentos, a agressão física, o tirar a vida de outrem, não é tão simples, pois pode envolver tantas sutilezas e tantas mediações que pode vir a ser descaracterizado como violência. [...] Matar em defesa da honra, qualquer que seja essa honra, em muitas sociedades e grupos sociais, deixa de ser um ato de violência para se converter em ato normal – quando não moral – de preservação de valores que são julgados acima do respeito a vida humana (ODALIA, 2004:23). Além de ser necessário observar o contexto histórico-social, para se classificar um ato como violento, deve-se singularizar esses atos, pois existem múltiplas formas de violência ou práticas de sociabilidade violenta. Sem se preocupar com a singularização das ações humanas, os jornais de Teresina, O Dia e O Estado, publicavam a maioria das notícias sobre Timon nas páginas policiais, como pode ser observado no quadro a seguir:
O quadro acima mostra que o tema da violência se destacava nos jornais teresinenses, em detrimento de outros assuntos, como esporte, cultura e educação, referentes à cidade de Timon. Sobre práticas de sociabilidade violenta foram contabilizadas 423 notícias no jornal O Dia e 455 no jornal O Estado, totalizando 878 matérias ao longo de dez anos. Os outros assuntos veiculados nesses dois jornais somam menos da metade desse montante, apenas 416 casos. Por que o tema da violência aparecia mais nos jornais teresinenses? Na cidade de Timon não havia outros acontecimentos que merecessem destaque na imprensa local? Havia muitos casos de violência, cotidianamente, naquela cidade maranhense e esses assuntos interessariam uma maior parte da população de Timon e também de Teresina? Quem decide o que é, e o que não é, de interesse da população? O que pode e o que não pode ser veiculado nos jornais? Os jornalistas dos referidos jornais, desconheciam a existência de outros fatos que poderiam ser noticiados? Essas indagações nos levam a concluir que houve uma manipulação da realidade a partir do processo de ocultamento de uma realidade não-violenta em Timon, haja vista o fato de que, antes de os jornalistas saírem em busca das informações, são realizadas as chamadas reuniões de pauta, onde se decide a estrutura da edição e os assuntos que serão veiculados naquele determinado dia, portanto, não se trata de desconhecer outros assuntos, já que os jornalistas, seguindo a linha editorial dos meios de comunicação nos quais trabalham, fazem a cobertura apenas dos eventos que já foram predeterminados na reunião de pauta. Essa manipulação da realidade timonense, segundo o jornalista Perseu Abramo (2003), seguiu um padrão de ocultação, que ele considera como sendo […] o padrão que se refere à ausência e à presença dos fatos reais na produção da imprensa. Não se trata, evidentemente, de fruto do desconhecimento, e nem mesmo de mera omissão diante do real. É, ao contrário, um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade. Esse é um padrão que opera nos antecedentes, nas preliminares da busca da informação, isto é, no ‘momento’ das decisões de planejamento da edição, da programação ou da matéria particular daquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta. A ocultação do real está intimamente ligada àquilo que freqüentemente se chama de fato jornalistíco. A concepção predominante – mesmo quando não explícita – entre empresários e empregados de órgãos de comunicação sobre o tema é a de que existem fatos jornalísticos e fatos não-jornalísticos e que, portanto, à imprensa cabe cobrir e expor os fatos jornalísticos e deixar de lado os não jornalísticos. Evidentemente, essa concepção acaba por funcionar, na prática, como uma racionalização a posteriori do padrão de ocultação na manipulação do real (ABRAMO, 2003: 25-26. Grifos do autor). Essa manipulação do real discutida por Perseu Abramo foi detectada no jornal O Dia, antes da década de 1980, mais especificamente em 1976. O referido periódico publicou duas matérias com manchetes sensacionalistas: “Quem quer morrer em Timon?”1 e “Timon continua um município sem lei”. 2 Na primeira, denunciavam as arbitrariedades da polícia de Timon, que não estaria cumprindo com o seu dever de proteger a sociedade e prender os criminosos, ocupado-se em realizar torturas e todos os tipos de humilhações contra indivíduos acusados de crimes pelos quais ainda não haviam sido julgados e que eram reconhecidos no meio popular como sendo pessoas de boa índole. A matéria “Timon continua um município sem lei” proporcionava ao leitor timonense e/ou teresinense uma reflexão sobre os problemas de segurança naquele município, com o intuito, direto ou indireto, de sensibilizar a sociedade, instigando-a a se organizar para reivindicar melhorias para aquela cidade do leste maranhense. Entretanto, essa mesma matéria banalizava as práticas de sociabilidade violenta realizadas em Timon, como pode ser observado a seguir: […] A pergunta de advertência feita na página publicada recentemente por O Dia sobre as ocorrências constantes e graves, que inquietam os timonenses pacatos e responsáveis, feita nos termos: ‘quem quer morrer em Timon?’, está confirmada mais uma vez pelos fatos recentes ali acontecidos e aqui narrados. Tiros, facadas e espancamentos praticados por elementos que não vão presos e são dados todos por desconhecidos. A passagem de uma pessoa que quase morre a 28 metros de profundidade. Os inúmeros afogamentos que em relação com a população de Teresina, ocorrem em percentagem 10 vezes maior. Os atropelamentos são muitos também. Um velhinho de 76 anos veio de Nazaré do Bruno somente ser atropelado em Timon.[…] As tocas, como são chamadas pela polícia os locais de refúgio dos marginais, muitas vezes casas abandonadas, muitas vezes palhoças situadas na periferia da cidade, são muito comuns em Timon, como uma prova da inexistência de ação policial na cidade.[…]3 Analisando o conteúdo da matéria acima, podemos considerar que as críticas às ações da polícia de Timon puderam ser publicadas, sem censura, porque no cenário político nacional, estava havendo um retorno à democracia, de forma “lenta, gradual e segura”, a partir do governo do penúltimo presidente do Regime Militar, o general Ernesto Geisel (1974- 1979). A censura prévia à imprensa foi gradualmente suspensa entre 1975 e 1978; inicialmente para os jornais de grande circulação como o Estado de São Paulo, e, depois de 1978, para os da imprensa alternativa. Porém, isso não significou o fim do controle e das 1 PÁDUA, Antônio de. Quem quer morrer em Timon? O Dia. Teresina, ano 25, n. 4475, 6 maio 1976. p. 7 2 Timon continua um município sem lei. O Dia. Teresina, ano 25, n. 4479, 11 maio 1976. p. 7. 3 Ibid., p. 7. perseguições políticas, que ainda continuaram, como por exemplo, em 1976, foi proibida a apresentação pela TV de uma gravação do Balé Bolshoi pelo fato de ser uma Companhia russa e, assim, pudesse fazer apologia ao comunismo da União Soviética (HABERT, 2003: 40-68). Uma outra consideração que se pode fazer sobre a matéria citada é que, no trecho “Um velhinho de 76 anos veio de Nazaré do Bruno somente ser atropelado em Timon”, percebemos um sensacionalismo desenfreado, visto que ninguém sai de sua casa, excetuandose os casos de suicidas, somente para ser atropelado. Os acidentes de trânsito ocorrem por fatalidade e/ou por imprudência de motoristas, geralmente com maior incidência nos trânsitos complexos de grandes cidades, o que não é o caso de Timon, onde havia pouca circulação de veículos nas ruas, característica de uma paisagem típica das pequenas cidades do interior do Brasil. Ressaltamos que a linha editorial sensacionalista não era um privilégio da imprensa escrita teresinense no ano de 1976, já que também estava presente na imprensa nacional e se perpetuou durante a década de 1980, fato atestado por Abramo (2003: 23): “uma das principais características do jornalismo no Brasil, hoje [final da década de 1980], praticado pela maioria da grande imprensa, é a manipulação da informação”. Nesse sentido, as matérias sensacionalistas publicadas no jornal O Dia sobre práticas de sociabilidade violenta em Timon destacavam assassinatos, “Homem encontrado morto em Timon”, como pode ser observado no trecho abaixo: Francisco Pereira de Oliveira, vulgo chibeu, foi assassinado a golpes de faca peixeira anteontem pôr volta das 22 horas nas proximidades de uma garagem de ônibus, à Avenida Presidente Médici, em Timon. O criminoso é desconhecido da polícia daquela cidade, uma vez que após praticar o crime evadiu-se do local sem deixar pista 4 O jornal O Estado também destacava os assassinatos na cidade de Timon, em manchetes como “Morte no início do carnaval”, cujo conteúdo da notícia ressaltava o possível medo que estaria se generalizando por toda a população motivado por uma suposta falta de segurança, anunciada por esse meio de comunicação, como pode ser observado no trecho abaixo: O carnaval de 1981 começou com uma morte no interior, exatamente na cidade de Timon, onde a violência está apavorando os moradores. O operário Francisco Matos Fontinele, foi assassinado ontem com cinco facadas no peito esquerdo, pelo estivador Manoel Carlos de Sousa.5 4 Homem encontrado morto em Timon. O Dia. Teresina, ano 28, n. 7154, 8 jan. 1980. p. 8. 5 Morte no início do carnaval. O Estado. Teresina, ano 11, n. 2417, 28 fev. 1981. p. 1.
Além dos homicídios, o jornal O Dia destacava também os roubos e assaltos, com manchetes do tipo “Lanceiros presos no centro”: Os lanceiros José Genésio Almada, “O Pretinho” e Bartolomeu Gomes Barreto foram presos e autuados em flagrante pelo delegado do 1º Distrito Policial José da Silva Torres, depois de terem sido presos no centro comercial de Teresina praticando lances [...] Os dois lanceiros disseram que vinham agindo há muito tempo em Teresina, e que logo após um golpe fugiram para a cidade de Timon e somente depois de comerem (sic!) todo o produto do lance (furto) voltavam a agir6 Noutra matéria, com a manchete “Brasília puxada é encontrada em Timon”, aquele mesmo jornal noticiava as ações de ladrões de carro, “puxadores”, na gíria policial, que estavam atuando de forma constante e impunemente nas cidades de Timon e Teresina, no início da década de 1980. A constância desses roubos chamava a atenção dos delegados de Timon e de Teresina, como pode ser observado abaixo: ‘creio que este puxador de carros, desta vez, quer botar uma oficina de veículos’. A declaração é do delegado Luis Evangelista do 3º DP [de Teresina], referindo-se a Brasília de cor branca, sem placa [roubada em Teresina], encontrada ontem pelos agentes desta delegacia, na localidade Piçarreira a cinco quilômetros da cidade de Timon. 7 Essas duas matérias referem-se a pequenos e grandes furtos que eram realizados em Teresina, sendo que, depois, os ladrões fugiam com os produtos do roubo para a cidade de Timon. Percebemos aí, a construção de um discurso representando Timon como uma cidadesem-lei, uma terra onde os criminosos agiriam impunemente, e que, por isso, atrairia bandidos de outras regiões com o intuito de dividir os seus “lucros” e planejar novos crimes. A veiculação de matérias no jornal O Dia destacando Timon como uma cidade desprovida de segurança pública eficiente, ocorre desde meados da década de 1970, com manchetes sensacionalistas do tipo “Timon continua um município sem lei”. Num trecho dessa matéria, o referido periódico afirmou, de forma arbitrária, uma vez que houve generalização na exposição das idéias, a existência de grande quantidade de esconderijos de marginais em Timon, onde os criminosos residiriam tranqüilamente, como pode ser observado abaixo: Recentemente o delegado Moura, do 1º DP de Teresina, foi diretamente para Timon na certeza de encontrar a toca [refúgio] de um marginal, o golpista de carradas de cereais. São dezenas de casos desta natureza, em que a Polícia do Piauí encontra antro de ladrões em Timon, residindo ali tranqüilamente.8 6 Lanceiros presos no centro. O Dia. Teresina, ano 28, n. 7162, 17 jan. 1980. p. 8. 7 Brasília puxada é encontrada em Timon. O Dia. Teresina, ano 29, n. 7186, 13 fev. 1980. p. 8. 8 Cf. Nota 34. No início da década de 1980 a imagem de Timon como uma cidade- sem-lei continuava sendo construída nos meios de comunicação escrita de Teresina. O jornal O Estado, na coluna Ronda Policial, assinada pelo jornalista Pedro Silva, noticiava várias matérias curtas enunciando o possível clima de insegurança naquela cidade maranhense. Como exemplo, citamos a manchete “Timon” que destaca a possível fragilidade da Polícia daquele município: “Com várias tocas de ladrões espalhadas em quase todas as ruas de Timon, o delegado Paulo Augusto já não sabe como combater os marginais, que a cada dia aumentam mais”9 . Noutra manchete, “Timon sem lei”, o jornalista Pedro Silva representa, arbitrariamente, Timon como um lugar que esconderia os piores criminosos do Brasil e, por esse motivo, todas as práticas de sociabilidade violenta imagináveis poderiam ser encontradas excessivamente naquela cidade: “Todo tipo de malandragem que possa existir, há em TimonMA. As principais ‘tocas’ dos mais audaciosos ladrões estão ali”10 Essa representação negativa da cidade de Timon era reforçada por outros acontecimentos violentos, a exemplo dos casos de acidentes de trânsito, como anunciado na matéria com a manchete “Atropelamento de carro mata anciã em Timon,” na qual o jornal O Estado noticiava que A anciã Maria da Conceição Assunção [...] foi anteontem atropelada e morta por uma caçamba [...] na avenida Presidente Médici em Timon [...] A velhinha, que foi jogada pelo veículo, que desenvolvia alta velocidade segundo populares que assistiram o acidente, ficou com suas vísceras e miolos expostos no meio do asfalto, sendo conduzida por um homem que passava no momento em uma camioneta, levando-a para o Pronto Socorro do HGV [Hospital Getúlio Vargas em Teresina], onde foi removida para o necrotério [...]11 Tradicionalmente, os jornais são entendidos – pela maioria das pessoas – como possuidores da função de informar a verdade, comunicando fatos do cotidiano local, nacional e internacional, mesmo que ele desagrade aos leitores (ou uma parcela deles), uma instituição ou um grupo social. Esse ponto de vista concebe a notícia como um espelho da realidade e defende a “objetividade” como um elemento chave da atividade jornalística. Tal objetividade, entretanto, pode ser questionada, como fazem os estudos dos jornalistas Clóvis Rossi (1986) e Alfredo Vizeu (2002). O primeiro é contra o ponto de vista que concebe a notícia como um “espelho da realidade,” pois, segundo ele, entre o fato e a sua publicação no jornal, existe um processo de filtragem – o enfoque dado às matérias, tamanho do texto, tamanho do título – que sempre resulta em uma versão e nunca no “espelho da realidade”: 9 SILVA, Pedro. Timon. O Estado. Teresina, ano 14, n. 3055, 22-23 maio 1983. p. 8. 10 SILVA, Pedro. Timon sem lei. Teresina, ano 14, n. 3066, 5-6 jun. 1983. p. 8. 11 Atropelamento de carro mata anciã em Timon. O Estado. Teresina, ano 11, n. 2401, 10 fev. 1981. p. 12. Afinal, entre o fato e a versão que dele publica qualquer veículo de comunicação de massa há a mediação de um jornalista (não raro, de vários jornalistas), que carrega consigo toda uma formação cultural, todo um background pessoal, eventualmente opiniões muito firmes a respeito do próprio fato que está testemunhando, o que leva a ver o fato de maneira distinta de outro companheiro com formação background e opiniões diversas (ROSSI, 1986: 10). O jornalista Alfredo Vizeu entende que, no jornalismo, a linguagem não é apenas um campo de ação, mas a sua dimensão constitutiva. É a condição pela qual o sujeito constrói um real, um real mediatizado. Nesse sentido, a enunciação jornalística é bastante singular em função desse campo deslocar-se sempre como um lugar que retrata e cria o lugar do outro, a partir de leis e regras determinadas. A notícia ajuda a constituir a realidade como um fenômeno social compartilhado, uma vez que no processo de definir um acontecimento, a notícia define e dá forma a esse acontecimento. Desse modo, a notícia está permanentemente definindo e redefinindo, constituindo e reconstituindo fenômenos sociais (VIZEU, 2002: 2). Partindo desse pressuposto, percebemos que a narração do acidente de trânsito, na matéria citada, além de informar, produziu um discurso. Os detalhes desse atropelamento, juntamente com o de outras notícias congêneres – tais como “Degolaram homem a facadas e tocaram fogo no cadáver”12; “Carbonizado corpo de anciã”13; “Jovem é assasssinada pelo namorado com 25 facadas”14; “Corpo sem cabeça jogado na estrada”15; “Estudante é morto a facadas e pauladas por delinqüentes”16; “Menor é espancada e estuprada”17 – contribuíram para a construção de um imaginário de medo entre os habitantes de Teresina, sobre a vizinha cidade maranhense. A partir da análise do quadro 5, comentado anteriormente, percebemos que, durante a década de 1980, a maioria das notícias sobre Timon veiculadas nos jornais teresinenses O Dia e O Estado destacavam o tema da violência. Acreditamos que essa constante associação da cidade com o tema da violência, contribuiu para esse imaginário de medo, como pode ser observado no quadro a seguir: 12 Degolaram homem a facadas e tocaram fogo no cadáver. O Dia. Teresina, ano 34, n. 6970, 14 mar. 1985. p. 1. 13 Carbonizado corpo de anciã. O Dia. Teresina, ano 35, n. 8172, 26 jul. 1986. p. 12. 14 Jovem é assassinada pelo namorado com 25 facadas. O Dia. Teresina, ano 37, n. 8855, 4 nov.1988. p. 12. 15 Corpo sem cabeça jogado na estrada. O Estado. Teresina, ano 17, n. 4346, 26 jun. 1987. p. 1. 16 Estudante é morto a facadas e pauladas por delinqüentes. O Estado. Teresina, ano 18, n. 4756, 13 out. 1988. p. 14. 17 Menor é espancada e estuprada. O Estado. Teresina, ano 19, n. 4946,12 maio 1989. p. 12.
Esse discurso do medo – assim como qualquer outro discurso produzido nos jornais – ocorre(u) a partir da enunciação jornalística, na qual o jornalista dá conta daquilo que aconteceu recentemente e, portanto, daquilo que ainda não acedeu à memória coletiva e que poderá gravar-se nela, em primeira mão, precisamente pelo fato de o jornalista enunciar (RODRIGUES, 1996). A repetição de enunciados sobre assassinatos, furtos e acidentes de trânsito ocorridos na cidade de Timon e noticiados na imprensa teresinense produziram uma identidade ligada à performatividade (SILVA, 2000), ou seja, a simples menção a um acidente de trânsito – que Rossi (1986) considera que pode haver objetividade por parte do repórter, quando este não está envolvido pessoalmente ou algum amigo ou parente – que, supostamente, se está apenas descrevendo contribui para definir ou reforçar a identidade de algo/alguém. O conceito de performatividade desloca a ênfase na identidade como descrição, como aquilo que é – uma ênfase que é, de certa forma, mantida pelo conceito de representação – para a idéia de “tornar-se”, para uma concepção da identidade como movimento e transformação (SILVA, 2000: 92). Nessa perspectiva, a cidade de Timon “tornou-se” uma cidade-sem-lei no imaginário social dos teresinenses, a partir da excessiva repetição de enunciados sobre violência urbana, em detrimento de raros casos de notícias sobre fatos não violentos. Esse olhar da mídia pode ser exemplificado pelas notícias sobre violência em cidades como Rio de Janeiro, onde a maior parte das notícias se relacionam à violência urbana, amedrontando os cidadãos. Muitos 10 brasileiros são influenciados pela representação da mídia sobre esta cidade e assim, evitam visitá-la, sem fazer o devido dicernimento da notícia e da realidade. Esse exemplo serve para se compreender melhor o que se passou em Timon. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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