quarta-feira, 15 de abril de 2026

Como população dos Andes ingere arsênio sem se intoxicar


Para comunidades andinas, que bebem água com arsênio acima do limite há milênios, a evolução parece ter seguido um caminho diferente





Em qualquer outro contexto, consumir água com uma concentração de arsênio muito acima dos níveis recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) representaria um sério risco à saúde. Mas em San Antonio de los Cobres, no altiplano do noroeste argentino, a mais de 3,7 mil metros de altitude, essa tem sido, durante séculos – e provavelmente milênios –, uma condição cotidiana de vida.


Antes da instalação de um sistema de filtragem em 2012, a água da localidade continha cerca de 200 microgramas de arsênio por litro. Detalhe: o limite recomendado pela OMS é de apenas 10. Ainda assim, trata-se de uma região ocupada por seres humanos há pelo menos 7 mil anos, talvez até 11 mil. A pergunta inevitável é: como isso é possível?

O arsênio não é exatamente um veneno de risco desprezível. A exposição crônica está associada a câncer, lesões cutâneas, malformações congênitas e morte prematura. Uma vez no organismo, ele é processado por enzimas que o transformam em diferentes compostos químicos.


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Mas nem todos têm o mesmo efeito. O composto monometilado, ou MMA, é particularmente tóxico, enquanto o dimetilado, conhecido como DMA, é mais facilmente eliminado pela urina. O problema é que, na maioria das pessoas, o metabolismo do arsênio gera proporções relativamente altas desse composto intermediário mais nocivo antes de transformá-lo na forma que o organismo consegue excretar com mais facilidade.
Um gene-chave na resistência ao arsênio

Em meados da década de 1990, um estudo identificou na população feminina dessa região um processamento incomum do arsênio: o organismo acumulava menos do derivado mais tóxico e avançava com maior eficiência para a forma eliminável pela urina. Em outras palavras, o metabolismo do arsênio era excepcionalmente eficiente entre as mulheres estudadas.


Durante anos, o fenômeno permaneceu como uma curiosidade bioquímica. Mas, em 2015, uma equipe liderada pelas biólogas evolutivas Carina Schlebusch e Lucie Gattepaille, da Universidade de Uppsala, publicou na revista especializada Molecular Biology and Evolution uma possível explicação genética.

Para investigar, os cientistas analisaram o DNA de 124 mulheres de San Antonio de los Cobres e compararam os dados com os de populações do Peru e da Colômbia. O que encontraram foi revelador.


Os cientistas concentraram uma parte central da explicação em torno do AS3MT, um gene essencial no metabolismo do arsênio. Em seu entorno, detectaram variantes cuja presença se relacionava a um processamento biológico mais eficiente do metaloide. Essas variantes apareciam com muito mais frequência nos habitantes de San Antonio de los Cobres do que em populações geneticamente semelhantes do Peru e da Colômbia, regiões onde os níveis ambientais de arsênio são muito menores, segundo o estudo.

A análise revelou ainda sinais claros do que os geneticistas chamam de “varredura seletiva”, a marca deixada pela seleção natural quando um traço é rapidamente favorecido em uma população. Em termos simples, esse padrão sugere que as variantes protetoras do gene AS3MT podem ter conferido uma vantagem em ambientes com altos níveis de arsênio. Com o passar das gerações, essa vantagem teria feito com que tais variantes se tornassem cada vez mais frequentes na população.

“A adaptação para tolerar o arsênio como fator de estresse ambiental provavelmente impulsionou um aumento na frequência de variantes protetoras de AS3MT”, escreveu a equipe em seu estudo, que classificou o achado como “a primeira evidência de adaptação humana a uma substância química tóxica”.
Adaptação ao arsênio em outras populações andinas

Trata-se de um caso isolado? Os dados sugerem que não. Um estudo posterior, publicado na Chemosphere em 2022, examinou populações indígenas dos Andes bolivianos – grupos aimará-quéchua e uru – e encontrou sinais igualmente fortes de seleção positiva perto do mesmo gene. De fato, os bolivianos apresentavam a maior frequência já registrada de alelos associados a um metabolismo eficiente do arsênio, e o sinal de seleção estava entre os 0,5% mais intensos de todo o genoma.


Tudo isso aponta para o fato de que a adaptação ao arsênio não é um fenômeno local nem pontual, mas um processo evolutivo que pode ter ocorrido em paralelo em diferentes comunidades andinas expostas durante gerações ao mesmo veneno natural. Quando a pressão ambiental persiste por séculos, a evolução pode favorecer adaptações semelhantes em populações submetidas a pressões ambientais comparáveis.
A epigenética – muito além do DNA

A evolução humana, no entanto, nem sempre implica mudanças diretas no DNA. Além das mutações hereditárias, existem os chamados mecanismos epigenéticos, que modificam a forma como os genes são ativados ou silenciados em resposta ao ambiente. Essas alterações não mudam a sequência genética e podem ser mais flexíveis, já que nem sempre são transmitidas de forma estável entre gerações.


Alguns geneticistas passaram a olhar justamente nessa direção, enquanto outros buscavam respostas no código do genoma. Mais recentemente, por exemplo, pesquisadores da Universidade de Emory se perguntaram se a adaptação andina à altitude – um enigma em si, já que os povos andinos não possuem o mesmo “gene da altitude” identificado nos tibetanos – poderia estar escrita não tanto no DNA, mas na forma como ele se expressa.

Para explorar essa hipótese, eles examinaram as marcas epigenéticas distribuídas ao longo do DNA em 39 participantes de dois ambientes muito diferentes: os Andes equatorianos, representados pelos kichwa, e a bacia amazônica, representada pelos ashaninca.


O estudo, publicado na revista Environmental Epigenetics, detectou mudanças epigenéticas em genes relacionados ao funcionamento do sistema vascular e do músculo cardíaco, além de sinais na via PI3K/AKT, um circuito biológico envolvido em processos como o crescimento muscular e a formação de novos vasos sanguíneos.

Segundo os pesquisadores, essas diferenças epigenéticas poderiam ajudar a explicar alguns traços fisiológicos característicos das populações andinas de grande altitude, como o espessamento das paredes arteriais e o aumento da viscosidade do sangue. Ambos poderiam estar relacionados à adaptação fisiológica à hipóxia – a escassez de oxigênio típica da altitude –, embora também tenham sido associados a um risco maior de hipertensão pulmonar.

“Os achados são particularmente interessantes porque não estamos vendo esses sinais fortes no genoma, mas quando observamos o metiloma, essas mudanças aparecem”, explica John Lindo, professor de antropologia da Emory e autor principal do estudo, em um comunicado da instituição.

Além do caso específico, as mudanças epigenéticas podem constituir uma resposta mais flexível ao ambiente e nem sempre são transmitidas de forma estável entre gerações. O fato de essas modificações aparecerem em populações cuja presença nas terras altas andinas remonta a quase 10 mil anos levanta uma questão importante: até que ponto a epigenética desempenha um papel constante na adaptação humana a ambientes extremos?

Modelo tibetano: outra solução evolutiva

Para compreender melhor como os seres humanos se adaptam à vida em grandes altitudes, vale observar outro laboratório natural da evolução: o planalto tibetano. Ali, a evolução parece ter seguido um caminho diferente.

Um estudo publicado recentemente na revista PNAS, liderado pela antropóloga Cynthia Beall, da Universidade Case Western Reserve, analisou 417 mulheres tibetanas entre 46 e 86 anos, vivendo a altitudes entre 3 mil e 4 milmetros no Alto Mustang, no Nepal. O objetivo era identificar quais características fisiológicas se associavam a maior sucesso reprodutivo, um dos indicadores mais diretos de adaptação evolutiva.


O resultado não foi o que muitos esperavam. As mulheres com mais filhos – algumas chegaram a ter 14 – não apresentavam níveis excepcionalmente altos de hemoglobina. Pelo contrário, mantinham níveis próximos da média, mas com maior saturação de oxigênio no sangue.

Essa combinação está associada a uma maior eficiência no transporte de oxigênio sem engrossar o sangue, evitando assim a sobrecarga do coração. Além disso, as mulheres mais fecundas apresentavam maior fluxo sanguíneo para os pulmões e ventrículos cardíacos mais largos, características que melhoram a eficiência do sistema circulatório em condições de hipóxia.


Parte dessa adaptação tem uma origem inesperada. Uma variante do gene EPAS1, que regula a concentração de hemoglobina e é característica das populações tibetanas, parece ter sido herdada dos denisovanos, uma espécie humana extinta que viveu na Sibéria há cerca de 50 mil anos. Seus descendentes a teriam disseminado ao migrar para o planalto tibetano.
“A adaptação à hipóxia em grande altitude é fascinante porque o estresse é grave, todos o experimentam da mesma forma em uma determinada altitude e ele é quantificável”, explicou Beall à publicação Science Alert. “É um belo exemplo de como e por que nossa espécie apresenta tanta variação biológica.”


Considerados em conjunto, esses estudos traçam um panorama que desafia a ideia de que a evolução humana seja um processo encerrado. Pelo contrário, sugerem que nossa espécie continua a se adaptar aos ambientes em que vive.

Nos Andes, populações expostas durante milhares de anos a toxinas naturais e à escassez de oxigênio desenvolveram respostas genéticas, epigenéticas e 

fisiológicas distintas. No Tibete, diante do mesmo desafio da hipóxia, a evolução seguiu uma via genética diferente. A biologia humana, ao que tudo indica, continua negociando com o ambiente.

REVISTA METROPOLES

terça-feira, 14 de abril de 2026

O que é o Estreito de Ormuz, rota de escoamento de petróleo no Irã

O que é o Estreito de Ormuz, rota de escoamento de petróleo no Irã
O Estreito de Ormuz, por onde é escoado cerca de 20% da produção de petróleo mundial, é fundamental para o equilíbrio do comércio mundial



A principal rota marítima do petróleo mundial voltou ao centro das preocupações geopolíticas e econômicas neste fim de semana, após o ataque coordenado dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, levando ao bloqueio da navegação no Estreito de Ormuz, passagem por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.


Além da interrupção da rota, diversos navios petroleiros foram danificados em ataques na região, segundo informações do governo americano.

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Por que o Estreito de Ormuz importa

O Estreito de Ormuz é a principal via de saída do petróleo produzido na região do Golfo Pérsico, que inclui a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, o Iraque e o próprio Irã


Por ali passam diariamente dezenas de milhões de barris de petróleo e volumes importantes de gás natural liquefeito, conectando o Golfo ao Oceano Índico e aos principais mercados consumidores do mundo.

Especialistas de mercado alertam que, mesmo sem um fechamento total legalizado, a ameaça e a percepção de risco já exercem pressão sobre preços e cadeias de abastecimento, porque empresas de navegação, refinarias e seguradoras recalibram seus planos diante da instabilidade na região.

Na avaliação do professor da Strong Business School, Jarbas Thaunahy, “qualquer bloqueio, mesmo parcial, afetaria fluxos de petróleo e gás natural liquefeito. Mesmo sem interrupção física, o simples aumento do risco eleva custos de frete, seguro marítimo e hedge logístico. Isso encarece cadeias produtivas globais e pode gerar novos gargalos em setores dependentes de energia”, disse.
Repercussão nos mercados e na economia globalO bloqueio ou a interrupção significativa da passagem pelo Estreito de Ormuz tem efeitos diretos nos mercados de energia;
A alta imediata nos preços do petróleo, motivada pela expectativa de menor oferta disponível e aumento nos prêmios de seguro marítimo para navios que transitam pela área de conflito;
Especulação de que o preço do barril pode ultrapassar patamares próximos a US$ 100 ou mais, dependendo da duração do impacto no fluxo de combustíveis;
Além disso, grandes exportadores de petróleo já começaram a considerar ajustes em suas produções para compensar potenciais descontinuidades no fornecimento;
A medida pode causar impacto inflacionário nas economias globais, principalmente nos países emergentes.
Preço do petróleo

O preço do petróleo avançou 10% no último domingo (1/3), chegando a aproximadamente US$ 80 por barril, enquanto analistas projetam que a cotação pode chegar a US$ 100 após os conflitos no Oriente Médio.


Na última sexta-feira (27/2), o produto fechou o mercado a US$ 73 por barril, o maior nível desde julho. O preço foi influenciado pela preocupação com a possibilidade de ataques, já que a tensão entre os países estava em uma escalada a semanas.

Após os ataques, a maioria dos armadores de petroleiros, grandes companhias de petróleo e empresas comerciais interromperam o transporte de petróleo, combustíveis e gás natural liquefeito pelo Estreito de Ormuz.


Na manhã de domingo (1º/3), a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados (Opep+) afirmou que aumentará a produção de petróleo para 206 mil barris por dia, pouco acima das expectativas iniciais, de 137 mil barris, mas abaixo do previsto após o ataque, que era de 411 mil barris diários.

Os mercados asiáticos são os mais afetados com as tensões no local, já que são mais dependentes do petróleo do Oriente Médio, principalmente a China, que é a principal importadora do petróleo do Irã.[
Revista Metrópoles

domingo, 12 de abril de 2026

Trabalho por plataformas digitais

Com a reclusão imposta pela pandemia de covid-19, intensificou-se a já crescente dependência de plataformas digitais – aplicativos, videoconferências, serviços dos mais diversos – para obter algum tipo de tarefa remunerada, o que vem transformando o perfil das atividades econômicas e dos trabalhadores. Embora a chamada ‘plataformização do trabalho’ tenda a se generalizar – a se espalhar para todos os setores e funções –, há brechas que permitem desenvolver tecnologias autônomas capazes de gerar benefícios para os trabalhadores.





A pesquisa mais recente do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) sobre o uso de internet no Brasil durante a pandemia apontou que 76% das pessoas com acesso à internet que trabalhou neste período vendeu algum produto ou serviço por meio de plataformas digitais – incluindo distintos aplicativos e redes sociais digitais. A investigação também mostrou que 8% trabalharam como motoristas ou entregadores por meio desse tipo de plataformas.

Isso evidencia um fenômeno que temos chamado de ‘plataformização do trabalho’, a crescente dependência de plataformas digitais para conseguir alguma forma de ocupação remunerada. O que são essas plataformas? São infraestruturas digitais abastecidas com dados e automatizadas por algoritmos e que podem ter diferentes perfis e desenhos.


De alimentos a pornografia

Plataformas seriam, então, aplicativos? Não necessariamente. O aplicativo pode ser só a fase mais visível – o software – de uma lógica de gestão que está relacionada a toda uma cadeia de suprimentos e de valor. As plataformas oferecem serviços dos mais diferentes tipos – desde alimentação até pornografia.

Em uma dimensão, a plataformização do trabalho é, ao mesmo tempo, resultado e radicalização de processos históricos presentes na sociedade brasileira, como a apropriação do trabalho informal e a intensificação da flexibilização do trabalho. Mas não se trata de algo exótico. Esse processo se materializa em contexto de reestruturação do capital – com altas taxas de desemprego. E os novos mecanismos das plataformas envolvem extração de dados como forma de capital, gerenciamento algorítmico e novas formas de vigilância sobre os trabalhadores.

Tudo isso é embalado por uma retórica de inovação por parte das plataformas digitais, dirigida tanto a trabalhadores quanto a consumidores. Vemos recorrentemente a promessa de “Conheça agora a plataforma que vai mudar sua vida”. Hackathons (maratona em que se criam projetos tecnológicos) fablabs (espaços para experimentação e prototipagem digital) e linkedins (rede profissional) acabam sendo espaços de disseminação de discursos, aliando o empreendedorismo como obrigatoriedade à tecnologia feita no Vale do Silício (região na Califórnia, EUA, que reúne empresas de alta tecnologia).


Perfis diversos

Esses processos são ingredientes para a generalização da plataformização do trabalho, com diferentes perfis de plataformas e trabalhadores. E também distintas lógicas. Isso significa que não são apenas entregadores e motoristas. Há plataformas de trabalho para jornalistas, trabalhadoras domésticas, professores, dentistas, Papai Noel, treinadores de inteligência artificial. Há, inclusive, inúmeros canais vendendo a “oportunidade de ganhar uma renda extra”.


Não são apenas entregadores e motoristas. Há plataformas de trabalho para jornalistas, trabalhadoras domésticas, professores, dentistas, Papai Noel, treinadores de inteligência artificial


Tudo isso materializado em distintas plataformas, inclusive para trabalhar clicando e comentando em conteúdos em redes sociais. Além disso, o OnlyFans (serviço de conteúdo por assinatura) é um exemplo da plataformização do trabalho sexual. Por outro lado, tem até plataformas vip de freelancers (trabalhadores temporários). Plataformas para todos os perfis, gostos e necessidades.

Quando você está vendendo algo via Instagram ou WhatsApp, ou mesmo trabalhando como ‘criador de conteúdo’ para plataformas, seu trabalho também depende de lógicas e mecanismos dessas tecnologias digitais, embora o processo de trabalho seja distinto de um motorista ou entregador.

No plano de seu dia a dia, se a rede social muda alguma funcionalidade, seu trabalho precisa ser reestruturado a partir dessas novidades. Na dimensão econômica, essas plataformas pertencem a conglomerados tecnológicos – como Google e Facebook – e tornam-se oligopólios para transações financeiras, marketplaces (lojas virtuais), coleta, extração e venda de dados. O trabalho remoto também nos deixou mais dependente de plataformas digitais – videoconferências, gestão de tarefas, entre outras – também pertencentes a conglomerados digitais.


Trabalhadores ‘plataformizados’

Há, então, uma multiplicidade de trabalhadores ‘plataformizados’ – nas ruas, nas casas e nos escritórios –, como um verdadeiro laboratório das transformações no mundo do trabalho. Laboratório porque podem ser vistos como experimentos por parte das empresas – inclusive, a relação com o rentismo (ganhos obtidos de atividades econômicas não produtivas) – em relação aos trabalhadores, mudando regras com o jogo em andamento (quando não o próprio jogo). Em alguns países, já há, por exemplo, a adoção de drones (veículos aéreos não tripulados) para entrega de alimentos.

Para onde essa plataformização nos levará? Certamente, os robôs não nos substituirão. Para a automação acontecer de forma cada vez mais intensa, é preciso de um crescente papel de trabalhadores alimentando dados para a inteligência artificial (IA). A australiana-americana Kate Crawford, no livro Atlas of AI, lembra que o que se chama de IA não é nem inteligente, nem artificial, e depende de uma série de recursos materiais, logística, dados e trabalho humano.


Diferentes manifestações

Precisamos, então, prestar mais atenção a todo esse cenário do trabalho por plataformas, e suas distintas manifestações. Por exemplo, no Brasil há mais de 40 plataformas em atividade para as quais trabalhadores alimentam sistemas de inteligência artificial.

Em primeiro lugar, há plataformas em que trabalhadores produzem e treinam dados para sistemas de inteligência artificial, como algoritmos de reconhecimento facial, avaliação de publicidade e transcrição de áudios de redes sociais e assistentes virtuais. Alguns exemplos são Amazon Mechanical Turk (cujo slogan é “inteligência artificial artificial”), Appen (com frases do tipo “dados com um toque humano”) e Lionbridge.

Em segundo, há plataformas de moderação de conteúdo, cujos trabalhadores, em geral, são terceirizados de Facebook e Google, como Cognizant e Pactera. Nesses lugares, os trabalhadores passam o dia analisando imagens e vídeos de pedofilia, esquartejamento, suicídio, entre outros, para decidir o que manter e o que remover da plataforma. Isso, inclusive, traz consequências à saúde mental dos trabalhadores. Recentemente, o Facebook foi obrigado a pagar uma indenização de 52 milhões de dólares a trabalhadores que desenvolveram estresse pós-traumático – como se tivessem voltado de uma guerra.

Em terceiro lugar, há plataformas de fazendas de cliques – a maioria brasileiras –, em que os trabalhadores passam o dia curtindo, comentando e compartilhando posts (publicações) em Instagram, Tiktok e YouTube (plataformas de imagens e vídeos) em troca de pouquíssimas frações de centavos por tarefa. Os solicitantes dessas tarefas vão desde influenciadores até duplas sertanejas e candidatos a prefeitos.

Essas plataformas ‘parasitas’ servem-se dos mecanismos das redes sociais para impulsionar manualmente os conteúdos por meio do trabalho mal remunerado desses ‘bots (robôs) humanos’. Além disso, há todo um mercado paralelo de contas fakes (falsas) e bots como estratégias de trabalhadores para que consigam ganhar um mínimo de dinheiro nessas plataformas.


Brechas e dribles

Prestar atenção para essas atividades de trabalho nos ajuda a compreender as mudanças pelas quais o mundo do trabalho vem atravessando. Contudo, isso não significa que os trabalhadores são entes passivos ou amorfos nesses processos. Pelo contrário, eles procuram brechas e fissuras em algoritmos e plataformas para construir táticas cotidianas no trabalho, desde tentar ‘produzir’ coletivamente a tarifa dinâmica em plataformas para motoristas até se recusar a trabalhar e/ou burlar as lógicas das plataformas – no que Gavin Mueller, da Universidade de Amsterdam (Holanda), tem chamado de táticas neoludistas.


Prestar atenção para essas atividades de trabalho nos ajuda a compreender as mudanças pelas quais o mundo do trabalho vem atravessando. Contudo, isso não significa que os trabalhadores são entes passivos ou amorfos nesses processos


Além dessas táticas cotidianas, temos visto a emergência de formas de organização de trabalhadores em contextos de plataformas, desde coletividades informais – como experiências coletivas de escrita de trabalhadores – até mobilizações e construções de associações e sindicatos. Isso decorre do fortalecimento da própria comunicação entre trabalhadores por meio de grupos de WhatsApp, por exemplo, como forma inicial de organização. Os exemplos vão desde a greve de entregadores em 2020 até construções de sindicatos de gamers, youtubers e influenciadores.

Assim, é preciso pensar as defesas de trabalhadores em um contexto de plataformização, não só no sentido de se recusar a aceitar o cenário vigente, mas também no de se apropriar das lógicas em prol de trabalhadores e do bem comum. Por exemplo, o WeClock é uma tecnologia construída para que trabalhadores consigam quantificar seu dia de trabalho. Com ela, é possível verificar se as plataformas estão pagando-lhes conforme o combinado. Além disso, em caso de alguma discordância com a empresa, a ferramenta pode ser usada na defesa de trabalhadores


Novos arranjos

As possibilidades de reapropriação da plataformização por parte dos trabalhadores também podem envolver a construção de plataformas que sejam de suas propriedades, seja em cooperativas de plataforma ou em outros arranjos de trabalho e desenhos institucionais. O cooperativismo de plataforma simboliza a união das potencialidades tecnológicas digitais com a força da organização cooperativista. Algo como: e se motoristas e entregadores possuíssem suas próprias plataformas?


De cinco anos para cá, diversas plataformas controladas por trabalhadores têm surgido pelo mundo, em áreas como fotografia, música, arte, entrega de comida, trabalho doméstico, atividades autônomas diversas


De cinco anos para cá, diversas plataformas controladas por trabalhadores têm surgido pelo mundo, em áreas como fotografia, música, arte, entrega de comida, trabalho doméstico, atividades autônomas diversas.

Essas plataformas controladas por trabalhadores podem ser também laboratórios, construindo experiências locais para desafiar a noção dominante de plataformização. Elas podem reinventar circuitos econômicos locais de produção e consumo por meio de plataformas que melhorem condições de trabalho e, ao mesmo tempo, promovam políticas de mobilidade, melhorias de transporte público, serviços de cuidados, com integração ao sistema de saúde.

Realisticamente, elas não substituirão em curto prazo as grandes plataformas de trabalho, pois existe a forte pressão da concorrência – envolvida em capital de risco e possibilidades de lobby – e riscos de autoexploração, entre outras contradições. Mesmo sabendo dos desafios, é preciso enfrentar essas contradições. Elas podem tornar-se referenciais para políticas públicas a partir da construção de iniciativas que envolvam trabalho decente e se articulem com o combate às desigualdades – inclusive algorítmicas – e a construção de tecnologias para o bem comum.

A noção de plataforma digital, ao contrário do que muita gente pensa, não é somente tecnológica. Envolve questões como governança, propriedade, organização do trabalho, política e modelos econômicos, além das próprias infraestruturas tecnológicas. Dessa forma, as plataformas controladas por trabalhadores são atravessadas por múltiplas dimensões, sendo a questão tecnológica o resultado de um processo. Caso contrário, incorremos em um fetichismo tecnológico, com o risco de a plataforma se tornar um elefante branco. Assim, esses experimentos não têm fórmula pronta, nem se fazem da noite para o dia, como um aplicativo solucionador de todos os problemas.


Direitos nas plataformas

Lutar por trabalho decente em plataformas envolve: salário-mínimo, condições de trabalho adequadas que proporcionem saúde e rede de segurança, contratos claros e acessíveis, processo de gestão que garanta equidade entre trabalhadores e combata desigualdades – como de raça e gênero – na plataforma, algoritmos que não prejudiquem trabalhadores, e espaço para que, de fato, eles tenham voz. Além desses princípios, a autogestão pressupõe ainda que, além do trabalho para a plataforma, haja um trabalho de cuidado coletivo. Isto é, a saúde – física e mental – de trabalhadores é uma responsabilidade coletiva.

As plataformas controladas por trabalhadores também desafiam a ideia de que a economia de plataformas necessita de escala. Pensando nos trabalhadores, nem as startups (empresas, principalmente de base tecnológica, em fase inicial) possuem muitos trabalhadores. Um levantamento da Associação Brasileira de Startups mostra que 63% das startups brasileiras possuem até cinco pessoas. Da mesma forma, não necessariamente cooperativas e coletivos de entregadores ou motoristas contarão com 30 mil pessoas envolvidas ou algo em torno dessa quantidade. E não há argumentos para deslegitimar iniciativas autogestionárias com três ou cinco trabalhadores apenas por causa de seu tamanho. A questão da escala no cooperativismo de plataforma não se dá necessariamente pelo número de trabalhadores na própria empresa, mas a partir de seu potencial de articulação.

Uma das fortalezas das plataformas de propriedade de trabalhadores é justamente a sua capacidade de articulação e cooperação entre iniciativas. Por exemplo, a cooperativa de entregadores Resto.Paris, a partir de financiamento da prefeitura da capital francesa, articulou-se com a federação CoopCycle – que construiu software para iniciativas desse tipo – e adotou um selo de alimentação saudável, sendo uma importante política pública para fazer girar a economia local.


Carros autônomos construídos por grandes empresas de tecnologia tendem a atropelar mais negros do que brancos porque não os reconhecem como pessoas. A justiça social, portanto, deve estar presente ao projetar tais plataformas digitais


Por fim, o papel das tecnologias, embora não seja o único fator envolvido, deve ser considerado. O design (projeto) e os algoritmos das plataformas controladas por trabalhadores devem considerá-los no centro. Já é muito sabido que algoritmos e outras tecnologias podem reproduzir desigualdades históricas (de classe, raça, gênero, sexualidade), agora automatizadas. Por exemplo, carros autônomos construídos por grandes empresas de tecnologia tendem a atropelar mais negros do que brancos porque não os reconhecem como pessoas. A justiça social, portanto, deve estar presente ao projetar tais plataformas digitais.

As políticas de dados também são um elemento central nesse processo, uma vez que a extração de dados tem sido uma nova forma de rentismo, ampliando nosso colonialismo digital. Já há, por exemplo, cooperativas de dados, como a Driver’s Seat, em que trabalhadores coletam informações deles mesmos em suas atividades para as grandes empresas de tecnologia, e depois revendem para órgãos públicos, de modo a que o setor público não sofra de dependência de tais conglomerados tecnológicos. Isso significa pensar as infraestruturas digitais das plataformas controladas por trabalhadores a partir de tecnologias livres e dados para o bem comum.

Assim, se a plataformização do trabalho tende à generalização por uma série de mecanismos ligados aos oligopólios digitais e a suas cadeias de fornecimento, há também possibilidades de construção de tecnologias autônomas e de defesa de trabalhadores, lutando por outro tipo de plataformização do trabalho.


Rafael Grohmann
Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Revista Ciência Hoje

Quais áreas são consideradas pontos críticos (hotspots) para a conservação da biodiversidade global?



Departamento de Ecologia
Universidade de São Paulo


 As espécies e as linhagens não se distribuem de modo homogêneo ou aleatório no planeta. Existem regiões mais ricas, outras mais pobres em determinadas linhagens. Temos ainda que algumas espécies ou linhagens têm distribuição ampla, por vezes até cosmopolita. Outras estão restritas a regiões pequenas e a ambientes específicos e raros. Assim, quando falamos de conservação da biodiversidade, temos que agregar, além da riqueza, outro fator central para o entendimento da diversidade da vida no planeta: a singularidade espacial, ou, em termos biogeográficos, o conceito de endemismo. Não basta selecionar as áreas com mais espécies, mas levar em conta também o quão singular, em termos espaciais (biogeográficos) é uma dada região. Uma espécie ou linhagem endêmica a uma dada área só ocorre naquela área, e em nenhuma outra região do planeta. Em geral, são linhagens com associações evolutivas, históricas com aquela dada região, ou seja, que evoluíram naquela e em suas condições naturais específicas de clima, topografia, tipos de ambiente. 

Assim, um estudo clássico da Conservação Internacional, em 2000, definiu 25 regiões globais prioritárias para a conservação da biodiversidade, denominadas hotspots de biodiversidade, por abrigarem alta riqueza de espécies endêmicas e estarem amplamente impactadas pela perda de hábitat (menos de 30% de áreas íntegras). 

Portanto, os hotspots são regiões ricas em biotas muito singulares, endêmicas, e que estão severamente impactadas por desmatamento e fragmentação de hábitat. Se nada for feito nessas áreas, um conjunto grande de espécies estará sob alto risco de extinção em um curto espaço de tempo. No Brasil, Mata Atlântica e Cerrado foram elencados na lista dos hotspots globais de biodiversidade. E, de modo nada surpreendente, segundo dados oficiais sobre risco de extinção, são as duas regiões que abrigam maior número de espécies ameaçadas de extinção na fauna brasileira. É preciso agir de modo rápido para conter a perda de hábitat, reduzir a fragmentação e os riscos a essas biotas únicas, e cada vez melhor conhecidas pela ciência, que, nas últimas duas décadas, descreveu centenas de novas espécies de vertebrados nessas duas regiões prioritárias globais.https://cienciahoje.org.br/artigo/quais-areas-sao-consideradas-pontos-criticos-hotspots-para-a-conservacao-da-biodiversidade-global/

As nuvens brancas e o azul do céu e do mar


Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos (SP)


Pare um instante e observe o azul do céu e o branco das nuvens. Por trás dessas cores, está o chamado espalhamento da luz, fenômeno óptico só explicado no século 19. Até onde sabemos, esse espetáculo único só pode ser apreciado em nosso maravilhoso planeta


CRÉDITO: IMAGEM ADOBESTOCK



É fim da tarde. Depois de rápida chuva, o ambiente ficou mais fresco, e o céu ganhou um azul lindo, com nuvens brancas. Cena comum em dias de verão.

As nuvens são feitas de partículas de água e gelo em suspensão, em uma atmosfera que é basicamente composta por nitrogênio e oxigênio, ambos em forma gasosa.

A água transformada em vapor – por causa da ação do Sol e do calor do ambiente – é mais leve que o ar. Portanto, sobe para o céu, onde encontra regiões atmosféricas mais rarefeitas e, por isso, com temperaturas mais baixas.

O vapor se condensa na forma de gotas ou gelo, formando as nuvens. A grande maioria das gotas tem dimensões microscópicas (da ordem de um milésimo de milímetro).

Mas por que elas são brancas?

A luz que nossos olhos observam está restrita a uma faixa do chamado espectro eletromagnético que denominamos visível, que vai do vermelho ao violeta. Cada cor corresponde a uma frequência de oscilação da luz – ou a um comprimento de onda, distância entre dois ‘picos’ (máximos) ou ‘vales’ (mínimos) da onda eletromagnética.

Para a luz visível, essas distâncias estão entre 380 e 720 bilionésimos de metro (nanômetros). Como as gotículas de água na nuvem estão em uma escala mil vezes maior (micrômetros), todos os comprimentos de onda da luz visível, ao interagirem com essas gotículas, se espalham em todas as direções, combinando-se entre ele
Revista Ciência Hoje

sábado, 11 de abril de 2026

Experimentos indicam que agrotóxicos e fertilizantes desequilibram ecossistemas aquáticos


Contaminantes provocaram desaparecimento de predadores e interferiram em papeis ecológicos de organismos aquáticos

Texto: Ivanir Ferreira
Arte: Leonor T. Shiroma




Pesquisadores enchendo os tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto próximo a áreas agrícolas para análise da água e monitoramento dos macroinvertebrados como larvas, insetos, moluscos e minhocas – Foto: Allan Pretti Ogura


Em meio à expansão do setor sucroenergético brasileiro que demanda uso intensivo de defensivos agrícolas, pesquisa da USP alerta para os impactos desses contaminantes na base da cadeia alimentar aquática, com efeitos indiretos sobre peixes e outros predadores. O estudo mostra que os macroinvertebrados bentônicos — como larvas de insetos, moluscos e minhocas — estão entre os organismos mais sensíveis às substâncias. A aplicação isolada ou combinada do inseticida fipronil e do herbicida 2,4-D (herbicida), além da vinhaça — resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar —, levou ao desaparecimento de predadores e a desequilíbrios ecossistêmicos. A contaminação comprometeu funções essenciais desempenhadas por esses organismos, como a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e o controle populacional de espécies.

A coleta e a análise das amostras de água, assim como o monitoramento dos macroinvertebrados, foram realizados em tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto, próximos a áreas agrícolas no município de Itirapina (SP), onde a cana-de-açúcar é a principal atividade econômica. As observações ocorreram 7, 14, 28, 75 e 150 dias após a exposição aos contaminantes.

Os resultados foram publicados no artigo científico Impacts of pesticides and vinasse on the composition and functional diversity of aquatic macroinvertebrates exposed in a mesocosm system, assinado, entre outros autores, pela professora Raquel Aparecida Moreira, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, e pelo pesquisador Thandy Junio da Silva Pinto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).




Macroinvertebrados – Larvas, insetos, moluscos e minhocas afetados pelos poluentes – Foto: Allan Pretti Ogura

Vinhaça
Raquel Aparecida Moreira, FZEA/ USP - Foto: Arquivo pessoal


A professora Raquel destaca que os resultados confirmaram a toxicidade da vinhaça e seu elevado potencial de impacto ambiental, especialmente quando aplicada em conjunto com agrotóxicos, prática comum na agricultura brasileira. Segundo a pesquisadora, a vinhaça é um resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar e é utilizada como fertilizante, por [td1.1]fertirrigação. O produto apresenta altas concentrações de nutrientes, como potássio, magnésio, fósforo e nitrogênio.

“É justamente a elevada carga de nutrientes e de matéria orgânica que compromete o ecossistema aquático”, relata. A vinhaça analisada apresentou Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) de 46.500 miligramas por litro e Demanda Química de Oxigênio (DQO) de 107.000 miligramas por litro — indicadores de grande quantidade de matéria orgânica e alto consumo de oxigênio na água.


“A redução do oxigênio pode ter consequências graves. Se os níveis caem muito, peixes e outros organismos aquáticos podem morrer por asfixia. Por isso, a DBO é um dos principais parâmetros para medir a qualidade da água e o grau de poluição de rios e lagoas”, explica Raquel.




Visão geral dos mesocosmos instalados próximos a áreas agrícolas – Foto: Allan Pretti Ogura

Contaminação por fertilizantes e agrotóxicos potencializa efeitos


Thandy da Silva Pinto- afirma que, nas amostras em que a vinhaça foi aplicada junto aos agrotóxicos, houve prolongamento da permanência do fipronil na água e aceleração da degradação do 2,4-D em subprodutos (metabólitos) que, segundo o pesquisador podem ser tão ou mais tóxicos que a molécula original.

De acordo com o pesquisador, essas alterações químicas tiveram impacto direto sobre a fauna aquática. “Na prática, o ecossistema deixa de funcionar de forma equilibrada, mesmo que nem todas as espécies desapareçam”, diz. Nos tanques contaminados com 2,4-D, foi registrado aumento de organismos conhecidos como coletores-catadores — que se alimentam de partículas orgânicas — e redução acentuada de raspadores, grupo essencial no controle de algas, sobretudo na amostragem realizada aos 75 dias.
Thandy Junio da Silva Pinto, Unicamp - Foto: Arquivo pessoal


O fipronil foi o contaminante mais tóxico. Nas amostras contaminadas com inseticida, os pesquisadores observaram ausência total de predadores após a exposição. O mesmo ocorreu quando os dois agrotóxicos foram aplicados em conjunto.


Já nos ambientes com aplicação exclusiva de vinhaça, houve predominância de predadores e redução de coletores-catadores. Quando a vinhaça e os agrotóxicoss foram utilizados simultaneamente, os coletores-catadores permaneceram até o sétimo dia, mas posteriormente foram registradas mudanças significativas na composição dos grupos funcionais, evidenciando o efeito combinado dos poluentes.

Os pesquisadores destacam que os resultados reforçam a necessidade de monitoramento contínuo e de critérios mais rigorosos para o uso combinado de agrotóxicos e fertilizantes em áreas próximas a corpos d’água. Segundo eles, a adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis é fundamental para reduzir os riscos de contaminação e evitar impactos duradouros sobre a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

Mais informações: Raquel Aparecida Moreira, raquelmoreira@usp.br e Thandy Junio da Silva Pinto, thandyjuniosilva@gmail.com
JORNAL DA USP

PROVA CEFET-MG 2026 - SIMULADO

 1. Analise o gráfico. 


De acordo com esse gráfico, a geração de energia elétrica no Brasil é mais dependente da(do): 

A) matriz de petróleo, que assegura o funcionamento das usinas. 

B) intensidade dos ventos, que determina o movimento das turbinas. 

C) padrão de nebulosidade, que interfere no desempenho dos painéis. 

D) regime de chuvas, que condiciona o abastecimento dos reservatórios.

2. As exportações brasileiras de carne bovina dão sinais de que – em meio à queda acentuada registrada nas vendas para os Estados Unidos, devido à sobretaxa imposta pelo presidente Donald Trump – já estão migrando para outros destinos. A principal evidência desse movimento vem do México, que, até o ano passado, sequer figurava na lista dos dez maiores importadores da carne brasileira. Esse país acaba de ultrapassar as compras feitas pelos Estados Unidos, ficando em segundo lugar do ranking, só atrás da China, que também segue em expansão. 

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/08/mexico-desbanca-eua-eja-e-segundo-maior-comprador-de-carne-brasileira.shtml Acesso em 25 ago. 2025. (adaptado). 

A mudança nos fluxos comerciais descrita nesse texto reforça a 

A) subordinação dos países periféricos, evidenciando sua submissão às economias centrais. 

B) consolidação de barreiras sanitárias, limitando a efetivação de acordos bilaterais de comércio. 

C) redução do protecionismo comercial, indicando a suspensão de tarifas pelos países desenvolvidos. 

D) cooperação de países emergentes, reduzindo suas vulnerabilidades às ameaças comerciais externas.

3. Analise a figura. IBGE. 



Os dados apresentados na figura revelam que, no Brasil, nos últimos anos, tem ocorrido a 

A) redução do fenômeno da verticalização nos espaços urbanos. 

B) ampliação do comprometimento da renda com domicílio no país.

C) erradicação de espaços habitacionais irregulares nas cidades. 

D) diminuição do quantitativo de unidades domiciliares ao longo do tempo. 

4.  Nas últimas décadas, principalmente após a crise financeira de 2008, tornou-se evidente a limitação do modelo de globalização econômica baseada na financeirização e na desindustrialização acelerada. A pandemia da Covid-19, a emergência climática e os choques nas cadeias globais de valor reforçaram a centralidade do Estado e do planejamento estratégico para garantir a resiliência, a segurança produtiva e o bem-estar coletivo. O retorno da política industrial ao centro do debate internacional – por meio de estratégias nacionais como a Lei de Redução da Inflação (2022) dos Estados Unidos, os programas industriais da União Europeia e o modelo chinês de Estado desenvolvimentista – expressa essa nova fase do capitalismo global, mais orientada por interesses geopolíticos. FREDDO, D.; ROVENTINI, A.; BARROS, P. S. O tempo da política industrial no mundo. Revista Tempo do Mundo, IPEA: Brasília, n. 36, dez. 2024. (adaptado) 

De acordo com o texto, a nova fase do capitalismo global utiliza a 

A) elevação tarifária como uma estratégia para liberalização comercial. 

B) desregulamentação ambiental como condição para comercialização mundial. 

C) reorganização produtiva como um instrumento para desenvolvimento econômico. 

D) padronização das condições de trabalho como ferramenta para maximização de lucros.

5. As imagens a seguir referem-se a dois biomas localizados no hemisfério sul do Brasil.









Os gráficos que representam as características climáticas das regiões dos biomas I e II são, respectivamente: 

7. Analise a figura. 


Conforme a figura, a ocupação do espaço agrário amazônico tem-se caracterizado predominantemente pela 

A) adoção do sistema agroflorestal de cultivos intercalados. 

B) expansão de práticas redutoras da biodiversidade regional. 

C) ampliação de áreas agrícolas com produção de base familiar. 

D) manutenção do baixo Coeficiente de Gini fundiário na região. 


GABARITO:

1. D   2. D   3.  B  4. C  5.  A  6.  B 

PROVA DE GEOGRAFIA CEFET-MG 2025 - SIMULADO

 1. Nas asas do pensamento o homem remonta-se aos ardentes sertões da África, vê os areais sem fim da Pátria e procura abrigar-se debaixo daquelas árvores sombrias do oásis, quando o sol requeima e o vento sopra quente e abrasador: vê a tamareira benéfica junto à fonte, que lhe amacia a garganta ressequida; vê a cabana onde nascera, e onde livre vivera! REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. Belo Horizonte: LED/Cefet-MG, 2024, p. 34-35. 

Os elementos mencionados nesse texto indicam um clima caracterizado por 

A) elevado indicador de nebulosidade e baixa insolação. 

B) baixa amplitude térmica e elevada pluviosidade média. 

C) baixo índice pluviométrico e elevada temperatura média. 

D) elevada umidade relativa do ar e baixa pressão atmosférica.

2. O crescimento das cidades brasileiras ocorreu sem que o emprego industrial tomasse grande proporção na estrutura ocupacional. Isso fez com que a população recém-chegada às cidades, empurrada pelo êxodo rural, tivesse como alicerce a inserção no setor de serviços, em grande parte em atividades informais e com baixos rendimentos. Nesse processo, parte da população inseriu-se de forma periférica tanto na estrutura ocupacional quanto no território das cidades, habitando as zonas periféricas ou as regiões com sérias deficiências de estrutura urbana. COSTA, Marco Aurélio. Diálogos para uma Política Nacional de Desenvolvimento Urbano: temas transversais à PNUD. Brasília: IPEA, 2024, p.136. 

A dinâmica socioespacial descrita teve como consequência a 

A) redução significativa do emprego no setor terciário. 

B) distribuição equitativa dos habitantes rurais e urbanos. 

C) ampliação expressiva da segregação no espaço urbano. 

D) inserção predominante da força de trabalho no setor primário.

3. Analise o mapa. 



 Escala 1:200 000 000 0 1 250 2 500 km PROJEÇÃO DE ECKERT III N Formas de relevo Formas de relevo Planície Depressão Planalto Montanha Outros Deserto IBGE. Atlas geográfico escolar. 9ª ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2023, p.67. 

Sobre essa representação, afirma-se que: 

I- O mapa apresenta pequena escala cartográfica, razão pela qual não existem muitos detalhes. 

II- A área possui grande extensão espacial e permite o reconhecimento das feições locais do relevo. 

III- As altas latitudes estão com suas áreas superdimensionadas devido à dificuldade em representar, no plano, uma superfície semelhante a uma esfera. 

IV- O Brasil está em uma posição equivocada ao ser representado cartografado no centro. 

Estão corretas apenas as afirmativas 

A) I e II. 

B) I e III. 

C) II e IV. 

D) III e IV.

4. Entretanto em uma risonha manhã de agosto, em que a natureza era toda galas, em que as flores eram mais belas, em que a vida era mais sedutora — porque toda respirava amor —, em que a erva era mais viçosa e rociada, em que as carnaubeiras, outras tantas atalaias ali dispostas pela natureza, mais altivas, e mais belas se ostentavam, em que o axixá com seus frutos imitando purpúreas estrelas esmaltava a paisagem, um jovem cavaleiro melancólico, e como que exausto de vontade, atravessando porção dum majestoso campo, que se dilata nas planuras de uma das nossas melhores, e mais ricas províncias do Norte, deixava-se levar ao través dele por um alvo e indolente ginete. REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. Belo Horizonte: LED/Cefet-MG, 2024, p. 12. 



AB’SÁBER, Aziz Nacib. Ecossistemas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008. p. 119. 

A imagem ilustra a descrição da paisagem feita no texto que caracteriza a transição entre os ecossistemas 

A) Amazônia e Caatinga. 

B) Campos e Mangues. 

C) Cerrado e Araucárias. 

D) Mata Atlântica e Restingas.

5. Analise o mapa. 

 

A concentração populacional no Brasil resulta de um processo de 

A) priorização do modal hidroviário na interligação da rede urbana brasileira. 

B) incentivo governamental de ocupação das planícies centroocidentais do país. 

C) retração da fronteira agrícola do norte para o sudeste nas últimas décadas. 

D) centralização de espaços industriais nas principais cidades do leste e do centro-sul

6. Analise o gráfico.

 

A evolução na liberação de agrotóxicos para uso no espaço agrário brasileiro teve como consequência a 

A) supressão dos cultivos de transgênicos nas grandes propriedades monocultoras. 

B) ampliação no risco da poluição de aquíferos com contaminação crônica de humanos. 

C) restrição do uso em cultivos agrícolas para exportação excluindo aqueles para consumo interno. 

D) aproximação do Brasil aos padrões quantitativos de países europeus quanto ao uso desses insumos.


GABARITO:

1. C  2.C  3. B  4. A  5. D  6.   B

Estrelas com mais de 10 bilhões de anos trazem novas pistas sobre a origem da Via Láctea



Estimativa que considera dados sobre composição química, temperatura e distância da Terra aponta estrelas mais antigas que a fusão de galáxias que teria originado parte da Via Láctea



Texto: Júlio Bernardes


Via Láctea, onde está o nosso sistema solar, é uma galáxia do tipo espiral, onde a maior parte das estrelas está distribuída em uma grande estrutura de poeira achatada (disco), que também contém nuvens de gás e poeira, fundamentais na formação de novas estrelas – Imagem: European Space Agency (ESA)


Um trabalho de pesquisadores da USP traz novos indícios para o estudo da origem da nossa galáxia, a Via Láctea. Os cientistas produziram estimativas da idade de estrelas ao combinar dados de telescópios sobre composição química, temperatura e distância da Terra, com auxílio do código de computador Star Horse. As análises identificaram estrelas com idade superior a 10 bilhões de anos, e que seriam anteriores à fusão de galáxias que teria dado origem ao disco fino, área mais concentrada da Via Láctea. O estudo é descrito em artigo da publicação científica The Astrophysical Journal.


“No Universo, as galáxias podem apresentar diferentes formatos”, afirma ao Jornal da USP a pesquisadora Lais Borbolato, doutoranda do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, primeira autora do artigo. “Existem galáxias elípticas, que têm uma forma mais esférica, galáxias irregulares, que não possuem um formato bem definido, e galáxias espirais, que apresentam uma estrutura achatada, semelhante ao formato de um disco.”

“A Via Láctea é uma galáxia do tipo espiral, o que significa que a maior parte de suas estrelas está distribuída em uma grande estrutura achatada. O Sol é uma dessas estrelas e, portanto, nós também estamos localizados dentro desse disco galáctico”, explica a pesquisadora. “Além das estrelas, o disco da Via Láctea contém nuvens de gás e poeira, que desempenham um papel fundamental na formação de novas estrelas.”


Lais Borbolato - Foto: Arquivo Pessoal


De acordo com Lais Borbolato, a diferença entre os discos da Via Láctea está na composição química das estrelas, em seus movimentos e na forma como estão distribuídas no espaço. “De maneira simplificada, podemos imaginar esses dois componentes como dois discos sobrepostos”, observa. “O disco espesso é, como o nome indica, mais “grosso” verticalmente e está mais concentrado nas regiões internas da galáxia, ou seja, não se estende tanto para longe do centro. Já o disco fino é mais achatado e se espalha por distâncias maiores.”

“Do ponto de vista da composição química, as estrelas do disco espesso apresentam maiores quantidades de elementos químicos como magnésio (Mg) e oxigênio (O), quando comparadas às estrelas do disco fino. Já o disco fino é mais rico em outros elementos como Ferro (Fe) e Níquel (Ni)”, relata a pesquisadora.

“Por fim, há diferenças também na cinemática, isto é, no movimento das estrelas. Embora todas orbitem o centro da galáxia, as estrelas do disco espesso se movem com velocidades intermediárias e em órbitas menos circulares. Em contraste, as estrelas do disco fino, como o Sol, apresentam velocidades maiores e órbitas mais próximas de círculos.”

Idade das estrelas


Os pesquisadores analisaram a distribuição de idades das estrelas dos discos fino e espesso da Via Láctea. “Usamos uma amostra maior e mais confiável do que a disponível em trabalhos anteriores, comparando essas idades com a estimativa do momento da última grande fusão sofrida pela Via Láctea, ocorrida com uma galáxia menor há 10 bilhões de anos”, aponta Lais Borbolato. “Essa comparação é um ponto central do estudo, pois o modelo mais aceito para a formação do disco galáctico propõe que o disco espesso teria se formado inteiramente antes dessa fusão, enquanto o disco fino teria se formado posteriormente, a partir do gás trazido por essa galáxia satélite.”

“Ao empregar essa nova amostra de dados foi possível mostrar que esse cenário não explica completamente as observações. Identificamos centenas de estrelas com características do disco fino que possuem idades anteriores à fusão, comparáveis às idades das estrelas do disco espesso”, diz a pesquisadora. “Esses resultados indicam que essas estrelas não podem ter se formado segundo o modelo tradicional, apontando para a necessidade de revisar os cenários de formação dos discos da Via Láctea.”

As idades das estrelas do disco foram determinadas com o auxílio de um código computacional chamado StarHorse, desenvolvido principalmente na Alemanha, mas por um grupo de pesquisadores majoritariamente brasileiro. “Esse código combina informações obtidas por três técnicas observacionais diferentes, fotometria, espectroscopia e astrometria, fornecidas por telescópios e instrumentos astronômicos”, descreve Lais Borbolato. “De forma simplificada, a fotometria fornece informações relacionadas à temperatura da estrela, a espectroscopia revela sua composição química, e a astrometria indica a distância da estrela em relação a nós.”



Telescópio espacial realiza observações de estrelas do disco da Via Láctea (em amarelo); idade das estrelas foi estimada a partir de dados sobre temperatura, composição química e distância em relação à Terra – Imagem: European Space Agency (ESA)


“O StarHorse reúne esses três tipos de dados e os compara com modelos teóricos de evolução estelar, permitindo estimar a idade mais provável de cada estrela. As bases de dados utilizadas na pesquisa fornecem medidas muito precisas de composição química e velocidade das estrelas, o que é essencial para distinguir quais pertencem ao disco fino e quais fazem parte do disco espesso”, ressalta a pesquisadora. “Quando essas informações são combinadas com as idades estelares estimadas pelo código, obtemos uma amostra robusta e confiável para o estudo dessas duas populações da Via Láctea. O método em si já é conhecido há algum tempo, seu caráter inovador está na aplicação de forma automática e consistente a um volume muito grande de estrelas.”

O trabalho identificou e analisou centenas de estrelas que apresentam características químicas e cinemáticas típicas do disco fino, mas com idades superiores a 10 bilhões de anos. “Essas idades são anteriores à última grande fusão sofrida pela Via Láctea. Esse achado é particularmente relevante porque não pode ser explicado pelos modelos tradicionais em que essa fusão seria um evento necessário para a formação do disco fino”, salienta Lais Borbolato. “Assim, os resultados indicam que o disco fino pode ter começado a se formar mais cedo do que se pensava, de forma simultânea ao disco espesso. Isso aponta para a necessidade de investigar outros mecanismos de formação capazes de explicar a origem conjunta desses dois componentes do disco da Via Láctea.”

A pesquisa contou com a participação de Lais Borbolato e Fabrícia Barbosa, doutorandas em Astronomia, João Nogueira Santos, graduando, e Silvia Rossi, professora do Departamento de Astronomia do IAG, Hélio Perottoni, professor no Observatório Nacional (ON) no Rio de Janeiro, Guilherme Limberg, pós-doutorando na University of Chicago (Estados Unidos), João Amarante, em pós-doutorado na Shanghai Jiao Tong University (China), Anna Queiroz, pós-doutoranda no Instituto de Astrofísica de Canarias (Espanha), Cristina Chiappini, pesquisadora no Leibniz-Institut für Astrophysik Potsdam (Alemanha), Friedrich Anders, pós-doutorando na Universitat de Barcelona (Espanha). Limberg, Anna Queiroz, Cristina Chiappini e Anders são membros da colaboração do StarHorse, responsável pelas estimativas das idades estelares.

O artigo pode ser acessado neste link.

Mais informações: e-mail laisborbolato@usp.br, com Lais Borbolato
Jornal da USP

Por que Vênus gira ao contrário? Modelo matemático encontra solução na própria atmosfera do planeta





Explorando as vizinhanças do nosso sistema solar, professor da USP explica como exoplanetas podem girar ao contrário a partir de forças de maré e torque atmosférico



Texto: Sthephany Oliveira*
Arte: Gustavo Radaelli**


Imagem do planeta Vênus com filtro ultravioleta e infravermelho – Imagem: Kevin Gill/Flickr


Trabalho publicado na revista The Astronomical Journal traz uma nova perspectiva para o giro retrógrado de planetas na Zona Habitável, região da órbita de um planeta que permite a existência de água líquida em sua superfície. Descartando que a persistência da rotação reversa de Vênus tenha sido causada por uma colisão espacial, o estudo propõe uma solução matemática que aponta para a evolução da atmosfera em conjunto com as forças de maré – deformações causadas pela variação da gravidade em um corpo extenso – como explicação para a rotação atípica do nosso planeta vizinho.

É o caso de Vênus: ao contrário dos demais planetas, que giram ao redor dos seus eixos na mesma direção do movimento orbital, Vênus o faz ao contrário; roda para trás e lentamente.


A explicação estaria na origem dos sistemas planetários, em que uma estrela recém-formada encontra-se rodeada de uma nuvem de gás e poeira em rotação – chamada na astronomia de Disco Protoplanetário. Esta nuvem fornece o material necessário para que a gravidade atue na construção dos planetas. Por causa disso, é esperado que os planetas guardem “memória” da rotação da nuvem a partir da qual eles se formaram, influenciando no sentido de translação e de rotação, comum aos planetas de um sistema solar.

“Todos os planetas de um sistema se formam de uma mesma nuvem e herdam a rotação no mesmo sentido. No nosso sistema solar, a única exceção real é Vênus, apesar da meia exceção que é Urano, que tem o eixo de rotação ‘deitado’ e gira como se estivesse rolando em sua órbita. No caso de Urano o que se supõe é que, realmente, tenha ocorrido uma pequena colisão durante o momento de sua formação”, afirma ao Jornal da USP o professor Sylvio Ferraz Mello, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e autor do artigo.



Sylvio Ferraz Mello – Foto: IAG-USP


O mistério da rotação retrógrada de Vênus existe há mais de 50 anos, pois a hipótese de colisão não é suficiente para explicar o fenômeno observado em sua totalidade. O trabalho do professor apresenta uma solução matemática simples e geral, através da dinâmica entre as forças de interação gravitacional e resultantes atmosféricas. A explicação pode ser aplicada a qualquer planeta semelhante à Terra, próximo de sua estrela central e que tenha uma evolução atmosférica parecida com o caso de Vênus.

Um planeta “do contra”


O planeta Vênus se assemelha bastante à Terra em termos de tamanho, massa e proximidade em relação ao Sol. No entanto, além de girar ao contrário, Vênus demora cerca de 243 dias terrestres para completar sua rotação e leva 225 dias terrestres para girar ao redor do Sol. Isso significa que o ano venusiano (tempo de translação) é mais curto que a duração de um dia no planeta (tempo de rotação). Além disso, apesar de não ser o planeta mais próximo do Sol, Vênus é o planeta mais quente do sistema solar devido à atividade vulcânica e sua densa atmosfera, composta em mais de 95% de gás carbônico. Essa composição provoca intenso efeito estufa, refletido na temperatura superficial média de 462ºC do planeta.

De acordo com o artigo, as protuberâncias térmicas da atmosfera podem afetar fortemente a rotação de um planeta, de modo que a rotação retrógrada de Vênus teria sido “freada” e revertida em um tempo relativamente curto caso não houvesse atmosfera no planeta.

“A rotação contrária do planeta não persistiria por um longo tempo se a rotação tivesse sido invertida devido a uma colisão no passado, e a natureza da rotação observada atualmente é uma indicação clara da existência de uma força que continua agindo, impelindo o movimento no sentido contrário”, afirma Mello.



Representação artística da missão Plato da ESA, na qual o estudo do professor Mello está inserido, que descobrirá planetas potencialmente habitáveis ao redor de estrelas semelhantes ao nosso Sol – Imagem: ESA/ATG Europe/Wikipédia


Efeitos da radiação solar


A atração do Sol produz deformações na atmosfera de Vênus, adicionando torque – força que produz rotação em um corpo – que desacelera a rotação do planeta. Além disso, a radiação solar aumenta a temperatura no entardecer, o que faz as massas de ar fluirem para regiões mais frias.

Em determinada região da superfície, a protuberância das marés seria sentida depois do meio-dia. Dessa forma, a atração gravitacional do Sol na atmosfera introduz um torque em direção oposta ao da força de maré gravitacional que, associado à transferência de massa da superfície do planeta para a atmosfera, aumenta o momento de inércia do corpo, tornando favorável o desenvolvimento do movimento retrógrado de rotação do planeta.

O principal resultado do trabalho indica que nenhuma colisão com outros corpos é necessária para converter a rotação de um planeta semelhante à Terra – com uma atmosfera significativa, formada ao longo de sua evolução – em uma rotação retrógrada. Basta que o planeta esteja a uma distância da estrela hospedeira suficientemente pequena para que os torques de maré quase sincronizem a rotação do planeta antes que a maior parte de sua atmosfera se forme.

Forças de maré surgem porque a gravidade não atua de forma uniforme em um corpo extenso. Partes mais próximas de um astro massivo sentem uma atração ligeiramente maior do que partes mais distantes. Essa diferença, embora sutil, é suficiente para deformar o objeto: ele se alonga na direção do astro e se comprime nas direções perpendiculares, como uma bola de borracha sendo puxada.

Na Terra, esse efeito aparece de forma clara nos oceanos. A interação com a Lua gera duas “elevações” do nível do mar – uma voltada para ela e outra no lado oposto. Com a rotação do planeta, essas regiões passam por diferentes pontos da superfície, produzindo o sobe e desce das marés ao longo do dia.




As marés sobem e descem à medida que a rotação da Terra faz os continentes atravessarem as protuberâncias de maré geradas pela gravidade da Lua; ao passar por essas regiões, o nível do mar sobe, e cai nos intervalos entre elas. Na prática, fatores como continentes, formato da Terra e profundidade dos oceanos também influenciam o tempo e a altura das marés em cada lugar – Imagem: Vi Nguyen/NASA


Mas esse fenômeno não se limita à água. A atmosfera também responde às forças de maré. Em Vênus, por exemplo, cuja atmosfera é extremamente densa, essas deformações – combinadas ao aquecimento solar – criam pequenos desalinhamentos que geram torque. Ao longo do tempo, esse processo influencia diretamente a rotação do planeta. Mais do que explicar as marés, esse “esticamento gravitacional” é uma peça-chave na evolução de planetas e luas – podendo desacelerar, sincronizar ou até redefinir o giro de um planeta, como no caso de Vênus.

A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) no projeto temático ligado à participação do Brasil na missão Planetary Transits and Oscillation of Stars (Plato) da Agência Espacial Europeia (ESA), que pretende descobrir e caracterizar exoplanetas – planetas que orbitam estrelas de fora do sistema solar – semelhantes à Terra, focando em zonas habitáveis de estrelas do tipo solar. Em 1983, a União Astronômica Internacional deu o nome do autor da pesquisa, Ferraz Mello, ao asteroide 1983 XF (5201), como prêmio por suas contribuições na área de Astronomia Dinâmica.

O artigo Exoplanet Synchronization in the Habitable Zone: Learning from Venus’ Retrograde Rotation pode ser acessado neste link.

Mais informações: sylvio@iag.usp.br, com Sylvio Ferraz Mello

*Estagiária sob orientação de Tabita Said. Com informações da Assessoria de Comunicação do IAG

**Estagiário sob orientação de Simone Gomes
Jornal da USP

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