quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Qual é a gravidade do branqueamento massivo de corais


Mariana Vick

Cinquenta e quatro países registraram eventos generalizados de degradação de recifes, segundo agência americana. Espécies são fundamentais para ecossistemas marinhos. Litoral brasileiro também foi afetadoO Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.


FOTO: Jorge Lima


Corais em processo de branqueamento na Costa dos Corais, em Japaratinga (AL)

A Noaa, Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, informou na segunda-feira (15) que o mundo passa por um novo evento global de branqueamento de corais. Trata-se da quarta ocorrência desse tipo já registrada pela agência e a segunda identificada em menos de dez anos. Todos os três oceanos que abrigam esses recifes (Pacífico, Índico e Atlântico) foram afetados.

Cinquenta e quatro países registraram eventos generalizados de branqueamento desde fevereiro de 2023. A confirmação mais recente, que motivou o anúncio de segunda, veio do Oceano Índico ocidental, incluindo lugares como Tanzânia, Quênia e a costa oeste da Indonésia. O evento afeta ecossistemas vitais para a biodiversidade marinha e para a humanidade.

850 milhões de pessoas dependem das barreiras de corais para alimentação, trabalho e proteção contra temporais e erosões, segundo a ONG WWF (Fundo Mundial Para a Natureza)

Neste texto, o Nexo explica o que são os corais, o que é seu branqueamento e por que um novo evento de branqueamento massivo está acontecendo. Mostra também com qual frequência eventos dessa magnitude estão ocorrendo e detalha qual a sua gravidade para o ecossistema marinho.
O que são os corais

Corais são animais marinhos invertebrados, ou seja, sem espinha dorsal. Pertencem ao grupo dos cnidários, o mesmo das anêmonas e águas-vivas. Têm capacidade de formar, por baixo de seus tecidos, um esqueleto calcário, que dá a eles uma aparência similar a de pedras, além de fazê-los permanecer fixos no mesmo lugar.

Para sobreviver, os corais se aliam a algas, que vivem dentro de sua estrutura. Elas usam o animal para se proteger e obter nutrientes. Em contrapartida, produzem, por meio da fotossíntese, um açúcar chamado glicerol — que, quando sintetizado em excesso, torna-se a principal fonte de alimento dos organismos que as hospedam.

FOTO: NYIMAS LAULA/REUTERS - 03.JUN.21


Peixes nadando em recife de corais na Indonésia

O branqueamento de corais ocorre nos casos em que há perda dessas algas. Quando elas ficam expostas a estresse térmico (ou seja, ao calor), produzem substâncias tóxicas (as chamadas “espécies reativas de oxigênio”), e os corais, como resposta adaptativa, acabam as expulsando. Com isso, eles perdem sua fonte de energia e seu tecido fica translúcido.

Nem sempre o branqueamento significa a morte de um coral. Eventualmente, os organismos podem se recuperar desse tipo de ocorrência, caso voltem a se associar com novas algas. Sem sua principal fonte de alimento, no entanto, eles têm grandes chances de morrer, principalmente se os períodos de estresse forem longos ou severos, segundo a Noaa.
O que define um branqueamento global

Para haver um evento global de branqueamento, todos os três oceanos que abrigam corais (Pacífico, Índico e Atlântico) precisam tê-lo registrado em 365 dias, segundo os parâmetros da Noaa. Além disso, pelo menos 12% dos recifes em cada oceano devem ser submetidos a temperaturas que causam branqueamento. Não basta, portanto, que haja estresse térmico em lugares isolados: é preciso que ele se espalhe por grandes áreas do globo.

Mais de 54% dos recifes de corais do mundo experimentaram temperaturas de branqueamento desde fevereiro de 2023, segundo a agência americana. O percentual está aumentando cerca de 1% por semana. Há a possibilidade de este ser o “evento global de branqueamento mais extenso em termos de área já registrado”, segundo Derek Manzello, coordenador do programa Coral Reef Watch da Noaa, ao jornal The New York Times.

FOTO: Tom Bayly/Wikimedia Commons - 02/06/2011


Peixes marinhos com corais ao fundo

O mapa abaixo mostra as áreas de corais do mundo sob mais estresse térmico nos últimos dias. Lugares como a Grande Barreira de Corais (na Austrália), a região do Caribe, o litoral brasileiro e o Pacífico sul (incluindo países como Fiji, Tuvalu e Polinésia Francesa) estão entre os mais afetados. Locais como o estado da Flórida, nos Estados Unidos, também registraram alerta máximo ao longo de 2023.




A Noaa determina um evento global de branqueamento a partir da análise de temperaturas da superfície dos oceanos e de evidências dos recifes. A agência monitora o globo desde 1985, a partir de medições de satélites. Os dados acumulados no período mostram que, a cada nova ocorrência global de branqueamento, a situação tem se agravado:
primeiro evento (1998): 20% das áreas de corais sob estresse
segundo evento (2010): 35% das mesmas áreas sob estresse
terceiro evento (2014-2017): 56% das áreas sob estresse
quarto evento (2023-2024): mais de 54% até agora


O que explica o evento atual

A Noaa afirma que a principal causa para o atual evento de branqueamento de corais são as altíssimas temperaturas registradas nos oceanos no último ano. A mudança climática é a principal responsável pelo fenômeno. Os anos de 2023 e 2024 também foram marcados pela presença do fenômeno climático El Niño, que afeta diretamente o mar, como o Nexo conta no vídeo abaixo:



Jennifer Koss, diretora do programa de conservação de recifes de corais da Noaa, afirmou na segunda (15) que a ciência sugere há anos que o aquecimento dos oceanos deve intensificar os eventos de branqueamento. A mudança climática tem promovido o estresse mesmo de espécies conhecidas por serem mais resistentes ao calor. A emissão de gases de efeito estufa também é responsável pela acidificação dos oceanos, que dificulta a manutenção dos recifes.

Mortes substanciais de espécies foram identificadas na Flórida e no Caribe desde 2023. O estado americano registrou no último ano uma onda de calor sem precedentes, que durou mais e foi mais severa que qualquer outro evento anterior na região. Ainda é cedo, no entanto, para estimar qual será a extensão da mortalidade global, segundo a Noaa.

Apesar da gravidade do evento atual de branqueamento, a agência americana estima que ele será curto. O El Niño já está enfraquecendo e deve se encerrar neste outono de 2024, segundo previsões. Depois dele, é provável que venha o fenômeno La Niña, conhecido por esfriar as águas dos oceanos que hoje estão mais quentes.
Quais são os danos para os ecossistemas

O branqueamento de corais causa danos graves para os ecossistemas marinhos. Miguel Mies, coordenador de pesquisa do programa Coral Vivo e professor do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo), disse ao Nexo que o coral é “um organismo engenheiro”, que “constrói o ecossistema chamado recifes de coral”. Quando eles morrem, há impactos para inúmeras espécies.

“O esqueleto calcário [do coral] constrói essa barreira rígida, recortada e tridimensional que dá abrigo para milhões de espécies de peixes, invertebrados e outros organismos”, afirmou Mies. “No momento em que o coral morre, esse recife vai se degradando, e os sítios de abrigo, de alimentação e de reprodução dessas incontáveis espécies se perdem. A perda do coral, no fim, é a perda da biodiversidade como um todo”, acrescentou.

¼ das espécies oceânicas se nutrem a partir dos corais em algum momento de seu ciclo de vida

Além de causar danos biológicos e ecológicos, o branqueamento de corais em escala global pode ter efeitos socioeconômicos. “O recife de corais, enquanto vivo, fornece serviços ecossistêmicos como pesca, turismo e proteção costeira”, segundo Mies. A morte desses organismos, portanto, tem impacto nas economias, na segurança alimentar e na vida das pessoas que dependem dessas espécies para manter seus meios de subsistência, complementa a Noaa.

US$ 2,7 trilhões ou R$ 14 trilhões é o valor econômico dos recifes de corais no mundo

Outra preocupação está relacionada ao período entre as ocorrências de branqueamento. A água do planeta passa ciclicamente por picos de temperatura — e, quando sobrevivem ao estresse, corais precisam de mais de uma década de estabilidade para se recuperarem plenamente. Cientistas temem que, mais frequentes, os eventos globais impeçam a “folga” necessária para haver regeneração entre uma crise e outra.

Como o evento afeta o Brasil

O Brasil é um dos mais de 50 países que registraram branqueamento significativo de corais no último ano. Uma das áreas mais afetadas é o litoral nordestino, onde está o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos (BA), uma das mais importantes áreas de proteção marinha do país. Há registros de branqueamento severo na região, com alta mortalidade.

Levantamento da Rede de Monitoramento do Branqueamento Coral Vivo mostra que, em alguns recifes do Nordeste, até 100% dos corais já branquearam. Não são todas as espécies nem todas as colônias da região, mas a situação é generalizada, segundo o grupo. A situação é mais moderada no litoral do Sudeste, de acordo com Mies.

FOTO: Jorge Silva/Reuters - 17.abr.2024

Imagem aérea mostra corais em processo de branqueamento na Costa dos Corais, em Japaratinga (AL)

Para o pesquisador, não há solução simples para a situação. “Esse é o resultado de um processo de um longo e lento aumento da temperatura. Não é uma coisa que a gente aperta um botão e para ou reverte. O que a gente tem que fazer é batalhar por um planeta que combata as mudanças climáticas, para que os próximos possíveis episódios de branqueamento sejam menos intensos”, disse.

Segundo ele, isso passa por atividades de comunicação e educação ambiental e outras que mostrem às pessoas a importância dos recifes de corais para o meio ambiente e para as sociedades. Também é preciso mostrar “como eles estão sendo destruídos pelas mudanças climáticas causadas pelo homem”, complementou.

Colaborou Mariana Froner com o mapa
https://www.nexojornal.com.br/

Cresce a escala de trabalho “996” nos Estados Unidos, prática proibida em seu país de origem desde 2021; entenda






Vem crescendo nos Estados Unidos, na carona da Inteligência Artificial (IA), a utilização da escala de trabalho conhecida como “996”. Surgida na China no início do século, a prática é hoje proibida no país asiático, mas está em ascensão nas empresas de tecnologia estadunidenses.


Originalmente, o nome dado à escala foi 996 porque representava o trabalho das 9h da manhã às 9h da noite, seis dias por semana. Hoje, porém, serve para nomear jornadas extenuantes, geralmente de cerca de 12 horas, sem finais de semana.

A escala 996 ganhou força na China no contexto do “boom” tecnológico no país, mas foi proibida no país em 2021, após protestos e críticas por conta dos recorrentes problemas de saúde, inclusive com mortes, causados pelo excesso de trabalho. Um dos casos que chamou atenção no país foi o de um jovem de 25 anos que morreu após sofrer uma hemorragia cerebral. Ele atuava em uma startup de tecnologia, que negou que ele estaria sobrecarregado, apesar de estar trabalhando sob a escala 996.

Os empresários entusiastas da escala 996 dizem que ela é necessária para aumentar a produtividade e, no caso das empresas relacionadas ao desenvolvimento de Inteligência Artificial, para que sejam capazes de participar da corrida por inovação. Seu discurso tenta convencer os trabalhadores de que o trabalho por mais horas e com menos dias de descanso é “parte da vida”, necessário para “fazer coisas incríveis”, além de revelar “paixão” pela atividade que desenvolve. Essa lógica acaba convencendo alguns trabalhadores, enquanto outros simplesmente têm de se submeter às jornadas exaustivas para se adequar ao mercado, já que nem todas as legislações são proibitivas e nem sempre a fiscalização é suficiente. A chance de “negociar” com o patrão, ilusória em quase qualquer caso, é ainda mais falsa quando determinados mercados apontam todos para o mesmo caminho.

É o que tem acontecido no Vale do Silício, região dos Estados Unidos onde estão concentradas as grandes empresas de tecnologia. Em entrevista à revista Wired, noticiada pelo portal Uol, Adrian Kinnersley, que administra uma empresa de recrutamento nos Estados Unidos, explicou que “a Califórnia é o epicentro da IA e de onde vem grande parte da cultura do 996 [nos EUA], além de ter as leis trabalhistas mais favoráveis aos funcionários de todos os Estados Unidos. Há quase uma histeria na pressa em criar produtos de IA, e muitas pessoas muito jovens e altamente inteligentes, nesse fervor, estão se esquecendo de todos os riscos que estão criando, de todas as enormes responsabilidades”.

Entre esses riscos e responsabilidades, está o adoecimento. Diversos estudos em diferentes países mostram aumentos consideráveis de casos de problemas cardíacos e AVCs quando a jornada aumenta. Isso vale para os trabalhadores mais visíveis dessas empresas de tecnologia, mas também para os “de fundo”.

Artigo publicado pelo Jornal da USP e assinado pelo professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da mesma universidade, Glauco Arbix, explica: “o universo virtual é movido a trabalho humano, que vai muito além dos programadores, engenheiros, estatísticos e cientistas de computação de dados. O glamour em que vive a elite do Silicon Valley nada tem a ver com os chamados ghost workers, trabalhadores mal-remunerados que imigraram para os EUA, que vivem em países africanos, se espalharam pela América Latina, que trabalham no Brasil, na Índia, no Quênia, na África do Sul e que respondem pela gerência invisível da informação, pela rotulação, classificação, mineração e preparação dos bancos de dados. A esse enorme corpo de trabalhadores nem sempre bem qualificados, certamente vai se somar a legião de adeptos do 996, em sua versão californiana ou de outros centros, que se dispõe a enfrentar os riscos e a incerteza de uma jornada extrema em troca de promessas de um bem-estar dourado e de contribuições ao sucesso de seus países na competição geopolítica movida pela IA. A ética desgovernada do sobretrabalho unifica jovens do Oriente e Ocidente que buscam no silício um sentido para seus negócios e suas vidas”.
Com informações da BBC, do Uol, da revista Wired e do Jornal da USP
https://sintrajufe.org.br/

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Como surgiu a Amazônia? 250 milhões de anos que criaram a maior floresta tropical do planeta




Foto: Mauro Pimentel/AFP




Da separação de continentes aos rios voadores, conheça as forças geológicas, climáticas e biológicas que moldaram a Amazônia e explicam sua importância para o futuro climático do planeta.

A Amazônia transcende a definição de uma simples floresta tropical, ela é um sistema dinâmico, complexo e fundamental para o equilíbrio ecológico e hidrológico do planeta. Sua imensidão, com cerca de 6,7 milhões de km², abriga uma biodiversidade incomparável e exerce um papel insubstituível na estabilidade climática global.

A floresta funciona como um gigantesco sumidouro de carbono, com estoques estimados entre 80 e 120 bilhões de toneladas, uma capacidade que a torna peça central na mitigação do aquecimento global e a consolida como uma das “áreas úmidas vitais para o futuro climático”.

Para a ciência do sistema terrestre, a Amazônia é também um laboratório essencial. Projetos como o Amazon Tall Tower Observatory (ATTO) revelam a complexidade da floresta como engrenagem biogeoquímica. Estudos sobre meteorologia, vegetação e gases de efeito estufa mostram que a floresta opera como um sistema em sincronia e que alterações mínimas podem desencadear efeitos em escala continental.

Mas a Amazônia é também um território profundamente humano. Cerca de 3 milhões de indígenas, pertencentes a mais de 390 povos, vivem na Pan-Amazônia, expressando formas de vida, espiritualidade e conhecimento ecológico que há milhares de anos moldam e preservam a floresta.

As práticas de manejo, agricultura, culinária, medicina tradicional e uso sustentável dos recursos naturais constituem um patrimônio imaterial que sustenta ecossistemas inteiros. Comunidades ribeirinhas e extrativistas, por sua vez, carregam saberes detalhados sobre rios, igarapés, igapós e ciclos sazonais. A existência e os saberes desses povos são essenciais para a subsistência e a gestão dos ecossistemas e também para o próprio debate climático global.

Essa Amazônia contemporânea — vasta, diversa, culturalmente rica e integrada ao funcionamento do planeta — nos leva a uma pergunta inevitável: como essa teia complexa de vida se formou e se transformou até se tornar o coração ecológico da Terra? Como surgiu a Amazônia?

A resposta atravessa 250 milhões de anos de reengenharia planetária, em que placas colidiram, mares recuaram, montanhas surgiram e florestas se expandiram. Muito antes dos rios e das árvores, ali existia um oceano.
A Amazônia antes da floresta: As origens geológicas

Para compreender a Amazônia, é preciso recuar entre 300 e 100 milhões de anos atrás, aos períodos Paleozoico e Mesozoico. Naquela época, toda a América do Sul fazia parte do supercontinente Gondwana, junto com África, Antártica, Austrália e Índia. A região que hoje abriga o Rio Solimões e o Alto Purus estava submersa sob mares rasos, repletos de moluscos, peixes primitivos e plantas aquáticas.

Reserva Comunal Purús. Foto: Thomas Müller / SPDA.


Esses antigos mares deixaram como testemunho rochas sedimentares e fósseis marinhos encontrados em plena Amazônia, revelando que a paisagem atual não tem nada de estática. Na verdade, ela foi um dia, um fundo oceânico.

Concha de caracol fóssil de água doce, com similaridades aos moluscos marinhos, achada nas margens de rios a oeste da Amazônia brasileira. Foto: Maria Inês F. Ramos / MPEG

A abertura do Atlântico e o nascimento dos Andes

Há cerca de 120 milhões de anos, o supercontinente Gondwana começou a se fragmentar. A África se separou da América do Sul, abrindo lentamente o Oceano Atlântico. Ao mesmo tempo, o choque das placas tectônicas no oeste eleva progressivamente uma cadeia montanhosa que mudaria para sempre a formação da futura floresta: a Cordilheira dos Andes.

Cordilheira dos Andes. Foto: Jorge Morales Piderit


A ascensão dos Andes alterou profundamente o relevo, o clima e o fluxo das águas. Antes disso, a drenagem amazônica não corria para o Atlântico, mas sim para o Pacífico. Com o levantamento da cordilheira, uma barreira geológica se formou, represando as águas e invertendo todo o sistema de drenagem continental. Esse bloqueio criou novas bacias internas e estabeleceu as condições para o surgimento de um gigantesco lago, o ponto ancestral do atual sistema amazônico.

As montanhas recém-formadas também passaram a bloquear ventos úmidos vindos do Pacífico, alterando padrões climáticos e contribuindo para redirecionar o fluxo das águas para o interior do continente. Esse processo seria o início da longa transformação que, milhões de anos depois, permitiria o nascimento do maior rio do planeta; o Rio Amazonas.

Mapa da Bacia do Rio Amazonas. Foto: Tunes Ambiental.

Quando o mar virou rio: A formação da bacia amazônica

Entre 23 e 10 milhões de anos atrás, no período Mioceno, a Amazônia não era florestada, mas sim um imenso complexo de lagos, pântanos e canais chamados pelos cientistas de Sistema Pebas. Imagine uma espécie de Pantanal colossal, que se estendia do atual Acre ao oeste do Pará.

Nesse ambiente úmido e lamacento viviam mega répteis, como crocodilos gigantes e tartarugas de mais de 2 metros, além de moluscos de água salgada e peixes enormes. A coexistência de fósseis marinhos e de água doce confundiu os primeiros naturalistas, mas hoje sabemos que o Pebas estava ligado ao Atlântico e ao Caribe por canais e estuários.

Reconstrução paleoartística de Stupendemys geographicus, a maior tartaruga que já existiu, nadando nas águas do antigo mega-pantanal amazônico. Em primeiro plano aparece um macho; atrás dele, uma fêmea. Na superfície, vê-se um Purosaurus. Foto: Cadena et al. (2020). Arte de Jaime Chirinos.

O nascimento do Rio Amazonas

Com o avanço dos Andes, o fluxo que antes seguia em direção ao Pacífico foi bloqueado. Lentamente, as águas se acumularam, transbordaram e romperam barreiras naturais, iniciando uma drenagem para o leste. Foi então que a Amazônia “virou” definitivamente para o Atlântico, há cerca de 10 a 8 milhões de anos, formando o esqueleto do sistema fluvial atual.

O Rio Amazonas é, portanto, um rio jovem em termos geológicos, um adolescente de poucos milhões de anos, apesar de carregar a memória de um oceano extinto.

Rio Amazonas. Foto: Anna Chaplygina

Clima, vegetação e megafauna na era das florestas

Com o fim do Sistema Pebas e o escoamento das águas para o Atlântico, o clima da região começou a mudar, permitindo a expansão das florestas tropicais. No entanto, essa vegetação não permaneceu estável ao longo do tempo. Durante o Pleistoceno (entre 2,6 milhões e 11,7 mil anos atrás), sucessivos períodos glaciais deixaram a Amazônia mais seca, o que afetou diretamente a extensão da floresta.

Para explicar esse contexto, surgiu a chamada Teoria dos Refúgios Florestais, proposta por pesquisadores como Jürgen Haffer e George Prance. Segundo essa ideia, durante as fases mais áridas, a vasta floresta amazônica se retraiu em áreas menores e isoladas, os chamados “refúgios”.

Ao redor dessas ilhas de floresta úmida, predominaram paisagens mais abertas, semelhantes a savanas. O isolamento entre os refúgios teria favorecido a evolução de novas espécies, ajudando a explicar por que a Amazônia abriga tantos organismos endêmicos (exclusivos da região).

Com aparência pouco usual, uacari-branco é uma das espécies endêmicas da Amazônia. Foto: Fábio Manfredini


Embora ainda seja um modelo influente, estudos mais recentes indicam que a savanização pode não ter sido tão intensa quanto se imaginava. Isso sugere que a biodiversidade amazônica também pode ter se formado por processos mais contínuos de diversificação ou por refúgios menores e mais localizados, conhecidos como áreas de endemismo.

Independentemente dos detalhes, o que a pesquisa deixa claro é que a Amazônia passou por grandes oscilações climáticas ao longo da sua história e, mesmo assim, mostrou uma capacidade notável de se reorganizar, persistir e evoluir.

A megafauna amazônica

Diferentemente das preguiças atuais, as espécies pré-históricas eram terrestres. Chegavam a 5 toneladas e se deslocavam apoiadas nas quatro patas, ficando “em pé” apenas para alcançar alimentos na copa das árvores. Ilustração: Rodolfo Nogueira.


Muito antes dos humanos, a Amazônia foi lar de criaturas impressionantes. Durante o Pleistoceno — período que se estendeu de 2,6 milhões até cerca de 11,7 mil anos atrás — a região era dominada por mamíferos de grande porte. Viviam ali preguiças gigantes de até 4 toneladas, mastodontes, roedores colossais e gliptodontes, tatus blindados do tamanho de carros compactos.

Esses animais moldavam a paisagem: abriam clareiras, dispersavam sementes e influenciavam diretamente a estrutura das florestas.

Comparativo de tamanho do tatu gigante com um ser humano. Foto: Grupo de Paleontologia da UFSCar/Divulgação


A extinção dessa megafauna ocorreu no final da última Era do Gelo, aproximadamente 10 mil anos atrás. Os cientistas atribuem esse desaparecimento a uma combinação de fatores. De um lado, as rápidas mudanças climáticas do início do Holoceno transformaram os habitats; de outro, a chegada dos primeiros seres humanos ao continente pode ter aumentado a pressão por meio da caça e da competição por recursos.

Esse evento de extinção marca o primeiro grande impacto ecológico provocado pela presença humana na Amazônia, um prenúncio das discussões atuais sobre como as ações humanas continuam a remodelar a floresta.

Com a estabilização climática do Holoceno, a floresta se tornou a principal fábrica de umidade do continente. A evapotranspiração das árvores passou a alimentar correntes atmosféricas que transportam água para grande parte da América do Sul.
Os rios invisíveis da Amazônia

A Amazônia não apenas responde ao clima, ela o constrói. A combinação entre calor, árvores de raízes profundas e rios caudalosos cria um sistema único de reciclagem de água, uma verdadeira “bomba biológica” de umidade sem paralelo no planeta.

A umidade liberada pela floresta é carregada pelos ventos alísios em direção aos Andes, que funcionam como uma muralha natural. Ao encontrar a cordilheira, o ar úmido se eleva, condensa e forma tempestades diárias, alimentando a maior máquina produtora de chuva da Terra.

A extensa copa das árvores amazônicas desempenha um papel crucial nesse ciclo. Por meio da evapotranspiração, a floresta recicla a água da chuva com enorme eficiência, liberando quantidades monumentais de vapor d’água que se transformam em correntes atmosféricas conhecidas como Rios Voadores.
Rios Voadores. Foto: Reprodução


O climatologista Carlos Nobre explica que esses rios invisíveis são fundamentais para o clima da América do Sul. A umidade que chega do Atlântico é reciclada várias vezes sobre a floresta antes de ser direcionada para o interior do continente. Mais de 40% da chuva no Cerrado e cerca de 15% da precipitação no Sudeste brasileiro vêm dos Rios Voadores, demonstrando que a estabilidade hídrica e agrícola de boa parte da região depende diretamente da integridade da Amazônia.

Essa interdependência também revela sua vulnerabilidade. Se a floresta perder sua capacidade de reciclar água, especialmente devido ao desmatamento, projeções indicam que os Rios Voadores podem diminuir em até 40%, o que poderia levar à savanização quase total do Cerrado e ao colapso dos sistemas alagados do Pantanal.
A fertilização transcontinental e a barreira dos Andes

Além disso, estudos mostram que a floresta recebe nutrientes transportados por ventos vindos do Deserto do Saara, que depositam fósforo e outros minerais essenciais sobre a Amazônia. Essa fertilização atmosférica transcontinental compensa uma característica crucial da região, a maior parte dos solos amazônicos é naturalmente pobre em nutrientes.

Isso ocorre porque são solos muito antigos, formados por rochas profundamente intemperizadas ao longo de milhões de anos, processo que provoca a lixiviação, lavagem contínua dos minerais pela chuva. A poeira africana funciona, portanto, como um reabastecimento vital.

Ao mesmo tempo, a Cordilheira dos Andes atua como uma barreira orográfica que redireciona as massas de ar úmidas para o sul, permitindo que os Rios Voadores abasteçam o Centro-Oeste, o Sudeste e até o Sul do Brasil. A combinação entre a fertilização vinda da África e o papel dos Andes sustenta o ciclo de evapotranspiração da floresta, responsável por liberar enormes quantidades de vapor d’água que, ao encontrar a cordilheira, se condensam e formam chuvas intensas em grande parte da América do Sul.

A Amazônia é, portanto, uma sinergia improvável: uma floresta que cria a própria chuva, alimentada pela poeira de outro continente e moldada por uma cordilheira que direciona seus rios invisíveis. É uma engrenagem climática sofisticada e frágil, da qual depende o futuro hídrico de grande parte do continente.

Rios voadores formados pela umidade da Amazônia transportam vapor d’água e levam chuvas para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além de regiões do Paraguai, Bolívia e norte da Argentina. Foto: Brasil Amazôniia Agora.

Povos antigos e domesticação da floresta amazônica

A Amazônia não é apenas resultado de processos naturais, é também uma paisagem moldada pela ação humana. A visão da Amazônia como uma paisagem “intocada” é um mito refutado pela arqueologia. As evidências arqueológicas demonstram ocupação humana há pelo menos 10 mil anos, com redes de aldeias, agricultura intensiva e manejo sofisticado da biodiversidade.
Terras pretas de índio (TPI)

As Terras Pretas de Índio (TPI) são solos amazônicos caracterizados por camadas superficiais escuras, cuja origem é reconhecidamente antrópica. Pesquisas mostram que esses horizontes foram formados por antigas populações indígenas a partir do acúmulo de resíduos orgânicos, restos alimentares, carvão produzido pela queima controlada e outros materiais descartados ao longo de séculos.

Foto: Portal Amazônia.


O resultado é um solo extremamente fértil, em nítido contraste com os solos amazônicos típicos, geralmente pobres devido ao intemperismo intenso e à lixiviação. As TPIs concentram altos níveis de fósforo, cálcio, zinco, manganês e apresentam estoques de carbono orgânico que podem ser até cem vezes maiores do que nos solos adjacentes.

A temática tem sido estudada em revistas científicas internacionais, como Nature e Science, pela sua importância para a Amazônia e pelo potencial de descobertas antropológicas.

A identificação das Terras Pretas de Índio transformou a arqueologia amazônica. Ela demonstrou que grandes populações puderam viver por longos períodos em um mesmo território sem degradar o solo, contrariando a antiga ideia de que a região não suportava assentamentos densos e permanentes.

Pesquisas recentes indicam que essas áreas férteis não surgiram por acaso: foram resultado de um manejo deliberado de resíduos orgânicos, semelhante a uma “compostagem” comunitária, que possibilitou práticas agrícolas contínuas e sustentáveis.
Amazônia, uma floresta cultivada

O manejo sustentável dos recursos naturais também se expressou de forma marcante na domesticação de plantas. Povos amazônicos selecionaram e cultivaram dezenas de espécies — como mandioca, pupunha, cacau, açaí e castanha-do-pará — criando sistemas que iam muito além das roças tradicionais. Eles organizaram jardins florestais, áreas onde plantas úteis eram plantadas, cuidadas e redistribuídas ao longo das gerações.

Estudos mostram que muitos trechos da floresta que hoje parecem intocados abrigam concentrações incomuns de espécies domesticadas ou semidomesticadas, sinal claro de manejo humano antigo. Esse processo não apenas garantia alimento, remédios e materiais, mas também aumentava a diversidade e a resiliência dos ecossistemas. Em regiões como o Alto Xingu, o rio Madeira e o Baixo Tapajós, esses padrões de distribuição são tão marcantes que alguns autores afirmam que a Amazônia é, em grande parte, uma floresta cultivada.

Foto: Maurício De Paiva/InfoAmazonia


A descoberta de cidades perdidas e a revolução do LiDAR

O verdadeiro alcance da ocupação humana antiga na Amazônia só se tornou visível recentemente, graças ao uso da tecnologia LiDAR (Detecção de Luz e Medida de Distância). Esse método permite mapear o relevo abaixo da densa copa da floresta, funcionando como uma espécie de “radiografia” capaz de revelar estruturas e variações sutis no solo que seriam invisíveis a olho nu.

Mapa LIDAR da antiga cidade de Kunguints, na Amazônia equatoriana, revela ruas completas e alinhamentos de casas. Foto: Antoine Dorison e Stéphen Rostain.


Com o LiDAR, arqueólogos identificaram vastas redes de assentamentos complexos, incluindo geoglifos monumentais, valas escavadas, sistemas agrícolas e cidades com até 2.500 anos. Essas descobertas são especialmente marcantes em regiões como o Alto Xingu e o Acre. Um modelo matemático baseado nesses mapeamentos estima que ainda existam entre 10 mil e 24 mil estruturas pré-colombianas ocultas pela floresta.

Essas evidências demonstram que a Amazônia não era — e não é — uma floresta intocada. Trata-se de uma paisagem cultural, moldada e manejada por povos tradicionais ao longo de milênios. A própria distribuição atual de espécies importantes, como mandioca, cacau e açaí, reflete esse manejo contínuo. Compreender essa história de ocupação humana, marcada por estratégias sustentáveis de convivência com a floresta, torna-se fundamental para orientar os caminhos da conservação futura.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A transição ecológica: Amazônia, Cerrado e Pantanal

As fronteiras da Amazônia formam zonas de transição biogeográfica que conectam a floresta úmida às savanas do Cerrado e aos grandes alagados do Pantanal. A diversidade nessas regiões é moldada por gradientes de altitude e, sobretudo, por variações de umidade e sazonalidade climática.

Essas transições não são simples linhas no mapa, mas corredores ecológicos ativos, por onde circulam fauna, polinizadores e fluxos genéticos que garantem a conectividade entre os biomas da América do Sul. Por isso, a integridade dessas áreas é essencial para a resiliência ecológica de todo o continente.

Em áreas de transição entre Amazônia e Cerrado, onde floresta úmida e savana se encontram e formam um dos ecótonos mais biodiversos do continente. Foto: Agro Estadão.


A interdependência fica ainda mais evidente no ciclo hídrico. Pesquisas mostram que o desmatamento na Amazônia compromete o mecanismo de reciclagem de umidade justamente nessas zonas de transição. Massas de ar que atravessam regiões desmatadas produzem até duas vezes menos chuva do que aquelas que passam sobre a floresta intacta. Como resultado, áreas como a porção leste da fronteira entre Amazônia e Cerrado já registram reduções de precipitação superiores a 10 mm por ano.

Esses dados revelam que a crise da Amazônia não se limita ao seu interior. Ela se manifesta também nos biomas vizinhos, evidenciando a profunda interdependência climática que liga toda a América do Sul.

Foto: CVC.

A diversificação e os mosaicos ecológicos da Amazônia atual

A floresta amazônica não é um bloco homogêneo, mas um mosaico intrincado de ecossistemas especializados: várzeas, igapós, terra firme, campinas, campinaranas e campos rupestres. Cada um desses ambientes reflete regimes hídricos, tipos de solo e condições de luz totalmente distintos, moldando comunidades de plantas e animais altamente adaptadas, muitas vezes exclusivas de cada habitat.

A terra firme, que nunca alaga, abriga as árvores mais altas da Amazônia e concentra a maior parte da biodiversidade conhecida, com solos bem drenados e grande complexidade estrutural. Já as várzeas são florestas que alagam todos os anos com as “águas brancas” ricas em sedimentos vindos dos Andes, o que torna esses ambientes mais férteis e extremamente produtivos. Em contraste, os igapós ficam inundados por longos períodos com “águas pretas” ou claras, pobres em nutrientes e mais ácidas, exigindo adaptações extremas, como sementes que germinam na água e raízes especializadas.

Foto: Tim Láman/Nat Geo Image Collection


As campinas e campinaranas, por sua vez, surgem sobre solos arenosos e pobres, formando paisagens abertas, com vegetação baixa e espécies muito especializadas, algumas com distribuição altamente restrita. Já os campos rupestres amazônicos, que ocorrem em afloramentos rochosos isolados, hospedam plantas endêmicas adaptadas à escassez de nutrientes e à alta exposição solar.

A dinâmica desses ecossistemas é tão intensa que, todos os anos, dezenas de novas espécies de peixes, insetos, árvores e fungos são descobertas pela ciência, reforçando que a Amazônia continua um dos centros evolutivos mais ativos do planeta.

Igarapé. Foto: André Dib.


Integridade Florestal e Estabilidade Climática

Para que a Amazônia continue evoluindo e atuando como reguladora climática, sua integridade é essencial. A ciência mostra que florestas preservadas mantêm microclimas estáveis, sustentam cadeias alimentares e são fundamentais para a resiliência ecológica. A floresta não apenas absorve carbono, ela cria as condições atmosféricas necessárias para sua sobrevivência e para os biomas ao redor.

Quando o desmatamento ou as mudanças climáticas reduzem a produtividade primária da floresta, sua capacidade de armazenar carbono é comprometida. Áreas degradadas podem deixar de funcionar como sumidouros de carbono, alimentando um ciclo perigoso de aquecimento e seca que ameaça todo o sistema amazônico.



A Amazônia e o Futuro da Terra


A trajetória de 250 milhões de anos da Amazônia demonstra a extraordinária capacidade da vida de se adaptar — à separação de continentes, à formação de mares internos e às grandes eras glaciais. O desafio atual, porém, não está apenas na magnitude das mudanças climáticas, mas sobretudo em sua velocidade, impulsionada por atividades humanas.
O Ponto de Não Retorno

O climatologista Carlos Nobre alerta que a Amazônia está perigosamente próxima de atingir um ponto de não retorno, o limite a partir do qual a degradação se torna irreversível e a floresta úmida começa a se transformar em savana.

As evidências mais preocupantes estão concentradas no sul e leste da Amazônia, região conhecida como “Arco do Desmatamento”, com cerca de 2,5 milhões de km². Ali, os sinais de estresse são claros.

  Mapa mostra a região do Arco do Desmatamento (polígono em preto). Fonte: PRODES/INPE.


A estação seca já se alongou entre 3 e 4 semanas, a umidade caiu 20% a 30%, e as temperaturas estão até 3°C acima da média histórica. Esses fatores criam um ciclo de feedback climático, no qual a degradação intensifica a seca, que por sua vez mata árvores adaptadas à umidade e acelera ainda mais o colapso climático.

Seca na Amazônia.


Resiliência Histórica versus Velocidade Antropogênica

A questão central é o descompasso entre a velocidade das pressões humanas, como a pecuária, agricultura, queimadas e desmatamento, e o ritmo natural de adaptação da floresta. Enquanto a Amazônia sobreviveu às lentas oscilações climáticas do Pleistoceno, as mudanças atuais ocorrem em escalas de tempo muito mais rápidas do que a capacidade das espécies de responder.

Se o ponto de não retorno for ultrapassado, os impactos serão severos. Até 70% da floresta pode colapsar em 30 a 50 anos, prejudicando de forma irreversível a capacidade da região de armazenar carbono e regular o clima global.

A história evolutiva da Amazônia é uma aula sobre a resiliência da vida, mas também um alerta: não podemos romper, em poucas décadas, um ciclo de equilíbrio que levou 250 milhões de anos para se estabelecer.

Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.
Portal Brasil Amazônia Agora

Buraco no ozônio na Antártida é o menor em 5 anos e reforça sinais de recuperação







Análise do Copernicus mostra extensão do buraco no ozônio sobre a Antártida em novembro de 2025. Foto: Copernicus



Relatório europeu aponta que o buraco no ozônio sobre a Antártida teve em 2025 o menor tamanho e duração em cinco anos, reforçando sinais concretos de recuperação global.

O buraco no ozônio sobre a Antártida em 2025 foi o menor e o de fechamento mais precoce desde 2019, sinalizando um avanço importante na recuperação da camada que protege a Terra da radiação ultravioleta. A análise consta de boletim divulgado pelo Serviço de Monitoramento da Atmosfera Copernicus, da União Europeia, que acompanha alterações atmosféricas globais.

Vista da região antártica em 2025, ano em que o buraco no ozônio foi o menor em meia década. Foto: Wikimedia/Joe Mastroianni, National Science Foundation


Segundo o relatório, a abertura do buraco no ozônio começou em agosto e teve um comportamento distinto dos anos anteriores, especialmente em comparação com o período de 2020 a 2023, quando as anomalias se destacaram por sua intensidade e longa duração. O recorde de fechamento mais tardio ocorreu em 2020, quando a abertura só se encerrou em 28 de dezembro.

Para os especialistas do Copernicus, o resultado observado em 2025 é atribuído principalmente à continuidade dos efeitos do Protocolo de Montréal, tratado internacional firmado em 1987 por 198 países, que eliminou gradualmente mais de 99% das substâncias destrutivas à camada de ozônio, como os CFCs e o brometo de metila.

Gráfico do Copernicus mostra que o buraco no ozônio sobre a Antártida foi significativamente menor em 2025, com fechamento precoce e área reduzida. Foto: Copernicus


A diretora do CAMS, Laurence Rouil, classificou o avanço como um reflexo da cooperação global bem-sucedida. “É uma lembrança do que a comunidade internacional pode alcançar diante de desafios ambientais complexos”, afirmou.

O relatório também destaca que eventos extremos como a erupção do vulcão Hunga Tonga, em 2022, contribuíram para o agravamento do buraco no ozônio em anos anteriores, ao injetar vapor d’água e cinzas na estratosfera. Apesar disso, os dados mais recentes são promissores. Além da Antártida, o Ártico apresentou, em março de 2024, uma camada de ozônio 14% mais espessa que a média histórica da região.

A previsão mais recente da Organização Meteorológica Mundial é de que a camada de ozônio esteja totalmente recuperada até 2050, um marco com potencial de reduzir significativamente os riscos de doenças como câncer de pele e catarata, além dos impactos nos ecossistemas.

Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.
Portal Brasil Amazônia Agora

Poluição plástica contamina quase 50% dos ambientes aquáticos do planeta



foto: Naja Bertolt Jensen/unsplash


Bruna Akamatsu



Estudo mostra que mesmo em zonas protegidas, a poluição plástica em ambientes aquáticos cresce com o desenvolvimento econômico; bitucas de cigarro estão também entre os principais contaminantes.

Uma nova síntese global conduzida por pesquisadores da UNIFESP revelou que 46% dos ambientes aquáticos monitorados, incluindo rios, praias, estuários e manguezais, estão classificados como “sujos” ou “extremamente sujos”. Os dados foram publicados na revista científica Journal of Hazardous Materials e baseiam-se em 10 anos de estudos revisados entre 2013 e 2023, avaliados com o índice internacional Clean-Coast Index (CCI), que mede a densidade de resíduos sólidos em áreas costeiras.

O levantamento revelou uma composição homogênea do lixo: plásticos representam 68% dos resíduos encontrados, seguidos pelas bitucas de cigarro, que somam 11% e contêm mais de 150 substâncias tóxicas que ameaçam a vida aquática. Essa predominância de plástico e cigarro reflete um cenário preocupante de poluição plástica generalizada, independentemente de fatores culturais, econômicos ou geográficos.

Bitucas de cigarro são parte expressiva da poluição plástica nas praias e liberam substâncias tóxicas nocivas aos ecossistemas costeiros. Foto: iStock.


No Brasil, que lidera em número de monitoramentos no período, cerca de 30% dos ambientes avaliados foram considerados contaminados. Um exemplo crítico é o rio dos Bugres, na Baixada Santista (SP), identificado como o segundo mais poluído por microplásticos do mundo, um retrato grave da poluição plástica que atinge as áreas urbanas.

Considerado um dos mais contaminados por microplásticos no mundo, o rio dos Bugres revela a gravidade da poluição plástica nos cursos d’água brasileiros. Foto: Danilo Verpa/Folhapress



A pesquisa também confirmou o papel fundamental das áreas de proteção ambiental na redução da contaminação, essas zonas apresentam até sete vezes menos resíduos. Em 445 áreas protegidas analisadas em 52 países, metade foi classificada como “limpa” ou “muito limpa”.

Por outro lado, os pesquisadores observaram que, mesmo dentro de áreas protegidas, a poluição tende a crescer nas fases iniciais de desenvolvimento econômico. Segundo os autores, isso reforça a urgência de investimentos em gestão, fiscalização e infraestrutura ambiental, especialmente em regiões em crescimento. Controlar a poluição plástica e de outros resíduos sólidos nesse contexto exige ações que combinem proteção territorial com governança eficiente.

Os resultados fornecem evidências inéditas para subsidiar políticas ambientais e embasar negociações internacionais, como o Tratado Global do Plástico e o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal.


Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.
Portal Brasil Amazônia Agora

O capital, o território e a fraude do “progresso” Até quando?




Imagem gerada por IA


“Entre o território e a fraude do progresso, o Tapajós expõe o conflito entre soberania viva e logística de exportação”
Por que a Cargill vira símbolo?

O embate entre a Cargill e os povos indígenas no Tapajós é muito mais que uma disputa sobre dragagem ou logística fluvial. Ele simboliza algo mais profundo: a tensão entre um modelo de desenvolvimento que transforma o rio em corredor privado de exportação e a visão indígena que reconhece o Tapajós como território vivo, bem comum e sujeito de direitos.

Quando a infraestrutura que viabiliza cadeias globais de commodities reorganiza o espaço segundo a lógica do mercado, o que está em jogo não é só eficiência econômica — é a própria soberania territorial e a definição de quem decide o destino do rio. É nesse ponto que a palavra “privatização” deixa de ser jurídica e passa a ser política: quem controla o fluxo controla o território.
Algumas perguntas não pedem resposta: pedem pudor.

E há pudores que, quando repetidamente violados, viram método.Até quando o capital vai ignorar o território e seus direitos?Até quando o rio será tratado como corredor e o povo como detalhe?

Até quando a Amazônia será empurrada para a condição de “meio” — meio de transporte, meio de produção, meio de exportação — como se não fosse, antes de tudo, casa, vida, memória e lei?

O que está em disputa no Tapajós — como tantas vezes na história amazônica — não é apenas um cronograma de obra. É o sentido da palavra desenvolvimento. Para quem?
Até quando?
A engenharia da invisibilidade

O capital não ignora o território por distração. Ignora por competência. Ele aprendeu a transformar o mundo real em planilha — e a planilha, em destino.

Onde há um rio vivo, ele enxerga “hidrovia”. Onde há uma floresta de relações, ele enxerga “ativo”. Onde há povos com direitos, ele enxerga “stakeholders”. Onde há soberania territorial, ele enxerga “condicionantes”.

É assim que nasce a fraude: chamar de técnica aquilo que é poder.Chamar de eficiência aquilo que é assimetria. Chamar de interesse nacional aquilo que é, muitas vezes, interesse setorial com carimbo público.
Até quando?
O tempo do capital contra o tempo do território

O conflito amazônico quase sempre começa pelo relógio. O capital opera em trimestres, safras, contratos, metas. O território opera em ciclos: o ciclo do rio, do peixe, da chuva, da regeneração, da transmissão cultural.

Quando uma obra avança “porque é urgente”, quase sempre é urgente para quem está longe. Para quem vive ali, urgência sem consulta é apenas outro nome para imposição.

E aqui mora a perversidade: o capital acusa o território de atrasado, mas é ele quem chega apressado, exigindo que a vida se ajoelhe diante do cronograma.
Até quando?
3) Consulta não é cerimônia. É limite.

Há um ponto em que o Estado moderno tenta resolver tudo com liturgia: audiência, ata, reunião, nota, relatório.

Mas consulta prévia, livre e informada não é decoração democrática. É o reconhecimento mínimo de que há povos que não são “afetados” — são sujeitos de direito, guardiões de um lugar, depositários de memória.

Quando a consulta vira rito, ela deixa de ser consulta e vira teatro. E quando vira teatro, o território responde com o único idioma que interrompe a encenação: a paralisação do fluxo.

A cadeia logística entende bloqueio. O mercado entende interrupção. A planilha entende prejuízo.
Até quando?


Foto: Comunicação/Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns (Cita)

Por que a Cargill vira símbolo?

Quando um terminal se torna o coração físico de um corredor exportador, ele passa a representar mais do que uma empresa: representa uma arquitetura inteira (porto + corredor + expansão territorial). Por isso, no Tapajós, “Cargill” vira palavra-símbolo: não apenas uma marca, mas um modelo.

E é aqui que cabe encarar, sem histeria e sem ingenuidade, um histórico público de controvérsias e danos associados ao nome que costuma emergir no centro dessas disputas.

Até quando?
Cargill — portfólio de danos históricos e controvérsias documentadas

1) Santarém / Tapajós (PA) — licenciamento e EIA/RIMA exigido judicialmente

Há histórico judicial no TRF1 envolvendo o terminal graneleiro em Santarém, com decisão registrando ser “imprescindível” a apresentação de EIA/RIMA, mesmo com manutenção de atividades.

Relatórios e estudos da sociedade civil descrevem impactos urbanos e territoriais relacionados à instalação/expansão do terminal e à reorganização do entorno.

2)Cadeia da soja no Brasil — queixa por falhas de “devida diligência” (direitos humanos e desmatamento)

A ClientEarth apresentou queixa/ação sob diretrizes de conduta empresarial responsável, alegando falhas de devida diligência ambiental e de direitos humanos na cadeia de soja no Brasil.

3)Segurança alimentar (EUA, 2011) — recall massivo ligado a Salmonella

Em 2011, a Cargill Meat Solutions realizou recall voluntário de cerca de 36 milhões de libras de produtos de peru moído, associados a Salmonella Heidelberg (incluindo cepa multirresistente), conforme registros do CDC.

4)Cadeia do cacau e trabalho infantil — litígio na Suprema Corte (EUA, 2021)

A Suprema Corte dos EUA julgou o caso Nestlé USA, Inc. v. Doe (consolidado com Cargill, Inc. v. Doe), envolvendo alegações de tráfico e trabalho infantil na cadeia do cacau; a decisão tratou dos limites de aplicação do Alien Tort Statute e do grau de conduta doméstica necessário para sustentar a ação.

5)Antitruste e mercado de trabalho (EUA) — compartilhamento de dados salariais no setor de aves

O Departamento de Justiça dos EUA anunciou ação e proposta de consent decrees para encerrar condutas de compartilhamento de informações sensíveis sobre remuneração/benefícios de trabalhadores em empresas do setor, incluindo a Cargill.

6) Antitruste (EUA, 2025) — acordo em ação coletiva sobre preços de carne bovina

Reportagens registram acordo envolvendo a Cargill e a Tyson para encerrar ação coletiva que alegava fixação de preços/restrição de oferta no mercado de carne bovina, com valores reportados de US$ 32,5 milhões (Cargill) e US$ 55 milhões (Tyson), com negativa de irregularidade pelas empresas.
Portal BrasilAmazôniaAgora

Minerais críticos: a negociação que separa país de colônia





Alfredo Lopes


Se conduzida com inteligência, pode se converter em motor de reindustrialização, redução de dependência tecnológica, geração de empregos qualificados e fortalecimento territorial.

Coluna Follow Up

Há temas que parecem econômicos, mas são desafio civilizacional.

Minerais críticos — terras-raras, lítio, grafite, níquel, cobalto — deixaram de ser um capítulo técnico da mineração para se tornarem eixo de soberania. O debate não é mais sobre a rocha que se extrai. É agora sobre o que se constrói depois dela: refino, processamento, ligas especiais, ímãs permanentes, baterias, semicondutores, defesa, inteligência artificial.

A primazia das disputas por matérias primas no século XXI está ficando cada vez mais em segundo plano. A disputa por cadeias produtivas é o que dá o tom no mundo de hoje. E cadeias produtivas são aquilo que transforma os territórios trazendo desenvolvimento, ou em plataforma de extração dependente e subdesenvolvida.

O Brasil está diante de uma dessas encruzilhadas históricas.

Controle e manufatura das commodities é real poder

A corrida global por minerais críticos não é retórica ambiental nem modismo industrial. Ela responde a três vetores estruturais que não retrocedem: a transição energética, a digitalização da economia e a reorganização estratégica da indústria de defesa.

Tudo isso exige insumos específicos, concentrados e tecnologicamente sensíveis. A pergunta decisiva, portanto, não é quem tem reservas geológicas, mas quem domina o refino, o processamento e a engenharia aplicada.

Reservas sem cadeia produtiva são promessa incompleta. Cadeia produtiva sem soberania é dependência sofisticada.

O cobalto é um dos minerais críticos, ele é crucial para a produção de baterias, especialmente as utilizadas em veículos elétricos e dispositivos eletrônicos. Foto: Getty Images.

Negociação adulta começa em casa

A maturidade não começa na mesa de negociação internacional. Na verdade ela demanda uma definição interna de projeto nacional. Para que o Brasil precisa desses minerais nos próximos vinte anos?

Sem essa resposta clara, corremos o risco de repetir o velho padrão histórico: exportar barato, importar caro, e chamar isso de inserção no mercado global de bens de maior valor agregado.

Mineral crítico é insumo estratégico. Antes de pensar no mercado externo, o país precisa assegurar sua capacidade de abastecer demandas internas vinculadas à tecnologia, à energia, à defesa industrial e à modernização produtiva.

Exporta-se o excedente. Não se exporta a base do próprio futuro.
Beneficiamento não é triturar. É industrializar

Há uma diferença decisiva entre moer e dominar tecnologia.

Beneficiamento real significa controle das etapas industriais de separação, refino químico, metalização e transformação em componentes de alto valor agregado. É nesse elo que surgem empregos qualificados, engenharia nacional, pesquisa aplicada, arrecadação consistente e encadeamento produtivo duradouro.

Sem esse salto, o Brasil não vende apenas minério. Vende o direito de outro país ser tecnológico.

Negociação consequente exige transferência efetiva de conhecimento, instalação de capacidade industrial no território nacional e integração com a base produtiva existente. O contrário é retórica diplomática com resultado colonial.
Exclusividade é tutela disfarçada

Parcerias são bem-vindas. Mas subordinação geopolítica é a receita para a perpetuação do atraso.

Qualquer tentativa de impor exclusividade comercial ou alinhamento automático a um único bloco geopolítico compromete a autonomia brasileira. O país precisa negociar com múltiplos mercados, preservar liberdade diplomática e evitar tornar-se peça de disputa entre potências.

Mineração em terras raras. Foto: Bloomberg.

Território como variável econômica

Há ainda um equívoco recorrente de tratar salvaguardas ambientais e sociais como entraves.

Toda corrida por recurso tende a pressionar licenciamento, comunidades, água, rejeitos e rastreabilidade. Quando esses pilares são fragilizados, o custo aparece sob forma de judicialização prolongada, conflito social, perda de credibilidade internacional, encarecimento do crédito e exclusão de mercados exigentes.

Devastar para desenvolver é equação que gera lucro imediato e passivo estrutural. O território preservado não é obstáculo ao investimento. É garantia de estabilidade econômica de longo prazo.
Entre extrair e projetar um país

A negociação que se impõe ao Brasil não é meramente ideológica. Se conduzida com inteligência, pode se converter em motor de reindustrialização, redução de dependência tecnológica, geração de empregos qualificados e fortalecimento territorial.

Se conduzida com pressa ou ingenuidade, apenas atualizará o velho modelo extrativista com nova embalagem tecnológica.

Entre extrair e projetar um país há um abismo. A diferença está nas cláusulas que o Brasil escolher escrever.

Não é uma oportunidade qualquer. É um teste histórico

O Brasil pode transformar minerais críticos em base de reindustrialização, autonomia tecnológica e fortalecimento territorial.

Ou pode repetir o gesto automático de extrair, embarcar e assistir ao valor agregado florescer em outro lugar.

Entre ser fornecedor e ser protagonista há uma escolha silenciosa. Ela não será feita em discursos. Será feita em cláusulas.
Minerais críticos são infraestrutura de poder

O mundo disputa refino e tecnologia, não apenas extração. Exportar bruto é importar dependência. Negociação madura começa com definição de projeto nacional. Mercado interno estratégico vem antes do excedente externo.

Beneficiamento real significa industrialização e domínio tecnológico.

Transferência de conhecimento deve ser exigência contratual. Exclusividade compromete soberania. Território protegido é ativo econômico.A brasilidade estratégica se escreve em contratos inteligentes.

Alfredo é consultor ambiental, filósofo, escritor e editor-geral do portal BrasilAmazôniaAgora
Portal BrasilAmazôniaAgora

Correntão: o método de desmatamento mais brutal que ameaça a floresta e destrói o futuro do Brasil




Foto divulgação



Na madrugada desta terça-feira, 6 de maio, uma denúncia contundente lançada pela CBN São Paulo expôs ao Brasil o avanço de uma das técnicas mais brutais de desmatamento ilegal utilizadas hoje no país: o uso do correntão — um verdadeiro instrumento de guerra contra a floresta.
O que é o correntão?

Quem explica o correntão nos detalhes é a jornalista Rosana Jatobá: A prática é simples e devastadora: uma corrente naval gigantesca, daquelas utilizadas em grandes embarcações, é presa entre dois tratores de alta potência. Eles percorrem áreas de floresta nativa arrastando a corrente entre si, devastando tudo pela frente — árvores centenárias, vegetação rasteira, animais, cursos de água, o solo.

O impacto é tão veloz quanto irreversível: até 10 campos de futebol podem ser desmatados em apenas uma hora. A vegetação é arrancada pela raiz, os animais são esmagados, o solo é compactado de tal forma que a água da chuva deixa de infiltrar, inviabilizando qualquer regeneração natural.
Crime ambiental de alta intensidade

Essa tática — cruel, arcaica e absolutamente predatória — vem sendo utilizada principalmente para abrir espaço para a pecuária extensiva. Trata-se de um processo de transformação criminosa da floresta nativa em terra arrasada, a serviço de uma lógica de curto prazo que sacrifica o futuro em nome do lucro imediato.



A passagem do correntão pela floresta não é apenas destruição: é um massacre silencioso, um genocídio da vida em todas as suas formas. A cada metro arrastado, milhares de seres vivos são esmagados sem chance de fuga. Macacos, antas, aves, filhotes em ninhos, insetos polinizadores, árvores centenárias — tudo vira entulho sob o peso brutal do ferro e da ganância.

- O solo, antes vivo, fértil, respirando com a floresta, é compactado até sufocar. Sua estrutura se desfaz, sua fertilidade desaparece. É como asfixiar a terra com as próprias mãos. O que antes brotava com abundância, agora não germina mais. Nem capim.

- As nascentes, pequenos olhos d’água que alimentavam rios, comunidades e lavouras, são destruídas sem piedade.O ciclo da água se rompe. O que a natureza demorou séculos para organizar é interrompido em poucas horas de devastação mecânica. A chuva que cai, já não infiltra. Escorre, leva embora o pouco que resta.

- E o que sobra? Não é campo. Não é floresta. É deserto. Uma terra estéril, um vazio esverdeado que nada produz, nem abriga. Uma área antes pulsante de biodiversidade se transforma num cemitério ecológico, sem retorno, sem futuro.

- Sem floresta, sem solo, sem água: não há agricultura que sobreviva. A produção de alimentos despenca. A pecuária, que motivou a destruição, é a primeira a sucumbir. O ciclo perverso do lucro imediato implode sobre os próprios ombros de quem o alimentou.



Essa é a verdadeira face do correntão: a fábrica da morte que transforma riqueza viva em paisagem morta.

Legislação emperrada: o Projeto de Lei 5.268/2020

Tramita desde 2020 no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 5.268/2020, que proíbe expressamente o uso do correntão em todo o território brasileiro. A proposta está parada, mesmo diante de alertas de cientistas, ambientalistas e procuradores da República. A urgência de sua aprovação nunca foi tão evidente.

A aprovação dessa lei representa uma fronteira civilizatória: ou o Brasil assume a defesa de seus biomas com seriedade ou afunda na barbárie do desmatamento industrial.
brasilamazoniaagora.com.br

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos