sábado, 1 de agosto de 2026

Gaza não é a primeira vez que autoridades dos EUA minimizam atrocidades cometidas por regimes apoiados pelos Estados Unidos




Gaza não é a primeira vez que autoridades dos EUA minimizam atrocidades cometidas por regimes apoiados pelos Estados Unidos – estudiosos de genocídio encontraram estratégias semelhantes usadas desde o Timor-Leste até a Guatemala e o Iêmen.



Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos têm apoiado repetidamente governos que vêm cometendo atrocidades em massa, que são definidas pelo estudioso de genocídio Scott Straus como “violência sistemática e em larga escala contra populações civis”.

Isso inclui o apoio dos EUA a Israel, que tem se mantido consistente apesar do recente desentendimento do presidente Donald Trump com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu sobre se os palestinos estão passando fome em Gaza.

Somos estudiosos de genocídio e de outras atrocidades em massa, bem como de segurança internacional. Em nossa pesquisa para um artigo a ser publicado no Journal of Genocide Research, analisamos declarações oficiais, documentos desclassificados e reportagens da mídia em quatro casos que envolvem o apoio dos EUA a governos que estavam cometendo atrocidades: Indonésia no Timor Leste de 1975 a 1999, Guatemala de 1981 a 1983, a coalizão liderada pela Arábia Saudita – conhecida como “Coalizão” – no Iêmen desde 2015 e Israel em Gaza desde outubro de 2023.

Identificamos seis estratégias retóricas, que são formas de falar sobre algo, usadas por autoridades dos EUA para distanciar publicamente os EUA das atrocidades cometidas por aqueles que recebem seu apoio.

Isso é significativo porque, quando os americanos, assim como outras pessoas em todo o mundo, aceitam essa retórica pelo seu valor nominal, os EUA podem manter a impunidade por seu papel na violência global.
Ignorância fingida

Quando as autoridades dos EUA negam qualquer conhecimento de atrocidades perpetradas por partes que recebem apoio dos EUA, chamamos isso de ignorância fingida.

Por exemplo, depois que a Coalizão bombardeou um ônibus escolar no Iêmen, matando dezenas de crianças, a senadora americana Elizabeth Warren perguntou ao general Joseph Votel se o Comando Central dos EUA rastreia o objetivo das missões que está reabastecendo.

Sua resposta: “Senadora, não fazemos”.

Essa ignorância proclamada contrasta fortemente com os bem documentados crimes de guerra da Coalizão desde 2015. Como disse o especialista em Iêmen Scott Paul, “ninguém mais pode fingir surpresa quando muitos civis são mortos”.
Ofuscação

Quando as evidências de atrocidades não podem mais ser ignoradas, as autoridades dos EUA usam a ofuscação, que confunde os fatos.

Quando as forças indonésias realizaram massacres em 1983, matando centenas de civis, a Embaixada dos EUA em Jacarta enviou um telegrama ao secretário de Estado e a várias embaixadas, consulados e missões dos EUA questionando os relatórios porque “não haviam recebido comprovação de outras fontes”.

Da mesma forma, durante o genocídio na Guatemala, após o golpe bem-sucedido de Efraín Ríos Montt, as autoridades dos EUA distorceram os relatórios de violência perpetrados pelo governo, em vez de culpar os guerrilheiros.

Em seu relatório sobre direitos humanos na Guatemala de 1982, por exemplo, o Departamento de Estado afirmou: “Nos casos em que foi possível atribuir responsabilidade por assassinatos na Guatemala, parece mais provável que, na maioria dos casos, os insurgentes (…) tenham sido culpados”.

No entanto, a inteligência dos EUA disse o contrário.

Relatos de atrocidades e abusos estatais na Guatemala podem ser encontrados em documentos de inteligência dos EUA a partir da década de 1960. Um telegrama da CIA de 1992 observou explicitamente que “várias aldeias foram queimadas até o chão” e que “é de se esperar que o exército não dê trégua nem a combatentes nem a não combatentes”.
Negação

À medida que as evidências de atrocidades continuam a se acumular, bem como as evidências de quem é o responsável, as autoridades norte-americanas frequentemente recorrem à negação. Eles negam não que a ajuda dos EUA esteja sendo fornecida, mas sim que ela não foi usada diretamente na prática de atrocidades.

Por exemplo, durante as atrocidades cometidas pela Indonésia no Timor Leste, os EUA estavam ativamente treinando membros do corpo de oficiais da Indonésia. Quando as forças de segurança indonésias massacraram cerca de 100 pessoas em um cemitério em Díli em 1991, a reação do governo de George H.W. Bush foi simplesmente dizer que “nenhum dos oficiais militares indonésios presentes em Santa Cruz havia recebido treinamento dos EUA”.
Diversionismo

Quando o escrutínio público do apoio dos EUA atinge níveis que não podem mais ser facilmente ignorados, as autoridades dos EUA podem recorrer a diversionismos.

Esses são ajustes de políticas alardeados que raramente envolvem mudanças significativas. Eles geralmente são uma forma de propaganda enganosa. Isso ocorre porque o objetivo da manobra não é mudar de fato o comportamento do destinatário da ajuda dos EUA; é apenas uma tática política usada para aplacar os críticos.

Em 1996, quando o governo Clinton cedeu à pressão dos ativistas suspendendo as vendas de armas leves à Indonésia, ainda assim vendeu à Indonésia US$ 470 milhões em armamentos avançados, inclusive nove jatos F-16.

Mais recentemente, em resposta às críticas do Congresso e do público, o governo Biden pausou a entrega de bombas de 2.000 e de 500 libras a Israel em maio de 2024, mas por pouco tempo. Todas as outras transferências extensivas de armas permaneceram inalteradas.

Como exemplificado pelo apoio dos EUA a Israel, o desvio também inclui investigações superficiais dos EUA que sinalizam preocupação com abusos, sem consequências, bem como apoio a auto-investigação, com resultados exculpatórios igualmente previsíveis.
Engrandecimento

Quando as atrocidades cometidas pelos beneficiários do apoio dos EUA são altamente visíveis, as autoridades americanas também usam o engrandecimento para elogiar seus líderes e apresentá-los como dignos de assistência.

Em 1982, o presidente Ronald Reagan elogiou o presidente Suharto, o ditador responsável pela morte de mais de 700.000 pessoas na Indonésia e Timor Leste entre 1965 e 1999, por sua liderança “responsável”. Enquanto isso, as autoridades de Clinton o consideravam “nosso tipo de homem”.

Da mesma forma, o líder guatemalteco Ríos Montt foi retratado por Reagan no início dos anos 80 como “um homem de grande integridade pessoal e comprometimento”, sendo forçado a enfrentar “um desafio brutal de guerrilheiros armados e apoiados por outros fora da Guatemala”.

Assim, esses líderes são apresentados como se estivessem usando a força por uma causa justa ou apenas porque estão enfrentando uma ameaça existencial. Esse foi o caso de Israel, com o governo Biden declarando que Israel estava “no auge de uma batalha existencial”.

Esse engrandecimento não apenas eleva moralmente os líderes, mas também justifica a violência que eles cometem.
Diplomacia discreta

Por fim, as autoridades dos EUA também costumam afirmar que estão se engajando em uma forma de diplomacia silenciosa, trabalhando nos bastidores para controlar os beneficiários do apoio dos EUA.

É importante ressaltar que, de acordo com as autoridades dos EUA, para que a diplomacia discreta seja bem-sucedida, o apoio contínuo dos EUA continua sendo necessário. Portanto, o apoio contínuo àqueles que cometem atrocidades torna-se legitimado precisamente porque é esse relacionamento que permite que os EUA influenciem seu comportamento.

No Timor Leste, o Pentágono argumentou que o treinamento aumentou “o respeito das tropas indonésias pelos direitos humanos”. Quando uma unidade militar indonésia treinada pelos EUA massacrou cerca de 1.200 pessoas em 1998, o Departamento de Defesa disse que “mesmo que os soldados treinados pelos americanos tivessem cometido alguns dos assassinatos”, os EUA deveriam continuar o treinamento para “manter a influência sobre o que aconteceria em seguida”.

As autoridades dos EUA também insinuaram em 2020 que os iemenitas sob ataque da Coalizão, liderada pela Arábia Saudita, são favorecidos pelo apoio de armas dos EUA à Coalizão porque o apoio deu aos EUA influência sobre como as armas são usadas.

No caso de Gaza, as autoridades norte-americanas mencionaram repetidamente a diplomacia silenciosa como promotora da contenção, ao mesmo tempo em que buscavam bloquear outros sistemas de responsabilização.

Por exemplo, os Estados Unidos vetaram seis resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre Gaza desde outubro de 2023 e impuseram sanções a cinco juízes e promotores do Tribunal Penal Internacional devido a mandados de prisão emitidos contra Netanyahu e o ex-ministro da Defesa israelense Yoav Gallant.
Distanciamento e minimização

As autoridades dos EUA há muito tempo usam uma variedade de estratégias retóricas para distanciar o país e minimizar suas contribuições para as atrocidades cometidas por outros com o apoio dos EUA.

Com essas estratégias em mente, o reconhecimento de Trump sobre a “fome real” em Gaza pode ser visto como um desvio do apoio inalterado dos EUA a Israel, à medida que as condições de fome em Gaza pioram e palestinos são mortos enquanto esperam por comida.

Desde fingir ignorância até minimizar a violência e elogiar seus perpetradores, os governos e presidentes dos EUA há muito tempo usam uma retórica enganosa para legitimar a violência de líderes e países que os EUA apoiam.

Mas há dois elementos necessários que permitem que esse enquadramento continue funcionando: Um é a linguagem do governo dos EUA; o outro é a credulidade e a apatia do público.

Texto traduzido do artigo Gaza isn’t the first time US officials have downplayed atrocities by American-backed regimes – genocide scholars found similar strategies used from East Timor to Guatemala to Yemen, de Jeff Bachman e , publicado por The Conversation sob a licença ⁠Creative Commons Attribution 3.0⁠. Leia o original em: ⁠The Conversation.

O Islã e a Cidade Santa: a importância do Nobre Santuário para a fé muçulmana



O Islã e a Cidade Santa: a importância do Nobre Santuário para a fé muçulmana.



Por conta de sua importância histórica, a Cidade Velha de Jerusalém, junto às suas muralhas, foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 1981. No entanto, logo no ano seguinte, o sítio foi inscrito na lista de Patrimônios Mundiais em Perigo, se mantendo sob essa condição até hoje. Reverenciada pelas três grandes religiões monoteístas, a cidade guarda os locais sagrados de cada uma delas: o Nobre Santuário (Haram al-Sharif) dos muçulmanos abriga o Domo da Rocha, erguido para proteger a Pedra Fundamental, local identificado como o altar de Abraão.

No mesmo pátio está a mesquita de al-Aqsa, construída durante o califado de Omar, o segundo califa islâmico. Colado ao Nobre Santuário, está o Muro das Lamentações dos judeus, única parte remanescente do Templo de Herodes. E a uma distância aproximada de 500 metros encontra-se a Basílica do Santo Sepulcro dos cristãos, construída sobre o local de crucificação e sepultamento de Jesus.


Um dos mais importantes centros religiosos do mundo é o foco de disputa entre judeus e muçulmanos. São frequentes as incursões de ultranacionalistas israelenses pelas ruas da Cidade Velha, invadindo o pátio do Nobre Santuário, o que viola as regras sobre os horários de visitação de não muçulmanos ao local. Essas incursões recebem escolta da polícia israelense. As marchas da bandeira, como são chamadas, contam com a presença de autoridades do governo israelense, como Itamar Ben-Gvir, que ocupa o posto de ministro da Segurança Interna e o parlamentar Yitzhak Kroizer, membro do partido Poder Judaico.

Notáveis lideranças da direita sionista, que não escondem as suas aspirações em expropriar a população palestina de Jerusalém Oriental, assim como estender os assentamentos judaicos na Cisjordânia e anexar a Faixa de Gaza. O movimento que se assiste entre esses colonos judeus age em nome de um projeto maior, a construção do que está sendo apelidado de “Terceiro Templo”, fazendo referência aos dois templos judaicos destruídos no passado. Na perspectiva destes ultranacionalistas, a reconstrução do prédio anteciparia a chegada do Messias, simbolizando uma era de redenção.

Na direção contrária dos ultranacionalistas judeus, a construção do “Terceiro Templo” tem sido motivo de apreensão entre os muçulmanos. Jerusalém é o terceiro lugar mais sagrado do Islã, e o projeto que vem se anunciando coloca sob ameaça um dos seus locais mais sagrados, o Nobre Santuário, além de também ser encarado como um plano para desislamizar a sagrada cidade. Esse receio não é novo. Desde o estabelecimento da presença judaica de forma mais intensa na Palestina, ainda no início do século XX, as autoridades muçulmanas já se preocupavam com o perigo que corria o santuário.

Mas é após 1967 que Jerusalém ganha maior atenção entre os judeus. Com a vitória israelense sobre os países árabes na Guerra dos Seis Dias, a cidade foi reunificada, ficando Jerusalém Oriental sob ocupação israelense. O acontecimento chegou a ganhar data comemorativa, Yom Yerushalayim (Dia de Jerusalém). O conflito, que até aquele momento se concentrava em uma disputa político-territorial, passa a ganhar uma dimensão profética. O sionismo religioso aos poucos vai encontrando maior apoio entre os israelenses, superando o sionismo secular que havia colocado em prática a construção do moderno Estado judeu.
Uma nova fé surge entre os árabes


No século VII, a península arábica encontrava-se entre duas grandes potências do Oriente Médio: a oeste, o Império Bizantino, por vezes chamado de Império Romano do Oriente, com a capital em Constantinopla; a leste, o Império Sassânida, sobre a região da Pérsia. Os constantes confrontos entre essas duas potências impossibilitavam o trânsito de mercadorias provenientes da China com destino ao Mediterrâneo, através da Rota da Seda.

Para que o comércio não fosse prejudicado, os mercadores foram obrigados a buscar novas rotas para o escoamento de seus luxuosos produtos. Uma das alternativas consideradas foi partir da Pérsia, navegar pelo Mar Vermelho e chegar aos portos do Mediterrâneo. Meca ficava próxima à costa da península arábica, e isso a colocava no itinerário da nova rota comercial, o que impulsionou um alto desenvolvimento mercantil à cidade.

Além de sua importância comercial, Meca também era um importante centro religioso. Encontrava-se nela uma construção de granito em forma de cubo, a Caaba, e em seu interior habitava a Pedra Negra. O santuário era o local mais reverenciado da Arábia, sendo o destino de peregrinação de tribos de toda a península. No santuário, adorava-se o deus Hubal, um dos deuses da Arábia politeísta, e mais trezentos ídolos pagãos. A Pedra Negra representava, e ainda representa, a conexão entre o céu e a terra.

Meca havia de verdade alcançado um próspero desenvolvimento comercial, mas esse desenvolvimento começou a impactar de forma negativa a sociedade mequense. Foi quando Maomé Ibn Abdullah, um comerciante em torno de seus 40 anos, observou que a população vinha se distanciando de seus antigos costumes tribais. O respeito ao clã familiar e a ancestralidade eram traços característicos da Arábia e, ao assistir à perda desses valores, Maomé sentia uma profunda inquietação. Percebia que uma desorientação espiritual havia se abatido sobre os habitantes de sua cidade.

Órfão aos seis anos de idade, Maomé foi adotado por seu tio Abu Talib. Costumava acompanhá-lo em viagens comerciais para a Síria, e foi lá que teve seu primeiro contato com o monoteísmo. Por meio de um monge, recebeu aulas de cristianismo e teve conhecimento sobre os textos sagrados da Bíblia. Quando atingiu a fase adulta, começou a trabalhar como negociante da caravana comercial de Khadija, uma viúva de idade mais avançada e com quem viria a se casar. Maomé era um indivíduo dotado de carisma, simpatia e uma inabalável reputação.

A tradição islâmica relata que, certa noite, no ano 610, ao meditar no Monte Hira, próximo a Meca, Maomé sentiu que uma força sobre-humana se manifestava para ele, como um espírito divino. Era o anjo Gabriel que o visitava para lhe transmitir a seguinte mensagem: “Tu és o enviado de Deus, o seu Profeta.” Maomé sentiu um profundo temor, mas aquilo que havia presenciado mudaria toda a sua vida. A partir deste momento, Maomé passou a assumir a missão que acabava de lhe ser designada, a de mensageiro da palavra de Deus, Allah. Esse importante testemunho do Profeta entra para a tradição como a “Noite do Decreto”, celebrada pelos muçulmanos durante o Ramadã, o nono mês do calendário islâmico.

Inicialmente, Maomé professou o Islã secretamente entre os mais próximos. Conclamou os árabes a adorarem um Deus único, assim como faziam os judeus e os cristãos. Da mesma forma que o judaísmo havia sido revelado ao povo israelita, a mensagem divina estava agora sendo revelada em árabe aos descendentes de Ismael, o primogênito de Abraão (Ibrahim para os muçulmanos) com sua escrava Agar. Durante 23 anos, Maomé continuou recebendo as revelações de Allah e todas elas estão compiladas no livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão.

Assim como os habitantes de Meca, Maomé gostava de orar no Haram, próximo à Caaba. Os textos corânicos nos contam que, em uma de suas orações no santuário, no ano 620, o Profeta vivenciou uma experiência espiritual que faria do Islã a revelação final das crenças monoteístas. Recebeu novamente a visita do anjo Gabriel e, junto a ele, subiu no dorso de um buraque (corcel alado). Os dois voaram pelo céu e seguiram em direção à sagrada Jerusalém. Maomé e o anjo pousaram no Monte do Templo, onde foram recebidos pelos profetas antecessores. De frente para todos, conduziu uma oração.

O Monte do Templo é o local que abriga a Pedra Fundamental, onde Abraão ofereceu seu filho Ismael (Isaac no judaísmo) ao sacrifício, como prova de sua fé. A partir deste local sagrado, o Profeta ascendeu aos céus, atravessando os sete estágios na companhia do anjo. Cada estágio de céu era a morada de um profeta. Adão, Jesus e João Batista, José, Enoque, Aarão, Moisés e, por último, Abraão, o patriarca. Todos concedem permissão para que ele possa atravessar para o próximo nível, e assim Maomé alcançou um estágio ao qual ninguém jamais conseguiu chegar, ao Trono divino. E, estando lá, na presença de Deus Todo-Poderoso, recebe então a revelação final.

Maomé acreditava que os fiéis judeus e cristãos naturalmente se incorporariam à nova fé. Pois o Islã não tinha a intenção de ser uma nova religião, sua palavra vinha para ser a “revelação final”. Na cosmovisão islâmica, Deus havia criado o mundo em estado de perfeita harmonia. Ser um muçulmano significa buscar, por meio da submissão à vontade de Allah, o retorno à pureza espiritual contemplada aos humanos durante a criação do mundo, quando Deus colocou Adão e Eva no paraíso (ARMSTRONG, 2011).
O unificador da Arábia


O ato de adoração a um único deus logo começava a se chocar com a religiosidade da Arábia politeísta. A elite de Meca viu no monoteísmo que se alastrava uma afronta aos costumes sagrados. A tribo dos coraixitas, à qual o próprio Maomé pertencia, era a guardiã do santuário que abrigava a Caaba. O monoteísmo confrontava diretamente os interesses dos coraixitas, que se beneficiavam da peregrinação ao santuário. Receosos de que a disseminação do islamismo acabasse com as visitas ao local, a elite de Meca passou a perseguir os adeptos da nova crença. Maomé e seus seguidores foram então obrigados a fugir da cidade.

Em 622, o Profeta, acompanhado de mais setenta famílias de crentes, migra para Medina. O Alcorão se refere à migração como Hégira. O evento marca o ano 1 do calendário islâmico. Medina era um oásis que havia sido fundado por judeus, onde também habitavam tribos pagãs. Lá, o mensageiro de Allah agiu como um conciliador. Foi habilidoso em cessar as rivalidades entre os clãs locais. A mensagem que trazia criou um elemento de coesão entre os árabes, capaz de superar os conflitos tribais. O êxito desse engenhoso feito reuniu em Maomé as qualidades religiosa, política e militar. Esses três elementos, consolidados ainda no surgimento do Islã, se mantêm estruturados até hoje nas sociedades muçulmanas.

Com um número crescente de conversos, o Profeta formou a comunidade de fiéis, a ummah. Ao fazer isso, rompe com o modo de organização tribal que havia na Arábia pré-islâmica, apontado pelos muçulmanos como tempo da Jahiliyyah. A palavra em árabe significa “ignorância”. O novo vínculo entre seus membros se dá por meio da fé, interligando-os em torno de uma crença em comum e não mais por laços sanguíneos. Em Medina foi construída a primeira mesquita e, devido à importância sagrada de Jerusalém, a cidade foi a primeira qibla (direção da prece).

Mais tarde, convencido de que nem todos os judeus de Medina acatariam o Islã, decidiu mudar a direção da prece, ordenando que os fiéis orassem voltados para a sagrada Meca. Essa atitude representava um ato de autonomia quanto aos seus predecessores, já que Meca não configurava no percurso sagrado dos judeus e nem dos cristãos. Mas o Islã não pretendia apagar os ensinamentos já disseminados. Ao contrário, Maomé ressalta para os adeptos do Islã a importância do respeito às revelações anteriores. Judeus, cristãos e zoroastristas passam a constar no Alcorão como “Povos do Livro”.

Mesmo distantes de Meca, o Profeta e a ummah sofriam ameaças de morte e o risco de serem entregues aos seus inimigos. Durante os primeiros dez anos, Meca e os muçulmanos se enfrentaram em sangrentas batalhas. Muitos crentes perderam suas vidas. Em algumas, amargaram derrotas, como na Batalha de Ohud, em 625, porém, em outras saíram vitoriosos, como nas Batalhas de Báder, em 624, e do Fosso, em 627.

Três tribos judaicas que se aliaram a Meca também sofreram ataques por parte do exército de Maomé. Sucessivamente, as tribos da península arábica foram se convertendo. Já em 630, quase toda a Arábia estava unificada sob o Islã. Maomé retorna a Meca e entra junto a seu exército em sua cidade natal, sem derramamento de sangue. Ao entrar na cidade, Maomé foi diretamente à Caaba. Acredita-se que o santuário havia sido originalmente construído por Adão, e foi posteriormente reerguido por Abraão, com a ajuda de seu filho Ismael, tornando-o o primeiro local do mundo dedicado ao Deus único.

Contudo, com o passar do tempo, havia sido contaminado devido à adoração de deuses pagãos. O Profeta tratou de expurgar todas as imagens dos ídolos pagãos e proclamou aos seus fiéis: “Deus é o maior!”. O santuário estava agora purificado e se tornou o lugar mais sagrado para os muçulmanos. O Islã se consolida conjugando a religiosidade monoteísta judaico-cristã com as tradições beduínas da Arábia (COGGIOLA, 2011). A fé muçulmana consiste em dar sentido e orientação à vida do crente. Ao circularem em torno da Caaba, no rito do tawaf, os muçulmanos manifestam essa concepção. Caminhando em sentido anti-horário por sete vezes em volta do cubo, o fiel, simbolicamente, se alinha ao movimento natural do cosmo, harmonizando-se com as leis naturais do universo, como parte da criação divina (ARMSTRONG, 2011).

Em 632, o Profeta realiza o hajj, o tradicional ritual de peregrinação a Meca. Antes praticado pelos politeístas da Arábia, passa agora a ser incorporado à liturgia islâmica. No mesmo ano, Maomé falece, sem apontar quem deveria ser seu sucessor. A escolha de quem o substituirá logo cria uma cisão no interior da comunidade muçulmana, formando dois grupos opostos sobre a continuidade de seu legado. O primeiro grupo defendia que a sucessão deveria obedecer aos laços de parentesco do Profeta. Desta forma, Ali Ibn Talib, que era primo e genro de Maomé, casado com sua filha Fátima, reivindicou o seu nome para ser o legítimo sucessor. Ganhou apoiadores, porém esse grupo compunha corrente minoritária.

O segundo grupo se opunha à sucessão vinculada à linhagem. Defendia que a liderança do Profeta deveria ser transferida a um muçulmano digno, porém, a escolha teria de passar pela anuência da comunidade. O segundo grupo se reuniu em torno do nome de Abu Bark, que foi o escolhido pela maioria para liderar a ummah. O califa era o líder supremo dos muçulmanos. Era uma figura honrada dentro da comunidade, com alto grau de prestígio que permitia exercer uma autoridade religiosa, mas sem tomar o lugar de Maomé como mensageiro de Deus.

Abu Bakr tinha sido um fiel amigo e companheiro do Profeta. Nos momentos finais de sua vida, já impossibilitado de realizar as orações, Maomé pediu para Abu Bakr que as fizesse em seu lugar. Após o falecimento do Profeta, Abu Bakr disse: “Ó, homens, se adorais a Maomé, Maomé está morto; se adorais a Deus, Deus está vivo!”. O primeiro califa foi também o primeiro homem adulto a se converter ao Islã e, de certa forma, também tinha parentesco com o Profeta. Tornou-se seu sogro, cedendo a mão de sua filha, Aisha, para se unir a Maomé em matrimônio. Coube a Abu Bakr a missão de continuar a expansão islâmica. Foi sob sua liderança que as tropas muçulmanas terminaram de unificar toda a península arábica. Seu califado durou apenas dois anos. Em seu leito de morte, indicou o nome de Omar para ser o seu sucessor.
Os muçulmanos se lançam ao mundo


Omar deu continuidade às campanhas militares. O segundo califa liderou as expedições islâmicas rumo ao norte, com a missão de difundir a nova doutrina para fora da península arábica. Nesse sentido, significava que o império islâmico nascente iria penetrar em áreas que estavam sob domínio bizantino e sassânida. Os islâmicos não encontraram muita resistência ao avançar para estas regiões. Os dois impérios estavam com os seus recursos comprometidos em função de batalhas travadas entre si durante séculos. O enfraquecimento da capacidade bélica de ambos favoreceu o avanço das expedições islâmicas sobre suas províncias. Além disso, os novos conquistadores também contavam com certa identificação dos habitantes judeus, cristãos e zoroastristas das enfraquecidas potências.

Na Palestina, dominada pelo Império Romano do Oriente, judeus e cristãos encararam os conquistadores islâmicos com certo grau de entusiasmo. Preferiam estes às políticas repressivas das autoridades cristãs bizantinas. Os cristãos monofisistas, uma vertente característica do Oriente Médio, sofriam perseguições. Eram apontados como hereges por defenderem que Jesus era fruto de uma só natureza, a divina. Para os judeus, a chegada dos islâmicos também representava uma libertação e ecoava sobre suas memórias a ascensão dos persas, que no passado os libertaram do exílio da Babilônia. Nesse momento, os judeus eram minoria na Palestina e sofriam com a hostilidade dos cristãos.

O exército imperial bizantino lutou para impedir o avanço islâmico, mas foi derrotado na decisiva Batalha de Yarmuc, em 636. No ano seguinte, os cavaleiros árabes cercaram Jerusalém. Os muçulmanos sabiam o valor sagrado que tinha aquele lugar. Com base nas profecias bíblicas, era lá que o Juízo Final se consumaria (MONTEFIORE, 2013). Sofrônio, o patriarca da cidade, tentou resistir por mais alguns meses, contudo, não alcançara sucesso. Ciente da derrota, fez questão de entregar as chaves da cidade pessoalmente a Omar. Acompanhado de seus cavaleiros, o califa se dirigiu até a sagrada cidade e foi recebido por Sofrônio ainda na estrada.

O patriarca observava com espanto os novos dominadores. O líder máximo da comunidade muçulmana chegava à cidade montado em um burro e envolto de um esfarrapado manto branco. O modesto traje de Omar, assim como o de seus cavaleiros, contrastava com as suntuosas indumentárias dos bizantinos. O islamismo, ainda em ascensão, assumia a simplicidade como um ideal de virtude. O Alcorão enfatiza aos fiéis a importância de repartirem suas riquezas e formarem uma comunidade fundamentada na solidariedade e na compaixão, respeitando os mais pobres e humildes (ARMSTRONG, 2011).

Na posição de autoridade, Sofrônio acompanhou o califa, apresentando os seus lugares sagrados. Iniciou o trajeto evidentemente pelo santuário de sua fé, a Basílica do Santo Sepulcro. O patriarca convidou Omar para orar dentro da Basílica, mas a oferta foi recusada. Omar explicou que, se orasse no interior da igreja, seus seguidores posteriormente o transformariam em um santuário islâmico.

O califa, então, resolveu orar na escada, na parte externa do edifício. A atitude de Omar não deve ter passado de algo puramente diplomático, já que o santuário foi erguido sobre o local da crucificação de Jesus, ideia rejeitada pelos muçulmanos. O Alcorão relata a trajetória de Jesus e o exalta como um profeta, entretanto, na concepção islâmica, Deus não permitiria que um profeta seu morresse com tamanho sofrimento.

Ao invés da trágica morte, Jesus ascende aos céus e retornará anunciando o final dos tempos. Omar, de imediato, baixou um decreto proibindo os muçulmanos de fazerem daquele local uma mesquita, assegurando que o santuário permanecesse sob a tutela cristã. O califa desejava conhecer o que tinha sido o Templo Sagrado dos judeus. Guiado por Sofrônio, foi até o local do que havia restado do santuário, depois da destruição feita pelo imperador Tito.

Ao chegar ao local, horrorizou-se com o tamanho estado de imundície em que se encontrava um espaço tão sagrado. Dejetos e lixo tomavam conta do lugar. Tudo isso era ali jogado pelos cristãos, como forma de hostilidade aos judeus. Omar, seguido por seus soldados, tomou a iniciativa de limpar o local para encontrar um espaço de oração. Usou seu manto para recolher o entulho e, com a ajuda dos soldados, despejou no Vale de Hinom o que havia recolhido.

Depois, recorreu a um ex-judeu que se convertera ao Islã para saber onde se encontrava o Santo dos Santos. O “rabino”, como era conhecido, aconselhou o califa a orar na parte norte do pátio, pois assim poderia ter duas qiblas, Jerusalém e Meca. Mas o califa preferiu orar na parte sul, direcionando sua oração apenas para Meca, como havia sido recomendado pelo Profeta. Naquele local, então, decidiu erguer uma mesquita, onde hoje se encontra a mesquita de al-Aqsa.

A conquista de Jerusalém pelos muçulmanos não implicou em expulsão, nem em forçosa conversão. Omar permitiu que os cristãos mantivessem seus cultos e santuários. Eles ainda permaneceriam por um bom tempo sendo a população majoritária da Palestina, mesmo sob o domínio islâmico. Quanto aos judeus, concordou inicialmente com Sofrônio de que eles não deveriam habitar Jerusalém, porém, recuou na decisão e convidou setenta famílias judaicas de Tiberíades a se estabelecerem na cidade. Cristãos e judeus se tornaram “minorias protegidas” na Palestina islâmica.

Os não-muçulmanos deveriam pagar um tributo anual, e em troca os muçulmanos lhes ofereciam proteção militar. Também era exigido que abdicassem de armamentos. Mesmo que houvesse condições que os diferenciassem, a relação entre as três religiões se estabeleceu de forma amistosa, permitindo que os três cultos fossem praticados na cidade. Havia uma melhora no tratamento, se comparado ao dos antigos governantes bizantinos (ARMSTRONG, 2011).

O califado de Omar durou dez anos. Até que um ex-guerreiro persa, indignado com a derrota dos Sassânidas, golpeou o califa a punhaladas. Pouco antes de sua morte, Omar designou uma comissão de seis companheiros para que estes indicassem um nome entre eles para ser seu substituto. Otman foi o nome escolhido. O terceiro califa não alcançava o mesmo prestígio dos antecessores. Fato que não o impediu de seguir com a expansão islâmica, que a essa altura já havia alcançado todo o Oriente Médio e começava a se estender pelo norte da África.

Otman foi um dos primeiros membros da aristocracia de Meca a se converter ao Islã. Apesar de ser apontado como um homem generoso, ao final de seu califado foi acusado de favorecer os membros de seu clã, nomeando-os como governadores das províncias. Foi quando, em 656, um grupo de insurgentes, apoiado pelo exército árabe do Egito, seguiu até Medina para levar suas contestações. O grupo cercou a residência de Otman. Enquanto o califa recitava o Alcorão, o grupo o atacou. Tamanha brutalidade fez com que ele falecesse.

A morte de Otman reacende uma rivalidade interna na comunidade islâmica. Os que haviam assassinado Otman escolheram Ali ibn Talib para ocupar a posição de califa. Ali era primo e genro do Profeta, e no passado havia reivindicado seu nome como califa para sucedê-lo. Ainda recebia apoio dos que desejavam que ele fosse o legítimo líder da comunidade muçulmana, respeitando a linhagem de Maomé.

O quarto califa encontrou oposição com o governador da Síria, Muawiya ibn Abi Sufyan, que por sua vez era primo de Otman, o califa assassinado. Muawiya exigia que Ali condenasse os assassinos de seu primo, mas o novo califa ignorou a exigência. Na condição de governador da Síria, Muawiya dispunha de combatentes fortes e treinados em razão das batalhas travadas contra os bizantinos durante a conquista islâmica. A guerra entre as duas facções se concentrou entre as regiões da Síria e do Iraque.

Em certo momento do confronto, o exército de Muawiya chegou com cópias do Alcorão, sugerindo que a rivalidade cessasse, buscando amparo no livro sagrado. Ali aceitou a arbitragem com Muawiya, porém a decisão de conciliar não foi bem recebida por muitos de seus apoiadores, o que enfraquecia a posição de Ali como líder. Um membro da recém-criada seita dos carijitas, formada pelos desapontados com o acordo, assassinou Ali com uma punhalada. A morte do quarto califa encerrou a era que os muçulmanos chamam de califado Rashidun ou dos califas “bem-guiados”. O fim da era Rashidun foi um divisor de águas na história do império islâmico. Hassan, filho de Ali, renunciou ao cargo de califa. O nome de Muawiya foi imediatamente indicado para ser o novo “Comandante dos fiéis”, inaugurando a dinastia Omíada.
A terra e o céu se encontram


Foi em Jerusalém, em uma cerimônia que reuniu membros de alto escalão do império, que Muawiya foi proclamado califa. O novo líder muçulmano demonstrava um profundo respeito pelas crenças antecessoras e, assim como para eles, Jerusalém tem importância central para a fé islâmica. Será sobre ela que, ao final dos tempos, todos serão elevados ao céu para o Juízo Final. O novo califa chegou a se unir com Maysun, mulher de uma tribo cristã que havia se aliado, sem lhe impor conversão ao Islã.

Muawiya foi enaltecido por cristãos e judeus, e a estes últimos foi permitido que orassem no Santo dos Santos. Durante seu califado, a capital do Império Islâmico foi transferida de Medina para Damasco. A nova localização oferecia uma vantagem estratégica para a capital. Conseguia se defender de um ataque vindo tanto do leste, quanto do oeste. Há de se considerar que o Império Islâmico estava no início de sua expansão e a localização de Medina não era geograficamente favorável.

Em 680, após a morte de Muawiya, seu filho Yazid assume o poder. Alguns muçulmanos rejeitaram o seu califado e as divisões internas da comunidade continuam a se acirrar. Hussein, que no passado havia renunciado ao cargo de califa, liderou uma tentativa de insurgência contra a dinastia Omíada, junto à sua família e apoiadores. A insurgência logo foi sufocada e o neto do Profeta foi morto em um confronto na cidade de Karbala, no Iraque. Com a tragédia, Hussein se transformou em um mártir entre os partidários de Ali. Sua morte acirra ainda mais a divisão interna do islamismo, que já havia sido prenunciada após a morte do Profeta.

Os shiat Ali (xiitas) tinham convicção de que a descendência de Maomé permitiria à posição de califa uma virtude espiritual, capaz de interpretar o Alcorão em seu sentido mais autêntico. Os Omíadas ainda enfrentariam uma segunda revolta. Em 683, Meca havia sido capturada por uma força insurgente. Abdallah Ibn al-Zubayr, ex-combatente das expedições militares, autoproclamou-se califa e sitiou Meca, a mais sagrada cidade do Islã. Ele chegou a ser convidado pelo califa Otman para integrar a comissão responsável por compilar o Alcorão. Meca só deixaria de estar sob o controle dos insurgentes em 692. Enquanto isso, a dinastia Omíada se empenhava em manter o seu domínio sobre as outras regiões do império.

O califa Abd al-Malik subiu ao trono em 685. Pertencia a outro ramo da família Omíada, mesmo assim, seguiu com a dinastia. Reestruturou a organização administrativa que ainda se mantinha dos derrotados impérios. O árabe passou a ser adotado como língua oficial, enaltecendo o Deus único, que revelara sua mensagem nesta língua. Nos seus primeiros anos do califado, Meca ainda estava fora do seu controle. Foi nesse período que a atenção do califa se voltou ainda mais para a sagrada Jerusalém, e deu a ela o edifício símbolo da cidade e um dos locais mais sagrados para os muçulmanos, o Domo da Rocha.

A construção do santuário tem início em 687, com o propósito de acolher a Pedra Fundamental, local que judeus e muçulmanos identificam como sendo o local em que Abraão/Ibrahim ofereceu seu filho como prova de sua fé. É após a edificação do Domo da Rocha que os muçulmanos associam a referência que o Alcorão faz à “remota mesquita” à Viagem Noturna de Maomé. De forma alusiva, o Profeta transportou, por meio do seu voo noturno, a sacralidade de Meca para Jerusalém (ARMSTRONG, 2011).

Em 691, o edifício islâmico estava totalmente construído. A arquitetura do prédio oferece ao fiel, por meio de símbolos, o elo entre Jerusalém e o mundo celestial. A Pedra Fundamental representa a Terra, o plano físico. As paredes, em geometria octogonal, sugerem o início de um movimento rotacional, como um cubo se deslocando do seu eixo. E, por fim, a cúpula em seu formato esférico se funde ao céu, encontrando total harmonia com Deus. O dourado do Domo traz como representação a sabedoria do Alcorão, que, do alto da colina, reluzia para toda a cidade. Intencionalmente ofuscava qualquer uma das suas várias igrejas.

Os que professavam a fé em Jesus eram convidados a se incorporarem à última revelação de Allah. O islamismo alcançava todo o seu esplendor e sua fé continuava a se espalhar pelo mundo. Ao erguerem um santuário sobre a Pedra Fundamental, os muçulmanos afirmavam o seu lugar perante seus antecessores judeus e cristãos. A majestosa arquitetura do Domo da Rocha não deixava mais dúvidas, Jerusalém se integrava à geografia sagrada do Islã.
Considerações finais


Conforme explorado no texto acima, o Islã tem uma profunda relação com a sagrada Jerusalém, assim como também com as revelações que a antecederam. No entanto, as atuais tensões que vêm acontecendo na cidade dificultam identificar a conexão histórica entre elas. A construção do santuário islâmico sobre a Pedra Fundamental, o Domo da Rocha, nunca significou um ato de antagonismo ao judaísmo, mas sim da interligação que há entre essas duas crenças.

O projeto de construção do “Terceiro Templo” no lugar do Nobre Santuário não apenas apaga o legado islâmico na cidade, mas também desconsidera a relação amistosa que já ocorreu entre essas duas, ou mesmo as três religiões no passado. Apaga também qualquer horizonte de compartilhamento pacífico da cidade entre os monoteístas de Abraão.
Referências bibliográficas


ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: uma cidade, três religiões. São Paulo: Companhia de bolso, 2011.

COGGIOLA, Osvaldo. Islã Histórico E Islamismo Político. Instituto da Cultura Árabe, 2007. Disponível em: https://www2.icarabe.org/sites/default/files/pdfs/o_mundo_arabe_contemporaneo_-_aula_6_anexo_2.pdf. Acesso em: 14 maio 2026.

HILTON, Daniel. Na Cisjordânia, colonos criam vaca vermelha e planejam ‘Terceiro Templo’. MEMO, 2024. Disponível em: https://www.monitordooriente.com/20240415-na-cisjordania-colonos-criam-vaca-vermelha-e-planejam-terceiro-templo/ Acesso em: 22 maio 2026.

HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

HUBERMAN, Bruno. A colonização neoliberal de Jerusalém. São Paulo: EDUC-PIPEq, 2023.

LEWIS, Bernard. O Oriente Médio. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

MONTEFIORE, Simon Sebag. Jerusalém: a biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

REDAÇÃO OPERA MUNDI, Autoridades israelenses invadem Mesquita Al-Aqsa e sugerem construir templo judaico no local. Opera Mundi, 2026. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/israel-x-palestina/autoridades-israelenses-invadem-mesquita-al-aqsa-e-sugerem-construir-templo-judaico-no-local/. Acesso em: 02 jun. 2026.

UNESCO. Cidade Velha de Jerusalém e suas Muralhas. UNESCO. Disponível em: https://whc.unesco.org/en/list/148/. Acesso em: 02 jul. 2027.




Graduado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá, com especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Cursou extensão universitária em Relações Internacionais pelo Ibmec. Concentra a sua pesquisa na história da Palestina e sua relação com as religiões abraâmicas.
https://relacoesexteriores.com.br/

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Imagens de satélite: selfies para preservar o meio ambiente da Terra



Autores
Jovens revisores


Resumo

Fotografias não são apenas lembranças. As imagens geradas a partir do espaço exterior ajudam-nos a acompanhar o que está acontecendo com o planeta Terra e os seus recursos. Os satélites são equipados com sensores especiais (como olhos) que podem ver “cores” de luz que os olhos humanos não conseguem ver. Esses satélites orbitam bem acima de nós e viajam em torno da Terra o tempo todo. A visão panorâmica e a observação constante permitem que eles nos ajudem a obter informações sobre desastres naturais, mudanças climáticas e o clima. Este artigo oferece uma visão geral de como os satélites observam a Terra e menciona algumas das aplicações importantes dessa técnica para a conservação dos valiosos recursos naturais do planeta.
Introdução

O número de seres humanos na Terra está constantemente aumentando. Uma população maior significa que mais pessoas necessitam de acesso aos recursos naturais, como água, terra e minerais. No entanto, esses recursos são finitos, isto é, existe somente uma certa quantidade deles [1]. Como mais pessoas precisam de acesso ao mesmo número de recursos, tornou-se cada vez mais importante mapear e monitorar esses recursos com rapidez e precisão.

Governos e comunidades monitoram recursos em âmbito local, nacional e global. Precisamos saber quais os recursos naturais que estão disponíveis, em quais quantidades e se estão em bom estado ou se mudaram recentemente. Quando os países dispõem dessas informações, podem limitar a utilização de recursos que são escassos, para que não sejam utilizados em demasia.

Pense nas florestas. Há muitos anos, os humanos derrubavam árvores para obter combustíveis, madeira para móveis ou casas e para construir ferrovias. Nos séculos 18, 19 e até boa parte dos anos 1990, as pessoas não davam muita atenção à quantidade de florestas (especialmente aquelas tropicais, que possuem árvores que levam centenas de anos para crescer) ainda existentes para proteger o solo contra a erosão ou servir de habitat para pássaros e outros animais selvagens. Nosso pensamento mudou: agora percebemos que as florestas são os pulmões da Terra, e governos e organizações trabalham para protegê-las, para limitar o desmatamento e para replantar árvores em algumas áreas.

Para fazer isso, as pessoas devem primeiro saber onde as árvores foram derrubadas ao longo dos anos, quanta derrubada ocorreu e onde ainda existem árvores valiosas que precisam de proteção. Isso é chamado de gestão de recursos naturais e as fotos tiradas de cima da Terra em vários momentos podem fornecer informações sobre onde, quando e quantas árvores foram derrubadas.

Se quisermos saber quantos recursos podemos utilizar e com que rapidez podemos desenvolver uma área, precisamos de informações frequentes, consistentes e precisas sobre grandes áreas da Terra, capturadas de cima. Uma vez de posse dessas informações, ficamos capacitados a compreender melhor como as formas de vida estão interagindo com seus ambientes, a fim de monitorar e prever com segurança quão saudáveis são o solo, as costas e os oceanos, e quais objetos ou substâncias estão presentes nessas áreas. Felizmente, a tecnologia disponível para fornecer essas informações, chamada observação da Terra, tornou-se mais sofisticada ao longo do tempo [2].
O que é a observação da Terra?

A primeira foto aérea bem-sucedida da Terra, tirada de um veículo não tripulado, foi feita com uma pipa, em 1887. Mais tarde, em 1907, um farmacêutico alemão chamado dr. Neubronner teve a ideia de montar uma câmera em uma pomba. Com o tempo, a tecnologia de observação da Terra tornou-se mais avançada. Os seres humanos aprenderam a lançar satélites equipados com câmeras, que orbitam a Terra e tiram fotos regulares do planeta.

Aproximadamente 2.200 satélites orbitam a Terra e 446 deles a observam. Seus dados ajudaram os cientistas a mapear muitos fenômenos naturais, como secas, inundações e derretimentos glaciares. Os cientistas utilizam essas informações para compreender melhor o estado dos recursos naturais da Terra. Os satélites também podem ajudá-los a detectar áreas onde as atividades humanas estão prejudicando o ambiente por meio de atividades como o desmatamento, a mineração ilegal ou o pastoreio excessivo de terras agrícolas.
Os satélites detectam cores que não podemos ver

As imagens de satélite são semelhantes a fotografias, como as tiradas com um smartphone e postadas no Instagram. Dependem tanto da luz que os olhos humanos conseguem ver quanto da que não conseguem ver. Nossos olhos só conseguem ver a luz em certos comprimentos de onda – os que correspondem às cores vermelha, verde e azul –, enquanto os satélites conseguem vê-la em muitos. Imagine que seus ouvidos só ouvissem a rádio FM, enquanto os satélites ouvissem tanto a FM quanto a AM. Os satélites têm sensores – uma espécie de olhos – que podem detectar certos comprimentos de onda de luz que não podemos ver. Os cientistas transformam a informação luminosa obtida pelos satélites em imagens que lhes fornecem dados sobre a Terra.

Algumas imagens de satélites, iguais às utilizadas como uma camada noGoogleMaps, usam as cores azul, verde e vermelha que nossos olhos podem ver. Outros satélites tiram fotos usando luz infravermelha, que é invisível ao olho humano. Mesmo não podendo vê-la, usamos luz infravermelha em nossas vidas cotidianas. Por exemplo, o pequeno olho de vidro na parte superior do controle remoto de uma TV usa luz infravermelha para se comunicar com ela.

No Instagram, quando você olha uma foto em que foi usado um filtro para iluminar ou alterar as cores, talvez pense que se trata de algo muito artístico ou achar que parece falso. Se vir uma imagem de satélite com uma floresta vermelha brilhante (Figura1), pode pensar a mesma coisa – que deve ser uma imagem falsa. Mas uma floresta vermelha é tão real quanto uma verde-escura! A diferença é que essas imagens de satélites são feitas a partir de comprimentos de onda de luz que não podemos ver, como a infravermelha, por isso elas não nos parecem reais. Chamamos a isso imagens de cor falsa e, para saber o que significam, precisamos entender o que é uma imagem de satélite.
Figura 1. Imagem de satélite tirada durante os incêndios florestais na Austrália em dezembro de 2019. (A) Essa imagem combina informações dos comprimentos de onda azul, verde e vermelho, de modo que você pode ver a paisagem em suas cores naturais (note a fumaça que vem da queimada). (B) A cicatriz da queimada aparece em preto na visão infravermelha, enquanto florestas e pastagens aparecem em cores avermelhadas.

O que um satélite mede para produzir uma imagem?

Cada sensor de um satélite é ajustado para detectar uma faixa estreita de comprimento de onda – apenas luz azul, por exemplo. Imagens feitas com apenas um comprimento de onda aparecem em tons de cinza (Figura 2). Os objetos na Terra que produzem muitos comprimentos de onda específicos de luz aparecem como pontos brilhantes, enquanto os objetos que refletem ou produzem poucos (ou nenhum) comprimentos de onda aparecem como cinza-escuros ou até pretos. As informações captadas por todos os sensores do satélite são armazenadas em imagens denominadas dados de sensoriamento remoto multiespectral (Figura 2). 

Figura 2. (A) Imagem de satélite multiespectral que combina luz vermelha, verde e azul. [(B), B1] Uma parte da paisagem que reflete uma grande quantidade de luz aparece como pontos brilhantes nessa imagem tirada pelo olho azul do satélite. [(B), B2] A água do lago não reflete praticamente nenhuma luz e aparece em preto. [(C), C1] Nessa imagem tirada do olho praticamente nenhuma luz e aparece em preto. [(C), C1] Nessa imagem tirada do olho infravermelho do satélite, toda vegetação reflete muita luz (muitos pontos brilhantes). [(C). C2] A água do lago não reflete nenhuma luz e aparece em preto. O círculo vermelho mostra os pontos brilhantes.

Por exemplo, para o olho humano, as plantas saudáveis parecem verdes porque seus pigmentos refletem mais luz verde do que outros comprimentos de onda e elas absorvem mais luz vermelha e azul [3]. Mas tipos especiais de sensores em satélites captam luz infravermelha e a vegetação saudável reflete uma grande quantidade de luz infravermelha do sol [3]. Portanto, as plantas saudáveis aparecem vermelhas devido ao sensoriamento remoto.
A distância da Terra é importante

Os satélites podem orbitar a várias distâncias da Terra – de cerca de 36.000 km até meros 800 km. Os satélites que orbitam a 36.000 km acima da Terra são chamados de geoestacionários e ajudam nas previsões meteorológicas. Os satélites geoestacionários observam apenas um dos hemisférios da Terra e tiram fotos a cada 10 minutos aproximadamente. Eles auxiliam os cientistas a mapear como as nuvens e furacões se movem, podendo até coletar informações sobre quando os vulcões entrarão em erupção! Todavia, por estarem muito no alto, eles fornecem imagens da Terra de baixa qualidade, como se fossem filmes antigos. Os menores objetos que eles conseguem ver têm o tamanho de 500 a 1000 m.

Satélites que orbitam mais perto da Terra tiram fotos usando comprimentos de luz visíveis (para os humanos) e invisíveis. Eles conseguem ver objetos de 0,5 a 30 m – isto é, do tamanho de um carro até o de um quintal comum! Como orbitam em torno da Terra, tiram fotografias do mesmo local a cada 5–16 dias ou com menos frequência se vários satélites estiverem trabalhando em conjunto (para um exemplo, consulte PlanetLabs).
Como proteger os recursos da Terra

Os satélites são como guarda-costas da Terra. Observar a Terra a partir de satélites tem muitas vantagens. Eles conseguem cobrir grandes regiões como o continente americano inteiro e até a Terra inteira. O monitoramento dos recursos da Terra pode ser sistemático e contínuo usando-se imagens de satélites. Por exemplo, a GlobalForestWatch utiliza imagens de satélites para monitorar a quantidade de desmatamento florestal em locais como a Amazônia ou o Congo.

As observações de satélite nos fornecem dados consistentes, que podem ser compartilhados por muitos usuários para diferentes propósitos. Esses dados disponibilizam as informações necessárias para identificar problemas, tomar decisões e medidas de proteção ao ambiente natural, mobilizar ajuda após catástrofes, detectar e prever mudanças para preservar os preciosos recursos do nosso planeta. Geleiras derreteram no último ano? Quanto dano os incêndios florestais causaram? Quantos hectares de floresta foram desmatados nos últimos doze meses? Graças às centenas de satélites de observação que orbitam nosso planeta, podemos responder a perguntas como essas e aprender sobre a condição do solo, da água e da atmosfera.

A observação da Terra por satélite joga um olhar atento sobre nossos recursos naturais inestimáveis e nos fornece informações para gerir melhor nosso mundo – agora e no futuro.
Glossário

Gestão de Recursos Naturais: Gestão integrada dos recursos naturais que compõem as paisagens naturais do planeta, como terra, água, plantas e animais.

Observação da Terra: Visão da Terra a partir de aeronaves ou satélites, usando-se vários sensores que criam imagens para estudar o que está acontecendo na superfície ou próximo a ela.

Seca: Um longo período de precipitação anormalmente baixa, levando à escassez de água.

Comprimento de onda: Distância entre os picos das ondas, como as luminosas. O comprimento de onda de luz determina as cores que vemos.

Infravermelho: A luz infravermelha é parte do espectro de radiação eletromagnético. As ondas infravermelhas são mais longas que as ondas de luz visíveis, mas não tão longas quanto as ondas de rádio.

Dados do sensoriamento remoto multiespectral: Aquisição de imagens visíveis, próximas da luz infravermelha, e infravermelhas de ondas curtas em diversas faixas de comprimento.

Luz infravermelha: Parte dos comprimentos de ondas invisíveis que fica próxima à extremidade vermelha da luz visível.

Sensoriamento remoto: Processo de detecção e monitoração das características físicas de uma área, medindo-se sua luz emitida e refletida a distância, geralmente de satélites ou aviões.

Geoestacionário: Satélite que, do ponto de vista de um observador na Terra, parece quase estacionário no céu.


Agradecimentos

Este projeto contou com fundos do European Union’s Horizon 2020 Research and Innovation Programme, nos termos do acordo de subvenção nº 870518.
Referências

[1] Rockström, J., Steffen, W., Noone, K., Persson, A., Chapin, F. S., Lambin, E. F. et al. 2009. “A safe operating space for humanity”. Nature 461:472–5. DOI: 10.1038/461472a.

[2] CRCSI. 2016. Earth Observation: Data, Processing and Applications. Volume 1A: Data–Basics and Acquisition. Melbourne, VIC: Australia and New Zealand CRC for Spatial Information.

[3] Huete, A. 2004. Remote Sensing for Environmental Monitoring and Characterization. Amsterdã: Elsevier, pp. 183–206.
Citação

Metternicht, G. e Teece, B. L. (2023). “Satellite images: selfies for preserving Earth’s environment.” Front Young Minds. 11:886767. DOI: 10.3389/frym.2022.886767.
https://parajovens.unesp.br/

O coração envelhece mais rápido no espaço?



Autores
Jovens revisores


Resumo

Viver no espaço não é tão simples quanto viver na Terra. O ambiente lá é prejudicial para os seres humanos: os astronautas experimentam a ausência de peso e ficam expostos a radiações perigosas. Além disso, vivem numa área minúscula, longe de seus entes queridos. Esses fatores prejudicam todos os nossos órgãos. O coração, por exemplo, começa a envelhecer muito mais rápido no espaço que na Terra, o que significa que os astronautas correm um risco maior de doenças cardíacas depois de ir ao espaço. Por isso, é importante investigar as causas desse problema, para que se possa evitá-lo. No passado, os estudos se baseavam em experimentos feitos com animais ou seres humanos. Hoje, podemos criar minicorações em laboratório para substituí-los. Neste artigo, explicaremos como fabricamos os minicorações e como os empregamos para entender e prevenir o envelhecimento do coração no espaço.
O espaço envelhece nossos corações

Muitas pessoas acham que é excitante ir ao espaço! Imagine flutuar sem peso na Estação Espacial Internacional, viajar numa nave espacial ou, simplesmente, ver nossa casa, o planeta Terra, lá de cima. Nos próximos anos, colocaremos uma nova estação espacial ao redor da Lua e enviaremos para nosso satélite os primeiros seres humanos desde 1972. Como se isso não bastasse, antes de 2040 o primeiro humano pisará em Marte e em breve quem quiser ir ao espaço poderá fazê-lo! Mas permanecer ali tem seus riscos. Quanto mais fundo mergulhamos no espaço, mais perigoso ele se torna.

O coração é um órgão importante para o ser humano, responsável por bombear o sangue que leva energia a todas as partes do corpo. Naturalmente, quanto mais velhos ficamos, menos eficientes e mais fracos ficam nossos corações. Também nos tornamos mais lentos (Figura 1), conforme você pode perceber observando seus avós. No espaço, esse fenômeno é acelerado, o que significa que lá os nossos corações se debilitam e envelhecem mais rápido do que na Terra.
 
Figura 1. (A) Um coração jovem comparado com (B) um coração velho.

Quando envelhecemos, nossos corações se tornam menos eficientes. Isso acontece por vários processos, tais como a perda de músculos, o espessamento das fibras cardíacas e a diminuição da capacidade de se recuperar de lesões. Os círculos mostram close-ups das células de (A) um coração humano jovem e (B) um coração humano velho. As células vermelhas com listras são células do músculo cardíaco, enquanto as células azuladas são células não musculares. (Figura criada usando-se elementos da Servier Medical Art; smart.servier.com.)
Por que o espaço envelhece o coração?

Muitas são as razões pelas quais o espaço acelera o envelhecimento do coração. A primeira e mais importante é a radiação – invisível aos olhos, mas muito perigosa. Embora nem toda radiação cause danos (usamos radiação para nos conectar à internet ou fazer chamadas telefônicas, por exemplo), a que existe no espaço é bastante prejudicial, o que faz com que seja arriscado permanecer lá mesmo que por um curto período. Quando nossas células são expostas à radiação espacial, sofrem danos, particularmente no seu DNA, e o risco de várias doenças cardíacas aumenta. Por causa disso, os astronautas expostos à radiação espacial sofrem mais de doenças cardiovasculares [1].

A segunda razão é a ausência de peso. Embora pareça muito divertido flutuar no ar ou dar cambalhotas sem esforço, na verdade a ausência de peso é prejudicial ao corpo e aos órgãos, pois então os músculos não precisam trabalhar para suportar a carga corporal. Isso faz com que os músculos do astronauta se atrofiem lentamente. O coração também é um músculo: portanto, quando a gravidade não puxa o sangue em direção aos pés, o coração não precisa trabalhar tanto a fim de bombeá-lo pelo corpo. Isso faz com que mais sangue permaneça na parte superior do corpo, ao contrário do que ocorre na Terra. Assim, o formato do coração fica mais redondo e parecido com uma bola. Algumas partes ficam também menores e perdem o tônus muscular [2].

O terceiro motivo pelo qual o espaço envelhece o coração envolve os sentimentos de solidão e de estresse. É difícil enviar ajuda ao espaço; os astronautas permanecem sozinhos e só podem se ajudar uns aos outros, o que os deixa estressados. Além de tudo, as naves são geralmente muito pequenas, com pouco espaço para a movimentação, o que as torna um lugar nem um pouco agradável. Sentir estresse e solidão por muito tempo pode fazer com que os astronautas fiquem menos motivados, mais fracos e com pior desempenho no trabalho em equipe. Eles são cuidadosamente selecionados para garantir que conseguirão suportar esse ambiente estressante da melhor maneira possível [2].

Juntas, essas três razões fazem com que o coração envelheça mais rapidamente no espaço [3]. Se quisermos enviar mais humanos para lá e explorar mais a galáxia, teremos de aprender a impedir esse envelhecimento acelerado. Infelizmente, ainda sabemos muito pouco sobre o que acontece com o coração nas profundezas do espaço, de modo que precisamos fazer mais pesquisas sobre esse tema.
Como os pesquisadores estudam o envelhecimento no espaço?

Uma maneira comum de estudar os órgãos é fazer experiências em animais. Podemos, por exemplo, testar medicamentos neles ou observar o que acontece com o coração de um rato quando o enviamos ao espaço. Isso não funciona muito bem no estudo do envelhecimento, por duas razões principais. A primeira, e mais importante, é que os órgãos dos animais são diferentes dos órgãos dos seres humanos. Como você bem pode imaginar, o coração de um rato não é igual ao coração humano. Isso significa que muitas das pesquisas feitas em animais não correspondem ao que acontece no corpo humano. Por exemplo, um medicamento que trata uma doença do coração em ratos pode não funcionar nos humanos ou até ser perigoso.

Em segundo lugar, experiências em animais às vezes provocam sofrimento neles. Para contornar esse problema, os pesquisadores podem agora criar órgãos humanos em miniatura no laboratório. Chamamos esses miniórgãos de organoides. Os organoides substituem os órgãos humanos reais melhor que os órgãos de animais. Por causa disso, podemos ter mais certeza de que um medicamento que funciona em um organoide também funcionará nos humanos. Os pesquisadores conseguem até produzir organoides personalizados. Como os humanos não são iguais, cada pessoa pode reagir de maneira diferente a um determinado medicamento ou ambiente. Graças aos organoides personalizados, podemos fabricar medicamentos especificamente para você ou dizer exatamente quanto seu coração envelhecerá no espaço [4].
Como fabricar um organoide

Para fabricar um organoide, os pesquisadores começam com os menores blocos de construção das células do corpo, podendo utilizar tanto células cardíacas quanto células-tronco. Estas são de um tipo especial e, como conseguem se transformar em diferentes células do corpo, os pesquisadores podem “programá-las” para se tornarem todas as células necessárias à fabricação de um minicoração. Ao instruir as células-tronco a se tornarem células cardíacas, os pesquisadores logram por fim formar um minicoração que bate. Um minicoração que bate também é chamado de organoide cardíaco [5].

O processo de transformação das células-tronco em outras células, como as cerebrais ou cardíacas, recebe o nome de diferenciação. A diferenciação ocorre em laboratório quando fornecemos às células-tronco nutrientes e moléculas específicas. A combinação única a que são sujeitas determina em que tipo de células as células-tronco se transformarão. Assim, os pesquisadores seguem uma receita muito precisa de nutrientes e moléculas para formar células cardíacas e minicorações [4].

Primeiro, juntam as células-tronco em uma pequena bola. Essa bola têm a largura de uns poucos fios de cabelo, mas contém alguns milhares de células-tronco. Após a formação da bola de células-tronco, aplica-se a receita muito precisa de nutrientes e moléculas. Depois de alguns dias, bolsas ocas se formam dentro da bola e, ao mesmo tempo, as células-tronco se transformam lentamente em células cardíacas, que por fim começam a bater. Após uma a duas semanas, uma bola oca de células cardíacas se forma. Esse é o minicoração, que tem cerca de 1 – 3 mm de largura (Figura 2) [5].
 
Figura 2. O tamanho de um minicoração comparado com uma mão, uma abelha e um fio de cabelo. O círculo menor à direita mostra o tamanho real de um minicoração ao lado de um cabelo humano. Na ampliação, vemos o minicoração ao lado do cabelo humano. A ampliação ainda maior, acima do microcoração, mostra o tamanho de suas células em comparação com a largura de um fio de cabelo humano. (Figura criada usando-se Biorender; biorender.com.)

Os minicorações também podem ser criados usando-se impressão 3D. Células cardíacas funcionais são misturadas em um líquido que vira uma gelatina. A combinação de células com esse líquido é chamada debiotinta. Ao combinar diferentes células com diferentes líquidos, diferentes biotintas são criadas. Elas são em seguida impressas em 3D num formato específico para se construir um minicoração [6].

Os minicorações também podem ser postos em um dispositivo de treinamento que funciona como uma miniacademia. No começo, são muito fracos. Colocando-se pressão nas células quando elas batem e dando-lhes pequenos choques elétricos, os minicorações são treinados para ficar mais fortes, exatamente como nosso coração real quando nos exercitamos. Isso é importante para que o minicoração imite o coração humano [7].
Como os minicorações podem tornar as viagens espaciais mais seguras?

Ao enviar minicorações para o espaço, os pesquisadores estudam como o ambiente espacial afeta o coração humano e por que ele envelhece mais rápido por lá. Também investigam como e por que a capacidade do coração de bater muda no espaço. Além disso, podem simular condições espaciais (ausência de peso, radiação e estresse) usando máquinas e medicamentos na Terra. As missões espaciais são muito caras e pouco comuns, de modo que fazer um experimento aqui mesmo antes de reproduzi-lo no espaço pode dar aos pesquisadores boas informações adicionais.

Ainda não temos uma forma específica para prevenir o envelhecimento mais rápido do coração no espaço. Com a ajuda de organoides (minicorações, neste caso), os pesquisadores podem estudar as causas desse envelhecimento acelerado e o modo de preveni-lo. Com minicorações personalizados, os pesquisadores também poderão determinar até que ponto o coração de cada pessoa envelhecerá no espaço, e decidir qual será o melhor tratamento para cada indivíduo. Sem dúvida, essa pesquisa ajudará a tornar a viagem espacial mais segura para todos no futuro!
Glossário

Radiação: Partículas ou ondas invisíveis que transferem energia. Radiação altamente energética pode causar danos aos nossos corpos.

Doenças cardiovasculares: Doenças que afetam o coração e/ou o sistema vascular.

Organoide: Miniórgão cultivado em laboratório, geralmente criado a partir de células-tronco.

Células-tronco: Células que têm a capacidade de se transformar em vários tipos de células diferentes.

Diferenciação: Processo mediante o qual uma célula se torna mais especializada. Por exemplo, uma célula-tronco se transformando em uma célula cardíaca.

Biotinta: Combinação de células com um material líquido capaz de ser impressa em 3D e solidificar-se. Esse material tem de incrementar o crescimento e a sobrevivência das células.
Agradecimentos

Os autores são gratos à Vejbystrands Skola e Förskola, bem como aos alunos do 4º e 6º anos pela contribuição valiosa durante a confecção das figuras. Este artigo contou com o apoio de ESA PRODEX, IMPULSE (PEA4000134310) e do projeto EIC Pathfinder Open PULSE (convênio de subvenção número 101099346).
Referências

[1] Rehnberg, E., Quaghebeur, K., Baselet, B., Rajan, N., Shazly, T., Moroni, L. et al. 2023. “Biomarkers for biosensors to monitor space-induced cardiovascular ageing.” Front. Sens. 4:1015403. DOI: 10.3389/fsens.2023.1015403.

[2] Baran, R., Marchal, S., Garcia Campos, S., Rehnberg, E., Tabury, K., Baselet, B. et al. 2022. “The cardiovascular system in space: focus on in vivo and in vitro studies.” Biomedicines. 10:59. DOI: 10.3390/biomedicines10010059.

[3] Hughson, R. L., Helm, A. e Durante, M. 2018. “Heart in space: effect of the extraterrestrial environment on the cardiovascular system.” Nat. Rev. Cardiol. 15:167–80. DOI: 10.1038/nrcardio.2017.157.

[4] Clevers, H. 2016. “Modeling development and disease with organoids.” Cell. 165:1586–97. DOI: 10.1016/j.cell.2016.05.082.

[5] Hofbauer, P., Jahnel, S. M., Papai, N., Giesshammer, M., Deyettt, A., Schmidt, C. et al. 2021. “Cardioids reveal self-organizing principles of human cardiogenesis.” Cell. 184:3299–317.e22. DOI: 10.1016/j.cell.2021.04.034.

[6] Sun, W., Starly, B., Daly, A. C., Burdick, J. A., Groll, J., Skeldon, G. et al. 2020. “The bioprinting roadmap.” Biofabrication. 12:022002. DOI: 10.1088/1758-5090/ab5158.

[7] Ronaldson-Bouchard, K., Ma, S.P., Yeager, K., Chen, T., Song, L., Sirabella, D. et al. 2018. “Advanced maturation of human cardiac tissue grown from pluripotent stem cells.” Nature. 556:239–43. DOI: 10.1038/s41586-018-0016-3.
https://parajovens.unesp.br/

Conheça o Butão


Conheça o Butão, país com zero emissão de carbono e que leva a felicidade a sério
Uma nova trilha de 400 quilômetros atrai turistas para longe dos picos populares através de florestas densas, fortalezas antigas e plantações de arroz em terraços.
Por Henry Wismayer



Um monge observa gralhas-de-bico-vermelho voando acima do Jakar Dzong, no vale de Chamkhar, Butão. A fortaleza, construída em 1549, foi uma das principais fortalezas defensivas do Butão oriental e agora é um destaque cultural para os viajantes ao longo da nova Trilha Trans Butão.


Para o viajante, é o passeio dos sonhos, implacavelmente belo, costurando vales profundos com florestas e aldeias idílicas, em um dos países mais encantadores do mundo. Para muitas pessoas no Butão, entretanto, é um símbolo de renascimento e de acerto de contas.

Em 28 de setembro, o príncipe Jigyel Ugyen Wangchuck inaugurou a Trilha Trans Butão (TBT), uma nova rota de trekking de 400 quilômetros, no que pareceu um momento fatídico para o Butão. Alguns dias antes, o reino do leste do Himalaia, espremido entre os vizinhos gigantes China e Índia, reabriu suas fronteiras após um fechamento de dois anos e meio durante a pandemia da Covid-19 . Mas o retorno de visitantes estrangeiros também trouxe à tona uma questão familiar: quanto o Butão deve deixar o mundo exterior entrar?




Uma macaco hanuman fêmea (Semnopithecus entellus) e seu bebê sentam-se nas florestas subtropicais de folhas largas do Himalaia, no Butão central.


O mosteiro Paro Taktsang é um templo budista à beira de um penhasco no vale superior de Paro, no Butão. Acessível apenas a pé, o local é um dos 13 pequenos “covis de tigres” onde o mestre budista do século 8 Padmasambhava, também conhecido como Guru Rinpoche, teria meditado.


Uma parte da estratégia chegou na forma de mais barreiras à entrada. A “taxa de desenvolvimento sustentável”, uma tarifa turística diária, triplicou de US$ 65 para US$ 200. A TBT constitui outra parte. Cruzando quase toda a metade o país, de Haa, no oeste, a Trashigang, no leste, a trilha foi concebida para afastar os visitantes dos populares vales ocidentais, áreas que, antes do bloqueio da Covid-19, estavam começando a ficar sobrecarregadas. Em vez disso, a trilha é projetada para atrair turistas para regiões periféricas, onde a escassez de oportunidades fez com que jovens ambiciosos deixassem o interior agrícola para buscar empregos nas cidades ou no exterior.

Nesse contexto, a TBT não é apenas uma nova adição à lista de caminhadas espetaculares do Butão. É uma declaração de intenção. Seus arquitetos esperam que se torne uma pedra angular dos esforços contínuos do Butão para equilibrar a preservação cultural e ambiental com a prosperidade econômica.

“Esta não é apenas uma rota turística”, diz Sam Blyth, fundador da Butan Canada Foundation, uma ONG com sede em Toronto, criada em 2018. “É um dos tesouros perdidos do Butão.”
Florestas e fortalezas do Butão

No mês passado, juntei-me ao guia Kinley Wangmo em uma floresta primordial de cicuta, cedro e rododendro, em uma seção da Trilha Trans Butão a leste da capital do país, Thimpu.

Esta seção da rota, da passagem de Dochu La até a vila de Toeb Chandana, tipifica a paisagem que a TBT foi projetada para mostrar não o Butão das neves altas, mas o sopé das antigas fortalezas, mosteiros budistas e gewogs, propriedades rurais tradicionais e plantações de arroz em terraços. A maior parte das 28 etapas da trilha percorre as densas florestas, tanto de coníferas quanto decíduas, que cobrem 71% do país.



Kinley Wangmo, um guia turístico no Butão, está em uma trilha na floresta de pinheiros acima de Gyetsa, no distrito de Bumthang.


O caminho descia para um desfiladeiro nitidamente recortado. Cada galho de árvore estava enfeitado com musgo e samambaias translúcidas. Aranhas joro com abdômen listrado de amarelo e preto sentavam-se imóveis em suas teias na beira da trilha.

Naquele dia, o único som era o canto dos pássaros e do críquete. Mas houve um tempo em que esse caminho ressoava com o tráfego de pedestres. A TBT segue a rota do que já foi a artéria central do Butão, uma via para comerciantes, monges e garps, corredores velozes que transportam mensagens entre seus 20 distritos, ou dzongkhangs.

Na década de 1960, quando o avô do atual rei iniciou a primeira fase provisória de modernização do Butão, a construção de uma rodovia leste-oeste tornou a trilha redundante, e o antigo caminho caiu em desuso. Desde 2019, e especialmente durante o fechamento de 30 meses do Butão devido à Covid, 900 trabalhadores licenciados e mil voluntários reconstituíram toda a sua extensão, limpando a vegetação, construindo pontes de madeira e fazendo marcos brancos na casca das árvores.

Para Kinley Dorje, que conheci mais tarde naquele dia no templo de Chimi Lhakhang, o caminho representou uma chance de redescobrir os mitos e memórias do Butão. A primeira vez que o homem de 65 anos veio a este santuário, ele era um bebê de colo, carregado por seus pais da cidade de Paro ao longo da trilha que eu havia acabado de percorrer. Agora ele planeja refazer aquela jornada de infância. “Não pude participar este ano porque estou com uma perna dolorida”, disse ele. “Mas no próximo ano pretendo caminhar com os amigos.”



Originalmente parte da Rota da Seda, a Trilha Trans Butão leva os viajantes por 27 aldeias, quatro dzongs (fortalezas monastérios), 12 passagens nas montanhas e 21 templos, como o retratado aqui em Paro.


No dia seguinte, acordamos em um acampamento TBT sob a vila de Thinleygang, com uma chuva forte martelando a lona da barraca. O resíduo do ciclone Sitrang, que causou estragos quando atingiu a costa de Bangladesh, agora ocupava os vales centrais do Butão.

Embora pretendêssemos continuar caminhando em direção a Punakha, a configuração logística da trilha permitiu uma fácil mudança de itinerário. Os grupos que reservam através da agência oficial Trans Butão Trail recebem um motorista que transporta a bagagem para os alojamentos da noite seguinte – e que também pode transportar os caminhantes para a próxima etapa. Isso permite que os viajantes escolham quais etapas desejam caminhar e quais dirigir, com base na dificuldade da trilha, pontos turísticos da região ou, como no meu caso, clima inclemente.



Vendedores vendem artesanato ao longo da trilha em Pele La, a porta de entrada para o Butão Central.


À medida que o motorista Tashi Wangchuk nos conduzia mais para o leste, na província de Bumthang, as florestas íngremes davam para pastagens abertas, como um lençol amarrotado sendo suavemente puxado para baixo. Yaks, um bovinídeo local, ruminavam sobre as moitas. Nos arredores do Parque Nacional Jigme Singye Wangchuck, uma trupe de cem langures cinzentos nos examinava da beira da estrada.

Quando as nuvens finalmente se dissiparam na manhã seguinte, seguimos para o vilarejo de Gyetsa, onde o estágio 16 da TBT nos levou a uma subida constante por pinheiros azuis. O mundo exterior pode associar o Butão às montanhas, mas essas florestas cobrem a maior parte de suas terras protegidas; os parques nacionais ocupam metade da área do país. Essa profusão de árvores sequestradoras de carbono, ao lado de uma indústria hidrelétrica vital – a maior exportação do Butão – sustenta sua afirmação de ser o único país negativo em carbono do mundo.
A reviravolta por trás da felicidade do Butão

Sob o estereótipo sereno de integridade cultural e “Felicidade Nacional Bruta”, o Butão está lutando contra a agitação social, como em qualquer outro lugar. A capital, Thimpu, está passando por um boom de construção. Wangmo me disse que seu marido recentemente conseguiu um emprego em bitcoin, “um projeto para o rei”.

No norte, em direção à fronteira tibetana, pastores transumantes estão abandonando o antigo estilo de vida de conduzir yaks para colher raízes de cordyceps, um fungo parasita cobiçado na China por suas supostas propriedades revigorantes, que vale três vezes seu peso em ouro. “Os pastores costumavam viajar de pônei”, disse Wangmo. “Agora alguns deles viajam de helicóptero.”

O turismo também está em transição. O novo imposto turístico diário de US$ 200 coloca o Butão fora do alcance de muitos viajantes em potencial. O país sempre foi um termômetro do “modelo de alto valor e baixo impacto”, e os resorts internacionais de alto padrão já têm um ponto de apoio aqui. As hospedagens mais caras do país cobram 2 mil dólares por noite.



A vila de Jakar, melhor vista de cima na passagem Kiki La, no Vale Chokhor de Bumthang, é uma das muitas áreas ainda inexploradas pelos turistas. A trilha TBT pode mudar isso.


No entanto, antes da Covid-19, o crescente fluxo de turistas estava atingindo sua capacidade máxima. Em 2019, quando o número de visitantes chegou a 316 mil, a infraestrutura existente de hotéis rústicos de três estrelas, construída desde a chegada dos primeiros turistas há quase 50 anos, rachou com a demanda. As estradas estavam repletas de procissões de ônibus de turismo, em meio a temores de que o Butão pudesse estar a caminho de repetir o excesso de turismo do Nepal.

“Monumentos foram invadidos. Os moradores locais não conseguiam entrar no Ninho do Tigre”, lembra Carissa Niamh, da Tourism Bhutan, referindo-se ao mosteiro à beira do penhasco no vale de Paro, que é o garoto-propaganda do Butão. “Alguma coisa tinha que mudar.”

O aumento de impostos é uma tentativa de recalibrar o ponto ideal, já que o governo busca equilibrar os benefícios econômicos do turismo com a preservação cultural e ambiental.

“Há ansiedade, sim, mas também vejo oportunidades”, disse-me Jamyang Chhopel, proprietário do Yangkhil Resort, em Trongsa. “Sob as regras antigas, tudo passaria por um agente. Agora podemos fazer reservas diretamente.”

A trilha cruzou um cume de 3.500 metros, fazendo a transição para a floresta de folhas largas. Então, as árvores se abriram para uma cena extraordinária: o Jakar Dzong, imponente em um promontório.

Tais espetáculos, comuns no Butão, parecem ainda mais fascinantes quando você os aborda a pé, e ainda mais quando você o faz sozinho. Ainda não se sabe se esta nação notável pode sustentar tal magia diante da invasão da modernidade. Esta trilha, pelo menos, veio para ficar.


Henry Wismayer é um escritor baseado em Londres.
National Geographic

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos