sexta-feira, 24 de junho de 2022

As origens e o legado da luta contra o apartheid na África do Sul


 

A história da Revolução Cubana. E suas consequências


 

A história do Afeganistão, da Guerra Fria à Guerra ao Terror

 


Quem está enterrado no cemitério dos impérios?



Reprodução


O destino do governo afegão foi apenas o mais recente da longa lista de casos de colapso de entidades fantoche criadas pelo ocupante estrangeiro quando a ocupação chega ao fim.



O Presidente dos EUA Joe Biden invocou a alcunha histórica do Afeganistão como “cemitério de impérios” para justificar a sua decisão de acelerar a retirada das tropas americanas deste pobre país. Afirmava assim que as tentativas de assegurar o controlo sobre o Afeganistão estão condenadas ao fracasso, ao mesmo tempo que atribuiu a culpa ao governo afegão que tinha sido estabelecido pela própria ocupação norte-americana.

As trágicas imagens do colapso do governo afegão juntamente com o seu estado e o pânico que se instalou numa grande franja da sociedade, especialmente nas áreas urbanas e sobretudo na capital Cabul, levaram a reações divididas entre dois pólos opostos: enquanto um pólo culpou Biden por ter avaliado mal a situação e por não ter feito o que deveria ter sido feito para garantir que o governo pró-ocidental afegão prosseguisse, o outro pólo regozijou-se e celebrou a dimensão da derrota sofrida pelos planos dos EUA, comparando o que se passou em Cabul nestes últimos dias com o que aconteceu em Saigão, capital do Vietname do Sul, quando foi tomada pelas forças comunistas em 1975, dois anos após a retirada das tropas americanas. É difícil decidir qual destas duas reações é mais míope; ambas ignoram factos básicos.

Consideremos primeiro as censuras feitas a Biden pelo seu juízo errado (por outras palavras, o juízo errado dos seus serviços de inteligência) sobre a capacidade do governo afegão para resistir à ofensiva dos talibãs. É verdadeiramente extraordinário que alguém pudesse acreditar que o fracasso de vinte anos de ocupação na construção das fundações de um Estado com credibilidade e apoio popular suficientes para se erguer sem ser protegido por tropas estrangeiras, que esse fracasso poderia ter sido compensado prolongando a presença das tropas da NATO por alguns meses! A afirmação é tanto mais extraordinária quanto nenhum dos críticos é capaz de explicar o que a ocupação dos EUA poderia ter feito durante mais alguns meses do que não tinha feito durante duas décadas.


Na realidade, o destino do governo afegão é apenas o mais recente de uma longa lista de casos de entidades fantoche criadas por uma ocupação estrangeira que se desmoronam quando essa ocupação termina. Ashraf Ghani foi precedido neste mesmo caminho por Mohammad Najibullah, que tinha sido nomeado presidente do Afeganistão pelos governantes da URSS em substituição de Babrak Karmal, a quem tinham instalado no poder quando as suas tropas invadiram o país, da mesma forma que Ghani foi nomeado por Washington em substituição de Hamid Karzai, a quem as forças norte-americanas instalaram no poder quando invadiram o país. Isto remete-nos para o facto óbvio de que a ocupação norte-americana do Afeganistão, na sequência dos ataques de 11 de Setembro de 2001, não foi uma “libertação” daquele país, tal como não o foi a ocupação do Iraque menos de dois anos depois. Foi uma captura do país por razões relacionadas com a estratégia imperial americana na Ásia Central e em relação à Rússia e à China, revestida com o pretexto de libertar os afegãos, as mulheres em particular, do jugo obscurantista dos talibãs, aquele mesmo jugo que Washington e os seus aliados regionais tinham desempenhado um papel fundamental para ajudar a apoderar-se do país.

Aqueles que saúdam os talibãs a partir de um ponto de vista que se reclama de esquerda ou “anti-imperialista” devem ser lembrados de que apenas quatro governos reconheceram diplomaticamente o regime talibã depois de este ter assumido o controlo do Afeganistão em 1996, e esses não eram Cuba, Vietname, China ou mesmo Irão, mas sim o Paquistão, Turquemenistão, o reino Saudita e os Emirados Árabes Unidos! Acrescente-se a isto que é bem conhecido que por detrás dos talibãs estavam, e continuam a estar, os serviços secretos militares do Paquistão, o que aumenta a ansiedade dos países vizinhos, a começar pelo Irão.

A verdade é que Washington não teve muitas ilusões sobre o destino do Afeganistão, mas sabia pela derrota da URSS naquele país e pela sua própria experiência vietnamita que controlar o Afeganistão é impossível por várias razões, incluindo a geografia do país e a força dos antigos laços tribais e étnicos que ainda ali prevalecem. É por isso que a estratégia de Washington no Afeganistão foi desde o início qualitativamente diferente da sua estratégia no Iraque: enquanto que o seu objetivo era exercer o controlo total sobre o Iraque e destacar para lá forças adequadas a esse fim (na opinião do Secretário da Defesa Donald Rumsfeld, apesar das advertências das altas patentes que a sua estimativa do número adequado de tropas era altamente otimista), Washington apenas destacou um número limitado de tropas no Afeganistão, ao mesmo tempo que contava com a Aliança do Norte anti-talibã para assumir o controlo do país e exercer pressão sobre os seus aliados da NATO para que enviassem tropas, de modo a que os EUA não precisassem de destacar mais.

Os objetivos estratégicos da ocupação americana do Afeganistão, ou mais precisamente de partes do território afegão, consistiam antes de mais na construção de bases aéreas norte-americanas neste país de localização estratégica altamente privilegiada e na extensão da influência dos EUA às repúblicas da Ásia Central que anteriormente faziam parte da URSS. Com o tempo, Washington chegou à conclusão de que o custo da sua presença contínua no Afeganistão já não era proporcional a estes benefícios estratégicos que tinham entretanto diminuído, e sobretudo que a ofensiva dos talibãs e a sua capacidade de controlar áreas cada vez mais vastas do país indicavam que o Afeganistão estava a caminho de confrontar Washington com um dilema semelhante ao do Vietname, entre a escalada interminável e a retirada.

Dito isto, a situação mais próxima do que está a ocorrer no Afeganistão não é, de facto, o Vietname: as forças sul-vietnamitas eram muito mais fortes do que as forças do governo afegão, e conseguiram impor-se durante dois anos contra forças comunistas que os próprios EUA tinham sido incapazes de derrotar e que gozavam de um apoio internacional e regional muito maior do que os talibãs alguma vez tiveram. A situação mais próxima do que aconteceu no Afeganistão é a que aconteceu às tropas do exército iraquiano que Washington tinha construído e que desabou vergonhosamente face à ofensiva lançada pelo chamado Estado Islâmico no Verão de 2014, da mesma forma que as forças do governo de Cabul caíram em frente à ofensiva dos talibãs. Escusado será dizer que a semelhança entre o Estado Islâmico e os talibãs só é igualada pela enorme diferença entre os dois grupos jihadistas, por um lado, e as forças comunistas vietnamitas, por outro.

Artigo publicado a 18 de agosto no diário Al-Quds al-Arabi(link is external) e republicado em inglês pelo Anticapitalist Resistance(link is external). Reprodução da tradução de Luís Branco para o esquerda.net.
GIlbert Achcar cresceu no Líbano e ensina Estudos de Desenvolvimento e Relações Internacionais na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) em Londres.
Revista em Movimento

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Diálogos criativos




RESENHAS

Fernanda Pozza da Costa; Juliana Floriano
Universidade da Região de Joinville - Brasil

DE MASI, Domenico; FREI BETTO. Diálogos criativos. Rio de Janeiro: Sextante, 2008. 141 p.

Temáticas sociais da pós-modernidade

A obra Diálogos criativos é um debate entre Domenico de Masi e Frei Betto sobre temáticas sociais importantes da pós-modernidade, com mediação e comentários de José Ernesto Bologna, publicado no ano de 2008, pela editora Sextante.



Domenico de Masi é italiano, catedrático de Sociologia do Trabalho na Università La Sapienza, em Roma. Sociólogo, laico, de grande erudição e fundador da S3 Studium, escola de especialização em ciências da administração, que tem sede na Itália e no Brasil. Entre seus livros publicados destacam-se O ócio criativo; Criatividade e grupos criativos; A emoção e a regra e O futuro do trabalho.



Frei Betto é escritor, educador, jornalista, estudou antropologia, filosofia e teologia, além de apaixonado pelo povo de seu país, o Brasil. É frade dominicano e engajado em movimentos sociais. Foi assessor especial do presidente Lula e coordenador de Mobilização Social do Programa Fome Zero entre 2003 e 2004. Tem 53 livros publicados no Brasil e no exterior e escreve regularmente para diversos jornais e revistas.



As divergências, constantes durante o diálogo, decorridas de diferentes posicionamentos, podem-se atribuir à diferença de repertório de cada um dos dialogantes. Em suas explanações e posicionamentos, Domenico de Masi referencia, entre outros, grandes filósofos como Aristóteles, Platão e Sócrates; gênios como Galileu, Newton e Einstein; grandes nomes da história político-social mundial como Lúcio Costa, Hitler, Gandhi, Mussolini e Leão XIII; personalidades ligadas à arte e cultura como Caetano Veloso, Oscar Niemeyer, Burle Marx, Mozart e Le Corbusier; além de estudiosos de diversas áreas do conhecimento, como Cristóvão Buarque, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Gilberto Freire, Marx, Engels e Santo Tomás de Aquino. Para sua argumentação, Frei Betto compartilha de algumas referências atribuídas a De Masi e ainda cita, entre tantos outros, Francisco de Assis, Bartolomeu de Las Casas, São João, Mateus, Dostoiévski, Max Weber, Freud, Che Guevara, Santo Agostinho, o Alcorão e Chico Mendes.



A obra Diálogos criativos é focada na educação na sociedade pós-moderna, analisada sob aspectos importantes que partem do avanço tecnológico e chegam à política, passando pelo consumo, filosofia e teologia. A construção da cultura, como meio e fim da educação, é o ponto central do debate, sendo dividido em: o futuro, no passado e no presente; valores, o permanente e o transitório; realidades naturais e verdades culturais; o poder e a participação.



Frei Betto defende que a construção do futuro ocorre do aprimoramento das heranças positivas do passado. Distintamente, De Masi afirma que o presente é o amanhã, que nosso futuro é produto das escolhas que hoje fazemos, e que o planejamento é fundamental para alcançar nossos objetivos.



No aspecto dos valores, os dois dialogantes colocam a questão da educação como ensinar a "ver", a valorizar os significados das coisas como o pensamento que, ao contrário do consumismo, não se degrada, não se esgota e não se consome. Como a cultura, que alimenta e engrandece o espírito e a consciência, em oposição ao entretenimento, que agrada aos sentidos momentaneamente. Hoje, numa ordem inversa e superficial, o ter é mais valioso que o ser. Numa relação natural e saudável do homem com a sociedade e a economia, o valor estaria concentrado no ser e não no ter. Para Frei Betto, a crise da humanidade está nos quatro pilares institucionais: família, escola, igreja e Estado. Temos educação profissionalizante, mas não humanizadora, que destaca os valores da afetividade, amizade, sexualidade, relacionamento. Há o culto ao corpo e não ao espírito. Para De Masi precisamos inculcar nos jovens o valor da convivência e da solidariedade, valorizar o ócio criativo, a família, os amigos, a felicidade. "Nenhum homem é uma ilha; somos um sistema integrado" diz.



Na explanação sobre as realidades naturais e verdades culturais, Frei Betto destaca que o socialismo tentou partilhar o material, mas se apropriou do simbólico, enquanto o capitalismo faz o inverso. Nesse ponto, os dois concordam que a mídia de massa é um dos fatores negativos no processo educacional, pois é centrada no consumismo. Mas se questionam sobre a natureza indígena, sobre a possibilidade de escolha de sua "civilização" ou não, mesmo sem conhecerem outra realidade.



Quanto ao poder e a participação, Frei Betto afirma que o poder deveria ser um exercício de cooperação, que talvez possa ser colocado em prática algum dia. Domenico aponta os dois tipos de necessidades do ser humano: as quantitativas, que são dinheiro e poder, e as qualitativas, que são a amizade, amor e dignidade, e ressalta a importância destas últimas para a formação do ser humano. Os dois pensadores nos convidam aos exercícios de natureza filosófica e ao questionamento da educação.



Quando se fala em educação nos dias atuais, pensa-se instantaneamente em qualificação para o trabalho. Frei Betto diz que educar é formar um ser humano qualificado, além do profissional, inserido no convívio social, mas com olhar crítico perante a sociedade. A educação deve formar o humano, habilitar mãos e coração. Complementando o pensamento, De Masi coloca três valores essenciais para a sociedade pós-moderna: ser fundamentalmente humano e ter consciência do privilégio extraordinário de sê-lo; valorizar e multiplicar a consciência, grandioso patrimônio, unicamente humano, e a necessidade das pessoas estarem dispostas a adquirir conhecimento, buscar o aprendizado, cuja porta, segundo ele "está fechada por dentro e só por dentro pode ser aberta".



Domenico de Masi e Frei Betto classificam esse diálogo como uma experiência de enriquecimento, com a qual ambos puderam aprender. Salvo as diferenças filosóficas e de ordem religiosa, concluem que a educação é o melhor caminho para a re-humanização da sociedade.



Enfim, além da discussão, ricamente referenciada, a obra mostra um panorama cronológico da humanidade, abrangendo aspectos sociais, culturais, religiosos, tecnológicos e políticos. De forma simples e objetiva, duas mentes brilhantes, Domenico de Masi com sua erudição laica e Frei Betto com seu idealismo e paixão pelo ser humano, mostram sábios caminhos para transformar a sociedade através da educação e do respeito às diferenças. A obra é um incentivo à valorização da riqueza que há na união de saberes e no respeito à expressão do ser humano e pensamento crítico.
Revista Horizontes Antropológicos

terça-feira, 21 de junho de 2022

Ócio, lazer e tempo livre na sociedade do consumo e do trabalho



Cássio Adriano Braz AquinoI; José Clerton de Oliveira MartinsII

IDoutor em Psicologia Social pela Universidad Complutense de Madrid. Professor Adjunto da Universidade Federal do Ceará. End.: Rua Artur Façanha 75/502, Mucuripe. Fortaleza, CE. CEP: 60175-130. E-mail: braz.aquino@uol.com.br
IIDoutor em Psicologia pela Universidad de Barcelona. Pós-doutor em Estudios de Ócio pela Universidad de Deusto. Professor Titular da Universidade de Fortaleza. End.: Av. Santos Dumont, 6915, apt. 502. Fortaleza, CE. CEP: 60190-800. E-mail: clerton@unifor.br





RESUMO

O período Pós-Revolução Industrial foi marcado por uma profunda referência ao trabalho, tanto na estruturação social como na produção do sujeito moderno. Com a crise da sociedade centrada no trabalho, alguns valores e categorias são resgatados e demandam uma nova caracterização. O domínio do trabalho na estruturação social passa a ser questionado e surgem idéias que colocam o tempo livre, o ócio e o lazer no papel de elementos estruturantes do novo contexto social. Antes de posicionar-se sobre essa passagem de domínio, o texto discute e reflete sobre tais categorias, abrindo uma possibilidade clara de sua territorialização no campo das ciências sociais, e, de forma especial, na sua contribuição a uma nova forma de produção subjetiva.

Palavras-chave: ócio, lazer, tempo livre, trabalho, sociedade.

ABSTRACT

The Post-Industrial Revolution period was labeled by a profound reference to work, in social structure as well as on the construction of modern individuals. With the crisis of the work centered society, some values and categories are rescued and demand a new characterization. The domain of work on the construction of social structure is then questioned and new ideas are born that bring free time, leisure and relaxation as roles on the structural elements of a new social context. Before positioning ourselves about this domain passage, this study discuss and reflects upon such categories, opening a clear possibility of its territorialization on the field of social sciences, and in a special way, on its contribution to a new form of subjective production.

Keywords: laze, leisure, free time, work, society.


Introdução

A importância de pensar a articulação entre os conceitos de ócio, tempo livre e lazer no contexto atual se deve, principalmente, ao fato de o trabalho - que ocupou o lugar de atividade central na inserção social e constituir fator fundamental da produção subjetiva ao longo da sociedade moderna - ser questionado como atividade dominante. Essa referência de dominância está caracterizada, principalmente, por ser a atividade laboral o elemento que demarca a estruturação dos quadros temporais das sociedades Pós-Revolução Industrial, tal como afirma a sociologia do tempo1 e, de forma destacada, os teóricos contemporâneos dos tempos sociais (Roger Sue, Gilles Pronovost, Giovanni Gasparini, Ramos Torre, dentre outros).

A partir das teorias dos tempos sociais, surge, então, uma pergunta que parece crucial para reiterarmos a importância de caracterizar esses três conceitos, que dão título ao artigo, a saber, ócio, tempo livre e lazer. Considerando que, ao longo da sociedade industrial, foi o trabalho a atividade que ocupou a centralidade na organização da temporalidade social, seria o ócio a atividade que ocuparia na sociedade pós-industrial o lugar que foi ocupado pelo trabalho na sociedade industrial? A atividade social e o tempo que a demarca precisam ser postos em discussão para que tenhamos elementos para a formulação de uma análise crítica do contexto social em que hoje vivemos.

O fator temporal passa por metamorfoses significativas, iniciadas no momento em que o homem resolve medir o tempo cotidiano e quantificar o tempo social na sociedade industrial, chegando à comercialização do próprio tempo, que se torna uma mercadoria e passa a ter valor econômico.

Neste espaço, surge a pressa como um fenômeno típico da atualidade e como mola mestra para os avanços tecnológicos que fabricam equipamentos para se poder ganhar mais tempo.

Os telefones celulares, o fax, o pager, a internet, entre outros, são mecanismos que marcam essa busca incessante por mais tempo, porém, paradoxalmente, o homem termina por preencher esse tempo disponível com mais atividades e afazeres.

No caos entre necessidades econômicas e existenciais, o homem contemporâneo se vê dividido entre as obrigações impostas por suas atividades laborais e o desejo de libertar-se dessas tarefas e, assim, poder usufruir um tempo para si.

No entanto todo processo de educação/formação/orientação da sociedade moderna gerou os valores da atual sociedade do consumo, não contempla a orientação para ser/existir num tempo de "nada fazer"2.

A maior ou a menor variação desse tempo na vida dos indivíduos organiza-se e estrutura-se de acordo com padrões assimilados sobre como se deve dispor o tempo para as diversas atividades, além de como o sujeito valora o sentido do tempo cotidiano para si. Desta maneira, as diferentes formas de sentir, pensar, agir e estabelecer o tempo seguem padrões culturais que se refletem na ação do sujeito.

Munné (1980) apresenta uma tipologia do tempo social, que se revela através de quatro tipos fundamentais: o primeiro é o tempo psicobiológico, que é ocupado e conduzido pelas necessidades psíquicas e biológicas elementares, o que engloba o tempo de sono, nutrição, atividade sexual etc. Esse tempo se condiciona endogenamente, é um tempo individual.

A segunda tipologia seria o tempo socioeconômico, que diz respeito ao tempo empregado para suprir as necessidades econômicas fundamentais, constituídas pelas atividades laborais, atividades domésticas, pelos estudos, enfim, pelas demandas pessoais e coletivas, sendo que esse tipo de tempo está quase que inteiramente heterocondicionado, somente sendo autocondicionado nas circunstâncias que visam à realização pessoal.

A terceira tipologia seria o tempo sociocultural, sendo aquele dedicado às ações de demandas referentes à sociabilidade dos indivíduos que se refere aos compromissos resultantes dos sistemas de valores e pautas estabelecidos pela sociedade e objeto maior de sanção social. Esta categoria de tempo tanto pode ser heterocondicionado como autocondicionado, podendo existir um equilíbrio entre os dois pólos.

Finalmente, o autor apresenta a quarta categoria, o tempo livre, que se refere às ações humanas, realizadas sem que ocorra uma necessidade externa. Neste caso, o sujeito atua com percepção de fazer uso desse tempo com total liberdade e de maneira criativa, dependendo de sua consciência de valor sobre seu tempo.

O tempo livre deveria ser um tempo máximo de autocondicionamento e mínimo de heterocondicionamento, isto é, ser constituído por aquele aspecto do tempo social, em que o homem conduz com menor ou maior grau de nitidez a sua vida pessoal e social.

No entanto, neste tempo que poderia ser um tempo voltado para o ócio mais verdadeiro, o consumismo termina por deteriorá-lo, mercantilizá-lo, coisificando-o e empobrecendo-o de significados.

Encontra-se na literatura que é preciso educar os sujeitos não só para perceber os meandros do trabalho, mas também para os mais diversos e possíveis ócios, significa ensinar como se evita a alienação que pode ser provocada pelo tempo vago, tão perigoso quanto a alienação derivada do trabalho (De Masi, 2000, p. 326).

Segundo Muller (2003), a educação costuma sonegar o direito ao ócio; observa-se que as escolas tendem a preparar a criança para a importância da profissão e do trabalho no futuro, isto é, preparam crianças e jovens para a vida adulta moldada pelo trabalho, porém não há orientação nesse processo para o uso adequado do tempo de ócio, um fator de vital importância para a edificação de um indivíduo equilibrado. Isso porque a escola, dentro de uma concepção moderna, está profundamente demarcada pelo paradigma da produção industrial, reiterando que atividade social dominante e determinante da configuração social é o trabalho.

O aspecto educativo também se volta para a qualificação do trabalhador, mais dirigido para a questão de execução de tarefas, limitando seu potencial criativo, submetendo-o ao limite de suas habilidades, àquela ou a esta função.

Em Elogio ao Ócio, Russell critica de forma categórica a concepção estritamente utilitária da educação, afirmando que esta ignora as necessidades reais dos sujeitos e que os componentes culturais na formação do conhecimento se ocupam em treinar os indivíduos com meros propósitos de qualificação profissional, esquecendo, desta maneira, os pensamentos e desejos pessoais dos indivíduos, levando-os a ocuparem boa parte de seu tempo livre com temas amplos, impessoais e sem sentido (2002: 37).



Sobre ócio, tempo livre e lazer.

A compreensão do conceito de ócio surge na contemporaneidade, um pouco obscura, haja vista a amplitude que o termo possibilita pelos sentidos diversos que toma, de acordo com as realidades de abordagens e interesses intrínsecos.

Em nossas investigações, encontram-se três termos que, cotidianamente, aparecem como sinônimos, inclusive, muitas vezes, especialistas os utilizam como equivalentes. No entanto, sabe-se que tais termos possuem diferentes sentidos e, para seguir em frente, melhor esclarecer. Os termos são: ócio, tempo-livre e lazer.

Como se pode observar, no Brasil, no sentido corriqueiro, as palavras ócio e lazer aparecem como semelhantes. O termo tempo livre também está carregado dos mesmos sentidos, embora fique evidente, já nas primeiras aproximações, que os fenômenos lazer e ócio necessitam de um tempo liberado ou livre e resguardam relação com liberdade.

Estudos atuais evidenciam que ambos são muito diferentes pelo contexto de liberdade que invocam. No caso, um se apresenta na dinâmica social brasileira carregado dos valores do capital, relacionando-se diretamente com tempo de reposição de energia para o trabalho. O outro envolve um sentido de utopia por orientar a uma liberdade supostamente, longe de ser alcançada, haja vista a própria dinâmica socioeconômica preponderante.

Em Munnè (1980) e Gómez (1992), encontra-se que existe uma relação forte da palavra ócio em espanhol com a palavra grega scholé, carregada do sentido de um lugar para o livre desenvolvimento individual. Remonta ao processo educativo daquela civilização. Gómez (1992) sugere que nesta palavra grega está a origem etimológica e sentido primeiro da palavra "escola" em vários idiomas modernos, como: school no inglês, école no francês, escuela no espanhol e "escola" no português.

O termo lazer é atualmente utilizado de forma crescente, podendo ser empregado em sua concepção real ou ser associado a palavras como entretenimento, turismo, divertimento e recreação, porém o sentido do lazer é tão polêmico quanto a origem e o sentido do termo ócio.

Compreende-se que a palavra lazer, no Brasil, resguarda seu sentido relacionado à sociologia do lazer de Dumazedier (1972; 1979), que levou à vulgarização da teoria dos três "D's".3

Por outro lado, a palavra ócio resguarda valores negativos apregoados pela influência religiosa puritana, pela própria história da industrialização e modernização brasileira, ao longo da qual se pode observar, claramente, o surgimento de uma nova ordem entre empresários e empregados, operários e patrões e a necessidade de controle social no tempo fora do trabalho, para garantir a ordem numa sociedade elitista, herdeira de valores colonialistas.

Faz-se necessário declarar outra fonte de equívocos na compreensão dos referidos termos no Brasil. Trata-se das traduções de obras originadas da produção científica espanhola e italiana que trazem a utilização do termo ócio com o mesmo sentido atribuído ao termo lazer, basta observar a obra de Domenico de Masi (2000; 2001), difundida no Brasil intensivamente, a partir da década de 90. E ainda outras, como Puig e Trilla (2004), De Gracia (1966), apenas para citar algumas.

Sabe-se que, nas sociedades pré-industriais, as atividades lúdicas, hoje atribuídas ao lazer, estavam ligadas ao culto, à tradição, às festas e não existia de fato o lazer em si, pois as atividades de trabalho envolviam ludicidade e prazer criativo.

O trabalho e o lazer se intercalavam no cotidiano do indivíduo. O trabalho e o tempo subjetivo eram difíceis de serem percebidos separadamente, pois ambos possuíam intrínsecas relações. É curioso perceber que, em sociedades onde a industrialização não foi hegemônica, essa relação do caráter lúdico e criativo, que hoje se associa ao lazer, está presente em atividades laborais, que não compõem o modelo industrial de produção.

Elungu (1987), ao discorrer sobre a estrutura temporal em algumas sociedades africanas, fala da dificuldade de adaptação de tribos ao modelo de divisão do tempo imposto pela organização produtiva industrial, e, conseqüentemente, a resistência dos indivíduos a desvincular sua atividade produtiva dos prazeres lúdicos. Em algumas dessas sociedades, não há categorias distintivas entre o trabalho e o lazer.

O ócio é tão antigo quanto o trabalho, porém, somente após a Revolução Industrial, com o surgimento do chamado tempo livre, que representa uma conquista da classe operária frente à exploração do capital, é que foi evidenciado, ocorrendo a nítida separação entre tempo-espaço de trabalho (produção) e lazer (atividades contrárias ao trabalho) enquanto tempo para atividades que se voltam para a reposição física e mental.

Lazer é uma palavra muito presente na realidade brasileira e percebe-se, a partir da literatura investigada, a influência marcante do sociólogo francês Dumazedier, como já se evidenciou. Assim, lazer tomou o sentido de


[...] um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais (Requixa, 1976 p. 33).

De acordo com Dumazedier (1972,1979), o lazer é exercido à margem das obrigações sociais em um tempo que varia segundo a forma de intensidade de engajamento do mesmo em suas atividades laborais. O lazer encontra-se submetido a um lugar de destaque, com funções de descanso, desenvolvimento da personalidade e diversão. Por outro lado, o ócio, representa algo mais do que essas categorias, ele está no âmbito do liberatório, do gratuito, do hedonismo e do pessoal, sendo estes fatores não condicionados inteiramente pelo social e sim pelo modo de viver de cada um, relacionado com o prazer da experiência.

O sociólogo Renato Requixa compreendeu "lazer como uma ocupação não obrigatória, de livre escolha do indivíduo que a vivencia e cujos valores propiciam condições de recuperação e de desenvolvimento pessoal e social" (1977, p. 11). O autor ressalta que o ambiente urbano industrial permitiu que o trabalhador fosse dispondo de um tempo verdadeiramente livre e com tendência a aumentar. Entende-se que seu estudo se faz importante para o pensamento sobre o lazer no Brasil, pois orienta rumo à compreensão de que o tempo livre é um elemento indispensável para o desenvolvimento do lazer e do homem.

Outro pesquisador brasileiro de destacada produção e que leva sua linha de pensamento a partir das teorias de Dumazedier é Marcelino (1983). Este pesquisador mostra o lazer como uma atividade desinteressada, sem fins lucrativos, relaxante, sociabilizante e liberatória. Para Marcellino, a democracia política e econômica é condição básica, ainda que não suficiente, para uma verdadeira cultura popular; para a eliminação das barreiras sociais que inibem a criação e práticas culturais.

Ainda a partir de Dumazedier, Camargo (1989) conceitua o lazer como um conjunto de atividades que devem reunir certas características: devem ser gratuitas, prazerosas, voluntárias e liberatórias centradas em interesses culturais, físicos, manuais, intelectuais, artísticos e associativos, realizadas num tempo livre, subtraído ou conquistado, historicamente, da jornada de trabalho profissional e doméstica e que interferem no desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos.

Observa-se, nas definições citadas, que o caráter liberador do lazer é resultado da livre escolha, embora esta não exista de forma absoluta, uma vez que a livre escolha está marcada por condicionamentos diversos, sobretudo os socioeconômicos.

Novos investigadores surgem aportando abordagens críticas aos estudos do lazer no Brasil, explicitando a necessidade de visualizar o fenômeno como fruto de um processo econômico social específico brasileiro, chamando atenção para a necessidade de observar o fenômeno enquanto elaboração social, orientado pela dominação, alienação produzida pela relação capital-trabalho da qual, segundo suas afirmações, não se deve fugir.

Nesse sentido, ressalta-se o trabalho de Mascarenhas (2005) e Marcassa (2002), em que se observam colocações como esta:


[...] sobre o que é o lazer, é comum ainda encontrarmos respostas que o associam à participação e ao desenvolvimento, dentre outras possibilidades que evidenciam seu potencial formativo, mas o fato é que tendencial e predominantemente o que ele constitui mesmo é uma mercadoria cada vez mais esvaziada de qualquer conteúdo verdadeiramente educativo, objeto, coisa, produto ou serviço em sintonia com a lógica hegemônica de desenvolvimento econômico, emprestando aparências e sensações que, involucralmente, incitam o frenesi consumista que embala o capitalismo avançado. (...) o que estamos querendo dizer é que num movimento como nunca antes se viu o lazer sucumbe de modo direto e irrestrito à venalidade universal. A mercadoria não é apenas uma exceção no mundo do lazer como antes, mas sim a regra quase geral que domina a cena histórica atual (Mascarenhas, 2005, p.141).

No trabalho de Mascarenhas (2005), encontra-se referência ao trabalho de Marcassa (2002) sobre a invenção do lazer no Brasil, em que relaciona o fenômeno com a internacionalização do capital,


[...] quando, em fins do século XIX, início do XX, o incipiente projeto de modernização e industrialização promove a supressão do trabalho compulsório, fincando bases sobre a exploração do trabalho livre. Vincula-se, além disso, ao impulso dado à urbanização das cidades e às iniciativas de racionalização da política. Associado à tradição colonial, o lazer vai sofrer todo o tipo de intervenção e controle, submetido a um tipo de condenação moral que buscava ajustar o antigo modo de vida às exigências da produção capitalista. Como esclarece a autora, o lazer constituía-se como expressão de uma ação deliberada de amoldamento da subjetividade proletária, um processo de institucionalização da vida cultural que atingiu em cheio a formação social dos trabalhadores na direção do aburguesamento da sociedade, banindo assim experiências não alinhadas à nova disciplina do trabalho (em Mascarenhas, 2005, p. 230-231).

A palavra ócio, derivada do latim otium, significa o fruto das horas vagas, do descanso e da tranqüilidade, possuindo também sentido de ocupação suave e prazerosa, porém, como ócio, abriga a idéia de repouso, confunde-se com ociosidade.

Com a Revolução Industrial, um novo conceito de ócio se torna evidente, um conceito oposto ao de ócio contemplativo grego, impregnado da mentalidade puritana, "pai de todos os vícios". Desta forma, o trabalho se torna a fonte de todas as virtudes, e a jornada de trabalho aumenta de maneira assustadora, gerando, assim, descompensações psicossomáticas na grande maioria das pessoas, conforme defendem Paul Lafargue e Bertrand Russell (em De Masi, 2001), ferrenhos críticos da mistificação do trabalho e de seu excesso desnecessário.

O ócio, na atualidade, tem sido fonte de polêmica. Sabemos que a redução da jornada de trabalho gerou o tempo livre, assim como a problemática com relação a sua utilização adequada.

Para Herbert Marcuse (1975), o ócio foi manipulado de tal maneira que se tornou um mecanismo gerador de idéias consumistas, ou seja, ócio foi utilizado para a criação de falsas necessidades materiais. Devido a este fato, temos, hoje, a preponderância do Ter sobre o Ser, que gera uma desmedida ambição por prosperidade.

A década de 90 coloca a palavra ócio em moda no Brasil, fruto das publicações do sociólogo Domenico de Masi, que apregoa sua idéia de ócio criativo como um modelo a ser perseguido por pessoas e organizações, na busca de um modo de viver e trabalhar criativamente, a partir da redução do tempo de trabalho, descentralização da empresa enquanto lugar de trabalho e do surgimento de uma nova economia centrada no novo tempo livre.

Em nota da investigação de Mascarenhas (2005), encontra-se que


[...] no campo do lazer, a razão instrumental implícita à noção de ócio criativo é pioneiramente percebida em pesquisa realizada por Marcellino. Para este autor, a abordagem de De Masi é marcada por valores utilitaristas e compensatórios. Ocorre que De Masi não concebe o ócio criativo nem como compensação escapista às insatisfações do trabalho e nem como instrumento para a recuperação da força de trabalho, mas, sim, como o próprio trabalho, supostamente, colonizado pelo ócio, isto é, o trabalho criativo que, ao mesmo tempo, confunde-se e iguala-se ao ócio criativo (p. 216).

Não se quer, aqui, defender ou atacar este ou aquele pensamento. Pretende-se demonstrar as principais idéias sobre o fenômeno ócio e lazer que interferem na compreensão geral do tema no Brasil.



O ócio é livre, o "tempo livre", não.

O tempo livre e o ócio são tomados, muitas vezes, como fazendo referência a um mesmo fenômeno social. Não obstante, são conceitos que têm naturezas distintas. O tempo livre, especificamente, é um conceito que remete a muitos equívocos, pois, ao referir-se ao qualificativo 'livre', pressupõe diretamente uma alusão a um tempo de 'não-liberdade' ao qual se opõe. Tempo livre de quê? Poderíamos perguntar. Em realidade, a denominação de tempo livre, apesar de ser considerada desde os antigos gregos, adquire relevo a partir de sua oposição à concepção moderna de trabalho. Essa noção de um tempo livre do trabalho conduz a uma concepção negativa deste último, ou seja, faz sobressair o caráter impositivo da atividade laboral. Há que reconhecer que o tempo livre, no contexto atual, é uma referência temporal e implica uma divisão da 'unidade' do tempo que se opõe ao tempo de trabalho.

Ainda que para muitos o tempo livre seja tomado como uma atividade, ele, a diferença do ócio, é uma referência temporal, que adquire, pelo qualificativo 'livre', uma complexidade que o faz confundir-se com ação.

Essa concepção é importante, pois, se a partir da modernidade a idéia de tempo livre passa a ser mais difundida, a referência anterior, mais genérica, era de ócio. Historicamente e pelo critério de atividade, é o ócio que se opunha ao trabalho.

O tempo livre, tal como o concebemos hoje, adveio da natureza cronológica que atinge o apogeu pós-revolução industrial. É da liberação do tempo que devia ser dedicado ao trabalho, que emerge a noção do tempo livre. Aí estão implicadas algumas variáveis. A primeira delas é que a liberdade, tomada como exercício temporal, não podia ser exercida no trabalho, pelo menos na concepção de trabalho industrial, uma vez que a organização produtiva pressupunha uma sincronização, que ainda não havia sido experimentada de forma generalizada em outros momentos da história. A segunda é que a liberdade de constituir-se como sujeito estava limitada pelo processo de alienação imposto pela produção capitalista. Como destaca Bacal (2003), o tempo livre surge da liberação de parcelas de tempo do trabalho, quando poderiam ser desenvolvidas atividades relacionadas à sobrevivência física e social do indivíduo, mas, ainda assim, atreladas à noção do trabalho.

Na Antiga Grécia, trabalho e ócio figuravam como conceitos antagônicos e com valores muito distintos dos que se conhecem hoje. Se, hoje, a temporalidade é o recurso da cisão entre trabalho e 'não-trabalho', ali, segundo Aristóteles, o ócio era um estado, ou seja, era uma condição de liberdade relativa à necessidade de trabalhar. O tempo livre, a partir do seu viés industrial, dá passo também ao surgimento da compreensão do lazer, que passa a ser concebido como uma atividade que tem sua base ancorada na existência de um tempo livre, fomentado e reconhecido legalmente, e que poderia ser exercido autonomamente pelos trabalhadores, tendo por base sua condição socioeconômica e seus valores sociais.

É na articulação do lazer ao contexto da sociedade industrial, que há uma forma de 'subversão' de valor da atividade. Se há, para alguns, uma identidade absoluta entre a noção de lazer e ócio, talvez se instaure no elemento da autonomia o diferencial entre essas duas categorias, pelo menos na mediação do tempo como elemento articulador. Não há no ócio qualquer conotação de atividade que persiga outro fim. O ócio é a atividade que traz em si a própria razão do seu fim.

Na contemporaneidade, a noção de tempo se vê bastante alterada. Nós, que estávamos profundamente acostumados ao tempo como constante objetiva, somos instados a pensá-lo também como categoria relativa e subjetiva, daí o desafio que se nos apresenta de refletir sobre categorias como tempo livre, ócio e lazer, principalmente, quando estas, na modernidade, elegeram, na firmeza de um conceito determinista de tempo, sua segurança conceitual.

Com certeza, a história vai seguir registrando o que se vai experimentando na realidade e tornando-se teoria. Talvez seja importante recuperar, aqui, a idéia de Elias (1997), que discorre sobre elementos de síntese complexa, no sentido de que algumas idéias se acumulam, não perdendo tradições, mas incorporando sentidos e se reconfigurando.



Ócio: uma abordagem a partir da experiência subjetiva

Segundo Cuenca (2003), o ócio constitui uma experiência gratuita, necessária e enriquecedora da natureza humana. Desde Aristóteles e, até hoje, filósofos e teóricos, ao tentarem precisar a natureza do ócio, relacionaram este a percepção de felicidade. Na sua compreensão, o ócio, do ponto de vista individual, tem relação com a vivência de situações e experiências prazerosas e satisfatórias.

O ócio, na visão do referido pesquisador, pode ser estudado e analisado sob duas perspectivas


do ponto de vista objetivo se confunde com o tempo dedicado a algo, com os recursos investidos ou, simplesmente, com as atividades. Do ponto de vista subjetivo, é especialmente importante considerar a satisfação que cada um percebe na experiência vivida (Cuenca, 2003:15).

Em termos subjetivos, a palavra ócio é sinônimo de ocupação desejada, apreciada e, é claro, resultado da escolha livre. É interessante ressaltar a atenção posta no significado atribuído por quem vivencia a experiência de ócio.

O ócio integra a forma de ser de cada pessoa sendo expressão de sua identidade, sendo que a vivência de ócio não é dependente da atividade em si, nem do tempo, do nível econômico ou formação de quem a vivencia, mas sim está relacionada com o sentido atribuído por quem a vive, conectando-se com o mundo da emotividade.

A subjetividade adquire, assim, um papel importante nesse desafio proposto de (re)significar e dar sentido a conceitos como o de ócio, lazer e tempo livre. Parece importante ressaltar que o conceito de subjetividade surge de forma mais clara a partir da modernidade e, como destaca Figueiredo (1994), deve sua aparição às grandes rupturas, ao final do século XV, e às intensificações das diversidades. Isso levou às tentativas de ordenação sob o domínio da razão e à construção do que se denomina sujeito moderno. No final do século XIX, esse 'sujeito moderno' começa a sofrer as primeiras descentrações que levam ao princípio da sua derrocada. Como acentua Figueiredo (1994), a percepção por parte dos homens de que não são tão livres nem singulares os leva a refletir sobre as causas e significados de tudo que pensam, fazem e sentem. Esse é também o momento da reconfiguração de uma série de conceitos que haviam sido construídos, ao longo desses quase quatro séculos, e o ressurgir de conceitos praticamente abandonados, foi assim com o tempo, o ócio e o lazer.

Para se compreender o ócio, é necessário recuperar algumas informações sobre aspectos relacionados à sua essência: o jogo (lúdico), a festa, a criatividade, a participação voluntária, a satisfação, a felicidade, o autodesenvolvimento, a integração solidária etc. É também interessante refletir sobre as possibilidades práticas de ócio: cultural, esportiva, recreativa, turística, a partir de sua concepção e valorização através do tempo.

Sugere-se , para a compreensão do ócio, uma leitura unificada de todas estas dimensões. Segundo Cuenca (2003), o caminho disciplinar não é o único meio de acesso ao conhecimento; sabe-se que as disciplinas acadêmicas que aparecem, hoje, como clássicas e tradicionais nas universidades e dentro do universo científico em um tempo passado não existiam como tais.

Os estudos sobre o ócio representam a afirmação de um modelo aberto com aproximações epistemológicas e metodológicas múltiplas baseadas em contínuas e diversas análises, métodos e recursos de diversas disciplinas que compartem seu objetivo de conhecimento sobre o ócio. No entanto, trata de esclarecer o que na interdisciplinaridade, que envolve o ócio, compete ao campo específico de cada disciplina, na explicação e compreensão do fenômeno (op. cit).

O ócio faz parte da reflexão específica das ciências sociais que se caracterizam por disciplinas não consensuais. Isso quer dizer que nunca se encontrará uma conceituação de ócio por meio de acordos entre investigadores.

Assim, uma das características dos estudos de ócio é a carência de consensos generalizados em suas abordagens básicas. No entendimento de Cuenca (2003), tal fato não representa um problema, quando se trata da reflexão teórica do ócio, que, por si, representa um objeto numa realidade complexa e mutável com vínculos no social, no subjetivo e no tradicional.

Atualmente, falar em ócio é algo complexo e nos remete a muitas possibilidades:


[...] Para uns o problema se reduz aos usos do tempo ou ocupação. Para outros vem a ser práticas de atividades não obrigatórias, desejadas e queridas. Outros, por fim, falam do ócio a partir dos parâmetros das cifras econômicas. Os jovens entendem que viver o ócio é um direito democrático, semelhante a outros cada vez mais utópicos, como é o direito ao trabalho. Um cidadão de um país desenvolvido não saberia viver sem televisão, esporte, cultura, viagens, música moderna ou férias. O século XX desenvolveu um novo tempo social centrado no ócio, cuja transcendência está ainda, por ser descoberta (Cuenca, 2003, p. 31).

Falar em ócio obriga a ressaltar sua importância social e econômica a partir de suas práticas, atividades e vivências. Da mesma forma, sobre a incidência que sua prática tem na destruição e construção de valores e comunidades. Certamente, deve-se estar consciente dos malefícios que uma política econômica centrada apenas no lucro da exploração de atividades consumistas e esvaziadas de valor, fruto da ausência de uma educação para utilização e escolha de ócios positivos, pode levar a práticas consideradas como "negativas" de ócio.


[...] Diante do mundo de evasão, distração espetáculo que nos rodeia, o ser humano se torna cada vez mais limitado, cada vez mais dependente das máquinas, menos ator e mais espectador de uma realidade irreal. Falar de ócio se transforma neste contexto, num questionamento de cada um consigo mesmo, de como ser um pouco mais livre para fazer o que se quer. (...) a vivência de ócio é uma experiência que nos ajuda a nos realizar, nos conhecer, nos identificar, nos sentir melhores, sair da rotina, fantasiar e recuperar o equilíbrio das frustrações e desenganos (Cuenca, 2003, p. 32).

O conceito de ócio atual revisa o que a produção européia resguarda a partir da experiência grega, ressaltando outras funções do ócio, como a libertadora, a criadora e a contestadora.

A partir da década de 80, os estudos de Roger Sue contribuem com a idéia de que, independente das teorias que possam existir, há uma série de funções que se manifestam como conseqüência da experiência de ócio.

Sue (em Cuenca, 2003) organiza as funções do ócio em três grupos: psicológicas, sociais e econômicas. No grupo das funções psicológicas, inclui as funções de desenvolvimento, diversão e descanso já tratadas em Dumazedier, compreendendo que tais funções atendem, parcialmente, à compensação das perdas humanas pelo trabalho, no entanto, possibilitam equilíbrio psicológico ao indivíduo. As funções sociais estariam relacionadas com a integração social, o simbolismo e a terapia.

Com relação à socialização, coloca que as condições de trabalho, na atualidade, a urbanização intensa e as novas formas de viver geraram um empobrecimento da comunicação interpessoal e, conseqüentemente, um isolamento que, no ócio, encontra um contraponto.

A função simbólica sinaliza que o ócio oferece a percepção de identidade, pertencimento a uma categoria social, além de uma afirmação pessoal com relação aos demais, através da escolha de atividades de diversão. A função terapêutica considera que o ócio oferece a possibilidade de contribuir para a manutenção da saúde física e mental.

Dentro do grupo das funções econômicas, ressalta a crescente observação de gastos pessoais, familiares com atividades de ócio, bem como a incidência do ócio na economia e vice-versa. Assim, Sue pergunta diante de toda a possibilidade que o ócio oferece: o que é o ócio? Consumo ou alienação?

Nas formas de divertimento moderno, o ócio está completamente colonizado pelo consumo, o que caracteriza uma experiência alienada. Por este motivo, a função econômica do ócio é ambígua. Os gastos ativam o sistema produtivo, mas as práticas que não implicam custo, não são amparadas pela política econômica (Sue em Cuenca, 2003).



Ócio: vivência humanista e experiência integral

Uma das relações mais observadas no fenômeno do ócio é atribuí-lo ao tempo. Para Cuenca (2003), o ócio jamais pode ser identificado com tempo, uma vez que o tempo, em si, não define a ação humana. A identificação que se produziu entre ócio e tempo livre é um produto dos estudos da sociologia, difundidos a partir da segunda metade do século XX e até os anos 80 do mesmo século. Tal fato dificultou a compreensão do ócio, por não incluir a percepção psicológica.

Apenas com o tempo livre não se pode falar do que seria uma experiência de ócio, o tempo constitui uma coordenada vital para qualquer ato humano, a expressão tempo livre se torna importante nesta relação, pela palavra livre que sugere relação com o exercício humano de identidade, reconhecimento, auto-reconhecimento e vontade. A partir destes enfoques psicológicos, o ócio vem sendo definido como "liberdade de escolha" (op. cit).

Desta forma, o tempo e a atividade em si não podem determinar uma experiência de ócio. A ação é uma referência que, com a percepção de quem a realiza, pode ou não ser uma vivência de ócio.


[...] a vivência humanista do ócio é ou deveria ser uma experiência integral e relacionada com o sentido da vida e os valores de cada um. Isso pode ocorrer graças à formação. A pessoa formada é capaz de converter cada experiência de ócio numa experiência de encontro. Cada encontro é uma re-criação que proporciona vontade de viver (Kriekemanns em Cuenca, 2003 p. 63).

Infere-se, então, que a vivência de ócio possibilita contextos experienciais que podem ser âmbitos para a recriação ou não. Porém, o ócio humanista se diferencia de outras vivências por sua capacidade de sentido e potencialidade de encontros criativos que levam ao desenvolvimento pessoal.

Na conjuntura atual, compreender o ócio como um valor torna-se difícil sem um processo de informação. Desta forma, a compreensão do ócio humanista não é algo que se desenvolve sozinho, tratando-se, pois, de uma vivência que se desenvolve pela aquisição de conhecimentos. Quanto mais informação sobre o ócio e seus valores para a pessoa e para a sociedade, mais capacidade de compreendê-lo, buscá-lo e vivê-lo.

O pensamento sobre ócio humanista encontra-se refletido no pensamento dos anos 1990. Como reflexo desse pensamento, citam-se as declarações mundiais realizadas pela World Leisure and Recreacion Association (WLRA), como a Declaração de Educação para o Ócio e a Declaração de São Paulo de 1998. Nestas referencias, o ócio se define como um direito do ser humano, área específica da experiência, âmbito da liberdade, recurso do desenvolvimento pessoal e social, fonte de saúde e bem-estar (Cuenca, 2003, p. 70).

O ócio como experiência humana está relacionado a valores e significados profundos, apenas assim pode o ócio ter sentido enquanto experiência significativa positiva, fonte de desenvolvimento e prevenção à ociosidade negativa, ou ócios nocivos.

É possível distinguir uma experiência comum e a verdadeira experiência. Dewey (1949, em Cuenca, 2003) acrescenta que a experiência comum se relaciona com qualquer ação da vida; trata-se de um fato que se toma como corrente, banal.

A experiência de viver está repleta de experiências. Por outro lado, algumas experiências fogem dessa percepção cotidiana e vulgar pelo sentido da subjetividade envolvida, escolha desejada, encontro permitido. Esses detalhes mudam todo o sentido da experiência e estas provocam transformações em quem as vivencia, estas são as experiências chamadas verdadeiras.

Csikszentmihalyi (1998 em Cuenca, 2003), pesquisador da Universidade de Chicago, em suas pesquisas, chama a este mesmo fenômeno de "experiência ótima", acrescentando que, quando uma pessoa passa por uma vivência como essa, uma das metas centrais do self será seguir experimentando-a ou voltar a buscar outras semelhantes, convertendo-a em uma influência tão significa quanto a cultura ou a genética.



Reflexões finais

A evolução dos tempos nos leva a muitas possibilidades de compreensão do ócio. Entre tempo voltado para o restabelecimento da força e as várias experiências possíveis na compreensão multidisciplinar de Cuenca, o ócio reaparece como estudo importante, representando um pensamento alinhado ao desejo do sujeito contemporâneo, um ser exausto de consumir sem um sentido seu, levado pela mídia, pela moda, pelos outros, para o material.

Encontramo-nos entre movimentos atuais como o "Slow Food" no âmbito internacional e a "Simplicidade voluntária" no Brasil, em que as pessoas questionam suas opções e travam lutas de cunho ecológico em prol de "um tempo mais tranqüilo", na busca de um tempo para si, novos hábitos, novas formas de consumir etc. Essa idéia de tempo substitui a lógica linear e cronológica e abre espaço para a compreensão da duração, que é plural.

A centralidade do tempo contemporâneo, ainda no tempo de trabalho, dá vez a um sujeito longe de sua liberdade, criação e desejo, convocando a continuidade da atenção em um tempo a ser conquistado para a expressão das subjetividades contemporâneas diluídas em tempos de vazio.



Referências

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Notas

1. A sociologia do tempo, tal como discorre Pronovost (1996), é compreendida como um campo de estudos da sociologia que visa ao estudo da estruturação do tempo nas sociedades, tomando-o como referente de organização social e não apenas como dimensão onipresente.
2. O tempo de "nada fazer", expresso neste texto, representa, na compreensão dos autores, o tempo verdadeiramente livre que se pode dispor. Neste tempo, o sujeito experimenta a sensação de vivenciá-lo sem nenhum tipo de pressão ou compromisso com produtividade. É um tempo de compromisso consigo mesmo, pleno de autocondicionamento.
3. Em linhas gerais, Dumazedier, em sua elaboração sobre o que é lazer, o coloca como âmbito do Descanso, da Diversão e do Desenvolvimento num tempo liberado de obrigações, daí a relação a 3 "D's".
Revista Mal Estar e Subjetividade

A Era do Descobrimento do Oceano


Em uma época de mudanças climáticas tão profundas no planeta, preencher esse vazio do conhecimento é absolutamente mandatório


CRÉDITO: IMAGEM CORTESIA DE BRITISH ANTARCTIC SURVEY



Pouco tempo após os primeiros exploradores europeus chegarem ao Novo Mundo, novos mapas atualizados começaram a ser produzidos. Cartas de navegação descrevendo a costa das novas colônias, assim como novos mapas-múndi, proliferaram e se tornaram documentos acessíveis. A era das descobertas foi moldada pela evolução nas teorias e tecnologias de produção de mapas, que continuou a sustentar as grandes expedições nos séculos subsequentes. Nas primeiras décadas do século 20, os grandes rios, como o Nilo e o Amazonas, tiveram seus cursos determinados; as expedições polares ao Ártico e a Antártida mapearam as últimas áreas realmente inexploradas do planeta; toda a topografia do subcontinente indiano foi cartografada em uma resolução sem precedentes através de um grande projeto chamado ‘Grande Mapeamento Trigonométrico’. Atualmente, com o desenvolvimento das tecnologias de imageamento e posicionamento por satélites, conseguimos acessar qualquer canto do planeta através de uma simples consulta ao celular. Pouco nos atentamos, no entanto, ao fato de que dois terços da superfície do planeta, ou seja, todas as áreas oceânicas, ainda são conhecidas em níveis similares ao dos continentes na Idade Média.

O motivo mais óbvio para isso é o fato de que o oceano é completamente inacessível à presença humana. Mesmo com pesados equipamentos de mergulho autônomo, só é possível chegar a algumas centenas de metros de profundidade. Submersíveis ou robôs de operação remota podem alcançar profundidades maiores, mas são equipamentos extremamente caros e de complexa operação. Ademais, a luz quase não se propaga em ambientes aquáticos, desta forma, os satélites não são muito úteis para se quisermos “ver” o que há nas regiões mais profundas do oceano. O principal instrumento de mapeamento dessas regiões é o sonar, que utiliza som, e não luz, para “ver” através do meio aquoso emitindo ondas sonoras através de uma fonte acústica e captando seu eco no fundo do mar, determinando, assim, a profundidade em determinado local.

Os primeiros mapas mais precisos do fundo do oceano foram elaborados com base em sonares nos anos 1940 e 1950, na carona do desenvolvimento de métodos acústicos impulsionados pela tecnologia militar da Segunda Guerra Mundial. Descobrimos que o assoalho oceânico é uma região coberta por gigantescas cadeias de montanhas, vulcões, vales e fossas abissais. Obtivemos dados para construir os primeiros grandes mapas globais dos fundo oceânico, informação que sustentou o desenvolvimento da grande teoria da Tectônica de Placas.

No início do século 21, além dos mapas de escala global, gerados a partir dos levantamentos por sonares, a maior parte da informação sobre o oceano vinha apenas de poucos dados sobre a água, substrato e de seres vivos, adquiridos através de amostragens diretas através de coleta de material em grandes projetos de pesquisa, restritos a poucos institutos e universidades com capacidade para bancá-los. As informações geradas eram, desta forma, restritas a publicações científicas, bibliotecas e banco de dados restritos de acesso limitado.

Mas o desenvolvimento de novas técnicas na coleta e distribuição de dados marinhos e oceânicos vem propiciar a disseminação de informações. Atualmente, boa parte dos barcos pesqueiros ao redor de todo o planeta, pressionado por rígidas regulamentações, envia dados a centros de informação sobre vida marinha; boias e sensores flutuantes captam informações a cada segundo de características físico-químicas da água; robôs autônomos navegam próximo ao fundo coletando dados sobre o substrato; novos sonares conseguem realizar levantamentos 3D da topografia em resolução centimétrica; sensores conectados a organismos marinhos obtêm informações sobre movimentação e comportamento de animais; satélites transmitem dados importantes como teor de clorofila e temperatura da água. Tudo isso com do apoio de centenas de navios oceanográficos que navegam através do planeta financiados por empresas, universidades e institutos de pesquisa.

Todo este esforço tem gerado um volume imensurável de informações que, em grande parte, são compartilhadas e distribuídas livremente. Apesar de todos esses avanços, há muito mais a ser feito. Ainda estamos entrando na “era do descobrimento” das regiões oceânicas e grande parte das áreas sobre as águas ainda aparecem como regiões incógnitas nos mapas. Em uma época de mudanças climáticas tão profundas no planeta, preenchermos este vazio do conhecimento é absolutamente mandatório e somente com coordenação e empenho em nível global isso será possível. Neste sentido, a “Década do Oceano” pode ser uma incrível oportunidade.


Luis Américo Conti
Escola de Artes Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo

*A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo.
Revista Ciência Hoje

Vazios Cartográficos


OS DESAFIOS DA AUSÊNCIA DE MAPEAMENTO OFICIAL
Os vazios cartográficos, grandes áreas do território que não foram mapeadas oficialmente, podem ter seus dados geográficos conhecidos em detalhes por meio de mapeamentos colaborativos. O uso de programas que permitem a realização desse tipo de mapeamento, feito em rede por agentes públicos ou voluntários, ajuda a promover a participação popular e a inclusão social na gestão pública do território e em outras atividades que utilizam dados geográficos, como monitoramento de áreas de floresta, levantamento de recursos minerais e planejamento de ações de resgate.




Mapas são documentos muito úteis para localização e orientação no espaço geográfico em que estamos inseridos. Aplicativos e outras ferramentas de todo tipo têm utilizado mapas digitais para ajudar as pessoas a encontrar destinos diversos – teatros, escolas, hospitais, praias etc. – ou para guiá-las em seu deslocamento diário.

Mas nem sempre foi assim. Até meados do século passado, os mapas oficiais eram confeccionados apenas por especialistas, a serviço dos governos. Havia uma natural limitação – tecnológica e/ou provocada pelo tamanho da área a ser mapeada – na quantidade de dados e informações que um mapa poderia conter.


ATÉ MEADOS DO SÉCULO PASSADO, OS MAPAS OFICIAIS ERAM CONFECCIONADOS APENAS POR ESPECIALISTAS, A SERVIÇO DOS GOVERNOS



A escala, um elemento obrigatório do mapa, mostra a relação entre o que está desenhado e o que existe no espaço real. Então, se o mapa possui uma escala de 1:250.000, significa que cada 1 cm corresponde a 250.000 cm (2.500 m ou 2,5 km) na realidade.

Portanto, quanto maior a escala do mapa (quanto menor o denominador), mais detalhado ele será, representando mais elementos pela mesma unidade de área, como nomes de ruas, localização de praças, escolas, travessas, vielas.


Mapeamento que empodera

Com o surgimento dos sistemas de informação geográfica (SIG) – programas para processamento de dados geográficos –, muito do trabalho de mapear foi facilitado. Esse avanço também foi favorecido pelo aumento do poder computacional e pelo armazenamento de grandes volumes de dados em nuvem, que podem ser acessados e trabalhados colaborativamente via internet.

Toda essa revolução tem sido acompanhada pelo aumento da participação popular nos mapeamentos. O aporte de dados tornou-se mais diversificado, contando com a visão daqueles que conhecem bem os locais. E esse tipo de informação contribui para o empoderamento das comunidades, que passaram a participar das ações de planejamento, monitoramento e avaliação, levando as questões que lhe são importantes para o mapeamento.

Em regiões que não foram contempladas em mapeamentos oficiais – os chamados vazios cartográficos –, como áreas com aglomerados subnormais (favelas) ou de proteção ambiental, o mapeamento colaborativo pode auxiliar o aporte de dados relacionados a elas.

O uso de programas como o OpenStreetMap (OSM), a maior base cartográfica colaborativa da atualidade, tem permitido a realização de mapeamentos por grupos organizados em torno de um objetivo comum. O OpenStreetMap apresenta-se como ótima solução para suprir dados ausentes nos grandes vazios cartográficos ainda existentes no Brasil, por possuir uma enorme rede de usuários, que colaboram com grande volume de dados e realizam a validação da sua qualidade (ver ‘O mapeamento colaborativo no OpenStreetMap’).


O MAPEAMENTO COLABORATIVO NO OPENSTREETMAP

O OSM é o projeto que disponibiliza uma base cartográfica colaborativa, com dados de diferentes partes do mundo, incluídos e validados por uma comunidade voluntária de mapeadores, de utilização livre (desde que citada a autoria) e que têm como característica comum possuir uma localização na superfície terrestre (dados geoespaciais).

O OSM baseia-se no mapeamento colaborativo do terreno (ou de outros ambientes, como o mar), que atende a diferentes fins, valorizando o conhecimento local de quem contribui.

Criado em 2004 pelo empreendedor britânico Steve Coast, o OSM teve como foco inicial o Reino Unido. Desde 2006, o site e serviços relacionados são geridos pela Fundação OpenStreetMap, abrangendo todo o mundo. Até junho de 2021, existiam mais de sete milhões de usuários cadastrados globalmente, com mais de sete bilhões de elementos já mapeados.

As contribuições podem ser realizadas por qualquer pessoa, bastando um cadastro prévio na página da plataforma. Para inserir os dados geográficos e editar os mapas do OSM, os usuários têm à disposição programas que foram desenvolvidos com a linguagem de programação Java, como o editor iD, disponível na própria página web do OSM, ou programas autônomos como o JOSM.

Essas contribuições são apoiadas em pesquisas próprias, dados de GPS e imagens de satélite ou fotografias aéreas, de domínio público. Os dados podem ser inseridos no OSM como pontos, linhas ou polígonos (representando áreas), desenhados sobre imagens de satélite de fundo, fornecidas pelas empresas BingⓇ, ESRIⓇ, MapboxⓇ, dentre outras. Os elementos inseridos são descritos com detalhes em etiquetas.

O OSM fornece dados geoespaciais para milhares de sites, aplicativos móveis e dispositivos de computador. Esse mapeamento colaborativo é muito útil também para os gestores das pequenas cidades brasileiras, que geralmente não possuem uma base cartográfica própria, devido aos custos de geração dessas informações.
Modo de edição on-line do OSM para uma área do município de São José dos Campos, São Paulo FONTE: CONTRIBUIDORES DO OPENSTREETMAP (2021)



Aliado durante grandes tragédias

O trabalho de mapeamento colaborativo local vem ganhando destaque, em diversas partes do mundo, principalmente a partir de eventos de grande magnitude e impacto na mídia, como o terremoto ocorrido em 2010 no Haiti e que devastou a capital, Porto Príncipe, causando a morte de aproximadamente 300 mil pessoas e deixando mais de um milhão de desabrigados. Em um esforço internacional, a cidade teve todo o seu território mapeado em dias. Esse trabalho foi fundamental no planejamento das ações de resgate e salvamento das vítimas.


O TRABALHO DE MAPEAMENTO COLABORATIVO LOCAL VEM GANHANDO DESTAQUE, EM DIVERSAS PARTES DO MUNDO, PRINCIPALMENTE A PARTIR DE EVENTOS DE GRANDE MAGNITUDE, COMO O TERREMOTO OCORRIDO EM 2010 NO HAITI




No Brasil, situação semelhante aconteceu após o rompimento da barragem de rejeitos da mina Córrego do Feijão, pertencente à mineradora Vale S.A., em janeiro de 2019, no Município de Brumadinho, em Minas Gerais. As principais vias de locomoção na área foram mapeadas em curto espaço de tempo, por colaboradores locais e internacionais, o que contribuiu para que as equipes alcançassem as regiões atingidas com maior rapidez, auxiliando o socorro às vítimas e a busca de desaparecidos.


Referências nacionais

Exemplo relevante de mapeamento colaborativo é o trabalho realizado no Município de Jaraguá do Sul (SC), coordenado pelo engenheiro civil Hélio Cesar Tomio, que utilizou acervo de imagens aéreas e dados de GPS da Secretaria Municipal de Urbanismo. Colaboradores e voluntários realizaram a atualização de toda a base cartográfica municipal.

Já em Laranjal Paulista (SP), o mapeamento foi elaborado de forma independente pelo mapeador voluntário, arquiteto e urbanista Igor Eliezer, utilizando informações do levantamento de campo e de uma pesquisa bibliográfica de dados municipais. Os dados compilados foram disponibilizados no Atlas de Laranjal Paulista, utilizado como fonte de pesquisas sobre o local.

Esses casos são referências nacionais de como o uso das informações detalhadas mapeadas por diversos tipos de colaboradores (agentes públicos ou voluntários) pode se tornar uma base de dados cartográfica confiável e amplamente utilizada. Equipes de planejamento do poder público local e de empresas privadas têm a possibilidade de usá-las para diferentes finalidades, como a definição de linhas de transportes de passageiros, a distribuição de cargas, a localização de uma via de transporte, a construção de escolas ou ciclovias e a construção ou abertura de unidade fabril ou comercial.

Em nível estadual, destacamos o trabalho de mapeamento colaborativo realizado no Espírito Santo, onde o Governo do Estado disponibiliza a sua base de dados geográficos – o Sistema Integrado de Bases Geoespaciais do Estado do Espírito Santo (Geobases). Os mapeadores voluntários locais, coordenados por Luc Freitas, atualizam esses dados diretamente na plataforma do OSM.


Desafiadores vazios brasileiros

Mesmo com o avanço do mapeamento colaborativo e voluntário no Brasil, ainda há grande carência de colaboradores. Nas regiões Norte e Nordeste, onde existem grandes vazios de informações geográficas e cartográficas no OSM, essa situação fica mais nítida.


MESMO COM O AVANÇO DO MAPEAMENTO COLABORATIVO E VOLUNTÁRIO NO BRASIL, AINDA HÁ GRANDE CARÊNCIA DE
COLABORADORES



Entre os poucos colaboradores dessas regiões, estão os mapeadores voluntários Francisco Marques e Miguel Qualhano, que realizam, no extremo sul piauiense, onde se localizam os municípios de Bom Jesus e Corrente, um trabalho muito relevante. Essas localidades vêm se tornando, nos últimos anos, uma nova e importante fronteira agrícola, que integra a região denominada de MATOPIBA, formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Novos migrantes, principalmente oriundos do Sul do Brasil, estão transformando o Cerrado piauiense em imensas lavouras comerciais de soja, algodão e milho. E a dupla de mapeadores percebeu a necessidade de melhorar a base de dados cartográficos da região.



Mapeamento colaborativo e ações governamentais

O conhecimento mais detalhado das características territoriais é condição essencial para o planejamento, pelos governos, de grandes obras de infraestrutura, como construção de rodovias, ferrovias, usinas hidrelétricas e gasodutos, e também para a implantação de diversos empreendimentos da iniciativa privada.

Outras atividades relevantes, de interesse do poder público, de empresas e da sociedade, como monitoramento de áreas de floresta, levantamento de recursos minerais e demarcação de áreas indígenas, também necessitam dessas informações. E, considerando-se escalas maiores do que 1:10.000, mapeamentos de zoneamentos urbanos, de rede viária, de acessibilidade, de distribuição espacial de equipamentos urbanos e de áreas suscetíveis a movimentos de massa ou a inundações são outros exemplos de demanda de geração de dados geoespaciais cada vez mais detalhados e atualizados.

Em todas essas situações, é fundamental que órgãos públicos – das esferas federal, estadual, distrital e municipal – além de universidades, empresas, organizações não governamentais e mapeadores voluntários possam avançar no levantamento, na geração, na organização e no acesso a dados geoespaciais de qualidade e compatíveis com as escalas de análise e cartográfica do mapa final.

Ações do governo federal, em parceria com os governos estaduais, estão contribuindo para reduzir os vazios cartográficos de áreas que contavam com mapeamentos em pequenas escalas apenas, como as diversas cartas temáticas na escala de 1:1.000.000 produzidas no âmbito do Projeto RadamBrasil, na década de 1970. Até 2010, quase 1,8 milhão de km² da Amazônia Legal (correspondente a 35% dessa área) não possuía informações detalhadas da sua cartografia. Buscando reduzir esse vazio cartográfico, o governo brasileiro, por meio do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), lançou o Projeto Radiografia da Amazônia.


ATÉ 2010, QUASE 1,8 MILHÃO DE KM² DA AMAZÔNIA LEGAL (CORRESPONDENTE A 35% DESSA ÁREA) NÃO POSSUÍA INFORMAÇÕES DETALHADAS DA SUA CARTOGRAFIA




É realmente fundamental o desenvolvimento de novas iniciativas de mapeamento colaborativo para suprir os dados ausentes nos demais vazios cartográficos do Brasil. Diante dos grandes vazios cartográficos ainda existentes no país, fica evidente como os mapeamentos colaborativos são extremamente relevantes e urgentes para a gestão pública e para a iniciativa privada.


Raquel Dezidério Souto
Laboratório de Cartografia,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Jocilene Dantas de Barros
Laboratório de Análises e Desenvolvimento de Indicadores para a Sustentabilidade,
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

Marta Foeppel Ribeiro
Departamento de Geografia Física,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Miguel Ângelo Lima Qualhano
Departamento de Tributação e Cadastro Imobiliário,
Prefeitura de Jerônimo Monteiro/ES
Revista Ciência Hoje

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