sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Desmatamento explica 75% da perda de chuvas na Amazônia, diz estudo


Pela primeira vez, pesquisadores quantificam papel do desflorestamento na transformação climática que ocorre no bioma durante a estação seca


Amanda Nascimento*

Arte: Gustavo Radaelli**

A estação seca na Amazônia ocorre entre julho e novembro, mas pode variar de região para região – Foto: Greenpeace/Brasil de Fato/Flickr


A maior floresta tropical do mundo está mais quente e menos chuvosa. De acordo com um estudo publicado na Nature Communications, o agente central por trás dessas transformações é o desmatamento. Os resultados indicam que aproximadamente 75% da redução das chuvas e 16,5% do aumento da temperatura do ar próximo à superfície da Floresta Amazônica estão ligados à perda de cobertura florestal. Entre 1985 e 2020, o bioma deixou de receber 21 milímetros de chuva por estação seca, valor que representa uma redução em torno de 8% da chuva do período.


Caso as taxas persistam, a previsão é de que, em 2035, a região amazônica tenha um aumento total de 2,64ºC na temperatura e uma redução de precipitação de 28,3 milímetros por estação seca em comparação a 1985. “Esses valores começam a se aproximar do ponto de não retorno”, alerta Luiz Machado, pesquisador visitante do Instituto de Física (IF) da USP e coordenador do estudo. “Esse ponto é complexo de definir, porque ele não depende só do clima, ele depende da vegetação. Mas a vegetação que é mais sensível à falta d’água pode, sim, desaparecer.”

“O que observamos é que os efeitos de redução de precipitação e de aumento de temperatura são muito evidentes na estação seca”, diz Marco Franco, um dos autores da pesquisa e professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Ele explica que “sempre choveu na Amazônia. Mas, ao longo dos últimos anos, têm ocorrido secas muito intensas, e isso desencadeia uma série de impactos no bioma, como as queimadas”.

Marco Aurélio Franco – Foto: Lattes


Franco lembra que esses efeitos não ficam restritos à Amazônia. A redução de chuvas na estação seca também compromete o Cerrado e o Pantanal, que dependem da umidade transportada pelos “rios voadores” — responsáveis por parte significativa das chuvas nessas regiões. Segundo ele, a diminuição desse fluxo pode comprometer a agricultura, inclusive a produção da safrinha – que ocorre após a colheita da safra central de um cultivo.


A pesquisa ainda aponta que o clima amazônico responde ao desmatamento de forma não linear, uma vez que o impacto é mais intenso nos primeiros 10% a 40% de área desmatada. Para Franco, o cenário reforça a urgência na preservação do bioma.


“Isso significa que é fundamental preservar o bioma. Porque se você não preserva, ele sentirá o desequilíbrio”
Marco Franco

Nas últimas décadas, a combinação do aumento da temperatura global devido às emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento demonstrou alterar os ciclos hídricos, de carbono e de energia da Amazônia. No entanto, pesquisas não haviam quantificado esses fatores e seus papéis relativos na transformação da floresta amazônica.


Meteorologista Luiz Augusto Toledo Machado- Foto: arquivo pessoal / IFUSP


Chegando aos resultados


Os autores recorreram a 35 anos de dados do MapBiomas, entre 1985 e 2020, para identificar as transformações no uso da terra na Amazônia Legal. Assim, a área em análise foi dividida em 29 blocos de 300 por 300 quilômetros e os pesquisadores cruzaram as informações de cobertura florestal com dados de temperatura, da precipitação e dos gases de efeito estufa obtidos por satélites e reanálises.

“Através do sensoriamento remoto, pegamos dados de precipitação, do metano, do dióxido de carbono e da temperatura máxima próxima à superfície, porque, caso contrário, seria impossível olhar para a Amazônia de uma forma integrada”, explica Franco. Ele destaca que a temperatura máxima foi escolhida por ser o parâmetro em que os efeitos da perda da vegetação são mais intensos.

Com essas informações, os pesquisadores desenvolveram uma equação paramétrica, que relaciona os efeitos das emissões de gases com o desmatamento. Foi assim que eles conseguiram quantificar quanto do aquecimento e da seca se deve às emissões globais e quanto é resultado direto do desflorestamento; 75% da redução das chuvas tem relação direta com o desmatamento, enquanto o restante é atribuído à emissão de gases. No aumento de 2 °C na temperatura, 0,4 °C são resultado da perda de cobertura vegetal.


Contribuição das mudanças climáticas globais e do desmatamento para as variações de metano, dióxido de carbono, temperatura máxima da superfície e precipitação durante a estação seca – Imagem: Reprodução/Nature Communications

Futuro da amazônia


Embora o aquecimento global explique a maior parte da elevação das temperaturas na Amazônia, os 0,4ºC adicionados pelo desmatamento não são nulidades. “Parece pouco, mas não é”, aponta Franco. O professor enfatiza que os extremos de calor e de redução das chuvas se acentuam nas regiões mais desmatadas, o que amplifica os eventos climáticos extremos em escala local e regional.

Caso o desmatamento avance de forma contínua, a Amazônia pode ser levada para um regime climático semelhante ao do Cerrado, com estações secas mais marcadas e maior contraste com o período chuvoso.


“Essas tendências de desflorestamento e aumento da temperatura estão levando a Amazônia a ter um ciclo sazonal cada vez maior. Mas a resposta da vegetação pode ser diferente, não se sabe como a vegetação vai reagir a isso. Em regiões onde a vegetação é um pouco resiliente, pode haver uma redução de altura das árvores”
Luiz Machado

Para Franco, esses dados são cruciais, agora que a Amazônia está no centro do debate internacional. “Este ano é o ano da COP30, em Belém”, ressalta. “Os números que apresentamos precisam servir de guia para os tomadores de decisão. É fundamental proteger e reflorestar o bioma, porque os efeitos são muito drásticos quando se remove a cobertura vegetal. E, quando cada país sentar à mesa de negociação, todos terão de saber a conta que lhes cabe pagar.”

O artigo How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest pode ser acessado neste link.

Mais informações: marco.franco@usp.br, com Marco A. Franco, e lmachado@if.usp.br, com Luiz A. T. Machado

*Estagiária sob orientação de Fabiana Mariz



**Estagiário sob orientação de Moisés Dorado
Jornal USP

Propaganda enganosa



Assim como numa pandemia biológica, muitas pessoas carregam e transmitem o vírus da desinformação sem saber que estão infectadas (ou sendo influenciadas) por ele. “Esse é um clássico da comunicação e da propaganda, não é mesmo? O consumidor nunca acha que está sendo influenciado”, diz a pesquisadora Marie Santini, professora da Escola de Comunicação e diretora do Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais (Netlab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


Em última instância, a desinformação busca manipular a percepção pública da realidade como um todo; por isso ela contamina todas as áreas do debate público e não apenas o noticiário político, apontam pesquisadores.

“A desinformação trabalha com o mundo, mais ou menos, como se ele fosse uma maquete”, diz a jornalista Daniela Osvald Ramos, professora da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP e pesquisadora do COM+, um grupo de estudos especializado em comunicação digital. “Você tem um cenário e você tem grupos de pessoas que vivem nesse cenário. Então, você planta uma informação aqui, outra informação ali, e assim você vai manipulando a maquete, de acordo com os seus interesses”, explica ela.

Essa manipulação, segundo Ramos, é feita por pessoas “que se colocam de fora do processo democrático” e que sabem usar o maquinário das mídias digitais para construir cenários fictícios — mas de aparência extremamente realista — dentro dessa maquete social. “Todo esse aparato tecnológico que foi construído dentro da internet nos últimos 20 anos nos colocou, de certa forma, como espectadores, voluntários e involuntários, de um espetáculo no qual não temos acesso aos bastidores nem sabemos quem está cumprindo qual papel”, diz. Segundo ela, é irrealista esperar que as pessoas sejam capazes de identificar todas as formas de desinformação por conta própria, “porque elas são construídas de uma forma muito crível”, quase sempre usando uma pitada de realidade para conferir um verniz de veracidade a alguma narrativa mentirosa.

A mensagem falsa em que a Polícia Militar supostamente recomenda às pessoas não sair de casa após as 22 horas é um bom exemplo: muito bem redigida, ela se aproveita de uma preocupação legítima com a questão da criminalidade urbana para propagar uma sensação de medo na sociedade, com o objetivo de torná-la mais permeável à aceitação de políticas armamentistas e intervencionistas. A mensagem circula amplamente desde 2018 e já foi desmentida pela Polícia Militar de vários Estados. O texto não pede voto em ninguém, mas busca construir uma realidade adulterada, na qual as pessoas, sentindo-se ameaçadas, se tornam mais inclinadas a apoiar políticas e políticos que defendem intervenções radicais na segurança pública, como armar a população ou ampliar o conceito de excludente de ilicitude para policiais.

“A desinformação é uma forma desonesta de propaganda, que não diz que é propaganda”, diz o jornalista Carlos Orsi, diretor de comunicação do Instituto Questão de Ciência, que combate a desinformação científica e a pseudociência nas políticas públicas. Neste caso, não uma propaganda de produtos, mas de opiniões, crenças e visões de mundo. “É uma mentira disfarçada de verdade, construída para alterar o comportamento das pessoas”, completa Orsi.

Os disfarces são muitos e variam de acordo com o objetivo da desinformação e o meio pelo qual ela vai ser disseminada. Não precisa nem ser uma notícia falsa, propriamente dita. Pode ser uma notícia verdadeira, porém tirada de contexto ou manipulada de alguma forma para inflar sua relevância ou lhe conferir algum significado espúrio. Pode ser um boato espalhado por aplicativos de mensagens; às vezes na forma de texto, às vezes como arquivo de áudio, gravado por alguém que se apresenta como testemunha ou delator de alguma informação secreta. Pode ser um vídeo de alguém de jaleco distorcendo evidências científicas, oferecendo curas milagrosas ou propagando teorias conspiratórias de que o homem nunca pisou na Lua, que as vacinas alteram o seu DNA, que as universidades públicas no Brasil são centros de doutrinação comunista ou que o desmatamento na Amazônia não passa de uma mentira inventada por ONGs internacionais para destruir o agronegócio brasileiro. A ficção, diferentemente da verdade, não é limitada por fatos, mas pela criatividade de seu criador.


Jair Bolsonaro exibe embalagem de hidroxicloroquina em uma live na internet, em julho de 2020. Governo promoveu amplamente o uso da droga durante a pandemia, apesar de estudos mostrarem que ela era ineficaz contra a covid-19 - Foto: Reprodução/ Youtube

Jornal USP

“A guerra está no seu bolso”







“A guerra está no seu bolso”, resumiu a jornalista filipina Maria Ressa, em uma conferência de três dias sobre desinformação, promovida em maio pela Fundação Nobel e a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Mais especificamente, a guerra está embutida naquele aparelho eletrônico retangular que vive dentro dos nossos bolsos: o adorado e famigerado smartphone; principal vetor usado pelo vírus da desinformação para se espalhar na sociedade e infectar a mente das pessoas.

Ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2021, ao lado do russo Dmitry Muratov, Ressa não se cansa de soar o alerta sobre os perigos da desinformação. A internet e as redes sociais, segundo ela, estão sendo usadas por agentes maliciosos em diversos países — incluindo o Brasil — como “um sistema de modificação comportamental” da sociedade, com consequências potencialmente desastrosas para a democracia (por meio da radicalização política e da interferência em processos eleitorais), para a saúde pública (pela disseminação de notícias falsas sobre vacinas, por exemplo), e até mesmo para o futuro da espécie humana no planeta (pelo negacionismo da crise climática e de outras ameaças de caráter global).

“Uma bomba atômica invisível foi lançada sobre o nosso ecossistema de informações”, discursou Ressa, em 2021, após receber o Prêmio Nobel. O primeiro passo para reconstruir o que já foi destruído e desarmar outras bombas que estão por vir (com poder de destruição ainda maior, amplificado pelos avanços da inteligência artificial) é a “restauração dos fatos”, segundo ela. “Sem fatos não pode haver verdade. Sem verdade não pode haver confiança. Sem confiança, não temos uma realidade compartilhada, não temos democracia, e torna-se impossível lidar com os problemas existenciais do nosso tempo”, afirma Ressa.


A perda dessa “realidade compartilhada” é uma peça-chave do problema, segundo especialistas. Ela se dá pela fragmentação da sociedade em grupos culturalmente fechados, e frequentemente antagônicos, nos quais as pessoas só se relacionam com aquelas que pensam igual a elas e consomem informações que confirmam suas próprias convicções. São as chamadas bolhas ou câmaras de eco digitais, nas quais a desinformação encontra campo fértil para crescer raízes sem ser contestada.

Essa fragmentação é impulsionada em grande parte pelos algoritmos das redes sociais, que são programados para customizar a visualização de conteúdo aos interesses e preferências de cada usuário. Um sistema excelente para vender anúncios e produtos via microtargeting (propaganda customizada), mas péssimo para a manutenção de uma realidade compartilhada e, consequentemente, de uma democracia saudável. Isso porque a customização não se aplica apenas aos anúncios, mas também às notícias (falsas e verdadeiras), artigos de opinião, comentários, postagens, sugestões de leitura, recomendações de amizade, resultados de busca e tudo mais que qualquer pessoa visualiza na internet.

“O que você vê não é o que eu vejo. As notícias que aparecem para você são diferentes das que aparecem para mim. Assim, fica difícil compartilharmos uma visão de mundo”, contextualiza Marie Santini, da UFRJ. As bolhas digitais, segundo ela, têm o atrativo de serem ambientes confortáveis, onde as pessoas têm seus desejos de consumo atendidos, só recebem notícias que confirmam suas opiniões, interagem com pessoas que pensam igual a elas e, portanto, não precisam responder perguntas incômodas nem se dar ao trabalho de questionar suas convicções.


“Os algoritmos nos enxergam não como indivíduos autônomos, mas como indivíduos que se agregam em clusters que eles mesmos formam”, diz a professora Leticia Cesarino, da Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em antropologia digital.

É nesses espaços digitais herméticos e recheados de viés de confirmação que os arquitetos da desinformação constróem seus cenários fictícios, isolando as pessoas da realidade coletiva e dificultando o debate democrático sobre desafios compartilhados da sociedade. “Uma vez que você cai numa dessas bolhas de desinformação é muito difícil sair por conta própria. É como um buraco negro, que te suga para uma realidade paralela”, compara o físico Leandro Tessler, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) e membro do Grupo de Estudo da Desinformação em Redes Sociais (EDReS) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Jornal USP

Tsunami meteorológico


Tsunami meteorológico surpreende litoral de Santa Catarina e acende alerta para dias de calor intenso

Fenômeno raro registrado em Laguna (SC) não tem relação com aquecimento global. Marcelo Dottori defende investimento em previsão e pesquisa para reduzir danos


A onda repentina surpreendeu os banhistas e foi associada à atuação de um sistema atmosférico instável sobre o oceano – Foto: Imagem de divulgação/Defesa Civil de Santa Catarina


O Estado de Santa Catarina registrou, no mês de janeiro, um fenômeno natural raro: um tsunami meteorológico na Praia do Cardoso, em Laguna, no litoral sul. A Argentina também registrou o evento na mesma época. O episódio, ocorrido após um dia de calor intenso e marcado por variações bruscas no nível do mar, devidamente registradas em portos da região Sul, difere daqueles que acontecem nas profundezas e que são resultantes da movimentação das placas tectônicas. Uma câmera de segurança chegou a registrar o momento em que o mar avança e sobe de forma repentina, atinge carros e inunda comércios.

 
Marcelo Dottori – Foto: LinkedIn

O físico Marcelo Dottori, professor de oceanografia do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), explica a diferença entre o tsunami sísmico e o meteorológico. O tsunami meteorológico é diferente do tsunami sísmico porque não é causado por placas tectônicas, mas por variações bruscas de pressão atmosférica associadas a sistemas meteorológicos instáveis após dias de calor intenso.
Instabilidade atmosférica

A onda repentina surpreendeu os banhistas e foi associada à atuação de um sistema atmosférico instável sobre o oceano. O mesmo fato ocorreu na costa atlântica da província de Buenos Aires: um avanço repentino do mar, descrito como “mini tsunami”, deixou ao menos uma morte e cerca de 35 feridos. O professor reforça que se trata de um fenômeno raro.

O tsunami meteorológico ocorrido na Praia do Cardoso, apesar de raro, não tem relação com o aquecimento global, e novos episódios não são descartados. Não é possível evitar esse tipo de evento, mas a previsão e redução de danos dependem de tecnologia e investimento em pesquisa. O Brasil está longe de zonas de subducção, o que reduz o risco de tsunamis gerados por terremotos submarinos.


Jornal da USP

Brasil gasta milhões em saúde por falta de saneamento


O Brasil tem 12,46 casos de internação por doenças relacionados à água contaminada a cada 10 mil habitantes, com um custo de aproximadamente de R$ 99 milhões aos cofres públicos


Estação de Tratamento de Esgoto – Foto: Fernando Stankuns/Visual Hunt – CC



No último episódio em celebração ao Dia Mundial da Água, em 22 de março, a Rádio USP apresenta uma análise do potencial desperdiçado pelo Brasil ao não capitalizar recursos financeiros com o aproveitamento dos esgotos sanitários, enquanto despende milhões no tratamento de doenças decorrentes da carência de saneamento básico.

A incidência de internações no Brasil por doenças relacionadas à água contaminada, devido à falta de tratamento adequado, atingiu a marca de 12,46 casos para cada 10 mil habitantes, resultando em um custo aproximado de R$ 99 milhões aos cofres públicos, conforme dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus). Esses números, embora referentes a 2017, destacam o significativo impacto econômico provocado pela ausência de universalização do saneamento básico no País, que se traduz na falta de acesso à água potável encanada por 32 milhões de brasileiros e na ausência de sistemas de coleta e tratamento de esgoto para mais de 92 milhões de pessoas.

Giovana Tommaso – Foto: Reprodução / Acolhe FZEA

A professora Giovana Tommaso, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP em Pirassununga, lamenta que o índice de tratamento de esgotos em relação à quantidade coletada tenha diminuído entre 2015 e 2018, devido ao aumento na coleta ser maior do que no tratamento. Ela enfatiza que, embora não se possa generalizar, mantendo os investimentos atuais, a universalização da coleta poderia ser alcançada por volta de 2030, enquanto a universalização do tratamento só seria possível em torno de 2060.

O Brasil continua enfrentando altos custos para corrigir os problemas decorrentes da falta de saneamento básico universalizado, evidenciando a falta de compreensão das autoridades brasileiras sobre a necessidade urgente de resolver essa questão. Segundo a professora, os investimentos em saneamento e pesquisas são insuficientes para resolver esse problema grave, tanto em termos de saúde pública quanto ambiental.

Para a professora, é essencial que os representantes no poder público sejam indivíduos sérios, comprometidos em abordar de forma adequada a questão dos esgotos sanitários, que é de interesse público, estabelecendo um cronograma mais viável. Ela ressalta que não basta apenas discursar sobre a necessidade de atender às demandas da Organização das Nações Unidas (ONU), que são legítimas, mas é crucial compreender nossas próprias peculiaridades e necessidades locais.
Transformar prejuízo em lucro

Neste contexto, o Brasil perde uma oportunidade valiosa ao não utilizar a matéria orgânica proveniente dos esgotos domésticos e agroindustriais para gerar lucro em vez de prejuízo. Giovana ressalta a importância dessa matéria orgânica, destacando seu potencial na produção de biogás. Em grandes estações, o biogás pode ser convertido em energia elétrica e integrado à rede de distribuição, enquanto em instalações menores, mesmo quando não é economicamente viável, pode ser empregado como fonte de calor para desinfetar subprodutos como os lodos. Giovana também menciona a possibilidade de distribuição do biogás para uso na cocção, devido ao seu alto poder calorífico.

Quanto às águas residuais ou esgotos agroindustriais, há amplas oportunidades de reaproveitamento. Um exemplo, compartilhado pela professora, é a produção de ácidos orgânicos provenientes do tratamento de esgotos industriais concentrados, os quais podem ser usados na construção de bioplásticos. Esses processos, conforme destacado por Giovana, não só agregam valor ao produto final da estação de tratamento de águas residuais como também promovem uma abordagem mais sustentável.

Ao concluir, a professora enfatiza a importância de adotar medidas corretivas para mitigar os danos já causados, ao mesmo tempo em que instiga ações regenerativas em relação ao meio ambiente. “Cuidar da água, elemento que permeia todas as formas de vida, é condição primordial para que nossa existência seja garantida.”

Por: Rose Talamone e Ferraz Jr


Jornal da USP

Água é fundamental para a vida, inclusive na alimentação


“A insegurança hídrica tem estreita relação com a insegurança alimentar, ou seja, há uma parcela expressiva da população brasileira que tem fome e sede simultaneamente“, diz Pedro Jacobi


A água está intrinsecamente ligada aos sistemas agroalimentares, já que a produção de alimentos depende de uma boa quantidade de irrigação – Foto: feraugustodesign via Pixabay – Foto: feraugustodesign via Pixabay



Dia 22 de março é comemorado o Dia Mundial da Água e foi estabelecido pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1993. Porém, a relação desse líquido com a vida humana vai além da simples ingestão e passa também pela produção de alimentos.
Crise hídrica

Cada lugar possui um índice pluviométrico diferente, isto é, o volume da chuva varia de acordo com diversos fatores que incluem, além do geográfico, a presença ou não de vegetação natural, impacto da ação humana, tratamento das águas, entre outros. Quando se pensa na intervenção do ser humano, outra palavra recorrente é a escassez hídrica. “A partir do desmatamento nos biomas, dos processos de degradação dos solos, da poluição atmosférica e das águas, todas condições comprometem as bacias hidrográficas fundamentais para o consumo humano, ampliando os danos à saúde”, explica Pedro Jacobi, professor titular sênior do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente.

O poder público também tem responsabilidade nesse impacto: a má qualidade das águas dos rios por falta de tratamento de esgoto doméstico e ocupação em áreas de mananciais, falta de planejamento para a construção de novos reservatórios, falta de investimentos para a redução de perdas e falta de coordenação institucional são alguns pontos elencados pelo professor.
Água e alimentação

A água está intrinsecamente ligada aos sistemas agroalimentares, já que a produção de alimentos depende de uma boa quantidade de irrigação e até mesmo da água em si para os demais processos. No Brasil, Jacobi comenta que, como a maior parte das terras agrícolas é irrigada sazonalmente, dependendo das chuvas, situações de escassez hídrica decorrentes das mudanças climáticas são cada vez mais preocupantes
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Pedro Roberto Jacobi – Foto: IEA/USP

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor agropecuário foi responsável por 97,4% do consumo total de água no Brasil em 2017. “O setor agropecuário busca constantemente pela alta produtividade, que promove a expansão das lavouras como as de soja e milho e dos espaços destinados à pecuária, demandando a expansão da fronteira agrícola para regiões como a Amazônia e o Cerrado”, diz o professor. A consequência disso é o desmatamento e as queimadas florestais, que não comprometem apenas a região, mas também muitos outros locais que dependem da formação de chuvas.

Os reflexos desses problemas atingem tanto a quantidade quanto a qualidade das águas, o que, em cadeia, afeta diretamente a produção de alimentos, com consequências para as populações vulneráveis socialmente. “Os agricultores familiares são os mais duramente afetados, com a queda da qualidade das pastagens e da produção agrícola, gerando endividamento que dificulta desenvolver os próximos plantios”, explica Jacobi.
Sede e fome

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6 da ONU pretende “garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água potável e do saneamento para todos”. A água é um direito universal reconhecido pela ONU, mas ele não é cumprido integralmente. “Existe um dado para o qual não podemos deixar de olhar: a insegurança hídrica tem estreita relação com a insegurança alimentar, ou seja, há uma parcela expressiva da população brasileira que tem fome e sede simultaneamente, de acordo com relatório da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar“, ressalta o professor.

Para tentar controlar a situação, Jacobi diz que o Brasil precisará ampliar os estoques de alimentos e privilegiar culturas mais resistentes a secas, por causa das mudanças climáticas, além de difundir o nexo água, energia e alimentação, já que a água é um eixo estruturador. “A partir daí, entende-se que a governança e gestão da água devem ser integradas aos demais setores pelo seu papel fundamental para a produção de alimentos e garantidor de energia devido à importância da hidroeletricidade no País.”

*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo
Jornal USP

Crime organizado é um problema mundial, mas está avançando nos países latinos


Para Marcelo Gomes, Brasil criou uma equipe de “compliance” muito qualificada por conta da Operação Lava Jato


No caso da América Latina o crime organizado tem ganhado forças – Foto: DC Studio/Freepik



O crime organizado afeta corriqueiramente as empresas no Brasil e no mundo ao ponto de que cerca de 6% do seu faturamento é desviado por fraudes, como fraudes internas. Segundo Marcelo Gomes, mestre e doutor em Ciências Contábeis pela Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, pesquisador do Grupo de Investigações Periciais, Forenses e Tecnológicas (Perfort), vinculado à faculdade, o dado é originado de uma pesquisa feita por uma associação de investigadores de fraude global.

“É uma pesquisa muito comum, feita por várias consultorias, várias entidades. A mais famosa pesquisa nessa área é o Report to the Nation, que é reproduzida pela Association of Certified Fraud Examiners, que é uma associação de investigadores de fraude global, mas sediada nos Estados Unidos, e tem esse relatório para as nações, em que apura também dentro do mesmo critério, ou seja, o que aconteceu em termos de fraude nos últimos 12 meses. Primeiro, vamos desmistificar essa questão numérica. Ele é espalhado no mundo inteiro, não tem um problema específico no Brasil. Ele é igual no Brasil, ele é igual na Itália, ele é igual na Uganda, a fraude não tem cor, não tem raça, não tem sexo e não tem nacionalidade. É uma situação obviamente preocupante para todas as empresas, mas é um fenômeno infelizmente espalhado mundialmente.”

Gomes explica que, no caso da América Latina, o crime organizado tem ganhado forças. “O primeiro diferencial que está acontecendo, principalmente nos países latino-americanos, com o crescimento das organizações criminosas locais. O que tem diferenciado é como ela tem se inserido na atividade econômica legal. É muito comum a gente enxergar empresas que são franquias, seja perfumaria, seja lavanderia, seja qualquer tipo de serviço que demande ou que traga recursos dos clientes, supostamente em dinheiro.”

“A partir daí, quando ele começa a faturar e trazer muito dinheiro para essa franquia, ele usa essa franquia para comprar outros negócios legais, por exemplo, postos de gasolina. Ligados ao crime organizado começaram a comprar fazendas de açúcar, adentrando no mundo empresarial. Eles entraram em outras ramificações que começam a prejudicar uma gama maior da economia. E é para isso que, hoje em dia, é uma preocupação muito grande dos compliances das empresas tentar identificar essa situação e impedir que a empresa para qual trabalha faça negócios com essas empresas que estão ligadas ao crime organizado”, acrescenta.
Sinais

Gomes alerta sobre o principal sinal de que uma empresa possa estar ligada ao crime organizado. “Uma empresa que estava com uma dificuldade financeira, que o mercado inteiro conhecia, por exemplo, um fornecedor de plásticos para sua indústria, de repente começa ter facilidade financeira e passa a oferecer os melhores preços, melhores que os concorrentes. O julgamento que vem primeiro é que ela deve ter passado por uma reorganização e está ‘sob nova direção’. Assim, a empresa decide fazer negócio com ele, porque ele está fazendo o melhor preço. Porém, tem que tomar um cuidado enorme, porque nem sempre o melhor preço é realmente é o melhor preço, em vista daquele novo fornecedor estar conectado ao crime organizado.”

Gomes finaliza comentando métodos do compliance, ou seja, formas das empresas de assegurar que estão agindo dentro da regularidade legal e, portanto, não interagindo com o crime organizado. “Tem um procedimento que os profissionais usam chamado due diligence, ou seja, a investigação daquela empresa sobre os seus antecedentes, sobre os antecedentes dos seus sócios, com quem eles fazem negócios. O processo investiga até o terceiro nível de relação societária. A empresa X tem o sócio A e o sócio B. No due diligence você pega o sócio B que, além dele ser sócio da empresa X, ele é da Y. Assim, você vai investigar quais são as relações que esses sócios têm com as empresas e se elas também possuem alguma relação com o crime organizado. A investigação vai até o terceiro nível para ter certeza de que você está lidando com pessoas que não têm qualquer conexão com o crime organizado.”


Jornal da USP

Estudo investiga o destino de pesticidas e microplásticos nos recursos hídricos


Para Antonio Carlos Silva Costa Teixeira, esses compostos são capazes de provocar efeitos indesejados à saúde dos ecossistemas aquáticos

A persistência de pesticidas na água vai depender muito das condições ambientais específicas da localidade de uso – Foto: Freepik


Um estudo analisa o destino ambiental de poluentes emergentes em águas superficiais. A pesquisa aborda um problema crescente e importante da presença de pesticidas e microplásticos na água. Segundo o professor Antonio Carlos Silva Costa Teixeira, do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP e orientador da tese, o estudo é importante para fornecer dados a órgãos públicos e empresas do meio ambiente para repensarem a proposição legal desses compostos na água e seu monitoramento.


Antonio Carlos Silva Costa Teixeira – Foto: Lattes


O estudo se dedicou ao entendimento dos impactos tanto dos pesticidas quanto dos microplásticos presentes nas águas superficiais, como lagoas, rios, reservatórios de abastecimento e a região costeira. “Esses compostos podem causar efeitos tóxicos, que normalmente são efeitos crônicos que são observados na biota (algas, microcrustáceos, peixes, entre outros) e, eventualmente, também podem provocar desregulação hormonal e endócrina de diversos organismos. Isso pode gerar problemas, por exemplo, associados à reprodução. Se a gente for considerar o tamanho desse problema, a gente pode dizer que existe uma categoria muito ampla, já conhecida, de compostos em diferentes faixas de concentração, presentes nas águas, que são capazes de provocar esses efeitos. Agora, se a gente for pensar, no caso da saúde humana, os impactos ainda são pouco conhecidos. O que preocupa, porque a gente deve considerar não só o uso da água, mas também efeitos como bioacumulação, biomagnificação de diferentes poluentes.”

A pesquisa foi dividida em duas partes, como explica Ádila de Oliveira Sampaio Dantas, doutora do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP. “Nós avaliamos, na primeira parte do trabalho, os pesticidas que são frequentemente detectados nos rios reservatórios, como no caso do metomil no rio Paranapanema, e da metribuzin e da ciromazina, que são outros dois pesticidas, no rio Araguaia. Já na segunda parte do nosso trabalho, nós avaliamos o papel dos microplásticos nesse cenário. Investigamos se eles absorvem esses contaminantes e como eles envelhecem ao serem expostos à luz. Nós também analisamos se esses microplásticos podem gerar radicais livres ambientalmente persistentes, que têm uma persistência maior de dias a horas e se podem participar dessas reações de degradação do próprio material”, diz Ádila.
Conclusões

Ela ainda comenta as conclusões do projeto: ”Nós observamos que a persistência desses pesticidas na água vai depender muito das condições ambientais específicas da localidade de uso. Em alguns casos, a biodegradação foi o principal mecanismo de remoção desses contaminantes, mas os processos fotoquímicos, principalmente os processos fotoquímicos induzidos pela luz solar e com essas espécies reativas, tiveram uma contribuição significativa. Já em relação aos microplásticos, os resultados mostraram que eles não são apenas partículas inertes no meio ambiente. Quando expostos à luz e processos oxidativos, eles sofrem operações químicas, eles podem formar alguns grupos ali que nós chamamos de grupos oxigenados na superfície da molécula, podendo, sim, gerar esses radicais livres, ambientalmente resistentes, que afetam a microbiota. Além disso, nós verificamos que, após o envelhecimento com luz, os microplásticos aumentam a sua capacidade de absorver esses contaminantes”.

Teixeira finaliza acrescentando sobre a interação da pesquisa com outras linhas. “Agora essa pesquisa está também relacionada a uma outra linha de pesquisa da nossa equipe, que diz respeito ao desenvolvimento de tecnologias avançadas e mais eficientes para tratamento de efluentes da indústria, efluentes hospitalares e efluentes da agroindústria também, no caso específico dos pesticidas, e também tecnologias mais eficientes para o tratamento de água de abastecimento.”


Jornal da USP

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Qual é a gravidade do branqueamento massivo de corais


Mariana Vick

Cinquenta e quatro países registraram eventos generalizados de degradação de recifes, segundo agência americana. Espécies são fundamentais para ecossistemas marinhos. Litoral brasileiro também foi afetadoO Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.


FOTO: Jorge Lima


Corais em processo de branqueamento na Costa dos Corais, em Japaratinga (AL)

A Noaa, Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, informou na segunda-feira (15) que o mundo passa por um novo evento global de branqueamento de corais. Trata-se da quarta ocorrência desse tipo já registrada pela agência e a segunda identificada em menos de dez anos. Todos os três oceanos que abrigam esses recifes (Pacífico, Índico e Atlântico) foram afetados.

Cinquenta e quatro países registraram eventos generalizados de branqueamento desde fevereiro de 2023. A confirmação mais recente, que motivou o anúncio de segunda, veio do Oceano Índico ocidental, incluindo lugares como Tanzânia, Quênia e a costa oeste da Indonésia. O evento afeta ecossistemas vitais para a biodiversidade marinha e para a humanidade.

850 milhões de pessoas dependem das barreiras de corais para alimentação, trabalho e proteção contra temporais e erosões, segundo a ONG WWF (Fundo Mundial Para a Natureza)

Neste texto, o Nexo explica o que são os corais, o que é seu branqueamento e por que um novo evento de branqueamento massivo está acontecendo. Mostra também com qual frequência eventos dessa magnitude estão ocorrendo e detalha qual a sua gravidade para o ecossistema marinho.
O que são os corais

Corais são animais marinhos invertebrados, ou seja, sem espinha dorsal. Pertencem ao grupo dos cnidários, o mesmo das anêmonas e águas-vivas. Têm capacidade de formar, por baixo de seus tecidos, um esqueleto calcário, que dá a eles uma aparência similar a de pedras, além de fazê-los permanecer fixos no mesmo lugar.

Para sobreviver, os corais se aliam a algas, que vivem dentro de sua estrutura. Elas usam o animal para se proteger e obter nutrientes. Em contrapartida, produzem, por meio da fotossíntese, um açúcar chamado glicerol — que, quando sintetizado em excesso, torna-se a principal fonte de alimento dos organismos que as hospedam.

FOTO: NYIMAS LAULA/REUTERS - 03.JUN.21


Peixes nadando em recife de corais na Indonésia

O branqueamento de corais ocorre nos casos em que há perda dessas algas. Quando elas ficam expostas a estresse térmico (ou seja, ao calor), produzem substâncias tóxicas (as chamadas “espécies reativas de oxigênio”), e os corais, como resposta adaptativa, acabam as expulsando. Com isso, eles perdem sua fonte de energia e seu tecido fica translúcido.

Nem sempre o branqueamento significa a morte de um coral. Eventualmente, os organismos podem se recuperar desse tipo de ocorrência, caso voltem a se associar com novas algas. Sem sua principal fonte de alimento, no entanto, eles têm grandes chances de morrer, principalmente se os períodos de estresse forem longos ou severos, segundo a Noaa.
O que define um branqueamento global

Para haver um evento global de branqueamento, todos os três oceanos que abrigam corais (Pacífico, Índico e Atlântico) precisam tê-lo registrado em 365 dias, segundo os parâmetros da Noaa. Além disso, pelo menos 12% dos recifes em cada oceano devem ser submetidos a temperaturas que causam branqueamento. Não basta, portanto, que haja estresse térmico em lugares isolados: é preciso que ele se espalhe por grandes áreas do globo.

Mais de 54% dos recifes de corais do mundo experimentaram temperaturas de branqueamento desde fevereiro de 2023, segundo a agência americana. O percentual está aumentando cerca de 1% por semana. Há a possibilidade de este ser o “evento global de branqueamento mais extenso em termos de área já registrado”, segundo Derek Manzello, coordenador do programa Coral Reef Watch da Noaa, ao jornal The New York Times.

FOTO: Tom Bayly/Wikimedia Commons - 02/06/2011


Peixes marinhos com corais ao fundo

O mapa abaixo mostra as áreas de corais do mundo sob mais estresse térmico nos últimos dias. Lugares como a Grande Barreira de Corais (na Austrália), a região do Caribe, o litoral brasileiro e o Pacífico sul (incluindo países como Fiji, Tuvalu e Polinésia Francesa) estão entre os mais afetados. Locais como o estado da Flórida, nos Estados Unidos, também registraram alerta máximo ao longo de 2023.




A Noaa determina um evento global de branqueamento a partir da análise de temperaturas da superfície dos oceanos e de evidências dos recifes. A agência monitora o globo desde 1985, a partir de medições de satélites. Os dados acumulados no período mostram que, a cada nova ocorrência global de branqueamento, a situação tem se agravado:
primeiro evento (1998): 20% das áreas de corais sob estresse
segundo evento (2010): 35% das mesmas áreas sob estresse
terceiro evento (2014-2017): 56% das áreas sob estresse
quarto evento (2023-2024): mais de 54% até agora


O que explica o evento atual

A Noaa afirma que a principal causa para o atual evento de branqueamento de corais são as altíssimas temperaturas registradas nos oceanos no último ano. A mudança climática é a principal responsável pelo fenômeno. Os anos de 2023 e 2024 também foram marcados pela presença do fenômeno climático El Niño, que afeta diretamente o mar, como o Nexo conta no vídeo abaixo:



Jennifer Koss, diretora do programa de conservação de recifes de corais da Noaa, afirmou na segunda (15) que a ciência sugere há anos que o aquecimento dos oceanos deve intensificar os eventos de branqueamento. A mudança climática tem promovido o estresse mesmo de espécies conhecidas por serem mais resistentes ao calor. A emissão de gases de efeito estufa também é responsável pela acidificação dos oceanos, que dificulta a manutenção dos recifes.

Mortes substanciais de espécies foram identificadas na Flórida e no Caribe desde 2023. O estado americano registrou no último ano uma onda de calor sem precedentes, que durou mais e foi mais severa que qualquer outro evento anterior na região. Ainda é cedo, no entanto, para estimar qual será a extensão da mortalidade global, segundo a Noaa.

Apesar da gravidade do evento atual de branqueamento, a agência americana estima que ele será curto. O El Niño já está enfraquecendo e deve se encerrar neste outono de 2024, segundo previsões. Depois dele, é provável que venha o fenômeno La Niña, conhecido por esfriar as águas dos oceanos que hoje estão mais quentes.
Quais são os danos para os ecossistemas

O branqueamento de corais causa danos graves para os ecossistemas marinhos. Miguel Mies, coordenador de pesquisa do programa Coral Vivo e professor do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo), disse ao Nexo que o coral é “um organismo engenheiro”, que “constrói o ecossistema chamado recifes de coral”. Quando eles morrem, há impactos para inúmeras espécies.

“O esqueleto calcário [do coral] constrói essa barreira rígida, recortada e tridimensional que dá abrigo para milhões de espécies de peixes, invertebrados e outros organismos”, afirmou Mies. “No momento em que o coral morre, esse recife vai se degradando, e os sítios de abrigo, de alimentação e de reprodução dessas incontáveis espécies se perdem. A perda do coral, no fim, é a perda da biodiversidade como um todo”, acrescentou.

¼ das espécies oceânicas se nutrem a partir dos corais em algum momento de seu ciclo de vida

Além de causar danos biológicos e ecológicos, o branqueamento de corais em escala global pode ter efeitos socioeconômicos. “O recife de corais, enquanto vivo, fornece serviços ecossistêmicos como pesca, turismo e proteção costeira”, segundo Mies. A morte desses organismos, portanto, tem impacto nas economias, na segurança alimentar e na vida das pessoas que dependem dessas espécies para manter seus meios de subsistência, complementa a Noaa.

US$ 2,7 trilhões ou R$ 14 trilhões é o valor econômico dos recifes de corais no mundo

Outra preocupação está relacionada ao período entre as ocorrências de branqueamento. A água do planeta passa ciclicamente por picos de temperatura — e, quando sobrevivem ao estresse, corais precisam de mais de uma década de estabilidade para se recuperarem plenamente. Cientistas temem que, mais frequentes, os eventos globais impeçam a “folga” necessária para haver regeneração entre uma crise e outra.

Como o evento afeta o Brasil

O Brasil é um dos mais de 50 países que registraram branqueamento significativo de corais no último ano. Uma das áreas mais afetadas é o litoral nordestino, onde está o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos (BA), uma das mais importantes áreas de proteção marinha do país. Há registros de branqueamento severo na região, com alta mortalidade.

Levantamento da Rede de Monitoramento do Branqueamento Coral Vivo mostra que, em alguns recifes do Nordeste, até 100% dos corais já branquearam. Não são todas as espécies nem todas as colônias da região, mas a situação é generalizada, segundo o grupo. A situação é mais moderada no litoral do Sudeste, de acordo com Mies.

FOTO: Jorge Silva/Reuters - 17.abr.2024

Imagem aérea mostra corais em processo de branqueamento na Costa dos Corais, em Japaratinga (AL)

Para o pesquisador, não há solução simples para a situação. “Esse é o resultado de um processo de um longo e lento aumento da temperatura. Não é uma coisa que a gente aperta um botão e para ou reverte. O que a gente tem que fazer é batalhar por um planeta que combata as mudanças climáticas, para que os próximos possíveis episódios de branqueamento sejam menos intensos”, disse.

Segundo ele, isso passa por atividades de comunicação e educação ambiental e outras que mostrem às pessoas a importância dos recifes de corais para o meio ambiente e para as sociedades. Também é preciso mostrar “como eles estão sendo destruídos pelas mudanças climáticas causadas pelo homem”, complementou.

Colaborou Mariana Froner com o mapa
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Cresce a escala de trabalho “996” nos Estados Unidos, prática proibida em seu país de origem desde 2021; entenda






Vem crescendo nos Estados Unidos, na carona da Inteligência Artificial (IA), a utilização da escala de trabalho conhecida como “996”. Surgida na China no início do século, a prática é hoje proibida no país asiático, mas está em ascensão nas empresas de tecnologia estadunidenses.


Originalmente, o nome dado à escala foi 996 porque representava o trabalho das 9h da manhã às 9h da noite, seis dias por semana. Hoje, porém, serve para nomear jornadas extenuantes, geralmente de cerca de 12 horas, sem finais de semana.

A escala 996 ganhou força na China no contexto do “boom” tecnológico no país, mas foi proibida no país em 2021, após protestos e críticas por conta dos recorrentes problemas de saúde, inclusive com mortes, causados pelo excesso de trabalho. Um dos casos que chamou atenção no país foi o de um jovem de 25 anos que morreu após sofrer uma hemorragia cerebral. Ele atuava em uma startup de tecnologia, que negou que ele estaria sobrecarregado, apesar de estar trabalhando sob a escala 996.

Os empresários entusiastas da escala 996 dizem que ela é necessária para aumentar a produtividade e, no caso das empresas relacionadas ao desenvolvimento de Inteligência Artificial, para que sejam capazes de participar da corrida por inovação. Seu discurso tenta convencer os trabalhadores de que o trabalho por mais horas e com menos dias de descanso é “parte da vida”, necessário para “fazer coisas incríveis”, além de revelar “paixão” pela atividade que desenvolve. Essa lógica acaba convencendo alguns trabalhadores, enquanto outros simplesmente têm de se submeter às jornadas exaustivas para se adequar ao mercado, já que nem todas as legislações são proibitivas e nem sempre a fiscalização é suficiente. A chance de “negociar” com o patrão, ilusória em quase qualquer caso, é ainda mais falsa quando determinados mercados apontam todos para o mesmo caminho.

É o que tem acontecido no Vale do Silício, região dos Estados Unidos onde estão concentradas as grandes empresas de tecnologia. Em entrevista à revista Wired, noticiada pelo portal Uol, Adrian Kinnersley, que administra uma empresa de recrutamento nos Estados Unidos, explicou que “a Califórnia é o epicentro da IA e de onde vem grande parte da cultura do 996 [nos EUA], além de ter as leis trabalhistas mais favoráveis aos funcionários de todos os Estados Unidos. Há quase uma histeria na pressa em criar produtos de IA, e muitas pessoas muito jovens e altamente inteligentes, nesse fervor, estão se esquecendo de todos os riscos que estão criando, de todas as enormes responsabilidades”.

Entre esses riscos e responsabilidades, está o adoecimento. Diversos estudos em diferentes países mostram aumentos consideráveis de casos de problemas cardíacos e AVCs quando a jornada aumenta. Isso vale para os trabalhadores mais visíveis dessas empresas de tecnologia, mas também para os “de fundo”.

Artigo publicado pelo Jornal da USP e assinado pelo professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da mesma universidade, Glauco Arbix, explica: “o universo virtual é movido a trabalho humano, que vai muito além dos programadores, engenheiros, estatísticos e cientistas de computação de dados. O glamour em que vive a elite do Silicon Valley nada tem a ver com os chamados ghost workers, trabalhadores mal-remunerados que imigraram para os EUA, que vivem em países africanos, se espalharam pela América Latina, que trabalham no Brasil, na Índia, no Quênia, na África do Sul e que respondem pela gerência invisível da informação, pela rotulação, classificação, mineração e preparação dos bancos de dados. A esse enorme corpo de trabalhadores nem sempre bem qualificados, certamente vai se somar a legião de adeptos do 996, em sua versão californiana ou de outros centros, que se dispõe a enfrentar os riscos e a incerteza de uma jornada extrema em troca de promessas de um bem-estar dourado e de contribuições ao sucesso de seus países na competição geopolítica movida pela IA. A ética desgovernada do sobretrabalho unifica jovens do Oriente e Ocidente que buscam no silício um sentido para seus negócios e suas vidas”.
Com informações da BBC, do Uol, da revista Wired e do Jornal da USP
https://sintrajufe.org.br/

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Como surgiu a Amazônia? 250 milhões de anos que criaram a maior floresta tropical do planeta




Foto: Mauro Pimentel/AFP




Da separação de continentes aos rios voadores, conheça as forças geológicas, climáticas e biológicas que moldaram a Amazônia e explicam sua importância para o futuro climático do planeta.

A Amazônia transcende a definição de uma simples floresta tropical, ela é um sistema dinâmico, complexo e fundamental para o equilíbrio ecológico e hidrológico do planeta. Sua imensidão, com cerca de 6,7 milhões de km², abriga uma biodiversidade incomparável e exerce um papel insubstituível na estabilidade climática global.

A floresta funciona como um gigantesco sumidouro de carbono, com estoques estimados entre 80 e 120 bilhões de toneladas, uma capacidade que a torna peça central na mitigação do aquecimento global e a consolida como uma das “áreas úmidas vitais para o futuro climático”.

Para a ciência do sistema terrestre, a Amazônia é também um laboratório essencial. Projetos como o Amazon Tall Tower Observatory (ATTO) revelam a complexidade da floresta como engrenagem biogeoquímica. Estudos sobre meteorologia, vegetação e gases de efeito estufa mostram que a floresta opera como um sistema em sincronia e que alterações mínimas podem desencadear efeitos em escala continental.

Mas a Amazônia é também um território profundamente humano. Cerca de 3 milhões de indígenas, pertencentes a mais de 390 povos, vivem na Pan-Amazônia, expressando formas de vida, espiritualidade e conhecimento ecológico que há milhares de anos moldam e preservam a floresta.

As práticas de manejo, agricultura, culinária, medicina tradicional e uso sustentável dos recursos naturais constituem um patrimônio imaterial que sustenta ecossistemas inteiros. Comunidades ribeirinhas e extrativistas, por sua vez, carregam saberes detalhados sobre rios, igarapés, igapós e ciclos sazonais. A existência e os saberes desses povos são essenciais para a subsistência e a gestão dos ecossistemas e também para o próprio debate climático global.

Essa Amazônia contemporânea — vasta, diversa, culturalmente rica e integrada ao funcionamento do planeta — nos leva a uma pergunta inevitável: como essa teia complexa de vida se formou e se transformou até se tornar o coração ecológico da Terra? Como surgiu a Amazônia?

A resposta atravessa 250 milhões de anos de reengenharia planetária, em que placas colidiram, mares recuaram, montanhas surgiram e florestas se expandiram. Muito antes dos rios e das árvores, ali existia um oceano.
A Amazônia antes da floresta: As origens geológicas

Para compreender a Amazônia, é preciso recuar entre 300 e 100 milhões de anos atrás, aos períodos Paleozoico e Mesozoico. Naquela época, toda a América do Sul fazia parte do supercontinente Gondwana, junto com África, Antártica, Austrália e Índia. A região que hoje abriga o Rio Solimões e o Alto Purus estava submersa sob mares rasos, repletos de moluscos, peixes primitivos e plantas aquáticas.

Reserva Comunal Purús. Foto: Thomas Müller / SPDA.


Esses antigos mares deixaram como testemunho rochas sedimentares e fósseis marinhos encontrados em plena Amazônia, revelando que a paisagem atual não tem nada de estática. Na verdade, ela foi um dia, um fundo oceânico.

Concha de caracol fóssil de água doce, com similaridades aos moluscos marinhos, achada nas margens de rios a oeste da Amazônia brasileira. Foto: Maria Inês F. Ramos / MPEG

A abertura do Atlântico e o nascimento dos Andes

Há cerca de 120 milhões de anos, o supercontinente Gondwana começou a se fragmentar. A África se separou da América do Sul, abrindo lentamente o Oceano Atlântico. Ao mesmo tempo, o choque das placas tectônicas no oeste eleva progressivamente uma cadeia montanhosa que mudaria para sempre a formação da futura floresta: a Cordilheira dos Andes.

Cordilheira dos Andes. Foto: Jorge Morales Piderit


A ascensão dos Andes alterou profundamente o relevo, o clima e o fluxo das águas. Antes disso, a drenagem amazônica não corria para o Atlântico, mas sim para o Pacífico. Com o levantamento da cordilheira, uma barreira geológica se formou, represando as águas e invertendo todo o sistema de drenagem continental. Esse bloqueio criou novas bacias internas e estabeleceu as condições para o surgimento de um gigantesco lago, o ponto ancestral do atual sistema amazônico.

As montanhas recém-formadas também passaram a bloquear ventos úmidos vindos do Pacífico, alterando padrões climáticos e contribuindo para redirecionar o fluxo das águas para o interior do continente. Esse processo seria o início da longa transformação que, milhões de anos depois, permitiria o nascimento do maior rio do planeta; o Rio Amazonas.

Mapa da Bacia do Rio Amazonas. Foto: Tunes Ambiental.

Quando o mar virou rio: A formação da bacia amazônica

Entre 23 e 10 milhões de anos atrás, no período Mioceno, a Amazônia não era florestada, mas sim um imenso complexo de lagos, pântanos e canais chamados pelos cientistas de Sistema Pebas. Imagine uma espécie de Pantanal colossal, que se estendia do atual Acre ao oeste do Pará.

Nesse ambiente úmido e lamacento viviam mega répteis, como crocodilos gigantes e tartarugas de mais de 2 metros, além de moluscos de água salgada e peixes enormes. A coexistência de fósseis marinhos e de água doce confundiu os primeiros naturalistas, mas hoje sabemos que o Pebas estava ligado ao Atlântico e ao Caribe por canais e estuários.

Reconstrução paleoartística de Stupendemys geographicus, a maior tartaruga que já existiu, nadando nas águas do antigo mega-pantanal amazônico. Em primeiro plano aparece um macho; atrás dele, uma fêmea. Na superfície, vê-se um Purosaurus. Foto: Cadena et al. (2020). Arte de Jaime Chirinos.

O nascimento do Rio Amazonas

Com o avanço dos Andes, o fluxo que antes seguia em direção ao Pacífico foi bloqueado. Lentamente, as águas se acumularam, transbordaram e romperam barreiras naturais, iniciando uma drenagem para o leste. Foi então que a Amazônia “virou” definitivamente para o Atlântico, há cerca de 10 a 8 milhões de anos, formando o esqueleto do sistema fluvial atual.

O Rio Amazonas é, portanto, um rio jovem em termos geológicos, um adolescente de poucos milhões de anos, apesar de carregar a memória de um oceano extinto.

Rio Amazonas. Foto: Anna Chaplygina

Clima, vegetação e megafauna na era das florestas

Com o fim do Sistema Pebas e o escoamento das águas para o Atlântico, o clima da região começou a mudar, permitindo a expansão das florestas tropicais. No entanto, essa vegetação não permaneceu estável ao longo do tempo. Durante o Pleistoceno (entre 2,6 milhões e 11,7 mil anos atrás), sucessivos períodos glaciais deixaram a Amazônia mais seca, o que afetou diretamente a extensão da floresta.

Para explicar esse contexto, surgiu a chamada Teoria dos Refúgios Florestais, proposta por pesquisadores como Jürgen Haffer e George Prance. Segundo essa ideia, durante as fases mais áridas, a vasta floresta amazônica se retraiu em áreas menores e isoladas, os chamados “refúgios”.

Ao redor dessas ilhas de floresta úmida, predominaram paisagens mais abertas, semelhantes a savanas. O isolamento entre os refúgios teria favorecido a evolução de novas espécies, ajudando a explicar por que a Amazônia abriga tantos organismos endêmicos (exclusivos da região).

Com aparência pouco usual, uacari-branco é uma das espécies endêmicas da Amazônia. Foto: Fábio Manfredini


Embora ainda seja um modelo influente, estudos mais recentes indicam que a savanização pode não ter sido tão intensa quanto se imaginava. Isso sugere que a biodiversidade amazônica também pode ter se formado por processos mais contínuos de diversificação ou por refúgios menores e mais localizados, conhecidos como áreas de endemismo.

Independentemente dos detalhes, o que a pesquisa deixa claro é que a Amazônia passou por grandes oscilações climáticas ao longo da sua história e, mesmo assim, mostrou uma capacidade notável de se reorganizar, persistir e evoluir.

A megafauna amazônica

Diferentemente das preguiças atuais, as espécies pré-históricas eram terrestres. Chegavam a 5 toneladas e se deslocavam apoiadas nas quatro patas, ficando “em pé” apenas para alcançar alimentos na copa das árvores. Ilustração: Rodolfo Nogueira.


Muito antes dos humanos, a Amazônia foi lar de criaturas impressionantes. Durante o Pleistoceno — período que se estendeu de 2,6 milhões até cerca de 11,7 mil anos atrás — a região era dominada por mamíferos de grande porte. Viviam ali preguiças gigantes de até 4 toneladas, mastodontes, roedores colossais e gliptodontes, tatus blindados do tamanho de carros compactos.

Esses animais moldavam a paisagem: abriam clareiras, dispersavam sementes e influenciavam diretamente a estrutura das florestas.

Comparativo de tamanho do tatu gigante com um ser humano. Foto: Grupo de Paleontologia da UFSCar/Divulgação


A extinção dessa megafauna ocorreu no final da última Era do Gelo, aproximadamente 10 mil anos atrás. Os cientistas atribuem esse desaparecimento a uma combinação de fatores. De um lado, as rápidas mudanças climáticas do início do Holoceno transformaram os habitats; de outro, a chegada dos primeiros seres humanos ao continente pode ter aumentado a pressão por meio da caça e da competição por recursos.

Esse evento de extinção marca o primeiro grande impacto ecológico provocado pela presença humana na Amazônia, um prenúncio das discussões atuais sobre como as ações humanas continuam a remodelar a floresta.

Com a estabilização climática do Holoceno, a floresta se tornou a principal fábrica de umidade do continente. A evapotranspiração das árvores passou a alimentar correntes atmosféricas que transportam água para grande parte da América do Sul.
Os rios invisíveis da Amazônia

A Amazônia não apenas responde ao clima, ela o constrói. A combinação entre calor, árvores de raízes profundas e rios caudalosos cria um sistema único de reciclagem de água, uma verdadeira “bomba biológica” de umidade sem paralelo no planeta.

A umidade liberada pela floresta é carregada pelos ventos alísios em direção aos Andes, que funcionam como uma muralha natural. Ao encontrar a cordilheira, o ar úmido se eleva, condensa e forma tempestades diárias, alimentando a maior máquina produtora de chuva da Terra.

A extensa copa das árvores amazônicas desempenha um papel crucial nesse ciclo. Por meio da evapotranspiração, a floresta recicla a água da chuva com enorme eficiência, liberando quantidades monumentais de vapor d’água que se transformam em correntes atmosféricas conhecidas como Rios Voadores.
Rios Voadores. Foto: Reprodução


O climatologista Carlos Nobre explica que esses rios invisíveis são fundamentais para o clima da América do Sul. A umidade que chega do Atlântico é reciclada várias vezes sobre a floresta antes de ser direcionada para o interior do continente. Mais de 40% da chuva no Cerrado e cerca de 15% da precipitação no Sudeste brasileiro vêm dos Rios Voadores, demonstrando que a estabilidade hídrica e agrícola de boa parte da região depende diretamente da integridade da Amazônia.

Essa interdependência também revela sua vulnerabilidade. Se a floresta perder sua capacidade de reciclar água, especialmente devido ao desmatamento, projeções indicam que os Rios Voadores podem diminuir em até 40%, o que poderia levar à savanização quase total do Cerrado e ao colapso dos sistemas alagados do Pantanal.
A fertilização transcontinental e a barreira dos Andes

Além disso, estudos mostram que a floresta recebe nutrientes transportados por ventos vindos do Deserto do Saara, que depositam fósforo e outros minerais essenciais sobre a Amazônia. Essa fertilização atmosférica transcontinental compensa uma característica crucial da região, a maior parte dos solos amazônicos é naturalmente pobre em nutrientes.

Isso ocorre porque são solos muito antigos, formados por rochas profundamente intemperizadas ao longo de milhões de anos, processo que provoca a lixiviação, lavagem contínua dos minerais pela chuva. A poeira africana funciona, portanto, como um reabastecimento vital.

Ao mesmo tempo, a Cordilheira dos Andes atua como uma barreira orográfica que redireciona as massas de ar úmidas para o sul, permitindo que os Rios Voadores abasteçam o Centro-Oeste, o Sudeste e até o Sul do Brasil. A combinação entre a fertilização vinda da África e o papel dos Andes sustenta o ciclo de evapotranspiração da floresta, responsável por liberar enormes quantidades de vapor d’água que, ao encontrar a cordilheira, se condensam e formam chuvas intensas em grande parte da América do Sul.

A Amazônia é, portanto, uma sinergia improvável: uma floresta que cria a própria chuva, alimentada pela poeira de outro continente e moldada por uma cordilheira que direciona seus rios invisíveis. É uma engrenagem climática sofisticada e frágil, da qual depende o futuro hídrico de grande parte do continente.

Rios voadores formados pela umidade da Amazônia transportam vapor d’água e levam chuvas para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além de regiões do Paraguai, Bolívia e norte da Argentina. Foto: Brasil Amazôniia Agora.

Povos antigos e domesticação da floresta amazônica

A Amazônia não é apenas resultado de processos naturais, é também uma paisagem moldada pela ação humana. A visão da Amazônia como uma paisagem “intocada” é um mito refutado pela arqueologia. As evidências arqueológicas demonstram ocupação humana há pelo menos 10 mil anos, com redes de aldeias, agricultura intensiva e manejo sofisticado da biodiversidade.
Terras pretas de índio (TPI)

As Terras Pretas de Índio (TPI) são solos amazônicos caracterizados por camadas superficiais escuras, cuja origem é reconhecidamente antrópica. Pesquisas mostram que esses horizontes foram formados por antigas populações indígenas a partir do acúmulo de resíduos orgânicos, restos alimentares, carvão produzido pela queima controlada e outros materiais descartados ao longo de séculos.

Foto: Portal Amazônia.


O resultado é um solo extremamente fértil, em nítido contraste com os solos amazônicos típicos, geralmente pobres devido ao intemperismo intenso e à lixiviação. As TPIs concentram altos níveis de fósforo, cálcio, zinco, manganês e apresentam estoques de carbono orgânico que podem ser até cem vezes maiores do que nos solos adjacentes.

A temática tem sido estudada em revistas científicas internacionais, como Nature e Science, pela sua importância para a Amazônia e pelo potencial de descobertas antropológicas.

A identificação das Terras Pretas de Índio transformou a arqueologia amazônica. Ela demonstrou que grandes populações puderam viver por longos períodos em um mesmo território sem degradar o solo, contrariando a antiga ideia de que a região não suportava assentamentos densos e permanentes.

Pesquisas recentes indicam que essas áreas férteis não surgiram por acaso: foram resultado de um manejo deliberado de resíduos orgânicos, semelhante a uma “compostagem” comunitária, que possibilitou práticas agrícolas contínuas e sustentáveis.
Amazônia, uma floresta cultivada

O manejo sustentável dos recursos naturais também se expressou de forma marcante na domesticação de plantas. Povos amazônicos selecionaram e cultivaram dezenas de espécies — como mandioca, pupunha, cacau, açaí e castanha-do-pará — criando sistemas que iam muito além das roças tradicionais. Eles organizaram jardins florestais, áreas onde plantas úteis eram plantadas, cuidadas e redistribuídas ao longo das gerações.

Estudos mostram que muitos trechos da floresta que hoje parecem intocados abrigam concentrações incomuns de espécies domesticadas ou semidomesticadas, sinal claro de manejo humano antigo. Esse processo não apenas garantia alimento, remédios e materiais, mas também aumentava a diversidade e a resiliência dos ecossistemas. Em regiões como o Alto Xingu, o rio Madeira e o Baixo Tapajós, esses padrões de distribuição são tão marcantes que alguns autores afirmam que a Amazônia é, em grande parte, uma floresta cultivada.

Foto: Maurício De Paiva/InfoAmazonia


A descoberta de cidades perdidas e a revolução do LiDAR

O verdadeiro alcance da ocupação humana antiga na Amazônia só se tornou visível recentemente, graças ao uso da tecnologia LiDAR (Detecção de Luz e Medida de Distância). Esse método permite mapear o relevo abaixo da densa copa da floresta, funcionando como uma espécie de “radiografia” capaz de revelar estruturas e variações sutis no solo que seriam invisíveis a olho nu.

Mapa LIDAR da antiga cidade de Kunguints, na Amazônia equatoriana, revela ruas completas e alinhamentos de casas. Foto: Antoine Dorison e Stéphen Rostain.


Com o LiDAR, arqueólogos identificaram vastas redes de assentamentos complexos, incluindo geoglifos monumentais, valas escavadas, sistemas agrícolas e cidades com até 2.500 anos. Essas descobertas são especialmente marcantes em regiões como o Alto Xingu e o Acre. Um modelo matemático baseado nesses mapeamentos estima que ainda existam entre 10 mil e 24 mil estruturas pré-colombianas ocultas pela floresta.

Essas evidências demonstram que a Amazônia não era — e não é — uma floresta intocada. Trata-se de uma paisagem cultural, moldada e manejada por povos tradicionais ao longo de milênios. A própria distribuição atual de espécies importantes, como mandioca, cacau e açaí, reflete esse manejo contínuo. Compreender essa história de ocupação humana, marcada por estratégias sustentáveis de convivência com a floresta, torna-se fundamental para orientar os caminhos da conservação futura.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A transição ecológica: Amazônia, Cerrado e Pantanal

As fronteiras da Amazônia formam zonas de transição biogeográfica que conectam a floresta úmida às savanas do Cerrado e aos grandes alagados do Pantanal. A diversidade nessas regiões é moldada por gradientes de altitude e, sobretudo, por variações de umidade e sazonalidade climática.

Essas transições não são simples linhas no mapa, mas corredores ecológicos ativos, por onde circulam fauna, polinizadores e fluxos genéticos que garantem a conectividade entre os biomas da América do Sul. Por isso, a integridade dessas áreas é essencial para a resiliência ecológica de todo o continente.

Em áreas de transição entre Amazônia e Cerrado, onde floresta úmida e savana se encontram e formam um dos ecótonos mais biodiversos do continente. Foto: Agro Estadão.


A interdependência fica ainda mais evidente no ciclo hídrico. Pesquisas mostram que o desmatamento na Amazônia compromete o mecanismo de reciclagem de umidade justamente nessas zonas de transição. Massas de ar que atravessam regiões desmatadas produzem até duas vezes menos chuva do que aquelas que passam sobre a floresta intacta. Como resultado, áreas como a porção leste da fronteira entre Amazônia e Cerrado já registram reduções de precipitação superiores a 10 mm por ano.

Esses dados revelam que a crise da Amazônia não se limita ao seu interior. Ela se manifesta também nos biomas vizinhos, evidenciando a profunda interdependência climática que liga toda a América do Sul.

Foto: CVC.

A diversificação e os mosaicos ecológicos da Amazônia atual

A floresta amazônica não é um bloco homogêneo, mas um mosaico intrincado de ecossistemas especializados: várzeas, igapós, terra firme, campinas, campinaranas e campos rupestres. Cada um desses ambientes reflete regimes hídricos, tipos de solo e condições de luz totalmente distintos, moldando comunidades de plantas e animais altamente adaptadas, muitas vezes exclusivas de cada habitat.

A terra firme, que nunca alaga, abriga as árvores mais altas da Amazônia e concentra a maior parte da biodiversidade conhecida, com solos bem drenados e grande complexidade estrutural. Já as várzeas são florestas que alagam todos os anos com as “águas brancas” ricas em sedimentos vindos dos Andes, o que torna esses ambientes mais férteis e extremamente produtivos. Em contraste, os igapós ficam inundados por longos períodos com “águas pretas” ou claras, pobres em nutrientes e mais ácidas, exigindo adaptações extremas, como sementes que germinam na água e raízes especializadas.

Foto: Tim Láman/Nat Geo Image Collection


As campinas e campinaranas, por sua vez, surgem sobre solos arenosos e pobres, formando paisagens abertas, com vegetação baixa e espécies muito especializadas, algumas com distribuição altamente restrita. Já os campos rupestres amazônicos, que ocorrem em afloramentos rochosos isolados, hospedam plantas endêmicas adaptadas à escassez de nutrientes e à alta exposição solar.

A dinâmica desses ecossistemas é tão intensa que, todos os anos, dezenas de novas espécies de peixes, insetos, árvores e fungos são descobertas pela ciência, reforçando que a Amazônia continua um dos centros evolutivos mais ativos do planeta.

Igarapé. Foto: André Dib.


Integridade Florestal e Estabilidade Climática

Para que a Amazônia continue evoluindo e atuando como reguladora climática, sua integridade é essencial. A ciência mostra que florestas preservadas mantêm microclimas estáveis, sustentam cadeias alimentares e são fundamentais para a resiliência ecológica. A floresta não apenas absorve carbono, ela cria as condições atmosféricas necessárias para sua sobrevivência e para os biomas ao redor.

Quando o desmatamento ou as mudanças climáticas reduzem a produtividade primária da floresta, sua capacidade de armazenar carbono é comprometida. Áreas degradadas podem deixar de funcionar como sumidouros de carbono, alimentando um ciclo perigoso de aquecimento e seca que ameaça todo o sistema amazônico.



A Amazônia e o Futuro da Terra


A trajetória de 250 milhões de anos da Amazônia demonstra a extraordinária capacidade da vida de se adaptar — à separação de continentes, à formação de mares internos e às grandes eras glaciais. O desafio atual, porém, não está apenas na magnitude das mudanças climáticas, mas sobretudo em sua velocidade, impulsionada por atividades humanas.
O Ponto de Não Retorno

O climatologista Carlos Nobre alerta que a Amazônia está perigosamente próxima de atingir um ponto de não retorno, o limite a partir do qual a degradação se torna irreversível e a floresta úmida começa a se transformar em savana.

As evidências mais preocupantes estão concentradas no sul e leste da Amazônia, região conhecida como “Arco do Desmatamento”, com cerca de 2,5 milhões de km². Ali, os sinais de estresse são claros.

  Mapa mostra a região do Arco do Desmatamento (polígono em preto). Fonte: PRODES/INPE.


A estação seca já se alongou entre 3 e 4 semanas, a umidade caiu 20% a 30%, e as temperaturas estão até 3°C acima da média histórica. Esses fatores criam um ciclo de feedback climático, no qual a degradação intensifica a seca, que por sua vez mata árvores adaptadas à umidade e acelera ainda mais o colapso climático.

Seca na Amazônia.


Resiliência Histórica versus Velocidade Antropogênica

A questão central é o descompasso entre a velocidade das pressões humanas, como a pecuária, agricultura, queimadas e desmatamento, e o ritmo natural de adaptação da floresta. Enquanto a Amazônia sobreviveu às lentas oscilações climáticas do Pleistoceno, as mudanças atuais ocorrem em escalas de tempo muito mais rápidas do que a capacidade das espécies de responder.

Se o ponto de não retorno for ultrapassado, os impactos serão severos. Até 70% da floresta pode colapsar em 30 a 50 anos, prejudicando de forma irreversível a capacidade da região de armazenar carbono e regular o clima global.

A história evolutiva da Amazônia é uma aula sobre a resiliência da vida, mas também um alerta: não podemos romper, em poucas décadas, um ciclo de equilíbrio que levou 250 milhões de anos para se estabelecer.

Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.
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