sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Cientistas criam mapa de risco de erosão do solo no Brasil

Recurso pode contribuir para o planejamento relativo a áreas com potencial produtivo
Rodrigo de Oliveira Andrade



O mapeamento da suscetibilidade à erosão hídrica é um dos recursos da plataforma
Reprodução

Pesquisadores da Embrapa Solos, no Rio de Janeiro, produziram mapas detalhados das áreas mais suscetíveis e vulneráveis à erosão hídrica no Brasil. Eles estão disponíveis na plataforma tecnológica do Programa Nacional de Levantamento e Interpretação de Solos no Brasil (PronaSolos). A ideia é que sirvam como subsídio em ações de conservação ou recuperação de áreas com potencial produtivo.

Um dos mapas oferece dados sobre a sensibilidade dos solos à erosão hídrica com base em informações sobre o relevo da paisagem e das condições climáticas às quais estão submetidos. Outro mostra o grau de vulnerabilidade dos solos brasileiros à erosão tendo em vista o nível de exposição às intempéries em razão de sua cobertura vegetal natural ou do uso agropecuário a que estão sujeitos. Os pesquisadores produziram ainda um terceiro mapa sobre a capacidade dos solos de resistirem à erosão de acordo com suas características intrínsecas.

A erosão é hoje um problema em todo o mundo, com impactos na produção de alimentos, disponibilidade de terras para a agricultura e qualidade da água.
Revista FAPESP

Sistema contra a fome

Tecnologia social desenvolvida pela Embrapa e UFU visa dar opção de alimentação para as comunidades rurais e periféricas
O tanque para criação de peixes é o coração do sistema. Os resíduos ricos em nutrientes produzidos pela piscicultura são reaproveitados pelos demais módulos de produção animal e vegetal

Embrapa
Frances Jones

Um tanque para a criação de peixes está no centro de um premiado sistema de produção de alimentos que vem sendo adotado por milhares de famílias, principalmente da região Nordeste, para evitar a fome. Proposta pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a tecnologia utiliza a água e os subprodutos de um modelo de piscicultura intensiva em pequenos espaços para organizar módulos que garantam a segurança alimentar em comunidades rurais – e até mesmo em áreas urbanas.

“O Sisteminha é, antes de tudo, uma ferramenta de combate à fome”, declara o zootecnista Luiz Carlos Guilherme, pesquisador da Embrapa Meio-Norte, no Piauí, referindo-se ao Sistema Integrado de Produção de Alimentos, lançado em 2012. “O objetivo principal é tirar as famílias da linha da pobreza, permitindo que tenham um aumento de até 300% na diversidade de alimentos para consumo próprio”, afirma (ver reportagem sobre segurança alimentar). “O excedente e a sua comercialização podem vir como consequência.”



Entrevista: Luiz Carlos Guilherme
Responsável pelo desenvolvimento do modelo, Luiz Guilherme calcula que 4,5 mil famílias em 11 estados brasileiros (Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, São Paulo e Tocantins), além de sete países da África (Angola, Camarões, Etiópia, Gana, Moçambique, Tanzânia e Uganda), adotem o pacote de tecnologia modular que é apropriado para áreas entre 100 e 1,5 mil metros quadrados (m2). São 15 os módulos propostos (ver infográfico) que podem ser utilizados pelas famílias segundo seu interesse.

O pacote básico inicial indicado é composto por cinco módulos: tanque de peixes, galinhas de postura, compostagem, produção de minhocas e horticultura. Há ainda a possibilidade de criação de animais. Todos aproveitam de alguma forma os resíduos ricos em nutrientes produzidos pela piscicultura. A ração industrial usada para alimentar os peixes acaba deixando disponível no tanque nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio e magnésio – aproveitados depois para a irrigação e adubação das plantas.

É no tanque circular de 4,4 m de diâmetro e 70 centímetros de profundidade, com capacidade para 10 mil litros de água, que as famílias devem dedicar maior atenção e investimento no início, segundo o pesquisador da Embrapa, que desenvolveu a solução durante doutorado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, detentora da patente.

No sertão nordestino, que sofre com a escassez hídrica, o pesquisador explica que a água para o tanque de peixes pode ser adquirida de caminhões-pipa, comuns na região. O pacote indica soluções relativamente baratas para a construção de um filtro biológico para aproveitamento da água, de uma bomba de recirculação e de aeração do tanque e de um sedimentador, que separa os resíduos sólidos do líquido.

“Primeiro, eu fiz o tanque mais artesanal e barato possível, usando talos da palmeira de babaçu, papelão e lona plástica”, contou a Pesquisa FAPESP o professor e radialista aposentado Paulo Afonso Silva Santos, conhecido na cidade piauiense de Esperantina como Paulo Brasil. Isso foi em 2013, quando ele conheceu o projeto. De lá para cá, em todas as casas em que morou de aluguel construiu um tanque de peixes, dentro do modelo do Sisteminha, e implantou os módulos de galinha de postura, cabra, composteira e horta.

“Sempre tivemos em torno de 2 litros de leite por dia”, afirma Brasil, que mora com a esposa e três filhos, de 6, 10 e 17 anos. “E isso com uma cabra só.” Com em média 20 galinhas, ele diz produzir por ano 5.500 ovos, além de obter a cada 100 dias entre 30 e 40 quilos de tilápia. “Como tenho limitação física, por ter contraído pólio, e uso muletas para andar, acabei melhorando o processo e adaptando para o mínimo trabalho e menor esforço.” O excedente de ovos e leite de cabra é vendido aos amigos.

Referência alimentar
Dimensionado para atender as recomendações nutricionais de uma família de quatro pessoas, o pacote de soluções tecnológicas do Sisteminha foi adotado em cidades, assentamentos rurais e comunidades quilombolas e indígenas como política pública. Desde março de 2018, a técnica de enfermagem Cláudia Leal e a filha Alba, técnica de informática, atuam como replicadoras da tecnologia na comunidade rural de Inajá, no sertão pernambucano, onde 13 unidades foram implementadas em sete comunidades.

“Cada família tem entre cinco e oito pessoas, mas indiretamente acabamos atendendo um número bem maior, porque a comunidade quer conhecer o Sisteminha”, relata Cláudia. “Por conta da pandemia, também houve muita procura para compra de verduras e legumes.”

“É interessante ressaltar que as unidades cujos trabalhos se destacam são tocadas apenas por mulheres”, comenta Alba Leal. “Elas dão conta sozinhas. Os homens só ajudam de vez em quando, pois geralmente estão fora fazendo outros trabalhos.”

De acordo com Luiz Guilherme, quando o Sisteminha é adotado como política pública, o investimento feito pelo Estado é de aproximadamente R$ 15 mil por família. Um terço desse valor é para custear as instalações necessárias como o tanque de peixes e outras estruturas; os dois terços restantes são divididos igualmente para o custeio no primeiro ano de rações e insumos e de assistência técnica, monitoramento e viagens.

“Os valores são dados pelo órgão público que fornece a tecnologia à família apenas uma única vez. A partir dos seis ou sete meses, ela já começa a ter autonomia na produção de alimentos e se encarrega da ração dos animais”, explica Guilherme. Segundo ele, a Embrapa transfere a tecnologia e passa todas as informações no início do programa para os produtores ou gestores da política pública. “Depois do primeiro ano, usamos muito a figura do multiplicador popular, pessoas que implantaram o sistema e têm bom domínio dele, para apoiar os participantes.”

A bióloga Adriana Miranda de Santana Arauco, professora de microbiologia do solo do curso de agronomia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), no campus de Bom Jesus, no sul do estado, já manifestou interesse em levar a tecnologia social para a região. “Quando há um bom manejo da terra, cultivando hortaliças, vegetais e outras culturas no mesmo espaço, é possível respeitar o ciclo biológico do solo”, afirma. “É uma forma de produzir sem agredir tanto, bem diferente de desmatar e de ter monocultura com uso de fertilizantes.”

Entre os vários reconhecimentos recebidos pela tecnologia, está o Prêmio Celso Furtado de Desenvolvimento Regional, concedido pelo Ministério da Integração Nacional em 2017. O Sisteminha também é objeto de estudos em escolas e universidades. Uma unidade demonstrativa foi instalada na Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ), unidade acadêmica especializada em ciências agrárias da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) localizada em Macaíba, na Região Metropolitana de Natal. Karina Ribeiro, coordenadora de extensão da EAJ/UFRN, e seus alunos também montaram uma unidade em uma escola municipal em Lagoa de Pedras, no sudeste potiguar, como trabalho de conclusão de curso de um dos alunos da instituição.

Nos últimos meses, um projeto de extensão para difundir o Sisteminha em um assentamento de reforma agrária e em uma comunidade tradicional quilombola em Macaíba precisou ser interrompido por conta da pandemia, mas Ribeiro ressalta a importância da tecnologia como ferramenta social para o desenvolvimento. “Primeiro ele estabiliza uma situação de fragilidade daquela família ou comunidade”, pondera. “O sistema permite uma produção escalonada e exige a ligação do homem com a terra. Nós apresentamos ao produtor as possibilidades, mas cabe a ele o desenvolvimento.”
Revista FAPESP

O gás do antigo mar do sertão


Metano liberado por lago de água salgada pode ter favorecido a elevação da temperatura e a diversificação de formas de vida no planeta

Geólogos da USP coletam amostras de rochas calcárias na região de Januária, em Minas Gerais

Juan Camillo Gómez-Gutierrez

Paredões de 50 metros de altura cercam uma vasta planície no interior dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás. Há cerca de 550 milhões de anos, quando a América do Sul, a África e a Antártida ainda estavam ligadas entre si, ali havia um mar interno, sem conexões com um oceano. Sua área de cerca de 350 mil quilômetros quadrados era similar à do mar Cáspio, igualmente fechado, entre a Rússia, o Azerbaijão e o Irã.

A bacia sedimentar do São Francisco, onde ficava o chamado mar de Bambuí, tinha uma peculiaridade: a água salgada liberava gás metano, um dos responsáveis pela elevação da temperatura global, de acordo com estudos de geólogos das universidades de São Paulo (USP) e Federal de Minas Gerais (UFMG). Os pesquisadores cogitam que o metano, ao chegar à atmosfera, possa ter contribuído para amenizar o clima do planeta, reduzir a intensidade das glaciações e favorecer a diversificação de formas de vida entre 540 milhões e 520 milhões de anos atrás, com o surgimento de moluscos, esponjas, equinodermas e artrópodes. Eles, no entanto, ainda não estimaram o volume de gás liberado nem o quanto teria sido necessário para modificar o clima terrestre, informações importantes para fortalecer essa hipótese.

O geólogo Sergio Caetano-Filho, do Instituto de Geociências (IGc) da USP, chegou a essa hipótese após examinar 520 amostras de rochas calcárias e 198 de material orgânico extraídas em outubro de 2017 de pedreiras de Januária, norte de Minas, e Santa Maria da Vitória, sul da Bahia, às quais se somaram informações de materiais similares extraídos de um poço de petróleo e de um furo de sondagem na região do município mineiro de Arcos. Esse trabalho é parte de seu doutorado, defendido no início de novembro deste ano. Concluídas em 2019, as análises registraram um predomínio da forma mais pesada do carbono, o isótopo 13 (13C), em comparação com o isótopo 12 (12C), em uma proporção até 15 vezes maior que a encontrada em rochas como as do grupo Corumbá, na região do Pantanal.

Segundo Caetano-Filho, o excesso de 13C pode resultar da atividade de um grupo de microrganismos primitivos, as Archaeas, que transformam matéria orgânica em gás carbônico (CO2) e metano (CH4). Em consequência, pode ter se formado um ambiente hostil para outros seres vivos, pobre em oxigênio e rico em enxofre, na forma de gás sulfídrico, muito tóxico para os seres vivos. Segundo ele, as rochas das bordas do antigo mar de Bambuí ainda exalam um odor de ovo podre, característico do gás sulfídrico. Essa composição explicaria a escassez de fósseis marinhos incrustados nas rochas do mar de Bambuí – nas rochas similares do grupo Corumbá, diferentemente, os fósseis marinhos são comuns. Ele e outros colegas da USP e de universidades de Minas Gerais e de Paris detalharam os resultados em um artigo publicado em abril na revista científica Geoscience Frontiers.

“O fato de o mar de Bambuí provavelmente ser um ambiente tóxico para os seres vivos explica a extrema escassez de fósseis na região”, diz Marly Babinski, do IGc-USP e orientadora do doutorado de Caetano-Filho. Ela identificou o predomínio das formas mais pesadas de carbono em seu próprio doutorado, há 30 anos, atribuindo-o inicialmente ao acúmulo de matéria orgânica, uma hipótese que não se sustentou.

Geólogos da USP coletam amostras de rochas calcárias em Santa Maria da Vitória, na BahiaKamilla Amorim

“O mar de Bambuí não deve ter sido um caso isolado”, sugere Caetano-Filho, “porque existem outros mares fechados com a mesma idade geológica e sinais geoquímicos muito semelhantes”. Seria o caso, segundo ele, da bacia do Irecê, na Bahia, que integra a mesma unidade geológica, o cráton São Francisco, e da formação Hüttenberg, na Namíbia, sul da África, que poderiam reforçar a liberação de metano para a atmosfera.

Se a hipótese se mostrar correta, talvez esses mares fechados tenham sido a fonte de metano que ajudou a elevar a temperatura e a reduzir o impacto das glaciações. Além da maior oferta de oxigênio e nutrientes, a temperatura mais alta que nas épocas frias dos períodos geológicos anteriores pode ter contribuído para a gradual diversificação de formas de vida.

“Não existem análogos modernos ao mar de Bambuí, o que dificulta muito as análises”, diz o geólogo Gabriel Uhlein, da UFMG. Em estudo publicado em setembro na revista Precambrian Research, Uhlein argumenta que a erosão dos terrenos elevados nas margens do mar de Bambuí pode ter contribuído para o excesso de 13C nas águas; além disso, sedimentos de rios extintos poderiam ter alimentado o mar com carbonato, que pode formar metano ao se decompor. A seu ver, a liberação de metano deve ter tido um efeito local.

“Como Bambuí é uma bacia pequena, em comparação com as dimensões da Terra, ainda é incerto se poderia ter liberado metano em volume suficiente para interferir no clima global”, diz ele. Caetano-Filho contra-argumenta: “O mar de Bambuí provavelmente foi maior, antes de ser empurrado por montanhas e se isolar. E, se outras bacias também passaram por uma fase de produção intensa de metano, o impacto sobre a atmosfera pode ter sido considerável”.

Desde 2019, Uhlein e sua equipe têm coletado rochas orgânicas, calcários formados por cianobactérias, cristais de sal e outros sinais de variação de maré nos paredões rochosos de Januária e de Ubaí, no norte de Minas Gerais. Os achados levantam outras dúvidas: “Ou havia conexões do mar de Bambuí com o oceano que ainda não descobrimos ou a relação gravitacional entre a Terra e a Lua, que causa as marés, era diferente há 550 milhões de anos, resultando em marés mais altas que as atuais dos grandes mares continentais, como o Cáspio”.

“A distância entre a Lua e a Terra varia constantemente e era diferente meio bilhão de anos atrás”, comenta o geofísico Eder Molina, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. “Atualmente”, ele acrescenta, “a Lua se afasta da Terra a 3,8 cm por ano, aproximadamente.” Há 400 milhões de anos, a Lua girava mais rápido e estaria a uma distância da Terra 40% menor que a atual. Nesse caso, a maré subiria mais do que hoje e o mês – definido como o tempo necessário para a Lua realizar uma volta completa em torno da Terra – teria apenas nove dias.

Projetos
1. O Sistema Terra e a evolução da vida durante o Neoproterozoico (nº 16/06114-6); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Ricardo Ivan Ferreira da Trindade (USP); Investimento R$ 2.106.971,07.
2. Ciclos biogeoquímicos de enxofre e carbono no Ediacarano e seu registro em sucessões sedimentares brasileiras (nº 16/11496-5); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Marly Babinski (USP); Bolsista Sergio Caetano Filho; Investimento R$ 281.739,72

Artigos Científicos
CAETANO-FILHO, S. et al. A large epeiric methanogenic Bambuí sea in the core of Gondwana supercontinent? Geoscience Frontiers (no prelo).
CUI, H. et al. Global or regional? Constraining the origins of the middle Bambuí carbon cycle anomaly in Brazil. Precambrian Research. v. 348, 105861. 15 set. 2020.
Revista FAPESP

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Geografia da Fome


Josué de Castro e a Geografia da Fome no Brasil

Josué de Castro and The Geography of Hunger in Brazil

Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos

Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil 

RESUMO

O objetivo deste artigo é realizar uma releitura do clássico Geografia da Fome, publicado pela primeira vez em 1946. Realiza-se uma síntese dos mapas das cinco áreas alimentares e das principais carências nutricionais existentes no Brasil, de acordo com o delineamento realizado por Josué de Castro. Nos dias atuais, ao perfil epidemiológico nutricional desenhado por Josué de Castro, caracterizado pelas carências nutricionais (desnutrição, hipovitaminoses, bócio endêmico, anemia ferropriva etc.), sobrepuseram-se as doenças crônicas não-transmissíveis (obesidade, diabetes, dislipidemias etc.). Entretanto, a questão da complexa e paradoxal problemática da fome permanece como uma temática recorrente no Brasil. Diante de alguns dilemas da atualidade, tais como aqueles que dizem respeito à sustentabilidade ecológica do planeta e à garantia do direito humano à alimentação, torna-se imperante reacender a luta defendida por Josué de Castro pela adoção de um modelo de desenvolvimento econômico sustentável e uma sociedade sem miséria e sem fome.

Introdução

Josué de Castro nasceu em 5 de setembro de 1908, em Recife, Pernambuco, Brasil. Filho de um agricultor do Sertão Nordestino que em 1877, em função da seca, migrou para a capital, viveu sua infância e adolescência em um bairro pobre, às margens do rio Capibaribe 1,2,3. Em 1929, após concluir o Curso de Medicina da Universidade do Brasil, retornou ao Recife para dar início a uma consagrada trajetória político-intelectual, dedicada, particularmente, à complexa e paradoxal problemática da fome e suas formas de enfrentamento 4. A sua vastíssima produção intelectual, de abrangência internacional, composta por mais de 200 títulos, tem sido objeto de estudo de distintas investigações 3,4,5,6,7,8,9.

O objetivo geral do presente artigo é realizar uma releitura do clássico Geografia da Fome, publicado pela primeira vez em 1946 10. Como objetivos específicos, em um primeiro momento, realiza-se uma síntese do mapa das cinco áreas alimentares do Brasil traçado em Geografia da Fome, procurando identificar as principais características dos seus regimes alimentares. Em um segundo momento, realiza-se uma síntese do mapa das principais carências nutricionais existentes no Brasil, de acordo com o delineamento de Josué de Castro 10.

Em Geografia da Fome, Josué de Castro introduz os conceitos de áreas alimentares, áreas de fome endêmica, áreas de fome epidêmica, áreas de subnutrição, mosaico alimentar brasileiro e, por conseqüência, traça o primeiro mapa da fome no país. Por áreas alimentares, concebe uma determinada região geográfica que dispõe de recursos típicos, dieta habitual baseada em determinados produtos regionais e com seus habitantes refletindo, em suas características biológicas e sócio-culturais, a influência marcante da dieta. Por área de fome endêmica, concebe uma determinada área geográfica em que pelo menos metade da população apresenta nítidas manifestações de carências nutricionais permanentes. Por áreas de fome epidêmica, concebe uma determinada área geográfica em que pelo menos metade da população apresenta nítidas manifestações nutricionais transitórias. Por áreas de subnutrição, concebe uma determinada área geográfica em que os desequilíbrios e as carências alimentares, sejam em suas formas discretas ou manifestas, atingem grupos reduzidos da população. E por mosaico alimentar brasileiro, concebe a diferenciação regional dos tipos de dieta existentes no país, oriundas das variadas categorias de recursos naturais (alimentos) e das distintas etnias que constituíram a nação brasileira 9.

De acordo com Castro 10, o método de investigação que norteou a elaboração da Geografia da Fome foi baseado nos princípios estabelecidos pelos geógrafos alemães Carl Ritter (1779-1859) e Alexander von Humboldt (1769-1859), pelo geógrafo francês Paul Vidal de La Blache (1845-1918), entre outros. Para seu autor, o objetivo básico da Geografia da Fome consiste em "localizar com precisão, delimitar e correlacionar os fenômenos naturais e culturais que ocorrem à superfície da terra10 (pp. 34-5). Assim sendo, afirma que o propósito do seu estudo foi realizar uma sondagem de natureza ecológica sobre o fenômeno da fome no Brasil, orientado pelos princípios geográficos da localização, extensão, causalidade, correlação e unidade terrestre 10.

Por outro lado, ao introduzir o uso dos termos fome endêmica e fome epidêmica, em nota explicativa, Castro faz alusão à adoção do conceito de epidemiologia da fome, explicitando a influência que sofreu do conceito de epidemiologia admitido por Wade Hampton Frost (1880-1938) e do conceito de epidemiologia do diabetes e do câncer defendido por Wilson George Smillie (1886-1971). Sendo assim, embora explicitando sua maior identificação com o método geográfico, os aspectos biológicos, médicos e higiênicos do fenômeno da fome também são enfocados em seu ensaio ecológico.

 

O mapa das áreas alimentares do Brasil

A partir de Geografia da Fome, o país seria dividido em cinco diferentes áreas alimentares assim distribuídas: (1) Área Amazônica - à época, abrangia os estados do Amazonas e Pará, parte dos estados do Mato Grosso, Goiás e Maranhão e os territórios do Amapá e Rio Branco; (2) Nordeste Açucareiro ou Zona da Mata Nordestina - à época, correspondia a todo o litoral nordestino, do Estado da Bahia ao Ceará, compreendendo uma faixa territorial com largura média de 80km; (3) Sertão Nordestino - correspondendo, à época, às terras centrais dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia; (4) Centro-Oeste - compreendia os estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grasso; e (5) Extremo Sul - que à época abrangia os estados da Guanabara, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O regime alimentar da Área Amazônica

De acordo com o mapa das áreas alimentares do Brasil (Figura 1), a Área Amazônica apresentava como dieta básica o consumo de farinha de mandioca, associada ao feijão, peixe e rapadura. Em relação aos fatores etno-culturais que influenciavam a constituição da dieta, Castro 10 aponta a predominância da cultura indígena sobre as culturas dos brancos portugueses e negros africanos. O alimento básico da dieta, a farinha de mandioca, era consumido em diferentes preparações sob a forma de farofas, mingaus, beijus e bebidas fermentadas, sendo misturado a outros alimentos, oriundos da flora silvestre (frutos, sementes e ervas), da fauna aquática e terrestre (peixes, crustáceos, tartarugas, tracajás, jabutis, antas, macacos e patos), além da incipiente agricultura regional. Destaca o largo consumo de pimentas e outras ervas na preparação dos pratos regionais como uma importante contribuição da cultura indígena. Em relação aos frutos regionais, é interessante notar que, já àquela época, ele apontava algumas importantes características nutricionais do buriti e açaí (ricos em betacaroteno ou vitamina A) e castanha-do-pará (proteínas completas e ácidos graxos). A conclusão do autor sobre a dieta amazônica foi que se tratava de uma alimentação pouco trabalhada e atraente e que sua análise biológica e química revelava inúmeras deficiências nutritivas 10.

O regime alimentar do Nordeste Açucareiro

No Nordeste Açucareiro a dieta básica era o consumo de farinha de mandioca, associada ao feijão, aipim e charque (Figura 1). De acordo com Castro 10, esse regime alimentar era produto da inter-relação das culturas alimentares dos indígenas da região, dos colonizadores portugueses e dos negros africanos, tendo a cultura alimentar do negro africano uma influência mais expressiva e valorizadora sobre os hábitos alimentares do que as demais.

Ele aponta a existência de distintas subáreas alimentares nessa região nordestina. Inicialmente, faz distinção entre duas subáreas alimentares: a litorânea e a da mata ou da cana-de-açúcar. Ao longo da sua abordagem aparece referência a uma subárea alimentar do sururu no Estado de Alagoas e à especificidade da cozinha baiana. Ao final, também descreve a área alimentar do cacau que, à época, se estendia do Recôncavo para o sul da Bahia até o Espírito Santo 10.

Na descrição da área litorânea destaca a riqueza de proteínas e sais minerais, oriundos dos alimentos marinhos (peixes, moluscos e crustáceos) e a participação de dois produtos vegetais de alto valor nutritivo: o coco e o caju. O coco contribuía com o aporte de gordura, proteínas e sais minerais da dieta, participando de uma infinidade de preparações típicas: feijão de coco, peixe de coco, arroz de coco, vatapá, canjica, pamonha, mungunzá, doce de coco, cocada, entre outras. O caju, por sua vez, era rico em vitaminas (em ácido ascórbico) e em proteínas de alto valor biológico contidas na castanha 10.

Vale destacar a análise apresentada sobre os tabus alimentares da região, sobretudo em relação ao consumo de frutas como manga, jaca, abacaxi, melancia, abacate, laranja, entre outras. Para Castro 10, o grande número de superstições e restrições ao consumo de certos alimentos, sem nenhum fundamento biológico, decorria da sobrevivência cultural das interdições alimentares impostas por questões econômicas pelos senhores de engenho a seus escravos e moradores. Nesse aspecto, vale lembrar que grande parte dos tabus alimentares identificados continua sua reprodução no imaginário alimentar da população brasileira 11,12,13.

O regime alimentar do Sertão Nordestino

O Sertão Nordestino tinha como dieta básica o consumo de milho, associado ao feijão, carne (gado, carneiro e cabra) e rapadura (Figura 1). De acordo com Castro 10, esse regime alimentar tinha predominância da influência cultural colonial (árabe-portuguesa), sendo o mais isento das influências das culturas dos índios e negros.

O milho foi considerado o alimento básico da dieta, sendo consumido quase que pela totalidade da população em quantidades consideradas elevadas. Constituía a base calórica da dieta, sendo usado no preparo de vários pratos típicos: cuscuz, angu, pamonha e canjica. Segundo Castro 10, seu consumo associado ao do leite resultava numa combinação nutricional muito feliz, uma vez que a proteína caseína do leite completava as deficiências em aminoácidos da proteína zeína do milho.

O leite e seus derivados como coalhada fresca ou escorrida, queijo e manteiga eram consumidos em abundância, constituindo alimentos integrantes da dieta do sertanejo nordestino. Para completar o aporte de proteínas de origem animal, observava-se o consumo habitual de carne (boi, carneiro e cabra) em distintas preparações: carne com abóbora e leite; carne-de-sol; charque; paçoca, buchada, panelada etc. 10.

Completava o regime habitual do sertanejo nordestino o consumo de feijão (principalmente do tipo macassar), farinha de mandioca, batata-doce, inhame, rapadura e café. O consumo habitual de frutas e verduras era muito limitado, constituindo falha visível da alimentação do sertanejo. Sendo assim, ele identificava a ingestão limitada de frutas regionais como umbu, piqui, quibá, cajarana e quixaba. Identificava também o consumo limitado de verduras como abóbora, maxixe, e cebolinha e coentro, usados como temperos.

Castro 10 concluiu que o regime alimentar habitual da área do Sertão Nordestino apresentava-se quantitativa e qualitativamente equilibrado, atendendo sem déficits e sem excessos às necessidades nutricionais do sertanejo: "É esta mesma parcimônia calórica, sem margens a luxo, que faz do sertanejo um tipo magro e anguloso, de carnes enxutas, sem arredondamentos de tecidos adiposos e sem nenhuma predisposição ao artritismo, à obesidade e ao diabetes, doenças essas provocadas, muitas vezes, por excesso alimentar10 (p. 207).

Entretanto, esse equilíbrio nutricional estava sujeito às rupturas cíclicas dos períodos de seca, quando se desorganizava completamente a economia regional e instalava-se a fome epidêmica. Nesse sentido, Castro 10 relata que nos períodos de seca o sertanejo passava imediatamente para um regime de subalimentação, limitando a quantidade e a variedade de alimentos, reduzindo a sua dieta ao consumo de um pouco de milho, feijão e farinha de mandioca. Quando a seca persistia e esses recursos alimentares se esgotavam, o sertanejo lançava mão de outras estratégias de sobrevivência, passando a consumir as "iguarias bárbaras" do sertão: raízes, sementes, frutos e animais resistentes à seca. Entre as "iguarias bárbaras" ele destaca: farinha de macambira, xique-xique, pereira brava, macaúba e mucunã, palmito de carnaúba, raízes de umbuzeiro, pau-pedra, serrote e maniçoba, sementes de fava-brava, manjerioba, beijus de catolé, gravatá e macambira.

Em relação ao consumo desses alimentos exóticos Castro 10 (p. 220-1) conclui: "Quando o sertanejo lança mão destes alimentos exóticos é que o martírio da seca já vai longe e que sua miséria já atingiu os limites de sua resistência orgânica. É a última etapa de sua permanência na terra desolada, antes de se fazer retirante e descer aos magotes, em busca de outras terras menos castigadas pela inclemência do clima".

O regime alimentar do Centro-Oeste

No Centro-Oeste a dieta básica era o consumo de milho, associado ao feijão, carne e toucinho (Figura 1). O prato típico foi identificado como o "tutu de feijão mineiro", preparado à base de farinha de milho, feijão, gordura, toucinho e lombo de porco. Esse foi considerado por Castro como de "alto valor calórico", mas qualitativamente de valor nutritivo inferior ao do "angu ou do cuscuz de milho com leite" da área do Sertão Nordestino, principalmente por seu teor mais baixo em cálcio e vitaminas. Entretanto, salienta que a dieta básica da região ganhava valor biológico a partir do consumo associado de vegetais verdes, principalmente couve mineira, outras hortaliças e frutas, principalmente laranja, mamão, banana e abacate. Com base na análise química do regime alimentar, afirma que não havia deficiência calórica na região, pelo contrário, deveria haver excesso calórico. Concluiu sua análise de forma um tanto preconceituosa ao afirmar que esse padrão alimentar resultava em "maior incidência da obesidade e do diabete, e na formação do tipo biológico dos mineiros lentos e pesados, conservadores e pachorrentos10 (p. 267).

O regime alimentar do Extremo Sul

O Extremo Sul consumia basicamente o arroz, pão, batata e carne (Figura 1). À época, por constituir a área mais rica e de maior desenvolvimento, tanto agrícola como industrial, também foi considerada a região de maior variedade alimentar, de mais alto consumo de verduras e frutas e, portanto, de mais elevado padrão alimentar. Além dos fatores econômicos e geográficos (clima, solo, pluviosidade etc.), Castro 10 ressalta os determinantes etno-culturais que possibilitavam diversificação e melhoria do padrão alimentar da região. Assim, as distintas etnias que migraram para a região, compostas por italianos, japoneses, alemães, poloneses, lituanos, entre outros, em muito contribuíram para a constituição do seu diversificado mosaico alimentar. Ele destaca a presença de distintas subáreas alimentares nessa região: (1) Subárea de influência italiana, caracterizada pelo largo consumo de trigo sob a forma de macarrão, ravioli e spaghetti; (2) Subárea localizada no Rio Grande do Sul, caracterizada pelo complexo alimentar do churrasco e do mate-chimarrão; (3) Subárea de influência japonesa, localizada em torno da capital de São Paulo e outros centros urbanos, caracterizada por abundante consumo de verduras; e (4) Subárea de influência germânica, caracterizada por um consumo mais freqüente de aveia, centeio, lentilhas, hortaliças, frutas, carne de porco (salsichas, bacon, presunto, defumados), pão preto, chucrute e cerveja.

 

O mapa das carências nutricionais do Brasil

As carências nutricionais da Amazônia

A Região Amazônica, considerada uma das áreas de fome endêmica, caracterizava-se pela presença de deficiências protéicas, vitamínicas e de sais minerais (Figura 2). À época, as carências nutricionais endêmicas eram: carências protéicas, de vitamina B2 (arriboflavinose); de ferro (anemias) e de cloreto de sódio. As formas frustas ou subclínicas eram: carências protéicas; de vitaminas A, B1 e niacina (pelagra) e de cálcio (sem manifestação de raquitismo). A carência de vitamina B1 (beribéri) aparecia em forma típica epidêmica. Em relação ao beribéri, vale ressaltar que ele destaca o período de 1870 a 1910, conhecido como ciclo econômico da borracha amazônica, como uma fase epidêmica desta carência nutricional na região. Ressalta-se ainda a interessante análise que ele faz sobre a associação entre a insuficiência alimentar quantitativa, caracterizada por um baixo consumo calórico, a adaptação orgânica forçada a partir desta situação permanente e a apregoada preguiça dos povos dessa região equatorial. Para Castro 10 (p. 76), "a preguiça dos povos equatoriais é um meio de defesa ou sobrevivência, funcionando como um sinal de alarme numa caldeira que diminui a intensidade de suas combustões, quando lhe falta o combustível".

As carências nutricionais do Nordeste Açucareiro

O Nordeste Açucareiro, considerado uma área de fome endêmica, apresentava como manifestações diretas da deficiência do regime alimentar: carências calóricas, protéicas, de vitaminas e minerais. As formas endêmicas das carências nutricionais identificadas foram: carências protéicas, de vitaminas A, B1 e B2 e dos minerais ferro e cloreto de sódio. As manifestações subclínicas identificadas foram: carências protéicas; de vitaminas B1, C (escorbuto) e niacina e do mineral cálcio (Figura 210.

Castro destaca que em conseqüência da deficiência calórica da dieta, decorria a reduzida capacidade de trabalho do nordestino da Zona da Mata, em relação aos trabalhadores mais bem alimentados de outras regiões do país. Chama a atenção para uma possível associação entre a deficiência permanente de proteínas da dieta e os índices de baixa estatura dos habitantes do brejo nordestino, os trabalhadores dos engenhos e usinas de açúcar. Como confronto, também chama a atenção para uma possível associação entre a dieta rica em proteínas e sais minerais e os índices de estatura elevada dos habitantes do litoral, as populações costeiras de pescadores.

Ao descrever o mapa das carências de vitaminas A, B1, B2, C e niacina, relativiza a magnitude e a gravidade do quadro, ressaltando que estas carências não eram tão abundantes como deveria se esperar. Como exceção, destaca a carência de vitamina B2 (arriboflavinose), afirmando ser esta abundante e generalizada entre crianças pobres das áreas rurais e urbanas da região. É interessante notar que ele aponta como explicação a possível influência de fatores protetores ou preventivos presentes na dieta regional, tais como condimentos e ingredientes especiais usados, sobretudo na cozinha baiana: o azeite-de-dendê (fonte de beta-caroteno ou provitamina A) e as variadas espécies de pimenta (fontes de ácido ascórbico) 10.

Em relação às carências minerais, aponta a deficiência de ferro (anemia alimentar) como a manifestação endêmica mais generalizada, a qual seria responsável pelo estereótipo de palidez, apatia e depressão física do habitante do brejo - o Jeca-Tatu Nordestino. Entretanto, apenas um estudo sobre a prevalência de anemia ferropriva é referido, segundo o qual 40% dos escolares da cidade de Salvador (Bahia) apresentavam baixas taxas de hemoglobina 10.

Ressalta-se ainda a importante análise realizada a respeito das conseqüências do consumo alimentar excessivo ou desequilibrado verificado entre os habitantes mais abastados, os senhores de engenhos e suas famílias. De acordo com Castro 10, a dieta com excesso de carboidratos, sobretudo, com excesso de açúcar e falta de frutas, apresentava como conseqüência a grande incidência de diabetes e avitaminoses B em certas famílias de senhores de engenhos. Nesse aspecto, faz uso de uma brilhante metáfora: "O açúcar em excesso de sua dieta desequilibrando as trocas metabólicas, como a cana desequilibrou de maneira tão nociva o metabolismo econômico da região. É como se a terra se vingasse do homem, fazendo-o sofrer de uma doença semelhante à sua - o organismo todo saturado de açúcar10 (pp. 155-6).

As carências nutricionais do Sertão Nordestino

De acordo com Castro 10, a área do Sertão do Nordeste caracterizava-se pela atuação de um tipo de fome diferente, aquela que se apresentava em surtos epidêmicos ou agudos nos períodos de seca ou estiagem. Eram epidemias de fome global quantitativa e qualitativa que afetavam de forma bastante violenta e sem discriminação todos os habitantes da região. Apresentava como formas endêmicas: carências protéicas, de vitaminas A, B1, B2, C e niacina e dos minerais cálcio, ferro e cloreto de sódio. A carência de iodo (bócio) apresentava-se em sua forma subclínica (Figura 2).

As carências nutricionais do Centro-Oeste

A área do Centro-Oeste foi considerada como uma "área de subnutrição, de desequilíbrio e de carências parciais, restritas a determinados grupos ou classes sociais10 (p. 265). A única forma endêmica descrita foi a carência de iodo (bócio endêmico). As carências de proteínas, de vitamina B1, de ferro e de cloreto de sódio foram identificadas como formas típicas esporádicas. As carências de vitaminas A, B1, B2, C e niacina e de cálcio foram identificadas em suas formas frustas (Figura 210.

Em relação ao bócio endêmico, relata que esta deficiência nutricional grassava no país desde os tempos coloniais, apresentando maior incidência nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Goiás e Mato Grosso. De acordo com Castro 10, à época, estudos realizados com escolares de Minas Gerais e São Paulo verificaram incidências de 44% e 60% de bócio endêmico, respectivamente.

As carências nutricionais do Extremo Sul

O Extremo Sul também foi considerado uma área de deficiências alimentares discretas e menos generalizadas, apresentando "carências parciais, restritas a determinados grupos ou classes sociais10 (p. 265) Era a região que tinha o melhor perfil epidemiológico nutricional. As carências de vitaminas A, B2, C e niacina, de cálcio e de ferro apareciam em suas formas subclínicas. A carência de vitamina D (raquitismo) aparecia sob forma típica esporádica. A carência de iodo manifestava-se de forma endêmica (Figura 2). Entretanto, ao concluir sua análise ele faz um alerta sobre o aumento da incidência da carência de proteínas, que se manifestava em quadros típicos de kwashiorkor, entre crianças das classes pobres e proletárias dos grandes centros urbanos da região, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo 10.

 

Considerações finais

A releitura de Geografia da Fome evidencia quão viva, polêmica e sedutora permanece esta obra sexagenária. Nos dias atuais, ao perfil epidemiológico nutricional traçado por Josué de Castro, caracterizado pelas carências nutricionais (desnutrição, hipovitaminoses, bócio endêmico, anemia ferropriva etc.), sobrepuseram-se as doenças crônicas não-transmissíveis (obesidade, diabetes, dislipidemias etc.). Nesse aspecto, tanto o mapa das cinco áreas alimentares como o das principais carências nutricionais existentes no Brasil traçados em Geografia da Fome precisam ser redesenhados em função deste novo perfil epidemiológico nutricional brasileiro. Tarefa imprescindível, mas que ainda está por vir. A questão da complexa e paradoxal problemática da fome, entretanto, permanece como uma temática recorrente no Brasil. Portanto, diante de alguns dilemas da atualidade, tais como aqueles que dizem respeito à sustentabilidade ecológica do planeta e à garantia do direito humano à alimentação, torna-se imperante reacender a luta defendida por Josué de Castro pela adoção de um modelo de desenvolvimento econômico sustentável e uma sociedade sem miséria e sem fome.

 

Referências

1. Linhares MYL. Biografia. In: Castro J. Geografia da fome (o dilema brasileiro: pão ou aço). 10ª Ed. Rio de Janeiro: Antares Achiamé; 1980. p. 333-7.         [ Links ]

2. L'Abbate S. As políticas de alimentação e nutrição no Brasil. I. Período de 1940 a 1964. Rev Nutr 1988; 1:87-138.         [ Links ]

3. Magalhães R. Fome: uma (re)leitura de Josué de Castro. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1997.         [ Links ]

4. Vasconcelos FAG. Fome, eugenia e constituição do campo da nutrição em saúde pública em Pernambuco: uma análise de Gilberto Freyre, Josué de Castro e Nelson Chaves. Hist Ciênc Saúde-Manguinhos 2001; 8:315-39.         [ Links ]

5. Arruda BKG. Geografia da Fome: da lógica regional à universalidade. Cad Saúde Pública 1997; 13: 545-9.         [ Links ]

6. Vasconcelos FAG. Os Arquivos Brasileiros de Nutrição: uma revisão sobre produção científica em nutrição no Brasil (1944 a 1968). Cad Saúde Pública 1999; 15:303-16.         [ Links ]

7. Lima ES. Mal de fome e não de raça: gênese, constituição e ação política da educação alimentar Brasil - 1934-1946. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2000.         [ Links ]

8. Melo Filho DA. Mangue, homens e caranguejos em Josué de Castro: significados e ressonâncias. Hist Ciênc Saúde-Manguinhos 2003; 10:505-24.         [ Links ]

9. Vasconcelos FAG. Tendências históricas dos estudos dietéticos no Brasil. Hist Ciênc Saúde-Manguinhos 2007; 14:197-219.         [ Links ]

10. Castro J. Geografia da fome (o dilema brasileiro: pão ou aço). 10ª Ed. Rio de Janeiro: Antares Achiamé; 1980.         [ Links ]

11. Trigo M, Roncada MJ, Stewien GTM, Pereira IMTB. Tabus alimentares em Região do Norte do Brasil. Rev Saúde Pública 1989; 23:455-64.         [ Links ]

12. Ramalho RA, Saunders C. O papel da educação nutricional no combate às carências nutricionais. Rev Nutr 2000; 13:11-6.         [ Links ]

13. Costa-Neto EM. Restrições e preferências alimentares em comunidades de pescadores do Município de Conde, Estado da Bahia, Brasil. Rev Nutr 2000; 13:117-26.         [ Links ]

 REVISTA CADERNOS DE SAÚDE PUBLICA

domingo, 22 de novembro de 2020

Professora propõe estudar as frutas do Brasil para trabalhar os biomas


Descubra com seus alunos as delícias nativas de nosso país com a ajuda da biogeografiaPOR:Tory Helena




Você já teve a oportunidade de experimentar um sorvete de cambuci? E de tomar um suco de cupuaçu, ou, quem sabe, comer um doce de guariroba? Se a sua resposta para essas perguntas foi “não”, saiba que você não está sozinho. Apesar de o Brasil possuir mais de 300 frutas nativas de seu vasto território, grande parte do que compramos em feiras e supermercados é de exóticas (isto é, originárias de outros países ou continentes). Até mesmo a banana, a laranja e a manga, frutas com “a cara” do Brasil, na verdade são asiáticas e só chegaram aqui por obra da colonização europeia. Nada contra, é claro – afinal, elas são deliciosas e nutritivas –, mas a verdade é que as variedades exóticas acabaram ofuscando a grande diversidade das frutas brasileiras, menos comercializadas e, por isso, desconhecidas da maioria da população. A feijoa (ou goiaba-serrana), originária da Região Sul do Brasil, ficou por muito tempo ausente do paladar nacional, mas, levada à Europa no fim do século 19, fez o maior sucesso. Já o umbu, típico da Caatinga, foi imortalizado por escritores como Graciliano Ramos e Euclides da Cunha, que descreveu o umbuzeiro como “a árvore sagrada do Sertão” no clássico livro Os Sertões. Generosa, a planta produz até 300 quilos da fruta por safra, consumidos in natura e em forma de doces, sorvetes e sucos. Nossas frutas nativas têm muita história - e tudo isso pode servir de ponto de partida para dar mais sabor às aulas de Geografia. 

Essa foi a ideia que a professora fluminense Aline Mello Campos teve quando fazia uma viagem pelo estado de Goiás. Lá, enquanto experimentava picolés de frutas do Cerrado pouco conhecidas, ela teve um estalo: por que não trabalhar o conteúdo de Geografia do 7º ano, que tradicionalmente enfoca o território brasileiro, a partir de uma viagem pelas frutas nacionais? “Com base nesse assunto, me apoiei nos conhecimentos da biogeografia para criar um projeto que ajudasse os alunos a pensar na distribuição da nossa flora pelo território. Além disso, pude discutir por que algumas frutas não são comercializadas e não chegam até o nosso sacolão”, reflete a professora, que dá aulas no Ciep 408 - Sérgio Cardoso, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. 

A biogeografia é um campo da ciência dedicado ao estudo da distribuição geográfica da biodiversidade. Embora não faça parte do currículo da Educação Básica, ela pode entrar na sala de aula não apenas para fundamentar um trabalho conjunto de Geografia e Biologia, mas também para articular essas disciplinas a temas que costumeiramente ficam de fora dos livros didáticos, como os saberes da cultura alimentar de comunidades indígenas e quilombolas. “Como a biogeografia é um campo interdisciplinar, os conceitos e abordagens podem assumir diferentes formatos. Na Geografia escolar, em particular, costuma-se mobilizar esses conhecimentos quando se ensinam os conceitos de natureza, sociedade, paisagem, lugar, território e região”, explica Ivan Matos, professor de Biogeografia da Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA).

Ivan ressalta, ainda, que dá para levar as descobertas da biogeografia juntamente com conteúdos mais tradicionais do currículo escolar, como biodiversidade, domínios morfoclimáticos, áreas endêmicas, além da questão socioambiental. No caso desta última, a biogeografia estimula o debate sobre os riscos e impactos de desmatamentos, queimadas, da pesca e caça predatórias. “Essa é uma maneira de discutir a necessidade de proteger as espécies de plantas e animais de cada região, sob pena de perdermos essa diversidade por causa de uma exploração predatória do território”, afirma Ivan.

O sabor das frutas
Depois de pesquisar sobre o tema, Aline abriu a conversa perguntando aos estudantes quais frutas eles conheciam, de quais gostavam mais e onde costumavam encontrá-las. Como a escola se localiza em uma região periférica, com muitos alunos em situação de extrema pobreza, o assunto era delicado, já que as frutas e legumes são caros e nem sempre as famílias têm condições de comprá-los. Um dos alunos, porém, se lembrou das frutas no quintal da avó e contou isso para os colegas. A partir daí, a turma se animou a conversar sobre o assunto. Um ponto alto da atividade envolveu uma visita ao sacolão do bairro, localizado na esquina da escola. Com a autorização da gestão escolar e dos pais, e tendo em mãos um questionário preparado previamente, Aline e sua turma foram a campo para perguntar ao seu João, dono do estabelecimento, quais eram as frutas disponíveis no sacolão, quais eram mais consumidas e até se elas continham agrotóxicos. Ao final, com 50 reais disponibilizados pela professora, compraram e degustaram algumas delícias em sala de aula.

Além de apresentar frutas nativas dos biomas (veja alguns exemplos no mapa), a professora propôs que os alunos refletissem sobre a experiência a partir da leitura do livro Abecedário Poético de Frutas, de Roseana Murray. Depois, os alunos produziram poesias a partir da degustação. “Queria que eles tivessem uma experiência ao mesmo tempo sensorial e poética”, lembra Aline. Quem não conseguiu articular os pensamentos em poesia pôde optar por relatar as sensações em prosa. O aluno Alanderson, porém, impressionou a professora pela sensibilidade, relacionando o assunto com um fato triste de sua vida. Para ele, o abacate teve um gosto podre igual ao que sentiu quando sua avó cometeu suicídio. Em outra poesia, ele contou sobre o dia em que seu pai quebrou a perna ao provar uma goiaba.

O projeto foi um dos 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 em 2018. Sueli Furlan, professora do departamento de Geografia da USP e uma das selecionadoras do prêmio, aponta que um dos méritos de Aline foi associar a investigação científica a um conteúdo pouco abordado nas escolas públicas. Além disso, o trabalho valorizou a flora brasileira e tornou mais significativo o estudo dos biomas. “Mapear as frutas nativas valoriza a biodiversidade, e a ida ao sacolão é algo simples, que pode ser replicado em outras escolas”, diz Sueli. O projeto também rendeu outros frutos para a professora: relatado em artigo, foi apresentado para outros educadores em um congresso na Unicamp. Além disso, ela já prepara sua próxima empreitada: um projeto sobre as árvores brasileiras. “Os alunos saem da escola sem conhecer as árvores e as frutas do nosso território”, lamenta Aline. “Mas fiz um trabalho que juntou a dimensão natural e a humana, além de questões políticas e econômicas”, conclui a professora.
FRUTAS DE CADA BIOMA

AMAZÔNIA
Fruta: Açaí
Nome científico: Euterpe oleracea
Característica: A fruta tem elevado valor energético e é bastante consumida em sucos e doces.

Fruta: Cupuaçu
Nome científico: Theobroma grandiflorum
Característica: Volumoso e muito perfumado, o fruto é bem aproveitado em sorvetes e bombons.

CAATINGA
Fruta: Juá
Nome científico: Ziziphus joazeiro
Característica: De casca amarronzada, o fruto do juazeiro é ácido e adocicado e rico em vitamina C.

Fruta: Umbu
Nome científico: Spondias tuberosa
Característica: De sabor agridoce, tem alto valor nutritivo e é bastante disseminado na Região Nordeste.

PANTANAL
Fruta: Bocaiuva
Nome científico: Acrocomia aculeata
Característica: As frutas dão em cachos e são muito conhecidas em Mato Grosso do Sul.

Fruta: Guavira
Nome científico: Campomanesia xanthocarpa
Característica: Com muita vitamina C, a fruta amadurece rápido e tem sabor adstringente.

CERRADO
Fruta: Baru
Nome científico: Dipteryx alata
Característica: Também conhecido como cumaru, tem gosto amendoado e alto valor nutritivo.

Fruta: Coco-Guariroba
Nome científico: Syagrus oleraceae
Característica: Seus frutos apresentam uma amêndoa branca e são muito utilizados em doces caseiros.

PAMPAS
Fruta: Feijoa
Nome científico: Feijoa sellowiana
Característica: Nativa do Sul do Brasil, seu sabor lembra uma mistura de goiaba, banana e abacaxi.

Fruta: Pinhão
Nome científico: Araucaria angustifolia
Característica: A árvore dá um pseudofruto, cuja semente é o pinhão, muito importante na culinária regional.

MATA ATLÂNTICA
Fruta: Cambuci
Nome científico: Campomanesia phaea
Característica: Com sabor que mistura o limão e o melão, o fruto é muito comum em São Paulo.

Fruta: Jabuticaba
Nome científico: Plinia cauliflora
Característica: Muito encontradas em Minas Gerais, as frutinhas crescem nos galhos e até no tronco da árvore.




Fontes: Frutas Brasil, de Silvestre Silva e Helena Tassara.

PALAVRA DE ESPECIALISTA
Os pontos mais interessantes do projeto da professora Aline, segundo Sueli Furlan

1) A professora trabalha, via projeto, um assunto pouco abordado na escola: a biogeografia.
2) Ao partir das frutas nativas, o projeto amplia o repertório alimentar. Também faz discussão sobre o acesso que temos a elas, em comparação com as exóticas.
3) Os alunos visitaram o sacolão do bairro para pesquisar quais eram as frutas vendidas e tiveram a oportunidade de aplicar questionários. 
4) O trabalho é simples e possível de ser replicado por outros professores, que devem adaptá-lo à realidade de sua escola


PARA SABER MAIS
Biogeografia de Mark V. Lomolino e James H. Brown
Biogeografia: dinâmicas e transformações da natureza de Adriana Figueiró, Oficina de Textos
Revista Nova Escola

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Esta nova invenção torna a água do mar segura para beber





A tecnologia que é capaz de transformar água salgada do mar ou água salobra em água potável limpa e segura tem o potencial de mudar a vida de milhões de pessoas em todo o mundo, levando muitos cientistas a se envolverem em projetos para desenvolver exatamente isso. .

Agora, uma nova invenção de pesquisadores na Austrália pode ser a mais promissora até agora, já que os especialistas usam filtros feitos de compostos de estrutura orgânica de metal (MOFs) em combinação com a luz solar para purificar a água em apenas 30 minutos, usando um processo que é mais eficaz do que as técnicas atuais.

O novo sistema é barato, estável, reutilizável e produz água dentro dos padrões de dessalinização da Organização Mundial da Saúde (OMS). Cerca de 139,5 litros (quase 37 galões) de água potável podem ser produzidos diariamente para cada quilograma de material MOF, conforme indicado por testes preliminares.

Após ser exposto ao sol por apenas 4 minutos, o filtro libera completamente os íons de sal que a água absorve e fica pronto para uso novamente. A equipe por trás da nova invenção afirma que ela oferece vários avanços em relação às técnicas de dessalinização existentes.



Os processos de dessalinização térmica evaporativa consomem muita energia, e outras tecnologias, como osmose reversa, têm várias desvantagens, incluindo alto consumo de energia e uso de produtos químicos na limpeza e descloração da membrana.

A luz solar é a fonte de energia mais abundante e renovável do planeta. Nosso desenvolvimento de um novo processo de dessalinização baseado em adsorvente usando luz solar para regeneração fornece uma solução de dessalinização ambientalmente sustentável e energética.

O novo filtro foi denominado PSP-MIL-53, composto em parte por um material denominado MIL-53, anteriormente conhecido pela forma como reage à água e ao dióxido de carbono.

O filtro libera completamente os íons de sal que a água absorve e fica pronto para uso novamente.

Embora esta não seja a primeira pesquisa a propor o uso de uma membrana MOF para purificar a água do mar , o desenvolvimento deste novo filtro PSP-MIL-53 fornecerá aos pesquisadores muito mais alternativas para explorar.

MOFs geralmente são materiais muito porosos: uma única colher de chá do material comprimido pode ser usada para cobrir uma área do tamanho de um campo de futebol, e este novo método pode ser aplicado a canos e outros sistemas de água para produzir água limpa. Conforme observado por Wang:


A dessalinização tem sido usada para lidar com a escassez de água em todo o mundo. Devido à disponibilidade de água salobra e do mar, e porque os processos de dessalinização são confiáveis, a água tratada pode ser integrada aos sistemas aquáticos existentes com riscos mínimos à saúde.

As novas soluções não esperam: de acordo com a OMS , cerca de 785 milhões de pessoas em todo o planeta não têm fonte limpa de água potável a menos de meia hora de caminhada de suas casas. Conforme a crise climática se agrava, o problema fica maior.

Como a água salgada representa 97% da água do planeta , esta se torna uma ótima solução a ser explorada para que, com soluções como o PSP-MIL-53, essa água se transforme em um líquido adequado e seguro para consumo humano.

A dessalinização da água do mar é uma opção viável para a escassez de água no mundo.

Ainda não está claro quando os cientistas colocarão o sistema em funcionamento, mas é muito encorajador ver outra abordagem sendo testada, junto com aquelas que usam luz ultravioleta, filtros de grafeno, luz solar e hidrogéis. Há até quem procure técnicas para produzir água "do zero". Sobre seu trabalho, disse Wang para encerrar sua explicação:


Nosso trabalho fornece uma nova rota interessante para projetar materiais funcionais para usar a energia solar para reduzir a demanda de energia e melhorar a sustentabilidade da dessalinização da água.

Esses MOFs sensíveis à luz solar podem ser potencialmente funcionalizados em meios de extração de minerais de baixo consumo de energia e ecologicamente corretos para mineração sustentável e outras aplicações relacionadas.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

TODO UM ECOSSISTEMA AMEAÇADO



Desde a industrialização, os corais vêm sofrendo as consequências das ações humanas em nível global e local. A resposta desses seres vivos ao estresse que lhes é imposto é seu branqueamento, o que pode causar mortalidade em massa e a sua extinção. A boa notícia é que a recuperação pode ser viável, se os impactos a que os corais são submetidos forem controlados e fortemente reduzidos. Mas, para isso, é preciso começar agora.

Simples e sofisticados

Os corais são seres vivos exclusivamente marinhos, parentes das águas-vivas e anêmonas. Vivem principalmente em regiões tropicais do mundo onde a água é quente, clara e pobre em nutrientes, permitindo uma boa penetração da luz. Ao mesmo tempo em que estão entre os animais mais simples do planeta, por apresentarem apenas uma fina camada de tecidos recobrindo um esqueleto de carbonato de cálcio, são também bastante sofisticados e, muitas vezes, sensíveis a mudanças ambientais.


Os corais são animais simples, que apresentam uma fina camada de tecidos recobrindo um esqueleto de carbonato de cálcio. Eles vivem em regiões tropicais, de água quente, clara e pobre em nutrientes, permitindo uma boa penetração da luz. A imagem mostra um coral da espécie Siderastreastellata
Créditos: Jéssica Bleuel/ #DeOlhoNosCorais



Uma das sofisticações mais interessantes dos corais é seu modo de alimentação. Alguns corais podem obter energia a partir do consumo de pequenos animais que vivem na coluna d´água, conhecidos como plâncton, mas também por meio de uma associação de benefício mútuo com microalgas que vivem em seus tecidos. Essa associação é conhecida como simbiose: enquanto a microalga ganha abrigo nos tecidos do coral e recebe as condições necessárias para fazer a fotossíntese, ela provê ao coral hospedeiro açúcares produzidos durante a fotossíntese.


Estresse e branqueamento

Mudanças ambientais podem desencadear respostas de estresse, em que os corais expulsam essas microalgas dos seus tecidos. Como a cor dos corais muitas vezes depende dos pigmentos dessas algas, ao expulsá-las, o coral perde a cor, e seu esqueleto branco abaixo do seu tecido transparente torna-se visível. Por isso, essa resposta ao estresse é conhecida como branqueamento de corais, processo que deixa os animais mais susceptíveis a doenças, podendo, inclusive, causar a sua morte


Microalgas que vivem associadas aos corais
Créditos: Paula Laurentino/ #DeOlhoNosCorais



Coral em processo de branqueamento
Créditos: Edson Vieira Filho/ #DeOlhoNosCorais


A hipótese fisiológica para explicar esse fenômeno é baseada no estresse oxidativo. O aumento de temperatura estimula a reprodução das algas, que se tornam mais numerosas nos tecidos dos corais, e a alta incidência de luz aumenta a taxa de fotossíntese. Como um dos produtos da fotossíntese é o oxigênio, ocorre uma maior liberação dessa molécula nos tecidos dos corais, o que lhes causa irritação, e o excesso de oxigênio funciona como um gatilho para a expulsão das microalgas. Além disso, a competição com outros organismos, como macroalgas, eventos de soterramento, salinidade reduzida e infecções por organismos que causam doenças (patógenos), também podem resultar em branqueamento.


Ameaças e consequências

Com mais de 7 bilhões de pessoas vivendo no planeta, a atividade humana tem causado fenômenos de branqueamento de corais com uma frequência e intensidade jamais vistas. Em 2016, por exemplo, o branqueamento chegou a atingir 80% dos corais na Austrália, trazendo consequências que vão muito além da morte desses organismos. Recifes de coral inteiros branquearam em poucos meses e morreram em menos de um ano.



Com a morte dos corais, os recifes perdem complexidade estrutural e deixam de ser abrigos importantes para peixes e outros organismos, resultando em uma enorme perda de diversidade(figura 4). Além das espécies, perdem-se também os benefícios que elas proveem à humanidade, como segurança alimentar, turismo e proteção costeira.




Peixes juvenis nadando ao redor de coral da espécie Milleporaalcicornis. Os recifes de coral são um importante abrigo para peixes e outros organismos
Créditos Jéssica Bleuel/ #DeOlhoNosCorais



Desde a industrialização, passamos a emitir enormes quantidades de gases que aumentam a intensidade do efeito estufa na atmosfera, provocando o aquecimento da terra e dos oceanos. É como se esses gases formassem um enorme cobertor sobre o planeta que retém o calor, processo popularmente conhecido como aquecimento global.

Um dos principais gases causadores desse fenômeno é o dióxido de carbono, que, além de aumentar o efeito estufa, se dissolve na água do mar, tornando-a mais ácida. Esse processo, conhecido como acidificação dos oceanos, prejudica o crescimento dos corais, devido ao seu esqueleto de carbonato de cálcio, e pode ter efeitos negativos também sobre outros animais, como os moluscos que fazem conchas.

Além de sofrerem os impactos globais derivados da emissão de gases estufa na atmosfera, os corais ainda estão sob forte pressão de atividades humanas em escala local. Entre elas, estão a coleta ilegal, o turismo desordenado e a poluição por resíduos sólidos e químicos, como no caso do simples uso de um protetor solar.

No início do século 19, era comum utilizar esqueletos de coral na construção civil, fosse para obter cal dos seus esqueletos ou para uso direto na construção de paredes e muros. Mesmo que esse costume tenha sido praticamente extinto no Brasil, a coleta ilegal de corais para aquarismo ou fins decorativos ainda é um problema. Já imaginou o que aconteceria se todo mundo resolvesse levar um coral para decorar sua casa? Além de causar a morte da colônia coletada, essa atividade resultaria na diminuição da complexidade estrutural dos recifes, prejudicando diversos organismos que dela dependem.

Embora o turismo possa ser um grande aliado da conservação marinha, quando é feito de maneira desordenada pode gerar danos severos aos corais e espécies que vivem nos recifes. Os corais têm um tecido muito fino sobre um esqueleto duro, e um turista desavisado pode facilmente confundi-lo com uma pedra. Às vezes, um simples toque já é suficiente para causar lesão no tecido do coral, deixando-o mais susceptível a doenças e à morte.


Bons e maus exemplos

Existem alguns bons exemplos de ordenamento de turismo em ambientes recifais no Brasil, onde condutores são capacitados para orientar os turistas a não tocarem ou pisarem nos corais. Há outros locais onde o turismo ocorre em áreas menos sensíveis, ou onde o uso de nadadeiras é restrito. O turismo de mergulho autônomo, quando mal ou pouco orientado, também pode causar toque e revolvimento do fundo, podendo trazer consequências negativas não apenas aos corais, mas ao recife como um todo. Portanto, a melhor saída para evitar esses impactos é a conscientização. Existem evidências científicas de que uma explicação clara antes da atividade de turismo aquático e mergulho reduz a quantidade de toques nos organismos e melhora significativamente a conduta dos mergulhadores embaixo d’água.

Outra questão relacionada com o turismo e que frequentemente vem à tona em discussões é a relacionada ao uso de protetor solar. Algumas substâncias presentes nesses produtos podem causar branqueamento, afetar a formação e o desenvolvimento das larvas dos corais, e até provocar alterações no DNA do animal, reduzindo seu tempo de vida e comprometendo seu desenvolvimento e reprodução. Os protetores que contêm oxibenzeno foram indicados como os mais nocivos aos corais. O curioso é que a maior parte das evidências para o efeito negativo do protetor solar e de seus componentes químicos sobre a saúde dos corais vem de experimentos em laboratório. A grande questão agora é determinar qual é a concentração necessária desses compostos na água para que eles tenham tantos efeitos negativos sobre os corais. Onde e como atingimos essa concentração em situação natural? Ou seja, quantos banhistas cobertos de protetor solar seriam necessários para atingir a concentração que prejudica esses animais?

Enquanto os cientistas buscam respostas para essas perguntas, o melhor a fazer é escolher as marcas menos tóxicas disponíveis no mercado e evitar usar protetor solar quando entrar em pequenas poças ou piscinas de maré, comuns em diversas praias do Nordeste, por exemplo. Se a quantidade de água for muito pequena, o efeito negativo sobre os corais pode ser mais intenso e rápido. Existem camisetas, calças e bonés com ótima proteção solar para usar nessas ocasiões, em vez de abusar desses produtos.

Os corais também podem ser afetados por resíduos sólidos, como o agora famoso microplástico. Apesar de ainda ser uma área de pesquisa em desenvolvimento, há evidências de que a maioria dos corais pode ingerir microplásticos, sendo que alguns ficam tentando digeri-los por algum tempo, enquanto outros rapidamente rejeitam essas partículas por reconhecerem sua indigestibilidade.

Outras espécies, quando entram em contato com microplástico, mas sem ingeri-lo, aumentam sua produção de muco, como forma de limpeza dos seus tecidos. O fato é que, na maior parte dos casos, os corais que tiveram contato com microplásticos exibiram branqueamento pontual ou necrose de tecido.


Ameaças de larga escala

Outras ameaças de maior escala, como a exploração de petróleo ou a construção de portos nas proximidades de bancos coralíneos, também trazem bastante preocupação. Recentemente, a liberação do leilão de áreas de exploração de petróleo no entorno do banco dos Abrolhos, arquipélago do oceano Atlântico, no sul da Bahia, causou apreensão, uma vez que potenciais acidentes de derramamento afetariam diretamente o maior banco de corais do Atlântico Sul.

De maneira similar, a construção de portos exige uma grande modificação do hábitat, podendo gerar sérios danos aos corais e ambientes recifais no entorno desses empreendimentos. A melhor solução é um bom planejamento, que leve em conta impactos e benefícios ambientais, sociais e econômicos desses empreendimentos em zonas marinhas e costeiras.


O futuro dos corais

Será que um coral consegue se recuperar depois de um evento de branqueamento? A resistência a esses eventos e a recuperação dos corais dependem muito da intensidade e da frequência dos impactos, mas também de quantos impactos simultâneos os corais estão sofrendo.

Se há, por exemplo, um aumento brusco de temperatura por um período curto em um local protegido de poluição, os corais provavelmente terão uma boa chance de resistir, ou mesmo de se recuperar após um branqueamento. Mas, se além do estresse de temperatura, os corais ainda estiverem sob influência de poluição intensa, isso pode reduzir bastante tais possibilidades. Ou seja, a recuperação após o branqueamento é ainda viável se conseguirmos controlar os demais impactos em escala local.

Trabalhos científicos apontam que, embora tenha havido um grande evento de branqueamento em Abrolhos em 2016, a mortalidade foi relativamente baixa, indicando que os corais podem se recuperar dentro de uma área protegida, como é o caso desse parque nacional. Mesmo na Austrália, diversos recifes conseguiram se recuperar após um evento de branqueamento massivo.

Apesar da boa resposta desses casos, é importante ressaltar que, se a frequência e intensidade dos impactos aumentarem, os corais podem passar a não reagir tão bem. Então, o que podemos fazer efetivamente é reduzir impactos locais, como esgoto, poluição, pisoteio, coleta, sobrepesca etc., além de diminuir nossas emissões de gases estufa. Essas ações darão pelo menos uma chance melhor aos corais.

Por outro lado, a ciência já está correndo em paralelo, criando técnicas, por exemplo, para remediar o branqueamento de corais por meio de probióticos que auxiliam na recuperação, ou por meio da reprodução de corais mais resistentes. Embora promissoras, essas ações ainda estão um pouco distantes de se concretizar. Precisamos agir agora.

Existem esforços e tratados internacionais, como o Acordo de Paris, em que diversos países se comprometeram a reduzir suas emissões de gases estufa. O Brasil, por exemplo, se comprometeu a reduzir, até 2025, as emissões a níveis 37% menores do que aqueles que tínhamos em 2005. Para isso, os países devem adotar práticas de produção mais sustentáveis, como reduzir o uso de combustível fóssil, mudando a matriz energética. É um longo caminho, mas possível e necessário.


Qualquer um pode ajudar



Todos os dias, milhares de pessoas estão em contato com o mar e observam corais ao longo de toda a costa brasileira. Já imaginou quanta informação seria gerada se essas pessoas pudessem compartilhar o que viram com cientistas? Pois hoje elas podem! Basta compartilhar as fotos ou vídeos dos corais nas redes sociais, indicando a data e localização da foto e marcando #DeOlhoNosCorais.

Essas fotos são compiladas pela nossa equipe, que faz a identificação da espécie e um diagnóstico de saúde do coral. Com a data e o local da foto, conseguimos também acessar dados oceanográficos de temperatura da água, por exemplo. Esses registros passam a fazer parte de um banco de dados que nos permite avaliar a saúde dos corais em toda a costa brasileira e, praticamente, em tempo real!

Temos recebido informações de branqueamento em diversos estados (RN, PB, PE, AL, SE, BA, RJ, SP, PR e SC). Agora, além do branqueamento, o projeto #DeOlhoNosCorais está focado também em encontrar e registrar histórias de recuperação da saúde dos corais. E você? Já compartilhou sua foto com a gente?


Qualquer pessoa pode compartilhar fotos ou vídeos dos corais com os cientistas e participar do monitoramento desses organismos na costa brasileira
Créditos: Edson Vieira Filho/ #DeOlhoNosCorais




Com a ajuda das informações enviadas pelos cidadãos, o projeto#DeOlhoNosCorais já conseguiu monitorar a saúde desses organismos em 10 estados do litoral do Brasil
Créditos: Edson Vieira Filho/ #DeOlhoNosCorais


Guilherme Ortigara Longo

Departamento de Oceanografia e Limnologia,
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Revista  Ciência Hoje

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos