quarta-feira, 27 de maio de 2026

As ameaças ambientais no plano do Chile para o lítio


John Bartlett

Governo Kast promete a investidores atalho para explorar um dos minerais mais disputados do mundo. Impactos sobre ecossistemas locais preocupam

FOTO: Víctor Burgos/Presidência da República do Chile


Em 15 de maio, o presidente chileno José Antonio Kast, junto ao ministro de Economia e Minas, Daniel Mas, assinou um projeto de lei que simplifica o sistema de concessões de mineração

Nos planaltos áridos compartilhados por Chile, Argentina e Bolívia, uma cadeia de salinas varridas pelo vento é considerada peça central para a transição energética global. Essa região forma o Triângulo do Lítio, que concentra mais da metade das reservas mundiais conhecidas do mineral crítico para baterias de veículos elétricos e outras tecnologias de energia renovável.

No caso sul-americano, o lítio geralmente é extraído de uma salmoura encontrada a cerca de dez metros abaixo da superfície de lagos salgados. O Chile detém a maior parte dessas reservas, que estão localizadas na Cordilheira dos Andes.

O ex-presidente Gabriel Boric buscou impulsionar as receitas do setor por meio de sua Estratégia Nacional de Lítio, lançada em 2023. Porém, seus planos sofreram um revés com a eleição do ultraconservador José Antonio Kast. Desde que assumiu a presidência em 11 de março, Kast está dando uma guinada radical em relação ao lítio, deixando empresas, comunidades e investidores em um cenário incerto.

Uma das primeiras medidas do governo Kast foi unir o comando das pastas de Economia e Minas na figura do “biministro” Daniel Mas — sinal de que o crescimento econômico, a flexibilização das regras de licenciamento e a política de mineração avançarão juntas. “Nosso foco será reduzir a carga regulatória e tributária, garantindo segurança para criar um mercado competitivo e atrair novos investimentos”, afirmou Kast em campanha.

Ao mesmo tempo, Kast terá a missão de manter um delicado equilíbrio entre as relações do Chile com os Estados Unidos e a China. Tudo isso enquanto o futuro de alguns dos ecossistemas andinos mais sensíveis está em jogo.

Estratégia inacabada

A estratégia de Boric buscava garantir que o Chile fosse o maior produtor mundial de lítio, ao mesmo tempo em que fortalecia o papel do Estado no setor e mantinha regras ambientais rigorosas. Ela também criou uma rede para proteger 30% das salinas até 2030 — até agora, 7,7% estão sob proteção.

Em dezembro passado, os planos de nacionalização deram origem à joint venture Novaandino Litio, formada pela estatal de cobre Codelco e a gigante química chilena SQM. A empresa tem licença para operar no Salar de Atacama até 2060.

Para Francisco Urdinez, diretor do Núcleo Milênio sobre Impactos da China na América Latina, a política de Boric deve ser abandonada pela nova gestão. “No fim das contas, ela ficou inacabada no governo anterior e a atual administração não tem interesse em levá-la adiante”, disse ao Dialogue Earth.

Em uma sinalização desses novos rumos, o Ministério de Minas disse ao Dialogue Earth que o Chile não conseguiu aproveitar ao máximo as ondas recentes do lítio no mercado internacional. Em um comunicado, a pasta afirmou que seu objetivo é “garantir que os projetos sejam efetivamente desenvolvidos, usando os instrumentos criados pelo atual marco legal e proporcionando segurança aos investidores que acreditam em nosso país”.

“Sempre que um projeto não é executado ou seu processo é desnecessariamente prolongado, a possibilidade de o Chile se desenvolver, gerar empregos e melhorar a qualidade de vida das pessoas é adiada”, acrescentou o ministério.

O Chile segue em segundo lugar, atrás da Austrália, na produção global de lítio. Os dois países respondem por 59% da produção global, mas o cenário está mudando: nos últimos anos, grandes reservas foram descobertas em outros lugares e, somado à queda no preço para um quarto de seu valor em novembro de 2022, o entusiasmo na exploração do mineral reduziu.
Ecossistemas sensíveis em risco

Até agora, Kast tem buscado enfraquecer a legislação ambiental do país. Em sua primeira semana no cargo, o presidente revogou 43 decretos ambientais da gestão Boric. Isso removeu o status de proteção atribuído a algumas espécies ameaçadas de extinção e derrubou a normativa que teria dado ao Chile a quarta maior área marinha protegida do mundo. Entre os decretos revogados, seis criavam áreas protegidas em salinas e lagos dos planaltos chilenos.


As populações que vivem perto das salinas temem que o foco pró-mercado de Kast ameace esses ecossistemas, considerando que a agilização dos processos de licenciamento também pressiona a elaboração dos estudos de impacto ambiental e as consultas às comunidades. Autoridades do governo Kast têm criticado o que eles chamam de “cultura do licenciamento” em projetos de exploração de recursos naturais.

A extração de lítio da salmoura retira água dos sistemas subterrâneos que sustentam as áreas de reprodução dos flamingos. Um estudo de 2024 constatou que o Salar de Atacama (a maior planície salina do Chile) está afundando de 1 a 2 cm por ano devido à extração de lítio.

“Como resultado do aumento da evaporação da água nas piscinas de lítio, estamos observando menos cobertura vegetal, diminuição das populações de flamingos e perda de locais de nidificação, além de danos às estruturas microbianas nas zonas úmidas”, explicou a microbiologista Cristina Dorador, professora da Universidade de Antofagasta que pesquisa os ecossistemas das salinas.

A indústria está prestes a se expandir para outras salinas além do Atacama, preocupando outras comunidades: hoje, o Salar de Maricunga abriga o segundo maior depósito de lítio do Chile. A Codelco está explorando um projeto de US$ 900 milhões com a Rio Tinto, gigante britânica da mineração, e a produção deve começar em 2030.

“O complexo do Salar de Maricunga é um lugar sagrado para o povo Colla”, contou Cindy Quevedo, presidente do Conselho Nacional do Povo Colla, ao Dialogue Earth.

FOTO: Alex Ibañez/Presidência da República do Chile



Ex-presidente chileno Gabriel Boric na cerimônia de assinatura do contrato para a extração de lítio no Salar de Maricunga, segundo maior depósito de lítio do Chile, em fevereiro

“Não é apenas uma salina: ele abriga biodiversidade em suas lagoas e é um importante corredor biológico onde há flora e fauna, mas também onde nosso principal apu [espírito sagrado da montanha] cuida de nós – o vulcão Copayapu”, acrescentou Quevedo.
Entre Washington e Beijing

A corrida para controlar as cadeias globais de baterias elétricas também é um fator importante para o futuro do lítio chileno. O país é pressionado pelos interesses dos EUA e da China. Por enquanto, Beijing mantém uma posição dominante nas cadeias de minerais, enquanto os EUA, sob o governo de Donald Trump, têm buscado mudar isso, particularmente na América Latina.

Kast parece ter escolhido um lado rapidamente: em seu primeiro dia no cargo, ele deixou às pressas a cerimônia de posse na cidade de Valparaíso para assinar um acordo sobre minerais críticos com os EUA. O presidente argentino e seu aliado de extrema direita, Javier Milei, também assinou um memorando de entendimento com os EUA. Mas a China é a maior compradora de cobre do Chile, o que ainda a mantém como um ator vital da economia chilena.

“Acho que o objetivo agora é usar o lítio e outros metais como moeda de troca por favores geopolíticos”, disse Urdinez. “Parte do objetivo desses memorandos [com os EUA] é impedir que a China tenha acesso a certos minerais e elementos críticos, como as terras raras”.

Independente da política adotada por Kast, o acesso ao lítio dependerá do marco regulatório definido pelo governo. Há atualmente dez projetos na fila para aprovação, e ele afirmou que vai dar sequência a esses pedidos.

Enquanto isso, as comunidades temem os efeitos de uma nova leva de investimentos no setor. “Eu moro aqui nas montanhas. Por que eu deveria ter que destruir minhas terras sagradas para fornecer soluções para pessoas em outro continente que não pararam suas emissões de CO₂?”, questionou Quevedo. “Estamos pagando as consequências socioambientais para criar uma solução para as mudanças climáticas – um problema que não criamos”.
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Faces da precarização do mercado de trabalho no Brasil





Cristiane Leite, Ergon Silva, Letícia Collado, Vinicius Nogueira e Yasmin Pinheiro


Os desalentados, grupo formado por pessoas que desejam trabalhar, porém deixaram de procurar trabalho, cresceu cerca de três vezes de 2014 a 2019 no Brasil

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A precarização do trabalho é um processo internacional que tem se verificado com intensidades distintas em vários países. Inúmeros indicadores sociais demonstram a centralidade da categoria “precariado” : contratos terceirizados e/ou informais, baixos salários, alta rotatividade e exposição extrema ao risco social do trabalho. Em 2020, a pandemia da covid-19 escancarou a vulnerabilidade e precariedade do mercado de trabalho, tanto pelo aumento da informalidade quanto do desemprego e desalento.

Aos que puderam se isolar, o home office se tornou realidade que, na prática, transferiu os custos do trabalho aos trabalhadores. Com o crescimento das demandas pelo trabalho uberizado e a flexibilização dos contratos em vários setores, diversas faces da precarização do trabalho se manifestam, mas é na relação entre desalento e pejotização que é possível observar uma massa de trabalhadores migrando para a vulnerabilidade.

De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2018, existem diversos motivos para que as pessoas desistam de procurar trabalho: não encontrar trabalho na localidade, não conseguir trabalho por ser considerado muito jovem ou idoso, não ter experiência profissional ou qualificação. Os desalentados, grupo formado por pessoas que desejam trabalhar, porém deixaram de procurar trabalho, cresceu cerca de três vezes de 2014 a 2019 no Brasil, partindo de 1,46 milhões e chegando a 4,98 milhões .

Como aponta o estudo de Saboia , crises econômicas historicamente acentuam a taxa de desemprego e deixam como herança aumento dos desalentados. Com a pandemia da covid-19 e suas implicações na atividade econômica, tais índices tendem a aumentar. A PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) covid-19 mostra que o contingente total de desalentados apresentou crescimento expressivo nos primeiros meses de pandemia, atingindo seu pico em julho de 2020, com 28,25 milhões de pessoas.


Dentre as faces da precarização do trabalho impulsionada pela pandemia, a relação entre a crescente herança do desalento e da pejotização tem evidenciado a fragilidade do contexto enfrentado no Brasil

Além disso, dados de 2020 do IBGE mostram que parcela considerável do total de desalentados são residentes de domicílios em que alguém recebe auxílio emergencial. Neste sentido, o auxílio reprimiu, parcialmente, a retração econômica – em geral, tais famílias em vulnerabilidade o utilizam para compra de bens imediatos que movimentam a economia local. No entanto, com a redução de seu valor e o relaxamento das políticas de isolamento social, já se observa uma massa populacional voltando a buscar emprego – mesmo com a pandemia tendo suas máximas históricas.

Neste contexto, o enxugamento do auxílio emergencial somado à descoordenada gestão do isolamento social tende a propiciar dois cenários:parte dos desalentados deve passar a procurar trabalho e migrar para o contingente de desempregados; parte deles deve permanecer em situação de desalento permanentemente, como herança deste período de crise .

De qualquer forma, o impacto expressivo da redução do valor do auxílio emergencial deverá ter efeitos no mercado de trabalho que vão além da dualidade emprego/desemprego, impactando o já significativo grupo de pessoas que se encontram em situação de desalento, além de possivelmente retrair o potencial de consumo, de arrecadação e a atividade econômica.

Em outra face da precarização, a pejotização ocorre quando a mão de obra é contratada com o empregado na posição de pessoa jurídica, ao invés de pessoa física. Tal modalidade é, certamente, do interesse do empregador, que deixa de ser onerado por custos tais como pagamento de benefício do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), FGTS (Fundo de Garantia de Tempo de Serviço) e seguro desemprego. Do lado do empregado, flexibiliza-se a jornada de trabalho e se reduz o Imposto de Renda. No entanto, internaliza-se individualmente diversos custos, como os do CNPJ, e perde-se os direitos trabalhistas clássicos . O fato de a decisão de pejotizar ser, principalmente, do empregador , entretanto, é um forte indício de que apenas esta parte do acordo é beneficiada.

Os gráficos abaixo – com dados da PNAD Contínua de 2020 – permitem visualizar a pejotização no estado de São Paulo por meio da quantidade de trabalhadores com carteira assinada e a relação com os trabalhadores com CNPJ. O primeiro mede a proporção de trabalhadores de cada modalidade; enquanto o segundo evidencia a razão entre ambos:

 

A tendência de queda da participação de empregados com carteira assinada (de 50,31% para 45,29%) é simultânea ao aumento da parcela da população que trabalha com CNPJ (de 5,88% até 7,89%), indicando que a pejotização foi um processo presente entre 2015 e 2020 no estado. O cenário de incerteza econômica levou, por hipótese, empregadores a optar por formas de contratação de menor custo de demissão como uma forma de se preparar para a possível interrupção da produção.

A análise dos setores produtivos desses CNPJs indica de forma ainda mais robusta que o aumento de fato ocorreu graças à pejotização, e não à elevação, por exemplo, do número de autônomos. Afinal, os dados da PNAD Contínua de 2020 mostram também que a variação foi mais acentuada nas áreas típicas do fenômeno : publicidade, jornalismo, arquitetura e saúde, com destaque para psicólogos e enfermeiros. No conjunto, se avolumaram tanto que aumentaram a participação no total de CNPJs do estado: de 25,75% para 30,53% entre o último trimestre de 2019 e o terceiro de 2020.

Dentre as faces de precarização do trabalho impulsionada pela pandemia, a relação entre a crescente herança do desalento e da pejotização tem evidenciado a fragilidade do contexto enfrentado no Brasil. Infelizmente, o futuro não é animador. O novo auxílio emergencial foi reduzido em valores e número de atendidos , mesmo com a continuidade da crise econômica, sanitária e social. Além disso, lidamos com o lento ritmo de vacinação e a ampliação do custo de vida, com aumentos de preços em produtos de cesta básica . Tais fatores, combinados com o aumento do desemprego e a precarização do trabalho, deixam os trabalhadores ainda mais vulneráveis à fome e ao vírus, enquanto a descoordenação federal vira tendência em múltiplas áreas.

Cristiane Kerches da Silva Leite é professora no curso de graduação em gestão de políticas públicas e no PromusPP (Programa de Pós-graduação em Mudança Social e Participação Política) da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (Universidade de São Paulo). Pesquisadora do OIPP (Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas Professor Doutor José Renato de Campos Araújo).

Ergon Cugler de Moraes Silva é pesquisador da USP, associado ao OIPP (Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas), colaborador do OxCGRT (Oxford Covid-19 Government Response Tracker) e representante da sociedade civil para São Paulo na Comissão da Agenda 2030 da ONU.

Letícia Figueiredo Collado é arquiteta e urbanista pela PUC-Campinas, pesquisadora do NEEPP (Núcleo de Estudos em Economia e Políticas Públicas) na USP e colaboradora do OxCGRT (Oxford Covid-19 Government Response Tracker).

Vinicius Nogueira é pesquisador de economia do setor público na FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo), foi membro da gestão da FEA Social (2019) e da coordenação da FEA Pública (2020).

Yasmin Pinheiro é pesquisadora júnior do CEM-USP (Centro de Estudo da Metrópole da Universidade de São Paulo), colaboradora do OxCGRT (Oxford Covid-19 Government Response Tracker) e graduanda em gestão de políticas públicas na USP.
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O oceano está cada vez mais ácido: o que isso realmente significa?


Devido às emissões de carbono, os mares estão mudando e isso está colocando em risco uma grande parcela da vida marinha.
Por Eric Niiler




Um planador autônomo flutua a duas milhas de Atlantic City, depois de ser liberado por uma equipe da Rugers University. Pesquisadores estão usando o planador para amostrar pH oceânico para ajudá-los a entender como o aumento de dióxido de carbono na atmosfera está aumentando a acidez da água.
Foto de Eric Niiler


Grace Saba se equilibra na parte de trás de um barco enquanto ela e sua equipe lançam um torpedo amarelo de 1,80 m no mar. Há uma comemoração quando o dispositivo aparece, liga seu sinal eletrônico e começa sua jornada de três semanas na costa de Nova Jersey.

“Levou sete anos para fazer isso”, diz Saba, que está trabalhando nesse experimento desde 2011. “Estou tão feliz que acho que vou chorar!”.

Saba é professora assistente de ecologia marinha na Rutgers University, onde ela estuda como os peixes, mariscos e outras criaturas estão reagindo aos níveis crescentes de acidez no oceano. A acidificação é uma consequência da mudança climática: um experimento da vida real lento, mas exorável, onde emissões industriais de dióxido de carbono na atmosfera são absorvidas e depois passam por reações químicas no mar. O aumento da acidez do oceano já branqueou os corais da Flórida e matou ostras valiosas no noroeste do Pacífico.

Agora, cientistas como Saba querem saber o que pode acontecer com animais que vivem no nordeste, uma região que tem peixes de valor comercial, mariscos quahog selvagens, vieiras e mariscos conhecidos como “surf clams”, que não podem nadar para fugir de águas ácidas.

“Eles estão presos lá”, explica Saba.

O instrumento de Saba, parecido com um torpedo, é na verdade um drone submarino, conhecido como planador Slocum, que carrega um sensor de acidez do oceano. Essa é a primeira vez que oceanógrafos uniram duas tecnologias – planadores e sensores de pH – para ter uma visão mais ampla das mudanças que estão ocorrendo na área importante para a pesca comercial no nordeste dos Estados Unidos.

O planador vai viajar 209 quilômetros de Atlantic City até a extremidade da plataforma continental, ida e volta. Ele vai realizar uma série de mergulhos ao fundo do mar, medindo a temperatura da água, salinidade e pH. O planador vai passar para Saba e seus colegas dados sobre a mudança química da água mais rápido do que os testes que são conduzidos a cada quatro horas pelas embarcações oceanográficas de alto mar.
Ácido crescente

Saba e a aluna de Rutgers Liza Wright-Fairbanks têm a esperança de comparar as medições de pH do oceano às áreas de desova dos peixes costeiros. Larvas de peixes e moluscos em desenvolvimento são mais vulneráveis ao aumento da acidez.

“Não sabemos muito sobre o pH em toda a coluna de água, especialmente aqui na Costa Leste, onde ocorre a pesca comercial”, comenta Wright-Fairbanks. “Eles trazem tanto dinheiro ao país, mas se os animais não sobreviverem, os pescadores também não sobrevivem”.





Cientistas dizem que os níveis de pH dos mares do mundo já caíram – em média de 8.2 para 8.1 na escala de pH (números mais baixos são mais ácidos). É uma queda de 26% no último século (porque a escala de pH é logarítmica). Mas, conforme o oceano absorve mais emissões industriais de dióxido de carbono, o pH deve chegar a 7.7 até o final do século, de acordo com Aleck Wang, professor de química marinha na Woods Hole Oceanographic Institution.

O resultado é que, até 2100, “vocês começarão a ver conchas de carbonato de cálcio se dissolverem”, observa Wang. “Não vai demorar tanto assim”. Matando organismos tão importantes quanto corais, ostras e muitos plânctons, águas ácidas podem desequilibrar a cadeia alimentar do oceano.

Pescadores do Golfo do Maine já estão vendo mudanças sazonais na acidez do oceano, que podem um dia ameaçar a colheita de frutos do mar que vale mais de US$600 milhões para a economia do Maine. Mais ao sul, na região do Atlântico, pescadores também se preocupam com o futuro.

“Estamos todos tentando descobrir qual será o melhor caminho daqui para frente”, conta A.J. Erskine, dono de uma incubadora comercial de ostras no Rio Potomac na Virginia. “Não sei se há uma solução, mas quanto mais dados tivermos, mais conhecimento teremos. Se não tivermos informações sobre o pH, como trataremos dele?”.

Erskine faz parte de um grupo de pescadores, cientistas e gestores estaduais de pesca chamado Mid-Atlantic Coastal Acidification Network que pede mais pesquisas e atenção ao problema. Cientistas da University of Delaware e NOAA lançaram a primeira boia permanente para medir os níveis de dióxido de carbono em Chesapeke Bay, o maior estuário do leste dos Estados Unidos. A boia ancorada vai ajudar os pesquisadores a descobrir se a baía suporta mais CO2 da atmosfera ao mesmo tempo que lida com a poluição gerada por fazendas e fábricas em seu entorno.

Em outra tentativa de estudar a acidificação, pesquisadores da National Oceanic and Atmospheric Administration lançaram drones de superfície de sete metros alimentados por velas nos oceanos Pacífico e Ártico para colher dados de vento, temperatura e acidez. Eles esperam usar os drones móveis para substituir boias de superfície que ficam ancoradas no fundo do oceano.

Enquanto alguns cientistas tentam desenvolver corais que sejam mais resistentes a águas ácidas, Eskine diz que uma solução pode ser encontrar ostras, mariscos e outros peixes que também sejam resilientes.


Grace Saba, de Rutgers, colhe amostras de água para entender melhor a mudança no oceano.
Foto de Eric Niiler


“Podemos fazer isso manipulando os tanques na incubadora”, diz Erskine. É claro que isso só funciona para fazendas ou espécies criadas em incubadoras. “É mais difícil quando falamos de Chesapeke Bay ou do Golfo do Maine.”
Apostando no futuro

De volta ao barco, Saba, Wright-Fairbanks e o professor de pesquisa de Rutgers, Travis Miles, passam a manhã no mar testando o planador Slocum. Eles querem garantir que os instrumentos estejam funcionando perfeitamente antes de colocá-lo no piloto automático e manda-lo em sua missão ambiental. A cada curva, eles lançam no mar uma pequena garrafa cinza de plástico presa por uma corda para colher amostras de água, conhecidas como CTD. Essas medições antigas de qualidade da água são comparadas às do planador.

Depois que a equipe de Rutgers solta o planador, o barco de 14 metros volta ao porto perto do Casino Golden Nugget em Atlantic City. Wright-Fairbanks está apenas começando seu PhD em Rutgers, e esse experimento de acidez do oceano vai compor os estudos para sua tese ao longo dos próximos anos.

Ela lembra de ser mordida pelo bichinho da ciência quando estava no segundo grau. Durante um acampamento de ciências nas Bahamas, Wright-Fairbanks conduziu um experimento onde os peixes podiam escolher entre nadar em um tanque com água ácida ou em um tanque adjacente com um tubarão faminto.

“A maioria escolheu o tubarão”, diz Wright-Fairbanks.

Para esses cientistas, está claro que o oceano está mudando mundialmente com aumento de temperaturas e acidez. Seu trabalho pode ajudar a responder perguntas sobre quais espécies vão sobreviver, quais vão migrar para habitats mais amenos e quais passarão a existir apenas em nossas memórias.
National Geographic Brasil

O que explica coloração alaranjada e acidez em rios do Alasca

Nos últimos anos, as águas de alguns rios no extremo norte das Américas vêm substituindo suas cores cristalinas pelo alaranjado; entenda!




Fotografia aérea do rio Kutuk, parcialmente laranja, no Alasca - Divulgação/National Park Service/Ken Hill

Nos últimos anos, as águas cristalinas dos rios do Alasca, no extremo norte do continente americano, vêm se tornando, pouco a pouco, cada vez mais alaranjadas. Segundo um alerta publicado no último dia 20 na Communications earth & environment, isso se deve ao derretimento do permafrost, impulsionado pelas mudanças climáticas, que libera minerais.


Para o estudo, especialistas do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos coletaram amostras de água de rios do norte do Alasca, e identificaram a mudança de cor em 75 locais, totalizando uma área com tamanho equivalente ao estado do Texas já afetada.


Esses riachos alaranjados podem ser problemáticos em termos de toxicidade, mas também podem impedir a migração dos peixes para as áreas de desova”, explica em comunicado o ecologista Jon O’Donnell, da Rede de Inventário e Monitoramento do Ártico do Serviço Nacional de Parques dos EUA.
Impactos


Segundo a Revista Galileu, uma hipótese levantada pelos pesquisadores para justificar a mudança nas águas é a liberação de minérios que, até então, estavam presos no permafrost, congelados; mas agora, com o derretimento dessas camadas antigas de gelo, ácido e metais são liberados nos rios.


“Os rios manchados são tão grandes que podemos vê-los do espaço”, afirma também no comunicado o professor Brett Poulin, assistente de toxicologia ambiental da Universidade da California em Davis, nos Estados Unidos. E de fato, essas águas manchadas já podiam ser vistas por satélites desde 2008, mas O’Donnell só as notou mesmo em 2018.

O problema está se propagando lentamente de pequenas nascentes
para rios maiores ao longo do tempo”, complementa
O’Donnell.



Fotografia aérea de parte do rio Kutuk, no Alasca / Crédito: Divulgação/National Park Service/Ken Hill


Nas análises, os pesquisadores notaram que um dos metais que mais encontram nas águas é o ferro, justamente o responsável pela coloração. Já o pH das amostras marcam uma média de 2,3, o que é extremamente ácido em comparação à média de 8, esperada normalmente.


Agora, se faz necessário pensar em formas de combater essa poluição dos rios naquela região, pois, além do risco para peixes e outros animais que habitam a área, também existem comunidades que dependem desses rios ao norte para conseguir água potável.
Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.
Revista Aventuras na História

sábado, 23 de maio de 2026

Imagens de satélite: selfies para preservar o meio ambiente da Terra


Autores
Jovens revisores


Resumo

Fotografias não são apenas lembranças. As imagens geradas a partir do espaço exterior ajudam-nos a acompanhar o que está acontecendo com o planeta Terra e os seus recursos. Os satélites são equipados com sensores especiais (como olhos) que podem ver “cores” de luz que os olhos humanos não conseguem ver. Esses satélites orbitam bem acima de nós e viajam em torno da Terra o tempo todo. A visão panorâmica e a observação constante permitem que eles nos ajudem a obter informações sobre desastres naturais, mudanças climáticas e o clima. Este artigo oferece uma visão geral de como os satélites observam a Terra e menciona algumas das aplicações importantes dessa técnica para a conservação dos valiosos recursos naturais do planeta.
Introdução

O número de seres humanos na Terra está constantemente aumentando. Uma população maior significa que mais pessoas necessitam de acesso aos recursos naturais, como água, terra e minerais. No entanto, esses recursos são finitos, isto é, existe somente uma certa quantidade deles [1]. Como mais pessoas precisam de acesso ao mesmo número de recursos, tornou-se cada vez mais importante mapear e monitorar esses recursos com rapidez e precisão.

Governos e comunidades monitoram recursos em âmbito local, nacional e global. Precisamos saber quais os recursos naturais que estão disponíveis, em quais quantidades e se estão em bom estado ou se mudaram recentemente. Quando os países dispõem dessas informações, podem limitar a utilização de recursos que são escassos, para que não sejam utilizados em demasia.

Pense nas florestas. Há muitos anos, os humanos derrubavam árvores para obter combustíveis, madeira para móveis ou casas e para construir ferrovias. Nos séculos 18, 19 e até boa parte dos anos 1990, as pessoas não davam muita atenção à quantidade de florestas (especialmente aquelas tropicais, que possuem árvores que levam centenas de anos para crescer) ainda existentes para proteger o solo contra a erosão ou servir de habitat para pássaros e outros animais selvagens. Nosso pensamento mudou: agora percebemos que as florestas são os pulmões da Terra, e governos e organizações trabalham para protegê-las, para limitar o desmatamento e para replantar árvores em algumas áreas.

Para fazer isso, as pessoas devem primeiro saber onde as árvores foram derrubadas ao longo dos anos, quanta derrubada ocorreu e onde ainda existem árvores valiosas que precisam de proteção. Isso é chamado de gestão de recursos naturais e as fotos tiradas de cima da Terra em vários momentos podem fornecer informações sobre onde, quando e quantas árvores foram derrubadas.

Se quisermos saber quantos recursos podemos utilizar e com que rapidez podemos desenvolver uma área, precisamos de informações frequentes, consistentes e precisas sobre grandes áreas da Terra, capturadas de cima. Uma vez de posse dessas informações, ficamos capacitados a compreender melhor como as formas de vida estão interagindo com seus ambientes, a fim de monitorar e prever com segurança quão saudáveis são o solo, as costas e os oceanos, e quais objetos ou substâncias estão presentes nessas áreas. Felizmente, a tecnologia disponível para fornecer essas informações, chamada observação da Terra, tornou-se mais sofisticada ao longo do tempo [2].
O que é a observação da Terra?

A primeira foto aérea bem-sucedida da Terra, tirada de um veículo não tripulado, foi feita com uma pipa, em 1887. Mais tarde, em 1907, um farmacêutico alemão chamado dr. Neubronner teve a ideia de montar uma câmera em uma pomba. Com o tempo, a tecnologia de observação da Terra tornou-se mais avançada. Os seres humanos aprenderam a lançar satélites equipados com câmeras, que orbitam a Terra e tiram fotos regulares do planeta.

Aproximadamente 2.200 satélites orbitam a Terra e 446 deles a observam. Seus dados ajudaram os cientistas a mapear muitos fenômenos naturais, como secas, inundações e derretimentos glaciares. Os cientistas utilizam essas informações para compreender melhor o estado dos recursos naturais da Terra. Os satélites também podem ajudá-los a detectar áreas onde as atividades humanas estão prejudicando o ambiente por meio de atividades como o desmatamento, a mineração ilegal ou o pastoreio excessivo de terras agrícolas.
Os satélites detectam cores que não podemos ver

As imagens de satélite são semelhantes a fotografias, como as tiradas com um smartphone e postadas no Instagram. Dependem tanto da luz que os olhos humanos conseguem ver quanto da que não conseguem ver. Nossos olhos só conseguem ver a luz em certos comprimentos de onda – os que correspondem às cores vermelha, verde e azul –, enquanto os satélites conseguem vê-la em muitos. Imagine que seus ouvidos só ouvissem a rádio FM, enquanto os satélites ouvissem tanto a FM quanto a AM. Os satélites têm sensores – uma espécie de olhos – que podem detectar certos comprimentos de onda de luz que não podemos ver. Os cientistas transformam a informação luminosa obtida pelos satélites em imagens que lhes fornecem dados sobre a Terra.

Algumas imagens de satélites, iguais às utilizadas como uma camada noGoogleMaps, usam as cores azul, verde e vermelha que nossos olhos podem ver. Outros satélites tiram fotos usando luz infravermelha, que é invisível ao olho humano. Mesmo não podendo vê-la, usamos luz infravermelha em nossas vidas cotidianas. Por exemplo, o pequeno olho de vidro na parte superior do controle remoto de uma TV usa luz infravermelha para se comunicar com ela.

No Instagram, quando você olha uma foto em que foi usado um filtro para iluminar ou alterar as cores, talvez pense que se trata de algo muito artístico ou achar que parece falso. Se vir uma imagem de satélite com uma floresta vermelha brilhante (Figura1), pode pensar a mesma coisa – que deve ser uma imagem falsa. Mas uma floresta vermelha é tão real quanto uma verde-escura! A diferença é que essas imagens de satélites são feitas a partir de comprimentos de onda de luz que não podemos ver, como a infravermelha, por isso elas não nos parecem reais. Chamamos a isso imagens de cor falsa e, para saber o que significam, precisamos entender o que é uma imagem de satélite.
Figura 1. Imagem de satélite tirada durante os incêndios florestais na Austrália em dezembro de 2019. (A) Essa imagem combina informações dos comprimentos de onda azul, verde e vermelho, de modo que você pode ver a paisagem em suas cores naturais (note a fumaça que vem da queimada). (B) A cicatriz da queimada aparece em preto na visão infravermelha, enquanto florestas e pastagens aparecem em cores avermelhadas.
O que um satélite mede para produzir uma imagem?

Cada sensor de um satélite é ajustado para detectar uma faixa estreita de comprimento de onda – apenas luz azul, por exemplo. Imagens feitas com apenas um comprimento de onda aparecem em tons de cinza (Figura 2). Os objetos na Terra que produzem muitos comprimentos de onda específicos de luz aparecem como pontos brilhantes, enquanto os objetos que refletem ou produzem poucos (ou nenhum) comprimentos de onda aparecem como cinza-escuros ou até pretos. As informações captadas por todos os sensores do satélite são armazenadas em imagens denominadas dados de sensoriamento remoto multiespectral (Figura 2). 
Figura 2. (A) Imagem de satélite multiespectral que combina luz vermelha, verde e azul. [(B), B1] Uma parte da paisagem que reflete uma grande quantidade de luz aparece como pontos brilhantes nessa imagem tirada pelo olho azul do satélite. [(B), B2] A água do lago não reflete praticamente nenhuma luz e aparece em preto. [(C), C1] Nessa imagem tirada do olho praticamente nenhuma luz e aparece em preto. [(C), C1] Nessa imagem tirada do olho infravermelho do satélite, toda vegetação reflete muita luz (muitos pontos brilhantes). [(C). C2] A água do lago não reflete nenhuma luz e aparece em preto. O círculo vermelho mostra os pontos brilhantes.

Por exemplo, para o olho humano, as plantas saudáveis parecem verdes porque seus pigmentos refletem mais luz verde do que outros comprimentos de onda e elas absorvem mais luz vermelha e azul [3]. Mas tipos especiais de sensores em satélites captam luz infravermelha e a vegetação saudável reflete uma grande quantidade de luz infravermelha do sol [3]. Portanto, as plantas saudáveis aparecem vermelhas devido ao sensoriamento remoto.
A distância da Terra é importante

Os satélites podem orbitar a várias distâncias da Terra – de cerca de 36.000 km até meros 800 km. Os satélites que orbitam a 36.000 km acima da Terra são chamados de geoestacionários e ajudam nas previsões meteorológicas. Os satélites geoestacionários observam apenas um dos hemisférios da Terra e tiram fotos a cada 10 minutos aproximadamente. Eles auxiliam os cientistas a mapear como as nuvens e furacões se movem, podendo até coletar informações sobre quando os vulcões entrarão em erupção! Todavia, por estarem muito no alto, eles fornecem imagens da Terra de baixa qualidade, como se fossem filmes antigos. Os menores objetos que eles conseguem ver têm o tamanho de 500 a 1000 m.

Satélites que orbitam mais perto da Terra tiram fotos usando comprimentos de luz visíveis (para os humanos) e invisíveis. Eles conseguem ver objetos de 0,5 a 30 m – isto é, do tamanho de um carro até o de um quintal comum! Como orbitam em torno da Terra, tiram fotografias do mesmo local a cada 5–16 dias ou com menos frequência se vários satélites estiverem trabalhando em conjunto (para um exemplo, consulte PlanetLabs).
Como proteger os recursos da Terra

Os satélites são como guarda-costas da Terra. Observar a Terra a partir de satélites tem muitas vantagens. Eles conseguem cobrir grandes regiões como o continente americano inteiro e até a Terra inteira. O monitoramento dos recursos da Terra pode ser sistemático e contínuo usando-se imagens de satélites. Por exemplo, a GlobalForestWatch utiliza imagens de satélites para monitorar a quantidade de desmatamento florestal em locais como a Amazônia ou o Congo.

As observações de satélite nos fornecem dados consistentes, que podem ser compartilhados por muitos usuários para diferentes propósitos. Esses dados disponibilizam as informações necessárias para identificar problemas, tomar decisões e medidas de proteção ao ambiente natural, mobilizar ajuda após catástrofes, detectar e prever mudanças para preservar os preciosos recursos do nosso planeta. Geleiras derreteram no último ano? Quanto dano os incêndios florestais causaram? Quantos hectares de floresta foram desmatados nos últimos doze meses? Graças às centenas de satélites de observação que orbitam nosso planeta, podemos responder a perguntas como essas e aprender sobre a condição do solo, da água e da atmosfera.

A observação da Terra por satélite joga um olhar atento sobre nossos recursos naturais inestimáveis e nos fornece informações para gerir melhor nosso mundo – agora e no futuro.
Glossário

Gestão de Recursos Naturais: Gestão integrada dos recursos naturais que compõem as paisagens naturais do planeta, como terra, água, plantas e animais.

Observação da Terra: Visão da Terra a partir de aeronaves ou satélites, usando-se vários sensores que criam imagens para estudar o que está acontecendo na superfície ou próximo a ela.

Seca: Um longo período de precipitação anormalmente baixa, levando à escassez de água.

Comprimento de onda: Distância entre os picos das ondas, como as luminosas. O comprimento de onda de luz determina as cores que vemos.

Infravermelho: A luz infravermelha é parte do espectro de radiação eletromagnético. As ondas infravermelhas são mais longas que as ondas de luz visíveis, mas não tão longas quanto as ondas de rádio.

Dados do sensoriamento remoto multiespectral: Aquisição de imagens visíveis, próximas da luz infravermelha, e infravermelhas de ondas curtas em diversas faixas de comprimento.

Luz infravermelha: Parte dos comprimentos de ondas invisíveis que fica próxima à extremidade vermelha da luz visível.

Sensoriamento remoto: Processo de detecção e monitoração das características físicas de uma área, medindo-se sua luz emitida e refletida a distância, geralmente de satélites ou aviões.

Geoestacionário: Satélite que, do ponto de vista de um observador na Terra, parece quase estacionário no céu.


Agradecimentos

Este projeto contou com fundos do European Union’s Horizon 2020 Research and Innovation Programme, nos termos do acordo de subvenção nº 870518.
Referências

[1] Rockström, J., Steffen, W., Noone, K., Persson, A., Chapin, F. S., Lambin, E. F. et al. 2009. “A safe operating space for humanity”. Nature 461:472–5. DOI: 10.1038/461472a.

[2] CRCSI. 2016. Earth Observation: Data, Processing and Applications. Volume 1A: Data–Basics and Acquisition. Melbourne, VIC: Australia and New Zealand CRC for Spatial Information.

[3] Huete, A. 2004. Remote Sensing for Environmental Monitoring and Characterization. Amsterdã: Elsevier, pp. 183–206.
Citação

Metternicht, G. e Teece, B. L. (2023). “Satellite images: selfies for preserving Earth’s environment.” Front Young Minds. 11:886767. DOI: 10.3389/frym.2022.886767.
Unesp para Jovens

quinta-feira, 21 de maio de 2026

As causas pouco lembradas das inundações


Assoreamento de rios, ocupação de áreas de risco e precariedade das estruturas de atendimento a emergências ampliam o impacto das chuvas de verão, cada vez mais intensas

Uma tempestade se forma sobre a cidade de Belém, no Pará, em janeiro de 2020
Léo Ramos Chaves



Opróximo 1º de fevereiro, Dia Nacional da Defesa Civil, terá algumas más notícias. A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), do Ministério do Desenvolvimento Regional, e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) devem divulgar uma pesquisa mostrando a precariedade da Defesa Civil nos municípios brasileiros. Esse órgão faz mapeamentos de áreas de risco de inundações, deslizamentos e secas, promove as medidas de prevenção e socorre as populações atingidas por desastres naturais.

De acordo com o trabalho, cujos resultados iniciais foram debatidos em um seminário em novembro de 2021, a Defesa Civil de 72% dos 1.993 municípios cujos representantes responderam a um questionário on-line não têm orçamento próprio; em 59% das localidades, apenas uma ou duas pessoas formam a equipe desse órgão. Também faltam viaturas (67% dos casos), importantes para vistoriar áreas de risco ou atender a população, e computador (30%), indispensável para processar os levantamentos de áreas de risco.




“Sem uma Defesa Civil municipal bem equipada e com orçamento próprio, é praticamente impossível implementar os planos de prevenção dos chamados desastres naturais, que prefiro chamar de desastres socioambientais, porque não dependem apenas do clima”, comenta o sociólogo Victor Marchezini, do Cemaden, um dos autores do levantamento. Desastre, ele definiu, é resultado da interação de uma ameaça natural, como chuvas intensas ou contínuas, com vulnerabilidades territoriais, como a ocupação de áreas impróprias para moradia, e falhas no planejamento urbano e nas políticas públicas de redução de riscos, que incluem medidas como a drenagem e obras de contenção de encostas.

“Culpar a chuva atípica ou as pessoas que moram em áreas suscetíveis a desastres é uma forma de as autoridades públicas se eximirem de suas responsabilidades em vez de cuidar do ordenamento territorial e planejamento urbano”, observa Marchezini. “O que mata não é exclusivamente a chuva, mas principalmente a ausência das medidas preventivas para proteger a população de extremos de chuva”, reforça o climatologista José Marengo, coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden.



Vários trabalhos realizados no Brasil e no exterior corroboram as afirmações dos pesquisadores do Cemaden, mostrando que o aquecimento global favorece a ocorrência de chuvas intensas e as medidas de adaptação de cidades brasileiras à crise climática ainda são incipientes. Em áreas expostas aos riscos de desastres decorrentes de chuvas intensas vivem 8,3 milhões de pessoas, de acordo com um trabalho de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com um levantamento de 2020 do Banco Mundial, de 1995 a 2019 os desastres naturais causaram prejuízos de R$ 336 bilhões no Brasil, principalmente nas regiões Nordeste e Sul.

O impacto das chuvas depende essencialmente de fragilidades locais prévias, argumentaram Myanna Lahsen, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e Jesse Ribot, da Universidade Americana, em Washington, nos Estados Unidos, em um artigo publicado em dezembro de 2021 na revista científica Wires Climate Change. Marengo concorda: “Não é correto atribuir apenas às mudanças climáticas os desastres naturais, que causam mortes, como no sul da Bahia no final de 2021”. Outros fatores, como a remoção da cobertura vegetal, a ocupação das margens de rios e a política de ocupação do solo, com construções em áreas de risco, contribuem para as tragédias associadas com as chuvas de verão.

Os cientistas tentam, há quase 50 anos, ampliar a visão sobre os desastres naturais. Em um artigo publicado na Nature em abril de 1976, os geógrafos Phil O’Keefe e Ken Westgate, da Universidade de Bradford, e o filósofo da ciência Ben Wisner, da Universidade de Sussex, ambas no Reino Unido, argumentaram que os desastres resultam mais de fatores socioeconômicos do que naturais, observaram que a frequência de desastres naturais é maior em países mais pobres, por causa da vulnerabilidade da população, e recomendaram: “O planejamento preventivo deve começar com a remoção de conceitos de naturalidade dos desastres naturais”.

Em 10 de janeiro deste ano, na Communications Earth & Environment, Emmanuel Raju, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, Emily Boyd, da Universidade Norte-Oeste, na África do Sul, e Friederike Otto, do Imperial College London, do Reino Unido, reiteraram: “Perigos naturais como inundações, secas e ondas de calor tornam-se desastres como resultado da vulnerabilidade social, ou seja, uma propensão das pessoas, sociedades e ecossistemas a serem prejudicados. Muitas vezes, o status social, político e econômico das pessoas determina a natureza dos impactos diferenciais e desproporcionais”. Eles argumentam que uma abordagem proativa poderia ser mais eficiente para evitar os impactos dos eventos climáticos do que chamá-los de naturais.

Rio Branco, Acre, 2015: mais de 800 famílias atingidas
Sérgio Vale/Agência de Notícias do Acre

Avanços
“Ainda precisamos reforçar a percepção de risco em prefeitos, governadores, senadores e deputados para que cuidem da prevenção dos desastres ao longo de todo o ano, não apenas nos meses de chuvas mais fortes”, alerta Marengo. Um estudo do Cemaden verificou que as águas de esgoto decorrentes da falta de saneamento que caem em encostas da cidade de São Paulo podem causar deslizamentos, tanto quanto as chuvas.

Apesar do descaso, o pesquisador observa melhorias no monitoramento de riscos climáticos e de desastres e na resposta aos desastres naturais. O Cemaden acompanha em 1.038 municípios o risco de inundações e deslizamentos e em 1.140 o de secas, principalmente na região Nordeste. Quando necessário emite alertas climáticos para a Defesa Civil federal, que aciona a estadual, que por sua vez avisa a municipal.

Desse modo, segundo Marengo, tem sido possível realocar as populações em áreas de risco e amenizar o impacto das inundações. “Em janeiro de 2020, chuvas mais intensas que as de Nova Friburgo em 2011, com quase mil mortes, causaram 67 mortes em Belo Horizonte”, diz. “Diminuiu bastante, mas ainda é muito.”

Rio assoreado transborda com as chuvas em janeiro de 2022 em Porto Seguro, Bahia
Isac Nóbrega/PR

A cidade do Recife reduziu o risco de desmoronamento de encostas em áreas de risco por meio da construção de muros, escadas, caixas-d’água e fossas, a restauração de telas de proteção contra erosão e abertura de canaletas. A prefeitura cede o material e os moradores a mão de obra. Além de 383 obras concluídas, há 252 em andamento.

“Construir um muro de contenção pode salvar muitas vidas”, reitera o oficial da Guarda Civil Joel Malta de Sá, coordenador-geral da Defesa Civil do município de São Paulo, um dos órgãos da prefeitura mobilizado pelo Plano Preventivo Chuvas de Verão (PPCV), implantado em novembro de cada ano para monitorar e combater as enchentes e alagamentos na capital.

Por causa da excessiva impermeabilização da cidade e do crescimento dos assentamentos informais, diz ele, “não temos como dizer que não haverá mais alagamentos e enxurradas na cidade de São Paulo”. “Mas podemos intervir e tornar o desastre menor”, enfatiza. Segundo ele, a Defesa Civil faz monitoramento e vistorias constantes nas 493 áreas de risco da cidade. As informações são repassadas para as subprefeituras, que cuidam das obras de reparo.

Recuperação
Marchezini, com outros pesquisadores, esteve em União dos Palmares, Alagoas, em junho de 2011, um ano depois de uma grande inundação devastar o município. “Os moradores que aguardavam a reconstrução de suas casas ainda estavam em barracas superquentes, com esgoto a céu aberto, na beira da rodovia que chega ao município”, ele observou. Em Teresópolis, na serra do Rio de Janeiro, havia moradores em abrigos seis meses depois do deslizamento que soterrou bairros inteiros em janeiro de 2011.

Como em outras cidades, a impermeabilização do solo em São Luiz do Paraitinga ampliou o impacto do transbordamento do rio Paraitinga em 2010
Jfaria/Wikimedia

“Em geral as políticas de proteção social são bastante falhas”, comenta o pesquisador. “Raramente se pensa em reconstruir a economia, criando oportunidades de emprego para as pessoas que perderam suas casas ou seus negócios. Em Ilhota, em Santa Catarina, que visitei em 2008 após uma grande inundação, os desabrigados haviam perdido suas plantações e não tinham onde trabalhar, enquanto os empresários, também desabrigados, tinham de pagar os funcionários e fornecedores mesmo após perderem suas casas e fontes de renda.” O livro Abandonados no desastre, publicado em 2011 com apoio do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sintetiza suas observações e conclusões.

Há casos em que a população demonstra ter boa capacidade de reação. Com apoio da FAPESP, Marchezini acompanhou a reconstrução de São Luiz do Paraitinga (SP), destruída em janeiro de 2010 por causa de um transbordamento colossal do rio Paraitinga. De imediato, observou, os próprios moradores agiram com rapidez para responder à enchente e, depois, intervieram em audiências públicas, criaram o Centro de Reconstrução Sustentável de São Luiz do Paraitinga (Ceresta) e publicaram o jornal quinzenal A Reconstrução, que relatava a restauração da cidade. Treze anos depois, uma reportagem do programa Globo rural de janeiro de 2022 mostrou como a reposição de árvores em morros devastados pela pecuária reduziu o assoreamento do rio e ajudou a evitar novas enchentes.

Em 2019, com colegas do Inpe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), Marchezini expôs uma maquete interativa do centro histórico de São Luiz do Paraitinga na praça principal da cidade e em uma escola do ensino médio. O propósito, como detalhado em um artigo publicado em julho de 2021 na Disaster Prevention and Management, além do sentido educativo, era acentuar a preocupação com a redução de riscos de desastres similares. “Os moradores mais antigos reconheceram a cidade e o que fizeram durante a enchente. Os mais jovens, que não se lembram direito porque eram crianças na época, conheceram o que os moradores fizeram para se proteger e para recuperar a cidade”, ele relatou.

Projetos
Métodos de pesquisa multidisciplinar em cenários de riscos e desastres: Subsídios à formulação de sistemas de alerta centrados nas pessoas e nas multiameaças (no 18/06093-4); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Victor Marchezini (Cemaden); Investimento R$ 247.301,50.
INCT para Mudanças Climáticas (no 14/50848-9); Modalidade Projeto Temático ‒ Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais; Pesquisador responsável José Antônio Marengo Orsini; Investimento R$ 4.389.577,78.

Artigos científicos
LAHSEN, M. e RIBOT, J. Politics of attributing extreme events and disasters to climate change. Wires Climate Change. v. 13, e750. 11 dez. 2021.
O’KEEFE, P. et al. Taking the naturalness out of natural disasters. Nature. v. 260, p. 565-6. 15 abr. 1976.
RAJU, E. et al. Stop blaming the climate for disasters. Communications Earth & Environment. v. 3, 1. 10 jan. 2022.
TREJO-RANGEL, M. A. et al. Participatory 3D model to promote intergenerational engagement for disaster risk reduction in São Luiz do Paraitinga, Brazil. Disaster Prevention and Management. v. 30, n. 3, p. 308-26. 8 jul. 2021.

Livros
MARCHEZINI, V. (org.). Diagnóstico de Capacidades e Necessidade Municipais em Proteção e Defesa Civil. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Regional, 2021.
Revista Fapesp

Áreas verdes nas bordas das cidades encolhem



Em consequência, aumenta o risco de escassez de água e as enchentes se tornam mais fortes e frequentes

Vista aérea de Ribeirão Preto, que lidera as perdas de vegetação nativa no centro-leste paulista
Delfim Martins / Pulsar Imagens


Por causa da expansão de bairros, condomínios e de áreas agrícolas, os campos alagados e as matas ao longo dos vales de rios nas margens das cidades encolheram nas últimas décadas em várias regiões do estado de São Paulo – e tendem a continuar se retraindo. Em consequência da pavimentação ou da compactação de solos, a recarga dos aquíferos diminuirá, a água da chuva terá uma menor retenção superficial e as enchentes se tornarão mais intensas e frequentes.

“Ocupar as bordas das cidades prejudica o funcionamento das áreas úmidas, que ajudam a reduzir o impacto da água das chuvas”, comenta o engenheiro ambiental Edimilson Rodrigues dos Santos Júnior, da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP), principal autor desse trabalho, publicado em janeiro na iScience.

Atualmente bolsista da Fundação Fulbright na Universidade de Massachusetts (UMass), em Amherst, Estados Unidos, ele mapeou 261 mil hectares (ha), o equivalente a 2,6 mil quilômetros quadrados (km²) de áreas periurbanas – nas bordas das cidades – situadas em 39 cidades do centro-leste paulista, identificou 47 mil ha de áreas úmidas e examinou as transformações que sofreram entre 1985 e 2020.

Santos Júnior verificou que quase metade (45%) do solo e da vegetação das áreas úmidas periurbanas, incluindo as matas e campos que originalmente as ocupavam, encontra-se degradada. Outra constatação é que os corpos d’água e as zonas úmidas sofreram declínios constantes nas últimas décadas, enquanto as áreas urbanas e agrícolas avançaram, ocupando 83% das áreas antes cobertas por vegetação nativa e cursos d’água.

Não se trata de um fenômeno exclusivo do Brasil. Com base em registros de drenagem de áreas alagadas e ocupação da terra, estima-se que 3,4 milhões de km², de um total de 15,8 milhões de km², de zonas úmidas continentais em todo o mundo já tenham sido perdidos desde 1700. A redução das áreas ocorreu principalmente no século XX e em países e regiões como os Estados Unidos, a China, a Europa e a Ásia Central. Entre 1999 e 2019, as áreas úmidas costeiras, formadas por planícies de maré e manguezais, sofreram uma redução global de 4 mil km².

Ribeirão Preto lidera as perdas
De acordo com o estudo do grupo da USP, uma das oito sub-regiões analisadas, que inclui parte dos municípios de Ribeirão Preto e nove próximos, foi a que mais perdeu áreas verdes periurbanas: 860 ha de 1985 a 2020. A redução poderá alcançar 960 ha até 2035 se a tendência de ocupação continuar.

Em outra pesquisa, apresentada em setembro de 2025 na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como defesa de doutorado, o engenheiro civil Breno Malheiros de Melo detectou um avanço das áreas impermeáveis de 0,5% em 1985 para 1,3% em 2024, o equivalente a cerca de 3 mil km², incluindo todos os espaços urbanos, não apenas os periféricos, na Região Metropolitana de Ribeirão Preto (RMRP). “Embora esse valor seja relativamente pequeno em termos percentuais, sua significância hidrológica é elevada, já que áreas impermeáveis comprometem diretamente a capacidade de recarga do aquífero e ampliam os riscos de poluição difusa”, alerta.

Nos anos 1940, no interior paulista, as fazendas de café ocuparam as áreas de florestas que controlavam a vazão dos rios 
Instituto de Expansão Comercial / Fundação Biblioteca Nacional

“A maior parte desse crescimento urbano está concentrada em zonas periurbanas e de expansão urbana desordenada, particularmente nos municípios mais populosos da RMRP”, acrescenta. De acordo com sua análise, no entanto, a legislação de proteção das áreas verdes – como o Código Florestal de 1965 e 2012, a Lei da Mata Atlântica, de 2006, e a Lei de Crimes Ambientais, de 1998 – impediu, ao menos em parte, o avanço do desmatamento urbano e promoveu a restauração de áreas verdes, por vezes exigindo o plantio de 25 mudas para cada árvore cortada.

A perda de vegetação nativa em áreas próximas às cidades reflete um processo histórico bastante antigo. “Em 1917, 40 anos depois da chegada da família Prado a Ribeirão Preto, no lugar das antigas florestas frescas e biodiversas, havia 37 milhões de pés de café nas escarpas pouco íngremes que caracterizam o relevo da região”, comentou o historiador Daniel Deminice, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em um artigo publicado em agosto de 2025 na Oculum Ensaios – Revista de Arquitetura e Urbanismo. Sem cobertura vegetal, a fertilidade do solo caiu, exigindo a ocupação de novas terras.

Ele constatou que uma das consequências da eliminação das florestas é que os rios passam a correr mais rápido, uma vez que as matas deixam de conter e absorver a água. “Com o desflorestamento”, observou, “as chuvas também passaram a transportar os elementos férteis do solo, que eram renovados pelas florestas e redistribuídos pelas águas na forma de matéria orgânica”. Sintomaticamente, em janeiro, uma das avenidas centrais de Ribeirão Preto alagou após chuvas intensas, que não tinham mais áreas descobertas por onde escoar.

Nem sempre, porém, as perdas são evidentes. De 1985 a 2020 a área ocupada por vegetação nativa nas áreas periurbanas de outra sub-região, que integra parte dos municípios de Casa Branca, Itobi e Vargem Grande do Sul, avançou 0,1 ha (100 km²) e a área agrícola recuou na mesma proporção. Esse cenário deve se inverter e até 2035 a agricultura é que deve avançar 0,1 ha sobre os espaços verdes, “por causa da dinâmica regional, que favorece a ocupação por atividades econômicas”, segundo Santos Júnior, da EESC.

São Carlos e Ibaté registraram variação nula para o período examinado, o que não significa um resultado necessariamente positivo. “Mesmo antes de 1985, quando começamos a usar imagens de satélite com boa resolução, as técnicas de mapeamento indicaram que 60% das áreas úmidas já haviam sido degradadas nessa região, ocupadas por bairros residenciais, empresas ou cultivos agrícolas”, relata o engenheiro mecânico Marcelo Montaño, da EESC-USP, orientador do trabalho, resultante do mestrado de Santos Júnior.

Diversas regiões de SP e de outros estados vivem a mesma situação, de acordo com um levantamento publicado em 2023 pelo projeto MapBiomas da rede de organizações não governamentais Observatório do Clima. Em Campinas, no interior paulista, 69% das Áreas de Preservação Permanente (APP) próximas a cursos d’água, formadas por vegetação nativa, que deveriam ser preservadas, foram ocupadas por construções, residências ou infraestrutura urbana. Em Cuiabá, capital de Mato Grosso, 92,51% das APP próximas a rios estão sob ocupação urbana.

De acordo com esse estudo, coordenado por Santos Júnior e Montaño, em todo o país as áreas urbanizadas próximas de rios e córregos aumentaram 61 mil ha nas últimas três décadas. Por outro lado, ainda existem cerca de 300 mil ha, o equivalente a 71% do total nacional, de áreas não urbanizadas no entorno de corpos hídricos urbanos, que deveriam ser restauradas e preservadas.

A Área de Proteção Ambiental Bororé-Colônia, na capital paulista, impede o avanço da ocupação urbana
Junior Castro / Pulsar Imagens

“Não deveríamos ocupar as várzeas de vales e rios”, enfatiza Santos Júnior. “Os espaços não construídos podem ser utilizados para reter água, em vez de construir infraestrutura.” Também em 2023, ele foi um dos autores da Cartilha da cidade, elaborada em conjunto com arquitetos da USP de São Carlos e distribuída pelos próprios pesquisados nas escolas da região.

“Precisamos mudar a forma de pensar a ocupação urbana e implementar um planejamento que reconheça a importância do meio ambiente, de longo prazo”, sugere Montaño. Ele conta da dificuldade em promover debates mais abrangentes e rever conceitos que lhe pareciam defasados durante reuniões de conselhos municipais e federais de meio ambiente dos quais participou. “Continuamos trabalhando para reparar os prejuízos, como a destruição após as enchentes, mas não paramos de produzir novos prejuízos.” As secretarias de Meio Ambiente de São Carlos e do estado de São Paulo não atenderam aos pedidos de entrevista feitos pela reportagem de Pesquisa FAPESP.

Ao analisar a governança da drenagem hídrica no país, a economista Mônica Kuwahara e outros pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC) reconheceram as “dificuldades em implementar medidas estruturantes, como a coordenação entre normas de planejamento, gestão e regulação dos serviços”, e propuseram um planejamento integrado. O estudo foi publicado em novembro de 2025 no Boletim regional, urbano e ambiental, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“Tenho visto o espraiamento desordenado das cidades sobre áreas com outros usos por todo o estado de São Paulo, com prejuízos para a qualidade ambiental”, comenta a geóloga Amarilis Gallardo, da Escola Politécnica (Poli) da USP e da Universidade Nove de Julho (Uninove). Ela é uma das pesquisadoras principais de um projeto sobre cidades sustentáveis do programa Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD-SP), financiado pela FAPESP.

Gallardo tem visto também bons exemplos. É o caso da Área de Proteção Ambiental (APA) Bororé-Colônia, criada na zona sul da cidade de São Paulo como compensação ao licenciamento ambiental do trecho sul do Rodoanel. Englobando três parques naturais, essa área verde tem protegido nascentes e impedido o avanço das pastagens e da ocupação urbana sobre os remanescentes da Mata Atlântica, de acordo com um estudo de seu grupo, publicado em julho de 2022 no periódico Landscape and Urban Planning. Apoiada pelo programa Biota-FAPESP, a análise compreendeu as mudanças do uso do solo e seus efeitos na região entre 1990 e 2018.

“Financiamento para recuperação de áreas degradadas existe, o que falta são bons projetos”, assegura o engenheiro civil e consultor Evandro Kaam. De 2021 a 2025, enquanto fazia o mestrado na Uninove, ele foi gerente de divisões da prefeitura de São Roque, a 62 km da capital, e coordenou a restauração de uma área subutilizada, com amplos espaços verdes, que havia sido ocupada por uma fábrica de tecidos e depois comprada pela prefeitura. “Há 10 anos”, ele conta, “um prefeito queria desmatar para construir prédios”.

Kaam fez um projeto para completar a restauração do espaço, conseguiu o apoio das autoridades do município e depois um financiamento não reembolsável de cerca de R$ 8 milhões de órgãos estaduais. Transformado em centro cultural e turístico, o espaço ajuda a deter as enchentes e funciona como um corredor verde integrado a um parque municipal, como detalhado em artigo publicado em setembro de 2023 na revista Estudos Avançados. Agora à frente da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano de Mogi Mirim, a 155 km a leste da capital, Kaam se empenha na recuperação do espaço que abrigava o zoológico do município, fechado desde 2014.

Em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, um grupo de 130 moradores se organizou, planejou e, de 2019 a 2025, restaurou as margens do córrego Tiririca. Como detalhado em um artigo de fevereiro na Sustainability, a área, antes sujeita à erosão e degradação, agora abriga um bosque de 900 m de extensão com árvores e quase 200 espécies de animais da região, aves, insetos e anfíbios.

A reportagem acima foi publicada com o título “Menos verde nas bordas das cidades” na edição impressa nº 363 de maio de 2026.

Projetos
1. Desenvolvimento de método para avaliação da significância de impactos ambientais no contexto brasileiro (n° 21/14412-5); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Marcelo Montaño (USP); Investimento R$ 116.668,67.
2. Avaliação das diretrizes de regulação de serviços de drenagem e resíduos sólidos em São Paulo (n° 23/10215-6); Modalidade Programa de Pesquisa em Políticas Públicas; Pesquisadora responsável Mônica Yukie Kuwahara (UFABC); Investimento R$ 692.072,18.
3. Acomodação sustentável do crescimento urbano das cidades paulistas (n° 24/01097-2); Modalidade Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCD-SP); Pesquisador responsável Miguel Luiz Bucalem (USP); Investimento R$ 4.291.050,67.
4. Serviços Ecossistêmicos na Gestão de Unidades de Conservação Urbanas: Diretrizes técnicas para integração de políticas públicas e instrumentos de planejamento ambiental (n° 19/18988-9); Modalidade Programa Biota-FAPESP; Pesquisadora responsável Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo (USP); Investimento R$ 51.201,50.

Artigos científicos
BUZZAR, M. A. et al. Cartilha da cidade: v.1. São Carlos: IAU/USP, 2023.
KUWAHARA, M. Y. et al. Governança da drenagem urbana e resiliência climática: Desafios institucionais e experiências subnacionais no Brasil. Boletim Regional, Urbano e Ambiental. n. 35, p. 115-24. nov. 2025.
PETRONI, M. L. et al. Understanding land use change impacts on ecosystem services within urban protected areas. Landscape and Urban Planning. v. 223, 104404. jul. 2022
SANTOS JUNIOR, E. R. dos e MONTAÑO, M. Assessment of anthropogenic pressure around peri-urban wetlands in the state of São Paulo, Brazil. iScience. v. 29, n. 1, 114346. 16 jan. 2026.
Revista Fapesp

Geografia e a Arte

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