quarta-feira, 15 de abril de 2026

Extração de petróleo na Margem Equatorial, afinal, por que não?




Extração de petróleo na Margem Equatorial, afinal, por que não?

Faz mais de uma década que discute-se a extração de petróleo na Margem Equatorial, a questão não avança. Antes, saiba que Margem Equatorial significa cerca de 2,2 mil quilômetros, desde o Estado do Amapá, na Região Norte, até o Rio Grande do Norte, no Nordeste Em 2023, o governo estimou que seria possível extrair 10 bilhões de barris de petróleo só do bloco 59 na Foz do Amazonas, que fica a 160 km da costa, e a mais de 500 km da foz do rio. No entanto, mesmo pedindo apenas para ‘pesquisar’, sondar a área, e confirmar ou não o potencial de barris, o Ibama negou a licença.

Ilustração, Sumaúma.

Técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) recomendaram que a chefia do órgão negue a licença à Petrobras para explorar a Margem Equatorial na região do Amapá. O Globo revelou a informação, posteriormente confirmada pela CNN.


De todo modo, a capacidade da Margem Equatorial se aproxima da do pré-sal. Este post certamente renderá discussões, mas era uma obrigação com nossos leitores. Também será mais uma oportunidade para o Mar Sem Fim expor seu pensamento e se distanciar ainda mais dos… “ambientalistas”.
23 plataformas na região do pré-sal e 126 bilhões para a sociedade

A propósito, hoje a Petrobras tem 23 plataformas nesta região. Segundo a empresa, ‘o pré-sal é um sucesso que gera resultados para a Petrobras e também para o país. Entre 2008 e 2023, a Petrobras pagou cerca de U$ 63 bilhões em participações governamentais, entre royalties e participações especiais, associados diretamente à produção do pré-sal. Além disso, outros U$ 63 bi foram pagos ao estado, para aquisição de blocos e direitos em ativos da atividade, em um total de 126 bilhões de dólares em retorno do pré-sal para a sociedade civil’. Em outras palavras, foi a sociedade que ganhou estes 126 bilhões de dólares. Será que somos tão ricos assim que não precisamos do dinheiro, possivelmente, ainda mais que nos rendeu o pré-sal?


E, neste link, você pode conhecer o estudo ambiental da Petrobras sobre o bloco FZA-M-59.
“Inconsistências preocupantes para a operação segura”

Para o Ibama, há “inconsistências preocupantes para a operação segura” em uma área de “alta vulnerabilidade socioambiental”. Daí vem a negativa, apoiada pela grande maioria dos ‘ambientalistas’, entre outros. Contudo, para nós, esta é uma decisão ideológica, e não uma análise puramente técnica como deveria.




Veja o caso da Guiana, já abordado nestas páginas. Até então, o país figurava entre os mais pobres da América Latina. Em 2015, um consórcio liderado pela Exxon, que incluía a Hess e a chinesa Cnooc, fez uma grande descoberta no Campo Liza. Segundo o Financial Times, a produção deve garantir à Exxon um fluxo contínuo de petróleo bruto por décadas. Como resultado, a economia guianense cresceu a impressionantes 62,3% em 2022, a maior taxa do mundo. Na época, analistas de Wall Street classificaram o investimento como “o melhor negócio petrolífero da história moderna”.



Em 2023, a Guiana registrou o sexto maior PIB per capita das Américas, segundo o site especializado Trading Economics. Com um valor de 23.103 dólares, o país ficou atrás, nessa ordem, das Ilhas Caimã, Estados Unidos, Canadá, Bahamas e Porto Rico. No mesmo ano, o Brasil ocupou a 20ª posição, com 9.728 dólares.

Para nós, o maior problema segue sendo a polarização. Essa divisão extrema entre brasileiros apenas atrapalha, prejudica e paralisa o país. Enquanto isso, poucos veículos da imprensa ou perfis nas redes sociais mencionam a importância da Corrente Norte do Brasil.
A Corrente Norte do Brasil

A Corrente Norte do Brasil atravessa o Equador, transportando águas tropicais do hemisfério sul para o hemisfério norte. No entanto, essa dinâmica raramente aparece nas discussões sobre a possível exploração na Margem Equatorial. Em outras palavras, em caso de vazamento, há grande chance de o óleo nem sequer alcançar o litoral do país.

Mapa da Corrente Norte do Brasil. Repare bem para onde vão as águas no extremo Norte do Brasil. Elas atravessam o Equador e seguem para o Caribe. Vamos lembrar que o bloco hoje discutido fica a 160 km da costa, e a mais de 500 km da foz do Amazonas.
Especialistas falam com o Mar Sem Fim: Ilson da Silveira

O Mar Sem Fim conversou com o especialista Ilson da Silveira, Bacharel em Oceanografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1984), Mestre em Oceanografia (Oceanografia Física) pela Universidade de São Paulo (1990) e Ph. D. em Ciências da Terra – Oceanografia Física pela University of New Hampshire (1996).

A única pergunta foi: Se houver vazamento, para onde iria o óleo? ‘Alguns estudos simples de dispersão precisariam ser conduzidos (ou foram e eu não sei dos resultados) para afirmar com mais propriedade. Mas, em função da distância da costa dos blocos de exploração ao largo do Amapá e a presença da muito intensa Corrente Norte do Brasil, acredito que a grande chance é que o derramamento seja transportado para o hemisfério norte junto à corrente. Talvez este até possa alcançar a costa mais à frente, mas fora de águas territoriais brasileiras (mas mesmo assim me parece improvável). Para responder além dos “achismos” e de forma quantitativa, só com estudos de modelagem numérica’.

O mapa da Petrobras mostra onde se localiza o bloco 59, quase na fronteira com a Guiana, acima de Macapá que é atravessada pela linha do Equador, por isso parte da capital fica no hemisfério norte.

Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo

Também conversamos com Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, e Chefe da Cátedra UNESCO de Sustentabilidade Oceânica.


Eis o que ele nos disse: ‘Participo de um grupo que vem buscando identificar contrapartidas que precisarão ser implementadas para que a eventual riqueza trazida pelo óleo trabalhe efetivamente na transformação da região para um futuro cada vez mais sustentável’.
Isso passa por, por exemplo pelo fortalecimento das Unidades de Conservação existentes (elaboração e implementação de planos de manejo, fundo de compensação ambiental…); ampliação das Unidades de Conservação para aumentar a proteção de ambientes pouco representados, fomentar à ciência (ex. aumentar a massa crítica nas universidades e institutos de pesquisa da região (previsão orçamentária), dar mais suporte aos cursos de graduação e pós-graduação sobre a temática na área; aumentar os recursos destinados à ciência; instalação e manutenção do Sistema de Vigilância da Amazônia Azul (SisGAAz/Marinha); fortalecimento do tecido social e dos processos participativos como uma estratégia de controle social para aplicação dos royalties; promoção da economia sustentável do oceano e zona costeira por meio da criação de uma agência de desenvolvimento da economia azul na região; e, finalmente, a aprovação da Lei do Mar (PL 6.969/2013)’.

Agora é conosco


Diante dessa realidade, da desigualdade e pobreza do Brasil e da vastidão da região Norte, não tenho dúvidas de que devemos seguir em frente.

Macapá enfrenta a pior infraestrutura de esgoto do país. Segundo o IBGE, apenas 15,5% da população tem acesso a saneamento por meio de rede geral, pluvial ou fossa ligada à rede. Os números são alarmantes: 174.996 pessoas dependem de fossas sépticas ou filtros sem conexão com a rede, 2.813 recorrem a outras soluções improvisadas e 389 sequer têm banheiro ou sanitário. A capital do Amapá ocupa a última posição no ranking de saneamento básico no Brasil. E, de acordo com o Instituto Trata Brasil, a cidade despeja diariamente no rio Amazonas o equivalente a 15 piscinas de esgoto in natura. Em toda a Amazônia, esse número salta para 831 piscinas por dia.

Agora imagine o impacto dos royalties da Petrobras caso as suspeitas se confirmem. Bilhões de reais poderiam transformar Macapá em um exemplo de saneamento universal no Brasil, além de viabilizar outras melhorias essenciais.
Marina Silva

Marina Silva, com seu messianismo e clara posição política, pode protestar, e daí? Sim, Marina é um ícone do ambientalismo nacional e internacional, tem uma trajetória de superação admirável, mas, como ministra do Meio Ambiente, é fraca. Seu foco se limita à Amazônia, ao Pantanal e à criação das famigeradas Reservas Extrativistas. Mesmo após mais de dois anos no cargo, nunca se pronunciou sobre o litoral e o mar territorial brasileiros, que seguem abandonados.

Investimentos na Margem Equatorial segundo a Petrobras.

Em seu primeiro mandato, mais uma vez concentrou esforços na Amazônia e obteve sucesso. Foi nessa gestão que o desmatamento atingiu a maior queda já registrada. Em 2012, o governo anunciou uma redução de 83%, enquanto o INPE indicava 72%. Seja qual for o número exato, a queda foi impressionante.

Imagem, Petrobras.

No governo Lula 2, com o apoio decisivo do Itamaraty, Marina Silva consolidou o Brasil como um dos líderes nas discussões ambientais globais. Apesar das críticas à sua atuação interna, é preciso reconhecer esse e outros méritos.


Por outro lado, cometeu um grande erro ao desmembrar o Ibama para criar o ICMBio, numa homenagem a Chico Mendes. No entanto, deixou de estruturar os órgãos ambientais, que já eram precários e acabaram ainda mais sucateados, tornando-se quase inoperantes. E chega de Marina, o assunto é outro.
24 petrolíferas atuam na costa da Guiana e Suriname

É interessante notar que pesquisadores estimam um potencial de 20 a 30 bilhões de barris de óleo cru apenas na bacia Pará-Maranhão. Para comparação, as bacias de Campos e Santos têm reservas comprovadas e contingentes de 40 bilhões de barris.

O Estadão ainda lembrou que ‘desde 2015, 24 petrolíferas atuam na costa da Guiana e do Suriname em 60 pontos de exploração, sem nenhum incidente’.
“Intromissão ideológica”

O problema, diz o jornal em editorial, é que a zona cinzenta de discricionariedade política é também sujeita à intromissão ideológica. Boa parte da militância ambientalista considera a combinação Amazônia + petróleo – ainda que já haja extração na própria floresta e a perfuração solicitada seja a centenas de quilômetros da foz – inexoravelmente catastrófica, e há indícios de que o Ibama e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, levaram em conta esses humores para transformar a controvérsia em uma espécie de cause célèbre.

Para encerrar, o Estadão lembrou que ‘o próprio Ibama participou do comitê que autorizou, há dez anos, a oferta de mais de 40 blocos na região que agora diz ser inviável.’

Imagem, Petrobras.

Segundo a Petrobras por enquanto o Brasil pretende explorar um poço de óleo e gás no Rio Grande do Norte. A Colômbia abriu onze poços exploratórios e oito descobertas de gás. Trinidad e Tobago tem 37 poços exploratórios e 21 descobertas de óleo e gás. a Guiana, 64 poços exploratórios e 42 descobertas de óleo e gás. O Suriname extrai em 40 poços e teve 19 descobertas de óleo e gás.Finalmente, a Guiana Francesa trabalha em sete poços exploratórios e teve duas descobertas de óleo. E, até o momento, ainda não houve qualquer acidente. Ou seja, o Brasil não pode ficar atrás, não temos como dispensar os bilhões que a Margem Equatorial pode render.
Potencial do petróleo e gás até 2050

Em outro editorial, o Estadão levantou questões que vale a pena destacar. Para começar, estima-se que, em 2050, o petróleo e o gás ainda representarão cerca de um terço da matriz energética global. Mesmo no cenário mais agressivo – e improvável – de descarbonização, os combustíveis fósseis ainda responderiam por 15% dessa matriz. A Empresa de Pesquisa Energética alerta que, se o Brasil deixar de explorar suas reservas potenciais, poderá perder R$ 5 trilhões entre 2031 e 2050.


Mais adiante, o editorial revela outros fatos importantes para esta discussão. Por exemplo, ‘o Brasil tem vantagens. Se boa parte do mundo precisa trocar o carvão por fontes limpas, o País já tem 48% de sua matriz energética ligada a fontes renováveis, enquanto a média mundial é de 15%’.

‘No mundo, o setor de energia responde por 70% das emissões de carbono. No Brasil, são 17%. O País tem áreas continentais fartamente servidas por água, vento, luz solar, biomassa e metais cruciais para a transição energética, e tem condições materiais de se tornar um exportador de hidrogênio verde e aproveitar a expertise com o etanol para desenvolver alternativas de biocombustíveis’.
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O mar sem fim é portuguez…Saiba por quê





O mar sem fim é portuguez…


…E ao imenso e possível oceano, ensinam essas Quinas que aqui vês, que o mar com fim será grego ou romano, o mar sem fim é portuguez…

Uma pequena grande obra

O documentário abaixo é uma pequena grande obra. Pequena porque tem menos de 50 minutos. Grande porque consegue, em curto espaço de tempo, resumir para aqueles que não leem, uma das maiores obras da humanidade: a aventura marítima portuguesa. Antes deles outros povos também avançaram na construção naval, conseguindo assim serem potências marítimas ao seu tempo. Os fenícios parecem ser os primeiros, logo depois os egípcios, por fim, e ainda antes dos lusos, a China, potência marítima um século antes!
Saga portuguesa – desconhecida e desvalorizada

Há muito que sou fã desta epopeia. Estudo, divulgo, e não me canso de reclamar das falhas das escolas brasileiras que passam pelo assunto como se fosse menor não lhe dando a importância devida. Talvez resida aí um dos motivos pelos quais o mar, os oceanos e tudo que acontece neles, seja visto aqui como algo que não nos diz respeito.



O mar sem fim é portuguez…e a globalização


O movimento náutico português foi o precursor da globalização, cujo ápice vive a nossa geração. Naquela época eles seguraram o mundo ‘nas mãos’. Enfrentaram mitos, credos, pavores os mais horríveis. Aliás, não só os lusos mas, quase ao mesmo tempo, a Espanha também contribuiu com a globalização ao dominar a rota dos galeões de Manila desde 1565 e até 1815.


Foram necessários mais de cinco séculos para que a tecnologia das comunicações atingisse aquilo que nossos antepassados conseguiram entre 1415 e 1522. Foi a saga portuguesa quem deu ao mundo a ‘cara’ que tem hoje. Facilitou o comércio, a integração entre os povos, a difusão do conhecimento em escala planetária.
Brasil quinhentista, um grande estaleiro

O documentário peca só por um detalhe: dá pouca importância ao papel do Brasil durante os quatro séculos da Carreira das Índias (Saiba mais), motivo que me fez escrever.


Como se sabe a Bahia foi nossa primeira capital. O motivo, entretanto, é prosaico: ventos e correntes favoráveis para quem sai da Península Ibérica, à vela, com intenção de dobrar o cabo da Boa Esperança.

Esta ‘estrada invisível’, formada pelos elementos fluídos, mar e vento, traz qualquer coisa que saia daquele ponto direto para nosso litoral: de uma rolha, até uma caravela, tudo vem dar aqui, na latitude da Bahia, seu ponto final.

Na ida, ou na volta, era inevitável passar pelo ‘grande estaleiro’, o Brasil.
Até nos mapas fomos retratados como um imenso estaleiro

Veja o mapa de Giovanni Batista Ramusio, de 1557, mostrando o corte da madeira de lei para reformar as caravelas latinas.

Brasil: enorme e rico estaleiro.

Ao arribarem nestas plagas nossos irmãos logo perceberam a riqueza da terra nova: Mata Atlântica cobrindo o litoral do Rio Grande do Sul até o Ceará. Ou seja, madeira de lei em abundância. O que sobrava era cortado para tingir tecidos, como se sabe…

Como era, e como ficou, nosso destruído litoral.

E qual o material dos barcos da época? Madeira, claro. Por séculos fomos o estaleiro perfeito para o reparo das naus e caravelas da Carreira das Índias. As naus mal aguentavam três ou quatro meses no mar, quanto mais o período de um ano que duravam as viagens portuguesas de ida e volta.
Embarcações típicas da costa brasileira são filhos da saga do mar sem fim portuguez

Hoje, devido ao descaso, o brasileiro médio mal sabe o que é Mata Atlântica, muito menos conhece ou valoriza uma de nossas maiores riquezas culturais: as embarcações típicas.



É preciso lembrar que durante os primeiros 200, 250 anos após a chegada, nos restringimos ao litoral usando o mar como ponte entre uma capitania e outra. Para isso desenvolvemos barcos que até os dias atuais lembram as caravelas. Sejam no formato do casco, sejam no tipo de velas: as mesmas das caravelas, as velas latinas bastardas.
 
A caravela latina e sua vela bastarda.O mar sem fim é portuguez…
Bem cultural ameaçado

Não por outro motivo o IPHAN considera estes barcos, fadados ao desaparecimento pela ignorância, burrice e ‘progresso’, como bens culturais dos brasileiros. Notem a enorme semelhança entre o bote-bastardo, ainda em uso nos litorais do Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí, com as caravelas portuguesas.

O bote-bastardo e o mesmo tipo de vela passados mais de 500 anos…O mar sem fim é portuguez…
O mar sem fim é portuguez…

Como só valorizamos aquilo que vem de fora, segue o que disse sobre nossos barcos típicos, e a natural habilidade dos brasileiros com as coisas do mar, um dos maiores ícones da vela mundial: o norte-americano Joshua Slocum, em 1889:


Estas canoas produzidas a partir de árvores gigantescas são ao mesmo tempo a carruagem e a carriola da família para o sítio, ou do arroz para o moinho. Estradas são quase desconhecidas onde a canoa está disponível; consequentemente, homens, mulheres e crianças são todos adestrados quase à perfeição na arte da canoagem. (…) a navegação é usada com grandes vantagens pelos habitantes quase anfíbios da costa, que amam a água e movem-se nela como patos e marinheiros natos.

Barcos -do-recôncavo, o avô dos atuais 13 saveiros- de-vela-de-içar que ainda resistem…
Conheça o mais navio do mundo made in Brazil

Conheça uma das obras monumentais que foram construídas na Terrinha, o galeão Padre Eterno, tido como maior navio de sua época. O Padre Eterno é fruto do ‘achado’, e da convivência com os nautas portugueses.
Pequena cronologia da epopeia náutica lusitana

Para os historiadores, o início foi a conquista de Ceuta, em 1415. Três anos depois, a ilha da Madeira foi descoberta e, em 1427 foi a vez dos Açores. Daí para a frente era preciso atravessar o Cabo Bojador, um mítico empecilho para que descessem a costa da África. Mas o navegador Gil Eanes conseguiu a façanha em 1434. Ele não sabia mas acabava de abrir as portas para que o mar sem fim fosse portuguez.

As descobertas e respectivas datas.

Daí para baixo, considerando que desciam o Atlântico Sul, foi uma conquista atrás da outra, até que Vasco Da Gama dobrou o Cabo da Boa Esperança e navegou para a Índia, em 1498. Neste mesmo ano, segundo o historiador Jaime Cortesão, o navegador Duarte Pacheco Pereira teria sido o descobridor do Brasil. No entanto, a história oficial como se sabe, reconhece o mérito como sendo de Cabral em 1500. Treze anos depois os lusos chegavam na China. O Japão, ponto culminante nas navegações, foi atingido em 1542.


Saiba como tudo começou

E se você é daqueles que leem recomendo vivamente o trabalho do mestre Jaime Cortesão, Os Descobridores Portugueses, ed. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, dezembro de 1990.

Cortesão esgota o assunto, indo fundo nas descobertas e aprimoramento náutico português. Não existe obra mais completa em seus três volumes.
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Conheça o Estreito de Malaca, um dos mais movimentados do planeta



Por João Lara Mesquita 17 de janeiro de 2025


Conheça o Estreito de Malaca, um dos mais movimentados do planeta

Pode parecer estranho, mas os oceanos também têm as ‘esquinas movimentadas’ das grandes cidades. Neste caso, são as passagens marítimas que se revelam as mais importantes e estratégicas. É o caso do Canal da Mancha, o mais movimentado do mundo com mais de 500 navios passando por ele todos os dias, ou da Passagem Noroeste que agora está se abrindo com o aquecimento, ou o Estreito de Ormuz, do outro lado do mundo e principal rota do petróleo no Oriente Médio. E ainda existem aquelas construídas pelo homem, caso do Canal do Panamá, ou o monumental Canal de Suez, aberto em meados do século 19 e terminado em apenas 10 anos. Aqui, na América do Sul, temos a Passagem, ou Estreito de Drake, que interliga o Atlântico ao Pacífico. Contudo, atualmente uma das mais movimentadas, e assim mais importantes passagens marítimas, é o Estreito de Malaca.

Imagem, Organização Marítima Mundial.
O principal gargalo da Ásia

Com cerca de 900 quilômetros de comprimento (550 milhas), o Estreito de Malaca é o principal gargalo da Ásia e uma das rotas marítimas mais congestionadas. O canal liga o continente ao Oriente Médio e à Europa, e por ele passam cerca de 40% do comércio mundial. Mais de 100 mil navios o atravessam todos os anos.


Em seu ponto mais estreito, em Singapura, ele tem apenas 2,7 quilômetros de largura, criando um gargalo natural e uma área propícia a colisões, encalhações, etc.

Imagem, UNESCO.

Sentiu a importância de uma ‘esquina’ oceânica? Quando elas ‘entopem’, como as esquinas mais movimentadas de São Paulo ou Manhattan, o mundo todo para. Vamos recordar o pânico mundial com o encalhe do navio porta-contêineres de quase 400 metros de comprimento, Ever Given, em 2021 no Canal de Suez.


O incidente destacou o papel vital do transporte marítimo na economia mundial. E, de maneira idêntica, os custos do bloqueio da passagem marítima foram à estratosfera, como lembra a BBC.

‘Separadamente, dados da Lloyd’s List mostraram que o navio encalhado bloqueava aproximadamente US$ 9,6 bilhões em comércio ao longo da via navegável a cada dia. Isso equivale a US$ 400 milhões e 3,3 milhões de toneladas de carga por hora, ou US$ 6,7 milhões por minuto’.



Os limites do Estreito de Malaca

O Estreito de Malaca conecta o Oceano Indico com o Oceano Pacífico. Ele está situado entre a Península Malaia, a nordeste, e a ilha indonésia de Sumatra, a sudoeste, ligando o Mar de Andaman e o Mar do Sul da China. É a rota marítima mais curta, mais de 1/3 mais curta do que sua alternativa mais próxima, entre fornecedores de petróleo e gás natural do Oriente Médio e os mercados em crescimento do Leste e Sudeste Asiático.

Segundo o Paradigm Shift, ‘o estreito propicia pelo menos 1 trilhão de dólares em comércio global anualmente. Tem nove dos dez portos mais movimentados do mundo, e cerca de 60% do comércio marítimo global passa por esta região.


Imagem, www.worldhistory.org.
O controle do Estreito no passado

O Estreito de Malaca também foi crucial para o comércio e viagens nos tempos medievais. Por textos históricos, o porto foi nomeado após o Sultanato de Malaca, que controlava a região e o Estreito do século XIV ao início do século XV.

Este canal natural tem sido usado continuamente desde a antiguidade por comerciantes como romanos, gregos, chineses e indianos. Sua importância estratégica também o tornou uma fonte de atrito internacional do século XV até os dias modernos.

Segundo o Asia Scotland Institute, ‘o lendário almirante chinês Zheng He estabeleceu uma base aqui no início dos anos 1400, transformando-a em uma das grandes cidades comerciais do mundo’. Um século depois foi conquistada pelos portugueses.

No século 16 a fiscalização do estreito de Malaca era particularmente importante para o comércio de especiarias e estava a cargo dos portugueses, a nação marítima preponderante daquele tempo. Nós já mostramos a importância de Malaca como um ‘empório asiático‘.

Depois passou ao comando holandês e britânico.

O desenho foi publicado pelo World History com a seguinte legenda: Um desenho mostrando a Malaca portuguesa na Malásia. A colônia foi portuguesa de 1511 a 1641. (Imagem, Domínio Público).
O Estreito na antiguidade

Como uma importante passagem marítima, sempre teve o controle das nações mais avançadas na arte da construção naval e da navegação. E a referência mais antiga que se tem é do século 7.

Quem explica é Sinara Bueno. ‘No século 7, o império marítimo de Srivijaya (antigo império malaio localizado na ilha de Sumatra), subiu ao poder e sua influência se expandiu para a península malaia e Java. O império obteve controle efetivo sobre dois principais pontos de estrangulamento no sudeste da Ásia marítima: o Estreito de Malaca e o Estreito de Sunda’.
Todas estas rotas marítima utilizam o estreito de Malaca.

‘Ao lançar uma série de conquistas e ataques a portos rivais em potencial em ambos os lados do estreito, Srivijaya garantiu seu domínio econômico e militar na região, que durou cerca de 700 anos. Srivijaya obteve grandes benefícios com o lucrativo comércio de especiarias com mercadores chineses, indianos e árabes’.
O controle do Estreito de Malaca hoje

Os Estreitos de Malaca e Singapura estão dentro das águas territoriais da Indonésia, Malásia e Singapura. De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que entrou em vigor em 1994, a administração da segurança do Estreito, incluindo a manutenção de auxílios à navegação, é de responsabilidade desses três países.
A pirataria moderna é um problema

Para encerrar, as informações mais recentes sobre o Estreito a cargo da Marine Insight. ‘Embora a maior parte da cobertura da mídia se concentre nos piratas da Somália, o Sudeste Asiático é um dos mais perigosos e inseguros em termos de crime marítimo. Os mais vulneráveis são o Estreito de Singapura, o Estreito de Malaca e as águas da Indonésia’.


Se o Estreito fosse bloqueado, seria difícil para a China obter seu suprimento de energia e matérias-primas de nações africanas onde investiu bilhões em projetos de mineração e empreendimento de construção.

Imagem, RG21.

O renomado autor naval e criador da série de jogos de guerra Harpoon, Larry Bond, disse que a China tem uma preocupação real de que a Índia possa fechar o Estreito. “Se a Índia quisesse interromper o comércio com a China, tudo o que teria que fazer seria estacionar um grupo de navios no Estreito de Malaca. E pronto, nada mais passará por ali.”

Finalmente, afirma o Marine Insight, ‘o Estreito de Malaca tem cerca de 34 naufrágios desde a década de 1880. Eles são perigosos. Os navios podem colidir com alguns deles, já que as águas são bastante rasas e ele é ‘estreito em alguns pontos.
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Como população dos Andes ingere arsênio sem se intoxicar


Para comunidades andinas, que bebem água com arsênio acima do limite há milênios, a evolução parece ter seguido um caminho diferente





Em qualquer outro contexto, consumir água com uma concentração de arsênio muito acima dos níveis recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) representaria um sério risco à saúde. Mas em San Antonio de los Cobres, no altiplano do noroeste argentino, a mais de 3,7 mil metros de altitude, essa tem sido, durante séculos – e provavelmente milênios –, uma condição cotidiana de vida.


Antes da instalação de um sistema de filtragem em 2012, a água da localidade continha cerca de 200 microgramas de arsênio por litro. Detalhe: o limite recomendado pela OMS é de apenas 10. Ainda assim, trata-se de uma região ocupada por seres humanos há pelo menos 7 mil anos, talvez até 11 mil. A pergunta inevitável é: como isso é possível?

O arsênio não é exatamente um veneno de risco desprezível. A exposição crônica está associada a câncer, lesões cutâneas, malformações congênitas e morte prematura. Uma vez no organismo, ele é processado por enzimas que o transformam em diferentes compostos químicos.


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Mas nem todos têm o mesmo efeito. O composto monometilado, ou MMA, é particularmente tóxico, enquanto o dimetilado, conhecido como DMA, é mais facilmente eliminado pela urina. O problema é que, na maioria das pessoas, o metabolismo do arsênio gera proporções relativamente altas desse composto intermediário mais nocivo antes de transformá-lo na forma que o organismo consegue excretar com mais facilidade.
Um gene-chave na resistência ao arsênio

Em meados da década de 1990, um estudo identificou na população feminina dessa região um processamento incomum do arsênio: o organismo acumulava menos do derivado mais tóxico e avançava com maior eficiência para a forma eliminável pela urina. Em outras palavras, o metabolismo do arsênio era excepcionalmente eficiente entre as mulheres estudadas.


Durante anos, o fenômeno permaneceu como uma curiosidade bioquímica. Mas, em 2015, uma equipe liderada pelas biólogas evolutivas Carina Schlebusch e Lucie Gattepaille, da Universidade de Uppsala, publicou na revista especializada Molecular Biology and Evolution uma possível explicação genética.

Para investigar, os cientistas analisaram o DNA de 124 mulheres de San Antonio de los Cobres e compararam os dados com os de populações do Peru e da Colômbia. O que encontraram foi revelador.


Os cientistas concentraram uma parte central da explicação em torno do AS3MT, um gene essencial no metabolismo do arsênio. Em seu entorno, detectaram variantes cuja presença se relacionava a um processamento biológico mais eficiente do metaloide. Essas variantes apareciam com muito mais frequência nos habitantes de San Antonio de los Cobres do que em populações geneticamente semelhantes do Peru e da Colômbia, regiões onde os níveis ambientais de arsênio são muito menores, segundo o estudo.

A análise revelou ainda sinais claros do que os geneticistas chamam de “varredura seletiva”, a marca deixada pela seleção natural quando um traço é rapidamente favorecido em uma população. Em termos simples, esse padrão sugere que as variantes protetoras do gene AS3MT podem ter conferido uma vantagem em ambientes com altos níveis de arsênio. Com o passar das gerações, essa vantagem teria feito com que tais variantes se tornassem cada vez mais frequentes na população.

“A adaptação para tolerar o arsênio como fator de estresse ambiental provavelmente impulsionou um aumento na frequência de variantes protetoras de AS3MT”, escreveu a equipe em seu estudo, que classificou o achado como “a primeira evidência de adaptação humana a uma substância química tóxica”.
Adaptação ao arsênio em outras populações andinas

Trata-se de um caso isolado? Os dados sugerem que não. Um estudo posterior, publicado na Chemosphere em 2022, examinou populações indígenas dos Andes bolivianos – grupos aimará-quéchua e uru – e encontrou sinais igualmente fortes de seleção positiva perto do mesmo gene. De fato, os bolivianos apresentavam a maior frequência já registrada de alelos associados a um metabolismo eficiente do arsênio, e o sinal de seleção estava entre os 0,5% mais intensos de todo o genoma.


Tudo isso aponta para o fato de que a adaptação ao arsênio não é um fenômeno local nem pontual, mas um processo evolutivo que pode ter ocorrido em paralelo em diferentes comunidades andinas expostas durante gerações ao mesmo veneno natural. Quando a pressão ambiental persiste por séculos, a evolução pode favorecer adaptações semelhantes em populações submetidas a pressões ambientais comparáveis.
A epigenética – muito além do DNA

A evolução humana, no entanto, nem sempre implica mudanças diretas no DNA. Além das mutações hereditárias, existem os chamados mecanismos epigenéticos, que modificam a forma como os genes são ativados ou silenciados em resposta ao ambiente. Essas alterações não mudam a sequência genética e podem ser mais flexíveis, já que nem sempre são transmitidas de forma estável entre gerações.


Alguns geneticistas passaram a olhar justamente nessa direção, enquanto outros buscavam respostas no código do genoma. Mais recentemente, por exemplo, pesquisadores da Universidade de Emory se perguntaram se a adaptação andina à altitude – um enigma em si, já que os povos andinos não possuem o mesmo “gene da altitude” identificado nos tibetanos – poderia estar escrita não tanto no DNA, mas na forma como ele se expressa.

Para explorar essa hipótese, eles examinaram as marcas epigenéticas distribuídas ao longo do DNA em 39 participantes de dois ambientes muito diferentes: os Andes equatorianos, representados pelos kichwa, e a bacia amazônica, representada pelos ashaninca.


O estudo, publicado na revista Environmental Epigenetics, detectou mudanças epigenéticas em genes relacionados ao funcionamento do sistema vascular e do músculo cardíaco, além de sinais na via PI3K/AKT, um circuito biológico envolvido em processos como o crescimento muscular e a formação de novos vasos sanguíneos.

Segundo os pesquisadores, essas diferenças epigenéticas poderiam ajudar a explicar alguns traços fisiológicos característicos das populações andinas de grande altitude, como o espessamento das paredes arteriais e o aumento da viscosidade do sangue. Ambos poderiam estar relacionados à adaptação fisiológica à hipóxia – a escassez de oxigênio típica da altitude –, embora também tenham sido associados a um risco maior de hipertensão pulmonar.

“Os achados são particularmente interessantes porque não estamos vendo esses sinais fortes no genoma, mas quando observamos o metiloma, essas mudanças aparecem”, explica John Lindo, professor de antropologia da Emory e autor principal do estudo, em um comunicado da instituição.

Além do caso específico, as mudanças epigenéticas podem constituir uma resposta mais flexível ao ambiente e nem sempre são transmitidas de forma estável entre gerações. O fato de essas modificações aparecerem em populações cuja presença nas terras altas andinas remonta a quase 10 mil anos levanta uma questão importante: até que ponto a epigenética desempenha um papel constante na adaptação humana a ambientes extremos?

Modelo tibetano: outra solução evolutiva

Para compreender melhor como os seres humanos se adaptam à vida em grandes altitudes, vale observar outro laboratório natural da evolução: o planalto tibetano. Ali, a evolução parece ter seguido um caminho diferente.

Um estudo publicado recentemente na revista PNAS, liderado pela antropóloga Cynthia Beall, da Universidade Case Western Reserve, analisou 417 mulheres tibetanas entre 46 e 86 anos, vivendo a altitudes entre 3 mil e 4 milmetros no Alto Mustang, no Nepal. O objetivo era identificar quais características fisiológicas se associavam a maior sucesso reprodutivo, um dos indicadores mais diretos de adaptação evolutiva.


O resultado não foi o que muitos esperavam. As mulheres com mais filhos – algumas chegaram a ter 14 – não apresentavam níveis excepcionalmente altos de hemoglobina. Pelo contrário, mantinham níveis próximos da média, mas com maior saturação de oxigênio no sangue.

Essa combinação está associada a uma maior eficiência no transporte de oxigênio sem engrossar o sangue, evitando assim a sobrecarga do coração. Além disso, as mulheres mais fecundas apresentavam maior fluxo sanguíneo para os pulmões e ventrículos cardíacos mais largos, características que melhoram a eficiência do sistema circulatório em condições de hipóxia.


Parte dessa adaptação tem uma origem inesperada. Uma variante do gene EPAS1, que regula a concentração de hemoglobina e é característica das populações tibetanas, parece ter sido herdada dos denisovanos, uma espécie humana extinta que viveu na Sibéria há cerca de 50 mil anos. Seus descendentes a teriam disseminado ao migrar para o planalto tibetano.
“A adaptação à hipóxia em grande altitude é fascinante porque o estresse é grave, todos o experimentam da mesma forma em uma determinada altitude e ele é quantificável”, explicou Beall à publicação Science Alert. “É um belo exemplo de como e por que nossa espécie apresenta tanta variação biológica.”


Considerados em conjunto, esses estudos traçam um panorama que desafia a ideia de que a evolução humana seja um processo encerrado. Pelo contrário, sugerem que nossa espécie continua a se adaptar aos ambientes em que vive.

Nos Andes, populações expostas durante milhares de anos a toxinas naturais e à escassez de oxigênio desenvolveram respostas genéticas, epigenéticas e 

fisiológicas distintas. No Tibete, diante do mesmo desafio da hipóxia, a evolução seguiu uma via genética diferente. A biologia humana, ao que tudo indica, continua negociando com o ambiente.

REVISTA METROPOLES

terça-feira, 14 de abril de 2026

O que é o Estreito de Ormuz, rota de escoamento de petróleo no Irã

O que é o Estreito de Ormuz, rota de escoamento de petróleo no Irã
O Estreito de Ormuz, por onde é escoado cerca de 20% da produção de petróleo mundial, é fundamental para o equilíbrio do comércio mundial



A principal rota marítima do petróleo mundial voltou ao centro das preocupações geopolíticas e econômicas neste fim de semana, após o ataque coordenado dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, levando ao bloqueio da navegação no Estreito de Ormuz, passagem por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.


Além da interrupção da rota, diversos navios petroleiros foram danificados em ataques na região, segundo informações do governo americano.

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Por que o Estreito de Ormuz importa

O Estreito de Ormuz é a principal via de saída do petróleo produzido na região do Golfo Pérsico, que inclui a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, o Iraque e o próprio Irã


Por ali passam diariamente dezenas de milhões de barris de petróleo e volumes importantes de gás natural liquefeito, conectando o Golfo ao Oceano Índico e aos principais mercados consumidores do mundo.

Especialistas de mercado alertam que, mesmo sem um fechamento total legalizado, a ameaça e a percepção de risco já exercem pressão sobre preços e cadeias de abastecimento, porque empresas de navegação, refinarias e seguradoras recalibram seus planos diante da instabilidade na região.

Na avaliação do professor da Strong Business School, Jarbas Thaunahy, “qualquer bloqueio, mesmo parcial, afetaria fluxos de petróleo e gás natural liquefeito. Mesmo sem interrupção física, o simples aumento do risco eleva custos de frete, seguro marítimo e hedge logístico. Isso encarece cadeias produtivas globais e pode gerar novos gargalos em setores dependentes de energia”, disse.
Repercussão nos mercados e na economia globalO bloqueio ou a interrupção significativa da passagem pelo Estreito de Ormuz tem efeitos diretos nos mercados de energia;
A alta imediata nos preços do petróleo, motivada pela expectativa de menor oferta disponível e aumento nos prêmios de seguro marítimo para navios que transitam pela área de conflito;
Especulação de que o preço do barril pode ultrapassar patamares próximos a US$ 100 ou mais, dependendo da duração do impacto no fluxo de combustíveis;
Além disso, grandes exportadores de petróleo já começaram a considerar ajustes em suas produções para compensar potenciais descontinuidades no fornecimento;
A medida pode causar impacto inflacionário nas economias globais, principalmente nos países emergentes.
Preço do petróleo

O preço do petróleo avançou 10% no último domingo (1/3), chegando a aproximadamente US$ 80 por barril, enquanto analistas projetam que a cotação pode chegar a US$ 100 após os conflitos no Oriente Médio.


Na última sexta-feira (27/2), o produto fechou o mercado a US$ 73 por barril, o maior nível desde julho. O preço foi influenciado pela preocupação com a possibilidade de ataques, já que a tensão entre os países estava em uma escalada a semanas.

Após os ataques, a maioria dos armadores de petroleiros, grandes companhias de petróleo e empresas comerciais interromperam o transporte de petróleo, combustíveis e gás natural liquefeito pelo Estreito de Ormuz.


Na manhã de domingo (1º/3), a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados (Opep+) afirmou que aumentará a produção de petróleo para 206 mil barris por dia, pouco acima das expectativas iniciais, de 137 mil barris, mas abaixo do previsto após o ataque, que era de 411 mil barris diários.

Os mercados asiáticos são os mais afetados com as tensões no local, já que são mais dependentes do petróleo do Oriente Médio, principalmente a China, que é a principal importadora do petróleo do Irã.[
Revista Metrópoles

domingo, 12 de abril de 2026

Trabalho por plataformas digitais

Com a reclusão imposta pela pandemia de covid-19, intensificou-se a já crescente dependência de plataformas digitais – aplicativos, videoconferências, serviços dos mais diversos – para obter algum tipo de tarefa remunerada, o que vem transformando o perfil das atividades econômicas e dos trabalhadores. Embora a chamada ‘plataformização do trabalho’ tenda a se generalizar – a se espalhar para todos os setores e funções –, há brechas que permitem desenvolver tecnologias autônomas capazes de gerar benefícios para os trabalhadores.





A pesquisa mais recente do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) sobre o uso de internet no Brasil durante a pandemia apontou que 76% das pessoas com acesso à internet que trabalhou neste período vendeu algum produto ou serviço por meio de plataformas digitais – incluindo distintos aplicativos e redes sociais digitais. A investigação também mostrou que 8% trabalharam como motoristas ou entregadores por meio desse tipo de plataformas.

Isso evidencia um fenômeno que temos chamado de ‘plataformização do trabalho’, a crescente dependência de plataformas digitais para conseguir alguma forma de ocupação remunerada. O que são essas plataformas? São infraestruturas digitais abastecidas com dados e automatizadas por algoritmos e que podem ter diferentes perfis e desenhos.


De alimentos a pornografia

Plataformas seriam, então, aplicativos? Não necessariamente. O aplicativo pode ser só a fase mais visível – o software – de uma lógica de gestão que está relacionada a toda uma cadeia de suprimentos e de valor. As plataformas oferecem serviços dos mais diferentes tipos – desde alimentação até pornografia.

Em uma dimensão, a plataformização do trabalho é, ao mesmo tempo, resultado e radicalização de processos históricos presentes na sociedade brasileira, como a apropriação do trabalho informal e a intensificação da flexibilização do trabalho. Mas não se trata de algo exótico. Esse processo se materializa em contexto de reestruturação do capital – com altas taxas de desemprego. E os novos mecanismos das plataformas envolvem extração de dados como forma de capital, gerenciamento algorítmico e novas formas de vigilância sobre os trabalhadores.

Tudo isso é embalado por uma retórica de inovação por parte das plataformas digitais, dirigida tanto a trabalhadores quanto a consumidores. Vemos recorrentemente a promessa de “Conheça agora a plataforma que vai mudar sua vida”. Hackathons (maratona em que se criam projetos tecnológicos) fablabs (espaços para experimentação e prototipagem digital) e linkedins (rede profissional) acabam sendo espaços de disseminação de discursos, aliando o empreendedorismo como obrigatoriedade à tecnologia feita no Vale do Silício (região na Califórnia, EUA, que reúne empresas de alta tecnologia).


Perfis diversos

Esses processos são ingredientes para a generalização da plataformização do trabalho, com diferentes perfis de plataformas e trabalhadores. E também distintas lógicas. Isso significa que não são apenas entregadores e motoristas. Há plataformas de trabalho para jornalistas, trabalhadoras domésticas, professores, dentistas, Papai Noel, treinadores de inteligência artificial. Há, inclusive, inúmeros canais vendendo a “oportunidade de ganhar uma renda extra”.


Não são apenas entregadores e motoristas. Há plataformas de trabalho para jornalistas, trabalhadoras domésticas, professores, dentistas, Papai Noel, treinadores de inteligência artificial


Tudo isso materializado em distintas plataformas, inclusive para trabalhar clicando e comentando em conteúdos em redes sociais. Além disso, o OnlyFans (serviço de conteúdo por assinatura) é um exemplo da plataformização do trabalho sexual. Por outro lado, tem até plataformas vip de freelancers (trabalhadores temporários). Plataformas para todos os perfis, gostos e necessidades.

Quando você está vendendo algo via Instagram ou WhatsApp, ou mesmo trabalhando como ‘criador de conteúdo’ para plataformas, seu trabalho também depende de lógicas e mecanismos dessas tecnologias digitais, embora o processo de trabalho seja distinto de um motorista ou entregador.

No plano de seu dia a dia, se a rede social muda alguma funcionalidade, seu trabalho precisa ser reestruturado a partir dessas novidades. Na dimensão econômica, essas plataformas pertencem a conglomerados tecnológicos – como Google e Facebook – e tornam-se oligopólios para transações financeiras, marketplaces (lojas virtuais), coleta, extração e venda de dados. O trabalho remoto também nos deixou mais dependente de plataformas digitais – videoconferências, gestão de tarefas, entre outras – também pertencentes a conglomerados digitais.


Trabalhadores ‘plataformizados’

Há, então, uma multiplicidade de trabalhadores ‘plataformizados’ – nas ruas, nas casas e nos escritórios –, como um verdadeiro laboratório das transformações no mundo do trabalho. Laboratório porque podem ser vistos como experimentos por parte das empresas – inclusive, a relação com o rentismo (ganhos obtidos de atividades econômicas não produtivas) – em relação aos trabalhadores, mudando regras com o jogo em andamento (quando não o próprio jogo). Em alguns países, já há, por exemplo, a adoção de drones (veículos aéreos não tripulados) para entrega de alimentos.

Para onde essa plataformização nos levará? Certamente, os robôs não nos substituirão. Para a automação acontecer de forma cada vez mais intensa, é preciso de um crescente papel de trabalhadores alimentando dados para a inteligência artificial (IA). A australiana-americana Kate Crawford, no livro Atlas of AI, lembra que o que se chama de IA não é nem inteligente, nem artificial, e depende de uma série de recursos materiais, logística, dados e trabalho humano.


Diferentes manifestações

Precisamos, então, prestar mais atenção a todo esse cenário do trabalho por plataformas, e suas distintas manifestações. Por exemplo, no Brasil há mais de 40 plataformas em atividade para as quais trabalhadores alimentam sistemas de inteligência artificial.

Em primeiro lugar, há plataformas em que trabalhadores produzem e treinam dados para sistemas de inteligência artificial, como algoritmos de reconhecimento facial, avaliação de publicidade e transcrição de áudios de redes sociais e assistentes virtuais. Alguns exemplos são Amazon Mechanical Turk (cujo slogan é “inteligência artificial artificial”), Appen (com frases do tipo “dados com um toque humano”) e Lionbridge.

Em segundo, há plataformas de moderação de conteúdo, cujos trabalhadores, em geral, são terceirizados de Facebook e Google, como Cognizant e Pactera. Nesses lugares, os trabalhadores passam o dia analisando imagens e vídeos de pedofilia, esquartejamento, suicídio, entre outros, para decidir o que manter e o que remover da plataforma. Isso, inclusive, traz consequências à saúde mental dos trabalhadores. Recentemente, o Facebook foi obrigado a pagar uma indenização de 52 milhões de dólares a trabalhadores que desenvolveram estresse pós-traumático – como se tivessem voltado de uma guerra.

Em terceiro lugar, há plataformas de fazendas de cliques – a maioria brasileiras –, em que os trabalhadores passam o dia curtindo, comentando e compartilhando posts (publicações) em Instagram, Tiktok e YouTube (plataformas de imagens e vídeos) em troca de pouquíssimas frações de centavos por tarefa. Os solicitantes dessas tarefas vão desde influenciadores até duplas sertanejas e candidatos a prefeitos.

Essas plataformas ‘parasitas’ servem-se dos mecanismos das redes sociais para impulsionar manualmente os conteúdos por meio do trabalho mal remunerado desses ‘bots (robôs) humanos’. Além disso, há todo um mercado paralelo de contas fakes (falsas) e bots como estratégias de trabalhadores para que consigam ganhar um mínimo de dinheiro nessas plataformas.


Brechas e dribles

Prestar atenção para essas atividades de trabalho nos ajuda a compreender as mudanças pelas quais o mundo do trabalho vem atravessando. Contudo, isso não significa que os trabalhadores são entes passivos ou amorfos nesses processos. Pelo contrário, eles procuram brechas e fissuras em algoritmos e plataformas para construir táticas cotidianas no trabalho, desde tentar ‘produzir’ coletivamente a tarifa dinâmica em plataformas para motoristas até se recusar a trabalhar e/ou burlar as lógicas das plataformas – no que Gavin Mueller, da Universidade de Amsterdam (Holanda), tem chamado de táticas neoludistas.


Prestar atenção para essas atividades de trabalho nos ajuda a compreender as mudanças pelas quais o mundo do trabalho vem atravessando. Contudo, isso não significa que os trabalhadores são entes passivos ou amorfos nesses processos


Além dessas táticas cotidianas, temos visto a emergência de formas de organização de trabalhadores em contextos de plataformas, desde coletividades informais – como experiências coletivas de escrita de trabalhadores – até mobilizações e construções de associações e sindicatos. Isso decorre do fortalecimento da própria comunicação entre trabalhadores por meio de grupos de WhatsApp, por exemplo, como forma inicial de organização. Os exemplos vão desde a greve de entregadores em 2020 até construções de sindicatos de gamers, youtubers e influenciadores.

Assim, é preciso pensar as defesas de trabalhadores em um contexto de plataformização, não só no sentido de se recusar a aceitar o cenário vigente, mas também no de se apropriar das lógicas em prol de trabalhadores e do bem comum. Por exemplo, o WeClock é uma tecnologia construída para que trabalhadores consigam quantificar seu dia de trabalho. Com ela, é possível verificar se as plataformas estão pagando-lhes conforme o combinado. Além disso, em caso de alguma discordância com a empresa, a ferramenta pode ser usada na defesa de trabalhadores


Novos arranjos

As possibilidades de reapropriação da plataformização por parte dos trabalhadores também podem envolver a construção de plataformas que sejam de suas propriedades, seja em cooperativas de plataforma ou em outros arranjos de trabalho e desenhos institucionais. O cooperativismo de plataforma simboliza a união das potencialidades tecnológicas digitais com a força da organização cooperativista. Algo como: e se motoristas e entregadores possuíssem suas próprias plataformas?


De cinco anos para cá, diversas plataformas controladas por trabalhadores têm surgido pelo mundo, em áreas como fotografia, música, arte, entrega de comida, trabalho doméstico, atividades autônomas diversas


De cinco anos para cá, diversas plataformas controladas por trabalhadores têm surgido pelo mundo, em áreas como fotografia, música, arte, entrega de comida, trabalho doméstico, atividades autônomas diversas.

Essas plataformas controladas por trabalhadores podem ser também laboratórios, construindo experiências locais para desafiar a noção dominante de plataformização. Elas podem reinventar circuitos econômicos locais de produção e consumo por meio de plataformas que melhorem condições de trabalho e, ao mesmo tempo, promovam políticas de mobilidade, melhorias de transporte público, serviços de cuidados, com integração ao sistema de saúde.

Realisticamente, elas não substituirão em curto prazo as grandes plataformas de trabalho, pois existe a forte pressão da concorrência – envolvida em capital de risco e possibilidades de lobby – e riscos de autoexploração, entre outras contradições. Mesmo sabendo dos desafios, é preciso enfrentar essas contradições. Elas podem tornar-se referenciais para políticas públicas a partir da construção de iniciativas que envolvam trabalho decente e se articulem com o combate às desigualdades – inclusive algorítmicas – e a construção de tecnologias para o bem comum.

A noção de plataforma digital, ao contrário do que muita gente pensa, não é somente tecnológica. Envolve questões como governança, propriedade, organização do trabalho, política e modelos econômicos, além das próprias infraestruturas tecnológicas. Dessa forma, as plataformas controladas por trabalhadores são atravessadas por múltiplas dimensões, sendo a questão tecnológica o resultado de um processo. Caso contrário, incorremos em um fetichismo tecnológico, com o risco de a plataforma se tornar um elefante branco. Assim, esses experimentos não têm fórmula pronta, nem se fazem da noite para o dia, como um aplicativo solucionador de todos os problemas.


Direitos nas plataformas

Lutar por trabalho decente em plataformas envolve: salário-mínimo, condições de trabalho adequadas que proporcionem saúde e rede de segurança, contratos claros e acessíveis, processo de gestão que garanta equidade entre trabalhadores e combata desigualdades – como de raça e gênero – na plataforma, algoritmos que não prejudiquem trabalhadores, e espaço para que, de fato, eles tenham voz. Além desses princípios, a autogestão pressupõe ainda que, além do trabalho para a plataforma, haja um trabalho de cuidado coletivo. Isto é, a saúde – física e mental – de trabalhadores é uma responsabilidade coletiva.

As plataformas controladas por trabalhadores também desafiam a ideia de que a economia de plataformas necessita de escala. Pensando nos trabalhadores, nem as startups (empresas, principalmente de base tecnológica, em fase inicial) possuem muitos trabalhadores. Um levantamento da Associação Brasileira de Startups mostra que 63% das startups brasileiras possuem até cinco pessoas. Da mesma forma, não necessariamente cooperativas e coletivos de entregadores ou motoristas contarão com 30 mil pessoas envolvidas ou algo em torno dessa quantidade. E não há argumentos para deslegitimar iniciativas autogestionárias com três ou cinco trabalhadores apenas por causa de seu tamanho. A questão da escala no cooperativismo de plataforma não se dá necessariamente pelo número de trabalhadores na própria empresa, mas a partir de seu potencial de articulação.

Uma das fortalezas das plataformas de propriedade de trabalhadores é justamente a sua capacidade de articulação e cooperação entre iniciativas. Por exemplo, a cooperativa de entregadores Resto.Paris, a partir de financiamento da prefeitura da capital francesa, articulou-se com a federação CoopCycle – que construiu software para iniciativas desse tipo – e adotou um selo de alimentação saudável, sendo uma importante política pública para fazer girar a economia local.


Carros autônomos construídos por grandes empresas de tecnologia tendem a atropelar mais negros do que brancos porque não os reconhecem como pessoas. A justiça social, portanto, deve estar presente ao projetar tais plataformas digitais


Por fim, o papel das tecnologias, embora não seja o único fator envolvido, deve ser considerado. O design (projeto) e os algoritmos das plataformas controladas por trabalhadores devem considerá-los no centro. Já é muito sabido que algoritmos e outras tecnologias podem reproduzir desigualdades históricas (de classe, raça, gênero, sexualidade), agora automatizadas. Por exemplo, carros autônomos construídos por grandes empresas de tecnologia tendem a atropelar mais negros do que brancos porque não os reconhecem como pessoas. A justiça social, portanto, deve estar presente ao projetar tais plataformas digitais.

As políticas de dados também são um elemento central nesse processo, uma vez que a extração de dados tem sido uma nova forma de rentismo, ampliando nosso colonialismo digital. Já há, por exemplo, cooperativas de dados, como a Driver’s Seat, em que trabalhadores coletam informações deles mesmos em suas atividades para as grandes empresas de tecnologia, e depois revendem para órgãos públicos, de modo a que o setor público não sofra de dependência de tais conglomerados tecnológicos. Isso significa pensar as infraestruturas digitais das plataformas controladas por trabalhadores a partir de tecnologias livres e dados para o bem comum.

Assim, se a plataformização do trabalho tende à generalização por uma série de mecanismos ligados aos oligopólios digitais e a suas cadeias de fornecimento, há também possibilidades de construção de tecnologias autônomas e de defesa de trabalhadores, lutando por outro tipo de plataformização do trabalho.


Rafael Grohmann
Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Revista Ciência Hoje

Quais áreas são consideradas pontos críticos (hotspots) para a conservação da biodiversidade global?



Departamento de Ecologia
Universidade de São Paulo


 As espécies e as linhagens não se distribuem de modo homogêneo ou aleatório no planeta. Existem regiões mais ricas, outras mais pobres em determinadas linhagens. Temos ainda que algumas espécies ou linhagens têm distribuição ampla, por vezes até cosmopolita. Outras estão restritas a regiões pequenas e a ambientes específicos e raros. Assim, quando falamos de conservação da biodiversidade, temos que agregar, além da riqueza, outro fator central para o entendimento da diversidade da vida no planeta: a singularidade espacial, ou, em termos biogeográficos, o conceito de endemismo. Não basta selecionar as áreas com mais espécies, mas levar em conta também o quão singular, em termos espaciais (biogeográficos) é uma dada região. Uma espécie ou linhagem endêmica a uma dada área só ocorre naquela área, e em nenhuma outra região do planeta. Em geral, são linhagens com associações evolutivas, históricas com aquela dada região, ou seja, que evoluíram naquela e em suas condições naturais específicas de clima, topografia, tipos de ambiente. 

Assim, um estudo clássico da Conservação Internacional, em 2000, definiu 25 regiões globais prioritárias para a conservação da biodiversidade, denominadas hotspots de biodiversidade, por abrigarem alta riqueza de espécies endêmicas e estarem amplamente impactadas pela perda de hábitat (menos de 30% de áreas íntegras). 

Portanto, os hotspots são regiões ricas em biotas muito singulares, endêmicas, e que estão severamente impactadas por desmatamento e fragmentação de hábitat. Se nada for feito nessas áreas, um conjunto grande de espécies estará sob alto risco de extinção em um curto espaço de tempo. No Brasil, Mata Atlântica e Cerrado foram elencados na lista dos hotspots globais de biodiversidade. E, de modo nada surpreendente, segundo dados oficiais sobre risco de extinção, são as duas regiões que abrigam maior número de espécies ameaçadas de extinção na fauna brasileira. É preciso agir de modo rápido para conter a perda de hábitat, reduzir a fragmentação e os riscos a essas biotas únicas, e cada vez melhor conhecidas pela ciência, que, nas últimas duas décadas, descreveu centenas de novas espécies de vertebrados nessas duas regiões prioritárias globais.https://cienciahoje.org.br/artigo/quais-areas-sao-consideradas-pontos-criticos-hotspots-para-a-conservacao-da-biodiversidade-global/

As nuvens brancas e o azul do céu e do mar


Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos (SP)


Pare um instante e observe o azul do céu e o branco das nuvens. Por trás dessas cores, está o chamado espalhamento da luz, fenômeno óptico só explicado no século 19. Até onde sabemos, esse espetáculo único só pode ser apreciado em nosso maravilhoso planeta


CRÉDITO: IMAGEM ADOBESTOCK



É fim da tarde. Depois de rápida chuva, o ambiente ficou mais fresco, e o céu ganhou um azul lindo, com nuvens brancas. Cena comum em dias de verão.

As nuvens são feitas de partículas de água e gelo em suspensão, em uma atmosfera que é basicamente composta por nitrogênio e oxigênio, ambos em forma gasosa.

A água transformada em vapor – por causa da ação do Sol e do calor do ambiente – é mais leve que o ar. Portanto, sobe para o céu, onde encontra regiões atmosféricas mais rarefeitas e, por isso, com temperaturas mais baixas.

O vapor se condensa na forma de gotas ou gelo, formando as nuvens. A grande maioria das gotas tem dimensões microscópicas (da ordem de um milésimo de milímetro).

Mas por que elas são brancas?

A luz que nossos olhos observam está restrita a uma faixa do chamado espectro eletromagnético que denominamos visível, que vai do vermelho ao violeta. Cada cor corresponde a uma frequência de oscilação da luz – ou a um comprimento de onda, distância entre dois ‘picos’ (máximos) ou ‘vales’ (mínimos) da onda eletromagnética.

Para a luz visível, essas distâncias estão entre 380 e 720 bilionésimos de metro (nanômetros). Como as gotículas de água na nuvem estão em uma escala mil vezes maior (micrômetros), todos os comprimentos de onda da luz visível, ao interagirem com essas gotículas, se espalham em todas as direções, combinando-se entre ele
Revista Ciência Hoje

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