segunda-feira, 18 de março de 2019

Estudo aponta que dois terços das geleiras do Himalaia podem derreter até 2100


Segundo pesquisa do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas, impacto pode variar de inundações a um aumento dos níveis de poluição do ar

Agência Estado




(foto: Reuters TV) 

Um terço das geleiras do Himalaia pode derreter até o fim do século em razão das mudanças climáticas, que ameaçam as fontes de água doce para cerca de 1,9 bilhão de pessoas, mesmo que os atuais esforços para reduzir o aquecimento global funcionem. Mas se essas ações falharem, o impacto pode ser ainda pior: dois terços das geleiras da região poderão derreter até 2100.
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As informações são de um estudo publicado nesta segunda-feira, 4, pelo Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas. "O aquecimento global está a caminho de transformar os glaciares, os picos das montanhas cobertas por geleiras da região do Hindu Kush e Himalaia", disse Philippus Wester, da entidade, que liderou as pesquisas.

O estudo foi realizado durante cinco anos e observou os efeitos das mudanças climáticas na região que passa por Afeganistão, Paquistão, Índia, Nepal, China, Butão, Bangladesh e Mianmar. A área, que inclui algumas das montanhas mais altas do mundo, tem geleiras que alimentam sistemas fluviais como os rios Indo, Ganges, Yangtzé e Mekong.

(foto: University of Kashmir)

As pesquisas apontam que o impacto do derretimento pode variar de inundações causadas pelo aumento de escoamento a uma elevação dos níveis de poluição do ar em razão do carbono negro e poeira depositada nas geleiras.

Saleemul Huq, diretor do Centro Internacional para Mudança Climática e Desenvolvimento, um centro de pesquisas sobre meio ambiente em Dhaka, descreveu as descobertas no estudo como "muito alarmantes". "Todos os países afetados precisam priorizar o combate a esse problema antes que ele atinja proporções de crise", afirmou.

Huq foi um dos revisores externos do estudo, que ressaltou ainda que mesmo que um ambicioso Acordo de Paris consiga limitar o aquecimento global a 1,5°C até o fim do século, mais de um terço das geleiras da região serão perdidas. Se a temperatura global aumentar 2°C, dois terços dos glaciares do Himalaia derreterão.

O Acordo de Paris de 2015 foi um momento crucial na diplomacia internacional, reunindo governos com diferentes visões sobre como reduzir o aquecimento global. Foi estipulada uma meta de evitar que as temperaturas subam mais de 2°C, ou 1,5°C se possível.

Segundo um estudo recente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, as emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, precisariam ser reduzidas a um nível que o planeta consegue absorver - conhecido como net-zero - até 2050 para manter as temperaturas globais em 1,5°C, como previsto no acordo.

O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas disse que o estudo contou com o trabalho de mais de 350 pesquisadores e especialistas de 22 países. Fonte: Associated Press.

domingo, 17 de março de 2019

Aumento do nível do mar pode engolir países inteiros até 2100


Modelos teóricos chegaram a prever um aumento de 4 metros no nível do mar, o que poderia engolir países inteiros, até 2100, em um cenário de políticas de mitigação conservador.

Paloma Oliveto


Glaciar Renegar, no leste da Antártida: risco de o continente contribuir para a elevação do mar em mais de 39cm é de 5%(foto: Nick Golledge/Divulgação)
Um dos efeitos mais estudados das mudanças climáticas é o derretimento do gelo no Ártico e na Antártida. Modelos teóricos chegaram a prever um aumento de 4 metros no nível do mar, o que poderia engolir países inteiros, até 2100, em um cenário de políticas de mitigação conservador. Esse número pode estar superestimado, diz um grupo de pesquisadores de vários países, em um estudo publicado na Nature. Não se trata, porém, de uma boa notícia. Outro artigo dos mesmos cientistas divulgado também na revista britânica afirma que o degelo na extremidade sul do planeta terá potencial mais devastador do que se imagina, com alterações na temperatura atmosférica que, por sua vez, aumentarão mais o derretimento.

No primeiro artigo, liderado por Tamsin Edwards, do King’s College de Londres, os pesquisadores sugerem que o colapso das falésias de gelo da Antártida no oceano — fenômeno provocado pelo aumento das temperaturas globais, que causa o derretimento das plataformas congeladas — não impactará significativamente no aumento do nível do mar. Para chegar a essa conclusão, os cientistas analisaram taxas simuladas de degelo ocorrido há 3 milhões de anos, 125 mil anos e 25 anos — nesse último caso, eles avaliaram os dados reais.


O novo modelo climático aplicado prevê que há apenas 5% de risco de o continente contribuir com uma elevação do nível do mar acima de 39 centímetros até 2100. “A instabilidade das falésias de gelo não parece ser um mecanismo essencial para o aumento do volume oceânico. Mesmo com um cenário de concentrações muito altas de gases de efeito estufa, a contribuição desse fenômeno seria de menos da metade do que foi proposto anteriormente (um metro)”, aponta Edwards.

Isso, porém, não significa que o degelo na Antártida e no Ártico não terá consequências extremas para o planeta, aponta o segundo estudo publicado na Nature. “Sob as atuais políticas governamentais globais, estamos caminhando para um aumento de temperatura entre 3 ou 4 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, fazendo com que uma quantidade significativa de gelo derretido da Groenlândia e da Antártida deságue nos oceanos da Terra. De acordo com nossos modelos, essa água causará interrupções significativas nas correntes oceânicas e aumento no aquecimento em todo o mundo”, disse, em nota, Nick Golledge, do Centro de Pesquisa Antártica da Universidade Victoria, em Wellington, na Nova Zelândia.


A equipe de pesquisadores liderada por ele combinou simulações detalhadas dos efeitos climáticos complexos associados ao derretimento com observações por satélite de mudanças recentes nas camadas de gelo. Como resultado, os cientistas conseguiram criar previsões mais confiáveis e precisas do que ocorrerá considerando as atuais políticas climáticas, segundo Golledge.

Impactos generalizados

As simulações sugerem que o aumento mais rápido na elevação do nível do mar provavelmente ocorrerá entre 2065 e 2075. O derretimento das camadas geladas afetará a temperatura da água e os padrões de circulação nos oceanos, com consequência direta na temperatura do ar. Esses efeitos não serão sentidos de maneira uniforme. “Os níveis de água não se elevam como em uma banheira”, explica Natalya Gomez, pesquisadora do Departamento de Ciências da Terra e Planetárias da Universidade de McGill, no Canadá, que participou do estudo. “Algumas áreas do mundo, como as nações insulares do Pacífico, sofrerão um grande aumento no nível do mar, enquanto que nas regiões próximas aos polos o nível do mar cairá”, diz.


No entanto, os efeitos do derretimento das placas de gelo são muito mais generalizados do que simplesmente elevar ou reduzir o nível do mar, afirmam os pesquisadores. Os modelos indicam que as principais correntes oceânicas, como a do Golfo, ficarão enfraquecidas. Como consequência, a temperatura atmosférica ficará mais alta no Ártico, no leste do Canadá e na América Central, e as temperaturas mais baixas atingirão o noroeste da Europa, do outro lado do Atlântico.

De acordo com os pesquisadores, esse fenômeno não foi considerado quando se estabeleceram as metas do Acordo de Paris. No estudo, eles destacam que, mesmo que os países cumpram com o prometido no documento, que pretende reduzir as emissões de gases efeito estufa, isso não será suficiente para evitar as alterações nas correntes oceânicas.

Segue padrão de aquecimento

A Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) anunciou na quarta-feira (6/2) que a temperatura média da superfície do planeta registrada em 2018 foi a mais alta dos últimos 140 anos, quando se iniciaram os registros do tipo. O ano passado só foi superado por 2016, 2017 e 2015, por ordem decrescente de temperatura, o que significa um padrão de aquecimento ano a ano. “Já não estamos falando de uma situação em que o aquecimento global é algo futuro. Está ocorrendo aqui, agora”, disse Gavin A. Schmidt, diretor do Instituto Goddar de Estudos Espaciais da Nasa, responsável pela análise. Em 2018, o termômetro marcou 0,83 grau Celsius acima do documentado entre 1951 e 1980, mostrou o trabalho. Desde 1880, o planeta ficou 1ºC mais quente, devido às emissões de dióxido de carbono, explicou Schmidt.

Cor dos oceanos mudará no final do século devido à mudança climática


Resultados preveem que as zonas azuis ficarão mais azuis e as verdes ainda mais verdes

Agência Estado

(foto: Joe Raedle/AFP)

Por causa das mudanças climáticas, mais de 50% dos oceanos terão mudado de cor em 2100. A tendência é que as regiões azuis e verdes se intensifiquem, segundo estudo do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos.

O estudo publicado na revista Nature Communications conclui que o aquecimento global está provocando grandes alterações nas populações de fitoplâncton, algas com capacidade de fazer fotossíntese, o que vai afetar a cor dos oceanos.

Os resultados estimam que as zonas azuis, como a dos subtrópicos, ficarão mais azuis, refletindo a redução dos níveis de fitoplâncton - e de vida em geral. Já as verdes, como observado perto dos polos, devem ficar ainda mais verdes, uma vez que temperaturas mais quentes tendem a causar proliferação de espécies de fitoplâncton.

A cor do oceano depende de como raios de sol interagem com moléculas da água. Elas absorvem quase toda a luz solar, exceto a parte azul do espectro, que é refletida de volta. Assim, áreas do oceano aberto, com menos vida, aparentam azul intenso. Quando há organismos no mar, eles podem absorver e refletir diferentes comprimentos de onda de luz, dependendo de suas propriedades, o que muda a percepção da cor. 

O fitoplâncton, por exemplo, contém clorofila, pigmento que absorve mais a porção azul da luz para fazer fotossíntese, e menos verde. Assim, mais verde é refletido de volta e áreas ricas em algas ficam dessa cor.
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Modelo
Os cientistas desenvolveram um modelo que simula o crescimento e a interação de várias espécies de fitoplâncton e como variam à medida que as temperaturas aumentam. E reproduziram o modo como o fitoplâncton absorve e reflete a luz e como afeta a cor do mar, considerando a mudança climática.

Stephanie Dutkiewicz, a diretora de pesquisa do projeto, prevê que mudanças em fitoplâncton podem mudar cadeias alimentares, o que ela vê como "potencialmente sério". Mas admite dificuldade de definir se isso se deve à mudança climática ou à variação natural da clorofila. "Fenômenos como El Niño ou La Niña causariam mudança na clorofila, porque varia a quantidade de nutrientes no sistema." (Com agências internacionais).

sábado, 16 de março de 2019

Pesticida aumenta o risco de câncer de mama e perda de olfato


Contato com o DDT na infância ou na puberdade deixa mulheres mais vulneráveis ao surgimento do tumor cerca de 40 anos depois. Uso da substância é proibido no Brasil há apenas 10 anos




Muito usado no século 20, o produto ainda é aplicado em países da África e da Ásia para combater a malária(foto: Reuters/Enny Nuraheni - 15/3/04)

Longe das prateleiras brasileiras há apenas 10 anos, quando foi proibida sua produção e comercialização, o pesticida DDT aumenta o risco de câncer de mama em mulheres que foram expostas à substância em algum momento da vida. Um estudo publicado, nesta semana, no Journal of the National Cancer Institute, dos Estados Unidos, mostrou que pessoas que tiveram contato com o inseticida antes dos 14 anos, particularmente quando bebês ou no início da infância, têm mais possibilidade de desenvolver esse tipo de tumor antes da menopausa. Já aquelas sujeitas à substância depois dessa fase estão em risco aumentado ao alcançarem os 50-54 anos.


“O que descobrimos é que o tempo realmente importa. Sabemos que se exposições perigosas acontecem quando o tecido das mamas está mudando rapidamente, como na puberdade, isso impacta o desenvolvimento do órgão de forma que pode resultar em câncer posteriormente”, diz Barbara A. Cohn, pesquisadora do Instituto de Saúde Pública dos EUA. “A pesquisa publicada sugere que o DDT afeta o câncer de mama como um disruptor endócrino, que o período de tempo entre a primeira exposição e o risco (da doença) parece ser de cerca de 40 anos, e que outros disruptores endócrinos químicos podem potencialmente simular esse padrão de risco.” Disruptores endócrinos são substâncias externas que, no organismo, agem como hormônios, causando sérias alterações, incluindo o desenvolvimento de tumores.


O DDT foi amplamente usado no mudo todo no século 20. Apesar de banido — em alguns países, desde a década de 1970 —, ele continua presente no meio ambiente e ainda é usado para enfrentar a malária na África e na Ásia. Segundo os pesquisadores do Instituto de Saúde Pública dos Estados Unidos, a cada duas vezes mais exposição ao produto, há um risco três vezes maior de câncer de mama pós-menopausa em mulheres que tiveram contato com o pesticida na puberdade. A substância aumenta a chance de desenvolvimento desse tipo de tumor em pessoas expostas a ela na fase uterina até os 14 anos.


Resultados consistentes


“Embora tenham sido feitos muitos estudos sobre meio ambiente e câncer de mama, apenas uma pequena fração deles, de fato, mediu as exposições ambientais durante janelas de suscetibilidade — nesse caso, início da infância e antes da menarca”, afirma Mary Beth Terry, professora da Universidade de Colúmbia e autora do trabalho. “Os estudos que mediram a exposição ambiental durante as janelas de suscetibilidade, como o nosso, são consistentes em apoiar uma associação positiva com o risco de câncer de mama”, completa a pesquisadora.


A pesquisa baseia-se em dados de 15.528 mulheres, que participaram de um estudo epidemiológico ao longo de seis décadas. Para determinar os níveis de exposição ao DDT, os cientistas analisaram amostras de sangue estocadas, que foram coletadas de 1959 a 1967, durante cada trimestre da gestação e logo depois o pós-parto. Eles usaram dados estaduais para identificar os casos de câncer de mama diagnosticados entre 1970 e 2010 em mulheres de 50 e 54 anos e cruzaram as informações.

Um estudo anterior, de 2007, usou os mesmos métodos, combinando 129 casos de câncer de mama diagnosticados, de 1962 a 1994, em mulheres com até 50 anos de idade. A nova pesquisa expandiu a janela de resultados, considerando casos diagnosticados entre a idade de 50 a 54 anos, quando a maioria das mulheres concluiu recentemente a menopausa. “Enquanto você viaja pela vida, os períodos de risco mudam”, enfatiza Cohn. “Considerando os padrões que observamos, trabalhar para trás para determinar quando uma mulher entrou em contato com a substância pode ajudar na detecção precoce e no tratamento do câncer de mama associado ao DDT.”


"Trabalhar para trás para determinar quando uma mulher entrou em contato com a substância pode ajudar na detecção precoce e no tratamento do câncer de mama associado ao DDT”


Barbara A. Cohn, pesquisadora do Instituto de Saúde Pública dos Estados Unidos

Olfato danificado

No caso dos homens, o contato regular com pesticidas, incluindo o DDT, e herbicidas pode comprometer a capacidade olfativa, segundo estudo da Universidade do Estado de Michigan (EUA). Os pesquisadores chegaram à conclusão após acompanhar 11.200 agricultores ao longo de 20 anos. Os resultados inéditos foram divulgados, neste mês, na revista Environmental Health Perspectives.


Segundo Honglei Chen, principal autor, estudar os agricultores forneceu dados mais confiáveis sobre exposições a pesticidas do que se fosse considerada a população em geral. “Como o uso desses produtos faz parte do trabalho deles, são mais propensos a lembrar quais substâncias usaram e, em casos de alta exposição, a fazer relatos específicos”, justifica.


No início do estudo, 16% dos participantes relataram ter experimentado um evento de alta exposição a pesticidas ou herbicidas, como ter grande quantidade de produto derramada no corpo. Duas décadas depois, eles foram questionados sobre a existência de algum tipo de comprometimento olfativo. Aqueles que tiveram o contato exagerado foram 50% mais propensos a relatar problemas como perda parcial ou total do olfato, segundo os autores.

Água e sabão


A pesquisa também mostrou que uma lavagem imediata, usando sabão e água, pode mitigar o risco de complicações. Comparado com agricultores que nunca experimentaram um evento de alta exposição, aqueles que se limparam em um intervalo de três horas apresentaram risco 40% maior de ter problemas olfativos. Já os que esperaram quatro ou mais horas viram o risco potencialmente duplicar.


A equipe identificou que dois inseticidas — DDT e lindano — e quatro herbicidas — alacloro, metolacloro, 2,4-D e pendimetalina — apresentaram maior associação com o mau olfato. Honglei Chen não descarta outras consequências do contato excessivo com as substâncias. “Mais pesquisas precisam ser feitas, mas alguns estudos ligaram esses produtos químicos ao Parkinson e possivelmente à demência”, diz.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Os 5 países que concentram 70% dos ecossistemas intactos no mundo



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Hoje, mais de 77% da terra (excluindo a Antártida) e 87% do oceano foram modificados por atividades humanas

Cinco países abrigam 70% das áreas terrestres e marítimas virgens no mundo - e o Brasil está entre eles.

Ao lado de Austrália, Canadá, Estados Unidos e Rússia, o país aparece em destaque no primeiro mapa global de ecossistemas intactos da Terra já feito por cientistas - no caso, pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, e da Sociedade para a Conservação da Vida Silvestre. Parte deste projeto foi apresentado por seus autores em um artigo no site da revista Nature no final de 2018.

Eles alertam que o que está nas mãos deste países é de enorme interesse global, mas há poucas ferramentas hoje para proteger especificamente os ecossistemas virgens.

"Os passos que estas nações tomarem (ou falharem em tomar) para limitar a expansão de estradas e rotas de navegação, e para controlar o desenvolvimento em larga escala na mineração, extração de madeira, agricultura, aquacultura e pesca industrial, serão críticos", afirmam.

O estudo destaca como exemplos de biomas que contêm estas florestas a Amazônia; a tundra e a taiga, presentes em países do Hemisfério Norte como Canadá e Estados Unidos; e regiões desérticas da Austrália.

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Austrália, Brasil, Canadá, EUA e Rússia são os cinco países que abrigam a maior área de natureza intacta no mundo

Quando este grupo dos cinco é expandido, 20 países acabam responsáveis por 94% destes ecossistemas intactos - definidos pelos pesquisadores como áreas com nenhuma ou mínima interferência humana.

O levantamento não inclui partes do alto mar fora de fronteiras nacionais e a Antártica.
Perda acelerada

Segundo o artigo, há um século, apenas 15% da superfície da Terra era explorada pela agropecuária.

Hoje, mais de 77% da terra (excluindo a Antártida) e 87% do oceano foram modificados por atividades humanas.

Entre 1993 e 2009, 3,3 milhões de quilômetros quadrados de áreas virgens - uma superfície maior que a Índia - foram perdidos para a agricultura, a mineração e outras ações antrópicas, por exemplo.

No mar, áreas livres da pesca industrial, do transporte marítimo e da poluição estão praticamente confinadas às regiões polares.

Mas qual é especificamente a importância desta natureza intacta, em comparação com fragmentos de florestas em áreas urbanas, por exemplo?
Por que os ecossistemas virgens são importantes

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Biomas do Hemisfério Norte, como a tundra e a taiga, também guardam espécies e processos biológicos com pouca interferência humana

Alguns especialistas em conservação ambiental defendem que ecossistemas remanescentes em regiões degradadas têm uma preservação prioritária pois oferecem benefícios mais diretos como para a saúde humana e para o desenvolvimento turístico.

No entanto, cada vez mais estudos têm revelado as funções cruciais que áreas intactas podem exercer.

Para começar, elas abrigam espécies em uma abudância próxima ao natural - resguardando informações genéticas e processos ecológicos que sustentam a biodiversidade em uma escala de tempo evolutiva.

Por exemplo, no mar, são as áreas virgens que ainda têm populações viáveis de grandes predadores como o atum, o marlim e os tubarões, lembram os autores do artigo na Nature.

Ecossistemas intactos também amortecem desastres naturais e eventos climáticos extremos, do nível local ao global.

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A Amazônia é destacada na pesquisa como um dos exemplos de biomas que abriga áreas de mata virgens

"Simulações de tsunamis, por exemplo, indicam que os recifes de corais saudáveis oferecem ao menos duas vezes mais proteção do que os altamente degradados", escrevem os pesquisadores.

Estas áreas são importantes ainda diante das mudanças climáticas - por exemplo, por estocarem carbono em larga escala.
100% de proteção

Segundo John Robinson, da Sociedade para a Conservação da Vida Silvestre, a Terra já perdeu muito de sua natureza virgem - por isso, a instituição e os pesquisadores de Queensland pedem que nada menos que 100% destas áreas sejam protegidas pela comunidade internacional.

"Devemos aproveitar esta oportunidade antes que estas regiões desapareçam para sempre", alerta.

Os autores do estudo indicam que a proteção passa por mapear e registrar estas áreas como tal, além de oferecer políticas de incentivo para sua preservação.
BBC Brasil

quarta-feira, 13 de março de 2019

Concurso de Professor de Geografia - Simulado 1 2019 - Legislação


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Legislação 
1. De acordo com a Lei 9394/96, Art. 1º, é INCORRETO afirmar que:
(A) A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa.
(B) A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil
(C) A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem nas manifestações culturais
(D) Esta lei negligencia a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente, por meio do ensino, em instituições próprias.

2. ; Segundo a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) o princípio IX (nono) consiste na garantia do padrão de qualidade, o que não ocorre na charge abaixo. Este inciso encontra-se:

(A) No artigo 2;
(B) No artigo 5;
(C) No artigo 10;
(D) No artigo 3;

3.  De acordo com o art. 32 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, preencha as lacunas e assinale a alternativa correta. O ensino fundamental ________, com duração de ________ anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos ________anos de idade, terá por objetivo a formação básica do cidadão.
(A) obrigatório / 9 (nove) / 6 (seis)
(B) inicial / 9 (nove) / 5 (cinco)
(C) obrigatório / 9 (nove) / 5 (cinco)
(D) obrigatório / 8 (oito) / 5 (cinco)

4. Em consonância aos ordenamentos legais do âmbito federal, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica (DCNEB) trazem um conjunto complexo de elementos importantes para a qualidade do processo de ensino e aprendizagem nas escolas brasileiras. No que se refere à promoção, aceleração de estudos e classifcação as DCNEB ratifcam no Ensino Fundamental e no Médio, “as fguras da promoção e da classifcação podem ser adotadas em qualquer ano, série ou outra unidade de percurso escolhida, exceto no(s) [...]”. Assinale a alternativa correta.
(A) Primeiros anos do Ensino Fundamental
(B) Primeiro ano do Ensino Fundamental
(C) Primeiro ano do Ensino Médio
(D) Penúltimos anos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio

5. Conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente considera-se criança:
(A) pessoa até quatorze anos de idade completos.
(B) A pessoa até doze anos de idade incompletos.
(C) A pessoa até doze anos de idade completos.
(D) A pessoa até seis e doze anos de idade.

Poluição atmosférica causa duas vezes mais mortes do que se pensava


Pesquisadores estimam que só na China ocorreram 2,8 milhões de mortes em 2015 devido a este fenômeno

AF Agência France


(foto: Caio Gomez/CB/D.A. Press/D.A Press)
A poluição atmosférica mata a cada ano de forma prematura 8,8 milhões de pessoas no mundo, o dobro do que era estimado até agora, segundo um novo estudo publicado nesta terça-feira (12).



Entre 40% e 80% destas mortes, baseadas em cifras de 2015, são causadas por ataques cardíacos, AVCs e outros tipos de doenças cardiovasculares, segundo os autores da pesquisa, publicada na revista European Heart Journal.


Isto significa que a poluição atmosférica provoca anualmente mais mortes que o tabaco, responsável por 7,2 milhões de óbitos no mesmo ano, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).


"Pode-se evitar fumar, mas não se pode evitar estar submetido ao ar poluído", indicou um dos responsáveis do estudo, o professor Thomas Münzel, da Universidade de Mainz (Alemanha).


Em nível mundial, os estudos haviam cifrado até agora o número total de mortes em cerca de 4,5 milhões.

Os pesquisadores estimam que só na China ocorreram 2,8 milhões de mortes em 2015 devido a este fenômeno. Nos 41 países do continente europeu - onde o estudo se concentrou, principalmente - estas totalizaram 790.000, e nos 28 países da UE, 659.000.


Estes cálculos também são superiores aos da Agência Europeia do Meio Ambiente (AEMA).


Em seu informe anual publicado em outubro, a AEMA considerou que a poluição do ar com partículas muito finas (PM2,5), dióxido de nitrogênio (NO2, emitido pelos motores a diesel) e ozônio foi responsável em 2015 por 518.000 mortes prematuras na Europa e por 480.000 na UE.


Os autores alemães do estudo utilizaram uma nova ferramenta estatística: primeiro estimaram a exposição aos poluentes baseando-se em um modelo que simula a maneira como os gases atmosféricos interagem com os compostos químicos procedentes da atividade humana (produção de energia, indústria, transportes, agricultura, etc). 


Depois aplicaram estes dados a um novo modelo estatístico que combina os índices de mortalidade e a exposição.


Fontes de energia limpas

"Utilizamos novas análises de riscos, baseadas em dados epidemiológicos muito mais amplos que até agora e procedentes de 16 países", indicou à AFP um dos cientistas, Jos Lelieveld.


A mortalidade média atribuída à poluição atmosférica por parte destes investigadores é de 120 óbitos anuais por cada 100.000 habitantes. Esta taxa é superior na Europa (133), apesar de que os controles são mais estritos nesse continente que em outras regiões.


"Isto se explica pela combinação de uma má qualidade do ar e de uma forte densidade da população, que deriva em uma exposição situada entre as mais altas do mundo", segundo o professor Lelieveld.


A mortalidade é especialmente elevada no Leste Europeu, com 36.000 mortes por ano na Romênia e 76.000 na Ucrânia, ou seja, taxas superiores a 200 por 100.000 habitantes.


Na Alemanha, a taxa é de 154 mortes por 100.000 habitantes, contra 105 na Espanha e na França e 98 no Reino Unido.


Os autores do estudo consideram "urgente" rebaixar os tetos de exposição às partículas finas.


O limite anual médio para as PM2,5 fixado pela UE é de 25 microgramas por metro cúbico, ou seja, 2,5 vezes mais que as recomendações da OMS.


"Dado que a maior parte de partículas finas e de outros poluentes atmosféricos na Europa procedem da combustão de energias fósseis, é urgente passar a outras fontes de energia", segundo Lelieveld.

Este estudo "parece mostrar que o risco cardiovascular relacionado com a poluição está subestimado e esta constatação me parece pertinente", comentou o médico Holly Shiels, cientista da Universidade de Manchester, que não participou do estudo.


"Até agora, estávamos nos concentrando no risco de câncer relacionado com a poluição do ar ou nos efeitos imediatos no aparelho respiratório. Agora, compreendemos melhor seu vínculo com os problemas cardíacos, os efeitos sobre o cérebro ou a reprodução", declarou à AFP o diretor da AEMA, Hans Bruyninckx, em uma entrevista independente da publicação do estudo.

Concurso de Professor de Geografia - Simulado 1 2019


 Boa Prova
Geografia Hoje

1.  (Barra de Guabiraba-PE 2016) 
É uma planície vasta e aberta onde não há sinal de árvores nem arbustos, com capim baixo em abundância. Estão localizadas em praticamente todos os continentes, com maior ocorrência na América do Norte. A brasileira é o pampa gaúcho. São regiões muito amplas e oferecem pastagens naturais para animais de pastoreio e as principais espécies agrícolas alimentares foram obtidas das gramíneas naturais através de seleção artificial.
(A) Savana
(B) Estepe
(C) Pradaria
(D) Tundra

2. (Ituiutaba-MG 2016) 
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Nome dado ao movimento populacional registrado diariamente nas grandes cidades. Esse tipo de migração envolve milhões de pessoas espalhadas nos grandes centros urbanos de todo mundo. É comum em cidades com uma região metropolitana estabelecida:
(A) Migração sazonal.
(B) Imigração pendular.
(C) Migração Pendular.
(D) Nenhuma das alternativas

3. (Ituiutaba-MG 2016) 
O processo de urbanização intensifica o consumo nas cidades, o que acarreta a produção de mais mercadorias e o aumento do ritmo da atividade industrial. Sobre esse assunto, assinale a alternativa CORRETA:
(A) É certo pensar que a industrialização é o único fator que condiciona o processo de urbanização.
(B) O avanço nos sistemas de telecomunicação e mídias sociais impulsionaram a globalização.
(C) O crescimento acelerado das cidades contribui para fomentar a macrocefalia urbana.
(D) Nenhuma das alternativas.

4. (Santa Cruz do Arari-PA 2016) 
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Em tempo de revolução técnico-científico-informacional, tornar um produto mais valorizado por meio do incremento de inovações tecnológicas é o eixo fundamental para o desenvolvimento da indústria de ponta e dos investimentos públicos em pesquisa. No contexto acima, é correto afirmar que
(A) a transmissão de informações através de cabos de fibra ótica e o desenvolvimento de tecnologia rudimentar na engenharia genética contribuem para grandes avanços em produtos farmacêuticos.
(B) os vultosos investimentos em pesquisas cientificas e tecnológicas promovidos por tecnopolos contribuem para novos materiais, programas de computador e produtos vinculados à biotecnologia.
(C) os Estados Unidos, Egito, Malásia e Japão, campeões nos campos da informação, telecomunicações, da biotecnologia, e mão de obra altamente qualificada, têm contribuído para o maior desenvolvimento da produção industrial do planeta.
(D) a automação por meio de robôs industriais em países de tecnologia de ponta tem gerado uma absorção expressiva da mão de obra no setor industrial, em detrimento do setor de serviços.

5. (Santa Cruz do Arari-PA 2016) 
O trânsito e o transporte nas grandes metrópoles brasileiras são problemas que cada vez mais tomam grandes proporções. Além disso, o modelo econômico adotado, ao incentivar a aquisição de carros, gera, entre outros problemas, os ambientais. Neste contexto, é correto afirmar que
(A) os congestionamentos frequentes nos grandes centros urbanos contribuíram para que o poder público investisse em transporte coletivo de boa qualidade, com veículos novos e seguros.
(B) a imensa frota de veículos é responsável por grande parte da poluição atmosférica nos centros urbanos, visto que contribui para o aumento do efeito estufa, por meio da emissão do dióxido de carbono (CO2).
 (C) a grande concentração de asfalto, concreto e veículos nas cidades faz com que a temperatura média desses lugares seja menor do que em áreas próximas, contribuindo assim para a redução das ilhas de calor.
(D) a pavimentação de vias em áreas urbanas tem contribuído para reduzir a impermeabilização do solo e o entupimento de bueiros e bocas de lobo, permitindo o melhor escoamento das águas da chuva para as redes fluviais.

6. (Santa Cruz do Arari-PA 2016) 
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A globalização, atual fase de mundialização do capitalismo, está para seu atual período informacional como o colonialismo esteve para sua etapa comercial e o imperialismo para a industrial e financeira. Sobre o processo de globalização, é correto afirmar que
(A) é consequência do avanço tecnológico em diversos setores da economia e da modernização dos sistemas de transportes e telecomunicações, que ocorrem de forma diferenciada no meio geográfico e são responsáveis pela aceleração dos fluxos de informações, capitais, mercadorias e pessoas.
(B) os fluxos de globalização se dão em rede e seus nós mais importantes são tantos os lugares que dispõem dos maiores mercados consumidores e melhores infraestruturas quanto os lugares de pouco desenvolvimento, portanto a globalização acontece igualmente no sistema mundo.
(C) esse processo tem dimensões essencialmente econômicas que causam grandes impactos para o setor industrial e financeiro, porém a sociedade, a cultura e a política estão isentas desses impactos.
(D) sua expansão capitalista acontece em empresas transnacionais que estão sediadas, principalmente, em países emergentes e pobres, com o objetivo de controlar e manipular mercados dos países desenvolvidos.

7. (São Lourenço do Sul-RS 2016) 
De acordo com Oliveira in ROSS, o Mercosul foi criado a partir do Tratado de Assunção, assinado em 1991. O tratado estabeleceu que a partir de 1º de janeiro de 1995 ficaria implantada de forma definitiva a livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países pertencentes a esse bloco econômico, através da eliminação das barreiras tarifária e não tarifária. Qual dos países abaixo NÃO é considerado um país integrante do Mercosul?
(A) Brasil.
(B) Cuba.
(C) Argentina.
(D) Uruguai.

8. (Petrolina-PE 2016) Identifique os tipos de produção agrícola.
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I. Sistema agrícola arcaico, baseado em técnicas rudimentares (queimadas, enxadas), com esgotamento e abandono do solo onde são cultivados produtos de subsistência.
 II. Sistema tradicional que utiliza técnicas mais aprimoradas (adubação e terraceamento) e caracteriza-se por propriedades pequenas e mão-de-obra numerosa.
 III. Sistema agrícola baseado na monocultura e no latifúndio, com mão-de-obra numerosa e produção em larga escala, voltada para o mercado externo.

(A) I. Agricultura itinerante/ II. Agricultura de jardinagem/ III. Agricultura de plantation.
(B) I. Agricultura de subsistência/ II. Agricultura de plantation/ III. Agricultura itinerante.
(C) I. Agricultura de plantation/ II. Agricultura de jardinagem/ III. Agricultura itinerante.
(D) I. Agricultura coletiva/ II. Agricultura de roça/ III. Agricultura jardinagem.

9. (Petrolina-PE 2016) 

O Brasil é considerado um país rico quando o assunto trata de recursos hídricos. Qual desses motivos poderia ocasionar uma crise de água em nosso país?
(A) escassez dos rios intermitentes.
 (B) poluição e desperdício no consumo.
(C) inexistência de rios efêmeros.
 (D) ausência de reservas de águas subterrâneas.

10. (Petrolina-PE 2016) 
A urbanização desordenada, que atinge os municípios despreparados para atender às necessidades básicas, causa uma série de problemas sociais e ambientais, exceto:
(A) a criminalidade

(B) a favelização
(C) a poluição do ar e da água
(D) a diminuição dos resíduos sólidos

domingo, 10 de março de 2019

Países desenvolvidos reduzem emissão de dióxido de carbono



Resultado vem de políticas de diminuição do uso de combustíveis fósseis e de estímulo a fontes renováveis, segundo cientistas britânicos. Demanda maior por energia nos últimos anos, porém, ameaça o cenário


Captação de energia eólica na França, um dos países que mais lançam CO2: acordo firmado em 2015 prevê aumento da temperatura em até 2ºC(foto: Remy Gabalda/AFP) 
As medidas tomadas pelos países desenvolvidos para frear as mudanças climáticas começam a ter os resultados percebidos. Segundo um estudo divulgado na última edição da revista Nature Climate Change, políticas de diminuição do uso de combustíveis fósseis e de estímulo a energias renováveis levaram à redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) no grupo de nações que representam 28% dos emissores globais. Reino Unido, Estados Unidos, França e Alemanha fazem parte da lista. Os autores do estudo não descartam a influência da crise financeira global de 2008-2009, que reduziu a demanda por energia, mas consideram que as medidas energéticas e climáticas adotadas por esses países fizeram uma diferença significativa.

“Nossas descobertas sugerem que as políticas para combater a mudança climática estão ajudando a diminuir as emissões em muitos países. Há um longo caminho a percorrer para reduzir as emissões globais para perto de zero, que é o que é necessário para impedir a mudança climática”, ressalta, em comunicado, Corinne Le Quéré, do Centro Tyndall de Pesquisa sobre Mudança Climática da Universidade de East Anglia (UEA), no Reino Unido, e principal autora do estudo.

A equipe analisou as razões por trás das emissões de CO2 nos países em que as emissões diminuíram significativamente entre 2005 e 2015. O cenário foi comparado com o de nações em que o houve o fenômeno contrário, e os cientistas concluíram que, mesmo com a influência da crise econômica, a adoção de políticas de eficiência energética surtiu resultados. “Nossas descobertas aumentam a fina camada de esperança. Até agora, 18 países nos mostraram como a ambição política e a ação sobre eficiência energética, energias renováveis e metas climáticas podem funcionar”, diz Charlie Wilson, também da UEA.

Segundo os autores, os dados obtidos sugerem que os esforços para reduzir as emissões estão em andamento em muitos países, mas precisam ser expandidos e aprimorados para cumprir as metas definidas no Acordo de Paris. O pacto costurado em dezembro de 2015 na capital francesa determina que, até 2050, o aumento médio na temperatura fique até 2ºC acima dos níveis pré-industriais e, desejavelmente, atinja no máximo 1,5°C. Entre 2005 e 2015, porém, as emissões globais de CO2 aumentaram, em média, 2,2% por ano.


Economia reaquecida
Coautor do artigo, Glen Peters, do Centro Internacional de Pesquisa do Clima, na Noruega, alerta que o fenômeno continua e demanda medidas mais substanciais. “As emissões globais de dióxido de carbono aumentaram em 2017 e 2018, sugerindo que a rápida introdução de energia renovável não foi suficiente para impedir o crescimento do uso de combustíveis fósseis”, ressalta. “A política de energia e clima tem sido bem-sucedida no apoio às energias renováveis e à eficiência energética, mas, para realizar políticas significativas de apoio às reduções de emissões, são necessárias medidas punitivas”.

Um estudo divulgado no fim do ano passado pelo Global Carbon Project mostra que, em 2017, as emissões aumentaram 1,6% e que, em 2018, o crescimento estimado era de 2,7% — um recorde histórico. À época, Pep Canandell, diretor do projeto de pesquisa internacional, argumentou que a capacidade das energias renováveis instaladas não é suficiente para cobrir o crescimento da demanda global de energia. “A economia está crescendo bem, e de uma forma muito coordenada entre os blocos econômicos mais importantes do mundo (…) Portanto, usinas de carvão que vinham funcionando abaixo de sua capacidade (a maioria na China) aumentaram sua produção”, explicou.


"A política de energia e clima tem sido bem-sucedida no apoio às energias renováveis 
e à eficiência energética, mas, para realizar políticas significativas de apoio às reduções de emissões, são necessárias medidas punitivas” 
Glen Peters, coautor do artigo e pesquisador do Centro Internacional de Pesquisa do Clima, na Noruega


Checape dos oceanos

O monitoramento atual dos sistemas biológicos marinhos abrange uma pequena fração do oceano, geralmente próxima à costa, o que limita a capacidade de analisar e prever os efeitos das mudanças climáticas na biodiversidade marinha. Usando um modelo computacional avançado, uma equipe internacional de cientistas, liderados pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, identificou alterações biológicas sem precedentes no oceano global. Segundo eles, a solução abrange a cobertura de vigilância e poderá permitir a rápida identificação de mudanças biológicas capazes de impactar fortemente a biodiversidade marinha e os serviços ecossistêmicos associados, como pesca, aquicultura e ciclo de carbono.

Na abordagem criada, os pesquisadores projetaram um grande número de espécies simuladas, exibindo uma ampla gama de respostas às variações da temperatura natural. Essas “pseudoespécies”, que evitam flutuações térmicas além da faixa de tolerância, formam “pseudocomunidades” e, gradualmente, colonizam todas as regiões oceânicas. Testado para 14 áreas, o modelo previu com precisão as mudanças biológicas reais observadas no campo desde a década de 1960.

Também permitiu chamar a atenção para um aumento recente e inaudito no número de “surpresas climáticas”. Segundo os autores, essas mudanças biológicas abruptas provavelmente podem ser atribuídas ao El Niño, às anomalias de temperatura do Atlântico e do Pacífico e ao aquecimento do Ártico. Detalhes do trabalho foram divulgados na revista Nature Climate Change.

A metrópole e a saúde de seus habitantes

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Helena Ribeiro
Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil.

Em linguagem, ao mesmo tempo, acessível e com aprofundamento científico, o livro Vida urbana e saúde: os desafios dos habitantes das metrópoles, de Paulo Saldiva (2018), aborda a saúde da vida urbana e fala do ser humano, como ressalta o próprio autor.1

Trabalhando em diferentes escalas - da célula passa pelo indivíduo e chega à sociedade urbana -, Saldiva integra seu conhecimento de médico patologista com conhecimentos de urbanismo e de saúde ambiental, que adquiriu no decorrer de sua vida acadêmica e de sua vivência, para nos oferecer esta obra.

O livro tem um enfoque científico e também literário e poético, visando despertar a militância, que esteve presente em toda a sua existência. Mas a militância do autor sempre foi generosa e sem raiva. É uma militância que não dá receitas aos outros, sem que ele mesmo pratique antes, num caminho frequentemente penoso numa cidade como São Paulo, sua morada. Largar o carro e andar de bicicleta, patinete e/ou a pé, numa área urbana imensa e montanhosa, com estados do tempo que variam enormemente durante um único dia, não é uma experiência fácil, sobretudo para quem tem horários rígidos de professor universitário, de administrador, de pesquisador e, mais recentemente, de jornalista. É isso que Saldiva faz para combater a poluição atmosférica, sua primeira grande batalha ambiental no campo científico.

O texto inicia saudando a cidade como ponto de encontro, ressaltando suas riquezas e vantagens para o ser humano e demonstrando o amor do autor pela vida urbana. Entretanto, nos mostra, com clareza, os problemas que a urbanização tem trazido para a saúde física e mental de seus moradores.

Os capítulos que seguem descrevem e discutem seus temas.

O capítulo “A biologia urbana” procura entender a cidade como um ecossistema que aumenta sua complexidade conforme aumenta seu tamanho e sua importância. Compara o crescimento urbano à dinâmica de vírus e bactérias, que procuram áreas novas e abandonam aquelas com sinais de esgotamento e deterioração. Faz aí um brevíssimo histórico da evolução urbana ao longo da história e ressalta que uma atuação eficiente e harmônica do parlamento urbano resulta em cidades eficientes e harmônicas e que o contrário ocorre quando o parlamento é ineficiente. Tenta, aí, passar de uma “biologização” da cidade para uma questão mais política e defende o planejamento como forma de tornar as cidades eficientes, sustentáveis e saudáveis.

“Obesidade” é o tema do capítulo seguinte, por conta do grande crescimento desse problema de saúde no mundo e no Brasil, nas últimas décadas. Inicia por descrever aspectos genéticos e epigenéticos que influenciaram o surgimento do excesso de peso, ainda antes do nascimento das crianças. Em seguida, passa por aspectos ambientais das cidades que favorecem a obesidade infantil, como a violência nas ruas (trânsito e crimes) que impede atividades físicas no ambiente externo público; o transporte individual e motorizado, que leva ao sedentarismo; o ambiente cultural das cidades que favorece o ganho de peso devido ao consumo de alimentos calóricos e gordurosos; a poluição atmosférica ultrafina.

“Doenças mentais” são, segundo o autor, causadoras de sofrimento para aqueles que delas padecem e para suas famílias. Dados da Organização Mundial de Saúde indicam que a incidência de transtornos mentais, como depressão, ansiedade grave, consumo abusivo de álcool e uso de drogas, psicoses como esquizofrenia, vem aumentando globalmente. Estudos do Instituto de Psiquiatria da USP corroboram essa tendência em São Paulo. O autor ressalta que estudos epidemiológicos desenvolvidos em diversos países têm apontado que os transtornos mentais são mais frequentes em áreas urbanas, sobretudo as de maior porte, e aponta alguns fatores que poderiam ser protetores, como: a formação de uma rede de solidariedade, de afeto e de apoio nas regiões urbanas; o sono reparador; a diminuição da violência e da pobreza. Para todos esses fatores dá explicações baseadas em aspectos biológicos dos seres humanos, mas reforça aspectos políticos e sociais ao afirmar que “a taxa de doenças mentais é também um bom indicador para aferir a desigualdade entre os habitantes urbanos” (Saldiva, 2018, p.53).

No capítulo “Contagiosidade”, comenta que, ao mesmo tempo que o desenvolvimento das cidades cria condições para a elevação do espírito humano, o amontoamento de pessoas, em baixas condições sanitárias, favorece a proliferação de agentes infecciosos. O texto passeia por exemplos de lançamento de esgotos da Roma antiga (a Cloaca máxima) ao Rio Pinheiros em São Paulo e sua relação com doenças transmitidas por vetores artrópodes, ou outras de veiculação hídrica. Trata, também, das situações de contágio interpessoal de doenças respiratórias, como tuberculose e gripe, em áreas de alta densidade populacional.

“Poluição atmosférica e imobilidade” são tratadas no capítulo seguinte, de forma integrada, pois, na maior parte das cidades, a poluição atmosférica tem os veículos como principal fonte emissora e a imobilidade é causada pelo excesso de veículos, que dificulta o tráfego e gera congestionamentos e maior inalação de poluentes. Esse é um dos temas mais caros ao autor e estudado em suas pesquisas ao longo das últimas décadas. Como médico patologista, Saldiva nos mostra os efeitos da poluição atmosférica nos pulmões, que se constitui num risco coletivo de maior monta que o cigarro nas cidades, sobretudo em parcelas mais vulneráveis da população. Demonstra, também, como pessoas com menor salário, além de mais impactadas pela poluição e despenderem mais tempo no trânsito, gastam uma fração maior de seus dias para pagar pelo seu deslocamento.

No capítulo “As ilhas de calor urbano e alterações do regime de chuvas” compara o aquecimento urbano, fruto de alterações nos processos radiativos, com a febre do corpo humano adoecido. Essa intensificação do calor sobre as cidades altera significativamente o regime de chuvas e tem consequências sobre o ambiente e os riscos de agravos à saúde. O autor trata com bastante propriedade a dinâmica climática sobre as cidades, o que climatologistas têm denominado clima urbano já há sete décadas. Mas, de forma muito detalhada, didática e interessante, usa seus conhecimentos médicos para explicar como diferentes aspectos do clima das cidades podem influenciar a saúde, também pela produção de melanina e de vitamina D, e descreve adaptação por mecanismos epigenéticos de regulação. Obesidade, desnutrição, diabetes e aterosclerose são fatores que prejudicam a capacidade adaptativa às mudanças de temperatura, segundo o autor.

“A violência e seus dramas” é o tema do capítulo subsequente, que objetiva abordar como a percepção da falta de segurança, qualquer que seja sua origem, altera a saúde. Comenta que o mundo hoje é muito mais seguro do que já foi no passado, mas que a solução da violência nas cidades brasileiras está ainda longe do ideal. Demonstra como em bairros onde impera a violência também ocorre a falta de assistência médica. Descreve algumas medidas que podem contribuir para melhorar a segurança: aumento de iluminação em ruas, maior ocupação dos espaços públicos, políticas públicas para enfrentar o problema das drogas, baseadas em uma plataforma de diálogo entre neurociências, toxicologia, psiquiatria, psicologia, ciências sociais, antropologia, educação, economia e urbanismo.

Saldiva termina o livro com o capítulo “Soluções, as esperanças, as necessidades”. Fica evidente na obra o grande conhecimento do autor não só de aspectos médicos e biológicos dos seres humanos, mas da dinâmica da natureza transformada pelos homens e das questões sociais. Evidencia-se, além disso, sua integridade como pessoa e seu respeito pelos outros. Seu olhar respeitoso a outros profissionais e a outras ciências, com os quais defende a integração para solucionar os problemas urbanos, indica um esforço intelectual importante e generoso. Sua atenção se volta para os mais necessitados, não só aqueles mais afetados pelas doenças respiratórias e mudanças climáticas, mas para os portadores de deficiência física que têm grandes dificuldades de mobilidade na cidade.

Conclui com um discurso da esperança em que demonstra sua crença no ser humano e nas cidades e que destoa bastante da maior parte dos discursos ambientalistas. Esses, em geral, adotam um discurso de fim de mundo e de destruição, que é ao mesmo tempo culpabilizante e imobilizador e acaba por criar um sentimento de negação dos problemas, ou de que os problemas são tão grandes que estão além de nossa capacidade de resolvê-los. Saldiva, ao contrário, nos estimula a mudar os comportamentos egoístas, insalubres e insustentáveis em nossa vida cotidiana e em nossa prática política. Ademais, afirma que quase tudo que é necessário ser feito para reduzir as mazelas urbanas já está pronto para uso, não necessitando de grandes processos criativos. Em caso de inexistência de uma alternativa conhecida para um problema específico, lembra que as cidades são uma fábrica de ideias altamente eficientes.


NOTA
1O texto se compõe como um comentário ao livro Vida urbana e saúde, de Paulo Saldiva (2018).

REFERÊNCIA

SALDIVA, P. Vida urbana e saúde: os desafios dos habitantes das metrópoles. São Paulo: Contexto, 2018. 125p.

Helena Ribeiro é geógrafa, professora titular do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. @ - lena@usp.br
Revista Estudos Avançados

A busca por cidades saudáveis

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Fabio Angeoletto
Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal de Mato Grosso, Rondonópolis, Mato Grosso, Brasil.

Vivemos indubitavelmente no Planeta Cidade. O início do século XXI marca um ponto de viragem importante na odisseia dessa espécie peculiar de primata, o Homo sapiens. Pela primeira vez na história da humanidade, a população global é eminentemente urbana. Através de metáforas com seres vivos e enfermidades, algumas bastante felizes (carros como dinossauros metálicos), outras menos inspiradas (calvície humana, representando a perda de cobertura vegetal nas cidades), Paulo Saldiva (2018) apresenta no seu livro de divulgação científica Vida urbana e saúde: os desafios dos habitantes das metrópoles1 o surgimento, o crescimento e os principais dilemas das cidades, tendo como “laboratório” a cidade de São Paulo. Ainda que Saldiva refira-se, inclusive no título de seu livro, às metrópoles, os desafios dos citadinos, gestores, legisladores, cientistas e urbanistas na busca por cidades saudáveis é uma verdade não apenas para São Paulo, mas para todas as cidades brasileiras.

Já na apresentação, o autor faz uma defesa enfática da necessidade de incorporarmos a ecologia urbana aos valores fundamentais dos direitos humanos. Saldiva não define - e essa poderia ser uma sugestão para as próximas edições do livro - o conceito de ecologia urbana, o ramo da ecologia que combina teorias e metodologias das ciências naturais e das ciências humanas para estudar os ecossistemas urbanos. É, sem embargo, meritório que um médico escreva sobre ecologia urbana, ciência pouco conhecida no Brasil, inclusive entre os biólogos.

Saldiva dedica um capítulo, o primeiro “Cidades como ponto de encontro”, a uma breve perspectiva sobre o surgimento e desenvolvimento das cidades, e de como essas invenções fantásticas, que são a decorrência mais importante do comportamento gregário da espécie humana, criaram beleza, arte e ciência. O autor não se furta a descrever também as sombras urbanas e suas misérias, a exclusão, ou a insalubridade que parecem ser atávicas. O capítulo seguinte, “A biologia urbana”, peca pela falta da apresentação do que o seu título sugere. É justo, no entanto, afirmar que, ao longo do livro, escrevendo com simplicidade, mas sem abrir mão do apuro técnico, Saldiva apresenta exemplos da complexidade dos ecossistemas urbanos, relacionando-os à saúde humana. Curiosamente, porém, essas questões estão ausentes no segundo capítulo.

No terceiro capítulo do livro, “Obesidade”, para quedarmos em um desses exemplos da complexidade dos ambientes urbanos, Saldiva descarta a obesidade como a conta simples de calorias acumuladas, e esmiúça (sempre tendo o cuidado de manter a linguagem simples e direta) os múltiplos fatores que interagem para o aumento da obesidade entre os brasileiros. Mais da metade dos brasileiros tem excesso de peso. Ainda mais espantoso, o sobrepeso infantil atinge mais de 30% das crianças. A obesidade tem causas genéticas. Também é preciso recorrer à evolução humana para explicá-la: nosso genoma evoluiu para que nossos ancestrais aproveitassem cada oportunidade de ingerir tantas calorias quanto possíveis. A odisseia humana é uma história de escassez: as cidades e sua abundante oferta de junk food são fenômenos muito recentes. O que era uma vantagem adaptativa, nas cidades torna-se um problema. Há ainda os fatores epigenéticos, que são reações químicas e outros processos que modificam a atividade do DNA humano, mas sem alterar sua sequência. Câmbios epigenéticos na expressão gênica podem aumentar o risco de obesidade (e novamente, é notável que Saldiva explique esses mecanismos moleculares em linguagem corrente). Há os fatores culturais: as mulheres que, em busca de uma educação mais aprimorada e de uma melhor inserção no mercado de trabalho, retardam a gravidez, o que aumenta o risco do nascimento de bebês mais predispostos à obesidade. E finalmente há os fatores ambientais: a violência urbana e o estímulo ao transporte individual motorizado espalham o sedentarismo. Até mesmo a poluição emitida pelos veículos automotores engorda, ao alterar o metabolismo da insulina em recém-nascidos, estimulando o ganho de peso, nos informa o autor.

No capítulo 4, “Doenças mentais”, Saldiva descreve, como no caso da obesidade, os fatores sociais, ambientais, genéticos e epigenéticos causadores de enfermidades como depressão, ansiedade e consumo excessivo de álcool ou drogas. Essas doenças são mais frequentes quanto maior é a cidade. Em Porto Alegre, por exemplo, a prevalência de depressão é de 12%, e na cidade de São Paulo, de 20%.

No capítulo 5, “Contagiosidade”, o autor volta a demonstrar a complexidade dos ambientes urbanos: o excesso de chuvas podem causar inundações e disseminação de leptospirose e hepatite, enquanto a escassez de água pode causar queda de pressão na tubulação de distribuição, e aspiração de sujidades para dentro das tubulações, provocando contaminações e aumento de doenças diarreicas.

O capítulo 6, “Poluição atmosférica e imobilidade”, é o mais interessante, e sintetiza a contribuição do cientista Paulo Saldiva, com dezenas de artigos científicos publicados sobre os enormes impactos sociais e ambientais da poluição atmosférica - com destaque à fumaça emitida pelos dinossauros de lata. O autor alerta para a responsabilidade coletiva da emissão de poluentes ao afirmar que nas cidades brasileiras os veículos são a principal fonte emissora de poluentes atmosféricos. A imagem de gananciosas corporações capitalistas e suas imensas chaminés cobrindo cidadãos indefesos e as paisagens de cinza envelheceu. Nossos carros, nosso estilo de vida são parte do problema, e isso é verdade, de fato, não apenas para metrópoles como São Paulo. Leandro (2017, p.70), em um estudo de biomonitoramento da poluição atmosférica em Rondonópolis (cidade do Mato Grosso, com população de 222.000 habitantes), constatou que o aumento da frota de veículos privados, que triplicou na última década, e o intenso fluxo de caminhões pelas BR 163 e 364, são os principais emissores de poluentes na sua mancha urbana. Saldiva fala, portanto, a muitas cidades brasileiras.

Os impactos sociais do predomínio do transporte individual nas urbes brasileiras são explicados pelo autor com estatísticas simples, mas que transmitem uma mensagem poderosa. As perdas econômicas decorrentes da imobilidade urbana (ou mobilidade urbana claudicante) equivalem a 7,5% do PIB da cidade de São Paulo. O desperdício inclui as doenças causadas pela poluição veicular, mas há outros impactos, e Saldiva recorre ao conceito de velocidade social para explicar que os mais pobres, independentemente do modal de trânsito, gastam uma fração maior de seu tempo para pagar pelo seu deslocamento. Um tempo precioso, que poderia estar sendo investido em estudos, em convívio social ou em desfrutes biofílicos.

No capítulo 7, “Ilhas de calor urbano, alterações do regime de chuvas”, Saldiva demonstra como extremos climáticos podem matar, não apenas de frio, os miseráveis que habitam o olho da rua, mas também pelas doenças que esses extremos exacerbam, como infartos do miocárdio e derrames cerebrais. A seguir, no capítulo 8, “Violência e seus dramas”, ele apresenta uma faceta menos discutida da violência nas cidades, a percepção da violência, e seus impactos à saúde. Embora a violência, expressa em ocorrências anuais de homicídios, venha caindo em São Paulo - hoje o trânsito mata quase tanto na Grande São Paulo quanto o crime -, o sentimento de insegurança é um importante gerador de estresse, o qual contribui para o agravamento de enfermidades mentais, hipertensão arterial e diabetes.

A essa altura do livro os leitores estarão se perguntando: o que fazer? Saldiva encerra seu livro com o capítulo intitulado “Soluções, as esperanças, as necessidades”, onde, ao contrário do que promete o título, apenas informa aos leitores sobre a existência de milhares de soluções técnicas eficazes para incrementar a qualidade de vida urbana, e elenca alguns exemplos. O autor prefere, como ele mesmo explica, desviar o rumo do texto. Nessa inflexão, Saldiva explicita o seu assombro pela dificuldade em compreender os motivos que impedem as cidades brasileiras de avançarem na direção do bem-estar humano e da sustentabilidade. Mas o autor arrisca mesmo assim algumas explicações, sendo a principal delas a política minúscula, ou as práticas políticas liliputianas, nas palavras de Saldiva: o aumento do capital eleitoral à custa do prejuízo para todos. A política nauseante da cabalagem de votos, traduzida na ocupação de mananciais urbanos (moradias iguais a votos, mesmo que à custa de um gigantesco impacto), ou na imposição de modais de transporte absurdamente poluidores.

O autor tem razão, mas um agravante ao submundo criminal ao qual pertence uma parcela significativa da classe política brasileira é o fato de ainda sermos o país do você sabe com quem está falando?. E essa assimetria de poder, que permite tudo a quem tudo pode, não está materializada apenas naqueles que mandam no Brasil, mas também no cotidiano dos brasileiros comuns. “O brasileiro vê o bom motorista como babaca”, declarou o antropólogo Roberto Da Matta ao jornal Zero Hora, por ocasião do lançamento do seu livro Fé em Deus e pé na tábua, em 2010. As mais comezinhas regras de trânsito são desrespeitadas. Elas valem para os outros, os otários. Não é necessário um aparato antropológico para constatar a incapacidade dos brasileiros em contribuir para a urbanidade no trânsito, basta caminhar pelos estacionamentos dos nossos supermercados. As vagas para idosos, grávidas e deficientes físicos quase nunca estão ocupadas por eles. A aversão dos brasileiros pelas leis que a todos deveriam igualar é, portanto, parte da resposta sobre os motivos da inércia das urbes brasileiras. Essa aversão é ademais um dos nossos impasses urbanos.

Como parte de sua estratégia de abordar assuntos científicos complexos de maneira simples, Saldiva lançou mão de apenas onze gráficos, adequadamente explicados ao longo dos capítulos, e de três imagens, cuja qualidade deixa a desejar. A parcimônia com as ilustrações do livro, todas em preto-e-branco, barateia os exemplares. O público potencial de Vida urbana e saúde é amplo, compreendendo estudantes e professores de graduação e pós-graduação em arquitetura e urbanismo, biologia, ciências ambientais, geografia, e ciências da saúde, e ainda, servidores públicos, cidadãos e integrantes de organizações não governamentais interessados em contribuir para o incremento da qualidade de vida e sustentabilidade urbanas. Por isso, reduzir os custos de publicação da obra é um passo lógico para sua disseminação. Mesmo assim, um maior cuidado com os gráficos e ilustrações seria bem-vindo. Por exemplo, a foto da página 73, que poderia ilustrar de maneira contundente os danos da poluição atmosférica aos pulmões dos paulistanos, demanda um pouco de imaginação para ser compreendida.

Do mesmo modo, e pelo mesmo motivo de atingir uma ampla audiência, o autor foi econômico com as citações de referências bibliográficas. São apenas onze, durante as 125 páginas do livro. Sem embargo, como sugestão para as próximas edições de Vida urbana e saúde, Saldiva poderia compilar, para cada um dos capítulos, listas de artigos acadêmicos e livros destinados aos leitores interessados em aprender mais. Essas listas seriam especialmente úteis no caso das soluções que o autor menciona ao longo do texto e especialmente no último capítulo, mas sem deter-se sobre elas.

Saldiva conclui seu livro com um chamamento. Ao descrever os impasses urbanos, ele nos recorda que cabe a nós, urbanistas, resolvê-los. Elenquei vários méritos de Vida urbana e saúde, mas o principal deles, ainda que o autor não o diga explicitamente, é a mensagem clara que emerge ao concluirmos sua leitura: as cidades, em sua complexidade, demandam planejamento, e as múltiplas formações acadêmicas e atores sociais precisam estar envolvidos nesse labor. Oliver L. Gilbert (1991, p.314), no seu livro The Ecology of Urban Habitats, afirma que o fomento à biodiversidade nas cidades é uma operação muito intricada para ser deixada [apenas] nas mãos dos ecólogos. Não é uma provocação, mas a constatação da complexidade da ecologia das cidades. Podemos afirmar o mesmo para o planejamento das cidades, um esforço demasiadamente difícil para ser deixado apenas sob a responsabilidade de arquitetos e urbanistas e engenheiros civis. Médicos, biólogos, geógrafos, ecólogos, educadores, advogados, sociólogos, comunicadores sociais, e um amplo leque de profissionais, além de, é claro, arquitetos e engenheiros, devem colaborar.


NOTA
1O texto de compõe como um comentário ao livro Vida urbana e saúde, de Paulo Saldiva (2018.)

REFERÊNCIAS

GILBERT, O. L. The Ecology of Urban Habitats. Torquay, Devon: Springer Science & Business Media. 1991. [ Links ]

LEANDRO, D. S. Qualidade ambiental em Rondonópolis-MT: Formas de controle e análises para a implantação de políticas públicas contra o aumento da poluição atmosférica em cidades médias. Rondonópolis, 2017. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal do Mato Grosso. Rondonópolis, 2017. 

SALDIVA, P. Vida urbana e saúde: Os desafios dos habitantes das metrópoles. São Paulo: Contexto, 2018. 

Fabio Angeoletto é doutor em Ecologia pela Universidade Autônoma de Madrid, professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso, campus de Rondonópolis. @ - fabio_angeoletto@yahoo.es
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