sexta-feira, 6 de março de 2026

Precariedade de estradas vicinais gera perda de produtividade e prejuízos ambientais no Brasil


Estudo feito em parceria entre grupo da USP e CNA traz amplo diagnóstico das estradas vicinais no País, apontando onde há prioridade de investimentos

Texto: Amanda Wendland*

Arte: Simone Gomes

Pesquisa propôs a criação do Índice de Priorização das Estradas Vicinais, ferramenta que indica as prioridades de investimento e intervenção em cada região do Brasil - Foto: Roaming Owls.com / Pixabay


As estradas vicinais são vias majoritariamente municipais e não pavimentadas, que conectam áreas rurais a centros urbanos e às principais rodovias estaduais e federais. Diretamente associadas à logística da produção da agropecuária, representam o primeiro elo do transporte da safra, superando 1,4 bilhão de toneladas movimentadas anualmente. Um estudo do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (Esalq-Log) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP feito em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) descreve a situação desta malha no País.

O diagnóstico traz também um alerta. Apesar de sua relevância no escoamento da produção agropecuária, as estradas vicinais apresentam condições precárias de manutenção e trafegabilidade, o que gera enormes prejuízos econômicos, ambientais e sociais. A frequente presença de buracos, erosões, atoleiros, excesso de pó, dentre outros gargalos de infraestrutura presentes nessas vias, resulta em interrupções do transporte, atrasos e dificuldades de mobilidade de bens e pessoas, além de perdas de produtos e riscos de acidentes. A precariedade das vias gera ainda atrasos, perda de produtividade operacional no transporte, aumento do custo logístico e maiores emissões de gases de efeito estufa (GEE), dentre outros problemas.


Uma infraestrutura adequada de estradas vicinais assegura acessibilidade, dignidade e segurança para o deslocamento de pessoas e o transporte de cargas nas áreas rurais do País. Além disso, fortalece a competitividade econômica, promove a sustentabilidade e impulsiona o desenvolvimento local e nacional.

A malha vicinal brasileira soma 2,2 milhões de quilômetros, distribuídos em 557 microrregiões, o que representa uma extensão dez vezes superior a das rodovias pavimentadas do País. A limitação de recursos públicos e a falta de planejamento estratégico dificultam a priorização dos investimentos e a melhoria das condições das estradas vicinais no País. O professor Thiago Guilherme Péra, coordenador do Esalq-Log comenta que o problema das estradas vicinais não deve ser mais negligenciado. “Muito se discute no Brasil sobre a criação e o desenvolvimento de grandes infraestruturas logísticas para o escoamento da produção agroindustrial. No entanto, ainda se faz muito pouco para melhorar as condições das estradas vicinais — justamente o elo mais crítico e estratégico de toda a cadeia logística, por onde circulam diariamente a produção, os insumos e as pessoas que sustentam o agronegócio nacional e tem sido pouco valorizada”, diz Péra.

A pesquisa propôs a criação do Índice de Priorização das Estradas Vicinais (Ipev), ferramenta que indica as prioridades de investimento e intervenção em cada região do Brasil. A partir da análise de uma série de dados econômicos, sociais, ambientais e de infraestrutura referentes a estradas vicinais, combinados com a produção agropecuária brasileira, a metodologia desenvolvida permite encontrar regiões prioritárias para o investimento de melhoria nas estradas. O Ipev fornece um instrumento técnico e transparente de apoio à decisão pública, permitindo identificar regiões prioritárias para investimentos.

A partir da identificação das regiões prioritárias, foram selecionadas oito microrregiões para uma análise mais detalhada dos problemas enfrentados nas estradas vicinais e da realidade vivenciada pelos produtores rurais. Durante o trabalho de campo, mais de 1.200 quilômetros de estradas foram percorridos e 150 produtores rurais e gestores municipais das áreas de infraestrutura e agricultura foram entrevistados. O estudo abrangeu microrregiões situadas na Bahia, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e Paraná, permitindo identificar os principais gargalos logísticos e reunir subsídios técnicos para a formulação de propostas de melhoria da malha vicinal. A pesquisa de campo identificou graves desafios de gestão na manutenção das estradas vicinais, marcados por limitações orçamentárias diante de uma malha extensa, dependência de repasses estaduais e federais, frota de máquinas obsoleta, falta de planejamento técnico e coordenação entre Secretarias, além de dificuldades logísticas e de acesso a insumos, escassez de mão de obra qualificada e fortes heterogeneidades regionais que agravam as disparidades na infraestrutura rural do País.

Ao comentar os resultados do levantamento, a assessora técnica da CNA, Elisangela Lopes, destaca a relevância do estudo para o planejamento da infraestrutura rural brasileira. “Esse estudo mostra, de forma inédita, a real situação de estradas que são essenciais para a logística da produção agropecuária. Com base em critérios técnicos, conseguimos propor soluções práticas e criar o Ipev, que ajuda a priorizar investimentos e orientar políticas públicas em todos os níveis de governo. A ideia é usar melhor os recursos, capacitar os gestores locais e integrar a mobilidade rural às estratégias nacionais de infraestrutura.”

Principais impactos


Estima-se que as condições precárias atuais das estradas vicinais gerem R$ 16,2 bilhões anuais em custos de transporte para o escoamento da produção agropecuária. Esses custos, hoje inevitáveis, poderiam ser significativamente reduzidos com intervenções adequadas na malha vicinal, resultando em ganhos operacionais e logísticos de até R$ 6,4 bilhões por ano a partir de melhorias. Por exemplo, a melhoria das condições viárias poderia representar reduções anuais superiores a R$ 2,3 bilhões no transporte de cana-de-açúcar, R$ 2,1 bilhões na movimentação de grãos e cerca de R$ 1 bilhão no escoamento da produção animal, evidenciando o impacto direto da infraestrutura rural sobre a competitividade do agronegócio.

Outro impacto importante está relacionado às emissões de dióxido de carbono (CO₂) diretamente no transporte. Os caminhões que atualmente trafegam nessas estradas emitem 3 milhões de toneladas de CO₂ por ano, quantidade que poderia ser reduzida em mais de 30% após melhorias nas vias, permitindo maior fluidez e eficiência energética da frota.

Imagem: reprodução da capa do relatório

Onde investir e quanto custa?


A pesquisa dimensionou os recursos necessários para sanar o problema das condições precárias das estradas vicinais em diferentes cenários e regiões a partir de dados primários e secundários. Ao contrário do que poderia parecer a solução mais óbvia, o estudo não propõe pavimentar a malha vicinal. As análises indicam 177 microrregiões altamente prioritárias para ações de melhoria das condições estradas de terra. Os investimentos necessários variam de R$ 4,9 bilhões a R$ 22,7 bilhões, e são decorrentes das ações de engenharia adotadas (de um padrão mínimo, envolvendo nivelamento do solo e material de cobertura, até um padrão superior, com projeto técnico mais robusto, incluindo preparo da base, abaulamento e sistemas de drenagem), e também da estrutura atual da estrada (de vias mais simples e estreitas, até estradas mais largas, permitindo passagem de dois veículos de grande porte simultaneamente).

Os resultados do estudo oferecem subsídios para políticas públicas, orientando o desenvolvimento de projetos prioritários e fomentando iniciativas de inovação tecnológica, com suporte técnico, maquinário especializado e equipes capacitadas. Ao fazer um diagnóstico das condições das estradas e apontar as microrregiões prioritárias para investimentos, o estudo direciona a utilização de recursos públicos escassos para regiões que apresentam, simultaneamente, grande vulnerabilidade de infraestrutura, elevada demanda por acessibilidade da população e grande volume de produção agropecuária. É uma ferramenta que auxilia a gestão pública e otimiza o uso do recurso para regiões cujos impactos positivos são mais amplamente percebidos.

“Durante a pesquisa, ficou evidente que a falta de planejamento e a limitação de recursos — sejam orçamentários, técnicos, operacionais ou de maquinário — continuam sendo obstáculos reais para os gestores públicos que buscam melhorar as estradas vicinais. Nesse contexto, o Ipev surge como uma ferramenta prática e transparente, capaz de orientar o planejamento, otimizar investimentos e gerar resultados concretos na vida de quem produz e vive no campo — fortalecendo o desenvolvimento local e a competitividade do agronegócio brasileiro”, destaca a pesquisadora do Esalq-Log, Daniela Bartholomeu.

O relatório final ainda será divulgado, mas já é possível acessar o relatório do diagnóstico de prioridades por Unidade da Federação – seção do estudo que mostra as regiões prioritárias de cada UF e o dimensionamento dos recursos necessários para o problema das vicinais.
Jornal da USP

Vegetação inteligente e riqueza cultural: a Caatinga que é muito mais que seca e escassez





A Caatinga nordestina é o único bioma exclusivamente brasileiro, com aproximadamente 380 espécies endêmicas – Foto: Andreia Bezerra de Araújo

Texto: Ivanir Ferreira

Arte: Beatriz Haddad*


A Caatinga cobre cerca de 11% do território brasileiro, incluindo todos os Estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais, e é o único bioma exclusivamente brasileiro, com aproximadamente 380 espécies endêmicas. No entanto, a região é vista como paisagem proscrita, renegada e frequentemente associada a rusticidade, escassez, seca e miserabilidade. Uma pesquisadora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP investigou os significados negativos atribuídos a esse bioma e propõe abordagens pedagógicas para promover uma visão mais positiva do semiárido brasileiro.

A partir de entrevistas, visitas ao sertão nordestino e acesso a bibliografia científica, jornais e obras literárias, a pesquisa encontrou indícios de que a desvalorização desse bioma pode estar associada a narrativas deturpadas difundidas pela mídia, obras literárias e ações governamentais. RI.CA.ATINGA: o semiárido clama pela valorização de sua riqueza é o título da tese defendida pela nordestina Andreia de Araújo. Há quase duas décadas morando em São Paulo, a arquiteta não esquece de suas raízes e deseja ver a riqueza do semiárido nordestino reconhecida.


A investigação começou por visitas às cidades nordestinas no Agreste Pernambucano – Bezerros, Caruaru e Gravatá – em busca de um entendimento da relação entre a região e as pessoas que nela viviam. A pesquisadora conversou com distintos atores da sociedade, usando uma abordagem fenomenológica em que “a construção de um olhar é feita a partir da imersão, com intenção aberta a todas as possibilidades, sem julgamento nem conceito prévio”. Entre os entrevistados, estavam o famoso xilogravurista J. Borges, um agente turístico e um casal de advogados. Alguns temas de pertencimento surgiram na conversa, como o laço emocional que eles tinham com a terra e com as pessoas, que as mantinham conectadas ao lugar. A valorização dos aspectos locais e relatos nostálgicos referenciavam imagens bucólicas na infância. “Os relatos encontrados contrariavam as narrativas que as mídias divulgavam sobre o povo nordestino”, diz.

Andreia Bezerra de Araújo


Em seguida, Andreia coletou depoimentos – de forma virtual, por conta da pandemia – em uma oficina montada por ela. O tema foi Visões das paisagens brasileiras, e atividade foi feita durante a Semana de Arquitetura e Urbanismo & Design. A proposta era investigar a percepção das pessoas (64% do Sudeste, 20% do Nordeste e 14% do Sul) sobre a Caatinga antes e depois de uma ação pedagógica que ela faria logo depois da oficina.

Inicialmente, foram apresentadas ao público imagens de diversas paisagens brasileiras, incluindo Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica, Campos Sulinos e Cerrado. As pessoas foram questionadas a respeito de impressões que tinham sobre essas regiões e os adjetivos que associavam a cada paisagem. Em relação à Caatinga, as respostas foram predominantemente negativas, com palavras como “morte”, “secura”, “aridez”, “deserto”, “tristeza”, “povo sofrido” sendo frequentemente mencionadas. “As imagens verdejantes, mesmo sendo da Caatinga, foram menos apontadas, ou sequer foram selecionadas pelos participantes”, conta a pesquisadora.

Vegetação inteligente


Em outra etapa, a pesquisadora ministrou ao público aulas sobre questões ecológicas, culturais e sociais relacionadas à Caatinga, buscando dissociar a paisagem do estigma de sofrimento e ressequido e promover a construção de uma nova percepção sobre a região.




Vegetação inteligente: flor e frutificação da Ceiba Glaziovii (barriguda) – Foto: Fernanda Kalina da Silva Monteiro via Biota Neotropica





Vegetação que armazena água da chuva em seu caule para sua autonomia e reprodução – Foto: Fernanda Kalina da Silva Monteiro via Biota Neotropica




O umbuzeiro da Caatinga (xiropódio) é capaz de armazenar água suficiente para sobreviver longos períodos de estiagem – Foto: Nilton de Brito/Embrapa



Entre os assuntos abordados, a arquiteta explorou características geomorfológicas como a história da formação do relevo e a sagacidade da vegetação local ao desenvolver estratégias de armazenamento de água e adaptações que minimizam perdas hídricas durante a seca. Andreia explicou que as espécies são inteligentes e se adaptam às altas temperaturas e à falta de água através de mecanismos de economia hídrica e regulagem de excesso de luz. Foram citados alguns exemplos da família de cactáceas: o xique-xique, o mandacaru e a coroa-de-frade, que armazenam água em seus tecidos, e o umbuzeiro, em suas raízes tuberosas. Outras vegetações mantêm suas folhas em paralelo aos raios solares, de forma que uma menor superfície fique exposta ao Sol. As árvores são de pequeno porte e os arbustos, de troncos retorcidos e com espinhos. Durante a seca, eles perdem as folhas como se estivessem mortos, mas bastam os primeiros pingos de chuva para tudo voltar à vida, reforçou a pesquisadora na atividade.

Defensora de processos educacionais como ferramentas de transformação social, a arquiteta aplicou um questionário aos participantes após a aula sobre o potencial paisagístico da região. “As pessoas demonstraram surpresa e admiração pelas descobertas”, afirma. Alguns relatos refletiram sentimentos de comoção e lamento, evidenciando que a abordagem pedagógica revelou uma falta de percepção sobre a Caatinga, o que limitava a apreciação de sua rica paisagem. Um participante comentou que sua visão sobre a região era influenciada por meios de comunicação, que reforçavam desigualdades regionais. Outro destacou que a oficina ampliou sua perspectiva sobre as paisagens brasileiras, especialmente a da Caatinga, que antes via apenas como árida. “Agora sei que esse bioma tem muito mais vida, fauna e flora do que o pensamento popular sugere”, concluiu.



Foto: reprodução da tese “Ri.ca.atinga: o semiárido clama pela valorização de sua riqueza”, com autoria de Andreia Bezerra de Araújo



Estereótipo do sertão nordestino


A pesquisadora investigou também artigos científicos, jornais e literatura para entender a construção da imagem coletiva do sertão ao longo do tempo. Ela explica que o imaginário coletivo é um complexo ideoafetivo inconsciente, onde associações de ideias e emoções influenciam práticas individuais e coletivas de um grupo social em relação a um fenômeno específico.

Andreia afirma que a mídia favorece uma imagem estereotipada do sertanejo. Em novelas, seriados e filmes, ele é retratado como um povo triste, sofredor e faminto, sempre com um visual rústico em tons de bege e terracota, similar aos retirantes descritos na literatura. Além disso, o sertanejo é muitas vezes associado à brutalidade, com tendências criminosas ou amorais – conforme estudos eugenistas antigos que ligavam o comportamento humano à morfologia corporal – e a fenômenos como o Cangaço.

Peça decorativa exposta na 20 FENEARTE. Foto: reprodução da tese "Ri.ca.atinga: o semiárido clama pela valorização de sua riqueza", com autoria de Andreia Bezerra de Araújo


Em análise de práticas de políticas públicas, Andreia constatou que os governantes do País quase sempre negligenciaram a região sertaneja, privilegiando outras áreas do Brasil, o que, em sua opinião, resultou em isolamento do Nordeste, sofrimento da população e domínio dos grandes latifundiários. Segundo a arquiteta, essa estética conveniente perpetuou as desigualdades na Caatinga e também foi reforçada por parte da literatura brasileira, como as obras de Euclides da Cunha, em Os Sertões, Graciliano Ramos, em Vidas Secas, e Raquel de Queiroz, em O Quinze, postura que foi combatida pelo cancioneiro popular Luiz Gonzaga, como faz questão de ressaltar.

Literatura: Os Sertões


Em trechos da obra de Euclides da Cunha Os Sertões, o escritor denomina o sertão como fronteira entre o moderno e o arcaico. “A descrição da paisagem passa a sensação de monotonia e imobilidade. O lugar é envolto por sentimentos de tristeza e morte. O sertanejo sofrido é retratado em sua peleja e determinação em seu cotidiano”, diz a pesquisadora.



… quadro tristonho de um horizonte monótono em que se esbate, uniforme, sem traço diversamente colorido, o pardo requeimado das caatingas […) localizadas em depressões, entre colinas nuas, envoltas pelos mandacarus despidos e tristes, como espectros de árvores […] o sertanejo, por mais escoteiro que siga, jamais deixa de levar uma pedra que calce as suas junturas vacilantes […] pequenas ondulações, todas da mesma foram e do mesmo modo dispostas, o viajante mais rápido tem a sensação de imobilidade. Patenteiam-se lhe, uniformes, os mesmos quadros, num horizonte invariável. (Cunha, 1909, p. 14)


Outro autor analisado pela pesquisa foi Graciliano Ramos, que é reconhecido por sua representação literária marcada por angústia e desolação. “Seus personagens desesperançados vivem em um mundo desprovido de amor e alegria”, diz ela.



“Ultimamente vivia esmorecido, mofino, porque as desgraças eram muitas […] necessário abandonar aqueles lugares amaldiçoados […] Fabiano (personagem principal de Vidas Secas) espiava a caatinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No céu azul, as últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre […] os mandacarus e os alastrados vestiam a campina, espinho, só espinho. Precisava fugir daquela vegetação inimiga. (Ramos, 2013 p. 116, 117, 120)


No entanto, outros ícones importantes da cultura brasileira, como Luiz Gonzaga e Ariano Suassuna, enaltecem o Nordeste e a cultura regional. Em uma de suas canções, Luiz Gonzaga ilustra a representatividade das grandes feiras – que foram responsáveis pelo surgimento e crescimento de algumas importantes capitais regionais, como Feira de Santana, Caruaru, Garanhuns, Mossoró, entre outras, abastecidas pelas produções vindas dos brejos (áreas úmidas e pantanosas).

 



Na canção A Feira de Caruaru, Luiz Gonzaga dizia: “A Feira de Caruaru faz gosto a gente ver, de tudo que há no mundo nela tem pra vender… Tem massa de mandioca, batata assada, tem ovo cru, banana, laranja e manga, batata-doce, queijo e caju, cenoura, jabuticaba, guiné, galinha, pato e peru. Tem bode, carneiro e porco, se duvidar isso é cururu. Tem bode, carneiro e porco, se duvidar isso é cururu”.

Na canção Luar do Sertão, Luiz Gonzaga celebrou a noite sertaneja: “Não há, ó gente, oh! Não, luar como esse do sertão…Oh que saudade do luar da minha terra. Lá na serra branquejando, folhas secas pelo chão. Este luar cá na cidade tão escuro não tem aquela saudade, do luar lá do sertão”.

A pesquisadora cita também o escritor modernista Mário de Andrade, que defendeu o semiárido nordestino em relatos de suas viagens ao Norte e Nordeste do Brasil, no final da década de 1920. Suas observações foram publicadas em crônicas, colunas e entrevistas no jornal Diário Nacional, onde atuava como redator, em janeiro de 1929.


“Vatapá, cavala em molho de coco, doces de comer pouco, deliciosos […] creme de camarão, casquinhas de caranguejos, o chouriço daqui é um doce, a canjica daqui inteiramente diversa da sulista … (Trecho das crônicas de Mário de Andrade, Diário Nacional, janeiro/1929).

“Chega um crono. Clarineta, violões, ganzá numa série deliciosa de samba, maxixes versos de origem pura […] coco […] No povo nordestino até o passo básico do Charleston, era usual antes da dança ianque aparecer […] a Rebeca está clara e enfim visível, mexidinho num ‘baiano’ (dança) monótono, mas admirável” … (Trecho das crônicas de Mário de Andrade, Diário Nacional/ janeiro/1929).

Depois, em seu retorno à capital paulista, Mário de Andrade concedeu entrevista ao Diário Nacional falando de suas impressões de viagem como os “três meses mais gostosos de minha vida...” (Diário Nacional, março/1929).


A arquiteta faz questão de enfatizar que não se trata de romantizar a dureza da vida no sertão, mas de viabilizar condições de vida mais pacíficas durante os períodos secos, desvinculando os sentimentos de sofrimento, sem que a aridez represente um fardo ou uma fonte de angústia. “Trata-se ainda de reivindicar o reconhecimento e valorização de toda riqueza que envolve a Caatinga e as paisagens semiáridas, tanto sob o ponto de vista ambiental, mas principalmente sob o aspecto cultural e social”, completa. O título RI.CA.ATINGA quer dizer que a caatinga é rica e viva, e seu povo, assim como sua vegetação, é resiliente e feliz.

O trabalho teve a orientação da professora Catharina Pinheiro Cordeiro dos Santos Lima, da FAU, e pode ser acessado neste link.

Mais informações: Andréia Maria Bezerra de Araújo, e-mail deia.m.bezerra@gmail.com ou arq.andreia.bezerra@gmail.com e Catharina Pinheiro Cordeiro dos Santos Lima, e-mail cathlima@usp.br

*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado
Jornal USP

Estudo revela 36 empresas de combustíveis fósseis responsáveis por metade das emissões globais de CO2





Um estudo recente do think tank InfluenceMap, denominado Carbon Majors, trouxe à tona dados alarmantes sobre a responsabilidade das empresas de combustíveis fósseis nas emissões globais de CO2. A pesquisa revelou que apenas 36 empresas são responsáveis por metade das emissões mundiais, produzindo mais de 20 bilhões de toneladas de CO2 no ano passado.

Entre as principais empresas citadas estão gigantes como Saudi Aramco, Coal India, ExxonMobil e Shell, além de várias companhias chinesas. Para contextualizar a magnitude dessas emissões, o estudo aponta que se a Saudi Aramco fosse um país, seria o quarto maior poluidor do mundo, ficando atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia.



O relatório enfatiza a urgência de ação, alertando que as emissões precisam diminuir 45% até 2030 para atingir a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5°C. Especialistas argumentam que essas empresas mantêm o mundo dependente de combustíveis fósseis, sem planos concretos para reduzir a produção.

O estudo também destaca que, das 36 empresas responsáveis por metade das emissões globais, 25 são estatais, com 10 delas localizadas na China, o maior país poluidor do mundo. A distribuição das emissões por fonte mostra que o carvão foi responsável por 41%, o petróleo por 32%, o gás por 23% e o cimento por 4%.


COMPENSAÇÃO POR DANOS CLIMÁTICOS

Os dados do Carbon Majors têm sido utilizados como evidência em ações legais e regulatórias contra empresas de combustíveis fósseis, buscando compensação por danos climáticos e responsabilização corporativa. Além disso, o estudo inclui dados históricos que remontam a 1854, mostrando que dois terços das emissões de carbono desde a Revolução Industrial provêm de 180 empresas.

Diante desse cenário, especialistas e ativistas climáticos enfatizam a necessidade urgente de ação governamental para frear a expansão dos combustíveis fósseis e promover a transição para um sistema econômico descarbonizado. A responsabilização das corporações e a implementação de políticas efetivas para redução de emissões são apontadas como passos essenciais para enfrentar a crise climática global.
Pensamento Verde

Amazônia é o grande reservatório de carbono que pode salvar o planeta





A Amazônia continua surpreendendo o mundo com sua importância para o equilíbrio climático global. Um novo estudo do MapBiomas revela dados impressionantes: a região concentra mais da metade (52%) de todo o carbono orgânico armazenado no solo brasileiro. Estamos falando de um verdadeiro tesouro ambiental que pode ser decisivo na luta contra as mudanças climáticas.

O Brasil armazena 37,5 gigatoneladas de carbono orgânico na camada superficial do solo, com uma média de 44,1 toneladas por hectare. Esse número representa um dos maiores estoques de carbono do planeta, funcionando como um gigantesco “aspirador” natural de CO₂ da atmosfera.


Para entender a magnitude desses números, é importante saber que o solo armazena aproximadamente quatro vezes mais carbono que toda a vegetação do planeta e três vezes mais que a própria atmosfera. Quando bem preservado, esse carbono pode permanecer estocado por décadas ou até séculos, ajudando a manter o equilíbrio climático global.


A ciência por trás do armazenamento de carbono
O relatório do MapBiomas, que analisou dados de 1985 a 2024, oferece um panorama único sobre a composição dos solos brasileiros e sua relação com o uso da terra. Alessandro Samuel-Rosa, coordenador do MapBiomas Solo, explica que “no Brasil, a distribuição é marcadamente heterogênea, refletindo a diversidade climática, hidrológica, geológica e ecológica do território”.


Essa heterogeneidade é fundamental para compreender por que diferentes regiões têm capacidades distintas de armazenar carbono. O solo funciona como um arquivo do tempo, acumulando sinais de clima, vegetação e relevo que moldaram o território ao longo da história.


Quando falamos de carbono orgânico no solo, estamos nos referindo a um elemento essencial não apenas para o clima, mas também para a produtividade agrícola. Esse carbono melhora a retenção de água e nutrientes, reduz a erosão e aumenta a fertilidade natural do solo, criando um ciclo virtuoso entre conservação ambiental e produção sustentável.


Mata Atlântica: pequena em área, gigante em densidade
Embora a Amazônia detenha o maior volume total de carbono armazenado, uma descoberta interessante do estudo é que a Mata Atlântica supera a média nacional em densidade de armazenamento, com 53,4 toneladas por hectare. Isso acontece porque o bioma se beneficia de regiões de clima mais frio, como campos de altitude e florestas de araucária, além de áreas úmidas como restingas e mangues.


A Amazônia aparece em segundo lugar com 46,3 t/ha, seguida pelo Pampa com 43,7 t/ha. Esses dados revelam que 35,9% do solo brasileiro estoca entre 40 e 50 toneladas de carbono por hectare, demonstrando o potencial extraordinário do país como regulador climático global.


Na Mata Atlântica, predominam solos com teores de argila superiores a 60%, o que confere maior capacidade de armazenamento de água e retenção de nutrientes. Essa característica permite que o carbono orgânico permaneça estocado por longos períodos, funcionando como uma espécie de “cofre” natural de carbono.


A relação entre uso da terra e armazenamento de carbono


O estudo evidencia padrões claros de ocupação territorial que impactam diretamente a capacidade de armazenamento de carbono. Entre 1985 e 2024, a pastagem se expandiu principalmente sobre solos de textura média e arenosa, perdendo área nas regiões muito argilosas, que foram majoritariamente ocupadas pela agricultura.


Essa informação é valiosa para o planejamento territorial sustentável. A agricultura se desenvolveu preferencialmente sobre áreas com baixa pedregosidade nos primeiros 90 cm de solo, enquanto a silvicultura teve expansão mais expressiva em locais onde a pedregosidade aparece nas camadas superficiais.


Compreender essas dinâmicas é fundamental para desenvolver estratégias que maximizem tanto a produtividade agrícola quanto o armazenamento de carbono, criando um modelo de desenvolvimento que beneficia simultaneamente a economia e o meio ambiente.


O papel dos diferentes tipos de solo
Os dados mostram que solos argilosos, muito argilosos e siltosos possuem os maiores estoques de carbono, frequentemente acima de 50 t/ha em todos os biomas, enquanto os arenosos têm estoque médio de 32 t/ha. Essa diferença está relacionada à capacidade de retenção de matéria orgânica de cada tipo de solo.


No Cerrado, Caatinga e Pantanal, concentram-se áreas com teores de areia acima de 60%, onde a capacidade de retenção é menor e a infiltração de água ocorre de forma mais rápida. Já na Caatinga, o solo se torna progressivamente mais pedregoso a profundidades entre 10 e 50 cm, representando 9% do território brasileiro com mais de 50% de seu volume ocupado por pedregosidade dominante nos primeiros 100 cm.


O carbono como aliado da produtividade
Uma descoberta importante é que o carbono orgânico no solo não beneficia apenas o clima global, mas também a produtividade agrícola. Taciara Zborowski Horst, coordenadora da iniciativa MapBiomas Solo, destaca que “esses mapas das propriedades dos solos brasileiros, como carbono, textura e pedregosidade, permitem avanços nas análises voltadas aos usos agrícolas e urbanos do solo”.


Isso significa que preservar e aumentar o carbono no solo é uma estratégia que beneficia tanto fazendeiros quanto o planeta. Solos ricos em carbono orgânico são mais férteis, retêm mais água e são mais resistentes à erosão, reduzindo a necessidade de fertilizantes químicos e irrigação.


A importância da preservação para o futuro
O estudo revela que quando o solo é degradado por desmatamento ou práticas agrícolas inadequadas, ele libera esse carbono como CO₂, agravando o efeito estufa. Por outro lado, quando bem manejado e preservado, o solo pode continuar armazenando carbono por décadas ou séculos.

Essa descoberta reforça a importância de políticas públicas que incentivem práticas agrícolas sustentáveis e a preservação de áreas naturais. Cada hectare de solo preservado representa uma contribuição significativa para o combate às mudanças climáticas.


Alessandro Samuel-Rosa observa que “a distribuição do carbono orgânico é um exemplo disso. Compreender esses padrões é olhar para o país também pelo que se conserva abaixo da superfície”. Essa perspectiva nos lembra que a conservação vai além do que vemos – inclui também os processos invisíveis que acontecem no subsolo.


Um repositório único de dados
Para os pesquisadores, o repositório de dados criado pelo MapBiomas é um recurso único para localizar rapidamente dados de referência, verificar lacunas de monitoramento e comparar resultados de diferentes regiões brasileiras. Essa ferramenta permite que cientistas, gestores públicos e produtores rurais tomem decisões mais informadas sobre o uso da terra.


O acesso a esses dados é fundamental para desenvolver estratégias regionais específicas que maximizem o potencial de armazenamento de carbono de cada área, respeitando suas características naturais e vocações produtivas.


O Brasil como protagonista climático global


Os dados do MapBiomas posicionam o Brasil como um protagonista fundamental na luta contra as mudanças climáticas. Com 37,5 gigatoneladas de carbono orgânico armazenado apenas na camada superficial do solo, o país possui um dos maiores estoques de carbono do mundo.

Essa posição de destaque traz tanto oportunidades quanto responsabilidades. O Brasil tem o potencial de liderar iniciativas globais de sequestro de carbono, mas também precisa garantir que suas políticas de uso da terra protejam esse valioso estoque natural.


Tecnologia e monitoramento para o futuro
O uso de tecnologia avançada para monitorar o carbono no solo representa um avanço significativo na nossa capacidade de compreender e proteger esse recurso. O MapBiomas utiliza imagens de satélite e algoritmos sofisticados para mapear mudanças no uso da terra e seus impactos no armazenamento de carbono.

Essa tecnologia permite identificar rapidamente áreas onde o carbono está sendo perdido e implementar medidas de proteção antes que os danos se tornem irreversíveis. É uma ferramenta poderosa para a gestão sustentável do território brasileiro.


Construindo um futuro sustentável
A descoberta sobre o carbono armazenado no solo brasileiro nos mostra que a natureza já nos ofereceu uma solução poderosa para o combate às mudanças climáticas. Agora, cabe a nós proteger e potencializar essa solução natural.


Cada decisão sobre o uso da terra, cada política pública implementada e cada prática agrícola adotada pode contribuir para manter ou aumentar esse estoque de carbono. É uma responsabilidade que vai além das fronteiras nacionais, pois o carbono armazenado no solo brasileiro beneficia todo o planeta.


O momento é de agir com sabedoria e urgência. Temos em nossas mãos – ou melhor, sob nossos pés – uma das mais poderosas ferramentas naturais contra as mudanças climáticas. Preservar esse tesouro subterrâneo é preservar o futuro da humanidade.

Pensamento Verde

Plantas e espécies endêmicas do cerrado





Flora e fauna

O bioma que ocupa mais de 20% do território brasileiro e possui uma área de 204 milhões de hectares, é detentor de uma das maiores biodiversidades do Brasil. Com um grande número de espécies tanto na fauna, quanto na flora, o Cerrado concentra também, muitas espécies endêmicas – que não são encontradas em outro ambiente.

Ao todo, são mais de 10.000 espécies de plantas na região. E mais de 1.300 espécies de animais, sendo 199 de mamíferos, 837 de aves, 180 de répteis e 150 de anfíbios.


A conta não inclui os peixes e os animais invertebrados, porque nem todos foram catalogados ou estudados. Estima-se que a região abrigue mais de 1.200 e 90.000, respectivamente.
Animais

De acordo com a Rede Cerrado, organização especializada na região, o número de animais endêmicos no bioma é grande, totalizando 3,4% das aves, 11% dos mamíferos, 20% dos répteis e 30% dos anfíbios.

Gralha do Cerrado – Foto: ajrjr


Entre os animais, estão o Beija-Flor-de-Gravata-Verde (Augastes scutatus), a Gralha do Cerrado (Cyanocorax cristatellus), Rato-de-Espinho (Carterodon sulcidens), Rolinha-do-Planalto (Columbina Cyanopis) e Morceguinho-Do-Cerrado (Lonchophylla Dekeyseri).

Plantas

Atualmente uma das grandes produtoras de grãos, carne e leite, a região do Cerrado já foi considerada imprópria para a agricultura e inviável economicamente, isso porque o bioma é composto por uma vegetação rasteira, com plantas e árvores baixas, com raízes profundas e galhos tortos.

A riqueza da flora do Cerrado fica atrás, apenas, da Mata Atlântica e Floresta Amazônica. A presença de barrigudas, ipês, cactos, bromélias, orquídeas, palmeiras entre tantas outras, pintam o bioma que é conhecido pela sua paisagem agressiva.


O Cerrado possui quatro divisões: matas, campos, brejos e ambientes úmidos com plantas aquáticas. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, das espécies existentes no bioma, 44% são endêmicas como: Buriti (Mauritia flexuosa), Pau-papel (Tibouchina papyrus), Canela-de-ema (Vellozia squamata) e outras

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Muitas plantas, cerca de 220, são consideradas de uso medicinal e mais de 10 tipos de frutos são comestíveis. A população faz uso dessas matérias-prima para consumo pessoal, e para venda em grandes centros urbanos.
Flora e fauna

Esse conhecimento da população em relação ao uso e aplicação das plantas medicinais faz com que o Cerrado seja considerado um patrimônio cultural de grande importância para o Brasil e para o mundo.
Pensamento Verde

NAFTA e USMCA




O NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), em vigor desde 1º de janeiro de 1994, foi um bloco econômico formado por Estados Unidos, México e Canadá, com o objetivo de eliminar tarifas alfandegárias e facilitar a livre circulação de bens e serviços. Em 1º de julho de 2020, o NAFTA foi oficialmente substituído pelo USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá), também conhecido no México como T-MEC e no Canadá como CUSMA.

Aqui estão os detalhes sobre a transição e as diferenças entre os acordos:

1. O que foi o NAFTASignificado: North American Free Trade Agreement.
Objetivos: Redução drástica de barreiras comerciais, estímulo à concorrência leal e aumento de oportunidades de investimento entre os três países.
Características: Criou uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, aumentando o comércio regional, mas recebeu críticas por causar desemprego em certos setores dos EUA e precarização do trabalho no México.

2. A Substituição pelo USMCA (NAFTA 2.0)
A substituição foi impulsionada pelo governo dos Estados Unidos (gestão Donald Trump), que considerava o antigo acordo desvantajoso para a economia americana.

Nome: USMCA (United States-Mexico-Canada Agreement).


3. Principais Mudanças: NAFTA vs. USMCA
O novo acordo trouxe regras mais rigorosas e protecionistas: Setor Automotivo: Para carros isentos de tarifas, o USMCA exige que 75% das peças sejam produzidas na América do Norte (aumentando de 62,5% do NAFTA). Além disso, estabeleceu-se que 40-45% do veículo deve ser construído por trabalhadores que ganhem pelo menos US$ 16 por hora.
Laticínios Canadenses: O Canadá abriu mais o seu mercado de laticínios para os produtores dos Estados Unidos.
Direitos Autorais e Proteção Digital: Houve endurecimento das regras de propriedade intelectual e veto a impostos sobre produtos digitais (jogos, e-books).
"Sunset Clause" (Cláusula de Revisão): O acordo tem validade de 16 anos, mas precisa ser revisado a cada 6 anos para ser renovado.


4. Por que o NAFTA foi substituído?
O principal motivo foi a necessidade de reformular os termos para beneficiar a indústria norte-americana, buscando reduzir o déficit comercial dos EUA com o México e garantir melhores salários e condições de trabalho. O novo acordo foca em fortalecer a produção interna do bloco (especialmente EUA) em detrimento da transferência de indústrias para locais com mão de obra extremamente barata.

Nota: Em julho de 2026, haverá uma revisão conjunta do USMCA pelos três países para decidir sobre sua prorrogação

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Desmatamento explica 75% da perda de chuvas na Amazônia, diz estudo


Pela primeira vez, pesquisadores quantificam papel do desflorestamento na transformação climática que ocorre no bioma durante a estação seca


Amanda Nascimento*

Arte: Gustavo Radaelli**

A estação seca na Amazônia ocorre entre julho e novembro, mas pode variar de região para região – Foto: Greenpeace/Brasil de Fato/Flickr


A maior floresta tropical do mundo está mais quente e menos chuvosa. De acordo com um estudo publicado na Nature Communications, o agente central por trás dessas transformações é o desmatamento. Os resultados indicam que aproximadamente 75% da redução das chuvas e 16,5% do aumento da temperatura do ar próximo à superfície da Floresta Amazônica estão ligados à perda de cobertura florestal. Entre 1985 e 2020, o bioma deixou de receber 21 milímetros de chuva por estação seca, valor que representa uma redução em torno de 8% da chuva do período.


Caso as taxas persistam, a previsão é de que, em 2035, a região amazônica tenha um aumento total de 2,64ºC na temperatura e uma redução de precipitação de 28,3 milímetros por estação seca em comparação a 1985. “Esses valores começam a se aproximar do ponto de não retorno”, alerta Luiz Machado, pesquisador visitante do Instituto de Física (IF) da USP e coordenador do estudo. “Esse ponto é complexo de definir, porque ele não depende só do clima, ele depende da vegetação. Mas a vegetação que é mais sensível à falta d’água pode, sim, desaparecer.”

“O que observamos é que os efeitos de redução de precipitação e de aumento de temperatura são muito evidentes na estação seca”, diz Marco Franco, um dos autores da pesquisa e professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Ele explica que “sempre choveu na Amazônia. Mas, ao longo dos últimos anos, têm ocorrido secas muito intensas, e isso desencadeia uma série de impactos no bioma, como as queimadas”.

Marco Aurélio Franco – Foto: Lattes


Franco lembra que esses efeitos não ficam restritos à Amazônia. A redução de chuvas na estação seca também compromete o Cerrado e o Pantanal, que dependem da umidade transportada pelos “rios voadores” — responsáveis por parte significativa das chuvas nessas regiões. Segundo ele, a diminuição desse fluxo pode comprometer a agricultura, inclusive a produção da safrinha – que ocorre após a colheita da safra central de um cultivo.


A pesquisa ainda aponta que o clima amazônico responde ao desmatamento de forma não linear, uma vez que o impacto é mais intenso nos primeiros 10% a 40% de área desmatada. Para Franco, o cenário reforça a urgência na preservação do bioma.


“Isso significa que é fundamental preservar o bioma. Porque se você não preserva, ele sentirá o desequilíbrio”
Marco Franco

Nas últimas décadas, a combinação do aumento da temperatura global devido às emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento demonstrou alterar os ciclos hídricos, de carbono e de energia da Amazônia. No entanto, pesquisas não haviam quantificado esses fatores e seus papéis relativos na transformação da floresta amazônica.


Meteorologista Luiz Augusto Toledo Machado- Foto: arquivo pessoal / IFUSP


Chegando aos resultados


Os autores recorreram a 35 anos de dados do MapBiomas, entre 1985 e 2020, para identificar as transformações no uso da terra na Amazônia Legal. Assim, a área em análise foi dividida em 29 blocos de 300 por 300 quilômetros e os pesquisadores cruzaram as informações de cobertura florestal com dados de temperatura, da precipitação e dos gases de efeito estufa obtidos por satélites e reanálises.

“Através do sensoriamento remoto, pegamos dados de precipitação, do metano, do dióxido de carbono e da temperatura máxima próxima à superfície, porque, caso contrário, seria impossível olhar para a Amazônia de uma forma integrada”, explica Franco. Ele destaca que a temperatura máxima foi escolhida por ser o parâmetro em que os efeitos da perda da vegetação são mais intensos.

Com essas informações, os pesquisadores desenvolveram uma equação paramétrica, que relaciona os efeitos das emissões de gases com o desmatamento. Foi assim que eles conseguiram quantificar quanto do aquecimento e da seca se deve às emissões globais e quanto é resultado direto do desflorestamento; 75% da redução das chuvas tem relação direta com o desmatamento, enquanto o restante é atribuído à emissão de gases. No aumento de 2 °C na temperatura, 0,4 °C são resultado da perda de cobertura vegetal.


Contribuição das mudanças climáticas globais e do desmatamento para as variações de metano, dióxido de carbono, temperatura máxima da superfície e precipitação durante a estação seca – Imagem: Reprodução/Nature Communications

Futuro da amazônia


Embora o aquecimento global explique a maior parte da elevação das temperaturas na Amazônia, os 0,4ºC adicionados pelo desmatamento não são nulidades. “Parece pouco, mas não é”, aponta Franco. O professor enfatiza que os extremos de calor e de redução das chuvas se acentuam nas regiões mais desmatadas, o que amplifica os eventos climáticos extremos em escala local e regional.

Caso o desmatamento avance de forma contínua, a Amazônia pode ser levada para um regime climático semelhante ao do Cerrado, com estações secas mais marcadas e maior contraste com o período chuvoso.


“Essas tendências de desflorestamento e aumento da temperatura estão levando a Amazônia a ter um ciclo sazonal cada vez maior. Mas a resposta da vegetação pode ser diferente, não se sabe como a vegetação vai reagir a isso. Em regiões onde a vegetação é um pouco resiliente, pode haver uma redução de altura das árvores”
Luiz Machado

Para Franco, esses dados são cruciais, agora que a Amazônia está no centro do debate internacional. “Este ano é o ano da COP30, em Belém”, ressalta. “Os números que apresentamos precisam servir de guia para os tomadores de decisão. É fundamental proteger e reflorestar o bioma, porque os efeitos são muito drásticos quando se remove a cobertura vegetal. E, quando cada país sentar à mesa de negociação, todos terão de saber a conta que lhes cabe pagar.”

O artigo How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest pode ser acessado neste link.

Mais informações: marco.franco@usp.br, com Marco A. Franco, e lmachado@if.usp.br, com Luiz A. T. Machado

*Estagiária sob orientação de Fabiana Mariz



**Estagiário sob orientação de Moisés Dorado
Jornal USP

Propaganda enganosa



Assim como numa pandemia biológica, muitas pessoas carregam e transmitem o vírus da desinformação sem saber que estão infectadas (ou sendo influenciadas) por ele. “Esse é um clássico da comunicação e da propaganda, não é mesmo? O consumidor nunca acha que está sendo influenciado”, diz a pesquisadora Marie Santini, professora da Escola de Comunicação e diretora do Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais (Netlab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


Em última instância, a desinformação busca manipular a percepção pública da realidade como um todo; por isso ela contamina todas as áreas do debate público e não apenas o noticiário político, apontam pesquisadores.

“A desinformação trabalha com o mundo, mais ou menos, como se ele fosse uma maquete”, diz a jornalista Daniela Osvald Ramos, professora da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP e pesquisadora do COM+, um grupo de estudos especializado em comunicação digital. “Você tem um cenário e você tem grupos de pessoas que vivem nesse cenário. Então, você planta uma informação aqui, outra informação ali, e assim você vai manipulando a maquete, de acordo com os seus interesses”, explica ela.

Essa manipulação, segundo Ramos, é feita por pessoas “que se colocam de fora do processo democrático” e que sabem usar o maquinário das mídias digitais para construir cenários fictícios — mas de aparência extremamente realista — dentro dessa maquete social. “Todo esse aparato tecnológico que foi construído dentro da internet nos últimos 20 anos nos colocou, de certa forma, como espectadores, voluntários e involuntários, de um espetáculo no qual não temos acesso aos bastidores nem sabemos quem está cumprindo qual papel”, diz. Segundo ela, é irrealista esperar que as pessoas sejam capazes de identificar todas as formas de desinformação por conta própria, “porque elas são construídas de uma forma muito crível”, quase sempre usando uma pitada de realidade para conferir um verniz de veracidade a alguma narrativa mentirosa.

A mensagem falsa em que a Polícia Militar supostamente recomenda às pessoas não sair de casa após as 22 horas é um bom exemplo: muito bem redigida, ela se aproveita de uma preocupação legítima com a questão da criminalidade urbana para propagar uma sensação de medo na sociedade, com o objetivo de torná-la mais permeável à aceitação de políticas armamentistas e intervencionistas. A mensagem circula amplamente desde 2018 e já foi desmentida pela Polícia Militar de vários Estados. O texto não pede voto em ninguém, mas busca construir uma realidade adulterada, na qual as pessoas, sentindo-se ameaçadas, se tornam mais inclinadas a apoiar políticas e políticos que defendem intervenções radicais na segurança pública, como armar a população ou ampliar o conceito de excludente de ilicitude para policiais.

“A desinformação é uma forma desonesta de propaganda, que não diz que é propaganda”, diz o jornalista Carlos Orsi, diretor de comunicação do Instituto Questão de Ciência, que combate a desinformação científica e a pseudociência nas políticas públicas. Neste caso, não uma propaganda de produtos, mas de opiniões, crenças e visões de mundo. “É uma mentira disfarçada de verdade, construída para alterar o comportamento das pessoas”, completa Orsi.

Os disfarces são muitos e variam de acordo com o objetivo da desinformação e o meio pelo qual ela vai ser disseminada. Não precisa nem ser uma notícia falsa, propriamente dita. Pode ser uma notícia verdadeira, porém tirada de contexto ou manipulada de alguma forma para inflar sua relevância ou lhe conferir algum significado espúrio. Pode ser um boato espalhado por aplicativos de mensagens; às vezes na forma de texto, às vezes como arquivo de áudio, gravado por alguém que se apresenta como testemunha ou delator de alguma informação secreta. Pode ser um vídeo de alguém de jaleco distorcendo evidências científicas, oferecendo curas milagrosas ou propagando teorias conspiratórias de que o homem nunca pisou na Lua, que as vacinas alteram o seu DNA, que as universidades públicas no Brasil são centros de doutrinação comunista ou que o desmatamento na Amazônia não passa de uma mentira inventada por ONGs internacionais para destruir o agronegócio brasileiro. A ficção, diferentemente da verdade, não é limitada por fatos, mas pela criatividade de seu criador.


Jair Bolsonaro exibe embalagem de hidroxicloroquina em uma live na internet, em julho de 2020. Governo promoveu amplamente o uso da droga durante a pandemia, apesar de estudos mostrarem que ela era ineficaz contra a covid-19 - Foto: Reprodução/ Youtube

Jornal USP

“A guerra está no seu bolso”







“A guerra está no seu bolso”, resumiu a jornalista filipina Maria Ressa, em uma conferência de três dias sobre desinformação, promovida em maio pela Fundação Nobel e a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Mais especificamente, a guerra está embutida naquele aparelho eletrônico retangular que vive dentro dos nossos bolsos: o adorado e famigerado smartphone; principal vetor usado pelo vírus da desinformação para se espalhar na sociedade e infectar a mente das pessoas.

Ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2021, ao lado do russo Dmitry Muratov, Ressa não se cansa de soar o alerta sobre os perigos da desinformação. A internet e as redes sociais, segundo ela, estão sendo usadas por agentes maliciosos em diversos países — incluindo o Brasil — como “um sistema de modificação comportamental” da sociedade, com consequências potencialmente desastrosas para a democracia (por meio da radicalização política e da interferência em processos eleitorais), para a saúde pública (pela disseminação de notícias falsas sobre vacinas, por exemplo), e até mesmo para o futuro da espécie humana no planeta (pelo negacionismo da crise climática e de outras ameaças de caráter global).

“Uma bomba atômica invisível foi lançada sobre o nosso ecossistema de informações”, discursou Ressa, em 2021, após receber o Prêmio Nobel. O primeiro passo para reconstruir o que já foi destruído e desarmar outras bombas que estão por vir (com poder de destruição ainda maior, amplificado pelos avanços da inteligência artificial) é a “restauração dos fatos”, segundo ela. “Sem fatos não pode haver verdade. Sem verdade não pode haver confiança. Sem confiança, não temos uma realidade compartilhada, não temos democracia, e torna-se impossível lidar com os problemas existenciais do nosso tempo”, afirma Ressa.


A perda dessa “realidade compartilhada” é uma peça-chave do problema, segundo especialistas. Ela se dá pela fragmentação da sociedade em grupos culturalmente fechados, e frequentemente antagônicos, nos quais as pessoas só se relacionam com aquelas que pensam igual a elas e consomem informações que confirmam suas próprias convicções. São as chamadas bolhas ou câmaras de eco digitais, nas quais a desinformação encontra campo fértil para crescer raízes sem ser contestada.

Essa fragmentação é impulsionada em grande parte pelos algoritmos das redes sociais, que são programados para customizar a visualização de conteúdo aos interesses e preferências de cada usuário. Um sistema excelente para vender anúncios e produtos via microtargeting (propaganda customizada), mas péssimo para a manutenção de uma realidade compartilhada e, consequentemente, de uma democracia saudável. Isso porque a customização não se aplica apenas aos anúncios, mas também às notícias (falsas e verdadeiras), artigos de opinião, comentários, postagens, sugestões de leitura, recomendações de amizade, resultados de busca e tudo mais que qualquer pessoa visualiza na internet.

“O que você vê não é o que eu vejo. As notícias que aparecem para você são diferentes das que aparecem para mim. Assim, fica difícil compartilharmos uma visão de mundo”, contextualiza Marie Santini, da UFRJ. As bolhas digitais, segundo ela, têm o atrativo de serem ambientes confortáveis, onde as pessoas têm seus desejos de consumo atendidos, só recebem notícias que confirmam suas opiniões, interagem com pessoas que pensam igual a elas e, portanto, não precisam responder perguntas incômodas nem se dar ao trabalho de questionar suas convicções.


“Os algoritmos nos enxergam não como indivíduos autônomos, mas como indivíduos que se agregam em clusters que eles mesmos formam”, diz a professora Leticia Cesarino, da Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em antropologia digital.

É nesses espaços digitais herméticos e recheados de viés de confirmação que os arquitetos da desinformação constróem seus cenários fictícios, isolando as pessoas da realidade coletiva e dificultando o debate democrático sobre desafios compartilhados da sociedade. “Uma vez que você cai numa dessas bolhas de desinformação é muito difícil sair por conta própria. É como um buraco negro, que te suga para uma realidade paralela”, compara o físico Leandro Tessler, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) e membro do Grupo de Estudo da Desinformação em Redes Sociais (EDReS) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Jornal USP

Tsunami meteorológico


Tsunami meteorológico surpreende litoral de Santa Catarina e acende alerta para dias de calor intenso

Fenômeno raro registrado em Laguna (SC) não tem relação com aquecimento global. Marcelo Dottori defende investimento em previsão e pesquisa para reduzir danos


A onda repentina surpreendeu os banhistas e foi associada à atuação de um sistema atmosférico instável sobre o oceano – Foto: Imagem de divulgação/Defesa Civil de Santa Catarina


O Estado de Santa Catarina registrou, no mês de janeiro, um fenômeno natural raro: um tsunami meteorológico na Praia do Cardoso, em Laguna, no litoral sul. A Argentina também registrou o evento na mesma época. O episódio, ocorrido após um dia de calor intenso e marcado por variações bruscas no nível do mar, devidamente registradas em portos da região Sul, difere daqueles que acontecem nas profundezas e que são resultantes da movimentação das placas tectônicas. Uma câmera de segurança chegou a registrar o momento em que o mar avança e sobe de forma repentina, atinge carros e inunda comércios.

 
Marcelo Dottori – Foto: LinkedIn

O físico Marcelo Dottori, professor de oceanografia do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), explica a diferença entre o tsunami sísmico e o meteorológico. O tsunami meteorológico é diferente do tsunami sísmico porque não é causado por placas tectônicas, mas por variações bruscas de pressão atmosférica associadas a sistemas meteorológicos instáveis após dias de calor intenso.
Instabilidade atmosférica

A onda repentina surpreendeu os banhistas e foi associada à atuação de um sistema atmosférico instável sobre o oceano. O mesmo fato ocorreu na costa atlântica da província de Buenos Aires: um avanço repentino do mar, descrito como “mini tsunami”, deixou ao menos uma morte e cerca de 35 feridos. O professor reforça que se trata de um fenômeno raro.

O tsunami meteorológico ocorrido na Praia do Cardoso, apesar de raro, não tem relação com o aquecimento global, e novos episódios não são descartados. Não é possível evitar esse tipo de evento, mas a previsão e redução de danos dependem de tecnologia e investimento em pesquisa. O Brasil está longe de zonas de subducção, o que reduz o risco de tsunamis gerados por terremotos submarinos.


Jornal da USP

Brasil gasta milhões em saúde por falta de saneamento


O Brasil tem 12,46 casos de internação por doenças relacionados à água contaminada a cada 10 mil habitantes, com um custo de aproximadamente de R$ 99 milhões aos cofres públicos


Estação de Tratamento de Esgoto – Foto: Fernando Stankuns/Visual Hunt – CC



No último episódio em celebração ao Dia Mundial da Água, em 22 de março, a Rádio USP apresenta uma análise do potencial desperdiçado pelo Brasil ao não capitalizar recursos financeiros com o aproveitamento dos esgotos sanitários, enquanto despende milhões no tratamento de doenças decorrentes da carência de saneamento básico.

A incidência de internações no Brasil por doenças relacionadas à água contaminada, devido à falta de tratamento adequado, atingiu a marca de 12,46 casos para cada 10 mil habitantes, resultando em um custo aproximado de R$ 99 milhões aos cofres públicos, conforme dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus). Esses números, embora referentes a 2017, destacam o significativo impacto econômico provocado pela ausência de universalização do saneamento básico no País, que se traduz na falta de acesso à água potável encanada por 32 milhões de brasileiros e na ausência de sistemas de coleta e tratamento de esgoto para mais de 92 milhões de pessoas.

Giovana Tommaso – Foto: Reprodução / Acolhe FZEA

A professora Giovana Tommaso, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP em Pirassununga, lamenta que o índice de tratamento de esgotos em relação à quantidade coletada tenha diminuído entre 2015 e 2018, devido ao aumento na coleta ser maior do que no tratamento. Ela enfatiza que, embora não se possa generalizar, mantendo os investimentos atuais, a universalização da coleta poderia ser alcançada por volta de 2030, enquanto a universalização do tratamento só seria possível em torno de 2060.

O Brasil continua enfrentando altos custos para corrigir os problemas decorrentes da falta de saneamento básico universalizado, evidenciando a falta de compreensão das autoridades brasileiras sobre a necessidade urgente de resolver essa questão. Segundo a professora, os investimentos em saneamento e pesquisas são insuficientes para resolver esse problema grave, tanto em termos de saúde pública quanto ambiental.

Para a professora, é essencial que os representantes no poder público sejam indivíduos sérios, comprometidos em abordar de forma adequada a questão dos esgotos sanitários, que é de interesse público, estabelecendo um cronograma mais viável. Ela ressalta que não basta apenas discursar sobre a necessidade de atender às demandas da Organização das Nações Unidas (ONU), que são legítimas, mas é crucial compreender nossas próprias peculiaridades e necessidades locais.
Transformar prejuízo em lucro

Neste contexto, o Brasil perde uma oportunidade valiosa ao não utilizar a matéria orgânica proveniente dos esgotos domésticos e agroindustriais para gerar lucro em vez de prejuízo. Giovana ressalta a importância dessa matéria orgânica, destacando seu potencial na produção de biogás. Em grandes estações, o biogás pode ser convertido em energia elétrica e integrado à rede de distribuição, enquanto em instalações menores, mesmo quando não é economicamente viável, pode ser empregado como fonte de calor para desinfetar subprodutos como os lodos. Giovana também menciona a possibilidade de distribuição do biogás para uso na cocção, devido ao seu alto poder calorífico.

Quanto às águas residuais ou esgotos agroindustriais, há amplas oportunidades de reaproveitamento. Um exemplo, compartilhado pela professora, é a produção de ácidos orgânicos provenientes do tratamento de esgotos industriais concentrados, os quais podem ser usados na construção de bioplásticos. Esses processos, conforme destacado por Giovana, não só agregam valor ao produto final da estação de tratamento de águas residuais como também promovem uma abordagem mais sustentável.

Ao concluir, a professora enfatiza a importância de adotar medidas corretivas para mitigar os danos já causados, ao mesmo tempo em que instiga ações regenerativas em relação ao meio ambiente. “Cuidar da água, elemento que permeia todas as formas de vida, é condição primordial para que nossa existência seja garantida.”

Por: Rose Talamone e Ferraz Jr


Jornal da USP

Água é fundamental para a vida, inclusive na alimentação


“A insegurança hídrica tem estreita relação com a insegurança alimentar, ou seja, há uma parcela expressiva da população brasileira que tem fome e sede simultaneamente“, diz Pedro Jacobi


A água está intrinsecamente ligada aos sistemas agroalimentares, já que a produção de alimentos depende de uma boa quantidade de irrigação – Foto: feraugustodesign via Pixabay – Foto: feraugustodesign via Pixabay



Dia 22 de março é comemorado o Dia Mundial da Água e foi estabelecido pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1993. Porém, a relação desse líquido com a vida humana vai além da simples ingestão e passa também pela produção de alimentos.
Crise hídrica

Cada lugar possui um índice pluviométrico diferente, isto é, o volume da chuva varia de acordo com diversos fatores que incluem, além do geográfico, a presença ou não de vegetação natural, impacto da ação humana, tratamento das águas, entre outros. Quando se pensa na intervenção do ser humano, outra palavra recorrente é a escassez hídrica. “A partir do desmatamento nos biomas, dos processos de degradação dos solos, da poluição atmosférica e das águas, todas condições comprometem as bacias hidrográficas fundamentais para o consumo humano, ampliando os danos à saúde”, explica Pedro Jacobi, professor titular sênior do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente.

O poder público também tem responsabilidade nesse impacto: a má qualidade das águas dos rios por falta de tratamento de esgoto doméstico e ocupação em áreas de mananciais, falta de planejamento para a construção de novos reservatórios, falta de investimentos para a redução de perdas e falta de coordenação institucional são alguns pontos elencados pelo professor.
Água e alimentação

A água está intrinsecamente ligada aos sistemas agroalimentares, já que a produção de alimentos depende de uma boa quantidade de irrigação e até mesmo da água em si para os demais processos. No Brasil, Jacobi comenta que, como a maior parte das terras agrícolas é irrigada sazonalmente, dependendo das chuvas, situações de escassez hídrica decorrentes das mudanças climáticas são cada vez mais preocupantes
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Pedro Roberto Jacobi – Foto: IEA/USP

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor agropecuário foi responsável por 97,4% do consumo total de água no Brasil em 2017. “O setor agropecuário busca constantemente pela alta produtividade, que promove a expansão das lavouras como as de soja e milho e dos espaços destinados à pecuária, demandando a expansão da fronteira agrícola para regiões como a Amazônia e o Cerrado”, diz o professor. A consequência disso é o desmatamento e as queimadas florestais, que não comprometem apenas a região, mas também muitos outros locais que dependem da formação de chuvas.

Os reflexos desses problemas atingem tanto a quantidade quanto a qualidade das águas, o que, em cadeia, afeta diretamente a produção de alimentos, com consequências para as populações vulneráveis socialmente. “Os agricultores familiares são os mais duramente afetados, com a queda da qualidade das pastagens e da produção agrícola, gerando endividamento que dificulta desenvolver os próximos plantios”, explica Jacobi.
Sede e fome

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6 da ONU pretende “garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água potável e do saneamento para todos”. A água é um direito universal reconhecido pela ONU, mas ele não é cumprido integralmente. “Existe um dado para o qual não podemos deixar de olhar: a insegurança hídrica tem estreita relação com a insegurança alimentar, ou seja, há uma parcela expressiva da população brasileira que tem fome e sede simultaneamente, de acordo com relatório da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar“, ressalta o professor.

Para tentar controlar a situação, Jacobi diz que o Brasil precisará ampliar os estoques de alimentos e privilegiar culturas mais resistentes a secas, por causa das mudanças climáticas, além de difundir o nexo água, energia e alimentação, já que a água é um eixo estruturador. “A partir daí, entende-se que a governança e gestão da água devem ser integradas aos demais setores pelo seu papel fundamental para a produção de alimentos e garantidor de energia devido à importância da hidroeletricidade no País.”

*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo
Jornal USP

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