sábado, 23 de maio de 2026

Imagens de satélite: selfies para preservar o meio ambiente da Terra


Autores
Jovens revisores


Resumo

Fotografias não são apenas lembranças. As imagens geradas a partir do espaço exterior ajudam-nos a acompanhar o que está acontecendo com o planeta Terra e os seus recursos. Os satélites são equipados com sensores especiais (como olhos) que podem ver “cores” de luz que os olhos humanos não conseguem ver. Esses satélites orbitam bem acima de nós e viajam em torno da Terra o tempo todo. A visão panorâmica e a observação constante permitem que eles nos ajudem a obter informações sobre desastres naturais, mudanças climáticas e o clima. Este artigo oferece uma visão geral de como os satélites observam a Terra e menciona algumas das aplicações importantes dessa técnica para a conservação dos valiosos recursos naturais do planeta.
Introdução

O número de seres humanos na Terra está constantemente aumentando. Uma população maior significa que mais pessoas necessitam de acesso aos recursos naturais, como água, terra e minerais. No entanto, esses recursos são finitos, isto é, existe somente uma certa quantidade deles [1]. Como mais pessoas precisam de acesso ao mesmo número de recursos, tornou-se cada vez mais importante mapear e monitorar esses recursos com rapidez e precisão.

Governos e comunidades monitoram recursos em âmbito local, nacional e global. Precisamos saber quais os recursos naturais que estão disponíveis, em quais quantidades e se estão em bom estado ou se mudaram recentemente. Quando os países dispõem dessas informações, podem limitar a utilização de recursos que são escassos, para que não sejam utilizados em demasia.

Pense nas florestas. Há muitos anos, os humanos derrubavam árvores para obter combustíveis, madeira para móveis ou casas e para construir ferrovias. Nos séculos 18, 19 e até boa parte dos anos 1990, as pessoas não davam muita atenção à quantidade de florestas (especialmente aquelas tropicais, que possuem árvores que levam centenas de anos para crescer) ainda existentes para proteger o solo contra a erosão ou servir de habitat para pássaros e outros animais selvagens. Nosso pensamento mudou: agora percebemos que as florestas são os pulmões da Terra, e governos e organizações trabalham para protegê-las, para limitar o desmatamento e para replantar árvores em algumas áreas.

Para fazer isso, as pessoas devem primeiro saber onde as árvores foram derrubadas ao longo dos anos, quanta derrubada ocorreu e onde ainda existem árvores valiosas que precisam de proteção. Isso é chamado de gestão de recursos naturais e as fotos tiradas de cima da Terra em vários momentos podem fornecer informações sobre onde, quando e quantas árvores foram derrubadas.

Se quisermos saber quantos recursos podemos utilizar e com que rapidez podemos desenvolver uma área, precisamos de informações frequentes, consistentes e precisas sobre grandes áreas da Terra, capturadas de cima. Uma vez de posse dessas informações, ficamos capacitados a compreender melhor como as formas de vida estão interagindo com seus ambientes, a fim de monitorar e prever com segurança quão saudáveis são o solo, as costas e os oceanos, e quais objetos ou substâncias estão presentes nessas áreas. Felizmente, a tecnologia disponível para fornecer essas informações, chamada observação da Terra, tornou-se mais sofisticada ao longo do tempo [2].
O que é a observação da Terra?

A primeira foto aérea bem-sucedida da Terra, tirada de um veículo não tripulado, foi feita com uma pipa, em 1887. Mais tarde, em 1907, um farmacêutico alemão chamado dr. Neubronner teve a ideia de montar uma câmera em uma pomba. Com o tempo, a tecnologia de observação da Terra tornou-se mais avançada. Os seres humanos aprenderam a lançar satélites equipados com câmeras, que orbitam a Terra e tiram fotos regulares do planeta.

Aproximadamente 2.200 satélites orbitam a Terra e 446 deles a observam. Seus dados ajudaram os cientistas a mapear muitos fenômenos naturais, como secas, inundações e derretimentos glaciares. Os cientistas utilizam essas informações para compreender melhor o estado dos recursos naturais da Terra. Os satélites também podem ajudá-los a detectar áreas onde as atividades humanas estão prejudicando o ambiente por meio de atividades como o desmatamento, a mineração ilegal ou o pastoreio excessivo de terras agrícolas.
Os satélites detectam cores que não podemos ver

As imagens de satélite são semelhantes a fotografias, como as tiradas com um smartphone e postadas no Instagram. Dependem tanto da luz que os olhos humanos conseguem ver quanto da que não conseguem ver. Nossos olhos só conseguem ver a luz em certos comprimentos de onda – os que correspondem às cores vermelha, verde e azul –, enquanto os satélites conseguem vê-la em muitos. Imagine que seus ouvidos só ouvissem a rádio FM, enquanto os satélites ouvissem tanto a FM quanto a AM. Os satélites têm sensores – uma espécie de olhos – que podem detectar certos comprimentos de onda de luz que não podemos ver. Os cientistas transformam a informação luminosa obtida pelos satélites em imagens que lhes fornecem dados sobre a Terra.

Algumas imagens de satélites, iguais às utilizadas como uma camada noGoogleMaps, usam as cores azul, verde e vermelha que nossos olhos podem ver. Outros satélites tiram fotos usando luz infravermelha, que é invisível ao olho humano. Mesmo não podendo vê-la, usamos luz infravermelha em nossas vidas cotidianas. Por exemplo, o pequeno olho de vidro na parte superior do controle remoto de uma TV usa luz infravermelha para se comunicar com ela.

No Instagram, quando você olha uma foto em que foi usado um filtro para iluminar ou alterar as cores, talvez pense que se trata de algo muito artístico ou achar que parece falso. Se vir uma imagem de satélite com uma floresta vermelha brilhante (Figura1), pode pensar a mesma coisa – que deve ser uma imagem falsa. Mas uma floresta vermelha é tão real quanto uma verde-escura! A diferença é que essas imagens de satélites são feitas a partir de comprimentos de onda de luz que não podemos ver, como a infravermelha, por isso elas não nos parecem reais. Chamamos a isso imagens de cor falsa e, para saber o que significam, precisamos entender o que é uma imagem de satélite.
Figura 1. Imagem de satélite tirada durante os incêndios florestais na Austrália em dezembro de 2019. (A) Essa imagem combina informações dos comprimentos de onda azul, verde e vermelho, de modo que você pode ver a paisagem em suas cores naturais (note a fumaça que vem da queimada). (B) A cicatriz da queimada aparece em preto na visão infravermelha, enquanto florestas e pastagens aparecem em cores avermelhadas.
O que um satélite mede para produzir uma imagem?

Cada sensor de um satélite é ajustado para detectar uma faixa estreita de comprimento de onda – apenas luz azul, por exemplo. Imagens feitas com apenas um comprimento de onda aparecem em tons de cinza (Figura 2). Os objetos na Terra que produzem muitos comprimentos de onda específicos de luz aparecem como pontos brilhantes, enquanto os objetos que refletem ou produzem poucos (ou nenhum) comprimentos de onda aparecem como cinza-escuros ou até pretos. As informações captadas por todos os sensores do satélite são armazenadas em imagens denominadas dados de sensoriamento remoto multiespectral (Figura 2). 
Figura 2. (A) Imagem de satélite multiespectral que combina luz vermelha, verde e azul. [(B), B1] Uma parte da paisagem que reflete uma grande quantidade de luz aparece como pontos brilhantes nessa imagem tirada pelo olho azul do satélite. [(B), B2] A água do lago não reflete praticamente nenhuma luz e aparece em preto. [(C), C1] Nessa imagem tirada do olho praticamente nenhuma luz e aparece em preto. [(C), C1] Nessa imagem tirada do olho infravermelho do satélite, toda vegetação reflete muita luz (muitos pontos brilhantes). [(C). C2] A água do lago não reflete nenhuma luz e aparece em preto. O círculo vermelho mostra os pontos brilhantes.

Por exemplo, para o olho humano, as plantas saudáveis parecem verdes porque seus pigmentos refletem mais luz verde do que outros comprimentos de onda e elas absorvem mais luz vermelha e azul [3]. Mas tipos especiais de sensores em satélites captam luz infravermelha e a vegetação saudável reflete uma grande quantidade de luz infravermelha do sol [3]. Portanto, as plantas saudáveis aparecem vermelhas devido ao sensoriamento remoto.
A distância da Terra é importante

Os satélites podem orbitar a várias distâncias da Terra – de cerca de 36.000 km até meros 800 km. Os satélites que orbitam a 36.000 km acima da Terra são chamados de geoestacionários e ajudam nas previsões meteorológicas. Os satélites geoestacionários observam apenas um dos hemisférios da Terra e tiram fotos a cada 10 minutos aproximadamente. Eles auxiliam os cientistas a mapear como as nuvens e furacões se movem, podendo até coletar informações sobre quando os vulcões entrarão em erupção! Todavia, por estarem muito no alto, eles fornecem imagens da Terra de baixa qualidade, como se fossem filmes antigos. Os menores objetos que eles conseguem ver têm o tamanho de 500 a 1000 m.

Satélites que orbitam mais perto da Terra tiram fotos usando comprimentos de luz visíveis (para os humanos) e invisíveis. Eles conseguem ver objetos de 0,5 a 30 m – isto é, do tamanho de um carro até o de um quintal comum! Como orbitam em torno da Terra, tiram fotografias do mesmo local a cada 5–16 dias ou com menos frequência se vários satélites estiverem trabalhando em conjunto (para um exemplo, consulte PlanetLabs).
Como proteger os recursos da Terra

Os satélites são como guarda-costas da Terra. Observar a Terra a partir de satélites tem muitas vantagens. Eles conseguem cobrir grandes regiões como o continente americano inteiro e até a Terra inteira. O monitoramento dos recursos da Terra pode ser sistemático e contínuo usando-se imagens de satélites. Por exemplo, a GlobalForestWatch utiliza imagens de satélites para monitorar a quantidade de desmatamento florestal em locais como a Amazônia ou o Congo.

As observações de satélite nos fornecem dados consistentes, que podem ser compartilhados por muitos usuários para diferentes propósitos. Esses dados disponibilizam as informações necessárias para identificar problemas, tomar decisões e medidas de proteção ao ambiente natural, mobilizar ajuda após catástrofes, detectar e prever mudanças para preservar os preciosos recursos do nosso planeta. Geleiras derreteram no último ano? Quanto dano os incêndios florestais causaram? Quantos hectares de floresta foram desmatados nos últimos doze meses? Graças às centenas de satélites de observação que orbitam nosso planeta, podemos responder a perguntas como essas e aprender sobre a condição do solo, da água e da atmosfera.

A observação da Terra por satélite joga um olhar atento sobre nossos recursos naturais inestimáveis e nos fornece informações para gerir melhor nosso mundo – agora e no futuro.
Glossário

Gestão de Recursos Naturais: Gestão integrada dos recursos naturais que compõem as paisagens naturais do planeta, como terra, água, plantas e animais.

Observação da Terra: Visão da Terra a partir de aeronaves ou satélites, usando-se vários sensores que criam imagens para estudar o que está acontecendo na superfície ou próximo a ela.

Seca: Um longo período de precipitação anormalmente baixa, levando à escassez de água.

Comprimento de onda: Distância entre os picos das ondas, como as luminosas. O comprimento de onda de luz determina as cores que vemos.

Infravermelho: A luz infravermelha é parte do espectro de radiação eletromagnético. As ondas infravermelhas são mais longas que as ondas de luz visíveis, mas não tão longas quanto as ondas de rádio.

Dados do sensoriamento remoto multiespectral: Aquisição de imagens visíveis, próximas da luz infravermelha, e infravermelhas de ondas curtas em diversas faixas de comprimento.

Luz infravermelha: Parte dos comprimentos de ondas invisíveis que fica próxima à extremidade vermelha da luz visível.

Sensoriamento remoto: Processo de detecção e monitoração das características físicas de uma área, medindo-se sua luz emitida e refletida a distância, geralmente de satélites ou aviões.

Geoestacionário: Satélite que, do ponto de vista de um observador na Terra, parece quase estacionário no céu.


Agradecimentos

Este projeto contou com fundos do European Union’s Horizon 2020 Research and Innovation Programme, nos termos do acordo de subvenção nº 870518.
Referências

[1] Rockström, J., Steffen, W., Noone, K., Persson, A., Chapin, F. S., Lambin, E. F. et al. 2009. “A safe operating space for humanity”. Nature 461:472–5. DOI: 10.1038/461472a.

[2] CRCSI. 2016. Earth Observation: Data, Processing and Applications. Volume 1A: Data–Basics and Acquisition. Melbourne, VIC: Australia and New Zealand CRC for Spatial Information.

[3] Huete, A. 2004. Remote Sensing for Environmental Monitoring and Characterization. Amsterdã: Elsevier, pp. 183–206.
Citação

Metternicht, G. e Teece, B. L. (2023). “Satellite images: selfies for preserving Earth’s environment.” Front Young Minds. 11:886767. DOI: 10.3389/frym.2022.886767.
Unesp para Jovens

quinta-feira, 21 de maio de 2026

As causas pouco lembradas das inundações


Assoreamento de rios, ocupação de áreas de risco e precariedade das estruturas de atendimento a emergências ampliam o impacto das chuvas de verão, cada vez mais intensas

Uma tempestade se forma sobre a cidade de Belém, no Pará, em janeiro de 2020
Léo Ramos Chaves



Opróximo 1º de fevereiro, Dia Nacional da Defesa Civil, terá algumas más notícias. A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), do Ministério do Desenvolvimento Regional, e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) devem divulgar uma pesquisa mostrando a precariedade da Defesa Civil nos municípios brasileiros. Esse órgão faz mapeamentos de áreas de risco de inundações, deslizamentos e secas, promove as medidas de prevenção e socorre as populações atingidas por desastres naturais.

De acordo com o trabalho, cujos resultados iniciais foram debatidos em um seminário em novembro de 2021, a Defesa Civil de 72% dos 1.993 municípios cujos representantes responderam a um questionário on-line não têm orçamento próprio; em 59% das localidades, apenas uma ou duas pessoas formam a equipe desse órgão. Também faltam viaturas (67% dos casos), importantes para vistoriar áreas de risco ou atender a população, e computador (30%), indispensável para processar os levantamentos de áreas de risco.




“Sem uma Defesa Civil municipal bem equipada e com orçamento próprio, é praticamente impossível implementar os planos de prevenção dos chamados desastres naturais, que prefiro chamar de desastres socioambientais, porque não dependem apenas do clima”, comenta o sociólogo Victor Marchezini, do Cemaden, um dos autores do levantamento. Desastre, ele definiu, é resultado da interação de uma ameaça natural, como chuvas intensas ou contínuas, com vulnerabilidades territoriais, como a ocupação de áreas impróprias para moradia, e falhas no planejamento urbano e nas políticas públicas de redução de riscos, que incluem medidas como a drenagem e obras de contenção de encostas.

“Culpar a chuva atípica ou as pessoas que moram em áreas suscetíveis a desastres é uma forma de as autoridades públicas se eximirem de suas responsabilidades em vez de cuidar do ordenamento territorial e planejamento urbano”, observa Marchezini. “O que mata não é exclusivamente a chuva, mas principalmente a ausência das medidas preventivas para proteger a população de extremos de chuva”, reforça o climatologista José Marengo, coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden.



Vários trabalhos realizados no Brasil e no exterior corroboram as afirmações dos pesquisadores do Cemaden, mostrando que o aquecimento global favorece a ocorrência de chuvas intensas e as medidas de adaptação de cidades brasileiras à crise climática ainda são incipientes. Em áreas expostas aos riscos de desastres decorrentes de chuvas intensas vivem 8,3 milhões de pessoas, de acordo com um trabalho de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com um levantamento de 2020 do Banco Mundial, de 1995 a 2019 os desastres naturais causaram prejuízos de R$ 336 bilhões no Brasil, principalmente nas regiões Nordeste e Sul.

O impacto das chuvas depende essencialmente de fragilidades locais prévias, argumentaram Myanna Lahsen, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e Jesse Ribot, da Universidade Americana, em Washington, nos Estados Unidos, em um artigo publicado em dezembro de 2021 na revista científica Wires Climate Change. Marengo concorda: “Não é correto atribuir apenas às mudanças climáticas os desastres naturais, que causam mortes, como no sul da Bahia no final de 2021”. Outros fatores, como a remoção da cobertura vegetal, a ocupação das margens de rios e a política de ocupação do solo, com construções em áreas de risco, contribuem para as tragédias associadas com as chuvas de verão.

Os cientistas tentam, há quase 50 anos, ampliar a visão sobre os desastres naturais. Em um artigo publicado na Nature em abril de 1976, os geógrafos Phil O’Keefe e Ken Westgate, da Universidade de Bradford, e o filósofo da ciência Ben Wisner, da Universidade de Sussex, ambas no Reino Unido, argumentaram que os desastres resultam mais de fatores socioeconômicos do que naturais, observaram que a frequência de desastres naturais é maior em países mais pobres, por causa da vulnerabilidade da população, e recomendaram: “O planejamento preventivo deve começar com a remoção de conceitos de naturalidade dos desastres naturais”.

Em 10 de janeiro deste ano, na Communications Earth & Environment, Emmanuel Raju, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, Emily Boyd, da Universidade Norte-Oeste, na África do Sul, e Friederike Otto, do Imperial College London, do Reino Unido, reiteraram: “Perigos naturais como inundações, secas e ondas de calor tornam-se desastres como resultado da vulnerabilidade social, ou seja, uma propensão das pessoas, sociedades e ecossistemas a serem prejudicados. Muitas vezes, o status social, político e econômico das pessoas determina a natureza dos impactos diferenciais e desproporcionais”. Eles argumentam que uma abordagem proativa poderia ser mais eficiente para evitar os impactos dos eventos climáticos do que chamá-los de naturais.

Rio Branco, Acre, 2015: mais de 800 famílias atingidas
Sérgio Vale/Agência de Notícias do Acre

Avanços
“Ainda precisamos reforçar a percepção de risco em prefeitos, governadores, senadores e deputados para que cuidem da prevenção dos desastres ao longo de todo o ano, não apenas nos meses de chuvas mais fortes”, alerta Marengo. Um estudo do Cemaden verificou que as águas de esgoto decorrentes da falta de saneamento que caem em encostas da cidade de São Paulo podem causar deslizamentos, tanto quanto as chuvas.

Apesar do descaso, o pesquisador observa melhorias no monitoramento de riscos climáticos e de desastres e na resposta aos desastres naturais. O Cemaden acompanha em 1.038 municípios o risco de inundações e deslizamentos e em 1.140 o de secas, principalmente na região Nordeste. Quando necessário emite alertas climáticos para a Defesa Civil federal, que aciona a estadual, que por sua vez avisa a municipal.

Desse modo, segundo Marengo, tem sido possível realocar as populações em áreas de risco e amenizar o impacto das inundações. “Em janeiro de 2020, chuvas mais intensas que as de Nova Friburgo em 2011, com quase mil mortes, causaram 67 mortes em Belo Horizonte”, diz. “Diminuiu bastante, mas ainda é muito.”

Rio assoreado transborda com as chuvas em janeiro de 2022 em Porto Seguro, Bahia
Isac Nóbrega/PR

A cidade do Recife reduziu o risco de desmoronamento de encostas em áreas de risco por meio da construção de muros, escadas, caixas-d’água e fossas, a restauração de telas de proteção contra erosão e abertura de canaletas. A prefeitura cede o material e os moradores a mão de obra. Além de 383 obras concluídas, há 252 em andamento.

“Construir um muro de contenção pode salvar muitas vidas”, reitera o oficial da Guarda Civil Joel Malta de Sá, coordenador-geral da Defesa Civil do município de São Paulo, um dos órgãos da prefeitura mobilizado pelo Plano Preventivo Chuvas de Verão (PPCV), implantado em novembro de cada ano para monitorar e combater as enchentes e alagamentos na capital.

Por causa da excessiva impermeabilização da cidade e do crescimento dos assentamentos informais, diz ele, “não temos como dizer que não haverá mais alagamentos e enxurradas na cidade de São Paulo”. “Mas podemos intervir e tornar o desastre menor”, enfatiza. Segundo ele, a Defesa Civil faz monitoramento e vistorias constantes nas 493 áreas de risco da cidade. As informações são repassadas para as subprefeituras, que cuidam das obras de reparo.

Recuperação
Marchezini, com outros pesquisadores, esteve em União dos Palmares, Alagoas, em junho de 2011, um ano depois de uma grande inundação devastar o município. “Os moradores que aguardavam a reconstrução de suas casas ainda estavam em barracas superquentes, com esgoto a céu aberto, na beira da rodovia que chega ao município”, ele observou. Em Teresópolis, na serra do Rio de Janeiro, havia moradores em abrigos seis meses depois do deslizamento que soterrou bairros inteiros em janeiro de 2011.

Como em outras cidades, a impermeabilização do solo em São Luiz do Paraitinga ampliou o impacto do transbordamento do rio Paraitinga em 2010
Jfaria/Wikimedia

“Em geral as políticas de proteção social são bastante falhas”, comenta o pesquisador. “Raramente se pensa em reconstruir a economia, criando oportunidades de emprego para as pessoas que perderam suas casas ou seus negócios. Em Ilhota, em Santa Catarina, que visitei em 2008 após uma grande inundação, os desabrigados haviam perdido suas plantações e não tinham onde trabalhar, enquanto os empresários, também desabrigados, tinham de pagar os funcionários e fornecedores mesmo após perderem suas casas e fontes de renda.” O livro Abandonados no desastre, publicado em 2011 com apoio do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sintetiza suas observações e conclusões.

Há casos em que a população demonstra ter boa capacidade de reação. Com apoio da FAPESP, Marchezini acompanhou a reconstrução de São Luiz do Paraitinga (SP), destruída em janeiro de 2010 por causa de um transbordamento colossal do rio Paraitinga. De imediato, observou, os próprios moradores agiram com rapidez para responder à enchente e, depois, intervieram em audiências públicas, criaram o Centro de Reconstrução Sustentável de São Luiz do Paraitinga (Ceresta) e publicaram o jornal quinzenal A Reconstrução, que relatava a restauração da cidade. Treze anos depois, uma reportagem do programa Globo rural de janeiro de 2022 mostrou como a reposição de árvores em morros devastados pela pecuária reduziu o assoreamento do rio e ajudou a evitar novas enchentes.

Em 2019, com colegas do Inpe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), Marchezini expôs uma maquete interativa do centro histórico de São Luiz do Paraitinga na praça principal da cidade e em uma escola do ensino médio. O propósito, como detalhado em um artigo publicado em julho de 2021 na Disaster Prevention and Management, além do sentido educativo, era acentuar a preocupação com a redução de riscos de desastres similares. “Os moradores mais antigos reconheceram a cidade e o que fizeram durante a enchente. Os mais jovens, que não se lembram direito porque eram crianças na época, conheceram o que os moradores fizeram para se proteger e para recuperar a cidade”, ele relatou.

Projetos
Métodos de pesquisa multidisciplinar em cenários de riscos e desastres: Subsídios à formulação de sistemas de alerta centrados nas pessoas e nas multiameaças (no 18/06093-4); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Victor Marchezini (Cemaden); Investimento R$ 247.301,50.
INCT para Mudanças Climáticas (no 14/50848-9); Modalidade Projeto Temático ‒ Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais; Pesquisador responsável José Antônio Marengo Orsini; Investimento R$ 4.389.577,78.

Artigos científicos
LAHSEN, M. e RIBOT, J. Politics of attributing extreme events and disasters to climate change. Wires Climate Change. v. 13, e750. 11 dez. 2021.
O’KEEFE, P. et al. Taking the naturalness out of natural disasters. Nature. v. 260, p. 565-6. 15 abr. 1976.
RAJU, E. et al. Stop blaming the climate for disasters. Communications Earth & Environment. v. 3, 1. 10 jan. 2022.
TREJO-RANGEL, M. A. et al. Participatory 3D model to promote intergenerational engagement for disaster risk reduction in São Luiz do Paraitinga, Brazil. Disaster Prevention and Management. v. 30, n. 3, p. 308-26. 8 jul. 2021.

Livros
MARCHEZINI, V. (org.). Diagnóstico de Capacidades e Necessidade Municipais em Proteção e Defesa Civil. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Regional, 2021.
Revista Fapesp

Áreas verdes nas bordas das cidades encolhem



Em consequência, aumenta o risco de escassez de água e as enchentes se tornam mais fortes e frequentes

Vista aérea de Ribeirão Preto, que lidera as perdas de vegetação nativa no centro-leste paulista
Delfim Martins / Pulsar Imagens


Por causa da expansão de bairros, condomínios e de áreas agrícolas, os campos alagados e as matas ao longo dos vales de rios nas margens das cidades encolheram nas últimas décadas em várias regiões do estado de São Paulo – e tendem a continuar se retraindo. Em consequência da pavimentação ou da compactação de solos, a recarga dos aquíferos diminuirá, a água da chuva terá uma menor retenção superficial e as enchentes se tornarão mais intensas e frequentes.

“Ocupar as bordas das cidades prejudica o funcionamento das áreas úmidas, que ajudam a reduzir o impacto da água das chuvas”, comenta o engenheiro ambiental Edimilson Rodrigues dos Santos Júnior, da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP), principal autor desse trabalho, publicado em janeiro na iScience.

Atualmente bolsista da Fundação Fulbright na Universidade de Massachusetts (UMass), em Amherst, Estados Unidos, ele mapeou 261 mil hectares (ha), o equivalente a 2,6 mil quilômetros quadrados (km²) de áreas periurbanas – nas bordas das cidades – situadas em 39 cidades do centro-leste paulista, identificou 47 mil ha de áreas úmidas e examinou as transformações que sofreram entre 1985 e 2020.

Santos Júnior verificou que quase metade (45%) do solo e da vegetação das áreas úmidas periurbanas, incluindo as matas e campos que originalmente as ocupavam, encontra-se degradada. Outra constatação é que os corpos d’água e as zonas úmidas sofreram declínios constantes nas últimas décadas, enquanto as áreas urbanas e agrícolas avançaram, ocupando 83% das áreas antes cobertas por vegetação nativa e cursos d’água.

Não se trata de um fenômeno exclusivo do Brasil. Com base em registros de drenagem de áreas alagadas e ocupação da terra, estima-se que 3,4 milhões de km², de um total de 15,8 milhões de km², de zonas úmidas continentais em todo o mundo já tenham sido perdidos desde 1700. A redução das áreas ocorreu principalmente no século XX e em países e regiões como os Estados Unidos, a China, a Europa e a Ásia Central. Entre 1999 e 2019, as áreas úmidas costeiras, formadas por planícies de maré e manguezais, sofreram uma redução global de 4 mil km².

Ribeirão Preto lidera as perdas
De acordo com o estudo do grupo da USP, uma das oito sub-regiões analisadas, que inclui parte dos municípios de Ribeirão Preto e nove próximos, foi a que mais perdeu áreas verdes periurbanas: 860 ha de 1985 a 2020. A redução poderá alcançar 960 ha até 2035 se a tendência de ocupação continuar.

Em outra pesquisa, apresentada em setembro de 2025 na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como defesa de doutorado, o engenheiro civil Breno Malheiros de Melo detectou um avanço das áreas impermeáveis de 0,5% em 1985 para 1,3% em 2024, o equivalente a cerca de 3 mil km², incluindo todos os espaços urbanos, não apenas os periféricos, na Região Metropolitana de Ribeirão Preto (RMRP). “Embora esse valor seja relativamente pequeno em termos percentuais, sua significância hidrológica é elevada, já que áreas impermeáveis comprometem diretamente a capacidade de recarga do aquífero e ampliam os riscos de poluição difusa”, alerta.

Nos anos 1940, no interior paulista, as fazendas de café ocuparam as áreas de florestas que controlavam a vazão dos rios 
Instituto de Expansão Comercial / Fundação Biblioteca Nacional

“A maior parte desse crescimento urbano está concentrada em zonas periurbanas e de expansão urbana desordenada, particularmente nos municípios mais populosos da RMRP”, acrescenta. De acordo com sua análise, no entanto, a legislação de proteção das áreas verdes – como o Código Florestal de 1965 e 2012, a Lei da Mata Atlântica, de 2006, e a Lei de Crimes Ambientais, de 1998 – impediu, ao menos em parte, o avanço do desmatamento urbano e promoveu a restauração de áreas verdes, por vezes exigindo o plantio de 25 mudas para cada árvore cortada.

A perda de vegetação nativa em áreas próximas às cidades reflete um processo histórico bastante antigo. “Em 1917, 40 anos depois da chegada da família Prado a Ribeirão Preto, no lugar das antigas florestas frescas e biodiversas, havia 37 milhões de pés de café nas escarpas pouco íngremes que caracterizam o relevo da região”, comentou o historiador Daniel Deminice, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em um artigo publicado em agosto de 2025 na Oculum Ensaios – Revista de Arquitetura e Urbanismo. Sem cobertura vegetal, a fertilidade do solo caiu, exigindo a ocupação de novas terras.

Ele constatou que uma das consequências da eliminação das florestas é que os rios passam a correr mais rápido, uma vez que as matas deixam de conter e absorver a água. “Com o desflorestamento”, observou, “as chuvas também passaram a transportar os elementos férteis do solo, que eram renovados pelas florestas e redistribuídos pelas águas na forma de matéria orgânica”. Sintomaticamente, em janeiro, uma das avenidas centrais de Ribeirão Preto alagou após chuvas intensas, que não tinham mais áreas descobertas por onde escoar.

Nem sempre, porém, as perdas são evidentes. De 1985 a 2020 a área ocupada por vegetação nativa nas áreas periurbanas de outra sub-região, que integra parte dos municípios de Casa Branca, Itobi e Vargem Grande do Sul, avançou 0,1 ha (100 km²) e a área agrícola recuou na mesma proporção. Esse cenário deve se inverter e até 2035 a agricultura é que deve avançar 0,1 ha sobre os espaços verdes, “por causa da dinâmica regional, que favorece a ocupação por atividades econômicas”, segundo Santos Júnior, da EESC.

São Carlos e Ibaté registraram variação nula para o período examinado, o que não significa um resultado necessariamente positivo. “Mesmo antes de 1985, quando começamos a usar imagens de satélite com boa resolução, as técnicas de mapeamento indicaram que 60% das áreas úmidas já haviam sido degradadas nessa região, ocupadas por bairros residenciais, empresas ou cultivos agrícolas”, relata o engenheiro mecânico Marcelo Montaño, da EESC-USP, orientador do trabalho, resultante do mestrado de Santos Júnior.

Diversas regiões de SP e de outros estados vivem a mesma situação, de acordo com um levantamento publicado em 2023 pelo projeto MapBiomas da rede de organizações não governamentais Observatório do Clima. Em Campinas, no interior paulista, 69% das Áreas de Preservação Permanente (APP) próximas a cursos d’água, formadas por vegetação nativa, que deveriam ser preservadas, foram ocupadas por construções, residências ou infraestrutura urbana. Em Cuiabá, capital de Mato Grosso, 92,51% das APP próximas a rios estão sob ocupação urbana.

De acordo com esse estudo, coordenado por Santos Júnior e Montaño, em todo o país as áreas urbanizadas próximas de rios e córregos aumentaram 61 mil ha nas últimas três décadas. Por outro lado, ainda existem cerca de 300 mil ha, o equivalente a 71% do total nacional, de áreas não urbanizadas no entorno de corpos hídricos urbanos, que deveriam ser restauradas e preservadas.

A Área de Proteção Ambiental Bororé-Colônia, na capital paulista, impede o avanço da ocupação urbana
Junior Castro / Pulsar Imagens

“Não deveríamos ocupar as várzeas de vales e rios”, enfatiza Santos Júnior. “Os espaços não construídos podem ser utilizados para reter água, em vez de construir infraestrutura.” Também em 2023, ele foi um dos autores da Cartilha da cidade, elaborada em conjunto com arquitetos da USP de São Carlos e distribuída pelos próprios pesquisados nas escolas da região.

“Precisamos mudar a forma de pensar a ocupação urbana e implementar um planejamento que reconheça a importância do meio ambiente, de longo prazo”, sugere Montaño. Ele conta da dificuldade em promover debates mais abrangentes e rever conceitos que lhe pareciam defasados durante reuniões de conselhos municipais e federais de meio ambiente dos quais participou. “Continuamos trabalhando para reparar os prejuízos, como a destruição após as enchentes, mas não paramos de produzir novos prejuízos.” As secretarias de Meio Ambiente de São Carlos e do estado de São Paulo não atenderam aos pedidos de entrevista feitos pela reportagem de Pesquisa FAPESP.

Ao analisar a governança da drenagem hídrica no país, a economista Mônica Kuwahara e outros pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC) reconheceram as “dificuldades em implementar medidas estruturantes, como a coordenação entre normas de planejamento, gestão e regulação dos serviços”, e propuseram um planejamento integrado. O estudo foi publicado em novembro de 2025 no Boletim regional, urbano e ambiental, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“Tenho visto o espraiamento desordenado das cidades sobre áreas com outros usos por todo o estado de São Paulo, com prejuízos para a qualidade ambiental”, comenta a geóloga Amarilis Gallardo, da Escola Politécnica (Poli) da USP e da Universidade Nove de Julho (Uninove). Ela é uma das pesquisadoras principais de um projeto sobre cidades sustentáveis do programa Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD-SP), financiado pela FAPESP.

Gallardo tem visto também bons exemplos. É o caso da Área de Proteção Ambiental (APA) Bororé-Colônia, criada na zona sul da cidade de São Paulo como compensação ao licenciamento ambiental do trecho sul do Rodoanel. Englobando três parques naturais, essa área verde tem protegido nascentes e impedido o avanço das pastagens e da ocupação urbana sobre os remanescentes da Mata Atlântica, de acordo com um estudo de seu grupo, publicado em julho de 2022 no periódico Landscape and Urban Planning. Apoiada pelo programa Biota-FAPESP, a análise compreendeu as mudanças do uso do solo e seus efeitos na região entre 1990 e 2018.

“Financiamento para recuperação de áreas degradadas existe, o que falta são bons projetos”, assegura o engenheiro civil e consultor Evandro Kaam. De 2021 a 2025, enquanto fazia o mestrado na Uninove, ele foi gerente de divisões da prefeitura de São Roque, a 62 km da capital, e coordenou a restauração de uma área subutilizada, com amplos espaços verdes, que havia sido ocupada por uma fábrica de tecidos e depois comprada pela prefeitura. “Há 10 anos”, ele conta, “um prefeito queria desmatar para construir prédios”.

Kaam fez um projeto para completar a restauração do espaço, conseguiu o apoio das autoridades do município e depois um financiamento não reembolsável de cerca de R$ 8 milhões de órgãos estaduais. Transformado em centro cultural e turístico, o espaço ajuda a deter as enchentes e funciona como um corredor verde integrado a um parque municipal, como detalhado em artigo publicado em setembro de 2023 na revista Estudos Avançados. Agora à frente da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano de Mogi Mirim, a 155 km a leste da capital, Kaam se empenha na recuperação do espaço que abrigava o zoológico do município, fechado desde 2014.

Em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, um grupo de 130 moradores se organizou, planejou e, de 2019 a 2025, restaurou as margens do córrego Tiririca. Como detalhado em um artigo de fevereiro na Sustainability, a área, antes sujeita à erosão e degradação, agora abriga um bosque de 900 m de extensão com árvores e quase 200 espécies de animais da região, aves, insetos e anfíbios.

A reportagem acima foi publicada com o título “Menos verde nas bordas das cidades” na edição impressa nº 363 de maio de 2026.

Projetos
1. Desenvolvimento de método para avaliação da significância de impactos ambientais no contexto brasileiro (n° 21/14412-5); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Marcelo Montaño (USP); Investimento R$ 116.668,67.
2. Avaliação das diretrizes de regulação de serviços de drenagem e resíduos sólidos em São Paulo (n° 23/10215-6); Modalidade Programa de Pesquisa em Políticas Públicas; Pesquisadora responsável Mônica Yukie Kuwahara (UFABC); Investimento R$ 692.072,18.
3. Acomodação sustentável do crescimento urbano das cidades paulistas (n° 24/01097-2); Modalidade Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCD-SP); Pesquisador responsável Miguel Luiz Bucalem (USP); Investimento R$ 4.291.050,67.
4. Serviços Ecossistêmicos na Gestão de Unidades de Conservação Urbanas: Diretrizes técnicas para integração de políticas públicas e instrumentos de planejamento ambiental (n° 19/18988-9); Modalidade Programa Biota-FAPESP; Pesquisadora responsável Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo (USP); Investimento R$ 51.201,50.

Artigos científicos
BUZZAR, M. A. et al. Cartilha da cidade: v.1. São Carlos: IAU/USP, 2023.
KUWAHARA, M. Y. et al. Governança da drenagem urbana e resiliência climática: Desafios institucionais e experiências subnacionais no Brasil. Boletim Regional, Urbano e Ambiental. n. 35, p. 115-24. nov. 2025.
PETRONI, M. L. et al. Understanding land use change impacts on ecosystem services within urban protected areas. Landscape and Urban Planning. v. 223, 104404. jul. 2022
SANTOS JUNIOR, E. R. dos e MONTAÑO, M. Assessment of anthropogenic pressure around peri-urban wetlands in the state of São Paulo, Brazil. iScience. v. 29, n. 1, 114346. 16 jan. 2026.
Revista Fapesp

O afundamento das cidades costeiras




Imagem de satélite da Região Metropolitana de Tampa, na Flórida
USGS / Nasa


Várias cidades costeiras estão afundando mais rápido do que o nível do mar está subindo, segundo estimativas de pesquisadores da Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos. Sob coordenação do geocientista Meng Wei, eles analisaram a situação de 99 cidades em diferentes continentes. Usando imagens de satélites produzidas entre 2015 e 2020, os pesquisadores determinaram variações na altura do solo com precisão milimétrica. Eles constataram que muitas cidades estão sofrendo um processo chamado de subsidência, o afundamento da superfície por conta de deformações nas camadas subterrâneas. Em várias delas, a subsidência se deve à extração de água do subsolo. Pelo menos 33 cidades estão afundando mais de 1 centímetro por ano, cinco vezes a taxa de aumento do nível do mar – entre elas Houston, nos Estados Unidos, Querala, na Índia, e Kobe, no Japão (Geophysical Research Letters, 24 de março). Os autores alertam que, se o processo seguir no ritmo atual, os modelos de elevação do nível do mar não conseguirão prever adequadamente a intensidade das inundações que podem atingir essas cidades.
Revista Fapesp

Água tem dono?





Água tem dono?


A água é essencial a vida e imprescindível para atividades humanas. Observamos que a água é cada vez mais alvo de grandes discussões e disputas, pois é essencial para produção de bens e serviços, além de estar, diretamente e indiretamente, associada ao desenvolvimento de uma nação. Mas afinal, de quem é a água?

De acordo com a Constituição Brasileira, no Artigo 20, item III, as águas são “bens da União: os lagos, rios e quaisquer correntes de água em terrenos do seu domínio, ou que banhem mais de um estado, sirvam de limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais”. O Brasil possui três esferas de Administração: a União (Federal), os Estados e os Municípios, a mesma Constituição, Artigo 26, item I, diz que “incluem-se entre os bens dos Estados as águas superficiais ou subterrâneas, fluentes, emergentes e em depósito”.

Esta também foi uma das questões discutidas no Fórum Mundial da Água realizado no Brasil em 2018, nos debates o tom foi de dar um “não” ao entendimento de que a água é uma mercadoria. Além disso, o debate enfatizou que a água é direito e as desigualdades já tão gritantes na sociedade brasileira ainda se refletem no acesso a água potável e de qualidade.

Em uma entrevista concedida ao Programa Porque o Mundo Precisa de Água (POMPA) do Instituto Água Sustentável, o advogado Wladimir Ribeiro deu uma explicação bastante didática sobre como o Direito classifica a propriedade da Água.

Como que o direito classifica a propriedade da água?

Como ponto de partida podemos considerar uma mera gota d’água suspensa na atmosfera, então nos perguntamos: quem é o proprietário desta gotinha?

A resposta é: essa gota d’água não pode ser apropriada, pois é definida em direito como “coisa comum a todos”, ou seja, ninguém pode se apropriar diretamente dela. Então, essa gota d’água se precipita (se transforma em chuva) e cai no solo, se torna água pluvial e passa a pertencer ao proprietário do solo.

Quando a gotinha d’água deixa de ser gota, se transforma em chuva e depois em água pluvial, poderá seguir 3 caminhos: 1) infiltrar no solo, se tornar água subterrânea e abastecer os aquíferos, sendo esta água subterrânea de propriedade do Estado; 2) evaporar e voltar a ser uma gota d’água; 3) escoar e chegar na propriedade vizinha, passando a ser propriedade deste vizinho.

Porém, se a água continuar seu trajeto e ter como destino a rede de águas pluviais, ela será de responsabilidade do poder público de manejo de águas pluviais urbanas, sendo propriedade do titular do serviço público (companhia de água municipal) que tem um regime jurídico específico. Se este sistema de águas pluviais lança essa água em um corpo hídrico, como por exemplo um rio, e este é um rio estadual a água passa a ser de propriedade do Estado.

Dando continuidade, a água continua seu caminho e desemboca em um rio de domínio federal, ela então passa a ser de propriedade federal, ou seja, da União. A nossa água encontrou o mar e ainda é de propriedade da União, porém ela foi mais adiante e encontrou as águas internacionais e então ela volta a ser propriedade de todos, será novamente “coisas comum a todos”.

Uma gota d’água desafia todo o sistema de classificação de propriedade construída pela ciência jurídica, faz parte da nossa vida de todas as maneiras. Em cada estágio será regida por uma governança específica e por uma legislação pertinente!

Há muito mais a ser discutido, principalmente em relação a cobrança da água, mas este é um novo assunto.
https://www.aguasustentavel.org.br/

As Queimadas e Seus Impactos nos Recursos Hídricos





As Queimadas e Seus Impactos nos Recursos Hídricos: Um Olhar Profundo sobre o Brasil

Bruna Soldera


As queimadas são um fenômeno recorrente em diversas partes do mundo, especialmente em regiões tropicais como o Brasil. Elas podem ocorrer de forma natural, mas, em muitos casos, são provocadas por ações humanas. Independentemente de sua origem, as queimadas têm consequências devastadoras para o meio ambiente, afetando diretamente a biodiversidade, o solo e, de maneira significativa, os recursos hídricos. Este artigo explora as causas e consequências das queimadas, com um foco especial em como elas impactam a água, um recurso vital para todos os seres vivos.


Causas e Consequências das Queimadas

As causas das queimadas são variadas e frequentemente interligadas. Naturalmente, elas podem ser desencadeadas por raios em áreas de vegetação seca, mas a maioria das queimadas é resultado de atividades humanas. No Brasil, práticas agrícolas, como o desmatamento para a criação de pastagens e o preparo do solo para o plantio, não são casos raros. Além disso, a expansão urbana e a falta de fiscalização contribuem para o aumento das queimadas ilegais.

As consequências das queimadas são extensas e devastadoras. Elas incluem a perda de biodiversidade, a degradação do solo e a liberação de grandes quantidades de gases de efeito estufa, como dióxido de carbono e metano, que contribuem para o aquecimento global.

Além disso, as queimadas destroem a cobertura vegetal, que é essencial para a manutenção da qualidade do solo e a regulação do ciclo da água. A vegetação atua como uma barreira natural que retém a umidade no solo e ajuda na absorção da água das chuvas. Sem essa proteção, o solo torna-se mais vulnerável à erosão e à desertificação.


Queimadas no Brasil

O Brasil é um dos países mais afetados pelas queimadas, especialmente na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. A Amazônia, por ser a maior floresta tropical do mundo, desempenha um papel crucial na regulação do clima global e no ciclo da água. As queimadas nesta região são frequentemente associadas ao desmatamento ilegal para a agricultura e a pecuária.

No Cerrado, que é conhecido como a "caixa d'água do Brasil" devido à sua importância na recarga de aquíferos, as queimadas afetam diretamente a disponibilidade de água. O Pantanal, uma das maiores áreas úmidas do mundo, também sofre com as queimadas, que afetam não apenas a fauna e a flora locais, mas também os recursos hídricos que sustentam a vida selvagem e a atividade econômica na região.

Segundo um levantamento feito pelo MapBiomas (2024) “a área atingida pelo fogo no primeiro semestre deste ano foi de 4,48 milhões de hectares, sendo que 78% desse total ocorreu em vegetação nativa – a maioria em vegetação campestre (40%). Entre os biomas, a Amazônia registrou a maior área queimada, com 2,97 milhões de hectares – 66% do total atingido pelo fogo no país”.

Segundo o levantamento, no primeiro semestre de 2024 os estados com mais queimadas foram Roraima, Pará e Mato Grosso do Sul e juntos representam 67% do total das áreas atingidas pelo fogo, já no segundo semestre a maior concentração foi no Cerrado e Pantanal, sendo o Pantanal o mais atingido pelo fogo: 79% do total e no primeiro semestre de 2024 a área queimada teve um aumento de 529%.

Já na Mata Atlântica, 73 mil hectares foram devastados pelo fogo entre janeiro e junho de 2024, sendo que 71% estão concentrados em áreas agropecuárias (MapBiomas, 2024).


Mas as queimadas não se limitam somente a essas regiões, em comparação ao mesmo período de julho de 2023 o aumento da área atingida pelo fogo foi 119% maior (MapBiomas, 2024), é assustador e isso provoca um gigantesco impacto no meio ambiente e também na economia.

Nos mapas do Monitor de Fogo do MabBiomas (2024) é possível ver que a área queimada em junho de 2024 no Brasil foi de mais de quatro milhões de hectares, sendo os picos em janeiro e junho, o Estado mais afetado em junho de 2024 foi Corumbá.

De acordo com Lucas Guaraldo (IPAM Amazônia, 2024): “O fogo queimou 199 milhões de hectares, atingindo 68% de vegetação nativa, entre 1985 e 2023. A área queimada equivale a 23% de toda a extensão do País e supera o território de países como México, décimo terceiro maior do mundo.”

No Estado de São Paulo vimos a mídia noticiar diversos focos de incêndio no interior do estado, o município de São José do Rio Preto registrou 92% mais incêndio que em 2023, foram contabilizados 1.623 ocorrências de queimadas em áreas de vegetação nos oito primeiros meses de 2024 (DW, 2024). Em Morro Agudo o fogo destruiu 4,5 mil hectares de canaviais e áreas de preservação (uma das maiores do estado) (G1, 2024).

Segundo a Defesa Civil a área total atingida pelo fogo no estado foi de 34 mil hectares até agosto de 2024, sendo que 48 municípios estavam em estado de alerta máximo (CNN, 2024). Entre os dias 19 e 24 de agosto foram registrados 3.500 focos de incêndio e as condições climáticas contribuíram para espalhar o fogo e a fumaça, sendo que mais de 8 mil locais foram afetados, entre eles fazendas, chácaras, sítios, usinas e áreas preservadas (G1, 2024).

As Queimadas e Seus Impactos nos Recursos Hídricos: Um Olhar Profundo sobre o Brasil

Escrito por Bruna Soldera em 03 Setembro 2024 Postado em Blog.


As queimadas são um fenômeno recorrente em diversas partes do mundo, especialmente em regiões tropicais como o Brasil. Elas podem ocorrer de forma natural, mas, em muitos casos, são provocadas por ações humanas. Independentemente de sua origem, as queimadas têm consequências devastadoras para o meio ambiente, afetando diretamente a biodiversidade, o solo e, de maneira significativa, os recursos hídricos. Este artigo explora as causas e consequências das queimadas, com um foco especial em como elas impactam a água, um recurso vital para todos os seres vivos.


Causas e Consequências das Queimadas

As causas das queimadas são variadas e frequentemente interligadas. Naturalmente, elas podem ser desencadeadas por raios em áreas de vegetação seca, mas a maioria das queimadas é resultado de atividades humanas. No Brasil, práticas agrícolas, como o desmatamento para a criação de pastagens e o preparo do solo para o plantio, não são casos raros. Além disso, a expansão urbana e a falta de fiscalização contribuem para o aumento das queimadas ilegais.

As consequências das queimadas são extensas e devastadoras. Elas incluem a perda de biodiversidade, a degradação do solo e a liberação de grandes quantidades de gases de efeito estufa, como dióxido de carbono e metano, que contribuem para o aquecimento global.

Além disso, as queimadas destroem a cobertura vegetal, que é essencial para a manutenção da qualidade do solo e a regulação do ciclo da água. A vegetação atua como uma barreira natural que retém a umidade no solo e ajuda na absorção da água das chuvas. Sem essa proteção, o solo torna-se mais vulnerável à erosão e à desertificação.


Queimadas no Brasil

O Brasil é um dos países mais afetados pelas queimadas, especialmente na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. A Amazônia, por ser a maior floresta tropical do mundo, desempenha um papel crucial na regulação do clima global e no ciclo da água. As queimadas nesta região são frequentemente associadas ao desmatamento ilegal para a agricultura e a pecuária.

No Cerrado, que é conhecido como a "caixa d'água do Brasil" devido à sua importância na recarga de aquíferos, as queimadas afetam diretamente a disponibilidade de água. O Pantanal, uma das maiores áreas úmidas do mundo, também sofre com as queimadas, que afetam não apenas a fauna e a flora locais, mas também os recursos hídricos que sustentam a vida selvagem e a atividade econômica na região.

Segundo um levantamento feito pelo MapBiomas (2024) “a área atingida pelo fogo no primeiro semestre deste ano foi de 4,48 milhões de hectares, sendo que 78% desse total ocorreu em vegetação nativa – a maioria em vegetação campestre (40%). Entre os biomas, a Amazônia registrou a maior área queimada, com 2,97 milhões de hectares – 66% do total atingido pelo fogo no país”.

Segundo o levantamento, no primeiro semestre de 2024 os estados com mais queimadas foram Roraima, Pará e Mato Grosso do Sul e juntos representam 67% do total das áreas atingidas pelo fogo, já no segundo semestre a maior concentração foi no Cerrado e Pantanal, sendo o Pantanal o mais atingido pelo fogo: 79% do total e no primeiro semestre de 2024 a área queimada teve um aumento de 529%.

Já na Mata Atlântica, 73 mil hectares foram devastados pelo fogo entre janeiro e junho de 2024, sendo que 71% estão concentrados em áreas agropecuárias (MapBiomas, 2024).


Mas as queimadas não se limitam somente a essas regiões, em comparação ao mesmo período de julho de 2023 o aumento da área atingida pelo fogo foi 119% maior (MapBiomas, 2024), é assustador e isso provoca um gigantesco impacto no meio ambiente e também na economia.

Nos mapas do Monitor de Fogo do MabBiomas (2024) é possível ver que a área queimada em junho de 2024 no Brasil foi de mais de quatro milhões de hectares, sendo os picos em janeiro e junho, o Estado mais afetado em junho de 2024 foi Corumbá.

De acordo com Lucas Guaraldo (IPAM Amazônia, 2024): “O fogo queimou 199 milhões de hectares, atingindo 68% de vegetação nativa, entre 1985 e 2023. A área queimada equivale a 23% de toda a extensão do País e supera o território de países como México, décimo terceiro maior do mundo.”

No Estado de São Paulo vimos a mídia noticiar diversos focos de incêndio no interior do estado, o município de São José do Rio Preto registrou 92% mais incêndio que em 2023, foram contabilizados 1.623 ocorrências de queimadas em áreas de vegetação nos oito primeiros meses de 2024 (DW, 2024). Em Morro Agudo o fogo destruiu 4,5 mil hectares de canaviais e áreas de preservação (uma das maiores do estado) (G1, 2024).

Segundo a Defesa Civil a área total atingida pelo fogo no estado foi de 34 mil hectares até agosto de 2024, sendo que 48 municípios estavam em estado de alerta máximo (CNN, 2024). Entre os dias 19 e 24 de agosto foram registrados 3.500 focos de incêndio e as condições climáticas contribuíram para espalhar o fogo e a fumaça, sendo que mais de 8 mil locais foram afetados, entre eles fazendas, chácaras, sítios, usinas e áreas preservadas (G1, 2024).



Impactos aos Recursos Hídricos

As queimadas têm um impacto direto e significativo nos recursos hídricos. A destruição da cobertura vegetal reduz a infiltração da água no solo, diminuindo a recarga de aquíferos e afetando a disponibilidade de água subterrânea. Além disso, a ausência de vegetação aumenta o escoamento superficial da água da chuva, o que pode levar à erosão do solo e à sedimentação de corpos d'água, como rios e reservatórios. Esse processo de assoreamento diminui a capacidade de armazenamento de água e pode comprometer a qualidade da água, aumentando a turbidez e o transporte de nutrientes e poluentes.

Outro efeito das queimadas nos recursos hídricos é o aumento da temperatura da água. Sem a vegetação para fornecer sombra, os corpos d'água ficam expostos à radiação solar direta, o que pode elevar a temperatura da água e afetar a sobrevivência de espécies aquáticas. A elevação da temperatura da água também pode acelerar o processo de evaporação, reduzindo ainda mais a disponibilidade de água em regiões já afetadas por secas.

Um destaque especial é a relação entre água e fogo no Pantanal, que é evidente: a drástica redução da superfície de água, associada a eventos extremos de seca, favorece a ocorrência e propagação de incêndios. Nos últimos 39 anos, o Pantanal foi o bioma brasileiro que mais secou, com a superfície de água em 2023 atingindo apenas 382 mil hectares, 61% abaixo da média histórica (MapBiomas, 2024). O ano de 2023 foi 50% mais seco que 2018 (ano da última grande cheia no bioma), em 2024, a situação piorou, com precipitações de janeiro a maio alcançando o menor nível desde 2020, isso resultou na ausência do esperado pico de cheia e no prolongamento da seca até setembro, aumentando o risco de incêndios, segundo Eduardo Rosa, do MapBiomas (2024).



As queimadas representam uma ameaça significativa para os recursos hídricos, a proteção das florestas e a promoção de práticas sustentáveis de uso da terra são fundamentais para garantir a disponibilidade de água para as gerações presentes e futuras. É essencial que políticas públicas eficazes sejam implementadas e que a sociedade civil se mobilize para combater as queimadas e seus impactos devastadores sobre o meio ambiente e, em particular, sobre nossos preciosos recursos hídricos.

Por isso, o Instituto Água Sustentável continua sua missão de conscientizar e promover ações para a preservação dos recursos hídricos, fundamentais para a vida e o bem-estar de todos os seres vivos.






O que fazer em caso de queimadas?

1. Evite áreas afetadas: se houver queimadas na sua região, evite se aproximar das áreas afetadas. A fumaça pode ser tóxica, e o fogo pode se espalhar rapidamente, colocando sua segurança em risco.

2. Feche portas e janelas: se você estiver em uma área próxima a queimadas, mantenha portas e janelas fechadas para evitar que a fumaça entre em sua casa. Use toalhas úmidas para vedar possíveis frestas e minimizar a entrada de fumaça.

3. Use máscaras apropriadas: se precisar sair de casa durante uma queimada, utilize máscaras N95 ou PFF2 para filtrar partículas da fumaça e proteger seu sistema respiratório. Máscaras de pano ou cirúrgicas comuns não são eficazes contra a fumaça densa.

4. Mantenha-se informado: acompanhe as notícias locais e os alertas das autoridades sobre a situação das queimadas. Siga orientações de evacuação e avisos de emergência para garantir sua segurança e de sua família.

5. Tenha um plano de evacuação: prepare um plano de evacuação para você e sua família, incluindo rotas de saída, pontos de encontro e um kit de emergência com documentos importantes, medicamentos, água e alimentos não perecíveis. Esteja sempre pronto para sair rapidamente, se necessário.


Referências:







https://www.aguasustentavel.org.br/

terça-feira, 19 de maio de 2026

Você sabia que um grau a mais na temperatura também gera uma catástrofe para o ecossistema dos desertos?






Quando pensamos em aquecimento global, é natural imaginar que os desertos, por já serem ambientes extremamente quentes e secos, seriam menos afetados pelas mudanças climáticas. Essa percepção, no entanto, está longe da realidade. Mesmo pequenas alterações na temperatura ou precipitação podem afetar drasticamente as plantas e animais que habitam essas regiões aparentemente inóspitas.

A verdade é que os desertos abrigam ecossistemas complexos e delicadamente equilibrados, onde cada grau de aquecimento pode representar uma ameaça existencial para espécies que levaram milhões de anos para se adaptar às condições extremas. E o mais preocupante: as previsões indicam que o aquecimento global não apenas afetará os desertos existentes, mas também aumentará as terras desérticas, que já cobrem um quinto da superfície terrestre.


A riqueza oculta dos ecossistemas desérticos
Contrariando a imagem de ambientes vazios e sem vida, os desertos são biologicamente ricos e abrigam uma impressionante variedade de flora e fauna. Existem desertos em todos os continentes, compreendendo cerca de 20% da massa terrestre do planeta, divididos em quatro tipos principais: desertos quentes e secos, desertos frios, desertos costeiros e desertos semiáridos.


O deserto do Saara, provavelmente o mais famoso entre os desertos quentes e secos, pode atingir temperaturas de 50°C. Em contraste, desertos frios como os do Ártico e da Antártida estão entre os lugares mais gelados do mundo. Os desertos costeiros, como o de Atacama no Chile, permanecem secos apesar da proximidade com o oceano, pois o ar frio marinho é incapaz de reter umidade antes de atingir a terra.


Esses ambientes hostis sustentam besouros que correm pelo deserto da Namíbia, cactos saguaro que se erguem majestosos no sudoeste dos Estados Unidos, e inúmeras outras espécies perfeitamente adaptadas às condições extremas. Cada uma dessas adaptações representa milhões de anos de evolução, criando um equilíbrio frágil que pode ser facilmente perturbado.

A importância dos desertos para a humanidade


Os desertos não são apenas importantes pela biodiversidade que abrigam, mas também pelo papel fundamental que desempenham na vida humana. Mais de 1 bilhão de pessoas vivem em grandes áreas áridas, dependendo desses ambientes como fonte de alimento e recursos. O ambiente seco é ideal para preservar artefatos arqueológicos e fósseis, oferecendo janelas únicas para o passado da humanidade.

Além disso, os desertos ajudam a prevenir tempestades de areia prejudiciais através da biocrosta – a camada superior do solo que contém microorganismos responsáveis por manter o solo intacto. Essa função reguladora é fundamental para a estabilidade climática regional e global.

Como o aquecimento global ameaça os desertos



O aquecimento global está aumentando dramaticamente a incidência de secas, secando poços de água que são vitais para a sobrevivência de plantas e animais do deserto. Temperaturas mais altas produzem um número crescente de incêndios florestais que alteram drasticamente as áreas desérticas, eliminando árvores e arbustos de crescimento lento e substituindo-os por gramíneas de crescimento rápido.

Essa mudança na vegetação altera completamente a estrutura do ecossistema, afetando desde a disponibilidade de abrigo para animais até os padrões de erosão do solo. O que pode parecer uma mudança sutil tem efeitos cascata que se espalham por toda a teia alimentar do deserto.


A irrigação usada na agricultura pode, a longo prazo, elevar os níveis de sal no solo a patamares que se tornam altos demais para sustentar a vida das plantas. Animais de pastagem, como o gado, podem destruir muitos outros animais e plantas do deserto através do pisoteio e do pastejo excessivo.

Ameaças humanas aos ecossistemas desérticos
Além das mudanças climáticas, os desertos enfrentam pressões diretas das atividades humanas. O cianeto de potássio usado na mineração de ouro pode envenenar a vida selvagem das áreas desérticas. Veículos off-road, quando usados de forma irresponsável para turismo ou transporte, causam danos irreparáveis aos habitats do deserto, destruindo a frágil biocrosta que leva décadas para se formar.


A produção de petróleo e gás pode perturbar habitats sensíveis, enquanto resíduos nucleares são frequentemente despejados em desertos, que também têm sido usados como campos de testes nucleares. Essas atividades criam zonas de contaminação que podem persistir por séculos.


Atividades humanas como a coleta de lenha e o pastoreio de animais estão convertendo regiões semiáridas em desertos através de um processo conhecido como desertificação. O crescimento populacional e a maior demanda por terras são sérios obstáculos no esforço para combater esse problema.

O processo de desertificação


A desertificação é um tema que deve ser debatido na COP30 no Brasil, afinal mais de 1 bilhão de pessoas vivem em zonas áridas, tornando as ameaças do deserto uma questão global. Esse processo não é apenas uma expansão natural dos desertos, mas frequentemente resultado direto de práticas humanas insustentáveis.

Quando terras férteis se transformam em desertos devido ao uso inadequado, perdemos não apenas a capacidade produtiva do solo, mas também a biodiversidade única que caracteriza as zonas de transição entre diferentes ecossistemas. Essas áreas de transição são frequentemente as mais ricas em espécies e as mais vulneráveis às mudanças.

Soluções para proteger os desertos

Apesar dos desafios, existem maneiras eficazes de preservar os desertos do mundo. Podemos usar os recursos hídricos existentes de forma mais eficiente e controlar melhor a salinização para melhorar as terras áridas. Encontrar novas maneiras de fazer a rotação de culturas protege o solo frágil, enquanto plantar arbustos e árvores que fixam a areia ajuda a estabilizar o ambiente.


O plantio de leguminosas, que extraem nitrogênio do ar e o retêm no solo, pode ajudar a restaurar a fertilidade do solo. A escavação de sulcos artificiais no solo ajuda a reter a chuva e capturar sementes levadas pelo vento, promovendo a regeneração natural da vegetação.


Turismo sustentável nos desertos
O turismo e o lazer conscientes e sustentáveis são componentes importantes da conservação dos desertos. A designação de trilhas e estradas específicas ajuda a evitar que os viajantes danifiquem a frágil biocrosta, uma ameaça frequentemente negligenciada mas extremamente importante para a saúde do ecossistema.


Educar visitantes sobre a importância da biocrosta e como suas ações podem afetar o ambiente por décadas é fundamental. Um único passo fora da trilha pode destruir microorganismos que levaram anos para se estabelecer.


A conexão global dos ecossistemas desérticos
Os desertos não existem em isolamento – eles estão conectados aos sistemas climáticos globais de maneiras complexas. Tempestades de areia do Saara, por exemplo, transportam nutrientes essenciais para a Floresta Amazônica, demonstrando como ecossistemas aparentemente distantes estão interconectados.


Essa conectividade significa que mudanças nos desertos podem ter efeitos em cascata que se espalham pelo planeta. Proteger os desertos não é apenas uma questão local ou regional – é uma responsabilidade global que afeta o equilíbrio climático de todo o planeta.

Tecnologia e monitoramento


O uso de tecnologia avançada para monitorar as mudanças nos ecossistemas desérticos é fundamental para a conservação. Satélites podem detectar mudanças na vegetação, temperatura do solo e padrões de precipitação, permitindo respostas rápidas a ameaças emergentes.

Sensores no solo podem monitorar a umidade, temperatura e atividade microbiana, fornecendo dados valiosos sobre a saúde da biocrosta e outros indicadores ecológicos. Essa informação é essencial para desenvolver estratégias de conservação eficazes e adaptativas.


O papel da educação e conscientização
A educação pública sobre a importância dos ecossistemas desérticos é fundamental para sua proteção. Muitas pessoas ainda veem os desertos como “terras vazias” sem valor ecológico, uma percepção que precisa ser mudada através de programas educacionais e campanhas de conscientização.


Escolas, universidades e organizações ambientais podem desempenhar um papel vital na educação sobre a biodiversidade dos desertos, sua importância para o clima global e as ameaças que enfrentam. Quanto mais pessoas compreenderem o valor desses ecossistemas, maior será o apoio para sua conservação.


Adaptação e resiliência
Desenvolver estratégias de adaptação para comunidades que vivem em regiões desérticas é essencial diante das mudanças climáticas. Isso inclui técnicas de agricultura sustentável adaptadas ao clima árido, sistemas de captação e armazenamento de água, e desenvolvimento de fontes de renda alternativas que não degradem o ambiente.


As comunidades tradicionais que vivem em desertos frequentemente possuem conhecimento ancestral valioso sobre como viver de forma sustentável nesses ambientes. Integrar esse conhecimento tradicional com a ciência moderna pode resultar em soluções inovadoras e eficazes.

Ciência


Um futuro incerto, mas não sem esperança
O futuro dos ecossistemas desérticos depende das ações que tomamos hoje. Cada grau de aquecimento global representa uma ameaça crescente para esses ambientes únicos, mas ainda temos tempo para implementar soluções eficazes.


A proteção dos desertos requer uma abordagem integrada que combine conservação, uso sustentável dos recursos, educação e cooperação internacional. Não podemos nos dar ao luxo de ignorar esses ecossistemas aparentemente resistentes – eles são mais frágeis do que imaginamos e mais importantes do que muitos reconhecem.


O planeta não pode perder a riqueza biológica e os serviços ecossistêmicos únicos que os desertos proporcionam. Cada ação de conservação, cada política de proteção e cada mudança de comportamento individual contribui para garantir que as futuras gerações possam conhecer e se beneficiar da extraordinária diversidade da vida no deserto.

A mensagem é clara: mesmo um grau a mais pode ser catastrófico, mas ainda temos o poder de fazer a diferença. O tempo de agir é agora.

Geografia e a Arte

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