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sexta-feira, 20 de março de 2026

Como as redes sociais estão alimentando tensões geopolíticas no Chifre da África




por Endalkachew Chala

No Chifre da África, onde alianças políticas frágeis e tensões militares são vistos como normais, o conflito entre Etiópia, Egito e Somália encontrou um novo campo de batalha: as redes sociais. Plataformas como TikTok, X (antigo Twitter) e Facebook agora são jogadores-chave em uma guerra digital onde a desinformação está alimentando o fervor nacionalista e aumentando o risco de violência no mundo real.


Duas questões principais de tensão geopolítica alimentam esse conflito on-line: a construção da Grande Represa do Renascimento (GERD) pela Etiópia no rio Nilo e seu recente envolvimento diplomático com a Somalilândia, uma região autodeclarada independente que busca reconhecimento internacional. Para o Egito, que depende do Nilo para sua água, a represa é vista como uma ameaça direta à sua sobrevivência. Enquanto isso, a aproximação da Etiópia com a Somalilândia gerou indignação na Somália, que vê a mudança como um desafio à sua integridade territorial.

Embora esses conflitos derivem de disputas históricas e geográficas profundamente enraizadas, eles agora alcançaram milhões por meio das redes sociais.
Influência do TikTok

O TikTok, em particular, surgiu como um palco onde tensões geopolíticas complexas são reduzidas, dramatizadas e frequentemente distorcidas. Em uma tendência amplamente compartilhada, um usuário etíope postou um vídeo onde uma mulher simbolicamente despeja água de uma jarra marcada com a bandeira da Etiópia em jarras menores rotuladas Egito e Sudão, representando o controle da Etiópia sobre o Nilo. Acompanhado por música patriótica, o vídeo é uma demonstração ousada de orgulho nacional, amplificando as narrativas etíopes nas redes sociais.



Usuários egípcios do TikTok responderam da mesma forma. Em um vídeo, dois homens despejam água de uma tigela marcada com a bandeira da Etiópia em copos representando Egito e Sudão, apenas para devolver a água à tigela. O vídeo termina com a colocação de um dispositivo explosivo na tigela, sugerindo a frustração do Egito e aludindo à possibilidade de sabotagem. Embora esses vídeos sejam simbólicos, as tensões subjacentes que eles refletem são muito reais.

Com uma guerra de informações em andamento entre o Egito e a Etiópia como pano de fundo, o relacionamento crescente da Etiópia com a Somalilândia complicou ainda mais a dinâmica frágil da região. Em janeiro de 2024, a Etiópia assinou um memorando de entendimento com a Somalilândia, sugerindo um possível reconhecimento de sua independência — um movimento ao qual a Somália se opôs veementemente. Percebendo uma oportunidade, o Egito reforçou seus laços com a Somália por meio de um acordo de cooperação militar, aumentando as tensões na região.

Desde então, surgiram relatos de que o Egito forneceu equipamento militar e pessoal para a Somália.

À medida que as notícias da aliança Egito-Somália se espalhavam, o TikTok e outras plataformas de rede social foram inundadas com vídeos comemorativos, muitos dos quais dependiam de conteúdo gerado por IA e filmagens manipuladas.

Entre os mais provocativos estava um usuário anônimo do TikTok, operando sob o nome “user74220974543408“, que ganhou atenção por uma série de postagens incendiárias. Em uma delas, um mapa da Etiópia é mostrado sob os pés com a bandeira egípcia circulando ao redor, acompanhado por uma música ameaçadora criada para evocar uma sensação de ameaça./


Uma criadora egípcia do Tiktok, @100._._6, frequentemente posta vídeos elogiando o poder militar do Egito e celebrando sua aliança com a Somália. Seu conteúdo ganhou força significativa na Somália, tornando-se um ponto de encontro para aqueles que veem a parceria como vital para combater a influência regional da Etiópia. Esses vídeos atraíram centenas de comentários em árabe, amárico, oromo e inglês, destacando o impacto regional desse crescente conflito digital.

As seções de comentários estão repletas de retórica e bandeiras nacionalistas. Os apoiadores etíopes se gabam afirmando “A Etiópia está pronta” e “Somos reis na África”, enquanto aqueles que carregam a bandeira da Somalilândia oferecem seu apoio, referindo-se aos etíopes como “irmãos” prontos para “lutar”. As contas somalis, por outro lado, expressam prontidão para se alinhar ao Egito e unir forças contra a Etiópia.

Algumas contas vão um passo além, defendendo a violência contra comunidades específicas na Somália. Em particular, contas como @anti_qabiil2023 têm como alvo a comunidade oromo, alimentando tensões ao encorajar a violência contra eles, especialmente dada a herança oromo do primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed.

Até mesmo o recurso de “partida ao vivo” do TikTok — onde os usuários competem por presentes digitais de seguidores — foi cooptado para a briga. Alguns usuários encenam “batalhas” ao vivo, com uma pessoa representando a Etiópia e a outra o Egito, incentivando seus seguidores a enviar presentes digitais como uma demonstração de apoio. Essas disputas de cinco minutos, embora enquadradas como lúdicas, refletem tensões nacionalistas profundamente enraizadas. O lado com mais presentes virtuais vence, transformando o que parece ser uma interação despreocupada em um reflexo das divisões políticas do mundo real da região.
Táticas de IA e desinformação

As táticas de desinformação não se limitaram a vídeos virais e memes. Atores egípcios e somalis reutilizaram discursos de antigos líderes globais para alimentar tensões regionais. Um vídeo amplamente divulgado apresenta o comentário do ex-presidente dos EUA Donald Trump em 2020 de que o Egito poderia “explodir” a Grande Represa do Resnascimento, usado por figuras egípcias e somalis para atiçar o medo de um conflito iminente.



Enquanto isso, atores pró-Etíope e da Somalilândia usaram as críticas anteriores de Trump à congressista somali-americana Ilhan Omar, e comentários sobre a Somália ser um estado “sem lei” para minar o governo da Somália.

A guerra de informações também se baseou na exploração de divisões internas na Etiópia. Atores alinhados aos governos egípcio e somali têm como alvo grupos de oposição na diáspora etíope, particularmente grupos nacionalistas amhara, para aprofundar as divergências políticas. Esses grupos circularam conspirações sugerindo que a comunidade amhara poderia se alinhar ao Egito e à Somália se essas nações interviessem contra o governo de Abiy Ahmed. Essa narrativa, que coloca o governo etíope como uma ameaça à segurança nacional, foi avidamente adotada por figuras egípcias e somalis que buscam capitalizar a discórdia interna da Etiópia.

Usuários pró-governo etíope no TikTok não permaneceram em silêncio neste conflito digital. Eles responderam com conteúdo baseado na longa história de resistência da Etiópia a potências estrangeiras, incluindo conflitos anteriores com o Egito, enquadrando a GERD como um símbolo de soberania nacional. Essas narrativas enfatizam a luta mais ampla da Etiópia pela autodeterminação, colocando o projeto da barragem como um ponto de orgulho nacional.



Para complicar ainda mais a narrativa, usuários de rede social pró-governo etíope têm destacado os rivais regionais do Egito, como Argélia e Marrocos, em um esforço para mudar o discurso a favor da Etiópia. Um desenvolvimento recente viu a Etiópia assinar um acordo de cooperação militar com Marrocos, adicionando outra camada à intrincada rede de alianças e rivalidades da região.

Uma conta proeminente do TikTok publica regularmente propaganda gerada por IA glorificando as capacidades militares da Etiópia, apresentando imagens da bandeira etíope e um leão acompanhados por música motivacional, projetando a força da Etiópia para esmagar seus oponentes. Outra conta imita a voz do primeiro-ministro Abiy Ahmed falando em árabe, gerando milhares de comentários elogiando suas habilidades linguísticas e alcance diplomático.
Disseminação multiplataforma

A guerra da desinformação se espalhou por todas as plataformas, com conteúdo sendo republicado no Facebook e no X, muitas vezes sem verificação adequada. Isso alimentou a imitação e a disseminação viral de memes, amplificando o alcance da desinformação e aumentando as tensões em um ambiente político já frágil.


O TikTok lançou seu Conselho Consultivo de Segurança da África Subsaariana, modelado após o Conselho de Supervisão do Meta, embora seu sucesso em coibir conteúdo prejudicial nesta região turbulenta ainda esteja para ser visto.

Conforme a lacuna entre a desinformação on-line e o conflito do mundo real diminui no Chifre da África, as apostas nesta guerra digital estão se tornando cada vez mais severas.

Texto traduzido por Rami Alhames do artigo How social media is fueling geopolitical tensions in the Horn of Africa originalmente escrito por Endalkachew Chala, publicado por Global Voices sob a licença Creative Commons Attribution 3.0. Leia o original em: Global Voices.
Revista de Relações de Exteriores

A busca de 30 anos da Somalilândia por reconhecimento: os interesses dos EUA podem fazer a diferença?



Mais de três décadas após declarar unilateralmente independência da Somália, a Somalilândia ainda busca reconhecimento internacional como Estado soberano. Apesar da falta de reconhecimento formal, o território separatista construiu um sistema de governança relativamente estável. Isso tem despertado crescente interesse de potências globais, incluindo os Estados Unidos. Com mudanças nas dinâmicas regionais e a intensificação da competição entre grandes potências, a busca da Somalilândia por reconhecimento ganha novo impulso. Aleksi Ylönen, que estuda política no Chifre da África e a busca por reconhecimento da Somalilândia, explica os fatores em jogo.
Quais argumentos legais e históricos a Somalilândia utiliza?

O Movimento Nacional Somali foi um dos principais movimentos insurgentes baseados em clãs responsáveis pelo colapso do governo central na Somália. Ele reivindica o território do antigo protetorado britânico da Somalilândia. O Reino Unido concedeu status soberano à Somalilândia em 26 de junho de 1960.

O governo somali tentou suprimir os chamados pela secessão. Ele orquestrou o massacre brutal de centenas de milhares de pessoas no norte da Somália entre 1987 e 1989.Foto por Fataho dhaadsan. Via Wikicommons. (Domínio público)

Mas o Movimento Nacional Somali declarou independência unilateral em 18 de maio de 1991 e se separou da Somália.

Com o colapso do regime somali em 1991, o principal inimigo do movimento desapareceu. Isso levou a uma luta violenta pelo poder entre várias milícias.

Isso só diminuiu após o político Mohamed Egal consolidar o poder. Ele foi eleito presidente da Somalilândia em maio de 1993.

Egal fez acordos com comerciantes e empresários, oferecendo incentivos fiscais e comerciais em troca de apoio. Como resultado, obteve os meios econômicos para consolidar o poder político e promover a paz e a construção do Estado. Seus sucessores mantiveram essa abordagem desde sua morte em 2002.
O que a Somalilândia fez para buscar reconhecimento?

Sucessivos governos da Somalilândia continuam engajados em diplomacia informal. Eles se alinharam com o Ocidente, especialmente os EUA, que eram a potência dominante após a Guerra Fria, e o antigo colonizador, o Reino Unido. Ambos os países abrigam comunidades significativas da diáspora da Somalilândia.

EUA e Reino Unido flertam há décadas com a ideia de reconhecer a Somalilândia, que consideram um parceiro estratégico. No entanto, eles foram repetidamente contidos por suas políticas em relação à Somália, que priorizam fortalecer o governo de Mogadíscio, amplamente apoiado, para reafirmar sua autoridade sobre os territórios somalis.

Essa política em relação à Somália tem sido cada vez mais questionada nos últimos anos, em parte devido aos desafios de segurança em Mogadíscio. Em contraste, o governo de Hargeisa, na Somalilândia, demonstrou capacidade de fornecer segurança e estabilidade. Realizou eleições e sobreviveu como Estado por três décadas, apesar de enfrentar resistência política e oposição armada.

Com o surgimento de novas potências globais, os governos da Somalilândia adotaram uma política externa mais diversificada, com um objetivo: o reconhecimento internacional.

Hargeisa abriga consulados e escritórios representativos de Djibuti, Etiópia, Quênia, Taiwan, Reino Unido e União Europeia, entre outros.

O governo também estabeleceu relações informais com os Emirados Árabes Unidos. A monarquia do Oriente Médio serve como centro de negócios e destino para exportações de gado. Muitos somalilandeses migram para lá.

A Somalilândia mantém escritórios representativos em vários países, incluindo Canadá, EUA, Noruega, Suécia, Reino Unido, Arábia Saudita, Turquia e Taiwan. Hargeisa alienou a China ao colaborar com Taiwan desde 2020. Taiwan é uma ilha autogovernada reivindicada pela China.

Em 1º de janeiro de 2024, o então presidente da Somalilândia, Muse Bihi, assinou um memorando de entendimento com o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, para maior cooperação. Bihi sugeriu que a Etiópia seria o primeiro país a reconhecer formalmente a Somalilândia. O acordo causou um grave deterioração nas relações entre Adis Abeba e Mogadíscio.

Abiy posteriormente moderou sua posição e, com mediação turca, se reconciliou com seu homólogo somali, o presidente Hassan Mohamud.
O que está por trás do interesse dos EUA na Somalilândia?

Os EUA, como outras grandes potências, se interessam pela Somalilândia devido à sua localização estratégica. Ela está nas margens africanas do Golfo de Áden, em frente à Península Arábica. Sua posição geográfica ganhou relevância recentemente com os ataques dos rebeldes houthis do Iêmen ao tráfego marítimo nas movimentadas rotas de navegação. A Somalilândia também está bem posicionada para combater a pirataria e o contrabando nessa rota comercial global.

O Comando Africano dos EUA estabeleceu sua principal base no Chifre da África em Camp Lemonnier, em Djibuti, em 2002, após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Em 2017, a China, que se tornou a principal potência econômica estrangeira no Chifre da África, instalou uma base de apoio naval em Djibuti. Isso incentivou uma colaboração mais estreita entre as autoridades americanas e da Somalilândia. Os EUA consideraram estabelecer uma base em Berbera, que abriga o maior porto da Somalilândia.

Com a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA em 2024, houve relatos de um aumento nos esforços para o reconhecimento dos EUA à Somalilândia. Isso permitiria aos EUA aprofundar parcerias comerciais e de segurança na volátil região do Chifre da África.

Desde março de 2025, representantes do governo Trump têm negociado com autoridades da Somalilândia para estabelecer uma base militar dos EUA perto de Berbera. Isso seria em troca de um reconhecimento formal, mas parcial, da Somalilândia.
Quais são os riscos do reconhecimento dos EUA à Somalilândia?

Um maior envolvimento dos EUA com a Somalilândia corre o risco de negligenciar a Somália.

Mogadíscio depende de assistência militar externa em sua luta contra o grupo extremista islâmico Al-Shabaab, que avança. A Somália também enfrenta crescente desafio de duas regiões federais, Puntland e Jubaland.

O reconhecimento dos EUA recompensaria Hargeisa por seus esforços persistentes para manter a estabilidade e promover a democracia. No entanto, poderia encorajar outros países a reconhecer a Somalilândia. Isso seria um golpe para os nacionalistas somalis que desejam um Estado para todos os somalis.

Texto traduzido do artigo Somaliland’s 30-year quest for recognition: could US interests make the difference?, de Aleksi Ylönen publicado por The Conversation sob a licença Creative Commons Attribution 3.0. Leia o original em: The Conversation.
Revista de Relações Exteriores

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Al-Shabab, o grupo acusado pelo maior ataque da história da Somália, que matou mais de 300 pessoas



Direito de imagemAFP Image caption
Militantes do Al-Shabab foram responsabilizados por ataque mais letal da história da Somália

A organização extremista Al-Shabab foi apontada pelo governo da Somália como responsável pela explosão que deixou pelo menos 300 mortos e centenas de feridos na capital do país, Mogadíscio.

O ataque, que aconteceu no sábado em uma movimentada área da cidade, é o mais letal da história do país desde que o grupo surgiu, há cerca de dez anos.

A explosão foi tão forte que destruiu hotéis, edifícios do governo e restaurantes.

"Foi a maior explosão que eu já vi na vida. Destruiu toda a área", disse uma testemunha à agência de notícias AFP.

Um dos mortos foi uma estudante de medicina que colaria grau no dia seguinte.

Seu pai havia viajado a Mogadíscio para comparecer à solenidade, mas acabou participando de seu enterro.

"O incidente de hoje foi um ataque horrível do Al-Shabab contra civis inocentes", disse o presidente Mohamed Abdullahi Mohamed à imprensa local.

Somalis foram às ruas protestar contra o grupo e pedir doação de sangue. Os hospitais estão superlotados de feridos e há falta de medicamentos e de bolsas de sangue.

Um avião militar da Turquia chegou com ajuda médica. Horas depois, voltou ao país carregando 40 feridos.

Nenhum grupo ainda reivindicou a autoria do atentado.

O Al-Shabab, que tem ligações com a Al-Qaeda, vem realizando ataques violentos, em especial no Quênia, há anos.

A organização extremista chegou a controlar parte da Somália, mas foi expulsa das principais cidades que dominava no sul e no centro do país.

Ainda assim, o grupo permanece como uma ameaça em potencial ao governo local, que conta com o apoio da ONU (Organização das Nações Unidas) e da União Africana (UA), e a países vizinhos.

Quem é o Al-Shabab?

Direito de imagemAFP  Image caption
Ataque da sábado deixou mais de 250 mortos e 300 feridos

Al-Shabab significa 'A Juventude' em árabe. O grupo surgiu como uma ala radical da hoje extinta União das Cortes Islâmica da Somália em 2006, enquanto combatia forças etíopes que invadiram o país para apoiar o fraco governo interino.

Nas áreas sobre seu controle, impôs uma versão rígida da sharia (lei islâmica), desde o apedrejamento até a morte das mulheres acusadas de adultério, passando pelo amputamento dos acusados de roubo.

Estima-se que, atualmente, o grupo tenha de 7 mil a 9 mil combatentes, incluindo estrangeiros.
Qual é a orientação religiosa do Al-Shabab?

O Al-Shabab defende a versão wahabista do islã, inspirada pela Arábia Saudita, enquanto a maioria dos somalis segue a linha do sufismo.

Por destruir um grande número de santuários sufistas, o grupo insuflou o descontentamento popular.

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Forças lideradas pela União Africana expulsaram Al-Shabab das principais cidades do país

Quanto da Somália o Al-Shabab controla?

O Al-Shabab foi expulso da capital do país, Mogadíscio, em agosto de 2011.

Apesar de ter perdido o controle das principais cidades e povoados, o grupo ainda tem influência sobre áreas rurais da Somália.

Analistas acreditam que a organização extremista vem se focando cada vez mais em táticas de guerrilha para conter o poder de fogo das forças da UA.

Mas o grupo está sob pressão de várias frentes, tanto na Somália quanto no Quênia e na Etiópia.

Em agosto deste ano, Mukhtar Robow Mansuur, porta-voz da organização e um de seus ex-líderes, se entregou ao governo da Somália e pediu aos integrantes do Al Shabab para abandonarem a organização.

Quem é o líder do Al-Shabab?

Por anos a fio, Ahmed Abdi Godane liderou o grupo. Também conhecido como Mukhtar Abu Zubair, ele era originário da região separatista da Somalilândia, ao norte do país.

Godane, uma figura reclusa que era amante de poesia e assumiu o comando do grupo, foi morto em 2014 em um ataque aéreo americano assim como seu antecessor, Moalim Aden Hashi Ayro, morto 2008.

Ahmad Umar, que também é conhecido como Abu Ubaidah e teria cerca de 40 anos, é apontado como um dos cabeças da organização. Em 2014, ele foi indicado por unanimidade entre os comandantes para liderar o Al-Shabab.

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Al Shabab tem realizado vários ataques no Quênia | foto: Bernard Kamuen

Quais foram os principais ataques do grupo?

Antes do atentado na capital da Somália, as ações do Al-Shabab que haviam recebido mais cobertura internacional foram ataques no país vizinho Quênia.

Em abril de 2015, o Al-Shabab atacou o campus de uma universidade na cidade de Garissa, no noroeste do Quênia, e deixou mais 147 estudantes mortos.

Dois anos antes, o grupo havia assumido a responsabilidade pelo ataque que deixou dezenas de mortos num shopping de Nairóbi, também no Quênia.

Anteriormente, foi responsabilizado por um ataque suicida duplo na capital de Uganda, Kampala, que matou 76 pessoas que assistiam pela televisão à final da Copa do Mundo de futebol, em 2010.

O ataque aconteceu porque Uganda - junto com o Burundi - forneceu grande parte das tropas da UA na Somália antes de o Quênia entrar no conflito.

Quem são os apoiadores do Al-Shabab?

A Eritreia é o único aliado regional, mas nega prover armas para o Al-Shabab. A Eritreia apoia o grupo para conter a influência da arquiinimiga Etiópia, de que se tornou independente em 1993.

Com o apoio dos Estados Unidos, a Etiópia enviou tropas para a Somália em 2006 para combater os islamistas. As forças etíopes se retiraram em 2009 após sofrer fortes baixas.

Num vídeo de 2012, o ex-líder da organização disse que obedecia ao comando da organização terrorista Al-Qaeda. Analistas acreditam que por anos os dois grupos atuaram juntos.

Há ainda a suspeita de que o Al-Shabab tenha ligação com outros grupos extremistas da África como o Boko Haram, da Nigéria. Contudo, não se sabe qual o nível de relacionamento do Al-Shabab com o autoproclamado Estado Islâmico.

Quais são as redes de recrutamento?

Assim como outros grupos extremistas, o Al-Shabab também usa redes sociais como o Facebook e o Twitter para recrutar combatentes e disseminar informações sobre as atividades da organização.

A editora do serviço africano da BBC, Mary Harper, afirma que o Al-Shabab é muito ativo na internet e usa vídeos com rap e imagens de campos de treinamento na tentativa de atrair seguidores.

*Esse texto foi publicado originalmente em 21 setembro de 2013 e atualizado depois do novo ataque na capital da Somália, Mogadíscio.
BBC Brasil

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Somália devastada

Mogadíscio é o centro de um país dominado por piratas e terroristas. Ao norte, porém, a região separatista da Somalilândia é estável e pacífica. Como se explica essa tragédia?
Oculto no pátio de sua casa, um vendedor de rua que aderiu à milícia islâmica Al-Shabaab exibe sua arma. A milícia vem combatendo o recém-formado governo de transição com assassinatos a bala, atentados com granadas e bombas improvisadas - e assim já controla a maior parte do sul da Somália.
Foto de Pascal Maitre
Em alta velocidade, uma caminhonete com soldados do Governo Federal de Transição (GFT) quase atropela as mulheres que fazem a limpeza de uma rua na capital. Em meio à turbulência generalizada, os somalis mal se lembram de como é a vida sob um governo estável.
Foto de Pascal Maitre

Ruínas dão testemunho dos combates que devastaram a capital no início da década de 1990, mergulhando no caos a cidade e o país.
Foto de Pascal Maitre

No frio da noite, milhares de cabras e ovelhas são colocadas em um navio no porto de Berbera, na Somalilândia. A economia da Somália tradicionalmente dependia de exportações assim. A guerra no sul e preocupações com doenças dos rebanhos periodicamente detêm o comércio. Mas com a estabilidade na Somalilândia e com um centro de quarentena que opera em Djibuti, as exportações foram retomadas. Quase dois milhões de animais saíram da Somalilândia no ano passado.
Foto de Pascal Maitre
Ao se registrar para votar na próxima eleição presidencial da Somalilândia, a digital de um homem em Hargeysa é escaneada, em dezembro de 2008. Originalmente planejada para março de 2009, a votação foi adiada duas vezes, mas agora está marcada para setembro. Apesar de a Somalilândia ainda não ter sido reconhecida oficialmente como nação independente, um punhado de países europeus e os EUA doaram três quartos do custo da eleição - incluindo fundos que pagaram por este equipamento de computador - para incentivar a democracia na região. Leia a reportagem completa
Foto de Pascal Maitre
Cobertos de farinha, operários em Berbera contam o salário. Por descarregar sacas de um caminhão e colocá-las em um armazém no principal porto da Somalilândia, eles receberam o equivalente a cerca de US$ 3 cada um. Leia a reportagem completa
Foto de Pascal Maitre
O guarda Abdi Hassan olha pela porta da prisão de segurança máxima em Mandhera, onde trabalha há 35 anos. Certa vez, Hassan vigiou presos que eram oponentes do ditador Mohamed Siad Barre, cujo regime foi derrubado em 1991. Hoje ele guarda um punhado de piratas e outros prisioneiros mandados para o local pelo governo da República da Somalilândia separatista. Leia a reportagem completa
Foto de Pascal Maitre
Fardos de qat recém-chegados do Quênia serão entregues por caminhão para vendedores perto de Mogadíscio. Cerca de dez aviões chegam todos os dias com carregamentos dessas folhas, alimentando um vício que, segundo estimativas, faz os residentes gastarem entre US$ 250 mil e US$ 300 mil todos os dias. Leia a reportagem completa
Foto de Pascal Maitre

Turistas europeus costumavam nadar na piscina atrás do Uruba, que já foi um dos melhores hotéis de Mogadíscio. Mas os visitantes pararam de chegar no final da década de 1980, depois que a guerra civil irrompeu no norte da Somália. No início da década de 1990, o Uruba, assim como boa parte de Mogadíscio, foi reduzido a ruínas. Leia a reportagem completa
Foto de Pascal Maitre
Um guarda com uma arma automática espera no carro com o fotógrafo Pascal Maitre durante uma troca de câmbio no centro de Mogadíscio. Qualquer estrangeiro corre o risco de ser morto ou seqüestrado. Maitre precisava da companhia de seguranças armados toda vez que deixava o hotel. Mesmo com os guardas, Maitre não podia ficar muito tempo no mesmo lugar. Segundo o fotógrafo, os residentes de Mogadíscio o avisavam quando estava há muito tempo em um local e começava a correr perigo: "As pessoas sentiam muito, mas me mandavam embora". Leia a reportagem completa
Foto de Pascal Maitre
Um guarda com uma arma automática espera no carro com o fotógrafo Pascal Maitre durante uma troca de câmbio no centro de Mogadíscio. Qualquer estrangeiro corre o risco de ser morto ou seqüestrado. Maitre precisava da companhia de seguranças armados toda vez que deixava o hotel. Mesmo com os guardas, Maitre não podia ficar muito tempo no mesmo lugar. Segundo o fotógrafo, os residentes de Mogadíscio o avisavam quando estava há muito tempo em um local e começava a correr perigo: "As pessoas sentiam muito, mas me mandavam embora". Leia a reportagem completa
Foto de Pascal Maitre
Reconstruída após ter sido arrasada com bombas, no fim da década de 1980, pelo ditador Mohamed Siad Barre, Hargeysa hoje testemunha um surto de novas construções - com hotéis como o City Center -, financiadas sobretudo por expatriados que voltaram ao país. Os especialistas, porém, temem que os extremistas islâmicos estejam se infiltrando na Somalilândia: em outubro de 2008, atentados a bomba realizados por militantes suicidas ocorreram em vários pontos da capital. Leia a reportagem completa
Foto de Pascal Maitre
Funcionários do Banco Central examinam notas novas de xelim da Somalilândia, uma moeda própria criada em 1994, poucos anos depois de a região se separar da caótica Somália meridional. Leia a reportagem completa
Foto de Pascal Maitre
O governo da Somalilândia conseguiu reprimir com êxito os piratas, graças a severas penas de encarceramento. No ano passado, as autoridades prenderam um bando liderado por Farah Ismail Eid (à esquerda na foto), que agora cumpre uma sentença de 15 anos na prisão Mandhera. Leia a reportagem completa
Foto de Pascal Maitre
Moradores de um vilarejo na separatista República da Somalilândia levam cabras até um barco para que sejam exportadas. Centenas de quilômetros separam essa antiga colônia britânica da turbulenta Somália meridional. Sem reconhecimento internacional e com pouca ajuda externa, os líderes da Somalilândia estabeleceram um governo operacional e estável.
Foto de Pascal Maitre
Perto das ruínas do antigo Parlamento, um policial desempregado organiza o tráfego em troca de gorjetas. "Ele anseia tanto pela estabilidade", diz o jornalista somali Harun Hassan. "É algo emocionante."
Foto de Pascal Maitre
Muitos dos 750 mil habitantes que restaram estão entre os mais pobres, como esta mulher e seu bebê abrigados em um dos centros de alimentação. Sem emprego e sem casa, muitos só conseguem sobreviver graças à ajuda humanitária.
Foto de Pascal Maitre
Ferido por estilhaços de morteiro, um homem junta-se às dezenas de vítimas que chegam todos os dias ao Hospital Medina. Desde o início de 2007, Mogadíscio perdeu mais da metade de sua população à medida que os civis fogem dos embates entre o governo e os rebeldes.
Foto de Pascal Maitre
Na praia, as crianças ainda brincam e os pescadores ancoram seus barcos, mas os prédios de hotéis arruinados permanecem vazios.
Foto de Pascal Maitre
Repleto de carvão vegetal, produzido à custa das florestas cada vez menores no sul da Somália, um caminhão em frangalhos segue para o porto de Mogadíscio. Dali o carvão será enviado a países do golfo Pérsico, como a Arábia Saudita.
Foto de Pascal Maitre
Na calma enganosa de um farol abandonado, jovens mascam o qat, estimulante leve que os ajuda a enfrentar as agruras da vida em Mogadíscio. Dez aviões cheios da droga pousam todo dia em um aeroporto próximo.
Foto de Pascal Maitre
Revista National Geographic Brasil

terça-feira, 29 de junho de 2010

Somália, o país mais perigoso do mundo


Militante islâmico guarda posição em Mogadíscio, capital da Somália
Somália, o país mais perigoso do mundo

No Chifre da África, é possível compreender de forma brutal a lógica do imperialismo diante da tentativa dos movimentos islâmicos de construir um Estado-nação

por Luiz Carlos Bresser-Pereira

Se quisermos compreender a lógica da geopolítica estadunidense no Oriente Médio e o sentido dos movimentos políticos islâmicos, devemos voltar nosso olhar para a Somália, um caso-limite que nos permite ver com clareza o que fica nebuloso ou ambíguo em circunstâncias menos dramáticas.

Entre os Estados-nação considerados “fracassados” no mundo, a Somália é o primeiro colocado, de acordo com a Peace Foundation e o Brookings Institute. É um país praticamente sem Estado, e, portanto, sem ordem pública, sem sistema judiciário, sem proteção social, sem nada. Seu povo combina a extrema pobreza à organização por clãs e à dominação por senhores da guerra. Além disso, a Somália fica na região Nordeste da África, que nos últimos anos ganhou as manchetes dos jornais ao se tornar foco de pirataria marítima.

Trata-se também de um território onde fica clara a lógica imperial dos Estados Unidos e o caráter nacionalista e moderno dos movimentos islâmicos, que buscam estabelecer a ordem em meio ao caos. Ao contrário do que afirma o saber convencional ocidental, estes últimos não se caracterizam principalmente por ser expressão do fundamentalismo religioso, mas como movimentos políticos voltados para a liberação nacional e a formação do Estado-nação. Eles usam a religião para enfrentar dois flagelos: a dominação externa e o atraso e desunião de sua própria sociedade. Para isso, procuram reproduzir o que os países desenvolvidos fizeram, construindo uma nação e formando um Estado que sirva de instrumento para conseguirem, além da ordem, os objetivos políticos das sociedades modernas: liberdade, bem-estar econômico, justiça social e proteção do ambiente.

Os Estados Unidos são o obstáculo fundamental à realização desta tarefa, intervindo nos países e se aliando aos setores mais atrasados e corruptos – que, no pior dos casos, são chefes-jagunços ou senhores de guerra. Ao invés de entenderem os movimentos islâmicos como de caráter político-nacionalistas, com os quais se pode discordar, mas se deve respeitar, os EUA os combatem. E para tanto, utilizam um argumento absurdo e persuasivo para com seus próprios cidadãos de que esses movimentos representam uma ameaça à segurança nacional americana.

O jornalista Jeffrey Genttleman, colaborador da revista Foreign Policy, já esteve doze vezes na Somália e considera este “o país mais perigoso do mundo”. “A Somália”, diz ele, “conheceu um breve período de paz com a chegada ao poder dos islâmicos, em 2006. Mas a partir do momento em que os americanos os expulsaram, o país enterrou-se novamente no horror”. Em sua última viagem para lá ele contratou dez homens armados para protegê-lo.

A Somália é um país de 10 milhões de habitantes. Ao contrário de muitos Estados africanos, é um país homogêneo do ponto de vista da língua (todos falam o somali) e religioso (todos são muçulmanos sunitas). Sua estrutura é de clãs, tradicional a todos os povos da região. A Somália foi dominada no final do século XIX pela Grã-Bretanha e pela Itália. Logrou independência em 1960. Desde 1969 até 1991 foi dirigida por um general, Mohammed Siyad Barré, que pretendia modernizar o país, mas não conseguia controlá-lo. Em 1991 ele foi derrubado pelos senhores de guerra e desde então, imperou o caos.

A Somália se situa em um ponto estratégico do continente, no chamado Chifre da África, dominando o Golfo de Aden e, juntamente com o Djibuti, a entrada para o Mar Vermelho. Aí está o interesse que desperta: afinal, trata-se de uma região em que os recursos petrolíferos continuam a determinar a geopolítica imperial. Em 1992, depois da Guerra do Golfo, e em um momento de auge da hegemonia estadunidense, o presidente George H. Bush (pai), a pretexto da desordem que reinava no país e no golfo, resolveu enviar milhares de marines para proteger os comboios de víveres. Os conselheiros do presidente, entretanto, a partir da constatação da divisão do país entre senhores de guerra rivais, subestimaram a capacidade de resistência nacional do povo somali. O resultado foi a “queda do falcão negro” – episódio militar relatado em filme de Ridley Scott no qual dois helicópteros Black Hawks foram derrubados em Mogadíscio e morreram 18 soldados americanos.

Humilhados, os americanos retiraram-se da Somália. No decênio que se segue, relata Jeffrey Genttleman, adeptos do islamismo sunita, com base principalmente na Arábia Saudita, voltaram sua atenção e seus esforços para lá. Construíram mesquitas, organizaram escolas corânicas, desenvolveram projetos de assistência social. O processo de renovação islâmica ganhou força em 2000, quando os anciãos dos clãs de Mogadíscio criaram uma rede informal de tribunais por bairros, a fim de estabelecer um mínimo de ordem na capital do país. Eles prenderam os acusados de assassinato e roubo, julgaram-nos e os colocaram na prisão, usando como lei a chária, ou seja, a lei islâmica que foi aceita por todos os clãs. É importante lembrar que o islã, diferentemente do cristianismo, é uma religião “legal”: o Corão é em boa parte constituído de preceitos legais. Os anciãos denominaram essa rede União dos Tribunais Islâmicos. Estavam, assim, construindo um Estado na Somália. O novo sistema conseguiu inclusive o apoio dos grandes (relativamente) empresários locais, que logravam mais segurança para seus negócios sem ter que pagar impostos. Como uma espécie de retribuição, eles resolveram contribuir para o Estado informal com a compra de armas.

Em 2005, a CIA (Agência Central de Inteligência americana), que vinha acompanhando os acontecimentos, decidiu intervir. O sistema islâmico em formação lhes pareceu um perigo. Embora não houvesse qualquer indício nesse sentido, a CIA entendeu que a Somália poderia ser um novo berço de jihad – de guerra santa – como havia acontecido com o Afeganistão. O governo dos EUA entrou em ação: não chegou a dizer que buscava a democracia; interveio em nome da ordem interna do país e da segurança nacional dos Estados Unidos. Escaldado, entretanto, pela experiência anterior, ao invés de enviar tropas, decidiu aliar-se e pagar os senhores de guerra. Ou seja, firmou laços com aqueles que eram os algozes da população há decênios. A primeira notícia que li a respeito foi em The Economist. A estratégia dos impérios de se aliar aos grupos dominantes conservadores dos países dominados é antiquíssima, e foi nos tempos modernos sempre uma norma por parte dos países ricos em relação àqueles em desenvolvimento. Mas dessa fez fiquei surpreso: parecia um passo além.

Jeffrey Genttleman conta em detalhes como isto aconteceu. Um senhor de guerra lhe disse que dois agentes da CIA chegaram a Mogadíscio um determinado dia de 2006 com malas cheias de dinheiro e disseram aos chefes-jagunços: “Usem esse montante para comprar armas. Se tiverem perguntas, enviem um e-mail para o endereço: no_email_today@yahoo.com”. A estratégia, porém, não funcionou. O regime estabelecido pelos anciãos islâmicos já havia se desenvolvido. Reinava ordem em Mogadíscio. Usando a bandeira da religião, os islâmicos haviam inclusive conseguido que boa parte da população entregasse suas armas. E conseguiram persuadir as cidades costeiras a não se dedicar à pirataria. Quando não eram ouvidos, eles tomavam de assalto os navios sequestrados. Tanto que, naquele ano, segundo a Agência Internacional Marítima de Londres, só houve 10 registros de incidentes desse tipo na região.

A reação à aliança dos Estados Unidos com os senhores de guerra foi o fortalecimento dos grupos islâmicos mais radicais, que buscaram impor uma lei mais rígida sobre a população, especialmente sobre as mulheres. Este fato reassegurou a CIA quanto ao acerto de sua estratégia de aliança com os senhores de guerra, e esta foi mantida. Havia, entretanto, ainda a possibilidade de neutralizar os grupos islâmicos mais radicais por meio de um acordo com os grupos não radicais que eram dominantes. Em setembro de 2006 o deputado democrata Ronald M. Payne, presidente da subcomissão da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos sobre a África, propôs que se procurasse aproveitar essa oportunidade, mas não foi ouvido. Ao invés disso, o governo americano optou por uma intervenção armada, convocando para isso as forças do país vizinho e tradicional inimigo – a Etiópia.

A Etiópia é um “bastião cristão” na “guerra das civilizações” criada pelos neoconservadores. Em acordo com a CIA, o governo da Etiópia assegurou que a Somália estava dominada por islâmicos terroristas e jihadistas, que se constituíam em uma ameaça para toda a região. Em dezembro de 2006, com o apoio e a participação de membros das forças especiais americanas, a Etiópia invadiu a Somália e, em uma semana, expulsou o governo islâmico praticamente desarmado de Mogadíscio. Para “extirpar” o movimento islâmico, os Estados Unidos responsabilizaram-se por ataques aéreos e com mísseis originados de seus navios de guerra.

Os islâmicos entraram na clandestinidade, mas, algumas semanas depois, retomaram a insurreição. E com força, apoiados pela população. O governo estabelecido era constituído de senhores de guerra. Rapidamente, perdeu o apoio dos clãs poderosos que poderiam ser seus aliados. No início de 2009, foi estabelecido um novo “governo de transição” – o décimo quarto governo desde 1991 – desta vez presidido por um jovem islâmico moderado. Mas esse governo está sendo gradualmente encurralado em um pequeno território em Mogadíscio. Os islâmicos – agora os mais radicais mas nem por isso terroristas – já controlam a terceira cidade do país, Baidoa, e ali estabeleceram a chária. Eles estão mais bem armados, e fortalecidos em seu intento de criar um Estado na Somália.

O uso da religião pelos movimentos nacionalistas para unir o povo em torno da bandeira nacional e modernizar o país é antigo. O primeiro povo que construiu uma nação, organizou um Estado, e afinal se firmou como Estado-nação moderno, industrializado, foi a Grã-Bretanha. Lembremos que nos albores da sua formação nacional, no século XVI, Henrique VIII estabeleceu para sua nação uma religião nacional, a Igreja Anglicana. Essa estratégia foi repetida por praticamente todos os movimentos nacionalistas que buscavam formar seu Estado. Quase sempre tiveram que usar da violência para derrotar os poderosos regionais e para conseguir a libertação. Mas essa violência não justificava que fossem chamados de fundamentalistas ou de terroristas; nem que se falasse em guerra de civilizações. Porque não estavam fazendo outra coisa senão seguir a regra política fundamental do desenvolvimento capitalista ou da modernização: cada povo busca se constituir como nação, assenhorear-se de um território e nele estabelecer um Estado moderno, formando, assim, um país soberano.

Esta tarefa foi feita inicialmente pelos povos dos países hoje ricos. Mas vem sendo copiada pelos demais Estados em desenvolvimento, que, entretanto, enfrentam uma dificuldade maior, porque agora contam com a oposição dos países ricos cujos interesses estão associados à manutenção do atraso. Em certos casos, porém, como é o caso da Somália, essa oposição se transforma em hostilidade devido a considerações de segurança nacional das grandes potências, a meu ver equivocadas. Na era da globalização, o controle imperial de fontes de matéria-prima faz pouco sentido, e confundir movimentos nacionalistas com terrorismo antiamericano do tipo representado pelo pan-arabismo da Al Qaeda, menos ainda.

Os povos muçulmanos que vivem nessa região não utilizaram inicialmente a religião como forma de união nacional. Pelo contrário, o primeiro grande líder nacionalista muçulmano a liderar uma revolução nacional em seu país, Mustafá Kemal Ataturk, estabeleceu um modelo de revolução secularista na Turquia nos anos 1920. O êxito dessa experiência levou à sua reprodução em muitos países. Gamal Abdel Nasser, no Egito dos anos 1950, foi provavelmente a experiência mais interessante nesse sentido, mas houve muitas outras, algumas cedo esmagadas pelas potências imperiais, como foi o caso de Mohammed Mossadegh, no Irã, quando, nos anos 1950, que nacionalizou a produção de petróleo. Outras se mostraram mais duradouras, mas igualmente fracassadas, como a do partido bahatista no Iraque, ou que sobrevivem com dificuldade, como o regime também bahatista na Síria e o regime militar na Argélia. Assim, ainda que por diversas razões, a estratégia secularista afinal fracassou.

Por isso, quando, no final dos anos 1970, um movimento islâmico no Irã derrubou o governo corrupto e desmoralizado do xá que ali havia sido posto pelas potencias ocidentais, estava sendo definido um outro modelo de revolução nacional no qual a religião era usada para garantir a coesão. Como os novos governantes adotavam convicções e práticas religiosas radicais, foram identificados como fundamentalistas – e de fato o eram – mas o que o Ocidente se recusou a compreender foi que essa não era e não é a característica principal dos movimentos islâmicos modernos. Estes não são movimentos religiosos, mas políticos.

Luiz Carlos Bresser-Pereira é economista, cientista político e ex-ministro de Administração Federal e Reforma do Estado e da Ciência e Tecnologia (1995-1999).

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