domingo, 29 de maio de 2022

Mitos e nós do agronegócio no Brasil




Myths and knots of agribusiness in Brazil
Mythes et nœud de l’agrobusiness au Brésil

Denise Elias

Resumo

O presente artigo parte da hipótese de que os retrocessos políticos vividos no Brasil desde o golpe parlamentar de 2016 mostram a tendência ao aumento de poder dos agentes hegemônicos do agronegócio atuantes no país e, consequentemente, a propensão ao agravamento das desigualdades socioespaciais, dos conflitos e da violência no campo e nas cidades. O principal objetivo é discutir o que consideramos alguns dos principais mitos e nós nos quais se escora o agronegócio, uma vez que julgamos que devem ser desfeitos para que possamos trilhar os caminhos para uma sociedade mais justa, igualitária e democrática. A metodologia estruturou-se nos fundamentos da pesquisa qualitativa. Concluímos que as formas-conteúdo do agronegócio são contestáveis e devem ser rejeitadas e substituídas por outras.

Palavras-chave:
Retrocesso político; Agronegócio; Bancada Ruralista; Brasil

Abstract

The concept of this article starts from the hypothesis that since 2016’s coup d’etat in Brazil political setbacks tend to increase the power of agribusiness hegemonic agents in the country. As a result, urban and rural social-spatial inequalities, conflicts and violence tend to worsen. The main objective is to discuss what is regarded as most supportive myths and nodes of agribusiness. That way, we assume such nodes and myths should be untied and undone, allowing us to tread the path to a fairer, more democratic and egalitarian society. The methodology is based upon qualitative research. As a conclusion, agribusiness “content-shapes” are dubious and should be refused, in order to be replaced by other ones.

Keywords:
Political setbacks; Agribusiness; Ruralist bench; Brazil

Résumé

La rédaction du présent article trouve son origine dans l’hypothèse voulant que les régressions politiques vécues au Brésil depuis le coup parlementaire de 2016 montrent la tendance de l’augmentation des pouvoirs des agents hégémoniques de l’agrobusiness en activité dans le pays et, par conséquent, la propension à l’explosion des inégalités sociales et territoriales, des conflits et de la violence à la campagne et dans les villes. L’objectif principal est d’aborder ce que nous comprenons comme étant certains des principaux mythes et nœuds s’appuyant sur l’agrobusiness, étant entendu que nous jugeons qu’ils demandent à être déconstruits afin que nous puissions tracer le chemin d’une société plus juste, égalitaire et démocratique. La méthodologie s’est structurée autour des fondements de la recherche qualitative. Nous concluons que les formes-contenu de l’agrobusiness sont contestables et doivent être refusées et remplacées par d’autres.

Mots-clés:
Régression politique; Agrobusiness; Lobbying rural; Brésil

Introdução

A concepção do presente artigo parte da hipótese principal de que os retrocessos políticos vivenciados no Brasil desde o golpe parlamentar de 2016, que escancaram as portas para o grande capital privado, mostram a tendência ao aumento de poder dos agentes hegemônicos do agronegócio atuantes no país e, consequentemente, a propensão ao acirramento das desigualdades socioespaciais, dos conflitos e da violência no campo e nas cidades.

Desde esse momento de inflexão na política, muitos dos direitos conquistados depois de décadas de luta pela sociedade vêm sendo negociados num enorme balcão de negociatas iniciados no mandato do presidente Michel Temer (31/08/2016-31/10/2018), para se manter no poder, processo acirrado com a posse do presidente Jair Messias Bolsonaro (01/01/2019-), com o apoio das elites econômica, política, jurídica e dos militares das Forças Armadas ao conjunto de reformas perversas.

Estamos vivenciando um desmonte das políticas públicas compensatórias que, de alguma maneira, protegiam setores e categorias sociais mais vulneráveis. Verdadeiras atrocidades vêm sendo impostas a toda a sociedade, tais como o congelamento dos gastos públicos por 20 anos, a reforma trabalhista representando a supressão de direitos, que deixa em ruínas a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), marco legal que estabelece normas regulatórias de relações individuais e coletivas de trabalho no Brasil, um conjunto de privatizações e concessões nas áreas de energia, mineração e petróleo, portos e aeroportos, entre outros, altíssimos percentuais de cortes dos gastos públicos com ciência, tecnologia e inovação,1 extinção do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA), estrangulamento de recursos para programas como o Programa de Aquisição Alimentos da Agricultura Familiar e reduções radicais do orçamento para programas de segurança alimentar, reforma agrária, fortalecimento da agricultura familiar, entre tantos outros.

Tudo isso vem acompanhado do acirramento da crise econômica, do avanço do desemprego e da precarização das condições gerais de trabalho, do enfraquecimento e da desarticulação dos sindicatos, da debilitação de muitos movimentos sociais, da dilapidação do poder de compra da população e da crise das esquerdas. Se não bastassem todos os colapsos supracitados, desde o começo de 2020, vivemos a pandemia da Covid-19, representando uma condição de descaminho para todo o mundo, cujas consequências ainda não podemos prever na sua totalidade.2

Em contrapartida, assistimos ao aumento do poder da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Congresso Nacional, mais conhecida como a bancada ruralista (BR), um lobby financiado por associações e empresas do agronegócio, claramente uma das principais fiadoras do governo do presidente Jair Bolsonaro. As evidências são muitas, o que reforça a hipótese que dá mote ao artigo.

Desde o período considerado para análise, a Casa Civil já suspendeu mais de uma dezena de processos de demarcação de terras indígenas que só aguardavam homologação presidencial. O ex-presidente Temer endossou um parecer da Advocacia Geral da União (AGU) que proibiu reconhecer como área indígena qualquer reserva que tenha se formado depois da Constituição de 1988. O desmonte da Fundação Nacional do Índio (Funai) segue a passos largos com suspensões de recursos e loteamento de cargos, até mesmo de escalões essencialmente técnicos, por pessoas sem capacitação adequada.3 O número de liberações de agrotóxicos para uso em lavouras alcançou uma soma nunca antes conhecida para um intervalo igual, autorizando um conjunto de produtos proibidos em outros países por representar sérios riscos à saúde da população e ao meio ambiente. A violência no campo, traço estruturante da sociedade brasileira, aumentou e pode ser comprovada pelo crescimento do número de assassinatos de indígenas e de disputas por terra e por água.

Por outro lado, o número de queimadas e desmatamentos criminosos em 2019 e 2020 bateu todos os recordes, tendo consumido percentuais significativos de alguns dos mais importantes biomas brasileiros, especialmente a Amazônia e o Pantanal. Contudo, até o momento os responsáveis seguem impunes como mais uma prova do desmonte das políticas ambientais sob a batuta do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (2019-). Não esqueçamos da sua funesta declaração por ocasião da fatídica reunião ministerial com o presidente Jair Bolsonaro, no dia 22 de abril de 2020, quando defende que o momento seria oportuno para aproveitar a “tranquilidade da cobertura da imprensa”, com atenção voltada para a pandemia da Covid-19, para “passar a boiada” e aprovar desregulamentações ambientais.4

Ademais, o tecido social no país está totalmente esgarçado e a exclusão de milhões de brasileiros, o patrimonialismo e a manutenção da cultura do privilégio determinam como as relações sociais se processam no Brasil, inibindo a construção de relações de reciprocidade e de uma sociedade de direitos. Isso reflete em situações que temos vivenciado em nosso cotidiano, como tensão social, violência e banalização da vida humana.

Diante do exposto, entendemos que os pilares que sustentam o agronegócio brasileiro representam um entrave para avançarmos na construção da emancipação social e de uma sociedade mais democrática. O artigo apresenta o que inferimos como alguns dos principais mitos e nós que escoram o agronegócio, uma vez que julgamos que demandam ser desfeitos e desatados para que possamos trilhar os caminhos dessa outra sociedade.

O método científico permite, a partir da análise de uma totalidade, realizar esforços de caracterização e de síntese. Como o agronegócio brasileiro da forma como o conhecemos hoje está em construção há cinco décadas, notadamente desde os anos 1970, balizamo-nos na realidade concreta e em um conjunto de pesquisas e estudos científicos, incluindo os de autoria própria, para trazer as interpretações apresentadas aqui.

A metodologia estruturou-se nos fundamentos da pesquisa qualitativa para a construção de uma análise crítica. Assim, privilegiamos a pesquisa bibliográfica e documental. Por outro lado, um dos principais procedimentos metodológicos foi construir uma hemeroteca segundo temas e processos de interesse. Além de trabalhos acadêmicos como livros, teses, dissertações e artigos científicos, consultamos jornais, revistas especializadas e uma gama de matérias das chamadas novas mídias, que podem ser acessadas diretamente pela internet.5 Os trabalhos de campo realizados em diferentes momentos nas últimas décadas, em diversas áreas de difusão do agronegócio do Brasil, foram também inestimáveis para algumas das interpretações apresentadas.

Além desta introdução e das considerações finais, o artigo tem quatro seções. Na primeira, discutimos os pressupostos principais do agronegócio brasileiro, apresentando um conjunto de características inerentes a ele, considerando agentes e dinâmicas socioespaciais. Na segunda, discorremos sobre alguns dos principais mitos que sustentam o agronegócio, terminando com o que consideramos os nós do agronegócio que precisam ser desatados para a construção de uma sociedade mais igualitária no país. Na terceira e quarta seções, abordamos dois dos nós do agronegócio que precisam rapidamente ser desatados, quais sejam, o nó da relação orgânica entre o Estado e agentes do agronegócio e o nó da criminalização dos movimentos sociais.
Pressupostos do agronegócio

Mesmo que brevemente, é importante destacar o que consideramos alguns dos principais pressupostos do agronegócio. Até mesmo porque, embora hoje se use indiscriminadamente a palavra agronegócio, só há pouco mais de duas décadas ela passou a ter uso corrente no Brasil. Mas, apesar de sua pouca idade, já tem caráter polissêmico, carregada de ideologias e mitos. Isso reforça a necessidade de apresentarmos elementos de argumentação em direção a uma visão crítica sobre o tema. Como a própria palavra deixa explícito (agro + negócio), entre os maiores objetivos está a obtenção de lucro e renda da terra, com a produção de muitas novas mercadorias voltadas ao mercado urbano, nacional e internacional, de alimentos processados e ultraprocessados, de commodities e de agrocombustíveis.6

O agronegócio abrange um conjunto de atividades que se realizam de forma totalmente interligada. A agropecuária se dá conectada a indústrias (agroindústrias, de máquinas agrícolas, de agrotóxicos, de sementes transgênicas), serviços (centros de pesquisa e experimentação, aviação agrícola, informatização dos processos de produção), comércio especializado no consumo produtivo do agronegócio (ração, implementos agrícolas, fertilizantes), agentes financeiros (bancos, bolsa de valores, fundos de investimento), armazenamento, marketing, logística e distribuição, especialmente em supermercados (Elias, 2003).

De modo geral, o agronegócio se realiza adotando pacotes tecnológicos intensivos em capital e tecnologia (conjunto de insumos químicos, mecânicos e biotecnológicos), que transformam os sistemas técnicos agrícolas e difundem um padrão estandardizado de produção. Por outro lado, é regulado por relações de produção, distribuição e consumo globalizadas calcadas em corporações transnacionais e movimentam grandes volumes de créditos estatais e um conjunto de outras políticas públicas. Além disso, articula um conjunto portentoso de interesses econômicos e políticos, como provam o tamanho e o poder da BR no Congresso Nacional (Elias, 2013).

Para desvelar os mitos e os nós do agronegócio, é importante saber que eles têm nome e endereço, ou seja, conhecer seus agentes hegemônicos. Segundo Oliveira (2016), a agricultura sob o capitalismo mundializado estrutura-se, em especial, a partir da formação de empresas monopolistas, que controlam a produção e se articulam por meio de dois processos monopolistas territoriais no comando da produção agropecuária e florestal mundial: a territorialização dos monopólios e a monopolização do território.

Entre essas empresas monopolistas, há corporações multinacionais atuantes na produção agropecuária e agroindustrial como de laticínios, massas, carnes, biscoitos, alimentos ultraprocessados (Nestlé, Unilever, Danone, M. Dias Branco), agroquímicas (Bayer, Basf, Dupont, Syngenta), fumageiras (Philip Morris, Souza Cruz), tradings (Bunge, Cargill, ADM, Luis Dreyfus), frigoríficos de frango (BRF, JBS, Aurora, Copacol, Globoaves), redes de supermercados (Carrefour, GPA, Cencosud, SDB Comércio de Alimentos Ltda., Irmãos Muffato, Grupo Big) e empresas do sistema financeiro por meio de vários de seus instrumentos, incluindo os fundos de investimentos e títulos de renda fixa (tais como a Letra de Crédito do Agronegócio do Banco do Brasil), com fortíssimo crescimento da financeirização no setor. Devemos considerar também, entre os principais agentes do agronegócio, os grandes proprietários de terra e o Estado.

Essas corporações notabilizam-se pela grande capacidade produtiva instalada, pela complexidade das operações, pelo volume de matéria-prima que processam, pela diversidade de suas atividades econômicas, pelo poder de impor suas demandas ao Estado (logística, incentivos fiscais), pela atuação em diferentes escalas geográficas e pelo controle de grandes áreas de terra, às vezes não só no campo, mas também em cidades (Santos, M., 1979; Corrêa, 2002; Oliveira, 2016; Dowbor, 2017).

Isso já evidencia que o agronegócio não se realiza apenas no campo, mas integrado ao espaço e à economia de diferentes extratos na rede urbana. Além disso, requer relações complexas e permanentes com cidades, de diversos tipos e tamanhos, extrapolando a escala do lugar, da região ou do país (Elias, 2003, 2017a, 2017b, 2020b). O agronegócio envolve desde áreas de produção agropecuária propriamente ditas, até os fixos e fluxos (Santos, M., 1988), sistemas de objetos e sistemas de ação (Santos, M., 1996) associados, distribuídos por muitos países em várias partes do planeta. Assim, além de intersetoriais, os estudos sobre o tema devem ser também multiescalares.

Ricardo Antunes (2016) destacou que, em sua fase atual, o capitalismo ancora-se num tripé destrutivo baseado na reestruturação produtiva e no neoliberalismo, sob o comando do capital financeiro (informação verbal).7 Consideramos que é nesse mesmo tripé que estão ancoradas as metamorfoses da atividade agropecuária brasileira das últimas décadas, as quais culminam no que hoje se convencionou chamar de agronegócio globalizado (Elias, 2017a). Assim, as transformações neoliberais na agricultura e no espaço agrário brasileiros têm resultado em muitas ressignificações e conflitos.

De maneira geral, o agronegócio brasileiro se caracteriza por ser espacialmente seletivo, socialmente excludente, economicamente concentrador e ambientalmente e culturalmente devastador. Da mesma forma, sua difusão tem aumentado os níveis de riqueza, cada vez mais concentrados, e os níveis de pobreza, cada vez mais generalizados, além de criar muitas novas e complexas desigualdades socioespaciais, com o aumento dos conflitos e da violência no campo e nas cidades (Elias, 2002, 2006; Elias; Pequeno, 2007, 2015).8

São vários os processos que ilustram o que citamos como síntese, e parece-nos importante mostrar alguns que são estruturais. Procuramos abordá-los no que chamamos de nós do agronegócio.
Mitos do agronegócio

Alguns dos pilares estruturais do modo de produção dominante são a expropriação dos meios de produção e a alienação. Para manter o status quo, é necessária uma ideologia dominante e, como ensina a filósofa Marilena Chauí (1981), a ideologia é um mascaramento da realidade social que permite legitimar a exploração e a dominação e por meio da qual tomamos o falso por verdadeiro, o injusto por justo. Assim, a expansão do agronegócio e a perpetuação das desigualdades social, econômica e espacial dele resultantes exigem uma ideologia que as sustente.

É nesse sentido que afirmamos que o agronegócio é cercado de mitos que fabricam um imaginário social favorável a ele. Entre os muitos mitos criados e mais difundidos associados ao agronegócio, há o de que ele é a redenção do Brasil, a locomotiva do país, promove distribuição de renda e desenvolvimento regional, é ambientalmente sustentável e responsável pela segurança alimentar e pela soberania nacional, o mito de que é independente do Estado, de que os agrotóxicos não prejudicam a saúde do homem ou do meio ambiente, o de que o modelo do agronegócio é o único possível no Brasil e o de que as empresas do agronegócio estão entre as mais sustentáveis do país, entre tantos outros.

Corporações e entidades de classe do agronegócio capitaneiam a construção e difusão desses mitos. Para isso, contam com um amplo amparo das empresas da indústria cultural, assim como com a aquiescência do Estado, seja ativa ou passivamente, quando, por exemplo, não cumpre seu papel de regular e fiscalizar em prol do bem comum. Discutindo a sociedade do espetáculo, Debord (2003) nos ajuda a compreender alguns dos mitos sobre o agronegócio na sociedade brasileira, porque, para a produção, difusão e hegemonia do agronegócio, é preciso construir-lhe uma imagem favorável. Assim, para a expansão do capitalismo no campo e a multiplicação da produção de mercadorias que o sustenta, não basta expulsar e expropriar os camponeses, as quebradeiras de coco, os ribeirinhos, os geraiseiros... é também basilar a alienação associada ao agronegócio, a construção de uma psicosfera do agronegócio (Santos, M., 1996).

Vários agentes da indústria cultural brasileira concorrem para tal objetivo, e há muitos exemplos da construção desse caminho nas últimas décadas. Mas, indubitavelmente, poucos tiveram o alcance e lograram tanto êxito como a gigantesca operação publicitária empreendida pela Rede Globo de Televisão, principal canal aberto de televisão do Brasil, pertencente ao Grupo Globo, a maior corporação de mídia e comunicação da América Latina e uma das maiores do mundo, que ocupava a 19° posição no ranking dos maiores conglomerados de mídia do mundo (Grupo Globo, [s.d.]). Intitulada o “Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é tudo”, a campanha foi lançada em meados de 2016 e vigora até o momento. É muito dinâmica, pois está no ar ininterruptamente e desde então lança novos temas periodicamente, cada qual tratando de um conjunto de atividades associadas a um produto específico - frango, cana-de-açúcar, café, milho, laranja, melão, abacate, maçã etc.

A sociedade do espetáculo e a criação de mitos do agronegócio estão mais presentes do que nunca, desde a criação dessa campanha, com seu slogan repetido exaustivamente, inúmeras vezes ao dia, a milhões de brasileiros nos intervalos comerciais da emissora, notadamente em seus horários considerados nobres, ou seja, os de maior audiência. É importante lembrar ainda que no Brasil poucos grupos concentram a maior parte da audiência nacional da televisão aberta, o meio de comunicação mais comum no país (A hegemonia..., [s.d.]), o que atesta o alcance da campanha.

Sem dúvida nenhuma, essa campanha da Rede Globo é um marco estruturante para qualquer periodização, elemento fundamental do método científico (Santos, M., 1985, 1988, 1996), que se queira fazer da relação entre o agronegócio e a mídia brasileira visando construir uma imagem positiva do primeiro. Isso tornou mais sólido o papel da Rede Globo de Televisão como uma das responsáveis pela difusão de vários dos mitos do agronegócio brasileiro, muitos dos quais foram intensamente fortalecidos, tais como o de que o agronegócio é um modelo de negócio de êxito e o melhor para o campo brasileiro.

Vale mencionar que, de acordo com dados levantados pela ONG Repórteres Sem Fronteira e pelo Coletivo Intervozes sobre a concentração midiática no Brasil, a própria emissora pertence a uma corporação que atua em segmentos do agronegócio, assim como é uma importante proprietária de terras, o que reforça a compreensão da citada campanha publicitária, pois a ela própria interessa difundir uma imagem positiva do agronegócio.9 Então, para o caso, não é só uma questão de dizer que o Grupo Globo atua de mãos dadas com os agentes do agronegócio, visto que ele próprio pode ser classificado como um deles.10

Dessa forma, para superar a ideologia que cerca o agronegócio, é crucial desvendar esses mitos associados a ele, pois só assim será possível ultrapassar uma série de entraves que o sustentam e refletir sobre as possibilidades de superação de sua economia e de sua sociedade.

Inspirados no conteúdo e no título do artigo de Ermínia Maricato (2008) - “O nó da terra” -, adotamos a metáfora: os mitos associados ao agronegócio brasileiro são verdadeiros nós que devem ser desatados para podermos seguir um caminho de construção de uma sociedade mais democrática no país. Em seguida, apresentamos o nó da relação orgânica entre o Estado e agentes do agronegócio e o nó da criminalização dos movimentos sociais.
O nó da relação orgânica entre o Estado e agentes do agronegócio

Um dos nós mais apertados a sustentar o agronegócio brasileiro é o da relação orgânica entre o Estado e agentes do agronegócio. O Estado é um dos principais pilares das transformações da atividade agropecuária e do espaço rural brasileiro, que culminaram no modelo de produção denominado agronegócio. Isso desde o Estado intervencionista do período da ditadura militar (1964-1985) até o modelo neoliberal a partir dos anos 1990 ou da inflexão ultraliberal (Ribeiro, 2020) hoje dominante. Em todo esse longo período, o Estado é submisso aos agentes hegemônicos do agronegócio, e isso reforçou o patrimonialismo que historicamente caracteriza a sociedade brasileira e, no caso presente, a relação intrínseca entre poder econômico do agronegócio e poder político.

Um dos signos dessa realidade é a força da FPA, a principal face institucional da BR, uma das maiores e mais organizadas do Congresso Nacional do Brasil, que contabiliza cerca de 250 componentes, entre deputados e senadores.11 É também uma das mais conservadoras, poderosas e estruturadas em termos de financiamento entre as existentes.12 Para citar um exemplo recente, lembramos seu importante papel como base de sustentação do governo ilegítimo de Michel Temer, uma vez que compôs cerca de 50% dos votos para o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff (01/01/2011-31/08/2016), assim como para rejeitar as denúncias que tramitavam contra Temer, em meados de 2017.13

O poder da FPA vem crescendo e, em parte, isso se deve ao apoio dado aos governos desde o golpe. Por esse motivo, seus membros vêm ocupando postos-chave no legislativo, como comissões parlamentares de peso para o agronegócio, e no executivo (secretarias e ministérios). A estratégia vem sendo utilizada para aprovar leis que anulam direitos sociais e trabalhistas, promovem destruição ambiental, acobertam o trabalho escravo, retardam ou impedem a demarcação de terras indígenas e quilombolas, entre tantas outras usurpações, impondo vários retrocessos.

Entre as maiores evidências do poder da FPA, está a indicação de seus representantes para o cargo máximo atinente ao setor, qual seja, o de ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Para ficar apenas nos dois últimos ministros desde a posse de Michel Temer, citamos Blairo Maggi, indicado pelo ex-presidente e que permaneceu durante a maior parte de seu mandato, e Tereza Cristina Correa da Costa Dias, ministra nomeada pelo presidente Jair Bolsonaro. Vale uma breve apresentação dos respectivos currículos, para não deixar nenhuma dúvida sobre o patrimonialismo que rege o Brasil, aqui caracterizado pela FPA.

Blairo Maggi é um dos maiores produtores de soja do mundo e representantes do agronegócio brasileiro. É o braço político de uma importante corporação, o grupo André Maggi (Amaggi), com sede em Cuiabá (MT) e que, de acordo com informações do próprio site da corporação, controla quatro divisões de empresas ligadas ao agronegócio. Atua no plantio, no processamento e no comércio de grãos, na produção de sementes, na pecuária, na venda de fertilizantes, na geração de energia elétrica, na administração portuária, no transporte fluvial e na exportação e importação, entre outros.14

O primeiro mandato de Blairo Maggi foi em 1994, como primeiro suplente do senador Jonas Pinheiro (PFL/MT). Foi eleito governador do Mato Grosso em 2002 e reeleito em 2006. Em 2011, elege-se senador, tendo deixado o cargo em maio de 2016 para assumir o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) (05/2016-31/12/2018) (Craide, 2016). É hoje uma das principais fortunas do Brasil, tendo em 2015 integrado a lista dos bilionários da revista Forbes (Petroli, 2015).15

Também conhecido como “rei da soja”, a trajetória de Blairo Maggi é um bom exemplo de como o sincretismo entre o público e o privado pode ser bastante lucrativo, uma vez que em poucas décadas teve seu patrimônio multiplicado algumas vezes e hoje é proprietário de uma das principais corporações do agronegócio. Isso não se deu sem custos, por exemplo, para o meio ambiente, uma vez que seus negócios levaram ao desmatamento em larga escala na Amazônia Legal, acabaram com a demarcação de terras indígenas e propiciaram projetos de infraestrutura potencialmente nocivos à biodiversidade. Por essas e por outras razões, já foi apontado por ONG atuantes em questões ambientais, como “inimigo número 1 do meio ambiente”. Em 2005, foi agraciado com o nada honroso troféu “motosserra de ouro” do Greenpeace, por sua significativa participação na devastação da floresta amazônica.16

Tereza Cristina, por sua vez, não é detentora de fortuna ou corporação comparável à de Blairo Maggi, mas tem extensa ficha de serviços prestados ao agronegócio brasileiro como deputada federal, eleita pela primeira vez em 2015, membro da FPA e agora ministra da Agricultura. Era presidenta da FPA e líder da bancada na Câmara dos Deputados do Brasil quando foi indicada para o cargo de ministra. De família de pecuaristas com atuação na política no Mato Grosso do Sul (neta e bisneta de ex-governadores do estado), ela própria já tinha atuado como secretária estadual de Desenvolvimento Agrário (Sampaio, 2018), além de já ter ocupado o cargo de gerente-executiva em quatro secretarias: Planejamento, Agricultura, Indústria, Comércio e Turismo. Também exerceu os cargos de diretora-presidente da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e diretora-presidente da Empresa de Gestão de Recursos Minerais (Pedrozo, 2020).

Mais conhecida como “musa do veneno”, por sua posição favorável à aprovação do Projeto de Lei n. 6.299/2002 (PL do veneno), que flexibiliza as regras de utilização de agrotóxicos, assumiu o ministério defendendo essa e outras bandeiras correlatas.17 Além da regulamentação para o uso de novos venenos, está prevista até mesmo a mudança do termo agrotóxico, presente na legislação desde 1989, para defensivos fitossanitários ou pesticidas. Várias instituições se manifestaram contrárias às mudanças, como o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), o Ministério Público Federal, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Nacional do Câncer (Inca), além de inúmeras organizações da sociedade civil (Quem é Tereza Cristina..., 2018).

Ademais da bandeira pela liberação geral dos agrotóxicos, a atuação de Tereza Cristina à frente do Mapa vem contribuindo direta ou indiretamente para vários outros retrocessos, alguns promovidos pelo próprio Ministério do Meio Ambiente, como a flexibilização das normas para licenciamento ambiental, a diminuição da fiscalização de instituições atuantes na proteção do meio ambiente, como o Ibama, e a suspensão da demarcação de terras indígenas, entre outros, comprometendo imediatamente alguns processos positivos que vinham em curso na última década, como a demarcação de terras de povos originários. Por outro lado, impactando gravemente o alarmante desmatamento no país, que vem batendo todos os recordes desde 2019.

Vale destacar que, após as declarações nefastas do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles para “passar a boiada”, enquanto organizações ambientalistas de todo o país se manifestavam pedindo a saída do ministro,18 financiadores da FPA publicaram anúncio pago de página inteira em jornais impressos de grande circulação - como a Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo - em apoio às políticas do ministro, mas sem citá-lo nominalmente (Entidades empresariais..., 2020; “No meio ambiente..., 2020). Com o título de No meio ambiente, a burocracia também devasta, o manifesto defende a desburocratização como aliada à preservação ambiental. Entre os signatários do manifesto, estão alguns dos principais financiadores do Instituto Pensar Agro (IPA), que sustenta a FPA. A lista era longa, com 88 apoiadores, e, além de entidades diretamente relacionadas com o agronegócio, continha também representantes de empreiteiras e do mercado imobiliário, entre outros.19

Para completar as evidências do nó da relação orgânica entre o Estado e agentes do agronegócio, apresentamos dois mapas bastante didáticos e esclarecedores. Um apresenta a produção de soja no Brasil no ano de 2015 (Figura 1), produzido pelo IBGE (2015), e o outro, os dados da votação para presidente, produzido pelo Observatório das Eleições, logo após o final do primeiro turno (Figura 2) (Veja o mapa..., 2018). Os mapas revelam a estarrecedora relação espacial entre as duas principais variáveis utilizadas, quais sejam, a área plantada com soja e o número de votos para o então candidato a presidente Jair Bolsonaro. O resultado é um indicador da força que o agronegócio representou para a eleição do atual presidente, caso alguém ainda tivesse dúvidas. Foi nas áreas onde predomina a produção de soja no Brasil, um dos signos maiores do agronegócio no país, que o hoje presidente Jair Bolsonaro obteve a maioria dos votos.




Figura 1
Brasil: produção de soja nos dez municípios que mais produzem - 2015







Figura 2
Brasil: votação para presidente com 98,3% das urnas apuradas - 2018



O nó da criminalização dos movimentos sociais

A criminalização dos movimentos sociais é outro nó que ficou mais apertado desde o golpe parlamentar de 2016. Vivemos um momento de extrema ofensiva conservadora da direita e da extrema direita, empenhadas em criminalizar e intimidar todos aqueles que lutam por um Brasil justo e soberano. Atos de violência e ódio vêm sendo propagados intensamente nas redes sociais e reverberam fortemente em várias instâncias. É mais uma demonstração da violência dos setores da elite econômica e política brasileira dispostos a promover uma onda de abuso e ódio à população mais pobre.

A cada dia temos notícias que demonstram intolerância contra movimentos populares, migrantes, população negra, LGBTQI+ etc., cenário no qual a ilegalidade e a falta de ética são mais regra do que exceção, por parte do judiciário, da polícia e da mídia. Parte da mídia criminaliza os movimentos populares (do campo, indígenas etc.), criando um clima que legitima a repressão policial e das milícias armadas no campo e na cidade.

Alguns expoentes deste momento de retrocesso político se sentem à vontade para destilar sua verborragia criminosa para atacar as comunidades indígenas, quilombolas, trabalhadores agrícolas sem-terra e pessoas trans. Defendem em público, sem nenhum constrangimento, acabar com reservas indígenas e quilombos. Em parte, usam a normatização oficial, sobretudo ao tentar aprovar projetos de lei como o que visa enquadrar os movimentos sociais na Lei Antiterrorismo, aprovada em 2016, por ocasião das Olimpíadas no Rio de Janeiro. Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei n. 5.065/2016, que tipifica atos de terrorismo por motivação ideológica, política, social e criminal. Quase uma permissão para o enquadramento de movimentos sociais e manifestantes de modo geral, que poderiam ser tachados como terroristas.20

Infelizmente, esse PL é apenas um dos que estão em tramitação no Congresso Nacional e que têm como mote o “combate ao terrorismo”. Efetivamente, há um conjunto de projetos de mesma natureza tramitando, liderados por aliados do governo Jair Bolsonaro e que visam cercear direitos da população não alinhada a ele. Entre as propostas, há inclusive a legalização da infiltração de agentes do Estado e o monitoramento telefônico e digital de grupos considerados suspeitos de “atos terroristas”. Ainda mais preocupante é o fato de que alguns PL podem ser aprovados diretamente em comissões das casas legislativas, sem passar por votação em plenário.21

Não podemos deixar de fazer o paralelo da tramitação desses PL com as declarações no mínimo desastrosas do atual ministro da Economia Paulo Guedes (01/01/2018-) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP, 2015-), no segundo semestre de 2019, por ocasião de manifestações populares de rua no Brasil, sobre a possibilidade de recriar um “novo Ato Institucional número 5”. Essas declarações foram amplamente divulgadas pela grande mídia em geral. Aos mais jovens e àqueles que estão inebriados com o governo à frente do executivo federal, lembramos que o AI-5 foi um dos mais perversos do período da ditadura militar brasileira.

Promulgado em 1968, vigorou por dez anos e foi responsável por uma gama de ações arbitrárias. Revogou direitos fundamentais, possibilitando a tortura, a censura a meios de comunicação, a intervenção do governo federal em estados e municípios, a cassação de mandatos de parlamentares e o fim do habeas corpus, entre outros. Em outras palavras, dava aos militares poder de exceção para perseguir e punir os que eram considerados inimigos do regime.22

Essa situação é muito preocupante, e a aprovação de um ou de alguns desses PL representará um enorme retrocesso no direito de livre manifestação do cidadão brasileiro. A título de exemplo, considerando o teor de tais PL, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), por exemplo, poderiam ser classificados como grupos terroristas. Por isso incluímos o nó da criminalização dos movimentos sociais como um dos imprescindíveis a ser desatado para a construção de uma sociedade mais plural.
Considerações finais

Diante do exposto, é fato que vivemos uma democracia rasurada no Brasil desde o golpe de 2016, que se agravou ainda mais com as eleições de 2018, processos que contaram com o apoio dos agentes do agronegócio.

O resultado de cinco décadas de privilégios concedidos aos setores do agronegócio no Brasil são o agravamento da concentração fundiária, a expulsão e expropriação de vários povos originários, com a eliminação de muitos saberes e fazeres historicamente construídos, a expansão de monoculturas, com a devastação ambiental e a diminuição da biodiversidade, com um avassalador processo de erosão genética, a difusão de especializações territoriais produtivas, com incremento da urbanização corporativa e reorganização urbano-regional, formação de regiões produtivas compostas por campo e cidades extremamente funcionais para o agronegócio, que revelam novas faces da pobreza estrutural.

Por outro lado, durante a pandemia de Covid-19, ainda em vigência, enquanto o agronegócio e suas mídias ostentam novos recordes de produção, produtividade e volume de exportação de commodities brasileiras, cresceu sensivelmente o número de pessoas sem acesso a alimentação, recolocando o Brasil no Mapa da Fome, do qual havia saído em 2014. Isso desmente outro mito associado ao agronegócio, qual seja, o de que acabaria com a fome no país.

Assim, as formas-conteúdo (Santos, M., 1996) do agronegócio não só podem como devem ser rejeitadas e substituídas por outras. Em caso contrário, não será possível construir um país mais democrático e menos desigual.

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1
Como os que ocorrem no CNPq, a maior agência de fomento à pesquisa do Brasil, que há décadas tem um papel primordial na formulação e na condução de políticas de ciência, tecnologia e inovação no país, comprometendo o desenvolvimento da ciência brasileira e, por fim, da própria soberania do Brasil. Mais informações sobre o tema podem ser vistos em Elias (2020a).
2
No momento em que terminamos este artigo, em 9 de fevereiro de 2021, o mundo já contabilizou mais de 2,3 milhões de mortes pela Covid-19, somando o Brasil o segundo maior contingente, com 231.534 vidas perdidas, número superado apenas pelos 464.921 mortos nos EUA (Google, [s.d.]).
3
O blogue Outras Mídias publicou matéria sobre o impacto da gestão atual na Funai (Souza, 2019).
4
A declaração do ministro do Meio Ambiente tinha como objetivo alertar os participantes da reunião ministerial do que considerava uma oportunidade ensejada pela pandemia da Covid-19, qual seja, mudar leis ambientais que poderiam ser questionadas na Justiça, enquanto a sociedade e a mídia estavam voltadas para a pandemia (Ministro do Meio Ambiente..., 2020). A divulgação foi autorizada pelo então ministro do Supremo Tribunal Federal (Ministro Celso de Mello..., 2020).
5
Entre as quais destacamos De Olho nos Ruralistas, Brasil de Fato, Outras Mídias, Carta Capital, Repórter Brasil, Diário do Centro do Mundo, Outras Palavras, Nexo Jornal, Le Monde Diplomatique Brasil, Mídia Ninja e A Terra é Redonda e o ranking de grandes empresas publicados por revistas e jornais de circulação nacional como Exame Melhores e Maiores, Valor 1000 Maiores Empresas, Globo Rural, Dinheiro Rural e Forbes.
6
Esse debate se iniciou nos EUA na década de 1950, com John Davis e Ray Goldberg, que passaram a adotar e discutir a noção de agribusiness, que envolveria, além da própria atividade agropecuária, todos os setores associados a montante e a jusante dessa atividade. Com desdobramentos em vários outros países, no Brasil, o debate foi intenso, especialmente nas décadas de 1980-90, com vários autores discutindo o que chamavam de complexos agroindustriais (CAI) (Sorj, 1980; Muller, 1989; Silva, J., 1996; Mazzali, 2000) e outros de sistemas agroindustriais (SAG) (Farina; Zylbersztain, 1998).
7
Informação fornecida por Ricardo Antunes durante um pequeno evento científico ocorrido na PUC-Rio, em outubro de 2016.
8
Na subárea do conhecimento da Geografia Agrária brasileira, há um número grande de pesquisadores, laboratórios, grupos e redes de pesquisa que desenvolvem importantes estudos que trabalham diretamente com esses temas e muito ajudam a compreender aspectos diversos de tal realidade.
9
De acordo com pesquisa conduzida pela ONG Repórteres Sem Fronteiras e pelo Coletivo Intervozes sobre a concentração midiática no Brasil, os membros da família Marinho que controlam o grupo Globo são donos de fazendas e empresas de produção agrícola. Têm ainda negócios no mercado imobiliário, no setor de finanças e de vendas. Isso faz com que a família esteja entre as que detêm as maiores fortunas do país (Vilela, 2018).
10
Sobre o tema do agronegócio e da indústria cultural ver Chã (2018), Nobrega e Bandeira (2019) e Santos, A., Silva, D. e Maciel (2019).
11
Após as eleições de 2018, uma reconfiguração da FPA tornou-a mais poderosa e também mais fisiológica, somando 225 deputados federais e 32 senadores em sua base. A lista completa de seus componentes com os partidos aos quais pertencem está disponível em Bassi (2019).
12
Os recursos financeiros para a manutenção da FPA vêm do Instituto Pensar Agro (IPA), criado em 2011. Estes, por sua vez, vêm de um conjunto de grandes empresas e associações diretamente ligadas ao agronegócio, nacionais e multinacionais, assim como de outros setores como bancos, entre as quais estão a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), a União da Indústria de Cana de Açúcar (Única) e empresas como Bayer, Basf, BRF, JBS, Bunge, Syngenta, Cargill, entre outras (Arroio, 2019).
13
Eram várias as denúncias de envolvimento de Michel Temer em esquemas de corrupção. Entre os inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), podemos citar os mais divulgados na grande mídia, especialmente os associados à cobrança de propina de empresas atuantes no porto de Santos (SP) e à JBS, uma das principais corporações do agronegócio. Uma matéria publicada no site da UOL em 2019 cita que, ao todo, o emedebista era alvo de 10 inquéritos espalhados por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo e já havia sido denunciado três vezes pelo Ministério Público Federal (MPF) (Shalders, 2019).
14
Para informações mais detalhadas sobre a corporação, ver Amaggi ([s.d.]). Para uma leitura geográfica, ver Silva, C. (2011).
15
Dados do Jornal Contábil incluem Blairo Maggi entre as oito maiores fortunas entre os políticos brasileiros (Spigariol, 2018).
16
Para saber mais sobre a trajetória de Blairo Maggi, a formação da corporação controlada por ele e pela família, assim como sobre sua estreita relação com o Estado, ver Gonzáles (2018).
17
Matéria do Repórter Brasil mostra a relação de empresários ligados aos agrotóxicos no financiamento da campanha de Tereza Cristina para deputada federal (Camargos, 2018).
18
Tais como o Greenpeace e o Observatório do Clima, entre outros.
19
A título de exemplo, citamos a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), a Associação das Empresas Cerealistas do Brasil (Acebra), a Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana), a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (AABIC), a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), o Sindicato da Indústria da Construção do Estado de Alagoas (Sinduscon-AL), a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop) (Castilho, 2020).
20
A autoria do PL é do deputado Delegado Edson Moreira (PR-MG). Uma consulta ao site da Câmara dos Deputados em novembro de 2020 mostrou que o projeto de lei estava aguardando parecer do relator na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado (CSPCCO) (Brasil, 2016).
21
O informativo Independente fez um levantamento desses PL e somou 20 iniciativas de aliados bolsonaristas com objetivos próximos e complementares. A matéria também indica cada um deles segundo seu autor, além do principal objetivo, assim como o número do PL, o que permite aos interessados acessarem a página da Câmara dos Deputados e saber mais detalhes, incluindo sobre a situação da tramitação (Bruza, 2019).
22
As falas do ministro da Economia e do deputado federal suscitaram um conjunto de publicações nas mídias oficiais e alternativas sobre do AI-5. Entre elas, citamos a webstorie da Folha de S.Paulo (2020) e as reportagens do Brasil de Fato (Sudré, 2019) e do El País (Betim, 2019).
Revista GEOUSP

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Andes em elevação na Patagônia




Geleiras na região do monte Fitz Roy, na divisa do Chile com a Argentina

Ben Tiger / Universidade de Washington em Saint Louis

Nas últimas décadas, à medida que as geleiras derretem, a cordilheira dos Andes vem se soerguendo mais rapidamente na Patagônia do que em outras regiões. Em alguns trechos, o ritmo de elevação supera os 4 centímetros por ano e não se deve apenas ao mergulho da crosta oceânica do Pacífico Sul sob a placa tectônica da América do Sul. A razão principal do soerguimento rápido é a existência de uma janela na placa que está submergindo. Usando dados de sismógrafos, geólogos da Argentina, do Chile e dos Estados Unidos trabalhando sob a coordenação de Douglas Wiens, da Universidade de Washington em Saint Louis, mapearam as profundezas do planeta naquela região e confirmaram a existência da tal janela. Situada a cerca de 150 quilômetros abaixo da superfície, ela permite que um material mais quente e fluido do manto circule sob essa região da América do Sul, erodindo a litosfera e a tornando mais fina e flexível (Geophysical Research Letters, 18 de janeiro). Acelerado nas últimas décadas, o derretimento dos glaciares remove uma grande massa de gelo que fazia a litosfera flexionar para baixo nessa região. Com menos carga, a litosfera sobe.
Revista Fapesp

Oceanos mais quentes e barulhentos com as mudanças climáticas





Tráfego intenso de navios, uma das causas de poluição sonora nos mares

Taikrixel / iStock / Getty Images Plus


Se a tendência atual de emissão de gases de efeito estufa não for bastante atenuada, até o final do século os oceanos deverão estar mais quentes e barulhentos. A previsão é do grupo coordenado pela especialista em bioacústica Alice Affatati, da Universidade Memorial de Newfoundland e Labrador, no Canadá. Ela e colaboradores calcularam o efeito que o aumento da temperatura previsto para ocorrer até 2100 deve provocar na velocidade de propagação do som na água, levando em consideração as diferenças de salinidade e profundidade dos mares ao redor do mundo. Segundo as projeções, as regiões mais afetadas devem ser o mar de Labrador, no Atlântico Norte, e o mar da Groenlândia, próximo ao Ártico. Nessas áreas, até a profundidade de 500 metros, a velocidade do som deve aumentar 1,5%, o equivalente a 90 quilômetros por hora. A velocidade do som deve subir também, ainda que um pouco menos, no noroeste do Pacífico, no Ártico, no oceano Austral, no golfo do México e na porção sul do mar do Caribe (Earth’s Future, 22 de março). Além de viajar mais rapidamente, as ondas sonoras, como as emitidas por navios, vibram por mais tempo em águas mais quentes e podem prejudicar animais marinhos – em especial os mamíferos – que usam o som para se comunicar, navegar, encontrar alimentos e parceiros para a reprodução.
Revista Fapesp

O afundamento das cidades costeiras





Imagem de satélite da Região Metropolitana de Tampa, na Flórida

USGS / Nasa

Várias cidades costeiras estão afundando mais rápido do que o nível do mar está subindo, segundo estimativas de pesquisadores da Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos. Sob coordenação do geocientista Meng Wei, eles analisaram a situação de 99 cidades em diferentes continentes. Usando imagens de satélites produzidas entre 2015 e 2020, os pesquisadores determinaram variações na altura do solo com precisão milimétrica. Eles constataram que muitas cidades estão sofrendo um processo chamado de subsidência, o afundamento da superfície por conta de deformações nas camadas subterrâneas. Em várias delas, a subsidência se deve à extração de água do subsolo. Pelo menos 33 cidades estão afundando mais de 1 centímetro por ano, cinco vezes a taxa de aumento do nível do mar – entre elas Houston, nos Estados Unidos, Querala, na Índia, e Kobe, no Japão (Geophysical Research Letters, 24 de março). Os autores alertam que, se o processo seguir no ritmo atual, os modelos de elevação do nível do mar não conseguirão prever adequadamente a intensidade das inundações que podem atingir essas cidades.


Área azul afunda mais de 2 milímetros por anoTaikri WU, P. C. et al. Geophysical Research Letters. 2022

Uma barreira no Atlântico


Água e sedimentos do rio Amazonas penetram milhares de quilômetros no oceano e separam parte das espécies marinhas brasileiras daquelas do Caribe




Foz do rio Amazonas na altura da ilha de Marajó, no Pará, onde a pluma de água doce rica em sedimentos alcança o oceano

Coordenação Geral de Observação da Terra / InpeRicardo Zorzetto


A cada instante, o rio Amazonas, o mais extenso e volumoso do mundo, despeja uma quantidade colossal de água doce e sedimentos na porção ocidental do oceano Atlântico. São 300 milhões de litros lançados a cada segundo em frente à ilha de Marajó, no Pará, quase 20% do que todos os rios do planeta levam para os mares. Tamanha torrente transfere da cordilheira dos Andes para o Atlântico, ao longo de um mês, uma quantidade de partículas em suspensão equivalente à massa de um morro como o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Enriquecida com sedimentos e nutrientes arrastados pelos quase 7 mil quilômetros (km) do rio, essa água não se dilui imediatamente ao chegar ao oceano. Em vez disso, forma uma extensa pluma de água barrenta de quase 30 metros (m) de profundidade que desliza sobre a salgada por quase 200 km mar adentro. Empurrada por ventos e correntes marinhas, a pluma se estende 2,3 mil km em direção a noroeste e abriga uma fauna própria, em parte distinta da de outras regiões do oceano.

Essa grande massa de água doce rica em nutrientes funciona como uma barreira fluida e porosa. Ela separa várias espécies de organismos marinhos encontradas no Caribe daquelas que vivem ao sul da foz do Amazonas, mas permite a passagem de outras. Seu papel de barreira começou a ser notado no início dos anos 1970 por pesquisadores estrangeiros. Dois estudos liderados por biólogos brasileiros detalham agora como evoluiu a influência da pluma sobre a formação e a distribuição de espécies de peixes e de outros grupos de animais marinhos no Atlântico Ocidental.

“A pluma do Amazonas desempenha no oceano uma função semelhante à que o rio exerce no interior do continente, separando espécies ou populações de uma mesma espécie, localizadas em margens opostas”, explica o biólogo brasileiro Luiz Rocha, curador de ictiologia da Academia de Ciências da Califórnia, nos Estados Unidos. Ele estuda há mais de 20 anos a influência da pluma na diversificação e distribuição de peixes de recifes e é coautor de um artigo que será publicado no Journal of Biogeography. No trabalho, Rocha e colaboradores das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ), de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade Charles Darwin, na Austrália, mostram que o impacto da pluma aumentou progressivamente com a evolução do Amazonas. Nos últimos 2,4 milhões de anos, a capacidade de isolamento se tornou intensa a ponto de afetar populações de peixes de grande porte e aumentar a taxa de formação de novas espécies.

Os pesquisadores chegaram a essa conclusão ao comparar o tempo de separação entre espécies (ou populações de uma mesma espécie) que viviam em lados opostos da barreira com as mudanças no volume de água e sedimentos transportados pelo Amazonas. Análises de detritos depositados na foz do rio indicam que a pluma surgiu entre 9,4 milhões e 9 milhões de anos atrás. Sua chegada a essa região do Atlântico coincide com o soerguimento da porção norte dos Andes e o aparecimento de uma versão primitiva do Amazonas.

Em uma fase inicial, que durou até 5,6 milhões de anos atrás, a quantidade de água doce e sedimentos descarregada no oceano era pequena, suficiente para criar na foz do rio um depósito de 5 centímetros (cm) de espessura a cada milênio. Nos 3,1 milhões de anos seguintes, a carga de detritos aumentou seis vezes, gerando acúmulos de 30 cm no mesmo intervalo de tempo. A terceira e mais recente fase de evolução do rio iniciou-se por volta de 2,4 milhões de anos atrás, quando a concentração de material em suspensão aumentou outras quatro vezes e a coluna de sedimentos depositados a cada mil anos alcançou 120 cm. “À medida que as taxas de sedimentação aumentaram, a barreira se tornou menos permeável aos peixes de recifes rasos”, conta Rocha.




Nos últimos 9,4 milhões de anos, a pluma do rio Amazonas separou populações de peixes que ocorrem na costa brasileira daquelas achadas no Caribe, levando ao surgimento de espécies muito semelhantes nas duas regiõesJoão Paulo Krajewski | Frank Krasovec | Claudio Sampaio | Jim Lyle | Sergio Floeter / UFSC

Sob a orientação de Fabio Di Dario, da UFRJ, e Sergio Floeter, da UFSC, o doutorando Gabriel Araujo analisou 21 regiões do genoma de quase 150 espécies de peixes de recifes que ocorrem ao longo da costa brasileira e do mar do Caribe para estabelecer o tempo de separação entre elas. Eram peixes com tamanhos e características bem variados, desde Malacoctenus zaluari, um peixinho de 10 cm de comprimento e corpo prateado, com listras dorsais alaranjadas e manchas pretas, que não se distancia muito de onde nasce, até o mero (Epinephelus itajara), um grandalhão de 2,5 m, com corpo esverdeado coberto de manchas escuras.

As espécies foram depois realocadas em 110 duplas. Cada uma era formada por uma espécie que ocorria no Caribe e outra na costa brasileira, ou por populações distintas de uma mesma espécie separadas pela pluma. O efeito separador da torrente de água doce barrenta pôde ser observado para 60 dessas duplas, afetadas em um dos três momentos da evolução do Amazonas. Não houve impacto sobre as outras 50, que ocorrem em todo esse trecho do Atlântico Ocidental.

A influência da pluma foi proporcionalmente maior entre as espécies denominadas criptobênticas – peixes de menos de 10 cm que vivem no fundo e usam a paisagem dos recifes para se ocultar, como as do gênero Malacoctenus – do que entre as de peixes maiores. Das 23 espécies criptobênticas existentes hoje nessa porção do Atlântico, 20 (87%) surgiram provavelmente por influência da pluma, que dividiu populações únicas de uma mesma espécie ancestral. O mesmo efeito foi observado em 46% das 87 espécies de maior porte, entre elas a do budião-arco-íris (Scarus guacamaia), um peixe caribenho de 1,2 m de comprimento e corpo esverdeado, nadadeiras alaranjadas e boca azul, e a do budião-azul (Scarus trispinosus), de coloração uniforme e cerca de 90 cm, encontrado na costa brasileira.

“As espécies menores foram as primeiras a serem separadas pela pluma. Esse efeito só se torna evidente nas maiores nos últimos 2,4 milhões de anos”, conta Floeter, da UFSC. A torrente de água doce que separa as águas superficiais do Caribe das do litoral brasileiro levou ao surgimento de 16 espécies criptobênticas nos primeiros 4 milhões de anos de existência da pluma. Esses peixes enfrentam muita dificuldade para atravessar a barreira porque nadam por pequenas distâncias e suas larvas vivem pouco tempo na coluna de água.



Rodrigo Cunha

Inicialmente mais tênue sobre os peixes grandes, o efeito da pluma se intensificou com o aumento da carga de sedimentos e da turbidez da água. Dos 31 eventos de separação registrados nos últimos 2,5 milhões de anos, 13 envolveram espécies com mais de 50 cm. Um dos mais recentes ocorreu há apenas 100 mil anos e originou o budião-comum (Sparisoma viride), caribenho, e o budião-verde (Sparisoma amplum), do litoral do Brasil.

As mudanças nas propriedades químicas e físicas da pluma durante o Pleistoceno foram acompanhadas de oscilações mais frequentes no nível do mar, que esteve mais de 50 m abaixo do atual em pelo menos três períodos. Por causa de sua espessura restrita, a pluma afeta menos o trânsito de espécies entre a costa brasileira e o Caribe nos períodos em que o planeta está mais quente e o nível do mar elevado, como o atual. Vários desses peixes podem usar o grande recife de algas calcáreas, corais e esponjas que existe em frente à foz do Amazonas – e se estende do Pará à Guiana Francesa – como um corredor conectando o litoral nacional ao caribenho. Já nas eras glaciais, com o nível do mar mais baixo, a água doce da pluma cobre boa parte da plataforma continental, impedindo a formação de recifes e dificultando o trânsito dos organismos marinhos.

O que o grupo de Rocha e Floeter observou para os peixes de recifes parece valer para uma grande variedade de organismos marinhos. Em um estudo publicado em janeiro na revista Scientific Reports, o biólogo Everton Tosetto e pesquisadores das universidades federais de Pernambuco (UFPE), Rural de Pernambuco (UFRPE), da Paraíba (UFPB) e do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), na França, analisaram a influência da pluma sobre a distribuição de 8.375 espécies pertencentes a 17 grandes grupos (filos) de animais encontrados no Atlântico Ocidental, do mar do Caribe a Cabo Frio, no Rio de Janeiro.

A variedade é grande e inclui seres microscópicos que formam o plâncton, passivamente transportados pelas correntes oceânicas, animais que vivem no fundo do mar, como anêmonas e poliquetas, e outros com boa capacidade própria de deslocamento, por exemplo, crustáceos, peixes e até aves. “Trabalhos anteriores focaram em filos específicos. Mostramos que a pluma do rio Amazonas é uma barreira à dispersão dos principais grupos de animais marinhos”, afirma o biólogo, que faz um estágio de pós-doutorado no IRD.

O grupo constatou que a pluma é mais do que um divisor de duas áreas com faunas distintas. Ela, em si, é um ecossistema com uma diversidade biológica peculiar. Suas características físicas (maior turbidez) e químicas (menor salinidade e maior concentração de nutrientes) propiciam o crescimento de um número considerável de espécies que talvez não resistissem às condições da água do mar.

Estima-se que existam na pluma 1.929 das 8.375 espécies de animais marinhos do Atlântico Ocidental. Cerca de 27% delas (519) são encontradas ali, mas não no Caribe nem na costa brasileira. Já das 3.373 espécies que, estima-se, ocorrem no litoral brasileiro, 1.713 (51%) não são encontradas na pluma nem no mar do Caribe, onde o grau de exclusividade é ainda mais elevado: 69% das 5.590 espécies observadas lá não estão nas outras duas regiões.

A comparação do número de espécies compartilhadas entre as três regiões permitiu ainda confirmar que a costa do Brasil e a pluma são “exportadoras” de fauna: 45% das espécies brasileiras e 65% das encontradas na pluma também existem no Caribe, enquanto apenas 25% das caribenhas ocorrem no litoral do país e 21% na pluma. Esses dados sugerem que, em muitos casos, a pluma atua como um filtro semipermeável, que permite a passagem em um sentido preferencial”, conta Tosetto. O sentido privilegiado de dispersão é de sul para norte, provavelmente em consequência do transporte oceânico nessa área, dominado pela Corrente Norte do Brasil.

Em um estudo publicado em março deste ano na revista Science of the Total Environment, os oceanólogos Fabiano Thompson e Camille Leal, da UFRJ, e sua equipe analisaram as comunidades de microrganismos – bactérias e arqueias – que habitam duas espécies de esponja encontradas do Panamá ao Rio de Janeiro: Monanchora arbuscula e Xestospongia muta. Concluíram que a pluma do Amazonas não afetou a distribuição dessas esponjas nem dos microrganismos que vivem em seu interior e são importantes para a saúde delas.



Artigos científicos
ARAÚJO, G. S. et al. The Amazon-Orinoco barrier as a driver of reef-fish speciation in the Western Atlantic through time. Journal of Biogeography. No prelo.
LEAL, C. V. et al. Sponges present a core prokaryotic community stable across Tropical Western Atlantic. Science of the Total Environment. 13 abr. 2022.
Revista FAPESP

domingo, 15 de maio de 2022

O aprofundamento da fome no Brasil




José Dias Campos

Devido a vários aspectos originados pela pandemia e ao desgoverno, voltamos a presenciar a triste realidade da fome

As muitas crises vivenciadas tem levado grande parte da população brasileira a um maior estado de vulnerabilidade social, o tão conhecido estado de miséria.

É evidente que precisamos entender a fome não só a partir da escassez de alimentos sólidos, mas, também da água como alimento e tantas outras necessidades ao bem estar da vida que, ao aprofundar-se constituem-se espécies de fome. Por exemplo, fome de paz, fome de cultura, fome de tolerância, fome de bem estar, fome de amor ao próximo. São muitos os estados de fome por que passa a humanidade e particularmente o Brasil.

Talvez só os incessíveis, se é que eles existem, não conseguem vivenciar algum estado de fome ocasionada pela ausência de alguma necessidade fundamental para a vida.

Atualmente no Brasil vivenciamos um grande estado de fome, originado a partir dos impactos da pandemia e, agravado pelo aprofundamento do processo inflacionário e de desgoverno, que tem se refletido na ausência de políticas públicas eficazes de distribuição de renda, principalmente, para as camadas mais frágeis da população.

No passado foram vivenciados estados de miserabilidade muitos graves, nos quais famílias procuravam no lixo restos de alimentos. Infelizmente, essas cenas têm voltado ao cenário. É algo muito triste!

Só quem vivenciou períodos tristes de fome pode ter a dimensão do sofrimento por que passa grande parte da população brasileira, em estado de profunda fome.

No ano de 1970, ainda criança, pude experimentar o que é ter fome. Saia com minha irmã mais nova até os pés de umbu para comer as folhas, pois já não havia mais frutos.

Lembro-me que naquela época eu ia com meu pai para a feira e ele tinha o hábito de experimentar a farinha, seca, de mandioca, a venda a granel em caixotes no mercado central de Teixeira. Ele pegava um punhado com a mão e levava até a boca e, eu o acompanhava nesse ato porque tinha fome e não dispunha de dinheiro sequer para comprar um pão.

Os poucos recursos que meu pai reunia para a feira eram escassos, frutos da ação de cooperação dos meus irmãos mais velhos que trabalhavam alugado ou no sisal, uma vez que ele era doente e não podia trabalhar. Foi algo muito triste que ficou marcado na minha vida.


(Foto: Leonardo Henrique/ MST)

Naquela época, praticamente não se conseguia compra mistura, ou seja, proteínas para compor a dieta alimentar e nutricional. Então lembro que íamos nas sextas-feiras, véspera da feira livre até o matadouro para pedir o sangue de boi, algo que não era comercializado, para cozinha e servir de mistura.

Esse tempo passou, graças aos frutos da luta de muitos e muitas por melhores condições de vida e da sensibilidade de governantes ao apelo dos mais fragilizados, embora tenha ficado muito marcado na minha memória.

Hoje, infelizmente vejo voltar essa triste cena através da realidade de muitas famílias que passam fome e outras que não conseguem comprar nada de proteína e vão para filas em busca de ossos ou a procura de restos de alimentos no lixo. A que estado de fome chegamos e até aonde vamos! Precisarmos reagir!

O Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS), organização social com mais de 35 anos de ação em busca da convivência com as adversidades do clima, no semiárido da Paraíba, por meio de sua equipe já vivenciou diversas realidades: os saques as feiras livres e supermercados na década de 1990 e o desenvolvimento das denominadas frentes de emergências, forma utilizada pelos governantes para combater a seca na época.

Posteriormente vivenciou e executou políticas publicas de convivência com as adversidades do clima semiárido, por meio da construção de reservatórios descentralizados de captação e armazenamento de água para o consumo humano e para a produção de alimentos saudáveis, a partir de parceria com governos mais sensíveis a causa dos camponeses(as).

Agora, devido a vários aspectos originados pela pandemia e o desgoverno volta a vivenciar essa triste realidade, na qual há agricultores e agricultoras que passam fome. Por isso lançou um apelo solidário através da campanha de arrecadação de alimentos e recursos para cesta básicas, buscando amenizar a situação daqueles que estão em estado de fome, em sua região de atuação: o remédio para a fome é dar de comer!



José Dias Campos é coordenador executivo do Centro de Educação Popular e Formação Social.
Le Monde Diplomatique

sexta-feira, 13 de maio de 2022

A morte é o dilema do nosso tempo




Vinícius Mendes


O que antes só se vivia na guerra, agora é a vida cotidiana. Morrer é tristeza, mas também resignação


Como desejo e como guerra, como horror e como cotidiano, como lamento e como vitória, a morte retorna ao nosso tempo como seu grande dilema. Agora morrer não é somente a consequência do método histórico dos estados, paridos dos seus próprios exércitos, mas é também parte da coleção de normalidades da vida ordinária. Se ditaduras, impérios e mesmo democracias sempre foram instituições que relativizaram o assassinato para sustentar seus objetivos, suas sociedades nunca deixaram de se chocar. Essa foi a história do último século em boa parte do mundo – mas algo aconteceu de lá para cá que ainda não compreendemos.

A resposta menos pior é a pandemia, que, com a rapidez dos fenômenos da natureza, recolocou a morte como fato incontrolável. Ela primeiro se vestiu de número, de seta, de planilha, de gráfico, de porcentagem, de manchete, numa matemática que os jornais pensavam ser possível usar para paralisar o mundo. À falta de corpos empilhados, porém, as pessoas seguiram frequentando bares e cafés – em detrimento às regras dos governos. Alguma filosofia chegou a argumentar que não havia outro jeito, que era tanta gente morrendo que a vida não poderia sentir todas as dores. Que era preciso uma nova atitude blasé para seguir existindo.

A resposta mais crua, porém, joga a explicação para o nosso tempo. Algo aconteceu nele que fez com que a morte, além de prática estatal, que sempre foi, também se encrustasse como um instrumento de resolução do ordenamento do dia a dia, das pessoas que tecem a sociedade, dos seus discursos morais, da percepção comum que têm da vida comum.

É assim, então, que a morte regressa a esse tempo como suplício. É mais um dos nossos atuais regressos àquele tempo que o Ocidente insiste em chamar de Idade Média: não porque nele a espera pelo momento de morrer — ou, antes, pelo cumprimento da promessa cristã de volta do messias ao mundo — dava o tom dos dias, mas porque ser morto em público voltou a ter uma aura de justiça. Na América Latina, na Ásia, nos confins do Hemisfério Sul, delitos são punidos com espancamentos, membros amputados e assassinatos gravados que, depois, viram mercadoria moral da população. Os sentenciadores não são instituições: são apenas outras pessoas.

Não é à toa: ao invés do choque, há uma sensação de providência. O bandido, uma vez bandido, não tem mais direitos. Ele deve pagar por toda sua condição – da sua escolha individual ao contexto que o forjou como tal – com a própria vida.

Essas mortes carregam a correlação de ideias que fez o suplício medieval existir. Ele era o pressuposto coletivo de que a morte — especialmente aquele jeito cruel de morrer — era a pior das experiências que um ser humano poderia ter. Mas ali morrer já era, em qualquer circunstância, um acontecimento, uma ruptura com o rotineiro, e por isso mesmo que era um suplício (de suplicar publicamente aos deuses), ou a única justiça que se tinha.

A morte volta agora como resignação não dos governos, mas dos governados. Morrer não é só inevitável como é aceitável. No horizonte histórico do Brasil, não se trata exatamente de uma grande novidade — este é o país que, não apenas como instituição, assassinou nativos, africanos, migrantes, e que ainda hoje o faz, como sociedade, com os sujeitos que rompem um suposto modelo tradicional, rígido, de existência. Mas o que irrompe como novo é justamente a amplitude dessa indiferença, a transformação dela em costume popular, em experiência cotidiana. Não é a necropolítica, mas a necrossociedade que a sustenta.

Diante de tanta morte, este país passou a topá-la, até mesmo comemorá-la — verdadeira mudança psíquica que ainda está por se compreender, já que revisita toda a lógica do luto. É assim que quando um funcionário estatal sugere que o aumento de óbitos de idosos alivia a folha de pagamentos da previdência, o que é bom para a nação, sabe-se mais sobre esta nação do que sobre o seu funcionário.

É assim também que um cadáver não incomoda os consumidores de um supermercado, ou os transeuntes de uma padaria, ou que ocupa, quando negro, a frieza de uma capa de jornal. É assim que o governante, diante da morte dos seus governados, responde que não é ele quem vai abrir as covas para enterrá-los. Se a pandemia foi, de fato, o estopim desse regresso do dilema da morte ao mundo, o Brasil bolsonarista adicionou a ele a questão da indiferença.

A morte retorna ainda como arma – mas agora em um ambiente que almeja a democracia e, portanto, a vida. Nesse sentido, também ganha um velho contorno de justiça. Quando alguém inconveniente morre, um adversário político, um inimigo de discurso, o suplício não acontece como na Idade Média porque uma parte da multidão ao contrário, comemora. Ela não percebe sua fraqueza: por um lado, ainda não entendeu que quando um dos seus também morre, há sempre outra parte da multidão, do lado de lá, a comemorar. É um ciclo sem fim. Por outro, não compreende o paradoxo da sua alegria: se a morte se tornou seu único instrumento para vencer, é porque todas as suas outras possibilidades de ganhar já foram derrotadas. É o símbolo do seu fracasso.

E, à justificativa de que se trata de uma verdadeira perversão romper com o desejo dos oprimidos em ver seus opressores morrendo, a resposta é parecida: trata-se do desespero de quem tem, na morte, a única possibilidade de acabar com a opressão. Tem-se, então, a receita do fim do mundo: à morte se responde com morte, sem se dar conta que o problema não está na morte do carrasco, mas, pesado no coração, o desejo de aniquilação como solução inequívoca. Novamente, ela fala mais sobre as nossas capacidades de acabar com qualquer opressão do que sobre a existência dos opressores.

Nesse tempo estranho, ainda não compreendido, morrer é relativo. É uma marca e um paradoxo dessa época – que ambiciona a democracia, a igualdade, a justiça, mas se conforta na morte. Quando ela acontece, sempre há de se perguntar antes se ela é digna de angústia ou de festa. Depois, de saber quem chora pelo cadáver e quem, ao contrário, regozija. Só então a morte é vivida, já filtrada, pelos dois lados. Eles sempre existem, inevitavelmente: uma hora se chora, na outra se comemora, mas nunca se trata de um acontecimento uníssono. O tempo das grandes comoções não existe mais.

Era assim só na guerra. Era.



Vinícius Mendes é jornalista e sociólogo.
Le Monde Diplomatique

A guerra que ninguém vê

Marina Colerato

Sob comando de Edorgan, a Turquia inicia uma nova ofensiva militar contra os curdos na Síria e no Iraque. Operação Claw Look fica às sombras dos acontecimentos na Europa e os curdos não encontram solidariedade internacional.

Enquanto a atenção segue totalmente voltada para o conflito Rússia e Ucrânia, a Turquia iniciou, no último dia 17 de abril, uma ofensiva militar contras os curdos, no sul do Curdistão, nas cidades de Zap e Avaşîn. Localizadas na fronteira da Síria com a Turquia, essas regiões estão amplamente sob o controle do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), fundado em 1978 como forma de organizar a histórica luta curda por um Curdistão independente. Atualmente, o partido é considerado terrorista pela Turquia, bem como por alguns de seus países aliados, como Estados Unidos, no que tem sido cada vez mais entendido como uma estratégia política internacional para enfraquecer o movimento de autodeterminação curdo.

O atual conflito se desdobra nesse cenário de luta secular e acontece alguns meses após o Newroz, o ano novo Curdo, cujas celebrações no dia 21 de março levaram milhares de pessoas às ruas e serviram também como manifestação política em apoio ao movimento de libertação curdo e ao próprio PKK. A chamada operação Claw Lock encontra resistência nas forças de defesa das regiões da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (ANF), formadas em 2014 sob liderança do Partido dos Trabalhadores do Curdistão. Recep Tayyip Erdoğan (Partido da Justiça e Desenvolvimento – AKP), atual presidente da Turquia, e seus militares turcos têm apoio de mercenários do Estado Islâmico que buscam aumentar seu controle na região. Ambos os lados já fizeram estimativas de baixa, que diferem entre si e não podem ser confirmadas por fontes independentes. Na análise publicada no site da ANF, Civaka Azad, do Centro Curdo de Relações Públicas, afirmou que o conflito deve se desenvolver ao longo dos próximos meses.

Após o início da operação diversas outras regiões curdas já foram atacadas pelas forças turcas por ar e por terra como Afrin, Til Temir, Metîna, Zirgan e recentemente, a cidade de Kobanê, em Rojava, importante espaço de resistência ao Estado Islâmico e do movimento de libertação curdo. O ataque à região estava sendo orquestrado desde o final do ano passado. À época, a Turquia não recebeu autorização dos outros países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para concretizar os planos, o que não a impediu de iniciar ataques por drones em outras regiões no norte da Síria.

Dessa vez, não houve sinal vermelho por parte dos países membros, que permanecem mudos acerca da guerra em curso – até o momento, apenas a embaixada dos Estados Unidos na Síria emitiu um comunicado no Twitter solicitando que “as partes desescalem” o conflito. Apesar dos diversos crimes de guerra já cometidos pela Turquia ao longo dos últimos dias, inclusive a utilização de armas químicas, o país segue a ofensiva contra os curdos sem retaliações por parte das lideranças políticas globais. Há interesses políticos e econômicos em jogo: a Alemanha, por exemplo, é uma grande fornecedora de tecnologia bélica para o Estado turco e tem uma política de retaliação aos militantes alemães que demonstram apoio ao movimento curdo.




Os atuais ataques ao sul podem ser lidos dentro de um contexto amplo de ataques realizados pelo Estado turco em diversas partes do Curdistão, incluindo aqueles acontecendo em Şengal (Sinjar), na fronteira entre Iraque e Síria – onde um muro para isolar Rojava está sendo construído e a presença militar iraquiana já vinha sendo reforçada, aumentando as tensões entre o governo e a população local. No último dia 19, o exército iraquiano atacou as posições do YBS e YJS, grupos de autodefesa no Iraque ligados ao PPK. Os ataques do governo Iraquiano podem ser vistos como uma ofensiva crescente para expulsar os curdos, sobretudo as forças de autodefesa da região.

Os interesses turcos e iraquianos se alinham aos do Partido Democrático do Curdistão (KDP), sob liderança da família Barzani, recentemente exposta em esquemas de corrupção nos EUA. Desde o fim da Guerra do Golfo, o KDP divide a gestão do Governo Curdistão Iraquiano (KGR) com o Partido da União Patriótica (PUK). Além dos encontros frequentes entre as lideranças do KDP e o governo turco, os primeiros helicópteros da ofensiva militar turca contra o Curdistão saíram de uma região do Iraque controlada pelo KDP. Até o momento, o PUK permanece contrário à atual ofensiva militar ao Curdistão, tanto no Iraque quanto na Síria, e já emitiu uma série de comunicados condenando a tripla ofensiva militar da Turquia, Iraque e KDP.

A mobilização social contra a ofensiva turca foi rápida em acontecer. Desde o início da operação Claw Lock, milhares de pessoas em Sengal e Mexmur, no Iraque, e Kobanê e Qamlisho, em Rojava, foram às ruas para se mobilizar contra os ataques enquanto centenas de pessoas se reuniram para os funerais dos militantes das forças de autodefesa. Na Europa, manifestações aconteceram em dezenas de cidades, entre elas Berlim, Viena, Frankfurt e Paris. O silêncio da mídia internacional sobre o conflito, que já deixou centenas de mortes, era também o que Erdoğan esperava, e precisava, ao lançar a operação Claw Look às sombras dos acontecimentos na Europa.


(Creative Commons)

Motivação turca e o projeto neo-otomano

Além de uma clara retaliação às conquistas curdas, sobretudo o estabelecimento da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria sob liderança do PKK e seu amplo apoio popular, o regime do AKP também tem interesses neo-otamos de retomada de territórios perdidos com a queda do Império, no início do século XX. Com a aproximação do fim do Tratado de Lausanne, responsável por definir as fronteiras modernas da Turquia, as tensões locais são amplificadas, a exemplo da ocupação de Afrin – assentada sobre poços de petróleo – e da faixa entre Serêkaniyê e Girê Spî no norte da Síria.

A Turquia também mantém numerosas estações militares no sul do Curdistão e quer ampliar sua influência no Iraque para retomar outros territórios ricos em petróleo e que considera seus por direito, como Kirkuk e Mosul. Outras questões políticas aparecem como motivadoras, como a crise econômica na Turquia e o papel da guerra em fortalecer um sentimento de união nacionalista turca (assentado no histórico racismo anti-curdo), distraindo a população do fracasso econômico atual.

As tensões entre turcos e curdos duram décadas. Logo após a assinatura do Tratado de Lausanne, que enterrou a possibilidade da criação oficial de um Estado Curdo, uma política de “turquificação” proibiu idiomas de minorias étnicas, as palavras “curdo” e “Curdistão” foram abolidas e os curdos passaram a ser chamados de “turcos das montanhas”. Nos anos 90, o genocídio se intensifica com a criação do Centro de Inteligência Policial e Contra o Terrorismo que, junto com o grupo islâmico ligado ao Estado Hezbollah Curdo (sem ligação com o grupo libanês de mesmo nome), assassinou membros do PKK e civis em plena luz do dia.


(Creative Commons)

Os curdos nunca aceitaram a perseguição turca de forma pacífica e vários levantes curdos aconteceram ao longo dos anos e das políticas de limpeza étnica, deixando dezenas de milhares de pessoas mortas, feridas ou deslocadas. Um dos fundadores do PKK e principal liderança curda contra o genocídio, Abdullah Öcalan foi condenado à morte e capturado em 1999. A sentença foi alterada para prisão perpétua (em isolamento) após a Turquia abolir a pena de morte em uma tentativa de ingressar na União Europeia. A prisão de Öcalan não foi suficiente para conter o movimento curdo e, por outro lado, não cessou a ofensiva turca. Sob a presidência de Erdogan, o país começou a implementar “leis antiterroristas” com definição tão ampla de terrorismo que até lançar uma pedra, caso você fosse curdo, poderia ser considerada uma infração terrorista. A lei antiterrorista também serve para reprimir apoiadores da revolução curda, sobretudo do PKK e aliados.

Porém a Turquia também tem se preocupado com o avanço curdo dentro da política institucional turca. Em 2009, o Partido da Sociedade Democrática (DTP), comprometido com o Confederalismo Democrático, projeto político do PKK, obteve grande êxito nas eleições. O que levou o Estado turco a prender representantes do partido e depois proibi-lo. De qualquer forma, outro partido, o Partido Paz de Democracia (BDP) foi criado na sequência, sucedendo tanto manifestações de massa como assassinatos. Em 2015, o PKK responde aos incessantes e pesados ataques dos turcos nas regiões onde o partido tem suas bases com expectativa de minar o crescente sucesso eleitoral do Partido Democrático dos Povos (HDP), que substituiu o DTP em 2014. Levantes curdos na Turquia contra Erdogan e a favor do PKK foram reprimidos com artilharia pesada, tanques e helicópteros. Com as eleições se aproximando e a popularidade do HDP em ascensão, Erdogan e aliados tentam um novo banimento ao partido curdo.

Para que a atual ofensiva turca seja bem-sucedida, é preciso derrotar as forças de guerrilha do PKK, que mesmo em clara desvantagem de recursos se considerarmos que a Turquia é o segundo maior exército da Otan, têm sido capazes de conter o Estado Islâmico bem como resistir às ofensivas do KDP e da Turquia nas regiões autônomas. A aposta é que vencendo os guerrilheiros e guerrilheiras curdos em Zap e Avaşîn, seja possível avançar em outras regiões administradas pelo autogoverno, não só na Síria, mas também em Şengal e Mexmur. Mas se a Turquia está obstinada em seu projeto neo-otomano também estão os curdos em manter seu projeto de autodeterminação.



Marina Colerato é jornalista dedicada a cobrir pautas de justiça social e ambiental. Atualmente está como diretora presidente no Instituto Modefica e é mestranda em ciências sociais pela PUC-SP onde pesquisa ecofeminismo, justiça climática e neoliberalismo. Você pode encontrá-la no twitter, instagram e na sua newsletter Lado B.
Le Monde Diplomatique

domingo, 10 de abril de 2022

Desaparecimento de lago expõe risco da privatização da água


Naomi Larsson


Estiagens e concessão sistemática de recursos hídricos a terceiros levam à extinção de lagos e agricultores ao desespero no Chile. Novo governo e Constituição são esperança para reverter esse cenário.



https://www.dw.com/pt-br/desaparecimento-de-lago-exp%C3%B5e-risco-da-privatiza%C3%A7%C3%A3o-da-%C3%A1gua/a-61084094

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Segundo uma antiga lenda, no fundo do lago de Aculeo, no centro do Chile, haveria uma grande riqueza de ouro dos incas. Os moradores das proximidades dizem que até se podia ver o ouro brilhando nas águas cristalinas da lagoa, que é cercada por colinas exuberantes e pela Cordilheira dos Andes.

Mas a lagoa, que já foi um dos maiores lençóis naturais do Chile, agora está completamente seca, sem sinais de vida. Isso revelou que ali nunca houve algum tesouro escondido. No entanto, os habitantes locais se deram conta da verdadeira riqueza da água.

"Ouvia pássaros cantando o dia inteiro porque a flora e a fauna da lagoa eram espetaculares. Era possível ver os peixes nadando, de tão clara que era a água", conta Viola Gonzalez Vera, que mora em Aculeo, a 70 quilômetros da capital, Santiago, há 30 anos.

O leito do lago agora está ressequido e rachado, desfigurado pelas frequentes secas. As antigas margens marcam onde o lago costumava estar, como fantasmas deixados para trás para lembrar aos habitantes locais o que este lugar foi um dia.
Em 2011, o lago de Aculeo ainda era atração turística para esportes aquáticosFoto: Martin Bernetti/AFP/Getty Images

O Chile enfrenta uma enorme estiagem nesta última década, com as regiões centrais recebendo 30% menos chuva do que o normal. Durante anos, acreditou-se que a mudança climática estava por trás do desaparecimento da laguna de Aculeo, que existiu por mais de 3 mil anos. Porém, no início deste ano, pesquisadores de hidrologia e gestão da água descobriram que o principal culpado foi a exploração excessiva da região.
Lagoa extinta e fim dos meios de subsistência

O estudo publicado na revista Sustainability em janeiro deste ano apontou que, embora tenha havido uma influência da quantidade de chuvas abaixo da média na última década, há "provas indiscutíveis" de que a laguna desapareceu graças à atividade humana, principalmente através do desvio dos rios e do bombeamento das águas subterrâneas dos aquíferos que a abasteciam.

Mesmo após quatro períodos de estiagem com poucas chuvas no século 20, a lagoa nunca chegou perto de secar, de acordo com o estudo. "Mas ao longo dos anos 90 as indústrias agrícolas começaram a desviar esses rios quando o Estado começou a ceder 100% dos direitos de água de um rio, e depois outro, depois outro", disse Pablo Garcia-Chevesich, professor chileno da Escola de Minas do Colorado e da Universidade do Arizona, e coautor do relatório.

Em 2010, o rio Pintue − um importante afluente − foi completamente desviado. Grandes fazendas produtoras de cerejas e abacates também cavaram poços profundos e bombearam água diretamente da lagoa. Como resultado, "não importava mais o quanto chovia; pela primeira vez a lagoa não pôde suportar uma seca", explicou Garcia-Chevesich, que também é membro do Programa Hidológico Intergovernamental da Unesco.

Quando a lagoa secou e a vida ao redor desapareceu, o mesmo aconteceu com os turistas. Ao mesmo tempo, os pequenos agricultores das redondezas viram suas colheitas encolherem e os animais morrerem.

Água potável está cada vez mais escassa no mundo



02:51


Ao longo dos anos, alguns na comunidade perderam o acesso à água potável, quando surgiram novas casas de verão com gramados e piscinas abastecidas com essa água. Mas nada se compara à exploração que ocorreu quando os produtores de abacate e cereja se mudaram para a região, dizem os moradores locais.

"Já vi pessoas chorando na rua porque não tinham água para escovar os dentes", conta Gonzalez Vera, que tem um tanque em seu quintal − a poucos metros de onde esteve o lago um dia – que é abastecido por um caminhão pipa que traz água ao vilarejo.

Garcia-Chevesich culpa o Estado pela perda da lagoa e pelo impacto resultante na população local. "É a concessão fora de controle dos direitos da água sem nenhum estudo ou avaliação que inclua mudanças climáticas ou danos sociais ou ecológicos". Esse problema ocorre em todo o país.
Quando a água é uma mercadoria e não um direito humano

A Constituição do Chile, escrita durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, considera a água uma propriedade privada, tornando-a um bem econômico. O Código da Água de 1981 também permite ao governo conceder gratuitamente direitos permanentes e transferíveis sobre a água a terceiros.

Essa legislação criou um mercado para a água e dificultou a administração do abastecimento hídrico. Na Aculeo, por exemplo, não foram realizadas auditorias para administrar os níveis de consumo antes que o Estado entregasse os direitos sobre a água. "O problema da água no Chile é muito profundo. Ela é vista como mais um recurso a ser explorado", disse Estefania Gonzalez, coordenadora de campanhas do Greenpeace Chile.

Mais de 1 milhão de chilenos não têm acesso à água potável, enquanto algumas partes do Chile enfrentam secas mais frequentes e prolongadas devido à mudança climática. Apesar deste cenário, a água tem sido explorada em excesso por décadas. Indústrias extrativas sedentas, como a mineração de lítio e cobre, impulsionam a economia do país. Quase 80% da água doce é destinada à agricultura, especialmente para a produção de abacate, na qual cada fruta consome cerca de 70 litros de água.

A situação ficou tão ruim em Petorca, uma cidade da região chilena de Valparaíso cercada pela produção de abacate, que o governo declarou uma "emergência hídrica", permitindo a cada residente o uso de apenas 50 litros por dia.
Nova visão verde para o futuro

Atualmente, 155 delegados eleitos por representantes de toda a sociedade civil − majoritariamente independentes e de esquerda − estão reformulando a Constituição da era ditatorial do país. Uma nova carta magna foi a exigência central dos violentos protestos em todo o país contra a profunda desigualdade social que ocorreram em 2019.

É uma oportunidade rara para um país criar uma nova visão para o futuro, na qual o meio ambiente tenha prioridade máxima. Por exemplo, 81 dos membros da assembleia constituinte apoiaram uma campanha do Greenpeace para proteger os direitos da água e os ecossistemas no novo documento.
Violentos protestos no Chile em 2019Foto: Claudio Abarca Sandoval/NurPhoto/picture alliance

"Poremos um fim ao armazenamento de água, restringiremos a apropriação de terras e o estoque de água para acabar com a criação destas paisagens de vales secos", disse à DW Carolina Vilches Fuenzalida, membro da assembleia.

A ativista ambiental e outros delegados dizem que uma de suas prioridades é criar um estatuto para mudar a natureza legal da água, garantindo acesso seguro e saneamento para toda a população chilena. As propostas serão debatidas durante os próximos meses e cada projeto de lei precisará de uma maioria de dois terços para chegar ao documento final, antes de ir a um referendo público no final deste ano.

Durante a campanha eleitoral, o novo presidente do Chile, o esquerdistaGabriel Boric, prometeu impulsionar a mudança ambiental e apoiar a mudança constitucional

"O país inteiro está esperando por isso. Se ele não fizer nada [sobre as questões da água] estamos falando de enormes consequências sociais, com até uma nova onda de protestos", avalia Garcia-Chevesich, se referindo aomovimento de 2019.



Alguns dos recursos mais escassos no mundo

Embora pareçam intermináveis, reservas de elementos essenciais como água, carvão e areia estão ameaçadas. Uso excessivo, má distribuição e fatores climáticos tornam recursos naturais cada vez mais valiosos.Foto: AFP/S. Qayyum




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