segunda-feira, 4 de outubro de 2021

África e América do Sul: O futuro passa pela biodiversidade

 


Paulo Roberto Feldmann

Introdução

Os países sul-americanos - especialmente o Brasil - foram os primeiros a serem povoados por imigrantes africanos em todo o continente americano. A imigração africana para as Américas pode ter tido início no século XVI, mas mesmo antes de 1500 os negros já tinham navegado com Cristóvão Colombo em sua primeira viagem em 1492, e é provável que os primeiros exploradores espanhóis e portugueses também tiveram a companhia de negros africanos nascidos e criados na Península Ibérica. Nos 500 anos seguintes, milhões de imigrantes africanos foram trazidos para o Novo Mundo como escravos. Hoje seus descendentes são minorias étnicas expressivas em vários países da América do Sul. Ao longo dos séculos, a população negra contribuiu para a diversidade cultural de suas respectivas sociedades e, dessa forma, influenciaram profundamente todos os aspectos da vida na América do Sul. Mas há outros aspectos importantes que os dois continentes possuem em comum: juntos, África e América do Sul são responsáveis por 50% da biodiversidade global: aproximadamente 2 milhões de km2 da África são cobertos por florestas tropicais, enquanto a Amazônia, na América do Sul, abrange 6 milhões de km2.

Existe consenso geral de que a América do Sul e a África deveriam conservar melhor e administrar de forma sustentável sua biodiversidade, porém, a fim de alcançar esses objetivos, ambos os continentes devem encontrar maneiras de gerar receitas com a mesma. Vale lembrar que compostos à base de plantas desempenham um papel crucial na síntese de algumas das moléculas mais complexas produzidas pela indústria farmacêutica e, portanto, uma parte importante dos medicamentos atualmente disponíveis provém de produtos naturais como plantas, micro-organismos e animais, direta ou indiretamente.

Biodiversidade é o conjunto de todos os seres vivos existentes ou que já existiram no planeta. A biodiversidade, ou diversidade biológica, lida com todas as variedades de vida na terra (flora, fauna e micro-organismos), ou seja, todas as variações genéticas de populações e espécies, os diferentes impactos ecológicos desses organismos e a enormidade de comunidades, hábitats e ecossistemas formados pelos seres vivos. Estima-se que o número de espécies conhecidas, incluindo plantas, animais e micro-organismos, ultrapassa os cinco milhões, mas pelo menos 20% desse número entrarão em extinção nas próximas décadas.

A biodiversidade é de suma importância por ser responsável por todos os nossos alimentos e grande parte das roupas e dos medicamentos que utilizamos. A destruição da biodiversidade provoca, dentre outros efeitos adversos, o aquecimento global. Para efeitos deste artigo, daremos ênfase ao fato de que a biodiversidade representa uma enorme fonte de informações que podem ser utilizadas pela biotecnologia. Isso diz respeito às aplicações tecnológicas utilizadas por sistemas biológicos ou organismos vivos na fabricação ou alteração de produtos ou processos para fins específicos.

A biotecnologia é o ramo da ciência que pesquisa a transferência de genes de um organismo para outro a fim de dar ao último características do primeiro. Na verdade, ela é apenas o capítulo mais recente na longa história da produção de alimentos pelo homem. A agricultura organizada teve seus primórdios há cerca de dez mil anos quando os primeiros agrupamentos humanos começaram a se fixar em determinadas áreas e a cultivar lavouras de subsistência. Nesse momento, o homem iniciou seu aprendizado de seleção, reprodução e colheita de sementes, buscando sempre aumentar e melhorar a produção.

Riqueza que poderia ser gerada com a biodiversidade

Nas antigas civilizações egípcia e grega a fabricação de queijos, cervejas e vinhos já era uma forma primitiva de biotecnologia, baseada em processos de fermentação da uva macerada e cevada, além de outros produtos que eram submetidos à exposição de micro-organismos no ar. Podemos dizer que há séculos, desde que o homem aprendeu a domesticar as plantas e usá-las em benefício próprio, o melhoramento genético vem sendo feito com o objetivo de conseguir plantas mais resistentes e alimentos mais saudáveis. A diferença é que até meados do século XX apenas cruzavam-se espécies de melhor qualidade entre si, o que levava ao melhoramento, mas também levava à transferência das características indesejadas de uma planta para outra. A partir das últimas décadas do século XX com o avanço da biotecnologia e da engenharia genética passou a ser possível transferir para a planta apenas o gene desejado, e isso com muita segurança. Ou seja, agora se tornou possível obter plantas mais saudáveis e alimentos mais abundantes e nutritivos. A modificação genética é uma maneira de inserir genes que conferem às plantas resistência às pragas, fungos e vírus que seriam nocivos ou exigiriam a aplicação de agrotóxicos. Os organismos geneticamente modificados também podem ser resistentes aos pesticidas, o que quer dizer que as ervas daninhas poderão ser facilmente exterminadas. Tudo isso deve elevar muito a produtividade da agricultura e, espera-se, reduzir os preços. No futuro a biotecnologia poderá agregar valor nutricional às safras. Sem dúvida, no século XX foi a química que permitiu os maiores avanços havidos na agricultura e na produção de alimentos. Mas, provavelmente, a química já deu à agricultura tudo o que podia com os fertilizantes, os fungicidas, os inseticidas e os herbicidas. Hoje ela custa muito caro em termos de energia e acabou poluindo o solo e as águas. A química agora está sendo substituída pela biotecnologia como o grande fator de avanço na agricultura.

As tentativas de curar as principais doenças que assolam a humanidade datam dos primórdios da civilização, e são facilmente confirmadas quando examinamos registros e dados das primeiras civilizações, entre elas a egípcia, a hebraica, a chinesa e a grega.

No início do século XIX, a morfina pura era extraída das folhas da papoula (Papaver Somniferum). No final desse mesmo século a invenção da aspirina, ou ácido acetilsalicílico, foi resultado direto do conhecimento prévio de que a casca de salgueiro era bastante eficaz para aliviar febre e dores físicas. A descoberta e o isolamento da substância ativa, o ácido salicílico, possibilitaram a fabricação da aspirina.

Um exemplo interessante de informação captada na Floresta Amazônica refere-se ao medicamento conhecido como Captopril, que é indicado para o tratamento de hipertensão e foi patenteado nos Estados Unidos pela Bristol-Myers Squibb. O ingrediente ativo desse medicamento foi descoberto durante estudos sobre o veneno extraído da jararaca, um tipo grande e feroz de cobra brasileira que habita a Floresta Amazônica.

E por que fala-se tanto que a América Latina e a África poderão ter sua grande chance de desenvolvimento por meio da biotecnologia? A resposta se deve ao fato de que a matéria-prima básica da biotecnologia são os genes e o conhecimento que se tem a respeito desses. E por sua vez esses se encontram abrigados, mais do que em qualquer outra parte do planeta, dentro das Florestas Amazônica e Subsaariana. Isso significa que essas florestas têm uma vantagem competitiva inigualável que é a riqueza da suas respectivas biodiversidades.

A indústria farmacêutica é relativamente recente tendo surgido nos Estados Unidos e em alguns países europeus, especialmente a Suíça na metade do século XX. A partir de então, o setor farmacêutico começou a utilizar química sintética para tratar doenças.

Essa época também coincide com o início da interação entre indústrias farmacêuticas e universidades de vários países, que consolidaram as várias etapas necessárias para a descoberta e o desenvolvimento de novos medicamentos.

Assim, as grandes empresas farmacêuticas imediatamente concluíram que precisariam construir grandes laboratórios de pesquisa, empregando milhares de pesquisadores ao redor do mundo.

Hoje, a indústria farmacêutica é o setor que mais investe em pesquisa e desenvolvimento no mundo, e esse valor chega a representar 20% de suas vendas, enquanto a indústria eletrônica e a indústria automobilística investem 6% e 5%, respectivamente.

De acordo com Calixto e Siqueira (2008), um terço dos remédios mais vendidos no mundo foi desenvolvido a partir de produtos naturais. No caso daqueles ligados ao tratamento de câncer e antibióticos, essa porcentagem sobe para 70%.

O fato é que a terapia moderna com esses medicamentos não seria possível sem a contribuição de produtos naturais, principalmente as plantas.

A próxima onda tecnológica será a onda da biotecnologia

Joseph Schumpeter foi um dos economistas mais importantes de todos os tempos e a sua grande contribuição para a Teoria Econômica foi a de relacionar o papel do empreendedorismo e da inovação com o desenvolvimento econômico. Foi um grande defensor da teoria dos ciclos tecnológicos a qual foi concebida inicialmente pelo economista russo Nicolai Kondratiev em 1925. A teoria dos ciclos tecnológicas diz que o crescimento econômico ocorre em ondas, onde cada uma delas tem uma duração aproximada entre 55 e 65 anos. Cada uma dessas ondas está associada a alguma importante mudança tecnológica. Já aconteceram quatro ondas e estamos agora na metade da quinta onda a qual é denominada onda da tecnologia de informação. Kondratiev e Schumpeter diziam que a mudança tecnológica que caracteriza cada onda tem um impacto enorme sobre toda a economia e a sociedade no período da sua vigência. Ao longo dos seus sessenta anos de duração aproximada, cada onda apresenta várias fases que começam com muita euforia e terminam com decadência. Assim sendo, inicialmente a nova onda provoca um grande crescimento econômico e enormes mudanças na sociedade, incluindo quebra de paradigmas e mudanças culturais. A economia mundial passa a depender de forma crescente da nova onda. No entanto, ao final do período a demanda começa a cair, além de haver uma saturação em razão do grande número de empresas que entraram no negócio na fase inicial de sucesso e que acabam competindo fortemente entre si. Nesse momento os investimentos também diminuem, as empresas se concentram em racionalização e o desemprego aumenta. É quando começa a surgir a próxima onda com base no surgimento de alguma nova tecnologia revolucionária. Esse comportamento foi registrado nos últimos 250 anos quando tivemos cinco ondas incluindo a atual, a da tecnologia da informação; as anteriores foram a onda da mecanização, seguida pela onda da força a vapor que terminou em meados do século XIX quando surgiu a onda da eletricidade sucedida no século XX pela onda do automóvel e da produção em massa. A onda atual iniciou-se em meados do século XX e já se encontra em sua etapa final. Para muitos autores a segunda metade do século XXI será dominada pela sexta onda que será a onda da biotecnologia onde predominarão as áreas de medicina, genética, farmacêutica e outras relacionadas.

Dicken (2015), ao analisar os ciclos de Kondratiev, ressalta que em cada uma das fases uma dada mudança tecnológica predominou e permitiu que algumas nações crescessem bem mais que outras. Concluindo assim que só esse fator já seria suficiente para que a questão geográfica fosse mais bem compreendida no sentido de se tentar entender como surgem as inovações tecnológicas. Dicken enfatiza a questão do porquê as inovações tecnológicas serem muito frequentes em algumas regiões e escasseiam ou não existem em outros espaços geográficos. Segundo ele existe uma relação direta entre condições geográficas e surgimento de inovações tecnológicas. Nessa linha, a nossa visão é de que justamente na próxima onda, a onda da biotecnologia ou das ciências da vida, tanto a América do Sul como a África terão finalmente a sua grande oportunidade de se desenvolver graças ao conhecimento embutido na enorme biodiversidade que sediam.

Importância da biodiversidade para o desenvolvimento das duas regiões

Setecentos e cinquenta milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia em áreas rurais e frequentemente dependem de uma ampla variedade de recursos naturais e serviços ecossistêmicos para seu bem-estar. Portanto, elas se tornam mais vulneráveis quando a diversidade é degradada ou destruída. Grande parte da população pobre do mundo vive na América do Sul e na África.

Em razão da Amazônia, a América do Sul é a região do planeta que contém o maior número de espécies conhecidas no planeta. Nesse aspecto, o Brasil é o país mais importante do continente. A África ocupa a segunda posição em termos de biodiversidade.

Ela abriga uma biodiversidade incrivelmente diversa e rica, que fornece serviços ecossistêmicos essenciais, com potencial para impulsionar a economia do continente. Seus organismos vivos constituem-se aproximadamente num quarto da diversidade global e incluem o maior conjunto intacto de grandes mamíferos da terra, que vivem livremente em muitos de seus países. Porém, estima-se que até 2100 a mudança climática poderá provocar a extinção de mais da metade das espécies de pássaros e mamíferos da África e uma grande parcela das espécies de plantas.

A abundante biodiversidade da Amazônia confere a ela uma vantagem competitiva imbatível. A variedade de espécies de animais e plantas que existem no ecossistema da Amazônia representa o maior arquivo biológico conhecido de genes, moléculas e micro-organismos. Isso significa que a biodiversidade da Amazônia é a chave para o desenvolvimento de diversos produtos, como medicamentos, alimentos, fertilizantes, pesticidas, plásticos, solventes, cosméticos, tecidos e fermentos. A Floresta Amazônica abrange nove países - Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela - e possui aproximadamente 26% do material genético do planeta, ou seja, 26% de todas as sequências de DNA combinadas na natureza.

De um ponto de vista ético, a indústria farmacêutica vem sendo criticada por obter sua matéria-prima mediante pesquisas das regiões mais pobres do mundo - embora seus medicamentos sejam utilizados predominantemente nos países mais desenvolvidos - e por quase nada ser feito para combater as doenças tropicais.

Isso é motivo suficiente para a América do Sul e a África prestarem mais atenção na biotecnologia, apesar de os objetivos dos países mais avançados em relação aos resultados dos estudos de biotecnologia divergirem bastante dos objetivos e das necessidades dos países dos continentes pobres. Muitos autores, como Silveira et al. (2005), consideram que as aplicações no setor agrícola seriam importantíssimas para reduzir os custos na indústria alimentícia, aumentar a produção ou desenvolver o setor rural. Nos países mais desenvolvidos, esses aspectos raramente são prioridade. Suas prioridades são a produção de medicamentos para atender demandas específicas, como aquelas relacionadas ao câncer ou à produção de insulina humana. Em outras palavras, podemos dizer que os países mais desenvolvidos priorizam o aspecto farmacêutico e de assistência médica da biotecnologia. Mesmo assim, eles não possuem referência sobre as questões que afligem a América do Sul e a África. Nesses continentes, em termos de assistência médica, a biotecnologia pode ser vital para diagnósticos, vacinas e prevenção contra doenças transmissíveis nos trópicos, que geralmente afetam as classes mais baixas de suas populações.

Muitos cientistas concordam com a tese de Lovejoy (2006) de que a África e a América do Sul, tendo controle de quase metade da biodiversidade mundial, deveriam investir para aproveitar essa herança natural em prol da economia de seus países.

Descobertas e pesquisas biomédicas, bem como o desenvolvimento de medicamentos frequentemente buscam utilizar materiais naturais em produtos e aplicações. Bioprospecção é o nome desse processo bastante utilizado pelas empresas farmacêuticas. Portanto, muitos medicamentos em potencial provêm do ambiente biodiverso e do conhecimento de nativos de países em desenvolvimento. É exatamente isso que acontece em ambas as regiões, onde nenhum país - nem na América do Sul nem na África -, em razão dos elevados custos de parques tecnológicos, consegue competir no mercado de medicamentos sintéticos. Não há nenhum país sul-americano ou africano atuante na indústria farmacêutica e, se observarmos os nomes das 50 maiores empresas do mundo nesse setor, não encontraremos nenhuma dessas regiões. Isso se deve porque o desenvolvimento de um medicamento sintético demanda investimentos muito altos em pesquisa e desenvolvimento, algo que acaba não sendo viável para os laboratórios farmacêuticos africanos e sul-americanos. Estima-se que entre 40% e 50% dos medicamentos disponíveis no mundo foram desenvolvidos a partir de produtos naturais provenientes de pesquisas realizadas na natureza. É nesse ponto que a biodiversidade da América do Sul e da África poderia reduzir as respectivas despesas de seus países com saúde. É essencial para esses continentes estabelecer políticas que as favoreçam em casos em que os principais ingredientes ativos dos medicamentos são derivados de plantas, micro-organismos ou mesmo animais que fazem parte de seu hábitat.

A biopirataria prejudica tanto a América do Sul quanto a África

A bioprospecção vem sendo amplamente utilizada pelos laboratórios farmacêuticos na obtenção dos ingredientes ativos necessários para produzirem seus medicamentos. No entanto, a bioprospecção quase nunca resulta em benefício para as comunidades em que as plantas são descobertas ou o conhecimento necessário para a produção dos ingredientes ativos é obtido. Isso é a biopirataria.

De forma simplificada, entende-se por biopirataria a utilização de recursos naturais e conhecimento tradicional sem autorização governamental prévia para tanto. O tráfico de animais, a extração de ingredientes ativos de plantas e a utilização do conhecimento de povos indígenas sem autorização prévia são exemplos de biopirataria.

Em razão de sua grande biodiversidade, a África e a América do Sul normalmente são vítimas da biopirataria. Essa prática também aumentou com o avanço da biotecnologia, pois o transporte de recursos genéticos, por exemplo, é mais fácil e rápido que o transporte de animais ou plantas.

Becker (2006) descreve a biopirataria como pesquisadores disfarçados de turistas ou estudantes que vão para a África ou a América do Sul a fim de coletar elementos de sua biodiversidade. Às vezes eles se passam por representantes de Organizações Não Governamentais (ONG) ou por missionários religiosos. Também existem os contrabandistas que chegam à região com um único objetivo: roubar recursos naturais para a produção de novos produtos, que podem ser medicamentos - os mais comuns -, alimentos, maquiagens ou produtos agrícolas.

Em resumo, biopirataria é o roubo de materiais biológicos, tais como genes, sementes e plantas. Algumas importantes multinacionais farmacêuticas obtêm lucros enormes com a biodiversidade da África e da América do Sul, mas não partilham esses lucros com as comunidades que descobrem e transmitem o conhecimento.

O impacto do protocolo de Nagoya em ambas as regiões

Após um intenso debate que durou quase duas décadas, a ECO 92, Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente realizada em 1992 no Rio de Janeiro, lançou a Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD). A CBD é uma convenção internacional que visa conservar a biodiversidade e promover seu uso sustentável, bem como repartir de forma justa e igualitária seus benefícios. Foi acordado durante essa convenção que os países são soberanos sobre os recursos genéticos encontrados em seus territórios, e estabeleceu-se o direito aos benefícios pelo uso de sua biodiversidade.

Cento e noventa e quatro países assinaram a convenção. A fim de implementar diretrizes e estabelecer regras e sanções operacionais, foi criado e aprovado durante uma conferência da CBD em 2010, no Japão, um Protocolo sobre Acesso a Recursos Genéticos e Repartição de Benefícios, conhecido como Protocolo de Nagoya.

De acordo com a CBD, o “Protocolo de Nagoya sobre Acesso a Recursos Genéticos e Repartição Justa e Equitativa dos Benefícios Derivados de sua Utilização para a Convenção sobre Diversidade Biológica” é um acordo internacional que visa repartir os benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos de forma justa e igualitária. Ele foi celebrado em 12 de outubro de 2014, noventa dias após a data de depósito do quinquagésimo instrumento de ratificação.

O Protocolo de Nagoya gerou maior segurança jurídica e transparência para fornecedores e aqueles que utilizam recursos genéticos:

  • Estabelecendo condições mais previsíveis de acesso aos recursos genéticos.

  • Ajudando a garantir a repartição de benefícios quando os recursos genéticos deixarem seu país fornecedor.

Ao ajudar a garantir a repartição de benefícios, o Protocolo de Nagoya cria incentivos para a conservação e a utilização sustentável dos recursos genéticos, melhorando assim a contribuição da biodiversidade para o desenvolvimento e o bem estar da humanidade.

O principal objetivo do Protocolo de Nagoya foi criar um sistema internacional de repartição de benefícios entre os países signatários. Dessa forma, os benefícios gerados em qualquer nação deveriam ser encaminhados ao país de origem dos recursos genéticos naturais. Antes do Protocolo de Nagoya, os países de origem desses recursos não dispunham de mecanismos para obter os benefícios derivados do produto final comercializado em outro país. Como resultado do Protocolo de Nagoya, é possível estarmos testemunhando o surgimento de uma nova era, onde países pobres finalmente podem obter vantagens com sua biodiversidade.

Obtenção de vantagem competitiva por países pobres, porém ricos em biodiversidade

Conforme mencionado por Sofia Faruqui (2007) em seu artigo na SSIR - Stanford Social Innovation Review, “mais empresas precisam compreender os efeitos positivos da biodiversidade sobre seus resultados líquidos - e mais governos precisam aprovar leis que protejam a biodiversidade…”. Faruqui também mencionou que o turismo, de forma geral, é a segunda fonte de renda dos países da América do Sul e da África devido às grandes áreas relacionadas à biodiversidade e ao ecoturismo, que geraram US$ 77 bilhões para ambas as regiões em 2016. Entretanto, esse valor é muito baixo quando comparado aos lucros obtidos por vários outros setores que utilizam o conhecimento da biodiversidade. A indústria farmacêutica, por exemplo, teve uma renda global de US$ 1,3 trilhão em 2017. É muito difícil estimar quanto desse volume deriva do conhecimento da biodiversidade, mas o valor com certeza é bastante significativo. O mesmo ocorre com os fabricantes de pesticidas, cujos ganhos somaram mundialmente US$ 52 bilhões no mesmo ano.

No início do século XXI, o surgimento de novas tecnologias químicas combinatórias e de triagem molecular de alta velocidade nas indústrias farmacêuticas indicou o fim da biodiversidade como uma importante fonte de conhecimento. Entretanto, após utilizar essas novas tecnologias por aproximadamente quinze anos, laboratórios e setores farmacêuticos concluíram que a biodiversidade continua sendo vital. Eles entenderam que a aplicação do conhecimento de produtos naturais junto com as tecnologias químicas combinatórias é o caminho para a descoberta de novos medicamentos. Os produtos naturais estão sendo utilizados como modelos para a química combinatória em razão de sua estrutura especial. Como resultado disso, hoje é possível criar grande número de moléculas análogas que permitiriam descobrir de forma mais rápida o princípio ativo de medicamentos. Essa é uma ótima notícia para os países ricos em biodiversidade, principalmente após a assinatura do Protocolo de Nagoya.

Porém, os países sul-americanos e africanos ainda têm muitos desafios pela frente antes de começarem a lucrar com sua biodiversidade. Antes de tudo, é necessário que esses dois continentes juntem forças para que possam trocar experiências e, especialmente, definir mecanismos consoantes com o Protocolo de Nagoya a fim de obter lucros reais. Para tanto, existem alguns dados operacionais e práticos que devem ser estabelecidos:

  • Quanto cobrar das empresas farmacêuticas nos países produtores e de que forma tal cobrança deve ser realizada.

  • Qual metodologia ou processo deve ser utilizado para que as grandes empresas farmacêuticas e de pesticidas transmitam sua tecnologia para as empresas africanas e sul-americanas desses mesmos setores. Isso terá oposição das empresas farmacêuticas no início, mas esse é um dos aspectos mais importantes a serem negociados.

  • Implementação de um processo de intercâmbio entre universidades importantes na área de biotecnologia de países em desenvolvimento e universidades da África e da América do Sul a fim de treinar professores para essas regiões.

  • Desenvolvimento de recursos humanos e criação de infraestrutura na África e na América do Sul para tornar essas regiões competidoras importantes na produção de medicamentos, pesticidas, cosméticos, alimentos e outros produtos agrícolas. A cooperação entre os países dessas regiões é um fator fundamental para atingir esse objetivo.

  • Criação de um fórum para discutir e definir mecanismos de troca de informações entre os dois continentes para que haja um desempenho coletivo na defesa, proteção e preservação da biodiversidade e, principalmente, na obtenção de resultados econômicos dela derivados.

  • Incentivo à criação de pequenas empresas voltadas à exploração da biodiversidade para encontrar novos conhecimentos a partir de plantas, micro-organismos e animais e que poderiam ser vendidos para empresas farmacêuticas.

  • O financiamento de todas essas atividades e processos é um grande desafio para os países dessas duas regiões e será necessário o envolvimento das mais importantes instituições internacionais, como o Banco Mundial, a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e outras.

Considerações finais

A América do Sul e a África enfrentam alguns problemas em comum: Ambos continentes têm uma competitividade muito baixa e precisam combater e reduzir a pobreza e a fome. Várias estratégias diferentes foram utilizadas para resolver esses problemas, mas em nenhuma delas foi considerado utilizar como vantagem competitiva uma importante fonte de riqueza disponível em ambas regiões: a biodiversidade.

Tentamos demonstrar que, sem o conhecimento da biodiversidade, não é possível o desenvolvimento de medicamentos, pesticidas, cosméticos e muitos outros produtos. Mesmo com os avanços das tecnologias químicas combinatórias e de triagem molecular de alta velocidade, a biodiversidade continua sendo uma fonte vital de informações. Não é justo que as nações que abrigam tal biodiversidade não possam se beneficiar disso. Essa riqueza deve ser transformada em negócios que garantirão o desenvolvimento econômico e social desses países.

É interessante notar que um dos maiores erros cometidos no passado pelos países africanos e sul-americanos foi ter como base de seu desenvolvimento os vastos recursos naturais de suas regiões. No entanto, por mais contraditório que pareça, é no começo do século XXI que uma enorme janela de oportunidades se abre para boa parte dos países da África e da América do Sul, exatamente por causa de seus recursos naturais. Boa parte do conhecimento que será importante para aprimorar esses novos temas está presente no conhecimento que podemos extrair da flora e da fauna dos dois continentes. A África e a América do Sul nunca foram atores importantes no cenário econômico internacional, mas essas duas regiões jamais tiveram uma oportunidade como essa.

Em suma, esperamos ter demonstrado a existência de muitas possibilidades de medidas e de políticas públicas que deveriam ser consideradas por especialistas de ambas as regiões para que se promova negócios e comércio que poderiam derivar da biodiversidade. Além disso África e América do Sul deveriam trabalhar conjuntamente incentivando discussões e estabelecendo medidas, o que também contribuirá para a criação de oportunidades comerciais a partir de suas respectivas biodiversidades. As indústrias de pesticidas, cosméticos, farmacêutica e alimentícia que quase sempre estão concentradas nos países mais desenvolvidos tiveram grandes benefícios com o conhecimento decorrente da biodiversidade, mas isso não ocorre nas regiões que possuem essa biodiversidade, que em sua maioria são de países pobres. Algumas importantes multinacionais farmacêuticas obtêm lucros enormes com a biodiversidade da África e da América do Sul, mas não partilham esses lucros com as comunidades que detêm, descobrem e transmitem o conhecimento. Em outras palavras, podemos dizer que os países mais desenvolvidos priorizam o aspecto farmacêutico e de assistência médica da biotecnologia. Mesmo assim, eles não possuem referência sobre as questões que afligem a América do Sul e a África. Nas ondas tecnológicas anteriores esses dois continentes não conseguiram um papel de protagonistas, mas dessa vez eles possuem a riqueza da biodiversidade que certamente será um fator fundamental para que ambos passem a ter um papel mais ativo e com isso poderão resolver seus graves problemas de estagnação e pobreza.

Referências

  • ALENCAR, A. F. de. A proteção dos conhecimentos tradicionais associados ao patrimônio genético da Amazônia Brasileira. Manaus: Plataforma Pública Direito. 2010.
  • ANDERSON-SPRECHER, A.; JIE, M. China considering major revisions on Biotechnology Regulations. Global Agricultural Information Network, 2015. GAIN report 14032 de 31/12/2014.
  • BECKER, B. K. Da preservação à utilização consciente da biodiversidade Amazônica. Petrópolis: Vozes, 2006.
  • CALIXTO, J. B.; SIQUEIRA, J. M. Desenvolvimento de medicamentos no Brasil: Desafios (The drug development in Brazil: Challenges). Gazeta Médica da Bahia, v.78, p.98-106, 2008.
  • CARRER, H.; BARBOSA, A. L.; RAMIRO, D. A. Biotecnologia na Agricultura. Revista de Estudos Avançados, v.24, n.70, 2010.
  • CDB - CONVENTION ON BIOLOGICAL DIVERSITY. Nagoya Protocol on Access to Genetic Resources and Fair and Equitable Sharing of Benefits Arising from their utilization on the Convention on Biological Diversity. Montreal, Canada. United Nations: Secretariat of Convention on Biological Diversity. 2011.
  • DICKEN, P. Global Shift: Mapping the changing contours of the world economy. 7 ed. London: Guilford Publications. 2015
  • FALEIRO, F. G. et al. Biotecnologia: estado da arte e aplicações na agropecuária. Brasília: Embrapa, 2011.
  • FAO - Food and Agriculture Organization of the United Nations. The state of food security and nutrition in the world. Roma: FAO, 2017.
  • FARUQI, S. The business of Biodiversity. SSIR - Stanford Social Innovation Review, v.15, n.1, 2017.
  • FELDMANN, M. G.; SILVA, M. N. C. Currículo Relacional na Amazônia. Revista e-Curriculum, v.16, n.4, 2018.
  • FELDMANN, P. R. Management in Latin America: Threats and Opportunities in the Globalized World. New York: Springer, 2014.
  • KONDRATIEV, N. The long wave in economic life. Review of Economic Statistics, v.17, p.105- 15, 1925.
  • LOVEJOY, T. E. Climate Change and biodiversity. The energy and resources institute. Michigan: Yale University Press, 2006.
  • PACANARO, R. F. Biopirataria: falta de legislação específica. Piracicaba, 2010. Dissertação (Mestrado) - Unive4rsidade Metodista de Piracicaba.
  • PIMENTEL, V. et al. Biodiversidade brasileira como fonte da inovação farmacêutica: uma nova esperança? Revista do BNDES, n.43, p.41-9, jun. 2015.
  • RABITZ, F. Biopiracy after the Nagoya Protocol: Problem Structure, Regime Design and Implementation Challenges. Revista da Associação Brasileira de Ciência Política, v.19, n.2, p.30-53, 2015.
  • RIFKIN, J. O século da biotecnologia. São Paulo: Makron Books, 1999.
  • SCHUMPETER, J. Capitalism, socialism and democracy. London: Allen& Unwin, 1943.
  • SILVEIRA, J. M. F. J. et al. Biotecnologia e agricultura: da ciência e tecnologia aos impactos da inovação. São Paulo em Perspectiva, v.19, n.2, 2005.
  • WILSON, E. O. The creation: an appeal to save life on earth. New York: W.W. Norton, 2006.
  • Revista Estudos Avançados - USP

domingo, 26 de setembro de 2021

Imagens de sobrevoo mostram que sul do AM é nova fronteira do desmatamento

Expedição conduzida pela Aliança Amazônia em Chamas entre 13 e 17 de setembro reforça indícios do avanço de queimadas e da pecuária no bioma3 min de leitura

Vista aérea de um desmatamento na Amazônia para expansão pecuária, em Lábrea, no sul Amazonas. (Foto: © Victor Moriyama / Amazônia em Chamas)


Caminhões carregados de toras de árvores gigantescas e rebanhos de gado pastando em áreas recém-queimadas estão entre as imagens flagradas por sobrevoos realizados entre 13 e 17 de setembro no sul do Amazonas. Divulgados nesta quinta-feira (23) pela Aliança Amazônia em Chamas, os registros reforçam os indícios de que a região, integrante do maior e mais conservado estado em meio à floresta, é a nova fronteira do desmatamento.


A rota dos ambientalistas partiu de Porto Velho, em Rondônia, e seguiu até Lábrea, no sul do Amazonas, passando por áreas como a Terra Indigena Jacareúba (AM) e o Parque Nacional Mapinguari (AM e RO). Foram observadas extensas áreas desmatadas, com polígonos medindo de 1.550 a 2450 hectares. O valor equivale a cerca de 2 mil a 3 mil campos de futebol.

“Essa região tem se destacado pelo avanço veloz do desmatamento, que adentra cada vez mais em territórios bem conservados e vitais para mitigar a crise climática e evitar o colapso da biodiversidade no planeta”, avalia Cristiane Mazzetti, gestora ambiental do Greenpeace, organização que compõe a aliança ao lado de Amazon Watch e Observatório do Clima, em comunicado enviado à imprensa.

Árvore ainda em chamas em área recém queimada, em Porto Velho, Rondônia. (Foto: Victor Moriyama / Amazônia em Chamas)

Focos ativos de calor, pistas de pouso clandestinas e sinais de garimpo em áreas protegidas também foram mapeados pelo grupo. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) referentes ao período da expedição mostram que, entre 1º de janeiro a 18 de setembro de 2021, o município de Porto Velho apresentou 2.700 focos de queimada e o de Lábrea, 2.946. Esse último é, até o momento, o que mais apresentou focos de incêndio na Amazônia em 2021.

Soja, gado e especulações de terra pública

Em Candeias do Jamari, segundo município mais desmatado em Rondônia, também foram encontradas serrarias e muitos caminhões cheios de toras de árvores. A abundância de bois pastando em áreas recém-desmatadas na região preocupa os especialistas. Ali, já há registros de invasão até em Unidades de Conservação (UCs): a Flona Jacundá e a Estação Ecológica de Samuel.Essa situação é atribuída pela equipe à aprovação pelo governador Marcos Rocha de um projeto de lei que reduziu em 80% os limites da reserva extrativista Jaci-Paraná, o que pode ter impulsionado a exploração de outras UCs."Vimos lado a lado todas as etapas do processo de desmatamento: a extração da madeira mais valiosa, o desmatamento e posterior queima da vegetação que fica secando ao sol para o plantio de pasto e o gado ocupando áreas que até pouco tempo eram cobertas pela floresta. É uma incongruência derrubar e queimar a floresta com a maior biodiversidade do mundo, para dar lugar a duas espécies: o gado e a grama”, avalia Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.
Gado em pastagem, ao lado de área desmatada e recém queimada, em Candeias do Jamari, Rondônia. (Foto: Victor Moriyama / Amazônia em Chamas) A equipe avistou ainda grandes áreas preparadas para o cultivo de grãos no norte de Rondônia. A atividade avança cada vez mais na região e, segundo os pesquisadores, já adentrou o sul do Amazonas, com plantio de soja em Humaitá.Além disso, territórios devastados em anos anteriores que se encontram abandonados no presente, sem nenhuma atividade agropecuária, são vistos pelos especialistas como indícios de um outro problema na região. “Estão usando o desmatamento para especular com terra pública”, avalia Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).saiba maisPovos indígenas são essenciais para conservação e bioeconomia da floresta95% das espécies da Amazônia já foram afetadas por queimadas, diz estudo Os dados obtidos pela expedição vão na contramão do que apregoou o presidente Jair Bolsonaro na última terça-feira (21), em discurso na ONU: a Amazônia continua, sim, a queimar — e muito. “Desmatamento, queimadas, grilagem e garimpo acontecem na ilegalidade, não geram desenvolvimento para a região nem distribuem riqueza para os povos da floresta. Estamos literalmente queimando o futuro a troco de nada”, diz Stela Herschmann, especialista em política climática do Observatório do Clima.
Revista Galileu

Poluição do ar mata 7 milhões de pessoas por ano, estima OMS


Órgão atualiza diretrizes para a qualidade do ar pela primeira vez desde 2005 e alerta que os impactos da poluição se tornaram tão graves quanto tabagismo e dietas não-saudáveis3 min de leitura

Poluição do ar mata 7 milhões de pessoas por ano, estima OMS (Foto: Photoholgic/Unsplash)


A poluição atmosférica já é responsável por 7 milhões de mortes prematuras por ano em todo o mundo, sendo mais de 300 mil na região das Américas, segundo estimativa divulgada nesta quarta-feira (22) pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que atualizou suas diretrizes para a qualidade do ar pela primeira vez desde 2005.

De lá para cá, um corpo robusto de evidências científicas compiladas pelo órgão indicam que os impactos da poluição do ar sobre a saúde humana se tornaram tão graves quanto aqueles associados a problemas como tabagismo e dietas não-saudáveis. Por esse motivo, as novas recomendações do órgão sugerem limites mais restritivos para a emissão desses inimigos invisíveis — os chamados “poluentes clássicos”.

Formado pelos principais poluentes atmosféricos, esse grupo inclui as partículas transportadas pelo ar (PM), o ozônio (O₃), o dióxido de nitrogênio (NO₂), o dióxido de enxofre (SO₂) e o monóxido de carbono (CO). Com base em seis revisões sistemáticas que consideraram mais de 500 artigos, todos os limiares de referência que se referem a emissão dessas substâncias foram ajustados para baixo pelas novas Diretrizes Globais de Qualidade do Ar (AQGs).

A exposição a longo prazo a esses poluentes impacta diferentes aspectos da saúde. Entre as crianças, por exemplo, a exposição excessiva a esses poluentes pode afetar o desenvolvimento dos pulmões, causar infecções respiratórias e agravar a asma. A doença cardíaca isquêmica e o derrame cerebral, por sua vez, são as causas mais frequentes de mortes prematuras atribuídas à poluição atmosférica entre os adultos. E mais: de acordo com a OMS, também estão surgindo evidências de que os poluentes podem estar na origem de casos de doenças neurodegenerativas e diabetes.


O órgão internacional chama atenção particularmente para os riscos associados aos materiais particulados (PM), gerados principalmente pela combustão de combustíveis fósseis em diferentes setores, como transporte, energia, indústria e agricultura. Minúscula o suficiente para atravessar os pulmões, uma dessas partículas, a chamada PM 2.5, que é menor do que 2,5 mícrons de diâmetros (20 vezes menor do que um único grão de areia), pode até adentrar a corrente sanguínea, causando danos cardiovasculares e respiratórios. Em 2019, mais de 90% da população global vivia em áreas onde as concentrações desse material particulado excediam a diretriz de qualidade do ar da OMS de 2005.SAIBA MAIS


Gráfico compara as Diretrizes Globais de Qualidade do Ar (AQGs) da OMS para os "chamados poluentes clássicos" em 2005 e os atuais (Foto: OMS)

“O ar puro deve ser um direito humano fundamental e uma condição necessária para sociedades saudáveis ​​e produtivas”, defende Hans Henri P. Kluge, diretor regional da agência para a Europa. “No entanto, apesar de algumas melhorias na qualidade do ar nas últimas três décadas, milhões de pessoas continuam a morrer prematuramente, frequentemente afetando as populações mais vulneráveis ​​e marginalizadas”, avalia o médico, em comunicado.

Embora a poluição atmosférica seja uma ameaça à saúde em todos os países, a entidade reforça que as nações de média e baixa renda são atingidas com mais força. Para o órgão, isso é uma consequência direta do avanço do crescimento das cidades e do desenvolvimento econômico baseado na combustão de combustíveis fósseis.

De acordo com a agência, das 7 milhões de mortes anualmente causadas pela poluição atmosférica, mais de 2 milhões estão concentradas no sudeste da Ásia. A região é seguida pelo Pacífico Ocidental (mais de 2 milhões), a África (1 milhão), o Mediterrâneo Oriental (500 mil), a Europa (500 mil) e as Américas (mais de 300 mil).

Melhorar a qualidade do ar traz benefícios não só à saúde das populações, mas também ao combate global às mudanças climáticas, e vice-versa. Segundo a OMS, a poluição e as alterações no clima impulsionadas pelas atividades humanas representam, juntas, as maiores ameaças ambientais à saúde humana.

Se os países adotarem as novas diretrizes, o órgão estima que as mortes relacionadas às partículas PM 2.5, por exemplo, seriam reduzidas em quase 80%. “As novas Diretrizes de Qualidade do Ar da OMS são uma ferramenta prática e baseada em evidências para melhorar a qualidade do ar do qual toda a vida depende", avalia Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. "Exorto todos os países e todos aqueles que lutam para proteger nosso meio ambiente a colocá-los em uso para reduzir o sofrimento e salvar vidas”, disse.
Revista Galileu

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Cientistas criam mapa de risco de erosão do solo no Brasil

Recurso pode contribuir para o planejamento relativo a áreas com potencial produtivo
Rodrigo de Oliveira Andrade



O mapeamento da suscetibilidade à erosão hídrica é um dos recursos da plataforma
Reprodução

Pesquisadores da Embrapa Solos, no Rio de Janeiro, produziram mapas detalhados das áreas mais suscetíveis e vulneráveis à erosão hídrica no Brasil. Eles estão disponíveis na plataforma tecnológica do Programa Nacional de Levantamento e Interpretação de Solos no Brasil (PronaSolos). A ideia é que sirvam como subsídio em ações de conservação ou recuperação de áreas com potencial produtivo.

Um dos mapas oferece dados sobre a sensibilidade dos solos à erosão hídrica com base em informações sobre o relevo da paisagem e das condições climáticas às quais estão submetidos. Outro mostra o grau de vulnerabilidade dos solos brasileiros à erosão tendo em vista o nível de exposição às intempéries em razão de sua cobertura vegetal natural ou do uso agropecuário a que estão sujeitos. Os pesquisadores produziram ainda um terceiro mapa sobre a capacidade dos solos de resistirem à erosão de acordo com suas características intrínsecas.

A erosão é hoje um problema em todo o mundo, com impactos na produção de alimentos, disponibilidade de terras para a agricultura e qualidade da água.
Revista FAPESP

Sistema contra a fome

Tecnologia social desenvolvida pela Embrapa e UFU visa dar opção de alimentação para as comunidades rurais e periféricas
O tanque para criação de peixes é o coração do sistema. Os resíduos ricos em nutrientes produzidos pela piscicultura são reaproveitados pelos demais módulos de produção animal e vegetal

Embrapa
Frances Jones

Um tanque para a criação de peixes está no centro de um premiado sistema de produção de alimentos que vem sendo adotado por milhares de famílias, principalmente da região Nordeste, para evitar a fome. Proposta pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a tecnologia utiliza a água e os subprodutos de um modelo de piscicultura intensiva em pequenos espaços para organizar módulos que garantam a segurança alimentar em comunidades rurais – e até mesmo em áreas urbanas.

“O Sisteminha é, antes de tudo, uma ferramenta de combate à fome”, declara o zootecnista Luiz Carlos Guilherme, pesquisador da Embrapa Meio-Norte, no Piauí, referindo-se ao Sistema Integrado de Produção de Alimentos, lançado em 2012. “O objetivo principal é tirar as famílias da linha da pobreza, permitindo que tenham um aumento de até 300% na diversidade de alimentos para consumo próprio”, afirma (ver reportagem sobre segurança alimentar). “O excedente e a sua comercialização podem vir como consequência.”



Entrevista: Luiz Carlos Guilherme
Responsável pelo desenvolvimento do modelo, Luiz Guilherme calcula que 4,5 mil famílias em 11 estados brasileiros (Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, São Paulo e Tocantins), além de sete países da África (Angola, Camarões, Etiópia, Gana, Moçambique, Tanzânia e Uganda), adotem o pacote de tecnologia modular que é apropriado para áreas entre 100 e 1,5 mil metros quadrados (m2). São 15 os módulos propostos (ver infográfico) que podem ser utilizados pelas famílias segundo seu interesse.

O pacote básico inicial indicado é composto por cinco módulos: tanque de peixes, galinhas de postura, compostagem, produção de minhocas e horticultura. Há ainda a possibilidade de criação de animais. Todos aproveitam de alguma forma os resíduos ricos em nutrientes produzidos pela piscicultura. A ração industrial usada para alimentar os peixes acaba deixando disponível no tanque nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio e magnésio – aproveitados depois para a irrigação e adubação das plantas.

É no tanque circular de 4,4 m de diâmetro e 70 centímetros de profundidade, com capacidade para 10 mil litros de água, que as famílias devem dedicar maior atenção e investimento no início, segundo o pesquisador da Embrapa, que desenvolveu a solução durante doutorado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, detentora da patente.

No sertão nordestino, que sofre com a escassez hídrica, o pesquisador explica que a água para o tanque de peixes pode ser adquirida de caminhões-pipa, comuns na região. O pacote indica soluções relativamente baratas para a construção de um filtro biológico para aproveitamento da água, de uma bomba de recirculação e de aeração do tanque e de um sedimentador, que separa os resíduos sólidos do líquido.

“Primeiro, eu fiz o tanque mais artesanal e barato possível, usando talos da palmeira de babaçu, papelão e lona plástica”, contou a Pesquisa FAPESP o professor e radialista aposentado Paulo Afonso Silva Santos, conhecido na cidade piauiense de Esperantina como Paulo Brasil. Isso foi em 2013, quando ele conheceu o projeto. De lá para cá, em todas as casas em que morou de aluguel construiu um tanque de peixes, dentro do modelo do Sisteminha, e implantou os módulos de galinha de postura, cabra, composteira e horta.

“Sempre tivemos em torno de 2 litros de leite por dia”, afirma Brasil, que mora com a esposa e três filhos, de 6, 10 e 17 anos. “E isso com uma cabra só.” Com em média 20 galinhas, ele diz produzir por ano 5.500 ovos, além de obter a cada 100 dias entre 30 e 40 quilos de tilápia. “Como tenho limitação física, por ter contraído pólio, e uso muletas para andar, acabei melhorando o processo e adaptando para o mínimo trabalho e menor esforço.” O excedente de ovos e leite de cabra é vendido aos amigos.

Referência alimentar
Dimensionado para atender as recomendações nutricionais de uma família de quatro pessoas, o pacote de soluções tecnológicas do Sisteminha foi adotado em cidades, assentamentos rurais e comunidades quilombolas e indígenas como política pública. Desde março de 2018, a técnica de enfermagem Cláudia Leal e a filha Alba, técnica de informática, atuam como replicadoras da tecnologia na comunidade rural de Inajá, no sertão pernambucano, onde 13 unidades foram implementadas em sete comunidades.

“Cada família tem entre cinco e oito pessoas, mas indiretamente acabamos atendendo um número bem maior, porque a comunidade quer conhecer o Sisteminha”, relata Cláudia. “Por conta da pandemia, também houve muita procura para compra de verduras e legumes.”

“É interessante ressaltar que as unidades cujos trabalhos se destacam são tocadas apenas por mulheres”, comenta Alba Leal. “Elas dão conta sozinhas. Os homens só ajudam de vez em quando, pois geralmente estão fora fazendo outros trabalhos.”

De acordo com Luiz Guilherme, quando o Sisteminha é adotado como política pública, o investimento feito pelo Estado é de aproximadamente R$ 15 mil por família. Um terço desse valor é para custear as instalações necessárias como o tanque de peixes e outras estruturas; os dois terços restantes são divididos igualmente para o custeio no primeiro ano de rações e insumos e de assistência técnica, monitoramento e viagens.

“Os valores são dados pelo órgão público que fornece a tecnologia à família apenas uma única vez. A partir dos seis ou sete meses, ela já começa a ter autonomia na produção de alimentos e se encarrega da ração dos animais”, explica Guilherme. Segundo ele, a Embrapa transfere a tecnologia e passa todas as informações no início do programa para os produtores ou gestores da política pública. “Depois do primeiro ano, usamos muito a figura do multiplicador popular, pessoas que implantaram o sistema e têm bom domínio dele, para apoiar os participantes.”

A bióloga Adriana Miranda de Santana Arauco, professora de microbiologia do solo do curso de agronomia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), no campus de Bom Jesus, no sul do estado, já manifestou interesse em levar a tecnologia social para a região. “Quando há um bom manejo da terra, cultivando hortaliças, vegetais e outras culturas no mesmo espaço, é possível respeitar o ciclo biológico do solo”, afirma. “É uma forma de produzir sem agredir tanto, bem diferente de desmatar e de ter monocultura com uso de fertilizantes.”

Entre os vários reconhecimentos recebidos pela tecnologia, está o Prêmio Celso Furtado de Desenvolvimento Regional, concedido pelo Ministério da Integração Nacional em 2017. O Sisteminha também é objeto de estudos em escolas e universidades. Uma unidade demonstrativa foi instalada na Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ), unidade acadêmica especializada em ciências agrárias da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) localizada em Macaíba, na Região Metropolitana de Natal. Karina Ribeiro, coordenadora de extensão da EAJ/UFRN, e seus alunos também montaram uma unidade em uma escola municipal em Lagoa de Pedras, no sudeste potiguar, como trabalho de conclusão de curso de um dos alunos da instituição.

Nos últimos meses, um projeto de extensão para difundir o Sisteminha em um assentamento de reforma agrária e em uma comunidade tradicional quilombola em Macaíba precisou ser interrompido por conta da pandemia, mas Ribeiro ressalta a importância da tecnologia como ferramenta social para o desenvolvimento. “Primeiro ele estabiliza uma situação de fragilidade daquela família ou comunidade”, pondera. “O sistema permite uma produção escalonada e exige a ligação do homem com a terra. Nós apresentamos ao produtor as possibilidades, mas cabe a ele o desenvolvimento.”
Revista FAPESP

O gás do antigo mar do sertão


Metano liberado por lago de água salgada pode ter favorecido a elevação da temperatura e a diversificação de formas de vida no planeta

Geólogos da USP coletam amostras de rochas calcárias na região de Januária, em Minas Gerais

Juan Camillo Gómez-Gutierrez

Paredões de 50 metros de altura cercam uma vasta planície no interior dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás. Há cerca de 550 milhões de anos, quando a América do Sul, a África e a Antártida ainda estavam ligadas entre si, ali havia um mar interno, sem conexões com um oceano. Sua área de cerca de 350 mil quilômetros quadrados era similar à do mar Cáspio, igualmente fechado, entre a Rússia, o Azerbaijão e o Irã.

A bacia sedimentar do São Francisco, onde ficava o chamado mar de Bambuí, tinha uma peculiaridade: a água salgada liberava gás metano, um dos responsáveis pela elevação da temperatura global, de acordo com estudos de geólogos das universidades de São Paulo (USP) e Federal de Minas Gerais (UFMG). Os pesquisadores cogitam que o metano, ao chegar à atmosfera, possa ter contribuído para amenizar o clima do planeta, reduzir a intensidade das glaciações e favorecer a diversificação de formas de vida entre 540 milhões e 520 milhões de anos atrás, com o surgimento de moluscos, esponjas, equinodermas e artrópodes. Eles, no entanto, ainda não estimaram o volume de gás liberado nem o quanto teria sido necessário para modificar o clima terrestre, informações importantes para fortalecer essa hipótese.

O geólogo Sergio Caetano-Filho, do Instituto de Geociências (IGc) da USP, chegou a essa hipótese após examinar 520 amostras de rochas calcárias e 198 de material orgânico extraídas em outubro de 2017 de pedreiras de Januária, norte de Minas, e Santa Maria da Vitória, sul da Bahia, às quais se somaram informações de materiais similares extraídos de um poço de petróleo e de um furo de sondagem na região do município mineiro de Arcos. Esse trabalho é parte de seu doutorado, defendido no início de novembro deste ano. Concluídas em 2019, as análises registraram um predomínio da forma mais pesada do carbono, o isótopo 13 (13C), em comparação com o isótopo 12 (12C), em uma proporção até 15 vezes maior que a encontrada em rochas como as do grupo Corumbá, na região do Pantanal.

Segundo Caetano-Filho, o excesso de 13C pode resultar da atividade de um grupo de microrganismos primitivos, as Archaeas, que transformam matéria orgânica em gás carbônico (CO2) e metano (CH4). Em consequência, pode ter se formado um ambiente hostil para outros seres vivos, pobre em oxigênio e rico em enxofre, na forma de gás sulfídrico, muito tóxico para os seres vivos. Segundo ele, as rochas das bordas do antigo mar de Bambuí ainda exalam um odor de ovo podre, característico do gás sulfídrico. Essa composição explicaria a escassez de fósseis marinhos incrustados nas rochas do mar de Bambuí – nas rochas similares do grupo Corumbá, diferentemente, os fósseis marinhos são comuns. Ele e outros colegas da USP e de universidades de Minas Gerais e de Paris detalharam os resultados em um artigo publicado em abril na revista científica Geoscience Frontiers.

“O fato de o mar de Bambuí provavelmente ser um ambiente tóxico para os seres vivos explica a extrema escassez de fósseis na região”, diz Marly Babinski, do IGc-USP e orientadora do doutorado de Caetano-Filho. Ela identificou o predomínio das formas mais pesadas de carbono em seu próprio doutorado, há 30 anos, atribuindo-o inicialmente ao acúmulo de matéria orgânica, uma hipótese que não se sustentou.

Geólogos da USP coletam amostras de rochas calcárias em Santa Maria da Vitória, na BahiaKamilla Amorim

“O mar de Bambuí não deve ter sido um caso isolado”, sugere Caetano-Filho, “porque existem outros mares fechados com a mesma idade geológica e sinais geoquímicos muito semelhantes”. Seria o caso, segundo ele, da bacia do Irecê, na Bahia, que integra a mesma unidade geológica, o cráton São Francisco, e da formação Hüttenberg, na Namíbia, sul da África, que poderiam reforçar a liberação de metano para a atmosfera.

Se a hipótese se mostrar correta, talvez esses mares fechados tenham sido a fonte de metano que ajudou a elevar a temperatura e a reduzir o impacto das glaciações. Além da maior oferta de oxigênio e nutrientes, a temperatura mais alta que nas épocas frias dos períodos geológicos anteriores pode ter contribuído para a gradual diversificação de formas de vida.

“Não existem análogos modernos ao mar de Bambuí, o que dificulta muito as análises”, diz o geólogo Gabriel Uhlein, da UFMG. Em estudo publicado em setembro na revista Precambrian Research, Uhlein argumenta que a erosão dos terrenos elevados nas margens do mar de Bambuí pode ter contribuído para o excesso de 13C nas águas; além disso, sedimentos de rios extintos poderiam ter alimentado o mar com carbonato, que pode formar metano ao se decompor. A seu ver, a liberação de metano deve ter tido um efeito local.

“Como Bambuí é uma bacia pequena, em comparação com as dimensões da Terra, ainda é incerto se poderia ter liberado metano em volume suficiente para interferir no clima global”, diz ele. Caetano-Filho contra-argumenta: “O mar de Bambuí provavelmente foi maior, antes de ser empurrado por montanhas e se isolar. E, se outras bacias também passaram por uma fase de produção intensa de metano, o impacto sobre a atmosfera pode ter sido considerável”.

Desde 2019, Uhlein e sua equipe têm coletado rochas orgânicas, calcários formados por cianobactérias, cristais de sal e outros sinais de variação de maré nos paredões rochosos de Januária e de Ubaí, no norte de Minas Gerais. Os achados levantam outras dúvidas: “Ou havia conexões do mar de Bambuí com o oceano que ainda não descobrimos ou a relação gravitacional entre a Terra e a Lua, que causa as marés, era diferente há 550 milhões de anos, resultando em marés mais altas que as atuais dos grandes mares continentais, como o Cáspio”.

“A distância entre a Lua e a Terra varia constantemente e era diferente meio bilhão de anos atrás”, comenta o geofísico Eder Molina, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. “Atualmente”, ele acrescenta, “a Lua se afasta da Terra a 3,8 cm por ano, aproximadamente.” Há 400 milhões de anos, a Lua girava mais rápido e estaria a uma distância da Terra 40% menor que a atual. Nesse caso, a maré subiria mais do que hoje e o mês – definido como o tempo necessário para a Lua realizar uma volta completa em torno da Terra – teria apenas nove dias.

Projetos
1. O Sistema Terra e a evolução da vida durante o Neoproterozoico (nº 16/06114-6); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Ricardo Ivan Ferreira da Trindade (USP); Investimento R$ 2.106.971,07.
2. Ciclos biogeoquímicos de enxofre e carbono no Ediacarano e seu registro em sucessões sedimentares brasileiras (nº 16/11496-5); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Marly Babinski (USP); Bolsista Sergio Caetano Filho; Investimento R$ 281.739,72

Artigos Científicos
CAETANO-FILHO, S. et al. A large epeiric methanogenic Bambuí sea in the core of Gondwana supercontinent? Geoscience Frontiers (no prelo).
CUI, H. et al. Global or regional? Constraining the origins of the middle Bambuí carbon cycle anomaly in Brazil. Precambrian Research. v. 348, 105861. 15 set. 2020.
Revista FAPESP

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Geografia da Fome


Josué de Castro e a Geografia da Fome no Brasil

Josué de Castro and The Geography of Hunger in Brazil

Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos

Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil 

RESUMO

O objetivo deste artigo é realizar uma releitura do clássico Geografia da Fome, publicado pela primeira vez em 1946. Realiza-se uma síntese dos mapas das cinco áreas alimentares e das principais carências nutricionais existentes no Brasil, de acordo com o delineamento realizado por Josué de Castro. Nos dias atuais, ao perfil epidemiológico nutricional desenhado por Josué de Castro, caracterizado pelas carências nutricionais (desnutrição, hipovitaminoses, bócio endêmico, anemia ferropriva etc.), sobrepuseram-se as doenças crônicas não-transmissíveis (obesidade, diabetes, dislipidemias etc.). Entretanto, a questão da complexa e paradoxal problemática da fome permanece como uma temática recorrente no Brasil. Diante de alguns dilemas da atualidade, tais como aqueles que dizem respeito à sustentabilidade ecológica do planeta e à garantia do direito humano à alimentação, torna-se imperante reacender a luta defendida por Josué de Castro pela adoção de um modelo de desenvolvimento econômico sustentável e uma sociedade sem miséria e sem fome.

Introdução

Josué de Castro nasceu em 5 de setembro de 1908, em Recife, Pernambuco, Brasil. Filho de um agricultor do Sertão Nordestino que em 1877, em função da seca, migrou para a capital, viveu sua infância e adolescência em um bairro pobre, às margens do rio Capibaribe 1,2,3. Em 1929, após concluir o Curso de Medicina da Universidade do Brasil, retornou ao Recife para dar início a uma consagrada trajetória político-intelectual, dedicada, particularmente, à complexa e paradoxal problemática da fome e suas formas de enfrentamento 4. A sua vastíssima produção intelectual, de abrangência internacional, composta por mais de 200 títulos, tem sido objeto de estudo de distintas investigações 3,4,5,6,7,8,9.

O objetivo geral do presente artigo é realizar uma releitura do clássico Geografia da Fome, publicado pela primeira vez em 1946 10. Como objetivos específicos, em um primeiro momento, realiza-se uma síntese do mapa das cinco áreas alimentares do Brasil traçado em Geografia da Fome, procurando identificar as principais características dos seus regimes alimentares. Em um segundo momento, realiza-se uma síntese do mapa das principais carências nutricionais existentes no Brasil, de acordo com o delineamento de Josué de Castro 10.

Em Geografia da Fome, Josué de Castro introduz os conceitos de áreas alimentares, áreas de fome endêmica, áreas de fome epidêmica, áreas de subnutrição, mosaico alimentar brasileiro e, por conseqüência, traça o primeiro mapa da fome no país. Por áreas alimentares, concebe uma determinada região geográfica que dispõe de recursos típicos, dieta habitual baseada em determinados produtos regionais e com seus habitantes refletindo, em suas características biológicas e sócio-culturais, a influência marcante da dieta. Por área de fome endêmica, concebe uma determinada área geográfica em que pelo menos metade da população apresenta nítidas manifestações de carências nutricionais permanentes. Por áreas de fome epidêmica, concebe uma determinada área geográfica em que pelo menos metade da população apresenta nítidas manifestações nutricionais transitórias. Por áreas de subnutrição, concebe uma determinada área geográfica em que os desequilíbrios e as carências alimentares, sejam em suas formas discretas ou manifestas, atingem grupos reduzidos da população. E por mosaico alimentar brasileiro, concebe a diferenciação regional dos tipos de dieta existentes no país, oriundas das variadas categorias de recursos naturais (alimentos) e das distintas etnias que constituíram a nação brasileira 9.

De acordo com Castro 10, o método de investigação que norteou a elaboração da Geografia da Fome foi baseado nos princípios estabelecidos pelos geógrafos alemães Carl Ritter (1779-1859) e Alexander von Humboldt (1769-1859), pelo geógrafo francês Paul Vidal de La Blache (1845-1918), entre outros. Para seu autor, o objetivo básico da Geografia da Fome consiste em "localizar com precisão, delimitar e correlacionar os fenômenos naturais e culturais que ocorrem à superfície da terra10 (pp. 34-5). Assim sendo, afirma que o propósito do seu estudo foi realizar uma sondagem de natureza ecológica sobre o fenômeno da fome no Brasil, orientado pelos princípios geográficos da localização, extensão, causalidade, correlação e unidade terrestre 10.

Por outro lado, ao introduzir o uso dos termos fome endêmica e fome epidêmica, em nota explicativa, Castro faz alusão à adoção do conceito de epidemiologia da fome, explicitando a influência que sofreu do conceito de epidemiologia admitido por Wade Hampton Frost (1880-1938) e do conceito de epidemiologia do diabetes e do câncer defendido por Wilson George Smillie (1886-1971). Sendo assim, embora explicitando sua maior identificação com o método geográfico, os aspectos biológicos, médicos e higiênicos do fenômeno da fome também são enfocados em seu ensaio ecológico.

 

O mapa das áreas alimentares do Brasil

A partir de Geografia da Fome, o país seria dividido em cinco diferentes áreas alimentares assim distribuídas: (1) Área Amazônica - à época, abrangia os estados do Amazonas e Pará, parte dos estados do Mato Grosso, Goiás e Maranhão e os territórios do Amapá e Rio Branco; (2) Nordeste Açucareiro ou Zona da Mata Nordestina - à época, correspondia a todo o litoral nordestino, do Estado da Bahia ao Ceará, compreendendo uma faixa territorial com largura média de 80km; (3) Sertão Nordestino - correspondendo, à época, às terras centrais dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia; (4) Centro-Oeste - compreendia os estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grasso; e (5) Extremo Sul - que à época abrangia os estados da Guanabara, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O regime alimentar da Área Amazônica

De acordo com o mapa das áreas alimentares do Brasil (Figura 1), a Área Amazônica apresentava como dieta básica o consumo de farinha de mandioca, associada ao feijão, peixe e rapadura. Em relação aos fatores etno-culturais que influenciavam a constituição da dieta, Castro 10 aponta a predominância da cultura indígena sobre as culturas dos brancos portugueses e negros africanos. O alimento básico da dieta, a farinha de mandioca, era consumido em diferentes preparações sob a forma de farofas, mingaus, beijus e bebidas fermentadas, sendo misturado a outros alimentos, oriundos da flora silvestre (frutos, sementes e ervas), da fauna aquática e terrestre (peixes, crustáceos, tartarugas, tracajás, jabutis, antas, macacos e patos), além da incipiente agricultura regional. Destaca o largo consumo de pimentas e outras ervas na preparação dos pratos regionais como uma importante contribuição da cultura indígena. Em relação aos frutos regionais, é interessante notar que, já àquela época, ele apontava algumas importantes características nutricionais do buriti e açaí (ricos em betacaroteno ou vitamina A) e castanha-do-pará (proteínas completas e ácidos graxos). A conclusão do autor sobre a dieta amazônica foi que se tratava de uma alimentação pouco trabalhada e atraente e que sua análise biológica e química revelava inúmeras deficiências nutritivas 10.

O regime alimentar do Nordeste Açucareiro

No Nordeste Açucareiro a dieta básica era o consumo de farinha de mandioca, associada ao feijão, aipim e charque (Figura 1). De acordo com Castro 10, esse regime alimentar era produto da inter-relação das culturas alimentares dos indígenas da região, dos colonizadores portugueses e dos negros africanos, tendo a cultura alimentar do negro africano uma influência mais expressiva e valorizadora sobre os hábitos alimentares do que as demais.

Ele aponta a existência de distintas subáreas alimentares nessa região nordestina. Inicialmente, faz distinção entre duas subáreas alimentares: a litorânea e a da mata ou da cana-de-açúcar. Ao longo da sua abordagem aparece referência a uma subárea alimentar do sururu no Estado de Alagoas e à especificidade da cozinha baiana. Ao final, também descreve a área alimentar do cacau que, à época, se estendia do Recôncavo para o sul da Bahia até o Espírito Santo 10.

Na descrição da área litorânea destaca a riqueza de proteínas e sais minerais, oriundos dos alimentos marinhos (peixes, moluscos e crustáceos) e a participação de dois produtos vegetais de alto valor nutritivo: o coco e o caju. O coco contribuía com o aporte de gordura, proteínas e sais minerais da dieta, participando de uma infinidade de preparações típicas: feijão de coco, peixe de coco, arroz de coco, vatapá, canjica, pamonha, mungunzá, doce de coco, cocada, entre outras. O caju, por sua vez, era rico em vitaminas (em ácido ascórbico) e em proteínas de alto valor biológico contidas na castanha 10.

Vale destacar a análise apresentada sobre os tabus alimentares da região, sobretudo em relação ao consumo de frutas como manga, jaca, abacaxi, melancia, abacate, laranja, entre outras. Para Castro 10, o grande número de superstições e restrições ao consumo de certos alimentos, sem nenhum fundamento biológico, decorria da sobrevivência cultural das interdições alimentares impostas por questões econômicas pelos senhores de engenho a seus escravos e moradores. Nesse aspecto, vale lembrar que grande parte dos tabus alimentares identificados continua sua reprodução no imaginário alimentar da população brasileira 11,12,13.

O regime alimentar do Sertão Nordestino

O Sertão Nordestino tinha como dieta básica o consumo de milho, associado ao feijão, carne (gado, carneiro e cabra) e rapadura (Figura 1). De acordo com Castro 10, esse regime alimentar tinha predominância da influência cultural colonial (árabe-portuguesa), sendo o mais isento das influências das culturas dos índios e negros.

O milho foi considerado o alimento básico da dieta, sendo consumido quase que pela totalidade da população em quantidades consideradas elevadas. Constituía a base calórica da dieta, sendo usado no preparo de vários pratos típicos: cuscuz, angu, pamonha e canjica. Segundo Castro 10, seu consumo associado ao do leite resultava numa combinação nutricional muito feliz, uma vez que a proteína caseína do leite completava as deficiências em aminoácidos da proteína zeína do milho.

O leite e seus derivados como coalhada fresca ou escorrida, queijo e manteiga eram consumidos em abundância, constituindo alimentos integrantes da dieta do sertanejo nordestino. Para completar o aporte de proteínas de origem animal, observava-se o consumo habitual de carne (boi, carneiro e cabra) em distintas preparações: carne com abóbora e leite; carne-de-sol; charque; paçoca, buchada, panelada etc. 10.

Completava o regime habitual do sertanejo nordestino o consumo de feijão (principalmente do tipo macassar), farinha de mandioca, batata-doce, inhame, rapadura e café. O consumo habitual de frutas e verduras era muito limitado, constituindo falha visível da alimentação do sertanejo. Sendo assim, ele identificava a ingestão limitada de frutas regionais como umbu, piqui, quibá, cajarana e quixaba. Identificava também o consumo limitado de verduras como abóbora, maxixe, e cebolinha e coentro, usados como temperos.

Castro 10 concluiu que o regime alimentar habitual da área do Sertão Nordestino apresentava-se quantitativa e qualitativamente equilibrado, atendendo sem déficits e sem excessos às necessidades nutricionais do sertanejo: "É esta mesma parcimônia calórica, sem margens a luxo, que faz do sertanejo um tipo magro e anguloso, de carnes enxutas, sem arredondamentos de tecidos adiposos e sem nenhuma predisposição ao artritismo, à obesidade e ao diabetes, doenças essas provocadas, muitas vezes, por excesso alimentar10 (p. 207).

Entretanto, esse equilíbrio nutricional estava sujeito às rupturas cíclicas dos períodos de seca, quando se desorganizava completamente a economia regional e instalava-se a fome epidêmica. Nesse sentido, Castro 10 relata que nos períodos de seca o sertanejo passava imediatamente para um regime de subalimentação, limitando a quantidade e a variedade de alimentos, reduzindo a sua dieta ao consumo de um pouco de milho, feijão e farinha de mandioca. Quando a seca persistia e esses recursos alimentares se esgotavam, o sertanejo lançava mão de outras estratégias de sobrevivência, passando a consumir as "iguarias bárbaras" do sertão: raízes, sementes, frutos e animais resistentes à seca. Entre as "iguarias bárbaras" ele destaca: farinha de macambira, xique-xique, pereira brava, macaúba e mucunã, palmito de carnaúba, raízes de umbuzeiro, pau-pedra, serrote e maniçoba, sementes de fava-brava, manjerioba, beijus de catolé, gravatá e macambira.

Em relação ao consumo desses alimentos exóticos Castro 10 (p. 220-1) conclui: "Quando o sertanejo lança mão destes alimentos exóticos é que o martírio da seca já vai longe e que sua miséria já atingiu os limites de sua resistência orgânica. É a última etapa de sua permanência na terra desolada, antes de se fazer retirante e descer aos magotes, em busca de outras terras menos castigadas pela inclemência do clima".

O regime alimentar do Centro-Oeste

No Centro-Oeste a dieta básica era o consumo de milho, associado ao feijão, carne e toucinho (Figura 1). O prato típico foi identificado como o "tutu de feijão mineiro", preparado à base de farinha de milho, feijão, gordura, toucinho e lombo de porco. Esse foi considerado por Castro como de "alto valor calórico", mas qualitativamente de valor nutritivo inferior ao do "angu ou do cuscuz de milho com leite" da área do Sertão Nordestino, principalmente por seu teor mais baixo em cálcio e vitaminas. Entretanto, salienta que a dieta básica da região ganhava valor biológico a partir do consumo associado de vegetais verdes, principalmente couve mineira, outras hortaliças e frutas, principalmente laranja, mamão, banana e abacate. Com base na análise química do regime alimentar, afirma que não havia deficiência calórica na região, pelo contrário, deveria haver excesso calórico. Concluiu sua análise de forma um tanto preconceituosa ao afirmar que esse padrão alimentar resultava em "maior incidência da obesidade e do diabete, e na formação do tipo biológico dos mineiros lentos e pesados, conservadores e pachorrentos10 (p. 267).

O regime alimentar do Extremo Sul

O Extremo Sul consumia basicamente o arroz, pão, batata e carne (Figura 1). À época, por constituir a área mais rica e de maior desenvolvimento, tanto agrícola como industrial, também foi considerada a região de maior variedade alimentar, de mais alto consumo de verduras e frutas e, portanto, de mais elevado padrão alimentar. Além dos fatores econômicos e geográficos (clima, solo, pluviosidade etc.), Castro 10 ressalta os determinantes etno-culturais que possibilitavam diversificação e melhoria do padrão alimentar da região. Assim, as distintas etnias que migraram para a região, compostas por italianos, japoneses, alemães, poloneses, lituanos, entre outros, em muito contribuíram para a constituição do seu diversificado mosaico alimentar. Ele destaca a presença de distintas subáreas alimentares nessa região: (1) Subárea de influência italiana, caracterizada pelo largo consumo de trigo sob a forma de macarrão, ravioli e spaghetti; (2) Subárea localizada no Rio Grande do Sul, caracterizada pelo complexo alimentar do churrasco e do mate-chimarrão; (3) Subárea de influência japonesa, localizada em torno da capital de São Paulo e outros centros urbanos, caracterizada por abundante consumo de verduras; e (4) Subárea de influência germânica, caracterizada por um consumo mais freqüente de aveia, centeio, lentilhas, hortaliças, frutas, carne de porco (salsichas, bacon, presunto, defumados), pão preto, chucrute e cerveja.

 

O mapa das carências nutricionais do Brasil

As carências nutricionais da Amazônia

A Região Amazônica, considerada uma das áreas de fome endêmica, caracterizava-se pela presença de deficiências protéicas, vitamínicas e de sais minerais (Figura 2). À época, as carências nutricionais endêmicas eram: carências protéicas, de vitamina B2 (arriboflavinose); de ferro (anemias) e de cloreto de sódio. As formas frustas ou subclínicas eram: carências protéicas; de vitaminas A, B1 e niacina (pelagra) e de cálcio (sem manifestação de raquitismo). A carência de vitamina B1 (beribéri) aparecia em forma típica epidêmica. Em relação ao beribéri, vale ressaltar que ele destaca o período de 1870 a 1910, conhecido como ciclo econômico da borracha amazônica, como uma fase epidêmica desta carência nutricional na região. Ressalta-se ainda a interessante análise que ele faz sobre a associação entre a insuficiência alimentar quantitativa, caracterizada por um baixo consumo calórico, a adaptação orgânica forçada a partir desta situação permanente e a apregoada preguiça dos povos dessa região equatorial. Para Castro 10 (p. 76), "a preguiça dos povos equatoriais é um meio de defesa ou sobrevivência, funcionando como um sinal de alarme numa caldeira que diminui a intensidade de suas combustões, quando lhe falta o combustível".

As carências nutricionais do Nordeste Açucareiro

O Nordeste Açucareiro, considerado uma área de fome endêmica, apresentava como manifestações diretas da deficiência do regime alimentar: carências calóricas, protéicas, de vitaminas e minerais. As formas endêmicas das carências nutricionais identificadas foram: carências protéicas, de vitaminas A, B1 e B2 e dos minerais ferro e cloreto de sódio. As manifestações subclínicas identificadas foram: carências protéicas; de vitaminas B1, C (escorbuto) e niacina e do mineral cálcio (Figura 210.

Castro destaca que em conseqüência da deficiência calórica da dieta, decorria a reduzida capacidade de trabalho do nordestino da Zona da Mata, em relação aos trabalhadores mais bem alimentados de outras regiões do país. Chama a atenção para uma possível associação entre a deficiência permanente de proteínas da dieta e os índices de baixa estatura dos habitantes do brejo nordestino, os trabalhadores dos engenhos e usinas de açúcar. Como confronto, também chama a atenção para uma possível associação entre a dieta rica em proteínas e sais minerais e os índices de estatura elevada dos habitantes do litoral, as populações costeiras de pescadores.

Ao descrever o mapa das carências de vitaminas A, B1, B2, C e niacina, relativiza a magnitude e a gravidade do quadro, ressaltando que estas carências não eram tão abundantes como deveria se esperar. Como exceção, destaca a carência de vitamina B2 (arriboflavinose), afirmando ser esta abundante e generalizada entre crianças pobres das áreas rurais e urbanas da região. É interessante notar que ele aponta como explicação a possível influência de fatores protetores ou preventivos presentes na dieta regional, tais como condimentos e ingredientes especiais usados, sobretudo na cozinha baiana: o azeite-de-dendê (fonte de beta-caroteno ou provitamina A) e as variadas espécies de pimenta (fontes de ácido ascórbico) 10.

Em relação às carências minerais, aponta a deficiência de ferro (anemia alimentar) como a manifestação endêmica mais generalizada, a qual seria responsável pelo estereótipo de palidez, apatia e depressão física do habitante do brejo - o Jeca-Tatu Nordestino. Entretanto, apenas um estudo sobre a prevalência de anemia ferropriva é referido, segundo o qual 40% dos escolares da cidade de Salvador (Bahia) apresentavam baixas taxas de hemoglobina 10.

Ressalta-se ainda a importante análise realizada a respeito das conseqüências do consumo alimentar excessivo ou desequilibrado verificado entre os habitantes mais abastados, os senhores de engenhos e suas famílias. De acordo com Castro 10, a dieta com excesso de carboidratos, sobretudo, com excesso de açúcar e falta de frutas, apresentava como conseqüência a grande incidência de diabetes e avitaminoses B em certas famílias de senhores de engenhos. Nesse aspecto, faz uso de uma brilhante metáfora: "O açúcar em excesso de sua dieta desequilibrando as trocas metabólicas, como a cana desequilibrou de maneira tão nociva o metabolismo econômico da região. É como se a terra se vingasse do homem, fazendo-o sofrer de uma doença semelhante à sua - o organismo todo saturado de açúcar10 (pp. 155-6).

As carências nutricionais do Sertão Nordestino

De acordo com Castro 10, a área do Sertão do Nordeste caracterizava-se pela atuação de um tipo de fome diferente, aquela que se apresentava em surtos epidêmicos ou agudos nos períodos de seca ou estiagem. Eram epidemias de fome global quantitativa e qualitativa que afetavam de forma bastante violenta e sem discriminação todos os habitantes da região. Apresentava como formas endêmicas: carências protéicas, de vitaminas A, B1, B2, C e niacina e dos minerais cálcio, ferro e cloreto de sódio. A carência de iodo (bócio) apresentava-se em sua forma subclínica (Figura 2).

As carências nutricionais do Centro-Oeste

A área do Centro-Oeste foi considerada como uma "área de subnutrição, de desequilíbrio e de carências parciais, restritas a determinados grupos ou classes sociais10 (p. 265). A única forma endêmica descrita foi a carência de iodo (bócio endêmico). As carências de proteínas, de vitamina B1, de ferro e de cloreto de sódio foram identificadas como formas típicas esporádicas. As carências de vitaminas A, B1, B2, C e niacina e de cálcio foram identificadas em suas formas frustas (Figura 210.

Em relação ao bócio endêmico, relata que esta deficiência nutricional grassava no país desde os tempos coloniais, apresentando maior incidência nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Goiás e Mato Grosso. De acordo com Castro 10, à época, estudos realizados com escolares de Minas Gerais e São Paulo verificaram incidências de 44% e 60% de bócio endêmico, respectivamente.

As carências nutricionais do Extremo Sul

O Extremo Sul também foi considerado uma área de deficiências alimentares discretas e menos generalizadas, apresentando "carências parciais, restritas a determinados grupos ou classes sociais10 (p. 265) Era a região que tinha o melhor perfil epidemiológico nutricional. As carências de vitaminas A, B2, C e niacina, de cálcio e de ferro apareciam em suas formas subclínicas. A carência de vitamina D (raquitismo) aparecia sob forma típica esporádica. A carência de iodo manifestava-se de forma endêmica (Figura 2). Entretanto, ao concluir sua análise ele faz um alerta sobre o aumento da incidência da carência de proteínas, que se manifestava em quadros típicos de kwashiorkor, entre crianças das classes pobres e proletárias dos grandes centros urbanos da região, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo 10.

 

Considerações finais

A releitura de Geografia da Fome evidencia quão viva, polêmica e sedutora permanece esta obra sexagenária. Nos dias atuais, ao perfil epidemiológico nutricional traçado por Josué de Castro, caracterizado pelas carências nutricionais (desnutrição, hipovitaminoses, bócio endêmico, anemia ferropriva etc.), sobrepuseram-se as doenças crônicas não-transmissíveis (obesidade, diabetes, dislipidemias etc.). Nesse aspecto, tanto o mapa das cinco áreas alimentares como o das principais carências nutricionais existentes no Brasil traçados em Geografia da Fome precisam ser redesenhados em função deste novo perfil epidemiológico nutricional brasileiro. Tarefa imprescindível, mas que ainda está por vir. A questão da complexa e paradoxal problemática da fome, entretanto, permanece como uma temática recorrente no Brasil. Portanto, diante de alguns dilemas da atualidade, tais como aqueles que dizem respeito à sustentabilidade ecológica do planeta e à garantia do direito humano à alimentação, torna-se imperante reacender a luta defendida por Josué de Castro pela adoção de um modelo de desenvolvimento econômico sustentável e uma sociedade sem miséria e sem fome.

 

Referências

1. Linhares MYL. Biografia. In: Castro J. Geografia da fome (o dilema brasileiro: pão ou aço). 10ª Ed. Rio de Janeiro: Antares Achiamé; 1980. p. 333-7.         [ Links ]

2. L'Abbate S. As políticas de alimentação e nutrição no Brasil. I. Período de 1940 a 1964. Rev Nutr 1988; 1:87-138.         [ Links ]

3. Magalhães R. Fome: uma (re)leitura de Josué de Castro. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1997.         [ Links ]

4. Vasconcelos FAG. Fome, eugenia e constituição do campo da nutrição em saúde pública em Pernambuco: uma análise de Gilberto Freyre, Josué de Castro e Nelson Chaves. Hist Ciênc Saúde-Manguinhos 2001; 8:315-39.         [ Links ]

5. Arruda BKG. Geografia da Fome: da lógica regional à universalidade. Cad Saúde Pública 1997; 13: 545-9.         [ Links ]

6. Vasconcelos FAG. Os Arquivos Brasileiros de Nutrição: uma revisão sobre produção científica em nutrição no Brasil (1944 a 1968). Cad Saúde Pública 1999; 15:303-16.         [ Links ]

7. Lima ES. Mal de fome e não de raça: gênese, constituição e ação política da educação alimentar Brasil - 1934-1946. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2000.         [ Links ]

8. Melo Filho DA. Mangue, homens e caranguejos em Josué de Castro: significados e ressonâncias. Hist Ciênc Saúde-Manguinhos 2003; 10:505-24.         [ Links ]

9. Vasconcelos FAG. Tendências históricas dos estudos dietéticos no Brasil. Hist Ciênc Saúde-Manguinhos 2007; 14:197-219.         [ Links ]

10. Castro J. Geografia da fome (o dilema brasileiro: pão ou aço). 10ª Ed. Rio de Janeiro: Antares Achiamé; 1980.         [ Links ]

11. Trigo M, Roncada MJ, Stewien GTM, Pereira IMTB. Tabus alimentares em Região do Norte do Brasil. Rev Saúde Pública 1989; 23:455-64.         [ Links ]

12. Ramalho RA, Saunders C. O papel da educação nutricional no combate às carências nutricionais. Rev Nutr 2000; 13:11-6.         [ Links ]

13. Costa-Neto EM. Restrições e preferências alimentares em comunidades de pescadores do Município de Conde, Estado da Bahia, Brasil. Rev Nutr 2000; 13:117-26.         [ Links ]

 REVISTA CADERNOS DE SAÚDE PUBLICA

domingo, 22 de novembro de 2020

Professora propõe estudar as frutas do Brasil para trabalhar os biomas


Descubra com seus alunos as delícias nativas de nosso país com a ajuda da biogeografiaPOR:Tory Helena




Você já teve a oportunidade de experimentar um sorvete de cambuci? E de tomar um suco de cupuaçu, ou, quem sabe, comer um doce de guariroba? Se a sua resposta para essas perguntas foi “não”, saiba que você não está sozinho. Apesar de o Brasil possuir mais de 300 frutas nativas de seu vasto território, grande parte do que compramos em feiras e supermercados é de exóticas (isto é, originárias de outros países ou continentes). Até mesmo a banana, a laranja e a manga, frutas com “a cara” do Brasil, na verdade são asiáticas e só chegaram aqui por obra da colonização europeia. Nada contra, é claro – afinal, elas são deliciosas e nutritivas –, mas a verdade é que as variedades exóticas acabaram ofuscando a grande diversidade das frutas brasileiras, menos comercializadas e, por isso, desconhecidas da maioria da população. A feijoa (ou goiaba-serrana), originária da Região Sul do Brasil, ficou por muito tempo ausente do paladar nacional, mas, levada à Europa no fim do século 19, fez o maior sucesso. Já o umbu, típico da Caatinga, foi imortalizado por escritores como Graciliano Ramos e Euclides da Cunha, que descreveu o umbuzeiro como “a árvore sagrada do Sertão” no clássico livro Os Sertões. Generosa, a planta produz até 300 quilos da fruta por safra, consumidos in natura e em forma de doces, sorvetes e sucos. Nossas frutas nativas têm muita história - e tudo isso pode servir de ponto de partida para dar mais sabor às aulas de Geografia. 

Essa foi a ideia que a professora fluminense Aline Mello Campos teve quando fazia uma viagem pelo estado de Goiás. Lá, enquanto experimentava picolés de frutas do Cerrado pouco conhecidas, ela teve um estalo: por que não trabalhar o conteúdo de Geografia do 7º ano, que tradicionalmente enfoca o território brasileiro, a partir de uma viagem pelas frutas nacionais? “Com base nesse assunto, me apoiei nos conhecimentos da biogeografia para criar um projeto que ajudasse os alunos a pensar na distribuição da nossa flora pelo território. Além disso, pude discutir por que algumas frutas não são comercializadas e não chegam até o nosso sacolão”, reflete a professora, que dá aulas no Ciep 408 - Sérgio Cardoso, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. 

A biogeografia é um campo da ciência dedicado ao estudo da distribuição geográfica da biodiversidade. Embora não faça parte do currículo da Educação Básica, ela pode entrar na sala de aula não apenas para fundamentar um trabalho conjunto de Geografia e Biologia, mas também para articular essas disciplinas a temas que costumeiramente ficam de fora dos livros didáticos, como os saberes da cultura alimentar de comunidades indígenas e quilombolas. “Como a biogeografia é um campo interdisciplinar, os conceitos e abordagens podem assumir diferentes formatos. Na Geografia escolar, em particular, costuma-se mobilizar esses conhecimentos quando se ensinam os conceitos de natureza, sociedade, paisagem, lugar, território e região”, explica Ivan Matos, professor de Biogeografia da Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA).

Ivan ressalta, ainda, que dá para levar as descobertas da biogeografia juntamente com conteúdos mais tradicionais do currículo escolar, como biodiversidade, domínios morfoclimáticos, áreas endêmicas, além da questão socioambiental. No caso desta última, a biogeografia estimula o debate sobre os riscos e impactos de desmatamentos, queimadas, da pesca e caça predatórias. “Essa é uma maneira de discutir a necessidade de proteger as espécies de plantas e animais de cada região, sob pena de perdermos essa diversidade por causa de uma exploração predatória do território”, afirma Ivan.

O sabor das frutas
Depois de pesquisar sobre o tema, Aline abriu a conversa perguntando aos estudantes quais frutas eles conheciam, de quais gostavam mais e onde costumavam encontrá-las. Como a escola se localiza em uma região periférica, com muitos alunos em situação de extrema pobreza, o assunto era delicado, já que as frutas e legumes são caros e nem sempre as famílias têm condições de comprá-los. Um dos alunos, porém, se lembrou das frutas no quintal da avó e contou isso para os colegas. A partir daí, a turma se animou a conversar sobre o assunto. Um ponto alto da atividade envolveu uma visita ao sacolão do bairro, localizado na esquina da escola. Com a autorização da gestão escolar e dos pais, e tendo em mãos um questionário preparado previamente, Aline e sua turma foram a campo para perguntar ao seu João, dono do estabelecimento, quais eram as frutas disponíveis no sacolão, quais eram mais consumidas e até se elas continham agrotóxicos. Ao final, com 50 reais disponibilizados pela professora, compraram e degustaram algumas delícias em sala de aula.

Além de apresentar frutas nativas dos biomas (veja alguns exemplos no mapa), a professora propôs que os alunos refletissem sobre a experiência a partir da leitura do livro Abecedário Poético de Frutas, de Roseana Murray. Depois, os alunos produziram poesias a partir da degustação. “Queria que eles tivessem uma experiência ao mesmo tempo sensorial e poética”, lembra Aline. Quem não conseguiu articular os pensamentos em poesia pôde optar por relatar as sensações em prosa. O aluno Alanderson, porém, impressionou a professora pela sensibilidade, relacionando o assunto com um fato triste de sua vida. Para ele, o abacate teve um gosto podre igual ao que sentiu quando sua avó cometeu suicídio. Em outra poesia, ele contou sobre o dia em que seu pai quebrou a perna ao provar uma goiaba.

O projeto foi um dos 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 em 2018. Sueli Furlan, professora do departamento de Geografia da USP e uma das selecionadoras do prêmio, aponta que um dos méritos de Aline foi associar a investigação científica a um conteúdo pouco abordado nas escolas públicas. Além disso, o trabalho valorizou a flora brasileira e tornou mais significativo o estudo dos biomas. “Mapear as frutas nativas valoriza a biodiversidade, e a ida ao sacolão é algo simples, que pode ser replicado em outras escolas”, diz Sueli. O projeto também rendeu outros frutos para a professora: relatado em artigo, foi apresentado para outros educadores em um congresso na Unicamp. Além disso, ela já prepara sua próxima empreitada: um projeto sobre as árvores brasileiras. “Os alunos saem da escola sem conhecer as árvores e as frutas do nosso território”, lamenta Aline. “Mas fiz um trabalho que juntou a dimensão natural e a humana, além de questões políticas e econômicas”, conclui a professora.
FRUTAS DE CADA BIOMA

AMAZÔNIA
Fruta: Açaí
Nome científico: Euterpe oleracea
Característica: A fruta tem elevado valor energético e é bastante consumida em sucos e doces.

Fruta: Cupuaçu
Nome científico: Theobroma grandiflorum
Característica: Volumoso e muito perfumado, o fruto é bem aproveitado em sorvetes e bombons.

CAATINGA
Fruta: Juá
Nome científico: Ziziphus joazeiro
Característica: De casca amarronzada, o fruto do juazeiro é ácido e adocicado e rico em vitamina C.

Fruta: Umbu
Nome científico: Spondias tuberosa
Característica: De sabor agridoce, tem alto valor nutritivo e é bastante disseminado na Região Nordeste.

PANTANAL
Fruta: Bocaiuva
Nome científico: Acrocomia aculeata
Característica: As frutas dão em cachos e são muito conhecidas em Mato Grosso do Sul.

Fruta: Guavira
Nome científico: Campomanesia xanthocarpa
Característica: Com muita vitamina C, a fruta amadurece rápido e tem sabor adstringente.

CERRADO
Fruta: Baru
Nome científico: Dipteryx alata
Característica: Também conhecido como cumaru, tem gosto amendoado e alto valor nutritivo.

Fruta: Coco-Guariroba
Nome científico: Syagrus oleraceae
Característica: Seus frutos apresentam uma amêndoa branca e são muito utilizados em doces caseiros.

PAMPAS
Fruta: Feijoa
Nome científico: Feijoa sellowiana
Característica: Nativa do Sul do Brasil, seu sabor lembra uma mistura de goiaba, banana e abacaxi.

Fruta: Pinhão
Nome científico: Araucaria angustifolia
Característica: A árvore dá um pseudofruto, cuja semente é o pinhão, muito importante na culinária regional.

MATA ATLÂNTICA
Fruta: Cambuci
Nome científico: Campomanesia phaea
Característica: Com sabor que mistura o limão e o melão, o fruto é muito comum em São Paulo.

Fruta: Jabuticaba
Nome científico: Plinia cauliflora
Característica: Muito encontradas em Minas Gerais, as frutinhas crescem nos galhos e até no tronco da árvore.




Fontes: Frutas Brasil, de Silvestre Silva e Helena Tassara.

PALAVRA DE ESPECIALISTA
Os pontos mais interessantes do projeto da professora Aline, segundo Sueli Furlan

1) A professora trabalha, via projeto, um assunto pouco abordado na escola: a biogeografia.
2) Ao partir das frutas nativas, o projeto amplia o repertório alimentar. Também faz discussão sobre o acesso que temos a elas, em comparação com as exóticas.
3) Os alunos visitaram o sacolão do bairro para pesquisar quais eram as frutas vendidas e tiveram a oportunidade de aplicar questionários. 
4) O trabalho é simples e possível de ser replicado por outros professores, que devem adaptá-lo à realidade de sua escola


PARA SABER MAIS
Biogeografia de Mark V. Lomolino e James H. Brown
Biogeografia: dinâmicas e transformações da natureza de Adriana Figueiró, Oficina de Textos
Revista Nova Escola

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos