terça-feira, 10 de setembro de 2013

A hora e a vez do nordeste

Novas indústrias começam a mudar o rosto da Bahia, do Ceará e de Pernambuco
JOSÉ PAULO BORGES

Arte PB


Pobreza extrema; concentração de terras e riquezas nas mãos de uma pequena elite de “coronéis” acostumada ao mando e ao desmando; indicadores sociais medíocres, sempre em descompasso com a média nacional; atraso político crônico. O outro lado da moeda: sol exuberante o ano inteiro e praias paradisíacas a perder de vista. Até bem pouco tempo atrás, essa era a imagem do nordeste projetada por boa parte – senão pela maioria – da população brasileira.

Nas últimas décadas do século passado, contudo, transformações estruturais que permitiram a industrialização nas cidades litorâneas, redução da importância da agricultura no interior, ampliação dos setores de serviços e comércio e a urbanização da maior parte da população deram novas cores àquela realidade. Esse período “virtuoso” não teve o condão imediato de alterar significativamente os principais problemas regionais. Os balizadores sociais, por exemplo, ainda são acabrunhantes. Nos últimos anos, porém, começou a se desenhar um outro cenário, bem mais promissor.

“Há crescimento econômico no nordeste, sim, e com um caráter inclusivo. Ou seja, a economia está obtendo taxas maiores que a média nacional e, em paralelo, há diminuição da pobreza extrema, melhorias na área social e mudanças na política regional”, analisa o professor Cícero Péricles de Carvalho, do Departamento de Economia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Os números que atestam o recente ciclo de crescimento são expressivos. Os investimentos anunciados entre 2008 e 2013 para a região, de acordo com entidades de desenvolvimento como o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), assim como por bancos e consultorias privadas, chegaram a R$ 282 bilhões. São valores acumulados de projetos que passaram por aquelas instituições ou mesmo por órgãos estaduais de desenvolvimento – uma quantia e tanto, pois representa mais do que a soma do PIB de 2010 de sete estados nordestinos: Sergipe, Piauí, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Maranhão e Ceará. Mas isso não é tudo. Os investimentos projetados para os próximos anos, até 2020, tangenciam o mesmo valor. Ou seja, nos primeiros 20 anos do século atual a economia nordestina deverá ser irrigada por mais de R$ 550 bilhões. Outro número? Somente nos três maiores polos de desenvolvimento da região (complexo industrial portuário de Suape, em Pernambuco, terminal portuário de Pecém, no Ceará, e polo industrial de Camaçari, na Bahia), os investimentos captados nos últimos cinco anos e projetados até 2015 somam cerca de R$ 98 bilhões.

Na opinião de Péricles de Carvalho, doutor em economia regional, o marco demarcatório do início do atual ciclo de expansão econômica vivido pelo nordeste situa-se no que ele chama de “período Sudene” (1960-2000), em especial em suas três primeiras décadas. Mesmo assim, a pobreza extrema de quase metade da população da região pouco se alterou na época. Já o atual padrão de crescimento nordestino difere dos de décadas passadas pela entrada em cena de um personagem importante: o vetor social como elemento de desenvolvimento. E o destaque, sem dúvida, são as políticas de transferência de renda. O nordeste tem 17 milhões de famílias e uma população de 53 milhões de habitantes. A Previdência Social paga, todos os meses, R$ 6 bilhões a 8,2 milhões de beneficiários (que em geral têm família). O programa Bolsa Família coloca mais R$ 1 bilhão, também mensalmente, nas mãos de 7 milhões de famílias espalhadas pelos nove estados nordestinos. “É um grau de cobertura elevado e um volume grande de renda, criando mercado consumidor em todas as localidades”, afirma o especialista.

O segundo elemento é a elevação do número de trabalhadores formais. Entre 2003 e 2011 foram criados no nordeste 4,1 milhões de postos de trabalho, duplicando o número de assalariados com carteira de trabalho. Simultaneamente, ocorreu a elevação do salário mínimo, que quase dobrou de valor em uma década, causando impactos numa região onde metade dos trabalhadores recebe o piso salarial nacional. Os programas estatais de desenvolvimento econômico, com investimentos produtivos, que têm impacto social forte, como o Pronaf (de estímulo à agricultura familiar), o Crediamigo (de microcrédito), o Agroamigo (de microfinanciamento rural), o Luz para Todos e o Minha Casa, Minha Vida, compõem o terceiro elemento. Em quarto lugar, pesam os grandes investimentos privados e públicos, tanto industriais, agroindustriais e de serviços como de infraestrutura física, que mobilizam recursos e movimentam a economia. Quinto e não menos importante: as políticas permanentes de educação e saúde básicas, que, em que pesem suas limitações e falta de qualidade, vêm carreando aportes financeiros federais elevados no âmbito municipal. Resultado da orquestração desses fatores: entre 2002 e 2009 o número de nordestinos pobres diminuiu em 9 milhões de pessoas e 7 milhões saíram da indigência.

Bom momento

Com a ampliação da renda, criou-se um novo perfil nos segmentos de consumo. Hoje, do litoral ao sertão predomina o público de baixa renda, com mais de 65% dos consumidores localizados nos segmentos C e D. É nessa faixa que se encontram os assalariados pobres e os beneficiários da renda pública: as famílias da chamada “nova classe média”. Nos últimos anos, esse público ávido de consumo foi responsável pela duplicação da frota de automóveis, pela multiplicação por cinco do total de motos e pelo aumento em nove vezes do número de telefones celulares no nordeste.

Não foi por acaso, portanto, que a Fiat decidiu instalar sua nova linha de montagem na cidade pernambucana de Goiana, distante 70 quilômetros de Recife. “Serão modelos para surpreender os consumidores”, deixa entrever, em tom de suspense, o presidente da Fiat/Chrysler para a América Latina, Cledorvino Belini, referindo-se aos veículos que irão sair da nova fábrica da marca. Os investimentos para a construção e instalação da filial nordestina da empresa, que ficará pronta em 2014, bem como para o desenvolvimento de produtos, totalizam R$ 4 bilhões.

Além do promissor mercado local, a opção por Pernambuco, segundo Belini, se deveu ao fato de o estado estar situado na extremidade oriental da costa da América do Sul e ter o maior porto público do país, Suape, que está interligado a mais de 160 portos da África, Europa e América do Norte. “Outro aspecto relevante é o plano consistente de desenvolvimento econômico adotado pelo estado, que está atraindo investidores brasileiros e estrangeiros”, observa Belini. Com 288 mil metros quadrados de área e capacidade de produção de 200 mil a 250 mil veículos por ano, a unidade vai gerar 4,5 mil empregos diretos e 12 mil indiretos.

A atração de empresas do porte da Fiat reflete o bom momento econômico de Pernambuco. O Produto Interno Bruto (PIB) do estado, por exemplo, vem aumentando a taxas superiores às do nordeste e mesmo do Brasil. Entre 2007 e 2012, a terra do frevo cresceu a uma média anual de 4,6%, enquanto o PIB nacional se ampliou 3,6%. No ano passado, mesmo com a perda de fôlego da economia brasileira, a expansão no estado foi de 2,3%, período em que o avanço do país se limitou a 0,9%. Os investimentos em Pernambuco do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) também aumentaram, alcançando R$ 2,2 bilhões em 2012.

A Bahia está igualmente se beneficiando. O Estaleiro Enseada do Paraguaçu (EEP), no Recôncavo Baiano, representa, segundo a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, uma “nova fase para a indústria naval brasileira”. Com a matriz ainda sendo erguida, o EEP já soma contratos de US$ 6,5 bilhões, correspondentes a dez megaembarcações destinadas à estatal do petróleo, incluindo seis sondas para o pré-sal. O estaleiro é uma associação entre as construtoras Odebrecht (35%), OAS (17,5%), UTC (17,5%) e a japonesa Kawasaki Heavy Industries (30%), a conhecida fabricante de motos, que também atua há 130 anos no setor naval. O principal contrato (US$ 4,8 bilhões) do EEP, por meio da gestora Sete Brasil, se refere à construção de seis das 28 sondas de perfuração de águas ultraprofundas para o pré-sal. As demais encomendas consistem na transformação de quatro cascos de navios petroleiros em plataformas (P-74, P-75, P-76 e P-77).

Produção de aço

“É um desafio enorme”, resume o presidente do EEP, Fernando Barbosa. “Em 2012, trabalhamos na construção da empresa partindo do zero. Em 2013, o grande desafio é entregar resultados”, acrescenta, repetindo a palavra “desafio”, uma das mais utilizadas por ele. “Nos próximos anos, o grupo quer estar presente em plataformas de produção, de perfuração e em navios especializados. São contratos de, pelo menos, centenas de milhões de dólares”, informa Barbosa, com entusiasmo. Sem dúvida, desafios e tanto.

No Ceará, a expectativa se relaciona à zona de processamento de exportação (ZPE) instalada no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), no município de São Gonçalo do Amarante, a 60 quilômetros de Fortaleza. Aprovada por decreto pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em junho de 2010, a ZPE de Pecém foi inaugurada em março de 2013. A Receita Federal já publicou no “Diário Oficial da União” o ato de “alfandegamento”, que permite a redução de impostos sobre produtos fabricados na área e vendidos ao exterior.

A ZPE cearense vai abrigar a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), um empreendimento com investimentos estimados em US$ 8 bilhões, desenvolvido em parceria da Vale com as companhias coreanas Dongkuk e Posco. Será a primeira siderúrgica integrada do nordeste. Sua produção será voltada ao mercado externo e incentivos fiscais federais deverão garantir a rentabilidade do negócio. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, há previsão de que a primeira fase da usina comece a operar em 2015, produzindo 3 milhões de toneladas de placas de aço e gerando 4 mil empregos diretos e 10 mil indiretos. A segunda etapa está prevista para 2017.

A Vale Pecém é outra importante indústria que também se instalará na zona de processamento de exportação, mediante investimentos da ordem de US$ 98 milhões, com planos de beneficiar o minério de ferro a ser utilizado pela CSP (serão processados 5 milhões de toneladas anuais da matéria-prima). Há expectativas, ainda, de que a ZPE receba a instalação de uma refinaria da Petrobras.

Apesar de tudo isso, o “milagre econômico do nordeste” não está isento de críticas. A principal delas se relaciona ao fato de os bons ventos estarem bafejando, praticamente, apenas os três grandes centros industriais dos estados da Bahia, do Ceará e de Pernambuco. Sem infraestrutura, com mercado consumidor pouco relevante e recursos próprios escassos, Alagoas, por exemplo, queixa-se por não conseguir absorver investimentos. Os péssimos indicadores sociais do estado, sobretudo a violência urbana, também assustam os investidores. Altamente concentrada no setor sucroalcooleiro, a economia alagoana amarga desvantagens mesmo nesse setor em relação a seus vizinhos regionais, como Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe.

A bem da verdade, nos últimos anos o PIB de Alagoas avançou abaixo da média do nordeste, na esteira do modelo conhecido como “renda sem produção” – ou seja, do consumo estimulado pelo Bolsa Família e pela expansão do crédito –, que não tem energia suficiente para colocar o estado no mesmo ritmo nordestino de geração de empregos. De acordo com o Ministério do Trabalho, entre 2007 e 2011 a criação de vagas formais em Alagoas aumentou 3,1% ao ano, em média. É o pior desempenho da região, que registrou crescimento médio de 6% no período.

Guerra fiscal

Não é de hoje que as três principais economias nordestinas vêm canalizando o interesse dos investidores. Na primeira fase da Sudene – autarquia criada em 1959, desativada em 2001 e reativada em 2007 –, os investimentos industriais foram quase que exclusivamente destinados às regiões metropolitanas de Salvador, Recife e Fortaleza. No final dos anos 1990, passado o período dos empreendimentos estimulados pelo Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor), veio a “guerra fiscal” (disputa mediante a concessão de incentivos com vistas a atrair os investidores), patrocinada, primordialmente, por Bahia, Pernambuco e Ceará, o que significou, outra vez, o direcionamento dos investimentos para as regiões metropolitanas dos três estados. Amainado o período mais intenso dessa batalha, eles se apresentaram como mais competitivos e, portanto, capazes de despertar a atenção das grandes indústrias por concentrarem mais produção e riqueza que os seis estados de economia menor: Alagoas, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. “Dada a dinâmica econômica das regiões metropolitanas de Fortaleza, Recife e Salvador, as três cidades acabam se comportando como capitais do nordeste, justificando a influência que mantêm sobre aquela vasta área”, destaca Péricles de Carvalho.

Há, no entanto, duas barreiras reais que podem dificultar um maior crescimento do nordeste: a falta de infraestrutura física na região e a carência de mão de obra qualificada. As deficiências nos portos, aeroportos, estradas, ferrovias e no tocante à oferta de energia e água penalizam os empreendimentos em andamento e complicam a atração de novos investimentos – entraves que os recursos do PAC para a infraestrutura regional estão começando a enfrentar, porém, como esperado, com dificuldades de mão de obra. O nordeste dispõe de uma pequena rede formadora profissional, que serve a uma região atrasada mas não dá conta da demanda por trabalhadores qualificados num ritmo de crescimento econômico anual acima de 3%. Isso fica evidente em setores como construção civil, novas indústrias, hotelaria e serviços médicos hospitalares.

Medidas paliativas, como a formação de pessoal no canteiro da obra, importação de trabalhadores de outras regiões e cursos de treinamento em massa não substituem a formação clássica do trabalhador, que necessita ter, pelo menos, o nível médio completo para atender às demandas do novo mercado e dominar as ferramentas das modernas tecnologias. “Nas duas últimas décadas, o nordeste ampliou o número de matrículas e melhorou seu padrão de ensino, mas ainda está distante de uma resposta efetiva para quem precisa crescer mais rápido que as demais regiões brasileiras”, assinala Péricles.

Avançar mais depressa que o restante do país. Seguramente, esse é o principal tópico da agenda de desenvolvimento do nordeste. No sertão – que abrange 56% do território nordestino e onde está 40% da população, mas que representa apenas 20% do PIB da região –, a pobreza persiste. Embora os habitantes do semiárido vivam majoritariamente (63%) em áreas urbanas, o impacto econômico da seca, com perdas brutais de colheitas e de animais, reduz drasticamente a capacidade produtiva de pequenas comunidades agrícolas. Avanços aconteceram, não há dúvida. A proteção hídrica (açudes, barragens, adutoras, canais, perímetros irrigados, redes de abastecimento urbano e cisternas) foi ampliada e cobre boa parte do sertão. Enquanto isso, no litoral, em que pesem os significativos saltos registrados na área econômica, a defasagem educacional, o número de homicídios entre a população jovem e a insegurança alimentar ainda dão o tom. Decididamente, o nordeste não tem nem um minuto a perder.

 Revista Problemas Brasileiros

domingo, 8 de setembro de 2013

Notícias Geografia Hoje


Califórnia (EUA) quer "engarrafar" luz do Sol para armazenar energia 


Por Braden Reddall e Nichola Groom
Em San Francisco

O Estado norte-americano da Califórnia, cujas ambições na área de energias renováveis ajudaram a desenvolver as indústrias de energia solar e eólica, está tomando um próximo passo essencial, propondo um aumento acentuado no armazenamento de energia para uma melhor integração de energia renovável com o resto da rede.


As energias do sol e do vento oscilam dramaticamente e armazená-las para uso posterior tornaria a oferta mais previsível.

"Nós não podemos contar apenas com luz solar", disse o governador Jerry Brown na conferência Intersolar, em San Francisco, no mês passado. "Temos de engarrafar a luz do Sol."

O impulso de armazenamento da Califórnia ocorre enquanto as energias renováveis se movimentam em direção a uma participação de um terço do fornecimento de energia elétrica do Estado em 2020. A proposta desencadeou uma corrida tecnológica que já atraiu os investidores em capital de risco Peter Thiel e Vinod Khosla; fabricantes de baterias de grande escala, como a LG Chem; e potências já estabelecidas no mercado como General Electric GE.N e o fundador da Microsoft MSFT.O, Bill Gates.

Mas o movimento não é exclusivo da Califórnia. A Alemanha é uma pioneira do armazenamento, e nos Estados Unidos, fundos de estímulo apoiaram projetos em Nova York e no Texas.

Entretanto, a meta agressiva em renováveis do "Golden State" coloca pressão para avanço da tecnologia: visa armazenamento de até 1,3 gigawatts (GW) até 2020. Essa capacidade é suficiente para usinas tradicionais para abastecerem mais de um milhão de casas.

O analista da Lux Research, Steven Minnihan, disse que a proposta da Califórnia é a primeira legislação que terá um impacto imediato e duradouro no mercado de armazenamento de energia elétrica na rede, o que ele estima vá somar 10,4 bilhões de dólares em instalações em 2017 ante apenas 200 milhões dólares no ano passado.

Mas armazenamento é caro quando comparado com a construção de novas usinas a gás, e muitos projetos de armazenamento foram criados com a ajuda de fundos de estímulo que desde então desapareceram, o que significa que os clientes terão que arcar com grande parte dos custos. Há também os riscos de que as tecnologias de armazenamento não cumpram sua promessa.

Os defensores argumentam que os contribuintes serão beneficiados porque o armazenamento permite evitar a construção de usinas de energia ou de instalações de transmissão para atender a demanda de pico, simplesmente fornecendo energia extra por algumas horas por dia.

O armazenamento é visto como o "santo graal" da energia por causa da eficiência que traz para qualquer rede. Por exemplo, a Califórnia tem 51 gigawatts de capacidade de pico para lidar quando o calor aumenta a demanda por ar-condicionado, mesmo que apenas dois terços desse total seja necessário na maior parte do ano.

Notícias Geografia Hoje

Conferência Municipal do Meio Ambiente estabeleceu que esse patamar precisará subir para 13% em 20 anos



Após três dias de reunião na 4ª Conferência Municipal do Meio Ambiente, a cidade de São Paulo definiu, com empresários, representantes do governo e da sociedade civil, uma nova política para os resíduos sólidos e um plano de metas, denominado Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (Pgirs), para ser alcançado em até 20 anos. A ideia é que a cidade deixe o atual patamar, em que 98% dos resíduos são levados para os dois aterros municipais e apenas 2% são reciclados, para atingir o patamar em que apenas 13% dos dejetos sejam encaminhados aos aterros.

Micah Albert/ National Geographic

Cerca de 98% dos resíduos são levados para os dois aterros municipais e apenas 2% são reciclados

A ideia da conferência, segundo o secretário de Serviços, Simão Pedro, “é ampliar a reciclagem e a coleta seletiva para todos os distritos de São Paulo. Ele lembrou que a cidade rejeitou a proposta de incinerar os dejetos sólidos, dando prioridade à recuperação, reutilização e recolocação, na indústria, de materiais que podem ser reciclados”.

Durante o encontro, o Pgirs foi discutido com foco em cinco grupos: resíduos secos, resíduos orgânicos, resíduos da construção civil, resíduos volumosos e resíduos dos serviços de saúde. “Aprovamos aqui um conjunto de estratégias, que já constam, inclusive, do programa de [metas do] prefeito Fernando Haddad”, disse Silvano Silvério da Costa, presidente da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana do Município (Amlurb).

Entre as estratégias que foram estabelecidas estão a construção de centrais de triagem mecanizadas de maior porte, com a participação dos catadores, ampliação da coleta seletiva em todo o município de São Paulo, passando dos atuais 75 distritos para 96 distritos, a modernização dos galpões de triagem dos catadores e as ações de educação ambiental. Outra estratégia para a cidade, destacou o secretário, diz respeito aos resíduos da construção civil.

Pedro Kirilos / Agência O Globo

Meta é que a segregação dos resíduos comece nas residências

“Temos hoje um problema que são os pontos viciados. Há mais de 3 mil na cidade. A conferência apontou duas ideias: a primeira é o combate aos pontos viciados para eliminar essa chaga social que tanto mal causa às áreas de saúde, ambiental e paisagística. E também a de recuperação e reciclagem do material de construção civil e sua reutilização em mercados como o de produção de guias e de sarjetas”, disse Simão Pedro.

Outra ação de gestão de resíduos estabelecida como meta prevê que a segregação dos resíduos tenha início já nas residências. “Vamos fazer a retenção dos resíduos orgânicos em composteiras domiciliares e fazer a coleta seletiva dos resíduos orgânicos, que representa 50% do que geramos em casa. E esse resíduo pode virar um composto orgânico”, explicou Costa. Segundo ele, a meta é criar projeto piloto, que terá início ainda este ano, com a meta de instalar 2 mil composteiras na cidade, “em tipologias diferentes de residências, com porte de renda diferenciado em todas as regiões, para podermos avaliar como será feito esse plano”, explicou.

Outro programa que terá início ainda em 2013 é o da feira sustentável ou feira limpa, que prevê o reaproveitamento dos resíduos orgânicos, dos quais podem ser gerados compostos. “A ideia é que consigamos chegar até o final de 2016 com esse programa em 880 feiras da cidade”, disse o presidente da Amlurb.

Uma ação que também deverá ter início em curto prazo é a implantação das quatro centrais de reciclagem mecanizadas para quintuplicar o volume de resíduos secos recicláveis. “Hoje só reciclamos 50 toneladas e queremos passar para 1.250 toneladas em quatro anos”, destacou o secretário.

Empa – ewasteguide.info
Mulher separa manualmente os fios de cobre de um circuito eletrônico em reciclagem de eletrônicos

O plano de gestão é uma obrigação nacional. Toda cidade do país precisará desenvolver o seu Pgirs para atender à Lei 12.305 da Política Nacional de Resíduos Sólidos. A capital paulista já tem um plano de gestão, elaborado em 2012, mas que precisava ser reestudado para se adequar à Política Nacional de Resíduos Sólidos e também à Lei Federal de Saneamento Básico, entre outras. “A conferência aqui aponta claramente a ideia presente na lei nacional de diminuir o volume de resíduos que vão para os aterros”, disse Simão Pedro.

Para Costa, o plano é um importante instrumento para ajudar os gestores a fazerem suas políticas públicas. “O importante é que o plano passa a orientar a gestão municipal, quer dizer, temos uma concessão na cidade que vai até 2024 e que precisará ser rediscutida com os investimentos que temos previstos. A concessão da coleta e a prestação de serviços de limpeza e de varrição passam a ser reorientados com base nesse plano. E o município vai ter que se readequar para fazer seus investimentos orientados com base no plano. Então, é muito bom e importante para o gestor ter um plano de gestão que dá conta de todos os resíduos”, ressaltou.

Costa disse não acreditar que alguma das propostas estabelecidas pelo plano possam encontrar resistência ou dificuldade para implantação. “Temos, na conferência, representantes do empresariado, do Poder Público e da sociedade civil. Discutimos e fizemos o diagnóstico da situação dos resíduos em 31 subprefeituras da cidade. As diretrizes e estratégias foram discutidas com um grupo de trabalho, paritário, com 50% de representantes do Poder Público e 50% da sociedade. O documento foi discutido com a sociedade e o que foi aprovado também é uma proposta da sociedade. O município se sente então à vontade para cobrar, de todos os autores, as responsabilidades compartilhadas”, acrescentou.

Nos dias 20, 21 e 22 de setembro será promovida a Conferência Estadual do Meio Ambiente e entre os dias 24 e 27 de outubro, a Conferência Nacional.

sábado, 7 de setembro de 2013

Sol novo, Sol velho


Marcelo Gleiser
Você gostaria de se ver mais velho? Se houvesse um espelho mágico capaz de mostrar sua imagem em uma, duas ou mais décadas, você olharia?

Imagino que a opinião seria dividida, uns tantos sim, outros tantos não. Afinal, ver o futuro teria repercussão sobre como viveríamos no presente, o que criaria uma série de paradoxos estranhos.

Se no futuro eu me visse gordo e resolvesse fazer uma dieta, emagreceria? Se emagrecesse, não estaria mudando o futuro? E será que isso é possível? Afinal, o espelho me mostrou gordo... Ou, quem sabe, o futuro não seja um apenas, mas feito de múltiplas opções, como no conto de Jorge Luis Borges "O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam".

Deixando essas preocupações um tanto humanas de lado (voltaremos a elas em outro dia), o fato é que em astronomia, ao menos, ver o futuro e o passado é extremamente útil.

Tanto assim que um time internacional de astrônomos, liderados pelo brasileiro Jorge Meléndez, da USP, vem buscando estrelas semelhantes ao Sol, mais velhas e mais novas, para que possamos aprender sobre a evolução da nossa estrela-mãe. Para tal, o grupo usa o gigantesco telescópio em Paranal no Chile conhecido como VLT (do inglês Very Large Telescope, "Telescópio Muito Grande"), do ESO (Observatório Europeu do Hemisfério Sul), um consórcio de 15 países com vários instrumentos de grande alcance e precisão. O Brasil deve ratificar sua presença como membro oficial do ESO ainda este ano.

Em artigo de abril publicado no prestigioso "Astrophysical Journal Letters", com TalaWanda Monroe, também da USP, como primeira autora, o grupo revela dados de duas estrelas "gêmeas" do Sol, uma bem mais nova, a 18 Scorpii, e outra bem mais velha, a HIP 102152. Ou seja, um olho no nosso passado e outro no nosso futuro ou, ao menos, no futuro do Sol.

HIP 102152, com 8,2 bilhões de anos, é bem mais velha do que o Sol, que tem 4,6 bilhões de anos. A questão de maior importância para o público é se o Sol é uma estrela típica ou atípica. É bom sabermos, pois nossa sobrevivência na Terra depende do Sol e da sua estabilidade.

Caso seja uma estrela normal, dentro de sua classificação (estrelas aparecem em classes diferentes, dependendo da sua massa, temperatura etc.), o Sol continuará a gerar luz por muitos bilhões de anos, em torno do dobro da sua idade. Caso não seja normal, as coisas podem complicar. E, se complicarem, a vida na Terra poderá estar em apuros mais cedo do que gostaríamos.

Estudando 21 elementos químicos presentes nas três estrelas, o grupo mostrou que o Sol é uma estrela normal. Em particular, que o elemento lítio, que é bem mais raro no Sol do que em estrelas gêmeas mais novas, é destruído com o envelhecer da estrela: HIP 102152 tem aproximadamente a metade do lítio que temos aqui.

O grupo mostrou também que a HIP 102152 não tem planetas gigantes como o nosso Júpiter ou Saturno na região mais próxima dela, onde podem existir planetas rochosos como a Terra. Ou seja, da imagem do Sol idoso, aprendemos que o nosso Sol não foge à regra; o que possibilita que outros como ele tenham planetas como a Terra que, quem sabe, abriguem também formas de vida.
Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de "Criação Imperfeita". Escreve aos domingos na versão impressa de "Ciência".
Folha de S. Paulo

Notícias Geografia Hoje

Superterra tem atmosfera rica em água, diz estudo

SALVADOR NOGUEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Um grupo de astrônomos diz ter detectado a assinatura da atmosfera de um planeta que não tem análogo no Sistema Solar. E ela seria rica em água.

O trabalho foi liderado por Norio Narita, do Observatório Astronômico Nacional do Japão, e usou dois instrumentos do Telescópio Subaru para investigar uma superterra ao redor da estrela anã vermelha GJ 1214, localizada a 40 anos-luz da Terra. Infelizmente, esse mundo é quente demais para abrigar vida.

As superterras são planetas com tamanho intermediário entre os menores gigantes gasosos do Sistema Solar (Urano e Netuno) e os maiores planetas rochosos (Terra e Vênus).

Como não há correspondente em nosso sistema planetário, os astrônomos têm vários modelos de como podem ser esses mundos. Agora, com essa nova observação, eles parecem ter mais segurança de que não se trata de uma versão em miniatura de Netuno.

"Se fosse igual ao nosso Netuno deveria ter mais hidrogênio", afirma Cássio Leandro Barbosa, astrônomo da Univap (Universidade do Vale do Paraíba) que não se envolveu com a pesquisa.
Divulgação/NAOJ 
Concepção artística da estrela Gliese 1214, em azul, com o planeta GJ 1214b passando à sua frente, em preto


TRÂNSITO

Os pesquisadores têm a chance de analisar a atmosfera do planeta porque ele passa à frente de sua estrela periodicamente, num fenômeno conhecido como trânsito.

A luz da estrela, ao passar de raspão pelo invólucro gasoso daquele mundo, carrega sua "assinatura", que pode ser analisada pelos cientistas.

Contudo, não é fácil distinguir suas particularidades. O que os cientistas conseguiram ver é que não ocorre um espalhamento da luz que seria esperado se a atmosfera fosse rica em hidrogênio.

Sobra, portanto, o modelo que se apoia na grande presença de água. Mas os dados ainda não sugerem isso com absoluta confiança.

Por isso, os pesquisadores pretendem continuar observando, na esperança de obter mais medições que confirmem essa conclusão. O trabalho foi publicado no "Atrophysical Journal".
Folha de S. Paulo

Notícias Geografia Hoje

Nasa lança cápsula que buscará resolver mistério do crepúsculo lunar

DA EFE
EM WASHINGTON


A Nasa lançou na madrugada deste sábado uma cápsula robótica que orbitará a Lua para resolver um mistério de cinco décadas: os crepúsculos lunares.

A sonda Explorador de Atmosfera e Ambiente de Pó Lunar (Ladee, na sigla em inglês) tem o tamanho de um automóvel compacto, pesa 383 quilos e partiu segundo o programado às 0h27 (horário de Brasília) do sábado desde a instalação da Nasa em Wallops Island, uma ilha no litoral da Virgínia. A sonda estava acoplada em um foguete Minotaur V, usado pela primeira vez para este tipo de missões.

Um dos propósitos da missão, disse a agência espacial, é determinar se há pó lunar no alto da atmosfera da Lua.

O veículo espacial traçou um arco iluminado de sudeste a nordeste, visível da Carolina do Norte até o Maine, e sete minutos depois se separou do segmento propulsor principal fazendo sua travessia rumo à órbita lunar.
Carla Cioffi/Associated Press 
Foguete lança a sonda Explorador de Atmosfera e Ambiente de Pó Lunar, que tem o tamanho de um automóvel compacto

Os cientistas querem determinar se o pó lunar carregado eletricamente pela luz do sol foi a causa do resplendor na aurora sobre o horizonte da Lua detectado pelos astronautas durante várias missões da era de Apollo, nas décadas de 1960 e 1970.

"Às vezes nos surpreendemos quando começamos a falar de uma atmosfera lunar porque a maioria de nós aprendeu na escola que a Lua não tem atmosfera", comentou em uma teleconferência Sarah Noble, cientista do programa Ladee.

"Existe, mas é muito, muito tênue", acrescentou.

"Uma atmosfera tênue como a da Lua pode ser mais comum no sistema solar do que pensávamos", explicou em entrevista coletiva John Grunsfeld, administrador para ciência na agência espacial americana. "Um melhor conhecimento da atmosfera lunar poderia nos ajudar a entender melhor nosso diverso sistema solar e sua evolução", acrescentou.

A Lua tem o que os cientistas chamam de exosfera, isto é uma atmosfera tão tênue que suas moléculas individuais não atuam entre si. A Terra tem uma exosfera, mas localizada a centenas de quilômetros da superfície.

Na Lua, esta exosfera fica muito perto da superfície e isso a torna acessível para o estudo. O pó lunar, como o levantado pelos impactos, preocupa os cientistas porque pode prejudicar os sistemas em futuras naves, robôs exploradores e ainda as roupas dos astronautas. EFE

NOVIDADES

Além do primeiro uso de um foguete Minotaur V, outras novidades desta missão são os primeiros testes de um sistema de comunicação por laser com alta taxa de transferência de dados, e o primeiro lançamento além da órbita terrestre desde a instalação de lançamentos da Nasa no litoral da Virgínia.

A Ladee é, além de um projeto com um custo de US$ 280 milhões, a primeira cápsula espacial projetada, desenvolvida, construída, montada e testada no Centro Ames de Pesquisa da Nasa em Moffett, Califórnia.

O Minotaur V é um míssil balístico projetado para a Força Aérea que se transformou em veículo para lançamentos espaciais.

ETAPAS

Aproximadamente um mês depois do lançamento, a Ladee iniciará sua fase de trabalho de 40 dias. Nos primeiros 30 dias a sonda fará tarefas muito acima da superfície da Lua, incluindo o teste do sistema de comunicação por laser.

Após isso, começa uma fase científica de cem dias que recolherá dados usando três instrumentos para determinar a composição da atmosfera lunar e detectar a presença de pó em grande altitude.
Folha de S. Paulo

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Notícias Geografia Hoje

Estrela próxima pode ter 3 super-terras habitáveis
A descoberta de novos mundos ao redor da estrela-anã Gliese 667C foi publicada no Astronomy & Astrophysics

ESO/M. Kornmesser

Por Lee Billings

A partir de sua posição a 22 anos-luz de distância na constelação do Escorpião a estrela anã vermelha M, Gliese 667C, não parece muita coisa.

Sua tênue luz é perdida ao olho nu, superada pela luz de duas estrelas companheiras mais brilhantes.

Mas essa estrela diminuta, excessivamente comum, poderia ter um papel fundamental para estabelecer que planetas pequenos, potencialmente como a Terra, sejam comuns por toda a nossa galáxia.

Pesquisadores anunciaram que sete planetas orbitam essa estrela – e, se suas análises matemáticas estiverem corretas, três deles poderiam ser habitáveis.

Pesquisas anteriores de Gliese 667C revelaram dois planetas, incluindo uma “super Terra” potencialmente rochosa orbitando a zona habitável da estrela, a região em que um planeta pode possuir água líquida em sua superfície.

Batizado de Gliese 667 C c, esse mundo poderia ser um planeta “Cachinhos Dourados” [NT: Costumava-se chamar a ‘região habitável’, ou ‘zona habitável’ de uma estrela, de ‘zona/região de cachinhos dourados’, em referência ao conto da personagem em questão] como a Terra, com uma temperatura “perfeitamente adequada”: nem muito quente, e nem muito fria, para a vida como a conhecemos.

Agora, após anos de sugestões de que mais planetas talvez estivessem escondidos nos dados da estrela, uma equipe internacional de astrônomos, liderada por Guillem Anglada-Escudé da Universidade de Göttingen, na Alemanha, e por Mikko Tuomi da University of Hertfordshire, na Inglaterra, anunciaram sua descoberta de três ou cinco mundos adicionais ao redor da estrela.

Dois desses corpos adicionais poderiam ser super-terras orbitando a zona habitável, levantando a possibilidade de a estrela abrigar três mundos Cachinhos Dourados. O periódico Astronomy & Astrophysics publicou o estudo online em 26 de junho.

Ao contrário de nosso próprio sistema solar, com seu arranjo espaçoso de pequenos planetas internos e grandes mundos externos orbitando uma estrela anã-amarela do tipo G, todos os supostos planetas ao redor de Gliese 667C têm massa intermediária, mais ou menos entre a Terra e Urano. Mais estranho ainda, todos eles, à exceção de um, ficam amontoados em uma órbita como a de Mercúrio, o planeta mais próximo de nosso Sol. Esse tipo de sistema é chamado de “dinamicamente aglomerado”, porque seus planetas ficam espremidos lado a lado em todas as ilhas de estabilidade ao redor da estrela.

Em anos recentes, conforme torrentes de dados começaram a chegar de grandes buscas planetárias como a missão Kepler, da Nasa, astrônomos ficaram chocados em descobrir que esses sistemas compactos parecem ser a organização planetária padrão em nossa galáxia. “Nós sabíamos da Kepler que sistemas dinamicamente aglomerados eram dominantes ao redor de estrelas como o Sol, e agora temos outro [sistema] ao redor de uma anã M”, declara Anglada. O resultado sugere que muito mais sistemas compactos – e planetas potencialmente habitáveis – residem ao redor de estrelas anãs M próximas do que se acreditava anteriormente.

Encontrar esses planetas não foi fácil, porque mundos pequenos, potencialmente habitáveis, normalmente são pouco discerníveis contra um fundo cheio de ruído estelar. Ao contrário da maior parte dos mais de três mil planetas prováveis encontrados pela missão Kepler, da Nasa, que foram descobertos por seus trânsitos – as sombras que lançam na direção da Terra quando cruzam a fronte de suas estrelas – os planetas de Gliese 667C foram detectados por meio de uma técnica mais indireta: a oscilação que seu volume induz na estrela conforme se movem para frente e para trás em suas órbitas.

Para o sistema Gliese 667C, o arrasto gravitacional de cada planeta só muda a posição da estrela inteira em cerca de um metro por segundo – a velocidade do caminhar – mas a superfície fervilhante da estrela fica cheia de atividade interestelar que a qualquer momento pode apagar esse tênue sinal.

Discernir oscilações planetárias da ordem dos metros-por-segundo a uma distância de anos-luz é um pouco como ouvir uma música baixa entre cascatas de estática saindo de um rádio mal sintonizado. O sinal de um planeta solitário é como o som de uma única corda de guitarra, tocada contínua, pura e repetidamente, quase imediatamente reconhecível. Vários planetas, porém, são muito mais difíceis de decifrar: suas oscilações sobrepostas são mais parecidas com uma orquestra desafinada tocando tudo de uma vez; apenas ouvindo durante muito tempo você pode ter esperança de decifrar qualquer sinal vindo do ruído.

Pistas exoplanetárias iniciais 

As primeiras pistas claras de um grande sistema multiplanetário ao redor de Gliese 667C emergiu no ano passado, através do trabalho de Philip Gregory, um astrônomo da University of British Columbia em Vancouver. Gregory estava analisando dados públicos do espetrógrafo HARPS do Observatório Europeu do Sul, um instrumento de primeira linha para a caça a planetas localizado em La Silla, no Chile. Ele percebeu várias oscilações potencialmente planetárias que não tinham sido relatadas anteriormente, incluindo uma que se parecia com um planeta com 2,5 vezes a massa da Terra em uma órbita de 39 dias – isto é, outro planeta rochoso dentro da zona habitável da estrela além dos que já haviam sido descobertos – Gliese 667C c. Gregory redigiu suas descobertas e as enviou a um periódico, mas não disse ter descoberto novos planetas. 

Enquanto Gregory escrevia seu artigo, Anglada e seus colegas também estavam vislumbrando as evidências oscilantes dos mundos de Gliese 667 C ao combinar as medidas do HARPS com dados de dois outros telescópios. Eles analisaram os dados combinados usando dois métodos estatísticos distintos e independentes. Os dois métodos apoiavam fortemente a presença dos dois planetas anteriormente anunciados, além de três ‘novos’ planetas com órbitas e massas essencialmente idênticas ao que Gregory relatou em 2012. Um dos métodos também encontrou evidências de dois novos planetas pequenos, um em uma órbita quente de 17 dias, e outro em uma órbita gelada de 256 dias. Várias rodadas de simulações só fizeram aumentar sua confiança de que os planetas eram reais.

Gregory elogia o trabalho do grupo como “um passo adiante muito significativo”, e aponta que apesar de seu artigo ter “servido apra atrair atenção à possibilidade de vários planetas na zona habitável”, o estudo de Anglada contém “resultados mais definitivos”.

Estatísticas oscilantes

Mesmo assim, restam dúvidas. De acordo com Xavier Bonfils, líder da pesquisa de anãs M da equipe do HARPS, a equipe de Anglada usou vários ‘atalhos’ estatísticos que tornavam suas análises mais fáceis de executar, mas menos robustas. Um ponto fundamental, argumenta Bonfils, é que a equipe supôs que os planetas de Gliese 667C residem em órbitas quase-circulares, uma noção apoiada mais por simulações dinâmicas do que por dados reais da estrela. Órbitas “excêntricas” mais alongadas tornariam um sistema tão próximo, instável. Então, se os novos planetas são reais, a maioria deles deve ter órbitas de baixa excentricidade. Ou talvez simplesmente haja menos planetas do que o alegado.

“A análise que eles propõem parece matematicamente correta, mas é uma abordagem menos conservadora do que geralmente se faz”, comenta Bonfils, apressando-se a adicionar que espera que os planetas se provem genuínos. “Os sinais estão lá, mas isso não significa que todos eles sejam planetas”. Centenas de milhares de medidas custosas e demoradas poderiam ser necessárias para confirmar a origem das oscilações planetárias de alguns metros de Gliese 667C, lembra Bonfils.

Essa não é a primeira vez em que Anglada, Tuomi e seus colaboradores fizeram alegações desse tipo, aponta Sara Seager, uma importante pesquisadora de exoplanetas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que não se envolveu no estudo do grupo. Em anos recentes, o grupo também anunciou pequenos planetas – incluindo os potencialmente habitáveis – ao redor de outras estrelas, apenas de muitos deles continuarem sem confirmação.

O problema, como explica Seager, não é necessariamente que esses planetas não são reais, mas que as técnicas estatísticas usadas para revelar sua presença são tão confusas que há poucos precedentes claros e especialistas externos para verificar as alegações de maneira adequada. “Eles usam métodos especializados altamente sofisticados para extrair sinais muito fracos de dados ruidosos”, explica Seager. “Apenas um punhado de outras equipes do mundo conseguem reproduzir esse tipo de análise de dados”.

Mas se os resultados de Anglada se sustentarem, eles poderiam ajudar a reformular o futuro da busca por planetas. Sistemas multi-estelares e anãs vermelhas como Gliese 667 são os tipos mais comuns na Via Láctea, e se a maioria deles abrigar sistemas planetários aglomerados, os mundos habitáveis mais próximos fora do sistema solar poderiam estar realmente bem perto. 

“A resposta clichê a isso é que ‘alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias’”, lembra Greg Laughlin, outro especialista em exoplanetas da University of California, Santa Cruz, que não participou do estudo. “Mas você não pode considerar isso como sendo uma alegação extraordinária, porque mesmo que isso não se pareça em nada como nosso sistema solar, o que está sendo proposto é um arranjo planetários extraordinariamente comum”. Ele adiciona que a missão Kepler “claramente indicou que sistemas como Gliese 667C, e não sistemas como os nossos, são o modo padrão de formação planetária na galáxia”.
Scientific American Brasil

Notícias Geografia Hoje

Proteção marinha adiada
Rússia veta proposta de criação de reservas na Antártida

Barry Thomas/Flickt
O Mar de Ross e outros ecossistemas marinhos da Antárica estão sob pressão cada vez maior, mas propostas para transformá-los em santuários marinhos não receberam a aprovação da comissão internacional.

Por Daniel Cressey e Revista Nature

Planos ambiciosos para proteger milhões de quilômetros quadrados de mares antárticos foram afundados por uma surpreendente objeção legal de diplomatas russos.

Havia grande esperança de que as novas reservas no Mar de Ross e no Leste da Antártica seriam aprovadas em uma reunião internacional em Bremerhaven, na Alemanha esta semana. Os planos tinham o apoio de dezenas de cientistas, além de organizações não-governamentais (ONGs) e governos, incluindo Estados Unidos, Nova Zelândia e Reino Unido, e teriam protegido espécies que incluem pinguins, focas e peixes.

Barcos de pesca estão cada vez mais ávidos pelas águas antárticas.

A proposta para proteger o Mar de Ross se originou nos Estados Unidos e na Nova Zelândia, e teria banido a pesca em 1,6 milhão de quilômetros quadrados de mar, criando a maior reserva marinha do mundo e também estabelecendo uma zona especial para cientistas pesquisarem o impacto da mudança climática e de outras mudanças sobre a região.

Uma proposta separada, defendida por Austrália, França e a União Europeia, defendia a criação de sete áreas protegidas na costa leste da Antártica. 

Mas em 16 de julho, durante a reunião, vários participantes contaram que a delegação russa questionou a autoridade que a própria Comissão para a Conservação de Recursos Marinhos (CCAMLR), que regula a pesca na Antártica, tem para criar reservas.

O estabelecimento de qualquer reserva exige a concordância de todos os 25 membros.

Isso enfureceu ONGs, que apontaram que a CCAMLR já criou uma dessas ‘áreas marinhas protegidas’ e que todos os membros da comissão haviam concordado em princípio que essas zonas deveriam ser criadas.

Representantes de ONGs acusaram a Rússia de ir de má fé à reunião, que foi organizada especificamente para discutir as reservas marinhas que não foram aprovadas no ano passado. 

“Todos aqui estão muito decepcionados”, declara Steve Campbell, diretor de campanha da Aliança do Oceano Antártico, uma coalizão de grupos pedindo mais proteção marinha na região. “Então não há dúvidas de que a CCAMLR tem autoridade para estabelecer essas áreas”.

Campbell declara que ele ainda tem fé na capacidade que a CCAMLR tem de administrar eficazmente as geladas águas do sul, mas admitiu que a Comissão tinha “apostado sua reputação” nesse assunto. As duas propostas serão consideradas novamente na reunião anual da organização em Hobart, na Austrália, em outubro. 

Apesar de haver esperanças de que as zonas de proteção possam ser aprovadas na próxima reunião, a abordagem “linha dura” da Rússia no encontro desta semana é muito influente, e levanta sérias dúvidas sobre as chances de aprovação em Hobart.

Andrea Kavanagh, diretora da campanha Southern Ocean Sanctuaries conduzida pela Pew Charitable Trusts, uma organização não-governamental com sede em Washington capital e na Filadélffia, no estado da Pennsylvania, contou à Nature que estava “frustrada e triste” com o resultado em Bremerhaven.

“Essa objeção da Rússia foi completamente inesperada”, observa ela. “Serão necessárias medidas diplomáticas de auto nível para resolver isso”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 16 de julho de 2013.
Scientific American Brasil

Risco de seca ameaça planícies americanas

A única fonte de água das planícies altas pode esgotar se não houver mudança nas práticas agrícolas

Steve Scott/Shutterstock
Se não houver mudança nas tendências atuais de irrigação nas planícies altas dos Estados Unidos, cerca de 70% da água disponível poderá estar esgotado nos próximos 50 anos.

Por Erin Brodwin

Os fazendeiros do centro-oeste têm dependido do sistema aquífero das planícies altas (High Plains Aquifer System) desde que descobriram a solução para seus severos problemas de seca há quase seis décadas.

O gigantesco reservatório de água subterrânea transformou uma vasta faixa das Grandes Planícies da Dakota do Norte ao Texas em terras cultiváveis.

Nos últimos anos, porém, a exploração do aquífero disparou, levando os cientistas a prever que, salvo se houver uma mudança nas tendências atuais de irrigação, cerca de 70% do recurso hídrico poderá estar esgotado nos próximos 50 anos.

Os cientistas que estudaram o declínio das águas subterrâneas publicaram suas conclusões em 26 de agosto na edição on-line da Proceedings of the National Academy of Sciences. Eles constataram que os agricultores haviam gastado perto de 3% da capacidade do aquífero até 1960 e mais 30% até 2010. No atual ritmo de utilização, estimam eles, outros 39% da água desaparecerão até 2060.

Uma vez esgotado, o aquífero pode levar de500 a 1.300 anos para se reabastecer.

O aprimoramento das tecnologias de irrigação nas próximas duas décadas poderá permitir que os agricultores produzam mais com menos, possivelmente levando a uma redução da exploração das águas subterrâneas. No entanto, o número de lavouras de milho e pastos, que atualmente são responsáveis pelo maior consumo de água nos Estados Unidos, também deverá se multiplicar além de 2040.

Se os fazendeiros concordassem em usar menos água agora eles poderiam garantir o abastecimento futuro, diz o principal autor do estudo David Steward, um professor de engenharia civil na Kansas State University. Isso exigiria um esforço conjunto.

Os pesquisadores calcularam que os agricultores teriam que reduzir o bombeamento do aquífero em cerca de 80% para extrair água a um ritmo que permita o reabastecimento naturalmente pela chuva.

Usando dados coletados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, Steward e seus colegas mediram a variação do nível de água em todos os 3.025 poços do aquífero no início e no final dos quinquênios entre 1960 e 2010.

Em seguida, eles se basearam nesses padrões para prever o gasto futuro para os períodos de cinco anos entre 2060 e 2110 e compararam esses resultados com os dados da produção de milho e gado compilados anualmente pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Os pesquisadores descobriram que, embora os fazendeiros estejam utilizando a água de forma mais eficiente, eles também estão destinando cada vez mais terras para essas duas atividades.

Como o milho é uma cultura que envolve um consumo altíssimo de água e o gado se alimenta intensivamente de milho, aumentar as duas produções nessa região constitui um sério risco de esgotamento para o aquífero.

Os americanos e os europeus só começaram a praticar a agricultura nas Grandes Planícies nos anos de 1890, quando o encarecimento das terras associado aos temores de escassez de alimentos e incentivos atraentes do governo, os levou a se instalarem no árido “Grande Deserto Americano”, como era conhecido então. (Hoje a região é denominada High Plains, ou planícies altas.)

Embora soubessem que havia água subterrânea bem embaixo de seus pés, eles não tinham a tecnologia para bombear quantidades significativas para a superfície. Em vez disso, aqueles primeiros agricultores praticavam a aração profunda, que permitia que as raízes dos cereais acessassem a umidade no solo possibilitando o cultivo de plantas capazes de sobreviver às condições áridas.

Mas como a técnica removeu a cobertura de gramíneas nativas que dava sustentação ao solo, a terra ficou vulnerável aos ventos muito fortes da região. Na década de 1930 uma estiagem prolongada levou à formação de enormes tempestades de areia que deixaram as planícies estéreis.

No final dos anos 1950, com o advento do bombeamento de águas subterrâneas e da irrigação por aspersão, os fazendeiros retornaram àquelas terras para cultivar milho e trigo usando o suprimento aparentemente inesgotável do aquífero.

Hoje, sessenta anos depois, essa riqueza está em perigo, diz o professor de ciências agrárias e do solo Harold Mathijs van Es da Cornell University, que não esteve envolvido no estudo. “Precisamos refletir sobre o que está sendo cultivado ali e como está sendo cultivado. Estamo falando do dust bowl” (nome dado à região depois do longo período de tempestades de areia que viveu durante a década de 300, observa ele.

O problema do sobreuso de água não é exclusivo da região das High Plains.

No Vale Central da Califórnia, onde os fazendeiros usam a água que flui da Bacia do Rio Colorado para a irrigação, eles estão aprendendo a produzir mais com menos, porque a água salina da costa oeste começou a infiltrar nas águas subterrâneas em consequência da extração excessiva.

Se os agricultores que utilizam métodos de irrigação eficientes pudessem ser incentivados a plantar culturas menos exigentes em água, a situação poderia ser salva, afirma Samuel Sandoval Solis, professor assistente e especialista em recursos ambientais e hídricos, da University of California em Davis. “A comunidade agrícola está se adaptando”, observa Solis, que também não esteve ligado ao estudo. “De modo geral eles estão mais informados sobre o meio ambiente e isso é bom. As pessoas estão começando a pensar no futuro e a agir de modo proativo”.

Em vez de sugerir que os agricultores se abstenham completamente de acessar o aquífero das High Plains, Steward espera que o estudo incentive as pessoas a encontrar formas mais adequadas de utilizar esse recurso limitado. “Realizamos esse estudo para ajudar as pessoas a planejar o futuro”, declara. “Nós o escrevemos para o agricultor familiar que quer repassar a sua fazenda para as gerações futuras”.
Scientific American Brasil

Notícias Geografia Hoje


Novo material transforma calor em eletricidade
Apresentado como mais eficiente do mundo, material transforma entre 15% e 20% do calor residual em eletricidade útil e abre novas perspectivas para as energias renováveis



Uma equipe de cientistas desenvolveu um material termoelétrico apresentado como o mais eficiente do mundo para transformar calor desperdiçado em eletricidade, uma inovação que abre novas perspectivas para as energias renováveis.

O princípio da termoeletricidade consiste em reciclar o calor perdido, por exemplo no cano de escapamento dos carros, em eletricidade.

Mas o procedimento até agora tropeçava na ineficácia dos materiais termoelétricos. 


O novo material desenvolvido pelos pesquisadores da Universidade de Northwestern (Evanston, Estados Unidos) e apresentado esta quarta-feira em artigo na revista britânica Nature permitirá transformar entre 15% e 20% do calor residual em eletricidade útil.

Os campos de aplicação são variados e incluem a indústria pesada (refinarias, usinas de carvão ou de gás) ou automotiva.

Químicos, físicos, engenheiros mecânicos e outros especialistas colaboraram para a fabricação deste novo material, que faz uso de nanoestruturas, e tem como base o telúrio de chumbo (PbTe), um semicondutor utilizado pela primeira vez para fornecer energia renovável, termoelétrica, para as missões lunares Apolo.

Notícias Geografia Hoje


Substâncias tóxicas ameaçam saúde de 125 milhões de pessoas no mundo
Alguns dos produtos tóxicos mais nocivos são o chumbo, o cromo, o mercúrio e o amianto



Poluentes e substâncias tóxicas resultantes de atividades industriais ameaçam a saúde de 125 milhões de pessoas no mundo, especialmente nos países em desenvolvimento, onde 80 milhões correm risco de morrer prematuramente ou perder qualidade de vida pelo contato com essas substâncias. O dado foi divulgado nesta quarta-feira em teleconferência pela diretora-executiva da Cruz Verde da Suíça, Nathalie Gysi, durante a apresentação do "Relatório de Meio Ambiente 2012". 

O documento, apresentado pela Cruz Verde Suíça e pelo Instituto Blacksmith de Nova York, identifica os dez piores poluentes de todo o mundo e quantifica a escala global o dano que as substâncias tóxicas causam à saúde. O chefe do projeto do Blacksmith Institute, Bret Ericson, detalhou que as pesquisas foram realizadas em 2.600 áreas industriais de 49 países com níveis de renda baixos ou moderados nas regiões da América Latina e do Caribe, do leste da Europa, da Ásia e da África. 

Alguns dos produtos tóxicos mais nocivos são o chumbo, o cromo, o mercúrio e o amianto (ou asbesto), em processos como a reciclagem de baterias, a fundição de chumbo, a mineração e o processamento de minerais. Os poluentes também afetam pessoas que trabalham em lixões de resíduos industriais e domésticos, e em outros processos como o curtume, a mineração artesanal, a fabricação de produtos - eletrônicos, baterias e revestimentos metálicos -, a produção química e a indústria do tingimento têxtil.

Queimar lixo não é a melhor solução, afirmam especialistas

Resolver problema de resíduos urbanos com incineração, como proposto em Maringá, é alternativa cara e com riscos de contaminação
Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo

Getty Images
Ativistas do Greenpeace fazem protesto em usina de incineração de lixo em Auckland, na Nova Zelândia, em 2003

O que é melhor fazer com as 150 mil toneladas de lixo urbano produzidas diariamente no Brasil? Apesar da pressão pelo aumento da coleta seletiva e reciclagem, que resultou na Lei Nacional de Resíduos Sólidos, em 2010, em mais da metade das cidades do País ainda predomina o despejo dos resíduos em terrenos a céu aberto e sem nenhum tipo de tratamento – os chamados lixões.

O prefeito de Maringá, Sílvio Barros (PP) quer resolver o problema da sua cidade com uma solução pouco comum no Brasil: uma usina de incineração de lixo. O custo da obra está avaliado entre R$ 180 milhões e R$ 200 milhões. De acordo com o projeto, a meta da usina é queimar 500 toneladas de lixo por dia, no entanto, a cidade paranaense produz diariamente cerca de 300 toneladas.

De acordo com especialistas ouvidos pelo iG, a solução que aparentemente é de alta tecnologia já se mostra antiga. Eles afirmam que existem mais de 100 usinas de incineração pelo mundo, mas que os resultados se mostraram pouco satisfatórios pelo excesso de monitoramento necessário. “Não é uma solução, o custo é muito alto, há contaminação e emissão de gases. É uma forma de arrancar dinheiro do contribuinte”, disse Sabetai Calderoni, presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável e especialista em lixo. Para Calderoni, existem outras soluções como reciclagem e compostagem que se adequam melhor à realidade brasileira
.
Uma das principais críticas à incineração é que ela não segue a lógica de redução da produção de lixo e do aumento da reciclagem, recomendadas pela Lei Nacional de Resíduos Sólidos. Gina Rizpah Besen, mestre pela Faculdade de Saúde Pública da USP afirma que a política de incineração vai contra a lei por seguir uma lógica inversa ao não estimular a redução da produção de lixo. “Ela não é adequada do ponto de vista ambiental, porque para funcionar precisa de plástico e põe em risco os catadores de lixo e emite mais que um aterro sanitário comum”, disse. No entanto, de acordo com dados da Agência de Proteção ao Meio Ambiente da Grã-Bretanha mostram que a reciclagem e a compostagem aumentaram até 19% entre 2003 e 2004, quando as usinas britânicas começaram a funcionar. 

Outra crítica que ambientalistas fazem é que as usinas de incineração necessitam de material reciclável por ele ser mais comburente. “É necessário o uso de materiais de queima mais fácil. Manter uma usina queimando apenas lixo orgânico é muito caro”, disse Luciano Bastos, do Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais da Coppe/ UFRJ. No Brasil, em média, 60% do lixo é orgânico, o chamado lixo úmido, o restante é material que pode ser reciclado, como vidro e papel.


Getty Images
Manifestantes reclamam que usina de incineração de lixo na Nova Zelândia libera moléculas cancerígenas

De acordo com Bastos, a capacidade mínima de uma usina de incineração para que ela seja economicamente viável é 150 toneladas de lixo por dia. Para se ter uma ideia, a cidade de São Paulo produz diariamente 15 mil toneladas de lixo e a do Rio, 9 mil toneladas.

Nem tudo é ruim

O grande trunfo da incineração, no entanto, está em gerar energia a partir do lixo. Aterros sanitários também podem gerar energia a partir da captação de gases emitidos pela decomposição do lixo, mas de acordo com estudo da Agência Americana de Proteção Ambiental (EPA), a incineração é capaz de produzir cerca de 10 vezes mais energias que os aterros. “Nem sempre se consegue captar energia dos aterros, e paga-se muito caro para fazer sua distribuição”, concorda Calderoni.

Um projeto experimental de usina de incineração foi instalado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desde 2004, a Usina Verde recebe diariamente 30 toneladas de resíduos sólidos, pré-tratados, provenientes do aterro sanitário no Caju.

Após passar pela triagem, o lixo é levado para forno fechado na Usina Verde que realiza a queima em temperaturas altíssimas de 950º C. Os gases resultantes desta queima são levados até uma caldeira, o vapor gira a turbina que gera a energia.

Para o professor Luciano Bastos, que coordenou o projeto da Usina Verde, o processo de incineração é monitorado o tempo inteiro para que não ocorra escape de gases para a atmosfera. Sobre a crítica de que a incineração gera moléculas cancerígenas que afetariam a saúde dos catadores, o pesquisador defende que os níveis gerados são os mesmos produzidos por veículos a diesel.

Gina afirma que o projeto da usina é muito mais caro do que campanhas educacionais para a redução e reciclagem de lixo. “Pode até ser que o sistema funcione, mas em geral ele é caro. Sabemos que já existem mecanismos de controle das emissões, mas não sabemos o efeito cumulativo disso”, disse. Para Calderoni, os custos de segurança não compensam: “É um negócio que precisa de fiscalização, que tem um custo muito alto”, critica.

Reciclagem é a melhor rota energética

Para Bastos, o ideal seria associar a reciclagem ao uso de tecnologias como o uso de biodigestores, onde o lixo é confinado em ambiente sem oxigênio e bactérias digerem o lixo gerando adubo a partir do lixo orgânico e gases que podem ser aproveitados em veículos.

“A incineração é uma alternativa, mas não é a única. Se houvesse coleta seletiva plena, não caberia ter incineração”, disse Bastos. Ele afirma que o ideal é reciclar “tudo o que for possível e depois aplicar as tecnologias”. Para ele apenas o material rejeitado pelos catadores pode ser aplicado para a incineração, tanto por motivos ambientais quanto econômicos.

“A reciclagem é a melhor rota energética do lixo, pois com ela a indústria economiza energia”, disse. De acordo com o pesquisador, cada tonelada de material reciclado gera três megawatts/hora de energia economizada, enquanto a melhor tecnologia de incineração gera energia a partir do lixo de um megawatt/hora.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Berço da Vida

Embora ocupem a maior parte da superfície da Terra, os oceanos são pouco conhecidos, apesar da sua importância para os humanos.
Por Gilles Boeuf*


Os oceanos cobrem hoje mais de 70% do planeta, têm profundidade média de 3.700 metros e cobrem mais de 90% do solo habitável. Apesar disso, apenas 13% de todas as espécies conhecidas vivem nos mares. Segundo o Censo da Vida Marinha de 2010, o número total de espécies marinhas conhecidas está entre 230 mil e 250 mil.

Dois fatores ajudam a explicar esses números tímidos. Primeiro, nosso conhecimento do oceano profundo e das formas mais comuns da vida marinha – microorganismos, bactérias e microalgas – ainda é fragmentado. Novos métodos e tecnologias estão ajudando a resolver essa situação, como o sequenciamento do oceano, por exemplo, que consegue filtrar todo o DNA presente numa dada amostra de água. Cerca de 80% das amostras obtidas com esse método tendem a ser novas para a ciência.

A segunda razão para a suposta modesta biodiversidade marinha é a falta de barreiras geográficas no oceano, o que predispõe a menos endemismo (a ocorrência exclusiva de uma espécie em uma dada região) do que em terra. As cianobactérias podem ser encontradas em todo o oceano, enquanto espécies de grande porte tendem a ocupar um espaço geográfico mais limitado.

Pode haver menos biodiversidade nos oceanos do que nos continentes, mas os laços evolutivos entre diferentes formas de vida, descritos pela filogenia, são bem mais variados no mar do que em terra. Essa é uma herança da nossa história ancestral, à medida que as primeiras formas de vida se desenvolveram no mar.

Hoje, 12 dos 31 filos (grandes grupos taxonômicos) do reino animal vivem em oceanos, incluindo braquiópodes e estrelas-do-mar. As bactérias sob a superfície oceânica representam sozinhas 10% da biomassa baseada em carbono do planeta, e o fitoplâncton, mais de 50%!

O meio ambiente marinho teve papel fundamental na evolução da vida e do clima na Terra, até hoje. Os mais antigos vestígios de carbono de origem biológica, encontrados em rochas sedimentares na ilha de Akilia, na Groenlândia, datam de 3,85 bilhões de anos (Ba) atrás.

As rochas denominadas estromatólitos contêm os mais antigos fósseis de microorganismos – cianobactérias – que conquistaram os oceanos há 3,4-3,2 Ba. O oxigênio surgiu na atmosfera há 3,5 Ba, graças à quebra de CO2 pela fotossíntese, mas seriam precisos outros 300 milhões de anos (Ma) para ele permear o oceano. Os níveis de oxigênio aumentaram espetacularmente na superfície do oceano há 2,3 Ba, e de novo há 800-542 Ma. Nos últimos 100 Ma, a atmosfera foi composta de 21% de oxigênio.

O surgimento da reprodução sexual nos oceanos acelerou o processo evolutivo, favorecendo um acervo genético mais amplo. A explosão de vida do Cambriano (iniciado há 542 Ma) viu os primeiros animais saírem dos oceanos para viver em terra. A primeira planta vascular apareceu há 430 Ma, bem como os primeiros artrópodes (insetos, crustáceos, etc.) e peixes primitivos sem mandíbula.

Em 2008, a indústria pesqueira tirou 160 milhões de toneladas de espécies dos oceanos, segundo a Organização para a Agricultura e a Alimentação (FAO), da ONU. Dois terços (93 milhões de toneladas) vieram da pesca e o restante (67 milhões de toneladas) foi produzido pela aquicultura.

As espécies ancestrais que povoam os oceanos fornecem não só comida, mas também 15 mil remédios: antibióticos, drogas antitumorais, imunoestimulantes, imunossupressores, hormônios de crescimento, regeneradores de ossos, etc. Seres marinhos muitas vezes considerados insignificantes se provaram indispensáveis para o avanço da medicina e da biologia, ajudando-nos a compreender processos como a carcinogênese e o envelhecimento. Urge protegê-los.

* O autor trabalha na universidade Pierre e Marie curie e no Museu Nacional francês de história Natural.
Revista Planeta

Rios de desleixo

Muito lento para corrigir seus erros e aprimorar sua infraestrutura, o Brasil ainda não consegue seguir os exemplos da França, da Inglaterra e da Coreia do Sul
Por Camilo Gomide
Amazônia: 70% da água doce do país para 7% da população.

Rio Tietê, em São Paulo, em 1905: várzeas preservadas e desfrutáveis

A situação dos rios brasileiros preocupa o presidente do Conselho Mundial da Água.

Benedito Braga, 65 anos, nascido em Catanduva (SP), é engenheiro civil, doutor em recursos hídricos pela Universidade Stanford (EUA) e presidente do Conselho Mundial da Água.

Novas estimativas da ONU apontam para um futuro árido: até 2025, dois terços da população mundial poderá sofrer com a falta de água doce. Com 9 bilhões de pessoas no planeta, 2 bilhões a mais do que os 7 bilhões atuais, o consumo do recurso subirá 30%. Preocupada com a crise iminente, a ONU definiu 2013 como o Ano Internacional da Cooperação pela Água. Dia 22 de março é o Dia Mundial da Água.

Os novos alertas são endossados enfaticamente pelo presidente do Conselho Mundial da Água (World Water Council), Benedito Braga, uma das maiores autoridades em recursos hídricos. Preocupado com a situação dos rios urbanos brasileiros, Braga desconfia das promessas demagógicas de salvação dos políticos e adverte: “É praticamente impossível limpar o Tietê.”

Benedito Braga foi um dos principais defensores da criação da Lei das Águas (1997), que consagrou o líquido como um bem de domínio público e um recurso de valor econômico, abrindo o caminho, entre outras coisas, para a cobrança pelo seu uso. Engenheiro civil, integrou a Diretoria da Agência Nacional de Águas (ANA) desde a sua criação até 2009. Em 2012, foi eleito presidente do Conselho Mundial da Água, organização que representa governos de 60 países, a ONU, o Banco Mundial e entidades ambientais globais. Seu objetivo é desenvolver políticas para os recursos hídricos e conscientizar os políticos e o público da importância da conservação das águas para o futuro da sociedade. Braga está bem no centro da crise.

Qual é o maior problema que enfrentamos nos recursos hídricos?
Temos uma situação no Nordeste muito preocupante. Um estudo da ANA mostra que em dez anos, se não forem tomadas ações efetivas, 50% dos municípios da região sofrerão crise no suprimento de água. Nosso primeiro problema é que os açudes estão sofrendo um sério desafio de eutrofização (proliferação de algas que consomem o oxigênio da água). Sem oxigênio, a água fica imprópria para o consumo e também falta peixe. Com o desenvolvimento econômico, aumenta o uso da água para a irrigação de culturas, que consomem fertilizantes, os quais contêm nitrogênio, fósforo e potássio. O escoamento superficial leva esses produtos para os lagos e eutrofiza a água. Podemos acabar sem fontes de água para as cidades.

Esse é um problema global?
Sem dúvida. No sudeste da Ásia e na África Equatorial é igualzinho. O segundo maior problema é a escassez. Com o aumento da população e a mudança nos padrões de vida, o consumo aumenta. Em áreas de grande escassez, como o Oriente Médio, o norte da África, regiões do Brasil e da América do Sul, a falta de providências nos encaminha para uma situação insustentável. Na Grande São Paulo, se não começar a fazer obra “ontem”, vai ter rodízio no abastecimento, de novo. A situação é realmente crítica e muitos alertas já foram dados.

Além de faltar água, a que existe está contaminada?
É paradoxal, mas é verdade. O maior problema de Manaus é a poluição dos igarapés, que força a cidade a procurar água subterrânea. Imagine: Manaus, na margem do Rio Negro! Ela tem os mesmos problemas de São Paulo: poluição dos riachos, dificuldade de suprimento de água, inundação...

O que poderia ser feito para lidar com a poluição e a escassez?
Investir em saneamento. À medida que isso estiver sob controle, a probabilidade de contaminar a água cai. O grande problema da poluição nos nossos riachos urbanos não é a indústria, que já reutiliza água; são os municípios, que não tratam dela. A solução é forçar os prefeitos a providenciar tratamento de esgoto. Custa caro, mas também custa caro não ter água para beber. Para lidar com a escassez é preciso “reservar” água a fim de fazê-la chegar às pessoas. Há trinta anos, o Nordeste tinha açudes que enchiam quando chovia. A água ficava parada, evaporando e salinizando, a ponto de ficar imprópria para o gado. Felizmente, foram feitas adutoras que ligam um açude ao outro e chegam às cidades e aos povoados. A situação melhorou muito, a região tem água armazenada e pode-se fazer com que ela circule até onde precisa chegar.

O Brasil é um país muito rico em recursos hídricos, com 12% da água doce de superfície no mundo. Como o sr. avalia as políticas públicas no setor?
O Brasil tem 12% da água doce, mas 70% dela está na Amazônia, onde há 7% da população. E cerca de 30% da população está no Nordeste, que tem 3% dessa água. O Brasil tem água onde não tem gente, e onde tem gente não tem água. Em lugares com chuvas razoáveis, a água está contaminada, como no Sudeste. Em 1997 aprovaram-se a Lei das Águas e a criação da ANA, para implementar um sistema participativo e descentralizado de gestão do recurso, por meio dos Comitês de Bacia. O país evoluiu do ponto de vista legal e institucional, mas os problemas de falta de saneamento e poluição crescente são sérios.Também poderíamos utilizar melhor os rios para a navegação. O custo é mais baixo e aumenta a segurança nas estradas, com menos caminhões.

Dá para despoluir os rios metropolitanos de São Paulo?
A chance de termos rios urbanos limpos de novo, mesmo usando a tecnologia mais sofisticada do mundo, é quase zero. São Paulo começou a crescer em meados dos anos 1920 e virou uma potência. Em virtude dos processos industriais, os rios foram poluídos. A cidade se expandiu na cabeceira de uma bacia hidrográfica, nas nascentes, onde há pouca água. Nos anos 1970, criou-se um sistema que trazia água da Serra da Cantareira para a cidade. Metade da água servida à população de São Paulo vem de lá. Essa água depois vira esgoto e é jogada no Tietê, no Tamanduateí e no Pinheiros. Joga-se nesses rios uma quantidade de poluentes 50% maior do que a vazão média dos rios. Portanto, é quase impossível limpar o Tietê. Não se consegue tratar 100% do esgoto. Trata-se 98%, mas os 2% restantes, em termos absolutos, significam uma demanda bioquímica e de oxigênio da água enormes. Os modelos de análise mostram que, mesmo com todos os esgotos tratados, em algumas partes do rio ainda continuará faltando oxigênio. É um problema sem solução? Talvez não. Talvez a tecnologia evolua e o empreendimento se justifique financeiramente.

Por que a Inglaterra, a França e a Coreia do Sul conseguiram despoluir os rios urbanos e nós não podemos?
Podemos, mas Paris está quase na foz do Sena e Londres, na foz do Tâmisa. A questão determinante é a quantidade de água disponível, o fluxo, a vazão do rio. Em São Paulo, ao contrário, estamos na cabeceira do Tietê, que tem muito menos água.

Quais são os prejuízos da poluição dos rios urbanos?
A cidade mal planejada vive com problemas que afetam seu crescimento. Do ponto de vista estético é ruim. Quando chove, baixa a pressão atmosférica, o gás sulfídrico retido no rio é liberado e sente-se fedor. Também há os vetores de doenças, como pernilongos, conhecidos de quem mora na beira do Rio Pinheiros, em São Paulo, e precisa ter telas na casa. Além disso, há inundações e a questão do abastecimento. São Paulo, tal como Los Angeles, é uma cidade enorme desprovida de água para oferecer à população. Por isso vamos buscar água na Serra da Cantareira, no Rio São Lourenço, no Juquiá e, no futuro, no Rio Ribeira de Iguape. Cada vez vai ficando mais complicado.

Por que há tantas inundações em cidades mal planejadas?
O principal problema é ocupar o espaço que é do rio e não deixar espaço para a água se infiltrar na terra. Em São Paulo, ao redor do Tietê, havia várzea, onde acontecia o “futebol de várzea”. Vinha a enchente e inundava o campo e não havia problema: a água era absorvida. Hoje, a Avenida Marginal está dentro do rio! O fundo do vale deveria ter sido deixado para o rio. A velocidade com que a água chega da sarjeta ao rio, que está canalizado, e de lá para outro rio, é alta e muito superior à capacidade de vazão do rio. Em São Paulo, a água que escorre para o rio não tem mais para onde escoar e não é absorvida.

No livro Nordeste, escrito em 1936, Gilberto Freyre já dizia que os brasileiros não respeitam os rios.
Construímos nossas casas de costas para os rios, ao contrário dos europeus. Isso quer dizer que vemos os rios como um meio de transporte de lixo. Criou-se uma cultura de uso do rio como receptáculo de lixo, e depois de esgotos.

A má gestão de recursos hídricos gera prejuízos econômicos?
Em alguns países da África existe uma correlação entre o aumento de chuva e o crescimento da economia. Se não chove, o Produto Interno Bruto (PIB) cai, pois os países não têm capacidade de “reservar” água. Os EUA e a Austrália armazenam o equivalente a cinco mil metros cúbicos por habitante por ano. Eles têm água até se não chover durante um ano. Enquanto isso, a Etiópia tem 45 m3 por habitante por ano. Ou seja, não armazena nada. Do ponto de vista dos prejuízos com as enchentes, 14% do PIB é perdido nas inundações. A infraestrutura é fundamental, tanto para segurar a enchente quanto para armazenar água para o futuro. Quando olhamos o cenário para os próximos anos, com as mudanças climáticas e previsões de impactos sensíveis, percebe-se o imperativo de desenvolver a infraestrutura para enfrentar o desafio. Mas só infraestrutura não basta. Precisamos de gerenciamento e de boa governança: temos de conservar e usar a água com eficiência.
Revista Planeta

Diplomacia da Escassez

A maior escassez de água do mundo ocorre na explosiva região formada por Israel, Jordânia e Palestina
Por Anders Jägerskog*


Mar da Galileia: o lago com maior volume de água doce de Israel tem o seu nível de água monitorado constantemente.





Morador de Gaza enche garrafa d’água em uma fonte pública. Quando há conflitos, Israel costuma cortar o fornecimento do recurso vital.


A mais grave escassez de água do mundo está no Oriente Médio. O déficit é alarmante sobretudo na bacia do rio Jordão e nos aquíferos adjacentes da sua margem ocidental, onde as reivindicações de água de israelenses, palestinos e jordanianos se cruzam. Em Gaza e na Cisjordânia, a disponibilidade anual de água está bem abaixo de 100 m3 de água renovável por pessoa, enquanto Israel tem menos de 300 m3 e a Jordânia, cerca de 100 m3. Em geral, um país é caracterizado como carente de água se a disponibilidade é inferior a 1.000 m3.

O crescimento populacional, resultado tanto da elevada taxa de natalidade de palestinos e jordanianos quanto da imigração para Israel, pressiona cada vez mais os já escassos recursos hídricos e amplia o risco de conflitos pela água. Um fator complicador é a diferença entre a grande parcela de água disponível para os colonos israelenses, na Cisjordânia e na região de Gaza, e a ínfima cota acessível aos palestinos.

Apesar dos temores de violência relacionada com a água, Israel e Palestina, assim como Israel e Jordânia, mantêm uma cooperação básica em relação às suas águas compartilhadas. Isso persistiu mesmo após a segunda “intifada”, o levante palestino iniciado em setembro de 2000. A cooperação sobre água entre Israel e Jordânia, sob os auspícios da ONU, vem desde o início dos anos 1950, apesar de os dois países estarem formalmente em guerra na época. Essa interação ajudou a construir a confiança e um conjunto de regras e normas comuns, formalizadas em 1994 no acordo de paz Israel-Jordânia. Por esse acordo, foi estabelecido um Comitê Conjunto de Água para coordenar e resolver problemas, que ajudou a solucionar as divergências sobre alocações.

Um acordo provisório de 1995 regula as questões de água israelo-palestinas, como a proteção dos sistemas de água e esgoto. O Comitê Conjunto de Água e as subcomissões continuaram a se reunir, apesar da violência persistente nos últimos anos. Para os palestinos, o atual acordo é insatisfatório, tanto em termos de direitos quanto de disponibilidade de água.


Cooperação fundamental

As conversações para um acordo final integram o processo global de negociação e, devido ao impasse político e aos conflitos, provavelmente não serão concluídas em breve. Israelenses e palestinos concordam, porém, que a cooperação sobre a água que partilham é indispensável.

Duas recomendações políticas principais podem ser tiradas desse caso. Em primeiro lugar, a cooperação envolvendo a água está intimamente ligada à política, um processo altamente complexo influenciado por considerações nacionais e internacionais. Se os doadores falham ao não analisar todo o contexto político, épouco provável que entendam como a água é, por vezes, subordinada a prioridades políticas mais importantes e usada como ferramenta.

Em segundo lugar, agências, organizações internacionais e doadores podem ter um papel importante se estiverem preparados para dar suporte em longo prazo ao estabelecimento de cooperação sobre a água compartilhada. Os doadores querem tipicamente ver resultados tangíveis em curto espaço de tempo. É essencial, contudo, compreender os riscos envolvidos, a inevitabilidade de retrocessos ocasionais e a dificuldade de materialização rápida das recompensas. Eles terão de se engajar em um “processo de financiamento” que apoie não um simples projeto de desenvolvimento, com um ciclo de dois a quatro anos, mas um processo que pode abranger de 10 a 25 anos.

No caso Israel-Jordânia, a Organização das Nações Unidas para Supervisão da Trégua, que atuou como um “guarda-chuva” para discussões sobre a coordenação de água, apesar da ausência de um acordo de paz, desempenhou um papel fundamental.

Embora mais conflitos de interesse possam surgir no futuro sobre a bacia do Jordão, a gestão da água, com o apoio adequado, oferece uma janela de oportunidade para uma cooperação mais ampla nessa parte conturbada do mundo.
Revista Planeta

Geografia e a Arte

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