sexta-feira, 24 de julho de 2009

DARFUR

À ESPERA DE UM SALVADOR

Darfur, no Sudão, cenário de um genocídio silencioso,
é um lugar sem lei e sem espaço para a misericórdia divina.
Seria também um lugar sem nenhuma esperança, não
fosse o trabalho humanitário de um batalhão de abnegados


Diogo Schelp, de El Fasher

Jehad Nga/Corbis/Latinstock

NO LIMITE DA SOBREVIVÊNCIA
Mãe e filho refugiados no campo de Abu Shouk. Darfur é beneficiado com o maior programa de distribuição de alimentos do mundo. Nos últimos anos, a taxa de desnutrição infantil caiu na região, mas continua acima da linha de emergência

Em um mundo em que a corrente de informação circula ao ritmo de terabytes por segundo e quase tudo o que se quer saber está, para 1 bilhão de pessoas, a apenas um clique de distância, como explicar que a tragédia de Darfur seja invisível? O mundo ignora ou finge ignorar que Darfur, no Sudão, é cenário de uma guerra de extermínio contra uma população indefesa. O mesmo mundo que se apieda de um filhote de urso-polar abandonado pela mãe no zoológico de Berlim fecha os olhos para as centenas de milhares de crianças subnutridas dos 130 campos de refugiados de Darfur. O mundo que está prestes a comemorar o Natal, festa que ultrapassou os limites do cristianismo para congraçar homens e mulheres de diferentes credos, esquece que em Darfur a noite de 24 de dezembro será apenas véspera de mais um dia em que crianças morrerão, homens serão executados e mulheres, estupradas. Vem sendo assim desde 2003, quando eclodiu o conflito entre o governo do ditador Omar al-Bashir e rebeldes dessa região do oeste sudanês. E também quando, armados pelo governo de Cartum, bandos de facínoras, a pretexto de combater revoltosos, intensificaram a matança indiscriminada de cidadãos que não pertenciam à sua etnia "árabe".

A questão étnica que alimenta as atrocidades perpetradas na região é, por assim dizer, atávica em Darfur – e nada tem a ver com o tipo de disputa que está na base dos conflitos modernos. De acordo com uma pesquisa divulgada na semana passada pelo Instituto para o Estudo de Conflitos Internacionais de Heidelberg, na Alemanha, os principais motivos de tensões no mundo, hoje, são os fatores ideológicos (teocracia contra estado secular, por exemplo) e o separatismo ou busca por autonomia regional – e tais não são os casos em Darfur. O que se tem ali é uma guerra que há muito perdeu qualquer propósito. O que se tem ali é uma matança selvagem, seja por meio de fuzilamentos sumários, seja por meio da fome imposta pelo isolamento. Paz, em Darfur, é um conceito demasiado abstrato, inalcançável até mesmo como metáfora para as crianças que crescem em campos fétidos e violentos. A única luz nesse mundo escurecido pela ausência da razão é proporcionada pelo trabalho das organizações humanitárias. Os valores universais da civilização, celebrados por ocasião do Natal, movem os voluntários em Darfur como os ventos giram os moinhos. Esses abnegados de diferentes partes do planeta, inclusive do Brasil, mantêm viva a esperança de que, um dia, a comunidade internacional finalmente dirá um sonoro basta ao que ocorre no Sudão.


Evelyn Hockstein/The New York Times


NEGLIGENCIADOS
Refugiada acena para comboio da ONU no campo de Taiba. Mais da metade das crianças de Darfur em idade escolar não estuda e 1 milhão vive em campos como este, em Darfur do Oeste, onde ONGs fazem o papel do estado ao prover serviços de saúde e saneamento

Tomorrow, inshallah: "Amanhã, se Alá quiser". A frase, parte em inglês, parte em árabe, é repetida em tom monocórdio nas repartições públicas do Sudão, como resposta aos estrangeiros que cobram a autorização do governo para viajar a Darfur, no oeste do país. A guerra civil na região provocou uma crise humanitária de proporções épicas. Quase metade dos 6 milhões de habitantes de Darfur vive em aglomerações humanas improvisadas, os campos de deslocados internos – ou, simplesmente, refugiados. Outros 2 milhões de pessoas ainda não deixaram suas aldeias, mas foram afetadas pela destruição de lavouras ou pela morte de familiares. A exigência da permissão a estrangeiros para viajar à zona de conflito é uma tentativa do governo de sonegar ao resto do mundo dados e imagens dos horrores cometidos em Darfur. O ditador sudanês Omar al-Bashir, que chegou ao poder em 1989 em um golpe organizado por fundamentalistas islâmicos, tem mesmo o que esconder. Com a justificativa de combater rebeldes que lutam contra o regime, o governo do Sudão bombardeia aldeias e apóia os janjaweeds, milícias autoproclamadas árabes cuja missão é limpar Darfur de outras etnias. Ao todo, já morreram 300000 pessoas. Hoje, os ataques acontecem com menos intensidade do que no início da guerra, em 2003 e 2004. Mas não são números que definem um genocídio.

Cinco anos atrás, quando a opinião pública do planeta começou a ser informada sobre a matança em Darfur, havia a convicção de que as organizações mundiais provariam sua capacidade de impedir, às portas do século XXI, extermínios como os que assolaram a história dos 100 anos anteriores. Hoje, os fatos atestam que tal desígnio fracassou. Este mês marca o aniversário de sessenta anos da assinatura da Convenção para a Prevenção e Punição do Genocídio da Organização das Nações Unidas, que definiu como crime internacional a tentativa de destruir a totalidade ou parte de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Segundo o texto da ONU, não é preciso haver assassinatos em massa para que um crime seja classificado como genocídio. Impor condições de vida subumanas a um grupo de pessoas semelhantes entre si, com o objetivo de levar à sua destruição física, também se enquadra nos critérios da convenção. É o que ocorre em Darfur. O número de combatentes e civis mortos de maneira violenta caiu de 4500 em 2006 para 3000 no ano passado. O genocídio silencioso, no entanto, segue seu curso. Desde o início deste ano, 300000 pessoas foram obrigadas a deixar suas casas, suas pequenas lavouras e suas terras. Elas fogem dos ataques a suas aldeias, do estupro coletivo e da desertificação do Sahel, a faixa semi-árida ao sul do Deserto do Saara que domina a paisagem local.

Evelyn Hockstein/The New York Times


IMPROVISO
O campo de Kalma, em Darfur do Sul, foi estabelecido por refugiados da etnia fur, em 2004, sobre uma tradicional rota de migração de povos nômades, o que só serviu para aumentar as tensões étnicas no local. Em 2008, em Darfur, foram registrados mais de cinqüenta confrontos entre tribos rivais

Vista do alto, Darfur é uma região predominantemente desértica, entrecortada de leitos secos de rios. Sazonais, eles só têm água durante três meses por ano, em média. De perto, a aridez é amenizada pelo colorido dos panos usados pelas mulheres muçulmanas para se cobrir e pela existência de uma vegetação esparsa que exibe improváveis árvores frondosas, como mangueiras. Sob uma delas, na cidade de El Fasher, capital de Darfur do Norte, rebeldes de uma das facções do Exército de Libertação do Sudão (SLA, na sigla em inglês) aproveitam a sombra para conversar sentados em cadeiras de plástico ou apoiados em seus Kalashnikov, com os quais dão sua contribuição às atrocidades da guerra. Cinco vezes ao dia, eles estendem seus tapetes e rezam voltados para Meca, enquanto o fuzil automático repousa ao lado. Entre as casas de alvenaria de El Fasher, construídas sobre a areia fofa, os carros traçam aleatoriamente o percurso das ruas.

Khaled El Fiqi/EFE


AJUDA INTERROMPIDA
Refugiada prepara-se para cozinhar no campo de Kalma. Os ataques de milícias a veículos de agências humanitárias fazem com que 3 milhões de pessoas, que dependem de doação de alimentos para sobreviver, recebam apenas 65% da cota diária individual recomendável, de 2 100 calorias

Essa Darfur quente, de natureza hostil, é dividida em três estados: o já citado Darfur do Norte, o do Sul e o do Oeste. Juntos, representam quase um sexto do território do Sudão, o maior país da África. A fé da maioria da população é o islamismo – a assertiva vale também para Darfur. Há dezenove etnias no país, que por sua vez se dividem em seis centenas de tribos distintas. O nome Sudão tem origem na palavra "negro", em árabe. "Terra dos negros": era assim que os mercadores e traficantes de escravos vindos do Oriente Médio – introdutores do islamismo a partir do ano 1000, em substituição ao cristianismo – se referiam ao atual território sudanês. Um milênio de miscigenação fez com que em todas as tribos predominasse o mesmo tom de pele muito escuro, inclusive naquelas que se definem como "árabes". A identificação étnica, hoje, tem mais a ver com hábitos culturais, como o nomadismo, do que com a aparência física. Desde a independência do Império Britânico, em 1956, os "árabes" do norte do país detêm o monopólio do poder político e econômico, concentrado na capital, Cartum. Negligenciado pelo centro do poder, o sul, de maioria africana e católica, deflagrou em 1983 uma guerra de secessão que levaria à morte de 2 milhões de pessoas. Um acordo firmado em 2005 acabou com o conflito, dando mais autonomia e mais dinheiro aos estados do sul do país. Foi quando o sul e o norte iniciaram as conversações de paz, que deflagraram uma nova guerra civil em Darfur, onde havia décadas tribos majoritárias se sentiam prejudicadas pelos sucessivos governos corruptos de Cartum. A população da região, quase toda muçulmana, é formada por dezenas de tribos, divididas entre as que também se dizem árabes, em geral nômades e pastoris, e outras de cultura eminentemente africana, de hábitos sedentários e dedicadas à agricultura. A violência étnica, que já era parte do cotidiano local havia séculos, exacerbou-se quando milícias "árabes" começaram a ser armadas por encrenqueiros – inclusive externos, como Muamar Kadafi, ditador da Líbia. Para complicar, grupos armados do Chade, empenhados em derrubar o governo de seu país, usam a região sudanesa como refúgio.

Os rebeldes de Darfur, no começo da década, eram formados exclusivamente por membros de etnias como os furs, os zaghawas e os masalits, que se viram obrigados a se armar para proteger suas terras dos janjaweeds. O governo sudanês reagiu aos primeiros ataques dos rebeldes, ampliando assim seu apoio às milícias. Na prática, isso significou armar os janjaweeds e preparar o terreno para os seus ataques. Há relatos de aldeias que foram cercadas pelo Exército sudanês, para que ninguém fugisse antes de os janjaweeds entrarem, saquearem, matarem indiscriminadamente e reunirem as mulheres para estupros coletivos. Hoje, os rebeldes provêm de todas as etnias da região – porque a guerra contra elas é total. "Em Darfur, os árabes e os africanos se parecem uns com os outros. Foi a propagação da ideologia da supremacia islâmico-árabe entre os povos nômades do deserto que levou negros a matar negros," explica o historiador Muhammad Jalal, da Universidade de Cartum.

Lynsey Addario/Corbis/Latinstock


REINÍCIO
Uma mulher tenta reconstruir uma cabana, dias depois de sua aldeia, em Darfur do Oeste, ter sido bombardeada pela Força Aérea sudanesa, em fevereiro


A reportagem de VEJA visitou, no mês passado, cinco campos de refugiados nos três estados de Darfur. As histórias dos moradores desses campos se repetem com variações ínfimas: suas aldeias foram bombardeadas; seus familiares, assassinados pelas milícias; suas mulheres, raptadas e violentadas. Ou: a aldeia vizinha foi atacada e eles acharam que seriam os próximos. Ou: houve combates entre rebeldes e janjaweeds, a aldeia foi afetada, suas lavouras foram queimadas e o gado, roubado. "Meus irmãos foram assassinados a tiros e minha casa, incendiada pelos janjaweeds", conta Fatima Adam Abdala, de 30 anos. Na fuga, ela caminhou durante dois dias até chegar ao campo de Kalma, em Darfur do Sul, onde vive hoje. Um dos homens responsáveis por proteger a população civil de ataques como esses é o general Henry Anyidoho, de Gana, vice-representante especial da Unamid, a força de paz conjunta da ONU e da União Africana em Darfur. Na tarde de 23 de novembro, um domingo, Anyidoho recebeu VEJA para uma entrevista em seu contêiner com ar condicionado no quartel-general da Unamid, em El Fasher. No mesmo dia, a 100 quilômetros a noroeste dali, uma aldeia foi bombardeada pela Força Aérea sudanesa, informação que só chegou ao comando da Unamid 48 horas depois. O episódio demonstra a impotência dos mecanismos aos quais foi confiada a tarefa de impedir o genocídio que adentra o século XXI.

A missão de paz integrada por Anyidoho não é omissa. Ela simplesmente não conta com o contingente e o equipamento necessários para cumprir seu mandato de impor a paz em Darfur – à força, se necessário. A resolução da ONU que criou a Unamid se dispôs a enviar 26.000 homens e 24 helicópteros militares à região. Hoje, há apenas 9.300 capacetes azuis (a cor das Nações Unidas) para monitorar um território do tamanho do Paraguai (outros 2.400 devem chegar ainda neste mês). E nenhum helicóptero. Repita-se: nenhum. Em julho passado, um comboio da Unamid foi pego numa emboscada por uma milícia com duas centenas de homens armados. No embate, sete soldados da força de paz morreram. Se houvesse helicópteros militares, os 22 feridos poderiam ter sido evacuados em vinte minutos. Como não havia, o resgate levou três horas. Uma missão de paz depende da boa vontade das nações para receber soldados e veículos emprestados. "Quem sabe o governo brasileiro não pode ceder alguns de seus aviões militares da Embraer?", diz Anyidoho. Ele está acostumado a não ser ouvido. No início da década de 90, o general ganense de 120 quilos era o segundo no comando da força da ONU em Ruanda, quando 800000 tútsis foram massacrados por milícias hutus. Anyidoho e seu chefe, o general canadense Roméo Dal-laire, alertaram a comunidade internacional sobre a limpeza étnica antes que ela acontecesse e pediram ao Conselho de Segurança mais soldados e autorização para impedir a matança. Em vez disso, foram ignorados e impedidos de interceder no que o presidente americano Bill Clinton chamou, na ocasião, de "assunto interno de Ruanda". Anyidoho assistiu impotente ao genocídio.



"Eu entrei para o SLA em 2003, depois que minha aldeia foi atacada e as milícias cometeram o primeiro estupro em massa da guerra. Na ocasião, meu irmão foi assassinado brutalmente na frente da minha mãe. Ela morreu no ano passado em um campo de refugiados no Chade."

COMANDANTE ADAM ALI WAR, membro de uma das facções do Exército de Libertação do Sudão (SLA, na sigla em inglês). Na foto ao lado, Adam está no centro, entre dois rebeldes do grupo, em El Fasher


Em relação a Darfur, para contrabalançar a ineficácia da missão de paz propriamente dita, está em curso uma operação de ajuda humanitária que atenua as vicissitudes dos refugiados. Graças a ela, a taxa de desnutrição caiu pela metade nos últimos anos. Atuam na região dezesseis agências da ONU e 85 ONGs, que prestam serviços como atendimento de saúde e distribuição de comida. Para cada 366 habitantes de Darfur, há um trabalhador humanitário. Entre eles, Mauricio Burtet, de 32 anos, um gaúcho hiperativo que trabalha em El Fasher como chefe de campo do Programa Alimentar Mundial (PAM), agência da ONU especializada em distribuição de comida em situações de emergência. Burtet explica a dificuldade de trabalhar na região: "As cotas de comida que conseguimos distribuir a cada pessoa estão abaixo do ideal, porque nossos carregamentos têm sido roubados e nossos motoristas, seqüestrados". Só neste ano, 100 caminhões do PAM desapareceram nas mãos de bandos armados, que ninguém sabe identificar se são janjaweeds, rebeldes ou um dos grupos criminosos sem filiação política que proliferam em Darfur, onde um AK-47 pode ser comprado por 100 dólares. Nos morros cariocas, custa 120 vezes mais.

As organizações de ajuda e a Unamid enfrentam uma situação paradoxal em Darfur. Elas estão lá para proteger a população civil, mas, para atuar, dependem da boa vontade do governo sudanês – algoz dos refugiados. A Unamid, por exemplo, precisa importar milhares de toneladas de equipamentos para suas tropas, de material de escritório a veículos blindados. Com freqüência, os fiscais do governo sudanês levam meses para liberar os contêineres da Unamid na alfândega. Os trabalhadores humanitários passam por dificuldades semelhantes com a burocracia estatal. A atividade das ONGs ficou ainda mais penosa depois do indiciamento de Omar al-Bashir, em julho passado, pelo promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), o argentino Luis Moreno-Ocampo. O ditador foi indiciado por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra em Darfur. Se os juízes do TPI acatarem a acusação, uma decisão a ser tomada nos próximos meses, Al-Bashir não poderá mais viajar a nenhum país signatário do tribunal internacional, incluindo o Brasil. Ele será preso se o fizer. Com isso, Moreno-Ocampo criou um motivo a mais para os burocratas sudaneses, afundados em seus sofás velhos nos prédios públicos decrépitos de Cartum, repetirem seu mantra: "Tomorrow, inshallah". Não surpreende que os funcionários da ONU e das ONGs humanitárias critiquem Moreno-Ocampo, a quem acusam de exibicionismo e de não pensar nas conseqüências políticas de suas decisões. "Nunca ouvi dizer que a Argentina tivesse bons advogados", ironiza o etíope Abdul Mohammed, diretor do departamento político da Unamid.

Fotos Lynsey Addario/Corbis/Latinstock


SEM CONTROLE
No alto, soldados nigerianos da Unamid em patrulha em El Geneina. Acima, adolescentes de uma milícia que recebe guarida do regime sudanês em Darfur e às vezes entra em confronto com rebeldes da região


Para além do destemor, os oficiais da missão de paz – que se dividem entre militares e policiais – têm em comum o abatimento. "Temos uma missão impossível", diz William Caine, um policial inglês aposentado. De dentro do quartel-general da Unamid em El Fasher, ele aponta para o campo de Abu Shouk, com cerca de 50000 pessoas, onde os capacetes azuis fazem patrulhas durante o dia. Não há contingente para fazer o mesmo à noite, quando ocorrem tiroteios e raptos de mulheres. Entre suas tarefas está uma paradoxal: treinar a polícia sudanesa dentro de padrões de respeito aos direitos humanos e tentar estabelecer um elo de confiança entre essas forças de segurança e os refugiados. "Como fazer isso se a polícia daqui representa o mesmo governo que os ataca?", pergunta-se Caine.

Que o digam os refugiados de Kalma, em Darfur do Sul. Na manhã do dia 25 de agosto, a polícia sudanesa tentou entrar em Kalma, campo com mais de 80000 pessoas, para procurar por armas e rebeldes. Trinta e três moradores foram mortos e setenta feridos, incluindo mulheres grávidas e crianças. "Ainda tenho medo de que isso possa se repetir", diz Fatima Adam Hamis, de 20 anos, que teve uma irmã e um sobrinho feridos no episódio. O psiquiatra Alberto Hexsel, de 54 anos, gaúcho de Passo Fundo, que passou alguns meses trabalhando para a organização Médicos sem Fronteiras, estava próximo a Kalma quando o ataque aconteceu. Ele participou do socorro aos feridos. "Nós entramos no campo horas depois e, além de muito sangue no local do massacre, vimos chinelos e sapatos espalhados, deixados para trás durante a correria", conta Hexsel. Como na maioria dos campos, os refugiados de Kalma vibraram ao saber que Al-Bashir havia sido indiciado pelo Tribunal Penal Internacional. Mas, também a exemplo do que ocorre nos outros campos, não esperam que o ditador seja preso ou deposto para tentar melhorar sua vida.

Evelyn Hockstein


"Quando fugi de minha aldeia, caminhei durante dois dias para chegar aqui. Às vezes, o governo cerca o campo e passamos cinco dias sem poder sair para trabalhar."

FATIMA ADAM ABDALA, de 30 anos, que vive há cinco no campo de refugiados de Kalma. Ela não acredita que um dia poderá voltar para casa


Depois de quatro ou cinco anos morando de maneira improvisada, os refugiados procuram dar a suas cabanas um aspecto menos precário. Uma das atividades mais dinâmicas nos arredores dos campos é a produção de tijolos. Entre Abu Shouk e Al Salaam, em Darfur do Norte, o terreno ganhou um aspecto de queijo suíço, com centenas de crateras de onde mulheres, homens e crianças cortam pequenos blocos de barro. Em Hamadiya, em Darfur do Oeste, próximo a Jebel Marra, montanha dominada por rebeldes, as acácias e palmeiras foram derrubadas para alimentar o fogo dos fornos de fabricação de tijolos. Sobraram alguns poucos baobás, árvores de caule largo, comuns na savana africana. Com o tempo, as cabanas de palha ou tendas estão sendo substituídas por casas com paredes de barro ou tijolo artesanal. Taiba, em Darfur do Oeste, e outros campos habitados por clãs árabes são uma exceção. Com medo da guerra, seus moradores abandonaram os hábitos nômades, mas mantiveram a tradição de viver em cabanas de palha efêmeras.

Os campos de refugiados são verdadeiras bombas populacionais: a maioria continua recebendo milhares de pessoas por ano. Elas buscam desesperadamente um lugar onde possam ter alguma sensação de segurança, por menor que seja. "A maioria dos campos está à distância de um dia de caminhada de uma base da Unamid", diz o diretor de Informação Pública Kemal Saiki, um argelino que usa um relógio em cada pulso, come faláfel três vezes por dia e já serviu em meia dúzia de missões de paz ao redor do mundo. Nos campos, os refugiados têm condições mínimas de se sustentar por conta própria, pois não há espaço para plantar ou manter uma criação numerosa de bodes e camelos. "Tenho uma pequena plantação a três horas de caminhada do campo", diz Tigani Bilal Suleiman, de 55 anos, morador de Al Salaam que consegue com isso obter uma renda equivalente a 2 dólares por dia. Outros homens tentam algum subemprego nas cidades e as mulheres recolhem lenha para vender, sob o risco de serem estupradas nos arredores do campo. "A violência sexual é um problema real em Darfur, mas o governo quer abafar o assunto, impedindo as ONGs de criar programas de apoio psicológico às mulheres", disse a VEJA o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, John Holmes.

Evelyn Hockstein



"Voltar para minha aldeia natal é um sonho distante. Mesmo que se firme a paz, não podemos retornar sem ter condições mínimas de sustento ou serviços básicos de educação e saúde. Aqui, dou aulas de inglês, mas preferia ter um emprego em uma agência da ONU em Darfur."

YUSSUF IBRAHIM, de 25 anos, do campo de Hamadiya. A guerra o obrigou a interromper a faculdade de direito. Três de seus irmãos e duas irmãs foram mortos a tiros pelos janjaweeds


O ponto de encontro de trabalhadores de organizações de ajuda humanitária, funcionários da ONU e jornalistas, enquanto lutam contra a burocracia montada para impedi-los de ir a Darfur, é Cartum. A capital do Sudão é uma introdução eloqüente ao país. O banheiro do Ministério das Relações Exteriores não tem vaso sanitário, apenas um buraco no chão. Os diplomatas saem dali e têm de limpar a sola dos sapatos no tapete vermelho do corredor. Com exceção de algumas poucas vias principais, as ruas de Cartum são de terra, inclusive no centro da cidade. Como chove muito pouco – 150 milímetros por ano, um décimo da média de Brasília –, isso faz da capital sudanesa um lugar empoeirado e marrom. Nem o fato de a cidade estar situada junto ao encontro dos rios Nilo Azul e Nilo Branco salva a paisagem.

Não há muito que fazer na capital. Os canais de televisão abertos são controlados pelo governo. Os jornais, censurados. "Todas as tardes, um funcionário da segurança nacional vem à redação para vetar os artigos que falem do indiciamento de Al-Bashir, de Darfur ou dos desastres ambientais causados pela exploração de petróleo", diz Omuno Otto, membro do conselho editorial do jornal Khartoum Monitor. Apenas um em cada 126 sudaneses tem acesso à internet. No Brasil, a média é de um em cada cinco habitantes. Quando podem, os sudaneses embebedam-se às escondidas, trancados em casa, já que a lei islâmica pune com chicotadas o consumo de álcool. Traficantes etíopes oferecem cerveja e uísque nas calçadas do centro, como se vendessem maconha. Uma garrafa do uísque Johnnie Walker Red Label sai por 100 dólares no mercado negro, três vezes mais do que num supermercado brasileiro. Em maio deste ano, o tédio foi interrompido quando um grupo de rebeldes de Darfur, o Movimento da Justiça e Igualdade, ocupou por um dia um subúrbio de Cartum, depois de atravessar 600 quilômetros de deserto. Pela aparência e falta de infra-estrutura, Cartum faz jus à condição de capital de um dos países mais pobres do mundo. O Sudão está logo abaixo do Haiti no ranking do índice de desenvolvimento humano da ONU. A taxa de mortalidade infantil sudanesa é uma das quinze mais altas do planeta. O serviço de saúde gratuito praticamente inexiste. Mesmo o cidadão mais pobre, quando vai a um hospital público, tem de pagar. As clínicas particulares parecem cortiços. A qualidade dos médicos é tão baixa que, com freqüência, o paciente sai da consulta com três diagnósticos diferentes e a orientação para fazer tratamento para todos eles, por garantia.

Lynsey Addario/Corbis/Latinstock


VISADAS
Mulheres de Hamadiya voltam de mercado na cidade de Zalingei, em Darfur do Oeste: afastar-se do campo de refugiados é arriscado, por causa dos estupros freqüentes


As condições de vida dos sudaneses contrastam com os recursos naturais de seu país. A exportação de petróleo estimula um crescimento econômico que, no ano passado, foi de 12,4%. Isso faz do país a segunda economia que mais cresce na África, atrás apenas de Angola. Sob sanção econômica dos Estados Unidos desde 1997, por apoio ao terrorismo islâmico e pelo conflito em Darfur, o Sudão está à margem do sistema financeiro mundial. Todo viajante no país se torna um cofre ambulante, já que cartões de crédito não são aceitos e é preciso carregar dinheiro em espécie. O isolamento aproximou o Sudão da China, hoje seu maior parceiro comercial e investidor. Os chineses são os maiores acionistas da principal empresa petrolífera do país e dominam os contratos na área de infra-estrutura, onde ainda há tudo por fazer: o Sudão tem apenas 3000 quilômetros de estradas e ruas asfaltadas, das quais quase metade foi construída pelo terrorista Osama bin Laden, que viveu em Cartum na década de 90 a convite do governo. Os interesses econômicos da China no Sudão deram a Al-Bashir um aliado com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU. Isso explica em parte por que é tão difícil aprovar resoluções de represália ao seu governo – outra razão é a ajuda que o Sudão recebe de países como o Brasil, que se absteve em 2006 numa votação da ONU que visava a exigir a investigação dos crimes em Darfur. Quando permite a aprovação de sanções, a China não as respeita: o país asiático vende equipamentos militares às forças sudanesas, apesar da resolução das Nações Unidas que proíbe o comércio de armamentos com o país africano.

Há um consenso de que a crise humanitária em Darfur só terá fim com negociações de paz que incorporem os líderes rebeldes à política nacional, como ocorreu no acordo que acabou com a guerra civil entre o norte e o sul do país. Uma tentativa de colocar rebeldes e o ditador Al-Bashir para negociar está sendo feita pelo governo do Catar, no Oriente Médio. O problema é que Al-Bashir já descumpriu outros acordos de cessar-fogo. Por isso, são exigidas do seu governo quatro provas de confiança. A primeira será admitir que os habitantes de Darfur foram vítimas de atos criminosos por parte do estado, cuja obrigação era protegê-los. A segunda será compensar financeiramente os afetados pela guerra. A terceira será abolir a divisão de Darfur em três estados, uma medida adotada na década de 90 para enfraquecer a oposição. Por fim, mas não nessa ordem, o governo deverá cessar por completo os bombardeios e iniciar o desarmamento das milícias. Este será o maior desafio porque, como diz o ditado sudanês, dar comida ao leão é fácil. Difícil é tirar. O indiciamento de Al-Bashir irritou o regime militar do Sudão e atrapalhou o trabalho das organizações internacionais no país. Mas criou uma oportunidade: Darfur voltou ao centro das preocupações dos políticos do país e há uma convicção generalizada de que é preciso encontrar uma saída para a região. Esse pode ser o primeiro passo para a paz. Inshallah.



Revista Veja - 2008

terça-feira, 21 de julho de 2009

O Comércio Ambulante

Camelôs pelas ruas, nos semáforos e espalhados pelos centros das grandes cidades não é fenômeno recente nem exclusivo a países do terceiro mundo, como explica o professor Eustógio Dantas, da Universidade Federal do Ceará.
por Eustógio Wanderley Correia Dantas*

A presença do comércio ambulante está ligada à vida das cidades. Em trabalhos e relatos desenvolvidos por cientistas, pintores e escritores encontram-se menções a este tipo de atividade que se desenvolve nas ruas de todas as cidades do mundo.

O comércio ambulante está presente nas cidades brasileiras desde os primórdios, construindo e fazendo parte do drama cotidiano urbano.


Pinturas do francês Jean-Baptiste Debret ilustram o comércio ambulante nas ruas do Rio de Janeiro no século XIX.



No Brasil, textos de escritores e poetas como Aluísio de Azevedo e Adolfo Caminha contêm informações sobre a presença do comércio ambulante na cidade já no século XIX. Ademais, ainda encontram-se registros feitos por artistas como Debret, cujos quadros documentaram a venda feita pelos escravos, que se deslocavam de porta em porta das casas do Rio de Janeiro em meados do século XIX para venderem aves, leite, frutas, carne defumada, pão-de-ló, linguiça, sonhos, café torrado, refrescos, cadeiras, cestos e ainda prestavam serviços de barbeador e carregador.

Por meio desses relatos, tem-se o registro da presença do comércio ambulante nas cidades brasileiras desde os seus primórdios, fazendo parte e construindo o drama cotidiano das cidades com suas cores, cheiros e sons característicos. Entretanto, a caracterização da atividade no passado — e que lembra o comércio ambulante atual exercido nas cidades brasileiras — passa por uma série de mudanças. Dois fatores são responsáveis por essas modificações: a ampliação do número de comerciantes e, posteriormente, a atividade passar a ser considerada ilegal.


Hipóteses sobre o comércio ambulante


Buscando resolver essa questão, são levantadas algumas teses. Uma delas é a de que o comércio ambulante acabaria tão logo o país atingisse certo grau de desenvolvimento. Tal argumentação baseava-se na ideia de que o comércio ambulante deixara de existir nos países desenvolvidos. A partir daí, cunhou-se a teoria do dualismo estrutural ou tecnológico nos países subdesenvolvidos e que atribuía a permanência de atividades como o comércio ambulante somente enquanto resquícios de atividades e formas herdadas do passado e, portanto, com o desenvolvimento do capitalismo nos países subdesenvolvidos, seria consubstanciada a suplantação deste terciário arcaico pelo terciário moderno.

Fenômeno Internacional

Embora tais considerações tenham sido colocadas enquanto verídicas nos países desenvolvidos, o historiador francês Fernand Braudel as desmistifica quando constata a continuidade do comércio ambulante em países como França e Inglaterra. Para o autor, caso o comércio ambulante estivesse fadado ao fim, na “Inglaterra teria desaparecido no século XVIII, e em França, no século XIX. Todavia, a venda ambulante inglesa conheceu um recrudescimento no século XIX, pelo menos nos arredores das cidades industriais mal abastecidas pelos circuitos normais de distribuição”.



Henri Lefébvre
Sociólogo e filósofo francês, foi um dos maiores estudiosos da vida urbana do século XX. É considerado por muitos um geógrafo da cidade, embora não tivesse formação como tal. Uma de suas maiores preocupações e objeto de grande parte de seus estudos é a importância da reprodução das relações sociais e da produção do capital no espaço.


Opiniões dos estudiosos

O economista peruano Hermano de Soto é um dos teóricos a analisar o comércio ambulante conforme este pressuposto. Para o autor, “no caso do comércio ambulante, as pessoas começaram a invadir a rua pública para nela dispor e realizar operações comerciais sem ter licença, nota fiscal nem pagar impostos, ainda que em alguns casos tenham sido favorecidas for algum regime de exceção legal que (…) proporciona a tolerância municipal”. A segunda tese consiste uma ruptura em relação às perspectivas anteriores, ao colocar em evidência as características do processo de desenvolvimento do capitalismo nos países subdesenvolvidos.

Assim, para alguns teóricos – como o sociólogo Emanuel Bandeira de Souza – a existência do comércio ambulante, resiste enquanto atividade (re)criada pelo capital. Para o autor, “a história do capitalismo revela que ora o capital recria, ora estimula a reprodução de trabalhos não assalariados como recurso para sua ampliação. O seu objetivo principal é a produção de mercadorias e não, necessariamente, a reprodução do trabalho assalariado, embora seja esta a sua relação de trabalho ideal”. Por meio da teoria do desenvolvimento desigual e combinado do capital, passa-se a considerar o processo de modernização ocorrido nos países subdesenvolvidos, processo que, por ser poupador de mão-de-obra, gera por um lado o desemprego e o subemprego.


Globalização dos Camelôs.


A compreensão dessas transformações dá-se por meio da consideração da história do espaço como condição para compreensão da realidade, pois, conforme defendia o sociólogo e urbanista francês Henri Lefébvre , “toda realidade dada no espaço se expõe e se explica por uma gênese no tempo”. Nesses termos, envereda-se numa análise do processo de constituição da cidade moderna, a qual resulta de uma tendência posta à transformação do lúdico, do local de encontro e da festa em “locus” de consumo, dado que vai levar à redefinição da centralidade no tempo com a transformação do centro das cidades brasileiras em “locus” privilegiado do consumo, principalmente das classes de menor poder aquisitivo da sociedade brasileira.

Esse processo denota uma nova articulação entre as diversas partes da cidade e o centro, que perde sua hegemonia em relação às áreas nobres e tem seu uso redefinido a partir da inserção desses “novos usuários”, que geram um conflito inter e intra usos. Estes conflitos serão os determinadores da intervenção do Estado, visando estender a todos os espaços controle e fiscalização, ao adotar sua racionalidade, a do idêntico e do repetitivo. Com isto, ele não vai tentar resolver os problemas existentes, mas estabelecer e consolidar o espaço da circulação através da lógica formalista e funcionalista de intervenção no espaço.

Segundo essa lógica acena-se para o comércio ambulante com a legalização e fixação de sua atividade. São feitos cadastramentos e destinados pontos próprios para o exercício do comércio ambulante na maior parte das cidades brasileiras, fato que leva à incorporação de parte substancial dos comerciantes ambulantes a esta política de fixação, inaugurando- se uma ambiguidade que merece ser tratada: a do comércio ambulante fixado.



Conformismo e resistência
Livro de 1994 da filósofa Marilena Chauí. Ela entende a cultura popular como algo que se realiza, inerente à cultura dominante. Seria, assim, uma mescla de conformismo e resistência. Conformismo pois está inserida na cultura dominante e, resistência pois é, de certa forma, o contrário da cultura dominante.

Modificações quantitativas geradoras e inter-relacionadas a modificações qualitativas que levaram à alteração no atributo de mobilidade do comércio ambulante, bem como, no consequente caráter ambíguo que este mo(vi) mento adquire, por poder, em dados momentos e contextos, embora móvel, fixar-se e, embora fixo, movimentar-se pelo centro. Tudo como resultado dos embates que se dão inter e intra usos e da resultante perspectiva de intervenção racionalizadora do Estado.

Mobilidade e ilegalidade

Resultado do processo de normatização do espaço público, o que a fixação do comércio ambulante representaria? O fim do comércio ambulante ou uma estratégia de resistência adotada pelos envolvidos nesta atividade, visando sua reprodução? A perda de mobilidade com a fixação de parte substancial do comércio ambulante pode servir de argumentação poderosa para anunciar o seu fim, ao significar a incorporação do ideal de dados comerciantes ambulantes em tornarem-se pequenos comerciantes. No entanto, existem outros que aceitam a fixação, mas, nos momentos próprios, deslocam parte de seus produtos para comercializar em pontos melhores, adotando uma perspectiva de aceitação da ordem estabelecida como estratégia capaz de garantir o deslocamento quando possível. Seria o que a filósofa Marilena Chaui denomina de conformismo e resistência , por ser mais interessante considerá-lo ambíguo “(...) capaz de conformismo ao resistir, capaz de resistência ao se conformar. Ambiguidade que o determina radicalmente como lógica e prática que se desenvolvem sob a dominação”. Ambiguidade, nestes termos, que não seria carente de um sentido rigoroso, mas constituída de dimensões simultâneas.

São estas dimensões simultâneas as determinadoras da necessidade de relativização de estudos que consideram o comércio ambulante como móvel e ilegal. O contexto atual impõe a necessidade de ruptura com estas formas rígidas de compreender o comércio ambulante no centro, ao se constatar a incorporação da política de fixação e o aceite do cadastramento como estratégias capazes de viabilizar sua reprodução.

*Eustógio Wanderley Correia Dantas é professor pós-graduado em Geografia pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e bolsista de produtividade do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)


Revista Geografia

Enchentes

Além dos mais variados problemas causados pelo homem que assolam as grandes cidades, outros fenômenos que contam com grande participação da natureza também dificultam a vida nos centros urbanos: as enchentes.
por Aline Aquino


As áreas urbanas são as que mais expressam as intervenções humanas no meio natural. O desmatamento, as edificações, a canalização, a mudança do curso dos rios, a poluição da atmosfera, dos cursos de água e a produção de calor geram diversos efeitos sobre os aspectos do ambiente. As alterações ambientais causadas pelas atividades urbanas são sentidas pela população, tais como o aumento da temperatura nas áreas centrais, o aumento de precipitação e as enchentes. Essa última consequência do processo de urbanização teve como causa principal a construção de casas, indústrias, vias marginais implantadas nas áreas de várzeas dos rios e proximidades e é, atualmente, um problema constante nos períodos chuvosos nos principais centros urbanos.

Causas e Consequências
As enchentes são fenômenos naturais que ocorrem quando a precipitação é elevada e a vazão ultrapassa a capacidade de escoamento, ou seja, quando a chuva é intensa e constante, a quantidade de água nos rios aumenta, extravasando para as margens dos rios (áreas de várzeas). Todos os canais de escoamento possuem essa área de várzea para receber o "excesso" de água, quando ela ultrapassa os limites dos canais. Entretanto, com as interferências antrópicas (do homem), as inundações são intensificadas em vista de alterações no solo de uma bacia hidrográfica, tais como a urbanização, impermeabilização, desmatamento e o desnudamento (eliminação da vegetação).

O processo de urbanização causa mudanças no microclima das cidades. O intenso processo de desmatamento e a construção de residências, edifícios, indústrias, ocupação das áreas de várzeas e a impermeabilização do solo com asfalto acarretam no aumento de temperatura dos centros urbanos em relação às áreas periféricas (afastadas do centro) e às áreas rurais. Em algumas cidades esta diferença de temperatura pode atingir até 10°C. Além do desmatamento e da impermeabilização do solo, o consumo de combustíveis fósseis por automóveis e indústrias torna a cidade uma fonte de calor. Esse fenômeno é denominado "ilha de calor". O aumento de temperatura nos centros urbanos intensifica a evaporação; além disso, o material particulado (poluentes) em suspensão favorece a formação de núcleos de condensação na atmosfera. O resultado é o aumento da quantidade de chuvas. A tabela 1 mostra que, nas áreas urbanas, a quantidade de chuva anual é 5% maior e, em dias de chuva, a precipitação (quantidade de chuva medida) é 10% superior se comparada com as áreas rurais. No entanto, as inundações não resultam apenas do aumento da quantidade de chuva, mas - e principalmente - do aumento da velocidade de escoamento superficial ocasionado pela impermeabilização do solo. Além disso, diariamente, os rios recebem uma carga de água utilizada pela população (esgoto), o que também contribui para aumentar a quantidade de água no leito dos rios.

Diariamente os rios recebem a água do esgoto nas cidades brasileiras, o que contribui para aumentar a ocorrência de enchentes.

Em condições naturais, parte da chuva fica retida nos troncos e folhas, o escoamento superficial é retido por obstáculos naturais gerando maior infiltração e retardando a chegada da água nos cursos de água. Quando a cobertura vegetal é retirada, não há resistência ao escoamento e a água atinge os rios com maior facilidade e rapidez, contribuindo também com o assoreamento dos rios, pois, sem a cobertura vegetal, os sedimentos são carregados pela água e acabam depositados no fundo dos leitos dos rios. Este fato é agravado quando há impermeabilização do solo.

Outro fator que agrava as inundações nos centros urbanos é o entupimento dos bueiros ocasionado pelo lixo jogado nas ruas pela população. Em dias de chuva, com a impossibilidade do escoamento pelos bueiros, a água concentra-se nas ruas de forma rápida, causando transtornos no trânsito e no comércio, além de atingir residências e causar todo o tipo de estragos.

Alterações climáticas geradas pela urbanização


Fonte: DREW, D. Processos Interativos homem-meio ambiente. São Paulo: Difel, 1986.
Um perigo para a vida urbana



As enchentes representam uma ameaça para a população, especialmente nas áreas periféricas, onde há deficiência de coleta e tratamento de esgoto. Em épocas de inundações, a população tem contato com a água contaminada, contribuindo para a propagação de doenças como a leptospirose. O processo de urbanização no Brasil, atualmente, ocorre de forma intensa e, na maior parte dos casos, sem planejamento. Áreas inteiras são ocupadas e loteadas, de forma clandestina ou não, contribuindo para os processos de erosão. Esta urbanização desmesurada também leva a população a ocupar áreas dos leitos de rios ou de mananciais.

Precipitação
É o nome técnico utilizado para denominar o fenômeno climático de queda de água do céu para a superfície terrestre. A precipitação pode ser sólida (granizo); sólida em cristais (neve, ocorre quando o esfriamento da água é mais lento) e líquida (chuva propriamente dita).


Tudo isso só faz agravar a problemática das enchentes nos grandes centros urbanos. As soluções encontradas para conter, da maneira que é possível, as enchentes seguem uma linha imediatista na tentativa de alcançar a resolução do problema em um período curto de tempo. Dentre as ações, destacam-se as obras de desassoreamento dos rios (retirada dos sedimentos depositados pela água) e, consequentemente, o aprofundamento do leito, com canalização e construção de reservatórios regularizadores de vazão.

Alternativas e soluções
As medidas preventivas ideais para a solução das inundações são fundamentalmente institucionais. A atuação e fiscalização dos órgãos responsáveis (estaduais e municipais) no que tange ao uso e ocupação do solo, à utilização dos recursos hídricos e ao cumprimento da legislação seriam um bom ponto de partida para a solução do problema.

Neste sentido, a má definição de atribuições, ausência de uma política unificada e de competição entre os órgãos públicos e o conflito de projetos são fatores que influenciam na resolução dos problemas em curto prazo e o grande investimento de capital. Portanto, frente aos problemas elucidados, é necessário um planejamento urbano coerente com a gestão dos recursos hídricos e uso e ocupação do solo, respeitando as áreas de várzeas e as encostas. Ressalta-se que estas áreas podem ser ocupadas, mas de forma planejada, e as atividades devem ser compatíveis com as suas características, como, por exemplo, a implantação de parques, ciclovias, áreas para práticas esportivas ou exposições nas áreas de várzea.

A conscientização dos técnicos e da população de que as enchentes são um processo natural do regime hidrológico de um rio é essencial para a implantação de medidas preventivas que evitem os prejuízos vistos atualmente e com os quais toda a sociedade tem que arcar.



As enchentes representam uma ameaça para a população, especialmente nas áreas periféricas, onde há deficiência de coleta e tratamento de esgoto. Em épocas de inundações, a população tem contato com a água contaminada, contribuindo para a propagação de doenças como a leptospirose.

Revista Geografia

Geopolítica e Crise


Geopolítica e Crise
O Professor da USP André Roberto Martin fala sobre o jogo de poder entre BRIC e G7 em tempos de crise - e depois dela
por Marcelo Marcondes

A crise na economia mundial, que começou a se deflagrar em setembro do último ano nos Estados Unidos rapidamente se alastrou para a Europa e para a Ásia. Até o final de 2008, alguns dos países chamados de BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) haviam sofrido menos do que suas contrapartes do G7. Porém, se em alguns lugares a crise tardou a chegar, ela não falhou.

É verdade que o Brasil é dos países que está mais preparado para enfrentar a crise: reservas de US$ 200 bi permaneceram intocadas mesmo após meses de crise; ausência de bolhas de crédito e imobiliárias (estopim da crise nos EUA); bancos ‘saudáveis’ e regulados; projeções do FMI e do Banco Central otimistas para 2009 (os mesmos órgãos apontam estagnação para o resto do mundo); estabilidade econômica e exportações diversificadas. Tudo isso compete para criar um quadro ainda não tão alarmante da crise para o Brasil. Contudo, não é arriscado falar que 2009 será marcado pela crise financeira. E isto trará, cedo ou tarde, consequências para a geopolítica mundial.



Geórgia/Ossétia do Sul
A ofensiva russa na Geórgia, apoiando a independência da Ossétia do Sul, trouxe a morte de cerca de 385 soldados, feriu aproximadamente 3 mil e desapareceu com 50.




A crise pelo mundo

No início de 2009, houve uma queda de 73% do preço do petróleo de seu pico, levando grandes produtores como os países do Oriente Médio e a Rússia a perdas significativas.

A crise e as bolhas de crédito nos EUA trouxeram prejuízo para o modelo econômico das economias emergentes da Ásia. Cerca de 50% do PIB desses países é exportado para o Oeste, que se endividava para alimentar o crescimento asiático. Além disso, surgem cada vez mais fortes os ecos do nacionalismo econômico (protecionismo em alta, principalmente por parte dos países europeus, dos EUA, com o buy american, e até de países mais próximos, como a Argentina).

O enfraquecimento da economia americana, a multipolarização mais acentuada, tanto econômica, quanto cultural e política. Se isto já vinha ocorrendo, como prenunciou Paul Kennedy na década de 1980, a atual crise só vem agravar este quadro. Para conversar sobre o assunto, a Conhecimento Prático Geografia foi atrás de André Roberto Martin, professor doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo, na qual também é livre-docente especializado em regionalização e geopolítica.

Conhecimento Prático Geografia
A crise financeira mundial proporcionou uma queda de 73% do preço do petróleo de seu pico, levando a Rússia a perder um terço de suas reservas acumuladas ao longo de nove anos em apenas três meses e valor de mercado das empresas russas de capital aberto a cair 70%. A Rússia também passa por um momento de conflito geopolítico importante na região da Geórgia/ Ossétia do Sul e, além disso, houve paralisação do provimento de gás russo para muitos países europeus. Como estes fatos estão interligados, professor? Como a crise pode e/ou como ela afeta a geopolítica? Utilizemos aqui o contexto russo.

André Roberto Martin A Rússia foi a primeira vítima da aproximação entre EUA e China iniciada por Henry Kissinger ainda em 1968 com a “diplomacia do ping-pong”. Seu cacife são os hidrocarbonetos e, principalmente, o gás natural. É com ele que ela espera substituir a dependência europeia do petróleo “árabe-americano”, muito instável exatamente pelo “caos” no Oriente Médio. De modo que não creio que os preços do petróleo fiquem tão baixos por tanto tempo, e acredito que o gás natural tem mais futuro. Assim, a Rússia precisa manter-se firme e esperar passar a borrasca. Acho a dupla Medvedev/Putin preparada e eles têm um às na manga, por onde planejam sair da crise: a industria bélica.

CP GEO Seguindo com os BRICS; a China está sofrendo paulatina e constantemente com a crise, uma vez que ela depende, em grande parte, do poder de compra dos EUA. Além disso, volta e meia ressurgem conflitos na região do Tibete. No contexto de um mundo cada vez mais multipolar, em que a China era a gigante e vermelha bola da vez, como fica este cenário? A crise afetará a China ou ela sairá fortalecida desta, tanto econômica quanto politicamente?
ARM: A China, apesar de muito interligada aos EUA, é também muito autônoma, no sentido de que seu mercado interno depende pouco dos EUA. As nossas commodities, como o ferro e a soja, são muito mais vitais para a China hoje do que os imensos carros produzidos em Detroit. Assim, a coisa em comum que deve ser destacada e que une o BRIC é seu grande mercado interno, coisa que os EUA também possuem. E é a diminuição do peso relativo desse mercado em termos mundiais, a verdadeira essência da crise. É a crise na confiança da liderança americana, de que o crescimento do mercado interno americano é o motor da economia mundial. E isso foi fundamentalmente a China que corroeu, ainda que em parceria estratégica com os EUA com vistas a enfraquecer a Rússia. Portanto, acredito que, no cenário mundial atual, a China ainda é a grande vitoriosa, pois avançou muito em relação a seus dois oponentes, Estados Unidos e Rússia.

CP GEO Segundo dados do FMI, a Índia é o segundo país que mais crescerá dentre os BRICs em 2009 (com 5,1%, atrás da China com 6,7% e à frente do Brasil com 1,5%). Porém, ela também continua sendo afetada por disputas políticas em seu território. A incessante luta ideológica entre muçulmanos e hindus, que, em dezembro de 2008, alvejou uma das mais importantes cidades do país, Mumbai, matando 173 pessoas e atribuído a Lashkar-e-Taiba (militante muçulmano do movimento de independência da Caxemira). Este tipo de conflito pode pesar num contexto de crise?
ARM: Embora a Índia conviva com mais conflitos em seu território e tenha uma relação conturbada com seus vizinhos, o uso da energia nuclear naquele país já é em larga escala, coisa que no Brasil ainda é muito incipiente. Este uso é estratégico, pois permite mais poder de decisão em questões geopolíticas. E nesse ponto a Índia vem vencendo com muito mais energia, além de registrar taxas maiores de crescimento do PIB.





Paul Kennedy
Paul Michael Kennedy é um historiador britânico cujo principal foco de estudo são as relações internacionais e a atuação da política externa britânica. Seu mais famoso livro é “Ascensão e Queda das Grandes Potências”, essencial na biblioteca de qualquer um que se proponha a estudar a geopolítica e as relações internacionais. Publicado pela primeira vez em 1987, o livro já foi traduzido para 23 línguas e expõe a tese, como o próprio título sugere, de um novo mundo, multipolarizado. Já em meados da década de 1980 Kennedy vaticinava o que estamos vivenciando de maneira mais clara nos dias de hoje. A única diferença é que, à época da primeira edição, ainda não se falava do poderio chinês, e muito burburinho havia acerca da ascensão econômica nipônica. Atualmente, Kennedy é professor de história britânica na prestigiosa universidade de Yale, nos Estados Unidos.



“Quando digo que o Brasil tem o papel histórico de ‘desfazer’ coisas que a Inglaterra fez, referi-me às fronteiras: Cabe ao Brasil, me parece, o papel de ‘unir para libertar’ precisamente esse hemisfério, vítima do colonialismo. América Latina, Ásia, África e Oceania ainda apresentam resquícios daquele período e, não possuindo inimigos, vejo o Brasil em ótimas condições para ‘costurar’ um bloco diplomático muito amplo, como é a minha idéia do ‘meridionalismo’.”
André Roberto Martin

CP GEO Tendo em vista todas essas questões, qual a possibilidade de um mundo multipolar no qual o Brasil, menos afetado pela crise e longe de conflitos políticos marcantes, ganhe um maior destaque dentre os BRICs, e, consequentemente, no panorama mundial? A cadeira no Conselho de Segurança ainda é algo almejável? Seria positivo para o país do ponto de vista geopolítico? Como a crise pode nos ajudar neste sentido?
ARM: O setembro negro de 2008 é só continuação do setembro negro de 2001 e outros setembros-negros, porque é a necessidade do petróleo árabe o que faz os EUA cometerem essas loucuras (a saber: após o 11/9, a ofensiva no Iraque e Afeganistão e, mais recentemente, as bolhas de crédito). O ex-presidente George W. Bush certa vez declarou: “Nós temos um sério problema: a América é viciada em petróleo”. Com o fim da dependência da exportação do petróleo (autossuficiência nossa em petróleo já conquistada e que tende a aumentar após a exploração do pré-sal), o Brasil devia pensar em investir na indústria bélica. Este é o ponto vulnerável do Brasil que, no entanto, não tem vetos nesse terreno. A meu ver, o Brasil já poderia ter aplicado capitais excedentes na tecnologia nuclear. Talvez a grande culpada ainda seja a mentalidade colonial que ainda impera entre nossos governantes.

CP GEO Falando sobre o colonialismo, comente, por favor, a frase, de sua autoria: “o Brasil nasceu para ser a Anti- Inglaterra”. Como que a crise pode criar oportunidades para que o país rume a este objetivo?
ARM:Quando digo que o Brasil tem o papel histórico de “desfazer” coisas que a Inglaterra fez, referi-me às fronteiras. A “pérfida Albion” (apelido dado na era do imperialismo à Inglaterra) tudo fazia no intuito de “dividir para dominar” o planeta e em particular o Hemisfério Sul. Cabe ao Brasil, me parece, o papel de “unir para libertar” precisamente esse hemisfério, vítima do colonialismo. América Latina, Ásia, África e Oceania ainda apresentam resquícios daquele período e, não possuindo inimigos, vejo o Brasil em ótimas condições para “costurar” um bloco diplomático muito amplo, como é a minha idéia do “meridionalismo”. Quanto à crise, ela traz a coincidência de um problema financeiro, com outro energético, mais um ambiental, e, finalmente, outro relativo à segurança e à liderança dos EUA. Tudo isso está em jogo ao mesmo tempo, uma vez que o dólar e o petróleo estão em franca decadência. Ocorrerá o mesmo com as universidades anglo-americanas e a língua inglesa? Acho que sim, na medida em que o monopólio anglo-saxônico da pesquisa, do dinheiro e da língua se quebrem — e é isto que a crise anuncia.

Revista Geografia

Na fronteira do terror

As notícias vindas do Paquistão são sempre desconcertantes: trata-se de um aliado dos EUA? Sendo assim, como é possível que a guerra no Afeganistão seja alimentada a partir do seu território? Por que há anos o exército paquistanês não consegue vencer os talibãs e outros fanáticos em seu próprio país? Uma equipe de repórteres abriu caminho no distrito de Khyber para descobrir as respostas
Por Dexter Filkins (Texto) e Lynsey Addario (Fotos)



UM INCIDENTE NA FRONTEIRA

Na tarde de 10 junho 2008, na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, um grupo de soldados americanos cai em uma armadilha dos talibãs. A troca de tiros acontece diretamente sobre a zero-line, que separa o Afeganistão das remotas regiões tribais do Paquistão, chamadas FATA (Federally Administrated Tribal Areas). Essa parte da fronteira está sendo controlada nessa ocasião por três postos de tropas do exército paquistanês.

Cotidiano na guerra santa: membros da “brigada vício e virtude”, que domina grandes áreas das regiões tribais, fazem patrulhamento na aldeia Bar Kambar Khel


Os americanos pedem apoio de jatos de combate dos EUA, vindos de bases afegãs. Os aviões chegam, os talibãs fogem e os americanos estão em segurança. Mas os cadáveres de onze soldados guarda-fronteiras paquistaneses estão no chão, mortos pelos pilotos de combate de seus aliados americanos.

O ataque aéreo foi “infundado e covarde”, clamam os diplomatas paquistaneses. O governo americano lamenta o “erro trágico”. Mas a razão dessas mortes continua incerta. Até que, semanas mais tarde, quatro moradores do vilarejo Suran Dara, que fica nas proximidades, revelam a verdade: os soldados paquistaneses foram os primeiros a abrir fogo contra os americanos, porque queriam apoiar os talibãs no ataque.

“E por que não?”, perguntam os habitantes da aldeia. “Aqui todo mundo apoia os talibãs.” Especialistas asseguram que o incidente foi apenas um entre vários outros semelhantes. Muitas vezes os soldados dos EUA e do Paquistão, países aliados na luta contra o terror, se enfrentaram nas regiões da fronteira em batalhas sangrentas.

Para os americanos, se apresenta a cada vez mais premente questão: de que lado o Paquistão se encontra realmente nessa guerra?

O SENHOR DA GUERRA

Duas semanas mais tarde, viajo com a fotógrafa Lynsey Addario para o distrito de Khyber, um dos sete distritos tribais dentro da FATA. Estamos usando os trajes típicos da região, acompanhados de homens fortemente armados que devem nos proteger.

Perto da fronteira da província passamos por uma placa, onde está escrito “Acesso proibido a estranhos”. Nosso guia pede que nos mantenhamos afastados da rua principal até a noite. É sexta-feira de tarde e os espiões dos talibãs abordam todos que não estejam cumprindo as horas das orações.

Centenas, talvez até milhares de combatentes islâmicos estejam escondidos nessa região do noroeste selvagem do Paquistão. Há muito tempo os talibãs arrancaram o controle sobre todas as regiões da FATA das mãos dos governadores do Estado paquistanês.

Daqui eles enviam seus autores de atentados pela fronteira para o Afeganistão, onde eles desmoralizam as tropas da OTAN ali estacionadas. Segundo informações de serviços secretos ocidentais, daqui também teriam sido organizados pelo menos seis grandes atentados da Al-Qaeda sobre alvos nos Estados Unidos e na Europa – inclusive o ataque com bombas ao metrô de Londres, no qual morreram 56 pessoas.

Mas, agora, os extremistas avançaram demais, deixando a FATA em direção ao centro do Paquistão: conquistaram vilarejos, fecharam escolas para meninas, explodiram barracas de venda de CDs e surraram barbeiros que não queriam parar de cortar as barbas, um ato contra Alá. Pouco antes de nossa viagem, uma tropa de insurgentes talibãs havia cercado a capital da província, Peshavar.

Em julho de 2008, o exército paquistanês quis intervir e expulsar os talibãs definitivamente do distrito de Khyber. Repórteres ficaram proibidos de acompanhar a ação militar, mas a televisão estatal mostrou imagens de transportes de tropas e caminhões do exército em avanço. Um porta-voz do Ministério do Exterior americano manifestou-se satisfeito com a determinação dos aliados. Nós queremos verificar o que essa determinação significa realmente.

Quando a oração da sexta-feira termina e nosso guia considera ser seguro, entramos novamente no carro, passamos por casebres de chapa ondulada enferrujada e por ruas quase desertas. Em nenhum lugar, qualquer sinal da ofensiva militar anunciada. Nada de soldados paquistaneses, nada de caminhões transportadores do exército, nada de tanques.

Alguns quilômetros depois entramos em um caminho de terra que leva a um casario murado e fortemente guardado: o vilarejo Takya, residência de Haji Namdar, um dos mais poderosos dirigentes dos talibãs no distrito de Khyber.

Ele chama seu grupo de insurgentes de “brigada para o combate do vício e preservação da virtude” – imitando aqueles policiais talibãs da moral que nos anos 90 do século passado barbarizavam as pessoas: batiam em mulheres nas ruas com varas, se tivessem saído sozinhas de casa, surravam crianças, se tivessem soltado pipas.

Nesse dia, homens jovens estão sentados com suas armas e seus lança-mísseis na carroceria de um caminhão, estacionado na sombra. Agitados, discutem sobre um “avião sem piloto”, que explodiu em um de seus arsenais. A descrição é de um UAV “Predator” (avião não tripulado), abatido no Afeganistão por uma base norte-americana – a única forma de presença militar que o Paquistão permitiu aos EUA em seu território.

Namdar está sentado em um canto do prédio principal, no chão. Ele se levanta e me cumprimenta, dando a mão. Para quebrar o gelo, eu lhe entrego um mapa do Paquistão.

“Informaram que há soldados a caminho, para enxotar o senhor e sua gente de Khyber”, digo-lhe. “Por que o exército ainda não está aqui?” “O governo paquistanês não pode fazer nada contra nós, porque nós lutamos a guerra santa”, responde o líder talibã. “Quando os americanos matam pessoas inocentes no Afeganistão, é óbvio que temos de nos vingar. Lutamos contra os estrangeiros porque é nosso dever.” Com um gesto, um ajudante lhe indica para escolher suas palavras com cuidado. Namdar altera seu tom.

Nas sete regiões tribais da fronteira com o Afeganistão, poderia ser decidida a guerra contra o terror – se o exército paquistanês a quisesse decidir

“Não estou dizendo que nós mesmos enviamos autores de atentados através da fronteira para o Afeganistão. Mas também não impedimos ninguém de fazê-lo.” Em seguida, Namdar ergue a mão, em sinal de que não revelará mais quaisquer detalhes.

Membros de sua “brigada” confirmam as suspeitas dos serviços secretos ocidentais: Namdar treinou centenas de combatentes, que se transformam em homens-bomba no Afeganistão, levando o maior número possível de pessoas com eles para a morte. Há alguns anos ele impôs uma idade mínima aos suicidas – quem tem menos de 20, ainda não viveu o bastante para se sacrificar.

O único homem que o senhor da guerra do distrito de Khyber talvez deva temer é seu poderoso correligionário Baitullah Mehsud, o líder talibã na região tribal do Vaziristão do Sul, inacessível para estrangeiros, que quer estender sua influência ao território de Namdar. Mas do exército regular, Namdar, o treinador de autores de atentados, não tem medo. Está sentado em seu sítio, sem ser molestado, a cinco quilômetros de Peshavar, capital da província paquistanesa, enquanto à sua volta está uma pretensa ofensiva militar, para promover o medo aos talibãs. O que estará acontecendo?

Agora, finalmente, Namdar ri. “Não quero mentir para você”, ele diz. “às vezes, o exército vem para cá e destrói algumas casas vazias. É apenas um show.” E quem deve ser entretido com ele?

“Obviamente a América.”

NOVO GOVERNO, NOVO RUMO

Com a eleição parlamentar em fevereiro de 2008, pela primeira vez, em nove anos, um governo assumiu o poder no Paquistão sem a participação dos militares. A votação ocorrera sob condições difíceis, logo após o assassinato da favorita Benazir Bhutto, que havia retornado do exílio pouco tempo antes.

Mesmo assim, o resultado deu motivo para esperanças: com a votação do povo na retaguarda, os novos detentores do poder declararam, escondido em frases diplomáticas, que irão finalmente cortar a influência dos militares e do serviço secreto. A ordem estatal na região da FATA de agora em diante deverá ser restaurada não pelo exército, mas pelo governador da Província Noroeste, fronteiriça, Owais Ahmed Ghani.

Faço uma visita ao governador em sua residência em Peshavar, um edifício majestoso, construído pelos britânicos no auge de seu poder imperial. O próprio Ghani tem inegáveis traços britânicos.

“O senhor conhece essa?”, Ghani pergunta, cumprimentando. “Quando um pachtun segura uma arma na mão, seu coração bate mais depressa, como se abraçasse uma mulher.” Isso resumiria o problema de Ghani – pois a maioria dos habitantes das regiões tribais, assim como a maioria dos talibãs, faz parte do povo pachtun.

O governador fica sério. “A estratégia dos militares faliu”, ele diz. “Nessa região, os soldados não podem contar com o apoio da população.” Em vez de soldados, pretende-se, de agora em diante, trazer dinheiro para as regiões tribais. Bilhões de dólares, para estimular o desenvolvimento econômico (os EUA já prometeram US$ 750 milhões). Desse processo não devem participar dirigentes militares paquistaneses nem combatentes talibãs. Apenas funcionários civis do governo e líderes tribais tradicionais.

“Queremos apartar a população dos extremistas”, diz Ghani. Como isso será alcançado?
“Não subestime a determinação do cidadão paquistanês de enfrentar os talibãs; 90% da população nos apoiam nesse propósito.” Quando saio da residência, o Sol está se pondo, soldados recolhem o estandarte paquistanês, enquanto um deles toca na corneta a canção escocesa “A Hundred Pipers”.

São os líderes tribais, os maliks, nos quais o governador Ghani e o novo governo paquistanês colocam sua esperança. A sua autoridade nas aldeias da FATA é independente dos talibãs; ela remonta aos senhores coloniais britânicos: esses pagavam aos maliks um salário, para que cuidassem da ordem, em nome dos britânicos, nas regiões afastadas, sem que houvesse a necessidade de envio de funcionários próprios para essas selvagens regiões montanhosas.

Ele me explicara como iria impor limites aos islamistas fanáticos, com a ajuda dos líderes tribais – assim como os americanos o conseguiram no Iraque. Acontece que as estruturas dos talibãs já estão inseridas nas tribos. Mehsud, o mais poderoso príncipe regional, é da tribo Mehsud, que continua representando. “Tribo e talibã agora são uma coisa só”, diz Yan, meu informante.

Mesmo se fosse possível encontrar na FATA interlocutores para o novo governo, eles não sobreviveriam. Os líderes talibãs não têm inibições, eles praticam assassinatos entre si. Namdar, o senhor da guerra do distrito de Khyber, é assassinado por um guarda-costas seis semanas após minha entrevista com ele. A suspeita é de que seu rival Mehsud esteja por trás da morte.

O JOGO MUDA

Se, portanto, o plano do governador Ghani não puder se concretizar, então certamente um novo jogo de estratégia deverá ser jogado nos bastidores. Mas quais serão as regras?

Para entender, é necessário que se faça uma diferenciação: existem dois grupos de dirigentes talibãs. Uns enviam seus com batentes pela fronteira ao Afeganistão, para realizar ataques contra os “infiéis” e seus ajudantes afegãos. Os outros operam dentro do Paquistão, enviam brigadas de combate da zona FATA para as aldeias e cidades da província fronteiriça Noroeste. E até para Islamabad. Em julho de 2007, dúzias de extremistas se entrincheiraram por oito dias em uma mesquita no meio da capital. Uma unidade especial do exército invadiu o templo. Oitenta e sete pessoas perderam a vida.

Os talibãs juraram vingança: somente no ano de 2007 eles praticaram 50 ataques suicidas no Paquistão. Provavelmente também foi Mehsud que, em dezembro de 2007, enviara o autor do atentado contra a candidata à presidência Benazir Bhutto. O serviço secreto paquistanês teve de reconhecer: os extremistas estavam fora de controle. O Estado teve de reagir.

Em janeiro de 2008, soldados do exército paquistanês entraram em Vaziristão do Sul com inusitada decisão, matando centenas de combatentes de Mehsud. Quinze mil famílias fugiram diante dos combates na região. Então, depois de três semanas, os combates cessaram abruptamente. O exército desmontou seus postos de controle. E os ataques suicidas no Paquistão pararam.

O que havia acontecido? O líder talibã Mehsud e o comandante do exército haviam fixado novas regras para o jogo. Em um acordo, nunca tornado público, os extremistas prometiam cumprir as leis em seu país hospedeiro e não enviariam autores de atentados para regiões dentro do país. Sobre ataques a território afegão não há menção nesse acordo.

Fato é que as atividades dos talibãs no lado afegão da região de fronteira aumentaram desde o início de 2008. Os paquistaneses desviaram o caos, comprando a paz no próprio país à custa da paz de seu vizinho. O exército só ataca agora aqueles talibãs que não mantêm a nova rota de marcha e dirigem suas ofensivas das regiões tribais para o lado errado, o paquistanês.

Foi essa também a razão pela qual o líder talibã Namdar, no distrito de Khyber, se sentia tão seguro diante dos soldados paquistaneses. A “guerra santa” de Namdar seguia exatamente como combinada – ele enviava seus combatentes para o Afeganistão. A grande ofensiva paquistanesa, da qual eu não conseguira encontrar nenhum sinal durante minha viagem pelo distrito de Khyber, não era contra ele, mas contra outro senhor da guerra talibã, que não seguira as regras, enviando combatentes em direção a Peshavar.

Mas o acordo não protegeu Namdar de seu rival Mehsud. Mesmo assim, os estrategistas do exército e do serviço secreto parecem acreditar que poderão controlar futuramente esse Mehsud. E, ao que tudo indica, não estão se valendo para tanto da iniciativa dos políticos paquistaneses eleitos, que estão entrando em contato com os líderes tribais na FATA.

Yan, o malik do Vaziristão do Sul, por exemplo, nada sabe das negociações do governador Ghani com os líderes tribais. “As únicas conversas de que tenho notícia ocorrem entre Mehsud e o exército. Políticos não estão participando. Líderes tribais também não – bem, eu teria de saber, sou um deles.”

O CAMINHO DA JIHAD

A paisagem montanhosa na região de fronteira está molhada pela monção, quando alguns jovens talibãs me levam com eles pela rota dos autores de atentados. Após fortes chuvas, em todo lugar descem novos riachos pelas encostas. O Afeganistão está a uma distância de um dia de marcha.

Foi essa região que Obama bin Laden atravessou, após fugir em 2001 de seu esconderijo nas cavernas em Tora-Bora. Uma rota semelhante também foi percorrida por um rapaz paquistanês de 18 anos, de nome Mudasar, antes de voar pelos ares no Afeganistão, após acionar uma bomba. Isso foi em 2006. A morte do jovem foi informada aos seus familiares no distrito de Khyber por telefone, e o funeral teve de ser realizado sem o corpo.

Nesse dia, o irmão de Mudasar, Abu Omar, fala-me de sua própria missão terrorista. Após a morte do irmão, ele havia se candidatado em um dos campos de treinamento que o líder talibã Mehsud mantém no distrito de Khyber. Neles, os jovens aprendem a construir bombas, têm esclarecimentos sobre os inimigos e sobre o manuseio de armas de grosso calibre. O grupo de Abu Omar recebeu uma metralhadora pesada, “tão grande, que se podem abater helicópteros com ela.”

Abu Omar conta sem emoção, mas com riqueza de detalhes. No campo, a maioria havia sido de paquistaneses, mas havia também um inglês convertido, de cabelo loiro e barba comprida. Ao contar isso, escapa-lhe seu único sorriso nessa tarde: “O britânico era um bom muçulmano.” Certa vez, ele diz, atravessou a fronteira com seu grupo, avançando sobre a província afegã de Kunar. A metralhadora prestou bons serviços; os combatentes atacaram quatro postos do exército afegão e mataram sete soldados. “Infelizmente não havia americanos lá.” Quando retornava ao Paquistão com sua brigada de combate, o sol nascia por sobre as montanhas. “Na primeira luz vimos um posto de fronteira paquistanês. Os soldados nos deram água para beber e continuamos nosso caminho para casa.”

O JARDIM DAS ROSAS

Sete soldados afegãos foram mortos por Abu Oomar e seu grupo de combate além da fronteira. “Pena que não havia americanos”, ele diz



Washington, 28 de julho de 2008. No Jardim das Rosas da Casa Branca vê-se pela janela o perfil do primeiro-ministro paquistanês Yousaf Raza Gilani no Salão Oval. É sua primeira visita aos EUA. Nesse mesmo dia, tropas americanas haviam atirado um foguete sobre território paquistanês, matando em uma aldeia no Vaziristão do Sul um especialista em bombas da Al-Qaeda.

Segundo opinião de um especialista, a delegação paquistanesa nada sabia do ataque militar, ao chegar a Washington. Mas durante as conversações, os americanos acusaram Gilani de que seus militares e seu serviço secreto estavam fora de controle, ameaçando a segurança das tropas dos EUA no Afeganistão.

Na coletiva de imprensa que acontece no Jardim das Rosas, nada se vê da desavença. Lado a lado, os dois chefes de governo saem do Salão Oval e se dirigem para os microfones. “O Paquistão é um forte aliado e uma democracia viva”, diz Bush. “Falamos sobre o fato de que a fronteira para o Afeganistão deve tornar-se segura. O Paquistão assegurou que irá cumprir essa obrigação.” Gilani titubeia. “Muito obrigado”, ele diz. “Devo agora?” “Oh, por favor, por favor, com certeza”, diz o presidente norte-americano.

Gilani desempenha seu papel. “Estamos comprometidos com a luta contra os poucos terroristas que ameaçam a paz”, ele diz. “Eu prometi ao presidente que trabalhamos em conjunto pela democracia, o bem-estar e a paz no mundo.” Em seguida, os dois homens se viram e retornam para a Casa Branca.

Revista GEO

domingo, 19 de julho de 2009

Amazônia, floresta sul-americana


Para os brasileiros, a Amazônia é sinônimo de riqueza nacional. Mas a maior floresta tropical do mundo se espalha por oito nações e um território. Uma descoberta mesmo para quem crê conhecê-la


Dentro do Brasil estão 65% da selva. Mas Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa também se orgulham da floresta, e a usam como atrativo turístico.


A Amazônia tem o maior reservatório biológico da Terra - cerca de 30% das espécies terrestres de todo o mundo.


Um único arbusto da Amazônia brasileira pode ter mais espécies de formigas que as Ilhas Britânicas, e um só hectare, mais de 480 espécies de árvores.


Tão importante quanto a biodiversidade das espécies é a riqueza humana da floresta. Em países como o Equador, os indígenas construíram força política e hoje lutam pela preservação da selva


A bacia do Amazonas acolhe mais de 30 milhões de pessoas, das quais mais da metade vive em centros urbanos.


Entre os principais problemas está a extração ilegal de madeira. Este é apenas o primeiro passo de um ciclo que pode envolver atividades econômicas que vão da pecuária à agricultura mecanizada.


No Brasil, a pecuária é acusada de empurrar a fronteira agrícola do país para dentro de mata virgem. Atrás dela, viriam as plantações de soja, e teme-se que o mesmo ocorra com o etanol.


Hoje, estima-se que a Amazônia absorva cerca de 10% das emissões globais de CO2 provenientes da queima de combustíveis fósseis em carros e fábricas.


Para proteger sua floresta, os países sul-americanos têm adotado estratégias diversas. A Guiana, por exemplo, é a favor de entregar a gestão da selva para estrangeiros - idéia polêmica no Brasil.


Já a Colômbia afirma que sua porção de floresta é uma das mais protegidas. O plantio de coca e as fumigações do governo destroem a floresta, mas o conflito afugenta os grandes negócios de impacto.

BBC BRASIL

Energia gasta em spams alimentaria 2,4 milhões de casas

Estudo diz que muita energia é gasta na seleção de e-mails relevantes

Uma pesquisa feita por uma empresa de softwares afirma que a circulação dos e-mails indesejados (ou spams) consome cerca de 33 bilhões de kilowatts hora por ano, o que seria suficiente para suprir 2,4 milhões de casas com energia elétrica no mesmo período.

Nos cálculos da empresa McAfee, a produção dessa energia causa emissões de gases do efeito estufa equivalentes às de 3,1 milhões de carros por ano.

A empresa estima que 62 trilhões de e-mails spam foram enviados em 2008.

Segundo o estudo, mais da metade da energia consumida por spams é provocada por usuários perdendo tempo em frente ao computador selecionando e apagando e-mails e procurando as mensagens que são realmente relevantes.

O estudo da McAfee, empresa que oferece serviços antispam, afirma que sistemas de filtragem de e-mails indesejados economizam 135 bilhões de kilowatts-hora por ano - o que teria o mesmo impacto ambiental de se retirar 13 milhões de carros das ruas por ano.
BBC BRASIL

Geografia e a Arte

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