domingo, 17 de maio de 2009

Eslovênia, paz em região de conflitos

A terra dos eslovenos se contrapõe às outras ex-repúblicas da Iugoslávia por ter se mantido tranqüila em meio às rivalidades étnicas dos Balcãs

Fortaleza de Predjama, nos Alpes: constrída no século 13 sobre uma caverna

Você conhece a Eslovênia? Na encruzilhada dos Alpes e do Mediterrâneo, esse pequeno país da Europa Central, com a metade do tamanho da Suíça, é montanhoso e superverde. Possui o seu quinhão de castelos, cidades barrocas, monumentos e lendas do período medieval e dos tempos em que fazia parte do Império Austro-Húngaro. Na verdade, trata-se de um país de sorte. Na salada de repúblicas, povos, línguas e religiões dos Balcãs, destaca-se pela tranqüilidade. Até recentemente, compunha, com as outras repúblicas vizinhas, a antiga Iugoslávia. Com o fim do Bloco Soviético, na década de 1990, a Iugoslávia se desintegrou e começaram as guerras civis étnicas cujos efeitos são sentidos até hoje. Mas, apesar de ter se queimado com uma faísca dos conflitos, por ter sido a primeira a se separar do antigo bloco iugoslavo, a Eslovênia escapou praticamente incólume. Isso, graças a sua população relativamente homogênea (a esmagadora maioria é eslovena). Tornou-se independente em 1991 e entrou para a Comunidade Européia em 2004. Em clima de paz, conseguiu manter o seu alto padrão de vida.

Pequena grande capital

Dizem os eslovenos que a cidade de Liubliana é grande o suficiente para conter tudo o que uma capital deve ter e pequena o bastante para preservar a individualidade de seus moradores. Mas, como toda capital européia que se preze, tem também castelos, mansões e obras-primas arquitetônicas. Devastada no passado por terremotos, ela foi reconstruída várias vezes segundo o estilo da época – renascentista no século 14, neoclássico e art-nouveau no século 19. O barroco italiano, influenciado pelo país vizinho, está presente também na sua arquitetura.

A montanha símbolo

A montanha mais alta da Eslovênia e dessa parte dos Alpes é o Triglav (2.864 metros). O nome significa “três cabeças” que, segundo a lenda, vigiam a terra, o céu e o inferno. É um símbolo nacional, incluído no brasão e na bandeira do país. Diz o ditado que todo verdadeiro esloveno deve escalar o Triglav pelo menos uma vez na vida.

Cavalos imperiais

Eles quase desapareceram durante as grandes guerras mundiais. Mas, hoje, são um orgulho nacional. Os cavalos lipizanos são descendentes dos animais trazidos da Espanha no século 16 pelo arquiduque Carlos II, da Áustria, e foram criados em Lipizza, então território italiano, para fazer parte da famosa Escola de Equitação de Viena e para abastecer as carruagens da família do imperador. Existem cerca de 400 no país.

Parque das salinas

O sal extraído pela evaporação da água do mar no litoral esloveno do Mar Adriático, fronteira com a Croácia, é um dos mais apreciados pelos gourmets do mundo. O produto vem da Salina Secovlie, região que hoje foi transformada em parque nacional, protegido pela Convenção Mundial Ramsar de conservação de zonas úmidas. Em Secovlie, já foram registradas quase 300 espécies de aves, como cegonhas, fragatas e corujas.

Música e identidade

Todo verão, a música invade as ruas das principais cidades da Eslovênia. É a época dos festivais, que agregam grupos de teatro, palhaços, mágicos, danças e cinema. A identidade eslovena procura preservar a cultura, língua e história locais por meio de lendas, mitos e canções populares apresentadas em geral com acordeão, lembrando a forte presença cigana.

Vinhos de hoje e de sempre

Quando se pensa em vinho europeu, os primeiros países que vêm à mente são França, Itália ou Portugal. Mas a Eslovênia também se destaca. Há registros de que a bebida era fabricada na região antes da chegada dos romanos. A cidade histórica de Maribor abriga uma vinha que os eslovenos dizem ser a mais antiga em produção.

O sino dos desejos


A vista impressiona: cercado por uma paisagem alpina, na qual não falta nem um castelo construído sobre rochedos, fica o lago Bled. Na sua extremidade, está situada uma pequena ilha com uma igreja do século 16, no centro. Diz a lenda que qualquer pessoa que toque o sino no alto de sua torre terá cumprido o seu maior desejo. O sino foi mandado colocar na igreja pelo então papa para atender a vontade de uma jovem viúva cujo marido fora assassinado por ladrões.

Ficha técnica

Nome: República da Eslovênia
Capital: Liubliana
População: 2 milhões
Área: 20.251 km²
Idioma: esloveno (oficial), húngaro, italiano
Governo: República como forma mista de governo
Religião: Cristianismo (92%), sem religião (5%), ateus (2%), islamismo (0,1%)

Revista Horizonte Geografico

Baía da Babitonga - De volta à vida

Reduto de golfinhos e meros, a Baía da Babitonga pode sediar a primeira Reserva de Fauna do Brasil. Medida visa enfrentar a poluição e preservar um valioso criadouro de peixes

Texto: Sérgio Adeodato

Pôr-do-sol na baía mostra a beleza da região que é cercada de manguezais e Mata Atlântica. Criação de unidade de conservação é esperança de pescadores

Ao pé de montanhas cobertas de Mata Atlântica, no litoral norte de Santa Catarina, o pescador João Gonçalves Batista, o Jango, de 57 anos, aponta para o mar à sua frente e diz: “É preciso fazer alguma coisa, porque tudo aqui está se acabando.” Jango lembra do tempo em que capturava robalos-flechas e parabijus gigantes na Baía da Babitonga, com suas 24 ilhas e vastos manguezais. Hoje a área está prestes a se tornar a primeira Reserva de Fauna do Brasil. Esse tipo de área de proteção ecológica alia o uso econômico à conservação das espécies marinhas que mantêm o sustento dos pescadores e suas famílias. Será um alento para Jango e outros pescadores da Vila da Glória, município de São Francisco do Sul. A produção de camarão caiu 30% em uma década. “Em vez de caranhas de 40 quilos, hoje encontramos garrafas plásticas e até sofás velhos boiando no mar”, lamenta o pescador.

Bisneto de açorianos que imigraram do arquipélago na costa da África no século 19, Jango lembra que as florestas que ainda emolduram a Baía da Babitonga foram quase dizimadas pelo corte ilegal de palmito e madeira. Mas depois, em função de um maior controle, se recuperaram. “Hoje, até tucanos freqüentam o quintal de casa”, conta. Para ele, salvação igual poderia ocorrer no ambiente marinho, atualmente castigado pela poluição e por alterações causadas pelas indústrias.

O temor das restrições

Alunos da Escola Familiar do Mar aprendem a criar ostras

Apesar das palavras do pescador, a aprovação da nova reserva é motivo de polêmica. “Envolve conflitos e diferentes interesses”, afirma Ana Maria Torres, do Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul, órgão do Ibama em Santa Catarina. De um lado estão aqueles que temem prejuízos econômicos com as restrições de uso. De outro, situam-se os órgãos ambientais e os defensores de maior rigor para proteger a fauna. Após as audiências públicas, realizadas em 2006 e 2007 nos seis municípios do entorno da baía, o projeto está para ser assinado pelo presidente da República.

Segundo Ana Maria, a criação da reserva é uma medida urgente, porque a baía está secando. A degradação é antiga. Começou na década de 30, quando foi aterrado o Canal do Linguado, principal via de escoamento de águas para a Babitonga. A obra teve o objetivo de permitir o transporte ferroviário de mercadorias entre o litoral e o continente, mas alterou drasticamente o ambiente costeiro. Somado a isso, o crescimento urbano de Joinville, maior cidade e pólo industrial da região, hoje com 600 mil habitantes, espalhou poluição. Hoje apenas 13% dos esgotos das residências são tratados. Os dejetos industriais também são levados pelos rios até a baía. Há locais onde a contaminação por arsênio e outros metais pesados supera em 50% o limite aceitável.

“Apesar da maior preocupação das indústrias, há muitas falhas de controle”, critica a bióloga Marta Cremer, da Universidade da Região de Joinville (Univille). A poluição é apenas uma parte do problema. A dragagem para explorar areia no fundo da baía remove larvas de organismos marinhos e interfere no equilíbrio ecológico. “Para completar, peixes e crustáceos são capturados em quantidades exageradas, o que é agravado pelo aumento de turistas que praticam a pesca amadora”, diz a pesquisadora.

Golfinhos surdos

Desde os tempos da colonização, quando era utilizada para a exportação de madeira, ouro e erva-mate, a Baía de Babitonga é considerada uma das principais zonas portuárias do País. Além do antigo porto de São Francisco do Sul, situado próximo à saída para o oceano, novas instalações portuárias foram projetadas para o local. O porto de Itapoá, destinado à exportação de contêineres, aguarda licença ambiental para entrar em operação em 2008. Para Marta Cremer, “a criação da reserva de fauna vai ajudar a disciplinar as atividades”.

Piscinas naturais se formam na praia do Forte, uma das muitas de Babitonga, tendo ao fundo a Ilha da Paz

Caso contrário, os riscos aumentam. O intenso tráfego marítimo suja as águas da baía com o lastro dos navios e traz organismos invasores que competem por alimento e abrigo com as espécies nativas. O ruído das embarcações afasta os animais marinhos de maior porte. Golfinhos, que antes pulavam à vista de todos, já não chegam tão perto da costa. “Muitos estão ficando surdos”, revela a bióloga, que orienta pesquisas sobre a audição desses animais na universidade.

Ao abrigar 75% dos manguezais catarinenses, a Baía da Babitonga é um criadouro natural de organismos marinhos, responsável pela maior parte da produção pesqueira do Estado. Existem ali mais de 100 espécies de peixes, que são a base da alimentação de dezenas de aves aquáticas, entre as quais nove migratórias – como a águia-pescadora e a batuíra-de-bando – vindas periodicamente do Hemisfério Norte para se alimentar. Esse cenário é refúgio de caranguejos-uçás, ameaçados pela captura descontrolada. E também das toninhas, antes comuns naquela paisagem, e hoje restritas a apenas 26 dos 160 quilômetros quadrados da baía. Nas zonas mais afastadas, próximas às ilhas oceânicas, ainda há meros – o maior peixe brasileiro e um sobrevivente dos arpões dos mergulhadores.

Com menos peixes no mar, criar mariscos em cativeiro passou a ser uma alternativa. “Precisamos de água limpa para manter o negócio”, afirma o maricultor Helias Correia, dono de viveiros onde produz mais de 100 mil ostras por ano, parte delas consumida no restaurante da sua mulher.

“Antes batíamos a palha de coqueiro na beira do mar e os camarões pulavam fora da água”, diz o pescador Sandro Vieira. “Boa parte dos peixes é retirada por pessoas que não precisam deles para sobreviver. Estamos preservando a baía para o proveito de quem?”

Baía histórica

Na Praia Bonita, ruínas do século 19 lembram a missão francesa que tentou desenvolver a homeopatia na região com espécies da Mata Atlântica

Na Praia Bonita, bem próximo à casa de Sandro, ruínas de uma construção de pedra são vestígios do chamado Falanstério do Saí – missão francesa instalada em 1842 pelo médico Benoit Jules Mure, com o objetivo de aplicar os preceitos da homeopatia com remédios a base de plantas da Mata Atlântica. A comunidade não prosperou, pois seus moradores não se adaptaram à vida dura na floresta.

Matas e restingas do entorno da baía preservam sambaquis, sítios arqueológicos que reúnem ferramentas líticas e restos de conchas e alimentos de grupos primitivos que ali viveram há mais de 3 mil anos. Nos séculos 15 e 16, os índios carijós passaram a ocupar a região, foco de constantes incursões francesas. Conta-se que longas trilhas, parte delas ainda hoje existentes, eram percorridas pelos indígenas, sob o comando dos jesuítas, para transportar prata entre os Andes e o Atlântico.

A vida ao redor da Babitonga sempre foi ligada ao mar. “É preciso valorizar seus recursos para preservá-los”, explica Leonel Pavanello, professor da Escola Familiar do Mar, um modelo pedagógico francês, aplicado em dezenas de países. Após uma semana de aulas na escola, o aluno permanece 15 dias em casa e no trabalho para colocar em prática o que aprendeu. “Alguns trabalham na atracação de navios no porto, outros guiam turistas na pesca amadora ou ganham a vida nas oficinas de motores náuticos”, conta Pavanello.

O pescador Jango prepara a rede para o trabalho: hoje é mais difícil

Instalado no Centro Histórico de São Francisco do Sul, o Museu do Mar conta a história da navegação, mostra o modo de vida dos caiçaras e reúne um rico acervo de embarcações. O espaço é freqüentado por turistas e jovens das escolas públicas da cidade. Em um dos galpões do museu, o carpinteiro Raul Geraldo da Rocha, de 80 anos, não sente o cansaço da idade. Ele confeccionava canoas de tapiruvu, madeira nobre da Mata Atlântica. Conta que já fez mais de 500 delas, no tempo em que a pesca e a madeira eram fartas e podia se cortar árvores para esse fim. Hoje, Raul restaura barcos antigos para manter vivo o ofício que aprendeu quando criança. “É a forma que tenho de continuar sonhando”, conta.

A beleza de uma cidade

São Francisco do Sul, na Baía de Babitonga, é a terceira cidade mais antiga do Brasil, atrás apenas da baiana Porto Seguro e da paulista São Vicente. Foi pólo econômico e cultural importante no século 19. Sobrados, igrejas e armazéns portuários que testemunham o esplendor da época (foto) foram restaurados pelo Programa Monumenta, mantido pelo governo federal com verba do Banco Interamericano de Desenvolvimento. As obras incluíram o centenário Clube 24 de Janeiro, inaugurado em 1892, palco de bailes e reuniões políticas da época. A orla, pontilhada de casarios, foi urbanizada e iluminada, e trouxe vida nova à cidade. Restaurada, São Chico, como ficou conhecida, recebe mais visitantes, o que abriu alternativas econômicas para quem dependia da pesca. Manter o ambiente marinho saudável passou a ser indispensável para essa nova fonte de renda.


O senhor das pedras

Conhecido como “senhor das pedras”, o mero é uma espécie da família da garoupa e do badejo, que pode viver mais de 40 anos, pesar 400 quilos e medir mais de 2 metros. Dócil e pouco ágil, o animal é vítima da captura irracional, apesar de proibida, e está na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), entre as espécies criticamente em perigo de extinção. Para conhecer os seus hábitos reprodutivos, a equipe do Projeto Meros do Brasil aproveitou o final de 2007 para mergulhar na Babitonga (foto), um dos principais refúgios do peixe em águas brasileiras. Nesse período do ano, os meros se agrupam para acasalar e se tornam alvos fáceis de caçadores.

Revista Horzonte Geográfico

sábado, 16 de maio de 2009

Lembranças do Líbano

A guerra do Líbano chamou a atenção sobre este país que tenta sobreviver em meio a crises políticas antigas e recentes no conturbado Oriente Médio

Texto: Stepan Norair Chahinian

A população libanesa é constituída de cristãos e muçulmanos. Entre os cristãos, a maior comunidade é de maronitas (ramo do catolicismo), mas há também gregos ortodoxos, gregos católicos e armênios. Entre os muçulmanos, existem sunitas, xiitas e uma pequena comunidade drusa. Há ainda um número reduzido de judeus. O arquiteto brasileiro Stepan Norair Chahinian conta a seguir a história do país que se confunde com a de sua família

Beirute, a capital: vista da montanha onde se encontra a estátua de Notre Dame du Liban


Minha relação com o Líbano começou antes de eu nascer. Sou descendente de imigrantes armênios, que, em razão do genocídio cometido pelos turcos em 1915, abandonaram suas terras em caravanas pelos desertos do Oriente Médio em busca de um lugar que os acolhessem. Na minha infância, costumava ouvir contar com muita gratidão as histórias do Líbano e da Síria – dois países que acolheram meus avós e milhares de famílias armênias que perambulavam pela região. Embora tenha nascido no Brasil, laços familiares me levaram ao Líbano há dois anos para visitar o irmão mais velho de minha avó paterna. Hrant Der Bedrossian, hoje com 82 anos, nasceu em Alepo, na Síria, e se mudou para Beirute.

Hrant viu vários Líbanos. Talvez, o melhor e mais harmonioso tenha sido aquele dos fins dos anos 50, quando estabeleceu sua residência em Beirute, então um paraíso no Mediterrâneo. A capital libanesa era referência de glamour, férias, praias lindas e construções imponentes, de uma arquitetura com personalidade e ponto de encontro de artistas e empresários vindos do mundo todo. O país orgulhava-se de sua herança histórica, que remonta há 2 mil anos, quando abrigou a civilização fenícia. Até hoje, o Líbano mantém monumentos de grande valor arqueológico construídos pelos povos que lá viveram. Um dos mais importantes é Baalbek, onde estão as maiores colunas romanas conhecidas e um templo encantador dedicado ao deus Baco, localizado no vale do Beka, no sul do país.

Hrant fez carreira em uma multinacional alemã, teve uma vida confortável e usufruiu da paz e das belezas do país que o acolheu. Entre 1971 e 1974, veio diversas vezes ao Brasil, pois a parte de cá da família insistia para que ele se mudasse para São Paulo. Mas Hrant adorava Beirute, assim como muitos imigrantes. Voltou para lá em 1974 e nunca mais saiu do país que adotara. A guerra civil do Líbano explodiu no ano seguinte.

Triste ironia: país que acolhera tantos povos diferentes, o Líbano acabou sendo uma vítima de sua diversidade étnica e religiosa. Na época, mais de 300 mil refugiados palestinos das guerras contra Israel se concentraram em seu território. Foi o bastante para romper a aparente harmonia entre os diversos povos e religiões locais. Em abril de 1975, a guerra civil opôs uma coalizão muçulmana, aliada dos palestinos, aos grupos maronitas cristãos com apoio de Israel. Foram quinze anos de conflito que deixaram o Líbano em ruínas.

Terminada a guerra, Beirute era a imagem do caos e da intolerância entre os vizinhos. A cidade mantém até hoje a divisão por bairros, conforme a religião e o grau de fanatismo de seus adeptos. Muçulmanos xiitas, sunitas, cristão maronitas, católicos, ortodoxos cultuam a desconfiança mútua. Hrant sobreviveu. Por sorte, o bairro em que morava não era um alvo prioritário para as diversas milícias armadas, cristãs e muçulmanas. Mas lembro do sofrimento da minha família. Era difícil conseguir notícias dele. As comunicações eram péssimas.

Em 1994, o então primeiro-ministro, Rafik Hariri, tornou-se o homem da grande reconstrução. Para isso, reuniu investimentos maciços com o apoio de capital estrangeiro e de grandes empresários árabes. O porto e o aeroporto de Beirute, escolas, hospitais e estradas, tudo começou a ser refeito. Uma década depois, o Líbano havia retornado a sua tradição de destino turístico, com exceção de algumas regiões do sul que serviam de base para grupos terroristas como o Hezbollah, que continuava a combater o Exército israelense com respaldo sírio.

Foi em 2004 que decidi conhecer a região que povoava as histórias de família que ouvia desde criança. Conheci Beirute, cujo centro histórico havia sido totalmente reconstruído – um pouco como cenário de Hollywood é verdade. Mas o país respirava paz, as pessoas circulavam tranqüilamente nas ruas. Os grupos religiosos e etnias ainda se dividiam em bairros diferentes, o que não impedia o trânsito entre as igrejas, mesquitas, cafés e restaurantes. Havia até uma certa euforia. Edifícios de aço e vidro conviviam com construções antigas, do tempo em que a região era protetorado francês. Da Place d’Étoile, no centro da cidade, saíam avenidas com lojas de grife. Agências de viagem anunciavam as belezas de Baalbek, Biblos, Trípoli e outras cidades que guardavam a rica memória dos antigos fenícios, gregos, persas e romanos.

Explosão em Maarjyou



Em fevereiro de 2005, uma tragédia deu um fim a esse tempo de paz. Hariri, polêmico como todo líder que ousa reconstruir um país, foi acusado por adversários de representar interesses estrangeiros, e foi morto em atentado nas ruas de Beirute. No mesmo lugar em que, meses antes, eu havia passeado com meu tio Hrant que me contava histórias da sangrenta guerra civil.

O atentado, atribuído aos sírios, foi o estopim de um novo estado de tensão. Manifestações arrastaram multidões às ruas, terroristas tiraram proveito da instabilidade para piorar o quadro político. O eterno conflito entre palestinos e israelenses assumiu novas proporções com repercussões no sul do Líbano, dominado pelo Hezbollah. Em 12 de julho, o Exército israelense atravessou a fronteira entre os dois territórios.


Foram 33 dias de guerra (um cessar-fogo foi estabelecido em 14 de agosto), que acompanhei pela televisão e internet. Novamente, ligávamos para Hrant em Beirute – muitas vezes sem conseguir linha – para ouvir notícias de bombas que explodiam perto de seu prédio. Ele dizia que não podia sair de casa, havia luz apenas algumas horas do dia, as pessoas faziam estoque de alimentos e remédios. As escolas haviam suspendido as aulas – Elisa, minha prima de 18 anos, não pôde completar o semestre da faculdade. Restaurantes, lojas, hotéis estavam fechados. O medo, desta vez, era mais intenso, pois o poder de destruição das armas de Israel era maior do que nos tempos da guerra civil.

O grosso dos ataques ocorria no vale do Beka e no sul do país, onde se concentrava a milícia do Hezbollah, mas os israelenses bombardearam os bairros muçulmanos de Beirute. Acabaram com pontes, estradas e a infra-estrutura que havia sido reconstruída com tanto esforço. O porto ficou sitiado e o aeroporto arrasado. A capital libanesa mais uma vez foi destruída.

Hrant sobreviveu a mais essa guerra, assim como milhares de cidadãos libaneses – muitos com famílias no Brasil. Apesar do cessar-fogo, não se sabe o que reserva o futuro do país. Mas a história do Líbano é bem maior, na verdade se confunde com a história da humanidade. A esperança é que, novamente, o país encontre uma saída. Se já enfrentou o domínio e as disputas de fenícios, hititas, romanos, gregos, persas, europeus e turcos, supõe-se que esta seja uma região fadada a sobreviver aos desatinos dos seres humanos nessa complicada e explosiva mistura de interesses étnicos, religiosos, políticos e econômicos do Oriente Médio e do mundo.


Natureza, vítima do conflito


Efeitos da guerra têm longo alcance: derramamento de óleo deve prejudicar o ambiente e a vida marinha no Mediterrâneo

Mais de 15 mil toneladas de combustível foram derramados no mar Mediterrâneo em 14 de julho de 2006, quando aviões israelenses atingiram a usina elétrica de Jiyeh, a 20 quilômetros de Beirute. Novos mísseis atingiram o local no dia seguinte. Seis tanques de combustível foram destruídos, gerando explosões que derrubaram o dique construído para conter vazamentos. O óleo contaminou até 30 quilômetros do litoral libanês e afetou praias e portos, atingindo também a Síria. Segundo a ONU, a limpeza do vazamento poderá durar até um ano e custar US$ 64 milhões. Esse foi mais um resultado da guerra, que matou 1.200 pessoas (a maioria civis libaneses) e destruiu cidades inteiras. “O fundo do mar está cheio de combustível – entre as rochas e os vales”, disse Mohammed El Sarji, chefe dos mergulhadores libaneses que gravaram imagens da mancha de óleo. “Tudo está coberto de piche.” Segundo grupos ambientalistas, o vazamento deve prejudicar espécies como atum e tartarugas que vivem na região.

Revista Horizonte Geográfico

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Crise Econômica e Absurdo Filosófico


“Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas o começo...” Albert Camus
por Edson Amâncio
Quando Camus faz seu irresistível personagem Meursault, de O estrangeiro, assassinar um árabe na praia ‘por causa do Sol’ e, com a mesma gratuidade, o leva a assistir ao enterro da mãe, ir ao cinema e ajudar um amigo num caso obscuro, ele apenas desvela uma das mais temerárias facetas da nossa existência: o absurdo.

Podemos falar da crise econômica que se abateu sobre o mundo globalizado como um desses absurdos tão caros a Camus e aos existencialistas franceses? Que melhor definição pode ser aplicada à situação de um casal idoso que pôs suas economias, durante décadas, numa instituição financeira, com o fim de ter uma velhice confortável, ao receber a notícia de que perdeu tudo na crise?

Não é possível aquilatar se a dor que se abate sobre um operário, que perdeu seu trabalho, tem a mesma intensidade que a do empresário que vê seu patrimônio escorrer entre os dedos. Ou aquela família que teve de abandonar a própria casa por inadimplência e a do casal de idosos mencionado. Aqui talvez pudéssemos citar Tolstoi na abertura do seu romance Ana Karenina: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

A crise chegou. As pessoas perdem seus bens. Empresas vão à falência. Milhares estão desempregados. Há desesperança onde quer que repouse o olhar. A insegurança, filha espúria do absurdo globalizado, bateu à porta. Há decepção e descrença. É quase impossível abstrair que, por trás da bancarrota, há uma cabeça de medusa e seus mil tentáculos que responde pelo insípido nome de “sistema”. A cada uma das vítimas adiciona-se o peso do fracasso pessoal, da impotência e da culpa. Não somos, entretanto, individualmente responsáveis pelo absurdo que se avizinhou de forma sorrateira, pegando-nos de surpresa. Batemos no próprio peito assumindo para nós mesmos as conseqüências do fracasso. Poucos percebem que estamos inseridos num sistema de bases movediças. Não houve entre nós quem tivesse a sensibilidade aguçada do elefante que previu o tsunami com antecedência de horas. Uma multidão de especialistas não o fez. E se o tivessem feito, mudaria alguma coisa?

Não me parece que, se assim fosse, o resultado seria diferente. Ninguém estava a postos para fazer previsões desse quilate. Pensávamos apenas em concorrer, disputar, vencer, chegar lá, e jogamos todas as fichas nesse ambicioso projeto.

É possível fazer previsão realista para as conseqüências da crise econômica na saúde física e mental das suas vítimas? Quantos ataques cardíacos poderão ocorrer por causa disso? Quem se tornará hipertenso, ansioso, depressivo. E os que terão ataques de pânico? Quantos suicídios serão computados na sombria contabilidade da crise econômica? Também neste pormenor não há especialista capaz de fazer previsão. A crise econômica não faz bem a ninguém. Maltrata a todos, direta ou indiretamente.

O executivo que perdeu suas regalias na crise é acometido subitamente de forte opressão no peito. Um manto de suor recobre seu rosto. Sua pele torna-se pálida e a respiração é ofegante. Em alguns minutos é conduzido a um pronto-socorro. Os exames não revelaram nenhuma alteração. O cardiologista calmamente informa-lhe o diagnóstico: “Sua saúde física está em ótimo estado. Seu problema é psicológico”. Cenas como essa são reproduzidas diariamente em hospitais de todo o mundo.

Mas é um erro interpretar esse tipo de ocorrência como mero “problema psicológico”, pois essa postura minimiza a importância dos efeitos da mente sobre o corpo. Só nos Estados Unidos, 1,5 milhão de pessoas sofre ataque cardíaco por ano. É difícil determinar quantos desses eventos devem ser atribuídos ao estresse. Uma equipe de pesquisadores da University College London fez uma ampla revisão em questionários aplicados a pessoas que sofreram ataques cardíacos entre 1974 e 2004 e compilou respostas dadas à seguinte questão: “O que você estava fazendo ou sentindo nas horas que antecederam o ataque cardíaco?”. Estresse emocional estava entre as respostas mais comuns.

O que fazer para amenizar o impacto da crise econômica na vida cotidiana?

Para alguns, o abandono do ato de fumar, a redução no consumo de café e adoção de dietas ricas em legumes e frutas, em detrimento de excessivo consumo de carne vermelha, estão entre eles. Há uma lista que pode parecer clichê, mas que não deve ser subestimada. Ampliar o interesse por temas elevados, por cultura, boas leituras, música, artes em geral. Procurar o convívio de pessoas mais sábias, aproximar-se mais dos verdadeiros amigos e das pessoas queridas. Talvez devêssemos incluir aí um pouco de filosofia, quem sabe até mesmo religião em doses adequadas.

Mas há algo, amplamente desenvolvido entre os animais, particularmente entre os chimpanzés, que deveríamos retomar como uma das formas de enfrentar o absurdo que nos espreita a cada dia: altruísmo, ou o retorno à indignação ética.

Edson Amâncio é neurocirurgião. Autor de O homem que fazia chover e outras histórias inventadas pela mente (Barcarolla, 2006).

Scientific American Brasil

Efeitos globais do bife brasileiro

Desmatamento para pastagens na Amazônia é responsável por aproximadamente 50% dos gases de efeito estufa no país
por Igor Zolnerkevic

©VALTER CAMPANATO/ABR

PADRÃO DE OCUPAÇÃO da terra no Brasil se repete na Amazônia: derrubada da floresta e implantação da pecuária como forma de legitimação.

O maior rebanho bovino do mundo pertence ao Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE) sugerem um número total de 170 a 207 milhões de cabeças de gado – quase ou mais que um boi por habitante. O Brasil é um caso muito importante de impacto ambiental da produção de gado de corte. O relatório de 2006 “A Longa Sombra do Gado de Corte”, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), cita o Brasil muitas vezes e chama a atenção para as peculiaridades do país.

Enquanto em países desenvolvidos a maior parte dos gases de efeito estufa (GEE) vem do setor energético, a mais recente estimativa divulgada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), com base em dados de 1994, revela que 55% a 60% das emissões brasileiras resultam do desflorestamento, geralmente para abertura de novas pastagens.

De fato, não existe um estudo científico preciso do volume dos GEE do desmatamento que se deve à formação de pastagens, justifica Paulo Barreto, pesquisador do Instituto Imazon, em Belém, no Pará. É possível, no entanto, estimar uma ordem de grandeza. Se 75% a 80% do desmatamento na Amazônia são devidos à abertura de pastagens, então, só esse processo, na Amazônia, responde por 41% a 48% das emissões de GEE brasileiras.

Somando a esse número as emissões da atividade do gado de corte em si – segundo estudos recentes, algo como 9% das emissões totais do país – conclui-se que direta ou indiretamente a carne bovina produz em torno de 60% dos GEE do Brasil. Isso é mais que o triplo da média global, que o relatório da FAO estima em 18%.

© VALTER CAMPANATO/ABR

ALÉM DA liberação de gases no processo digestivo, a pecuária também contribui com o efeito estufa pela derrubada de florestas


Pressão Externa
Com base no relatório da FAO, apareceram notícias, principalmente na mídia européia, estimando que 1kg de carne bovina brasileira produz 45kg de CO2-equivalente, enquanto a européia registra entre 15 kg e 25 kg de carbono por 1kg de carne, diz Matheus de Almeida, mestrando em economia aplicada na Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). Para ele “o setor produtivo nacional teme boicotes e barreiras tarifárias”.

Almeida integrou uma equipe coordenada por Sérgio De Zen, da Esalq, que produziu no ano passado um relatório sobre os impactos ambientais e as emissões de GEE da pecuária de corte brasileira. O relatório foi encomendado pela Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), que representa pecuaristas de grande porte. O relatório concentrou-se em fontes de GEE como o metano, emitido durante a digestão dos animais.

Os comportamentos estão mudando no meio pecuarista. Magda Lima, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna, interior de São Paulo, relata: “Antes tínhamos de falar com os produtores com muito cuidado sobre esse assunto”. Segundo ela, soava como insulto dizer que “o gado emite metano”. Magda Lima coordena a redação de outro relatório sobre emissões de GEE da pecuária nacional que será concluído ainda este ano. Essa pesquisa reflete “uma pressão externa para reduzir as emissões, e precisamos ajudar o setor produtivo nessa tarefa,” argumenta ela.

O relatório da Esalq cita um estudo de De Zen, Lima e colaboradores – publicado em 2007– projetando o impacto ambiental do rebanho brasileiro para 2025, com base nas taxas atuais de melhoramento da produção de carne bovina nacional. A conclusão foi que, embora o rebanho futuro deva ser 7% maior que o atual, a produção de carne aumentará em 25%, enquanto as emissões de metano, o principal GEE da pecuária, crescerão apenas 3%.

© MARCELLO CASAL JR/ABR

CONSÓRCIO ENTRE floresta e pastagens, capaz de amenizar impacto ambiental da pecuária ainda não tem aceitação no campo


Almeida justifica essa conclusão pela sofisticação do agronegócio: “A pecuária está deixando o estágio de subsistência e de investimento em longo prazo. Antes não havia a preocupação de ser o mais eficiente possível. Agora existem empresários tomando conta do setor”, justifica. “Se a pecuária continuar a evolução que vem mostrando nos últimos anos, há espaço para ganho de peso, redução da idade de abate, aumento da taxa de prenhez e aproveitamento de carcaças”. E a produção de carne deve crescer mais que o aumento proporcional do rebanho, prevê.

Confinamento
Mesmo com a expectativa de que as emissões de GEE se estabilizem, é preciso reconhecer que os índices atuais já são críticos e devem diminuir, consideram pesquisadores que atuam nessa área. Para atingir esse resultado, tanto o relatório da FAO como especialistas nesse segmento recomendam políticas públicas para incentivar a mudança do sistema predominante no Brasil, a criação extensiva, com o gado solto no pasto. A opção é pelo sistema de confinamento.

Pesquisadores brasileiros, no entanto, questionam a base econômica e ambiental dessa alternativa. “No Brasil, grandes grupos fazem confinamento de gado e têm prejuízos”, diz Almeida. Argumenta que “além do custo de implantação – estender cercas, construir cochos para alimentação e tudo o mais – é necessário um capital de giro elevado para manter um grande estoque de ração, em torno de 10 kg/dia por animal”. Economicamente não é possível, na avaliação de Almeida, propor confinamento a pecuaristas com rebanhos inferiores a 50 cabeças.

“Queremos acreditar que o confinamento seja um sistema sustentável, mas é preciso verifi car o balanço dos gases, o quanto entra e sai”, observa Lima. O relatório da Esalq aponta, por exemplo, que a ração à base de grãos de soja para o animal confinado, rica em proteína, aumenta a liberação de óxido nitroso (NO2), gás que contribui 296 vezes mais para o efeito estufa que o dióxido de carbono. “O confinamento pode ser adotado como solução para pequenas regiões produtivas, onde o sistema de produção de gado não tem alternativa viável”, diagnostica o relatório.

Alternativas
Aumentar a eficiência da criação extensiva com a melhoria de qualidade das pastagens é a alternativa mais imediata ao confinamento, sugere o relatório da Esalq. Com pastagens de melhor qualidade é possível adensar o número de cabeças por unidade de área, ou seja, criar mais gado em menos espaço e assim reduzir os GEE em 10%. “Algumas regiões de produção têm densidade de 0,5 animal por hectare, quando o ideal deve ser 1,2 animal por hectare”, avalia Almeida. Essa relação, acredita ele, é uma forma de elevar a produtividade, com resultados positivos para produtor e ambiente.

Mas essa relação mais eficiente demanda investimentos para reformulação e manutenção das pastagens, identifica o pesquisador, para quem “a maioria dos produtores não cuida de suas terras por falta de recursos”. Ao menor sinal de aperto financeiro, no diagnóstico do pesquisador, os produtores negligenciam a qualidade das pastagens, “até mesmo com uso do fogo, que não só degrada o solo como deprecia a propriedade”.

Além de melhorar a qualidade das pastagens, pesquisas em diversos países recomendam mudanças na dieta, fisiologia e até na genética dos rebanhos como forma de diminuir as emissões de metano. O gás é produzido quando bactérias e protozoários, no sistema digestivo do animal, decompõem os resíduos da digestão da celulose. Apenas o melhoramento genético poderia reduzir essas emissões em até 30%.

Nesse esforço de mitigação de gases de efeito estufa, outra alternativa é a integração entre pastagens e floresta, identifica Almeida. A proposta desse sistema silvipastoril é criar o gado em pastagens consorciadas, com árvores cultivadas para a produção de madeira, papel, carvão vegetal, ou apenas para serviços ambientais; função que também permite receitas adicionais. Isso já ocorre em países latino-americanos como Colômbia e Costa Rica. Uma vantagem adicional, nesse caso, é que o consórcio pastagens/florestas permite que as emissões liberadas pela pecuária sejam seqüestradas pelo crescimento das florestas cultivadas. Neste caso, uma fazenda pode ser “neutra enquanto emissora de gases de efeito estufa”, analisa o pesquisador.

Carbono no Solo
Mesmo a pecuária isolada, devidamente manejada, é capaz de seqüestrar carbono atmosférico. Nesse caso, medidas como manutenção de vegetação adequada, faz com que o carbono se agregue à matéria orgânica do solo. Uma pastagem bem manejada pode absorver até uma tonelada de carbono por hectare, indicam as pesquisas de campo. Alguns estudos da unidade da Embrapa de São Carlos sugerem até 12 toneladas por hectare de estocagem de carbono, segundo Almeida.

Dados produzidos pela equipe internacional de cientistas que integram o programa da ONU sobre mudanças climáticas, no entanto, sugerem que o estoque de carbono no solo ocorre por um período curto, em torno de 25 anos. Isso faz com que essa alternativa seja recusada como um verdadeiro sorvedouro de GEE. Outras pesquisas, no entanto, desenvolvidas no Brasil e no exterior, envolvendo solos tropicais, mostram que a estocagem pode acontecer por períodos muito maiores, de até 100 anos.

Assegurar que o carbono fixado no solo retorne à atmosfera em determinado período de tempo é, na realidade, uma generalização grosseira. “Frações de matéria orgânica são mineralizadas em poucas horas, mas outros volumes permanecem no solo por séculos”, avalia Ítalo Guedes, pesquisador da Embrapa Hortaliças, em Brasília. Ele acredita que uma das principais razões para a convenção do clima da ONU ainda rejeitar a fixação de carbono no solo, está na dificuldade de se medir exatamente o quanto um certo tipo de manejo contribui para o sequestro de carbono.

O que ocorre, neste caso, é a incompatibilidade de utilizar uma mesma metodologia tanto para solos de clima temperados como tropicais. “As regiões tropicais têm solos muito mais profun- dos que os das regiões temperadas, conhecidos como latossolos, com estrutura bem estável”, argumenta Guedes. Os latossolos armazenam grandes quantidades de carbono a profundidades superiores a um metro, ou seja, em níveis distintos aos que os métodos convencionais costumam considerar. Se a estocagem for feita em latossolos – que cobrem a maior parte do território brasileiro – os valores acabarão subestimados, mas o carbono não contabilizado será exatamente o mais protegido e estável, assegura o pesquisador da Embrapa.

Novos Dados
Magda Lima, da unidade da Embrapa de Jaguariúna, em complemento às considerações de Guedes, observa que os números sugeridos pelo IPCC e utilizados em projeções de emissões de GEE estão baseados em trabalhos restritos a regiões temperadas. As referências envolvendo a região tropical são escassas. A Embrapa, por exemplo, começou a medir emissões de NO2 e encontrou números diferentes dos sugeridos pelo IPCC, de acordo com a pesquisadora.

Mesmo com o início recente das pesquisas, há 10 anos, o Brasil já é referência em pesquisa de emissões de ruminantes, considera Magda Lima, que também coordena a preparação de relatórios ainda confidenciais sobre as emissões de GEE do rebanho nacional e de seus dejetos. Essas medidas integram um novo levantamento oficial de emissões, que o Brasil entregará ainda este ano à convenção climática da ONU.

O primeiro inventário das emissões brasileiras foi publicado em 2004, com base em dados de 1986 a 1996. O novo contará com dados obtidos com a criação da Rede Agrogases de pesquisa da Embrapa Meio Ambiente, que funcionou de 2003 a 2007. Esse trabalho foi uma espécie de mutirão para medir diretamente as emissões de atividades agropecuárias no Brasil.

Com esse levantamento foi possível obter valores de emissão específicos para o perfil do rebanho nacional, incluindo diferenças entre raças, distinção entre machos e fêmeas e idades, relata a pesquisadora. Ela reconhece, no entanto que ainda há muito trabalho a fazer nessa área. Especialmente porque “a informação varia entre cada um dos estados da federação”. O desafio, acrescenta, “é montar o experimento como ele deve ser”. Apenas medir a emissão de metano não diz nada, adverte. Vários parâmetros devem ser considerados para serem correlacionados. E, às vezes, lamenta a pesquisadora “não há pessoal e equipamento adequados para isso”.

Formação e informação adequadas também são parte dos obstáculos para implementar técnicas como o manejo pastoril e o sistema silvipastoril em escala nacional. Suporte financeiro é importante, mas apenas isso não basta, considera Almeida, da Esalq, para quem a difusão de conhecimento é imprescindível. Para o pesquisador, há muitos trabalhos promissores, mas nem sempre eles estão disponíveis no campo, onde os produtores ainda se valem de recursos arcaicos, entre eles o fogo, na preparação das terras de cultura ou pastagens.

CONCEITOS-CHAVE
- O desmatamento para pastagens na Amazônia é a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa do Brasil. Contribui com aproximadamente 50% do total.

- Desconsiderando o desmatamento, a pecuária bovina brasileira é responsável diretamente por 36% das emissões de gases de efeito estufa restantes do país, ou 9% do total. Emite quase seis vezes mais que o setor de transporte.

- Para reduzir as emissões, pesquisadores recomendam o melhoramento da eficiência do sistema de criação extensivo, principalmente com o manejo adequado de pastagens e a integração da pecuária com a silvicultura.

- O Ministério da Ciência e Tecnologia divulgará este ano um novo inventário oficial das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, com dados inéditos coletados entre 2000 e 2006.
– Os editores

PARA CONHECER MAIS
Primeiro inventário brasileiro de emissões antrópicas de gases de efeito estufa – Relatórios de Referência. Disponível on-line em http://www.mct.gov.br/index.php/ content/view/25441.html

Pecuária de corte brasileira: impactos ambientais e emissões de gases efeito estufa. Sérgio De Zen, Luis Gustavo Barioni, Daniela Bacchi Bartholomeu Bonato, Matheus Henrique Scaglia de Almeida e Tatiana Francischinelli Rittl. Sumário disponível on-line em http://www.cepea.esalq. usp.br/pdf/Cepea_Carbono_pecuaria_SumExec.pdf

A pecuária e o desmatamento da amazônia na era das mudanças climáticas. Paulo Barreto, Ritaumaria Pereira e Eugênio Arima. Disponível online em http://www.amazonia.org.br/ guia/detalhes.cfm?id=297322&tipo=6&cat_id=46&subcat_id=198

O reino do gado – Uma nova fase na pecuarização da Amazônia Brasileira. Roberto Smeraldi e Peter May. Disponível on-line em http://www. amazonia.org.br/guia/detalhes. cfm?id=259383&tipo=2&cat_id=46&subcat_id=1

Igor Zolnerkevic jornalista científico, já colaborou com publicações como o jornal Folha de S.Paulo e a revista Pesquisa Fapesp. Mantém o blog Universo Físico.

Scientific American Brasil

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Apagões e o “efeito dominó” na economia

Feedbacks na rede econômica podem transformar crises locais em globais
por Jeffrey Sachs
FOTOS POR BRUCE GILBERT/EARTH INSTITUTE; ILUSTRAÇÃO POR MATT COLLINS


A crise econômica global se parece muito com um apagão. Uma única queda numa linha de transmissão, ou uma sobrecarga temporária, provoca a interrupção de energia elétrica em outras partes da rede o que, por sua vez, leva a novas sobrecargas, interrupções e finalmente a uma cascata de falhas que fazem uma região ficar às escuras. De forma análoga, a situação emergencial do sistema bancário americano, provocada pela degradação das condições do mercado, enviou ondas de choque ao sistema financeiro mundial, provocando uma crise bancária global que agora ameaça transformar-se em crise econômica geral.

Falências em cascata – conhecido como “efeito dominó” – são fenômenos que estão surgindo em redes, em vez de serem considerados como fracassos independentes e coincidentes de seus componentes individuais. Apesar de muitos bancos nos Estados Unidos e Europa investirem massivamente no financiamento de valores mobiliários de risco, endossados por hipotecas (MBSs em inglês), respostas positivas no sistema econômico global amplificaram esses erros. Reguladores bancários e diretrizes macroeconômicas ainda não deram a devida atenção a esses efeitos.

O primeiro efeito importante é a “espiral deflacionária da dívida”. Quando as taxas de inadimplência das hipotecas começaram a aumentar, em 2007, os bancos sofreram perdas de capital em seus investimentos em MBSs. Para reembolsar seus credores (como os fundos do mercado financeiro, que tinham emprestado dinheiro a curto prazo), os bancos venderam massivamente seus MBSs, reduzindo ainda mais os preços de mercado desses títulos e ampliando as perdas do setor bancário.

Em segundo lugar, quando bancos sofrem perdas de capital empregado em ativos ruins, cortam os empréstimos na mesma proporção de suas perdas de capital. Esse corte desvaloriza ainda mais o preço dos imóveis, reduzindo o valor dos ativos bancários e aumentando a depreciação.

Terceiro: enquanto um ou mais bancos entram em pane, o pânico se instala. Os bancos emprestam a curto prazo para investir em ativos em longo prazo, que somente podem ser liquidados rapidamente com grandes perdas. Quando, de repente, os credores de curto prazo acreditam que outros credores de curto prazo estão resgatando seus empréstimos, cada credor tenta racionalmente resgatar seu empréstimo antes dos outros. O resultado é a caracterização da auto realização do pânico em massa, às retiradas, como aconteceu no mundo todo em setembro de 2008, com a quebra do Lehman Brothers. Um “pânico racional” como esse pode liquidar bancos que de outra forma estariam solventes.

Em quarto lugar, à medida que os bancos cortam seus empréstimos, os gastos e investimentos dos consumidores caem verticalmente, o desemprego aumenta e os bancos perdem mais capital e aumentam os riscos de seus empréstimos. A economia entra em parafuso. Somente políticas fiscais e monetárias agressivamente expansionistas na China, Japão, Alemanha e outras nações com lucros acumulados internacionais podem evitar essas conseqüências nas atuais circunstâncias. A recessão americana não poderá mais ser evitada, mas seus efeitos ainda podem ser moderados nos Estados Unidos e mais lentos no Leste Asiático.

Entre algumas precauções parciais adotadas, as mais importantes incluem padrões de adequação de capital que protegem bancos individuais contra perdas de capital, empréstimos emergenciais do banco central, seguros de depósitos e políticas macroeconômicas contracíclicas – ações que procuram suavizar as oscilações da atividade econômica. Na prática, essas políticas têm sido praticadas casualmente sem levar em conta os limites a serem superados e, em geral, foram reduzidas e tardias, sem qualquer preocupação em criar proteções para impedir rapidamente a propagação dos efeitos entre países.

Como, agora, novas diretrizes começam a reformar os sistemas financeiros e econômicos globais, seria prudente que consultassem as análises clássicas da Grande Depressão apresentadas no livro A monetary history of the United States, 1867-1960 (Uma história monetária dos Estados Unidos, 1867-1960) por Milton Friedman e Anna Jacobson. Segundo eles, “o colapso econômico, muitas vezes, tem características de um processo cumulativo. Se ultrapassar certo ponto tenderá, por algum tempo, a ganhar força de seu próprio desenvolvimento e seus efeitos se espalharão e voltarão a intensificar o processo de colapso”.

Nossos riscos vão muito além dos financeiros. Nossos empreendimentos temerários na recente bolha financeira são minimizados pelos riscos de longo prazo que assumimos através do fracasso com que tratamos as crises inter-relacionadas de água, energia, pobreza, alimentos e mudanças climáticas. A crise financeira deveria abrir nossos olhos para essas ameaças, muito mais graves e sistêmicas, e à cooperação global necessária para remediá-las.



Jeffrey Sachs é diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia (www.earth.columbia.edu).

Scientific American Brasil

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Mudanças na indústria automobilística

Somente uma parceria entre os setores público e privado pode ajudar as Big Three (Três Grandes) a sobreviver
por Jeffrey Sachs

FOTOS POR BRUCE GILBERT/EARTH INSTITUTE; ILUSTRAÇÃO POR MATT COLLINS


A indústria automobilística americana, nos últimos meses, tem sido largamente aviltada, com toda a opinião pública contra uma ajuda financeira do governo. A indústria caiu na armadilha de altos custos, incluindo benefícios impossíveis, uma situação extremamente confusa de obrigações contratuais e ações normativas, que permitiram a produtores estrangeiros tomar uma parcela cada vez maior do mercado. Pior, as Big Three (Chrysler, Ford e General Motors) continuaram a promover os utilitários esportivos (SUVs) “sedentos de gasolina”, enquanto aumentavam os riscos ao clima e à conservação da energia. Até certo ponto, a indústria também está pagando pelo aumento do custo na saúde nacional, que deveria estar sob um controle público melhor, e por diretrizes inadequadas de rendimento do combustível e baixos impostos sobre a gasolina (se comparados aos da Europa e leste da Ásia), que facilitaram a demanda de consumo para veículos maiores. Porém, muitos dos problemas da indústria resultam de seus próprios erros estratégicos.

Não obstante, o desdém por essa indústria falha ao não entender quatro pontos cruciais. O primeiro, um colapso das Big Three, somaria outra calamidade econômica à já perturbada crise. Milhões de empregos seriam perdidos em lugares com altas taxas de desocupação e não haveria compensação para a criação de novos postos. O segundo, a má situação dos fabricantes de carros, é o resultado de um colapso dramático de todas as vendas de veículos, antes de ser uma redução da parcela americana dessas vendas. As Big Three não se encontrariam à beira do precipício da insolvência se não fosse pela pior recessão desde a Grande Depressão. O terceiro, a liderança pública e política que traz uma enorme co-responsabilidade na mal orientada era dos SUVs, com sua flagrante negligência de segurança energética, riscos climáticos e empréstimos domésticos insustentáveis.

O quarto e mais crítico, foi a mudança para automóveis de alta milhagem, que demanda esforços públicos e privados. A principal mudança tecnológica, máquinas de combustão interna para veículos elétricos recarregáveis numa grade elétrica limpa, ou com combustível de hidrogênio, requer uma infusão massiva de diretrizes e investimentos públicos. As pesquisas e seu desenvolvimento dependem de enormes desembolsos, e grande parte desse P&D deveria, sob qualquer circunstância, tornar-se propriedade intelectual pública antes de privada. Essa é a razão por que durante um século o governo americano subvencionou a área de P&D em muitas indústrias, incluindo aviação, computação, telefonia, internet, desenvolvimento de medicamentos, geração de indústrias avançadas, satélites e GPS.

O que se pode lamentar é que a apresentação do híbrido elétrico Chevy Volt terá um preço de tabela no primeiro ano de US$ 40 mil. Os custos nos primeiros estágios, inevitavelmente, são bem mais elevados que no decorrer de um período mais longo. As diretrizes públicas deveriam ajudar a promover essa transição através de recursos como a aquisição pelo setor público de frotas de veículos de modelos novos, taxação especial e incentivos de financiamento para os primeiros compradores, e uma taxação da gasolina mais elevada com a finalidade de incorporar os custos das modificações climáticas e a dependência da importação de petróleo.

O financiamento americano de tecnologias de energia sustentável, como as baterias de alto rendimento, o fator limitante das velas de ignição em híbridos, foi reduzido desde que Ronald Reagan inverteu os investimentos iniciados por Jimmy Carter. De acordo com os dados da International Energy Agency, os gastos federais americanos em toda a área de energia, de P&D, alcançaram aproximadamente US$ 3 bilhões anuais nos últimos anos – menos que dois dias de gastos do Pentágono. Essa negligência está finalmente mudando com o compromisso de US$ 25 bilhões em empréstimos para aumentos na área tecnológica, aprovados pela legislação de energia de 2007, mas essa quantia ainda não foi mobilizada e pode chegar demasiado tarde para ajudar. As verbas diretas de P&D para laboratórios do governo, empresas e universidades deveriam ser aumentadas.

Os Estados Unidos precisam de uma diretriz público-privada, e não simplesmente acusar o setor privado. Os veículos Chevy Volt, da GM, os novos Extended-Range Electric Vehicles, da Chrysler, e os esforços em grande escala para produzir, dentro de uma década, um veículo de célula de combustível demandam suporte público, com P&D para tecnologias básicas, apoio para as demonstrações e disseminação dos primeiros estágios. Impostos mais altos sobre a gasolina, que espelhem custos de segurança e climáticos, e investimentos públicos em tecnologias complementares, como uma grade energética limpa. Seria um erro de proporções históricas deixar a indústria morrer no limiar de uma transformação vital.



Jeffrey Sachs é diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia (www.earth.columbia.edu).

Scientific American Brasil

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Entenda o conflito na Irlanda do Norte


Dois atentados nos últimos dias trouxeram de volta os fantasmas de tensões políticas e religiosas
SÃO PAULO - Dois atentados ocorridos nos últimos dias na Irlanda do Norte trouxeram de volta os fantasmas do sangrento conflito que atingiu a região durante décadas. No último sábado, 7 de março, dois soldados britânicos foram mortos e outras quatro pessoas ficaram feridas em um ataque contra o quartel de Massereene, no condado de Antrim, ao norte de Belfast.

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No dia seguinte, o IRA Real, uma dissidência do IRA (Exército Republicano Irlandês) assumiu a autoria do atentado. Já nesta segunda-feira, um policial foi morto a tiros em uma emboscada na cidade de Craigavon, a cerca de 40 quilômetros de Belfast, assumido pelo IRA Continuidade, outra dissidência. A BBC preparou uma série de perguntas e respostas sobre os conflitos de raízes políticas e religiosas na Irlanda do Norte.

Qual é a história da Irlanda do Norte?

A Irlanda do Norte se formou em 1921, depois que um acordo entre a Grã-Bretanha e a República da Irlanda - que declarou sua independência de Londres em 1916 - dividiu a ilha.

Pelo acordo, 26 condados passaram a pertencer à Irlanda, enquanto outros seis condados do norte, parte da província do Ulster, ficaram sob o domínio do que passou a se chamar em 1927 de Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte.

Quais os motivos do conflito na região?

O principal motivo para o conflito está nas desavenças sobre se a região deve fazer parte da Irlanda ou do Reino Unido. Algumas pessoas, especialmente aquelas que pertencem à comunidade unionista protestante, defendem que a região deve continuar sob o domínio de Londres.

Outras, particularmente aquelas que fazem parte da comunidade católica nacionalista, acreditam que a região deve deixar o Reino Unido para se anexar à República da Irlanda.

As relações entre as duas partes começaram a ficar mais tensas a partir do final dos anos 1960, quando começou um ciclo de violência que durou mais de 30 anos, com episódios de tumultos nas ruas e campanhas de atentados a bomba. Até agora, mais de 3,6 mil pessoas morreram durante os conflitos, a maioria delas civis.

Por que o exército britânico está na Irlanda do Norte?

O Exército britânico foi posicionado na região para tentar manter a paz depois que o Royal Ulster Constabulary (força policial da Irlanda do Norte até 2001) perdeu o controle da situação.

O Exército, no entanto, logo foi visto como uma força de ocupação pelos nacionalistas, o que fez com que as tropas fossem alvo de ataques de grupos paramilitares. No período mais tenso do conflito, 28 mil soldados britânicos estavam na região. Atualmente, há cerca de 5 mil homens.

Quais são as negociações políticas?

O processo de paz na Irlanda do Norte está sendo trabalhado nos últimos 20 anos. Participaram das negociações os governos da Irlanda e da Grã-Bretanha e políticos da região.

Depois de declarações de cessar-fogo por parte do grupo paramilitar IRA (Exército Republicano Irlandês) e de grupos unionistas, começaram negociações entre os partidos políticos, que culminaram com o Acordo da Sexta-Feira Santa, de 1998.

Em 2007, o Partido Unionista Democrático (DUP, na sigla em inglês) e o Sinn Fein (antigo braço político do IRA) chegaram a um acordo para a transferência do governo. Estes dois partidos dominam agora o cenário político da Irlanda do Norte. Desde 2008, o primeiro ministro do governo da região é Peter Robinson, membro do DUP, enquanto seu vice é Martin McGuinnes, um ex-comandante do IRA.

Quem ainda é contra o processo de paz?

Segundo especialistas em segurança, grupos republicanos dissidentes representam a maior ameaça ao processo de paz, sendo que muitos grupos paramilitares ainda estão em atividade.

Entre esses grupos estão o chamadao Continuity Irish Republican Army (Continuidade do Exército Republicano Irlandês, em tradução livre), o IRA Real, o Exército de Libertação Nacional Irlandês e o Óglaigh na hÉireann. Informações dão conta de que os dois primeiros estariam "especialmente em atividade" e poderiam estar preparando novos ataques.

BBC Brasil - Estadão

A Irlanda vai manter a paz


30/04/2009
Gianni Carta

O ex-primeiro-ministro da Irlanda do Norte e Nobel da Paz de 1998 William David Trimble acredita que seu país já pode se considerar pacificado. Com isto, não quer dizer que a paz seja uma obrigatoriedade entre as facções que dividem o poder na Irlanda do Norte. No mês de março, um atentado deixou mortos dois soldados britânicos e um policial. Lorde Trimble, que aderiu ao Partido Conservador em 2006, acredita, contudo, que a ocorrência não renderá frutos políticos aos pequenos grupos responsáveis por ela. A sociedade, como ele a vê, rejeitou a violência.

Lorde Trimble integra o II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade a ser realizado entre 6 e 7 de maio em São Paulo no Palácio das Convenções no Anhembi, em São Paulo. Ao evento apoiado por CartaCapital comparecerá, entre outros expoentes, o Nobel de Economia de 2006, Edmund Phelps.

Ele falará no dia 7 durante a mesa-redonda intitulada Democracia, Não Violência e Paz. O encontro quer promover a troca de informações entre governo, instituições privadas e sociedade sobre o papel educativo da comunicação para a compreensão do conceito de sustentabilidade. O evento é gratuito para professores e estudantes cadastrados no site www.comunicacaoesustentabilidade.com.

CartaCapital: Os assassinatos de dois soldados britânicos e um policial, perpetrados em março por grupos republicanos, alterará a maneira como o senhor apresentará o processo de paz na Irlanda do Norte no fórum de São Paulo?
William David Trimble: Não mudarei minha apresentação, porque apenas pequenos grupos de dissidentes republicanos e unionistas são contrários ao acordo de paz assinado em 1998. Os eventos de março ocorreram porque alguns ativistas do Exército Republicano Irlandês (IRA) voltaram à luta armada. Não há, contudo, apoio decrescente ao processo de paz no seio do movimento republicano. A classe política norte-irlandesa reagiu de maneira firme contra essas mortes, e a polícia indiciou um número significativo de suspeitos por elas. A autoria das mortes deve ser estabelecida.

CC: Em que regiões do mundo o modelo do processo de paz na Irlanda do Norte poderia ser aplicado?
WDT: Reluto bastante em apontar na experiência irlandesa um modelo. Critico, na verdade, quem a vê como um. O processo de paz ocorrido na Irlanda do Norte, do qual me orgulho, talvez suscite sugestões para outras localidades, mas fazer esta adaptação pura e simplesmente em uma outra região é algo temerário. Em qualquer parte onde haja conflitos semelhantes ao da Irlanda do Norte é preciso priorizar circunstâncias da comunidade e da sociedade afetadas.
Quando um acordo se delineava para a Irlanda do Norte em 1996, participei de conferências na África do Sul. Queria entender como o país lidava com divergências políticas antes de chegar à mesa de negociações. Na Irlanda do Norte, utilizamos apenas um conceito sul-africano, o sufficient consensus (consenso suficiente), um mecanismo importante em nosso processo de paz. Mas é freqüente que aquilo que não funciona em uma região seja a melhor lição para o contexto no qual você opera.

CC: Aparentemente, as palavras-chave na sua apresentação em São Paulo serão “educação’’ e “comunicação’’.
WDT: Comunicação é de extrema importância. Qualquer processo precisa se basear em consentimento popular. O povo tem de acreditar em seu projeto. É preciso abrir o diálogo e evitar surpresas. Devem-se tirar do caminho contextos nos quais as pessoas se sintam enganadas. Houve tentativas de processos de paz na Irlanda do Norte anos atrás nos quais líderes políticos usaram subterfúgios para satisfazer suas ambições. Ou seja, não explicaram a seus seguidores o que acontecia. Esses processos de paz não engrenaram.

CC: Como o senhor abordará o tema educação em zonas de conflito?
WDT: Ao comunicar algo, educa-se. Tardamos em parte a obter uma resolução porque o povo não estava em sintonia com as realidades da Irlanda do Norte. Durante muito tempo, importantes segmentos dos dois lados (unionistas, que pregam a adesão ao Reino Unido, e nacionalistas) acreditavam em se sobrepor ao oponente. Ninguém admitia qualquer forma de acomodação. Acomodação significa compromisso. Cada lado precisa reconhecer a existência do outro e entender seus interesses como legítimos.

CC: Que problemas a Irlanda do Norte enfrenta para adotar um sistema educacional misto?
WDT: O governo tentou encorajar um sistema misto de educação, mas um sistema integrado não pode ser imposto. As pessoas têm o direito de escolher como escolarizar seus filhos. Contudo, solicitamos que todas as escolas, incluindo as segregadas, adotassem o Programme for Education for Mutual Understanding. Este programa educa difererentes comunidades a compreender o outro. A despeito da considerável segregação nas escolas e nas cidades da Irlanda do Norte, existe um nível significativo de integração na vida social. Refiro-me às áreas de entretenimento e trabalho.

O sistema universitário é integrado. O mercado de trabalho também. Claro, há áreas segregadas, mas esta não é a regra. Uma vez terminado o curso secundário, há integração entre as duas comunidades norte-irlandesas. Não se deve criar uma situação em que pessoas sintam sua identidade de grupo desafiada. Se desejamos eliminar a sociedade segregada, é fundamental haver consenso. Nos próximos anos teremos avanços consideráveis na integração comunitária. O acordo de 1998 cria uma estrutura política para que as comunidades cooperem entre si. Isto diminui as tensões e repercute positivamente em vários aspectos da vida social.

CC: Segregação ainda é um tema constante na mídia britânica.
WDT: Normalmente a mídia se apropria de duas estatísticas e não as coloca no contexto. A imprensa acha que algo precisa ser feito já e crê em uma cura rápida. Mas não há curas rápidas. Elas são lentas. O motivo? As pessoas têm de se sentir confortáveis durante as mudanças.

CC: O sr. crê que a mídia cobre corretamente os eventos na Irlanda do Norte?
WDT: Comecemos com a mídia na Irlanda do Norte. Ela tem a maior responsabilidade de todas. E faz o possível para que suas reportagens não exacerbem situações. Isto pode acontecer, às vezes. Jornalistas buscam, como em qualquer parte do mundo, manchetes. Mas há um senso de responsabilidade. Minha crítica é que eles têm uma agenda pouco ampla ao delinear eventos na Irlanda do Norte. E essa agenda é limitada devido àquilo que a imprensa reconhece como importante a ser noticiado. O que os jornalistas tendem a focar são os anos de violência e os processos de paz imperfeitos. Fora da Irlanda do Norte, a cobertura da mídia depende, e isso é compreensível, dos eventos. Não a critico por isso. Eu sempre digo: estou à espera do dia em que as notícias oriundas da Irlanda do Norte se tornem um tédio (risos).

CC: Terroristas não precisam do apoio popular para atacar. Como avaliar o perigo do punhado de dissidentes que pode ameaçar o processo de paz?
WDT: É verdade que um grupelho pode representar um grande problema. Contudo, para sustentar uma campanha, é preciso de algum tipo de apoio popular. Sem esse apoio eles não podem manter sua campanha. Em agosto de 1998, a tragédia de Omagh resultou em 29 mortos, mas os dissidentes não conseguiram levar adiante sua campanha. Tentaram isso, mas foi em vão.

Nos últimos anos, o ingresso de republicanos na polícia revelou-se algo desejável e crucial para o processo de paz. A polícia não pode contar apenas com unionistas, tem de incluir republicanos. Houve tentativas de assassinar policiais católicos para embaraçar a nova liderança republicana. Mataram efetivos em março, mas não embaraçaram a liderança republicana. O fato de haver republicanos na polícia outrora protestante e o apoio à presença deles na corporação é positivo. Igualmente positivo é o fato de líderes republicanos terem se manifestado contra os ataques de dissidentes. Suspeitos de grupos dissidentes republicanos agora estão sendo inspecionados pela polícia, outro dado positivo.

CC: Esta seria uma pergunta para o vice-premiê Martin McGuinness. Mas como o senhor o conhece bem, não acha delicada sua posição, como ex-membro do IRA, de pedir aos republicanos para transmitir informações sobre pessoas envolvidas nos recentes atentados? WDT: Recentemente, a polícia lhe disse que republicanos dissidentes são uma ameaça para ele. Isto era esperado. Para que o processo de paz desse certo, ele e seus colegas tiveram de apoiar mudanças na polícia. Tiveram de aceitar mais republicanos na instituição, com o objetivo de refletir fielmente a sociedade norte-irlandesa. McGuinness chamou de “traidores dos irlandeses” os assassinos de março. Ele pode usar essa linguagem porque o acordo de 1998 foi aprovado em referendos na Irlanda do Norte. Ou seja, a Constituição e o povo apoiam o discurso contra a violência de Martin McGuinness.

CC: Gerry Adams, líder do Sinn Fein, braço político do IRA, e McGuinness são favoráveis a uma ilha irlandesa unida por meios democráticos. O senhor discorda dessa posição. Como membro do Partido Conservador da Câmara dos Lordes, terá mais poderes para lidar com o tema do que teria como líder do UUP (Ulster Unionist Party, o partido unionista da Irlanda do Norte), cargo ao qual renunciou em 1995?
WDT: Os procedimentos mudaram. Agora, mudanças somente acontecem se uma maioria democrática concorda com elas. O consenso geral é que ninguém antecipa uma mudança constitucional geral em um futuro próximo. Até agora, ou você é um unionista que deseja integrar o Reino Unido ou um nacionalista que quer um Estado da Irlanda do Norte (e unido com a República da Irlanda). Se queremos obter a paz, esta não deve mais ser a equação.

Quando me filiei ao Partido Conservador do Reino Unido, em 2006, eu o fiz com isto em mente. Se continuarmos a fazer parte do Reino Unido, devemos nos concentrar em temas sociais e econômicos. E, claro, teremos, num contexto democrático, de lidar com as aspirações dos nacionalistas republicanos e dos outros partidos. Quero ressaltar que meu velho partido, o UUP, e o meu novo partido, o Partido Conservador, lutamos juntos em eleições europeias e lutaremos em eleições britânicas. Não creio que a natureza do quadro político do Reino Unido mude da noite para o dia. Mas é um começo.

CC: O senhor acredita em mudanças para obter resultados. Mas muita gente se indaga o que o fez aceitar lidar com os republicanos nos anos 90 para selar um processo de paz.
WDT: Quando eu ingressei o Partido Unionista do Ulster (UUP) no começo dos anos 70, o partido estava organicamente ligado ao Partido Conservador. Em 1975, na convenção constitucionalista, apoiei formar uma coalizão com outros partidos. Mas, dois anos após 1998, não tinha certeza de que os republicanos apoiavam um processo de paz. Pouco a pouco me dei conta que os republicanos estavam respeitando o acordo – claramente, tinham realizado a transição do terrorismo para a democracia – e fiquei satisfeito. Não tive dificuldades em lidar com pessoas que duas décadas atrás estavam envolvidos em violência, mas que, por terem eliminado esse passado, tornaram-se pessoas com as quais eu poderia negociar. Quando vejo os que me apóiam, não tenho certeza se todos têm as mãos limpas. Chegamos a um consenso.

CC: O senhor acha importante ter o apoio do presidente americano Barack Obama para que o processo de paz na Irlanda do Norte renda frutos?
WDT: Não é um tema com o qual ele tenha de lidar. Isto, simplesmente, porque o assunto foi resolvido. Se algo em relação ao nosso processo pudesse ser beneficiado pela administração de Obama, a atual Secretaria de Estado faria o possível para resolver o problema.

CC: O senhor diz isso porque Hillary Clinton e seu marido estiveram envolvidos no processo de paz na Irlanda do Norte?
WDT: (Risos). Ela esteve em Belfast. Ela sabe algo.

CC: O senhor se vê como forte candidato a ministro em um governo do conservador David Cameron?
WDT: Duvido que David Cameron saiba quem serão seus ministros. Quando ele for premiê, e tenho certeza de que será, algumas pessoas se tornarão automaticamente seus ministros, como William Hague. Mas, quanto aos outros, não há previsões.

Revista Carta Capital

CIA - Barbárie e impunidade


30/04/2009 11:33:15

Wálter Fanganiello Maierovitch
De 2002 a 2005, os 007 da Agência Central de Inteligência (CIA) norte-americana utilizaram técnicas brutais e desumanas nos interrogatórios de islâmicos suspeitos de ter vínculos com organizações terroristas. A causar inveja aos franceses que torturaram os árabes da Argélia (1962) e aos brasileiros a serviço da ditadura iniciada em 1964.

Esses 007 da CIA só não conseguiram se igualar ao que fizeram, em Grozny (Chechênia), os russos da FSB (sucessora da KGB) e da Spetsnaz do Ministério do Interior. Desapareceram mais de 5 mil chechenos, na luta contra o terror iniciada em 1999 e finda em 2006. Do registro oficial consta que poderiam ser ligados ao terrorismo checheno, que ficou conhecido pelas ações sangrentas no Teatro Dubrovka, de Moscou, e em uma escola de Beslan: 334 mortes.

Nesta semana, o semanal britânico Sunday Times entrevistou dois agentes da Spetsnaz que estiveram na Chechênia. Entre outras barbaridades, eles contaram que, nos interrogatórios e com marteladas, amassavam dedos ou quebravam joelhos dos acusados. Quanto aos desaparecidos, “explodiram e viraram pó”, para evitar o encontro de corpos.

Relatório do comitê de inteligência do Senado americano revelou que, na era Bush, as técnicas empregadas pelos 007 da CIA estavam em flagrante violação à legislação interna e ao estabelecido no Artigo 16 da Convenção das Nações Unidas contra o Terror, subscrita pelos Estados Unidos.

Acrescente-se que a então conselheira para questões de segurança nacional, Condoleezza Rice, autorizou, em 2002, e sem antes colher parecer jurídico obrigatório, o interrogatório do suspeito Abu Zubayda com emprego do waterboarding. O waterboarding consiste em acorrentar o interrogado numa maca inclinável. Os olhos são vendados e um pano é utilizado para cobrir-lhe a boca e o nariz. Uma mangueira de grosso calibre despeja água sobre a boca e o nariz do torturado, de modo a dar sensação, com a simultânea inclinação da cabeça, de afogamento em banheira. Em síntese, trata-se de uma simulação de afogamento, a produzir dióxido de carbono no sangue e tornar difícil a respiração.

Abu Zubayda foi submetido a 83 sessões de waterboarding. Fora a sua colocação em contêiner cheio de insetos, que acreditava serem venenosos. Na justificativa do pedido feito a Condoleezza, em 2002, constava que Abu Zubayda dominava informações a respeito de iminentes ataques terroristas.

Além do waterboarding, a CIA utilizou, sempre com autorização superior, outras técnicas covardes e inconcebíveis em uma democracia. Por exemplo, o walling, no qual o interrogado encapuzado era obrigado a manter os calcanhares encostados num falso muro. De surpresa, era puxado pelo peito e arremessado o tronco deslocado contra o muro, este dotado de aparelho a multiplicar o barulho provocado pelo impacto.

Também era recorrente a privação de sono ou de alimentos, golpes no abdome, tapas na cara, estrangulamento simulado, palmadas com a as mãos em concha nas orelhas. A nudez era uma forma de constranger o interrogado na presença de agentes de outro sexo. Existia ainda o isolamento em contêiner e o wall standing: em pé, corpo inclinado e com os dedos das mãos apoiados em uma parede.

No supracitado relatório do Senate Intelligence Committee, presidido por John Rockefeller, ficou patente a responsabilidade de Condoleezza Rice: o parecer do Departamento de Justiça no sentido de não considerar o waterbording prática proibida veio depois do sinal verde dado por Rice. Recentemente ouvida no Congresso, a ex-secretária de Estado desconversou ao dizer que lembrava de uma discussão sobre o waterbording, mas não sobre empregos e implicações.

Condoleezza recebeu as explicações sobre o waterboarding em reunião com o ministro da Justiça, John Ashcroft. Em 2003, o emprego do waterboarding foi revelado ao vice-presidente, Dick Cheney, ao secretário de Estado, Colin Powell, e ao ministro da Defesa, Donald Rumsfeld. Nenhum deles determinou a suspensão da prática.

Para o Departamento de Justiça do governo Bush, nenhuma das técnicas poderia ser considerada como tortura. No waterboarding, concluiu-se pela inexistência de “dano mental prolongado”, pois o “alívio era quase imediato, quando o pano de cobertura é removido. Segundo os “juristas” de Bush, a tortura apenas se caracteriza quando ocorre grave dor física ou sofrimento mental. Portanto, waterboarding, tapas na cara, golpes com o dorso da mão aberta e sem anéis ou soco-inglês, entre outras, eram ações legítimas no trato com suspeitas de terrorismo.

Na segunda semana de abril, o presidente Barack Obama decidiu dar publicidade a quatro memoriais de torturas cometidas pela CIA, mas não encaminhou à Justiça a identidade dos executores das torturas. Agora, com o relatório do Comitê de Inteligência do Senado, tem-se os nomes dos responsáveis pelas autorizações pedidas pela agência. Ou seja, de Bush a Rice, passando pelo vice-presidente, ministros e secretários.

Revista Carta Capital

Epidemia de despreparo


30/04/2009
A falta de preparo, o desconhecimento e a influência econômica interferem no discurso de autoridades sanitárias no mundo todo. Em vez de alertar a população, acabam por alarmá-la, provocando mais estragos que o próprio surto virótico.

A gripe suína é provocada por um tipo de vírus influenza, da mesma família que pode provocar a gripe comum e a aviária. Esta espécie é o mais frequente motivo de infecção de vias aéreas por vírus em humanos, porcos e aves, podendo causar desde um simples resfriado até uma grave pneumonia.

É provocada mais frequentemente pelo vírus influenza tipo A, subtipo H1N1. A infecção passa de um porco doente para outro por contato com secreções de espirros, gotículas de saliva e contato físico íntimo. Vez ou outra um desses vírus sofre mutação genética, o que permite a contaminação das vias aéreas de outros animais, principalmente humanos. Além de criá-los em cativeiro com pouco espaço, o que facilita a contaminação, somos muito parecidos geneticamente com os porcos.

Muitos tecidos vivos utilizados na medicina para substituir os nossos provêm de porcos. Por conta dessa semelhança e proximidade, não é raro uma epidemia de gripe suína atingir humanos e vice-versa. Outro vírus que também pode provocar a gripe suína, o influenza A H3N2, é originário de gripes humanas.

No caso da influenza suína, a morbidade é muito alta. Traduzindo: depois de passar do porco para o humano, é muito fácil a transmissão de um homem para outro, mas a sua mortalidade é baixa, isto é, o risco de uma gripe se transformar em pneumonia letal é de 1% a 4 %. Esta característica é a que melhor difere a atual epidemia da gripe aviária, em que o vírus é muito mais estranho aos humanos e atingiu mortalidade de 20%.

O mundo todo, todo ano e o ano todo tem gripe. Algumas são mais graves, pois toda infecção viral provoca uma resposta do organismo infectado com a produção de anticorpos e inflamação. Algumas vezes, a reação é tão intensa que passa a ser perigosa por si só.

Isto é mais comum quando o vírus é muito mais estranho ao organismo que infecta e, portanto, muito mais antigênico. A cepa específica que provoca a epidemia no México tem pedaços de genes da influenza aviária, humana e suína. É a primeira vez que uma mutação tão complexa é identificada. Se o fenômeno se traduz em reação inflamatória mais intensa e maior risco de morte, ainda está por ser definido.

Quando estamos diante de uma epidemia, a melhor conduta é evitar o lugar onde ela começou e onde existem mais casos clínicos. É medida errada do governo não sugerir às pessoas deixarem de viajar para os lugares por turismo até que a situação esteja controlada. Todo o prejuízo das companhias de turismo e da economia local compensa ao se poupar uma vida que seja. Além disso, como as mudanças virais são muito rápidas, ninguém colocaria um familiar na região onde um vírus com alto poder de infecção está se espalhando. Mesmo que a chance de morrer em decorrência seja muito baixa, ela não é nula.

As epidemias ocorrem por erro dos países que não vacinam seus animais e não têm programa educativo ou de orientação para os criadores de porcos e aves. Em alguns lugares o porco doente é abatido e servido na mesa do criador.

É alarmante o desserviço prestado pelos governantes e autoridades ao comentar fatos com desconhecimento e falta de bom senso. O governo dos Estados Unidos, ainda expressando o pensamento de que o mundo pertence aos americanos, reclama publicamente que já tem problemas demais com o Afeganistão e a crise econômica, e os mexicanos lhes aparecem com uma epidemia. Já faz mais de três anos que aumentou a incidência de gripe suína nos EUA.

Produtores e exportadores de carne suína no Brasil querem trocar o nome da gripe para norte-americana ou mexicana, criticando o sobrenome suíno dado para a gripe, ideia tola e errônea. O país que mais levou a sério a pandemia de influenza em 1918 e deu liberdade à imprensa para informar sua população, acabou carregando o peso de nomeá-la, pois, apesar de o vírus ter se espalhado a partir dos Estados Unidos, a gripe que matou milhões virou espanhola.

A Europa parece muito mais preparada para adequar as respostas de governo a esse tipo de ameaça, pois seus dirigentes se reservam a anunciar reuniões com seus técnicos e as precauções são dadas pelos órgãos de saúde e com bom senso. Os Estados também não vacilaram. A comissária de Saúde da União Europeia, Androulla Vassilliou, recomendou claramente aos cidadãos que evitem viagens não essenciais às regiões onde há casos confirmados da doença.

Por aqui acontece o contrário. Não houve nenhuma recomendação aos viajantes brasileiros que visitariam os locais contaminados. Eu gostaria muito de poder utilizar uma cota de passagem dos congressistas e pagar uma viagem a Cancún para o diretor de jornalismo da rede de televisão que anunciava claramente não haver perigo em viajar para o México e para o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que fazia a mesma coisa nos dias iniciais da epidemia.

O mais ridículo foi o argumento: já que a pandemia está fora de controle, tanto faz o lugar do mundo para onde se vai viajar. Só falta agora o governo financiar as passagens em 24 vezes para que os brasileiros possam ver de perto os efeitos da gripe suína no México, ou da aviária na China. Ou, ainda, um tour pelo Saara, onde acaba de eclodir uma epidemia de meningite. Isso sem falar na dengue em nosso litoral.

Outra orientação errada é garantir que a gripe não passa pela carne de porco. É uma meia-verdade. O vírus pode estar presente na carne. Portanto, antes de ser ingerida, ela deve ser aquecida a pelo menos 70 graus.

A primeira morte ocorrida no México foi em 13 de abril, data também da ocorrência do primeiro caso americano. Até a quarta-feira 29, nove países confirmaram a presença de infectados com a gripe suína.

As chances de termos uma gripe igual à de 1918, que matou 40 milhões de pessoas, é muito menor. Não se pode negligenciar o avanço da ciência, muito menos a capacidade de nossa adaptação a situações adversas. Hoje podemos identificar se o vírus influenza está presente nas secreções de homens e animais doentes, com exames de sangue e secreções, em menos de 24 horas.

Existem antivirais que podem combater o H1N1 se o tratamento for iniciado até 48 horas do início dos sintomas: febre de 39 graus, dores de cabeça e no corpo, congestão nasal e tosse, em geral seca. Os antivirais foram deixados à disposição da Organização Mundial da Saúde. Mas não adianta nem precisa correr à farmácia para comprar o remédio. A Roche, que produz o Oseltamivir, doou 3 milhões de doses à OMS e deixou todo seu estoque no Brasil à disposição do Ministério da Saúde. A doutora Karina Fontao, diretora-médica do laboratório no Brasil, afirma ser possível produzir 400 milhões de doses em um ano.

O risco de ocorrer uma epidemia no Brasil não é baixo, por causa da intimidade que temos com o México. Precisamos estar alertas. Dos onze que foram internados por supostamente terem contraído a gripe suína, nenhum deles sequer preencheu os critérios de suspeita. Portanto, não precisamos nos alarmar. O que devemos fazer agora é ter bom senso e educação. Por exemplo, lavar as mãos e cobrir a boca ao tossir ou espirrar.

Revista Carta Capital

Tudo que é sólido...


19/03/2009
Luiz Gonzaga Belluzzo
No último trimestre de 2008, a produção industrial brasileira caiu forte e abruptamente. Em consonância com a derrocada da indústria, o PIB declinou 3,6%. Na mesma proporção, entraram em parafuso os diagnósticos dos especialistas em crises pretéritas, aquelas que surgiam do estrangulamento do balanço de pagamentos. As malditas da periferia passavam pelas agruras da desvalorização da moeda nativa e terminavam na elevação da taxa de juro e no ajuste fiscal, com o propósito de abafar as tensões inflacionárias e reduzir a chamada absorção doméstica.

Também em matéria de crises, o Brasil foi promovido a investment grade. O baque na produção industrial e no PIB foi deflagrado por uma fortíssima contração global do crédito que atingiu o País no auge de um ciclo de expansão. O credit crunch universal afetou de forma aguda as expectativas dos bancos, empresas e famílias consumidoras. Em setembro, a quebra do Lehman Brothers explicitou o risco sistêmico abrigado na inflação de ativos, o que incluía as frenéticas valorizações cambiais promovidas pelos capitais que buscavam os papéis públicos e privados dos emergentes.

Os empresários, antes empolgados com as expectativas de crescimento de suas vendas e dos lucros, cuidaram de preservar os balanços de suas empresas. No afã de resguardar o equilíbrio patrimonial de longo prazo, as empresas cortaram os projetos de investimento. Caíram fora do endividamento adicional ou cuidaram de manter sob a forma líquida a “poupança” decorrente dos lucros acumulados no passado. O susto foi suficientemente grande para aconselhar os empresários a resguardar o capital de giro: ao imaginar a contração da demanda, reduziram a produção corrente e demitiram preventivamente os trabalhadores.

A incerteza radical paralisou as decisões e negou os novos fluxos de gasto. Em tais circunstâncias, a tentativa de redução do endividamento e dos gastos de empresas e famílias em busca da liquidez e do reequilíbrio patrimonial é uma decisão racional do ponto de vista microeconômico, mas danosa para o conjunto da economia, pois leva necessariamente à ulterior deterioração dos balanços. É o paradoxo da desalavancagem.

A riqueza concentra-se, agora, na posse do dinheiro em si (ou substitutos próximos, os títulos da dívida pública). Essa corrida privada para as formas imaginárias, mas socialmente necessárias, do valor e da riqueza vai afetar negativamente a valorização e a reprodução da verdadeira riqueza social, ou seja, a demanda de ativos reprodutivos e de trabalhadores. Diante da busca coletiva pelo reequilíbrio patrimonial e pela liquidez, os preços inflados dos direitos sobre a riqueza real – ações e dívidas privadas – despencam e, não raro, arrastam os preços de bens e serviços.

Keynes escreveu a Teoria Geral para explicar esse momento de “ruptura de expectativas” e não a ocorrência de simples flutuações cíclicas da economia capitalista. Nas flutuações cíclicas, a contração do investimento e do consumo deprime a acumulação interna das empresas e a renda das famílias, suscitando problemas de endividamento e risco que podem ser resolvidos com mudanças suaves na política monetária e na velocidade e intensidade do gasto público.

Nas crises, ocorre o colapso dos critérios de avaliação da riqueza que vinham prevalecendo. As expectativas de longo prazo capitulam diante da incerteza e não é mais possível precificar os ativos. Os métodos habituais que permitem avaliar a relação risco/rendimento dos ativos sucumbem diante do medo do futuro.

Em sua palestra na quarta-feira 11, em São Paulo, o economista Nouriel Roubini disse, com alguma ironia, que a única demanda que cresce no mundo de hoje é a do governo. No caso do Brasil, as casamatas da burocracia estão preparadas para lançar o País em uma recessão ampla, geral e irrestrita. Os projetos de infraestrutura têm de passar por um calvário de aprovações e de restrições. Frequentemente, os tribunais bloqueiam o andamento dos projetos de investimento, ao conceder generosamente liminares para os derrotados nas concorrências.

Os critérios da Lei de Responsabilidade Fiscal são apropriados, sim, para tempos normais, mas danosos em uma situação de crise aguda de crédito e demanda. Outras não são as penas do Banco Central e da Fazenda, frequentemente ameaçados pelo Ministério Público quando tentam ampliar o Fundo Garantidor de Crédito. Destinado a garantir os empréstimos dos bancos de menor porte para as pequenas e médias empresas, o Fundo não decola, porque os rapazes do parquet ameaçam seguidamente os membros do Conselho Monetário Nacional com processos de improbidade administrativa.

Para enfrentar a recessão da demanda e da fome exangue por liquidez, os governos precisam negociar urgentemente com o Congresso uma legislação econômica de emergência, com prazo determinado e competências claramente definidas. Caso contrário, no futuro, ninguém se lembrará que os males e infortúnios da economia em crise foram descurados por conta de uma legislação inadequada.

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