quarta-feira, 8 de julho de 2026

Enfrentar a crise do clima exige encarar as desigualdades



Foto: Lula Oficial/Wikimedia Commons




Impactos de eventos extremos no Brasil se somam a deficits históricos de infraestrutura urbana, saneamento básico e acesso a serviços públicos

O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.


No mês em que celebramos o meio ambiente, uma pergunta se impõe diante das enchentes, deslizamentos e eventos extremos que se repetem em diferentes regiões: quem está pagando a conta da crise climática no Brasil?

Embora os investimentos em financiamento climático tenham crescido nos últimos anos, a distribuição desses recursos revela uma importante desigualdade. Segundo o relatório “Panorama do financiamento climático no Brasil”, da Climate Policy Initiative, apenas 7% dos investimentos climáticos no país foram destinados à adaptação — ou seja, às ações voltadas a preparar as cidades e proteger as populações diante dos impactos já inevitáveis das mudanças climáticas.

Enquanto a maior parte dos recursos segue direcionada à mitigação das emissões de gases de efeito estufa, milhões de brasileiros continuam vivendo em territórios sem infraestrutura adequada de drenagem, contenção de encostas, monitoramento de riscos e políticas habitacionais capazes de responder ao aumento da frequência e intensidade dos eventos extremos.


A crise climática aprofunda desigualdades já existentes e torna ainda mais vulneráveis populações que convivem diariamente com a ausência de direitos básicos

Os resultados dessa escolha orçamentária aparecem todos os anos. Em 2026, enchentes voltaram a atingir estados como Pernambuco, Maranhão, Rio de Janeiro e Minas Gerais. São territórios onde as populações mais afetadas costumam ser as mesmas: moradores de periferias, favelas, comunidades tradicionais e áreas historicamente negligenciadas pelo poder público.

Essa realidade demonstra que a crise climática não afeta todas as pessoas da mesma forma. Populações negras, periféricas, indígenas e comunidades tradicionais estão mais expostas aos riscos e têm menos acesso aos mecanismos de proteção e recuperação após os desastres. O que está em jogo não é apenas uma questão ambiental, mas também social, racial e econômica.

A pesquisa “Retratos das enchentes”, realizada pelo Instituto Decodifica por meio da metodologia de geração cidadã de dados, evidencia esse cenário. Na primeira etapa do levantamento, foram ouvidas 718 famílias em territórios periféricos do Rio de Janeiro e de Pernambuco. Os resultados revelam que 70,5% dos entrevistados vivem em ruas que alagam com frequência; 43% não têm tratamento de esgoto; 21% não têm acesso à água encanada; e quase metade relatou adoecer após períodos de chuva intensa.

Os dados mostram que os impactos das mudanças climáticas se somam a deficits históricos de infraestrutura urbana, saneamento básico e acesso a serviços públicos. Em outras palavras, a crise climática aprofunda desigualdades já existentes e torna ainda mais vulneráveis populações que convivem diariamente com a ausência de direitos básicos.

O debate sobre financiamento climático ganhou ainda mais relevância durante as negociações internacionais que antecederam a COP30. Países do Sul Global pressionaram por mais recursos destinados à adaptação climática e por mecanismos que garantam que esses investimentos cheguem efetivamente às populações mais vulneráveis.

A proposta conhecida como “Mapa do Caminho de Baku a Belém” prevê a mobilização de US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 para o financiamento climático global. Atualmente, os compromissos internacionais giram em torno de US$ 300 bilhões por ano. Ainda assim, organizações da sociedade civil alertam para a falta de clareza sobre a origem dos recursos, os mecanismos de implementação e a garantia de que os investimentos chegarão aos territórios mais impactados.

A discussão torna-se ainda mais urgente quando observamos os custos da ausência de prevenção. Apenas a tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024 gerou gastos públicos de mais de 14 bilhões de reais em reconstrução, assistência e recuperação econômica. O episódio reforça uma lógica recorrente: os recursos aparecem depois do desastre, enquanto os investimentos preventivos continuam insuficientes.

Os impactos vão muito além das perdas materiais. A pesquisa “Retratos das enchentes” mostra que esses eventos produzem consequências duradouras sobre a saúde física e mental das comunidades afetadas. Um dado chama atenção: 55% dos moradores entrevistados afirmaram que pensar nas enchentes afeta regularmente seu sono ou sua capacidade de concentração. Trata-se de um retrato da ansiedade climática, uma consequência cada vez mais presente em comunidades que convivem com o medo constante de perder suas casas, seus bens e até suas vidas a cada novo período chuvoso.

Os prejuízos também recaem sobre a economia. Segundo dados do Atlas de Desastres do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, os eventos extremos provocaram perdas de aproximadamente R$ 432 bilhões no Brasil entre 1995 e 2024. Em escala global, os desastres climáticos geram prejuízos médios de US$ 143 bilhões por ano, de acordo com pesquisa publicada na revista Nature.

Diversos estudos demonstram que investir em adaptação climática é mais eficiente e menos custoso do que reconstruir cidades após tragédias. Pesquisas do World Resources Institute, por exemplo, apontam que cada dólar investido em adaptação gera benefícios econômicos, sociais e ambientais significativamente superiores aos custos iniciais.

Por isso, discutir financiamento climático não significa apenas debater valores financeiros. Significa decidir quais territórios serão protegidos, quais comunidades terão condições de enfrentar os impactos da crise climática e quais vidas continuarão sendo colocadas em risco pela ausência de planejamento.

O Brasil tem avançado nas discussões internacionais sobre clima e desempenhado papel relevante na defesa da adaptação climática. Transformar esse protagonismo em políticas públicas concretas exige ampliar investimentos em prevenção, fortalecer planos municipais e estaduais de adaptação, qualificar sistemas de monitoramento e garantir que os recursos cheguem às populações mais vulneráveis.

A crise climática já é uma realidade. A pergunta que permanece é quem continuará pagando a conta de um modelo que investe pouco em prevenção e muito em reconstrução.

É necessário discutir como os investimentos climáticos são distribuídos, quem está sendo protegido e quais territórios continuam invisibilizados nas decisões sobre o futuro do país. Afinal, enfrentar a crise climática também significa enfrentar as desigualdades que ela escancara.
https://www.nexojornal.com.br/

Nenhum comentário:

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos