segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Novos padrões de envelhecimento

Pesquisadores criam indicadores para melhor avaliar a longevidade da população

Andressa Spata

Os indicadores demográficos usados atualmente para medir a longevidade da população mundial incomodam alguns pesquisadores dessa área. Esses índices refletem o envelhecimento verificado atualmente, mas são incapazes de apontar novos padrões nesse fenômeno. Uma pessoa que atingiu os 60 anos em 2000, por exemplo, embora já seja considerada idosa, tem uma expectativa de vida maior do que alguém que tivesse a mesma idade em 1900. Para contornar discrepâncias como essa, uma equipe de especialistas desenvolveu três novos indicadores para avaliar a longevidade da população.

Os índices foram apresentados em artigo publicado eletronicamente esta semana na revista Nature pela equipe do pesquisador Wolfang Lutz, do Instituto Internacional para a Análise de Sistemas Aplicados (Laxenburg, Áustria). Lutz esclarece que o objetivo dos novos indicadores é capturar de diferentes maneiras a expectativa de vida a partir do momento em que o indivíduo atinge a idade média máxima até sua morte, e não apenas partindo-se do seu nascimento, como acontece ao se utilizar como parâmetro a idade cronológica.

“Esses indicadores projetam algumas novas perspectivas a respeito da forma como o envelhecimento é percebido”, explica ele em entrevista à CH On-line. “Eles acabam também por fornecer outros dados que nos dão uma visão um pouco mais otimista da situação do envelhecimento populacional, conforme o que foi analisado em relação às tendências demográficas mundiais.”

Com base nesses padrões, os pesquisadores consideraram a realidade de 13 grandes regiões no mundo, concluindo que, de modo geral, a velocidade do envelhecimento tem aumentado ao longo das décadas, mas que sua tendência até a metade do século 21 é de redução. Isso ocorrerá devido ao elevado o número de pessoas que já estarão em faixas etárias altas, paralelamente ao declínio das taxas de natalidade. Esses dados diferem dos fornecidos pelos indicadores atuais, para os quais o aumento da longevidade já se tornou uma constante.

As pirâmides etárias são gráficos que ilustram a composição da população por faixa de idade e sexo. Seus índices são estimados a partir da idade cronológica, um dos indicadores tradicionais. Nos exemplos acima, estão as pirâmides do Japão e do Brasil. Na primeira, nota-se o predomínio da população adulta na faixa dos 50 anos e a redução da natalidade, representada pelo estreitamento da base. Já na segunda, prevalecem a população na faixa dos 20 anos e os elevados índices de natalidade (fonte: ONU – clique na imagem para ampliá-la).

Os novos indicadores
O primeiro dos três novos indicadores consiste na proporção da população em grupos de idade cuja expectativa de vida restante é de 15 anos ou menos. Quanto mais pessoas estiverem nesse grupo com a probabilidade de viver 15 anos, em média, maior terá sido a taxa de envelhecimento dessa população.

O segundo índice é a média de envelhecimento futuro, definida como uma estimativa da perspectiva de vida de uma pessoa que, no ano 2000, tenha a mesma expectativa de um indivíduo na média de idade previamente estipulada, no ano levado em consideração.

O último dos novos índices, por fim, é a média de anos de vida restantes para a população. Esse índice considera que a população divide-se em faixas de idade específicas e que, para cada uma delas, há uma determinada expectativa de vida. Assim, são obtidos dados sobre a idade restante de todos os membros da população, de acordo a faixa-etária em que se inclui.

Porém, Lutz não defende a substituição completa dos padrões usados atualmente, pelos propostos em seu trabalho. Na realidade, ele acredita que uma combinação poderá gerar dados mais confiáveis. “As principais instituições sociais, como as leis de aposentadoria, por exemplo, são definidas nos termos dos padrões de envelhecimento tradicionais, mais adequados para o que elas pretendem regulamentar”, pondera. “Por esse motivo, esses padrões usuais sempre terão importância.”
Andressa Spata
Revista Ciência Hoje

Desmatamento revela desenhos no solo da Amazônia

Foto: Douglas Engle/The New York Times
Vista aérea de fazenda perto de Rio Branco, no Acre


De acordo com descobertas arqueológicas, as escavações nas terras são muito antigas e podem melhorar a compreensão da floresta
The New York Times

Edmar Araújo ainda se lembra do pavor que sentiu. Algumas décadas atrás, enquanto limpava árvores no terreno de sua família, localizado perto da cidade de Rio Branco, um local isolado em um dos cantos do oeste da Amazônia brasileira, ele se deparou com uma série de avenidas de barro esculpidas no solo.

"Estas fileiras eram muito perfeitas para terem sido feitas por um homem", disse Araújo, um pecuarista de 62 anos de idade. "A única explicação que eu conseguia imaginar era que elas eram trincheiras que foram cavadas durante a guerra contra os bolivianos."

Mas estas não eram trincheiras, pelo menos não serviram para nenhum conflito que possa ter ocorrido aqui durante o século 20. De acordo com descobertas arqueológicas feitas na região nos últimos anos, as escavações nas terras de Araújo e centenas como ela em regiões próximas são muito mais antigas do que isso e podem melhorar potencialmente nossa compreensão da maior floresta tropical do mundo.

O desmatamento que atingiu a Amazônia nos anos 70 também expôs um segredo escondido há muito tempo debaixo desta floresta de grande espessura: formas geométricas perfeitamente desenhadas que abrangem centenas de metros de diâmetro.

Alceu Ranzi, um estudioso brasileiro que ajudou a descobrir os quadrados, octágonos, círculos, retângulos e formas ovais que compõem as esculturas de terra, disse que esses geoglifos encontrados em terras desmatadas são tão significativos quanto as famosas linhas de Nazca, os símbolos enigmáticos de animais que são visíveis quando avistados do alto no sul do Peru.

"O que mais me impressionou sobre esses geoglifos foi sua precisão geométrica e como eles estavam escondidos em uma floresta que até então nos parecia ser intocada à exceção de algumas tribos nômades que haviam habitado a região”, disse Ranzi, paleontólogo que viu pela primeira vez os geoglifos na década de 70 e, anos mais tarde, observou-os de avião.

Para alguns estudiosos da história humana na Amazônia, os geoglifos existentes no Estado brasileiro do Acre e em outros sítios arqueológicos sugerem que as florestas da Amazônia ocidental, anteriormente considerada inabitável por sociedades mais sofisticadas, em parte por causa da qualidade de seus solos, pode não ter sido tão "Inabitável", como alguns ambientalistas afirmam.

O escritor americano Charles C. Mann explica que ao invés de ter permanecido uma floresta virgem, quase não habitada por pessoas, partes da Amazônia podem ter sido locais aonde grandes populações viviam em dezenas de cidades interligadas por redes de estradas. Na verdade, de acordo com Mann, o explorador britânico Percy Fawcett desapareceu em 1925 em sua busca pela "Cidade Z", que supostamente existia na região de Xingu.

Além de partes da Amazônia terem sido "muito mais densamente povoadas do que se pensava", Mann, o autor de "1491", um livro inovador que fala a respeito das Américas antes da chegada de Colombo, disse que "estas pessoas propositadamente modificavam seu ambiente de uma maneira que pudesse ser duradoura."

Como consequência das vastas regiões habitadas por humanos, é possível que as florestas da América do Sul possam ter sido muito menores durante certos períodos, com grandes áreas vazias semelhantes às savanas.

Tais revelações não se encaixam confortavelmente com os debates políticos atuais a respeito do desenvolvimento da região, em que alguns ambientalistas se recusam a permitir que a pecuária e o cultivo da soja em larga escala, por exemplo, avance ainda mais para outras regiões da Amazônia.

Os cientistas também dizem se opor à queima indiscriminada das florestas, mesmo que a pesquisa sugira que a Amazônia tenha sustentado uma agricultura intensiva no passado. Na verdade, dizem que outras regiões dos trópicos, especialmente a África, poderiam se beneficiar de estratégias antes utilizadas na Amazônia para superar as limitações do seu solo.

"Se alguém quiser recriar a Amazônia da era pré-colombiana, a maior parte da floresta precisa ser destruída, ser populada por muitas pessoas e ter uma agronomia altamente produtiva", disse William Woods, geógrafo da Universidade de Kansas, que faz parte de uma equipe que está estudando os geoglifos do Acre.

"Eu sei que isso não terá uma boa repercussão com os ambientalistas", disse Woods, "mas o que mais se pode dizer à respeito?"

Enquanto os pesquisadores tentam entender a história ecológica da Amazônia, mistério ainda envolve as origens dos geoglifos e as pessoas responsáveis por eles. Até agora, 290 obras escavadas foram encontradas no Acre, junto com cerca de 70 outras na Bolívia e 30 nos Estados brasileiros do Amazonas e Rondônia.

Os primeiros pesquisadores descobriram os geoglifos na década de 1970, depois que a ditadura militar brasileira incentivou colonos a se mudarem para as regiões do Acre e da Amazônia, apoiados pelo slogan nacionalista "Ocupar para não entregar", para justificar o povoamento da área que resultou no desmatamento.

Porém, a comunidade científica demonstrou pouco interesse na descoberta até que o cientista brasileiro Ranzi começou suas pesquisas na década de 1990, e pesquisadores brasileiros, finlandeses e americanos começaram a encontrar mais geoglifos usando imagens de satélite de alta resolução e de pequenos aviões que sobrevoavam a Amazônia .

Denise Schaan, arqueóloga da Universidade Federal do Pará no Brasil, que agora lidera a pesquisa dos geoglifos, disse que testes de radiocarbono indicam que elas foram construídas de 1.000 a 2.000 anos atrás, e podem ter sido reconstruídas várias vezes durante esse período.

Inicialmente, disse Schaan, os pesquisadores consideraram a ideia destas trincheiras serem utilizadas para a defesa contra ataques devido a sua profundidade de quase 7 metros. Mas a falta de provas de que houvesse acorrido algum tipo de assentamento humano dentro e ao redor das trincheiras fizeram com que essa teoria fosse descartada.

Os pesquisadores agora acreditam que os geoglifos podem ter tido uma importância cerimonial, similar, talvez, as catedrais medievais da Europa. Este papel espiritual, disse William Balée, um antropólogo da Universidade de Tulane, pode ter envolvido a "geometria e gigantismo".

Ainda assim, os geoglifos, que fazem parte da cultura andina e amazônica, permanecem um enigma.

Eles estão longe de assentamentos pré-colombianos descobertos em outras partes da Amazônia. Há também grandes dúvidas sobre os povos indígenas que habitaram esta parte da Amazônia na época, já que milhares foram escravizados, mortos ou expulsos de suas terras durante a era da exploração da borracha, que começou no final do século 19.

Para os pesquisadores e cientistas brasileiros, disse Schaan, as trincheiras são "uma das descobertas mais importantes do nosso tempo." Mas o repovoamento desta parte da Amazônia ameaça a sobrevivência dos geoglifos, após de terem permanecido escondidos durante séculos.

Florestas ainda cobrem a maior parte do Acre, mas nas áreas desmatadas onde os geoglifos se encontram, já foram construídas algumas estradas de terras. Pessoas vivem em barracos de madeira dentro de outros. Postes de eletricidade agora fazem parte da paisagem dos geoglifos. Alguns fazendeiros usam suas trincheiras como buracos para que seu gado possa beber água.

"É uma vergonha que nosso patrimônio seja tratado dessa maneira", disse Tiago Juruá, o autor de um novo livro sobre como proteger os sítios arqueológicos, incluindo os geoglifos.

Juruá, um biólogo, assim como outros pesquisadores, diz que os geoglifos encontrados até agora são, provavelmente, apenas uma amostra do que as florestas do Acre ainda guardam sob sua copa. Afinal, segundo eles, existe hoje o menor número de pessoas habitando a região da Amazônia, menos até do que antes da chegada dos europeus há cinco séculos.

"Esta é uma nova fronteira para os exploradores e para a ciência", disse Juruá. "O desafio agora é fazer mais descobertas nas florestas que ainda estão de pé, com a esperança de que elas não irão em breve ser destruídas."
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domingo, 22 de janeiro de 2012

Entenda por que o Afeganistão é estratégico

Localizado entre o sul, o oeste e o centro da Ásia, país é alvo de invasões e palco de disputas de Índia, Paquistão e Irã
Bruna Carvalho, iG


Ao longo da história, a posição geográfica estratégica do Afeganistão tornou o país asiático alvo de invasões e guerras. Para entender o que é essa “posição estratégica”, basta observar um mapa da Ásia e ver que as nações que fazem fronteira com o Afeganistão são peças essenciais no quebra-cabeça geopolítico há anos.

A divisa mais extensa é com o Paquistão, que enfrenta desde sua independência (1948) um conflito com a vizinha Índia, possui armas nucleares e tem com os EUA uma conturbada aliança. Do lado ocidental está o Irã, nação teocrática, de regime fechado, inimiga declarada dos americanos.

A China, que compartilha com o Afeganistão 76 km de fronteira, emergiu como uma superpotência econômica nos últimos anos e, portanto, tem interesse em influir em uma região eventualmente estabilizada no intuito de ganhar o mercado consumidor afegão.

Veja mapa com a localização geográfica e divisões étnicas do Afeganistão:

"O Afeganistão está localizado entre o sul, o oeste e o centro da Ásia, ou seja, entre importantes regiões econômicas e culturais. No período moderno, a rivalidade entre czaristas russos e os britânicos durante o colonialismo (século 19) afetou diretamente o Afeganistão. Depois, o legado dos poderes coloniais e a briga superpoderosa entre os EUA e a União Soviética (Guerra Fria, 1947-1991) também atingiram o país em cheio. Além disso, existe o latente confronto entre o Paquistão e a Índia", afirmou ao iG o especialista em islamismo e conflitos asiáticos Pervaiz Nazir, professor da Universidade de Cambridge, Reino Unido.

Índia x Paquistão

O conflito entre a República Islâmica do Paquistão e a República da Índia teve início após a partilha da Índia britânica, em 1947 (que deu origem aos dois países e a Bangladesh), e está centrado no controle da Caxemira, região montanhosa de maioria muçulmana que faz divisa com os dois países.

Entre 1947 e 1948, a Índia e o Paquistão travaram sua primeira guerra pela região. Sob supervisão da ONU, os dois concordaram com um cessar-fogo ao longo de uma fronteira que deixou um terço da área sob administração paquistanesa e os dois terços restantes sob controle indiano.

Em 1972, um acordo renomenou a fronteira do cessar-fogo de Linha de Controle. Apesar de a Índia, de maioria hindu, alegar que todo o Estado faz parte do país, tem indicado que aceitaria a demarcação como uma fronteira internacional com algumas possíveis modificações. Mas o Paquistão rejeita a medida com o argumento de que o chamado Vale da Caxemira, com população 95% muçulmana, ficaria com a Índia. Além disso, o movimento insurgente da Caxemira, apoiado por Islamabad, luta desde 1989 pela independência da área sob administração indiana.


Foto: Getty Images
Em foto datada de 4 de janeiro de 2001, um soldado paquistanês guarda a fronteira entre seu país e a Índia


O Afeganistão, geograficamente muito próximo à disputa das duas potências nucleares, contou em seus conflitos internos com interferência dos dois países, sempre assumindo lados opostos. Enquanto Nova Délhi apoiava os soviéticos durante a invasão (1979-1989), o Paquistão financiava os mujahedin (combatentes islâmicos) para expulsá-los.

Mais tarde, o Paquistão ajudou a milícia islâmica do Taleban a controlar o país, enquanto a Índia financiou a Aliança do Norte (organização político-militar das etnias afegãs) para combatê-lo.

O Afeganistão também é palco de denúncias mútuas entre os dois países. Depois da queda do Taleban, após a invasão da coalizão liderada pelos EUA em 2001, Islamabad acusou consulados abertos pela Índia nas cidades afegãs de Maza-e-Sharif, Jalalabad, Herat e Kandahar de abrigar agentes de inteligência que planejavam operações contra o Paquistão.

A Índia, por outro lado, é um dos países que acusam o serviço de inteligência paquistanês de ainda apoiar o Taleban, o que é negado pelas autoridades de Islamabad. Essa desconfiança cresceu depois de dois ataques contra a embaixada da Índia na capital afegã, Cabul, no período de 15 meses (entre julho de 2008 e outubro de 2009), que deixaram um total de 57 mortos.

A Índia tem interesses particulares no Afeganistão, pois o país é rota para as nações do centro asiático com alto potencial energético. Além disso, Nova Délhi tem feito investimentos pesados no setor no Turcomenistão, vizinho do Afeganistão. "Em uma tentativa de isolar o Paquistão, a Índia quer reforçar os laços com o Afeganistão, e vice-versa", disse Kirk Buckman, professor de Relações Internacionais da Universidade New Hampshire, nos EUA.

Irã

O Irã e o Afeganistão têm proximidades culturais, uma vez que os tajiques, segundo maior grupo étnico em território afegão, também falam farsi, enquanto os hazaras, terceiro maior grupo e localizados predominantemente no centro do país, também são xiitas.

Durante a invasão soviética, desembarcaram no país tropas da Guarda Revolucionária Islâmica para treinar grupos xiitas em uma tentativa de expandir a Revolução Islâmica do Irã de 1979. Com a queda da União Soviética (1991) e a retirada de seus soldados do país asiático, Teerã apoiou as etnias tajique e hazara ligadas à Aliança do Norte para tentar impedir a ascendência do sunita Taleban.

No entanto, em 1996, o Taleban passou a controlar boa parte do território afegão, complicando as relações bilaterais até então amigáveis. O auge da tensão aconteceu em 1998, quando o Taleban invadiu o consulado iraniano em Mazar-e-Sharif, matando um grupo de diplomatas. Em resposta, Teerã posicionou soldados em suas fronteiras.

Depois da invasão pós-11 de Setembro, que culminou com a deposição do Taleban (que dava abrigo à rede terrorista Al-Qaeda), o Irã voltou a marcar presença no território afegão, construindo até uma ferrovia para ligar os dois países. Por causa do impacto interno do grave problema da produção de ópio no Afeganistão, o Irã tolerou a presença americana no país, facilitou programas de combate às drogas e também reconheceu o governo de Hamid Karzai.

Esse breve momento de indulgência em relação à presença ocidental, porém, chegou ao fim quando, em 2002, o então presidente americano George W. Bush (2001-2009) colocou o Irã em seu "eixo do mal", ao lado do Iraque e Coreia do Norte.

Para alguns especialistas ouvidos pelo centro de estudos americanos Council Foreign Relations (CFR), desde então o Irã começou a apoiar a militância islâmica, primeiro no Iraque (invadido pelos EUA em 2003) e posteriomente no Afeganistão. Apesar de parecer contraditório, tendo em vista que o Taleban é sunita e o Irã, xiita, o apoio ao grupo insurgente desestabiliza o Afeganistão e, consequentemente, a missão militar dos EUA no país.

Divisões frágeis

Os 2,4 mil km de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão são palco de históricos conflitos, e a pacificação da região, segundo os EUA, depende da vitória sobre o caos provocado pelas disputas tribais dos dois países.

Cabul nunca reconheceu as divisões fronteiriças e reivindica áreas da etnia pashtun, localizadas no Território Federal das Áreas Tribais e partes do norte paquistanês. "Há um forte laço entre os dois países que é a identidade comum entre as populações muçulmanas afegãs e paquistaneses. Além disso, a população afegã é predominantemente pashtun (40%) e há também um significativo número de pashtuns na região noroeste do Paquistão", disse Buckman, da New Hampshire.

A etnia balúchi também vive em ambos os lados da fronteira. Essa presença tribal nos dois países mostra o quão frágeis são as divisões impostas pela mentalidade colonialista do século 19, que não respeitaram as diferenças étnicas, dispondo no mesmo território povos com diferentes costumes e dialetos e separando outros com profunda identidade histórica. A fragilidade na fronteira é tamanha que circulam com tranquilidade criminosos, traficantes de drogas e de armas pela região.

Após os atentados do 11 de Setembro e o início da Guerra no Afeganistão, o Paquistão se aliou aos EUA e declarou oposição aos grupos que antes tinha fortalecido durante a invasão soviética, como o Taleban, em contraponto à Índia.


Foto: Getty Images
Foto tirada em 23 de dezembro de 2001 mostra uma família que fugiu de locais controlados pelo Taleban, alvo de ataques militares, para um campo de refugiados em Jalalabad



Atualmente as autoridades americanas, afegãs e indianas, porém, deixam claro que suspeitam que essa oposição aos grupos militantes limita-se ao discurso. De acordo com essas denúncias, a escalada da violência no Afeganistão tem como uma de suas causas o apoio implícito dado pelo serviço de inteligência paquistanês (ISI) ao Taleban e à sua aliada rede Haqqani, cuja base fica no Paquistão.

Essas suspeitas fizeram com que Washington invadisse o Paquistão em maio, desrespeitando sua soberania, para garantir o sucesso da operação em que o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, foi morto. Na época, os EUA justificaram a medida afirmando que era necessária para evitar que bin Laden fosse avisado e pudesse fugir. Caçado desde antes dos ataques do 11 de Setembro, bin Laden estava escondido em uma casa na cidade paquistanesa de Abbottabad, a apenas 64 km de Islamabad e ao lado de uma academia militar.

Desde então, a relação dos dois países está estremecida e piorou ainda mais quando, em 22 de setembro, o chefe do Estado-Maior Conjunto americano, almirante Mike Mullen, acusou a ISI de apoiar o grupo Haqqani no planejamento e condução do ataque lançado nove dias antes contra a Embaixada dos EUA em Cabul.

A mais recente acusação feita contra o ISI está relacionada ao assassinato de Burhanuddin Rabbani, ex-presidente afegão e mediador para a paz. Em 20 de setembro, um homem que se apresentou como mensageiro do Taleban explodiu uma bomba escondida no seu turbante ao cumprimentar Rabbani em sua residência, em Cabul.

Segundo autoridades afegãs, o resultado das investigações confirma que o terrorista era paquistanês e que o atentado foi planejado em Quetta. O ministro do Interior afegão garantiu que os agentes da ISI tinham envolvimento na trama, o que foi negado veementemente por Islamabad.

O Taleban não reivindicou o atentado, mas a possibilidade de ter sua autoria é quase certa, uma vez que, além de representar o governo Karzai, Rabbani é um tajique e fez parte da Aliança do Norte, inimiga do Taleban pashtun desde o período pós-ocupação soviética.
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Terras secas

A desertificação ameaça um sexto da população brasileira. Dentre suas principais consequências estão a redução da produção agrícola e da biodiversidade, a migração e a pobreza das populações afetadas.

Isabela Fraga

O Nordeste possui mais de 1,1 milhão de quilômetros quadrados suscetíveis à desertificação. Na foto, região do médio Jaguaribe, onde o fenômeno se encontra em estágio avançado. (foto: Arnóbio Cavalcante/ MCT-Insa)
“Doutor, pode ver o que está acontecendo com a minha plantação?”, perguntou um agricultor do município de São Domingos de Cariri, na Paraíba, ao geógrafo Bartolomeu Israel de Souza durante um trabalho de campo no estado.

Souza, pesquisador da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), acompanhou o senhor até seu pequeno cultivo para poder responder à convocação. “Eu molho, molho, mas não adianta!”, reclamou o agricultor, apontando para uma área de terra seca e sem vida.

Souza, então, se ofereceu para recolher uma amostra do solo e verificar, em análise laboratorial, o problema. A questão, no entanto, já lhe era clara: salinização, um dos principais fatores por trás da desertificação.

Desertificação significa a degradação progressiva de terras em ambientes áridos, semiáridos e subúmidos secos (no Brasil, há apenas os dois últimos). O resultado do processo são áreas com nenhuma ou pouca vegetação, erosão acentuada e, muitas vezes, infertilidade.

Em uma região desertificada, irrigar a terra não é suficiente para que se consiga cultivá-laDaí a reclamação do agricultor paraibano: em uma região desertificada, irrigar a terra não é suficiente para que se consiga cultivá-la. Ele e outros pequenos produtores são os principais prejudicados, pois perdem parte importante de sua subsistência.

Sem ter de onde tirar sustento para suas famílias, muitos migram para cidades maiores – dentro do Nordeste ou em outras regiões –, dependendo exclusivamente da ajuda financeira do governo e com pouca ou nenhuma perspectiva de recuperação de sua propriedade.

Dedo humano
A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, ao menos em 100 países, 1 bilhão de pessoas seja ameaçado pelo processo de degradação de terras secas. E 24 milhões delas já sofrem os efeitos do fenômeno – a maior parte na África, continente mais afetado.

No Brasil, moradores de parte do 1,1 milhão de quilômetros quadrados suscetíveis à desertificação já veem todos os dias a imagem do solo seco e rachado sem potencial produtivo. A seriedade do problema levou a ONU a declarar esta a Década para os Desertos e a Luta contra a Desertificação.


Flor de xique-xique, uma das espécies típicas do semiárido ameaçadas pela dsertificação (foto: Bartolomeu Israel de Souza)Engana-se, no entanto, quem pensa que o cenário da desertificação se parece com desertos como o Saara africano ou o Atacama, no Chile. “Esses são biomas equilibrados, resultado de processos naturais que duraram milhares de anos”, explica Souza. “Terras desertificadas, por outro lado, são resultado principalmente da ação humana, em um espaço de tempo muito mais curto, insuficiente para o ambiente se reequilibrar.”

As atividades humanas que podem deflagrar, causar ou acentuar o processo de desertificação são muitas – vão desde o desmatamento, passando pelo pastejo excessivo até formas de irrigação danosas.

Terras desertificadas são resultado principalmente da ação humana, em um espaço de tempo muito mais curtoO fenômeno começou a ser percebido no Brasil na década de 1970, quando foram lançados os primeiros estudos sobre o problema – antes apontado como exclusivamente africano.

Quarenta anos depois, poderia se pensar que já há uma vasta base de dados acerca das regiões mais desertificadas ou que têm maior potencial de desertificação no país – além de inúmeros programas governamentais para dar conta do problema.

A realidade, no entanto, não é bem essa. Há, de fato, cada vez mais pesquisas em universidades nordestinas que buscam analisar melhor o processo. Mas, por necessidade, esses estudos são muito locais e usam parâmetros específicos para designar uma região suscetível à desertificação ou analisar aquelas onde o processo já ocorre – os chamados índices de desertificação.

A pesquisa de Souza, por exemplo, é focada na região do Cariri paraibano – e nem por isso deixa de ser um trabalho hercúleo, com coletas de solo, pesquisas de campo e análises em laboratório. O fato, porém, é que é difícil ter um panorama mais abrangente de como a desertificação tem atingido os estados brasileiros nas últimas décadas. 18/04/2011

Isabela Fraga
Revista Ciência Hoje/RJ

Migração Ambiental - Um aspecto positivo

Encarada geralmente como um problema, a migração provocada por fatores ambientais pode trazer oportunidades de desenvolvimento e de adaptação às mudanças climáticas.

Célio Yano

Enchentes no Paquistão em outubro deste ano tornaram difícil o acesso a algumas comunidades do país e deixaram milhares de famílias desabrigadas. A ONU estima que existam cerca de 210 milhões de migrantes internacionais. (foto: S. Phelps/ UNHCR)
A migração de populações provocada por desastres ambientais cresce a cada ano e torna-se cada vez mais um desafio para governos e organizações internacionais. Forçadas a deixar suas moradias, pessoas afetadas por secas, cheias de rios ou o aumento do nível do mar, por exemplo, acabam tendo de mudar de bairro, cidade ou até de país.

Mas esse tipo de fenômeno não é necessariamente ruim, defende um grupo de pesquisadores do Reino Unido, que publicou recentemente um estudo sobre os prováveis movimentos de migração dos próximos 50 anos.

O ponto central deles é que, se por um lado os deslocamentos populacionais são um desafio para os países afetados, por outro, trazem oportunidades de desenvolvimento e de adaptação às mudanças climáticas.

“É importante que os governos se preparem para todos os efeitos”, diz o geógrafo Richard Black, coordenador da Escola de Estudos Globais da Universidade de Sussex, no Reino Unido. Black sustenta a ideia em um artigo assinado com os colegas Stephen R. G. Bennett, Sandy M. Thomas e John R. Beddington em edição recente da revista Nature.

Segundo eles, planos de ação internacionais podem permitir a países tirar vantagem, por exemplo, de comunidades migrantes para regiões com déficit demográfico ou com escassez de mão-de-obra, o que traria benefícios tanto para estados quanto para as pessoas em deslocamento.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que existam aproximadamente 210 milhões de migrantes internacionais e cerca de 740 milhões de migrantes internos (que se deslocam dentro de seus próprios países).


Menino paquistanês em frente a uma das tendas da Agência da ONU para Refugiados montadas para vítimas das enchentes na província de Sindh, no Paquistão. Pesquisadores defendem criação de políticas que garantam o bem-estar e os direitos de migrantes climáticos. (foto: S. Phelps/ UNHCR)Black explica que não é possível distinguir precisamente migrantes climáticos de outros grupos de migrantes, já que em geral os deslocamentos, sejam eles permanentes, temporários, sazonais ou circulares, são multicausais.

Migração de poucos indivíduos
Fatores econômicos, políticos, sociais ou demográficos também influenciam na decisão por mudar de terras. “Mas desastres ambientais mudam os termos em que os movimentos de migração ocorrem”, garante.

Ele acredita que é essencial compreender os fatores que tornam uma comunidade mais ou menos vulnerável para que sejam incentivados movimentos de migração pensados a partir das mudanças climáticas.

A migração de apenas alguns indivíduos pode ajudar uma comunidade a se manter viável se dinheiro e bens forem enviados ao grupoOs pesquisadores britânicos sustentam, por exemplo, que não é necessário que populações inteiras abandonem suas casas após desastres ambientais. “A migração de apenas alguns indivíduos pode ajudar uma comunidade a se manter viável em longo prazo se dinheiro e bens forem enviados ao grupo”, diz Black.

Para isso, é necessário que governos assegurem que as remessas de dinheiro sejam feitas de volta às famílias dos migrantes de forma eficiente e a baixo custo. Na África, onde a maioria dos migrantes internacionais permanece dentro de sua sub-região, esse tipo de remessa quadruplicou para cerca de 40 bilhões de dólares entre 1990 e 2010.

Desafio para governos
Migrações em geral, sejam as provocadas por fatores climáticos ou não, podem afetar vários aspectos sociais de uma comunidade, alterando o crescimento das cidades com a formação de bolsões de pobreza e gerando tensões e conflitos entre culturas diferentes.

Esse tipo de consequência pode ser um desafio para os governos, que devem se ver pressionados a investir no desenvolvimento de serviços públicos em áreas que não receberiam atenção em outro caso.

Políticas que buscam impedir a migração podem agravar as tragédias às populações de áreas de riscoPara Black, políticas que buscam impedir a migração podem agravar as tragédias às populações de áreas de risco. “Concluímos que o custo de agir agora, em termos de empobrecimento e possíveis emergências humanitárias, é muito menor do que o custo futuro caso não tomemos nenhuma ação.”

Um artigo publicado em edição recente da revista Science propõe medidas para um melhor planejamento de migrações climáticas. A principal recomendação do texto, assinado por 12 pesquisadores, é a criação de um aparato legal internacional que dê suporte ao reassentamento das populações afetadas pelas mudanças climáticas e que garanta o bem-estar e os direitos desses migrantes. 22/11/2011

Célio Yano
Revista Ciência Hoje

domingo, 15 de janeiro de 2012

Padrão de trabalho pós-neoliberal




Marcio Pochmann é colunista da Revista Fórum outro mundo em debate

Na passagem para o século XXI, o Brasil alterou profundamente o padrão de trabalho da totalidade de sua mão de obra. Por padrão de trabalho entende-se a dinâmica de geração dos empregos segundo faixa de remuneração, isto é, o sentido geral de evolução do nível ocupacional e do rendimento recebido pelo conjunto dos trabalhadores.

No capitalismo, o nível geral de emprego da mão de obra termina sendo determinado por diversas variáveis, especialmente pela dinâmica macroeconômica, que estabelece as condições gerais de uso e remuneração do trabalho. Em síntese, o perfil dos rendimentos e a dinâmica da ocupação definem o padrão de trabalho da mão de obra.

No caso brasileiro, percebe-se , entre as décadas de 1990 e 2000, o padrão de trabalho pelo diferencial de geração quantitativa e qualitativa do emprego da mão de obra. Na década de 1990, não somente prevaleceu o menor ritmo na geração de postos de trabalhos como o diferencial perfil de remuneração paga aos ocupados. Isso porque foram abertos 11 milhões de novos postos de trabalho nos anos 1990, sendo 53,6% do total sem remuneração. Na faixa de renda de até 1,5 salário mínimo, houve a redução líquida de 300 mil postos de trabalho. Esse padrão de emprego da mão de obra diferenciou-se significativamente do verificado na década de 2010.


No primeiro decênio do século XXI houve forte dinamismo nas ocupações geradas e no perfil remuneratório. Do total líquido de 21 milhões de postos de trabalho criados, 94,8% foram com rendimento de até 1,5 salário mínimo mensal. Nas ocupações sem remuneração (por conta própria, autônomo, trabalho independente, de cooperativa, aprendiz, estagiário, entre outras) houve a redução líquida de 1,1 milhão de postos de trabalho, enquanto na faixa de cinco salários mínimos mensais a queda total atingiu 4,3 milhões de ocupações. Em síntese, houve avanço das ocupações na base da pirâmide social.

O registro de dois diferentes padrões de trabalho verificados na virada do século XX implicou conformar diferenciadamente o perfil remuneratório da mão de obra ocupada no Brasil. Nos anos de 1990, por exemplo, 34,3% do ocupados possuíam remuneração de até 1,5 salário mínimo mensal, enquanto na década de 2000 eram 47,8% na mesma faixa de remuneração. Os trabalhadores sem remuneração mantiveram-se estabilizados na faixa abaixo de 12% nos dois anos selecionados, embora os postos de trabalho com rendimento acima de cinco salários mínimos mensais tenham passado de 16,7% para 7,5% do total das ocupações.

Na década de 2000, o sentido das ocupações segundo remuneração alterou-se profundamente. De um lado, a forte expansão dos postos de trabalho com rendimento de até 1,5 salário mínimo mensal, acompanhado da redução das vagas tanto sem remuneração como de maior rendimento. Assim, os ocupados de até 1,5 salário mínimo mensal aproximaram-se da metade do total das ocupações existentes em 2009, o que contribuiu para a redução da desigualdade entre as diferentes faixas de rendimento do trabalho.

Em virtude desse movimento mais recente de modificação na dinâmica remuneratória das ocupações, percebe-se a concentração dos postos de trabalho abertas na base da pirâmide social. A força do conjunto dos rendimentos dos trabalhadores de salário de base impulsionou a modificação significativa na estrutura da massa de remuneração do conjunto dos ocupados brasileiros. Em 2009, por exemplo, os ocupados com até 1,5 salário mínimo absorviam 24,5% do total da remuneração do trabalho no país, enquanto em 1989 recebiam 22,3% do conjunto dos rendimentos.

Para os ocupados que recebem mais de cinco salários mínimos, a participação no total das remunerações do País era de 35,3% em 2009 ante 45,2% em 1989. Em 1999, a composição dos rendimentos do trabalho registrou menor peso para os ocupados com até 1,5 salário mínimo mensal e mais participação daqueles com cinco salários mínimos e mais, quando comparada à do ano de 2009.

Tendo em vista a importância do emprego de baixa remuneração, que constitui a base da pirâmide distributiva do conjunto dos rendimentos do trabalho, ou seja, 47,8% do total da força de trabalho ocupada e 24,5% das remunerações do País, nota-se que a sua evolução recente encontra-se diretamente relacionada às transformações mais gerais da economia e da sociedade brasileira. Esse segmento social em especial não poderia estar associado ao conceito de classe média ascendente, tendo em vista as peculiaridades das ocupações e remuneração, conforme a literatura recente parece fazer crer. O debate a respeito da definição de classe social no capitalismo, em particular classe média, assume maior complexidade, para o qual pressupõe maior profundidade e investigação.

Em conformidade com a literatura internacional, esse segmento social deveria ser mais bem considerado na categoria analítica de trabalhadores de baixa renda, pois se trata fundamentalmente de ocupados de salário de base. A sua presença, em maior ou menor expressão, revela o padrão de trabalho existente e, por consequência, o modelo de expansão macroeconômica do País. Na maior parte dos casos, a categoria dos trabalhadores de baixa renda trata das ocupações que se encontram no entorno do salário mínimo oficial, cujo valor real determina a presença – em maior ou menor medida – de trabalhadores pobres e sua relação com o nível de consumo.

Após a regressão neoliberal, o Brasil passou a conviver com outro padrão de trabalho. Ainda que mais positivo, o sentido geral da ocupação e remuneração pós-neoliberal pressupõe avanços maiores a serem constituídos por um projeto nacional de desenvolvimento superior.

Este artigo é parte integrante da Revista Fórum 102.

Quanto planeta!

Estudo que por seis anos varreu a Via Láctea em busca de exoplanetas conclui que esses astros são mais abundantes que as estrelas. A pesquisa também mostra que os planetas leves como a Terra são maioria na galáxia.

Por: Sofia Moutinho




Pesquisa revela que para cada estrela da nossa galáxia existe pelo menos um exoplaneta. (ESO/ M. Kornmesser)
Desde que se descobriu o primeiro planeta orbitando uma estrela fora do nosso sistema solar, há mais de 20 anos, o número de exoplanetas encontrados subiu exponencialmente e hoje ultrapassa a marca de 700. Apesar da incrível quantidade de detecções, astrônomos não sabiam dizer se esses astros eram a regra ou a exceção no espaço. Agora, uma pesquisa que por seis anos rastreou o céu em busca de exoplanetas conclui que eles não só são abundantes, como também estão em maior número que as estrelas na Via Láctea.

Na caça por esses planetas, astrônomos de diversos países usaram dados coletados por dois projetos colaborativos, o Planet (sigla de Probing Lensing Anomalies NETwork) e o Ogle (sigla de Optical Gravitational Lensing Experiment), que reúnem várias instituições de pesquisa, como o Observatório Europeu do Sul (ESO, na sigla em inglês), no Chile.

Para analisar os dados celestes, os astrônomos lançaram mão de uma técnica pouco usada na procura por exoplanetas chamada microlente gravitacional. Ao contrário do que pode sugerir o nome, o método não se refere ao equipamento usado, mas ao efeito que a luz de uma estrela distante sofre quando um exoplaneta e sua respectiva estrela passam na sua frente, na perspectiva de um observador terrestre.

Quando o planeta cobre a estrela de fundo, o seu campo gravitacional funciona como uma lente de aumento: desvia os feixes de luz e amplia o brilho da estrela. Assim é possível detectar os exoplanetas mais distantes.

No entanto, esse fenômeno é muito raro e depende da imprevisível conjuntura em que se alinham os dois astros e o observador na Terra. Ainda assim, a equipe de astrônomos conseguiu encontrar três novos exoplanetas, uma super-Terra (planeta com três vezes a massa do nosso) e dois outros com massas semelhantes à de Netuno e à de Júpiter.

Pode parecer pouco, mas, segundo os pesquisadores, esse é um feito inacreditavelmente difícil. Tão difícil que o fato de terem sucedido nessas observações seria o suficiente para concluir que os exoplanetas devem ser muito comuns na galáxia.

“Temos duas alternativas: ou somos as pessoas mais sortudas do universo ou isso quer dizer que os exoplanetas são abundantes”, diz o principal autor do estudo, publicado na Nature desta semana, o astrofísico Daniel Kubas, da Universidade Pierre e Marie Curie, na França. “Usando o princípio da navalha de Occam, entre algo muito improvável e uma alternativa mais razoável, ficamos com a explicação mais provável!”

Kubas: “Ou somos as pessoas mais sortudas do universo ou isso quer dizer que os exoplanetas são abundantes”Por meio de complicados cálculos estatísticos que levaram em conta fatores como a distância e a velocidade dos exoplanetas já descobertos, os pesquisadores chegaram à conclusão de que cerca de 30% das estrelas da Via Láctea hospedam planetas e que, em média, para cada estrela da galáxia existe pelo menos um exoplaneta.

“Fiquei positivamente surpreso”, diz Kubas. “Embora pessoalmente eu já estivesse convencido de que os planetas são a regra e não a exceção na Via Láctea, ser capaz de transformar essa convicção em conhecimento e realidade é uma experiência muito boa.”


Não somos os únicos
Os astrônomos também observaram que os planetas pequenos e leves, como a Terra, são maioria na nossa galáxia. Segundo cálculos do estudo, dois terços das estrelas abrigariam planetas pequenos; metade teria planetas de massa média, como Netuno; e apenas um sexto hospedaria planetas pesados, com massa semelhante à de Júpiter. A conta não fecha em 100% porque uma estrela pode hospedar mais de um planeta de tamanhos diferentes.

Grande parte dos exoplanetas descobertos até hoje está próxima da Terra e tem tamanho igual ou maior que Júpiter. Mas os pesquisadores acreditam que isso não seja um retrato da realidade, mas consequência das técnicas mais usadas em sua busca.

A descoberta de que os planetas pequenos são abundantes dá mais gás para a procura por uma ‘irmã da Terra’ no espaçoAs formas mais comuns de se encontrar um exoplaneta são pela observação do efeito gravitacional que o astro exerce sobre sua estrela hospedeira ou pela detecção do brilho de estrelas não muito distantes, que diminui quando o planeta se põe a sua frente. Ambas as técnicas só servem para planetas que estão perto de sua estrela ou para aqueles que são pesados o suficiente para ter um campo gravitacional evidente.

A descoberta de que os planetas pequenos são abundantes dá mais gás para a procura por uma ‘irmã da Terra’ no espaço. “Essa é uma busca que atiça a nossa curiosidade”, diz Jubas. “Nossos resultados indicam que existe uma grande chance de que outros planetas como o nosso sejam comuns e possam ser encontrados em breve.”


Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

A periferia e sua Primavera de Praga




A periferia e sua Primavera de Praga
As periferias do Brasil são hoje marcadamente diferentes do que eram há dez anos e, em muitos sentidos, para melhor.
Por Pedro Alexandre Sanches

“O brasileiro não confia muito no Brasil, não confia na melhora, não confia no vizinho. Não há sentimento de união”, afirmava Mano Brown na Fórum número 1, dez anos atrás. “Qual das violências? A do revólver? Há vários lados a analisar. Um, é o do desemprego. A tendência é só piorar”, perguntava e respondia, noutro trecho, o líder dos Racionais MC’s e de todo o rap brasileiro.

Não é possível dizer que Brown estava errado em seus conceitos, até porque, sabendo disto ou não, ele era um dos homens que trabalhavam, em 2001 e desde muito tempo antes, para modificar a realidade que suas palavras expunham e denunciavam. Ainda que o desemprego tenha diminuído de lá para cá, tampouco é possível dizer que vivamos num mar de rosas no Brasil de 2011. Mas que as previsões do rapper estavam erradas até certo ponto, ah, elas estavam.

As periferias do Brasil são hoje marcadamente diferentes do que eram naquele tempo e, em muitos sentidos, para melhor. E há inúmeros depoimentos a corroborar essa evidência. “Vou fazer um filme agora, O Jeito Favela de Ser Feliz. É sobre como a favela é feliz no seu cotidiano”, conta Preto Zezé, um ex-lavador de carros, que hoje é presidente nacional da Cufa, a Central Única das Favelas. Cearense de Fortaleza, ele mora na cidade natal, e isso por si só é um sinal de mudança: a Cufa não acredita que seu presidente precise residir numa das capitais antes fatídicas do Brasil, Rio de Janeiro ou São Paulo.

Zezé desenvolve sua tese: “A felicidade aumentou muito na favela, Ave Maria! Eu estava conversando com um amigão do Psol aqui de Fortaleza, que foi candidato a prefeito. Ele dizia: ‘As pessoas estão mais tristes, deprimidas’. Eu falei: ‘Só se for no seu condomínio, cara!’.” Zezé, que também é rapper e prepara estreias como cineasta e escritor, é uma das várias personalidades egressas das periferias que apontam a importância crucial do hip-hop – logo, do trabalho de Mano Brown e correlatos – como marco de partida para essa mudança de sintonia.

Outro é o poeta Sérgio Vaz, que há dez anos ajuda a modificar o estado de espírito de comunidades como a Chácara Santana, na zona sul paulistana, com os saraus da Cooperifa, que também há exatos dez anos fazem circular poesia produzida para e pelos cidadãos periféricos de São Paulo. “No começo, eu escrevia poesia de protesto. Com a abertura política, os caras falaram que esse negócio de escrever poesia falando do governo estava fora de moda. Falei: ‘Porra, me fodi, porque só sei escrever sobre isso’”, ele lembra. “E aí veio o hip-hop. Pô, então, as coisas não melhoraram tanto quanto o jornal e a novela dizem. Eu, que pensava em escrever como Chico Buarque, pensei: ‘Pô, minha turma não é o Chico Buarque. Eu estava vendo a banda passar quando o fim de semana no Parque Santo Antônio me pegou à toa na vida’.”

A referência aqui é ao rap “Fim de semana no parque”, lançado em 1993 pelos Racionais. “A gente nunca imaginou que o nosso bairro ia estar numa música”, Sérgio evoca, rindo. “A gente está acostumado a ouvir falar de Ipanema, Leblon, ‘dia de luz, festa de sol, e o barquinho a deslizar no macio azul do mar’, que é a realidade da classe média. De repente, você ouve alguém falando do seu bairro. O RZO fala de Pirituba, vem o Sabotage e fala do Brooklin. Peraí, a gente mora aqui. E aí começou todo mundo a falar dos seus bairros, e começou a dar um ar de pertencimento. Quem tem que sentir vergonha da favela é o governo, não é?”

Se em setores do chamado “centro” o hip-hop era e é visto com reservas e desdém, Sérgio dá a exata dimensão de como as letras e batidas do rap caíam nos ouvidos das comunidades, que passaram a produzi-las: “Muitos caras foram ouvir falar de Zumbi dos Palmares, Martin Luther King, Malcolm X ou Steve Biko pela primeira vez através de uma música de rap, não na escola. A partir daí, a bússola se inverteu um pouco, um lugar que tinha tudo pra dar errado começa a dar certo... Hoje, há moleques frequentando a universidade, fazendo cursos de cinema, fotografia, noites do sarau da Cooperifa com 300 pessoas pra ouvir e falar poesia. E tudo isso aconteceu por causa do desprezo da classe dominante, que nem sabe o que a gente está fazendo.”

O rap é vetor notável desse fenômeno, mas não é o único. Na década que passou, esse modelo de orgulho e autonomia proliferou por diversas periferias do Brasil. A paraense Gaby Amarantos, cantora e compositora de tecnobrega, fala em alto e bom som de sua origem indígena, paraense e, mais especificamente, de filha de Jurunas, bairro pobre de Belém. Em diversos estados do Nordeste, pedreiros, motoristas, empregadas domésticas e zeladores de edifícios de classes média ou alta abandonam seus empregos para cantar e/ou trabalhar na movimentada indústria do novo forró. No Rio, funkeiras inventam um feminismo de características próprias e originais, e a Cidade de Deus vira sede disseminadora de literatura, funk carioca, cinema, hip-hop e ativismo social – pelo rap e pela militância na Cufa, MV Bill vira herói de sua comunidade, invertendo paradigmas negativos seculares.

“Quando eu morava na Piraporinha, nos anos 1970, a gente tinha que mentir que morava no Socorro ou em Santo Amaro pra conseguir emprego. Na TV, era época do Gil Gomes, esses caras que a cada semana pegavam um bairro pra satanizar, e esse bairro ficava judiado”, lembra Sérgio. “Hoje tem Datena, eles continuam lá, só que o alcance que têm é muito menor. Hoje, a juventude não para pra assistir Datena. O vício da TV é uma coisa dos mais velhos. A geração nova, da internet, sabe que tem coisa muito mais interessante acontecendo no YouTube.”

O orgulho do artista-cidadão

Outro caso exemplar é o de Heliópolis, na zona sul paulistana, hoje mais citada na mídia por conta de sua orquestra sinfônica que por relatos de violência nas páginas policiais. Numa noite em que o bairro é visitado pelo repórter, há oito festas ocorrendo simultaneamente, todas elas gratuitas, incluindo festas de funk e forró ao ar livre, show do sambista Almir Guineto e a Balada Black, assim definida por seu organizador e DJ, Reginaldo Gonçalves: “Cerca de 800 jovens participam e seguem à risca algumas regras, como não consumir qualquer tipo de bebida alcoólica ou drogas. A balada é produzida e fiscalizada pelos próprios jovens, que, além de mostrar que têm como se divertir de cara limpa, promovem a valorização da comunidade e o respeito às diversas tribos, através dos diferentes estilos musicais que tocamos.”

Patrocinado mais ou menos invisivelmente pela cervejaria Ambev, o projeto desincentivador do consumo de álcool antes dos 18 anos se chama Jovens Alconscientes. É uma iniciativa da Unas, Associação de Moradores de Heliópolis, da qual Reginaldo é diretor. Ele também dirige a Rádio Comunitária Heliópolis, experiência bem-sucedida (e, de início, bastante perseguida pelos poderes oficiais) de mídia alternativa e cidadã, uma das muitas que têm ajudado habitantes das periferias a prescindir de informações tendenciosas oferecidas pela “grande” mídia – os locutores, moradores da comunidade, são estudantes universitários. O sistema todo foi alçado à condição de Ponto de Cultura, na gestão anterior do Ministério da Cultura.
As cotas nas universidades, por sinal, são outro elemento notável de transformação – mais uma vez, sob fortes resistências da sociedade dita de “centro”. “O cara da periferia faz uma faculdade inferior, e mesmo assim o outro cara está com raiva dele”, ironiza Sérgio. “É aquele que come três refeições e está incomodado com quem come uma. Agora os caras estão comendo! Se soubessem que o cara que come uma refeição não tem tanta vontade de morder o que come três... ‘Reacionário’ é mesmo a palavra, eu não consigo entender o ódio que o cara tem de alguém que faz uma coisa diferente da dele.”

Reginaldo avalia, de dentro, as mudanças em sua comunidade: “Vejo que Heliópolis avançou muito nesses dez anos. Na minha infância e adolescência, não tínhamos praticamente nenhuma opção de lazer ou cursos de formação ou de profissionalização. As nossas referências infelizmente vinham das ruas. Não tínhamos referências positivas. Os jovens de hoje têm muitas opções, o acesso à informação é fácil e temos vários exemplos de pessoas que moram em nossa comunidade e hoje são referências positivas para nossa juventude.”
A profusão de lan-houses, democratizando até certo ponto o cyber-espaço nas comunidades é citada indiretamente na ponderação de Reginaldo: “Hoje temos mais acesso à informação, por meio da internet e de outras mídias. Mas infelizmente, por outro lado, em alguns pontos ainda não tivemos muitos avanços, como a questão da educação de qualidade.”

Sérgio também faz o balanço entre o que melhorou e o que não: “Algumas coisas mudaram, algumas continuam as mesmas. Às vezes, muda-se alguma coisa pra não se mudar coisa alguma. A educação ainda é falha, não por culpa dos professores, mas porque a escola está a mil e os alunos estão a milhão. O sistema de saúde ainda é muito falho, a segurança é muito falha. O que mudou pras pessoas é a condição financeira, que melhorou um pouco, é inegável.”
Mais uma vez, o poeta da Cooperifa traça um paralelo entre épocas distintas: “Nos anos 1980, pra ir até o Bexiga assistir um cineclube ou dar um rolê, a gente atravessava a cidade. Pra voltar, tinha que esperar o primeiro ônibus passar às 5, 6 horas da manhã. Hoje, um jovem aqui da nossa quebrada não precisa ir pra lugar algum pra ir ao cinema. Nós temos Cinema na Laje, Cine Becos, Cine Escadão, Cine Viela, Cine Palmarino. Se ele quiser ouvir e falar poesia, tem 50 saraus espalhados por aí. Tem grupos de teatro se apresentando em espaços como praças, escolas. Estamos vivendo a nossa Primavera de Praga, a nossa bossa nova, a nossa tropicália. E o que está sendo bacana é que é a nossa primeira vez, e a primeira vez cê tá ligado como funciona, né?”

Como funciona, Sérgio? “É muito mais forte. A gente nunca teve uma literatura que nos representasse, uma música que nos representasse além do samba. No máximo o cara ia pro centro e voltava famoso pra quebrada. Hoje, não, o cara quer ser reconhecido na quebrada dele, é um artista-cidadão.” Chame-se bossa negra (como chamava Elza Soares, 50 anos atrás), pretropicália, Cooperifa ou o que for o fenômeno, ele bate às nossas portas em 2011 – e a cegueira da “grande” mídia em percebê-lo é mais um sinal a legitimar a primavera.
De volta ao começo, talvez as formulações de Mano Brown dez anos atrás fossem algo descrentes num futuro para os seus. Dez anos depois, o artista-cidadão Mano Brown continua em sua quebrada, mantém-se dentro de seus princípios. E assiste ao seu redor às transformações que suas palavras, mesmo eventualmente pessimistas, ajudaram bravamente a construir.
Revista Fórum

As lições do Japão

A exemplo do que fez após a Segunda Guerra, o país se recupera da tragédia do tsunami, afasta recessão e começa 2012 com promessa de crescimento
Mariana Queiroz Barboza



RECONSTRUÇÃO
Destroços se acumulam em Otsuchi; três meses depois, o local recuperado


O roteiro de março de 2011 indicava um futuro dramático para o Japão. Em apenas dois minutos, um terremoto de 9 graus na escala Richter deixou um rastro de destruição, a ameaça de uma hecatombe nuclear e a certeza de que a economia do país sofreria os efeitos da tragédia por um longo período. Menos de um ano depois do tsunami, as previsões pessimistas não se confirmaram. Assim como fizeram logo após a Segunda Guerra Mundial, os japoneses novamente deram lições de perseverança. A recuperação não só foi rápida como veio com força. No terceiro trimestre do ano passado, o Produto Interno Bruto do país cresceu 5,6%, a taxa atual de desemprego está em 4,5% (um dos índices mais baixos entre as nações ricas), a indústria automotiva cresceu 24% em dezembro e as reservas internacionais superaram a marca de US$ 1 trilhão. Para efeito de comparação, nenhum dos gigantes europeus tem indicadores tão positivos para exibir.

Não faltam exemplos para ilustrar a competência e a agilidade dos japoneses. Totalmente destruída pela força do terremoto, uma estrada que liga a capital Tóquio à cidade de Naka foi reaberta em apenas seis dias e avenidas e prédios inteiros foram reerguidos em tempo recorde. Em seis meses, o aeroporto de Sendai, que viu seus aviões serem arrastados pelas águas como se fossem frágeis brinquedos, estava completamente restaurado. A rápida reconstrução do país abre caminho para a retomada da economia. Segundo Paulo Yokota, ex-diretor do Banco Central do Brasil, o dinheiro investido principalmente na construção civil teve um efeito multiplicador – milhares de operários foram contratados para executar os serviços e profissionais de diversas áreas foram acionados às pressas para fazer o país andar. O custo da reconstrução foi estimado em USS 235,8 bilhões. Em uma lição de decoro, os japoneses devolveram mais de US$ 100 milhões de doações feitas pela Cruz Vermelha.


FÔLEGO
Com a retomada da economia, as vendas de automóveis subiram 24%


A retomada é resultado também do envolvimento e do sacrifício da população. Segundo Yokota, que voltou recentemente de uma viagem ao Japão, após a catástrofe ampliou-se a conscientização sobre a necessidade de economia de energia. Para evitar sobrecargas nos horários de pico, algumas fábricas reduziram o expediente durante a semana e passaram a produzir a pleno vapor aos sábados e domingos. Os horários de escolas e do comércio também mudaram, o que reduziu os congestionamentos nas ruas e eliminou as cenas mundialmente conhecidas de empurra-empurra no metrô de Tóquio. “Para isso funcionar, foi preciso o engajamento da população”, diz Yokota. “Se não fosse pelo desastre, seria mais difícil as pessoas aderirem.” A resposta dos japoneses a seu histórico de infortúnios naturais vem da tecnologia. Os aparelhos elétricos, como ar-condicionado, televisão e lâmpadas, consomem significativamente menos energia – alguns chegam a gastar 10% do que gastam produtos equivalentes usados no Brasil –, e existem tecidos que resfriam ou aumentam a temperatura do corpo durante estações de calor ou frio intenso. Para um país que construiu uma das maiores economias do mundo após os estragos causados pela Segunda Guerra Mundial, nenhum desafio parece insuperável.


Revista Isto é

Notícias Geografia Hoje

Porto de Paranaguá tem movimento recorde em 2011
O salto ocorreu principalmente pelo transporte de fertilizantes e soja
AE



Os portos de Paranaguá e Antonina tiveram movimento recorde de 41 milhões de toneladas em 2011, aumento de 8% sobre o volume do ano anterior. A movimentação de soja, veículos e fertilizantes puxou o resultado.

Considerando apenas a movimentação do Porto de Antonina, o crescimento foi de 400%, com 1,54 milhão de toneladas. O salto ocorreu principalmente pelo uso do porto como alternativa ao desembarque de fertilizantes.

Outro destaque na movimentação foi a exportação de soja. Em 2011 foram 7 milhões de toneladas exportadas, volume 30% ao superior ao registrado em 2010. Considerando toda a movimentação do Corredor de Exportação, foram 14 milhões de toneladas de soja, milho, farelo de soja, açúcar e trigo exportados. A marca é a maior registrada pelo Corredor desde 2001.

"O ano de 2011 foi muito bom para os portos paranaenses. Batemos diversos recordes, recuperamos muitas cargas e a expectativa para 2012 é aumentar ainda mais essas marcas. Só na exportação de granéis, devemos ter um aumento significativo", afirmou por meio de nota o superintendente da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina, Airton Vidal Maron.

A exportação de açúcar fechou o ano em alta de 13%, totalizando 4 milhões de toneladas movimentadas. Os fertilizantes registraram alta de 25% em relação a 2010, fechando o ano com 9 milhões de toneladas importadas do produto.

A movimentação de veículos também registrou alta. Foram pouco mais de 230 mil unidades, volume 27% superior ao registrado no ano anterior. A movimentação de contêineres registrou leve alta, fechando 2011 com 680 mil TEUs movimentados.
Revista Isto é

Notícias Geografia Hoje

Solução tardia
Demora do governo brasileiro para enfrentar a imigração ilegal de haitianos resulta no fechamento emergencial da fronteira. Mas o problema está muito longe de acabar
Claudio Dantas Sequeira



ILEGAIS
Desabrigados haitianos em Brasileia (Acre) e reportagem
de ISTOÉ de março de 2011: tragédia anunciada



Dois anos após o terremoto que matou 225 mil pessoas e deixou 2,3 milhões de desabrigados, o Haiti voltou ao noticiário. Como quase sempre, pelos motivos errados. A onda de imigração ilegal de haitianos levou o governo brasileiro a impor, na semana passada, uma série de ações emergenciais. Entre elas, a exigência de visto de trabalho para os haitianos, o que na prática correspondeu ao fechamento da fronteira. As medidas foram tomadas tardiamente. A crise humanitária deflagrada no Acre pela presença de milhares de haitianos vivendo em condições precárias é um caso típico de tragédia anunciada. Desde o início de 2011, as autoridades sabiam da chegada dos desabrigados e da atuação criminosa de atravessadores. Em reportagem publicada em março de 2011, ISTOÉ revelou que os coiotes cobravam até R$ 6 mil para trazer cada haitiano. A Polícia Federal já estava investigando o caso e, com base em depoimentos de agenciadores presos, conseguiu traçar as rotas utilizadas. A mais popular delas incluía a passagem por três países – República Dominicana, Equador e Peru – antes da entrada no Brasil. As cidades acrianas de Epitaciolândia e Brasileia tornaram-se os principais destinos. Segundo o chefe da Coordenação-Geral de Polícia de Imigração da PF, delegado Antonio Carlos Lessa, os esquemas mais bem organizados compreendem a colocação dos estrangeiros em subempregos, geralmente na cidade de São Paulo. “Eles são obrigados a trabalhar para pagar a viagem”, disse Lessa.


À ESPERA DE AJUDA
Hospedagem improvisada para haitianos em Brasileia


Embora a PF tentasse fechar o cerco aos coiotes, acionando adidos policiais e a Interpol, não pôde fazer muito em relação aos haitianos. O Itamaraty pediu informalmente que prisões e deportações fossem evitadas. Temia-se que uma ação truculenta causasse mal-estar diplomático com o Haiti, país que virou vitrine da atuação internacional brasileira por conta da missão de paz da ONU, a Minustah. O Brasil já gastou na operação mais de R$ 1 bilhão e mantém in loco um contingente de 2,2 mil militares. A leniência da diplomacia foi um tiro no pé. Sem barreiras, o fluxo de haitianos aumentou vertiginosamente e o Ministério da Justiça chegou a contabilizar quatro mil ilegais. Mas esse número pode ser bem maior. A política de regularização, incentivada pela diplomacia, também serviu como estímulo aos imigrantes. Além da concessão de vistos, o governo agora debate uma forma de melhorar a assistência humanitária. A questão de fundo foi mais uma vez deixada de lado. O que atrai os haitianos não é o “sonho brasileiro”, mas a simples necessidade de sobrevivência, ante a fome, o desemprego e as doenças que assolam seu país. Os esforços para a reconstrução do Haiti, pelos quais o governo jacta-se frequentemente, não parecem ter sido suficientes.


Revista Isto é

sábado, 14 de janeiro de 2012

Defesa bilionária

Maior visibilidade mundial do País faz Exército reforçar a proteção das fronteiras com programa de R$ 11,9 bilhões que movimenta a indústria bélica.

Por Guilherme QUEIROZ


A fronteira brasileira é tão vasta que descrevê-la evoca superlativos: 16.886 quilômetros separando o Brasil de 11 países vizinhos, numa faixa que abrange dez Estados e 27% do território nacional. Uma área tão extensa que vigiá-la tornou-se quase impossível. Mas com a maior projeção do Brasil na economia global, a proteção dos limites do País tornou-se um assunto prioritário na estratégia de defesa nacional. Para evitar o trânsito de traficantes de drogas, contrabandistas e guerrilheiros, o governo montou um ambicioso projeto com o objetivo de manter os confins brasileiros sob permanente vigília.



Luiz Carlos Aguiar, da Embraer: "Temos a oportunidade de desenvolver, no longo prazo,
novas tecnologias de defesa no Brasil".

Numa estimativa inicial, serão gastos R$ 11,9 bilhões ao longo dos próximos dez anos para montar o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron). A Amazônia, por exemplo, cuja internacionalização é tema recorrente no noticiário mundial, receberá atenção especial. A gigantesca floresta, hoje vigiada por 21 Pelotões Especiais de Fronteira (PEFs), receberá 28 novos postos de vigilância em seis Estados da Amazônia Legal. Cada um tem um custo estimado de construção de R$ 8,5 milhões. “Com a escassez de recursos naturais, a proteção do território é cada vez mais uma questão de soberania”, diz o general João Roberto de Oliveira, assessor especial do Comando do Exército para o Sisfron.

Além de, literalmente, demarcar território, o projeto das Forças Armadas chega num momento importante para a indústria mundial de defesa. Com a recessão nos países ricos, a perspectiva de um contrato de longo prazo no Brasil tornou-se bastante atraente. As empresas do setor já começaram a se movimentar, desfilando um portfólio de produtos de última geração para o Exército, encarregado de implementar o projeto. As empresas estrangeiras, porém, não poderão concorrer sozinhas pelos recursos. Pelas regras definidas na Estratégia Nacional de Defesa (END) é obrigatório formar parcerias com indústrias nacionais e transferir a tecnologia que vem de fora.

Foi a deixa para iniciar uma onda de fusões e associações de olho no projeto bilionário do Exército. A Embraer Defesa e Segurança, a maior do setor, comprou a fabricante paulista de radares Orbisat e 50% do controle da Atech, especializada em integração de sistemas e responsável pelo projeto básico do Sisfron, concluído em dezembro. Três meses antes, a companhia de São José dos Campos desembolsou R$ 85 milhões para firmar uma joint venture com a gaúcha AEL Sistemas, subsidiária da israelense Elbit, criando a Harpia, para desenvolver veículos aéreos não tripulados (Vants) nacionais.



General João de Oliveira: "Com a escassez de recursos naturais, a proteção do território
é cada vez mais uma questão de soberania".

Luiz Carlos Aguiar, presidente da Embraer Defesa e Segurança, diz que os investimentos mostram o interesse firme da companhia em participar do Sisfron e de abrir novos mercados. ”Temos a oportunidade de desenvolver, no longo prazo, novas tecnologia de defesa no Brasil", disse Aguiar à DINHEIRO. O Sisfron representa um avanço tecnológico sem precedentes, garante Vitor Puglia Neves, vice-presidente de operações da AEL Sistemas.Tão logo começou a ser projetado, há um ano, o programa atraiu uma respeitável leva de empresas mundiais no setor.

Entre elas, a americana Rockwell Collins, a alemã Rheinmettal, a espanhola Indra e a italiana Selex. Desde então, o Exército já recebeu a visita de pelo menos 100 companhias interessadas. Mas o tabuleiro se agitou depois de setembro, com a criação da Empresa Estratégica de Defesa, que nada mais é que uma pessoa jurídica à qual qualquer companhia estrangeira deve obrigatoriamente se associar para projetos acima de R$ 50 milhões – como é o caso do Sisfron. O movimento mais recente foi da francesa Thales, uma gigante com faturamento de € 13,1 bilhões que, em dezembro, anunciou uma parceria com a construtora Andrade Gutierrez.

Com negócios nas áreas de defesa, segurança aeroespacial e transportes, a Thales tem no currículo o desenvolvimento do sistema de vigilância da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), uma aliança militar entre a Europa, os Estados Unidos e o Canadá. “Temos muita experiência nessa área”, afirma Laurent Mourre, diretor da Thales para o Brasil. “O Sisfron é tão complexo que, quando estiver pronto, vai mudar radicalmente o modo como o Exército atua na defesa do País”, afirma. Quando for concluído, o sistema de defesa compreenderá numa intrincada rede de radares estacionários e móveis, sistemas de comunicações e veículos aéreos não tripulados.



Os equipamentos terão de se comunicar e serão integrados numa grande teia, que dará subsídio aos centros de decisão do Exército. Simples no papel, extremamente complicado na prática. “Não há no planeta uma empresa capaz de fornecer o sistema completo”, diz o general João Roberto de Oliveira. “Isso estimula as empresas a se unirem.” Desde a edição da Estratégia Nacional, em 2009, o monitoramento permanente das fronteiras firmou-se como diretriz das Forças Armadas e se tornou uma das principais frentes de investimento do Ministério da Defesa. Soma-se a isso a necessidade de desenvolver parte significativa das tecnologias que serão empregadas até 2022 no Sisfron.

Uma estimativa feita pela Embraer Defesa e Segurança aponta que o Brasil domina apenas 60% do conhecimento necessário para montar o sistema. Os demais 40% são considerados tecnologias críticas, que ainda terão que ser desenvolvidas. É aí que moram as oportunidades – tanto para as empresas brasileiras quanto para as multinacionais. Cerca de 30 indústrias nacionais estão hoje capacitadas para fornecer equipamentos e tecnologias para o Sisfron. Mas, quando se fala em companhias para se associar aos gigantes estrangeiros, esse universo se torna bastante restrito.


Além de Embraer e Andrade Gutierrez, a mais adiantada nesse processo é a Odebrecht, que criou em 2011 sua divisão de defesa e segurança depois da joint venture com a francesa Cassidian, do grupo EADS. Outras construtoras, como Camargo Corrêa e OAS, já foram procuradas por interessadas estrangeiras – esta última sondada por uma americana do ramo de radares. A sueca Saab, que vem consolidando sua presença no Brasil para além da concorrência dos jatos do combate no programa F-X2, no qual disputa com seu Gripen NG, está em busca de parceiros.



Laurent Mourre, da Thales: "O Sisfron, quando estiver pronto, mudará
radicalmente o modo como o Exército atua na defesa do País".

“Vamos nos associar a uma empresa brasileira, compartilhando e desenvolvendo tecnologias”, diz Åke Albertsson, vice-presidente mundial de marketing e gerente-geral para o Brasil. A Saab entrará na parceria como fornecedora de radares, sistemas eletrônicos e soluções. Embora já busquem se posicionar para o lançamento do Sisfron, as empresas ainda não sabem exatamente qual será o seu desenho, mesmo com o projeto básico concluído pelo Exército, um calhamaço de 57 volumes. Ele só será conhecido com a divulgação das especificações técnicas.

“Só então saberemos quais são as tecnologias que o Brasil precisa, quais serão os equipamentos básicos e como serão integrados”, diz Jairo Cândido, diretor do departamento de indústria de defesa da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Como será implementado ao longo de uma década, o Sisfron sairá do papel aos poucos. Neste semestre, devem ser conhecidos os detalhes técnicos do projeto piloto que será lançado numa faixa de fronteira de 650 quilômetros, na divisa entre Mato Grosso do Sul e a Bolívia e o Paraguai.



Lá devem funcionar 12 radares, cada um com alcance de 60 quilômetros, ligados ao Comando Militar do Oeste, em Dourados (MS). O Orçamento da União de 2012 aloca R$ 172,8 milhões para essa finalidade. Essa fase experimental será a primeira iniciativa de integração das diversas plataformas de vigilância, dos radares aos Vants, com o centro de comando. Se der certo, o modelo será replicado nos outros 16 mil quilômetros de fronteira.
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Por que não exportamos mais manufaturados?

O Brasil é bom ou ruim na hora de exportar? Eis um tema polêmico. Sim, o País brilhou ao aumentar as exportações de 2011 em 26,8% ante as de 2010, alcançando inéditos US$ 256 bilhões em receita.
por Carla Jimenez

O Brasil é bom ou ruim na hora de exportar? Eis um tema polêmico. Sim, o País brilhou ao aumentar as exportações de 2011 em 26,8% ante as de 2010, alcançando inéditos US$ 256 bilhões em receita. São números alentadores para um ano sui generis como foi 2011. No entanto, sempre resta a incômoda sensação de que poderíamos ter sido muito melhores se a participação dos manufaturados na pauta de exportações superasse os 38%, medidos pela régua da Organização Mundial do Comércio (OMC). A discussão é sinuosa. Não é demérito ampliar as exportações de bens básicos, ainda mais quando os grandes compradores elevam a altura de seus muros de protecionismo.



Não há demérito em ampliar a exportação de bens básicos, ainda mais quando avançar é
romper muralhas protecionistas, como a dos EUA à carne suína brasileira.


Tivemos dois exemplos na semana passada. Na terça-feira 10, os americanos aceitaram comprar carne suína in natura brasileira. A abertura veio na esteira do acordo sobre o contencioso do algodão que os dois países travaram até 2010. O Brasil questionava os subsídios do governo americano aos seus produtores de algodão, e venceu a pendenga na OMC. Brasil e EUA concordaram que as barreiras sanitárias contra a carne brasileira seriam revistas. Coincidência ou não, na quarta-feira 11, os mesmos americanos questionaram o uso de um pesticida na produção de laranja, o que poderia interromper o fluxo de exportações brasileiras de suco.

Prova que o comércio exterior é um campeonato muito difícil de ser disputado, mas cujas regras o Brasil já domina. Agora, quando a pauta de manufaturados entra em campo, o País perde de goleada. Tomamos bolas nas costas uma dezena de vezes nos principais ciclos econômicos globais. Nos anos 1980 as nações ricas corriam para se posicionar como fornecedores de tecnologia e investiam em inovação. Mas o Brasil vivia da mão para a boca, se esforçando para iniciar a redemocratização, salvar-se da inflação e da dívida externa. A colheita do que cada país semeou no passado é muito clara hoje.

Nos Estados Unidos, berço da Apple, Intel e Microsoft, 73% das exportações são de manufaturados: tablets, chips, etc. Já o Brasil, continua firme em commodities. Quando exporta bens de maior valor agregado, são carros, sapatos e maquinários, mercados onde há muito mais competidores. Mudar esse quadro leva tempo. Embora o País tenha aprendido a pensar diversas questões no longo prazo, permanecemos no padrão da mão para a boca nas exportações de manufaturados. O programa de política industrial Brasil Maior, lançado no ano passado, por exemplo, dedica uma parte aos exportadores, mas com iniciativas tímidas, como a devolução de créditos fiscais para empresas que exportam.

Os Estados Unidos não só têm incentivos para a venda como para o investimento das empresas exportadoras, assim como um forte banco de fomento, o Eximbank, para financiar o comércio. O foco no assunto é estratégico, a ponto de o governo americano lançar, neste mês, o estudo A Competitividade e a Capacidade Inovadora dos Estados Unidos, que mapeia forças e deficiências do país e deve pautar políticas de longo prazo para reforçar o papel dos americanos no comércio mundial. O Brasil até chegou a ensaiar um Eximbank brasileiro, mas faltou bala na agulha para bancar o projeto. O País trabalha, agora, para substituir importações, buscando atrair cadeias de fornecedores estrangeiras de diversos segmentos, como equipamentos para área de saúde e eletroeletrônicos, mas ainda sem um norte de longo alcance.


Isto é dinheiro

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Notícias Geografia Hoje





Estudo diz que é possível produzir mais sem destruir floresta

Um novo estudo sugere que é falso dizer que para produzir mais é preciso desmatar novas áreas. Uma análise do uso de solo de Mato Grosso por uma década mostrou que aconteceu tanto uma diminuição da devastação da floresta como um aumento da produção agrícola.

Bastou saber usar bem o que existe, graças a políticas públicas e de mercado.

A pesquisa publicada na "PNAS" indica que o desmate em Mato Grosso diminuiu 30% entre 2006 e 2010 da sua média histórica recente (entre 1996-2005), apesar do aumento da produção agrícola.

O Estado é o principal produtor de soja (31% do total brasileiro). Mas também foi o campeão em destruição de floresta de 2000 a 2005.

O aumento da produção de soja, entre 2001 e 2005, foi sobretudo pela expansão da cultura em áreas desmatadas e que eram pasto (74%) ou diretamente em florestas (26%).

Já de 2006 a 2010, o aumento ocorreu em 91% dos casos em áreas já desmatadas.

O estudo conclui que a queda mais acentuada no desmate coincidiu com um colapso das commodities e a implementação de políticas para reduzir o corte da mata.

"A lucratividade da soja desde então aumentou para os níveis pré-2006, enquanto o desmatamento continuou a declinar, sugerindo que as medidas antidesflorestamento podem ter influenciado o setor agrícola", diz o texto.


Folha de São Paulo

Notícias Geografia Hoje

Desastre ambiental
Micróbios que acompanham correntes oceânicas podem amenizar impactos de vazamento de óleo
por David Biello


Shvaygert Ekaterina

Micróbios impediram que o petróleo e o gás expelidos do poço em Macondo se tornassem um desastre ainda maior, impedindo que a explosão da plataforma Deepwater Horizon sujasse profundamente a costa do Golfo. No entanto, esses consumidores de hidrocarbonetos contaram com a colaboração do próprio Golfo do México, já que as marés e as correntes predominantes ajudaram a manter os micróbios em atividade, de acordo com resultados de um novo modelo publicado em Proceedings of the National Academy of Sciences, em 9 de janeiro.

Em essência, o estudo procurou responder à pergunta: como cinco famílias de bactérias impediram que 4,1 milhões de barris de petróleo (e bilhões de metros cúbicos de gás natural) se transformassem em um desastre maior? Além disso, por que não extraíram todo o oxigênio da água enquanto trabalhavam?

A dissolução na água assegurou que os 200 bilhões de gramas de hidrocarbonetos injetados no Golfo do México se transformassem, em última instância, em cerca de 100 sextilhões de células microbianas de Colwellia consumidoras de propano e etano, de Cycloclasticus digestoras de aromáticos, de Methylococcaceaa consumidoras de metano e de Oceanospirillales digestoras de alcanos . A mistura na água também assegurou que hidrocarbonetos fossem introduzidos em águas que já continham colônias desenvolvidas de micróbios estimuladas por vazamentos de petróleo e gás anteriores. A equipe de pesquisadores sugere que essa "autoinoculação" — à deriva de colônias microbiais de volta ao local do derramamento e sua renovada atividade digestiva — permitiu que os micróbios trabalhassem rapidamente durante os meses de duração do desastre, bem como impedissem que o esgotamento do oxigênio ficasse muito grave em áreas concentradas.

O modelo não é perfeito — ele não conseguiu reproduzir exatamente as observações do trajeto da mancha de petróleo (e microbiana), mas conseguiu explicar por que o consumo de petróleo e gás pôde acontecer tão rapidamente, mesmo quando são os micróbios (e não humanos) os responsáveis pelo consumo dos hidrocarbonetos
.


Scientific American Brasil

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