sábado, 20 de agosto de 2011

Extinção da vida marinha pode ser sem precedentes, diz estudo

DA BBC BRASIL
Um novo estudo indica que os ecossistemas marinhos enfrentam perigos ainda maiores do que os estimados até agora pelos cientistas e que correm risco de entrar em uma fase de extinção de espécies sem precedentes na história da humanidade.

O levantamento vem de especialistas que integram o IPSO (sigla em inglês de Programa Internacional sobre o Estado dos Oceanos), entidade formada por cientistas e especialistas no assunto.

IPSO/BBC

Substâncias poluidoras como plásticos, que estão sendo ingerido por peixes, contribuem com degradação
Eles concluíram que fatores como a pesca excessiva, a poluição e as mudanças climáticas estão agindo em conjunto de uma forma que não havia sido antecipada.

A pesquisa reuniu diferentes disciplinas, incluindo ambientalistas com especialização em recifes de corais, toxicologistas e cientistas especializados em pesca.

"As conclusões são chocantes. Estamos vendo mudanças que estão acontecendo mais rápido do que estávamos esperando e de formas que não esperávamos que fossem acontecer por centenas de anos'', disse o diretor científico do IPSO, Alex Rogers, também professor da Universidade de Oxford.

PLÁSTICO

Entre as mudanças que estão ocorrendo antes do esperado estão o derretimento da camada de gelo no Ártico, na Groenlândia e na Antártida, o aumento do nível dos oceanos e a liberação de metano no leito do mar.

O estudo observou também que existem efeitos em cadeia provocados pela ação de diferentes poluentes. Alguns deles permanecem nos oceanos por estarem presos a pequenas partículas de plástico que foram parar no leito do oceano. Com isso, há um aumento do poluentes que são consumidos por peixes que vivem no fundo do mar.

Partículas de plástico são responsáveis também por transportar algas de um lado para outro, contribuindo para a proliferação de algas tóxicas, o que também é provocado pelo influxo para os oceanos de nutrientes e poluentes provenientes de áreas agrícolas.

O levantamento descreveu ainda como a acidificação do oceano, o aquecimento global e a poluição estão agindo de forma conjunta para aumentar as ameaças aos recifes de corais, tanto que 75% dos corais mundiais correm o risco de sofrer um severo declínio.

CICLOS

A vida na Terra já enfrentou cinco "ciclos de extinção em massa'' causados por eventos como o impacto de asteróides, e muitos cientistas acreditam que o impacto de diferentes ações exercidas pelo homem poderá contribuir para um sexto ciclo.

"Ainda contamos com boa parte da biodiversidade mundial, mas o ritmo atual da extinção é muito mais alto [do que no passado] e o que estamos enfrentando é, certamente, um evento de extinção global significativa'', afirma o professor Rogers.

O relatório observa ainda que eventos anteriores de extinção em massa tiveram ligação com tendências que estão ocorrendo atualmente, como distúrbios no ciclo de carbono, acidificação e baixa concentração de oxigênio na água.

Os níveis de CO2 que estão sendo absorvidos pelos oceanos já são bem mais altos que aqueles registrados durante a grande extinção de espécies marinhas que ocorreu há 55 milhões de anos, afirma a pesquisa.

Entre as medidas que o estudo aconselha sejam tomadas imediatamente está o fim da pesca predatória, especialmente em alto-mar, onde atualmente há pouca regulamentação. Outras medidas envolvem mapear e depois reduzir a quantidade de poluentes --como plásticos, fertilizantes agrícolas e detritos humanos-- e reduzir de forma acentuada os gases do efeito estufa.

As conclusões do relatório serão apresentadas na sede da ONU, em Nova York, nesta semana, durante um encontro de representantes governamentais sobre reformas na maneira de gerenciar os oceanos.

Notícias Geografia Hoje


Estudo culpa esgoto por desaparecimento de coral no Caribe

A bactéria causadora de uma enfermidade que está acabando com um tipo de coral ameaçado de extinção do Caribe é proveniente das águas poluídas de uma rede de esgotos, mostra um estudo publicado nos Estados Unidos na quarta-feira.

O coral, chamado de chifre-de-veado, vive nas águas do sul da Flórida e do arquipélago das Bahamas e chegou a ser a espécie mais numerosa no Caribe, mas tem desaparecido por conta de uma enfermidade causada pela bactéria Serratia Marcescens, que é encontrada em fezes humanas e de animais.

Até agora não se sabia com certeza que tipo de bactéria estava afetando o coral, mas os cientistas analisaram a bactéria de uma planta de águas residuais em Key West, na Flórida, e a compararam com amostras fecais de animais e aves locais para chegar à conclusão.

Os cientistas descobriram que a bactéria que causava a morte dos corais era do mesmo tipo encontrado nas redes de esgoto.

"A boa notícia é que podemos resolver este problema através do tratamento de esgoto", disse o co-autor do informe, James Porter, da Universidade de Geórgia.

O estudo, publicado na revista científica "PLoS One", assegura que toda a área do sul da Flórida está modernizando a rede de esgoto, o que deverá impedir que a bactéria chegue ao oceano aberto.

Segundo a Noaa (Administração Nacional dos Oceanos e a Atmosfera dos Estados Unidos), as enfermidades, a contaminação, os depredadores, o aquecimento das águas e as tormentas têm contribuído para uma diminuição da população de corais entre 75% e 95% desde 1980.
Jornal O Estado de S. Paulo

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Notícias Geografia Hoje


Cai ritmo de desmatamento na Caatinga
Enquanto de 2002 a 2008 a média anual era de 0,28% de área desmatada, entre 2008 e 2009 a taxa anual foi de 0,23%

A Caatinga teve 1.921 km² de sua floresta desmatada no período de 2008-2009, segundo dados do Centro de Sensoriamento Remoto do Ibama. O ritmo anual de desmamento diminuiu. Enquanto de 2002 a 2008 a média anual era de 0,28% de área desmatada, entre 2008 e 2009 a taxa anual foi de 0,23%. As informações foram divulgadas na sexta-feira pelo Ministério do Meio Ambiente.

Os primeiros dados do monitoramento da Caatinga sobre as áreas desmatadas até 2008 foram divulgados no ano passado. No primeiro levantamento, em 2002, foi registrado um índice de desmate de 43,7%.

Este número subiu para 45,4% em 2008. Uma das principais causas do desmatamento na região é a extração ilegal da mata nativa que é convertida em lenha e carvão vegetal.

"É um dado melhor porque diminuiu o ritmo comparando com o período 2002-2008. Mas ainda é importante que a gente tenha iniciativas de sustentabilidade, como de manejo adequado da Caatinga, para não perder esse bioma que é único e absolutamente estratégico para a qualidade de vida do nosso País, em particular nos seus estados", destacou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

Os primeiros dados do monitoramento da Caatinga sobre as áreas desmatadas até 2008 foram divulgados no ano passado. No primeiro levantamento, em 2002, foi registrado um índice de desmate de 43,7%. Este número subiu para 45,4% em 2008. Com os novos dados, a Caatinga tem 45,6% de sua área desmatada. Uma das principais causas do desmatamento na região é a extração ilegal da mata nativa que é convertida em lenha e carvão vegetal.

Os estados que mais desmataram foram Bahia (638 km²), Ceará (440 km²) e Piauí (408 km²), e os municípios que registraram as maiores áreas com supressão de floresta foram Mucugê e Ruy Barbosa (BA) e Cabrobó (PE).

Único bioma exclusivamente brasileiro, a Caatinga possui uma área original de 826.411 km² e está presente em cerca de 11% do País nos estados da Bahia, Ceará, Piauí, Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Norte e Minas Gerais. A região sofre forte impacto das mudanças climáticas por apresentar muitas áreas suscetíveis à desertificação.
Jornal O Estadão

Notícias Geografia Hoje


Amazônia teve 225 km² de áreas desmatadas em julho

MARCELA BOURROUL GONSALVES - Agência Estado
A floresta amazônica registrou, apenas no mês de julho, 224,94 quilômetros quadrados (km²) de áreas que sofreram corte raso ou degradação progressiva. O dado é do sistema Detecção do Desmatamento em Tempo Real (DETER), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e corresponde a pouco mais de 27 mil campos de futebol do tamanho do Maracanã, no Rio de Janeiro.

Os estados mais afetados foram o Pará, com 93,74 km² de áreas desmatadas, seguido de Rondônia e Mato Grosso, com aproximadamente 52 km² desmatados cada um.O sistema do Inpe registra tanto áreas de corte raso, quando os satélites detectam a completa retirada da floresta nativa, quanto áreas classificadas como degradação progressiva, aquelas que revelam o processo de desmatamento na região.
Jornal O Estadão

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Notícias Geografia Hoje


O Estado de São Paulo
03/08/2011

Para empresários, setor de energia deve ser prioridade
'Se o Brasil souber tirar proveito dos recursos em energia e água poderá se beneficiar muito disso\", destacou o presidente da Coteminas

Silvana Mautone, da Agência Estado

SÃO PAULO - O setor de energia é apontado como prioritário por empresários brasileiros para receber atenção - e investimentos - por parte do governo brasileiro. "Energia é fundamental", avalia o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Cledorvino Belini. O executivo participou nesta manhã do 4.º Congresso Brasileiro de Inovação na Indústria, realizado em São Paulo pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

"Se o Brasil souber tirar proveito dos seus recursos em energia e água, que são recursos escassos, poderá se beneficiar muito disso", destaca o presidente da Coteminas, Josué Christiano Gomes da Silva. Com relação ao debate sobre se o País deve se concentrar no mercado de commodities ou no setor industrial, o presidente da Embraer, Frederico Curado, disse acreditar ser plenamente viável investir em ambos. "Não credito que seja preciso fazer essa escolha. Dá para fazer as duas coisas tranquilamente", afirmou.

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, participou do debate e disse que, com relação à indústria automobilística, o Brasil tem a "ambição de desenvolver motores elétricos, híbridos" localmente. Além disso, disse que o País tem grande potencial nas áreas de biotecnologia, especialmente biossintéticos, e de computação. "Temos um tremendo potencial em software. Temos que repensar nossa posição na indústria de equipamentos de computação e até em semicondutores. Temos que pensar com ousadia", afirmou.

Coutinho defendeu alianças com grandes empresas internacionais que estão no Brasil. "Por que não desenvolvemos no Brasil a próxima geração de supercomputadores? É um projeto que nós podemos ambicionar", afirmou.
http://infoener.iee.usp.br

Notícias Geografia Hoje

Homem no meio de um pântano poluído por vazamento de petróleo na Nigéria. Foto: New York Times

Petróleo provocou danos ecológicos na Nigéria, diz ONU

04 de agosto de 2011

AE - Agência Estado

Uma região do delta do rio Níger, no sul da Nigéria, sofreu um amplo dano ecológico provocado por vazamentos de petróleo, que atingiram a água potável, destruíram plantas e contaminaram o solo. As informações estão em um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado nesta quinta-feira. O relatório estima que serão necessários 30 anos e um gasto inicial de US$ 1 bilhão para limpar a região de Onigoland, uma área de pântanos, mangues e córregos com mais de 965 quilômetros quadrados.

Embora a produção petrolífera em Onigoland tenha acabado em 1993, oleodutos e estações construídos e operados pela Royal Dutch Shell e pela estatal Nigerian National Petroleum Corp. ainda atravessam os vilarejos e campos. O programa ambiental da ONU sugere que o governo da Nigéria e a indústria petrolífera realizem em conjunto os investimentos para recuperar a área.

Alguns ambientalistas calculam que 500 milhões de galões de petróleo vazaram no delta do Níger durante os 50 anos de exploração petrolífera na região.

A Shell ajudou a financiar a investigação da ONU, o que atraiu críticas de ambientalistas locais de que o relatório não seria imparcial.

As informações são da Associated Press.
Jornal O Estadão

sábado, 13 de agosto de 2011

Notícias Geografia Hoje

Habitantes do Himalaia confirmam teoria científica sobre o clima

DA FRANCE PRESSE

Um extenso estudo realizado com 250 moradores do Himalaia, no qual foram coletadas as suas observações sobre a evolução da camada de neve ou dos cursos de água nos últimos dez anos, confirma a teoria científica sobre as mudanças climáticas.

O estudo será publicado pela Royal Society (academia das ciências britânicas) na revista científica "Biology Letters".

Os pesquisadores entrevistaram moradores sobre 18 possíveis indicadores das mudanças climáticas ao longo da última década.

Com o objetivo de comparar os resultados, as entrevistas foram acompanhadas por uma pesquisa de grande escala em outras dez cidades da mesma região.

Das pessoas entrevistadas, 75% disseram que atualmente faz mais calor agora do que há dez anos e dois terços disseram que o verão e a colheita chegam mais cedo.

Cerca da metade concordou que há menos neve agora nas montanhas e 70% afirmaram que os cursos de água são cada vez mais escassos.

A metade constatou que certas espécies de plantas brotam mais cedo do que há uma década e que mosquitos têm aparecido em aldeias onde nunca eram vistos anteriormente.

Outro terço indicou que nas fazendas há mais pragas e crescem ervas daninhas.

As observações confirmam os estudos científicos relacionados à temperatura, às chuvas e às espécies no Hilamaia e em outras regiões.

No entanto, segundo a pesquisa, não existem pesquisas que comprovem que a colheita começa mais cedo.

Os moradores que vivem em altitudes elevadas (entre 2.000 e 3.000 metros) são os que mais constataram estas mudanças. Na verdade, os cientistas estimam que as regiões montanhosas e com neve sejam as mais suscetíveis ao impacto da mudança climática.

Trata-se da maior pesquisa já realizada até agora comparando as observações coletadas de populações locais, de um lado, e os modelos científicos, de outro.

Normalmente, estes conhecimentos empíricos são pouco utilizados nas ciências do clima por ser muitas vezes demasiado incorretos ou distorcidos pelas experiências profissionais.

Por exemplo, se um agricultor sofre várias colheitas ruins seguidas, culpa primeiro as mudanças climáticas, ao invés de avaliar as técnicas agrícolas utilizadas ou, simplesmente, cogitar se houve mau tempo.

O Himalaia e seus 15.000 glaciares abastecem com água os oito maiores rios da Ásia, dos quais cinco (o Indus, Ganges, Bramhaputra, o Yangtze e o Amarelo) são suscetíveis de sofrer estresse hídrico nas próximas décadas, com potenciais consequências para 1,4 bilhão de pessoas.

"Apesar dos enormes custos ambientais, econômicos e sociais, não conhecemos bem a extensão das mudanças climáticas e suas consequências no Himalaia", diz o estudo.

Os autores da pesquisa são Kamaljit Bawa, professor de biologia da Universidade de Massachusetts, em Boston (EUA), e presidente da Fundação Ashoka de Pesquisas em Ecologia e Meio Ambiente (Atree, em inglês), de Bangalore (Índia), e o estudante de biologia Pashupati Chaudhary, que pertence à mesma universidade.
Folha de São Paulo

Notícias Geografia Hoje

Ilhas-barreiras que protegem biomas são bem mais numerosas
DO "NEW YORK TIMES"
Foto: Getty
Ilha-barreira no Atol de Ha

Existem mais ilhas-barreiras do que pensávamos. Essas faixas estreitas de terra arenosa, formadas paralelamente à costa em muitas partes do mundo, defendem praias das ondas oceânicas e protegem a ecologia de lagoas e marismas.

Usando novas fotografias por satélite, cientistas descobriram, globalmente, quase 21 mil quilômetros de litoral ocupados por mais de 2.100 ilhas-barreiras - um aumento, em número e extensão, de aproximadamente 30% frente a estimativas de 2001. O estudo aparece na versão on-line do "The Journal of Coastal Research".

Pesquisas anteriores não tinham a vantagem de imagens de satélite publicamente disponíveis e não incluíam algumas ilhas importantes. Um exemplo é uma cadeia de 54 ilhas, espalhadas por 560 quilômetros na costa do Brasil, abrigando um profundo manguezal de 25 quilômetros. Usando as fotos em alta resolução, pesquisadores conseguiram diferenciar as ilhas de coloração clara da vegetação de mangue, mais escura.

"Muitas ilhas não possuem qualquer literatura publicada descrevendo-as", diz o principal autor, Matthew L. Stutz, professor assistente de geociência no Meredith College, na Carolina do Norte (EUA). "Nosso estudo oferece ao menos um ponto de partida."

Ilhas-barreiras estão sempre erodindo, devido à elevação dos níveis do mar e tempestades mais rigorosas. Os danos do furacão Katrina são apenas um exemplo.

"Estamos atravessando um limiar", afirma Stutz. "Tivemos diversos milhares de anos em que os níveis do oceano e o clima estavam constantes. Hoje, esses dois fatores podem mudar rapidamente."
Jornal Folha de São Paulo

Ajuda de fora

Crescimento do país e investimento no pré-sal levam empresas a importar trabalhadores

MIGUEL NÍTOLO
Arte PB

Era apenas uma questão de tempo. As empresas sabiam e o governo tinha consciência do que nos aguardava caso o país engatasse de fato um crescimento sustentado ou chegasse perto disso. Faltaria mão de obra qualificada – e a carência é tal que ameaça travar a expansão dos mercados e reter o avanço da economia. Esse é um problema que aflige basicamente todas as nações emergentes e anos atrás começou a afetar duro o Brasil, festejado hoje como um dos portos mais seguros para o capital. O fato é que a privação de pessoal habilitado não está causando dores de cabeça a apenas alguns segmentos, mas a numerosos ramos de atividade, colocando em estado de atenção as agências de recrutamento e mesmo os departamentos de recursos humanos de grandes corporações.

Na realidade, em nosso país a questão é ainda mais delicada devido a um importante detalhe: o pré-sal, uma porção do subsolo alguns quilômetros abaixo do leito do mar que guarda um enorme reservatório de óleo à espera de ser bombeado para cima. A extração dessa riqueza, numa faixa que se estende de Santa Catarina ao Espírito Santo e chega a alcançar 200 quilômetros de largura, vai exigir da Petrobras e das empresas privadas envolvidas na extraordinária tarefa um esforço gigantesco, em termos de investimentos, tecnologia e pessoal capacitado.

Então, se o Brasil já vinha carecendo de mão de obra especializada para atender a suas necessidades nos mais variados campos, com o pré-sal a situação ganha ainda maior proporção. Isso sem falar, é claro, do boom da construção civil e das grandes obras de infraestrutura que se tornaram prementes em razão da realização da Copa do Mundo de Futebol em solo brasileiro, em 2014, e das Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. Miguel Torres, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes e vice-presidente da Força Sindical, chama também a atenção para os pesados desembolsos nos setores automotivo, siderúrgico, eletroeletrônico, têxtil, químico e de papel e celulose. Ele relata que o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estima para os próximos quatro anos investimentos totais da ordem de R$ 3,3 trilhões. “Diante desse ciclo virtuoso de crescimento, é natural que a demanda de mão de obra especializada ganhe as alturas, notadamente nos segmentos de ponta”, diz.

Sinal de avanço

O que fazer? A trilha aberta pelas grandes economias aponta para a importação de mão de obra especializada. De certa forma, o Brasil já vem fazendo isso, só que ainda moderadamente, ao contrário do que recomendam alguns especialistas ouvidos pela reportagem, na opinião dos quais essa prática devia ser acelerada sem constrangimentos. De 2005 até o final de 2010, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) teria concedido perto de 190 mil autorizações de trabalho a estrangeiros. Apenas nos seis primeiros meses do ano passado, entraram legalmente no país 22,1 mil trabalhadores de vários pontos do planeta, especialmente dos Estados Unidos, Reino Unido, Filipinas, Colômbia, Argentina e Venezuela. “A escassez de mão de obra é sinal de que avançamos”, destaca Alfredo Behrens, professor de Liderança e Gestão Intercultural da Fundação Instituto de Administração (FIA). “E a solução passa, necessariamente, pela importação da mão de obra que nos faz falta”, prega.

O divulgado apagão de recursos humanos não aconteceu por acaso, longe disso. “Nas últimas duas a três décadas houve um verdadeiro desestímulo às carreiras científicas e técnicas”, observa Otavio de Mattos Silvares, reitor do Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), de São Paulo, interpretando o atual momento. “Esse desestímulo, aliás, é semeado já na formação básica de nossas crianças”, sustenta.

Silvares lastima a escassez de professores do ensino fundamental e médio nos campos das ciências, matemática, biologia e química. Além disso, explica, como eles nem sempre estão suficientemente preparados e equipados para o bom desempenho didático, não levam as crianças e jovens a se encaminhar para o estudo das ciências. “O decrescente número de brasileiros que ingressam nas escolas de engenharia e nos institutos de física, química, biologia e matemática é consequência direta disso”, pondera o reitor do IMT. É sabido que o Brasil forma, anualmente, em torno de 30 mil engenheiros, mas a demanda a cada período giraria em torno de 60 mil profissionais.

De seu lado, o sindicalista Miguel Torres acentua que o sistema educacional não reage na velocidade que o novo padrão de desenvolvimento exige. “Por tudo isso são imprescindíveis investimentos pesados, públicos e privados, em educação geral e formação profissional. Para nós, trabalhadores, esse tema deve ser estratégico e prioritário”, diz. Na realidade, as providências terão de vir de todos os lados. “O governo terá de entrar com sua parte, melhorando o nível de qualificação, e as empresas terão de fazer a sua, contribuindo para o desenvolvimento e a capacitação desses profissionais”, sustenta Elaine Saad, vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH).

O professor Behrens lembra que o Brasil já enfrentou outros apagões de mão de obra, como nos casos da energia elétrica, do tráfego aéreo e dos portos, segundo ele em decorrência de décadas perdidas em virtude da baixa produtividade e dos desequilíbrios macroeconômicos que desestimulavam investimentos. “Mas apagões têm solução; do contrário, como a Índia e a China conseguem crescer mais do dobro que nós?”, pergunta.

O fato é que o emprego bate à porta, e a lista de ocupações que hoje faz a diferença no processo de crescimento da economia é extensa. “Os geólogos estão sendo caçados ainda nas universidades, além de vir aumentando a procura por petrólogos, petrofísicos e geofísicos. E se acham na mesma situação os profissionais especializados em perfuração e os técnicos capazes de avaliar o retorno financeiro dos projetos de exploração”, relata Adriano Bravo, CEO da Petra Executive Search, uma consultoria de recrutamento e seleção com atuação nas áreas de óleo e gás, mineração, energia, indústria de transformação, construção pesada e construção civil.

Segundo Bravo, as oportunidades também se abriram para os oficiais da marinha mercante, operadores de robôs submarinos e especialistas em processos petroquímicos, profissionais experientes em bombeio de produção e contadores com inglês fluente.

Ponta do iceberg

Também é esperado um intenso movimento no mercado de sondas nos anos vindouros por conta dos investimentos das petroleiras. Entretanto, diz Bravo, não haverá mão de obra capacitada em número suficiente para operar todos os equipamentos. “Essas sondas são de última geração e, portanto, a grande maioria dos profissionais brasileiros não tem especialização técnica para manuseá-las.” O titular da Petra Executive Search destaca que muitas outras áreas do setor petrolífero também estão exigindo pessoal habilitado, tais como os navios de apoio, de lançamento de linhas e de mergulho, assim como as unidades de produção, helicópteros e portos de apoio e fábricas de equipamentos com conteúdo nacional, para citar somente alguns exemplos. “As sondas são apenas a ponta do iceberg”, adverte. De fato, são. Monica de Mello, da Welcome Expats, de Macaé, no litoral do Rio de Janeiro, empresa de realocação criada com o objetivo de auxiliar expatriados, destaca que operadores de guindastes e plataformistas também estão sendo bastante requisitados, bem como especialistas em recursos humanos e TI (tecnologia da informação).

O investimento da Petrobras para o período que vai de 2010 a 2014, da ordem de R$ 224 bilhões, dá uma ideia do que vem por aí. “A ampla carteira de projetos da empresa vai movimentar toda a cadeia produtiva do setor de óleo, gás e energia, passando pela construção civil e pelos estaleiros”, ressalta a assessoria de imprensa da estatal. “Garantir que não falte mão de obra para cumprir esse planejamento e assegurar que a economia brasileira continue crescendo é um dos grandes desafios dos próximos anos”, completa.

Macaé, onde a indústria petrolífera cresce a olhos vistos, é o município com o maior número de estrangeiros em atividade. “Segundo a prefeitura, eles representam 10% da população local, de quase 200 mil habitantes”, destaca Monica. Ela arrisca dizer, contudo, que esse percentual é bem maior. “Não estão computadas as tripulações das plataformas e das sondas de perfuração, que alternam 28 dias a bordo e outro tanto nos países de origem. Na troca de turno desse pessoal a cidade acaba recebendo milhares de estrangeiros em trânsito.” Monica acentua que uma coisa é certa: a presença da mão de obra internacional vai aumentar ainda mais, e muito. “Há empresários determinados a trazer do exterior até mil pessoas ou mais”, conta.

Segundo o dirigente sindical Miguel Torres, em 2010 aproximadamente 53,4 mil estrangeiros foram autorizados a trabalhar no país e, mesmo considerando o fato de que esse número tenha crescido muito nos últimos cinco anos, a esmagadora maioria das concessões (95,4%) se destinou a trabalho temporário de até dois anos. “As autorizações permanentes representaram apenas 4,6% do total, e quase a metade delas foram concedidas a supervisores, administradores, diretores e gerentes. Por outro lado, a maioria das autorizações temporárias (52%) relacionou-se aos segmentos de estaleiros, embarcações e plataformas petrolíferas e de gás.”

Sem xenofobia

Ainda não se ouviram vozes contra a chegada da mão de obra estrangeira porque, explicam os especialistas, ela é muito bem-vinda. “O conhecimento que os trabalhadores de fora trazem deve facilitar a geração de empregos não só no ramo em que eles prestam serviço, mas em basicamente todos os segmentos”, pontifica o professor Behrens, da FIA. Ele assinala que a cadeia lógica de raciocínio é a seguinte: a falta de trabalhadores capacitados limita o crescimento. Em contrapartida, a importação de mão de obra especializada facilita a expansão que, por sua vez, cria empregos tanto para brasileiros quanto para estrangeiros.

O que pensam sobre isso o operário brasileiro e suas entidades de classe? “É preciso registrar que defendemos para os trabalhadores imigrantes, independentemente de nacionalidade e qualificação, as mesmas prerrogativas que preservamos para a mão de obra brasileira e que dizem respeito, por exemplo, às condições de trabalho, ao direito à informação e à proteção social e à igualdade de direitos”, sustenta o dirigente sindical Miguel Torres.

E o que pensa o imigrante sobre o Brasil? “Eles revelam grande ansiedade no tocante à segurança e à moradia”, relata Vivian Manasse Leite, sócia-diretora da Goingplaces, empresa de consultoria intercultural que dá assessoria tanto a empresas quanto a estrangeiros que vêm trabalhar no Brasil e a brasileiros que vão atuar no exterior. O desconhecimento da língua portuguesa e a burocracia também têm atrapalhado a vida dessa gente. Vivian comenta que, como em geral os estrangeiros não dominam nossa língua e muitos brasileiros com quem eles se relacionam falam um inglês apenas mediano, é comum ocorrerem sérios problemas de comunicação. A sócia-diretora da Goingplaces diz que essas dificuldades são de parte a parte, já que os brasileiros também reclamam dos trabalhadores de fora. Ela conta que as queixas nesse caso residem, conforme alegam, “na aparente falta de interesse pela vida pessoal dos funcionários daqui (a priori, a aproximação se daria apenas entre os estrangeiros) e no isolamento dentro do ambiente de trabalho”.

Um dia os conflitos derivados da falta de pessoal qualificado serão – se não no todo – pelo menos em parte solucionados com a ampla disponibilidade de mão de obra local. Para isso, o país deverá investir mais e melhor em educação, especialmente na formação de quadros técnicos, necessários em qualquer nação em fase de crescimento.
Revista Problemas Brasileiros

Quem ganha com as minas de carvão?

Produção carbonífera no sul do Brasil afeta população e meio ambiente

MILU LEITE
Minério em detalhe / Foto: Felipe Obrer

“Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou, pararatibum, pararatibum...” Quem ainda não ouviu essa canção entoada pelos sete anões no desenho Branca de Neve? Só mesmo Walt Disney para dar aos mineiros uma existência tão bucólica e saudável. Na vida real, a primeira palavra associada ao dia a dia de quem trabalha numa mina é “sacrifício”. Se é de carvão, vêm logo em seguida muitas outras: doença, degradação ambiental, perigo iminente.

É difícil dizer se quem sofre mais com a mineração carbonífera é o homem ou o meio ambiente. Avaliar, então, o impacto dessa atividade exige uma multiplicidade de pontos de vista, indo da saúde do trabalhador aos leitos de rios contaminados, sem deixar de lado motivações econômicas, sociais e políticas de setores diversos (cidadãos, empresas e governos).

Não há muitas minas de carvão no Brasil. As reservas brasileiras totalizam 32 bilhões de toneladas do minério in situ, 89,25% delas localizadas no Rio Grande do Sul, 10,41% em Santa Catarina, 0,32% no Paraná e 0,02% em São Paulo. A exploração se dá efetivamente na região sul do país, e a zona carbonífera que mais apresenta problemas é a de Santa Catarina.

São cerca de 1,5 mil quilômetros quadrados espalhados pelos municípios de Criciúma, Lauro Müller, Maracajá, Orleans, Siderópolis e Urussanga, área irrigada pelas bacias de Araranguá, Tubarão e Urussanga. A mineração afeta cerca de 900 mil pessoas na região. Quando se diz “afeta”, é preciso considerar o desenvolvimento e os prejuízos que a exploração do minério traz em seu bojo. Cidades como Criciúma, por exemplo, cresceram em função da prática e hoje muitos de seus habitantes trabalham e têm casa e comida graças a alguma atividade ligada ao carvão.

É assustador, entretanto, pensar que essas casas, muitas vezes, estão construídas sobre minas desativadas, sobre galerias velhas e inseguras, cujo risco de desabamento é real. “É um queijo suíço”, compara a geógrafa Claudia Ravazzoli, da Seção de Controle Ambiental na Mineração do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), do Ministério de Minas e Energia. “O passivo do carvão é muito extenso. Existe inclusive um trauma da comunidade com relação a isso. As pessoas que residem nas áreas carboníferas não gostam nem um pouco quando uma empresa começa a explorar alguma mina”, revela.

Problema antigo

O DNPM é o órgão encarregado de regulamentar e fiscalizar a mineração. É dele que partem as licenças (alvará de pesquisa e concessão de lavra) para exploração das minas, hoje consideradas um bem da União (a licença ambiental fica a cargo dos órgãos de meio ambiente dos estados). Houve, contudo, períodos em que as minas pertenciam a pessoas físicas, e muitos dos problemas começaram a surgir aí, já que não havia fiscalização nem regras para a exploração.

A descoberta de jazidas de carvão em Santa Catarina se deu em 1822, mas somente em 1876 o visconde de Barbacena começou a explorar a mineração com objetivos econômicos. Com o advento da 1ª Guerra Mundial, a atividade se intensificou, com a ampliação de ramais ferroviários e hidroviários. O segundo boom aconteceu durante o governo de Getúlio Vargas, com a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), quando o presidente decretou que a usina devia operar com 20% de carvão nacional na composição do coque (carvão com baixa concentração de hidrogênio). Assim, os problemas da exploração, que começaram quando ainda era uma atividade privada, não tardaram a se avolumar com a participação direta do governo federal.

“O carvão catarinense é o único coqueificável no país. Mesmo assim não são todas as minas que o produzem, somente aquelas que explotam a camada Barro Branco. Não é um carvão de primeira, devido aos teores de cinza e voláteis, mas alimentou a siderurgia nacional por décadas”, esclarece o geólogo Nereu Heidrich, que durante muitos anos chefiou a Seção de Economia Mineral do DNPM do Amazonas.

O carvão coqueificável catarinense responde por cerca de 1% do mercado brasileiro de coque. Segundo o “Sumário Mineral Brasileiro” de 2009, do DNPM, o carvão que alimenta nossa indústria siderúrgica é proveniente da Austrália (33%), EUA (30%), Canadá (8%), China (6%), Colômbia (5%) e outros (18%). De acordo com Heidrich, as reservas brasileiras são poucas e de qualidade inferior e, “devido a essas características, deveríamos questionar a queima de carvão metalúrgico para gerar energia. Temos reservas estratégicas para o caso de um conflito mundial? Acho que devemos continuar ativos e produzindo com moderação, inclusive com um plano B de aumento de produção em épocas de secas prolongadas”.

Questionada se, do ponto de vista energético, o carvão é uma boa alternativa, Claudia Ravazzoli esclarece: “É uma questão difícil de responder. Pessoalmente, preferiria outras opções, mas acho importante ressaltar que a exploração das minas é uma atividade legal, regulamentada, e que a vida da maneira como a levamos não existiria sem o carvão”.

Heidrich é mais incisivo, embora considere a questão controvertida: “Não vejo com bons olhos o caminho do mais barato e eficiente, sem considerar o que seja essa eficiência, quais os benefícios dela. É uma fonte barata, sim, eficiente, sim, e por consequência traz benefícios para nosso bolso, nossa barriga, nosso conforto, nosso desenvolvimento material etc. E para nossa casa Terra? Emissão de dióxido de carbono na atmosfera, águas ácidas na região de lavra, paisagens lunares e também um grande et cetera.”

O carvão mineral representa 1,6% da geração de eletricidade no Brasil, segundo o “Sumário Mineral” de 2009. Há necessidade de ampliar a produção de energia para atender a demanda, como os inúmeros apagões vêm demonstrando nos últimos anos. Na região carbonífera de Santa Catarina, o consumo de eletricidade tem picos elevados que são supridos com a ativação máxima das termelétricas do Complexo Jorge Lacerda, cuja capacidade instalada é de 857 MW. Essa maleabilidade na produção não existe nas hidrelétricas. De modo simplório, pode-se dizer que dar a partida numa termelétrica é bem mais fácil que numa hidrelétrica.

No entanto, essa facilidade não diminui o impacto da mineração sobre o meio ambiente. Por essa razão, medidas como a ação impetrada pelo Ministério Público Federal em 1993 contra as empresas mineradoras, a União e o órgão de controle ambiental de Santa Catarina, a Fundação do Meio Ambiente (Fatma), são necessárias e bem-vindas. Graças a elas é que surgem análises, estudos e propostas.

Atuação conjunta

O Ministério Público venceu a ação no ano 2000. A sentença determina que a União e as empresas se responsabilizem pela recuperação de 6 mil hectares de áreas degradadas (1.219 hectares a cargo da União). Mas, afinal, de que degradação se está falando?

As áreas de minas são tão áridas que se assemelham a paisagens lunares. A escavação, a retirada, a lavagem, o uso, a transformação e o transporte do carvão, além do descarte precário de rejeitos, geram inúmeros problemas dentro e fora das minas. Os métodos de lavra exigem ordenação e eficiência para que as explosões e a fixação de pinos de sustentação das minas não causem nenhum mal à saúde do mineiro e não tragam perigo à sua segurança. Houve uma evolução nas regras de exploração, muitas delas aplicáveis graças às novas tecnologias, mas ainda estamos bastante longe do ideal.

“As condições de trabalho dos mineiros são de risco máximo, com classificação 4 nas minas de subsolo”, informa o mineiro (atualmente licenciado) Genoir José dos Santos, presidente da Federação Interestadual dos Trabalhadores na Indústria da Extração do Carvão dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ele conta que os sindicatos têm atuado em conjunto com a federação com o objetivo de manter a unidade nas reivindicações sobre saúde e segurança na mineração, e que promovem junto com a Comissão Regional do Setor Mineral seminários anuais de 20 horas. “As ações do Ministério Público do Trabalho [MPT] têm nos ajudado a exigir mais segurança nas minas, e os sindicatos e a federação dos mineiros têm um relacionamento muito bom com o MPT, inclusive participando de alguns TACs [termos de ajustamento de conduta] com as empresas mineradoras”, avalia.

Lesões pulmonares

Existem hoje aproximadamente 4 mil mineiros em atividade na área carbonífera de Santa Catarina. Atraídos pela oferta de aposentadoria após 15 anos de trabalho, muitos deles ignoram que talvez não venham a gozá-la por sofrer de uma doença chamada pneumoconiose. O mal é causado pela inalação de poeira tóxica e, se não tratado a tempo, leva à morte. “No processo de trabalho nas minas, sobretudo na lavra de sistema mecanizado, os trabalhadores respiram ar poluído de pó fino do carvão, liberado principalmente pela perfuração do teto e das frentes e na coleta e transporte do carvão bruto extraído nas galerias. As partículas mais grossas o organismo filtra e rejeita. As finas são aspiradas e se acumulam no interior dos pulmões. Na tentativa de expeli-las, formam-se lesões nos alvéolos pulmonares, limitando a capacidade respiratória. Se o indivíduo continuar exposto à poeira, a doença se torna progressiva e irreversível, levando o paciente à morte”, informa matéria publicada na “Revista Discente Expressões Geográficas” de junho de 2006.

Não bastando isso, os mineiros suportam temperaturas de até 30 graus sob a terra, num ambiente cuja umidade relativa pode chegar a 85%. Expõem-se durante sete horas e doze minutos, de segunda-feira a sexta, às surpresas reservadas nas galerias, que podem ser cavadas a uma ou duas centenas de metros de profundidade. “Nós temos ciência de que trabalhamos em uma atividade de risco máximo, mas acreditamos que é possível preservar a saúde e a segurança dos trabalhadores, o meio ambiente e a extração de carvão mineral”, pondera Santos.

A afirmação serve para lembrar que há o livre-arbítrio. Ainda que premido por necessidades de sobrevivência, o mineiro pode optar entre continuar em sua atividade ou buscar outra. Mas e a natureza? Que escolha há para animais e plantas da região?

Os rios próximos às áreas de exploração estão contaminados, comprometendo vários ecossistemas. A sentença que determinou a responsabilização da União e das empresas levou em conta o alto índice de acidez das águas (PH entre 2,5 e 3) e exige sua recuperação. O problema vem de longa data, de um período anterior às exigências atualmente adotadas. Durante anos, as empresas mineradoras permitiram que a pirita (um dos rejeitos do carvão) entrasse em contato com o oxigênio e com as águas dos rios, desencadeando uma reação química que produz ácido sulfúrico, o que torna os rios ácidos e lhes dá cor avermelhada. “Uma das exigências passou a ser então evitar esse contato”, diz Claudia. Atualmente isso tem sido feito com uma espécie de isolamento de argila no subsolo. “Eles envelopam o rejeito. Depois vem a etapa de reflorestamento, mas a vegetação não pode ter raízes profundas, pois isso colocaria em risco a barreira de argila”, explica. A partir daí, com o reequilíbrio do PH das águas, os ecossistemas afetados poderão se formar novamente.

Há, porém, outros problemas envolvidos na recuperação das áreas, como bocas de minas (aberturas utilizadas para pesquisa exploratória, acesso, ventilação e drenagem) que foram abandonadas e podem apresentar riscos à segurança, saúde e meio ambiente.

As áreas de preservação permanente recebem atenção especial, pois algumas das medidas adotadas em outros lugares não são adequadas nesse caso. É o que ocorre, por exemplo, com o uso da técnica de envelopamento dos rejeitos do carvão. “Os rejeitos inertes ou estéreis com sulfetos (principalmente a pirita) deverão ser removidos por completo, com reposição de material inerte não contaminante. A manutenção desses rejeitos no local, ainda que selados do ponto de vista hídrico, não pode ser permitida devido à sua função ambiental e à restrição legal”, informa o documento que estipula os critérios de recuperação e reabilitação das áreas degradadas.

Rachaduras

O acompanhamento das condições do subsolo das minas está sob a responsabilidade do DNPM. O monitoramento hídrico também é feito pelo órgão, mas a principal responsável por ele é a Fatma. Graças a esse trabalho é possível saber se há risco de rebaixamento ou fraturas nos leitos dos rios e do lençol freático. Embora não seja o principal problema da região, as minas mais antigas (muitas delas sem mapeamento) e as novas (mapeadas) causam muitas vezes rachaduras nos imóveis, colocando em risco a vida de moradores. Vários deles descobrem somente nessa ocasião que vivem sobre galerias de minas de carvão desativadas. Quando o problema é gerado por alguma mina em atividade, o morador informa a carbonífera e um acordo é feito diretamente entre eles. Em geral, as empresas atendem aos requerimentos encaminhados pelos moradores e resolvem o problema.

As prefeituras, por sua vez, exigem, a partir do ano 2000, que conste no registro de imóveis se a área é carbonífera. Desde essa data, todo morador que compre um imóvel na região sabe se ele foi construído sobre uma mina. Em caso afirmativo, cuidados devem ser tomados, como não perfurar poços nem fazer uso de águas subterrâneas.

Contudo, apesar de perigosas, as minas de carvão continuam a ser exploradas. E o maior rigor na emissão de licenças e nas exigências relativas à preservação não diminuiu o interesse das empresas por esse filão. De acordo com Santos, há na região carbonífera 13 minas de subsolo. Doze estão em operação, com atividade de lavra. “A mina 101, da Indústria Carbonífera Rio Deserto, localizada no município de Içara, está em fase de desenvolvimento, portanto não extrai carvão”, afirma.

Segundo notícia publicada no site da Feira Sul Metal e Mineração em junho do ano passado, as dez carboníferas associadas ao Sindicato da Indústria de Extração de Carvão do Estado de Santa Catarina (Siecesc) destinam, em média, 3% de seu faturamento a ações de preservação e recuperação ambiental. Todas implementaram o Sistema de Gestão Ambiental (SGA) e as carboníferas Catarinense, Criciúma e Rio Deserto estão certificadas pela Norma ISO 14.000. Algumas dessas empresas já foram multadas, o que não deixa de sinalizar que a fiscalização tem de fato acontecido.

O faturamento das empresas associadas, em 2006, superou os R$ 3 milhões. Foram gerados 3.940 empregos diretos. O principal comprador do carvão mineral catarinense é a empresa Tractebel Energia, que consome 90% da produção na geração térmica do Complexo Jorge Lacerda, localizado em Capivari de Baixo.

Aos governos municipais, estaduais e federal cabem porcentagens desse faturamento, cobradas através de compensação financeira pela exploração de recursos minerais (CFEM). A CFEM é calculada sobre o valor do faturamento líquido, obtido por ocasião da venda do produto mineral. Cabem à União 12%, aos estados, 23%, e os municípios produtores ficam com 65%. No ano passado, a União arrecadou com a CFEM das empresas catarinenses cerca de R$ 4,7 milhões.

Lucrativa para as empresas, a exploração de carvão mineral é, como se vê, uma faca de dois gumes. Por um lado, traz prejuízos ao homem e ao meio ambiente, apesar das medidas colocadas em prática nos últimos anos. Por outro, gera empregos, traz o progresso e alimenta com energia milhares de casas e indústrias. Além disso, é apontada como fonte alternativa de energia para um país cuja demanda não para de crescer. “Nós dependemos demasiadamente da geração hídrica de eletricidade, algo em torno de 80%. Como ficamos em épocas de estiagem? Enfim, é uma sinuca de bico. Tem coisa com melhor custo-benefício que o carvão mineral no presente? Acho que não”, reflete Heidrich.

Temos livre-arbítrio para concordar ou discordar. Ao meio ambiente cabe, mais uma vez, o ônus de nossa decisão.
Revista Problemas Brasileiros

sábado, 30 de julho de 2011

Brasil ~ Os limites do nosso território

Reprodução - Fonte: Agência Nacional de Transportes Terrestres - ANTT
Ronaldo Decicino*

O Brasil é o maior país da América do Sul, com um território que se estende por cerca de 47% da porção centro-oriental do continente sul-americano. Banhado a leste pelo oceano Atlântico, o Brasil possui 23.102 km de fronteiras, sendo 15.735 km terrestres e 7.367 km marítimas.

Com uma área superior a 8.500.000 quilômetros quadrados, antes mesmo de ser uma nação soberana, nosso território começou a ser delimitado pelos tratados de Madri (1750) e Santo Ildefonso (1777), que estabeleciam a separação das terras espanholas e portuguesas na América.

A formação do atual território do Brasil, contudo, remonta ao século 14, início da chamada Era dos Descobrimentos, quando as monarquias ibéricas mostravam-se pioneiras nas grandes navegações.

Nossas fronteiras foram definidas com base nas características naturais da paisagem, como rios e lagos, ou em acidentes topográficos, como montanhas, serras e picos elevados. Somente nos lugares em que não havia possibilidade de se aplicar esse recurso demarcatório é que foram utilizadas as linhas geodésicas, que correspondem às linhas traçadas no terreno tendo como referências as coordenadas geográficas: paralelos e meridianos.

A determinação dos nossos limites territoriais - tanto os que separam internamente os estados, quanto os que marcam a separação do Brasil de seus vizinhos - é definida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 1944. A partir de 1991, com a modernização da tecnologia, os limites passaram a ser determinados por satélites de posicionamento, com a criação do Sistema de Posicionamento Global (GPS).

Os definidores das fronteiras brasileiras são: rios = 50%; serras = 25%; lagos = 5%; linhas geodésicas = 20%.

Fronteira terrestre

A fronteira terrestre representa cerca de 68% de toda a extensão dos limites territoriais brasileiros, colocando o Brasil em contato com dez outras nações sul-americanas. Com exceção do Chile e do Equador, todos os países da América do Sul fazem fronteira com o Brasil:

Ao norte: Suriname, Guiana, Venezuela e um território pertencente à França, a Guiana Francesa.

A noroeste: Colômbia.

A oeste: Peru e Bolívia.

A sudoeste: Paraguai e Argentina.

Ao sul: Uruguai.

Os mais de 15.000 km de fronteiras continentais abrangem terras de três grandes regiões brasileiras, sendo a maior delas a Região Norte, que corresponde a cerca de dois terços de toda essa extensão. Os estados que mais se destacam são o Amazonas e o Acre.

A segunda região em destaque é a Região Sul, com uma extensão fronteiriça de quase 2.500 km no continente, tendo como estado que mais se destaca o Rio Grande do Sul. A terceira é a Região Centro-Oeste, sendo o estado de maior extensão fronteiriça o Mato Grosso do Sul.

Fronteira marítima
A fronteira marítima estende-se da foz do rio Oiapoque, no cabo Orange, na divisa do Amapá com a Guiana Francesa, ao norte, até o arroio Chuí, na divisa do Rio Grande do Sul com o Uruguai, ao sul.

A linha costeira do Brasil tem uma extensão de 7.367 km, constituída principalmente de praias de mar aberto, e corresponde a 32% de toda a extensão fronteiriça nacional, o que representa um fator propício ao desenvolvimento econômico, pois a grande diversidade de paisagens litorâneas favorece a instalação de portos, o desenvolvimento da pesca e a exploração de recursos energéticos encontrados nas profundezas marinhas, como petróleo e gás natural.

Com exceção da Região Centro-Oeste, todas as outras regiões têm fronteiras no Atlântico; sendo a Região Nordeste a que tem maior extensão litorânea. O estado brasileiro com o litoral mais extenso é a Bahia, e o que possui menor extensão litorânea é o Piauí. A segunda região de maior extensão litorânea é a Região Sudeste.

Para tratar dos assuntos de limites internacionais, o Ministério das Relações Exteriores mantém na Secretaria de Estado (em Brasília) a Divisão de Fronteiras (DF), que coordena as atividades de duas Comissões Técnicas:

- a Primeira Comissão Brasileira Demarcadora de Limites (PCDL), sediada em Belém (Pará), encarregada das atividades nas fronteiras do Brasil com Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa; e

- a Segunda Comissão Brasileira Demarcadora de Limites (SCDL), sediada no Rio de Janeiro, encarregada das atividades nas fronteiras do Brasil com o Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia.
*Ronaldo Decicino é professor de geografia do ensino fundamental e médio da rede privada.

Brasil ~ Extensão das fronteiras (km) - 2007

Guiana 1.731
Venezuela 2.078
Suriname 438
Guiana Francesa 664
Uruguai 1.044
Argentina 1.244
Paraguai 1.311
Bolívia 3.338
Peru 2.241
Colômbia 1.532
Oceano Atlântico 10.959

IBGE

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Falésia

Formação Barreiras - Canoa Quebrada - Ceará

As famosas falésias da praia da Guarita em Torres/RS

Falésia em Fernando de Noronha.

Miradouro da Fajã de Fernando Afonso no Parque Florestal das Sete Fontes, Costa Norte da ilha de São Jorge, Açores, Portugal.

Falésia é uma forma geográfica litoral, caracterizada por um abrupto encontro da terra com o mar. Formam-se escarpas na vertical que terminam ao nível do mar e encontram-se permanentemente sob a ação erosiva do mar. Ondas desgastam constantemente a costa, o que por vezes pode provocar desmoronamentos ou instabilidade da parede rochosa.
Com as mudanças climáticas, o nível do mar pode descer, deixando entre a falésia e o mar um espaço plano. Passa-se a chamar, então, uma arriba fóssil.
Segundo o dicionário geológico as falésias são geralmente constituídas de camadas sedimentares ou vulcano-sedimentares, acompanhando a linha costeira. No Nordeste brasileiro são conhecidas como formações do grupo Barreira. Aparecem no litoral meridional do Brasil: no Rio de Janeiro e no litoral do Rio Grande do Sul, como por exemplo na Praia de Torres (proximidade da Serra do Mar com o litoral), há também as famosas Falésias do Rio Grande do Norte, localizadas na Praia de Pipa.
Um litoral de falésias é indicativo de movimentos positivos do relevo, seja por eustasia seja por epirogênese.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sudão do Sul redesenha o mapa da África

Mariana Timóteo da Costa (mariana.timoteo@oglobo.com.br)

Mbikoyesu Moses Poulnino lembra com alegria da infância em Yambio, no Sul do Sudão. Nascido em 1986, primeiro de outros sete irmãos, os pais eram camponeses, "pobres, claro, mas a gente vivia brincando". A segunda guerra civil no país africano já havia começado, mas a violência entre os islâmicos do Norte e os rebeldes do Sul - tribais e cristãos em sua maioria - só eclodiu em Yambio no início dos anos 90, conta Mbikoyesu, por telefone. A família de católicos fugiu em 1993. Primeiro para a República Democrática do Congo, depois para Uganda. Foi em campos de refugiados das Nações Unidas que Mbikoyesu tomou apreço pelos estudos. Em 2005, o Norte e o Sul do Sudão assinam um acordo de paz; três anos depois, Mbikoyesu volta sozinho a Juba, a capital do Sul sudanês. E hoje, 9 de julho de 2011, cursando o primeiro ano de Engenharia na única universidade pública local, Mbikoyesu comemora o nascimento de um novo país, o Sudão do Sul.

- Vou cantar, dançar e pular. Estamos animados com a possibilidade de sermos livres. Temos consciência dos problemas pela frente, mas meu sonho é trabalhar na construção de meu país e ter condições de trazer meus pais e irmãos de volta para cá - conta o estudante.
Dois mil mortos e 270 mil refugiados na fronteira

Salva Kiir - ex-líder do movimento rebelde SPLA (Exército Popular de Libertação do Sudão) - toma posse hoje como presidente do Sudão do Sul, após a separação com o Norte ter sido aprovada num referendo, em janeiro último, por 99,8% da população (a convocação da votação fez parte do acordo de 2005). Kirr e seu Gabinete enfrentam uma série de desafios, como conta, também de Juba, Zechariah Manyok Biar, secretário-executivo do Ministério do Interior de Kiir.

- A principal dificuldade é a relação com Omar al-Bashir - confessa Biar. - Ele vem fazendo muita coisa para impedir o nascimento de nosso país. Os motivos são vários: dinheiro do petróleo, concentração do poder. O ditador não quer ter como vizinho um país democrático como será o nosso - diz o integrante do novo governo, lembrando que Kiir prometeu convocar eleições até 2015.

Bashir é o ditador do Sudão, único líder em exercício no mundo, ao lado do líbio Muamar Kadafi, a ter ordem de prisão decretada pelo Tribunal Penal Internacional, em Haia, por crimes de guerra em Darfur, no oeste do país. Desde a aprovação da independência do Sul, o governo de Cartum sob seu comando é acusado pelos sul-sudaneses de perseguir líderes tribais e a população civil na fronteira. A região é volátil - há vários conflitos étnicos e separatistas. Nos anos de guerra civil, os habitantes da região foram vítimas de violência tanto por parte das tropas do Norte quanto do SPLA.

A nova onda de violência, segundo a ONU, já provocou mais de 2 mil mortes e 270 mil deslocados de janeiro para cá. Ontem, o Conselho de Segurança aprovou o envio de sete mil soldados e 900 policiais para "ajudar a manter a paz e a segurança" no Sudão do Sul. Outros 4,2 mil soldados etíopes estão em Abyei - a região considerada a mais problemática de todas, rica em petróleo e "palco de uma grave crise humanitária", segundo Raphael Gorgeu, chefe de missão de Médico Sem Fronteiras. O status de Abyei ainda não foi definido, e MSF alerta que a população carece de comida, medicamentos.

- Tem gente dormindo embaixo de árvores porque sua casa foi invadida e eles ficam com medo de retornar. A maioria dos fugitivos ruma ao Sul - relata.
Pelo acordo de 2005, os habitantes de Abyei deveriam votar se pertenceriam ao Norte ou ao Sul. A violência impediu a realização de um referendo e eles estão numa espécie de limbo. Além disso, há outros conflitos em regiões como Kordofan do Sul e Nuba, que pertencem ao Norte mas querem conseguir alguma autonomia.
- O Bashir teme, com a independência do Sul, a eclosão de outros movimentos separatistas e tenta manter sua influência. A violência é preocupante, e a comunidade internacional tenta evitar uma nova Darfur - explica Phillip Clark, da School of Oriental and African Studies (Soas), de Londres.


Outro temor de Bashir é a economia. Produtor de 500 mil barris de petróleo por dia, o Sudão perde a partir de hoje 75% de sua produção para o Sul, já que a maioria dos poços fica ali. Pelo acordo de paz, os dois dividiriam os lucros da exploração, já que o Norte é o detentor de tecnologia e o Sul, de recursos. O maior cliente é a China. Integrantes do Sul já prometeram rever acordos, inclusive com empresas estrangeiras.

- Não descartamos, se Bashir não se portar bem, pedir ajuda à China. Ou construir oleodutos passando por outros países. Bashir precisa ter a consciência de que precisa mais da gente do que nós dele - opina Zechariah Biar que, assim como o novo presidente Salva Kiir, é cristão e ex-soldado do SPLA.

Tendai Marima, colunista da al-Jazeera e autora de um artigo sobre o assunto que vem circulando com força na internet, acha que outro grande desafio será o novo governo do Sudão do Sul se comportar como força política, e não como um grupo rebelde, afinal, o SPLA esteve, nos últimos anos, "envolvidíssimo com movimentos separatistas e usando violência contra civis também". O consenso da comunidade internacional é que os dois lados precisam se entender. Em jogo, a estabilidade do Norte e Leste da África.
- Outro consenso é que esses conflitos separatistas precisam ser abafados, porque a criação de um terceiro ou um quarto país é completamente inviável - salienta Clark.

Delegações internacionais e ditador comparecem à festa
O estudante Mbikoyesu hoje vai dançar nas ruas de Juba. Kiir estará lá, assim como delegações internacionais e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Bashir também prometeu participar da festa pela criação do mais novo país do mundo. O blogueiro sul-sudanês John Akec acha que os dois lados, por enquanto, optam pelo pragmatismo, já que uma nova guerra não faria bem a ninguém. Mas espera que o Sul consiga ser livre e que "o vírus da liberdade se espalhe para o Norte e Bashir caia". Compara a independência de seu país a um casamento.
- Só que geralmente você se casa e aproveita um pouco a vida a dois antes de ter um filho. No nosso caso, o filho nasceu logo depois do casamento. E está dando um trabalho danado.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/07/08/sudao-do-sul-redesenha-mapa-da-africa-924870615.asp#ixzz1RsuuKw9g

Qual será a população mundial em 2100?


Por José Eustáquio Diniz Alves(*)

No século XX, a população mundial passou de 1,56 bilhão, em 1900, para 6,1 bilhões de habitantes, em 2000. Um crescimento de quatro vezes. Este alto crescimento ocorreu em decorrência da transição demográfica, que possibilitou uma grande queda das taxas de mortalidade e uma queda posterior e mais lenta das taxas de fecundidade.

A esperança de vida ao nascer da população mundial estava em torno de 30 anos de idade em 1900 e chegou a cerca de 65 anos no ano 2000. Ou seja, de forma inédita na história da humanidade, a esperança de vida da população mundial mais que dobrou em 100 anos. Este grande salto nunca tinha acontecido antes e provavelmente nunca irá acontecer no futuro, pois a grande conquista foi reduzir significativamente as taxas de mortalidade infantil e, depois de um certo ponto, a longevidade tem limites biológicos.

Como será a dinâmica demográfica no século XXI?

Em maio de 2011, a divisão de população da ONU atualizou os três cenários de projeção para a população mundial no século XXI. Pelo lado da mortalidade, as conquistas vão continuar, mesmo que em ritmo menor, pois a esperança de vida ao nascer, que na média da população mundial, era de 65 anos em 2000, já chegou a 68 anos em 2010 e deve atingir 80 anos em 2100.

A população mundial que vai chegar a 7 bilhões no final de 2011 pode atingir 10,1 bilhões de habitantes ou mesmo 15,8 bilhões em 2100. Ou até mesmo pode cair para 6,2 bilhões de habitantes, em conformidade com os diferentes cenários das taxas de fecundidade. Portanto, a população mundial pode variar de 6,2 bilhões a 15,8 bilhões dependendo do número médio de filhos por mulher e da sua evolução nas próximas décadas.

Pode parecer que esta grande diferença de 6,2 a 15,8 bilhões de habitantes ocorra devido a grandes diferenças nas taxa de fecundidade. Mas, ao contrário, isto é provocado por uma diferença na taxa de fecundidade média de apenas 0,5 (meio filho) por mulher.

No quinquênio 2005-10 a taxa de fecundidade total, na média mundial, estava em 2,52 filhos por mulher. Se esta taxa continuar neste nível a população mundial chegaria a 15,8 bilhões de habitantes em 2100. Se a TFT cair gradualmente em apenas meio filho por mulher (para uma TFT de 2 filhos em 2100) então a população seria 5,7 bilhões a menos, ou seja, de 10,1 bilhões de habitantes em 2100. Se a fecundidade cair mais meio filho abaixo da projeção média (para 1,55 filhos por mulher) então a população mundial ficaria em 6,2 bilhões de habitantes, aproximadamente a mesma população do ano 2000. Nesta hipótese de fecundidade mais baixa, o crescimento demográfico seria zero no século XXI.

Estes três cenários mostram que o tamanho da população mundial em 2100 pode ficar em um leque que varia de 6,2 bilhões a 15,8 bilhões de habitantes. Uma pequena variação média de meio filho por mulher pode fazer a quantidade da população ficar bem acima dos 10,1 bilhões da projeção média ou bem abaixo deste número. Tudo vai depender do comportamento reprodutivo das famílias.

Como é sabido, as taxas de fecundidade estão caindo em quase todo o mundo. O número médio de filhos por mulher cai, em primeiro lugar, porque cai a mortalidade infantil provocando o aumento da sobrevivência do número de filhos em cada família. Assim, com mais filhos vencendo mortalidade infantil, o número ideal de crianças é atingido mais rapidamente e as mulheres e os casais passam a limitar a possibilidade de uma nova gravidez. Além disto, o demanda por filhos se reduz na medida em que o custo das crianças aumenta e os seus benefícios diminuem. Isto acontece devido ao processo de urbanização, do aumento dos níveis de renda e educação, da entrada da mulher no mercado de trabalho, do crescimento dos sistemas de proteção social, etc.

Todos os países do mundo que atualmente possuem alto nível de educação ou alto nível de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) possuem fecundidade abaixo de 2,2 filhos por mulher. Contudo, existem uma certa quantidade de países (especialmente na África Sub-sahariana) que possuem fecundidade acima de 4 fillhos por mulher. Os estudos mostram que a alta fecundidade acontece devido à falta de acesso aos direitos básicos de cidadania (educação, habitação, saúde, liberdades políticas, etc.) e especialmente devido à falta de acesso aos direitos sexuais e reprodutivos. Em geral, a fecundidade é alta onde existe alta percentagem de pessoas pobres e há altas necessidades não-satisfeitas de contracepção.

Os estudos mostram que existe uma relação inversa entre IDH e fecundidade. Quando um sobe a outro cai. Assim, para garantir a continuidade da redução da pobreza e das taxas de mortalidade, a ONU aprovou, no ano 2000, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. As 8 metas dos ODMs são:

# 1. Erradicar a extrema pobreza e a fome
# 2. Atingir o ensino básico universal
# 3. Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres
# 4. Reduzir a mortalidade na infância
# 5. Melhorar a saúde materna
# 6. Combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças
# 7. Garantir a sustentabilidade ambiental
# 8. Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento

No ano de 2005, a ONU realizou a Cúpula do Milênio + 5 para avaliar o andamento das iniciativas e corrigir eventuais lacunas existentes. Após diversos estudos e avaliações sobre as principais fraquezadas dos ODMs, foi feito um acréscimo fundamental para melhorar a qualidade de vida da população, que é a meta # 5B: “Alcançar, até 2015, o acesso universal à saúde reprodutiva”.

Acesso à saúde reprodutiva integral é fundamental para se garantir os direitos sexuais e reprodutivos, conforme aprovado na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada na cidade do Cairo, em 1994. Também é fundamental para a redução da gravidez indesejada.

Infelizmente, a maior parte da população pobre do mundo não tem acesso integral aos serviços de saúde reprodutiva. Os ricos possuem acesso à saúde reprodutiva, pois podem pagar via mercado privado. Mas a população de baixa renda precisa contar com o apoio do Estado, que por seu lado, precisa garantir os direitos de cidadania.

Se os 8 ODMs forem efetivados em todos os países do mundo é de se esperar que as taxas de fecundidade continuem a cair, especialmente naqueles países com menor grau de inclusão social. Quanto mais rápido os países avançarem na qualidade de vida dos seus cidadãos e cidadãs mais rápido as taxas de fecundidade vão ficar próximas de dois filhos por mulher (que é o número mais citado quando se pergunta o número ideal de filhos que as pessoas querem ter).

Desta forma, o avanço da qualidade de vida das pessoas e dos direitos reprodutivos de mulheres e homens, caso se efetive, deve possibilitar a continuidade da queda das taxas de fecundidade e, em consequência, a população mundial, no final do século XXI, pode ficar abaixo de 10 bilhões de habitantes. (Fonte/ Site EcoDebate).

(*) José Eustáquio Diniz Alves é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE.

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos