domingo, 9 de janeiro de 2011

Uma ameaça que ninguém vê

A alta tecnologia encheu o mundo de máquinas e aparelhos movidos a eletricidade. Eles melhoram a qualidade de vida. Mas os campos eletromagnéticos que produzem podem causar depressão, câncer e abortos espontâneos.


Poluição eletrônica ou invisible smog (fumaça invisível). Cientistas batizaram assim os campos de energia produzidos pela moderna tecnologia. Atualmente, vivemos em um meio ambiente literalmente tomado por ondas e radiações dos mais variados tipos. Elas estão em toda parte, correm para todos os lados, e praticamente não há mais um único lugar sobre a superfície do planeta não atingido por freqüências eletrônicas.

São ondas de rádio e de televisão, de celulares e de comunicação via satélite, radiações eletromagnéticas produzidas pela passagem da eletricidade através de uma rede mundial de incontáveis cabos e fios. A nossa é uma civilização movida à base de energia. Mas todas as benesses que a utilização em larga escala da energia possibilita têm um preço alto – e não apenas aquele que pagamos nas contas mensais de luz e telefone.

As evidências – hoje levadas muito a sério por pesquisadores e pelos responsáveis da saúde pública, sobretudo nos países desenvolvidos – sugerem que essa fumaça invisível está causando câncer em crianças e provocando suicídios e depressões, além de síndromes de alergia e várias outras moléstias físicas e psicológicas.

Em recente relatório, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma: “A poluição eletrônica é hoje uma das influências ambientais mais comuns e de mais rápido crescimento”, manifestando séria preocupação quanto aos seus efeitos sobre a saúde. O relatório acrescenta: “Todos, ao redor do mundo, estamos expostos a ela, e seus níveis continuam a subir à medida em que a tecnologia avança.”

Fios elétricos criam campos eletromagnéticos – um dos componentes da poluição eletrônica –, até mesmo quando nenhum aparelho está ligado. Todos os equipamentos elétricos – das televisões às torradeiras – criam esses campos de energia. Eles diminuem rapidamente de intensidade com a distância, porém aparelhos como secadores de cabelos e barbeadores elétricos, usados próximos à cabeça, podem representar perigo.

Cobertores elétricos e rádios-relógio próximos à cama produzem teores ainda mais altos de radiação eletromagnética, já que as pessoas ficam expostas a ela por muito mais tempo. Campos de rádio-freqüências – um outro componente da poluição eletrônica – são emitidos por fornos de microondas, aparelhos de rádio e televisão, torres e antenas de celulares, além dos próprios aparelhos. Todos eles usados nas proximidades da cabeça e do corpo.

COMO OS CAMPOS eletromagnéticos e eletrônicos nos influenciam? Por meio de um fenômeno bem conhecido pela física: a interação de campos de energia. Tudo no organismo humano e de todos os seres vivos funciona na base de correntes elétricas. O cérebro comanda o funcionamento dos órgãos e dos movimentos corporais através de impulsos elétricos que percorrem os nervos.

Os nervos funcionam exatamente como fios e cabos elétricos. E, a exemplo dos cabos e fios, a passagem de uma corrente elétrica cria ao redor um campo eletromagnético. O eletrocardiograma ilustra bem a atividade elétrica do coração. O mesmo faz o eletroencefalograma em relação ao cérebro.

Assim, pela interação de campos, a poluição eletromagnética interfere e altera os nossos campos biológicos. Estes, perturbados, agem sobre o organismo e a psique gerando desequilíbrios e doenças. É o que se chama uma reação em cadeia.

Tudo isso não é mais simples conjectura. Nas últimas décadas, alguns cientistas alertaram sobre os efeitos da exposição das pessoas aos campos gerados pelos cabos de alta tensão. Mas as suas preocupações foram desmentidas e até ridicularizadas pelas autoridades.

No ano passado, no entanto, um estudo estatístico feito pelo Comitê Nacional de Proteção Radiológica, da Inglaterra, concluiu que crianças que vivem nas imediações de cabos de alta tensão são mais propensas a contrair leucemia. A descoberta está provocando uma reavaliação dos efeitos da poluição eletrônica em todo o mundo. Primeira providência: as autoridades britânicas querem impedir a construção de novas casas e edifícios nas proximidades dessas linhas de alta tensão.

De seu lado, a Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer – braço da Organização Mundial de Saúde e primeira instituição mundial na área da doença – já classifica a poluição eletrônica como “possível agente carcinógeno no ser humano”. Alguns cientistas vão mais além. David Carpenter, reitor da Escola de Saúde Pública, da State University, de Nova York (EUA), afirma que cerca de 30% de todos os cânceres em crianças são causados por essa poluição.

OUTRO RELATÓRIO DO Departamento de Saúde da Califórnia (EUA) também conclui que a poluição eletrônica pode ser ainda causa de leucemia em adultos, de câncer no cérebro e nas mamas, além de ser responsável por cerca de 10% dos abortos espontâneos. Dessa extensa lista de moléstias também faz parte, com muita probabilidade, uma doença outrora bem rara: a alergia à eletricidade. Ela provoca náuseas, dores generalizadas, confusão mental, depressão e dificuldades do sono e da concentração toda vez que a pessoa se aproxima de aparelhos elétricos ligados ou de antenas de telefonia celular. Algumas pessoas são tão afetadas a ponto de serem obrigadas a mudar por completo seu estilo de vida.

REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 420

Lixão eletrônico

Descartados em países desenvolvidos, aparelhos eletrônicos como televisores e computadores geralmente vão parar em nações em desenvolvimento, como Gana - e lá se tornam um grande problema para a saúde e o meio ambiente


Fotos de Kate Davison/Eyevine/Zuma Press

Os equipamentos eletrônicos são uma das mais conhecidas fontes de metais pesados, materiais tóxicos e poluentes orgânicos no lixo urbano. Devido à velocidade com que a tecnologia está mudando, as pessoas trocam seus aparelhos a intervalos cada vez mais curtos; só nos Estados Unidos, estima-se que cerca de 30 milhões de computadores sejam jogados fora anualmente. Todos os grandes personagens dessa indústria também são encontrados nesses restos: Apple, Epson, IBM, Dell.

Crianças de Gana, na África Ocidental, podem conseguir muito dinheiro desses refugos extraindo, com a ajuda do fogo, o cobre contido em computadores, televisores, rádios, câmeras e baterias de celulares, já que muitos ganeses sobrevivem com apenas dois dólares por dia. Mas os perigos que o lixo eletrônico representa para o meio ambiente e a saúde humana do país são reais.

AS PREOCUPAÇÕES com o lixo eletrônico (e-waste, em inglês) estão crescendo ao redor do mundo, em especial nos países desenvolvidos. Mas em muitas nações em desenvolvimento, como Gana, a necessidade de examinar com muita atenção esse assunto ainda não foi devidamente assimilada.

Aparelhos eletrônicos são uma das mais conhecidas fontes de metais pesados

E-waste é o nome genérico atribuído aos aparelhos eletrônicos ou computadores descartados. Esses itens possuem diferentes origens e abrangem televisores, computadores pessoais (PCs), telefones, aparelhos de ar condicionado, celulares e brinquedos eletrônicos, além de elevadores, geladeiras, lava-louças, secadoras, equipamentos para cozinha e até aviões.

O aumento na quantidade de peças descartadas no sistema está muito relacionado à velocidade do avanço tecnológico e da inovação, associada a um alto índice de obsolescência. Como o papel representado pela tecnologia no desenvolvimento socioeconômico é bastante crítico, o tema do lixo eletrônico se tornou complexo.

É claro que nenhuma nação pode se desenvolver sem know-how e expertise tecnológica. Mas a tecnologia deixa em seu rastro alguns custos, incluindo o lixo eletrônico e as conseqüências associadas a ele. Elas reverberam em perigos potenciais para a saúde e o meio ambiente.

À esquerda, computadores descartados nos arredores de Acra, a capital ganesa. Acima, menino leva fios de cobre extraídos de aparelhos cujas partes de plástico foram derretidas pelo fogo.

DE ACORDO COM A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, dos cerca de 30 milhões de computadores jogados fora anualmente no país, apenas 14% são reciclados. Os dados disponíveis mostram ainda que, por volta do fim de 2004, mais de 314 milhões de computadores estavam obsoletos e, no final de 2007, os aparelhos ultrapassados já somavam 500 milhões. Com isso, o tempo de vida médio dos computadores norte-americanos reduziu-se a menos de dois anos. Para a maioria das pessoas, o encanto da nova tecnologia é tão forte que os usuários preferem comprar um novo computador a reformar um velho, e os PCs que não podem ser reformados vão se juntar à pilha de aparelhos descartados. Outra estimativa indica que, em 2010, 100 milhões de celulares e 300 milhões de PCs serão despejados em algum lixão.

Como é difícil obter estatísticas acuradas em Gana, as estimativas do número de PCs no país não são prontamente disponíveis. Além disso, o índice de obsolescência dos aparelhos eletrônicos usados pelos ganeses não é conhecido, pois deve-se considerar o fato de que boa parte deles já é velha.






O e-waste é conhecido por conter poluentes químicos perigosos lançados na atmosfera e nas águas subterrâneas. As formas de descarte, que incluem o despejo dos aparelhos velhos em aterros ou sua queima, também expõem os humanos e o meio ambiente a um coquetel de venenos e substâncias químicas tóxicas, como chumbo, cádmio, mercúrio e arsênio.

Os tubos de raios catódicos da maioria dos monitores de computador e telas de televisores possuem blindagens anti-raios X que contêm entre 1,8 e 3,6 quilos de chumbo, em geral incrustado em vidro. Os monitores de tela plana geralmente usados nos laptops não têm altas concentrações de chumbo, mas a maioria deles é iluminada com lâmpadas fluorescentes dotadas de mercúrio. A unidade de processamento central (CPU) de um PC, o módulo que contém o chip e o disco rígido, normalmente possui metais como mercúrio (em comutadores), chumbo (na solda de circuitos eletrônicos) e cádmio (em baterias). Os plásticos usados em computadores domésticos e para cobrir cabos a fim de evitar a propagação de fogo freqüentemente contêm retardantes de chamas polibrominados, substâncias cuja ingestão, segundo estudos, pode aumentar o risco de câncer, lesões no fígado e disfunção no sistema imunológico.

CHUMBO, MERCÚRIO, cádmio e retardantes de chamas polibrominados são todos toxinas bioacumulativas persistentes (PBTs, na sigla em inglês), que podem criar riscos para a saúde e o meio ambiente quando os computadores são fabricados, incinerados, despejados em aterro ou derretidos durante a reciclagem. As PBTs, em especial, são uma classe de substâncias químicas que sobrevivem no meio ambiente e se acumulam em tecidos vivos. Como sua concentração aumenta à medida que se movem para a cadeia alimentar, elas podem atingir níveis perigosos nos organismos vivos, mesmo quando liberadas em quantidades reduzidas. As PBTs têm sido associadas a doenças como o câncer, lesões nervosas e distúrbios de reprodução.

O chumbo causa danos ao sistema nervoso central e periférico, ao sistema circulatório, aos rins e ao sistema reprodutivo nos seres humanos. Seus efeitos negativos têm sido observados no sistema endócrino (inclusive no desenvolvimento do cérebro das crianças). Quando ele se acumula no ambiente, causa efeitos agudos e crônicos em plantas, animais e microrganismos.

Encontrado em componentes como resistores chips (SMDs), detetores de infravermelho e chips semicondutores, o cádmio se acumula sobretudo nos rins e pode ter efeitos irreversíveis na saúde humana. O mercúrio, por outro lado, causa danos a vários órgãos, incluindo o cérebro e os rins. O feto em desenvolvimento, por sinal, é altamente suscetível ao mercúrio por meio da exposição materna.

Meninas recolhem o cobre de aparelhos incendiados em um aterro de Acra. O metal é uma importante fonte de receita num país em que a maioria da população sobrevive com apenas dois dólares por dia.

O PLÁSTICO constitui cerca de 6,25 quilos de um computador comum. O maior volume (26%) do plástico usado em aparelhos eletrônicos é o PVC, cuja queima pode formar dioxina (derivada da clorina ali contida).

O bário é um metal usado no painel frontal do tubo de raio catódico grande de monitores, para proteger os usuários da radiação. Estudos mostraram que uma exposição de curta duração a ele provocou problemas no cérebro, fraqueza muscular, lesões no fígado, coração e baço.

Segundo o governo ganês, o país não tem uma política dedicada ao lixo eletrônico

Outro elemento a ser observado é o toner, pó empregado nas impressoras a laser. O principal componente do toner preto é um pigmento normalmente chamado preto carbono, que, se inspirado por um longo tempo, pode causar irritação das vias respiratórias.

Como tudo isso está bem documentado, é surpreendente que as agências responsáveis pelo meio ambiente e pela saúde do povo ganês não tenham tomado as medidas necessárias a fim de estabelecer mecanismos como os assumidos em outras partes do mundo nessa área.

Consultadas, fontes da Agência de Proteção Ambiental de Gana enfatizaram que não havia nenhuma política relativa ao manuseio do lixo eletrônico no país.

Um passeio pela capital ganesa, Acra, revela pilhas de televisores, PCs e outros equipamentos eletrônicos descartados. Algumas pessoas compram esses aparelhos e retiram deles pedaços para consertar peças que faltam, mas o que acontece com as partes não aproveitadas ainda é uma incógnita. Outras pessoas queimam essas partes, sob condições antihigiênicas e inseguras, a fim de remover alguns itens para usá-los de outras formas.

A AUSÊNCIA DE qualquer política transparente de lixo eletrônico em Gana torna ainda mais assustadora a situação no país. Os ambientalistas acreditam que um grande volume de lixo eletrônico descartado em nações desenvolvidas é enviado para países em desenvolvimento, expondo a problemas de saúde pessoas despreparadas para enfrentar a situação decorrente disso. É até mais surpreendente que, apesar da ampla divulgação dos temas ambientais no mundo globalizado de hoje, os políticos ganeses raramente façam deles um tópico de campanha. Mas o meio ambiente é assunto de direitos humanos, assim como a liberdade de expressão, e já é tempo de os países desenvolvidos enfrentarem decididamente esse problema - sob o risco de vê-lo crescer cada vez mais.

REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 433


Ártico e Antártica - O S.O.S. dos polos

Estudos e fotos de satélite mostram que os estragos feitos pelo aquecimento global nessas regiões do mundo evoluem numa velocidade bem maior do que a prevista


Por Eduardo Araia

Shutterstock

Entre os diversos assuntos na mira dos participantes da Conferência da Mudança do Clima da ONU, programada para Copenhague (Dinamarca), em dezembro, certamente o Ártico e a Antártica ocuparão lugar privilegiado. Novas pesquisas científicas e imagens de satélite mostram que a redução do gelo nessas regiões do mundo, relacionada ao aquecimento global, avança num ritmo bem mais rápido do que as previsões anteriores indicavam, criando situações complexas que afetam desde o ambiente até a economia e a geopolítica.

No extremo norte do globo, por exemplo, um estudo norte-americano baseado em modelos de computador revelou que a camada de gelo flutuante que recobre a região é muito mais vulnerável ao derretimento rápido do que as pesquisas anteriores indicavam. De acordo com o trabalho – produzido pela US National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) e pela Universidade de Washington em Seattle, e publicado em abril no jornal Geophysical Research Letters –, a previsão mais otimista assinala que praticamente toda a capa de gelo sobre o Oceano Ártico terá derretido no verão de 2037; a pessimista calcula que isso deve acontecer em 2020 – daqui a apenas 11 anos. Pelos estudos anteriores, um derretimento dessas proporções só ocorreria a partir do final do século.

NOAA/University of Washington
Os mapas mostram a espessura do gelo marinho em metros em março (à esquerda), no fim do inverno no Hemisfério Norte, e em setembro (à direita), no fim do verão, com base nos modelos analisados por cientistas da NOAA e da Universidade de Washington. Nas imagens no alto, a espessura em setembro condiz com a atual; nas embaixo, o oceano fica praticamente livre de gelo.

Um Ártico livre de gelo deverá causar um aumento das temperaturas médias na região. “O Ártico é frequentemente chamado de ‘geladeira da Terra’, porque o gelo marinho ajuda a resfriar o planeta ao refletir a radiação do Sol de volta para o espaço”, afirmou o cientista Muyin Wang, da Universidade de Washington, coautor do estudo. “Com menos gelo, o calor do Sol é absorvido pelo mar aberto, contribuindo para aquecer as temperaturas na água e no ar.” A nova situação poderá abrir oportunidades excepcionais de navegação e de exploração de recursos naturais na área, mas representa a sentença de morte para o urso-polar, que usa o gelo marinho para caçar seu alimento.

O estudo envolveu a análise de projeções de seis avançados modelos climáticos de computador. As informações obtidas foram depois combinadas com observações da perda da camada de gelo nos verões de 2007 e 2008. De acordo com os resultados, o gelo marinho derreterá rapidamente nas próximas décadas até fazer do Ártico um mar aberto. Restará uma camada de gelo apenas em partes dos litorais da Groenlândia e do Canadá.




A camada de gelo sobre o oceano ártico pode perder uma área equivalente à da soma dos territórios do amazonas, do pará e de mato grosso

“O Ártico está mudando mais rapidamente do que o antecipado”, afirmou o oceanógrafo James Overland, da NOAA, que assina o estudo com Wang. “É uma combinação de variabilidade natural, ar mais quente e condições do mar causadas pelo aumento de gases-estufa.”

NSIDC/Cortesia Cheng-Chien Liu/NSPO
Fotos de satélite mostram a fragmentação de parte da plataforma Wilkins em março de 2008. A plataforma já perdeu mais de 3 mil quilômetros quadrados desde os anos 1990.

Os pesquisadores calculam que, no final do verão de 2037, a área de gelo marinho no Ártico cairá de 4,7 milhões de quilômetros quadrados (registrados no inverno de 2008) para apenas 1 milhão de quilômetros quadrados – uma perda praticamente igual à soma dos territórios do Amazonas, do Pará e de Mato Grosso. A maior parte do gelo restante tenderia a ser levada pelo vento para as costas da Groenlândia e do Canadá, acumulando-se em camadas espessas que poderiam permanecer congeladas mesmo com a elevação da temperatura na região. Os seis modelos usados no estudo mostraram que, uma vez que a área da camada de gelo marinho no Ártico caísse para 4,6 milhões de km2 no fim do verão, a taxa de derretimento aumentaria mais rapidamente. Esse “ponto de não retorno” pode ter sido alcançado no verão de 2007, quando o gelo marinho naquela região atingiu o recorde mínimo de 4,3 milhões de km2. Em 2008, a área cresceu para 4,7 milhões de km2, mas não houve motivo para comemorar: foi a segunda pior marca já registrada.

A exploração de petróleo e de outros recursos naturais da região ártica que ficará livre do gelo já atiça as ambições de Rússia, Canadá, Estados Unidos, Noruega e Dinamarca.

Um estudo do Arctic Monitoring and Assessment Programme (Amap) divulgado em abril, realizado por cientistas noruegueses, russos, canadenses e norte-americanos, mostrou outros detalhes que confirmam a gravidade da situação. Segundo o trabalho, a espessura do gelo marinho, por exemplo, está bem menor do que costumava ser. O permafrost (solo antes permanentemente congelado) está se aquecendo rapidamente, enquanto a cobertura vegetal avança rumo ao norte. A camada de neve está diminuindo entre 1% e 2% ao ano e os glaciares estão encolhendo. Além disso, novos fatores como o “carbono negro” (a fuligem emitida pelo consumo de motores a diesel e pela queima de vegetais), o ozônio e o metano podem estar contribuindo para o aquecimento global e do Ártico em proporções semelhantes à do dióxido de carbono.

Do outro lado do mundo, o derretimento do gelo está afetando sobretudo a Península Antártica, a área do continente que se projeta em direção à América do Sul. O indício mais recente do derretimento foi a ruptura, em abril, de uma ponte de gelo que ainda mantinha a plataforma Wilkins no seu lugar, na costa oeste da península. Embora imagens de satélite mostrem que a plataforma já está se fragmentando há algum tempo – um mês antes, por exemplo, um bloco de gelo de mais de 400 km2 (área equivalente a 25% da do município de São Paulo) havia se desintegrado no mar –, a velocidade com que o fenômeno está ocorrendo tem deixado os especialistas boquiabertos. De acordo com o glaciologista David Vaughan, da British Antarctic Survey (BAS), a ponte parecia intacta dois dias antes de entrar em colapso. Em 1993, Vaughan havia previsto que a parte norte da plataforma Wilkins desapareceria em 30 anos se o aquecimento global persistisse, mas hoje está convencido de que isso vai ocorrer num prazo menor.

Iceberg próximo à Península Antártica. A área está entre as que apresentaram os maiores aumentos de temperatura nos últimos 50 anos: quase 3 graus centígrados.

Plataformas são grandes e espessas extensões flutuantes da camada de gelo que cobre a Antártica. A plataforma Wilkins, que tinha originariamente 16.000 km2, permaneceu estável na maior parte do século passado, mas começou a diminuir nos anos 1990. Em apenas alguns meses de 1998, por exemplo, blocos de gelo que somavam cerca de 1.000 km2 se soltaram. Os cientistas preveem que a ruptura da ponte de gelo em abril fará a plataforma perder quase 3.400 km2 no total.





Ao derreterem, as plataformas de gelo da antártica facilitam o deslizamento das geleiras do continente rumo ao oceano, causando a elevação do nível dos mares

A luta pelas riquezas árticas
Durante os verões, as águas livres de gelo na maior parte do Ártico deverão não apenas estimular a navegação, mas também a busca de minérios e petróleo no leito marinho – o que, segundo um porta-voz da NOAA, poderá causar novas transformações ambientais na área. Calcula-se que haja no subsolo ártico reservas de 10 bilhões de toneladas de petróleo e gás. A Rússia já demonstrou em 2007 suas ambições a respeito dessas riquezas, ao fincar uma bandeira de titânio no leito do Oceano Ártico, a mais de 4 mil metros de profundidade. Em março deste ano, o governo russo divulgou pela internet um documento oficial no qual informa que planeja enviar unidades militares e agentes de seu serviço de segurança civil para a região, a fim de deixar sua defesa “à altura das ameaças e desafios do país no Ártico” e ampliar o controle das rotas marítimas na região. Segundo o documento, a Rússia espera que o Ártico se torne sua principal fonte de recursos até 2020. Além dela, outros quatro países deverão se envolver na disputa pelo território oceânico que o degelo ártico vai tornar acessível: Canadá, Estados Unidos, Noruega e Dinamarca. Pela atual legislação internacional, os interessados deverão apresentar suas pretensões à Comissão sobre os Limites da Plataforma Continental, órgão da ONU encarregado de delimitar as áreas nas quais cada um poderá fazer suas prospecções. Essa comissão, integrada por cientistas e especialistas em direito, é responsável por implementar a Convenção sobre Lei Marítima das Nações Unidas (Unclos), de 1982, o principal acordo internacional relativo ao assunto. Os EUA não são signatários desse acordo, o que promete problemas para uma tramitação normal das reivindicações.

Outras plataformas na mesma região já diminuíram de tamanho nos últimos 30 anos, segundo a BAS. Seis delas desapareceram totalmente: Prince Gustav Channel, Larsen Inlet, Larsen A, Larsen B, Wordie Muller e Jones. O derretimento das plataformas, em si, não representa ameaça, pois o gelo flutuante se contrai conforme derrete e, assim, não altera o nível do mar. A verdadeira ameaça embutida no fenômeno é que ele, ao facilitar o deslizamento das geleiras localizadas sobre o continente (formadas por água doce) rumo ao oceano, provavelmente causará a elevação do nível dos mares ao redor do mundo. Os efeitos criados por essa situação não estavam previstos no último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da ONU, divulgado em 2007.

Nos últimos 50 anos, a Península Antártica apresentou um dos maiores aumentos de temperatura do planeta: quase 3ºC. Segundo um estudo da Universidade de Washington divulgado em janeiro, toda a parte ocidental do continente registrou uma elevação de temperatura superior a 0,5ºC nesse período, maior que a da parte oriental. As médias dessa região caíram nos últimos 30 anos, mas, considerando-se as últimas cinco décadas, o lado oriental também ficou mais quente.

REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 441


As árvores que crescem mais rápido

Florestas do Hemisfério Norte estão crescendo mais rapidamente

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Um estudo norte-americano revelou que as florestas do Hemisfério Norte estão crescendo mais rapidamente agora do que ao longo dos últimos 200 anos. O fenômeno teria origem em períodos de cultivo mais longos e nas concentrações maiores de gás carbônico na atmosfera. Foram analisadas as alterações no crescimento de 55 lotes de florestas temperadas mistas ao longo de 22 anos. A mudança, inesperada, poderia ampliar a importância dessas matas na absorção do CO2 emitido pelo homem na atmosfera.

Divulgação

Sustentabilidade na gôndola

Em janeiro, a rede Walmart Brasil e nove de seus principais fornecedores – 3M, Cargill, Coca-Cola Brasil, Colgate-Palmolive, Johnson&Johnson, Nestlé, Pepsico, Procter&Gamble e Unilever – lançaram um projeto pioneiro no País: o Sustentabilidade de Ponta a Ponta. A partir da análise do ciclo de vida de seus produtos, desde a matéria-prima até o descarte, essas indústrias desenvolveram novos itens ou fizeram alterações significativas em outros já existentes, buscando reduzir seus impactos socioambientais. Dez produtos integram a etapa inicial do projeto: o achocolatado Toddy Orgânico (Pepsico), a linha de águas Pureza Vital (Nestlé), o amaciante Comfort Concentrado (Unilever), o Band-Aid (Johnson&Johnson), o desinfetante Pinho Sol (Colgate-Palmolive), a esponja de banho Ponjita Naturals Curauá (3M), a fralda Pampers Total Confort (Procter&Gamble), o Matte Leão Orgânico (Coca-Cola Brasil) e a linha de óleos vegetais Liza (Cargill), além do sabão marca própria TopMax, do Walmart (fabricado pela indústria gaúcha Bertolini).

O vilão esquecido do aquecimento global

O papel do vapor d’água nas mudanças climáticas tem sido subestimado, afirmam cientistas norte-americanos. Segundo eles, quase 1/3 do aquecimento global registrado na década de 1990 teve origem no aumento de vapor d’água na alta atmosfera, e não em emissões humanas de gases do efeito estufa. Os pesquisadores afirmam que o declínio desse gás depois do ano 2000 poderia justificar o recente arrefecimento no aumento da temperatura global.

Etanol malvisto

Nada menos do que 25% do cultivo de grãos (em especial o milho) nos Estados Unidos foi parar no tanque dos automóveis em 2009, informou o Departamento de Agricultura do país. No período, foram convertidos em etanol 107 milhões de toneladas – suficientes para alimentar 330 milhões de pessoas por ano, disse Lester Brown, diretor da Earth Policy Institute, instituição que analisou as informações colhidas.



Cairngorms National Park: no trajeto da linha.

Energias renováveis x poluição visual

A aprovação do projeto da maior linha de transmissão da Grã- Bretanha, que implantará 600 torres de energia de até 65 metros de altura ao longo de 220 quilômetros nas Highlands escocesas, exemplifica uma discussão que tende a ficar cada vez mais comum. A linha tem o apoio da indústria da energia renovável local e de grandes grupos ambientalistas, pois permitirá conectar à rede projetos de energia renovável, em geral situados em pontos remotos do arquipélago. Para os opositores, as torres poluirão visualmente algumas das mais belas paisagens da Escócia.

Fotos: Shutterstock

Algas invadem a Grande Barreira de Coral

As algas estão cobrindo trechos da Grande Barreira de Coral, no litoral leste da Austrália, o que pode ser um indício preocupante da saúde dessa maravilha natural. Segundo pesquisadores, mais de 40% das áreas perto da costa foram tomadas por algas verdes, cuja presença, em corais de outros lugares do mundo, sinaliza decadência do ecossistema. Os recifes a pelo menos 20 quilômetros de distância do litoral permanecem em geral intocados.





A Campanha de Pilhas e Baterias da Drogaria São Paulo arrecadou 20 toneladas de lixo eletrônico em 2009, um aumento de 23% ante o ano anterior. Desde o início da ação, em 2004, o número vem crescendo graças à instalação de coletores em todas as lojas da rede: eles aumentam a sinalização da campanha e facilitam a entrega dos detritos.




Desde fevereiro, o Grupo Santander Brasil passou a utilizar papel certificado – cujo desempenho ambiental equivale ao do reciclado – em todas as suas peças de comunicação e correspondências. O processo de produção de papel certificado não demanda mata virgem nem desperdiça água. O grupo usa mensalmente 3.623 toneladas de papel.


Com o selo Lukscolor Green, a Lukscolor Tintas passa a oferecer ao consumidor uma linha completa de produtos que preservam o meio ambiente, desde a preparação da superfície até o acabamento final. Esses produtos não contêm solventes orgânicos nem metais pesados e apresentam baixo VOC (compostos que agridem a camada de ozônio).

Fotos: Divulgação
O Itaú Unibanco deu em janeiro dois presentes de aniversário à cidade de São Paulo. O primeiro é o Parque Municipal Mário Covas, cujos quase 5,4 mil m2 na região da Avenida Paulista contêm cerca de 200 árvores nativas de Mata Atlântica. O outro é a revitalização do Viveiro Manequinho Lopes, no Parque do Ibirapuera.
REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 450

Cinco desafios à vida na Terra - 5

LIXO
A Terra transformada em lixeira

Equipe Planeta

Foto: Long Tran Hoang
Mudança radical : Para resolver o problema do lixo, seja industrial ou doméstico, o ser humano precisa, antes de mais nada, mudar radicalmente os modos de produção e consumo.

Desde o início da era industrial e da sociedade de consumo, a produção de dejetos não parou de crescer. A situação atual é preocupante, sobretudo nos países em via de desenvolvimento que apenas começam a desenvolver tecnologias de reciclagem.

Nos países europeus mais avançados, a produção de lixo doméstico passou de 200 kg por habitante/ano em 1960 para 540 kg em 2000, ou seja 1,5 kg por dia. O número impressiona, mas ainda assim é modesto se comparado aos 5 kg diários produzidos pelos norte-americanos: campeões mundiais de consumismo.

Quando multiplicada pelo número de habitantes, tais quantidades se tornam assustadoras. Como se livrar de todo esse lixo? Os países desenvolvidos, embora bem melhor equipados para a reciclagem, ainda estão longe de terem encontrado uma solução ideal. Nos países em desenvolvimento, a questão já atinge dimensões dramáticas. Além do aumento em si da quantidade de lixo devido ao incremento constante dos níveis de consumo, é preciso considerar o fato de que esse mesmo lixo se torna a cada dia menos orgânico e, portanto, menos degradável. Amontoado sobre o solo, na periferia das cidades, o lixo se infiltra no solo e polui os lençóis freáticos e/ou polui a atmosfera quando queimado.

O lixo doméstico e industrial tende a ser cada vez mais perigoso. Carburantes, produtos facilmente inflamáveis, irritantes, alérgenos, cancerígenos, corrosivos, infecciosos, tóxicos, perturbadores dos processos reprodutivos: este é apenas um elenco incompleto dos males que eles podem causar. Apesar desses perigos comprovados, sua produção não pára de crescer como um subproduto da industrialização e da urbanização. A título de exemplo, na nova China consumista os dejetos industriais aumentam 7% ao ano, e os dejetos domésticos 10%!
Com o advento da era industrial, a natureza dos dejetos tornou-se muito mais complexa: novos materiais são empregados e se observa uma enorme diversificação dos bens manufaturados fabricados com metais, plásticos, materiais compostos, materiais usados na eletrônica e na fabricação de eletrodomésticos, os quais contêm metais pesados e se degradam mal (muitas vezes não se degradam).

Apesar de toda a evolução da ciência e da tecnologia, os meios de eliminação dos dejetos permanecem os mesmos desde o alvorecer dos tempos históricos. Eles são estocados ou são incinerados. Nos centros de estocagem dos países desenvolvidos, os dejetos são separados segundo a sua natureza (perigosos, degradáveis, inertes, etc.). São recolhidos no interior de alvéolos mais ou menos impermeáveis, e são depois compactados. Os líquidos produzidos por essa compactação são drenados e tratados, enquanto os gases são eliminados ou, como no caso do metano, reaproveitados. Mas, apesar dos cuidados, o controle não é total. As perdas de gases são importantes e o tratamento dos líquidos é muito problemático, sem falar no mau cheiro que tais processos geram.

No caso dos dejetos incinerados, não existe triagem prévia, a não ser para os dejetos industriais perigosos. A queima ocorre a 1000ºC. A incineração diminui o volume dos dejetos, mas trata-se de um processo muito caro e que, além disso, concentra as substâncias poluidoras nas cinzas. Elas são, em seguida, enviadas para centros especiais de estocagem. E o que acontece é que tais centros se tornam rapidamente insuficientes, exigindo áreas cada vez mais extensas para a construção de novos centros.

Quais as soluções, então? Mudanças radicais nos nossos modos de produção e de consumo. Estaremos, no entanto, preparados para abdicar do consumismo perdulário a que nos acostumamos? ”

REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 408

Cinco desafios à vida na Terra - 4

Petróleo
A cada dia, mais perto do fim

Equipe Planeta

Foto: Thila Gon Yee
Água suja : Além de a água ser mal distribuída no planeta, a pouluição das fontes naturais ajuda a diminuir os recursos hídricos disponíveis. Diante do problema para sobreviver, muitas pessoas têm de usar água suja.

As reservas mundiais de petróleo conhecidas vão se esgotar dentro em breve. Ao mesmo tempo em que o consumo mundial aumenta sem parar, descobre-se que as reservas mundiais são bem menores do que se esperava. Segundo geólogos e especialistas da indústria petrolífera, de todos os problemas que o planeta enfrenta, este é o maior e o mais complicado.

O consenso é geral: até o ano de 2015, as reservas mundiais de petróleo não serão mais suficientes para atender a demanda. Os poços e os campos de hidrocarbonetos ficarão vazios, um após o outro, num processo que, em poucas décadas, transformará as atuais bombas de gasolina em simples memórias do passado. A previsão não vem de militantes ecologistas, nem de defensores da opção nuclear que desejam ver o mundo todo semeado de usinas atômicas. Essa teoria, conhecida pelo nome de peak oil (ápice do óleo) foi elaborada por altos integrantes da indústria petrolífera. Eles afirmam que o fim do petróleo não é para depois de amanhã: é para amanhã.

A exploração industrial do petróleo começou na metade dos anos 40, logo após o final da Segunda Grande Guerra. Hoje, a Agência Internacional de Energia informa que mais de 80 milhões de barris diários são consumidos (dados de 2004). A mesma fonte prevê que, até 2030, a demanda aumentará 50%, ou seja, 120 milhões de barris diários.

Diante disso, quais são as reservas mundiais de petróleo, e quanto tempo ainda poderemos viver nesse frenético ritmo de consumo do ouro negro? A Federação Petrolífera da Bélgica estima que elas se aproximam dos 172 bilhões de barris. Se o cálculo estiver correto, poderemos viver ainda 50 anos ao ritmo da produção atual. Mas o problema é que essas cifras são puramente especulativas, baseadas em reservas que ainda não foram descobertas, “mas das quais se suspeita a existência”.
Incertezas do gênero levam os países exportadores a mudar, de maneira muito aleatória, o montante de suas reservas, criando grande dúvidas quanto ao número real de barris que ainda existem em seus subsolos. ”

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EDIÇÃO 408

Cinco desafios à vida na Terra - 3

Água: salvar o ouro azul
Fonte da vida pode acabar

Equipe Planeta

Foto: Thila Gon Yee
Água suja : Além de a água ser mal distribuída no planeta, a pouluição das fontes naturais ajuda a diminuir os recursos hídricos disponíveis. Diante do problema para sobreviver, muitas pessoas têm de usar água suja.

Há dez anos, o aquecimento global era uma hipótese controvertida. Hoje, ninguém ousa negar que ele é uma realidade evidente, a não ser aqueles que, como George Bush, temem pelos privilégios econômicos da sua nação e colocam seus interesses pessoais acima do interesse da coletividade mundial.

O verão de 2003, na Europa, provocou mais de 30 mil vítimas. Em 2005, uma violenta temporada de ciclones destruiu cidades inteiras nos Estados Unidos. Agora, soa o alarme para os ursos brancos da região ártica: eles precisam da banquisa marítima para se alimentar e sobreviver, mas essa calota de gelo, que todos os anos se forma no outono do Hemisfério Norte e se desmancha na primavera, agora atrasa um mês para se formar e derrete um mês antes do tempo normal. Essas três catástrofes naturais têm uma origem comum: o aquecimento global. A causa do problema tem a ver com a presença anormal de gases na atmosfera. Sobretudo, com o inquietante aumento da quantidade de um gás, o dióxido de carbono – CO2 –, um importante agente do efeito estufa. Como funciona o efeito estufa? Em primeiro lugar, é preciso saber que, na dose justa, ele é necessário para a nossa sobrevivência. Sem ele, a temperatura da Terra não superaria 20 graus negativos! O problema é quando ele acontece em excesso, como está ocorrendo agora. O efeito estufa está ligado à radiação solar que, de modo geral, é constituída de 50% de raios infravermelhos (IV), 40% de luz visível e 10% de ultravioletas (UV). A atmosfera absorve a metade dessa radiação e o resto atinge a superfície terrestre. Para quê? Para ser transformado em radiação infravermelha reenviada para a atmosfera e absorvida em parte pelo CO2 e os outros gases que provocam o efeito estufa. Conclusão: quanto maior for a quantidade desses gases na atmosfera, maior a quantidade de calor retida.

Assim, gases que provocam o efeito estufa sempre existiram, em maior ou menor quantidade, na atmosfera. Mas, nos últimos 150 anos, o desenvolvimento das atividades humanas mudou as regras do jogo: queima de combustíveis fósseis na indústria, nos transportes, no aquecimento das casas e edifícios durante o inverno, na produção de eletricidade, na agricultura, etc. Gases como o CO2 aumentaram explosivamente a sua presença na atmosfera, enquanto novos gases com potencial de efeito estufa passaram a ser produzidos (sobretudo pela indústria) e lançados no ar. A porcentagem de CO2, por exemplo, aumentou cerca de 30% e a do CH4 (metano) simplesmente dobrou! Ainda mais alarmante é o fato de que a duração desses gases na atmosfera é muito grande.

Especialistas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e da Organização Meteorológica Mundial traçaram um painel das conseqüências desse incremento incessante do efeito estufa: um aumento de 1,4 a 5,8 graus centígrados da temperatura média mundial até o ano de 2100.

Graças a esse aumento da temperatura, estão previstos o aumento da evaporação de água, com conseqüente aumento das precipitações, o derretimento do gelo polar com elevação do nível dos oceanos, perturbações do El Niño, da Corrente do Golfo e de outras correntes marinhas. Tudo isso com repercussões graves sobre os ecossistemas (ilhas e regiões costeiras serão submergidas), sobre os seres vivos (migrações em massa, extinção de espécies, etc.), expansão de patologias (como a malária), carência de água potável com riscos de conflitos pela posse das reservas e fontes de água e de catástrofes sanitárias. ”

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Cinco desafios à vida na Terra - 2

Aquecimento global
A Terra cada vez mais quente

Equipe Planeta

Foto: Nguyen Van Thuan
Fogo mortal: A destruição de áreas naturais através do fogo, como mostra esta foto tirada no Vietnã, lança no ar CO², um dos gases causadores do efeito estufa, fenômeno que danifica gravemente os ecossistemas (acima).

Há dez anos, o aquecimento global era uma hipótese controvertida. Hoje, ninguém ousa negar que ele é uma realidade evidente, a não ser aqueles que, como George Bush, temem pelos privilégios econômicos da sua nação e colocam seus interesses pessoais acima do interesse da coletividade mundial.

O verão de 2003, na Europa, provocou mais de 30 mil vítimas. Em 2005, uma violenta temporada de ciclones destruiu cidades inteiras nos Estados Unidos. Agora, soa o alarme para os ursos brancos da região ártica: eles precisam da banquisa marítima para se alimentar e sobreviver, mas essa calota de gelo, que todos os anos se forma no outono do Hemisfério Norte e se desmancha na primavera, agora atrasa um mês para se formar e derrete um mês antes do tempo normal. Essas três catástrofes naturais têm uma origem comum: o aquecimento global. A causa do problema tem a ver com a presença anormal de gases na atmosfera. Sobretudo, com o inquietante aumento da quantidade de um gás, o dióxido de carbono – CO2 –, um importante agente do efeito estufa. Como funciona o efeito estufa? Em primeiro lugar, é preciso saber que, na dose justa, ele é necessário para a nossa sobrevivência. Sem ele, a temperatura da Terra não superaria 20 graus negativos! O problema é quando ele acontece em excesso, como está ocorrendo agora. O efeito estufa está ligado à radiação solar que, de modo geral, é constituída de 50% de raios infravermelhos (IV), 40% de luz visível e 10% de ultravioletas (UV). A atmosfera absorve a metade dessa radiação e o resto atinge a superfície terrestre. Para quê? Para ser transformado em radiação infravermelha reenviada para a atmosfera e absorvida em parte pelo CO2 e os outros gases que provocam o efeito estufa. Conclusão: quanto maior for a quantidade desses gases na atmosfera, maior a quantidade de calor retida.

Assim, gases que provocam o efeito estufa sempre existiram, em maior ou menor quantidade, na atmosfera. Mas, nos últimos 150 anos, o desenvolvimento das atividades humanas mudou as regras do jogo: queima de combustíveis fósseis na indústria, nos transportes, no aquecimento das casas e edifícios durante o inverno, na produção de eletricidade, na agricultura, etc. Gases como o CO2 aumentaram explosivamente a sua presença na atmosfera, enquanto novos gases com potencial de efeito estufa passaram a ser produzidos (sobretudo pela indústria) e lançados no ar. A porcentagem de CO2, por exemplo, aumentou cerca de 30% e a do CH4 (metano) simplesmente dobrou! Ainda mais alarmante é o fato de que a duração desses gases na atmosfera é muito grande.

Especialistas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e da Organização Meteorológica Mundial traçaram um painel das conseqüências desse incremento incessante do efeito estufa: um aumento de 1,4 a 5,8 graus centígrados da temperatura média mundial até o ano de 2100.

Graças a esse aumento da temperatura, estão previstos o aumento da evaporação de água, com conseqüente aumento das precipitações, o derretimento do gelo polar com elevação do nível dos oceanos, perturbações do El Niño, da Corrente do Golfo e de outras correntes marinhas. Tudo isso com repercussões graves sobre os ecossistemas (ilhas e regiões costeiras serão submergidas), sobre os seres vivos (migrações em massa, extinção de espécies, etc.), expansão de patologias (como a malária), carência de água potável com riscos de conflitos pela posse das reservas e fontes de água e de catástrofes sanitárias. ”

Extinção: um fenômeno natural


O desaparecimento de espécies é um fenômeno natural, normal e inelutável. Basta dizer que mais de 99% das espécies que apareceram na Terra desde o surgimento da vida no planeta já desapareceram. Uma espécie desaparece após surgir e se desenvolver durante um a quatro milhões de anos. Significa, entre outras coisas, que o próprio homo sapiens – surgido há cerca de 200 mil anos – irá um dia desaparecer.

O que provoca esse perpétuo movimento de aparições e desaparecimentos de espécies em nosso planeta? A necessidade de se adaptar continuamente ao meio ambiente. Assim, embora hoje o mundo ainda esteja repleto de espécies, apenas as que conseguirem se adaptar às mudanças em curso – de origem natural ou humana – irão sobreviver.

Em si mesma, a extinção das espécies é um fenômeno natural. O que ocorre agora é que nós, humanos, interrompemos o processo normal das extinções, acelerando-o a um nível e a um ritmo que, brevemente, serão insustentáveis.

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Cinco desafios à vida na Terra - 1

Biodiversidade

Sexta extinção em massa está a caminho

Equipe Planeta

Foto: Antonia Despaja
Espécies em perigo: poluição química dos rios e lagos é o maior responsável pela extinção em massa de espécies aquáticas.

O que têm em comum o pássaro dodô das Ilhas Maurício, os bovídeos auroques da Europa, o cervo da Córsega, a foca-monge das Antilhas e o tigre de Bali? Simples: todos pertencem ao passado. Todos desapareceram, estão extintos, como tantas outras espécies estão prestes a desaparecer. Não são muitos, se consideramos que até agora já foram identificadas 1,7 milhão de espécies e existem ainda entre cinco e cem milhões de outras espécies a serem descobertas. Apesar disso, existem razões para nos preocuparmos: tudo indica que estamos na véspera de uma catástrofe ecológica sem precedentes no planeta.

Já se fala de uma sexta extinção em massa similar às cinco que a precederam (com o desaparecimento de mais de 60% das espécies), respectivamente no final do período ordoviciano há 438 milhões de anos (MA), do devoniano (há 367 MA), do permiano (248 MA), do triássico (208 MA) e do cretáceo (65 MA). Todas elas resultantes de catástrofes geológicas maiores e inevitáveis, como vulcanismos, sismos, provável queda de meteorito gigante, etc. Só que, desta vez, a causa é diferente. Não existe nenhuma hecatombe natural em vista. A ameaça é uma outra: a ação do homem.
Estudos paleontológicos mostram que nossa espécie, de índole marcadamente caçadora e colonizadora, começou a produzir desgastes na superfície do planeta há 50 mil anos. Na Austrália, por exemplo, há 46 mil anos – apenas dez mil anos depois do início da colonização daquele continente pelos humanos –, a maioria dos gêneros de répteis, pássaros e mamíferos já tinha desaparecido! Ao longo da história, as ilhas, que são porções de terra fechadas e isoladas, foram sempre as maiores vítimas da presença humana. Como fariam as espécies naturais de cada ilha, que até então desconheciam inimigos naturais, para se defender dos humanos e seu séquito de animais domésticos predadores?

Desde então, em toda parte onde se instalou, e desejando estender seus territórios e incrementar suas atividades agrícolas e industriais, a sociedade humana provocou perturbações no meio ambiente a seu redor: desflorestamento, poluição do solo, da atmosfera, dos rios, dos lagos e oceanos. Somos hoje 6,5 bilhões de pessoas sobre a face do planeta (e seremos nove bilhões em 2050!) a engendrar continuamente a degradação dos habitats, a superexploração dos recursos, as invasões biológicas e o aquecimento global... Desgastes que levarão inexoravelmente a um novo fenômeno de extinção em massa.

Ao degradar os ecossistemas, o homem fragiliza as espécies. As populações ameaçadas não mais encontram condições para se restabelecer. Ao contrário, a superexploração dos recursos, a introdução de espécies exóticas e as mudanças climáticas brutais as empurra ainda mais rapidamente para a destruição. Segundo os especialistas, nos aproximamos rapidamente de um “ponto crítico” no qual a taxa de extinção será entre mil e dez mil vezes superior à taxa “normal” (uma espécie desaparecida a cada quatro anos). Hoje, no entanto, essa taxa já chega a uma espécie por dia!

Como se isso não bastasse, as zonas de forte biodiversidade são raras e muitas vezes pouco extensas. Vinte e cinco regiões que cobrem apenas 1,4% da superfície terrestre abrigam, sozinhas, mais da metade das espécies vegetais do planeta e um terço das espécies vertebradas terrestres. Elas estão na Província Florística da Califórnia, na América Central, no Cáucaso, Polinésia e Micronésia, Brasil, África Ocidental, Madagascar, Oeste da Índia e Sri Lanka, Indonésia e Sudoeste da Austrália.

O pior de tudo foi demonstrado há pouco pela AZE (Alliance for Zero Extinction,http://www.zeroextinction.org/). Essa organização ambientalista criou um mapa de 595 sítios contendo pelo menos uma espécie ameaçada de extinção iminente e calculou que, se em alguns desses sítios seria necessário investir mais de três milhões de euros por ano para restaurá-los, apenas 450 euros anuais bastariam para salvar alguns outros sítios. ”

Extinção: um fenômeno natural


O desaparecimento de espécies é um fenômeno natural, normal e inelutável. Basta dizer que mais de 99% das espécies que apareceram na Terra desde o surgimento da vida no planeta já desapareceram. Uma espécie desaparece após surgir e se desenvolver durante um a quatro milhões de anos. Significa, entre outras coisas, que o próprio homo sapiens – surgido há cerca de 200 mil anos – irá um dia desaparecer.

O que provoca esse perpétuo movimento de aparições e desaparecimentos de espécies em nosso planeta? A necessidade de se adaptar continuamente ao meio ambiente. Assim, embora hoje o mundo ainda esteja repleto de espécies, apenas as que conseguirem se adaptar às mudanças em curso – de origem natural ou humana – irão sobreviver.

Em si mesma, a extinção das espécies é um fenômeno natural. O que ocorre agora é que nós, humanos, interrompemos o processo normal das extinções, acelerando-o a um nível e a um ritmo que, brevemente, serão insustentáveis.

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Aral um mar em agonia

Quarto maior lago do mundo na primeira metade do século 20, o Mar de Aral, na Ásia Central, é um dos mais dramáticos casos de destruição ambiental causada exclusivamente pelo homem


Por Eduardo Araia Fotos: Zhanat Kelenov/Fototeca Unesco

Quando a ecologia for disciplina de primeiro grau nas escolas do mundo, os pequenos alunos com certeza aprenderão sobre a tragédia que se abateu sobre o Mar de Aral.

Dificilmente se encontrará um exemplo tão didático e revoltante da capacidade do homem de intervir desastrosamente na natureza quanto o da agonia desse que chegou a ser o quarto maior lago do mundo.

Localizado na Ásia Central, entre duas antigas repúblicas soviéticas – o Casaquistão e o Usbequistão –, o Aral ocupava originariamente uma área de 68.300 km2, o equivalente a duasHolandas. Suas águas salgadas eram abastecidas principalmente por dois extensos rios, o Syr Darya e o Amu Darya, cujas bacias hidrográficas se estendem por outros países vizinhos – o Tadjiquistão, o Quirguistão e o Turcomenistão, além do Afeganistão e do Irã –, cobrindo uma área total que beira os dois milhões de quilômetros quadrados.

É UMA REGIÃO de terras áridas e semi-áridas, e por isso mesmo a irrigação artificial lá é muito antiga: há indícios de que ela já era usada há mais de dois mil anos, sempre de forma sustentável. Mas a grande mudança nesse sentido começou na década de 1930, quando os governantes soviéticos decidiram transformar a área, economicamente inexpressiva, numa grande produtora de algodão. A fibra, chamada na época de “ouro branco”, era fonte certa de divisas numa época difícil da economia mundial.

As práticas de plantio tradicionais da região deram lugar a uma agricultura de irrigação intensiva, graças à construção de grandes canais – o maior deles, o Kara Kum, foi aberto em 1956 para desviar parte das águas do Amu Darya.

O PROBLEMA começou na década de 1930, quando os governantes SOVIÉTICOS decidiram transformar a ÁREA em uma produtora de algodão

No sudoeste do Casaquistão, carcaças de navios jazem agora sobre o leito seco do Mar de Aral, perto daquilo que foi um grande e profundo porto pesqueiro da região.

Não se pode negar que houve algum sucesso: entre 1960 e 1980, a área respondeu por um aumento de 70% na produção total de algodão da União Soviética, e até hoje o Usbequistão se destaca como potência algodoeira. Mas o custo social, econômico e ambiental desse feito é incalculável.

Até 1960, a situação se manteve relativamente estável, mesmo com a irrigação tomando dos rios (e desperdiçando a maior parte no deserto, por deficiências estruturais das obras e pela evaporação) quase 50% do fluxo de suas águas.

A partir daí, porém, o nível médio do mar começou a cair. Entre 1960 e 1969, eram 20 centímetros anuais, que passaram para 60 centímetros na década de 1970 e um metro nos anos 1980. Foi nos primeiros anos dessa década, aliás, que o volume de água recebido pelo Aral chegou a zero.

Até então, o governo soviético não dava a devida importância ao que andava acontecendo naquele canto da Ásia Central. Falava-se inclusive – com a arrogância típica das ditaduras – em inverter o fluxo do Rio Ob, que deixaria de desembocar no Oceano Ártico para despejar as suas águas na região do Aral.

O então secretário-geral do Partido Comunista, Mikhail Gorbachev, deu um basta nesses devaneios e, em 1988, o Comitê Central estabeleceu que o plantio de algodão seria reduzido de forma a permitir que o Aral voltasse a receber água em quantidades cada vez maiores até 2005.

Da esquerda, em sentido horário: a escola de Aralsk, no Casaquistão – outrora porto pesqueiro – ficava às margens do Mar de Aral. Hoje, ela está sendo soterrada pela areia e o sal trazidos pelos ventos. Velho da região com seu neto. Mais duas carcaças de navios pesqueiros.

Alguma melhora foi observada então, mas a queda de Gorbachev, em 1991, colocou nas mãos das cinco exrepúblicas soviéticas envolvidas o cumprimento dessa determinação. A previsível inércia resultante disso aprofundou o desastre.

Nos anos 1990, a sangria contínua fez o mar dividir-se em dois, com um aumento drástico na salinidade das águas: antes de 10 gramas por litro, ela subiu para 45 gramas por litro – e, em algumas partes do Aral Sul, chegou a espantosos 98 gramas por litro. A média atual gira em torno de 33 gramas por litro.








HOJE EM DIA, a bacia do Aral é assolada pela desertificação (que atingiu mais de 30.000 km2 do leito do mar) e por constantes tempestades de poeira tóxica. A redução do nível do mar pôs à mostra imensos bancos de sal, que os fortes ventos levam até o Himalaia, e a água remanescente da irrigação formou lagos contaminados por agrotóxicos – alguns tão grandes que já receberam nome.

Enquanto os verões ficaram mais quentes e curtos, os invernos passaram a ser mais rigorosos e longos – uma alteração que levou muitos fazendeiros a trocar o algodão pelo arroz, cujo cultivo exige ainda mais água. Das 73 espécies de aves, 70 de mamíferos e 24 de peixes antes encontradas na área, a maioria morreu ou migrou para outros lugares.

A profunda devastação afetou a antes próspera indústria pesqueira, que na primeira metade da década de 1960 empregava cerca de 60 mil pessoas. Diante da visão de várias embarcações encalhadas longe da margem, as autoridades abriram canais para levá-las ao mar aberto – e nada conseguiram, porque o nível do Aral baixava mais rapidamente do que sua capacidade de escavar as valas.

Com isso, a atividade pesqueira esgotou-se em 1982, e as fábricas de processamento de peixe congelado trazidas de outras regiões para manter os pescadores locais empregados foram fechadas em 1991.

O desastre ambiental provocou também um profundo impacto na população local. Com a contaminação da água pelo sal e substâncias existentes nos fertilizantes e pesticidas utilizados nas plantações, a tendência de os moradores da região apresentarem câncer de garganta é nove vezes maior do que a média mundial, e a mortalidade infantil ali observada é a maior entre as antigas repúblicas soviéticas.

Canais de irrigação como os da foto drenam as águas dos rios Amu Darya e Syr Darya ao longo de todo o seu curso, impedindo que eles alimentem o Mar de Aral.

Aproximadamente 80% das mulheres grávidas sofrem de anemia. A incidência de distúrbios respiratórios, tuberculose e problemas oculares na população local também aumenta assustadoramente.

A miséria que impera entre os habitantes da região é atenuada por organizações como a Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho, que reforçam a dieta dos mais carentes com uma cesta básica que contém arroz, farinha e óleo. Mas essa ajuda só chega a 10% dos moradores que vivem abaixo da linha da pobreza na região.

O que fazer agora? Nenhuma solução escapa de um investimento gigantesco de dinheiro – em 2004, ele era calculado em US$ 300 bilhões. É muito difícil reunir toda essa dinheirama, mas talvez o maior obstáculo seja mesmo a cooperação entre os cinco países envolvidos, com os seus conflitantes interesses econômicos. Eles já haviam feito um acordo a respeito do Aral em 1992, mas nada de objetivo emergiu dali.

Além disso, há várias disputas étnicas nessa questão. Desde o fim da União Soviética, os direitos do uso da água já opuseram usbeques e quirguizes, turcomenos e usbeques, e quirguizes e tadjiques.

Por enquanto, as ações tomadas (ou a falta delas) indicam que o Aral continuará a encolher na sua parte sul. Já na parte norte, aparentemente o governo do Casaquistão está empenhado em manter sua fração do lago (ver quadro). De qualquer forma, o que resta é um retrato melancólico do poder de destruição que a humanidade pode exercer sobre a natureza.

Um fim PROVOCADO pela mão do homem

A seqüência das três fotos do Mar de Aral tiradas por satélite mostram o seu progressivo esvaziamento. A primeiro foto, à esquerda, é de maio de 1973; a segunda, de agosto de 1987; a terceira, de julho de 2000. Durante os últimos 40 anos, por decisão das autoridades da ex-União Soviética, as águas do Amu Darya e do Syr Darya – os dois rios centro-asiáticos que alimentavam o Aral – foram desviadas para irrigar milhões de hectares de plantações de algodão e de arroz. Nas últimas duas décadas, o volume de água do Mar de Aral decresceu de 75 %. A linha do litoral encolheu 120 quilômetros. O nível das águas baixou mais de 16 metros e hoje o Aral é um pequeno mar muito raso. Há muitos milhares de anos, ele já secara completamente devido a motivos naturais. A grande controvérsia que acontece hoje em torno do Mar de Aral deve-se ao fato de que seu encolhimento foi causado pela mão humana, e não por uma mudança ambiental natural. Durante os ciclos naturais, tais mudanças acontecem muito lentamente, durante centenas de anos. Ao contrário, mudanças causadas pela atividade humana costumam ser muito rápidas.

Vozrozdenya, a ilha do terror

Na primeira metade do século 20, Vozrozdeniya era uma ilha no meio do Mar de Aral, e essa condição geográfica do isolamento foi aproveitada pelas Forças Armadas, que lá construíram instalações e laboratórios voltados para a pesquisa e o armazenamento de armas biológicas. Com o recuo progressivo das águas do mar, o território da ilha começou a crescer e, em 2001, ela se juntou à terra firme. As instalações militares foram fechadas em 1992, mas o risco de que o material guardado ali – como bacilos de antraz – venha a causar problemas no futuro ainda é alto. Curiosidade típica de humor negro: em russo, Vozrozdeniya significa “renascimento”.

Um sopro de ESPERANÇA

As previsões para a parte sul do que restou do Aral são sombrias, mas a salvação para a parte norte pode estar a caminho. A idéia, já tentada em 1992 e 1997, é construir uma barragem de 14 quilômetros entre as partes norte e sul do mar. Nas outras ocasiões, o material precário usado no dique entrou em colapso, mas na terceira tentativa – feita entre 2001 e 2005 com recursos do Banco Mundial e do governo do Casaquistão –, a obra tem-se mostrado bem mais resistente.

A nova barragem é a peça central de uma ampla reformulação e conserto de 100 quilômetros de obras da era soviética. Esse trabalho aumentou a eficiência da água do Syr Darya, que agora irriga plantações e flui para o Aral Norte. Nos primeiros 12 meses após a conclusão da obra, o nível do Aral Norte subiu seis metros. Com as novas condições, já se observou o ressurgimento de gramíneas e juncos nas margens, além do retorno de pássaros aquáticos e outros animais de maior porte.

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