quarta-feira, 13 de maio de 2009

Crise Econômica e Absurdo Filosófico


“Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas o começo...” Albert Camus
por Edson Amâncio
Quando Camus faz seu irresistível personagem Meursault, de O estrangeiro, assassinar um árabe na praia ‘por causa do Sol’ e, com a mesma gratuidade, o leva a assistir ao enterro da mãe, ir ao cinema e ajudar um amigo num caso obscuro, ele apenas desvela uma das mais temerárias facetas da nossa existência: o absurdo.

Podemos falar da crise econômica que se abateu sobre o mundo globalizado como um desses absurdos tão caros a Camus e aos existencialistas franceses? Que melhor definição pode ser aplicada à situação de um casal idoso que pôs suas economias, durante décadas, numa instituição financeira, com o fim de ter uma velhice confortável, ao receber a notícia de que perdeu tudo na crise?

Não é possível aquilatar se a dor que se abate sobre um operário, que perdeu seu trabalho, tem a mesma intensidade que a do empresário que vê seu patrimônio escorrer entre os dedos. Ou aquela família que teve de abandonar a própria casa por inadimplência e a do casal de idosos mencionado. Aqui talvez pudéssemos citar Tolstoi na abertura do seu romance Ana Karenina: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

A crise chegou. As pessoas perdem seus bens. Empresas vão à falência. Milhares estão desempregados. Há desesperança onde quer que repouse o olhar. A insegurança, filha espúria do absurdo globalizado, bateu à porta. Há decepção e descrença. É quase impossível abstrair que, por trás da bancarrota, há uma cabeça de medusa e seus mil tentáculos que responde pelo insípido nome de “sistema”. A cada uma das vítimas adiciona-se o peso do fracasso pessoal, da impotência e da culpa. Não somos, entretanto, individualmente responsáveis pelo absurdo que se avizinhou de forma sorrateira, pegando-nos de surpresa. Batemos no próprio peito assumindo para nós mesmos as conseqüências do fracasso. Poucos percebem que estamos inseridos num sistema de bases movediças. Não houve entre nós quem tivesse a sensibilidade aguçada do elefante que previu o tsunami com antecedência de horas. Uma multidão de especialistas não o fez. E se o tivessem feito, mudaria alguma coisa?

Não me parece que, se assim fosse, o resultado seria diferente. Ninguém estava a postos para fazer previsões desse quilate. Pensávamos apenas em concorrer, disputar, vencer, chegar lá, e jogamos todas as fichas nesse ambicioso projeto.

É possível fazer previsão realista para as conseqüências da crise econômica na saúde física e mental das suas vítimas? Quantos ataques cardíacos poderão ocorrer por causa disso? Quem se tornará hipertenso, ansioso, depressivo. E os que terão ataques de pânico? Quantos suicídios serão computados na sombria contabilidade da crise econômica? Também neste pormenor não há especialista capaz de fazer previsão. A crise econômica não faz bem a ninguém. Maltrata a todos, direta ou indiretamente.

O executivo que perdeu suas regalias na crise é acometido subitamente de forte opressão no peito. Um manto de suor recobre seu rosto. Sua pele torna-se pálida e a respiração é ofegante. Em alguns minutos é conduzido a um pronto-socorro. Os exames não revelaram nenhuma alteração. O cardiologista calmamente informa-lhe o diagnóstico: “Sua saúde física está em ótimo estado. Seu problema é psicológico”. Cenas como essa são reproduzidas diariamente em hospitais de todo o mundo.

Mas é um erro interpretar esse tipo de ocorrência como mero “problema psicológico”, pois essa postura minimiza a importância dos efeitos da mente sobre o corpo. Só nos Estados Unidos, 1,5 milhão de pessoas sofre ataque cardíaco por ano. É difícil determinar quantos desses eventos devem ser atribuídos ao estresse. Uma equipe de pesquisadores da University College London fez uma ampla revisão em questionários aplicados a pessoas que sofreram ataques cardíacos entre 1974 e 2004 e compilou respostas dadas à seguinte questão: “O que você estava fazendo ou sentindo nas horas que antecederam o ataque cardíaco?”. Estresse emocional estava entre as respostas mais comuns.

O que fazer para amenizar o impacto da crise econômica na vida cotidiana?

Para alguns, o abandono do ato de fumar, a redução no consumo de café e adoção de dietas ricas em legumes e frutas, em detrimento de excessivo consumo de carne vermelha, estão entre eles. Há uma lista que pode parecer clichê, mas que não deve ser subestimada. Ampliar o interesse por temas elevados, por cultura, boas leituras, música, artes em geral. Procurar o convívio de pessoas mais sábias, aproximar-se mais dos verdadeiros amigos e das pessoas queridas. Talvez devêssemos incluir aí um pouco de filosofia, quem sabe até mesmo religião em doses adequadas.

Mas há algo, amplamente desenvolvido entre os animais, particularmente entre os chimpanzés, que deveríamos retomar como uma das formas de enfrentar o absurdo que nos espreita a cada dia: altruísmo, ou o retorno à indignação ética.

Edson Amâncio é neurocirurgião. Autor de O homem que fazia chover e outras histórias inventadas pela mente (Barcarolla, 2006).

Scientific American Brasil

Efeitos globais do bife brasileiro

Desmatamento para pastagens na Amazônia é responsável por aproximadamente 50% dos gases de efeito estufa no país
por Igor Zolnerkevic

©VALTER CAMPANATO/ABR

PADRÃO DE OCUPAÇÃO da terra no Brasil se repete na Amazônia: derrubada da floresta e implantação da pecuária como forma de legitimação.

O maior rebanho bovino do mundo pertence ao Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE) sugerem um número total de 170 a 207 milhões de cabeças de gado – quase ou mais que um boi por habitante. O Brasil é um caso muito importante de impacto ambiental da produção de gado de corte. O relatório de 2006 “A Longa Sombra do Gado de Corte”, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), cita o Brasil muitas vezes e chama a atenção para as peculiaridades do país.

Enquanto em países desenvolvidos a maior parte dos gases de efeito estufa (GEE) vem do setor energético, a mais recente estimativa divulgada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), com base em dados de 1994, revela que 55% a 60% das emissões brasileiras resultam do desflorestamento, geralmente para abertura de novas pastagens.

De fato, não existe um estudo científico preciso do volume dos GEE do desmatamento que se deve à formação de pastagens, justifica Paulo Barreto, pesquisador do Instituto Imazon, em Belém, no Pará. É possível, no entanto, estimar uma ordem de grandeza. Se 75% a 80% do desmatamento na Amazônia são devidos à abertura de pastagens, então, só esse processo, na Amazônia, responde por 41% a 48% das emissões de GEE brasileiras.

Somando a esse número as emissões da atividade do gado de corte em si – segundo estudos recentes, algo como 9% das emissões totais do país – conclui-se que direta ou indiretamente a carne bovina produz em torno de 60% dos GEE do Brasil. Isso é mais que o triplo da média global, que o relatório da FAO estima em 18%.

© VALTER CAMPANATO/ABR

ALÉM DA liberação de gases no processo digestivo, a pecuária também contribui com o efeito estufa pela derrubada de florestas


Pressão Externa
Com base no relatório da FAO, apareceram notícias, principalmente na mídia européia, estimando que 1kg de carne bovina brasileira produz 45kg de CO2-equivalente, enquanto a européia registra entre 15 kg e 25 kg de carbono por 1kg de carne, diz Matheus de Almeida, mestrando em economia aplicada na Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). Para ele “o setor produtivo nacional teme boicotes e barreiras tarifárias”.

Almeida integrou uma equipe coordenada por Sérgio De Zen, da Esalq, que produziu no ano passado um relatório sobre os impactos ambientais e as emissões de GEE da pecuária de corte brasileira. O relatório foi encomendado pela Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), que representa pecuaristas de grande porte. O relatório concentrou-se em fontes de GEE como o metano, emitido durante a digestão dos animais.

Os comportamentos estão mudando no meio pecuarista. Magda Lima, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna, interior de São Paulo, relata: “Antes tínhamos de falar com os produtores com muito cuidado sobre esse assunto”. Segundo ela, soava como insulto dizer que “o gado emite metano”. Magda Lima coordena a redação de outro relatório sobre emissões de GEE da pecuária nacional que será concluído ainda este ano. Essa pesquisa reflete “uma pressão externa para reduzir as emissões, e precisamos ajudar o setor produtivo nessa tarefa,” argumenta ela.

O relatório da Esalq cita um estudo de De Zen, Lima e colaboradores – publicado em 2007– projetando o impacto ambiental do rebanho brasileiro para 2025, com base nas taxas atuais de melhoramento da produção de carne bovina nacional. A conclusão foi que, embora o rebanho futuro deva ser 7% maior que o atual, a produção de carne aumentará em 25%, enquanto as emissões de metano, o principal GEE da pecuária, crescerão apenas 3%.

© MARCELLO CASAL JR/ABR

CONSÓRCIO ENTRE floresta e pastagens, capaz de amenizar impacto ambiental da pecuária ainda não tem aceitação no campo


Almeida justifica essa conclusão pela sofisticação do agronegócio: “A pecuária está deixando o estágio de subsistência e de investimento em longo prazo. Antes não havia a preocupação de ser o mais eficiente possível. Agora existem empresários tomando conta do setor”, justifica. “Se a pecuária continuar a evolução que vem mostrando nos últimos anos, há espaço para ganho de peso, redução da idade de abate, aumento da taxa de prenhez e aproveitamento de carcaças”. E a produção de carne deve crescer mais que o aumento proporcional do rebanho, prevê.

Confinamento
Mesmo com a expectativa de que as emissões de GEE se estabilizem, é preciso reconhecer que os índices atuais já são críticos e devem diminuir, consideram pesquisadores que atuam nessa área. Para atingir esse resultado, tanto o relatório da FAO como especialistas nesse segmento recomendam políticas públicas para incentivar a mudança do sistema predominante no Brasil, a criação extensiva, com o gado solto no pasto. A opção é pelo sistema de confinamento.

Pesquisadores brasileiros, no entanto, questionam a base econômica e ambiental dessa alternativa. “No Brasil, grandes grupos fazem confinamento de gado e têm prejuízos”, diz Almeida. Argumenta que “além do custo de implantação – estender cercas, construir cochos para alimentação e tudo o mais – é necessário um capital de giro elevado para manter um grande estoque de ração, em torno de 10 kg/dia por animal”. Economicamente não é possível, na avaliação de Almeida, propor confinamento a pecuaristas com rebanhos inferiores a 50 cabeças.

“Queremos acreditar que o confinamento seja um sistema sustentável, mas é preciso verifi car o balanço dos gases, o quanto entra e sai”, observa Lima. O relatório da Esalq aponta, por exemplo, que a ração à base de grãos de soja para o animal confinado, rica em proteína, aumenta a liberação de óxido nitroso (NO2), gás que contribui 296 vezes mais para o efeito estufa que o dióxido de carbono. “O confinamento pode ser adotado como solução para pequenas regiões produtivas, onde o sistema de produção de gado não tem alternativa viável”, diagnostica o relatório.

Alternativas
Aumentar a eficiência da criação extensiva com a melhoria de qualidade das pastagens é a alternativa mais imediata ao confinamento, sugere o relatório da Esalq. Com pastagens de melhor qualidade é possível adensar o número de cabeças por unidade de área, ou seja, criar mais gado em menos espaço e assim reduzir os GEE em 10%. “Algumas regiões de produção têm densidade de 0,5 animal por hectare, quando o ideal deve ser 1,2 animal por hectare”, avalia Almeida. Essa relação, acredita ele, é uma forma de elevar a produtividade, com resultados positivos para produtor e ambiente.

Mas essa relação mais eficiente demanda investimentos para reformulação e manutenção das pastagens, identifica o pesquisador, para quem “a maioria dos produtores não cuida de suas terras por falta de recursos”. Ao menor sinal de aperto financeiro, no diagnóstico do pesquisador, os produtores negligenciam a qualidade das pastagens, “até mesmo com uso do fogo, que não só degrada o solo como deprecia a propriedade”.

Além de melhorar a qualidade das pastagens, pesquisas em diversos países recomendam mudanças na dieta, fisiologia e até na genética dos rebanhos como forma de diminuir as emissões de metano. O gás é produzido quando bactérias e protozoários, no sistema digestivo do animal, decompõem os resíduos da digestão da celulose. Apenas o melhoramento genético poderia reduzir essas emissões em até 30%.

Nesse esforço de mitigação de gases de efeito estufa, outra alternativa é a integração entre pastagens e floresta, identifica Almeida. A proposta desse sistema silvipastoril é criar o gado em pastagens consorciadas, com árvores cultivadas para a produção de madeira, papel, carvão vegetal, ou apenas para serviços ambientais; função que também permite receitas adicionais. Isso já ocorre em países latino-americanos como Colômbia e Costa Rica. Uma vantagem adicional, nesse caso, é que o consórcio pastagens/florestas permite que as emissões liberadas pela pecuária sejam seqüestradas pelo crescimento das florestas cultivadas. Neste caso, uma fazenda pode ser “neutra enquanto emissora de gases de efeito estufa”, analisa o pesquisador.

Carbono no Solo
Mesmo a pecuária isolada, devidamente manejada, é capaz de seqüestrar carbono atmosférico. Nesse caso, medidas como manutenção de vegetação adequada, faz com que o carbono se agregue à matéria orgânica do solo. Uma pastagem bem manejada pode absorver até uma tonelada de carbono por hectare, indicam as pesquisas de campo. Alguns estudos da unidade da Embrapa de São Carlos sugerem até 12 toneladas por hectare de estocagem de carbono, segundo Almeida.

Dados produzidos pela equipe internacional de cientistas que integram o programa da ONU sobre mudanças climáticas, no entanto, sugerem que o estoque de carbono no solo ocorre por um período curto, em torno de 25 anos. Isso faz com que essa alternativa seja recusada como um verdadeiro sorvedouro de GEE. Outras pesquisas, no entanto, desenvolvidas no Brasil e no exterior, envolvendo solos tropicais, mostram que a estocagem pode acontecer por períodos muito maiores, de até 100 anos.

Assegurar que o carbono fixado no solo retorne à atmosfera em determinado período de tempo é, na realidade, uma generalização grosseira. “Frações de matéria orgânica são mineralizadas em poucas horas, mas outros volumes permanecem no solo por séculos”, avalia Ítalo Guedes, pesquisador da Embrapa Hortaliças, em Brasília. Ele acredita que uma das principais razões para a convenção do clima da ONU ainda rejeitar a fixação de carbono no solo, está na dificuldade de se medir exatamente o quanto um certo tipo de manejo contribui para o sequestro de carbono.

O que ocorre, neste caso, é a incompatibilidade de utilizar uma mesma metodologia tanto para solos de clima temperados como tropicais. “As regiões tropicais têm solos muito mais profun- dos que os das regiões temperadas, conhecidos como latossolos, com estrutura bem estável”, argumenta Guedes. Os latossolos armazenam grandes quantidades de carbono a profundidades superiores a um metro, ou seja, em níveis distintos aos que os métodos convencionais costumam considerar. Se a estocagem for feita em latossolos – que cobrem a maior parte do território brasileiro – os valores acabarão subestimados, mas o carbono não contabilizado será exatamente o mais protegido e estável, assegura o pesquisador da Embrapa.

Novos Dados
Magda Lima, da unidade da Embrapa de Jaguariúna, em complemento às considerações de Guedes, observa que os números sugeridos pelo IPCC e utilizados em projeções de emissões de GEE estão baseados em trabalhos restritos a regiões temperadas. As referências envolvendo a região tropical são escassas. A Embrapa, por exemplo, começou a medir emissões de NO2 e encontrou números diferentes dos sugeridos pelo IPCC, de acordo com a pesquisadora.

Mesmo com o início recente das pesquisas, há 10 anos, o Brasil já é referência em pesquisa de emissões de ruminantes, considera Magda Lima, que também coordena a preparação de relatórios ainda confidenciais sobre as emissões de GEE do rebanho nacional e de seus dejetos. Essas medidas integram um novo levantamento oficial de emissões, que o Brasil entregará ainda este ano à convenção climática da ONU.

O primeiro inventário das emissões brasileiras foi publicado em 2004, com base em dados de 1986 a 1996. O novo contará com dados obtidos com a criação da Rede Agrogases de pesquisa da Embrapa Meio Ambiente, que funcionou de 2003 a 2007. Esse trabalho foi uma espécie de mutirão para medir diretamente as emissões de atividades agropecuárias no Brasil.

Com esse levantamento foi possível obter valores de emissão específicos para o perfil do rebanho nacional, incluindo diferenças entre raças, distinção entre machos e fêmeas e idades, relata a pesquisadora. Ela reconhece, no entanto que ainda há muito trabalho a fazer nessa área. Especialmente porque “a informação varia entre cada um dos estados da federação”. O desafio, acrescenta, “é montar o experimento como ele deve ser”. Apenas medir a emissão de metano não diz nada, adverte. Vários parâmetros devem ser considerados para serem correlacionados. E, às vezes, lamenta a pesquisadora “não há pessoal e equipamento adequados para isso”.

Formação e informação adequadas também são parte dos obstáculos para implementar técnicas como o manejo pastoril e o sistema silvipastoril em escala nacional. Suporte financeiro é importante, mas apenas isso não basta, considera Almeida, da Esalq, para quem a difusão de conhecimento é imprescindível. Para o pesquisador, há muitos trabalhos promissores, mas nem sempre eles estão disponíveis no campo, onde os produtores ainda se valem de recursos arcaicos, entre eles o fogo, na preparação das terras de cultura ou pastagens.

CONCEITOS-CHAVE
- O desmatamento para pastagens na Amazônia é a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa do Brasil. Contribui com aproximadamente 50% do total.

- Desconsiderando o desmatamento, a pecuária bovina brasileira é responsável diretamente por 36% das emissões de gases de efeito estufa restantes do país, ou 9% do total. Emite quase seis vezes mais que o setor de transporte.

- Para reduzir as emissões, pesquisadores recomendam o melhoramento da eficiência do sistema de criação extensivo, principalmente com o manejo adequado de pastagens e a integração da pecuária com a silvicultura.

- O Ministério da Ciência e Tecnologia divulgará este ano um novo inventário oficial das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, com dados inéditos coletados entre 2000 e 2006.
– Os editores

PARA CONHECER MAIS
Primeiro inventário brasileiro de emissões antrópicas de gases de efeito estufa – Relatórios de Referência. Disponível on-line em http://www.mct.gov.br/index.php/ content/view/25441.html

Pecuária de corte brasileira: impactos ambientais e emissões de gases efeito estufa. Sérgio De Zen, Luis Gustavo Barioni, Daniela Bacchi Bartholomeu Bonato, Matheus Henrique Scaglia de Almeida e Tatiana Francischinelli Rittl. Sumário disponível on-line em http://www.cepea.esalq. usp.br/pdf/Cepea_Carbono_pecuaria_SumExec.pdf

A pecuária e o desmatamento da amazônia na era das mudanças climáticas. Paulo Barreto, Ritaumaria Pereira e Eugênio Arima. Disponível online em http://www.amazonia.org.br/ guia/detalhes.cfm?id=297322&tipo=6&cat_id=46&subcat_id=198

O reino do gado – Uma nova fase na pecuarização da Amazônia Brasileira. Roberto Smeraldi e Peter May. Disponível on-line em http://www. amazonia.org.br/guia/detalhes. cfm?id=259383&tipo=2&cat_id=46&subcat_id=1

Igor Zolnerkevic jornalista científico, já colaborou com publicações como o jornal Folha de S.Paulo e a revista Pesquisa Fapesp. Mantém o blog Universo Físico.

Scientific American Brasil

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Apagões e o “efeito dominó” na economia

Feedbacks na rede econômica podem transformar crises locais em globais
por Jeffrey Sachs
FOTOS POR BRUCE GILBERT/EARTH INSTITUTE; ILUSTRAÇÃO POR MATT COLLINS


A crise econômica global se parece muito com um apagão. Uma única queda numa linha de transmissão, ou uma sobrecarga temporária, provoca a interrupção de energia elétrica em outras partes da rede o que, por sua vez, leva a novas sobrecargas, interrupções e finalmente a uma cascata de falhas que fazem uma região ficar às escuras. De forma análoga, a situação emergencial do sistema bancário americano, provocada pela degradação das condições do mercado, enviou ondas de choque ao sistema financeiro mundial, provocando uma crise bancária global que agora ameaça transformar-se em crise econômica geral.

Falências em cascata – conhecido como “efeito dominó” – são fenômenos que estão surgindo em redes, em vez de serem considerados como fracassos independentes e coincidentes de seus componentes individuais. Apesar de muitos bancos nos Estados Unidos e Europa investirem massivamente no financiamento de valores mobiliários de risco, endossados por hipotecas (MBSs em inglês), respostas positivas no sistema econômico global amplificaram esses erros. Reguladores bancários e diretrizes macroeconômicas ainda não deram a devida atenção a esses efeitos.

O primeiro efeito importante é a “espiral deflacionária da dívida”. Quando as taxas de inadimplência das hipotecas começaram a aumentar, em 2007, os bancos sofreram perdas de capital em seus investimentos em MBSs. Para reembolsar seus credores (como os fundos do mercado financeiro, que tinham emprestado dinheiro a curto prazo), os bancos venderam massivamente seus MBSs, reduzindo ainda mais os preços de mercado desses títulos e ampliando as perdas do setor bancário.

Em segundo lugar, quando bancos sofrem perdas de capital empregado em ativos ruins, cortam os empréstimos na mesma proporção de suas perdas de capital. Esse corte desvaloriza ainda mais o preço dos imóveis, reduzindo o valor dos ativos bancários e aumentando a depreciação.

Terceiro: enquanto um ou mais bancos entram em pane, o pânico se instala. Os bancos emprestam a curto prazo para investir em ativos em longo prazo, que somente podem ser liquidados rapidamente com grandes perdas. Quando, de repente, os credores de curto prazo acreditam que outros credores de curto prazo estão resgatando seus empréstimos, cada credor tenta racionalmente resgatar seu empréstimo antes dos outros. O resultado é a caracterização da auto realização do pânico em massa, às retiradas, como aconteceu no mundo todo em setembro de 2008, com a quebra do Lehman Brothers. Um “pânico racional” como esse pode liquidar bancos que de outra forma estariam solventes.

Em quarto lugar, à medida que os bancos cortam seus empréstimos, os gastos e investimentos dos consumidores caem verticalmente, o desemprego aumenta e os bancos perdem mais capital e aumentam os riscos de seus empréstimos. A economia entra em parafuso. Somente políticas fiscais e monetárias agressivamente expansionistas na China, Japão, Alemanha e outras nações com lucros acumulados internacionais podem evitar essas conseqüências nas atuais circunstâncias. A recessão americana não poderá mais ser evitada, mas seus efeitos ainda podem ser moderados nos Estados Unidos e mais lentos no Leste Asiático.

Entre algumas precauções parciais adotadas, as mais importantes incluem padrões de adequação de capital que protegem bancos individuais contra perdas de capital, empréstimos emergenciais do banco central, seguros de depósitos e políticas macroeconômicas contracíclicas – ações que procuram suavizar as oscilações da atividade econômica. Na prática, essas políticas têm sido praticadas casualmente sem levar em conta os limites a serem superados e, em geral, foram reduzidas e tardias, sem qualquer preocupação em criar proteções para impedir rapidamente a propagação dos efeitos entre países.

Como, agora, novas diretrizes começam a reformar os sistemas financeiros e econômicos globais, seria prudente que consultassem as análises clássicas da Grande Depressão apresentadas no livro A monetary history of the United States, 1867-1960 (Uma história monetária dos Estados Unidos, 1867-1960) por Milton Friedman e Anna Jacobson. Segundo eles, “o colapso econômico, muitas vezes, tem características de um processo cumulativo. Se ultrapassar certo ponto tenderá, por algum tempo, a ganhar força de seu próprio desenvolvimento e seus efeitos se espalharão e voltarão a intensificar o processo de colapso”.

Nossos riscos vão muito além dos financeiros. Nossos empreendimentos temerários na recente bolha financeira são minimizados pelos riscos de longo prazo que assumimos através do fracasso com que tratamos as crises inter-relacionadas de água, energia, pobreza, alimentos e mudanças climáticas. A crise financeira deveria abrir nossos olhos para essas ameaças, muito mais graves e sistêmicas, e à cooperação global necessária para remediá-las.



Jeffrey Sachs é diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia (www.earth.columbia.edu).

Scientific American Brasil

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Mudanças na indústria automobilística

Somente uma parceria entre os setores público e privado pode ajudar as Big Three (Três Grandes) a sobreviver
por Jeffrey Sachs

FOTOS POR BRUCE GILBERT/EARTH INSTITUTE; ILUSTRAÇÃO POR MATT COLLINS


A indústria automobilística americana, nos últimos meses, tem sido largamente aviltada, com toda a opinião pública contra uma ajuda financeira do governo. A indústria caiu na armadilha de altos custos, incluindo benefícios impossíveis, uma situação extremamente confusa de obrigações contratuais e ações normativas, que permitiram a produtores estrangeiros tomar uma parcela cada vez maior do mercado. Pior, as Big Three (Chrysler, Ford e General Motors) continuaram a promover os utilitários esportivos (SUVs) “sedentos de gasolina”, enquanto aumentavam os riscos ao clima e à conservação da energia. Até certo ponto, a indústria também está pagando pelo aumento do custo na saúde nacional, que deveria estar sob um controle público melhor, e por diretrizes inadequadas de rendimento do combustível e baixos impostos sobre a gasolina (se comparados aos da Europa e leste da Ásia), que facilitaram a demanda de consumo para veículos maiores. Porém, muitos dos problemas da indústria resultam de seus próprios erros estratégicos.

Não obstante, o desdém por essa indústria falha ao não entender quatro pontos cruciais. O primeiro, um colapso das Big Three, somaria outra calamidade econômica à já perturbada crise. Milhões de empregos seriam perdidos em lugares com altas taxas de desocupação e não haveria compensação para a criação de novos postos. O segundo, a má situação dos fabricantes de carros, é o resultado de um colapso dramático de todas as vendas de veículos, antes de ser uma redução da parcela americana dessas vendas. As Big Three não se encontrariam à beira do precipício da insolvência se não fosse pela pior recessão desde a Grande Depressão. O terceiro, a liderança pública e política que traz uma enorme co-responsabilidade na mal orientada era dos SUVs, com sua flagrante negligência de segurança energética, riscos climáticos e empréstimos domésticos insustentáveis.

O quarto e mais crítico, foi a mudança para automóveis de alta milhagem, que demanda esforços públicos e privados. A principal mudança tecnológica, máquinas de combustão interna para veículos elétricos recarregáveis numa grade elétrica limpa, ou com combustível de hidrogênio, requer uma infusão massiva de diretrizes e investimentos públicos. As pesquisas e seu desenvolvimento dependem de enormes desembolsos, e grande parte desse P&D deveria, sob qualquer circunstância, tornar-se propriedade intelectual pública antes de privada. Essa é a razão por que durante um século o governo americano subvencionou a área de P&D em muitas indústrias, incluindo aviação, computação, telefonia, internet, desenvolvimento de medicamentos, geração de indústrias avançadas, satélites e GPS.

O que se pode lamentar é que a apresentação do híbrido elétrico Chevy Volt terá um preço de tabela no primeiro ano de US$ 40 mil. Os custos nos primeiros estágios, inevitavelmente, são bem mais elevados que no decorrer de um período mais longo. As diretrizes públicas deveriam ajudar a promover essa transição através de recursos como a aquisição pelo setor público de frotas de veículos de modelos novos, taxação especial e incentivos de financiamento para os primeiros compradores, e uma taxação da gasolina mais elevada com a finalidade de incorporar os custos das modificações climáticas e a dependência da importação de petróleo.

O financiamento americano de tecnologias de energia sustentável, como as baterias de alto rendimento, o fator limitante das velas de ignição em híbridos, foi reduzido desde que Ronald Reagan inverteu os investimentos iniciados por Jimmy Carter. De acordo com os dados da International Energy Agency, os gastos federais americanos em toda a área de energia, de P&D, alcançaram aproximadamente US$ 3 bilhões anuais nos últimos anos – menos que dois dias de gastos do Pentágono. Essa negligência está finalmente mudando com o compromisso de US$ 25 bilhões em empréstimos para aumentos na área tecnológica, aprovados pela legislação de energia de 2007, mas essa quantia ainda não foi mobilizada e pode chegar demasiado tarde para ajudar. As verbas diretas de P&D para laboratórios do governo, empresas e universidades deveriam ser aumentadas.

Os Estados Unidos precisam de uma diretriz público-privada, e não simplesmente acusar o setor privado. Os veículos Chevy Volt, da GM, os novos Extended-Range Electric Vehicles, da Chrysler, e os esforços em grande escala para produzir, dentro de uma década, um veículo de célula de combustível demandam suporte público, com P&D para tecnologias básicas, apoio para as demonstrações e disseminação dos primeiros estágios. Impostos mais altos sobre a gasolina, que espelhem custos de segurança e climáticos, e investimentos públicos em tecnologias complementares, como uma grade energética limpa. Seria um erro de proporções históricas deixar a indústria morrer no limiar de uma transformação vital.



Jeffrey Sachs é diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia (www.earth.columbia.edu).

Scientific American Brasil

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Entenda o conflito na Irlanda do Norte


Dois atentados nos últimos dias trouxeram de volta os fantasmas de tensões políticas e religiosas
SÃO PAULO - Dois atentados ocorridos nos últimos dias na Irlanda do Norte trouxeram de volta os fantasmas do sangrento conflito que atingiu a região durante décadas. No último sábado, 7 de março, dois soldados britânicos foram mortos e outras quatro pessoas ficaram feridas em um ataque contra o quartel de Massereene, no condado de Antrim, ao norte de Belfast.

Veja também:

'Velhos tempos' não voltarão para a Irlanda do Norte, diz Brown

No dia seguinte, o IRA Real, uma dissidência do IRA (Exército Republicano Irlandês) assumiu a autoria do atentado. Já nesta segunda-feira, um policial foi morto a tiros em uma emboscada na cidade de Craigavon, a cerca de 40 quilômetros de Belfast, assumido pelo IRA Continuidade, outra dissidência. A BBC preparou uma série de perguntas e respostas sobre os conflitos de raízes políticas e religiosas na Irlanda do Norte.

Qual é a história da Irlanda do Norte?

A Irlanda do Norte se formou em 1921, depois que um acordo entre a Grã-Bretanha e a República da Irlanda - que declarou sua independência de Londres em 1916 - dividiu a ilha.

Pelo acordo, 26 condados passaram a pertencer à Irlanda, enquanto outros seis condados do norte, parte da província do Ulster, ficaram sob o domínio do que passou a se chamar em 1927 de Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte.

Quais os motivos do conflito na região?

O principal motivo para o conflito está nas desavenças sobre se a região deve fazer parte da Irlanda ou do Reino Unido. Algumas pessoas, especialmente aquelas que pertencem à comunidade unionista protestante, defendem que a região deve continuar sob o domínio de Londres.

Outras, particularmente aquelas que fazem parte da comunidade católica nacionalista, acreditam que a região deve deixar o Reino Unido para se anexar à República da Irlanda.

As relações entre as duas partes começaram a ficar mais tensas a partir do final dos anos 1960, quando começou um ciclo de violência que durou mais de 30 anos, com episódios de tumultos nas ruas e campanhas de atentados a bomba. Até agora, mais de 3,6 mil pessoas morreram durante os conflitos, a maioria delas civis.

Por que o exército britânico está na Irlanda do Norte?

O Exército britânico foi posicionado na região para tentar manter a paz depois que o Royal Ulster Constabulary (força policial da Irlanda do Norte até 2001) perdeu o controle da situação.

O Exército, no entanto, logo foi visto como uma força de ocupação pelos nacionalistas, o que fez com que as tropas fossem alvo de ataques de grupos paramilitares. No período mais tenso do conflito, 28 mil soldados britânicos estavam na região. Atualmente, há cerca de 5 mil homens.

Quais são as negociações políticas?

O processo de paz na Irlanda do Norte está sendo trabalhado nos últimos 20 anos. Participaram das negociações os governos da Irlanda e da Grã-Bretanha e políticos da região.

Depois de declarações de cessar-fogo por parte do grupo paramilitar IRA (Exército Republicano Irlandês) e de grupos unionistas, começaram negociações entre os partidos políticos, que culminaram com o Acordo da Sexta-Feira Santa, de 1998.

Em 2007, o Partido Unionista Democrático (DUP, na sigla em inglês) e o Sinn Fein (antigo braço político do IRA) chegaram a um acordo para a transferência do governo. Estes dois partidos dominam agora o cenário político da Irlanda do Norte. Desde 2008, o primeiro ministro do governo da região é Peter Robinson, membro do DUP, enquanto seu vice é Martin McGuinnes, um ex-comandante do IRA.

Quem ainda é contra o processo de paz?

Segundo especialistas em segurança, grupos republicanos dissidentes representam a maior ameaça ao processo de paz, sendo que muitos grupos paramilitares ainda estão em atividade.

Entre esses grupos estão o chamadao Continuity Irish Republican Army (Continuidade do Exército Republicano Irlandês, em tradução livre), o IRA Real, o Exército de Libertação Nacional Irlandês e o Óglaigh na hÉireann. Informações dão conta de que os dois primeiros estariam "especialmente em atividade" e poderiam estar preparando novos ataques.

BBC Brasil - Estadão

A Irlanda vai manter a paz


30/04/2009
Gianni Carta

O ex-primeiro-ministro da Irlanda do Norte e Nobel da Paz de 1998 William David Trimble acredita que seu país já pode se considerar pacificado. Com isto, não quer dizer que a paz seja uma obrigatoriedade entre as facções que dividem o poder na Irlanda do Norte. No mês de março, um atentado deixou mortos dois soldados britânicos e um policial. Lorde Trimble, que aderiu ao Partido Conservador em 2006, acredita, contudo, que a ocorrência não renderá frutos políticos aos pequenos grupos responsáveis por ela. A sociedade, como ele a vê, rejeitou a violência.

Lorde Trimble integra o II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade a ser realizado entre 6 e 7 de maio em São Paulo no Palácio das Convenções no Anhembi, em São Paulo. Ao evento apoiado por CartaCapital comparecerá, entre outros expoentes, o Nobel de Economia de 2006, Edmund Phelps.

Ele falará no dia 7 durante a mesa-redonda intitulada Democracia, Não Violência e Paz. O encontro quer promover a troca de informações entre governo, instituições privadas e sociedade sobre o papel educativo da comunicação para a compreensão do conceito de sustentabilidade. O evento é gratuito para professores e estudantes cadastrados no site www.comunicacaoesustentabilidade.com.

CartaCapital: Os assassinatos de dois soldados britânicos e um policial, perpetrados em março por grupos republicanos, alterará a maneira como o senhor apresentará o processo de paz na Irlanda do Norte no fórum de São Paulo?
William David Trimble: Não mudarei minha apresentação, porque apenas pequenos grupos de dissidentes republicanos e unionistas são contrários ao acordo de paz assinado em 1998. Os eventos de março ocorreram porque alguns ativistas do Exército Republicano Irlandês (IRA) voltaram à luta armada. Não há, contudo, apoio decrescente ao processo de paz no seio do movimento republicano. A classe política norte-irlandesa reagiu de maneira firme contra essas mortes, e a polícia indiciou um número significativo de suspeitos por elas. A autoria das mortes deve ser estabelecida.

CC: Em que regiões do mundo o modelo do processo de paz na Irlanda do Norte poderia ser aplicado?
WDT: Reluto bastante em apontar na experiência irlandesa um modelo. Critico, na verdade, quem a vê como um. O processo de paz ocorrido na Irlanda do Norte, do qual me orgulho, talvez suscite sugestões para outras localidades, mas fazer esta adaptação pura e simplesmente em uma outra região é algo temerário. Em qualquer parte onde haja conflitos semelhantes ao da Irlanda do Norte é preciso priorizar circunstâncias da comunidade e da sociedade afetadas.
Quando um acordo se delineava para a Irlanda do Norte em 1996, participei de conferências na África do Sul. Queria entender como o país lidava com divergências políticas antes de chegar à mesa de negociações. Na Irlanda do Norte, utilizamos apenas um conceito sul-africano, o sufficient consensus (consenso suficiente), um mecanismo importante em nosso processo de paz. Mas é freqüente que aquilo que não funciona em uma região seja a melhor lição para o contexto no qual você opera.

CC: Aparentemente, as palavras-chave na sua apresentação em São Paulo serão “educação’’ e “comunicação’’.
WDT: Comunicação é de extrema importância. Qualquer processo precisa se basear em consentimento popular. O povo tem de acreditar em seu projeto. É preciso abrir o diálogo e evitar surpresas. Devem-se tirar do caminho contextos nos quais as pessoas se sintam enganadas. Houve tentativas de processos de paz na Irlanda do Norte anos atrás nos quais líderes políticos usaram subterfúgios para satisfazer suas ambições. Ou seja, não explicaram a seus seguidores o que acontecia. Esses processos de paz não engrenaram.

CC: Como o senhor abordará o tema educação em zonas de conflito?
WDT: Ao comunicar algo, educa-se. Tardamos em parte a obter uma resolução porque o povo não estava em sintonia com as realidades da Irlanda do Norte. Durante muito tempo, importantes segmentos dos dois lados (unionistas, que pregam a adesão ao Reino Unido, e nacionalistas) acreditavam em se sobrepor ao oponente. Ninguém admitia qualquer forma de acomodação. Acomodação significa compromisso. Cada lado precisa reconhecer a existência do outro e entender seus interesses como legítimos.

CC: Que problemas a Irlanda do Norte enfrenta para adotar um sistema educacional misto?
WDT: O governo tentou encorajar um sistema misto de educação, mas um sistema integrado não pode ser imposto. As pessoas têm o direito de escolher como escolarizar seus filhos. Contudo, solicitamos que todas as escolas, incluindo as segregadas, adotassem o Programme for Education for Mutual Understanding. Este programa educa difererentes comunidades a compreender o outro. A despeito da considerável segregação nas escolas e nas cidades da Irlanda do Norte, existe um nível significativo de integração na vida social. Refiro-me às áreas de entretenimento e trabalho.

O sistema universitário é integrado. O mercado de trabalho também. Claro, há áreas segregadas, mas esta não é a regra. Uma vez terminado o curso secundário, há integração entre as duas comunidades norte-irlandesas. Não se deve criar uma situação em que pessoas sintam sua identidade de grupo desafiada. Se desejamos eliminar a sociedade segregada, é fundamental haver consenso. Nos próximos anos teremos avanços consideráveis na integração comunitária. O acordo de 1998 cria uma estrutura política para que as comunidades cooperem entre si. Isto diminui as tensões e repercute positivamente em vários aspectos da vida social.

CC: Segregação ainda é um tema constante na mídia britânica.
WDT: Normalmente a mídia se apropria de duas estatísticas e não as coloca no contexto. A imprensa acha que algo precisa ser feito já e crê em uma cura rápida. Mas não há curas rápidas. Elas são lentas. O motivo? As pessoas têm de se sentir confortáveis durante as mudanças.

CC: O sr. crê que a mídia cobre corretamente os eventos na Irlanda do Norte?
WDT: Comecemos com a mídia na Irlanda do Norte. Ela tem a maior responsabilidade de todas. E faz o possível para que suas reportagens não exacerbem situações. Isto pode acontecer, às vezes. Jornalistas buscam, como em qualquer parte do mundo, manchetes. Mas há um senso de responsabilidade. Minha crítica é que eles têm uma agenda pouco ampla ao delinear eventos na Irlanda do Norte. E essa agenda é limitada devido àquilo que a imprensa reconhece como importante a ser noticiado. O que os jornalistas tendem a focar são os anos de violência e os processos de paz imperfeitos. Fora da Irlanda do Norte, a cobertura da mídia depende, e isso é compreensível, dos eventos. Não a critico por isso. Eu sempre digo: estou à espera do dia em que as notícias oriundas da Irlanda do Norte se tornem um tédio (risos).

CC: Terroristas não precisam do apoio popular para atacar. Como avaliar o perigo do punhado de dissidentes que pode ameaçar o processo de paz?
WDT: É verdade que um grupelho pode representar um grande problema. Contudo, para sustentar uma campanha, é preciso de algum tipo de apoio popular. Sem esse apoio eles não podem manter sua campanha. Em agosto de 1998, a tragédia de Omagh resultou em 29 mortos, mas os dissidentes não conseguiram levar adiante sua campanha. Tentaram isso, mas foi em vão.

Nos últimos anos, o ingresso de republicanos na polícia revelou-se algo desejável e crucial para o processo de paz. A polícia não pode contar apenas com unionistas, tem de incluir republicanos. Houve tentativas de assassinar policiais católicos para embaraçar a nova liderança republicana. Mataram efetivos em março, mas não embaraçaram a liderança republicana. O fato de haver republicanos na polícia outrora protestante e o apoio à presença deles na corporação é positivo. Igualmente positivo é o fato de líderes republicanos terem se manifestado contra os ataques de dissidentes. Suspeitos de grupos dissidentes republicanos agora estão sendo inspecionados pela polícia, outro dado positivo.

CC: Esta seria uma pergunta para o vice-premiê Martin McGuinness. Mas como o senhor o conhece bem, não acha delicada sua posição, como ex-membro do IRA, de pedir aos republicanos para transmitir informações sobre pessoas envolvidas nos recentes atentados? WDT: Recentemente, a polícia lhe disse que republicanos dissidentes são uma ameaça para ele. Isto era esperado. Para que o processo de paz desse certo, ele e seus colegas tiveram de apoiar mudanças na polícia. Tiveram de aceitar mais republicanos na instituição, com o objetivo de refletir fielmente a sociedade norte-irlandesa. McGuinness chamou de “traidores dos irlandeses” os assassinos de março. Ele pode usar essa linguagem porque o acordo de 1998 foi aprovado em referendos na Irlanda do Norte. Ou seja, a Constituição e o povo apoiam o discurso contra a violência de Martin McGuinness.

CC: Gerry Adams, líder do Sinn Fein, braço político do IRA, e McGuinness são favoráveis a uma ilha irlandesa unida por meios democráticos. O senhor discorda dessa posição. Como membro do Partido Conservador da Câmara dos Lordes, terá mais poderes para lidar com o tema do que teria como líder do UUP (Ulster Unionist Party, o partido unionista da Irlanda do Norte), cargo ao qual renunciou em 1995?
WDT: Os procedimentos mudaram. Agora, mudanças somente acontecem se uma maioria democrática concorda com elas. O consenso geral é que ninguém antecipa uma mudança constitucional geral em um futuro próximo. Até agora, ou você é um unionista que deseja integrar o Reino Unido ou um nacionalista que quer um Estado da Irlanda do Norte (e unido com a República da Irlanda). Se queremos obter a paz, esta não deve mais ser a equação.

Quando me filiei ao Partido Conservador do Reino Unido, em 2006, eu o fiz com isto em mente. Se continuarmos a fazer parte do Reino Unido, devemos nos concentrar em temas sociais e econômicos. E, claro, teremos, num contexto democrático, de lidar com as aspirações dos nacionalistas republicanos e dos outros partidos. Quero ressaltar que meu velho partido, o UUP, e o meu novo partido, o Partido Conservador, lutamos juntos em eleições europeias e lutaremos em eleições britânicas. Não creio que a natureza do quadro político do Reino Unido mude da noite para o dia. Mas é um começo.

CC: O senhor acredita em mudanças para obter resultados. Mas muita gente se indaga o que o fez aceitar lidar com os republicanos nos anos 90 para selar um processo de paz.
WDT: Quando eu ingressei o Partido Unionista do Ulster (UUP) no começo dos anos 70, o partido estava organicamente ligado ao Partido Conservador. Em 1975, na convenção constitucionalista, apoiei formar uma coalizão com outros partidos. Mas, dois anos após 1998, não tinha certeza de que os republicanos apoiavam um processo de paz. Pouco a pouco me dei conta que os republicanos estavam respeitando o acordo – claramente, tinham realizado a transição do terrorismo para a democracia – e fiquei satisfeito. Não tive dificuldades em lidar com pessoas que duas décadas atrás estavam envolvidos em violência, mas que, por terem eliminado esse passado, tornaram-se pessoas com as quais eu poderia negociar. Quando vejo os que me apóiam, não tenho certeza se todos têm as mãos limpas. Chegamos a um consenso.

CC: O senhor acha importante ter o apoio do presidente americano Barack Obama para que o processo de paz na Irlanda do Norte renda frutos?
WDT: Não é um tema com o qual ele tenha de lidar. Isto, simplesmente, porque o assunto foi resolvido. Se algo em relação ao nosso processo pudesse ser beneficiado pela administração de Obama, a atual Secretaria de Estado faria o possível para resolver o problema.

CC: O senhor diz isso porque Hillary Clinton e seu marido estiveram envolvidos no processo de paz na Irlanda do Norte?
WDT: (Risos). Ela esteve em Belfast. Ela sabe algo.

CC: O senhor se vê como forte candidato a ministro em um governo do conservador David Cameron?
WDT: Duvido que David Cameron saiba quem serão seus ministros. Quando ele for premiê, e tenho certeza de que será, algumas pessoas se tornarão automaticamente seus ministros, como William Hague. Mas, quanto aos outros, não há previsões.

Revista Carta Capital

CIA - Barbárie e impunidade


30/04/2009 11:33:15

Wálter Fanganiello Maierovitch
De 2002 a 2005, os 007 da Agência Central de Inteligência (CIA) norte-americana utilizaram técnicas brutais e desumanas nos interrogatórios de islâmicos suspeitos de ter vínculos com organizações terroristas. A causar inveja aos franceses que torturaram os árabes da Argélia (1962) e aos brasileiros a serviço da ditadura iniciada em 1964.

Esses 007 da CIA só não conseguiram se igualar ao que fizeram, em Grozny (Chechênia), os russos da FSB (sucessora da KGB) e da Spetsnaz do Ministério do Interior. Desapareceram mais de 5 mil chechenos, na luta contra o terror iniciada em 1999 e finda em 2006. Do registro oficial consta que poderiam ser ligados ao terrorismo checheno, que ficou conhecido pelas ações sangrentas no Teatro Dubrovka, de Moscou, e em uma escola de Beslan: 334 mortes.

Nesta semana, o semanal britânico Sunday Times entrevistou dois agentes da Spetsnaz que estiveram na Chechênia. Entre outras barbaridades, eles contaram que, nos interrogatórios e com marteladas, amassavam dedos ou quebravam joelhos dos acusados. Quanto aos desaparecidos, “explodiram e viraram pó”, para evitar o encontro de corpos.

Relatório do comitê de inteligência do Senado americano revelou que, na era Bush, as técnicas empregadas pelos 007 da CIA estavam em flagrante violação à legislação interna e ao estabelecido no Artigo 16 da Convenção das Nações Unidas contra o Terror, subscrita pelos Estados Unidos.

Acrescente-se que a então conselheira para questões de segurança nacional, Condoleezza Rice, autorizou, em 2002, e sem antes colher parecer jurídico obrigatório, o interrogatório do suspeito Abu Zubayda com emprego do waterboarding. O waterboarding consiste em acorrentar o interrogado numa maca inclinável. Os olhos são vendados e um pano é utilizado para cobrir-lhe a boca e o nariz. Uma mangueira de grosso calibre despeja água sobre a boca e o nariz do torturado, de modo a dar sensação, com a simultânea inclinação da cabeça, de afogamento em banheira. Em síntese, trata-se de uma simulação de afogamento, a produzir dióxido de carbono no sangue e tornar difícil a respiração.

Abu Zubayda foi submetido a 83 sessões de waterboarding. Fora a sua colocação em contêiner cheio de insetos, que acreditava serem venenosos. Na justificativa do pedido feito a Condoleezza, em 2002, constava que Abu Zubayda dominava informações a respeito de iminentes ataques terroristas.

Além do waterboarding, a CIA utilizou, sempre com autorização superior, outras técnicas covardes e inconcebíveis em uma democracia. Por exemplo, o walling, no qual o interrogado encapuzado era obrigado a manter os calcanhares encostados num falso muro. De surpresa, era puxado pelo peito e arremessado o tronco deslocado contra o muro, este dotado de aparelho a multiplicar o barulho provocado pelo impacto.

Também era recorrente a privação de sono ou de alimentos, golpes no abdome, tapas na cara, estrangulamento simulado, palmadas com a as mãos em concha nas orelhas. A nudez era uma forma de constranger o interrogado na presença de agentes de outro sexo. Existia ainda o isolamento em contêiner e o wall standing: em pé, corpo inclinado e com os dedos das mãos apoiados em uma parede.

No supracitado relatório do Senate Intelligence Committee, presidido por John Rockefeller, ficou patente a responsabilidade de Condoleezza Rice: o parecer do Departamento de Justiça no sentido de não considerar o waterbording prática proibida veio depois do sinal verde dado por Rice. Recentemente ouvida no Congresso, a ex-secretária de Estado desconversou ao dizer que lembrava de uma discussão sobre o waterbording, mas não sobre empregos e implicações.

Condoleezza recebeu as explicações sobre o waterboarding em reunião com o ministro da Justiça, John Ashcroft. Em 2003, o emprego do waterboarding foi revelado ao vice-presidente, Dick Cheney, ao secretário de Estado, Colin Powell, e ao ministro da Defesa, Donald Rumsfeld. Nenhum deles determinou a suspensão da prática.

Para o Departamento de Justiça do governo Bush, nenhuma das técnicas poderia ser considerada como tortura. No waterboarding, concluiu-se pela inexistência de “dano mental prolongado”, pois o “alívio era quase imediato, quando o pano de cobertura é removido. Segundo os “juristas” de Bush, a tortura apenas se caracteriza quando ocorre grave dor física ou sofrimento mental. Portanto, waterboarding, tapas na cara, golpes com o dorso da mão aberta e sem anéis ou soco-inglês, entre outras, eram ações legítimas no trato com suspeitas de terrorismo.

Na segunda semana de abril, o presidente Barack Obama decidiu dar publicidade a quatro memoriais de torturas cometidas pela CIA, mas não encaminhou à Justiça a identidade dos executores das torturas. Agora, com o relatório do Comitê de Inteligência do Senado, tem-se os nomes dos responsáveis pelas autorizações pedidas pela agência. Ou seja, de Bush a Rice, passando pelo vice-presidente, ministros e secretários.

Revista Carta Capital

Epidemia de despreparo


30/04/2009
A falta de preparo, o desconhecimento e a influência econômica interferem no discurso de autoridades sanitárias no mundo todo. Em vez de alertar a população, acabam por alarmá-la, provocando mais estragos que o próprio surto virótico.

A gripe suína é provocada por um tipo de vírus influenza, da mesma família que pode provocar a gripe comum e a aviária. Esta espécie é o mais frequente motivo de infecção de vias aéreas por vírus em humanos, porcos e aves, podendo causar desde um simples resfriado até uma grave pneumonia.

É provocada mais frequentemente pelo vírus influenza tipo A, subtipo H1N1. A infecção passa de um porco doente para outro por contato com secreções de espirros, gotículas de saliva e contato físico íntimo. Vez ou outra um desses vírus sofre mutação genética, o que permite a contaminação das vias aéreas de outros animais, principalmente humanos. Além de criá-los em cativeiro com pouco espaço, o que facilita a contaminação, somos muito parecidos geneticamente com os porcos.

Muitos tecidos vivos utilizados na medicina para substituir os nossos provêm de porcos. Por conta dessa semelhança e proximidade, não é raro uma epidemia de gripe suína atingir humanos e vice-versa. Outro vírus que também pode provocar a gripe suína, o influenza A H3N2, é originário de gripes humanas.

No caso da influenza suína, a morbidade é muito alta. Traduzindo: depois de passar do porco para o humano, é muito fácil a transmissão de um homem para outro, mas a sua mortalidade é baixa, isto é, o risco de uma gripe se transformar em pneumonia letal é de 1% a 4 %. Esta característica é a que melhor difere a atual epidemia da gripe aviária, em que o vírus é muito mais estranho aos humanos e atingiu mortalidade de 20%.

O mundo todo, todo ano e o ano todo tem gripe. Algumas são mais graves, pois toda infecção viral provoca uma resposta do organismo infectado com a produção de anticorpos e inflamação. Algumas vezes, a reação é tão intensa que passa a ser perigosa por si só.

Isto é mais comum quando o vírus é muito mais estranho ao organismo que infecta e, portanto, muito mais antigênico. A cepa específica que provoca a epidemia no México tem pedaços de genes da influenza aviária, humana e suína. É a primeira vez que uma mutação tão complexa é identificada. Se o fenômeno se traduz em reação inflamatória mais intensa e maior risco de morte, ainda está por ser definido.

Quando estamos diante de uma epidemia, a melhor conduta é evitar o lugar onde ela começou e onde existem mais casos clínicos. É medida errada do governo não sugerir às pessoas deixarem de viajar para os lugares por turismo até que a situação esteja controlada. Todo o prejuízo das companhias de turismo e da economia local compensa ao se poupar uma vida que seja. Além disso, como as mudanças virais são muito rápidas, ninguém colocaria um familiar na região onde um vírus com alto poder de infecção está se espalhando. Mesmo que a chance de morrer em decorrência seja muito baixa, ela não é nula.

As epidemias ocorrem por erro dos países que não vacinam seus animais e não têm programa educativo ou de orientação para os criadores de porcos e aves. Em alguns lugares o porco doente é abatido e servido na mesa do criador.

É alarmante o desserviço prestado pelos governantes e autoridades ao comentar fatos com desconhecimento e falta de bom senso. O governo dos Estados Unidos, ainda expressando o pensamento de que o mundo pertence aos americanos, reclama publicamente que já tem problemas demais com o Afeganistão e a crise econômica, e os mexicanos lhes aparecem com uma epidemia. Já faz mais de três anos que aumentou a incidência de gripe suína nos EUA.

Produtores e exportadores de carne suína no Brasil querem trocar o nome da gripe para norte-americana ou mexicana, criticando o sobrenome suíno dado para a gripe, ideia tola e errônea. O país que mais levou a sério a pandemia de influenza em 1918 e deu liberdade à imprensa para informar sua população, acabou carregando o peso de nomeá-la, pois, apesar de o vírus ter se espalhado a partir dos Estados Unidos, a gripe que matou milhões virou espanhola.

A Europa parece muito mais preparada para adequar as respostas de governo a esse tipo de ameaça, pois seus dirigentes se reservam a anunciar reuniões com seus técnicos e as precauções são dadas pelos órgãos de saúde e com bom senso. Os Estados também não vacilaram. A comissária de Saúde da União Europeia, Androulla Vassilliou, recomendou claramente aos cidadãos que evitem viagens não essenciais às regiões onde há casos confirmados da doença.

Por aqui acontece o contrário. Não houve nenhuma recomendação aos viajantes brasileiros que visitariam os locais contaminados. Eu gostaria muito de poder utilizar uma cota de passagem dos congressistas e pagar uma viagem a Cancún para o diretor de jornalismo da rede de televisão que anunciava claramente não haver perigo em viajar para o México e para o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que fazia a mesma coisa nos dias iniciais da epidemia.

O mais ridículo foi o argumento: já que a pandemia está fora de controle, tanto faz o lugar do mundo para onde se vai viajar. Só falta agora o governo financiar as passagens em 24 vezes para que os brasileiros possam ver de perto os efeitos da gripe suína no México, ou da aviária na China. Ou, ainda, um tour pelo Saara, onde acaba de eclodir uma epidemia de meningite. Isso sem falar na dengue em nosso litoral.

Outra orientação errada é garantir que a gripe não passa pela carne de porco. É uma meia-verdade. O vírus pode estar presente na carne. Portanto, antes de ser ingerida, ela deve ser aquecida a pelo menos 70 graus.

A primeira morte ocorrida no México foi em 13 de abril, data também da ocorrência do primeiro caso americano. Até a quarta-feira 29, nove países confirmaram a presença de infectados com a gripe suína.

As chances de termos uma gripe igual à de 1918, que matou 40 milhões de pessoas, é muito menor. Não se pode negligenciar o avanço da ciência, muito menos a capacidade de nossa adaptação a situações adversas. Hoje podemos identificar se o vírus influenza está presente nas secreções de homens e animais doentes, com exames de sangue e secreções, em menos de 24 horas.

Existem antivirais que podem combater o H1N1 se o tratamento for iniciado até 48 horas do início dos sintomas: febre de 39 graus, dores de cabeça e no corpo, congestão nasal e tosse, em geral seca. Os antivirais foram deixados à disposição da Organização Mundial da Saúde. Mas não adianta nem precisa correr à farmácia para comprar o remédio. A Roche, que produz o Oseltamivir, doou 3 milhões de doses à OMS e deixou todo seu estoque no Brasil à disposição do Ministério da Saúde. A doutora Karina Fontao, diretora-médica do laboratório no Brasil, afirma ser possível produzir 400 milhões de doses em um ano.

O risco de ocorrer uma epidemia no Brasil não é baixo, por causa da intimidade que temos com o México. Precisamos estar alertas. Dos onze que foram internados por supostamente terem contraído a gripe suína, nenhum deles sequer preencheu os critérios de suspeita. Portanto, não precisamos nos alarmar. O que devemos fazer agora é ter bom senso e educação. Por exemplo, lavar as mãos e cobrir a boca ao tossir ou espirrar.

Revista Carta Capital

Tudo que é sólido...


19/03/2009
Luiz Gonzaga Belluzzo
No último trimestre de 2008, a produção industrial brasileira caiu forte e abruptamente. Em consonância com a derrocada da indústria, o PIB declinou 3,6%. Na mesma proporção, entraram em parafuso os diagnósticos dos especialistas em crises pretéritas, aquelas que surgiam do estrangulamento do balanço de pagamentos. As malditas da periferia passavam pelas agruras da desvalorização da moeda nativa e terminavam na elevação da taxa de juro e no ajuste fiscal, com o propósito de abafar as tensões inflacionárias e reduzir a chamada absorção doméstica.

Também em matéria de crises, o Brasil foi promovido a investment grade. O baque na produção industrial e no PIB foi deflagrado por uma fortíssima contração global do crédito que atingiu o País no auge de um ciclo de expansão. O credit crunch universal afetou de forma aguda as expectativas dos bancos, empresas e famílias consumidoras. Em setembro, a quebra do Lehman Brothers explicitou o risco sistêmico abrigado na inflação de ativos, o que incluía as frenéticas valorizações cambiais promovidas pelos capitais que buscavam os papéis públicos e privados dos emergentes.

Os empresários, antes empolgados com as expectativas de crescimento de suas vendas e dos lucros, cuidaram de preservar os balanços de suas empresas. No afã de resguardar o equilíbrio patrimonial de longo prazo, as empresas cortaram os projetos de investimento. Caíram fora do endividamento adicional ou cuidaram de manter sob a forma líquida a “poupança” decorrente dos lucros acumulados no passado. O susto foi suficientemente grande para aconselhar os empresários a resguardar o capital de giro: ao imaginar a contração da demanda, reduziram a produção corrente e demitiram preventivamente os trabalhadores.

A incerteza radical paralisou as decisões e negou os novos fluxos de gasto. Em tais circunstâncias, a tentativa de redução do endividamento e dos gastos de empresas e famílias em busca da liquidez e do reequilíbrio patrimonial é uma decisão racional do ponto de vista microeconômico, mas danosa para o conjunto da economia, pois leva necessariamente à ulterior deterioração dos balanços. É o paradoxo da desalavancagem.

A riqueza concentra-se, agora, na posse do dinheiro em si (ou substitutos próximos, os títulos da dívida pública). Essa corrida privada para as formas imaginárias, mas socialmente necessárias, do valor e da riqueza vai afetar negativamente a valorização e a reprodução da verdadeira riqueza social, ou seja, a demanda de ativos reprodutivos e de trabalhadores. Diante da busca coletiva pelo reequilíbrio patrimonial e pela liquidez, os preços inflados dos direitos sobre a riqueza real – ações e dívidas privadas – despencam e, não raro, arrastam os preços de bens e serviços.

Keynes escreveu a Teoria Geral para explicar esse momento de “ruptura de expectativas” e não a ocorrência de simples flutuações cíclicas da economia capitalista. Nas flutuações cíclicas, a contração do investimento e do consumo deprime a acumulação interna das empresas e a renda das famílias, suscitando problemas de endividamento e risco que podem ser resolvidos com mudanças suaves na política monetária e na velocidade e intensidade do gasto público.

Nas crises, ocorre o colapso dos critérios de avaliação da riqueza que vinham prevalecendo. As expectativas de longo prazo capitulam diante da incerteza e não é mais possível precificar os ativos. Os métodos habituais que permitem avaliar a relação risco/rendimento dos ativos sucumbem diante do medo do futuro.

Em sua palestra na quarta-feira 11, em São Paulo, o economista Nouriel Roubini disse, com alguma ironia, que a única demanda que cresce no mundo de hoje é a do governo. No caso do Brasil, as casamatas da burocracia estão preparadas para lançar o País em uma recessão ampla, geral e irrestrita. Os projetos de infraestrutura têm de passar por um calvário de aprovações e de restrições. Frequentemente, os tribunais bloqueiam o andamento dos projetos de investimento, ao conceder generosamente liminares para os derrotados nas concorrências.

Os critérios da Lei de Responsabilidade Fiscal são apropriados, sim, para tempos normais, mas danosos em uma situação de crise aguda de crédito e demanda. Outras não são as penas do Banco Central e da Fazenda, frequentemente ameaçados pelo Ministério Público quando tentam ampliar o Fundo Garantidor de Crédito. Destinado a garantir os empréstimos dos bancos de menor porte para as pequenas e médias empresas, o Fundo não decola, porque os rapazes do parquet ameaçam seguidamente os membros do Conselho Monetário Nacional com processos de improbidade administrativa.

Para enfrentar a recessão da demanda e da fome exangue por liquidez, os governos precisam negociar urgentemente com o Congresso uma legislação econômica de emergência, com prazo determinado e competências claramente definidas. Caso contrário, no futuro, ninguém se lembrará que os males e infortúnios da economia em crise foram descurados por conta de uma legislação inadequada.

Revista Carta Capital

domingo, 26 de abril de 2009

Queda da população pode afetar economia da Rússia

Fernanda Nidecker
Enviada especial da BBC Brasil a Moscou

A população russa está se tornando cada vez mais velha

O declínio acentuado da população russa poderá ter graves consequências nas áreas econômica e de defesa e ameaçar o crescimento do país na próxima década, segundo a opinião de especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

De acordo com Sergei Zakharov, do Instituto de Demografia da Higher School of Economics, em Moscou, a Rússia de 2020 estará sofrendo os efeitos da redução da sua população. Em 2015 a Rússia já poderá ter oito milhões de pessoas na força de trabalho a menos do que tem hoje e, no Exército, a redução poderá ser de até um milhão até 2050.

"Os números são assustadores", diz Zakharov.

Um estudo patrocinado pelas Nações Unidas e divulgado ano passado por especialistas em demografia mostrou que a população do país poderá encolher dos atuais 142 milhões de pessoas para 100 milhões até 2050.

Natalidade e mortalidade

Dois principais fatores explicam o declínio da população russa. O primeiro são as baixas taxas de natalidade registradas ao longo das últimas décadas, uma tendência observada em muitos países europeus e agravada na Rússia pelas dificuldades econômicas dos anos 90, quando o país sofreu a transição do comunismo para o capitalismo.

O segundo fator é a alta taxa de mortalidade, principalmente entre os homens em idade reprodutiva.

Segundo Zakharov, um em cada três russos morre antes de se aposentar e as causas mais comuns são externas, como alcoolismo, acidentes de trânsito e mortes por envenenamento, causadas por consumo de bebida alcoólica fabricada de forma clandestina.

De acordo com dados oficiais, o número de mortes superou o de nascimentos em 12 milhões de 1992 a 2007, uma perda compensada parcialmente pela chegada de 5,5 milhões de imigrantes no mesmo período.

A Rússia é um dos únicos países do mundo em que a expectativa de vida diminuiu desde os anos 60. De acordo com dados oficiais de 2006, os homens russos vivem em média 60 anos, 15 abaixo da média europeia. Para as mulheres, a expectativa de vida é de 72 anos.

Impactos

O encolhimento da população pode ter diversos impactos na economia russa. Economistas estimam que a redução da força de trabalho possa resultar na queda da produção econômica, causando um impacto direto no Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Uma população em declínio também poderá afastar investidores internacionais, interessados no potencial do consumo interno.

"Onde o investidor prefere aplicar recursos? Na Índia ou na China, onde a renda per capita cresce junto com a população, ou na Rússia, onde a renda per capita vem crescendo, mas o mercado consumidor vem encolhendo?", indaga Markus Jaeger, economista do Deutsche Bank.

A previdência social também poderá sofrer com a crise demográfica, afirma Jaeger.

"Se a força de trabalho não for renovada, não haverá pessoas suficientes para gerar a renda necessária para pagas as pensões de aposentados. Isso pode prejudicar as políticas fiscais e econômicas e gerar tensões políticas", estima o economista.

Ainda segundo Jaeger, em termos demográficos a Rússia está na pior posição em relação aos outros países do BRIC.

Ele detalha que na Índia a população vem crescendo rapidamente, enquanto na China a força de trabalho continuará expandindo até 2015, data a partir da qual a população começará a envelhecer, mas não deverá declinar. Já o Brasil, segundo ele, se beneficiará de um aumento de 20% na força de trabalho até 2025.

"A Rússia, infelizmente, poderá sofrer um colapso populacional", acredita.

Medidas

Para tentar reverter o declínio da população, o governo vem oferecendo, desde 2006, estímulos financeiros para famílias que decidirem ter o segundo filho.

A estratégia teve resultados imediatos, com aumento de 130 mil nascimentos de 2006 para 2007. Para Sergei Zakharov, os resultados são temporários e serão seguidos, segundo ele, por uma "queda catastrófica na taxa de natalidade".

Outra estratégia do governo é estimular a imigração. Em 2006, o governo do ex-presidente e atual primeiro-ministro, Vladmir Putin, implementou um programa que visa a atrair para a Rússia imigrantes de etnia eslava que falem russo.

O presidente do Centro de Pesquisa sobre Problemas de População, da Universidade Estadual de Moscou, Valery Yelizarov, teme que a imigração cause tensões sociais na Rússia.

"Os russos não gostam de estrangeiros, não gostam de se misturar com pessoas de outras culturas e credos", afirma ele. "E, com a crise financeira deixando milhões de russos sem emprego, os imigrantes serão cada vez mais alvos de ataques xenófobos", acrescenta.

Para Yelizarov, o governo deveria ampliar o programa de benefícios às famílias e agir para diminuir os índices de mortalidade.

BBC BRASIL

Década de 2020 deve consolidar poder dos BRICs

Silvia Salek *

Da BBC Brasil em Londres

Crescimento acelerado pode fazer dos BRIC potências econômicas e políticas


Os anos 20 deste século podem marcar a consolidação do fortalecimento de países emergentes como potências econômicas e políticas, em um mundo cada vez mais multipolar. Segundo acadêmicos e instituições de pesquisa, os chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) serão peças-chave dessa nova ordem.

Para investigar que desafios cada país do BRIC terá pela frente, no caminho para se tornar uma potência em 2020, a BBC Brasil produziu uma série especial que começa a ser publicada nesta segunda-feira, reunido reportagens multimídia de nossos repórteres no Brasil e enviados especiais a Rússia, Índia e China.

Em 2020, com 3,14 bilhões de habitantes (40% da população mundial naquele ano, segundo projeções da ONU), eles devem chegar mais perto das economias do G-7, após terem crescido a taxas muito superiores às de nações ricas.

O National Intelligence Council, entidade do governo americano ligada a agências de inteligência, prevê que já em 2025 todo o sistema internacional - como foi construído após a Segunda Guerra Mundial - terá sido totalmente transformado.

"Novos atores - Brasil, Rússia, Índia e China - não apenas terão um assento à mesa da comunidade internacional, mas também trarão novos interesses e regras do jogo", afirma a instituição

"Muito provavelmente, por volta de 2020 vamos nos dar conta de que existe um equilíbrio muito maior no mundo em termos econômicos e políticos com o fortalecimento de países emergentes como China, Índia, Brasil e Rússia. Com um maior poder econômico, virá também um maior poder político e uma participação ativa desses países em organismos internacionais", disse à BBC Brasil Stepháne Garelli, professor da Universidade de Lausanne, na Suíça, e autor de um estudo que traça cenários para 2050.

Conceito complexo

O conceito de sistema multipolar é complexo e, ainda que boa parte dos analistas concorde que o mundo caminha para isso, o tempo que levará para que a China tenha voz no Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil tenha um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU ou o Banco Mundial seja dirigido por um russo ou indiano variam muito.

Mas a discussão já não se limita mais ao meio acadêmico. Diferentes aspectos do que pode vir a ser um mundo multilateral (ou multipolar) já começam a aparecer em discursos de autoridades que estão no centro do processo de tomada de decisões internacionais.

Um exemplo recente vem de Gordon Brown, o primeiro-ministro britânico, que, às vésperas do encontro do G-20, em Londres, declarou no Brasil que "o tempo em que poucas pessoas mandavam na economia acabou".

Também às vésperas do encontro, o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse em entrevista a uma TV francesa que "soluções globais supõem que a governança de instituições como o FMI seja mais legítima, mais democrática, com espaço para os países emergentes e pobres".

Reunião do G-20

A reunião do G-20, grupo que une países emergentes aos países-membros do G-8, pode ser vista como um sinal dessas mudanças. A voz dos emergentes no cenário de crise ganha especial relevância.

Segundo boa parte dos analistas ouvidos pela BBC Brasil, eles não apenas serão menos afetados do que os países desenvolvidos pela crise, como também podem se recuperar mais rapidamente.

Essa possível recuperação mais rápida se baseia em alguns pilares que serão também propulsores do crescimento de longo prazo.

"A situação das economias desses países é muito diferente. Mas, de maneira geral, os BRIC estão mais bem posicionados para a recuperação do que muitas outras economias", disse Markus Jaeger, responsável por análises de longo prazo no Deutsche Bank.

Para Alfredo Coutinho, analista mexicano da agência Moody's nos Estados Unidos, a crise revela ainda a vulnerabilidade das economias desenvolvidas e deixa clara a necessidade de equilíbrio na economia global.

"É uma oportunidade para as economias emergentes, que devem liderar a recuperação", disse Coutinho.

Crise

Em entrevista à BBC Brasil, Jim O'Neill, economista-chefe do Goldman & Sachs, que criou a sigla BRIC em 2001, prevê que a crise até mesmo acelere a escalada dos emergentes, e diz que já em 2020 a economia desses quatro países encoste nas dos países do G-7, o grupo das atuais nações mais ricas do mundo.

Não faltam céticos em relação à projeção de O'Neill. John Bowler, diretor do Serviço de Risco por País (CRS na sigla em inglês) da Economist Intelligence Unit é um deles.

"Acho que esse processo será mais demorado. Há uma série de obstáculos à confirmação dessas projeções tanto no campo econômico quanto político", disse Bowler.

Apesar das ressalvas feitas por muitos dos ouvidos pela BBC Brasil, o "otimismo" de O'Neill não é isolado.

Um relatório da consultoria Ernst&Young, Global Megatrends 2009, por exemplo, afirma que "a fome de crescimento, junto com a rápida industrialização das economias e populações em expansão, põe os emergentes no caminho da recuperação mais rapidamente, e os países do BRIC são claramente os atores principais".

Essa fome de crescimento vem, em parte, da nova classe média que tem revolucionado o consumo nesses países. Segundo o Banco Mundial, 400 milhões de pessoas se encaixavam nessa categoria em 2005 nos países em desenvolvimento. Em 2030, deverão ser 1,2 bilhão de pessoas.

"A classe média, principalmente dos países do BRIC, será o novo motor da economia mundial", prevê Stepháne Garelli, da Universidade de Lausane e diretor do índice de competitividade, publicado pelo Institute of Management Development, que avalia 61 países em 312 critérios.

"É uma classe média ávida por comprar seu primeiro carro, seu primeiro celular de última geração. Não é conservadora como a classe média do atual mundo rico. Ela quer 'comprar felicidade'", acrescentou.

Padrão de vida

O valor do PIB dará posição de destaque a esses países no ranking global de economias, mas não será suficiente para levar as populações desses países a padrões de vida próximos ao dos países hoje considerados ricos.

O PIB per capita da Índia, por exemplo, deverá praticamente dobrar num período de 15 anos até 2020, segundo um estudo do departamento de pesquisas do Deutsche Bank. Ainda assim, representará apenas 40% da renda per capita nos Estados Unidos.

De olho em indicadores como o PIB per capita, Françoise Nicolas, economista do Instituto Francês de Relações Internacionais, prevê a ascensão das "superpotências pobres".

"Será um mundo multipolar bizarro. Os BRIC serão superpotências pobres com mais peso econômico, mas o discurso ainda não estará no mesmo nível dos países ricos", prevê Nicolas.

Além da pobreza, esses países enfrentam outros desafios, como a proteção ao meio ambiente.

"Eles querem ter maior poder de decisão e, ao mesmo tempo, em certas questões como o meio ambiente, querem continuar a ser tratados como países emergentes, que não podem cumprir as mesmas exigências dos ricos", disse Thomas Klau, chefe do escritório de Paris do Council of Foreign Relations.

*Colaboraram nesta reportagem: Bruno Garcez, da BBC Brasil em Washington, Daniela Fernandes, de Paris para a BBC Brasil, e Marina Wentzel, de Hong Kong para a BBC Brasil

BBC BRASIL

Agitações na Ordem sob a Conjuntura da Crise Financeira Internacional


Artur Andrade da Silva Machado
A conjuntura internacional que se estabelece na passagem entre 2008 e 2009 teve sua dinâmica conformada por transformações que entram em fricção com os ordenamentos sistêmicos para os campos econômico e securitário. O que há de diferente na conjuntura, portanto, não é o surgimento de novas forças para sua composição, mas sim a absorção de mudanças nas tendências encontradas em conhecidos componentes estruturantes da Ordem internacional. Tal leitura é subsidiária da arquitetura de cenários que prescrevem demandas multilaterais e multifacetadas de mudança para uma Ordem internacional mais justa.
As peças, princípios e atores envolvidos com a estabilização de ambos os campos securitário e econômico formatam aspecto central para o delineamento das características da ordem vigente no sistema internacional. Para a epistemologia vinculada ao estudo do posicionamento de tais fatores, o sistema internacional fornece ótimo objeto de análise de movimentos históricos cíclicos. Para os mais materialistas, o ordenamento sistêmico resulta de interesses de Estados hegemônicos que evocam a responsabilidade pela pacificação do meio internacional, pela organização social, pela imposição de regras e pelo provimento de bens públicos, do qual é exemplo a própria economia internacional. Mudanças na estrutura de tal ordenamento seriam, portanto, um epifenômeno de mudanças mais elementares na estrutura de poder do sistema, fruto da configuração de um movimento deliberado de outros atores revisionistas em relação à velha ordem.
Para uma vertente mais ideacional, a ordem atual está vinculada mais especificamente à experiência de nosso próprio período histórico. Em outras palavras, os padrões de ordenamento sistêmico rebuscam também valores mais estruturais de uma Ordem vestifaliana enraizada na Idade Moderna e cuja narrativa vincula-se ao processo da modernização originalmente ocidental. Quando essa modernização histórica se torna tanto um valor quanto um objetivo transportado para o ordenamento social, passa-se a raciocinar em termos de uma modernidade teleológica. A modernidade difere da modernização porque esta é um processo e aquela é ao mesmo tempo um valor e uma meta. É a modernidade, e não a modernização, que centraliza e legitima os valores do discurso ocidental, constituintes dos vários padrões de ordenamento sistêmico desde o nascimento dos Estados nacionais.
Independentemente de que tipo de relação se estabelece entre estruturas materialistas de poder e a configuração do ordenamento sistêmico, sabe-se que de fato existem determinadas funções e serviços que devem ser prestados, bem como certas peças que devem ser arranjadas para a manutenção de tal ordenamento. Em outras palavras, para que entidades políticas autônomas se relacionem de maneira estável é necessário negociar padrões de conduta largamente aceitáveis para reger seu comportamento; para que haja trocas comerciais, exige-se uma mínima garantia de pagamento, preferencialmente em unidades de valor universalmente conversível; e para que haja a disposição para cooperar em tais níveis, é imperial que primeiro se construa confiança no meio e que sejam mitigados os vetores de conflito.
Além disso, muito embora a modernidade não defina diretamente nenhuma existência material, seu valor legitimador é constantemente evocado pelos atores no meio internacional. A capacidade legitimadora da modernidade está assentada nas idéias de progresso e de estabilidade, sendo que esta é catalisadora de e subordinada àquele. O progresso, pode-se dizer, tem duas cabeças: uma material e econômica; outra, promotora de convergência normativa - guiada por valores ocidentais como liberdade, democracia e direitos humanos. A estabilidade é a busca pela redução de tensões destrutivas da Ordem.
Tendo em vista as características e necessidades da Ordem internacional, a conjuntura atual é interessante porque propicia tendências de desmantelamento de aspectos basilares para o ordenamento sistêmico em vigor. A decantação da crise financeira para a economia real, concebida tanto internacional como domesticamente, demonstra, por um lado, a instabilidade cíclica inerente ao progresso promovido pelas forças do livre-mercado e, por outro, a incapacidade dos governos e das instituições internacionais vigentes em lidar com esse tipo de situação. Parelho, o maior espaço atribuído a questões de segurança, bem como simultâneos vetores de rearmamento e tensão colocam em cheque a crença na estabilidade do sistema, que até então mantém uma estrutura unipolar somente em um primeiro plano.
Analisando os desenvolvimentos das conformações econômicas que fundamentam a crença no progresso, a conjuntura atual é crítica. A crise econômica vigente apresenta cifras piores que as da crise de 1973. O crescimento esperado para a economia mundial em 2009, segundo a última atualização das previsões do FMI, é de 0,5% - o mais baixo desde 1945. Os EUA, o Reino Unido e a Zona do Euro, já anunciaram recessão; a China e demais emergentes que mantinham ritmo acelerado de crescimento passam por expressiva contração; os países dependentes da renda da exportação de petróleo certamente terão problemas orçamentários; e a OIT recentemente divulgou que é esperado o surgimento de mais 51 milhões de desempregados para este ano.
O quadro é ainda acompanhado pela incapacidade de ação a partir das alternativas institucionais em todos os planos. Afora os diversos pacotes dos governos nacionais e as reduções nas taxas de juros dos bancos centrais, a comunidade internacional já exauriu as possibilidades de sua vasta gama institucional (União Européia, G-7, OCDE, OPEP, FMI, G-20) com o debate sobre as alternativas para solucionar a crise. Entre todos os esforços, o único que merece atenção é o compromisso firmado na reunião do G-20 em Londres de inundar a economia com um pacote que pode chegar a US$5 trilhões até 2010.
Outro patente apontamento para o diagnóstico levantado é a deterioração da capacidade da economia norteamericana para autorrecuperação. Os EUA abrigam 5% da força de trabalho do mundo, que responde por 20% da produção e 22% do endividamento externo. Vinte anos atrás, em 1989, a América Latina completava uma década com crescimento próximo de 1% ao ano, por consequência de crises de endividamento amalgamadas pelas moratórias de México, Brasil e Argentina. No ápice da crise, a relação entre dívida externa e PIB da região era de 57%. Atualmente, depois de uma sequência de anos administrando gigantesco déficit no Balanço de Pagamentos (que tende a aumentar com a crise), a dívida externa norteamericana representa quase 90% do PIB nacional.
Apesar da amenização das consequências negativas devido ao bom influxo de investimentos diretos no país, a situação das contas externas dos EUA está assentada em números igualmente preocupantes para o orçamento interno. Depois do último pacote de financiamento monstro do governo norteamericano, a dívida pública subiu para mais de US$ 11 trilhões. Isso significa dizer que se US$ 11 trilhões caíssem dos céus nas ruas de Washington, o governo norteamericano poderia escolher entre comprar todos os produtos que os outros países do mundo colocam no mercado global ou pagar o que foi emprestado de seus próprios nacionais.
Em uma perspectiva temporal mais extensa, revelam-se ainda preocupações com a sustentabilidade do progresso econômico, em grande medida dependente de exploração excessiva dos recursos planetários. De 1945 até os dias de hoje, a população mundial duplicou enquanto o comércio internacional foi multiplicado por 100. Projeções internacionais indicam que para sustentar a população planetária com o padrão de consumo dos EUA, seriam necessários mais de 5 planetas.
Rebuscando os desenvolvimentos no campo da segurança, a conjuntura atual novamente lança pressões contrárias a valores de estabilidade e progresso, centrais para a Ordem internacional.
Apesar da manutenção da unipolaridade no primeiro plano da estrutura de poder internacional, a estabilidade internacional convive com sinalizações de expansão armamentista e focos de tensão que estão presentes em diversos flancos do sistema internacional. Na Europa, a Rússia anuncia a decisão de aumentar seu orçamento militar em pleno contexto de crise; no Leste da Ásia, a China ultrapassou os gastos militares japoneses no final do ano passado e a região continua susceptível a tensionamento causado pelas idas e vindas do dilema do arsenal nuclear norte-coreano; no Sul da Ásia, a relação entre Índia e Paquistão, ambos os países munidos de armas nucleares, mantém a cultura de lançamentos balísticos e permanece vulnerável a crises causadas por acontecimentos infra-nacionais sobre os quais os governos não têm controle; e no Oriente Médio, Israel continua alimentando inimizades com outros atores regionais e demonstra que não tem pudor em violar o Direito Internacional na proteção de seus interesses.
No campo motivacional figuram severas considerações contrárias à marcha de uniformização normativa da Ordem sistêmica. A desconsideração da ausência de aprovação pelo Conselho de Segurança para justificar intervenções internacionais nos Bálcãs, desde aquela com caráter humanitário na Bósnia até o reconhecimento da independência de Kosovo, bem como a expansão institucional da Europa Ocidental para o leste são fatores frequentemente apontados como originários dos movimentos de retaliação russos a iniciativas unilaterais do Ocidente. A enorme reincidência de crises humanitárias na África e Ásia, embora não possa ser atribuída a nenhum fator específico, demonstra que a instalação institucional da democracia onde não há estabilidade e tampouco cultura democrática é falha desde o ponto de vista da geração de progresso e, nesse ponto, os EUA ainda têm de administrar o caso emblemático do Afeganistão. Por último, é também muito difícil de acreditar que emergentes como Índia e China ficariam satisfeitos com tentativas de exportar unilateralmente ou de enrijecer o código de direitos humanos acordado multilateralmente.
Toda essa agitação nos campos econômico e securitário leva a crer que o tempo da Ordem internacional ocidental, por vezes alardeada como hegemonia das democracias de mercado, está em xeque. Para os materialistas, não há clareza na estrutura de poder para apontar qualquer cenário mais provável. Para os partidários da finitude dos tempos, no entanto, não é o caso de imaginar demais. Uma vez que “não há” complexo ideacional concorrente ao que formata atualmente a Ordem, o mais racional é esperar que, passada a conjuntura crítica, tudo volte ao habitual. De preferência, aliás, que tudo se arrume já para 2010, quando o FMI prevê retomada do crescimento da economia mundial para níveis razoáveis.
Mas as coisas raramente são tão imediatas assim. A crise econômica atual questiona a crença no progresso de maneira comparável somente ao período do entre-guerras. O principal ator de quem se espera responsabilidade de ação diante da conjuntura não está apto a realizar manobras bruscas, sob pena de despencar em um abismo. Em realidade, dessa vez os EUA estão mais para vítimas que para heróis e o time composto por Obama para lidar com a crise está desfalcado pela metade, em grande parte devido a denúncias de sonegação de impostos. Os desenvolvimentos no campo securitário refletem não somente focos de tensão que podem escalar de modo a fazer esboroar o resto de estabilidade da Ordem, mas também questionamentos de fundo vis-à-vis valores do ordenamento atribuídos à experiência ocidental.
A verdade é que, como costuma ser a regra para as questões em RI, não se sabe que espécie de configuração pode emergir do contexto atual. A conjuntura, ao mesmo passo que fornece questionamentos sobre as bases do ordenamento sistêmico, abre espaço para considerações de Justiça. O que se observa, inclusive, é que nenhum Estado parece forte ou disposto o suficiente para enfrentar a conjuntura sozinho, mas todos eles parecem ter esperanças de que algo vai surgir (do G-20, dos emergentes ou de algum outro lugar) para suprir a incapacidade generalizada.
Tal leitura só permite apostar, contrariamente às teses de estabilidade hegemônica ou de imperialismo, na ascensão de uma Ordem internacional mais multilateral. Interessante exercício de análise que se impõe é procurar, nos desenvolvimentos da conjuntura atual, paralelos históricos que vão além da tradicional comparação entre o desastre da guerra dos Bôeres para o império britânico e o engajamento dos EUA no Iraque ou no Afeganistão. Deve-se rebuscar, ousa-se dizer, a complexa articulação entre os seletos pólos que se destacaram na multidão de participantes do Congresso de Viena, duzentos anos atrás.

Artur Andrade da Silva Machado é Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília - PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais - LARI (andradesmachado@gmail.com).

Meriano 47

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