domingo, 10 de abril de 2022

Qual é o tamanho da sua pegada hídrica


Natalie Müller | Neil King

Água é um recurso precioso, que precisa ser preservado. Fechar a torneira enquanto se escova os dentes já ajuda. Porém até 30 vezes mais abundante é a água "virtual", oculta em tudo que se come, veste ou usa.

Quanta água é necessária para fazer uma xícara de café? Uma pista: muito mais do que uma xícara só. A Water Footprint Network, uma plataforma que advoga o uso sustentável desse recurso, calcula que, para produzir essa quantidade de bebida, são necessários 132 litros de água.

A estimativa leva em consideração toda a cadeia de produção, desde a irrigação do cafeeiro, processamento dos grãos e embalagem até o transporte ao supermercado. É o que se denomina água "oculta" ou "virtual": ela não é vista, mas desempenha um papel central em quase tudo o que se consome, incluindo energia, alimentos, roupas, telefones celulares, automóveis e café.

"Tudo precisa de água para ser produzido", explica à DW Ertug Ercin, pesquisador-chefe da Water Footprint Network. "Uma quantidade significativa é usada para produtos alimentares e bebidas, em particular. E essa, na verdade, é a sua pegada hídrica, a quantidade de água exigida pelos seus padrões de consumo."

No fim das contas, a água que sai das torneiras de casa – o consumo direto – só constitui uma parcela mínima da pegada hídrica pessoal, em comparação com a água "indireta" ou virtual.
Demanda crescente e estresse hídrico

A água doce é um recurso finito: dos 1,386 bilhão de quilômetros cúbicos de recursos líquidos estimados na Terra, apenas 3% é água doce, e cerca de 1% é disponível, estando o restante estocado em geleiras e calotas de gelo.

Essa reserva de água doce sofre pressão crescente da mudança climática e das necessidades de uma população humana global em expansão. O aumento da demanda hídrica agrária, industrial e residencial já desperta temores de escassez em algumas partes do mundo.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, cerca de 2 bilhões de seres humanos não têm acesso a água potável segura, enquanto 2,3 bilhões vivem em países sob estresse hídrico – ou escassez hídrica física.

"Estamos numa crise. Isso é alarmante", afirma Ercin. "Ao mesmo tempo, os padrões de disponibilidade estão mudando: não vamos encontrar água onde mais precisamos dela, nem quando mais precisarmos." Portanto, só será possível evitar secas severas ou áreas sob estresse hídrico se a água for usada com mais cuidado e eficiência. O que leva de volta às pegadas hídricas.
Pegadas hídricas desiguais

As pegadas hídricas dos diversos países variam significativamente, dependendo de suas atividades industriais e agrárias, e dos padrões de consumo da população.

Existe água no espaço e dá para usá-la?



02:40


Nos Estados Unidos, por exemplo, ela é de 7.800 litros diários por indivíduo – o dobro da média global. O consumo direto doméstico é 3,5% desse volume, ou 270 litros por dia.

Na Alemanha, esse consumo direto pessoal é de 125 litros, mas chega-se a 3.900 litros se levar-se em consideração a água virtual. Na Índia, a pegada total é de 3 mil litros diários, na China, 2.934 litros.

Na Índia, por exemplo, a dieta se baseia menos em carne, enquanto "nos EUA, há um grande setor de carne, um grande setor de consumo, o poder aquisitivo é grande", observa Ercin, ressalvando que o consumo global pode subir drasticamente, caso chineses e indianos passem a consumir na mesma proporção que europeus e americanos.
15.400 litros para um quilo de carne, 12.760 para um smartphone

A agricultura é responsável por mais de 70% do consumo global de água. Produtos como vestuário e alimentos, oriundos da lavoura ou de animais que se alimentam de plantas cultivadas, necessitam muita água.

Derivados de carne e frutos secos contam entre os maiores "bebedores". A Water Footprint Network estima que sejam necessários mais de 15.400 litros para produzir um quilo de carne bovina, por exemplo; enquanto para um quilo de frutos secos são 9.063 litros. Legumes e verduras aparecem no outro extremo da escala, com 322 litros por quilo.

Plantações de algodão igualmente precisam de muita irrigação: um relatório de 2015 da companhia Trucost, que monitora recursos não sustentáveis, estipulava que uma camiseta de malha envolve 3.900 litros d'água; enquanto a Water Footprint Network calculava 8 mil litros para uma calça jeans, considerando a irrigação das safras, conversão em tecido e confecção final.

Além disso, quase 20% do gasto global de água serve a fins industriais. Para fabricar um smartphone, por exemplo, são precisos 12.760 litros – o equivalente a 160 banhos. Muita água vai para a produção e montagem de componentes, em grande parte a fim de diluir poluentes liberados durante o processo de manufatura.
Caso países como Índia adotem padrões de consumo ocidentais, consumo hídrico global crescerá drasticamenteFoto: Rajesh Kumar Singh/AP Photo/picture alliance
Como reduzir a pegada pessoal?

Apesar de o volume d'água usado individualmente seja ínfimo, comparado com o que vai para a indústria e agricultura, os consumidores têm algumas alternativas para reduzir suas pegadas hídricas.

Segundo Ertug Ercin, uma vez que a água está envolvida em todo processo de fabricação, a meta global deveria ser consumir menos, em geral. Isso inclui usar menos energia em casa, comprar produtos de segunda mão sempre que possível, reciclar, evitar desperdício de alimentos: "Toda comida que se desperdiça implica desperdiçar água indiretamente", frisa.

Susanne Schmeier, professora associada de direito e diplomacia hídrica do IHE Delft Institute for Water Education, acredita que estar ciente da pegada hídrica da comida que se compra já faz uma diferença: os 132 litros de água por trás de cada xícara de café "são definitivamente algo a considerar, e com que se pode fazer um impacto ainda maior na Europa do que fechando a torneira enquanto se escovam os dentes".

Beber menos café ou mudar para chá – que exige apenas 27 litros de água por xícara – é uma opção. Outra seria comer mais vegetais, em vez dos derivados de carne, cuja produção envolve muita água.
Selos de pegada hídrica e conexões tortuosas

Tem havido apelos para que as companhias adotem selos de pegada hídrica, semelhantes aos dados nutricionais dos itens alimentícios, a fim de aumentar a consciência pública sobre a água por trás de seus produtos, mas até agora não se chegou a um acordo.

"Acho que definitivamente faz sentido", opina Schmeier. "A rotulagem é certamente um passo adiante para tornar mais consciente o consumidor aqui na Europa e nos EUA, e também mais apto a fazer suas próprias escolhas."

No entanto, ressalva, a conexão da água com o comércio global e com os produtos que se compram é complicada, pois há outros fatores a se levar em conta quando se trata de bens envolvendo alto consumo d'água importados de outros países.

"Nós, na Europa, e também nos EUA, consumimos muita comida, assim como outros produtos, empregando recursos cultivados em outros países, inclusive regiões que sofrem escassez de água."

"Do ponto de vista hídrico, talvez não devêssemos estar mais consumindo uvas da África do Sul. Por outro lado, elas são um setor econômico importante para o país, desesperadamente necessário, por exemplo, para promover os serviços de educação e saúde. Então acho que temos que ver os dois lados da moeda."



Alguns dos recursos mais escassos no mundo

Embora pareçam intermináveis, reservas de elementos essenciais como água, carvão e areia estão ameaçadas. Uso excessivo, má distribuição e fatores climáticos tornam recursos naturais cada vez mais valiosos.Foto: AFP/S. Qayyum


Água, a fonte da vida



Em algumas partes do mundo, o acesso à água doce é considerado rotina, mas na verdade é um luxo. A água doce representa apenas 2,5% do volume total de água no mundo e mais da metade disso é gelo. A agricultura é responsável por 70% da água consumida no mundo. Até 2050, prevê-se que dois terços da população mundial sofram com escassez de água, o que afetará todos os aspectos da vida das pessoas.Foto: picture-alliance/Zumapress


Solo, o novo ouro



A disputa pela terra está aumentando mundo afora. À medida que a população mundial cresce, a terra disponível não aumenta. Pelo contrário, está cada vez mais degradada. Eventos climáticos extremos devido ao aquecimento global agravam estes problemas. Países muito populosos ou nações com pouca área para agricultura, como China e Arábia Saudita, já buscam terras na África. O solo é o novo ouro.Foto: Imago/Blickwinkel


Petróleo, ouro negro



A reserva de combustíveis fósseis no planeta é limitada, e, se eles se esgotarem, não poderão ser repostos. Se continuarmos com a atual taxa de consumo, isso levará ao esgotamento. Esse cenário seria um grande desafio para países como o Iraque e a Líbia, que têm grandes reservas de petróleo e gás natural.Foto: picture-alliance/dpaH. Oeyvind


Carvão, hora de repensar seu uso



O mesmo se aplica ao carvão. Mesmo que países como a Alemanha estejam relutantes em abandonar esta fonte de energia poluente, as reservas estão acabando. Na Polônia, as reservas de linhito das minas em funcionamento deverão esgotar-se até 2030. A hulha pode durar um pouco mais, mas não muito, dizem os especialistas. Por isso, é preciso criar alternativas ao carvão.Foto: picture alliance/PAP/A. Grygiel


Areia, recurso infinito?



Ao vermos um deserto, a areia parece infinita, mas sua produção natural é um processo bastante lento. É um recurso renovável, mas que está sendo usado em um ritmo tão rápido - na construção, por exemplo - que a natureza não tem tempo para a reposição. Em áreas em desenvolvimento como a África Oriental, onde a população deve duplicar até por volta de 2050, a areia pode tornar-se um recurso escasso.Foto: picture-alliance/ZB/P. Förster


Extinção de espécies



O descuido do ser humano em relação aos seres vivos está deixando várias espécies à beira da extinção. Os animais são amplamente vistos como recursos pelo ser humano, e como tal, pangolins (foto) podem ser incluídos na lista de recursos naturais escassos. Se esses recursos continuarem sendo explorados de forma insustentável, a vida humana estará em risco.Foto: picture-alliance/Zuma/I. Damanik


Qual o mais valioso dos recursos escassos?



Parece que está tudo desmoronando e que nada mais pode ser feito para evitar um futuro sombrio. No entanto, uma coisa ainda disponível é o tempo, um recurso escasso, mas extremamente valioso. Alguns dizem que a emergência climática ainda pode ser revertida se forem tomadas medidas ao longo dos próximos 12 anos. E este é um recurso que podemos explorar ao máximo. Não há tempo a perder.Foto: AFP/S. Qayyum


 
DW BRASIL

Bósnia ainda procura seu futuro, 30 anos após a guerra






Rüdiger Rossig

Separatistas seguem ameaçando a existência da Bósnia e Herzegovina. Contra eles, a pequena nação balcânica precisaria de democracia, Estado de direito, prosperidade e uma perspectiva de integração à União Europeia.

Todos os anos, em 6 de abril, os habitantes de capital bósnia comemoram o Dia da Cidade de Sarajevo. Ele marca tanto o fim da ocupação alemã, em 1945, quanto o início do sítio pelas tropas dos sérvios da Bósnia, em 1992. Dias antes, o Parlamento bósnio declarara a independência do país até então pertencente à comunista Iugoslávia.

Além disso, em 5 de abril, mais de 100 mil cidadãos haviam protestado pela paz – até que, da sede do partido nacionalista sérbio, partiram tiros contra os manifestantes. Duas mulheres foram mortas: as primeiras vítimas da guerra na Bósnia.

Alguns dias depois, as Forças Armadas, antes iugoslavas e agora controladas por nacionalistas sérbios, começaram com o cerco a Sarajevo. Ele duraria 1.425 dias e custaria 11.541 vidas. Até esse momento, a maioria dos quase 4,4 milhões de bósnios – quer os 44% de bosníacos muçulmanos, os 17% de croatas católicos, os 31% de sérvios ortodoxos ou as numerosas minorias nacionais – não acreditava que haveria uma guerra.

Eles tinham bom motivo para tal: um terço dos matrimônios no pequeno Estado do Bálcãs Ocidentais era entre nacionalidades mistas. Devido à industrialização, numerosos trabalhadores migrantes haviam ido de outras partes da Iugoslávia para lá, mas nunca houvera conflitos nas décadas anteriores.

Por outro lado, há muito havia discordância quanto ao futuro da Bósnia. Em 1º de março de 1992, 99,4% do eleitorado votara em referendo pela independência em relação à Iugoslávia. No entanto a participação fora de apenas 63,4%, já que a maioria dos sérvios-bósnios boicotara a consulta.

No fim de 1991, a maioria dos deputados bósnios já abandonara o Parlamento, para, em 9 de janeiro de 1992, fundar seu próprio para-Estado, a República Sérvia (Republika Srpska, RS).
Guerra desigual e mediadores equivocados

No princípio de abril do mesmo ano, os nacionalistas sérvios começaram com a brutal "limpeza étnica" das regiões da Bósnia controladas por suas tropas. A meta não era derrubar as elites não sérvias, mas toda oposição e sociedade civil, culminando com a união com a vizinha Sérvia. Além disso, em 1993 nacionalistas bósnio-croatas armados atacaram os bosníacos, até então seus aliados, exigindo a união com a vizinha Croácia, numa "guerra dentro da guerra" que duraria anos.

Na Bósnia, quem combatia não eram povos contra povos, mas ex-funcionários comunistas convertidos ao nacionalismo, agentes do serviço secreto e militares contra o povo, cuja maioria, segundo as pesquisas de opinião, desejava democracia, Estado de direito e prosperidade como no Oeste da Europa. Isso, contudo, teria representado o fim do domínio pelas elites da época, tendo, portanto, que ser impedido por todos os meios.

Ainda assim, os mediadores internacionais, que desde 1991 intervinham na guerra na Iugoslávia em processo de dissolução – principalmente as Nações Unidas e a Comunidade Europeia, a organização antecessora da atual União Europeia (UE) – tentaram mediar entre os agressores fortemente armados e os quase indefesos agredidos como se se tratasse de um conflito entre adversários equivalentes.

Uma consequência desse equívoco de avaliação foi o envio da levemente armada tropa da ONU Unprofor para assegurar a paz num território onde já reinava a guerra. Não só os capacetes azuis foram incapazes de implementar sequer um dos inúmeros "cessar-fogos" nos três anos e meio seguintes, como fracassaram também na "zona de proteção" das Nações Unidas, onde, em julho de 1995, sérvios armados massacraram mais de 8 mil adolescentes e homens bosníacos.
Acordo de Dayton: consenso indispensável, mas imperfeito

Só com esse genocídio e as ofensivas sérvias aos membros da Unprofor, a comunidade internacional finalmente impôs, no fim de 1995, o Acordo de Paz de Dayton, incluindo uma nova Constituição.

Segundo o pacto que levou o nome da base da Aeronáutica americana em Dayton, Ohio, a Bósnia permaneceu um Estado, mas dividido em duas "entidades", a RS e a Federação da Bósnia e Herzegovina – por sua vez subdividida em dez cantões – além de uma zona administrativa especial.

Nessa construção estatal, uma das mais complicadas do mundo, com um incompreensível caos de ministérios e competências, a manutenção da paz é supervisionada por um Alto Representante (OHR), que responde às potências-garantes de Dayton, reunidas no Conselho de Implementação da Paz (PIC; na sigla em inglês), o qual inclui, além de diversos países europeus, entre os quais a Alemanha, também os Estados Unidos e a Rússia.

Dayton provou ser um mau consenso, mas o único capaz de dar rapidamente fim à guerra que resultara em mais de 100 mil mortos e de 2 milhões de deslocados. No entanto, em vez de ficarem gratos pelo acordo, os líderes bósnio-sérvios o interpretaram como sua vitória.

Nos anos seguintes, o presidente da RS Milorad Dodik expandiu sua zona de poder cada vez mais, na direção de um Estado dentro do Estado bósnio. No entanto, nem a RS nem o restante da Bósnia evoluíram positivamente nos interesses de suas cidadãs e cidadãos.

Hoje, o país dos Bálcãs Ocidentais tem apenas 3,2 milhões de habitantes, o desemprego é alto, os salários são baixos. Numa população envelhecida, a expectativa de vida é cada vez mais baixa, muitos jovens emigram. A política segue sob o domínio de ex-comunistas nacionalistas, como Dodik ou o bósnio-croata Dragan Covic, acusado, tanto pela oposição como por ONGs como a Transparência Internacional, de corrupção, clientelismo e violações dos direitos dos cidadãos e humanos.

A Bósnia está ameaçada de um prolongamento infinito da agonia que a domina desde o fim da guerra. Para evitar isso, o PIC e o OHR precisariam ser reformulados como instituições eficazes, cujo mandato inclua uma reforma do Acordo de Dayton. Além disso o país precisa de uma perspectiva definida em relação à UE.

Isso só será possível sem a Rússia, que, ao que tudo indica, não deseja um Estado democrático funcional na Bósnia. Democracia, Estado de direito, prosperidade e integração europeia são os instrumentos mais eficazes que as democracias podem mobilizar contra o domínio das poderosas "panelas" das nações pós-comunistas, seja na Bósnia, Belarus ou Rússia.
DW Brasil

O esforço do Brasil para reduzir a pegada de carbono da pecuária



Dono do maior rebanho comercial bovino do mundo, o país recorre a tecnologias para mitigar as emissões de gases de efeito estufa associadas ao gado

Área integrada de pasto e floresta na Fazenda Canchim, da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP)

Léo Ramos Chaves


Situada em Rondônia, próximo à divisa com Mato Grosso, a fazenda Corumbiara abriga em seus 16,8 mil hectares (ha) 16 mil cabeças de gado nelore, a principal raça de corte do país. Até seis anos atrás, a propriedade sofria com a baixa produtividade e adotava poucas práticas de sustentabilidade ambiental. Tinha o pasto degradado, com erosão crescente, e o rebanho bebia água em mananciais situados em suas Áreas de Preservação Permanente (APP), reservas legais de vegetação natural que não devem ser acessadas pelos animais.

A mudança veio com a adoção de um sistema produtivo que promove a integração da lavoura com a pecuária (ILP), sistematizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) nos anos 1990. O ILP preconiza a rotação entre atividades agrícolas e pecuárias em uma mesma área com o objetivo de aumentar a eficiência de uso dos recursos naturais e reduzir o impacto ambiental das atividades. A lavoura e os pastos bem manejados podem sequestrar carbono da atmosfera, compensando as emissões do gado – o rebanho bovino é um grande gerador de metano (CH4), um dos gases de efeito estufa (GEE) responsáveis pelo aquecimento global.
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O resultado não demorou a aparecer. Hoje, cada tonelada de carne produzida pelos animais de Corumbiara gera 11,5 toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e). Embora ainda considerado alto, o volume é cerca de 40% inferior à média mundial, estimada em 19,9 tCO2e – dióxido de carbono equivalente é uma medida usada para representar em forma de CO2 os gases de efeito estufa. Os dados são de um estudo pioneiro no país da organização não governamental Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), que fez a mensuração do balanço de carbono entre fornecedores do frigorífico Minerva Foods na América do Sul.

A Corumbiara tem hoje 1.850 ha dedicados ao sistema ILP, o que equivale a 22% dos 8.400 ha de área útil da propriedade destinada à agropecuária – o restante da fazenda, por lei, não pode ser explorado. Outros 1.250 ha da área útil correspondem às APP cercadas e em recuperação com plantio de vegetação nativa. O consórcio entre lavoura e pecuária funciona assim: em setembro é plantada soja, que depois de colhida é comercializada. Em fevereiro, é a vez do milho, combinado com um capim de alta digestibilidade, Brachiaria ruziziensis. O milho é colhido em maio e gradativamente usado como ração, complementando a dieta baseada no capim. A combinação sustenta os animais no período seco, de junho a agosto, quando a área de ILP é liberada para o gado.

Alexandre Affonso


Além de absorver carbono, o capim permite que a produção na área seja intensificada, com três cabeças de gado ocupando cada ha, enquanto a média em outros espaços da fazenda é de 1,5 cabeça por ha. A boa alimentação na seca acelera a engorda dos animais na área de ILP, que chegam ao peso ideal para abate em 22 meses, cerca de um ano a menos do que o padrão. Quanto menor o tempo de vida do boi, mais baixa a emissão de GEE por quilo (kg) de carne produzida.

O plantio do capim traz outros benefícios. Suas raízes e as sobras da pastagem incorporam matéria orgânica ao solo e, com isso, estocam carbono. Ao mesmo tempo, ajudam a descompactação do pisoteio do gado, promovendo melhor reciclagem dos nutrientes da terra. “O ILP é um sistema que gera produtividade e sustentabilidade”, destaca o engenheiro-agrônomo Fábio Souza, gestor da Corumbiara. “Nos próximos dois anos, vamos ampliar para 4 mil ha a área de ILP. Queremos reduzir ainda mais nosso impacto ambiental.”

O peso do metano
O sistema produtivo que associa a criação de gado com o cultivo agrícola ou com o plantio de árvores (IPF) – e, numa versão mais ampla, com lavoura e floresta (ILPF) – é uma das soluções que já vêm sendo usadas no país para tornar a pecuária mais amigável ao ambiente. O Brasil detém o maior rebanho comercial bovino do mundo, de 218 milhões de animais, à frente da China e dos Estados Unidos. Em 2020, liderou o ranking de exportação de carne, com 2,2 milhões de toneladas (t), 14% do mercado global.

Importante fonte de divisas, a pecuária está na mira do movimento ambientalista em razão dos elevados volumes de GEE, principalmente CH4, que lança no ar. Fruto do processo digestivo dos ruminantes, conhecido como fermentação entérica, o metano é gerado no rúmen, um dos quatro compartimentos do estômago dos bovinos, e liberado majoritariamente por meio do arroto ou eructação (ver infográfico acima). Seu potencial para elevar a temperatura global num curto espaço de tempo, como 20 anos, é 80 vezes superior ao do CO2 – no horizonte de 100 anos, é 28 vezes maior. O desmatamento da floresta amazônica, para extração e venda de madeira de modo a abrir espaço para pastagens e lavouras, também colabora indiretamente para as emissões de carbono pelo setor agropecuário. Outro gás gerado pela criação de gado é o óxido nitroso (N2O), resultado da deposição de dejetos animais nas pastagens. A aplicação de fertilizantes nitrogenados em lavouras para corrigir a acidez do solo também libera o gás.

As emissões antrópicas (causadas pela ação humana) de GEE no país somaram 1.467 teragramas (Tg) de CO2e em 2016 – uma Tg equivale a 1 milhão de toneladas. O dado consta do relatório “Quarta Comunicação Nacional do Brasil à UNFCCC [Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima]”, divulgado pelo governo brasileiro em 2020. A agropecuária é o setor que mais emite GEE, com 33% do total, sendo que o subsetor fermentação entérica, que contabiliza o metano liberado por ruminantes (bovinos, búfalos, caprinos e ovinos), representou 19% do total. A bovinocultura, sozinha, foi responsável por 97% das emissões da pecuária. Contas feitas, o arroto do gado foi a causa de 18,5% dos GEE gerados no país (ver infográfico abaixo).
Alexandre Affonso

No ano passado, durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP26, realizada em Glasgow, na Escócia, o Brasil aderiu, com cerca de 100 países, ao Compromisso Global sobre o Metano. Essas nações concordaram em reduzir em 30% as emissões do gás até 2030, tendo como base o ano de 2020. Para cumprir o tratado, o país terá obrigatoriamente que tornar sua pecuária mais limpa.

“É um desafio considerável, mas há condições de cumprir a meta firmada na COP26. Temos hoje 165 milhões de ha de pasto e grande espaço para manejar essas áreas a fim de torná-las mais sustentáveis”, avalia o engenheiro-agrônomo Flávio Augusto Portela Santos, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), especialista em produção e nutrição de bovinos.

Segundo o pesquisador, o Brasil dispõe de várias tecnologias para tornar a pecuária uma atividade mais eficiente e com menor emissão de carbono. Além do sistema ILP e suas variantes, já implantados em estimados 16 milhões de ha de pasto, os pecuaristas podem recorrer a técnicas para fazer o correto manejo da pastagem e a suplementação alimentar com aditivos a fim de reduzir a geração de metano (ver reportagem). O melhoramento genético do pasto, para produzir capim mais facilmente digerível, e dos bovinos, para que atinjam mais cedo o peso para o abate (ver Especial 50 anos FAPESP), também são soluções possíveis.

“As pesquisas avançaram muito nos últimos anos. Agora, é preciso que esse conhecimento chegue ao campo e as tecnologias sejam aplicadas em maior escala no processo produtivo”, ressalta Santos, que liderou um projeto apoiado pela FAPESP sobre suplementação de bovinos em pastagem tropical.

Uma das linhas atuais de investigação do agrônomo é o processamento de milho e sorgo para melhorar a eficiência alimentar e reduzir o metano gerado por quilo de carne e litro de leite produzidos. Outro estudo, em parceria com a multinacional do setor agrícola Syngenta, tem como foco um milho geneticamente modificado, dotado de uma enzima, a amilase, que ajuda o animal a digerir melhor o grão. “Com uma digestão mais eficaz, conseguimos reduzir a geração de metano”, explica.

Em laboratório da Esalq-USP, momento de experimento que avalia ingredientes nutricionais com potencial para diminuir a emissão de metano por bovinosLéo Ramos Chaves

Estratégias para mitigar
Especialista em mitigação de emissão de GEE em sistemas de produção de ruminantes, o engenheiro-agrônomo Guilhermo Congio também defende ser possível tornar a pecuária brasileira mais amigável ao clima do planeta. “Diversas pesquisas feitas no país nos últimos anos indicam que a adoção de tecnologias pelo setor pode compensar suas emissões, ao sequestrar mais gases de efeito estufa do ambiente do que emite”, destaca.

Doutor pelo Programa de Pós-graduação em Ciência Animal e Pastagens da Esalq-USP, Congio foi um dos coordenadores de um projeto internacional de pesquisa, o Latin America Methane Project (Lamp), concluído no ano passado, que fez uma meta-análise de 34 estratégias potenciais para mitigação de metano entérico. Essas soluções foram divididas em três grupos: melhoramento genético animal, nutrição e manipulação do rúmen.

“Das 34 estratégias avaliadas, 16 reduziram a taxa de ao menos uma métrica relativa à emissão do gás sem comprometer a produção animal. Dessas, três diminuíram as emissões absolutas de metano pelo gado, medidas em gramas por dia, e 13 reduziram a emissão do gás de forma relativa, em gramas de metano por kg de carne ou litro de leite produzido ou por kg de alimento ingerido pelo animal”, explica Congio. O projeto teve a participação de cerca de 80 pesquisadores de 26 instituições de oito países da América Latina e Caribe. Os resultados foram divulgados no Journal of Cleaner Production, em agosto de 2021.

O pesquisador explica que, grosso modo, as soluções para tornar a pecuária mais sustentável podem focar tanto na redução das emissões de metano entérico pelo gado e de óxido nitroso pelo solo e dejetos dos animais, quanto no sequestro de carbono do ambiente, compensando o lançamento de GEE pelo setor. O uso de aditivos na alimentação animal é um exemplo do primeiro grupo, enquanto o plantio de florestas junto ao pasto, do segundo. “Embora a pecuária responda por uma fração considerável das emissões brasileiras, as pastagens manejadas de maneira correta e sistemas integrados de produção com inclusão de árvores têm grande capacidade de sequestrar CO2 da atmosfera”, diz Congio. Para compensar a emissão de um 1 kg de metano liberado pelos animais, é preciso remover 28 kg de CO2 do ambiente.

O cientista do clima Alexandre Costa, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), questiona os esforços que o país tem feito para reduzir a pegada de carbono da indústria da carne e defende que o setor precisa rever sua extensão. “O modelo brasileiro não é sustentável”, afirma. Costa foi um dos autores do primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) e lembra que a agropecuária tem crescido em extensão de terra em biomas como o Cerrado e a Amazônia, causando destruição. “Como sabemos, desmatamento implica emissões de CO2.”

Um estudo brasileiro, cujos resultados foram publicados na revista científica Communications Earth & Environment, em 2021, mostrou que a Amazônia produz 8% do metano do planeta, sendo que 11% desse volume é gerado pela pecuária (ver Pesquisa FAPESP nº 312).

O empenho para descarbonizar a pecuária brasileira não é de hoje. Há mais de duas décadas universidades e centros de pesquisa se dedicam a encontrar soluções para o problema e em 2010 o governo lançou o Plano ABC – Agricultura de Baixa Emissão de Carbono. Elaborado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), foi criado para levar tecnologias sustentáveis e produtividade ao campo. O sistema ILPF e suas variantes, assim como a recuperação de pastagens degradadas e o tratamento de dejetos animais, integravam o programa e viraram políticas públicas.

Em laboratório da Esalq-USP, momento de experimento que avalia ingredientes nutricionais com potencial para diminuir a emissão de metano por bovinosLéo Ramos Chaves

Como explica a zootecnista Fernanda Garcia Sampaio, da Coordenação-geral de Mudança do Clima e Agropecuária Conservacionista do Mapa, a ação do governo se divide no apoio ao desenvolvimento das tecnologias, na promoção de assistência técnica capaz de levar as inovações até os produtores e na oferta de financiamento. Em 10 anos, o Plano ABC concretizou 38 mil contratos de crédito voltados à adoção de práticas mais sustentáveis no campo, totalizando R$ 32 bilhões.

Para o período 2020-2030, o plano, rebatizado de ABC+, incorporou novas práticas, entre elas a terminação intensiva, que reduz o tempo de engorda do animal para o abate. O objetivo é ampliar em 72 milhões de ha a área agropecuária com as tecnologias do plano – hoje são perto de 50 milhões de ha – e alcançar uma capacidade de mitigação estimada em 1,1 bilhão de tCO2e até 2030.

O ABC+ projeta uma expansão do sistema ILPF em mais 10 milhões de ha no período. Caso seja bem-sucedido, o consórcio entre lavouras, florestas e pecuária responderá por cerca de 23% dos 112 milhões de ha de área de pastagens plantadas no Brasil. Cada ha onde é implementado o ILPF tem potencial de remover, em média, 3,79 tCO2e da atmosfera por ano.
Alexandre Affonso


Uma pesquisa coordenada pelo engenheiro-agrônomo José Ricardo Pezzopane, da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), comprovou os benefícios para o clima global do plantio de eucaliptos em um sistema produtivo ILPF. As mudas foram plantadas em 12 ha em linhas simples e espaçamento de 15 metros (m) entre as linhas e 2 m entre as árvores, gerando uma densidade de 333 eucaliptos por ha. “Os eucaliptos acumularam 65 toneladas de carbono por ha ao longo de oito anos, até o corte, gerando 225 metros cúbicos (m3) de madeira – uma fonte extra de renda ao pecuarista. Um artigo detalhando o estudo foi divulgado no ano passado no periódico Agriculture, Ecosystems & Environment.

Segundo Pezzopane, a escolha das espécies de árvores plantadas em um sistema de ILPF depende de vários fatores relacionados à busca de benefícios ambientais, econômicos e sociais. “Temos muitas possibilidades de escolha entre espécies nativas e exóticas, assim como de densidade de plantio [número de árvores por hectare]”, destaca. Alguns tipos de árvore, como frutíferas ou castanheiras, permanecem, em tese, mais tempo no ambiente e podem absorver mais carbono do que as espécies destinadas ao corte.

A estratégia de produção ILPF também está sendo adotada fora do país. Austrália e Nova Zelândia são exemplos. Nesses dois países da Oceania o sistema é parte importante nas políticas que estão sendo implantadas para zerar as emissões líquidas de carbono na pecuária até 2050.

Outros grandes produtores globais de carne investem para tornar suas pecuárias mais limpas. Em novembro de 2021, a administração Joe Biden, dos Estados Unidos, lançou um ambicioso plano de ação que tem como uma de suas metas descarbonizar a pecuária do país. Os Estados Unidos também lideram a Iniciativa Global para o Metano, uma colaboração internacional, da qual o Brasil faz parte, com a finalidade de mitigar a emissão do gás em vários setores da economia, inclusive o agropecuário.
REVISTA FAPESP

Brasil prepara-se para iniciar produção de hidrogênio verde





Projetos produtivos e pesquisas acadêmicas tentam colocar o país no mapa mundial do gás sustentável, apontado como o combustível do futuro


Experimento na UFSCar com célula de eletrólise de água para geração de hidrogênio feita com catalisador de fosfato de níquel

O Brasil está fazendo um esforço para entrar no mapa global de produção de H2V (H2 de hidrogênio e V de verde), combustível limpo com potencial para atender demandas do setor elétrico e automotivo com baixo impacto ambiental. Até o final deste ano, a EDP Brasil, uma das empresas líderes do setor de energia no país, planeja iniciar as atividades em uma unidade-piloto de produção de H2V em São Gonçalo do Amarante, no Ceará. O hidrogênio será obtido por meio da eletrólise da água, um processo químico que utiliza corrente elétrica para decompor a água em seus constituintes, hidrogênio (H, formando H2) e oxigênio (O, formando O2) existentes na molécula de água (H2O). Quando o processo de eletrólise emprega fontes renováveis de energia, como eólica, solar ou biomassa, o hidrogênio é classificado como verde. A usina da EDP utilizará energia fotovoltaica e terá capacidade para produzir 22,5 quilos (kg) de hidrogênio por hora. O investimento previsto é de R$ 41,9 milhões.

Frequentemente apontado como o combustível do futuro, o hidrogênio tem alto poder calorífico, quase três vezes superior ao do diesel, da gasolina e do gás natural. Ao ser transformado em energia – alimentando um motor a combustão ou em qualquer outra aplicação –, não emite gases de efeito estufa (GEE). O hidrogênio residual liberado na atmosfera, em contato com o oxigênio, resulta em vapor-d’água.

Elemento mais abundante do Universo, o hidrogênio é raramente encontrado de forma isolada na Terra, mas está presente em inúmeros compostos, incluindo água, combustíveis fósseis e diferentes tipos de biomassa. A obtenção do gás, nesses casos, depende dos processos envolvidos. O mais comum deles é a reforma a vapor, uma reação química de hidrocarbonetos, comumente gás natural, com água. O hidrogênio produzido por essa via é denominado de cinza, uma vez que seu processo de conversão libera CO2 na atmosfera, ou azul, quando o gás carbônico gerado durante sua produção é capturado e armazenado geologicamente.

O hidrogênio verde produzido na usina-piloto cearense será utilizado para substituir parte do carvão mineral que abastece a Usina Termelétrica do Pecém (UTE Pecém). “É um projeto de pesquisa e desenvolvimento [P&D] que nos permitirá entender o ganho energético proporcionado pelo hidrogênio, com poder energético mais de quatro vezes superior ao do carvão”, diz Cayo Moraes, gestor de operação da EDP.

A usina-piloto de H2V também permitirá à companhia observar a viabilidade técnica, regulatória e econômica da produção do combustível. A expectativa é que a unidade forneça os subsídios necessários para a decisão sobre a implementação de uma planta em escala industrial no estado. Nesse caso, o hidrogênio poderá ser exportado para companhias energéticas europeias, gerar combustível veicular ou abastecer empresas industriais.

O projeto é visto por especialistas do setor energético como o primeiro de uma série de iniciativas voltadas à produção de hidrogênio verde no país. Apenas o governo do Ceará já soma 14 memorandos de entendimento com grupos privados interessados em produzir o combustível no estado. “Talvez nem todos se viabilizem. Mas se a metade dos acordos se tornar efetivo, teremos o equivalente a uma Itaipu em operação no Ceará entre 2025 e 2030”, declara Roseane Medeiros, secretária-executiva da Indústria da Secretaria do Desenvolvimento Econômico e Trabalho do Estado do Ceará (Sedet). A hidrelétrica de Itaipu, a maior do país, tem potência instalada de 14 gigawatts (GW).

Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul também informam possuir memorandos assinados com grupos geradores de energia. A corrida pela atração de projetos de produção de hidrogênio verde é global. Chile, Japão, Alemanha, Holanda, Estados Unidos, Coreia do Sul, Austrália e China são alguns dos países que anunciaram programas nacionais de estímulo ao desenvolvimento tecnológico e à produção de H2V.

Participação ínfima
O mundo soma 520 projetos de usinas de hidrogênio, segundo o Hydrogen Council, associação que reúne representantes dos maiores produtores do gás. Se confirmados, demandarão investimentos de US$ 160 bilhões. A estimativa da associação é que a produção do combustível ultrapasse 600 milhões de toneladas por ano (mt/ano) e responda por 22% da demanda mundial de energia em 2050, o que permitiria uma redução de 20% nas emissões de GEE no mundo. As projeções da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) são mais modestas. Para ela, o setor irá produzir 409 mt/ano em 2050, o que responderá, nos cálculos da entidade, por 12% da demanda global de energia.

Atualmente, a contribuição do hidrogênio na matriz energética mundial é ínfima. Praticamente todo o hidrogênio produzido, pouco mais de 100 milhões de toneladas anuais, é utilizado com finalidades químicas em processos industriais, como o refino de petróleo, na produção de fertilizantes, em siderúrgicas e na indústria química.

Especialistas preveem que o processo produtivo de H2V predominante nos próximos anos será o de eletrólise da água – o mesmo proposto para a usina-piloto cearense. Esse método será obtido principalmente por plantas equipadas com eletrolisadores (equipamentos responsáveis pelo processo de eletrólise) abastecidos por fontes de energia renovável, garantindo que todo o processo seja isento de GEE (ver infográfico).
Alexandre Affonso


Uma das principais barreiras para maior oferta de hidrogênio verde no mundo é a necessidade de ganhos de maturidade tecnológica na cadeia produtiva do hidrogênio, informa o relatório “Geopolitics of the energy transformation: The hydrogen fator”, divulgado pela Irena em janeiro. Outra é o alto custo produtivo e logístico.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o custo do quilo do hidrogênio cinza é de pouco mais de US$ 1 – o que permite que seja competitivo em relação ao gás natural. O hidrogênio azul custa em média US$ 2,3 por quilo. O quilo do hidrogênio verde fica entre US$ 3 e US$ 8, dependendo da fonte de energia utilizada e a região do mundo onde essa energia é produzida. A expectativa da Irena é que a ampliação da oferta de energias renováveis no mundo e ganhos de escala produtiva tornem o hidrogênio verde competitivo com o azul em 2030 e, no decorrer da próxima década, os custos produtivos se aproximem do apresentado pelo hidrogênio cinza.

De acordo com o Plano Nacional de Expansão de Energia (PDE 2031), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), instituição ligada ao Ministério de Minas e Energia, o Brasil reúne condições para produzir hidrogênio verde mais barato que a média internacional. O custo estimado do H2V – uma vez que ainda não há produção efetiva – está entre US$ 2,2 e US$ 5,2 por quilo no país.

“A popularização do hidrogênio se dará por necessidade. Vivemos uma emergência ambiental e o mundo já percebeu que não é possível mais depender de combustíveis fósseis para gerar eletricidade e abastecer veículos”, diz o engenheiro Paulo Emílio Valadão de Miranda, diretor do Laboratório de Hidrogênio do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) e presidente da Associação Brasileira de Hidrogênio (ABH2).

Eletrolisadores
Uma oportunidade para reduzir os custos da produção de hidrogênio é aumentar a eficiência dos eletrolisadores. Pesquisadores do Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais da Universidade Federal de São Carlos (CDMF-UFSCar), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP, estudam materiais capazes de reduzir o consumo de energia no processo químico de decomposição da molécula da água. Como explica a química Lúcia Helena Mascaro Sales, diretora de pesquisa do projeto, um dos melhores materiais catalisadores – substâncias que aumentam a velocidade das reações químicas na eletrólise – são os metais nobres, principalmente a platina. Níquel, cobalto ou molibdênio também podem ser utilizados associados a ligas de ferro ou como sulfetos com ótimo desempenho.

A equipe da UFSCar pesquisa o uso de materiais como óxido de titânio modificado com sulfeto de molibdênio ou diferentes ligas compostas por níquel, cobre, molibdênio e ferro. “Em escala de laboratório, demonstramos que é possível reduzir significativamente o consumo de energia na eletrólise da água”, diz Mascaro. A petroleira anglo-holandesa Shell, copatrocinadora com a FAPESP em outro projeto de pesquisa do qual Mascaro participa, sobre portadores densos de energia, tem interesse em testar os catalisadores desenvolvidos em plantas-piloto em Amsterdã, nos Países Baixos, e em Houston, nos Estados Unidos.

Carro é abastecido com hidrogênio em uma estação de combustível em Antuérpia, na Bélgica
Jasper Jacobs / Belga MAG / AFP via Getty Images

Carro é abastecido com hidrogênio em uma estação de combustível em Antuérpia, na BélgicaNa Universidade Federal do Ceará (UFC), a professora Adriana Nunes Correia, do Departamento de Química Analítica e Físico-química, também investiga materiais metálicos capazes de aumentar a eficiência e reduzir custos dos eletrolisadores. A proposta da pesquisa, ainda em fase inicial, é utilizar células de eletrólise microbiana, empregando microrganismos como biocatalisadores, para produzir hidrogênio a partir de esgotos domésticos ou de efluentes industriais. A ideia é transformar a energia química do esgoto em corrente elétrica, que possibilita a obtenção do gás. “O processo permitiria produzir hidrogênio e, simultaneamente, tratar resíduos orgânicos”, afirma Correia.

Pesquisas com foco em hidrogênio verde também são feitas na Universidade Federal do Paraná (UFPR). O químico Helton José Alves, coordenador do Laboratório de Materiais e Energias Renováveis, dedica-se ao estudo de novas rotas tecnológicas para a produção do combustível. Uma delas recorre a bactérias acidogênicas para degradar a biomassa residual proveniente de efluentes industriais.

A investigação rendeu a publicação de dois artigos no periódico International Journal of Hydrogen Energy. Os trabalhos abordam a produção de hidrogênio a partir de água residual de cervejaria. “A grande vantagem é reduzir os custos de produção e economizar recursos hídricos”, diz Alves. O processo produtivo seria indicado para a produção de hidrogênio como solução energética para a própria indústria onde o efluente é gerado.

Outro caminho estudado para produção de hidrogênio é usar o método conhecido como reforma a seco do biogás. Alves explica que o sistema prevê o uso do metano e do dióxido de carbono presentes no biogás para a geração de gás de síntese, uma mistura de hidrogênio e monóxido de carbono. O processo ocorre em reatores com catalisadores metálicos à base de níquel, a uma temperatura entre 700 e 800 graus Celsius. Posteriormente, o gás de síntese é purificado para obtenção de hidrogênio. “Junto com parceiros, pretendemos instalar uma unidade-piloto capaz de produzir 1 kg de hidrogênio por hora ainda em 2022”, antecipa Alves. Ao contrário do sistema convencional de reforma a vapor do gás natural, o sistema a seco não demanda água.

O estudo de rotas produtivas de hidrogênio que não dependem de água pura em seus processos é de grande relevância e acompanhado de perto pelos profissionais do setor. De acordo com a Irena, para produzir 409 milhões de toneladas anuais de hidrogênio verde e suprir 12% da demanda mundial de energia em 2050, será necessário o consumo de algo entre 7 bilhões e 9 bilhões de metros cúbicos de água por ano. O total é menos de 0,25% do consumo atual de água doce. Pode parecer pouco, mas é um volume impactante em um mundo onde esse recurso está se tornando escasso.

Projetos
1. Divisão de Pesquisa 1 – Portadores densos de energia (nº 17/11986-5); Modalidade Centros de Pesquisa em Energia; Convênio BG E&P Brasil (Grupo Shell); Pesquisadora responsável Ana Flávia Nogueira (Unicamp); Investimento R$ 8.282.252,10.
2. CDMF – Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (nº 13/07296-2); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisador responsável Elson Longo da Silva (UFSCar); Investimento R$ 34.869.423,03.

Artigos científicos
SANTOS, H. L. S. et al. NiMo-NiCu nimo-nicu inexpensive composite with high activity for hydrogen evolution reaction. ACS Applied Materials & Interfaces. v. 12, n. 15, p. 17492–501. 27 mar. 2020.
SALOMÃO, A. C. et al. Towards highly efficient chalcopyrite photocathodes for water splitting: the use of cocatalysts beyond Pt. ChemSusChem. v. 13, n. 21, p. 4671-9. 4 nov. 2021.
ARAÚJO, M. A. et. al. Improved photoelectrochemical hydrogen gas generation on Sb2S3 films modified with an earth-abundant MoSx co-catalyst. ACS Applied Energy Materials. v. 5, n. 1, p. 1010-22. 13 jan. 2022.
ARANTES, M. K. et al. Treatment of brewery wastewater and its use for biological production of methane and hydrogen. International Journal of Hydrogen Energy. v. 42, n. 42, p. 26243-56. 19 out. 2017.
ESTEVAM, A. et al. Production of biohydrogen from brewery wastewater using Klebsiella pneumoniae isolated from the environment. International Journal of Hydrogen Energy. v. 43, n. 9, p. 4276-83. 1º mar. 2018.
ALVES, H. J. et al. Overview of hydrogen production technologies from biogas and the applications in fuel cells. International Journal of Hydrogen Energy. v. 38, n. 13, p. 5215-25. 1º mai. 2013.
REVISTA FAPESP

segunda-feira, 21 de março de 2022

O fim do trabalho. Entre a distopia e a emancipação







RESUMO

O fim dos empregos é anunciado como tendência incontornável ao menos desde o século XIX. A previsão e suas consequências ocuparam algumas das melhores mentes do pensamento social desde então. A revolução digital trouxe novo alento a essa profecia. Este artigo procura mostrar que, embora as formas mais avançadas da revolução digital (a Inteligência Artificial, a Aprendizagem de Máquinas e a Internet das Coisas) já estejam substituindo boa parte dos trabalhos atualmente existentes, não é aí que reside sua maior ameaça. O problema maior da revolução tecnológica do século XXI é que ela está fortalecendo uma polarização social do mercado de trabalho que vai na contramão do que foram as bases do próprio Estado de bem-estar do século XX.

PALAVRAS-CHAVE:
Trabalho; Emprego; Crescimento econômico; Automação; Polarização social; Tecnologia

ABSTRACT

The end of jobs is heralded as an inescapable trend at least since the 19th century. The prediction and its aftermath have occupied some of the best minds in social thinking since then. The digital revolution has given new impetus to this prophecy. This article seeks to show that, although the more advanced forms of the digital revolution (artificial intelligence, machine learning and the Internet of Things) are already replacing many of the jobs that currently exist, this is not where greatest threat lies. The biggest problem with the technological revolution of the 21st century is that it is exacerbating the social polarization of the labor market that goes against the very foundations of the welfare state of the 20th century.

KEYWORDS:
Work; Jobs; Economic growth; Automation; Social polarization; Technology

Emprego e abundância

Foram imensas as diferenças de opinião e de método entre Karl Marx e John Stuart Mill.1 No entanto, para ambos, as tecnologias da revolução industrial aumentariam a tal ponto a produtividade do trabalho, que seria cada vez menor o esforço humano para satisfazer as necessidades sociais. Essa abundância permitiria, para Mill, que, no futuro, a sociedade deixasse de se organizar em torno da busca da riqueza e buscasse objetivos mais nobres (Valadão de Mattos, 1998). Em Marx o desenvolvimento das forças produtivas criaria as condições objetivas para que a produção social não se organizasse mais em torno da busca do lucro privado. Com isso a própria sociabilidade humana deixaria de ter como eixo central as trocas mercantis e assim o trabalho assalariado poderia tornar-se resquício de uma era passada (Abramovay, 2009). Claro que em ambos os casos, o pressuposto de tais utopias são transformações radicais (mesmo que, no caso de Mill, graduais) na própria organização social. Em Mill, essas transformações se exprimem no estado estacionário; em Marx, no comunismo.2

Durante o século XX esperança e desalento acompanharam algumas das mais importantes reflexões em torno da necessidade cada vez menor do trabalho para a oferta dos bens necessários à vida humana. Em 1930, John Maynard Keynes (1930) publica sua conferência sobre “As possibilidades econômicas para nossos netos”, em que define o desemprego tecnológico como aquele “devido a nossas descobertas dos meios de economizar o uso do trabalho, que ultrapassam o ritmo ao qual podemos encontrar novos usos para o trabalho”. Mas esse descompasso é apenas temporário. Na verdade, ele exprime o fato de que a “espécie humana está resolvendo seu problema econômico” (grifado no original). Resolver o problema econômico significa enfrentar questões bem diferentes daquelas pelas quais é definida, convencionalmente, a própria economia como ciência, ou seja, a alocação de recursos escassos entre fins alternativos.

A semelhança com relação a John Stuart Mill e sobretudo a Marx é notável. Mas Keynes (1930) exprime preocupação ausente dos clássicos do século XIX: “pela primeira vez desde sua criação, o homem enfrenta seu real e permanente problema: como usar sua liberdade com relação à pressão dos cuidados econômicos, como ocupar o tempo livre... para viver bem, de forma sábia e agradável”.

É notável também a proximidade entre o texto de Keynes e as reflexões de Hannah Arendt (1983). No prólogo de The Human Condition (publicado em 1958), ela comenta o lançamento do Sputnik, em 1957, como a tentativa de emancipar o homem da natureza terrestre, da quintessência de sua própria condição, daquilo que vincula o homem a “todos os outros organismos vivos” e, em última análise, aos limites naturais que definem a própria vida. A reflexão lhe serve de mote para um “acontecimento não menos ameaçador”: “a chegada da automatização que, em algumas décadas provavelmente esvaziará as fábricas e libertará a humanidade de seu fardo mais antigo e natural, o fardo do trabalho, a sujeição à necessidade” (Arendt, 1983, p.37).

Essa libertação é ilusória, já que as sociedades modernas glorificam o trabalho. E isso conduz a um decisivo paradoxo: “é uma sociedade de trabalhadores que será libertada das amarras do trabalho e esta sociedade nada sabe sobre as atividades mais altas e enriquecedoras pelas quais valeria a pena ganhar esta liberdade” (Arendt, 1983, p.37).

Em 1964, o presidente Lyndon Johnson convoca a Comissão Ad Hoc sobre a Tríplice Revolução (a cibernética, a das armas de confronto militar e a dos direitos humanos - cybernation, weaponry, human rights), que conta com um notável grupo de intelectuais, como os prêmios Nobel Gunnar Myrdal e Linus Pauling. A ênfase da Comissão é sobre a “revolução cibernética” que se encontra em seus primórdios e é um fenômeno ainda fundamentalmente norte-americano, mas que deverá, segundo a Comissão, ampliar-se mundo afora. Nessa época, o desemprego nos Estados Unidos era alto, ainda que contrabalançado pela demanda pública derivada dos gastos militares. Nesse contexto, a chamada revolução cibernética é uma ameaça, pois ela “invalida o mecanismo geral até aqui empregado para garantir os direitos das pessoas como consumidoras. ... No desenvolvimento do sistema cibernético, é potencialmente ilimitado o produto que pode ser alcançado pelos sistemas de máquinas que vão requerer escassa cooperação dos seres humanos”.3

Tanto os clássicos do pensamento social acima mencionados como o relatório encomendado pelo governo Lyndon Johnson levantam questões atuais quanto ao sentido do trabalho e sua relação com o progresso técnico. No entanto, a previsão de um mundo sem trabalho nem de longe se realizou durante o século XX. Mas e agora, com a revolução digital, será que os termos do debate alteram-se qualitativamente, e o temor (ou a utopia) de um mundo em que o trabalho humano tem importância decrescente é nosso horizonte mais provável?

Não existe resposta consensual a essa pergunta, mesmo entre os especialistas do tema. Vale a pena expor o pensamento de alguns dos mais importantes estudiosos contemporâneos para que se tenha uma ideia dos termos do debate.
Necessidades e desejos

Se a produtividade amplia, por definição, o produto por trabalhador, e se a economia do século XX é marcada por fantástico aumento na produtividade, por que razão o sistema econômico contemporâneo ainda é tão dependente de trabalho? Por que razão a previsão de Keynes (Skidelsky; Skidelsky, 2012, p.23) de que a geração de seus netos aumentaria de quatro a oito vezes a riqueza econômica (aí sua bola de cristal funcionou razoavelmente) reduzindo-se a jornada a algo em torno de quinze horas semanais (patamar que não foi alcançado nem mesmo pelos mais avançados Estados de bem-estar social)?

Um dos mais importantes pressupostos da profecia do fim do trabalho é que, uma vez satisfeitas as necessidades em que se apoia uma vida social civilizada em termos materiais e culturais, num ambiente de avanço tecnológico, reduz-se brutalmente a quantidade de trabalho útil que a economia é capaz de absorver. No já citado texto de Keynes, ele faz uma clara distinção entre necessidades absolutas e necessidades relativas, ou seja, as “que sentimos somente se sua satisfação nos eleva acima, faz-nos sentir superiores aos outros”. Luigino Bruni e Stefano Zamagni (2007) mostram que essas necessidades são satisfeitas pelo que chamam de “bens posicionais”, cuja demanda tende ao infinito: uma vez alcançados, eles perdem imediatamente o valor, em virtude da propensão a que se deseje mais bens dessa natureza.

É compreensível que no século XIX e na primeira metade do século XX, os bens posicionais ocupassem um lugar pouco relevante no raciocínio dos economistas. Assim, a ideia de que uma vez satisfeitas as necessidades humanas, num contexto de elevação da produtividade a demanda por trabalho tenderia a zero torna-se verossímil. Essa ideia é, porém, contestada por ao menos duas importantes vertentes do pensamento econômico mais recente.

A primeira delas encontra-se nos trabalhos de Daron Acemoglu e seus colaboradores. Trabalho de Acemoglu em coautoria com Pascual Restrepo sustenta a ideia de que “a história da tecnologia não versa apenas sobre o deslocamento do trabalho humano por tecnologias de automação. Se assim fosse, estaríamos confinados a um estreito conjunto de velhas tarefas e trabalho com um nítido declínio da participação do trabalho na renda nacional” (Acemoglu; Restrepo, 2019a). Na verdade, o próprio avanço tecnológico acaba criando tanto novas oportunidades de consumo (borrando a distinção entre bens necessários e posicionais) como sobretudo novos produtos. Acemoglu e Restrepo mostram, por exemplo, que entre 1980 e 2015, metade do crescimento do emprego nos Estados Unidos veio de ocupações ou tarefas não existentes antes desse período.

Isso não quer dizer, alertam os autores, que toda melhoria tecnológica tenha por consequência aumento de emprego. Tudo vai depender da capacidade de criação de novas ocupações e de quanto essas novas ocupações dependem de trabalho. Situações de lenta evolução da produtividade têm também a conse- quência de desacelerar a criação de novos postos de trabalho. E nos Estados Unidos, nos últimos trinta anos, apesar das inovações tão disruptivas trazidas pela revolução digital, o avanço da produtividade foi extremamente lento.

Pior: o formato da evolução tecnológica estimulou muito mais a adoção de técnicas que substituem o trabalho do que daquelas que o tornam mais produtivo. A automação tornou-se barata (inclusive por meio de incentivos governamentais), e desestimulou a adoção de técnicas que ampliem, de forma mais produtiva, o uso do trabalho. Além disso, o despreparo da força de trabalho para as tarefas que exigem os conhecimentos típicos da era digital também inibiu a criação de novos postos de trabalho.

A conclusão de Acemoglu e Restrepo não consiste em fazer apologia acrítica do progresso tecnológico, como se esse, seja qual for seu conteúdo, tivesse o condão de gerar novas atividades e, portanto, multiplicar os empregos. Tudo depende do tipo de tecnologia que cada sociedade vai adotar. É nesse sentido que o importante estudo de Carl Benedict Frey (2019) distingue tecnologias que substituem daquelas que abrem caminho a (enable) trabalho.

Essa distinção é tão importante que, em paper escrito também em 2019 Acemoglu e Restrepo levantam a hipótese de a sociedade norte-americana estar adotando uma espécie equivocada de inteligência artificial: “muitas novas tecnologias - as chamadas tecnologias de automação (sublinhado no original) - não aumentam a produtividade do trabalho, mas são explicitamente voltadas a deslocar (replace) o trabalho substituindo capital barato (máquinas) num conjunto de tarefas desempenhadas por humanas” (Acemoglu; Restrepo, 2019b). A consequência é que, com essa modalidade de progresso técnico, a participação dos salários na distribuição da renda nacional vai declinando.

É completamente ilusória a ideia de que a atuação das forças de mercado conduzirá os empresários a adotar as melhores tecnologias, ou seja, as que aumentam simultaneamente a produtividade e têm incidência positiva sobre a demanda de trabalho. O alerta lançado por Acemoglu e Restrepo é tanto mais importante que eles estão entre os mais prestigiados e citados economistas do século XXI. Ao se perguntarem por que razão estão sendo adotadas as modalidades erradas de inteligência artificial, eles afirmam: “os economistas tendem a colocar grande confiança na habilidade do mercado em alocar recursos da maneira a mais eficiente. Mas a maior parte dos experts reconhece que a estrela do mercado não reluz de forma tão brilhante, quando se trata de inovação” (ibidem).

As inovações trazem externalidades e, com imensa frequência, respondem aos interesses e à cultura das empresas que dominam a vida econômica. A hipótese de Acemoglu e Restrepo é que as empresas do Vale do Silício oferecem prêmios excessivos à automação e prestam insuficiente atenção a outros usos das tecnologias de fronteira. A automação que elimina trabalho é muito menos que uma decorrência espontânea da evolução tecnológica. Ela é, isso sim, o resultado de uma opção, de um caminho que beneficia antes de tudo os gigantes que dominam o mundo digital. Há aí o que Acemoglu e Restrepo não hesitam em chamar de distorção.

A segunda vertente de contestação à ideia de que o aumento da produtividade faz que a demanda de trabalho tenda a zero vem do historiador Joel Mokir et al. (2015), num fascinante paper sobre a história da “ansiedade tecnológica” (em coautoria com Chris Vickers e Nicolas Ziebarth). Eles partem, como Acemoglu e Restrepo, da ideia de que a mecanização da era industrial acabou criando novas necessidades (tanto na produção como no consumo) e, com isso, novos postos de trabalho. Referindo-se ao século XIX, eles mostram que “o progresso tecnológico também assumiu a forma de inovação de produto, e criou assim setores inteiramente novos para a economia, um desenvolvimento que escapava à discussão dos economistas desta época” (Mokir et al, 2015, p.36).

Mokir e seus colaboradores não endossam a ideia de que as tecnologias digitais do século XXI são necessariamente destruidoras de empregos. Para eles as tecnologias digitais estão trazendo e vão trazer novos produtos, e com eles novas ocupações. Mas seu artigo já adianta duas tendências claras e preocupantes. A primeira é a diferenciação social nas oportunidades de emprego, na própria remuneração dos trabalhadores e na maneira como usam o tempo livre. Trabalhadores que não completaram a high school (correspondente a nosso ensino médio), nos Estados Unidos, tiveram ampliado seu tempo de lazer entre 1965 e 2003 em dez horas semanais, tempo que passou a ser dedicado basicamente à televisão. Já entre os diplomados do curso superior esse aumento no tempo de lazer foi de apenas uma hora. A mecanização vem atingindo tarefas rotineiras, justamente as executadas por quem se encontra na base da pirâmide.

A segunda tendência apontada por Mokir e seus colaboradores é a maior flexibilidade do trabalho e, com ela, maior incerteza para os trabalhadores. Quase metade dos trabalhadores em tempo parcial nos Estados Unidos tem conhecimento de seu calendário de trabalho com menos de uma semana de antecedência. Kalil Filho (2019) mostrou os impactos destrutivos do poder das empresas-plataforma como Uber ou Amazon Turk sobre a vida cotidiana dos trabalhadores. O que Mokir e seus colaboradores antecipam é um mundo em que necessidades básicas serão quase que universalmente preenchidas, mas onde provavelmente os segmentos que se encontram na base da pirâmide social terão que ser objeto de transferências públicas para não cair na miséria absoluta.

Os trabalhos de Acemoglu e Restrepo, bem como os de Mokir e seus colaboradores são expressivos de uma vertente do pensamento econômico contemporâneo que recusa frontalmente a ideia de que a revolução digital significa o fim do trabalho. Mas em ambos os casos, esse otimismo é ao menos parcialmente contrabalançado pela tendência à polarização social contida no horizonte mais próximo da revolução digital. No caso de Acemoglu e Restrepo está em jogo, mais que isso, o próprio formato das tecnologias digitais atualmente predominantes.
Desta vez é diferente

A ideia de que a revolução digital trará rupturas no mercado de trabalho prejudiciais à própria coesão social pode ser sintetizada na obra de três autores de grande prestígio internacional.

O livro de Robert J. Gordon foi escolhido como um dos mais importantes de 2016 pelo Financial Times. Gordon rejeita o tratamento econômico convencional, segundo o qual a inovação sempre acaba por traduzir-se em aumento da riqueza e do bem-estar. Algumas inovações são mais impactantes que outras. Portanto, a inovação deve ser avaliada sob o ângulo de seu real efeito sobre as condições de vida. As inovações que marcaram a sociedade norte-americano no que Gordon chama de o “Século Especial” (sobretudo sua segunda metade, entre 1920 e 1970) reúne inovações que revolucionaram a vida cotidiana dos Estados Unidos tornando, quando comparados com qualquer período anterior, irreconhecíveis a forma como as pessoas se alimentavam, se vestiam, se deslocavam, se comunicavam, bem como a carga do trabalho tanto para o mercado como dentro dos domicílios.

Foi nesse período que se alcançou o acesso aos bens e serviços que permitiram que, entre 1870 e 1970, a expectativa de vida média norte-americana passasse de 45 para 72 anos. Na raiz dessas transformações revolucionárias encontram-se as cinco grandes redes que romperam com o isolamento do domicílio tradicional: a eletricidade, a água encanada, o saneamento básico, o telefone, o rádio (e, posteriormente, a televisão). Além dessas, a generalização do acesso ao motor a explosão interna e a substituição do cavalo pela força mecânica não só permitem melhorar a higiene das cidades, como, sobretudo, ampliam de forma inédita a mobilidade das pessoas dando lugar à instalação da classe média na periferia das grandes aglomerações urbanas. Por fim, a descoberta dos antibióticos e dos mais importantes tratamentos contra o câncer completa um quadro social em que os ganhos de produtividade eram paralelos a conquistas massivas nas condições de vida e de trabalho.

Essas inovações não exigiam dos trabalhadores conhecimentos e habilidades que estivessem acima daquilo que os sistemas de educação e formação profissional ofereciam. Elas eram neutras, sob o ângulo das habilidades exigidas dos trabalhadores, para sua integração ao mercado de trabalho. Essa neutralidade é uma das razões da redução das desigualdades nos países desenvolvidos entre o final da crise de 1929 e o início dos anos 1970. As inovações concentravam-se naquilo que determinava melhoria nos padrões de vida e as técnicas para a oferta desses bens e desses serviços eram exigentes em conhecimentos que estavam à altura das habilidades dos trabalhares. O resultado é que os lucros cresciam numa tendência praticamente paralela ao crescimento dos salários, o que contribuiu decisivamente para a redução da desigualdade de renda.

O grande problema das inovações que marcam a revolução digital é que elas são enviesadas (biased skill), ou seja, exigem dos trabalhadores habilidades para as quais apenas a minoria entre eles está verdadeiramente preparada. Daí a forte propensão a uma espécie de dualização do mercado de trabalho, dividido entre os poucos que exercem atividades criativas e bem remuneradas e a massa que beira permanentemente a irrelevância.

A crescente irrelevância do trabalho nos países desenvolvidos é também o tema do livro que recebeu em 2016 o prêmio de melhor livro de negócios do ano, atribuído pela McKinsey e pelo Financial Times. Seu autor, Martin Ford, não tem dúvida: desta vez é diferente. A ascensão dos robôs (título de seu livro) dá lugar à radical e inédita dissociação entre o aumento da riqueza e os ganhos sociais a que o crescimento econômico esteve ligado desde a Revolução Industrial. De 1950 a 2010 a produtividade do trabalho nos Estados Unidos aumenta 254% e os salários (excetuando os de direção), apenas 113%. O fosso entre as duas curvas começa em 1973 e não se interrompe mais. Essa distância entre salários e produtividade se torna mais grave quando se constata que a economia americana do século XXI praticamente não criou novos empregos, contrariando a tendência, desde a crise de 1929, de aumento em 20% da ocupação assalariada a cada década. Como cerca de um milhão de pessoas entram no mercado de trabalho anualmente, a década perdida do início do século XXI significou dez milhões de empregos faltantes na economia norte-americana. Em 2013 o setor privado norte-americanos consumiu o mesmo número de horas trabalhadas que em 1998, apesar de a riqueza ter aumentado 42% e a população 40% (Ford, 2015).

Essa dissociação entre abundância e sua distribuição social está na raiz do avanço da desigualdade de renda que, nos Estados Unidos, voltou ao nível anterior ao da crise de 1929. O que está em jogo é nada menos que o próprio contrato social que envolveu a emergência das mais importantes democracias no mundo. Claro que para esse processo foi grande a influência das políticas econômicas que privilegiaram os ganhos de capital ou o aniquilamento do movimento sindical, que abrigava um terço dos trabalhadores em 1950 e hoje não reúne mais que 7% dessa força de trabalho declinante, nos Estados Unidos.

Mas o fundamental para entender a economia do século XXI é que a ascensão dos robôs é o vetor mais importante do que Ford chama de futuro sem emprego. Desde que foi inventado, em 1958, o poder computacional do circuito integrado dobrou 27 vezes. Com isso as máquinas e os algoritmos não substituem apenas as tarefas repetitivas, mas ganham uma capacidade interpretativa que já lhes permite redigir textos e operar de forma precisa na organização de estoques ou na preparação de refeições em restaurantes de fast-food. Os fast-food estão entre os segmentos de maior expectativa quanto à criação de empregos nos Estados Unidos. E com o barateamento dos robôs e, mais que isso, com a ampliação do acesso a seus softwares, muitos dos quais estão disponíveis gratuitamente nas nuvens, sua generalização será muito mais rápida do que habitualmente se imagina. Só o McDonald’s empregava, ao final da segunda década do milênio, 1,8 milhão de pessoas em 34 mil lojas ao redor do mundo.

Não é difícil vislumbrar os impactos devastadores da robotização de suas atividades, o que foi acentuado pela atual pandemia (Barret, 2020). Luxo de país desenvolvido? O maior usuário de robôs no mundo é a China, com 25% dos quase 230 mil robôs vendidos no mundo só em 2014. Aliás, um dos trabalhos citados no livro de Ford mostra que a dissociação entre os imensos ganhos na produtividade e a remuneração dos trabalhadores é até mais acentuada hoje na China que nos Estados Unidos.

Martin Ford é cético com relação às chances de que a educação consiga reverter essa tendência e estimule o aumento do emprego na era digital. Seu livro é importante não só pela força da demonstração e dos dados, mas também pela proposta em torno da qual, na sua opinião, se pode refazer o pacto social das sociedades contemporâneas: só a garantia de renda a todos os cidadãos, que terão cada vez mais dificuldade em buscar seus meios de vida no mercado de trabalho, poderá manter a coesão de sociedades onde a riqueza se concentra cada vez mais e a própria sobrevivência está permanentemente ameaçada.

Muito próximo ao que André Gorz (2003) havia proposto em 1988 em Metamorfoses do trabalho (mas, infelizmente, sem citá-lo), Ford preconiza um sistema de renda básica universal que se volte a melhorar a formação dos trabalhadores, a promover a alternância entre períodos de trabalho e períodos de formação e a valorização de atividades socialmente úteis, mas que o mercado não necessariamente reconhece.

O terceiro autor que exprime ceticismo quanto às possibilidades de as inovações tecnológicas atuais conduzirem à multiplicação dos empregos é Roberto Mangabeira Unger. Tanto em seu livro A economia do conhecimento (Mangabeira Unger, 2018), como no relatório que ele dirigiu para a Fundação britânica Nesta, Mangabeira Unger (2019) mostra que a economia do conhecimento, mesmo nas sociedades mais ricas e educadas, tornou-se um arquipélago de ilhas alheias ao teor principal da vida econômica que as cerca. Essa não é, porém, uma fatalidade e sim o resultado de uma escolha.

Em quase todo o mundo, as políticas de inovação voltam-se aos interesses das maiores e mais poderosas empresas. Há um abismo entre as comunidades acadêmicas e de políticas públicas que estudam e concebem mecanismos de incentivo à inovação e as voltadas à luta contra as desigualdades. É fundamental, argumentam Mangabeira Unger e seus colaboradores, que esse abismo seja suprimido. É completamente distópico conformar-se com um horizonte que considere inevitável essa concentração de riqueza e poder e proponha como compensação uma renda básica de cidadania. Democratizar a economia do conhecimento exige que se ampliem radicalmente as chances de a grande maioria da população tornar-se sujeito de seus potenciais criativos.

Combater as desigualdades não é apenas um imperativo ético em torno de valores centrais como a liberdade, a autonomia e a dignidade humana. Esse combate é também o meio mais promissor de estimular a inovação e colocar a economia do conhecimento a serviço do desenvolvimento sustentável.
Conclusões

O lugar do trabalho na coesão das sociedades contemporâneas envolve uma discussão filosófica fundamental: o que é trabalho, o que é emprego, mas, mais que isso, como podemos hoje fazer que nossa capacidade de cooperação resulte em vida melhor para todos e não em formas indignas e pouco valorizadas de atividades para a esmagadora maioria, ao lado de atividades criativas e edificantes para uma pequena minoria. A situação atual faz do trabalho um puro instrumento de sobrevivência, de obtenção de renda, para a grande massa da população e não só nos países em desenvolvimento. A solução para isso nos mais importantes clássicos do pensamento social (nomeadamente Keynes, Marx, mas também Stuart Mill) é a própria abolição do trabalho, resultado do próprio crescimento econômico e do aumento da produtividade.

A luta contra o aumento das desigualdades nas sociedades contemporâneas não passa pela proteção aos empregos. Seu pressuposto básico é o fortalecimento da inovação pela base da sociedade, recuperando as ambições dos criadores da internet, por uma sociedade livre, aberta e em que o avanço tecnológico sirva para melhorar a vida humana e não para tornar as pessoas irrelevantes.

Referências

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Notas

1
Este artigo apoia-se na apresentação que fiz, a convite do professor Nelson Mannrich, no VIII Congresso Internacional promovido pela Academia Brasileira de Direito do Trabalho, em 2018. Agradeço as críticas do parecerista de Estudos Avançados e as sugestões de Octavio de Barros.
2
Marx, cientista que era, dedicou sua obra ao estudo do capitalismo. No entanto, a superação do capitalismo não era, para ele, uma possibilidade, e sim uma necessidade lógica decorrente das contradições inerentes à própria mercadoria, ainda que ele não tenha se aventurado na antecipação do que poderia vir a ser essa nova organização social.
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