segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Notícias Geografia Hoje


Nasa encontra possíveis colunas de vapor de água em lua de Júpiter

Astro é um dos mais promissores do sistema solar; a existência de água em estado liquido, aumenta a chance de vida na lua

AFP

Washington - Astrônomos da Nasa revelaram nesta segunda-feira que detectaram colunas de vapor de água sobre a superfície de gelo de Europa, uma das luas de Júpiter, sob a qual há um oceano.

Essas observações, feitas com a ajuda de emissões de raios ultravioleta do telescópio espacial Hubble, aumentam a possibilidade de coletar amostras de água e gelo sem a necessidade de colocar um robô sobre a superfície da Europa e fazer perfurações. "O oceano da Europa é considerado um dos lugares mais promissores no sistema solar onde potencialmente pode existir vida", disse Geoff Yoder, diretor interino da Nasa para a Ciência.



 Telescópio Hubble, da Nasa, Divulgação

"Essas colunas de vapor, se sua existência for confirmada, poderiam oferecer outro meio para obter amostras de água que se encontra debaixo do gelo", acrescentou. Aparentemente, as colunas alcançavam cerca de 200 km de altitude, deixando cair materiais sobre a superfície da lua.

Durante as dez observações da passagem de Europa diante de Júpiter, efetuadas em um período de 15 meses, em três ocasiões foi possível perceber o que poderiam ser gêisers, detalharam os cientistas, entre eles William Sparks, um astrônomo do Space Telescope Science Institute, em Baltimore.

Apesar de que não puderam afirmar com exatidão que realmente se trata de colunas de vapor de água, os astrônomos consideram tal possibilidade "substancial". Em 2012, outra equipe científica dirigida por Lorenz Roth, do Southwest Research Institute, em San Antonio, detectou vapor de água saindo da superfície da Europa, na região do polo sul, alcançando 160 km no espaço.

As duas equipes usaram o mesmo instrumento do Hubble para fazer suas observações, um espectrógrafo, mas aplicaram métodos totalmente diferentes e chegaram à mesma conclusão. Se a existência dessas colunas de vapor de água for confirmada, Europa será a segunda lua no sistema solar conhecida por contar com esses fenômenos.

Em 2005, emissões como estas foram detectadas, pela sonda Cassini da Nasa, na superfície da Encélado, uma das luas de Saturno. Europa contém um vasto oceano, com o dobro de água de todos os oceanos terrestres reunidos, que se encontra sob uma crosta de gelo extremamente fria e muito dura, cuja espessura é desconhecida.
Jornal O Dia

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

El Niño - Inundações e chuva. Ou estiagem

 
 Enchente em União da Vitória (PR) / Foto: Ricardo Azoury/Pulsar Imagens 
 
EVANILDO DA SILVEIRA

Se as previsões dos meteorologistas se confirmarem, o clima do planeta viverá uma fase turbulenta no primeiro semestre deste ano. Tudo graças ao El Niño, fenômeno natural, que ocorre a intervalos irregulares, que podem variar de 2 a 7 anos, com duração de 6 a 18 meses. Ele é causado pelo aquecimento além do normal das águas do Oceano Pacífico à altura da linha do Equador, entre as costas oeste da América do Sul e leste da Oceania. O resultado disso é sentido em todo o mundo, com secas mais intensas em algumas partes, como, por exemplo, na Austrália, Filipinas, Equador e nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, e chuvas torrenciais e inundações em outros, como no sul do país, no México e nos Estados Unidos. Além disso, os verões e primaveras podem ser mais quentes em regiões como o Sudeste brasileiro e os invernos mais intensos em outras, como na Europa, os furacões mais moderados no Atlântico e os ciclones mais fortes no Pacífico.

Para piorar a situação, segundo o Centro de Previsão do Clima (CPC) e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, e a Organização Meteorológica Mundial, o atual El Niño, que começou a se manifestar em março de 2015, pode ser um dos quatro mais intensos desde que iniciaram seu monitoramento, em 1950. A previsão é que ele se iguale ou supere os registrados em 1972-1973, em 1982-1983 e em 1997-1998. “No atual, a temperatura da superfície do mar (TSM), estava, em setembro passado, de 2ºC a 3ºC acima do normal”, explica o meteorologista Francisco de Assis Diniz, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), órgão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). “As previsões indicam que a maior intensidade do fenômeno deveria ocorrer no final de 2015 e sua permanência poderia se estender por todo o primeiro semestre de 2016”.

Embora os especialistas já conheçam suas causas e consigam prever seus efeitos, o mesmo não acontece com o gatilho que o dispara. Já se sabe que tem a ver com os ventos alísios, que sopram sobre o Oceano Pacífico de leste para oeste. Em seu livro O El Niño e Você – O Fenômeno Climático, o meteorologista Gilvan Sampaio de Oliveira, pesquisador do Grupo de Interações Biosfera-Atmosfera do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apresenta um modelo que facilita o entendimento de seu funcionamento.

Para começar, deve-se imaginar uma piscina (obviamente cheia), na qual em uma das bordas é colocado um grande ventilador, da largura dela. Ao ser ligado, o aparelho irá gerar vento que, por sua vez, causará turbulência na água. Com o passar do tempo, será possível observar um represamento no lado da piscina oposto ao ventilador e até um desnível, ou seja, o nível naquela parte será mais elevado que daquela na qual o ar sopra. Isso ocorre porque ele está “empurrando” as águas quentes superficiais para o outro lado, expondo as mais frias das partes mais profundas da piscina da margem onde o aparelho está instalado.

É exatamente isso o que ocorre, em grande escala, no Oceano Pacífico na situação normal, ou seja, sem El Niño. Os ventos alísios, representados pelo que é gerado pelo ventilador na piscina, sopram de leste para oeste, sobre a sua superfície na região Equatorial, levando as águas quentes da costa oeste da América do Sul e acumulando-as no litoral da Austrália, gerando um desnível que pode chegar a 50 centímetros. Há duas consequências principais disso. A primeira é que com seu acúmulo na costa da Oceania há mais evaporação naquela região. O ar quente próximo à superfície do mar sobe, levando o vapor de água, que forma nuvens, e que se precipita como chuva intensa naquela área.

Corriente de El Niño

O ar que subiu, agora mais seco e frio, retorna, pelo alto da troposfera (região que vai da superfície até 15 quilômetros de altitude), para a costa oeste da América do Sul, onde desce, dando reinício ao processo. Essa circulação – ventos de leste para oeste na superfície e de oeste para leste em altos níveis – é denominada Célula de Walker, em homenagem ao pesquisador inglês Sir Gilbert Walker, que a descobriu. A segunda consequência é um mecanismo que os oceanógrafos chamam de ressurgência. Com o deslocamento das águas superficiais mais quentes da costa oeste da América do Sul para o leste, as mais frias e profundas emergem para ocupar seu lugar. Como elas são mais ricas em oxigênio e nutrientes atraem um maior número de peixes, tornando aquela região uma das mais piscosas do mundo.

O funcionamento de todo esse sistema é alterado em anos de El Niño. Ainda não se sabe por que, mas os ventos alísios reduzem sua velocidade ou até mesmo invertem seu sentido, soprando de oeste para leste. No exemplo da piscina, seria o equivalente a reduzir a potência do ventilador ou mesmo desligá-lo. Como resultado, as águas acumuladas no lado oposto, ou seja, no caso, no oeste do Pacífico, irão refluir, ficando no mesmo nível em toda a sua extensão, que pode chegar a 10 mil quilômetros. Com isso, elas serão aquecidas por igual, de um lado a outro do oceano. O resultado é que a área de maior evaporação e chuva se desloca para leste, estabelecendo-se nas regiões central e próxima da costa oeste da América do Sul.

Com isso, a ressurgência não ocorre e os peixes escasseiam. É justamente a esse fato que se deve seu nome, dado por pescadores equatorianos e peruanos. Ao longo de séculos de atividade, eles notaram que em alguns anos as águas da costa dos dois países ficavam mais quentes em dezembro, na época do Natal, diminuindo a oferta de peixes. Por isso batizaram o evento de Corriente de El Niño, em alusão ao Niño Jesus, ou seja, ao Menino Jesus, em português. Na verdade, esse fenômeno mexe com a circulação atmosférica em todo o mundo, causando as alterações climáticas conhecidas.

Além desse fenômeno considerado “clássico”, há uma configuração chamada de El Niño “Modoki”, que ocorre quando não existe um aquecimento gradual e simultâneo em toda área do Pacífico equatorial. Em outras palavras, ele não consegue aquecer por inteiro todas as regiões do oceano. “‘Modoki’ é um termo que significa ‘parecido, porém diferente’”, explica a meteorologista Danielle Barros Ferreira, do Inmet. “Um exemplo deste tipo deu-se no período 2004-2005, quando era esperado um efeito típico de El Niño, com chuvas acima da média na região Sul do Brasil. Contudo, ocorreram estiagens durante o verão de 2005, que se tornaram mais acentuadas devido a formação de águas mais frias no Oceano Atlântico próximo à costa sul do país”.

Em contraposição ao El Niño, surgiu ainda o termo La Niña (“a menina”, em espanhol) para denominar outro fenômeno, que se caracteriza por ser oposto a ele. Nesse caso, dá-se o que se poderia chamar de uma exacerbação da circulação normal. Os ventos alísios, em vez de reduzirem sua velocidade, a intensificam, deixando a Célula de Walker mais alongada. Assim, do nordeste do Oceano Índico ao oeste do Pacífico, passando pela Indonésia, é a região onde as chuvas aumentam. A área em que o ar desce se desloca para as regiões central e oriental, neste caso sendo mais intenso do que o normal, o que inibe, e muito, a formação de nuvens de chuva.

Em geral, a frequência dos episódios do La Niña é semelhante a do El Niño, ou seja, de 2 a 7 anos. De qualquer forma, ainda não se sabe por que, mas durante as últimas décadas ele tem ocorrido em menor quantidade que o seu antagônico masculino. Além do mais, segundo Oliveira em seu livro, os episódios La Niña têm períodos de aproximadamente 9 a 12 meses, e somente alguns duram mais que dois anos. Os mais recentes aconteceram nos anos de 1988-1989 (foi um dos mais intensos), em 1995-1996 e em 1998-1999. Outro aspecto que o pesquisador destaca é que a diminuição da temperatura da superfície do mar em anos de La Niña é menor que o aumento nos casos de El Niño. Enquanto já foram registradas anomalias de até 4ºC ou 5ºC acima da média em alguns anos do El Niño, em anos de La Niña as maiores variações observadas não chegam a 4ºC abaixo do normal.

Efeitos devastadores

Embora o monitoramento do fenômeno tenha começado apenas em 1950, ele é conhecido há mais tempo. “Os primeiros estudos foram feitos em 1928, por Walker, que descobriu que existia uma diferença de pressão atmosférica ao nível do mar em dois pontos distintos no Oceano Pacífico: Central (Taiti) e Oeste (Darwin/Austrália)”, conta o meteorologista Lincoln Alves, do CCST, do Inpe. “Essa diferença, denominada de Índice de Oscilação Sul (IOS), está relacionado com as mudanças na circulação atmosférica nos níveis baixos, consequência do aquecimento (ou resfriamento) das águas superficiais no mar. Valores negativos e positivos da IOS são indicadores da ocorrência do El Niño e La Niña (resfriamento das águas) respectivamente”.

O fenômeno, porém, começou a ficar bastante conhecido e comentando, mundialmente, a partir de sua ocorrência em 1997-1998, a mais intensa registrada até hoje, com o aumento da temperatura da água em até 5°C em alguns pontos. Os efeitos, sentidos em várias regiões do planeta, foram devastadores. Estima-se que as secas, tempestades, inundações, furacões e outros eventos climáticos extremos causados pelo El Niño tenham afetado cerca de 120 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais cerca de 5 milhões ficaram desabrigadas e 23 mil morreram. Muitas foram vítimas de incêndios florestais de grandes proporções, que ocorreram na Indonésia e Austrália, por exemplo. No Brasil, uma faixa de fogo de 1,6 mil quilômetros se estendeu pelas florestas da região Norte. Os prejuízos materiais e econômicos somados dos 27 países mais atingidos pode ter atingido US$ 45 bilhões.

O evento anterior semelhante em intensidade, que ocorreu em 1982-1983, também teve efeitos consideráveis. Houve tempestades torrenciais e inundações em zonas do Equador, do Peru e do Brasil, principalmente em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Assim como nos Estados Unidos, onde foram registradas grandes tormentas e chuvas ao longo da costa da Califórnia, causando prejuízos para toda a economia do país. Em contrapartida, houve redução das precipitações e secas na Austrália, Indonésia e Índia, causando prejuízos à agricultura, com queda nas colheitas e consequente fome, principalmente nos dois últimos países.

Agora, em relação ao atual El Niño, os dados sobre a temperatura das águas do Pacífico equatorial variam conforme os diferentes serviços de meteorologia. O certo é que ela vem aumentando desde março de 2015. De acordo com a NOAA, em setembro estava 2,1 graus acima da média em algumas zonas do oceano. “Prevemos que o El Niño atual pode ser um dos mais fortes”, disse na época Mike Halpert, diretor adjunto do Centro de Previsão do Clima da agência, em entrevista coletiva. Segundo o Boletim de Prognóstico Climático (Progclima), elaborado em conjunto pelo Inmet e o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Inpe, e divulgado em setembro último, a TSM estava mais de 3ºC maior do que o normal.

A consequência mais notável em 2015 em termos mundiais foi a redução no número de furacões no Atlântico Norte. No Brasil, de acordo com o Progclima, no decorrer do trimestre de junho a agosto houve acentuado déficit de chuva na maior parte das regiões Norte e Nordeste, com exceção de Alagoas e Pernambuco e do litoral sul da Bahia, onde teve excesso. Na região Sul, o destaque foi uma grande irregularidade na distribuição espacial e temporal “das anomalias de precipitação”, destacando-se o aumento de chuva em julho e a escassez nos meses de junho e agosto. Em outubro, as chuvas voltaram com tudo, causando a maior cheia no Rio Guaíba, que banha Porto Alegre, em 48 anos. Em São Paulo e Rio de Janeiro o que ocorreu foram temperaturas acima da média no inverno.

No primeiro semestre de 2016, efeitos semelhantes deverão ser sentidos no sul, com mais chuvas, e na Amazônia com escassez de precipitação. A região que mais deverá sofrer, no entanto, é a Nordeste. “Ela já está em regime de seca há três anos”, explica o climatologista José Marengo, chefe de pesquisa do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado à Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisas e Desenvolvimento (Seped), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). “Se vier a seca que se prevê para 2016, ainda que seja fraca, irá piorar a situação já existente. Em termos nacionais, é possível que o verão deste ano seja mais quente que o normal em todo o país”.

Seca e inundações no Brasil

Se as previsões se confirmarem, os estragos do El Niño em todo o planeta no período compreendido entre 2015-2016 deverão ser de dimensões semelhantes às de 1997-1998. Num prognóstico encomendado pela BBC Mundo e divulgado em agosto passado, William Patzert, especialista em clima do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, na sigla em inglês), da Agência Espacial Americana (Nasa) e um dos mais importantes estudiosos do fenômeno nos Estados Unidos, relacionou algumas consequências. E começou pela mudança nas correntes de jato, ventos que fluem a grandes altitudes. As mais poderosas são as polares, que ocorrem em torno dos 7 e 12 quilômetros (entre as latitudes de 40°-70°) acima do nível do mar, e as subtropicais que andam à volta dos 10 e 16 quilômetros (20°-30°) de altitude. O norte e o sul do planeta estão à mercê das duas modalidades de vento.

Segundo Patzert, o El Niño faz com que uma das correntes de jato subtropical, a que habitualmente se encontra no sul do México e da América Central, se desloque para o norte. A consequência é um inverno mais chuvoso que o normal no sul dos Estados Unidos. “Contrastando com isso, a polar, que tem sido muito forte na América do Norte nos dois últimos invernos, enfraquece, levando ao registro de invernos mais suaves no norte dos Estados Unidos e no sul do Canadá”, ele observou. De acordo com Patzert, mesmo que o aumento das chuvas possa ser uma boa notícia para o sudoeste americano, devido à seca na região, também poderá causar grandes inundações e deslizamentos.

Na América do Sul, o registro será de invernos muito chuvosos, na região que vai do norte do Chile ao Equador, e na qual se encontram as áreas mais áridas do planeta. “Além disso, nesse local, que conta com os maiores pesqueiros do mundo, se a temperatura da água continuar mais alta do que o normal haverá um colapso na pesca, o que pode ter impacto nas economias desses dois países”, disse Patzert. “No nordeste do Brasil, o El Niño pode provocar seca enquanto que no sul do país e no norte da Argentina haverá inundações”.

Ainda de acordo com o especialista da Nasa, as consequências do El Niño na Ásia também serão marcantes. Patzert esclarece que, quando no Pacífico equatorial a água quente se move até a América do Sul, espocam secas extremas em lugares como Filipinas, Indonésia ou Tailândia. Segundo ele, nesses países, “nos quais a agricultura é responsável por uma grande porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB), há o risco da elevação dos preços dos alimentos, afetando o valor de mercado das matérias-primas em escala global”. Ao mesmo tempo, “em nações como Japão e China, os invernos serão mais temperados”.

Quando o El Niño é forte, como deverá acontecer neste ano, conforme Patzert, os invernos são muito frios no leste da Europa e no oeste da Rússia. “Um bom exemplo nos dois últimos séculos foi dado em 1812 e em 1941”, declarou à BBC. “Foram precisamente os invernos em que as tropas de Napoleão e Hitler soçobraram. Por isso, gosto de dizer que um exército não derrotou o outro; foram, isto sim, aniquilados pelo El Niño”.

Além desses lugares, ele causa mudanças climáticas em outras regiões do planeta, como o sul do continente africano e Madagascar, que tendem a sofrer com secas, assim como o norte da Austrália e o sudeste asiático, enquanto áreas da África Subsaariana, muito áridas, podem ter mais chuvas. Patzert diz também que, nos anos em que ocorre o fenômeno “há uma temporada de furacões mais fraca no Atlântico”, pois os ventos nestas situações são favoráveis para a criação de sistemas tropicais. “Ao mesmo tempo, no Pacífico oriental, devido à elevada temperatura da água, é registrado um período de furacões muito ativo, em regiões como a Baixa Califórnia”, conclui.
Revista Problemas Brasileiros

Notícias Geografia Hoje

A boa colheita 
 
 
 Brasil é o segundo maior produtor de soja / Foto: Ernesto Reghran/Pulsar Imagens

 EVANILDO DA SILVEIRA


Apesar do avanço de outras áreas da economia e da consequente diversificação da pauta de exportações brasileira nas últimas décadas – descontada a crise que o Brasil atravessa atualmente –, ainda é o agronegócio que garante uma gorda fatia da balança comercial e ameniza a queda do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Os números não deixam dúvidas. Em 2014, o PIB do setor chegou a R$ 1,178 trilhão, correspondendo a 21,34% do nacional, e as suas exportações alcançaram US$ 96,74 bilhões, ou 42,97% do total vendido ao exterior, que foi de US$ 225,10 bilhões. E em 2015 a importância do setor agrícola continuou pesando nos números da economia. Segundo as previsões do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a safra em curso deverá atingir 209 milhões de toneladas, 8,1% a mais que a anterior. As estimativas apontam para a expansão de quase todas as culturas, casos do trigo (17%), da soja (11,7%), do milho (9,7%) e da laranja (9,3%).

Mas, como não há nada perfeito, a agropecuária nacional também tem problemas e da mesma magnitude de seu sucesso. Entre os principais estão os de logística e infraestrutura de transporte para escoamento da safra, que aumentam as perdas da produção e elevam seus custos. Embora não tenha repetido o desempenho de 2013, quando cresceu 5,22%, o incremento de 1,6% do setor no ano passado é significativo, quando comparado à performance do PIB nacional, que teve uma elevação em 2014 de apenas 0,1%. Mesmo com esse resultado modesto, o agronegócio garantiu que o déficit do saldo comercial do Brasil não fosse maior que os US$ 3,93 bilhões registrados; ele sozinho experimentou um superávit de US$ 80,13 bilhões. Esse resultado vem do fato de o país ser o primeiro produtor mundial de açúcar, café e suco de laranja; o segundo de carne bovina e soja em grão; o terceiro de carne de frango, farelo de soja e milho e óleo; e o quarto de carne suína. Em exportações, é o primeiro em açúcar, café, carne bovina e de frango, milho, soja em grão e suco de laranja; o segundo em farelo de soja e óleo, e o quarto em carne suína.

De qualquer forma, o crescimento do agronegócio não reflete a disparidade entre os seus ramos registrada em anos anteriores. Por exemplo, de acordo com dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), enquanto a pecuária cresceu 6,92%, atingindo R$ 378,3 bilhões, o que representa 32% do PIB da agropecuária, a agricultura fechou 2014 em ligeira baixa de 0,74%, ficando em R$ 800,57 bilhões (68%). Ainda de acordo com informações da CNA, corroboradas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), na pecuária, houve alta em todos os segmentos, com destaque para o setor primário, que se expandiu 8,32%. No caso da agricultura, esse setor também cresceu – foi o único – mas num índice bem menor, de apenas 0,15%.

Com uma queda de 0,32% naquele exercício, a agroindústria nacional também contribuiu para que o crescimento do PIB do agronegócio fosse modesto. Das dez atividades acompanhadas, apenas três tiveram alta: café, celulose e papel, e etanol, levando o segmento a fechar o período com uma retração de 0,94%. A indústria de base pecuária, por sua vez, teve melhor desempenho, com crescimento de 3,87%, principalmente por causa da significativa valorização das carnes bovina e suína.

Em relação a 2015, os dados da CNA e do Cepea/Esalq, tomando por base o primeiro trimestre deste ano, já mostram um comportamento do agronegócio pior do que em igual período de 2014. Sentindo a crise e as incertezas da economia, o PIB do setor avançou apenas 0,04%. Grande parte da responsabilidade pelo baixo crescimento se dá à agricultura, que amargou uma retração de 0,30% de janeiro a março, e à agroindústria, que caiu 0,22%. Em contrapartida, a pecuária experimentou um comportamento positivo da ordem de 0,74%. Apesar dos percalços no ano passado e início de 2015, não há como negar o sucesso da agropecuária nacional ao longo das duas últimas décadas e meia. Nesse período, a área plantada aumentou 50,1%, passando de 38 milhões de hectares, na safra 1990/1991, para 57,06 milhões em 2013/2014, enquanto a produção cresceu 234,9%, no mesmo período, indo de 57,8 para 193,6 milhões de toneladas de grãos.

Esse índice poderá subir para 249,8% com a próxima safra (2014/2015), se for confirmada a estimativa de uma colheita de 202,2 milhões de toneladas. Ou 204,5 milhões de toneladas, segundo uma previsão de meados do ano, portanto, um incremento de 5,9% sobre o resultado de 2014. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a área destinada às principais culturas agrícolas em solo brasileiro poderá crescer à taxa média de 1,5% ao ano até 2024. A projeção, que integra um relatório sobre a agricultura brasileira nos próximos dez anos (contados a partir de 2014) preparado por aquelas duas instituições, diz que a área plantada no Brasil deve chegar a 69,4 milhões de hectares ao fim daquele período, um salto e tanto sobre a área média dos anos 2012 a 2014. Esse avanço, se confirmado, será creditado ao aumento na área de cultivo de cana-de-açúcar, algodão e oleaginosas.

Melhoramento genético

O ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, hoje coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (GV Agro), diz que, além da área atualmente plantada no país, são explorados 170 milhões de hectares de pastagens para a criação de gado. “Desse total, aproximadamente 50 milhões de hectares estão degradados”, esclarece. “E isso porque a produção de carne por hectare cresceu 100% nos últimos 25 anos. Ou seja, os pecuaristas estão reduzindo a área de pasto e aumentando a produção de carne. Por isso, sobram terras de pastagens.”

Rodrigues calcula que dos 50 milhões de hectares degradados ou não aproveitados pela pecuária, 10 milhões irão para a agricultura no futuro próximo. A esse total, deverão ser adicionados outros 5 milhões de hectares, que serão abertos ao cultivo por meio de desmatamento legal, sobretudo na área do cerrado. “Acreditamos que a agricultura pode aumentar horizontalmente mais 15 milhões de hectares”, diz. “Mas podemos crescer muito verticalmente na produtividade agrícola. Algumas culturas como a soja, por exemplo, já estão no limite, mas há outras, como o arroz, a cana-de-açúcar, o milho e o trigo, que ainda poderão ter sua produtividade muito aumentada. Desse modo, nos próximos dez anos o agronegócio brasileiro pode avançar 38%, pouco menos que os 40% desejados pela OCDE.”

A economista Daniela de Paula Rocha, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), lembra, por sua vez, que há uma nova fronteira agrícola do país se expandindo, chamada MATOPIBA – sigla formada com as sílabas iniciais de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. De acordo com ela, antes se falava muito dessa área, mas agora ela foi instituída oficialmente, por meio do Decreto nº 8.447, de 6 de maio de 2015, que dispõe sobre o seu Plano de Desenvolvimento Agropecuário e a criação de seu Comitê Gestor. “Ficou estabelecido que a região é formada por 327 municípios”, diz. “Até agora, os produtores estavam utilizando variedades de plantas do centro-oeste. Hoje, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já lançou novas variedades mais adaptadas para essa região e deverá melhorar sua produtividade.”

Para o representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic, o país tem “amplas possibilidades” de ser o principal exportador de alimentos para o mundo nos próximos anos, embora ainda sejam necessários aperfeiçoamentos na infraestrutura logística. Rodrigues atribuiu a performance do setor a três fatores principais: tecnologia, políticas públicas em favor do setor e conscientização dos produtores rurais de que é preciso evoluir, investindo em inovação. No primeiro caso, estão, por exemplo, o melhoramento genético de plantas e animais, a correção do solo, a adaptação de espécies originárias de outras regiões do planeta às condições climáticas e ambientais do Brasil e novas técnicas de plantio.

A consequência mais marcante do uso dessas tecnologias foi o aumento da produtividade, cujo crescimento girou em torno de 3% ao ano nas últimas duas décadas. Além de aumentar a colheita, isso traz outros benefícios ao país. “Se nós tivéssemos hoje a mesma produtividade de 25 anos atrás, teríamos de plantar mais 69 milhões de hectares para colhermos uma safra igual à mais recente”, diz Rodrigues. “Em outras palavras, preservamos 69 milhões de hectares, e nossa agricultura, baseada na inovação, é a mais sustentável do mundo. Nenhuma nação aumentou sua produtividade como a nossa em um espaço de tempo tão curto.” Ele ressalta que isso não se deu apenas com os grãos, mas também com a carne de frango e suína no mesmo período, a primeira com um aumento da produção de 445%, a segunda, de 223%.

Em relação às políticas públicas, o ex-ministro cita como uma das mais importantes empreitadas o Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras (Moderfrota), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Nossas máquinas agrícolas eram carroças nos anos 1990, comparadas com as do Primeiro Mundo”, afirma. “Ou seja, eram velhas, superadas e arcaicas. O Moderfrota foi um plano de financiamento para reformar a mecanização existente. Em cinco anos, assistimos a uma revolução no setor e hoje as máquinas são novas.” O terceiro fator foram os próprios produtores rurais que, segundo Rodrigues, amargaram momentos difíceis, mas aqueles que conseguiram superá-los se fortaleceram. Ele está se referindo aos planos econômicos. Ele lembra que, não faz muito tempo, o país convivia com uma inflação de 80% ao mês, políticas públicas protecionistas e muito subsídio à agricultura. Nesse tempo, a maior parte da renda – até 60% – dos agropecuaristas vinha de aplicações financeiras, como o overnight, e não propriamente da safra. Com isso, a ineficiência da agricultura era muito grande, pois tanto fazia produzir 100 ou 120 sacas por hectare.

Recordes de produtividade

O Plano Collor, por exemplo, foi um desastre, segundo o ex-ministro da Agricultura. “Ele arrombou o Brasil comercialmente, acabou com as políticas públicas e o Estado perdeu a capacidade de investir”, lembra. Em 1990, o PIB recuou 4,3% e os preços bateram em 1.620%. “Em meados de 1994 foi a vez do Plano Real, que estabilizou a inflação em torno de um dígito apenas. Então, nós saímos de uma economia fechada para outra aberta, no aspecto comercial, exposta à concorrência e com inflação em torno de 8% ao ano e que não permitia viver de aplicações financeiras.” De acordo com Rodrigues, isso causou, num primeiro momento, uma onda de exclusão, com a quebra de milhares de empresas e produtores agrícolas. “Não há números precisos, mas estima-se que 150 mil pequenos ruralistas do sul e do nordeste, e médios e grandes do centro-oeste e sudeste faliram no período.”

Depois disso, veio outra onda, a da competitividade, e quem passou pela primeira tinha agora de lutar para sobreviver no novo cenário. Para tanto, teve de apelar para a inovação e lançar mão de uma gestão eficiente. “Foi um ajuste que os outros setores não fizeram”, ressalta Rodrigues. “É por isso que o agronegócio até agora ainda colhe os resultados desse processo e continua apostando em novas técnicas. Hoje está na cabeça do agropecuarista brasileiro que sem tecnologia não se produz. A consequência é que estamos batendo recordes de produtividade e de safras, ano após ano.”

A economista Ignez Vidigal Lopes, do Ibre/FGV, lembra outra grande conquista do agronegócio nacional: a incorporação dos cerrados ao processo produtivo da agropecuária. “Naquela região só era explorada a pecuária extensiva e o cultivo de arroz”, explica. “Com o desenvolvimento de novas variedades, foi possível fazer o cultivo da soja, por exemplo. Além disso, a área tem uma topografia adequada para a mecanização.” De acordo com Ignez, os produtores aos poucos foram dominando a tecnologia da chamada agricultura tropical. “Hoje o Brasil é líder nesse segmento, e isso só foi possível graças às pesquisas científicas, que geraram o desenvolvimento de sementes adaptadas e a correção dos solos, que eram muito ácidos.”

Mas nem tudo anda bem no agronegócio. Se da porteira para dentro o país tem do que se orgulhar, o mesmo não acontece do lado de fora. Entra ano, sai ano, os problemas de logística e infraestrutura de transporte para o escoamento da safra continuam impondo obstáculos ao setor. Quando a colheita deixa a fazenda rumo ao seu destino final, boa parte das vezes a caminho do exterior, tem de cumprir uma longa jornada, que passa por estradas esburacadas, ferrovias escassas e lentas e portos sucateados. Ou seja, a agropecuária nacional fez a lição de casa, sendo extremamente competitiva em termos de tecnologia de produção, mas não se pode dizer o mesmo da infraestrutura.

Um estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT) traduz essa situação em números. Intitulado Transporte & Desenvolvimento – Entraves Logísticos ao Escoamento de Soja e Milho, o levantamento identificou os principais gargalos à exportação e propôs soluções capazes de desonerar os procedimentos. Segundo a CNT, “o custo do frete, que é impactado tanto pela disponibilidade quanto pela qualidade da infraestrutura logística de escoamento dos grãos, pode chegar a representar até 50% do preço da tonelada de milho e 23% do da soja”.

Ainda de acordo com o estudo, as condições do pavimento das rodovias levam a um aumento de 30,5% no custo operacional das vendas externas daqueles grãos, as duas culturas mais embarcadas pelo país. Mais: se fossem eliminados os gastos adicionais que decorrem desse gargalo, haveria uma economia anual de R$ 3,8 bilhões, ou seja, “o correspondente ao valor de quase 4 milhões de toneladas de soja ou a 24,4% do investimento público federal em infraestrutura de transporte efetuado em 2014”. O problema se agrava, porque há um desequilíbrio na malha de transporte brasileira, com o predomínio do modal rodoviário. No caso da soja, 65% do total exportado são transportados por rodovias e apenas 26% por ferrovias e 9% por hidrovias.

Em outros países, a situação é diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, principal concorrente do Brasil no mercado da soja, somente 20% da safra é transportada por caminhões, de acordo com a pesquisa. “Na Argentina, o percentual é de 84%, mas as distâncias médias entre regiões produtoras e portos são pequenas, ao redor de 250 a 300 quilômetros”, destaca a CNT. “Aqui, a distância percorrida pelos veículos, do centro-oeste (principal área de cultivo de grãos no país) aos portos do sul e do sudeste, chega a ultrapassar 2 mil quilômetros. É o que ocorre na maior parte dos deslocamentos do milho e da soja, considerando que, atualmente, 67% das exportações são feitas pelos portos de Santos (SP), Paranaguá (PR) e Rio Grande (RS).” Isso se deve a um fenômeno que vem sendo verificado nas últimas décadas: a interiorização da agricultura, que distanciou os centros produtores dos grãos das zonas de processamento e de exportação. “A situação se agrava com a baixa disponibilidade de infraestrutura de transporte que, associada à concentração do atual sistema logístico, resulta em um número reduzido de opções de rotas alternativas para escoamento”, salienta a CNT. “Consequentemente, verifica-se uma sobrecarga do sistema que se traduz em perda de eficiência operacional.”

Exportação de tecnologia

O superintendente técnico da CNA, Bruno Lucchi, tem mais dados sobre esse processo de interiorização. “De toda a colheita do milho e da soja, 54,1% estão acima (ao norte) do Paralelo 16 (que corta, de leste a oeste, os estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso) e 45,9%, abaixo (ao sul)”, explica. “O que sai pelos portos da região do chamado Arco Norte soma 13,3%; já o que é exportado pelos das regiões sul e sudeste totaliza 86,7%. Essa discrepância onera muito os custos de exportação dos produtos nacionais.” Com a transferência do plantio para o norte, o custo Brasil do transporte subiu, em 2013, para US$ 85 a tonelada, contra US$ 23 dos Estados Unidos e US$ 20 da Argentina.

O aumento no número e uma maior extensão das ferrovias poderiam amenizar o problema. Pesquisa feita para o estudo da CNT revelou que 83,3% dos maiores embarcadores de milho e soja consideram a pouca disponibilidade de estradas de ferro um problema grave ou muito grave para o escoamento da produção. Para comparar, o tamanho da malha ferroviária do Brasil equivale a 15% da dos Estados Unidos. Para resolver a situação dos outros modais de transporte, a CNT verificou a necessidade de execução de 2.045 projetos, com investimentos estimados em R$ 987,7 bilhões.

Além desses obstáculos, o ex-ministro Rodrigues vê um mais pernicioso: a falta de uma visão estratégica do Estado brasileiro em relação ao agronegócio. “É algo que me incomoda muito”, diz. “Em 2011, a OCDE fez um levantamento que mostrou que em dez anos, a partir daquele exercício, a oferta mundial de alimento terá de crescer 20%, para não prejudicar o abastecimento mundial. A produção agrícola da União Europeia vai experimentar um incremento de 4% no período; os Estados Unidos e o Canadá, de 15%; a China, a Índia e a Ucrânia, de algo em torno de 25%, 26%, e o Brasil, de 40%. Na verdade, pela primeira vez na história do mundo, a OCDE está dizendo o seguinte: Brasil, pelo amor de Deus, cresça 40% para que o mundo avance 20%. Então há uma expectativa muito grande sobre o nosso potencial”, sustenta Rodrigues.

De acordo com ele, isso se baseia em três aspectos fundamentais: terra disponível, tecnologia tropical bem desenvolvida e sustentável e produtores modernos. “Então, nós temos vantagens comparativas, que realmente fazem do Brasil a bola da vez do agronegócio mundial”, diz. E completa afirmando que “o mundo está pedindo isso e nós estamos de costas para ele. Não temos estratégia”. Tal se revela, segundo o ex-ministro, além de numa logística ruim, na ausência de uma política comercial agressiva, consistente e tecnológica de crescimento expansivo. “Nós estamos crescendo apenas vegetativamente, quando tínhamos que investir para valer”, critica. “A nossa agricultura tropical é a maior do mundo, mas os outros países estão avançando também e estamos ficando para trás.”

Um caminho alternativo para enfrentar os problemas com os quais o agronegócio brasileiro vai se defrontar nos próximos anos, dizem, é exportar sua tecnologia agrícola para outros países. Produtores e empresas agropecuárias nacionais poderiam optar por abrir fronteiras agrícolas em territórios estrangeiros, como na África. Outra opção para ter maior rentabilidade e valorizar as exportações seria aumentar o nível de transformação dos produtos agrícolas, diminuindo a venda in natura. “O Brasil é referência em tecnologia tropical”, diz Lucchi, da CNA. “Então, quando o mercado africano se abrir, quem vai abastecê-lo com novas técnicas, informação, maquinários e sementes será o Brasil.”

Aquecimento global

Esses são alguns dos problemas de hoje, mas há ainda os que virão pela frente. Os mais graves estão nos impactos das mudanças climáticas nas regiões produtoras. Segundo o estudo Aquecimento Global e Cenários Futuros da Agricultura Brasileira, realizado em conjunto pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Embrapa, o aquecimento global poderá provocar alterações significativas no mapa da agricultura nacional, reduzindo as áreas cultivadas e podendo causar prejuízos econômicos de cerca de R$ 7,4 bilhões, em 2020, e de R$ 14 bilhões, em 2070. Na pesquisa foram avaliadas as culturas de algodão, arroz, café, cana-de-açúcar, feijão, girassol, mandioca, milho e soja.

Na realidade, as mudanças climáticas afetarão todas as regiões. O nordeste, por exemplo, sofrerá um forte impacto com o aumento das temperaturas. Toda a área correspondente ao agreste, hoje responsável pela maior parte da produção regional de milho, e a região dos cerrados no sul do Maranhão e do Piauí, e do oeste da Bahia – onde predomina o cultivo da soja –, poderão ser as mais atingidas, enquanto a mandioca corre o risco de desaparecer do semiárido nordestino. O sudeste também não ficará imune ao aquecimento, afetando principalmente o café, que terá poucas condições de sobrevivência na área. A região sul, por sua vez, que hoje é mais restritiva às culturas adaptadas ao clima tropical por causa da ocorrência de geadas, deverá se tornar propícia ao plantio da mandioca, do café e da cana-de-açúcar, mas não mais da soja. A região menos afetada será o centro-oeste, que deverá permanecer como área de baixo risco, mas cada vez mais dependente de irrigação no período mais seco.

Apesar de causar prejuízos à maioria das culturas, as mudanças climáticas poderão, em contrapartida, beneficiar algumas espécies agrícolas. É o caso da cana-de-açúcar, que deverá ser a mais favorecida até o final do século 21. A cultura, que hoje conta com uma área plantada de cerca de 10 milhões de hectares, terá um espaço potencial de 17 milhões de hectares em 2020. Embora os impactos do aquecimento global sejam inevitáveis, eles podem ser mitigados. Há várias medidas que o país deverá adotar para tanto. No primeiro momento, a situação não será fácil de ser contornada, é verdade. Mas, por causa do grande domínio que o Brasil tem hoje de tecnologias em agricultura tropical, poderão ser adotadas soluções biotecnológicas para superar os problemas nos próximos 20 anos. Para os pesquisadores da Embrapa e da Unicamp, métodos alternativos de lidar com a agricultura e a pecuária podem reduzir as emissões de gases do efeito estufa do setor e ajudar até mesmo a tirá-los da atmosfera, contribuindo com a diminuição do problema.

Ações no sentido de enfrentar a situação passam pela redução das queimadas e do desmatamento, adoção de práticas agrícolas mais eficientes no sequestro de carbono, como o plantio direto, e integração da lavoura com a pecuária. Essas medidas talvez se revelem o maior diferencial do país em relação às mudanças climáticas. O Brasil é uma das poucas nações, senão a única, com área e conhecimento técnico capazes de conseguir escala na redução das emissões de gases de efeito estufa.
Revista Problemas Brasileiros

Notícias Geografia Hoje

Brasileiro consome doces e refrigerantes em excesso, mostra estudo
12 de julho de 2016

Mais de 20% dos brasileiros consomem doce cinco ou mais dias da semana, com as mulheres liderando os números – 22,1% contra 17,6%. Além disso, 19% consomem refrigerantes ou sucos artificiais quase todos os dias. Desta vez, o percentual é maior entre os homens – 22,4% contra 16,1%.

Os dados fazem parte da Pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e foram divulgados nesta quinta-feira (7) pelo Ministério da Saúde. O estudo ouviu brasileiros maiores de 18 anos residentes em todas as capitais do país.


O estudo revela que 64,8% dos brasileiros consomem feijão cinco ou mais dias da semana e que 37,6% da população adulta consomem frutas e hortaliças regularmente. Em 2010, o índice era 29,9%. As mulheres são as que mais consomem frutas e hortaliças – 43,1% contra 31,3% entre os homens.

Ainda de acordo com a Vigitel, 31,1% dos brasileiros têm o hábito de consumir carnes com excesso de gordura (inclusive frango com pele). A maior frequência, nesse caso, foi registrada entre os homens (42,6%).

Os números também mostram que 15,5% dos brasileiros substituem o almoço ou o jantar por lanches. O hábito é mais comum entre pessoas com 65 anos ou mais e, segundo o estudo, tende a aumentar de acordo com o nível de escolaridade.
Revista Amazônia

NASA prevê recorde de queimadas na Amazônia

El Niño poderá dirigir temporada intensa de incêndios na Amazônia
3 de setembro de 2016



Os efeitos duradouros do El Niño são projetados para causar uma temporada intensa de fogo na Amazônia, de acordo com a previsão de cientistas da NASA e da Universidade da Califórnia, em Irvine.


A Amazônia, pelas condições do El Niño em 2015 e início de 2016, teve e está tendo, reduzida a precipitação durante a estação chuvosa, deixando a região mais seca no início da estação seca de 2016 do que qualquer ano desde 2002, tendo os padrões de chuva sido alterados em todo o mundo, de acordo com dados de satélite da NASA.

Os riscos de incêndio para os meses de seca de julho a outubro deste ano já ultrapassam o risco de incêndio em 2005 e 2010, anos de seca, quando incêndios queimaram grandes áreas de floresta amazônica, disse Doug Morton, um cientista da terra na NASA Goddard Space Flight Center, que ajudou a criar a Previsão do fogo.

Gravidade do risco de incêndio na Amazônia

Em uma escala de zero a 100, o risco da atividade de incêndio grave em Julho, Agosto e Setembro é elevado para seis estados no Brasil (Acre, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Rondônia), três departamentos da Bolívia (El Beni, Pando e Santa Cruz), e um país (Peru).

“As condições de seca severa no início da estação seca defini o cenário para o risco de incêndio extremo em 2016 em todo o sul da Amazônia”, disse Morton. 



Segundo Jim Randerson, da UC-Irvine e pesquisador do Centro Goddard de Voo Espacial, da Nasa, e um dos responsáveis pela previsão, a expectativa é de que este ano vá bater o recorde

A previsão de fogo na Amazônia utiliza a relação entre clima e detecções de fogo ativas de satélites da NASA para predizer a gravidade época de incêndios durante a estação seca da região. Desenvolvido em 2011 por cientistas da Universidade da Califórnia, Irvine e da NASA Goddard Space Flight Center, o modelo de previsão é focada particularmente na ligação entre as temperaturas da superfície do mar e atividade do fogo. As temperaturas da superfície do mar mais quentes no Pacífico tropical (El Niño) e Atlântico mudar precipitação longe da região amazônica, aumentando o risco de incêndios durante os meses de estação seca.

Uma análise dos dados da missão de satélite de Recuperação da Gravidade e Experimentos Climáticos (GRACE) mostra maior déficit hídrico do solo, em 2016 do que os anos de seca anteriores com alta atividade do fogo na Amazônia.

A equipe também utiliza os dados sobre o armazenamento de água terrestre da missão conjunta NASA / German Aerospace Center (DLR) Recuperação de Gravidade e Experimentos Climáticos (GRACE) para acompanhar as mudanças nas águas subterrâneas durante a estação seca. As medições GRACE servem como uma previsão para a secura dos solos e florestas.

Os cientistas da NASA e UC-Irvine tem trabalhado com cientistas e especialistas sul-americanos para torná-los conscientes da previsão nos últimos anos. Liana Anderson, um cientista brasileiro a partir do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta Precoce de Desastres Naturais (CEMADEN), disse que “o fogo prevê três a seis meses antes da atividade pico de fogo são importantes para identificar as áreas com maior probabilidade de incêndio para o planejamento integrado de apoio a ações locais “.



Para 2016, as condições provocadas pelo El Niño são muito mais seco do que 2005 e 2010 – os últimos anos, quando a região passou a seca. A equipe também desenvolveu uma ferramenta web para acompanhar a evolução da época de incêndios na Amazônia em tempo quase real. A previsão de emissões de fogo provenientes de cada região são atualizados diariamente, com base na relação entre as detecções de fogo ativo – feita pelo Spectroradiometer Resolution Imaging Moderada (MODIS) instrumento no satélite Terra da NASA – e dados sobre as emissões de incêndio a partir do global fogo Emissões de banco de dados (GFED) em anos anteriores. Até agora, no entanto, a região tem visto mais incêndios até à data do que aqueles anos, um outro indicador que se alinha com a previsão de severidade do fogo.

“Quando as árvores têm menos umidade para recorrer no início da estação seca, eles se tornam mais vulneráveis ao fogo, e evaporam menos água para a atmosfera”, disse o cientista Jim Randerson, da UC-Irvine, que colaborou com o cientista Yang Chen na construção do modelo de previsão. “Isso coloca milhões de árvores sob a tensão e diminui a umidade em toda a região, permitindo que os incêndios cresçam mais do que normalmente fariam.”



Incêndios na Amazônia tem impactos locais, regionais e de longa distância. Incêndios agrícolas que escapam de seus limites pretendidos podem danificar plantações vizinhas e florestas da Amazônia. Mesmo os lentos incêndios florestais causam degradação florestal grave, como as árvores da floresta amazônica não são adaptadas ao fogo. Juntos, os incêndios intencionais para a gestão agrícola, desmatamento e incêndios florestais geram enormes plumas de fumaça que degradam a qualidade do ar na região, agravando problemas com asma e doenças respiratórias. As fumaças dos incêndios da Amazônia finalmente fluem para o sul e para o leste sobre os grandes centros urbanos do sul do Brasil, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, contribuindo para preocupações de qualidade do ar.

Enquanto os cientistas têm vindo a trabalhar com as autoridades sul-americanas para transmitir os resultados das previsões de incêndio e aumentar a consciência do risco de incêndio, eles também disseram que o trabalho poderia levar a melhores previsões incêndios em outras regiões do mundo. A equipe recentemente identificou 9 regiões fora da Amazônia onde os riscos de incêndios também podem ser previstos 3-6 meses antes do pico de atividade do fogo. Pode ser possível construir previsões de incêndio sazonais operacionais para grande parte da América Central e para muitos países do Sudeste Asiático, disse Randerson.

Fotos: Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (INPE), NASA, Yang Chen, da Universidade da Califórnia

(*) Publicado originalmente na edição 57 da Revista Amazônia.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Roda Viva Demétrio Magnoli

Roda Viva - Milton Santos

Tempestade Negra - Estados Unidos

Biomas Brasileiros 2 : Caatinga

Biomas Brasileiros 3 : Pantanal

Biomas Brasileiros 4 : Mata Atlântica

Biomas Brasileiros 5 : Amazônia

Biomas Brasileiros 1 : Cerrado

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O que se perde no lixo falta na mesa

  Descarte dos centros de distribuição poderia alimentar muitos / Foto: Fernando Piovesan

  EVANILDO DA SILVEIRA

Apesar dos avanços tecnológicos e do aumento da área cultivada, que levaram a produção agrícola a níveis nunca antes alcançados, em torno de 800 milhões de pessoas no mundo – um a cada nove terráqueos – ainda passam fome. E um dos maiores responsáveis por essa situação, por incrível que pareça, é o desperdício de alimentos. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês), cerca de 30% de tudo que é produzido anualmente pelo campo vai para o lixo em algum momento de sua trajetória entre a lavoura e a casa do consumidor. No Brasil, o quarto produtor mundial de comida, cerca de 3,4 milhões de indivíduos vivem em situação de insegurança alimentar, eufemismo para dizer que na maior parte do tempo eles não têm o que comer. O número poderia ser menor se ao redor de 26,3 milhões de toneladas de produtos alimentícios não fossem jogadas fora todos os anos.

Esse total, amplamente divulgado, pode estar defasado ou ser inferior ao volume real descartado pelo país. “Não dispomos de metodologia para avaliar e quantificar as perdas e os desperdícios, não temos dados precisos e não é possível generalizar”, diz Murillo Freire Júnior, pesquisador em Tecnologia Pós-Colheita da Embrapa Agroindústria de Alimentos, uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, no Rio de Janeiro.

Seja como for, o fato é que, dependendo da fonte, o tamanho da montanha de alimentos perdidos pode ser ainda mais alta. De acordo com o pesquisador e professor José Abrantes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), autor do livro Brasil, o País dos Desperdícios, somos um dos campeões mundiais em perdas de alimentos. “Descartamos cerca de 50% do total que produzimos”, diz. Isto equivale, segundo ele, a cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), o que correspondeu a algo perto de R$ 28 bilhões em 2015. “A nação que menos desperdiça é o Japão, com 20%, seguido da Europa e dos Estados Unidos, onde esse índice varia entre 25% e 30%”, informa.

O desproveito se caracteriza quando o alimento produzido é jogado fora, ou seja, não chega a quem necessita. A maior parte dos produtos é desprezada porque está fora do prazo de validade ou fora do padrão estabelecido pela legislação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Um exemplo é dado pelos frutos considerados feios, que não são padronizados nem têm um apelo de venda comercial elevado, mas têm as proteínas, as vitaminas e os sais minerais de um produto normal.

No Brasil, as perdas ocorrem em todas as fases da cadeia produtiva, desde o plantio até chegar à mesa dos consumidores. Segundo Abrantes, já no plantio a perda é de 5%, porcentual que se repete durante o crescimento e amadurecimento da cultura. O manuseio inadequado e técnicas ultrapassadas durante a colheita levam outros 20%.

Saindo da lavoura, mais 20% de desperdício se dá durante o transporte. Os problemas começam quando a safra sai da porteira da fazenda, rumo a seu destino final, que pode ser um porto, de onde será exportada, ou os grandes centros urbanos consumidores no próprio país. Para isso, ela tem de cumprir uma longa jornada, que às vezes pode chegar até 2 mil quilômetros, enfrentando, na maior parte das vezes, estradas esburacadas, ferrovias escassas e lentas e portos sucateados. Não é de se surpreender, portanto, com a ocorrência de desperdício pelo caminho. Ao chegar a seus destinos intermediários, entre a lavoura e a mesa, isto é, nos locais de armazenamento e centros de abastecimento, outros 20% foram perdidos.

A nutricionista Flavia Queiroga Aranha, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), campus Botucatu, tem outros dados. “Apenas na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), 100 toneladas diárias de comida vão para o lixo a despeito do fato de que de 30% a 50% ainda são próprias para o consumo”, informa. “Esse volume daria para alimentar mais de 30 milhões de pessoas durante um ano (o suficiente para acabar com a fome no Brasil)”. Para fechar os 100% de desperdício vale citar a perda de 5% no percurso entre o supermercado e as casas dos consumidores e 25% nas próprias residências. Segundo a Embrapa, cada brasileiro desperdiça 37 quilos de hortaliças por ano. Com base na informação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de que cada morador de uma grande cidade consome, em média, 35 quilos daqueles itens por ano, conclui-se que são jogados no lixo mais alimentos do que a quantidade consumida por uma pessoa.

As razões desse desperdício no Brasil são muitas e podem variar conforme o produto. Uma delas, segundo Flavia, é a falta de consciência da população sobre o problema. “Isso é uma característica da nossa cultura e que acaba afetando a economia nacional, apresentando resultado negativo para toda a sociedade”, argumenta. Há causas mais concretas, no entanto. Estudos da Embrapa apontam, no caso de frutas e hortaliças, o manuseio inadequado no campo, o uso de embalagens impróprias, o transporte deficiente, a comercialização de produtos a granel, a ausência de refrigeração, a contaminação, a ineficiência do comércio no atacado, o excesso de manuseio por parte dos consumidores, a forma como são dispostas nas gôndolas dos supermercados e a deficiência administrativa nos centros atacadistas e varejistas.

Restos de comida

No caso da banana, por exemplo, muitas são amassadas durante o transporte em caixas empilhadas umas sobre as outras nos caminhões. Algo semelhante acontece com os abacaxis, que viajam amontoados. Outro ponto de grande perda são as feiras livres. Apenas no estado de São Paulo estima-se que elas descartam, todos os dias, mil toneladas de alimentos. Também contribui para o desperdício o hábito da população de comprar produtos in natura e se desfazer de talos, cascas e alguns tipos de folhas que poderiam ser aproveitadas.

Há ainda os restos que estragam na geladeira e os que sobram nos pratos e têm o lixo como destino. Flavia explica que estes últimos são chamados tecnicamente de resto-ingestão, nome que se dá aos alimentos distribuídos, mas não consumidos. São quantidades desperdiçadas por motivos vários, tais como, cardápio não compatível com o paladar do usuário e porções inadequadas, maiores do que uma pessoa pode comer. Com o objetivo de conhecer o perfil de desperdício dos clientes de uma Unidade de Alimentação e Nutrição (UAN) de uma empresa metalúrgica de Botucatu, a nutricionista realizou, anos atrás, uma pesquisa que durou 45 dias. “Nesse período coletamos dados nos dias úteis, quando então são oferecidas cerca de 4.800 refeições diárias, entre almoço, jantar e ceia, em seus dois refeitórios”, conta. Os resultados, revela Flavia, mostraram que as porcentagens de sobra no almoço variaram de 7,48% a 13,39%; no jantar, de 5,53% a 9,68%, e na ceia, de 17,09% a 60,85%. “Com relação ao índice de resto-ingestão os valores encontrados estão abaixo de 10%, com exceção do 14º dia no período do jantar, quando o porcentual foi de 11,15%”, ela conta. “Com a comida descartada na UAN poderiam ser alimentadas cerca de 11.450 pessoas. Os resultados obtidos indicam que é necessário um processo de treinamento dos colaboradores e conscientização dos comensais, por meio de campanhas de combate ao desperdício”.

Diante desse quadro não causa espanto os números apresentados pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), segundo os quais cerca de 60% dos alimentos comprados pelos brasileiros não são aproveitados – o que representa dizer que mais da metade do lixo produzido no país, todos os anos, é composta por restos de comida. E isso porque muitos alimentos são indevidamente descartados, pois ainda estariam próprios para consumo. Para muitos estudiosos do problema, entre as causas do desperdício também se alinha a falta de planejamento na produção, na compra e no consumo. A isso, soma-se o inchaço da cadeia de comercialização, com a presença de muitos intermediários entre o produtor e o consumidor final. Algo semelhante ocorre nas feiras livres, instituições antigas que ainda se abastecem por meio de terceiros. Se comprassem direto dos produtores, seria mais fácil adquirir quantidades menores, adequadas às suas vendas e, consequentemente, reduzindo perdas.

O desperdício de alimentos, na realidade, é parte de um problema maior. O professor da UERJ, José Abrantes lembra que junto com a comida se desperdiçam água, energia, insumos e toda a cadeia de trabalhos envolvidos na produção, na colheita, no transporte e no armazenamento. “Ao não aproveitar devidamente os produtos alimentícios também estamos causando sérios problemas ambientais, pois para produzi-los precisamos de água, de energia e de insumos”, observa. “Tudo isto causa impactos, gerando prejuízos para o meio ambiente por retirar recursos da natureza que depois não aproveitamos”.

Se a população tivesse consciência do quanto de recursos naturais são necessários para produzir comida, talvez o desperdício fosse menor. Segundo o Banco de Alimentos, uma ONG que combate a fome e o desperdício, para produzir, por exemplo, um quilo de banana são necessários 500 litros de água. “A cada quilo do fruto consumido perdem-se até 200 litros de água com o descarte da casca (30% a 40% de seu peso).” Ainda de acordo com aquela entidade, uma banana pesa aproximadamente 120 gramas, ou seja, são necessários 60 litros de água para ser produzida. Se a casca de um só fruto não for aproveitada, são desperdiçados 24 litros. “Volume de água que daria para tomar três minutos de banho, dar duas descargas ou lavar o rosto duas vezes”.

Nessa mesma linha de raciocínio, o diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, disse, durante a comemoração do Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho de 2015, que o modelo de agricultura e pecuária extensivos praticados em todo o mundo é responsável por mais de 70% do consumo de água doce. “Um hambúrguer de carne em seu prato no almoço poderia exigir uma incrível quantidade de 2.400 litros do líquido nessa produção”, declarou na ocasião. “Você gostaria de batatas fritas? Adicione mais 100 litros, isso sem mencionar o impacto dos pesticidas e das embalagens não degradáveis. Bon appétit”.

Steiner afirmou ainda que a produção de alimentos é uma das principais responsáveis pelo desmatamento. Segundo ele, nada menos “que 80% da derrubada de árvores são motivadas pela expansão de áreas agricultáveis e pasto para animais de corte”. Assim, “a perda de espécies animais e de biodiversidade acaba sendo a consequência natural deste processo descontrolado”. Por isso, de acordo com ele, “sem mudar ou substituir o modelo de agricultura e pecuária extensivo em curso, será muito difícil manter o estilo de vida atual da humanidade por muito tempo”.

Programa Mesa Brasil

Como se não bastasse, a tendência é que a situação piore se nada for feito. O diretor do Pnuma lembrou que, segundo projeções da Organização das Nações Unidas (ONU), até 2050, a população do planeta deverá chegar a 9 bilhões de pessoas, fazendo crescer a demanda sobre os recursos naturais. “Somado a um provável aumento da poluição, as consequências para a humanidade podem ser catastróficas”, alertou. De certa forma, isso já pode ser sentido em parte. “Secas recordes, inundações, poluição sufocante do ar e espécies ameaçadas de extinção tornaram-se notícias diárias nos últimos dez anos.” A saída, segundo o diretor Steiner, é apostar na chamada economia verde, ou seja, no aumento radical da produtividade da agricultura e pecuária, produzindo mais, mas consumindo menos insumos e recursos naturais. Para ele, é preciso “modificar os padrões de produção e consumo”, revertendo a lógica de extração, produção, consumo e desperdício. “Que se imite os processos naturais, em que não existe o conceito de ‘sobra’, apenas comida para outro organismo ou processo.”

Frente à gravidade da questão da perda de alimentos no Brasil, governo, empresas públicas, instituições sem fins lucrativos e ONGs têm adotado uma série de ações e programas para – mesmo que não se chegue a uma solução definitiva – pelo menos mitigar o problema. A nutricionista Flavia cita como um dos exemplos o programa Fome Zero, do governo federal, além de outros fora da alçada do poder público, como o Mesa Brasil, do Sesc, e o Banco de Alimentos, diz. De acordo com ela, o objetivo é permitir que um maior número de pessoas tenha acesso a alimentos básicos e de qualidade – e em quantidade suficiente – para uma alimentação saudável e equilibrada. “Os produtos distribuídos pelo Banco de Alimentos são excedentes de comercializações, perfeitos para o consumo”, assegura. “A distribuição possibilita a complementação alimentar a todas as pessoas assistidas pelas 42 instituições cadastradas no projeto, que chega a mais de 21 mil”.

O Programa Mesa Brasil, por seu turno, foi criado pelo Sesc São Paulo, em 1994, passando a atuar em todo o país a partir de 2003. Segundo Luciana Curvello Gonçalves, coordenadora estadual, o objetivo é minimizar o desperdício e as situações de insegurança alimentar existentes no país. “Para tanto, estabelecemos parcerias numa ponta com empresas que fornecem ou produzem comida e, na outra, com instituições sociais que desenvolvem um trabalho sério com a comunidade e que precisam desse apoio para que a alimentação servida aos seus assistidos seja mais completa, do ponto de vista nutricional”.

Para se cadastrar no programa, os doadores têm que ter produto próprio para o consumo. “São supermercados, indústrias, feirantes, permissionários dentro das centrais de abastecimento (como o Ceagesp, de São Paulo), pequenos agricultores, enfim, toda e qualquer empresa ou pessoa física que produza ou comercializa alimentos”, explica Luciana. “Eles nos fornecem itens que perderam o valor comercial, como aqueles que estão com a sua validade prestes a vencer, ou uma fruta muito madura, por exemplo. Quem recebe as doações são creches, albergues, abrigos, casas que trabalham com idosos ou com pessoas portadoras de necessidades especiais, entre outras”.

Essas instituições precisam atender a alguns requisitos para se cadastrar no programa. “Elas devem ser realmente de assistência social, ou seja, não podem cobrar nada pelo serviço que prestam à comunidade”, diz Luciana. “Além disso, têm que preparar e servir a alimentação dentro do próprio local, porque o que levamos é justamente para tornar a refeição que já é servida mais completa. Por isso, não entregamos para instituições que montam cestas básicas para doar para famílias, ou mesmo que preparam uma sopa para servir na rua. Por fim, elas precisam fazer também um trabalho sério sociocultural-educativo com a comunidade que atendem”.

A coordenadora nacional do Programa Mesa Brasil Sesc, Ana Cristina Correa Guedes Barros, explica como funciona a arrecadação e a distribuição dos alimentos. “Nossa equipe, junto com o doador, estabelece o local, os dias e horários para a retirada da doação”, conta. “A equipe do Mesa Brasil avaliará a qualidade dos produtos e irá transportá-los até as entidades sociais, sob condições adequadas ao consumo”. De acordo com ela, o programa dispõe de pessoal técnico – como nutricionistas e assistentes sociais – e operacional devidamente qualificado para executar com eficácia a retirada e distribuição da doação, além do acompanhamento e monitoramento das ações.

Cascas, folhas e talos

No estado de São Paulo, 13 unidades do Sesc executam o programa, que têm parceria com 640 empresas doadoras e atendem 830 instituições em 44 municípios, beneficiando 152 mil pessoas. No Brasil, são 3.091 doadores e 6.200 entidades que recebem os alimentos, em 522 municípios, atendendo 1.623.895 indivíduos. Em São Paulo foram arrecadados de janeiro a novembro passado 4 mil toneladas de produtos, uma média de 364 toneladas por mês. No país inteiro são distribuídas, mensalmente, 3.700 toneladas, alimentos que, sem o programa, iriam para o lixo em sua quase totalidade. “O Mesa Brasil Sesc é uma referência como rede privada de bancos de alimentos no país”, diz Ana Cristina. “Ele atua de forma efetiva no combate ao desperdício e na garantia do direito social à alimentação”.

Não são apenas os governos, instituições, ONGs e empresas públicas que devem fazer algo para enfrentar o problema. Os consumidores também podem ajudar. A nutricionista Gisele Pontaroli Raymundo, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ensina, em artigo publicado no portal Aprende Brasil (www.aprendebrasil.com.br), que uma maneira de diminuir o desperdício de alimentos é aproveitá-los totalmente, ou seja, utilizar cascas, folhas e talos e não simplesmente descartá-los. “O desconhecimento do valor nutricional dessas partes gera parcela considerável do lixo doméstico que se acumula nas cidades”, relata. “O aproveitamento integral dos vegetais ajuda a promover a diminuição do descarte, a melhora na qualidade nutricional da dieta e amplia a variedade de pratos.”

Segundo ela, um exemplo bem comum é o cozimento da casca do abacaxi para a obtenção de suco, que “é delicioso e bastante nutritivo, muito melhor que oferecer aos nossos filhos similares em pó, que são artificiais e nem um pouco saudáveis”. De acordo com Gisele, as partes dos vegetais que são descartadas possuem valor nutricional e podem ser utilizadas para enriquecer a alimentação. “Ainda há muito preconceito sobre esse uso”, diz no texto. “Muitas pessoas torcem o nariz quando se fala em usar cascas de frutas para fazer doces ou talos e folhas dos vegetais para enriquecer farofas e tortas”.

As hortaliças, por sua vez, também possuem partes, geralmente descartadas, que podem ser utilizadas na alimentação, “como as folhas da beterraba, da cenoura, da couve-flor, da hortelã e da mostarda; as cascas da abóbora, da banana, da batata-doce, da batata inglesa, da berinjela, da goiaba, da laranja, da maçã, do mamão, da manga, do maracujá, do melão, do nabo, do pepino, do rabanete, da tangerina; os talos da beterraba, dos brócolis e da couve-flor; a entrecasca do maracujá e da melancia e as sementes da abóbora, da jaca e do melão”.

Gisele lembra que muitos produtos feitos com o reaproveitamento dessas partes já fazem parte da alimentação de muita gente, como, por exemplo, o doce da casca de laranja e o suco da casca do abacaxi. “Da entrecasca do maracujá se faz um pó que é usado para baixar taxas do colesterol e manter a glicemia de diabéticos em níveis mais baixos, conforme estudos já comprovaram”, garante a nutricionista.

Além disso, há uma série de outras medidas que ajudam a reduzir o desperdício. Uma delas, ao contrário do que muitas pessoas pensam, é não fazer compras mensais no supermercado. Uma maior frequência evita que os produtos estraguem na despensa ou percam a validade, além de ser consumidos mais frescos. Recomenda-se essa atenção principalmente para frutas, legumes e verduras, que devem ser ingeridas logo, pois são perecíveis. Por isso, o consumidor deve optar pela compra desses itens em unidade, um hábito comum nos países europeus.

Na geladeira, os vegetais devem ser colocados de preferência inteiros, para evitar o envelhecimento precoce. Ao comprar alimentos industrializados em promoção é preciso ter cuidado, pois não é raro que a data de validade esteja prestes a vencer. Para Flavia, da Unesp, como o desperdício de comida e a fome são temas presentes no Brasil “é importante estabelecer medidas de redução de perdas e aumento da produtividade por meio de observação diária e de campanhas de orientação aos clientes dos estabelecimentos comerciais”, destaca. Assim, segundo ela, será possível reduzir o volume de alimentos descartados como lixo.
Revista Problemas Brasileiros

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