sábado, 12 de março de 2011

AIDS E OUTRAS DOENÇAS DA GLOBALIZAÇÃO

A epidemia da globalização

Divulgação

Rock Hudson: o ator de Hollywood morreu em 1985 e foi a primeira celebridade vitimada pela Aids


Quando o americano Robert Gallo isolou o vírus da Aids, em 1983, a doença era chamada de "peste gay" e matava nove em cada dez pacientes, na imensa maioria homossexuais e usuários de drogas injetáveis. A façanha do americano, repetida quase ao mesmo tempo pelo francês Luc Montagnier, abriu caminho para a sintetização das drogas antivirais que transformaram a Aids em uma doença crônica, tratável e de baixa letalidade. Gallo está com 66 anos e trabalha atualmente na pesquisa de uma vacina contra a Aids. Prevê que esse medicamento pode estar disponível em no máximo seis anos. O cientista americano deu esta entrevista a VEJA em 1996, ano que foi um marco no tratamento da doença. O coquetel de drogas que interrompe quase completamente a proliferação do vírus começava a dar resultados positivos. Gallo falou a VEJA dessa revolução no momento exato do disparo do primeiro tiro.

set 96 Robert Gallo


VEJA –
Existe fundamento para o entusiasmo despertado pelas novas drogas contra a Aids?

GALLO – Lamento dizer: sim e não. São bastante raros os casos de drogas capazes de combater com eficácia algum tipo de vírus. É muito mais difícil combater um vírus do que parasitas e bactérias, que vivem fora da célula. Os parasitas e as bactérias têm seu próprio metabolismo, são mais fáceis de atingir e, portanto, mais fáceis de destruir. Mas é evidente que estamos no limiar de uma nova era nas investigações. Sabemos muito mais sobre vírus em geral e, especialmente, sobre o HIV. Era apenas uma questão de tempo até que drogas relativamente potentes e específicas fossem encontradas. O que tem causado entusiasmo na comunidade científica é o uso das novas drogas, baseadas na inibição de uma das enzimas necessárias para a reprodução do vírus HIV, a protease. Esses novos medicamentos agem em conjunto com as drogas antigas, como o AZT, que atua sobre a transcriptase reversa, outra enzima do ciclo do HIV. Esse coquetel de remédios não deixa muita margem para que o HIV escape da célula infectada para atacar as células vizinhas, mas é preciso destacar também os aspectos negativos da medicação, os problemas que persistem.

VEJA – E o problema do preço, já que o coquetel anti-Aids custa cerca de 10 000 dólares anuais?

GALLO – O grande problema com essas drogas é, de fato, o custo. Quem pode comprá-las? Noventa por cento dos doentes não podem. Qualquer solução para o tratamento da Aids terá, obrigatoriamente, de incluir o lado econômico. O custo elevado torna essas drogas inacessíveis aos pacientes dos países em desenvolvimento e, até mesmo, a muitos pacientes das nações industrializadas.

VEJA – Quais serão os próximos passos contra a Aids?

GALLO – É necessário aprofundar nossos conhecimentos sobre o HIV e desenvolver uma maneira mais natural e biológica de controlar a reprodução do vírus no organismo. A indústria farmacêutica deverá continuar o que está fazendo, ou seja, desenvolver novas substâncias químicas contra as enzimas do vírus – a protease, a transcriptase reversa, a integrase. A indústria está atualmente numa posição muito favorável. Essas enzimas são fáceis de estudar e, quando se descobre sua estrutura molecular, torna-se simples encontrar as drogas mais eficazes para anular sua atuação.


Leia entrevista na íntegra



De doença fatal a mal crônico

Desde que os primeiros casos de Aids foram diagnosticados, em 1981, a pesquisa médica sobre a doença passou por três fases. A época inicial ficou marcada pelas primeiras e seminais descobertas, como o isolamento do vírus, em 1983, e a invenção do teste anti-HIV, em 1985. Para os pacientes a Aids era ainda uma doença fatal, que matava em média em um ano. Os avanços científicos começaram a render frutos em 1986, com a descoberta do AZT, medicamento que prolongava a sobrevida dos pacientes. Essa foi a segunda fase da moléstia, que durou dez anos. Em 1996, foi descoberto o coquetel de drogas que dificulta a proliferação do HIV no organismo. Os remédios do coquetel vêm recebendo aperfeiçoamentos a cada ano. Com os cuidados necessários, a Aids pode ser cuidada e mantida sob controle como uma doença crônica qualquer, como, por exemplo, o diabetes.

Fama e calvário

Além do ator Rock Hudson, outros famosos levaram a opinião pública a discutir sobre a Aids:

Cazuza O cantor viveu sua agonia em público, falando corajosamente sobre a doença. Morreu em 1990

Magic Johnson O craque do basquete americano descobriu ser soropositivo em 1991. Tornou-se usuário do coquetel de drogas em 1996 e hoje leva uma vida normal, administrando vários negócios e produzindo um programa na MTV

O paciente zero

O comissário de bordo canadense Gaetan Dugas é considerado o "paciente zero" da Aids. Estima-se que ele tenha contaminado aproximadamente 250 pessoas por ano em diversos países no início da década de 80. Sua história foi contada no livro E a Vida Continua, publicado nos Estados Unidos em 1987 e considerado uma das melhores crônicas sobre a doença. A obra sugere que a Aids seria uma "epidemia da globalização", própria de uma era em que existe facilidade de locomoção. A Sars seria outra dessas epidemias.

A nova mulher da nova classe C

O crescimento econômico fez nascer
uma consumidora exigente e capaz
de expandir um mercado até então tímido


Thereza Venturoli


A paulistana Patricia de Amorim Rocha, a moça da foto na página ao lado, está com 36 anos, é casada e mãe de uma menina de 10 anos. Filha de imigrantes nordestinos, tem o ensino médio completo, mas já trabalhava informalmente desde os 11 anos de idade para complementar a parca renda familiar conseguida pela mãe, diarista, e pelo pai, operário da construção civil. Foi operária e funcionária do setor administrativo numa fábrica de brinquedos. Fez um curso de empreendedorismo e foi contratada por uma indústria de panelas. Desistiu do emprego de carteira assinada para montar uma sorveteria – que também se mostrou pouco rentável. Há cinco anos, enfim, desistiu de tudo para se dedicar à venda direta de cosméticos – atividade que lhe rende seis vezes mais que os empregos que já teve com carteira assinada.

Consultora de beleza, Patricia é responsável por 60% do dinheiro do lar. Ancorada no sucesso dela, a família trocou o fogão, comprou um computador com acesso à internet e estacionou na garagem um carro zero-quilômetro, comprado em 2008, em 24 prestações. "Prazo bem curtinho mesmo, que é para a gente não se meter em dívidas que não acabam mais", diz Patricia. O próximo passo é trocar o televisor e terminar de pagar as prestações da casa própria em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. "Lá teremos uma suíte para o casal", afirma Patricia. A filha, Jenifer, estuda em escola pública. A razão é, de novo, cuidado com os gastos: "A escola municipal é boa. Então deixamos para pagar uma escola particular quando ela avançar mais nos estudos". De planejamento em planejamento, Patricia tem certeza de que vai conseguir mais: cursar uma faculdade de economia, viajar nas férias e, um dia, quem sabe, fazer uma cirurgia plástica no abdômen.

Patricia, sorridente e despachada, vivíssima, poderia ser traduzida em números. Ela é uma legítima representante da nova mulher da nova classe média brasileira. Entre 2003 e 2008, cerca de 27 milhões de brasileiros das classes D e E subiram de patamar social e hoje compõem os 91 milhões de cidadãos da classe C. São filhos do crescimento econômico, da expansão de empregos e do fim da inflação, fenômenos recentíssimos no Brasil. As mulheres, indutoras de consumo, têm papel fundamental nesta sociedade que se expande. Segundo o instituto Data Popular, elas são 36 milhões, que, até o fim deste ano, terão movimentado 158 bilhões de reais, o equivalente a 30% da renda de todas as brasileiras. "Aberta às novidades tecnológicas, atenta à importância da educação e consciente de seu poder aquisitivo, essa mulher, que tem pela primeira vez algum dinheiro para gastar com itens não essenciais, preocupa-se em crescer profissionalmente, aumentar a renda e, assim, poder comprar mais, com cautela", diz Fábio Mariano, sociólogo especializado em comportamento do consumidor, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo. "Com isso, está desenvolvendo um imenso mercado de consumo que segue regras próprias." As mulheres da classe C, ainda segundo o Data Popular, são também as que mais levam dinheiro para casa: contribuem, em média, com 41 reais a cada 100 reais da renda familiar. Na classe A, a participação feminina é de 25 reais a cada 100. Isso significa que nas funções que exigem menos preparo as mulheres ganham mais do que os homens – ao contrário do que ocorre nas camadas mais altas da pirâmide. Coerentemente, 30% das famílias de classe média são chefiadas por mulheres. Na classe A essa proporção é de 22%.

Com todo esse poder na bolsa, as emergentes representam mais de 50% dos clientes das farmácias, dos supermercados e das lojas de roupas. Para cada dez homens de classe média que fazem compras nos shoppings, há doze mulheres. Elas avançam, também, em tradicionais nichos de consumo masculino, como seguradoras e bancos: 62% das mulheres têm cartão de crédito, contra 59% dos homens da mesma classe social. Há quem aposte que, em dez anos, elas serão maioria absoluta entre os clientes nos estandes de vendas de apartamentos e nas concessionárias de automóveis. Alguma dúvida? O futuro parece uma longa estrada quando se acompanha com atenção uma outra estatística: dos 7,5 milhões de mulheres da classe C com idade entre 16 e 24 anos, 73% já ingressaram no mercado de trabalho. Outros 25% estão na faculdade ou de posse do canudo. Os filhos são importantes, mas a razão da existência vai além da prole: 36% das jovens ouvidas pela pesquisa citam como maior sonho a realização profissional. As cifras parecem refletir Patricia.

A leitura como complemento das conquistas

MÁXIMA, da Editora Abril, uma publicação para
a mulher da classe C ascendente

A Editora Abril, que publica VEJA, lança em 27 de maio uma nova revista, a MÁXIMA, destinada às mulheres da classe C. Terá 180 páginas e será vendida a 4,50 reais. O que a faz diferente de outras publicações femininas? O modo de tratar os temas, adequado a um grupo social que até muito recentemente não consumia e agora descobre os prazeres da vida moderna. "O público-alvo da revista é novo, composto de mulheres que deixaram as classes D e E em busca de sucesso", afirma Demetrius Paparounis, diretor do núcleo Semanais da Editora Abril. "São mulheres que, de alguma maneira, fazem estreias na vida."

As futuras leitoras de MÁXIMA, ontem mesmo, visitavam a família, em outros estados, de ônibus – agora vão de avião, compram bilhete à vista ou parcelado. Costumavam hospedar-se com os pais, e agora adquirem pacotes de turismo. Antes, sem dinheiro, limitavam-se a deixar a casa limpa, mas sem muita organização. Hoje, arrumam tudo e ainda prezam as sutilezas da decoração. Já não põem panelas direto na mesa, preferem usar travessas. Um exemplo, simples, da edição número 1: a reportagem que ensina como arrumar armários, porque esta nova mulher tem mais objetos, sapatos, roupas.

A permear esse perfil comportamental e de consumo, há uma característica que ajuda a entender o interesse dessas novas mulheres pela leitura: elas têm curso superior, quase sempre feito em faculdade particular. São filhas da explosão desse tipo de escola, fenômeno deflagrado há dez anos e que chegou a seu apogeu. "Ter instrução e conhecimento muda tudo na vida de uma pessoa", afirma Paparounis. "A MÁXIMA é um complemento à nova vida que elas

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Amazônia - O tesouro escondido na selva

A Amazônia tem a maior biodiversidade do planeta,
mas apenas 10% dela é conhecida pela ciência.
A falta de pesquisas e as leis contra a biopirataria
impedem que o Brasil aproveite o potencial
de uso da flora e dos microrganismos na medicina
e na indústria



Leandro Beguoci, de Manaus

Araquem Alcântara

Rainha da floresta
Crianças brincam nas raízes de uma sumaúma, a maior árvore do Brasil, que chega
a 60 metros de altura: 25% das substâncias usadas hoje no tratamento de tumores
vêm de florestas tropicais



Em poucos quilômetros quadrados da Floresta Amazônica há mais espécies de plantas do que em toda a Europa. Há mais espécies de animais do que na América Central. Uma única árvore pode servir de lar a 1 700 tipos de invertebrados, que vão de formigas a aranhas, de abelhas a besouros. A Amazônia é a região de maior biodiversidade do mundo – mas nós, brasileiros, só temos uma pálida ideia dessa exuberância viva. Calcula-se que apenas 10% de todas as formas de vida que a Floresta Amazônica abriga já tenham sido estudadas e catalogadas. Essa falta de conhecimento científico sobre o bioma é uma das fragilidades amazônicas. O desconhecimento representa um obstáculo para a produção de riqueza a partir da floresta em pé. É impossível agregar valor ao que não se conhece. Estima-se que a flora, a fauna, as bactérias, os fungos e outros microrganismos da floresta guardem um enorme potencial para a produção de remédios e alimentos e para vários setores da indústria. A riqueza escondida, porém, não vale nada. É preciso mãos e cérebros para descobri-la – e é justamente isso que falta de forma crônica à Amazônia.

O câmpus da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto tem mais pesquisadores do que todo o estado do Amazonas. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul tem mais que o dobro do número de pesquisadores do Pará, o estado líder na região em matéria de cientistas qualificados. A Universidade de São Paulo tem o triplo de doutores de toda a Amazônia. A região é cenário de 18% das pesquisas em biodiversidade no Brasil, contra 36% da Mata Atlântica, embora essa última represente 2% da Amazônia. A falta de pesquisadores é agravada pela baixa qualidade dos cursos de formação de cientistas. Nenhum curso de mestrado ou doutorado de universidades amazônicas alcança a nota máxima, 7, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), instituição ligada ao Ministério da Educação. A maior parte leva 3, a nota mínima para não fechar as portas.

Um prédio erguido em meio às indústrias da Zona Franca de Manaus serve de símbolo do quadro desolador da pesquisa científica na Região Norte. A construção abriga o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), inaugurado em 2002 e dotado de 25 laboratórios para explorar o potencial da floresta. Há bons motivos para criar um centro de excelência em biotecnologia na Amazônia. O Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, estima que 25% de todas as substâncias usadas para tratamento de tumores no mundo, hoje, venham de florestas tropicais. Só que o CBA virou um elefante branco – ou, como zombam os amazonenses, uma anta branca. O centro já consumiu 67 milhões de reais e ainda não produziu resultado algum.

Após a inauguração do CBA, sua administração foi entregue provisoriamente à Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). Desde então, os seis ministérios responsáveis pelo projeto se perdem em discussões burocráticas tentando definir qual deve ser seu modelo de gestão. A primeira opção seria uma empresa pública só de pesquisas, com fins lucrativos, nos moldes da Embrapa. A segunda, um instituto de pesquisa combinado a uma instituição de ensino superior, como o Inpa, com objetivos puramente científicos. Para a Suframa, o CBA é uma batata quente. O órgão não sabe o que fazer dele nem tem autonomia para decidir seus rumos. "O Brasil precisa aprender a transformar pesquisa em dinheiro e o CBA pode fazer isso, mas não é a vocação da Suframa comandar um instituto de biotecnologia", diz o economista Elilde Mota de Menezes, da Suframa. Enquanto isso, semiparalisado, o CBA se limita a fazer análises químicas para instituições de pesquisa e empresas particulares, subutilizando seus aparelhos modernos, avaliados em 20 milhões de reais. Um dos últimos trabalhos do órgão, acredite-se, foi avaliar a resistência ao clima de uma marca de bombons fabricados em Manaus.

Para tirar a Amazônia do limbo científico, é preciso também acabar com um mito tão arraigado quanto o do boto-cor-de-rosa – o mito da biopirataria. Segundo ele, ardilosos cientistas estrangeiros entram na floresta e roubam do país plantas, animais e microrganismos valiosos para a indústria farmacêutica, sem dar satisfação ao país. A partir de 2001, para se precaver contra a suposta biopirataria, um cipoal de decretos e normas burocratizou a produção científica e pôs uma série de obstáculos às pesquisas. "O mesmo governo que financia o pesquisador, com bolsas, desconfia dele e o trata como biopirata em potencial", desabafa o paulista Thomas Lewinsohn, professor da Unicamp e um dos maiores especialistas brasileiros em mapeamento da biodiversidade. Para coletar plantas da floresta legalmente, um pesquisador, brasileiro ou estrangeiro, precisa de uma licença do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), uma autarquia ligada ao Ministério do Meio Ambiente. Para transportar as plantas que encontrar pelo caminho ao laboratório, ele necessita de uma segunda licença do mesmo órgão. A licença pode demorar dois meses para sair. Caso o cientista deseje estudar os usos potenciais da planta que coletou, terá de pedir uma terceira licença a outro órgão, o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cgen), formado por representantes de dezenove entidades – entre elas a Fundação Cultural Palmares e a Fundação Nacional do Índio. E quanto tempo demora essa licença? Só o cacique sabe. Não menos do que vários meses. Existem hoje 167 processos desse tipo parados no Cgen. Não é à toa que muitos cientistas desistem no meio do caminho, como o químico Lauro Barata, da Unicamp. "É impossível lidar com a burocracia federal na área de pesquisa", afirma. "Um único parágrafo das leis te enlouquece."

Fotos Cristiano Mariz

Pesquisa que vira dinheiro
Cientista da Embrapa, em Belém, analisa o tucumã em laboratório.
Estudos indicam que desse fruto pode ser extraído um azeite mais
nutritivo que o de oliva

O resultado da caça às bruxas da biopirataria é a debandada de pesquisadores estrangeiros do país. O Inpa, tradicional parceiro de organismos internacionais, firmou apenas dois acordos de pesquisa entre 2002 e 2007. A retomada só aconteceu em 2008, quando foram firmados seis acordos de cooperação com órgãos de outros países. Diz Ima Vieira, ex-diretora do Museu Paraense Emílio Goeldi: "Os pesquisadores estrangeiros sérios, que estudam biodiversidade, foram embora. Cientista que vem ao país amparado por instituições respeitadas não é biopirata. É mais fácil um turista levar algo ilegalmente da floresta do que um pesquisador". Muitos estrangeiros migraram para a Amazônia peruana ou para a Guiana Francesa, onde o cientista é tratado como parceiro, não como ameaça.

Boa parte do conhecimento que se tem sobre a Amazônia se deve aos estrangeiros. Um dos principais livros sobre a flora da região (e do Brasil) foi escrito no século XIX pelo botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius, em que são descritas 22 700 espécies de plantas. A maior coleção de plantas amazônicas está no Jardim Botânico de Nova York. Para saber se uma espécie é nova ou não, é útil recorrer aos americanos. Os dois projetos de mapeamento de biodiversidade da Amazônia mais importantes, hoje, têm participação de cientistas e organizações de outros países. A ONG americana Conservação Internacional é a principal patrocinadora de um estudo que visa a mapear a biodiversidade nas áreas tropicais do mundo. Seu projeto de longo prazo é saber como as mudanças no clima do planeta afetam as espécies. Outro projeto é o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, que pretende descobrir, enfim, quantas espécies existem na Amazônia e como elas se distribuem. Um de seus idealizadores é o biólogo australiano William Ernest Magnusson, de 57 anos, trinta dos quais atuando na Amazônia. "Nosso papel é dizer para o governo onde ele deve construir uma estrada e onde será mais vantajoso preservar a selva porque existem riquezas potenciais por ali", explica Magnusson. Conhecer o bioma amazônico a fundo é um passo importante para preservar a floresta.

Vida de cientista
A bióloga paulista Andressa Scabin, do Inpa, no Rio Negro, no município
de Novo Airão, a quatro horas de carro e barco de Manaus: 100 dias por
ano na floresta para pesquisar a biodiversidade de árvores de regiões alagadas



O governo incomoda mais que o mosquito

O entomólogo americano William Overal passou 33 dos seus 62 anos como funcionário do Museu Paraense Emílio Goeldi tentando entender por que a Amazônia tem a maior biodiversidade do mundo. Isso significa compreender por que há tantas espécies de abelhas, borboletas e formigas em trechos pequenos de mata e o que influencia sua distribuição. Seus artigos foram publicados nas principais revistas científicas do mundo. Em seu escritório repleto de animais invertebrados de cores e formas variadas, coletados em expedições que lhe custaram cinco malárias, Overal só perde a paciência quando comenta o tamanho da burocracia para fazer pesquisa no Brasil. "O governo precisa encontrar uma vocação melhor do que atormentar pesquisadores", diz ele. "Se o governo usar o que nós sabemos, em vez de criar empecilhos para a pesquisa, ainda dá tempo de salvar a floresta."



O multiplicador de espécies


Graças ao botânico Michael Hopkins, nascido no País de Gales, o número de espécies conhecidas na área mais estudada da Floresta Amazônica, a Reserva Ducke, dobrou. Formado em Oxford, Hopkins vive no Brasil há dezesseis anos. Ele ajudou a reorganizar os herbários de Manaus e de Belém e, durante a tarefa, descobriu que muitas das plantas estavam classificadas com nome errado. Ele também é autor de uma pesquisa sobre a localização das áreas da Amazônia menos exploradas pelos cientistas, o que os ajuda a organizar expedições em busca de plantas raras e desconhecidas. A partir de 2001, Hopkins viu seu projeto de mapeamento da flora amazônica ser abortado por causa da legislação contra a biopirataria.

O financiamento internacional para seu trabalho secou porque os investidores estrangeiros tiveram medo de ser criminalizados. "Há um vazio de vinte anos de pesquisas básicas sobre a flora", diz Hopkins.


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Amazônia - Uma cidade de costas para a selva. Ainda bem

A Zona Franca de Manaus é um bom exemplo
de produção de riquezas e empregos sem exercer
pressão sobre a floresta. Outros polos industriais
semelhantes podem ser criados na Amazônia



José Edward, de Manaus

Fotos Manoel Marques

Sem mexer no mato
Imagem aérea da Zona Franca de Manaus: faturamento anual de 60 bilhões de reais,
o dobro do PIB da Bolívia


A região amazônica é hoje pelo menos duas vezes mais rica do que há três décadas, segundo indica o PIB dos estados que a compõem. Esse crescimento econômico, no entanto, se deu em grande parte graças a atividades que têm como base a destruição da floresta – a exploração madeireira e a pecuária extensiva. Quem estuda a Amazônia a sério concorda que, para evitar que a região continue a ser explorada de forma predatória, é preciso desenvolver atividades econômicas que não exerçam pressão sobre a floresta, promovam riquezas e assegurem emprego e renda à população. A experiência mais bem-sucedida nesse sentido, até agora, é a Zona Franca de Manaus, um enclave de eficiência tecnológica na Amazônia. Criada em 1967, como parte do plano do regime militar de integrar a Amazônia ao restante do país, essa região de livre-comércio compreende uma área de 10 000 quilômetros quadrados, incluindo a capital amazonense. Para viabilizar seu projeto, o governo federal passou a conceder incentivos fiscais às empresas que se dispusessem a instalar fábricas no meio da selva.

A isenção fiscal – sobretudo do imposto sobre produtos industrializados (IPI) para mercadorias que entram e saem da área – resultou na criação de um dos maiores e mais diversificados complexos industriais da América Latina. Pouco mais de quatro décadas após sua fundação, a Zona Franca de Manaus concentra 550 indústrias modernas, que fabricam desde lentes oftalmológicas até motocicletas. No ano passado, essas companhias alcançaram, juntas, um faturamento de 60 bilhões de reais – o dobro do PIB da Bolívia. Nessa conta não estão computados os resultados obtidos pelas duas centenas de empresas dos setores de comércio e prestação de serviços que gravitam em torno das fábricas. "Toda essa riqueza é produzida sem que seja necessário derrubar uma única árvore", diz José Alberto Machado, especialista em desenvolvimento regional e professor da Universidade Federal do Amazonas. "Temos aqui, de fato, uma indústria limpa, de costas para a floresta", acrescenta o economista Alexandre Rivas.

Machado e Rivas são autores de um estudo recém-lançado que demonstra de forma científica o impacto virtuoso que o polo industrial de Manaus exerce sobre a proteção da Floresta Amazônica. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que a existência do complexo industrial atenuou em pelo menos 70% o desmatamento no estado do Amazonas. O trabalho conclui que a dinâmica econômica provocada pelas indústrias instaladas na Zona Franca contribuiu de forma decisiva para que o Amazonas tenha atualmente 98% de sua área de floresta preservada. No vizinho Pará, onde a base da economia se concentra na extração madeireira e na mineração, 20% da floresta já foi destroçada. Em Mato Grosso, que tem a agropecuária como carro-chefe, esse índice chega a quase 40%. De acordo com a pesquisa, a maior parte dos 500 000 empregos – 100 000 diretos e 400 000 indiretos – que o polo industrial de Manaus cria atualmente é ocupada por migrantes do interior do Amazonas e de outros estados da região. "Não fossem essas indústrias, muitos de nós com certeza não teríamos outra opção senão ficar nas mãos das madeireiras", constata o paraense Amauri Faria, que há quinze anos começou a trabalhar como auxiliar de produção na fábrica de motocicletas Honda e hoje gerencia uma unidade automatizada da montadora, na qual comanda 36 operários. "Na região de Óbidos, no Pará, onde nasci, o desmatamento corre solto, em plena calha do Rio Amazonas, por falta de opções de trabalho como as que temos aqui", ele completa.

Até o início da década de 1990, a Zona Franca de Manaus funcionava basicamente como um entreposto para a importação de produtos, sobretudo eletroeletrônicos. Na maior parte dos casos, os equipamentos eram apenas montados lá e, depois, distribuídos para o resto do país. Após a abertura da economia brasileira ao mercado internacional e a redução generalizada das alíquotas de importação, antes restrita à Zona Franca, as indústrias locais tiveram de se reinventar para sobreviver. Graças aos investimentos em tecnologia e à intensa qualificação da mão de obra, elas conseguiram agregar valor à produção e tornar-se competitivas. Atualmente, uma média de 30% dos componentes de seus produtos são fabricados na própria região. Outros 20% são produzidos em outros estados brasileiros. No ano passado, as compras de insumos feitas dentro do Brasil pelas indústrias do polo ultrapassaram a casa dos 14 bilhões de reais. Em algumas fábricas, o índice de nacionalização da produção é muito superior. É o caso da Honda, que tem mais de 90% das peças de suas motocicletas fabricadas no país – no modelo CG 150 Titan, o mais vendido, esse índice chega a 99%. A Honda brasileira é hoje campeã de produtividade: a cada vinte segundos sai uma moto de sua linha de montagem – metade do tempo médio registrado nas outras oito unidades que a multinacional possui fora do Japão.

Obrigada a importar mais da metade dos componentes que integram seus aparelhos celulares – já que o Brasil não dispõe de fábricas de semicondutores –, a finlandesa Nokia, por sua vez, vem investindo para que sua filial em Manaus se transforme em um centro de desenvolvimento de tecnologias para o setor. Para isso, patrocina uma escola profissionalizante de nível médio aberta à comunidade. Mantendo aulas em regime integral, nos últimos dois anos a instituição ficou em primeiro lugar no ranking do MEC para a Região Norte. A Nokia mantém também um instituto de pesquisas onde 300 funcionários, entre os quais mestres e doutores, se dedicam exclusivamente a buscar inovações tecnológicas para seus produtos e processos. Foi de lá que saiu, por exemplo, o equipamento que testa a resistência de aparelhos celulares utilizado atualmente em todas as fábricas da multinacional ao redor do mundo. Várias tecnologias presentes nos aparelhos vendidos mundialmente pela Nokia também foram desenvolvidas aqui, sobretudo na área de softwares.

Para que o polo industrial de Manaus se consolide, falta desatar alguns nós. Um deles é o da infraestrutura logística da região. Manaus é ainda hoje uma cidade praticamente isolada: o acesso a ela só é possível de avião ou por meio de longas viagens de barco ou navio. Há também o gargalo da energia, que, a exemplo do que acontece no restante do estado, é alimentada pelo poluente e caro óleo combustível. Ainda no capítulo da logística, é necessário que a estrutura portuária da cidade seja modernizada. A orla de Manaus, ao longo do Rio Negro, é um verdadeiro caos, com o engarrafamento diário de centenas de embarcações de passageiros e de cargas.

A consolidação da Zona Franca de Manaus passa também pela capacidade das indústrias locais de agregar mais valor a seus produtos. Para isso, ajudaria atrair uma indústria de semicondutores para a região. Atualmente, esses dispositivos, que funcionam como o "coração" de diversos equipamentos, são todos importados – o que encarece muito os custos. "Esse melhoramento só será possível se houver uma decisão política de transformar o polo em um centro de produção de ciência e alta tecnologia, como ocorre no Vale do Silício americano", diz o economista José Alberto Machado. Entre os produtos que utilizam a microeletrônica estão os marca-passos, os aparelhos destinados a suprir deficiências motoras e sensoriais, os vinculados à defesa e à gestão de território e os associados aos conversores da TV digital. A ampliação da Zona Franca de Manaus em direção à alta tecnologia produziria empregos suficientes para modificar a vida de milhares de habitantes da Amazônia.

A criação de polos semelhantes aos de Manaus poderia transformar a economia da Amazônia. Com investimentos maciços em educação e formação de mão de obra, estados cuja economia se baseia no extrativismo e na pecuária poderiam deslanchar como centros industriais capazes de desviar da floresta a atenção de seus habitantes. Em Rondônia, um novo polo que alcançasse metade do sucesso da Zona Franca de Manaus seria suficiente para triplicar o PIB do estado. Em estados menores, como Acre e Amapá, um polo industrial os faria produzir doze vezes mais riquezas do que agora. É o desenvolvimento de costas para a floresta.

Sem usar uma folha da floresta
Fábrica de motocicletas da Honda: a mais produtiva entre as nove que a empresa mantém fora do Japão



O empurrão das multinacionais

O polo industrial de Manaus abriu perspectivas para milhares de trabalhadores progredirem na vida. Muitos fizeram carreira nas multinacionais que se estabeleceram na região. Nascido em Manaus,Fernando Melo, de 35 anos, é um deles. Ele fez o 2º grau em uma escola técnica patrocinada pela fábrica de celulares finlandesa Nokia. Posteriormente, cursou graduação em engenharia elétrica e mestrado em engenharia da produção. Há onze anos, ingressou na fábrica que a companhia tem na capital amazonense como engenheiro júnior e, desde 2007, é gerente de suprimento e distribuição, um cargo alto no qual responde diretamente ao diretor-geral. "A empresa abriu todas as portas para mim", ele diz.



A natureza é ótima comar-condicionado

O advogado e economista Átila Denys, nascido em São Paulo há cinquenta anos, sente-se perfeitamente adaptado à vida na Amazônia. Depois de 32 anos morando em Manaus, incorporou hábitos da região. "Às vezes saio para pescar tucunaré com amigos, navegando pelos rios Negro ou Madeira", conta. Mas, para ele, vida selvagem tem limite. "A proximidade com a natureza é ótima quando se tem ar-condicionado e todo tipo de conforto em volta. A floresta é bonita de ver ali do outro lado do rio", diz. Dono do maior escritório de advocacia do Amazonas, Denys garante que não trocaria Manaus por nenhum outro lugar do Brasil. "Sofro um pouco com o calor. Mas aqui ninguém precisa andar com carro blindado."



3 exemplos de riqueza sem devastação

1 petróleo verde no interior do Pará

Vida nova
Colheita de dendê na Agropalma: renda para famílias que antes viviam
de derrubar árvores

Promover o desenvolvimento da Amazônia e o bem-estar de seus habitantes por meio do extrativismo artesanal tem se revelado uma ilusão. Quando a industrialização de uma matéria-prima da floresta é feita de forma extensiva, porém, os resultados podem ser espetaculares. Desde a década de 80, a empresa Agropalma cultiva e processa em larga escala no município paraense de Tailândia, na região conhecida como arco do desmatamento, a palmeira de dendê. Essa planta é originária das florestas tropicais africanas, mas tem características típicas de palmáceas amazônicas como o inajá e o açaí. A empresa – que pertence ao banqueiro Aloysio Faria, dono do Banco Alfa – instalou-se na região no início da década de 80 e hoje é a maior produtora de óleo de dendê da América Latina. A gordura bruta é extraída em cinco usinas instaladas na própria área de plantação. De lá, é transportada numa balsa pelo Rio Pará até Belém, onde é processada em uma refinaria. O óleo de dendê é usado, basicamente, nas indústrias alimentícias e de cosméticos. Os ácidos graxos que restam após o refinamento são utilizados para fabricar biodiesel. Hoje, metade do óleo de dendê consumido no Brasil é importada. A Agropalma faturou 650 milhões de reais no ano passado e já investiu quase o mesmo valor em todo o empreendimento.

Cerca de 40% da área de 106 000 hectares que a Agropalma tem na região amazônica é voltada para o cultivo de dendezeiros. Desde 2000, as novas plantações ocorrem somente em áreas já desmatadas. Apenas na colheita e no processamento primário do dendê são criados 3 500 empregos diretos. A refinaria e a usina de biodiesel abrem outros 500 empregos. A empresa desenvolve ainda parcerias com dezenas de famílias da região que antes viviam da extração ilegal de madeira e hoje se dedicam ao cultivo de dendezeiros. Os pequenos agricultores recebem assistência técnica e têm mercado assegurado para sua produção. Muitas famílias tiveram a renda média mensal aumentada em dez vezes.

2 O minério que cria empregos

Passo à frente
Fábrica de alumínio da Albras: processar a bauxita produz mais riquezas
do que vendê-la in natura

Quase toda a produção mineral da Amazônia é exportada de forma in natura, ou seja, sem nenhum processamento industrial. A industrialização do minério é um modo de criar alternativas de emprego e renda para pessoas que vivem do desmatamento da floresta nos arredores das jazidas. Um exemplo nessa linha ocorre em Barcarena, no Pará, onde a Alunorte e a Albras transformam parte da bauxita produzida no estado em alumínio. O processamento do minério é responsável por 6 000 empregos diretos – o dobro do que é criado na etapa de extração. Não estão incluídos nessa conta os 20 000 postos de trabalho indiretos formados por fornecedores e prestadores de serviço que atuam ao longo do processo de produção. As duas indústrias injetam anualmente cerca de 1 bilhão de reais na economia paraense com a compra de insumos, o pagamento de salários e o recolhimento de impostos. A agregação de valor da bauxita também resulta em mais divisas para o país. O alumínio exportado pela Albras é vendido em média por 2 600 dólares a tonelada – valor 75 vezes superior ao preço de exportação da tonelada de bauxita bruta.

A redenção do Projeto Jari

O desmatamento caiu
Serraria da fábrica de celulose do Grupo Orsa: manejo florestal
com auditoria alemã

A lendária fábrica flutuante de celulose que o magnata Daniel Ludwig instalou nas margens do Rio Jari, na década de 60, finalmente se transformou num exemplo de empreendimento sustentável no meio da floresta. O Grupo Orsa, que atualmente está no comando da indústria, investiu 200 milhões de dólares em sua modernização tecnológica e ambiental. Foram implantados filtros para redução de poluentes e equipamentos que proporcionam reutilização da água. A companhia desenvolve também um projeto de manejo florestal numa área de mata nativa e se submete a auditorias periódicas comandadas pela ONG alemã Forest Stewardship Council (FSC). Juntos, os empreendimentos criaram 3 500 empregos diretos e são responsáveis por cerca de 80% da movimentação econômica de uma região habitada por mais de 100 000 pessoas. A companhia desenvolve programas de geração de renda para pequenos agricultores que moram em comunidades localizadas na ampla área que está sob sua administração. Depois da implantação desses projetos, o desmatamento ilegal foi reduzido drasticamente na região. "Os moradores transformaram-se em guardiães da floresta", entusiasma-se Sergio Amoroso, presidente do Grupo Orsa.

http://veja.abril.com.br

A Controvérsia das Estradas - Cicatrizes dos nossos erros

O asfaltamento das estradas da Amazônia
apressa a devastação do verde e o ritmo de
ocupação da floresta. Mas qual é a alternativa?
O asfalto é a garantia de qualidade de vida
para milhões de moradores da região



Thomaz Favaro, de Humaitá

www.tyba.com.br

Risco no verde
Trecho da Transamazônica:a estrada é um lamaçal durante metade do ano


Vistas do alto, as estradas da Amazônia assemelham-se ao rastro da passagem de um furacão. Estima-se que 80% das áreas de floresta devastadas estejam a menos de 5 quilômetros de uma delas. Não se poderia esperar outra coisa dessas rodovias, pois elas foram criadas nos anos 70 precisamente para abrir caminho para a colonização. Quatro décadas depois, a Amazônia está malservida por estradas esburacadas, atoleiros e toda espécie de obstáculo ao trânsito de pessoas e cargas. Quase metade da malha rodoviária é considerada ruim ou péssima pela Confederação Nacional do Transporte. Outros 40% são apenas regulares. Tal situação coloca o Brasil diante de um dilema. Não se pode tolerar que uma região com o dobro do tamanho do México e habitada por 25 milhões de brasileiros fique à mercê de um sistema viário de padrão africano. Por outro lado, existe hoje a consciência de que a floresta precisa ser preservada e que cada estrada é um vetor de desmatamento. Elas não apenas atraem migrantes, mas também servem de ponto de partida para milhares de caminhos vicinais abertos por madeireiros, garimpeiros e agricultores. O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) calculou que as estradas não oficiais somam 170 000 quilômetros de extensão. Isso significa que, de cada 10 quilômetros de estrada na Amazônia, 7 foram rasgados ilegalmente no mato.

As grandes rodovias foram abertas pelo governo federal, que promoveu a ida de colonos para a Amazônia na década de 70. Hoje, depois de um prolongado período de abandono, as autoridades têm a obrigação de pôr essas vias em ordem, garantindo o bem-estar de quem mora nesses lugares. A dificuldade é como fazer isso e, ao mesmo tempo, impedir que a devastação avance. O governo federal já decidiu asfaltar as três principais estradas que rasgam a Floresta Amazônica – e, no que diz respeito à preservação, seja lá o que Deus quiser. Não precisaria ser assim. Duas das rodovias – a Transamazônica e a Cuiabá-Santarém – precisam do asfalto com urgência. Elas atravessam áreas densamente povoadas, já bastante desmatadas, e são necessárias para o desenvolvimento econômico e para melhorar a qualidade de vida da população que habita suas margens. O projeto da terceira, que liga Porto Velho a Manaus e atravessa uma região de floresta intacta, se parece demais com os erros do passado e faz total sentido que seja cancelado.

Como a maioria das rodovias é de terra, a temporada de chuva torna o tráfego difícil, quase impraticável, durante metade do ano. Os produtores de grãos do Centro-Oeste brasileiro bem que gostariam de usar a BR-163, que liga Cuiabá, em Mato Grosso, a Santarém, no Pará, como corredor de exportação. Mas o asfalto só existe no trecho mato-grossense. Depois, são 937 quilômetros de estrada de terra. Durante o período de chuvas, os atoleiros impedem a passagem de veículos pesados. "Já demorei trinta dias para percorrer um trecho de 750 quilômetros", diz o caminhoneiro João Juarez Barão, um paranaense que transporta cerâmica para o Pará e retorna com madeira para o Sul e o Sudeste. Por isso, os grãos do norte de Mato Grosso são escoados pelos portos de Santos e Paranaguá, a mais de 2 000 quilômetros de distância. Isso atrasa a chegada da carga aos Estados Unidos e à Europa em pelo menos quatro dias. Estima-se uma perda de 480 milhões de reais por safra devido ao acréscimo no custo do frete. Mais de 800 000 pessoas vivem às margens da BR-163. No norte de Mato Grosso, onde as chuvas são regulares e o terreno é plano, perfeito para a lavoura mecanizada, a área de influência da estrada engloba 50% da produção de soja do estado. Ali fica Sorriso, a capital mundial da soja, com produção de 2,5 milhões de toneladas por ano. No trecho paraense, onde o relevo é acidentado e o asfalto ainda é só uma promessa, os moradores passam longos períodos de isolamento. No inverno, época da chuva, os preços disparam devido aos custos do frete. "Os alimentos ficam, em geral, 40% mais caros", diz Henrique Borges, dono do mercado que abastece o município de Trairão, com 15 000 habitantes, a 350 quilômetros de Santarém. "A demora é tanta que não compensa trazer verdura para a cidade."

Manoel Marques

Caminho das águas
Balsa navega no encontro
dos rios Negro e Solimões:
90% das cargas transportadas
na Amazônia vão de barco


A Transamazônica, que passa por trinta municípios nos estados do Pará e Amazonas, está em situação igualmente precária. Em seu entorno mora 1,2 milhão de pessoas, a maioria delas no Pará. O trecho paraense concentra 60% da produção de cacau e 20% de gado do estado. Não há argumento ambientalista capaz de justificar a manutenção de tantos brasileiros no isolamento (veja matéria). O caso da BR-319 é totalmente diferente. A rodovia de 877 quilômetros, que liga Porto Velho, em Rondônia, a Manaus, foi aberta em 1973 e asfaltada. Mas, por falta de manutenção, metade da sua extensão foi engolida pela floresta. Hoje, ela só é trafegável nas extremidades, que foram pavimentadas nos últimos anos. Um trecho de 400 quilômetros está praticamente abandonado desde 1988, sem vestígios do asfalto original e com menos de 150 famílias vivendo nas proximidades. A estrada só não sumiu de vez do mapa porque a Embratel faz reparos constantes para poder realizar a manutenção dos cabos que levam os serviços de telefonia e internet a Manaus.

A pavimentação da rodovia é uma proposta antiga e tem forte apelo na capital do Amazonas e no estado de Roraima, pois tiraria a região do isolamento rodoviário em relação ao resto do país. A obra só não avança porque, em junho, o Ibama negou licença ambiental. E com razão, uma vez que a estrada ameaça regiões de floresta que estão intactas – e é melhor que continue assim. A BR-319 corta uma das áreas com maior biodiversidade da Amazônia. "Só de aves são 740 espécies, quase metade do que existe no Brasil", diz o ornitólogo Mario Cohn-Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). As 29 unidades de conservação ambiental propostas para evitar que a rodovia se torne mais um propulsor do desmatamento só existem nos papéis assinados em Brasília. O simples anúncio de que a estrada seria recuperada foi suficiente para atrair dezenas de migrantes. O capixaba Osmar Oliveira, de 36 anos, veio há dois anos com a família com planos ambiciosos: está construindo um hotel com dez quartos no quilômetro 110 da rodovia. "Em dois anos, quando o asfalto chegar, serão centenas de carros transitando por aqui todos os dias", prevê Osmar. Para evitar que isso ocorra, alguns especialistas propõem que o traçado da estrada seja aproveitado para a construção de uma ferrovia. "O trem poderia suprir a demanda econômica e social sem promover a ocupação desordenada da região", diz o biólogo Philip Fearnside, do Inpa. Está aí uma boa sugestão para evitar a repetição dos erros do passado.

Alberto César Araújo/Folha Imagem

Ônibus flutuantes
Os rios são a única via de acesso para centenas de comunidades ribeirinhas,
fazendo dos barcos o principal meio de transporte do Amazonas. São 3 milhões
de passageiros por mês. Na foto, barcos atracados em Manaus



Só com bom tempo

Léo Caldas/Titular

A cidade de Trairão (foto acima), no Pará, é uma das dezenas de comunidades criadas ao longo da BR-163, que liga Cuiabá a Santarém. Seus moradores vivem em função da estrada – e não é nada bom depender de uma rodovia sem asfalto. O maranhense Alcenor de Souza montou há oito anos uma borracharia na beira da rodovia. Durante os seis meses de verão, a estação seca na Amazônia, ele presta serviços aos caminhoneiros que passam pela cidade. São em média trinta por dia. Mas na temporada de chuvas os clientes somem. "Chego a ficar setenta dias sem um único serviço", diz Alcenor. O problema é que a rodovia fica totalmente coberta de lama, e os poucos veículos que se atrevem a trafegá-la demoram vinte dias para percorrer um trecho de 800 quilômetros. Não é apenas o trabalho que míngua em Trairão. No inverno, o custo do frete aumenta e o preço dos alimentos sobe 40%.


segunda-feira, 7 de março de 2011

Emissões de gases-estufa - Tamanho não é documento

Estudo canadense avalia emissões de gases-estufa de mais de cem cidades e mostra que nem sempre as maiores e mais urbanizadas são as grandes vilãs. As cidades brasileiras analisadas produzem em média dez vezes menos carbono do que as mais poluentes do mundo.

Por: Sofia Moutinho

Tamanho não é documento

Roterdã, na Holanda, é a cidade analisada pelo estudo que mais emite gases-estufa por ano: 29,8 toneladas por habitante. (foto: Wikimedia Commons – CC BY NC SA 2.0)

As cidades são responsáveis por 80% das emissões mundiais de gases-estufa. Mas nem todas emitem o mesmo e, por vezes, áreas menos urbanizadas lançam ainda mais carbono na atmosfera. É o que mostra um estudo do Banco Mundial realizado por pesquisadores da Universidade de Toronto (Canadá). A equipe analisou a taxa de emissão de gases-estufa por habitante em 110 cidades de 30 países.

Cidades que têm economia baseada em serviços, por exemplo, não emitem tanto quanto áreas predominantemente industriais

A pesquisa, publicada na página do periódicoEnviroment and Urbanization na internet, utilizou dados de diversos estudos anteriores sobre o tema e demonstra que a infraestrutura e a organização econômica das cidades estão diretamente relacionadas com seus níveis de emissão. Cidades que têm economia baseada em serviços, por exemplo, não emitem tanto quanto áreas predominantemente industriais.

Enquanto em Roterdã, cidade portuária da Holanda, a emissão de carbono por habitante chega a 29,8 toneladas por ano – maior taxa registrada no estudo –, cidades maiores e mais habitadas, como Nova Iorque, nos Estados Unidos, e Londres, na Inglaterra, não chegam à metade desse valor.

“Muitas das metrópoles do mundo acusadas de grandes responsáveis pelas emissões, na verdade, emitem pouco”, afirma o principal autor do estudo, Daniel Hoornweg, especialista em cidades do Banco Mundial. “Há muitas variáveis que precisam ser consideradas, como as fontes de energia e o transporte usado, antes de se apontar o dedo para um culpado.”

Ao se comparar cidades com grande diferença econômica, em geral as mais pobres emitem menos gases-estufa. Os moradores de Daca, em Bangladesh, por exemplo, lançam apenas 0,36 tonelada de carbono por ano na atmosfera, muito menos do que as metrópoles de países desenvolvidos.

Uma cidade rica e com alto padrão de consumo, como Barcelona, pode emitir pouco

No entanto, o estilo de vida dos moradores dessas cidades pode mudar esse quadro. Uma cidade rica e com alto padrão de consumo, como Barcelona, na Espanha, pode emitir pouco. Apesar de ser desenvolvida, a cidade produz anualmente apenas 4,2 toneladas de carbono por habitante devido à eficiência do seu transporte público.

O contrário também acontece. A Cidade do Cabo, na África, emite anualmente 11,6 toneladas de carbono por habitante. Esse índice é maior do que o de Nova Iorque, nos Estados Unidos, que emite anualmente 10,5 toneladas por habitante.

Dentro das cidades, também há variações nas emissões. Em Toronto, no Canadá, cada morador do centro da cidade produz menos carbono do que quem vive nos subúrbios, regiões majoritariamente residenciais. “Essa diferença se deve ao fato de que os moradores do subúrbio, que têm mais dinheiro, usam mais seus carros”, explica o pesquisador.

Cidades brasileiras

Do Brasil, foram incluídas no estudo as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia e Porto Alegre. Os resultados mostram que, dentre as metrópoles analisadas, o Rio de Janeiro é a que mais emite gases-estufa: 2,1 toneladas por habitante por ano. Porto Alegre ocupa o segundo lugar, com uma taxa de 1,48 tonelada, seguida de São Paulo, com 1,4 tonelada, e Goiânia, com 0,99 tonelada.

Rio de Janeiro
Das quatro cidades brasileiras incluídas no estudo, o Rio de Janeiro é a que mais emite carbono, na frente de Porto Alegre, São Paulo e Goiânia. (foto: Bruno Leivas/ Sxc.hu)

As taxas de emissão brasileiras são em média dez vezes menores do que as das cidades mais poluentes do mundo e apresentam índices abaixo dos verificados em cidades pobres da Ásia e da África, como Cidade do Cabo. “Isso se deve a alguns fatores elementares, como o uso de energia hidrelétrica e etanol e, principalmente, a forma compacta dos municípios, que têm grande dependência do transporte público”, explica Hoornweg.

A pesquisadora do Instituto de Pós Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) Suzana Kahn Ribeiro, integrante do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, não se assusta com o fato de o Rio de Janeiro ter maior índice de emissões. A cidade tem muito lixo não tratado, que emite gases-estufa, e também é ponto de exploração de petróleo.

O maior desafio está nas cidades mais pobres, que devem saber conciliar seu crescimento com menores taxas de emissão

Mas Kahn ressalta que o estudo é frágil por não adotar uma única metodologia para a contagem das emissões, o que pode interferir nos resultados. “Se você considerar que as emissões provenientes da energia gerada fora das cidades são de responsabilidade da cidade, já que é ela que a consome, os números serão outros.”

Por outro lado, Hoorweg defende que, mesmo que os resultados de cada cidade tenham sido obtidos com diferentes metodologias, o estudo é um passo inicial para um relatório mais consistente sobre as cidades, capaz de orientar a elaboração de políticas de mitigação adequadas a cada local. Para ele, o maior desafio está nas cidades mais pobres, que devem saber conciliar seu crescimento com menores taxas de emissão.


Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

A geografia do carnaval carioca

Estudo relaciona o surgimento das escolas de samba à urbanização da cidade

Por: Catarina Chagas

Não é só em fevereiro que a Sapucaí atrai atenções: o geógrafo Marcelo Pereira Matos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), respira carnaval o ano inteiro. Há cinco anos, ele estuda as relações entre o desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro e a proliferação das escolas de samba. Para isso, determinou três períodos distintos da história dos desfiles: 1932-1942, 1943-1983 e 1984-2001.

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Carnaval popular na avenida Rio Branco, em 1969 (fotos: Arquivo Nacional)

Quando as escolas começaram a surgir, eram atrações secundárias em relação às grandes manifestações do carnaval da época . Cerca de 100 integrantes desfilavam na Praça Onze, numa passarela formada entre arquibancadas desmontáveis. O primeiro desfile formal, em 1932, foi realizado com o patrocínio do Jornal Mundo Sportivo . A prefeitura oficializou o evento em 1935.

Durante o período inicial das apresentações, grande parte da população de baixa renda morava na área central do Rio e as escolas, como a Deixa-Falar (a primeira da cidade), se concentravam sobretudo no núcleo metropolitano. O contexto político do Estado Novo influenciou decisivamente as agremiações, que eram obrigadas a apresentar em seus enredos temas nacionalistas e sofriam forte repressão policial.

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No início do século, havia, além das escolas de samba, desfilavam também as chamadas grandes sociedades. Essas associações de elite se apresentavam em carros puxados por burros. A foto acima retrata a Sociedade Pierrot da Caverna

A partir de 1943, o desenvolvimento levou à reestruturação do centro e provocou alterações fundamentais na estrutura urbana. As obras forçaram sucessivas mudanças na localização da folia, que passou pelas avenidas Rio Branco e Presidente Antônio Carlos antes de se instalar definitivamente na avenida Marquês de Sapucaí, em 1978.

O segundo período da história das escolas de samba -- considerado seu auge -- foi marcado pelo surgimento de novas agremiações. Apesar da estagnação da área central do Rio como local de moradia, a cidade cresceu muito na periferia e as escolas acompanharam a expansão rumo às zonas Norte e Oeste, direcionada pelo traçado das linhas de trem.

Segundo Matos, o sentimento de comunidade, mais forte na periferia, é fundamental tanto para a criação de uma escola de samba quanto para sua sobrevivência. "Analisando o próprio nome das escolas, podemos observar a referência espacial e a ideologia da união de uma comunidade", explica. O pesquisador reuniu mais de 70 nomes que comprovam essa afirmativa, entre eles agremiações famosas como Unidos da Tijuca ou Acadêmicos do Salgueiro.

Com a inauguração do Sambódromo, em 1984, o desfile passou a obedecer a regras externas (como as exigências feitas pelas emissoras de TV), tornou-se palco da promoção de artistas famosos e minimizou a importância das próprias comunidades.

Apesar disso, comunidades de áreas recentemente ocupadas e novas favelas se organizaram em novas agremiações, como a Renascer de Jacarepaguá. Cresceu também a quantidade de escolas na periferia e em outros municípios da região metropolitana. A distribuição das escolas estendeu-se, enfim, por todos os espaços do Rio de Janeiro. "Afinal, a estrutura urbana constitui, ao mesmo tempo, o território das políticas urbanas e o território das práticas sociais e manifestações culturais", conclui Matos.

História do Carnaval

Até o início do século 20, o carnaval tinha outra cara. Sua primeira manifestação veio com os portugueses no século 17: o entrudo. Essa brincadeira democrática entre escravos e senhores durou três séculos, até que atos de violência levaram à proibição do festejo. Mais tarde, a festa foi retomada com a apresentação dos ranchos (formados pelos baianos que vinham morar na cidade), corsos (desfiles de carros enfeitados) e grandes sociedades (associações de elite que desfilavam em carros alegóricos com mensagens políticas). Nesse contexto, surgiram as escolas de samba, a partir da década de 1930. 29/03/2004 | Atualizado em 14/10/2009

Catarina Chagas
Ciência Hoje On-line

Notícias Geografia Hoje


Clima e biocombustíveis ameaçam segurança alimentar, diz FAO
Preços altos e voláteis são uma preocupação mundial cada vez maior.
Índice global do preços dos alimentos atingiu recorde de alta em fevereiro.


A mudança climática, trazendo enchentes e estiagens, a demanda crescente por biocombustíveis e políticas nacionais para proteger o mercado interno poderão aumentar o preço dos alimentos e ameaçar a segurança alimentar no longo prazo, alertou a Organização das Nações Unidas (ONU).

Os preços elevados e voláteis dos alimentos são uma preocupação mundial cada vez maior, e em parte também estimularam os protestos que derrubaram os governantes da Tunísia e do Egito este ano. Os impactos dos protestos são sentidos pelo norte da África e no Oriente Médio, da Argélia ao Iêmen.
Períodos de instabilidade de preço não são uma novidade para a agricultura, mas os choques recentes de preço provocados pelo clima extremo e pelo uso cada vez maior de grãos para produzir energia têm causado grande preocupação, disse a FAO, braço da ONU para agricultura e Alimentação (FAO).
"Há temores de que a volatilidade de preço esteja aumentando", disse a FAO no relatório Estado dos Alimentos e da Agricultura, publicado na segunda-feira (7).
A influência cada vez maior do mercado de commodities e as "respostas contraproducentes da política protecionista (aos preços elevados) podem exacerbar a volatilidade do mercado internacional e colocar em risco a segurança alimentar mundial", diz o documento.
A FAO, que tem sede em Roma, já advertiu os países produtores de alimentos contra a introdução de limites de exportação para proteger os mercados locais, à media que os preços dos alimentos no mundo pressionam para além dos níveis que deflagraram as violentas revoltas em 2007 e 2008.
O preço global dos alimentos atingiu um recorde de alta em fevereiro. Na semana passada, a FAO advertiu que novas altas no preço do petróleo e a realização de estoques pelos importadores que tentam evitar levantes atingiriam os já voláteis mercados de cereais.
Estima-se que o preço dos alimentos aumente nos próximos dez anos e permaneça na média em níveis acima dos da década passada, disse a agência na segunda-feira.
É necessária uma ação coordenada internacional para garantir a segurança do abastecimento de alimentos, incluindo uma melhora na regulação e na transparência do mercado, assim como estatísticas sobre o mercado de commodities de alimentos, o estabelecimento de estoques de emergência e o fornecimento de redes de segurança, disse a FAO. 07/03/2011

Notícias Geografia Hoje


Índios suruí apostam no mercado de carbono para conservar sua terra em RO
Pela internet, é possível ver o que acontece na reserva.
Indígenas usam aparelho com GPS para controlar a floresta.


Índios da etnia suruí, em Rondônia, começam a investir na venda de créditos de carbono. Eles utilizam a internet para divulgar o trabalho de preservação de sua reserva

De qualquer parte do planeta é possível ver a terra indígena Sete de Setembro, que pertence ao povo suruí e fica na divisa entre Rondônia e Mato Grosso.

Técnicos do Google reproduziram no computador tudo que tem na floresta. Pela internet, o usuário pode fazer um tour pelas árvores e ver o que os suruís estão fazendo.

Enquanto caminha no meio da floresta, o índio carrega na mão um celular com sistema localizador GPS. Seis aparelhos foram doados no ano passado para o projeto. Com outra ferramenta, os índios da etnia suruí fazem o levantamento da biomassa.

“Avanço bastante nosso trabalho relativo à biomassa. A tecnologia está ajudando bastante ao trabalho relativo ao campo. A gente pensou que ia levar mais tempo”, diz Naraymi Suruí, coordenador do projeto.

Ao mostrar a floresta para o mundo os índios podem divulgar o que estão fazendo para conservar a área. Com isso, será possível vender créditos de carbono para financiar projetos sociais e ambientais nas aldeias.

Simplificadamente, o crédito de carbono é uma compensação em dinheiro paga por empresas de qualquer parte do mundo que emitem carbono na atmosfera para uma pessoa ou grupo de alguma forma conservar a natureza.

O Projeto Carbono Suruí utiliza duas formas de compensação: o seqüestro de carbono propriamente dito, por reflorestamento, e o desmatamento evitado e conservação de estoques de carbono através da redução do desmatamento e degradação florestal.

Os recursos recebidos vão para o Fundo Carbono Suruí. Técnicos do Idesam, o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas, acompanham o processo.

“Eles aprenderam muito rápido. Pegaram muito rápido a forma de utilizar o aparelho”, explicou Heberton Barros, engenheiro florestal do Idesam.

O projeto começou a ser desenvolvido em 2007, com o reflorestamento. A criação do fundo indígena pode ser mais um passo para ajudar os suruís a conservar a região em que vivem
G1 - 07/01/11

Notícias Geografia Hoje

Serrarias no MA fraudam madeira suficiente para encher 2 mil carretas
Fraude também movimentou 201 mil metros cúbicos de carvão.
Empresas tinham documentação florestal, mas não existiam.

Um esquema que envolve a criação e a homologação de empresas fantasmas por parte do poder público tem garantido fraudes contínuas na emissão de Documentos de Origem Florestal (DOF), levando à legalização de astronômicas quantidades de madeira retiradas ilegalmente na Amazônia.

Na região de Açailândia e Itinga do Maranhão - respectivamente a 575 e 670 quilômetros ao sul da capital São Luís -, por exemplo, a Gerência Executiva do Ibama em Imperatriz vistoriou os dados das guias usadas por 6 empresas e descobriu que elas são fantasmas - não têm endereço, pátio ou serraria. Mesmo assim, elas movimentaram, de 2009 até o primeiro semestre deste ano, 58.780 metros cúbicos de madeira serrada (o suficiente para encher cerca de 2 mil carretas) e 201 mil metros cúbicos de carvão (3.665 carretas).

Os endereços fornecidos ao poder público pelas 6 empresas foram visitados pela reportagem. Umas delas está numa rua - Bartolomeu Igreja, Centro -, em Açailândia, que não existe. Não há na região do centro de Açailândia nem nos bairros vizinhos nenhum logradouro com nome parecido com Bartolomeu Igreja.

Num único dos 6 casos foi possível descobrir a pista de uma dessas empresas fantasmas. Na saída de Itinga para Açailândia existe a Madeireira Alto da Pipira, que funciona regularmente, com documentação. De acordo com os proprietários, os irmãos Maurício e James Aguiar, em julho de 2007 eles arrendaram o local para uma pessoa conhecida por Izaque Leal de Almeida, que lá tocou a Madeireira Mundo Novo. O contrato foi desfeito no primeiro semestre de 2009.

De acordo com a gerência do Ibama de Imperatriz, a segunda maior cidade do Maranhão, mesmo sem sede e sem pátio, a Mundo Novo ainda declarou ter 47.572 metros cúbicos de carvão vegetal e 8.667 metros cúbicos de carvão.

G1 especiais - 29/11/10

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