terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Groelândia

País emergente, graças ao aquecimento global


Por Luis Pellegrini / Maíra Lie Chao

Trenó puxado por cães husky no fiorde Kangia. Esse tipo de transporte é comum na Groenlândia.

Do Glaciar de Jakobshavn, em Ilulissat, ainda surgem icebergs maiores que os superpetroleiros ancorados na Baía Disko. Mas o ar polar que todos os anos varria o território groenlandês, vindo do norte para o sul, e respondia por sua fama de lugar gélido, não tem mais aparecido. O clima está cada vez menos frio na Groenlândia, e a multimilenar camada de gelo que a recobria está derretendo em ritmo acelerado, fazendo aparecer áreas de terra cada vez mais extensas. Isso é visível a olho nu.

A Groenlândia é a maior e mais setentrional ilha do mundo. Há alguns anos, era habitada por uns poucos milhares de pessoas. Com uma área total de 2.166.086 quilômetros quadrados, é hoje o lar de uma população de 56,3 mil habitantes. O clima é frio no inverno (40°C negativos), mas no verão, na parte sul da ilha, atinge facilmente os 15°C. Novos imigrantes chegam a cada dia. Foi lá que nasceu e cresceu Aleqa Hammond, groenlandesa legítima, filha de uma família de caçadores.

Além de ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, agora ela também é uma das líderes de um movimento cada vez mais forte pela independência da ilha. Dominada durante séculos pela Noruega, a Groenlândia ainda é uma província da Dinamarca. Mas já possui governo próprio. Antes, era considerada economicamente fraca para se auto-sustentar. Mas esse quadro está mudando.

A independência econômica da Groenlândia logo acontecerá. Para sobreviver, a ilha recebe R$ 1,3 bilhão anualmente do governo de Copenhague. Com a exploração dos minerais existentes embaixo da camada de gelo, a dependência financeira acabará como num passe de mágica. As negociações já começaram. A ilha discute um acordo com nove multinacionais que querem licença para explorar petróleo na região. Além disso, está cheia de prospectores de minério em busca de um novo Eldorado.

Foto: Eric Baccega/Age Fotostock/Keystone
No Aeroporto Kangerlussuak, um poste de informações mostra as distâncias entre a capital, Nuuk, e outros lugares do mundo.

A Alcoa, empresa norte-americana de extração de metais, já assinou um memorando de entendimento. A implantação dessa siderúrgica poderá empregar mais de três mil pessoas, um décimo de toda a força de trabalho groenlandesa. Em Ilulissat, os pescadores batem recordes de pesca do linguadogigante. Para completar, o número de turistas aumenta a cada ano, contribuindo para a receita do país.

O Ártico, onde se situa a Groenlândia, tem sido palco de um crescente jogo de interesses das grandes potências. A possível exploração de minérios na região e a Passagem do Noroeste - rota marítima que encurta o caminho entre a Europa e a Ásia, recémaberta com o derretimento do gelo da calota polar - já despertou o interesse de diversos países na região. O Canadá e a Noruega querem estabelecer acordos para reivindicar sua autonomia no Ártico.

A Rússia já enviou um submarino para cravar uma bandeira de titânio no solo submerso do norte magnético. Os Estados Unidos não ficam atrás e querem ratificar a Lei da Convenção dos Mares, das Nações Unidas, para reivindicar seus interesses em relação ao Pólo Norte. A tensão entre Moscou e Washington espalha o temor de uma nova militarização do Ártico.

Derretimento do gelo pode elevar o nível do mar
O nível dos oceanos pode aumentar sete metros se a calota polar da Groenlândia derreter inteiramente devido ao aquecimento global. Os gelos da Groenlândia, segunda reserva de água doce congelada do mundo, depois da Antártida, derretem mais rapidamente na costa, embora até agora tenham se mantido intactos no centro da calota polar, informa Garry Clarke, professor da Universidade da Colúmbia Britânica. Em sua avaliação, o aquecimento global poderá gerar um derretimento maior do que o que já foi registrado na região até agora.

"Isso poderia se traduzir no desaparecimento total da calota polar da Groenlândia", diz Clarke. Ainda não se sabe quando isso ocorrerá, mas o processo já está em andamento. Os especialistas consideram que o derretimento total do gelo da Groenlândia teria conseqüências catastróficas para as regiões costeiras e algumas ilhas oceânicas.

As conseqüências da última corrida armamentista ainda estão frescas na memória dos groenlandeses. A base aérea dos Estados Unidos em Thule, no noroeste da Groenlândia, foi estabelecida durante a Segunda Guerra Mundial e se tornou um posto estratégico para o armamento nuclear do país durante a Guerra Fria. Em 1968, um bombardeiro norte-americano B-52, carregado com bombas atômicas, caiu na região. Uma das suas bombas nunca foi encontrada. Acredita-se que esteja até hoje no fundo do mar. Mas sua radiação provocou conseqüências gravíssimas para a população inuit - esquimós nativos do Ártico. Parte deles não consegue ter filhos.

A multimilenar camada de gelo que recobre a GROENLÂNDIA está se derretendo a vista d'olhos. É o aquecimento GLOBAL
Barco cruza a Baía Disco, em meio a enormes icebergs.Nuuk, capital da Groenlândia. As casas são pintadas com cores fortes, dando algum colorido à paisagem.
No verão, no sul da ilha, áreas outrora cobertas pelo gelo hoje oferecem pastagens. Graças ao aquecimento global, há cada vez mais árvores na Groenlândia.

Outros fatores, no entanto, ameaçam a Groenlândia tradicional. As mudanças que ocorrem no local têm gerado tensão social. Na capital, Nuuk, moram pouco mais de 15 mil pessoas, mas seus problemas são os mesmos de qualquer cidade grande. Alcoolismo, desemprego e suicídio constroem um cenário urbano depressivo. Além disso, muito se debate sobre a possível perda de identidade nacional devido à crescente entrada de estrangeiros na ilha. Rapidamente, os groenlandeses legítimos poderão ser minoria em seu próprio país.

Foto: Superstock/Keystone
Zona arqueológica de L'Anse aux Meadows, no Labrador (Canadá), com construção deixada pelos antigos vikings. Séculos antes de Colombo, eles partiram da Groenlândia em canoas para alcançar as costas dos atuais Canadá e Estados Unidos.

Foto: Martin Rugner/Pixtal/Keystone

Nesse cenário que em muitos aspectos se assemelha à corrida ao ouro dos velhos tempos do faroeste norte-americano, as primeiras vítimas das conseqüências ruins do aquecimento global na Groenlândia parecem ser os inuits. Aqqaluk Lynge, renomado poeta e político inuit, e um dos principais representantes do seu povo no governo groenlandês, já lançou o alerta: "Muitosanimais desapareceram, outros apareceram, os mares e gelos mudaram, as correntes marítimas se alteraram. Nosso mundo, como o conhecíamos, está chegando ao fim."

A vida em condições extremas
A Groenlândia (em groenlandês, Kalaallit Nunaat, que significa "a nossa terra") é uma região autônoma dinamarquesa que ocupa a ilha do mesmo nome e ilhas adjacentes, ao largo do litoral nordeste da América do Norte. As suas costas dão, ao norte, para o Oceano Glacial Ártico, a leste, para o Mar da Groenlândia, a leste e sul, para o Oceano Atlântico e, a oeste, para o Mar do Labrador e a Baía de Baffin.

A história da Groenlândia é a da vida sob as extremas condições árticas: uma capa de gelo cobre 84% do território da ilha, restringindo a atividade humana às costas. A Groenlândia era desconhecida da Europa até o século 10, quando foi descoberta por vikings islandeses. Antes desse "descobrimento", a ilha havia sido ocupada por povos árticos, embora estivesse desabitada quando da chegada dos vikings: os ancestrais diretos dos modernos iInuits (anteriormente chamados esquimós) só chegaram à ilha ao redor do ano 1200. Os inuits foram o único povo que habitou a ilha durante séculos, mas, lembrando a colonização viking, a Dinamarca reclamou a soberania sobre o território e o colonizou a partir do século 18. Obteve, assim, privilégios, tais como o monopólio comercial.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Groenlândia se separou de fato, tanto social como economicamente, da Dinamarca, aproximando-se mais dos Estados Unidos e do Canadá. Depois da guerra, o controle da ilha voltou à Dinamarca, retirando-se seu status colonial. Embora a Groenlândia continue sendo parte do Reino da Dinamarca, é autônoma desde 1979. A ilha possui o status de Estado associado à União Européia.

A pesca domina a economia do território. A caça à foca marca a vida dos habitantes do norte. A descoberta de petróleo, zinco e ouro, em 1994, promete mudar a economia, ainda bastante dependente da Dinamarca, que também responde por sua defesa e relações externas.

Revista Planeta

Antigua A capital dos vulcões

Antigua, na Guatemala, foi, desde 1543, a capital do império espanhol nas Américas. Quase totalmente destruída por terremotos em 1773, a cidade permanece hoje um solo mágico que preserva um enorme número de tesouros da época colonial


Texto e fotos: Heitor Reali e Silvia Reali

Nas ruas do centro histórico de Antigua, basta um pouco de imaginação para se ver os nobres da corte espanhola e as famílias tradicionais que, nos anos da colônia, por ela desfilavam. A primeira capital do império espanhol nas Américas era um centro elegante e refinado, feito para refletir o poder e a riqueza da coroa hispana no Novo Mundo.

A prosperidade de Antigua durou até 1773, quando terremotos quase a destruíram, fazendo com que a maioria de seus habitantes se mudasse e provocando a decisão do rei de transferir a capital para uma zona mais segura, o Vale de Ermita, onde hoje se localiza a moderna capital do país, a Cidade da Guatemala.

PRATICAMENTE abandonada, Antigua resistiu por longos anos. Aos poucos foi sendo restaurada e hoje é um dos mais importantes monumentos históricos e culturais do período colonial da América Central. Deve, porém, parte de seu atual charme ao antigo isolamento. Afinal, foi ele que contribuiu para a preservação de seu rico passado. A cidade é cheia de tesouros ainda intactos e protegidos pela Unesco.

Tudo em Antigua possui cores vibrantes, como se os habitantes quisessem dizer aosDEUSES DOS VULCÕES que desejam manter com eles essa convivência pacífica

Não sem razão. Muitos de seus monumentos e edificações testemunham a cultura e os costumes das sociedades que ali viveram. Na praça central de Antigua e ao redor dela, por exemplo, parece que os moradores souberam domar o tempo. Tudo ali remete ao passado: as ruas de pedra, os palacetes com arcadas e colunatas e os templos com pórticos entalhados. Essas jóias arquitetônicas contrastam com o despojamento das casas coloniais de desenhos simples, porém pintadas em cores vibrantes, com predomínio do laranja e do terracota.

Por testemunhar o encontro do passado com a correria dos tempos modernos, a região central da cidade é um espetáculo imperdível. Num vaivém constante, mulheres atarefadas equilibram pañuelos – espécie de turbante multicolorido – à cabeça, sempre vestidas com o traje huipil. Vestimenta por excelência dos maias – que constituem hoje cerca de 80% da população guatemalteca –, o huipil é quase um símbolo do país e uma espécie de código de reconhecimento. Cada tribo maia mostra os seus signos bordados nessas roupas, em arabescos, grafismos, animais ou flores. Mas o sentido disso vai além: essas roupas mantêm uma ligação com os deuses antigos e os espíritos dos ancestrais.

VENDEDORES DE RUA, os chiringuitos, cozinham em um fogão improvisado ostamales, pequenas panquecas de farinha de milho que espalham no ar um delicioso aroma. Velhos ônibus também entram na dança das cores. Comprados dos Estados Unidos onde transportavam escolares, foram repintados com as cores vivas da Guatemala e receberam um bagageiro reforçado no teto – os maias costumam viajar com muita bagagem.

Três vulcões – Água, Acatenango e Fogo – rodeiam a cidade, também conhecida como a “Pompéia das Américas”, em alusão à cidade romana soterrada pelo vulcão Vesúvio em 79 d.C. Fogo está sempre coroado com uma fumarola para alertar que está somente hibernando. Água possui um lago dentro da sua cratera. Acatenango está dormindo, mas pode acordar a qualquer hora.

Diferentes tipos de artesanato criados pelos guatemaltecos; rua típica do centro da cidade

Nas casas, nos adereços, nas roupas das pessoas, tudo em Antigua tem cores vibrantes, como os se habitantes quisessem dizer aos deuses dos vulcões que estão vivos e que desejam manter com eles essa convivência pacífica. Precauções espirituais de quem sabe que a cidade já foi abalada por terremotos e teme rompantes, sobretudo os do vulcão Fogo. Alguns historiadores crêem que foi de seu nome no idioma maia – Quhatezmalha – que derivou o nome do país, Guatemala.

Os espanhóis iniciaram a conquista do território de Sacatepéquez, onde se encontra Antigua, a partir de 1523. O povo local, enfraquecido por constantes disputas e guerras tribais, foi facilmente dominado. Na região de Cakchiquel, a cidade de Iximché foi rebatizada pelos colonizadores como La muy noble y muy Leal Ciudad de Santiago de los Caballeros de Guatemala, ou simplesmente La Antigua Guatemala.

Seus habitantes falavam o caqchikel, um dos mais de 30 dialetos maias existentes, que incluem também o quiche, o man, o kekchi e o pocoman. Os nomes maias são musicais, e os historiadores explicam que o idioma é falado com “barulhos e estalos” da boca e da língua, o que os lingüistas chamam de “consoante ejetiva”, um som produzido na glote. Trata-se também de um idioma tonal, no qual a entonação da palavra varia seu significado.

O Arco de Santa Catalina, um dos locais mais fotografados da Guatemala; mulheres nativas

DEPOIS DE DOMINADOS, os nativos tornaram-se súditos da coroa espanhola. Assim nasceu Antigua, uma cidade que foi criada para ser a capital do império espanhol no Novo Mundo, em 1543. Os conquistadores embelezaram a cidade a partir da Plaza Mayor, segundo o traçado de parrilla – em quadrados, o mesmo usado na Espanha. Ao redor da praça situa-se o Palácio dos Capitães Generais. Com fachada de duplos arcos, ele abrigava o representante do rei.

Nas imediações da praça também situa- se o Palácio da Câmara Municipal, edificado em dois níveis de arcos em pedra maciça, e a Catedral, que posteriormente recebeu o título de Metropolitana, outorgado pelo papa Bento 14. Reconstruída várias vezes depois dos terremotos, ela tem a fachada esculpida com ricos entalhes, colunas, pilares e nichos que abrigam santos.

Os conventos e as igrejas de Antigua dão uma mostra da riqueza das ordens religiosas espanholas em território guatemalteco. A Igreja de La Merced é o melhor exemplo da fusão da arquitetura religiosa espanhola com os elementos maias. Isso pode ser visto no delicado trabalho em ataurique (técnica de relevo em gesso) com motivos geométricos, arabescos e frutas. Em seu interior existe ainda uma imagem de Jesus cujo olhar expressivo é bem ao gosto das esculturas coloniais. Uma das mais suntuosas igrejas locais, a de São Francisco, na calle dos Passos, abriga os restos mortais do beato Hermano Pedro de Bethancourt, venerado pelos católicos da América Central.

O vulcão Fogo, cuja fumarola é um constante sinal de alerta à população

O CONVENTO DE Santa Catalina Mártir abrigava religiosas que viviam reclusas. Com o crescimento da cidade, em 1694, foi construída uma passagem sobre a rua para que as freiras chegassem aos jardins e à horta sem serem vistas pelos transeuntes. Hoje, o Arco de Santa Catalina é um dos locais mais fotografados de Antigua.

Construído nos primeiros anos do século 18, o Convento de Santa Clara tem uma fachada simples, que contrasta com a ornamentação do interior. Isso porque as freiras clarissas jamais podiam sair às ruas. Uma galeria com arcos duplos circunda o claustro em tons de ocre-rosado. No centro, há uma fonte em forma de mandala e a intrigante escultura de uma sereia alada.

Quase todas as edificações de Antigua têm paredes largas, colunas, pilares e arcos. Sobretudo, são muito resistentes aos freqüentes sismos que assolam a região. Alguns palácios e casarões hoje sediam museus, como o do Livro, o de Arte Colonial, o de Santiago (abriga uma coleção de armas antigas) e o de Jade. Encontrado em mais de 30 tons de verde, o jade da Guatemala também pode ser rosa ou lilás. Uma curiosidade: o jade era tido como sinal máximo de riqueza.

Um dos ônibus comprados dos Estados Unidos espelha a paixão pelas cores dos guatemaltecos; e loja com produtos tîpicos do país. Os tamales, panquecas de farinha de milho vendidas nas ruas da cidade. Vistas panorâmicas mostram o estilo arquitetônico dos interiores e das fachada das casas da Guatemala.

Os dois mercados da cidade não deixam esquecer que os maias eram comerciantes afamados. No mercado de frutas e vegetais se encontram diferentes qualidades de milho, queijos e doces. Já o Mercado de Artesanato encanta o visitante pelas peças produzidas pelos artesãos: máscaras, objetos entalhados em madeira ou moldados em argila, tecidos feitos em teares manuais e tingidos com pigmentos naturais. Ali estão também cópias das antigas máscaras maias de jade. Outras máscaras retratam os espanhóis: possuem olhos azuis e pele cor-de-rosa. Há também máscaras coloridas com caras de animais, para serem utilizadas nos ritos da religião tradicional dos maias.

ASSIM É A VIDA dos maias e dos descendentes dos espanhóis em Antigua. Vida que flutua numa realidade ancestral, alheia ao contemporâneo. Uma ancestralidade que se reflete em tudo, principalmente nos cultos nativos. Mas esses cultos, de origem pagã, misturam- se às liturgias do catolicismo. Exemplo disso são as celebrações da Semana Santa. Nas procissões, vestidos de roxo (símbolo da penitência), os devotos carregam cruzes e imagens de santos e caminham sobre tapetes de flores que formam desenhos de símbolos cristãos. Ao mesmo tempo, carregam frutas, comidas e bebidas, velas e incensos, que serão doados nas portas e nas laterais das igrejas em oferenda aos antepassados. Tudo sob as vistas tolerantes do clero católico.

Todos estão envoltos pelo aroma do copal, queimado em incensos nas ruas e dentro das igrejas. Essa resina é extraída de várias árvores, como o quauchichiantic, e usada para fins medicinais, religiosos e mágicos. Durante as missas, o copal é queimado em cones para apaziguar os deuses. Na Guatemala, tudo é sincretismo.

Revista Planeta

sábado, 11 de dezembro de 2010

Do campo à mesa - Nanotecnologia é utilizada para produzir filmes comestíveis e fertilizantes

Dinorah Ereno

© EDUARDO CESAR
Embalagem comestível de goiaba e quitosana

Frutas, plantas e resíduos da agricultura, quando trabalhados em escala nanométrica, têm mostrado grande potencial para serem usados em filmes comestíveis para proteção de vegetais, plásticos reforçados e biodegradáveis, fertilizantes e até mesmo na degradação de pesticidas. O universo que se descortina para a nanotecnologia aplicada à alimentação e à agricultura é muito vasto. No Brasil, grupos de pesquisa têm conseguido resultados bastante promissores, alguns com aplicação imediata, como um biofilme com nanopartículas de prata – estruturas com diâmetro na faixa de 10 a 40 nanômetros – sintetizadas a partir do extrato de uma planta regional indiana (Ocimum sanctum) e nitrato de prata, desenvolvido no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em parceria com pesquisadores da Universidade Amravati, na Índia. A mistura do polímero obtido a partir de um vegetal e das nanopartículas de prata resulta em uma solução na qual são imersas as frutas que precisam ser protegidas para prolongar o tempo de prateleira.

Após a imersão no líquido, elas ficam recobertas por um filme fino, que funciona como uma barreira de proteção ao reduzir a quantidade de oxigênio que entra e a de gás carbônico que sai, o que evita a perda de água. Quando a fruta é lavada em água corrente, o biofilme é totalmente eliminado. “É uma plataforma excelente para proteção de frutas e vegetais transportados por longos períodos em climas tropicais como a Índia e o Brasil”, diz o professor Nelson Durán, da Unicamp, coordenador da pesquisa, que no Brasil teve a colaboração do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC, em Santo André.

O biofilme foi testado em algumas frutas, entre elas a goiaba. Entre os itens avaliados estavam perda de peso, de proteínas e infecção bacteriana. “A fruta protegida não perdeu quase nada de peso e de proteínas e não teve infecção durante os 15 dias de estudo”, diz Durán. Ela amadureceu, mas não apodreceu. Conhecidas por suas propriedades bactericidas, as nanopartículas de prata utilizadas na composição do biofilme foram obtidas por síntese biológica, enquanto as comerciais são químicas ou obtidas por processos físicos. “O biopolímero usado é comestível e não tóxico e foi aprovado pela Food and Drug Administration, órgão governamental norte-americano de regulação de alimentos e medicamentos, e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, diz Durán.

As nanopartículas de prata biogênicas foram testadas pelos pesquisadores tanto em relação à citotoxicidade in vitro e à toxicidade in vivo, em ensaios com animais, como em relação à penetrabilidade em tecidos humanos. “Nas concentrações usadas elas não penetram na pele e não são tóxicas.” A pesquisa em parceria com os pesquisadores indianos faz parte de uma colaboração binacional aprovada em 2008 e iniciada em 2009, como parte de um projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) envolvendo pesquisas com nanopartículas de prata geradas por fungos, bactérias e plantas.

Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também trabalham no desenvolvimento de filmes para revestimento baseados em frutas tropicais, resíduos do processamento do algodão e do coco, quitosana e outras matérias-primas. Um dos filmes desenvolvidos pela pesquisadora Henriette Azeredo, da Embrapa Agroindústria Tropical, de Fortaleza, no Ceará, tem como base a polpa de manga com a adição de nanofibras de celulose obtidas da fibra do algodão. “O componente mais resistente da fibra vegetal e da própria madeira é a celulose”, diz o pesquisador Luiz Henrique Mattoso, chefe-geral da Embrapa Instrumentação Agropecuária, de São Carlos, no interior paulista. No estudo Henriette testou a adição de nanofibras de celulose em várias concentrações, com o máximo de 36%, para avaliar o comportamento dos filmes. “Com cerca de 10%, os resultados já foram muito bons”, diz a pesquisadora, que fez a pesquisa durante seu pós-doutorado no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, encerrado em 2008, como parte de um convênio com a Embrapa. Os filmes de polpa de manga que receberam a adição de nanofibras apresentaram melhor resistência mecânica, melhor barreira à umidade e melhor estabilidade térmica. “A tecnologia ainda não pode ser aplicada porque não se conhecem os possíveis efeitos adversos que as nanofibras, ainda que de celulose, possam ter sobre o organismo humano”, diz. Por isso, um outro projeto, conduzido pela pesquisadora Morsyleide Rosa, também da Embrapa Agroindústria Tropical, tem como objetivo fazer a análise toxicológica do novo material.

A regulamentação do uso da agronanotecnologia é uma discussão que vem sendo feita há alguns anos em vários países do mundo. Na Europa, por exemplo, já foram realizadas cinco conferências para tratar do assunto, a última delas em novembro de 2009. Durante a Conferência Internacional para Aplicação das Nanotecnologias na Alimentação e Agricultura, realizada em junho em São Pedro, no interior paulista, o pesquisador Steven Robert, do Instituto para a Política Agrícola e Comercial dos Estados Unidos, destacou três abordagens que devem ser consideradas na questão da regulação do uso da agronanotecnologia. A primeira depende da orientação voluntária do governo e da apresentação voluntária de dados de produtos da nanotecnologia para regulamentação das agências, a segunda refere-se à submissão obrigatória dos produtos desenvolvidos pela indústria aos órgãos reguladores e a terceira, mais radical, propõe a suspensão e não aprovação de comercialização dos produtos até haver dados suficientemente revisados para realizar as avaliações de riscos necessárias a um marco regulatório apropriado.

© TINA WILLIAMS / DEPARTAMENTO DE AGRICULTURA DOS ESTADOS UNIDOS
Nanofibras feitas com resíduos do coco

Morsyleide trabalha ainda com resíduos de indústrias regionais – como do coco-verde e algodão – para obtenção de nanofibras de celulose de várias fontes. “Outra matéria-prima interessante para obtenção de nanocelulose é a torta que sobra da prensagem da palma para obtenção do biocombustível de dendê”, diz. O pseudocaule da bananeira, com alto teor de celulose, também apresentou resultados bastante promissores para a produção de filmes nanocompósitos que podem ser usados em embalagens e em outras aplicações. Uma das linhas de pesquisa é coordenada pelo pesquisador José Manoel Marconcini, da Embrapa Instrumentação Agropecuá­ria, que mistura plásticos com fibras vegetais ou com nanossílicas extraídas da casca do arroz, para aumentar a resistência mecânica dos plásticos tanto convencionais como reciclados. Resultados preliminares apontam que esses materiais nanoestruturados mudam as propriedades ópticas e melhoram as propriedades mecânicas dos materiais. “No caso da celulose, a região cristalina apresenta resistência mecânica e elasticidade semelhantes às fibras de Kevlar, material mais forte que o aço”, diz Marconcini. “É uma tecnologia que o mundo inteiro está tentando dominar.” O Canadá saiu na frente. Em julho, a empresa canadense Domtar e o instituto de pesquisas FPInnovations lançaram um projeto para construir uma fábrica só para produção de celulose nanocristalina, com previsão de produção de uma tonelada por dia.

Marconcini também trabalha com plásticos biodegradáveis reforçados com fibras de nanocelulose que podem ser empregados em tubetes usados na produção de mudas, em filmes para proteção de plantações ou mesmo para repelir insetos da lavoura com o uso de feromônios. Para essa aplicação, basta amarrar uma fita de um plástico biodegradável na plantação para que ela libere as substâncias desejadas no ambiente. Na Universidade de Marburg, na Alemanha, por exemplo, os pesquisadores estão testando no campo um protótipo feito com fios nanométricos a partir de plásticos biodegradáveis. Esses fios foram fabricados por um processo conhecido como eletrofiação, baseado na aplicação de corrente elétrica. O protótipo, que é parecido com uma teia de aranha em miniatura, ao ser colocado no solo vai liberando os princípios ativos selecionados e com o tempo se desmancha.

Desde 2006, a Embrapa coordena a Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio, que tem sede na unidade de São Carlos e conta com a participação de 150 pesquisadores de 53 instituições, sendo 14 vinculados a centros de pesquisa e 39 a universidades. No ano passado, foi lançado o Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio, um investimento de mais de R$ 10 milhões, mantido com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e FAPESP. As linhas de pesquisa englobam desde nanobiossensores e sensores eletroquímicos para monitorar processos e produtos agropecuários, nanofilmes comestíveis, produção de fertilizantes, pesticidas e fármacos para animais. Pesquisadores da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS), e da Instrumentação Agropecuária em colaboração com a Universidade de São Paulo em São Carlos estão trabalhando em nanobiossensores para detecção de patógenos em animais, como febre aftosa e outros vírus, que causam grandes prejuízos aos produtores.

Outra nanotecnologia para aplicação direta no campo é a de fertilizantes encapsulados em zeólitas, um grupo de minerais que possui cavidades nanométricas em sua estrutura porosa. “Quando o fertilizante é colocado no solo, a liberação é feita gradualmente”, diz Marconcini. O objetivo do projeto, coordenado pelo pesquisador Alberto Bernardi, da Embrapa Pecuária Sudeste, de São Carlos, é melhorar a dispersão e a absorção de nutrientes pelas plantas. Uma nova fronteira de pesquisa é o uso de nanocompósitos baseados nesses materiais para liberação controlada de fertilizantes, projeto coordenado pelo pesquisador Cauê Ribeiro, da Embrapa Instrumentação Agropecuária, em colaboração com a Pecuária Sudeste. “Ainda não existe um produto no mercado para fertilização tanto do solo como das folhas”, diz Marconcini. Na área de adubos foliares, a tendência aponta para as nanoemulsões. “Como o tamanho da gota é menor, utiliza-se menos quantidade de princípio ativo”, relata Mattoso.

As mesmas nanoestruturas são utilizadas em pesticidas que já se encontram no mercado. “Uma garrafinha de um litro substitui um tambor de 20 litros de veneno”, compara Marconcini. A nanotecnologia também tem sido utilizada para degradação de pesticidas convencionais. Uma das tecnologias em estudo na Embrapa é o uso de catalisadores feitos à base de óxidos de titânio e estanho em tamanho nanométrico, em conjunto com a luz ultravioleta, para quebrar mais rapidamente as moléculas dos pesticidas presentes na água.

Artigos científicos

1. DURÁN, N.; MARCATO, P.D. et al. Potential use of silver nanoparticles on pathogenic bacteria, their toxicity and possible mechanisms of action. Journal of the Brazilian Chemical Society. v. 21, p. 949-59. 2010.
2. AZEREDO, H.M.C; MATTOSO, L.H.C. et al. Nanocomposite edible films from mango puree reinforced with cellulose nanofibers. Journal of Food Science. v. 74, n.5, p. 31-35. 2009.

Revista FAPESP

Notícias Geografia Hoje

Quente e imprevisível
© MARLITH / WIKIMEDIA COMMONS
Pacífico: águas quentes longe do Equador

Quem já nadou no Pacífico talvez veja com bons olhos o possível aquecimento de suas águas em consequência de mudanças no clima do planeta. Mas pode não ser tão bom assim. Simulações coordenadas por Emanuele Di Lorenzo, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, indicaram que as alterações de temperatura na superfície do Pacífico central típicas do El Niño causam mudanças na circulação atmosférica, que, por sua vez, aumentam as flutuações climáticas com ciclos de 20 a 30 anos, conhecidas como Oscilação Decenal do Pacífico (Nature Geoscience). Ambos os efeitos são caracterizados por um aquecimento no Pacífico central que se estende para a costa oeste dos Estados Unidos e o resfriamento na porção norte do oceano. As mudanças do clima em curso devem tornar mais imprevisíveis essas flutuações, aumentando as oscilações de temperatura no Pacífico. Os efeitos, os autores preveem, deverão ser sentidos em aspectos físicos e biológicos.

Revista FAPESP

Balbina, a hidrelétrica que não deu certo

Há poucos anos, Manaus era abastecido de energiatermoelétricas que queimavam petróleo. O aumento dos preços do petróleo, a partir de 1973, levou o governo a optar pela construção de uma usina hidrelétrica capaz de suprir Manaus e substituir as termoelétricas. O local escolhido para a nova usina, chamada Balbina, foi o Rio Uatumã, no meio da floresta amazônica. Desde o início desse projeto, muitos cientistas reclamaram, mostrando os erros, mas foram ignorados pelo governo. Quando a usina entrou em funcionamento parcial, em 1988, até mesmo o governo reconheceu que ela é uma verdadeira tragédia.
Balbina é uma tragédia econômica, pois o custo da energia que ela produz é altíssimo. Acontece que o rio Uatumã é pequeno e tem pouca água, e por isso, a quantidade de energia consumiu muito dinheiro. Muito mais que continuar a usar as termoelétricas!
Balbina também é uma tragédia ecológica, pois destruiu uma área enorme de floresta, destruindo milhões de árvores. Acontece que o rio Uatumã está localizado em região de relevo quase plano, e, por isso, a represa criada pelabarragem inundou um espaço exagerado. Não foi só a floresta que se perdeu, mas também muitas espécies animais que habitavam aquele meio ecológico.
Finalmente, Balbina é uma tragédia social que prejudicou os habitantes da região. Uma parte da sua enorme represa inundou terras de caça e moradia dos índios. Além disso, os peixes desapareceram do rio, no trecho abaixo da barragem, pois a decomposição dos vegetais afogados pela represa tornou a água ácida e poluída. Os habitantes das margens do rio, que usavam os peixes como fonte de alimentação, estão se mudando para outros lugares.
O exemplo de Balbina mostra que nem sempre uma usina hidrelétrica é uma boa opção. Talvez esse exemplo sirva, pelo menos, para convencer o governo a estudar com mais cuidados as consequências da construção de usinas nos rios da Amazônia.
http://www.cepa.if.usp.br

Engorda de plantas com CO2 retardaria aquecimento global, afima Nasa

Em um mundo com o dobro de CO2 na atmosfera, as plantas poderiam crescer melhor e auxiliar no esfriamento do planeta, mas não conseguiriam deter ou reverter as mudanças climáticas, anunciou a Nasa.

Um dos maiores mistérios que os cientistas enfrentam no que diz respeito às mudanças climáticas é como projetá-las no tempo, particularmente em conta da reação da Terra a temperaturas mais quentes, um fenômeno conhecido como "feedback" (retroalimentação).

Sabe-se há tempos que as plantas, que usam dióxido de carbono (CO2), luz solar e água para crescer através da fotossíntese, são capazes de se adaptar a níveis maiores de dióxido de carbono (CO2), ao usar nutrientes de forma mais eficiente e gerar folhas de maior tamanho.

"Este processo é chamado 'regulação para baixo'. Este uso mais eficiente da água e dos nutrientes tem sido observado em estudos experimentais que podem conduzir a um crescimento maior das folhas", explicou a agência espacial americana em um comunicado.

Um estudo da Nasa, descrito na edição da revista "Geophysical Research Letters", calculou que as plantas conseguem reduzir a temperatura planetária em até 0,3º C.

No entanto, esta cifra fica muito abaixo da elevação de 2ºC a 4,5º C, prevista em diversos modelos sobre o aquecimento global.

Folha de São Paulo

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Para sair do impasse afegão

A região que divide o Afeganistão e o Paquistão já era palco de disputas muito antes da Al-Qaeda, ainda que esta tenha sabido aproveitar bem a situação. Para resolver os conflitos da região, é preciso compreender o sentimento de identidade dos pashtuns, grupo étnico espalhado pelos dois lados da fronteira

por Georges Lefeuvre

Em 2009, 2.412 civis foram mortos no Afeganistão1. No mesmo período, o noroeste do Paquistão, onde a população é de origem étnica pashtun – a mesma dos afegãos – contabilizou 12 mil2 vítimas, entre civis, militares e insurgentes. As conclusões das conferências internacionais sobre a região, realizadas em Londres (28/01/2010) e Cabul (21/08/2010), foram obviamente insuficientes para frear a violência, e é iminente o risco de implosão dos dois países.

O que fazer então? É possível solucionar a questão sem recorrer ao Talibã? Sem dúvida, a procura de uma alternativa passa por terrenos sensíveis, heranças coloniais mal resolvidas e pouco discutidas. Quase tudo já foi dito sobre os erros estratégicos cometidos no Afeganistão desde 2001. No entanto, não se debate o grande mal-entendido que paira na região.

Em 1986, Osama bin Laden se instalou no leste do Afeganistão, perto de Khost, a poucos quilômetros das áreas tribais paquistanesas do Waziristão. Ao mesmo tempo, Jalaluddin Haqqani, um nativo de Khost e grande figura pashtun do movimento Hizb-i-Islami Khalis, estruturou suas forças em Miran Shah, no Waziristão do Norte, onde derrotou o exército soviético. É nesse eixo Khost-Miranshah que passa a Linha Mortimer Durand, estabelecida por um coronel britânico de mesmo nome para separar, em 1893, o império das Índias do Afeganistão turbulento. E foi justamente aí que o terrorismo wahhabita encontrou seu ponto de incandescência.

Os radicais da vertente islâmica wahhabita consideram a Umma (comunidade dos crentes) uma nação indivisível, e sua guerra santa pretende acabar com os Estados constituídos para abrir espaço para um país muçulmano, o “Grande Califado”. A estratégia da jihad global, a guerra santa, consiste em utilizar os nacionalismos locais para enfraquecer e desestabilizar o poder central desses países.

Assim, a Linha Durand aparece como uma benção para Bin Laden, em 1980. Essa fronteira não reconhecida pelo governo afegão, intangível para o Paquistão, divide, de fato, a comunidade pashtun, que tem um forte sentimento de identidade que alimentou a resistência à ocupação soviética. Esse sentimento também é reforçado pela frustração secular decorrente tanto de um equívoco etimológico como de um paradoxo demográfico. Por um lado, enquanto o termo “Afeganistão” sempre foi usado pelos persas para designar os pashtuns, aqueles que estão no Paquistão não têm clareza se se identificam como afegãos ou pashtuns. Por outro lado, os quase 15 milhões de pashtuns que vivem no território do Afeganistão representam metade da população, enquanto que os pashtuns do Paquistão, embora duas vezes mais numerosos, constituem apenas 15% da população do país. Todos os ingredientes estavam, portanto, reunidos para que Bin Laden fizesse da região a sua base (Qaeda) de desestabilização dos dois Estados. A jihad, então, foi generosamente financiada pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita, e Haqqani, seu protetor, recebeu a maior parte desse maná. Em nenhum lugar, a Al-Qaeda encontraria uma área tão propícia à sua implantação. Em agosto de 1996, Bin Laden proclamou oficialmente a jihad global, tornando pública a sua “Declaração de guerra contra os americanos que ocupam o território dos dois Lugares Sagrados” (Meca e Medina).

Enquanto isso, em 1994, o Talibã entrou em cena. O grupo não se originou da Al-Qaeda, mas seu líder, o mulá Mohammed Omar, estava ligado a Haqqani. Para a Al-Qaeda, bastou se infiltrar nesse movimento e garantir a sua estrita ortodoxia religiosa. O Talibã contribuiu para pôr fim à sangrenta guerra civil no Afeganistão depois da queda do regime comunista, em 1992. Embora sob o estandarte da xaria, a lei islâmica, e não o de sua etnia, eles asseguraram a reconquista pashtun do país até às margens do rio Amu-Dária. Mas ao fazê-lo, eles se prestaram tanto aos interesses americanos como aos da Arábia Saudita e do Paquistão. O grupo californiano de petróleo Unocal, representado junto ao Talibã pelo atual presidente, Hamid Karzai, precisava do país pacificado para seu projeto de um gasoduto transafegão. A Arábia Saudita apoiou, logicamente, o desenvolvimento de um emirado sunita puritano sobre o flanco oriental do Irã xiita. Tal estratégia de contenção convinha a Washington e Islamabad, preocupadas com a influência iraniana nos 20% de xiitas que compõem a população do Afeganistão.

Finalmente, há a questão da “profundidade estratégica” que persegue todos os espíritos do Paquistão, até mesmo o da já falecida Benazir Bhutto, então primeira-ministra. Explicou-se muitas vezes a obsessão com a “profundidade estratégica” pela necessidade que teria o exército paquistanês de se retirar para o Afeganistão em caso de um ataque da Índia, uma ideia absurda para quem conhece a topografia local. Na realidade, esta é uma preocupação geopolítica ligada à recusa, por parte do Afeganistão, em reconhecer oficialmente a Linha Durand como fronteira. O nacionalismo secular pashtun, apoiado pela URSS, foi virulento nos anos 1950 a 1970: o então presidente afegão, Mohammed Daoud (1973-1978) reivindicava todas as áreas pashtuns do Paquistão como parte de seu país. Já ameaçado pelo eterno conflito da Caxemira3, o Paquistão temia este outro perigo no oeste e, por isso, tentou incentivar a instalação de um regime islâmico em Cabul, predominantemente pashtun, que lhe garantiria sua própria sustentabilidade, abafando toda a expansão nacionalista baseada num “Grande Pashtunistão4”. Em 1994, Islamabad considerava que os talibãs seriam a solução, desde que ficassem sob seu controle.

Esses interesses combinados formaram um barril de pólvora, mobilizando recursos colossais que
permitiram a instalação do Talibã. Mesmo que a Aliança do Norte, liderada pelo comandante Ahmed Shah Massud, até seu assassinato, em setembro de 2001, mantivesse um foco de resistência permanente, seria necessária uma boa dose de ingenuidade (ou amnésia) para acreditar que, depois do 11 de Setembro, essa articulação entre os partidos tadjiques, uzbeques e hazaras poderia virar a maré. Apesar de ser uma peça importante no tabuleiro, Massud não poderia ser a pedra angular da nação; não se concilia uma família depois de descartar metade de seus membros. Mas a “comunidade internacional”, horrorizada pelo obscurantismo do Talibã, apostou nessa solução. Resultante dos acordos de Bonn, de dezembro de 2001, o novo governo afegão era constituído por 23 ministros da Aliança do Norte, contra sete pashtuns. De fato, o presidente Karzai é pashtun, mas é percebido como um peão da Casa Branca. Isto significa que a sociedade civil pashtun não se sente representada e nutre profunda insatisfação. Durante oito anos, ela fermentou como uma espécie de bolo com três camadas, o “pashtunismo” ordinário, não necessariamente nacionalista, mas com forte conotação de identidade; o “talibanismo”, braço armado do interior e, finalmente, a Al-Qaeda, força supletiva exógena instalada na forma de um vírus em um corpo doente.

Após sua derrota, em novembro de 2001, o movimento talibã teria se dissolvido como açúcar no chá se as tribos pashtun tivessem vez e voz. Não se trata aqui de defender a ideia de que o Afeganistão é prioritariamente a “terra dos pashtuns”, mas eles acreditam nisso devido à sua história e seus números. É um fato da antropologia política, perturbador, mas incontestável, e tem que ser levado em conta. A reconciliação nacional do Afeganistão só será conclusiva quando os grupos étnicos da região Norte deixarem de ser apenas “compatriotas” ao lado dos “afegãos” históricos e tornarem-se patriotas no sentido pleno da palavra. Isso vai acontecer porque não se conhecem casos de tadjiques afegãos que queiram ser anexados a Dushanbe (capital do Tadjiquistão), nem uzbeques a Tashkent (Uzbequistão) ou hazaras xiitas a Teerã (Irã)! Todos os afegãos têm em comum o sentimento agudo, beirando ao sagrado, de um território indivisível que eles defenderam juntos durante dois séculos. As divisões étnicas não são, portanto, proibitivas.

Jihad global

Tantos erros de apreciação só beneficiaram a Al-Qaeda. Incapaz de sobreviver ao ar livre, a organização precisa constantemente cultivar o irredentismo talibã no qual se enraíza, caso contrário a jihad nacionalista se viraria, certamente, contra aquela global5. Bin Laden não se enganava: ele temia, desde 1996, que as negociações entre o Talibã e a Unocal pudessem resultar na normalização do regime do Mulá Omar. Esse risco desapareceu por completo em agosto de 1998, quando, em represália aos ataques contra suas embaixadas na Tanzânia e no Quênia, os Estados Unidos atacaram a Al-Qaeda, bombardeando pela primeira vez o solo afegão.

Mas, de acordo com os estrategistas paquistaneses, na expectativa de que o Talibã retomasse o controle da situação no Afeganistão, apenas os militantes estrangeiros foram perseguidos pelos americanos. Enquanto isso, a Al-Qaeda estava a ponto de se recuperar graças à operação “Martelo e bigorna”, idealizada, em 2004, pelo general americano David Barno, destinada a pegar na fronteira os militantes do Movimento Islâmico do Uzbequistão que o Paquistão se comprometia a desalojar do Waziristão Sul. Essa era a primeira operação militar frontal. No entanto, o exército perdeu mais de mil homens em um mês e teve de negociar com Nek Mohamed, um jovem rebelde de um dos vilarejos. Dois meses depois, Nek foi abatido por um avião não tripulado americano. Ele comandava 80 mil soldados e tornou-se um herói épico que todos os jovens estavam prontos para vingar. Seu sucessor, o temível Baitullah Mehsud, se aliou à Al-Qaeda para atormentar e aterrorizar o Estado paquistanês. Atacou comboios militares, quartéis, o quartel-general do exército e os tribunais.

Mehsud fundou o Tehrik-e-Taliban Paquistão (TTP), que incluía cerca de 20 organizações e se impôs em todo o noroeste, onde também desencadeou uma nova guerra de purificação religiosa – 162 xiitas foram eliminados em apenas uma operação, em Orakzai, em 10 de outubro de 2008. O horror estava em seu apogeu. Jovens sicários administravam áreas infestadas por esta última sombra da Al-Qaeda. Mais de 300 líderes tribais foram degolados sob acusação de espionagem. Mehsud estruturou suas relações com redes terroristas no Panjabe, o grupo wahhabita Lashkar-e-Taiba e também entre grupos não wahhabitas, mas decididamente antixiitas, como os Lashkar-e-Jhangvi e Jaish-e-Mohammad, que lhe deram forte apoio. Até mesmo o Mulá Omar se inquietou com a situação. Ele não tinha interesse em desestabilizar o Paquistão, onde organizou a resistência. Dessa maneira, até meados de 2009, o exército pôde apoiar-se nos talibãs que lhe eram fiéis para lutar contra o TTP, visto como a única ameaça real. Os resultados não foram conclusivos, mas Mehsud foi finalmente morto em agosto. Ele foi sucedido por Hakimullah Mehsud, seu primo, e o Mulá Omar tentou recuperar o controle da situação por meio da rede Haqqani. Em outubro, o exército paquistanês lançou nova ofensiva no Waziristão. O TTP respondeu violentamente, com 81 atentados suicidas que mataram 1.680 pessoas no último ano.

Percebemos, então, que as conferências de Londres e Cabul não serviram para nada. As tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estão em grande dificuldade, o desenvolvimento econômico não é viável em áreas de insurgência e a proposta política simplesmente não está à altura da necessidade. De que maneira a assistência à “boa governança”, em Cabul e Islamabad, poderia ser suficiente para desfazer os nós desta confusão?

Só restaria a solução do presidente Karzai: negociar com os talibãs.Barack Obama anda arrastando os pés, mas concorda, por falta de alternativa melhor. A situação nunca foi tão grave. O TTP associou estreitamente os talibãs paquistaneses com a Al-Qaeda e os grupos terroristas de Panjabe. Ele usurpou o poder tribal tradicional, tornou miserável a vida dos civis e continua as ações terroristas. Nessa confusão toda, quais os talibãs que poderiam ser subornados? Finalmente, se os estrategistas internacionais devem, também, se envolver nas negociações, como terão certeza de não ser manipulados pelos sistemas de parentesco e alianças que eles não dominam? Negociar com o Talibã não é uma boa estratégia, é melhor resolver o problema em nível mais elevado. Vimos que a Al Qaeda não pode sobreviver sem estar escondida, mas também que uma sociedade pashtun em paz não precisaria do braço armado do talibã. Então, é com essa população que devemos nos comunicar.

Estratégias de disputa

Pode-se dizer que o sistema tribal está destruído. Nada poderia estar mais errado. A usurpação do poder não é necessariamente irreversível. Os líderes tradicionais foram assassinados, mas o que se entende por “tradicional”? Todo pashtun influente é um interlocutor em potencial, quer seja ele talibã, simpatizante ou não, por convicção ou por oportunismo. Pode-se mesmo dizer que a temida Haqqani é antes pashtun que talibã ou aliada estratégica de Bin Laden. Ela defende seu próprio poder e as riquezas do feudo transfronteiriço que esculpiu entre Khost e Miranshah, transgredindo a Linha Durand. A Al-Qaeda e o TTP são seus instrumentos nessa transgressão, mas a jihad global não é realmente seu objetivo.

É assim que devemos entender o Chefe do Estado-Maior Paquistanês, Ashfaq Pervez Kayani, quando, em 2 de fevereiro de 2010 propôs usar a sua influência com a Haqqani. Ele oficializou o conceito de profundidade estratégica, mas acrescentou que “a intenção não é controlar o Afeganistão, somente garantir a fronteira do Paquistão a oeste”. Ele desenhou, assim, a Linha Durand sem nomeá-la, mas explicou a sua preocupação, denunciando a forte presença da Índia no Afeganistão, vista como um cerco hostil. Essa síndrome parece exagerada, mas não sem fundamento. Durante a Guerra Fria, o eixo diplomático Washington-Pequim passava por Islamabad e cruzava o eixo Moscou-Nova Déli. O nacionalismo pashtun secular era apoiado pela URSS, mas também pela Índia. Aqui encontramos o fato real, que nunca é mencionado e que envenena as relações entre Paquistão e Afeganistão. Para o Paquistão, desde sua criação em 1947, a Linha Durand é uma fronteira legal, em nome do “legado dos Tratados”, garantida pelo direito internacional; já o Afeganistão a rejeita com o argumento de que nenhum tratado lhe conferiu o status de fronteira internacional.

Em suma, a Linha Durand é uma ferida aberta, sensibilizada pela marginalização dos pashtuns e pela força da Al-Qaeda. Mesmo os partidos nacionalistas seculares da esquerda, antigamente próximos à URSS, como o Partido Nacional Awami (ANP), atualmente no poder em Peshawar, se sentem desconfortáveis. Em abril de 2007, um evento crucial passou despercebido. O presidente Karzai viajou para Jalalabad para inaugurar um centro cultural chamado Bacha Khan, em homenagem ao fundador da ANP que, em 1948, optou por abandonar o Paquistão e ir para o exílio no Afeganistão, onde foi sepultado em 1988. Seu neto, Asfandyar, presidente da ANP, foi naturalmente o convidado de honra. Outro centro Bacha Khan existe do lado paquistanês, em Peshawar. A Linha Durand levanta questões sensíveis e ambíguas, e a paz na região continuará fora de Alcance até que alguma resolução lhe confira um status verdadeiro. Falar ainda de “linha” sugere um cessar-fogo e, portanto, um conflito não resolvido. É o caso da linha de controle que divide a Caxemira em duas. E alguém ainda chama a fronteira com o Irã e o Paquistão, reconhecida por ambos os Estados, de Linha Goldsmid?

O Afeganistão tem se posicionado há tanto tempo contra a existência da Linha Durand, que o presidente Karzai não poderia, perante a evidência, reverter essa posição sem ser desprezado, ou mesmo, sem ser assassinado. No entanto, se esse limite fosse reconhecido em Cabul, o conceito do Paquistão de “profundidade estratégica” ficaria supérfluo, as alianças antiterroristas ganhariam, automaticamente, em eficiência e, até mesmo, a síndrome de um cerco de origem indiana perderia força. Em agosto de 2009, o Paquistão, exasperado, ameaçou fechar e minar a linha, mas isso é impossível, seria a melhor maneira de multiplicar as insurreições locais e seu apoio às ações da Al-Qaeda.

Para evitar um sismo regional, devemos transformar essa linha de fratura numa linha de paz. Como a aproximação dos dois Estados vizinhos está sofrendo por causa de tensões de identidade e fronteiras muito antigas, é o momento de a comunidade internacional ajudá-los. Após oito anos de presença na área, é o mínimo que poderia fazer. Mas, o reconhecimento de uma fronteira comum só poderá ter lugar com condições negociadas dos líderes tribais de ambos os lados, com o objetivo de estabelecer um modus operandi que permita que um mesmo povo não sofra mais fragmentação e encontre seu espaço comum sem ameaçar a soberania dos dois países.

Georges Lefeuvre é antropólogo e diplomata, antigo conselheiro político da Comissão Europeia no Paquistão.

1 Unama, Relatório Anual, janeiro 2010.
2 Portal do Terrorismo da Ásia do Sul: www.satp.org/br
3 A Índia e o Paquistão se enfrentam desde 1947 pelo controle da Caxemira, agora dividida em duas.
4 Termo que é sinônimo de Afeganistão. Em 1948, a bandeira do Pashtunistão independente, apoiado pelo rei afegão Zahir Shah, tremulava no Waziristão do Norte e no vale de Tirah. O governo rebelde durou cerca de 20 meses.
5 Discurso de Jean-Pierre Filiu perante a Comissão dos Assuntos Externos do Senado, 29/01/2010.

Le Monde Diplomatique Brasil

Vale, a multinacional dos conflitos



Vale, a multinacional dos conflitos

Denúncias de violação de direitos trabalhistas e ambientais na África, Ásia e no continente americano arranham a imagem da Vale, segunda maior empresa mineradora do mundo. Juntos, os atingidos pelas operações da companhia mobilizam-se para exigir mudanças imediatas

por Philippe Revelli

Sudbury, 11 de março de 2010. Nesta cidadezinha, a 400 km ao norte de Toronto, no Canadá, os mineiros da companhia Vale/Inco formam uma fila única, aguardando sua vez de votar nas propostas em discussão. Eles estão em greve há oito meses e, na semana anterior, as negociações entre a diretoria da companhia e o United Steelworkers (USW), o sindicato dos metalúrgicos, foram interrompidas. Na origem do conflito está a possível alteração na convenção coletiva de trabalho, o que resultaria no congelamento dos salários durante três anos, além da modificação do regime das aposentadorias e da redução do bônus anual vinculado à rentabilidade da empresa (até então calculado com base numa média de 25% do salário). Ao sair da cabine de votação, um grevista queimou o documento no qual estavam listadas as propostas da diretoria, gesto imitado por muitos dos seus colegas. O resultado do pleito não deu margem para dúvidas: 88,7% dos assalariados optaram por continuar de braços cruzados.

Essa não era a primeira greve dura dos mineiros. A International Nickel Company of Canada (Inco) explora o níquel da região há mais de um século e, no decorrer dos conflitos, o USW foi consolidando seu papel de interlocutor privilegiado com a diretoria, arrancando direitos sociais importantes que beneficiam o conjunto da comunidade. Ou, melhor dizendo, “beneficiavam”. Em 2006, a compra da companhia canadense pela multinacional brasileira Vale mudou a situação de vez. E nada indica que os mineiros ganharam com isso.

Alegando os efeitos da crise financeira, os dirigentes da Vale/Inco não tardaram a voltar atrás nas promessas feitas ao governo canadense, que no começo era hostil à compra de uma empresa nacional por uma concorrente estrangeira. O conflito aberto pelo questionamento da convenção coletiva ofereceu à diretoria a oportunidade de se libertar das regras (mais ou menos tácitas) de negociação em vigor até então. Espantados, os mineiros canadenses foram descobrindo novas práticas: “Nunca, até então, ‘laranjas’ haviam furado nossos piquetes de greve!”, conta Pascal Boucher, dirigente da seção local do USW. Há relatos, também, de assédio pelos agentes de segurança terceirizados que servem à companhia: “Eles chegam ao ponto de nos seguir, filmando ostensivamente nossas idas e vindas. Ficam, até mesmo, estacionados em frente às nossas casas”. Até então, ninguém tinha visto nada parecido em Sudbury.

Para Doug Olthuis, encarregado de assuntos internacionais do sindicato, essa mudança é decorrente da nova escala da companhia: “O níquel de Sudbury representava 30% do faturamento da Inco. Agora, ele corresponde a não mais de 3% do faturamento da Vale. Para eles, as minas não são indispensáveis; com isso, a capacidade de negociação do sindicato foi reduzida na mesma proporção”.

Recordar é viver

O berço da Vale é Minas Gerais. Após o ciclo do ouro (no século XVIII), veio o do ferro, que durante a Segunda Guerra Mundial adquiriu para os Aliados uma importância estratégica. Os acordos de Washington, assinados em 1942, entre os governos estadunidense, britânico e brasileiro, estipularam uma transferência das minas, que eram exploradas até então pela British Itabira Company, para uma sociedade brasileira de economia mista fundada naquela oportunidade (com ajuda de créditos americanos): a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD).

Dez anos mais tarde, o Estado brasileiro assumiu o controle da CVRD, e a empresa consolidou sua posição no Quadrilátero Mineiro. Após a descoberta das jazidas de ferro de Carajás (PA), ela estendeu suas operações à Amazônia e tornou-se, durante os anos 1980, a maior exportadora mundial de minério de ferro. Em 1997, quando a Vale do Rio Doce figurava entre as empresas mais rentáveis do país, o governo de Fernando Henrique Cardoso decidiu privatizá-la.

A operação foi realizada dentro de condições duvidosas – para dizer o mínimo – e é questionada até hoje. Liquidada por US$ 3,14 bilhões, a empresa vale atualmente 40 vezes mais (US$ 139 bilhões). As suas reservas em minério de ferro, que estavam estimadas em 2 bilhões de toneladas às vésperas da venda, triplicaram nos dias que se seguiram como um passe de mágica. Além do mais, cerca de 60 filiais não foram levadas em conta na avaliação dos ativos da companhia, realizada com ajuda do grupo Bradesco, que se tornou um dos principais acionistas da nova sociedade privada.1

A partir de 2001, a ascensão de Roger Agnelli ao comando da sociedade deu início a uma era de expansão agressiva no exterior. A firma, que se tornou multinacional, foi içada ao nível de maior fornecedora da China em minério de ferro e estendeu suas atividades aos metais não ferrosos – níquel, cobre, manganês, bauxita, fosfatos.

Em 2006, com a aquisição da Inco, a CVRD tornou-se a segunda maior empresa mineradora do mundo, atrás apenas da BHP Billiton. Além disso, a operação permitiu-lhe estender suas atividades ao Canadá, Indonésia e Nova Caledônia. No ano seguinte, ela mudou seu nome para Vale e continuou o boom: nos setores do carvão – ela obteve concessões no distrito de Moatize, em Moçambique, onde estão localizadas as mais importantes reservas inexploradas do planeta – e dos adubos químicos – com a compra das cotas da Bunge na empresa Fosfértil.

Desde então, as suas atividades se estendem pelos cinco continentes, em mais de 30 países. O conglomerado reúne cerca de 60 empresas, emprega 150 mil trabalhadores, possui 9 mil km de ferrovias, oito portos e várias centrais hidrelétricas. A Vale bateu seus recordes no ano de 2008, lucrou US$ 13,3 bilhões2 e distribuiu US$ 2,75 bilhões aos seus acionistas, uma quantia maior que aquela gasta com os salários – US$ 1,9 bilhão.

Infelizmente, nem todos os brasileiros são acionistas da Vale. Ao longo da estrada de ferro que liga as minas de Carajás ao porto de São Luís (MA), não são os dividendos que vêm à mente quando se menciona o nome da empresa.

Dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Canaã dos Carajás, município onde cinco projetos de exploração mineira estão em operação, José Ribamar conta que “as explosões, o alvoroço das máquinas e a circulação de centenas de caminhões atrapalham a vida cotidiana dos habitantes e assustam os animais. Toneladas e toneladas de rochas estéreis3 e lixo de todo tipo se acumulam ao ar livre e são arrastadas pelas chuvas, poluindo a água e o solo”. E não é só isso: “Para que novas minas possam entrar em serviço, a Vale compra terras e manda cercá-las com arame farpado. Os camponeses que não querem vender acabam ficando ilhados”.

A cerca de 50 km dali, Parauapebas abriga a sede regional da companhia. A cidade, que não passava de um vilarejo alguns anos atrás, conta atualmente com 150 mil habitantes. Em volta de alguns enclaves de prosperidade, as moradias precárias não param de ganhar terreno – 45% das famílias do município não têm água encanada, 90% não estão conectadas à rede de esgoto – e os royalties que o município recebe4 não lhe permitem adaptar sua infraestrutura à chegada constante de novas levas de migrantes.

Toda semana, desembarcam lá dezenas de famílias, atraídas pela perspectiva de conseguir um emprego na Vale. Para muitos, isso não passará de miragem. Mas é uma miragem que vai aumentando as fileiras de um exército de reserva, do qual a companhia se abastece para substituir os operários que ficam “sem condições de trabalho”. Nesse contexto, ferir-se equivale a perder tudo: a Associação de Defesa das Vítimas de Acidentes do Trabalho acompanha atualmente 63 casos de operários demitidos em consequência de um acidente de trabalho.

A contratação de cerca de 60% do pessoal por intermédio de agentes, pouco preocupados com as questões de direito do trabalho, contribui para refrear a combatividade dos assalariados, enquanto as autoridades locais, a polícia e a justiça se mostram pouco inclinadas a mudar esse cenário. Houve um caso excepcional: em abril de 2010, um juiz do trabalho de Marabá aventurou-se a condenar a empresa a pagar R$ 300 milhões, por perdas e danos, a várias centenas de trabalhadores. Tudo em vão, já que alguns dias mais tarde, o Tribunal Superior do Trabalho suspendeu a execução da sentença, enquanto a Vale, por sua vez, anunciou a intenção de processar o magistrado.

Ao longo da ferrovia, a cidade de Açailândia tornou-se, durante os anos 1990, um polo siderúrgico alimentado pelo minério de Carajás. No final da estrada, está o projeto de ampliação do porto de São Luís, que vem enfrentando resistência por parte das comunidades de pescadores.

Em 2007, a multiplicação dos conflitos locais levou ao lançamento de uma campanha comum: Justiça nos Trilhos5. Dois anos mais tarde, por ocasião do Fórum Social Mundial de Belém, foram promovidos encontros com grupos vindos de diversos lugares do mundo que estavam em conflito com a mineradora. Germinou, então, a ideia de um movimento internacional de oposição à Vale. A greve dos mineiros canadenses da Vale/Inco, que teria início alguns meses mais tarde, iria exercer o papel de catalisador. O primeiro encontro internacional das vítimas da Vale seria realizado no Rio de Janeiro, cidade que abriga a sede da companhia, em abril de 2010.

Compartilhando problemas

Duas vans avançam aos solavancos na pista da serra do Gandarela, em Minas Gerais. Elas transportam 15 representantes de organizações camponesas, indígenas, ecologistas e sindicais. Eles vêm do Peru, Chile, Moçambique e Canadá para fazer parte da “caravana internacional” que circula pelo estado. “A serra do Gandarela é uma zona natural protegida que abriga 40% das reservas de água ainda preservadas de Minas Gerais”, explica Isabela Cançado. Bióloga e militante do Movimento pelas Serras e Águas de Minas, ela se diz preocupada com os projetos da Vale de ampliar o perímetro das suas operações na região, de maneira a multiplicar por cinco a sua produção de minério de ferro. “As licenças de exploração obtidas pela companhia têm um bom número de irregularidade e estão em contradição com as normas de proteção das águas e da biodiversidade”, afirma.

O impacto da atividade da mineração sobre a água, a sua qualidade, o volume das reservas existentes e a sua disponibilidade para as populações locais foram questões que surgiram durante o percurso da caravana. Assim, alguns canadenses relataram o caso de Newfoundland, na província do Labrador, onde a Vale pretende utilizar o lago de Pondy Sand para armazenar lixo tóxico. As representantes chilenas alertaram para “o desvio de um recurso público”, que constituiria o bombeamento de enormes quantidades de água em novas áreas de mineração que a companhia pretende explorar na província de Choapa. Quanto aos camponeses, eles constatam no dia a dia a poluição dos cursos de água, a acumulação de lama cinzenta nas bordas e o desaparecimento dos peixes… Mas, o que fazer para impedir isso?

“Em 2006, a Vale obteve uma licença para explorar uma mina de cobre a céu aberto na região de Cajamarca, no Peru”, relata José Lezma, presidente da Frente de Defesa da Bacia do Rio Cajamarquino. “Mas, nessa região, já tínhamos a amarga experiência dos danos provocados pela mineração; entre os empregos prometidos pela Vale e aqueles perdidos na agricultura, o cálculo foi rápido: decidimos impedir a abertura da mina”. Com o apoio das autoridades, a empresa investiu com tudo para destruir o movimento camponês, optando até mesmo por recrutar antigos presidiários, capangas e bandidos envolvidos no tráfico de drogas para compor sua força de segurança. José Lezma chegou a ser sequestrado e teve seu domicílio saqueado. Em 2007, 500 camponeses ocuparam durante três meses o local da mineração, obrigando a empresa a retirar suas máquinas.

No Rio de Janeiro, cerca de 160 pessoas participaram do encontro internacional das vítimas da Vale. Universitários, camponeses, pescadores, indígenas, sindicalistas, ecologistas. Todos que se manifestaram foram unânimes: o impacto ambiental, inerente à atividade da mineração, poderia ser reduzido pela implementação de medidas técnicas ou legais. Infelizmente, nada indica que esses cuidados façam parte das prioridades da Vale. Pelo contrário: Jacques Boenghik, consultor na Agência Canadense de Desenvolvimento, aponta uma diretriz interna da usina de Goro, na Nova Caledônia: certas medidas de controle e vigilância das instalações são preconizadas “somente se vocês tiverem tempo para tanto (…), levando em conta os operadores à disposição”. E não se trata de um caso isolado.

No campo social, a lista dos conflitos é infindável: há o caso dos indígenas Karonsi’e Dongi de Sorowako, na Indonésia, expulsos do seu território ancestral e que sobrevivem, atualmente, encurralados por um campo de golfe da Vale; ou ainda os 5 mil camponeses moçambicanos da região de Moatize, que foram reassentados em condições precárias em terras menos férteis e mais afastadas das feiras onde comercializam sua produção. Na baía de Sepetiba, a oeste do Rio de Janeiro, onde o consórcio ThyssenKrupp-Vale está construindo uma usina siderúrgica, membros de milícias paramilitares locais foram identificados entre o pessoal da segurança. O dirigente de uma comunidade de pescadores, ameaçado de morte, teve de recorrer ao Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos. Obrigado a abandonar seu domicílio, vive atualmente escondido.

Para os atingidos por essas situações, a Vale não seria o que ela é e não poderia se permitir transgredir impunemente as legislações nacionais sem o apoio das autoridades dos países nos quais ela opera. Em Moçambique, segundo publicou o diário O País, “o presidente da empresa é conselheiro para assuntos internacionais do chefe do Estado, Armando Guebuza6”. Em Goro, “um anexo do quartel da polícia militar foi construído no campus da Vale”, conta Boenghik. “A empresa abre gratuitamente seu restaurante para os policiais e lhes fornece veículos.” E, no Brasil, onde a Vale goza desde sempre do apoio infalível do Estado que a deu à luz e criou na sua primeira infância – e segue amparada por empréstimos, tarifas preferenciais de eletricidade7 e projetos de infraestrutura –, o Tribunal Superior Eleitoral apurou que 46 deputados, seis senadores, sete governadores e o próprio presidente Lula haviam gozado de benesses da Vale durante a campanha eleitoral de 20068.

A existência de passarelas entre as altas esferas do Estado e as da companhia suscitam questionamentos. Em 2008, por exemplo, pouco após a concessão de um empréstimo de R$ 7,3 bilhões à Vale pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) – o financiamento mais importante já concedido por este organismo a uma empresa –, o secretário executivo do banco, Luciano Siani Pires, foi nomeado diretor do departamento de Planejamento Estratégico da sociedade.

Saídas

“O movimento ainda está engatinhando”, reconhece Ana Garcia, uma das organizadoras, “a tarefa que temos pela frente é imensa… e muitas perguntas permanecem no ar”. Como conciliar a diversidade dos pontos de vista e das situações políticas? Os objetivos a longo prazo e as demandas imediatas das populações prejudicadas? As reivindicações sindicais e o questionamento de um modelo de desenvolvimento baseado na extração dos recursos naturais? As lutas locais e a exigência de parte dos movimentos sociais de nacionalizar novamente a companhia?

Em Sudbury e em Port Colborne, após um ano de greve, os mineiros canadenses da Vale/Inco finalmente encerraram seu movimento sem conseguir muitas concessões, enquanto a luta prossegue na área de mineração de Voisey’s Bay. “No decorrer do ano passado”, escreveu então Jamie West, mineiro que participou no encontro do Rio, “nós aprendemos muito em relação ao nosso empregador. Também aprendemos muito sobre nós mesmos, sobre a importância do sindicalismo e da solidariedade – não apenas no âmbito local ou da nossa organização, mas também com os trabalhadores do mundo inteiro. Aprendemos que muitos dentre nós eram militantes que esperavam apenas ser despertados, que esperavam apenas uma oportunidade9”.

Philippe Revelli é jornalista.

1 Em 2007, por ocasião de uma votação organizada pela campanha “A Vale é nossa”, 3,7 milhões de brasileiros se pronunciaram a favor da nacionalização da companhia.
2 Em 2009, apesar da crise, eles ainda Alcançaram o montante de US$ 5,3 bilhões.
3 Rochas que não contêm minérios aproveitáveis.
4 Em 2008, esses royalties representavam apenas 1,7% do valor do minério extraído.
5 Justiça nos Trilhos: www.justicanostrilhos.org
6 O País (Moçambique), 23 de fevereiro de 2010.
7 A Vale consome, sozinha, 5% da eletricidade do país, que ela paga por uma tarifa subsidiada.
8 Valor Econômico, 16 de maio de 2007.
9 “Vale Inco strikers weigh their year of sacrifice and vote on deal”, 7 de julho de 2010, http://labornotes.org.

Le Monde Diplomatique Brasil

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Para se tornar potência verde, Brasil precisa fazer mudanças na matriz energética

poluição em São Paulo
Mariana Della Barba
Da BBC Brasil em São Paulo

Na atual disputa por uma economia de baixo carbono, o Brasil poderia estar no topo do pódio e permanecer nele por muito tempo devido ao seu vasto potencial de energias renováveis.

Mas, segundo especialistas, o país vem desperdiçando oportunidades de explorar fontes de energia limpa - o grande motor para o desenvolvimento em tempos de mudanças climáticas.

“Ninguém tem dúvidas de que as energias renováveis vão dominar no futuro. É um processo muito demorado, mas irreversível”, afirma o economista e engenheiro Edmilson Moutinho dos Santos, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP.

“Mas o Brasil, mesmo com todo seu potencial, pode ficar para trás se não investir mais nessa área de energia verde”, alerta o coordenador do Greenpeace, Ricardo Baitelo

China, Estados Unidos e alguns países europeus estão aplicando bilhões de dólares para expandir suas energias verdes, especialmente eólica, solar e de biomassa (produzida a partir de lixo orgânico e sobras agrícolas, como o bagaço da cana).

Na Europa, por exemplo, do total de novos mecanismos de geração de energia instalados no ano passado, 60% foram para renováveis.

Um estudo do Pew Environment Group com países do G-20 mostrou que enquanto o investimento da China nessa área foram de US$ 34,6 bilhões em 2009, o do Brasil foi de US$ 7,4 bilhões.

Situação cômoda

A culpa dessa “lentidão” do governo pode estar justamente na situação confortável do Brasil, com imenso seu potencial hidrelétrico, que faz com que 47% das fontes de energia do país sejam limpas. No entanto, para os especialistas, esse índice não pode ser visto como um motivo para se acomodar.

“Até há alguns anos, o país ainda tinha um grande potencial hidrelétrico a ser explorado. E o governo alegava que a Europa só investia em fontes renováveis por não ter esse potencial", diz Baitelo. "Hoje, ele já percebeu as dificuldades ligadas a hidrelétricas e as vantagens da energias como a eólica."

Para a professora de gestão ambiental da USP, Neli Aparecida de Mello, o problema não está nas hidrelétricas em si, mas na aposta que sempre se fez nas obras grandiosas, como Itaipu e Balbina, e também na sua localização.

“Não é uma questão de banir o modelo, mas sim de mudá-lo. Em primeiro lugar, deveríamos construir hidrelétricas menores, mais locais”, diz. “Também é preciso levar em conta que atualmente os novos projetos estão na Amazônia, como Belomonte. Além do impacto ambiental, temos de ver o grande problema de logística para controlar essas longas linhas de transmissão que trazem a energia para o Sudeste.”

Outro desafio passa pelas emissões vindas do setor energético. A meta do governo é permitir que esse tipo de emissão - que hoje representa 16,5% do total - dobre em dez anos.

Segundo Baitelo, o governo usa a desculpa de que, como as emissões desse tipo são baixas, não há problemas em aumentá-las. “É um absurdo que se permita duplicar esse valor num país como o Brasil, com tantas alternativas energéticas”, diz.

Deslumbramento

Os especialistas também apontaram para outro motivo para esse certo atraso do Brasil em investir nas fontes verdes: o pré-sal. “No início do governo Lula, o etanol era prioridade. Com o pré-sal, houve um deslumbramento e ele acabou sumindo um pouco do discurso”, afirma Baitelo, lembrando que o então ministro de Minas e Energia Edison Lobão chegou a dizer que queria ver carros de passeio a diesel.

Santos destaca ainda que essa empolgação pré-sal acabou tirando o foco de uma questão essencial: o destino do gás gerado pela exploração desse petróleo. A projeção para essas emissões são tão altas que poderiam substituir as geradas pelo desmatamento, se esse fosse erradicado.

“Para quem está pensando em sustentabilidade, é um absurdo não aproveitar bem esse gás”, diz o engenheiro, acrescentando que, aliado a outras fontes, o gás poderia ajudar no abastecimento de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Outro contrasenso indicado por Santos é não se incentivar ônibus movidos à gás - e sim a diesel e etanol. “Para suprir frotas grandes como a de São Paulo seria preciso plantar muito mais cana, tirando espaço de outro tipo de lavouras.”

Avanços

Segundo os especialistas, esses erros e políticas mal articuladas tiveram seu ápice há cerca de cinco anos. “O governo acabou sujando sua matriz energética ao incentivar as térmicas a óleo, que são baratas de se construir”, lembra Baitelo.

Mas essa tendência vem se revertendo, ainda que em um ritmo muito mais lento do que o esperado. “Governo viu que o foco estava errado e passou a investir um pouco mais em outras energias, como a eólica”, diz o coordenador do Greenpeace.

A participação da eólica na matriz elétrica nacional cresceu 5% em 2009. Mesmo assim, essa fonte corresponde a apenas 0,2% do total de energia gerada, enquanto tem potencial para gerar até três vezes mais do que o Brasil necessita.

Para mudar esse cenário, falta mais incentivo do governo: “O BNDES, por exemplo, fica financiando apenas as grandes obras, como estádios para a Copa e Belomonte”, afirma Santos.

Lucrando com o sol

Os especialistas também criticam o baixo investimento sem ciência e pesquisa, que acabam ficando mais concentrado em áreas ligadas ao petróleo e a biocombustíveis. “O discurso oficial sempre pendeu mais para ‘vamos esperar o preço cair’ do que para criar legislação que incentive essas energias renováveis”, diz Baitelo.

Ele cita o fato de não haver produção nacional de painéis solares. “Se houvesse mais incentivos a esse tipo de negócio, poderíamos exportar essa tecnologia, como fazemos com o etanol.”

Tarifas especiais para quem poupa energia também são raras no Brasil. Em países europeus e asiáticos, essa iniciativa é corrente e vai além: o consumidor que usa energia solar pode vender de volta para o Estado o excedente, criando um ciclo virtuoso.

“Incentivos e garantias ao consumidor é uma questão chave para se melhorar nossa maneira de usar energia”, afirma a professora da USP, fazendo uma comparação com os carros a álcool. “Demorou um tempo para se embarcar nesse mercado. Mas se a política for mantida aos poucos, o consumidor vai vendo que é algo viável, vantajoso e passa a comprar equipamentos que economizam energia, painéis solares.”

BBC Brasil

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