terça-feira, 22 de junho de 2010

Cresce o apetite do dragão predador

Cresce o apetite do dragão predador

Multiplicam-se as queixas das áreas têxtil e de confecções contra a concorrência chinesa

ALBERTO MAWAKDIYE

Foto: Divulgação

Embora tão confiantes na retomada econômica do país como os colegas de outros setores produtivos, os empresários da vasta cadeia têxtil e de confecções do Brasil – somente na área industrial, são 28,8 mil companhias, que empregam cerca de 1,6 milhão de trabalhadores – ainda não veem motivos para comemorar. Eles continuam a queixar-se do que classificam de “concorrência predatória” dos artigos produzidos na China, vista como a principal responsável pela, de fato, assustadora ocupação do mercado doméstico por fabricantes estrangeiros.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), hoje, de cada dez peças vendidas no grande varejo, uma vem de fora. Há dez anos, a relação era de uma peça importada para cada 20 produzidas no Brasil. De 2004 a 2008, as importações nessa área cresceram 170% no país, sendo que naquele último ano o saldo da balança comercial do setor foi negativo em US$ 1,4 bilhão.

Por conta disso, os bons números projetados para 2010 não bastaram para acalmar os empresários do setor. A Abit espera, por exemplo, uma taxa de crescimento bastante razoável na cadeia de produção de tecidos, da ordem de 4%, suficiente para recompor parte das perdas verificadas em 2009, que foram de 6,7%. Na indústria de confecções, a expansão aguardada é de 3,7%, ante uma queda de 8% em 2009. Já no varejo, que também vendeu bem menos que o esperado durante os meses de crise, acredita-se numa taxa de crescimento de 6,5%.

A perspectiva está ligada ao aumento geral de empregos no país, de 2 milhões de novas vagas em todos os setores da economia. Mais pessoas com carteira assinada sempre significam, obviamente, maior consumo de roupas e têxteis em geral. A crescente inclusão de famílias das classes C e D no mercado de consumo deve ser outro impulsionador da recuperação.

Os problemas, porém, começam aí, segundo Fernando Pimentel, diretor superintendente da Abit. Se o crescimento do consumo será bom para a cadeia têxtil brasileira, será ainda melhor para a chinesa – que também vinha vendendo menos no Brasil (o volume total de importações no setor caiu de US$ 3,8 bilhões em 2008 para US$ 3,5 bilhões em 2009).

“A China já responde por 60% das confecções e 35% dos produtos têxteis importados vendidos no Brasil”, informa Pimentel. “Existe um mercado cativo no país e que só tende a crescer com o desenvolvimento do consumo doméstico. As fábricas chinesas vendem por um valor tão baixo, e temos tantos problemas estruturais para a formação de preços, que a concorrência acaba ficando desleal.”

A lista de dificuldades apresentada por Pimentel é clássica: vai da depreciação do dólar – que facilitou ao extremo a vida dos importadores – à excessiva carga tributária, do alto custo dos encargos trabalhistas à taxa de juros e ao ônus decorrente da precariedade da infraestrutura do país. Todos esses fatores teriam esvaziado em parte os efeitos do aumento das alíquotas de importação de confecções de 20% para 35% e de tecidos de 18% para 26%, fruto de antiga reivindicação do setor e adotado no final de 2007.

“É uma barreira insuficiente para deter produtos fabricados por uma indústria que pratica diversas formas de dumping comercial, cambial, social e ecológico”, afirma o dirigente empresarial. E, realmente, o que fazer para conter a voraz e pouco gastadora China? De acordo com estimativa da Abit, o custo da mão de obra brasileira é 367% superior ao da chinesa. Além disso, os gastos com encargos financeiros são 292% maiores e as despesas com depreciação de imóveis e maquinário (tabeladas pelo governo e empregadas para dedução no imposto de renda) são 68% mais elevadas no Brasil.

Somadas ao câmbio artificialmente desvalorizado naquele país, essas vantagens chinesas fazem com que a diferença de preços no mercado brasileiro chegue, por exemplo, a 133% no vestuário de malha, a 56% no tecido de malha, a 93% em calças jeans e a 30% no tecido denim. Enquanto o Brasil importa vestuário da China a US$ 13,63 o quilo, compra de outros países a US$ 19,73. Os chineses vendem, enfim, por um preço 30,91% menor.

“Esses percentuais têm de ser levados em conta”, destaca Pimentel. “Precisamos de melhores condições de trabalho para enfrentar de maneira isonômica todas essas variedades de dumping, que tornam a concorrência estrangeira mais competitiva de maneira injusta.”

Pimentel acrescenta que o “cenário de invasão” se mostra ainda mais grave quando se constata quanto a indústria têxtil brasileira é dependente do mercado interno. De fato, com um imenso e protegido mercado à disposição até os anos 1990, o Brasil, embora situado entre os dez maiores produtores têxteis do mundo, apresenta ainda o insignificante índice de 0,2% do comércio mundial do produto, apesar dos esforços do governo e das entidades do setor para reverter esse quadro.

O Programa Estratégico da Cadeia Têxtil Brasileira (Texbrasil), liderado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) em parceria com a Abit, está, por exemplo, tentando capacitar uma legião de empresas pequenas e médias dos mais variados nichos a participar do mercado externo – elas são, por enquanto, apenas pouco mais de mil no âmbito do programa. “Estamos focando principalmente mercados que descobrimos apreciarem a moda brasileira, como os de alguns países do Oriente Médio”, diz Maurício Borges, diretor de negócios da Apex. “Certamente conseguiremos cumprir a meta de exportar US$ 572 milhões em 2010.”

Descompasso

Diga-se que há ainda outro fator a complicar a situação da indústria brasileira, reconhecido com preocupação pelos empresários e cuja origem nada tem a ver com a China, já que é genuinamente nacional. Pelo menos desde meados da década de 1990, a produção local de têxteis tem sido insuficiente para atender as necessidades internas de consumo, que cresceram com a estabilização da moeda na esteira do Plano Real – de passagem, isso explica o porquê de o Brasil também exportar tão pouco. No período entre 1995 e 2008, a renda média per capita do brasileiro elevou-se em nada menos que 22,6%, índice maior que o próprio crescimento populacional, que foi de 19,3%.

O descompasso entre produção e consumo abriu caminho para o avanço dos produtos importados – na verdade, uma avenida, que vem se alargando. Segundo o relatório “Brasil Têxtil 2009”, preparado pelo Instituto de Estudos e Marketing Industrial (Iemi), a produção brasileira do setor por habitante, em 1995, foi de 8,3 quilos, e o consumo, de 8,7 quilos – uma defasagem ainda relativamente pequena. Só que, desde então, essa diferença nunca mais parou de crescer. Em 2008, a relação já tinha alcançado 9,6 quilos produzidos para 12,7 quilos consumidos.

Ou seja, enquanto a produção por habitante cresceu 15,7%, o consumo se elevou 46% em pouco mais de uma década. Essa diferença significa não só que parte do consumo foi suprida pelas importações, como também que, sem a presença delas – como acontecia antes da abertura da economia, no começo dos anos 1990, quando a importação se resumia a poucos artigos de luxo e a um ou outro insumo ou matéria-prima –, muitos brasileiros teriam, hoje, de dar um jeito de fazer roupas em casa para se vestir.

“A triste verdade é que a indústria têxtil brasileira perdeu, há tempos, a capacidade de acompanhar o crescimento da demanda”, afirma Sylvio Mandel, presidente da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abeim). “E isso não apenas no que diz respeito à quantidade global. Há segmentos que hoje mal são atendidos, como os de malharia sintética, de jaquetas de náilon e poliéster e de roupas de inverno em geral.”

Segundo Mandel, os segmentos em que o Brasil continua relativamente competitivo são, por exemplo, o de confeccionados de algodão, como jeans e camisetas –em que predomina a gigante catarinense Hering –, e os de malhas de lã e de tricô cashmere, com grande produção em cidades serranas de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A indústria nacional responde também por parte significativa das vendas de tecidos de algodão puro e de artigos de cama, mesa e banho (a mineira Coteminas até já comprou empresas no exterior) e pontifica em roupas de verão, como bermudas e assemelhados.

Ou seja, o país ainda vai bem nos segmentos que produzem a partir de fibras naturais, certamente por ser hoje mais do que autossuficiente na produção de denim e de algodão (nesse caso, depois de ter perdido essa posição na virada dos anos 2000) e estar bem situado na produção de lã natural, da qual, aliás, não necessita muito, por razões climáticas. Em contrapartida, patina nos segmentos que utilizam preferencialmente fibras sintéticas, cuja produção pelas indústrias de base é ainda pequena ou mesmo inexistente em algumas modalidades, além de obviamente mais cara que a chinesa, por exemplo.

O Brasil também se tornou razoavelmente competitivo na indústria de grifes, com marcas como Marisol, Poko Pano, Iodice e a própria Hering, dentre outras, competindo com expoentes do setor têxtil mundial em seus próprios e exclusivos territórios.

A ironia nessa história toda é que a indústria têxtil brasileira se preparou como poucas para enfrentar os rigores da globalização. Já prevendo o pior, entre 1990 e 2008 investiu, por exemplo, US$ 13 bilhões apenas na aquisição de máquinas e equipamentos, muitos deles importados de centros produtores de ponta, como França, Itália e Alemanha – o que contribuiu, por tabela, para a estagnação da pequena indústria brasileira que atendia esse setor.

Os sistemas de produção foram atualizados nas empresas dotadas de capital, laboratórios modernos foram implantados em universidades e em institutos de pesquisa – alguns deles capazes de lidar até com nanotecnologia para o desenvolvimento de fios especiais – e novos polos fabris surgiram através do país, de modo a baratear os custos de fabricação e aproximar os produtores do conjunto de consumidores.

Centrado basicamente na fabricação de fios, em que já tinha tradição, mas não volume e tecnologia, o nordeste, por exemplo, responde hoje por 20,6% dos têxteis brasileiros. A maior região produtora continua sendo o sudeste, com 46,1%, seguido pela região sul, com 29,5%.

Um grande esforço também foi despendido na atualização e mesmo na criação de novas tendências em tecidos e vestuário, com ênfase no desenvolvimento de design próprio. Ao mesmo tempo, cursos de todos os tipos se multiplicaram pelo país para atender tanto os setores de engenharia e produção têxtil como o de moda propriamente dito. Apenas o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de São Paulo mantém 72 cursos ligados à área de moda, nas mais diferentes especializações.

Porém, se todos esses investimentos bastaram para elevar a qualidade média dos artigos têxteis brasileiros, não foram suficientes para aumentar o volume de produção, pelo menos até um nível que permitisse manter a uma distância um pouco mais segura os fabricantes estrangeiros. E a razão é um segredo de polichinelo para o pessoal do setor.

O Brasil é ainda um dos pouquíssimos países do mundo a manter uma cadeia produtiva têxtil rigorosamente completa, que vai do fornecimento de algodão, lã e couro e da fabricação de fios e fibras sintéticas ao processamento em tecelagens, malharias e estamparias, além de incluir um poderoso segmento de moda e varejista – conjunto do qual as nações desenvolvidas abriram mão há décadas. O ramo confeccionista – o mais estratégico de todos depois da indústria de marcas – apresenta, no entanto, uma escala de produção pequena e para lá de fragmentada, devido ao fato de 96% das empresas serem de pequeno e médio porte, com até 99 empregados.

Trata-se de uma herança do passado protecionista e que explica o número assombroso de indústrias têxteis em atividade no Brasil, 28,8 mil. Dessas, nada menos que 24,3 mil pertencem ao setor de confecção. Se essa profusão de empresas fez do país o sexto maior produtor têxtil do planeta, e do segmento confeccionista propriamente dito o segundo maior empregador da indústria de transformação brasileira, responsável por 18,6% do Produto Interno Bruto (PIB), pouco está ajudando o país a se afirmar como realmente competitivo nesse setor, agora que ele precisa desesperadamente disso.

De fato, boa parte das confecções não tem capital para a renovação de maquinário e a contratação de mão de obra qualificada (ou que ao menos seja formal) e vegeta num sistema de produção ainda bastante rudimentar. E constitui, na verdade, o gargalo de demanda para maiores investimentos nos elos anteriores e posteriores da cadeia produtiva, como a produção de fios ou de tecidos e a indústria do design.

Pior: por causa de sua pouca exigência no que tange à qualidade, as confecções se tornaram o sustentáculo da espécie de autofagia que também tomou conta do setor têxtil brasileiro, depois que este decidiu, por meio da mão invisível do mercado, mas com uma boa ajuda de benefícios fiscais, espraiar-se pelo país, quase sempre com poucos investimentos em tecnologia e focando principalmente a redução de custos em troca do aumento da empregabilidade local.

“Como se não bastassem as importações chinesas, temos de lutar internamente com outros estados. São Paulo não pode continuar vendo empregos e riquezas migrarem para outros lugares desse jeito”, esbraveja Ronald Masijah, presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário do Estado de São Paulo (SindiVestuário), segundo o qual o estado já perdeu 20% de participação no mercado nos últimos anos por conta dessa guerra fiscal. Ele quer que o governo paulista pague na mesma moeda, reduzindo também os impostos para o setor – uma medida que, obviamente, só serviria para aprofundar a briga.

Potencial pouco explorado

Para muitos especialistas na área têxtil, a única chance de o Brasil não acabar devorado pela concorrência chinesa e manter mais ou menos intacta sua cadeia produtiva – grande geradora de empregos –, arriscando-se também um pouco mais na exportação, é tentar incorporar a expertise que já conseguiu no segmento de moda e design à indústria propriamente dita.

De fato, o país hoje já é um competitivo peso médio na indústria planetária da moda, do que um evento badalado como a São Paulo Fashion Week, realizada duas vezes por ano, é apenas um exemplo. Na versão Inverno 2010 – que, para efeito de mercado, é promovida no verão –, dezenas de estilistas brasileiros apresentaram suas coleções para um público proveniente de diversas partes do mundo. Festivais de moda similares (embora, naturalmente, bem menos concorridos) já acontecem também no país inteiro.

“O Brasil tem uma forte indústria de estilo, centros de pesquisa, um parque produtivo imenso e relativamente bem distribuído, além de identidades regionais que poderiam ser mais bem exploradas. Se conseguirmos juntar tudo isso, seremos muito mais competitivos”, afirma Giuliano Donini, presidente da catarinense Marisol e um dos principais expoentes do fórum Santa Catarina Moda Contemporânea, cujo objetivo é o desenvolvimento do setor têxtil naquele estado.

Uma vantagem comparativa do Brasil é a enormidade de cursos na área têxtil e de moda que surgiram nos últimos anos, e em praticamente todas as cidades mais importantes. Eles têm formado milhares de especialistas em áreas tão distintas como estilo e design, modelagem, marketing e negócios ou engenharia de produto.

“A formação profissional é fundamental para a profissionalização e para o crescimento do setor, além de ser reflexo do amadurecimento do mercado têxtil e de moda brasileiro”, diz Tatiana Putti, coordenadora de desenvolvimento da área de moda do Senac São Paulo. “Esses cursos serão cada vez mais essenciais para a difusão de conteúdos que atendam a indústria têxtil e de confecção, criando novos horizontes para ela.”

Revista Problemas Brasileiros

O boi brasileiro é imbatível

O boi brasileiro é imbatível

Rebanho bovino do país bate recordes de produção e de vendas externas

NILZA BELLINI

Foto: Nilza Bellini

Com um rebanho de quase 200 milhões de cabeças e faturamento de mais de US$ 28 bilhões por ano, a bovinocultura representa a maior fatia do pujante agronegócio brasileiro, além de responder por cerca de 7,5 milhões de empregos. No ano passado, em função da restrição ao crédito e da queda no consumo, ainda reflexos da crise econômica que teve início em 2008, houve redução de exportações de carne in natura de 23% (de US$ 5,3 bilhões para US$ 4,1 bilhões). Passado esse período difícil, no entanto, a retomada do comércio mundial da carne brasileira já vem ocorrendo, como mostram os resultados dos dois primeiros meses deste ano.

A receita das exportações do setor em fevereiro de 2010 foi de US$ 973 milhões, o que representou um aumento de 24,5% em relação ao mesmo mês de 2009 (US$ 781 milhões). “Isso é reflexo da demanda antes reprimida sobretudo de dois países, o Irã e a Rússia”, diz Otávio Hermont Cançado, diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). “O Irã é o segundo maior importador de carne bovina in natura do Brasil e paga melhor que o primeiro, a Rússia”, explica. “A demanda iraniana no primeiro bimestre do ano elevou-se em 216% sobre os valores faturados no mesmo período do ano anterior, e a da Rússia subiu 35%”. Para o final de 2010, a Abiec prevê um crescimento total de 10% a 15% na receita das exportações.

Ao mesmo tempo, a cadeia produtiva do couro, que abrange os setores de curtumes e calçados, gera mais de 500 mil empregos e movimenta receita superior a US$ 21 bilhões por ano. As exportações brasileiras de couros somaram US$ 234 milhões nos dois primeiros meses deste ano, registrando crescimento de 59,18% em relação ao mesmo período de 2009. O cálculo é do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), com base na prévia da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Em fevereiro, os embarques foram de US$ 130 milhões, representando um aumento da ordem de 75,68%, ante o mesmo mês do ano passado e de 25% em relação a janeiro de 2010.

A demanda pela carne brasileira, que mantém o país no primeiro lugar entre os exportadores mundiais, não decorre, apenas, da retomada da economia. Nesta última década, a pecuária deixou de ser uma atividade defasada tecnologicamente para incorporar modernizações em todos os seus aspectos: da seleção genética das matrizes até as metodologias de recuperação de pastos e desenvolvimento sustentável, do combate às doenças como a febre aftosa até sistemas de rastreabilidade capazes de garantir o controle total sobre a história do animal destinado à exportação.“Tudo caminha para tornar a carne brasileira um produto destacado, com valor agregado, e não simples commodity”, diz Lygia Maria Pimentel, veterinária e consultora de mercado da Scot Consultoria, empresa de coleta e análise de informações de mercado para o campo.

Lygia observa, porém, que o caminho a percorrer ainda é longo. Atualmente, o Brasil cria 1,16 cabeça de gado por hectare de pasto, o que é pouco quando se leva em conta a tecnologia disponível para o campo. Mesmo assim, esses números colocam a média nacional bem acima da mundial, que é de 0,4 cabeça por hectare. “Somos exemplo para outros países, mas quando as práticas de manejo já disponíveis forem realmente adotadas será possível quase quadruplicar a produção”, afirma ela.

Vale lembrar que a criação de gado no Brasil é, sobretudo, de pasto. O confinamento, sistema em que os bovinos ficam fechados em piquetes ou currais e os alimentos e a água são fornecidos em cochos, é usado apenas na fase de produção que antecede o abate, o que corresponde, em geral, a 8% da vida do animal, ou seja, 75 dias dos 30 meses que ele vive em média. Essa modalidade é usada na época seca do ano e exige investimentos e logística, uma vez que a produção regional dos grãos que servirão de alimento e os frigoríficos com abatedouro que adquirirão o gado precisam estar situados a razoável proximidade da fazenda, para que haja compensação econômica.

A notoriedade do gado brasileiro tem provocado reação dos concorrentes, o que muitas vezes prejudica nosso comércio externo. Nenhum outro país, porém, tem quantidade ou preços mais competitivos que o Brasil, que apresenta ainda um grande potencial de expansão. A China, embora disponha de uma grande área territorial e um dos consumos mais baixos do mundo, não tem recursos hídricos para intensificar a exploração da pecuária e promete tornar-se um forte cliente brasileiro. A Europa enfrenta problemas de espaço e luminosidade. Produtores menores, como a Irlanda, fazem eventualmente pressão contra a importação de carne brasileira, como aconteceu no final de 2007, quando nossas vendas para a Europa foram embargadas durante algum tempo.

Sustentabilidade nos pampas

A pecuária evoluiu nesta década graças à tecnologia desenvolvida pela iniciativa privada e, principalmente, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que desde sua criação, em 1973, estuda o segmento. Hoje, o rebanho nacional de gado de corte é de aproximadamente 137,5 milhões de cabeças. Porém, ainda há arestas a aparar. Para toda a cadeia produtiva da carne se organizar eficientemente no Brasil, é necessário não só implementar uma forte política de incentivo ao pecuarista e à indústria como estimular ainda mais a pesquisa científica.

No sul do país, em particular no Rio Grande do Sul, a pecuária sempre foi feita sobre pastagens naturais, num ecossistema único no planeta, com uma extensa diversidade vegetal, que recebe em nosso país o nome de bioma pampa e é responsável pela alimentação de cerca de 90% do rebanho de produção de carne daquele estado. São campos que se estendem para além das divisas territoriais, até a Argentina e o Uruguai. Nenhum dos três países, até recentemente, deu importância a um manejo correto do meio e a sua recuperação. Foi a Embrapa Pecuária Sul, unidade da empresa ligada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que iniciou um importante estudo sobre o tema, ainda em desenvolvimento.

Daniel Montardo, chefe adjunto de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Embrapa Pecuária Sul, alerta para o fato de que os pampas não têm o mesmo potencial produtivo das pastagens cultivadas, mas ainda assim permitem a exploração econômica aliada à sustentabilidade, já que não são resultantes de desmatamentos, mas a vegetação original daquela região. Ela persiste durante todo o ano, sem necessidade de semeadura, o que traz vantagens econômicas para o pecuarista, que pode diminuir seus gastos com a alimentação do rebanho. Com manejo adequado, segundo Montardo, é possível reduzir o uso de ração, pelo menos durante os seis meses da “estação quente”, e baratear o custo da criação. No período mais frio, o campo nativo fica crestado pela geada. Para resolver o problema, estuda-se a introdução de espécies de plantas que ofereçam uma concentração de nutrientes adequada. “A ideia é manter a biodiversidade, por meio de manejo correto e preservação do conjunto de espécies existentes, sem grande adubação, mas com a inclusão de outras variedades naturais”, diz ele.

A questão da sustentabilidade se tornou prioridade no Brasil não apenas por consciência ecológica dos agroindustriais brasileiros, mas por pressão externa. Organizações não governamentais eventualmente veiculam na mídia europeia anúncios-denúncia que sugerem evitar o consumo de carne brasileira, de modo a não contribuir (segundo os ativistas) para a derrubada da floresta amazônica. Esse tipo de pressão fez o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) buscar alternativas para evitar a continuidade do desmatamento e a expansão da fronteira pecuária na Amazônia. Desde o ano passado, o agente financeiro adotou novas exigências para concessão de financiamentos aos frigoríficos, que estão obrigados a comprovar sua adesão ao sistema de rastreabilidade.

A vida do gado no computador

O engenheiro agrônomo Márcio Vinícius Ribeiro de Moraes, diretor da Pantanal Certificadora e Identificadora, empresa autorizada pelo Mapa a identificar e certificar bovinos de acordo com as normas impostas pelos importadores para a compra da carne brasileira, explica que nenhum quilo de carne pode ser exportado se o gado correspondente não tiver sido rastreado. Para isso, o bezerro recebe uma espécie de brinco ou button, que é fixado na orelha do animal e contém um código de barras com informações sobre sua origem, sexo, raça e condição sanitária, além da produção e da produtividade das fazendas por onde passou. Por enquanto, cerca de 3 mil propriedades pecuaristas realizam esse controle no Brasil, para poder vender bois para a indústria exportadora.

O sistema, chamado Serviço Brasileiro de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (Sisbov), é gerido pelo Mapa. O procedimento exige o credenciamento de um médico veterinário, constantemente avaliado e monitorado pelos auditores do governo federal. É esse profissional que faz as vistorias nas propriedades rurais e as relata ao ministério, para que sejam acrescentadas às informações que constam do código de barras.

Em âmbito mundial, as origens desse sistema remontam a 1995, após o registro de um episódio de intoxicação humana por salmonela na Inglaterra. Em 1999, na Bélgica, cientistas descobriram que a carne bovina estava contaminada com dioxina, uma substância tóxica derivada de processos industriais e que poderia estar na ração que alimenta o gado. Contudo, a gota de água para a implantação da rastreabilidade foi a notícia da contaminação de carne canadense pelo mal da vaca louca, doença provocada sobretudo pela ingestão de ração com restos animais.

No Brasil, esse “passaporte” da carne, que dá garantias quanto ao registro, controle, identificação e inspeção dos animais e seus produtos, vem sendo exigido pelos importadores desde 2000. Aqui o gado é totalmente vegetariano e, portanto, a doença da vaca louca é praticamente impossível. Contudo, dois casos emblemáticos reforçaram essa exigência: em 2005, um foco de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná e, em 2008, a notícia da adulteração de laticínios com soda cáustica, formol e água oxigenada. Além do controle sanitário, os importadores exigem que os animais cujos dados constam do sistema do Sisbov não sejam criados em locais que constem da relação de áreas embargadas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) devido a desmatamento nem da “lista suja” do Ministério do Trabalho e Emprego e que não tenham origem em fazendas condenadas por invasão de terras indígenas, violência agrária ou grilagem de terras. Todos os países da União Europeia, além de Chile, Albânia e Suíça, estabelecem a rastreabilidade para a importação da carne. Outras nações já acenaram com a possibilidade próxima da imposição, como Rússia, Japão, China, Egito e outros.

O controle do desmatamento

A cada ano, 43,1 milhões de cabeças de gado são abatidas no Brasil. A produção anual de carne in natura está estimada em 9,15 milhões de toneladas, e a exportação em 2 milhões de toneladas. O consumo per capita de carne no Brasil é bastante superior ao da União Europeia: 36,7 quilos, enquanto na Europa é de cerca de 17 quilos. Existem 225 milhões de hectares de pastagens espalhados pelo país, 750 indústrias frigoríficas de médio e grande porte, 560 indústrias de curtume e 4,2 mil empresas fabricantes de calçados. A grande maioria dos animais (85%) está livre da febre aftosa. A principal meta das associações de criadores, agora, é reduzir ao mínimo a degradação ambiental na Amazônia.

A pecuária aparece como a principal causa de desmatamento do bioma amazônico, que se espalha por nove estados brasileiros: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão. O engenheiro agrônomo Judson Ferreira Valentim, chefe geral do Centro de Pesquisa Agroflorestal do Acre, da Embrapa, e membro do conselho diretor da Oscip Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, diz que o grande problema da pecuária na Amazônia ainda é o baixo nível tecnológico da atividade na maioria das propriedades.

“De qualquer forma, a situação melhorou bastante nos últimos anos”, diz ele. Em 2009, o Ministério do Meio Ambiente anunciou dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com a menor taxa de desmatamento da Amazônia desde 1988: um recuo de 45% no período de 2008 a 2009, em relação a 2007-2008. “Houve um aumento da eficiência das ações de controle governamentais”, diz Judson. “O governo identificou 36 municípios onde o desmatamento era intenso e os puniu com restrições a financiamento. Além disso, a criação de novas tecnologias, como a eletrificação de cercas por painéis de energia solar, barateou a implantação de sistemas de manejo e rotação do gado.”

Judson observa que 70 milhões de cabeças são criadas na Amazônia em 61 milhões de hectares de pastagens nativas e cultivadas. “Com o uso adequado de tecnologias já validadas pela Embrapa em diferentes condições ambientais, é possível converter os atuais sistemas de produção extensivos em sistemas intensivos capazes de sustentar um crescimento de 175% do rebanho atual de bovinos e outros, sem necessidade de desmatar novas áreas”, afirma ele. “O que se discute, agora, é como pagar melhor o produtor que adotar essas tecnologias”, diz.

A predominância do nelore

No mundo, há aproximadamente mil raças de bovinos, das quais 250 têm alguma relevância. No Brasil, são cerca de 60 as que podem ser exploradas comercialmente. Elas podem ser divididas em três grupos: para produção de leite, de carne ou com dupla aptidão (corte e leite). Com exceção de algumas regiões da Amazônia e do sul do país, a raça mais popular no Brasil é o nelore (ou anelorado, resultante de cruzamento), cujo rebanho, de cerca de 110 milhões de cabeças, corresponde a 80% do total de gado de corte. Da família zebuína, o nelore tem origem indiana e chegou ao país ainda no século 19, pelo porto de Salvador.

André Locateli, gerente executivo da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil, conta que na Índia, onde o boi é sagrado, a raça é chamada de ongole. No Brasil, ficou conhecida como nelore porque as primeiras reses que vieram para cá foram embarcadas num antigo porto indiano que tinha esse nome. Depois, já no início do século 20, algumas cabeças que chegaram ao Rio de Janeiro foram se multiplicando, passando a ser criadas também em São Paulo e Minas Gerais e, em 1938, foi possível dar início ao registro genealógico da raça no Brasil. As últimas importações de reprodutores de nelore da Índia aconteceram no começo da década de 1960. A partir daí foram proibidas pelo governo, por razões sanitárias.

Como tem pelo curto e grosso, o nelore resiste bem ao calor e aos parasitas. Além disso, consegue extrair muitos nutrientes de capins grosseiros, pouco atraentes para outras raças, como as europeias. As fêmeas são excelentes mães e, por sua rusticidade, são a base para cruzamento com todas as variedades criadas no Brasil. Locateli explica que o nelore tem uma fisiologia diferente do gado europeu: sua gordura fica embaixo da pele, restrita à área externa ao músculo, enquanto nas raças europeias a gordura é intramuscular, o que contribui para maior maciez da carne. Durante muito tempo essa característica fez o nelore ser menos valorizado, mas hoje, com técnicas de melhoramento genético e mudança de hábitos alimentares, sua carne magra tornou-se bastante prestigiada e é exportada para quase 150 países.

A novidade entre os criadores, agora, é a compra de embriões, já autorizada pelo governo, que permitirá um “refrescamento” do sangue e o surgimento de uma linhagem genética nova de nelore, segundo informa Locateli. Essa medida deverá ampliar o percentual de venda de sêmen de nelore para inseminação, que, em 2009, correspondeu a 51% desse mercado. Em segundo lugar, com 25%, ficou a venda de sêmen de angus (e de red angus), raça europeia originária do norte da Escócia. Por enquanto, a angus é a mais testada. Em cruzamentos com nelores nascem reses que podem ser abatidas jovens – uma exigência do mercado moderno.

O fato é que a complexidade desse setor, em todos os seus aspectos, exige cada vez mais da cadeia produtiva e dos cientistas brasileiros. O improviso foi abandonado de vez e em seu lugar o que se vê é o requinte e a sofisticação técnica. E, com essas vantagens competitivas, o país caminha para se tornar imbatível no mercado mundial.

Leite também é exportado

O leite é um dos mais importantes alimentos para a nutrição humana. Segundo cálculos da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, na sigla em inglês), serão produzidos no mundo, em 2010, cerca de 578 bilhões de litros. A Confederação Brasileira de Cooperativas de Laticínios (CBCL) estima que, desse montante, 28,6 bilhões serão ordenhados no Brasil, o que coloca nosso país no sexto lugar entre os maiores produtores globais.

Vicente Nogueira Netto, diretor da CBCL e presidente da Federação Pan-Americana de Leite, explica que o setor foi beneficiado por recentes medidas do governo relativas às compras externas, que incluíram, entre outras, a adoção de mecanismos de proteção aceitos pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Em 2008, o Brasil alcançou um saldo positivo de US$ 300 milhões – foram US$ 540 milhões em exportações, invertendo a tendência anterior. “Em 2009 voltamos a ter déficit, mas posso afirmar que essa foi apenas uma eventualidade”, diz Nogueira Netto, creditando os problemas à crise mundial. “Avançamos bastante em termos de qualidade, tanto da genética bovina quanto de outros elos da cadeia produtiva”, afirma ele.

Cerca de 80% do leite brasileiro vem da agricultura familiar, que, atualmente, mantém estrutura para resfriar o produto imediatamente após a ordenha. O manejo é também um dos principais fatores para explicar o aumento da produção, uma vez que o leite, por ser altamente perecível, já não se perde na etapa do transporte.

O crescimento do número de indústrias de derivados lácteos e o aprimoramento de suas atividades influenciaram decisivamente esse processo. Sob fiscalização rigorosa dos órgãos de controle de higiene alimentar, a cadeia produtiva brasileira exporta mais de 40 tipos de queijos, iogurtes e outros lácteos.

A melhoria na qualidade de vida do brasileiro é outro fator que deve ser levado em conta. No início desta década, o consumo per capita no país não ultrapassava 98 litros. Hoje, atinge 148 litros por habitante/ano, um índice considerado razoável, embora a recomendação da Organização Mundial da Saúde para países em desenvolvimento seja de 200 litros por ano.

O gado nelore não é adequado para a produção de leite. As principais raças leiteiras exploradas no Brasil são as que provêm de gado mestiço holandês-gir (cerca de 70% da produção).

Revista Problemas Brasileiros

quarta-feira, 16 de junho de 2010

As lições do abismo

A extração de petróleo no mar nunca mais será a mesma, apesar do aparente sucesso da última e desesperada tentativa de deter o vazamento no Golfo do México. E isso vale também para o pré-sal brasileiro

Alexandre Salvador e Nataly Costa


Daniel Beltra/Reuters

Petróleo no mar
Navio atravessa a superfície coberta de óleo no Golfo do México: solução extrema para estancar
a sangria a 1 500 metros de profundidade

A exploração de petróleo no fundo do mar nunca mais será a mesma depois do desastre na plataforma de extração Deepwater Horizon, no Golfo do México. Desde a explosão inicial, no dia 20 de abril, o mundo se viu diante de uma situação inédita: um vazamento submarino sem solução. Tudo parecia dar errado com a Deepwater Horizon, situada a 60 quilômetros da costa do estado americano da Louisiana. Primeiro, a válvula que deveria controlar o fluxo de petróleo falhou, causando a explosão e o rompimento das tubulações no solo do oceano. Todas as tentativas de conter o vazamento fracassaram. Experimentou-se tapar as rachaduras nos canos com a ajuda de robôs submarinos. Não funcionou. Depois, instalou-se uma cúpula de contenção para sugar o petróleo que escapava dos canos. Também não deu certo. Só na madrugada de sexta-feira passada se conseguiu conter a sangria de petróleo no oceano, com uma técnica chamada top kill, que consiste em introduzir um tipo de lama especial nas tubulações (veja o quadro). Mesmo assim, seria preciso esperar até domingo para ter certeza do sucesso dessa última e desesperada tentativa. O saldo da tragédia até agora foram o vazamento de 148 milhões de litros de petróleo, quantidade equivalente a um terço do consumo diário do Brasil, e uma séria questão para o futuro: como mudar as operações para tirar petróleo do fundo do mar sob a luz das lições científicas, empresariais, legais, políticas e ambientais extraídas do desastre na Deepwater Horizon.

A exploração de petróleo em profundidade oceânica superior a 1 000 metros, chamada de prospecção em águas profundas, ocorre em larga escala há apenas duas décadas. Hoje, 6% do petróleo produzido no mundo provém de poços com essas características e estima-se que essa porcentagem dobre nos próximos vinte anos. Ou, pelo menos, era a essa a previsão até o vazamento no Golfo do México. Embora a plataforma Deepwater Horizon fosse uma das mais avançadas do ponto de vista tecnológico, engenheiros e técnicos não foram capazes de impedir que a explosão inicial se convertesse no pior desastre desse tipo já ocorrido nos Estados Unidos. A falha da válvula de segurança da plataforma e os repetidos fiascos nas tentativas de estancar o vazamento de petróleo mostram que a prospecção em alto-mar é uma empreitada que envolve riscos elevados demais para quem trabalha na operação e também para o ambiente.

Os desdobramentos políticos e legais do desastre do Golfo nos Estados Unidos dão indícios do que pode ocorrer com a exploração submarina de petróleo daqui para a frente. Semanas antes da explosão da Deepwater Horizon, o presidente americano Barack Obama havia proposto a ampliação da prospecção em águas profundas como forma de atender ao aumento crescente da demanda por energia no país, sem depender do fornecimento externo, cuja maior parte está em mãos de figuras indignas de confiança, como o venezuelano Hugo Chávez. Os Estados Unidos são o país que mais consome petróleo – mais de 3 bilhões de litros por dia. Na quinta-feira passada, numa reviravolta, Obama suspendeu a perfuração de 33 poços no Golfo do México e dois no Alasca. Ele também vetou novas permissões de perfuração nos próximos seis meses – a exploração pela Petrobras de dois campos no Golfo do México, Cascade e Chinook, está vetada. A questão em aberto é como foi possível a sequência de erros no acidente do Golfo do México. O governo espera que neste período seja possível estabelecer novos procedimentos de segurança para evitar tragédias desse tipo.

Na sexta-feira, Obama visitou a região do desastre pela segunda vez e assumiu total responsabilidade pela recuperação da área afetada. O discurso penitente não chegou a ser um alívio para o presidente americano. Em pesquisas realizadas na semana passada, 45% dos entrevistados desaprovaram as medidas adotadas. A oposição republicana já chama o desastre do Golfo do México de "o Katrina de Obama". Em 2005, a demora no socorro às vítimas do furacão Katrina, que devastou a cidade de Nova Orleans, também na Louisiana, estraçalhou a imagem do então presidente George W. Bush. Se depender do Congresso dos EUA, as consequências legais que recairão sobre as empresas responsáveis por acidentes que causam vazamentos de petróleo levarão esse tipo de delito a um patamar infinitamente mais alto. As três empresas envolvidas no acidente do Golfo do México – a British Petroleum, que detinha os direitos da exploração do campo, a Transocean, dona da plataforma, e a empreiteira Halliburton – poderão pagar uma multa de 75 milhões de dólares. Na semana passada, os senadores americanos anunciaram que querem propor o aumento da multa para 10 bilhões de dólares.

O Brasil, obrigatoriamente, terá de prestar atenção nas lições do desastre no Golfo do México. O país extrai do oceano 90% do petróleo que produz. São 826 poços marítimos, 200 deles em águas profundas. A exploração e o transporte de petróleo já provocaram vários acidentes no litoral brasileiro. Em 2000, um vazamento na refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, espalhou 1,3 milhão de litros por 50 quilômetros quadrados na Baía de Guanabara. Em 1984, um incêndio causado por vazamento de gás na plataforma de Enchova, na Bacia de Campos, resultou na morte de 37 pessoas. Também na Bacia de Campos, em 2001, a explosão da plataforma P-36 matou onze pessoas. Diz Wilson Iramina, do departamento de engenharia de minas e de petróleo da Universidade de São Paulo: "É preciso que haja bom senso da Agência Nacional de Petróleo, da Petrobras e de todas as operadoras para fixar regras de segurança que evitem ao máximo acidentes como o do Golfo. Um bom início seria que esses órgãos estabelecessem um acordo de responsabilidade para, em caso de acidente, não ficar um empurrando a culpa para o outro".

Os desafios tecnológicos e relativos à segurança se tornarão exponencialmente maiores no Brasil quando começar a exploração comercial do petróleo localizado na camada pré-sal do oceano. Nunca se extraiu petróleo de uma profundidade tão grande. Para chegarem ao reservatório de petróleo, os dutos e as sondas de perfuração precisarão atravessar 2 quilômetros de oceano (média de profundidade da água na Bacia de Santos), 1 quilômetro de rocha (camada pós-sal) e mais 2 quilômetros da camada de sal, até chegar, então, ao pré-sal. A temperatura onde se localiza a camada pré-sal pode atingir 100 graus. O calor, aliado à alta pressão, faz com que as propriedades das rochas se alterem, amolecendo-as. Isso dificulta a perfuração porque, se o poço não for revestido de concreto rapidamente, ele se fechará. A grande vantagem do petróleo do pré-sal é ser do tipo leve, assim como o do Oriente Médio. O petróleo extraído atualmente no Brasil, bem como o da Venezuela, é do tipo pesado, de menor valor de mercado. Prestes a entrar na era do pré-sal, é preciso que o Brasil se posicione também na era pós-vazamento no Golfo do México.


Reuters

Em tempo real
Uma câmera operada pela BP permitiu que as tentativas de selar o poço de petróleo fossem acompanhadas ao vivo pela internet. Na imagem, um braço robótico é usado para controlar jatos de lama que escapam da tubulação


Paul Bock/Latinstock


O banho do pelicano
Veterinários limpam o petróleo grudado nas penas do pelicano. A ave-símbolo do estado da Louisiana, o mais atingido pelo vazamento, tinha saído da lista de animais ameaçados de extinção sete meses atrás. O acidente deixa seu futuro incerto

Com reportagem de Laura Ming

Vitória da natureza
O vazamento de petróleo no mar é um dos mais frequentes – e também um dos piores – desastres ambientais de nossos dias. Na relação das tragédias dos anos 80, o derramamento de óleo no Alasca pelo petroleiro Exxon Valdez é equiparado à explosão do reator nuclear de Chernobyl. O acidente matou 250 000 aves e mamíferos, segundo uma estimativa que não incluiu peixes nem outras criaturas das profundezas. Quando o petróleo se espalha pela superfície da água, 30% dele se evapora naturalmente em dois dias. Nesse meio-tempo, o material restante inicia uma cadeia calamitosa de eventos. Na superfície, a massa negra inibe a fotossíntese dos fitoplânctons, organismos microscópicos que são a base da cadeia alimentar marinha. Quando afunda, vai matando algas, peixes, moluscos e corais até cobrir o leito do oceano com uma camada impermeável. O efeito é igualmente devastador se o óleo atinge áreas de mangue, que são os berçários da vida no mar. Quando o petroleiro Aegean Sea espalhou 72 milhões de litros de petróleo no norte da Espanha, a pesca na costa mais rica em frutos do mar do país ficou suspensa por um ano.

Os estragos, felizmente, não são permanentes. Em dez ou quinze anos, a natureza encarrega-se de restabelecer o equilíbrio ecológico perturbado pelo vazamento. Os primeiros organismos a proliferar são bactérias que vivem da decomposição do petróleo. À medida que esses microrganismos limpam a água, a cadeia alimentar é refeita. Retornam os fitoplânctons, os peixes, as aves e, por fim, os mamíferos, como botos e baleias. Vestígios dos 40 milhões de litros de petróleo derramados pelo acidente do Exxon Valdez no mar do Alasca, em 1989, só podem hoje ser detectados em análises com aparelhos científicos. No fim, a vida triunfou.


Poluição na neve
Equipe de resgate recolhe lontras mortas pelo petróleo vazado do petroleiro Exxon Valdez no Alasca, em 1989. Vinte anos depois, a recuperação ambiental é completa


AFP

A pesca arruinada
Em 1992, as águas estavam sujas de petróleo na costa da Espanha devido a um desastre com petroleiro. O litoral da região hoje é o mais rico do país em frutos do mar


Revista Veja

sábado, 5 de junho de 2010

Ascensão e queda do ouro branco: uma tragédia africana

Colheita do algodão, uma das raras matérias-primas renováveis em que os países africanos são competitivos no preço e na qualidade


A fraca diversificação das economias dos petro-Estados africanos teve consequências sociais dramáticas. Vitimou em primeiro lugar os seus próprios camponeses e comprometeu o futuro dos países vizinhos, não produtores, com prejuízo da sua segurança alimentar. Como «não consomem o que produzem e não produzem o que consomem » os países africanos tornaram-se dependentes das flutuações dos mercados mundiais e de factores conjunturais que perturbam o comércio regional.
Um dos casos mais paradigmáticos é o do algodão produzido pelos países da África ocidental e central, na retaguarda dos países do Golfo, com destaque para o Benim, Burkina Faso, Chade, Mali e Níger.
O algodão é uma das poucas matérias-primas renováveis em que os africanos são altamente competitivos em preço e qualidade. Pobres e pesadamente endividados, os países africanos produtores de algodão tiveram de se sujeitar às pressões do FMI e do Banco Mundial para privatizar e liberalizar o filão, desmantelando as empresas públicas que se encarregavam de comprar as colheitas a preços fixados pelo Governo e de fornecer sementes, adubos e apoios técnicos aos camponeses.
Tudo parecia correr de feição: a produção crescia e o ouro branco abria perspectivas de vida melhor para cerca de 20 milhões de camponeses e famílias. Não sabiam e não lhes explicaram que na economia globalizada são os maiores exportadores que fixam os preços para todos. No caso do algodão são os EUA, responsáveis por 37 por cento das exportações, à frente dos grandes produtores: Índia, Paquistão e Brasil.
Os produtores africanos de algodão puxaram o sinal de alarme e apresentaram uma queixa na Organização Mundial de Comércio (OMC) contra as (enormes) subvenções norte-americanas aos seus produtores e exportadores, responsáveis
pela queda dos preços. Na cimeira da OMC de Cancun reclamaram cláusulas de salvaguarda e mecanismos de compensação. Foram apoiados pela maioria dos países africanos membros da organização, mas «traídos » pelos grandes produtores do Sul, acérrimos defensores da liberalização e desregulação dos mercados agrícolas. A cimeira fracassou. Em 2005, o preço mundial do algodão tinha caído abaixo dos 55 cêntimos de dólar/libra; a este preço, os produtores africanos perdem dinheiro e são obrigados a reduzir as superfícies cultivadas. Os grandes produtores brasileiros e asiáticos ainda conseguem «aguentar» mesmo com margens reduzidas graças à economia de escala e à tecnologia biocrática.
Felizmente, há a China. É ela que absorve actualmente 60 por cento da produção africana. E com Pequim há sempre a possibilidade de negociar «esquemas» mutuamente vantajosos.
É evidente para a maioria dos analistas que a solução mais favorável para os países africanos passaria pela transformação in loco da matéria-prima em produtos acabados.
A indústria têxtil não requer grandes investimentos nem mão-de-obra altamente qualificada para gerar numerosos empregos. Contudo, os mercados nacionais africanos são demasiado exíguos e para sustentar uma indústria manufactureira economicamente viável seria necessário criar zonas de livre-câmbio e incentivar o comércio inter-regional. Alguns países africanos estavam a conseguir resultados encorajadores quando foram brutalmente interrompidos com a invasão dos mercados africanos pelos produtos chineses!
Como se disse, a China está aberta a todo o tipo de acordos mutuamente vantajosos. Poderia aceitar reduzir as suas exportações de têxteis para África em troca de contratos e concessões noutros sectores. Mas para tal era preciso que existisse uma indústria têxtil africana para proteger e isto depende em primeiro lugar da visão estratégica e da vontade política dos Governos e dos agentes económicos africanos.

Revista África 21

Etiópia

Lalibela Igreja
Fotografia de Philippe Bourseiller Image Bank

A cidade de Lalibela, na Etiópia do sul é conhecido por 12 igrejas cristãs que foram cavadas em pedra sólida cerca de 800 anos atrás. O mais impressionante é Bieta Giyorgis, mostrado aqui, um monólito maciço de 40 pés (12 metros) de altura, esculpida e moldada como uma cruz.

Cabanas, Yabēlo
Fotografia por Andrew Geiger / Banco de Imagem

Um homem está perto dos barracos de sua tribo em Yabēlo, uma cidade quase na fronteira com o Quénia. A maioria dos etíopes residem em terras altas do oeste do país, e sua população é quase igualmente dividida entre cristãos, que vivem nas terras altas, e os muçulmanos que habitam as terras baixas. O Oromo, Amhara e Tigreans são os maiores grupos étnicos.


Danakil Depressão, Etiópia
Fotografia por Peter Carsten / National Geographic

Discos de travertino, um depósito rico em cálcio, um anel de primavera quente na Depressão de Danakil, Etiópia . Membros da tribo Afar extrai água a partir desta paisagem agreste, construindo torres de pedra pequena sobre as saídas de energia geotérmica. O vapor se condensa, e a água corre para um reservatório. Quando esfria, as mulheres derramá-lo em suas bolsas de pele de cabra.


Hamar Tribeswoman
Fotografia por Benali Remi / Getty Images

Todas as tribos Omo Valley envergam trajes tradicionais e adornos, mas o Hamar, como esta mulher, são de longe os mais elaborados, muitas vezes ostentando vários colares de contas, braçadas de pulseiras de metal e penteados esculpidos.


Agricultores com Camel
Fotografia por Wampler Gaylon, My Shot
Na Etiópia, os animais ajudam a determinar a riqueza e status social

Dallol Volcano
Fotografia por Peter Carsten

Enxofre, sal e outros minerais, a cor da cratera de Dallol, um vulcão no lugar mais quente da Terra, da Etiópia Danakil Depressão. Em 157 pés (48 metros) abaixo do nível do mar, também é Dallol vulcão do mundo mais baixo da Terra.

Fotografia por David Sacks / Getty Images

A maioria dos etíopes são agricultores e pastores. Mas há poucas décadas, o desmatamento, seca e degradação do solo tem causado a perda de colheitas e a fome. Milhões de pessoas enfrentam a fome. Aqui um jovem pastor de fora da capital etíope, Addis Ababa, em busca de sombra de uma árvore enquanto seu gado pasta nas proximidades.


Fotografia por Jodi Cobb Boys / etíope Nacional GeographicPainted
Fotografia por Charles Meacham, My Shot

Muitos membros de tribos no sul da Etiópia ter resistido à tentação de se deslocar para as cidades e abandonar as suas tradições culturais. Aqui, dois meninos tribal pintado para uma espera de cerimônia em um hotel de beira de estrada perto do Vale do Omo.


Fotografia por Jodi Cobb / National Geographic

Entre os membros da tribo Mursi no vale do rio Omo da Etiópia, pratos nos lábios são uma fonte de orgulho e um sinal de força. Quando uma garota atinge 15 ou 16 anos, o lábio inferior é cortado e mantido aberto por um tampão de madeira. Ao longo dos próximos meses, fichas progressivamente maiores são inseridos para esticar o lábio.

National Geographic

sábado, 29 de maio de 2010

Viver no Afeganistão é ruim, mas para as mulheres é ainda pior

Revista Veja - 19 de maio de 2010

Afeganistão - Um inferno para as mulheres

Nascer no Afeganistão não é um bom começo de vida para ninguém. No país que é um dos cinco mais pobres do mundo e o segundo mais corrupto, 70% da população sofre de desnutrição e a expectativa de vida é a mesma de um adulto na Inglaterra da Idade Média: 43 anos. As arcaicidades de origem tribal, acrescidas de três décadas de guerra, deixaram o Afeganistão num tal estado de atraso que Cabul, a capital, só recentemente recebeu seu primeiro semáforo – que poucos viram funcionando, já que ele está quebrado dia sim e o outro também. Na tentativa de controlar o trânsito, policiais gesticulam inutilmente em meio às vias sem faixas, por onde carros velhos trazidos do Japão ziguezagueiam entre mendigos, mutilados e crianças, que vendem de frutas a galinhas.

Thaís Oyama, de Cabul
Fotos de Adam Dean, para VEJA


VIDAS ROUBADAS
Afegãs rezam diante de um túmulo em cemitério de Cabul: sete em cada dez ainda usam burca e mais da metade se casa com homens escolhidos pela família antes dos 16 anos de idade

No caminho do aeroporto para o centro da cidade, as barreiras de soldados armados com anacrônicos fuzis Kalashnikov e os muros de concreto erguidos diante das embaixadas lembram a todo instante que a desgraça está à espreita. Só nos dois primeiros meses do ano, a capital do Afeganistão foi alvo de duas séries de atentados cometidos por homens-bomba, nas quais 21 pessoas morreram. O país foi apontado, no último relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), como o lugar mais perigoso do mundo para gerar uma criança. Mas pior do que vir à luz é nascer mulher no Afeganistão.

Nove anos depois da queda do regime do Talibã, as afegãs continuam pagando a parte mais pesada da conta do fundamentalismo religioso. Nas ruas, a maioria ainda usa a burca, a roupa que cobre o corpo feminino dos pés à cabeça e que era uniforme compulsório no tempo da milícia talibã. Embora as escolas para mulheres não sejam mais proibidas, as estudantes representam uma porcentagem ínfima da população feminina e mais da metade das afegãs ainda se casa antes dos 16 anos de idade – salvo raríssimas exceções, com homens escolhidos por sua família. Sob o totalitarismo medieval do Talibã, as que saíam às ruas desacompanhadas do marido ou de um parente do sexo masculino eram castigadas a chibatadas. Hoje, a proibição não existe mais, mas as afegãs continuam ausentes da paisagem. Para elas, qualquer lugar onde haja aglomeração masculina é considerado impróprio, o que inclui mercados, feiras, cinemas e parques. A segregação sexista faz com que até nos saguões dos aeroportos e nas festas de casamento exista um "setor feminino" – só no primeiro caso não formalmente delimitado. Nas bodas em que as mulheres comparecem maquiadas e com belos vestidos, quase sempre há dois salões – um para eles e outro para elas. Poucas se arriscam a desafiar as proibições sociais. A aplicação de castigos físicos a mulheres de "mau comportamento" continua a ser vista como um dever e um direito da família. Uma pesquisa feita em 2008 com 4 700 afegãs mostrou que 87% já tinham sido vítimas de espancamentos ou abusos sexuais e psicológicos – em 82% dos casos, infligidos por parentes. O Afeganistão livrou-se do jugo do Talibã, mas não conseguiu varrer o obscurantismo religioso que ele ajudou a disseminar. A interpretação radical e misógina dos princípios do Islã é a principal causa da tragédia das mulheres afegãs.

A prática da autoimolação é um dos sinais mais cruéis de sua magnitude. Entre 2008 e 2009, ao menos oitenta afegãs tentaram o suicídio ateando fogo ao corpo. Na província de Herat, a oeste de Cabul, a incidência desse tipo de episódio é tão alta que o principal hospital da região montou uma unidade para atender exclusivamente a casos assim. Quando a reportagem de VEJA visitou o lugar, havia três mulheres internadas por queimaduras autoinfligidas. Todas tinham menos de 26 anos e eram analfabetas. No Afeganistão, apenas 15% das mulheres com mais de 15 anos sabem ler e escrever. Rahime, de 25 anos, deu entrada no hospital com 35% do corpo queimado. Ela disse que tentou se imolar porque "estava cansada de viver". Contou que se casou aos 10 anos de idade e, desde então, engravidou seis vezes (sofreu três abortos espontâneos). A mãe estava com ela no hospital. Indagada sobre as razões que a fizeram permitir que a filha se casasse tão cedo, explicou que, na verdade, não a deu em casamento, mas foi obrigada a vendê-la. O marido era lavrador em uma plantação de ópio e não conseguia sustentar a família, de oito filhos. "Ficávamos três ou quatro noites sem ter o que comer", afirmou ela. Rahime foi entregue a um comerciante da região em troca de 200 000 afeganes, o equivalente a 4 300 dólares, divididos em dez pagamentos. O comerciante, hoje seu marido, é "bem mais velho" do que ela, mas nem a jovem nem a mãe souberam precisar quanto.


"CANSADA DE VIVER"
Rahime, de 25 anos, ateou fogo ao corpo jogando querosene sobre a cabeça.
Ela foi dada em casamento aos 10 anos de idade

Para atear fogo em si próprias, as mulheres costumam recorrer a óleo de cozinha ou ao querosene usado para acender lampiões. Apenas 6% das casas na zona rural do país têm eletricidade. O óleo provoca queimaduras mais graves do que o querosene, porque gruda na pele, o que faz com que o calor permaneça por mais tempo em contato com o corpo. Tanto o óleo quanto o querosene superam a água fervente, já que a fumaça que produzem pode causar, além de intoxicação, queimaduras internas. A maior parte das mulheres que tentam imolar-se não morre na hora, mas depois de alguns dias, vítima de falência de múltiplos órgãos resultante da perda de água. Rahime tinha o rosto e o corpo enfaixados. Ela verteu querosene sobre a cabeça, e não sobre o peito, como ocorre com mais frequência. Enquanto falava, uma policial se aproximou da sua cama para interrogá-la sobre os motivos da tentativa de suicídio. A investigadora Zulaikha Qambari trabalha há três anos no Departamento para Solução de Conflitos Familiares da Delegacia de Herat. Rahime disse a ela que decidiu atear fogo ao corpo porque a sogra passou a maltratá-la desde que o seu marido foi trabalhar no Irã. As duas mulheres deitadas ao lado da jovem também culparam alguém da família pelo ato extremo: uma diz que decidiu se matar depois de apanhar do padrasto do marido e outra afirmou que tomou a decisão por causa de uma briga com a cunhada em torno de um cosmético que havia ganho de presente. A policial Zulaikha afirmou estar habituada a ouvir justificativas como essas. "Algumas mulheres demoram para contar a história inteira, que muitas vezes inclui estupros e espancamentos sistemáticos. Outras nem são capazes de explicar por que fizeram aquilo. Apenas dizem que não querem mais viver." Quando a reportagem se preparava para deixar o hospital, deparou com a chegada de uma quarta vítima. Ruquia, de 15 anos, proveniente da província vizinha de Badghis. Ela apresentava 45% do corpo queimado. A mãe disse aos médicos que a filha havia se acidentado fazendo chá. "Mentira", sussurrou o enfermeiro. "Sinta o cheiro de querosene que exala do corpo dela." A menina estava casada havia um ano.

A quantidade de mulheres que tentam imolar-se no Afeganistão atingiu o auge em 2004, quando só o hospital de Herat recebeu 350. Desde então, o número de vítimas tem-se mantido estável – e surpreendentemente mais alto do que o registrado no tempo em que o Talibã mandava no país. "Naquele período, quase não recebíamos casos como esses", afirma o diretor da unidade de queimados, Hamayoon Azizi, que há doze anos trabalha no hospital. Isso não quer dizer que as mulheres tinham menos motivos para sofrer no passado. Durante os cinco anos em que esteve no poder, o Talibã proibiu-as de trabalhar e de estudar. Instituiu a pena de apedrejamento para adúlteras e baniu qualquer tipo de entretenimento, incluindo cinema, televisão e até a brincadeira de empinar pipas, tradicional no país. A música também foi vetada, e quem fosse achado com uma fita cassete no carro era preso. Para o médico Azizi, o aumento no número de casos de autoimolação em relação àquele período é fruto do contato que muitas afegãs tiveram com o Irã, onde a prática está disseminada há mais tempo. O Irã faz fronteira com a província de Herat e, com o Paquistão, foi escolhido como refúgio por milhões de afegãos que deixaram o seu país no fim dos anos 90. Com a queda do Talibã, esses refugiados começaram a retornar ao Afeganistão – trazendo, na hipótese do médico, o "know-how" da autoimolação.

A engenheira civil Sabzina Hasanzada foi uma das muitas mulheres que abandonaram o Afeganistão para fugir do Talibã. Ela ficou viúva aos 31 anos e perdeu seu único irmão na guerra civil que antecedeu a vitória da milícia. Sem um homem para acompanhá-la na rua, como exigiam os radicais, ela tinha dificuldades até mesmo para abastecer a despensa da casa em que morava com as duas filhas. Resolveu mudar-se para o Paquistão e só voltou quando o regime caiu, em 2001. Hoje, está de volta ao seu trabalho no Ministério da Energia, onde ganha o equivalente a 400 dólares por mês. Mora na área antiga de Cabul, próxima ao mercado principal, aonde só vai de burca, embora deteste a roupa. "Evita que os vizinhos façam fofocas e que os homens cheguem perto", disse a VEJA. No mercado, a frequência é predominantemente masculina. É costume no país os homens fazerem as compras domésticas, orientados pelas mulheres, cujo lugar, supõem, é dentro de casa. Além disso, fica nesse mercado a maior feira de pássaros da capital, e criá-los para rinhas é um dos passatempos masculinos. Na verdade, qualquer briga é um passatempo para os afegãos. Há lutas organizadas de faisões, cães e camelos. Até as pipas brigam pela supremacia no céu, o que é compreensível num país que se vangloria da valentia de seus guerreiros e se orgulha de exibir na sua história a expulsão de duas potências invasoras, a britânica e a russa.

Sabzina, que se formou na Universidade de Cabul, faz questão de que as filhas, Frieshta, de 15 anos, e Silsila, de 12, frequentem a escola. Embora no ano passado 102 colégios para meninas do país tenham sido alvo de ataques atribuídos a membros do Talibã contrários à educação para mulheres, as escolas da capital eram consideradas seguras. Isso mudou no último dia 27, quando 22 meninas e três professoras foram hospitalizadas depois de ter sido expostas a um gás não identificado e caído inconscientes na sala de aula. Segundo a polícia, o ataque seguiu o padrão de três outros atribuídos ao Talibã, ocorridos pouco antes na província de Kunduz, no extremo norte do país. Os episódios reforçaram a sensação de que nuvens escuras continuam a pairar sobre o Afeganistão – mais precisamente, sobre a cabeça das mulheres do Afeganistão. Outros indícios recentes foram a aprovação de uma lei que obriga a esposa xiita a fazer sexo com seu marido sempre que ele exigir, sob pena de ser privada de sustento por ele, e a série de ataques a mulheres parlamentares. A ex-deputada Malalai Joya teve o mandato cassado ao defender
a secularização do estado afegão e Fawzia Koofi sofreu um atentado a tiros, em março, depois de ter recebido seguidas ameaças de morte por criticar a aprovação do chamado "estupro marital" para a minoria xiita.

Analistas da situação política afegã acreditam que a "talibanização" do país é fruto principalmente da aliança firmada pelo presidente Hamid Karzai com lideranças de partidos religiosos fundamentalistas nas eleições do ano passado – um apoio que ele agora precisa retribuir. O governo Karzai é fraco e corrupto. No ranking da Transparência Internacional dos países mais honestos do mundo, o Afeganistão era, até 2005, o 117º entre 180. Na última classificação, em 2009, caiu para o 179º posto. A corrupção lá chega a ser palpável. No bairro mais rico de Cabul, Sherpur, o conjunto de casas originalmente pertencentes aos "barões do ópio" (o Afeganistão produz 92% da substância usada no mundo para a fabricação de heroína) foi rebatizado de "Char-pur" – algo como "lugar de saqueadores". Isso porque, desde o início do governo Karzai, ele passou a abrigar também funcionários públicos cujo salário, estima-se, não seria suficiente para comprar nem um dos muitos lustres de cristal que pendem das varandas das casas – repletas de vidros verdes espelhados e outros itens de decoração compatíveis com a fineza atribuída aos seus moradores. Um dos poucos sinais de que os rumos do Afeganistão podem mudar um dia é um ainda incipiente, porém crescente, interesse dos jovens pela política, motivado em parte por uma campanha lançada por organizações não governamentais em 2009. A corredora Robina Jalali está entre esses jovens. Aos 25 anos, ela foi a primeira atleta afegã a participar de uma Olimpíada. De família rica (o pai, informou seu irmão, trabalha com exportação), ela ouve Shakira e Jennifer Lopez, veste roupas compradas em Dubai e conhece mais de vinte países. Cursa ciências políticas na Universidade de Karwan e já está em campanha para concorrer a uma vaga no Parlamento. "Quero que o Afeganistão se orgulhe de mim, mas também quero me orgulhar dele", diz.


CORRIDA CONTRA O ATRASO
A corredora Robina Jalali foi a primeira atleta afegã a participar de uma Olimpíada.
Ela se maquia, veste roupas compradas em Dubai e agora planeja concorrer a uma vaga no Parlamento. Diz que quer um dia sentir orgulho do seu país, o segundo mais corrupto do mundo e o mais perigoso para uma criança nascer, segundo o Unicef. Ao lado, menina diante da casa dos pais, no centro de Cabul

O presidente Hamid Karzai, segundo relatório do Pentágono divulgado no mês passado, conta com o apoio de apenas 29 das 121 áreas do país consideradas estratégicas para o seu governo – muitas delas sob comando de líderes tribais. As demais, conforme o relatório, ou não têm posição firmada ou apoiam os insurgentes do Talibã. Esse é um dos motivos pelos quais, em visita aos Estados Unidos na semana passada, Karzai reafirmou que, por ele, a "reconciliação nacional" do Afeganistão tem de passar por uma negociação com os chefões do Talibã. Os mesmos que foram apeados do poder em setembro de 2001 por sua cumplicidade com os terroristas da Al Qaeda. Trata-se de um pacto com o demônio. Caso ele vingue, mulheres como Robina, Rahime, Sabzina e suas filhas continuarão a arcar com uma conta não só pesada demais, como a perder de vista.


REDUTO FEMININO
Os shoppings estão entre os poucos lugares que as afegãs podem frequentar. Nos demais, onde há aglomeração masculina, existem restrições. Até em saguões de aeroportos e festas de casamento elas têm de ficar em setores separados dos destinados aos homens

A CAPITAL
Rodeada por montanhas, Cabul tem vias sem faixas, poucas calçadas e menos mulheres ainda nas ruas

MANSÕES DO ÓPIO
As casas de Sherpur, onde vivem grandes traficantes e, agora, também funcionários do governo.
Ao lado, afegãos rezam no parque Qargha – como todo parque, "inapropriado" para mulheres.
Nos fins de semana, só homens são vistos divertindo-se na roda-gigante e nos pedalinhos

"MERCADO DO BUSH"
Assim os moradores de Cabul chamam a feira que vende produtos desviados da base militar americana de Bagram. À esquerda,, vendedor exibe suas aves no mercado de pássaros da capital

Um celeiro de homens-bomba

O PAQUISTANÊS Muhibullah, preso em Pul-e-Charkhi (à esq.) por planejar explodir-se num atentado

Se houvesse um ranking das penitenciárias mais explosivas do mundo, Pul-e-Charkhi estaria no topo. Entre os seus 4 622 detentos, estão 72 homens-bomba – afegãos e paquistaneses –, condenados em pelo menos uma instância judicial por planejar ou tentar cometer um atentado suicida. A prisão de Pul-e-Char-khi fica num descampado poeirento na periferia leste de Cabul. Ganhou notoriedade por ter sido palco da execução de milhares de prisioneiros políticos no tempo em que o Afeganistão esteve sob o regime comunista (1979-1989) e por abrigar, até dois anos atrás, quase setenta crianças e bebês. No Afeganistão, as presas podem manter os filhos pequenos junto a si. Até 2008, as crianças de Pul-e-Charkhi, além de ter de cumprir pena com as mães, eram obrigadas a conviver com milhares de homens condenados. A situação só mudou depois que o governo afegão criou a primeira penitenciária feminina de Cabul.

VEJA entrevistou seis presos de Pul-e-Charkhi acusados de planejar ou tentar levar a cabo um ataque suicida em território afegão. Diante da reportagem, todos alegaram inocência – mesmo os já condenados em segunda instância pelo crime, como o paquistanês Muhibullah, de 22 anos, ex-estudante de um madraçal em Peshawar, e os que foram pegos com a boca na botija, como o afegão Malin, 26 anos, pintor de paredes em Cabul, com quem a polícia encontrou um colete recheado de explosivos. O único a ser apresentado algemado à reportagem foi o afegão Abdul Jalil, preso há um ano e meio, depois de tentar explodir-se em Nangrahar, província na fronteira com o Paquistão. Jalil não se deixou fotografar nem quis relatar sua versão para a prisão. No entanto, a um carcereiro que lhe perguntou o que faria se fosse solto, respondeu imediatamente: "Morreria em nome de Alá".

Como é vestir uma burca


O MUNDO ATRÁS DA TELA
O visor da burca impede a visão lateral e torna difícil enxergar os pés

A primeira constatação é que ela permite enxergar melhor do que se imagina. À luz do dia, os olhos aprendem rapidamente a ignorar a interferência da trama quadriculada que serve de visor da roupa. Ao menos quando se olha para a frente, dá para ver tudo com clareza. Já a visão lateral desaparece de dentro de uma burca. Olhar para os lados requer virar completamente a cabeça, e o primeiro tropeção ensina que enxergar os pés – assim como os muitos buracos que surgem diante deles nas ruas sem calçada e sem asfalto de Cabul – é outra tarefa complicada para uma mulher nessa situação. É por isso que quase todas caminham com uma das mãos sobre o peito, pressionando o tecido contra o corpo. Só assim conseguem ver um pouco melhor onde pisam. A sensação ao usar a roupa é a de estar dentro de uma barraca de camping, de onde se pode espreitar o mundo sem ser visto, já que ninguém presta atenção numa mulher de burca – você é só mais um ponto azul movimentando-se na paisagem.

Até vinte anos atrás, as burcas eram feitas de algodão e plissadas a mão. Hoje, são de poliéster e fabricadas na China. Custam o equivalente a 20 dólares e, ao contrário das antigas, não amassam, não desbotam e não perdem as pregas jamais. Mas são abafadas como o inferno – e causam dor de cabeça, resultado da pressão do elástico interno que prende a peça em torno do crânio. Em compensação, as burcas protegem contra as moscas que sobrevoam os muitos esgotos a céu aberto de Cabul. Embora só as mãos fiquem visíveis, quem quiser perscrutar quem está sob uma burca pode começar prestando atenção na cor do tecido. Quanto mais claro o tom de azul (sempre azul, já que a ideia é não ser original), mais jovem é a mulher que está debaixo dela.

Conforme o dia escurece, a visão vai piorando. A quantidade de tropeções aumenta e a sensação de claustrofobia começa a dar comichão nas mãos. Puxo finalmente o véu e descubro o rosto. Burcas podem proteger contra a poeira, a gripe A e o "bad hair day", mas tirá-las – e sentir a lufada de ar fresco que adentra os pulmões – é a melhor parte da experiência de vesti-las.

O Jackie Chan afegão

SOCOS E LÁGRIMAS
Cartaz do filme O Fim, 103º produzido pelo ator e diretor Salim Shaheen (à esq.):
tragédias do Afeganistão para quem está longe dele

Roteirista, produtor, diretor e ator autodidata, Salim Shaheen acaba de terminar seu 103º longa-metragem. Como todos os anteriores, Farjam (O Fim) não custou mais do que 30 000 dólares e demorou menos de cinco meses para ficar pronto. Tem socos e pontapés em abundância – Shaheen é fã do diretor e ator chinês Jackie Chan, de quem empresta os golpes de kung fu e um certo humor, às vezes involuntário – e lágrimas suficientes para encher o Rio Helmand, o maior do Afeganistão. Só nos primeiros cinco minutos da fita, três parentes do personagem principal vão ao encontro de Alá: a irmãzinha, vítima da pobreza da família, que não pôde comprar-lhe remédios; o pai, atropelado quando tentava buscar socorro para a menina; e a mãe, fulminada por um ataque cardíaco ao receber a notícia do atropelamento do marido.

Ao falar dos sofrimentos impostos pela pobreza – e também das tragédias de amor decorrentes de casamentos forçados, das histórias de devoção filial, sacrifícios maternos e honra familiar –, Shaheen leva um pouco do Afeganistão para os que estão saudosos dele. Ao longo de trinta anos de guerras, estima-se que quase um terço da população tenha abandonado o país. Só no Paquistão e no Irã vivem até hoje 3 milhões de afegãos desterrados. Eles estão espalhados também pela Índia, Alemanha e Canadá e são o principal público dos DVDs de Shaheen, cujas personagens femininas quase sempre aparecem sem véu. As ousadias do cineasta já fizeram com que diversas de suas atrizes fossem agredidas na rua. Suspeita-se que uma delas, Mursal Negah, de 22 anos, tenha tido sorte pior. Recentemente, ela surgiu em uma fita de Shaheen dançando numa roda de homens com os cabelos descobertos. Pela cena, recebeu ameaças de parentes e decidiu mudar-se para o Canadá. Antes que isso ocorresse, no entanto, foi encontrada morta. Seus pais só comunicaram o fato ao diretor e aos amigos da atriz em março, um mês depois de ela ter sido enterrada, sem autópsia. Segundo a família, Mursal foi vítima de ataque cardíaco.

O livreiro de Cabul quer fazer as pazes


SHAH RAIS, que inspirou o best-seller da noruguesa Asne Seierstad, em sua livraria no centro de Cabul (à direita, a fachada que, como todas da capital afegã, implora por uma tinta)


Shah Muhammad Rais diz que cansou de brigar. Depois de seis anos percorrendo os tribunais noruegueses em busca de "reparação" pelos supostos danos decorrentes da publicação do best-seller O Livreiro de Cabul, inspirado nele e em sua família, Rais afirmou a VEJA que vai retirar o processo contra a autora, a jornalista norueguesa Asne Seierstad. "Ela já reconheceu o mal que fez", disse. Na obra, a jornalista descreve o livreiro, chamado na história de "Sultan", como um pai tirano e um marido insensível, que, entre outras coisas, fez a mulher chorar por vinte dias ao adotar uma segunda e adolescente esposa, para a qual reservava frutas e guloseimas negadas aos demais integrantes da família.

Para escrever o livro, Asne morou por três meses na casa de Rais – hoje, vazia. Ele agora vive no andar superior de sua livraria, no centro da capital afegã, com os dois filhos mais velhos. A primeira mulher mora no Canadá. A segunda, em Oslo. Rais chegou a declarar que foi obrigado a tirá-las do Afeganistão, juntamente com seis de seus oito filhos, porque trechos do livro de Asne poriam em risco a segurança delas e das crianças. Hoje, no entanto, admite que a família nunca recebeu nenhuma ameaça e que, no caso da primeira mulher, a mudança para o Canadá se deu "apenas por precaução". Quanto à segunda, que Rais nega ser a sua preferida, ele explica que o que ocorreu foi que ela, grávida de nove meses, o acompanhou numa viagem a Oslo para tratar do processo contra a jornalista e lá deu à luz o caçula do casal, que nasceu com graves problemas respiratórios. "Meu filho teria morrido se não fossem os médicos noruegueses", conta. Hoje, com 4 anos de idade, a criança ainda sofre de complicações respiratórias sérias que lhe valeram asilo humanitário e tratamento gratuito em Oslo. "A generosidade do povo norueguês é um dos motivos pelos quais quero acabar com esse processo", diz Rais. Há dois anos, ele esteve no Brasil. O que mais o impressionou na visita? A diversidade da população ("Negros, brancos, orientais, tudo misturado") e o restaurante Porcão. "Maravilhoso. Pretendo voltar lá um dia e levar a minha mulher. Quer dizer, as minhas mulheres."
19 de maio de 2010
Revista Veja

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Nossa melhor aposta

Artigo André Petry

A tecnologia é moralmente neutra - cura um câncer e explode a bomba -, mas
é a via mais segura para resolver muitos dos problemas atuais
Fotos Album/Latinstock e Divulgação


VELHA ANGÚSTIA
Frankenstein e Avatar, enredos que mostram a mesma ansiedade em relação à tecnologia



Filha de uma feminista e de um filósofo radicais, e já casada com um poeta revolucionário, Mary Shelley tinha apenas 19 anos quando mandou às favas a ambição dos pais e do marido de criar o "homem novo" e criou um "novo monstro": Frankenstein. Escrito sob o impacto da Revolução Industrial e publicado em 1818, seu livro mais famoso é interpretado como marco zero da demonização da tecnologia. Em Frankenstein, ou o Moderno Prometeu, a autora compara a tecnologia a uma força autônoma, que pode resultar em aberração e monstruosidade e acabar voltando-se contra seu criador. Passados dois séculos, só cresceu a estridência da denúncia contra a força maligna das invenções de laboratório. Hoje, a tecnologia é o saco de pancada predileto da geração mais tecnológica da história da humanidade. Acusa-se a tecnologia de poluir as cidades, devastar rios e florestas, aquecer o planeta, causar acidentes, destruir empregos, provocar dilemas morais, afastar as pessoas. Diante disso, é notável que o vento ande soprando na direção contrária - e a tecnologia, finalmente, comece a ser vista não mais como parte do problema, mas como a solução.

Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e célebre ecoapóstolo do fim do mundo, sustenta exatamente esse ponto de vista em Nossa Escolha, seu último livro sobre o aquecimento global. Em Avatar, o diretor James Cameron denuncia a devastação ecológica provocada pela tecnologia justamente no filme mais tecnológico de todos os tempos. Cameron concede que "a solução para salvar nosso planeta também passa pela tecnologia". Mesmo a dramática profecia de 1984, o romance em que George Orwell alerta para os perigos totalitários do avanço tecnológico, foi demolida pelos avanços tecnológicos. Em vez de enfraquecerem a democracia, as conquistas digitais são agora um pesadelo para as ditaduras.

A internet carrega em si um gene democrático. Em março, o Google, o maior site de buscas do mundo, abandonou o mercado da China, com 400 milhões de usuários, em repúdio à censura da ditadura chinesa na internet. "É um momento histórico", festejou o professor Xiao Qiang, da Universidade da Califórnia, que estuda os efeitos da internet na imprensa e na política da China. No ano passado, os jovens iranianos chamaram atenção para seus protestos contra a fraude eleitoral através do Twitter. Yoani Sánchez denuncia ao mundo a vida sob a ditadura cubana através do seu blog. Diz Nina Hachigian, da American Progress, que estudou a internet na China: "A internet, incluindo blogs e Twitter, é uma ameaça política no sentido de que mudou, em definitivo, a dinâmica dos eventos políticos. Os governos não podem esconder informações com a facilidade de antes, mas a internet não é uma ameaça incontornável".

Como força que armazena e difunde informação, a internet é arrebatadora. A Biblioteca de Alexandria, a mais vasta da Antiguidade, reunia 700 000 volumes, até ser criminosamente incendiada. Marco Antônio ofereceu os 200 000 volumes da biblioteca de Pérgamo como prova de amor por Cleópatra. Hoje, só a Amazon tem 500 000 títulos à venda on-line - cada um leva sessenta segundos para ser transmitido por ondas eletromagnéticas ao Kindle, o leitor eletrônico. É impossível censurar o conteúdo de nuvens (o termo técnico para a rede difusa de armazenamento de dados digitais acessados via internet), e as ondas não podem ser incineradas.

A internet criou o "paradoxo da modernidade". Ele se traduz pela absoluta necessidade que regimes de força têm das novas tecnologias para modernizar suas economias de modo a saciar a fome do povo. Mas, junto com o empuxo econômico, a tecnologia digital, baseada no conhecimento, traz a necessidade e a possibilidade do arejamento político. A "diplomacia digital" dos Estados Unidos aposta na força desse paradoxo para enfraquecer regimes ditatoriais. Procura revestir a liberdade de expressão na rede mundial de computadores dos mesmos atributos de bens universais, como o espaço aéreo ou as rotas de navegação. Em março, a Casa Branca anunciou o fim da restrição à exportação de serviços de internet para o Irã, Cuba e Sudão. A ideia é que essas nações hostis sejam contaminadas pelo "paradoxo da modernidade". Em artigo publicado no The Wall Street Journal, o professor Evgeny Morozov, da Universidade Georgetown, resumiu, provocativamente: "Google, Facebook e Twitter são agora meras extensões do Departamento de Estado". É improvável que a "diplomacia digital" obtenha sucesso em um prazo curto. Mas também não parece razoável que, por ser americana, dê ensejo a um "neoludismo", cujos seguidores saiam à noite cortando cabos de fibras ópticas para impedir a propagação da internet.

A tecnologia não é a invenção de um gênio solitário. Ela é o resultado do acúmulo de conhecimento. A tendência é que, quanto mais conhecimento houver, mais tecnologia venha a ser produzida. Essa é sua força. O caráter cumulativo da criação tecnológica explica a velocidade geométrica das novidades e está na base da "singularidade tecnológica". Essa é uma teoria segundo a qual o tempo e o esforço gastos para dar os primeiros passos em uma determinada tecnologia tendem a diminuir drasticamente no caminho evolutivo. Passaram-se séculos entre o primeiro livro impresso e o pioneiro Kindle. Entre o Kindle e algo tão espetacular quanto, digamos, um projetor holográfico tridimensional miniatura de páginas impressas podem se passar apenas alguns poucos anos. A singularidade assusta por prever que, em um futuro de décadas, as máquinas serão infinitamente mais poderosas do que o cérebro humano na sua capacidade de pensar. Isso porque, na capacidade de processar dados, o cérebro humano já perdeu a corrida no século passado.

Ei-nos de volta ao Frankenstein de Mary Shelley - ou seja, à tecnologia ganhando impulso autônomo e abrindo às máquinas a possibilidade de levantar-se contra a humanidade. A revolução robótica é tema recorrente no cinema desde que o diretor alemão Fritz Lang deu alma ao robô Maria no estupendo Metropolis, de 1927. O enredo já apareceu em enlatados, em obras-primas como Blade Runner, de 1982, e avançou para Matrix, de 1999, em que os humanos, já subjugados, é que se rebelam contra a opressão das máquinas. A ansiedade humana em relação à evolução tecnológica, tão clara na atmosfera claustrofóbica da ficção científica, tende a se ampliar à medida que o conhecimento tecnológico vai se sofisticando. É preciso ensinar tecnologia às massas, prega Alec Broers, ex-presidente da Academia Real de Engenharia da Inglaterra e pioneiro da nanotecnologia. Só assim se vencem os mitos e a ingenuidade. Geração de energia e transporte são as áreas em que a tecnologia é mais criticada porque acumula dióxido de carbono na atmosfera e destrói a camada de ozônio. Mas as duas áreas em que pode trazer as melhores soluções são, exatamente, energia e transporte. É isso que Al Gore percebeu ao reconhecer a tecnologia como a aposta para salvar o planeta - já que renunciar a ela é apenas um atalho para a barbárie.

Sendo moralmente neutra, a tecnologia pode servir ao bem ou ao mal. O rádio transmitiu a voz de Franklin Roosevelt para ajudar os americanos a atravessar o calvário da Depressão nos anos 30 e vencer a II Guerra. Do outro lado do Atlântico, o mesmo rádio amplificou os discursos de Adolf Hitler e hipnotizou os alemães num projeto diabólico. "A tecnologia pode tanto promover o autoritarismo como a liberdade, a escassez como a fartura, pode ampliar ou abolir o trabalho braçal", escreveu o filósofo Herbert Marcuse (1898-1979), em Tecnologia, Guerra e Fascismo. O DDT é um santo remédio contra tifo, malária e febre amarela, porque mata os insetos que transmitem essas doenças. Aplicado às toneladas na agricultura, virou veneno para a ecologia, reduzindo a população de pássaros e peixes. O agente laranja é um eficiente herbicida, foi muito utilizado no manejo de florestas no Canadá e na Malásia, mas virou arma na mão dos militares americanos no Vietnã. Na tecnologia, tudo depende do fim para o qual ela é empregada. Sua demonização é uma inutilidade.

Polly Borland/Getty Images

PARA TODOS
Broers: só o conhecimento da tecnologia vence os mitos e a ingenuidade

Metade da humanidade jamais usou um aparelho de telefone. Há mais telefones em Montreal do que em Bangladesh. A tecnologia, ainda que desigualmente distribuída, é a melhor metáfora da trajetória humana na Terra. A própria civilização começou quando os humanos passaram a utilizar as primeiras tecnologias. "Graças à tecnologia, hoje vivemos o bastante para ver nossos filhos e netos crescer. Quem imagina que estaríamos melhor sem a tecnologia moderna precisa pensar nas durezas da vida da Idade Média", diz W. Brian Arthur, autor de The Nature of Technology, que tem, ele mesmo, uma relação de amor e ódio com a tecnologia. O pensamento religioso, traduzido na ideia de que somos criaturas divinamente concebidas, tende a turvar a percepção de que nossa condição natural é miserável. No tempo das cavernas, tudo era pior: o medo, a dor, a fome, a doença, o frio. A tecnologia nos retirou dessa miséria. Não a todos, mas o pedaço da humanidade que ainda vive na dor e na miséria sairá de lá com mais, e não menos, tecnologia.

A revolução da tecnologia da informação está causando um impacto imenso nas ciências: na sociologia, na psicologia, na biologia, na neurologia. Todas precisam saber, e pouco sabem, do impacto dessa tecnologia e seu imenso volume de informação no comportamento das sociedades e dos indivíduos. O mundo não é mais o mesmo - e faz pouco tempo que mudou. Em Ulysses, que começou a ser publicado em 1918, James Joyce faz seu Leopold Bloom lamentar que a sabedoria popular não encontre vazão na produção literária, sempre tão distante do homem comum. O filósofo Walter Benjamin, morto em 1940, dizia que o homem simples e comum almejava "ser reproduzido", mas a indústria cinematográfica, por cobiça, negava-lhe a realização dessa ambição. Até esse sonho a tecnologia do século XXI materializou. O que é o YouTube senão o púlpito do homem comum com audiência planetária? Singelas mas sábias são as palavras de Alec Broers: "A tecnologia é nossa amiga".
5 de maio de 2010

Revista Veja

Um país loteado

Revista Veja - 5 de maio de 2010

Geografia e a Arte

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