domingo, 19 de julho de 2009

O Velho Chico


Poetas e cantadores falam carinhosamente do Rio São Francisco, referindo-se a ele como quem fala de um grande amigo. Pescadores encontram ali a possibilidade de diminuir a fome, um mal que flagela grande parte da população do país. Empresários do setor elétrico tiram do mesmo rio a energia necessária para transformar em eletricidade e lucro, os investimentos feitos. Políticos históricos usam o grande manancial como referência de obras que possam melhorar a condição do habitante nordestino, mas pouco ou nada fazem, exceto garimpar votos em épocas eleitorais. É o velho Chico, servindo a interesses diversos por sua aparente inesgotável fonte de benefícios que dele o homem pode extrair.

É histórico o projeto de transposição do Rio São Francisco. Remonta aos tempos do Império, quando D. Pedro II se dispôs a vender as jóias da coroa para executar a obra, mandando realizar os primeiros estudos em 1852. Desde lá, muito se escreveu a respeito, demais se esperou de atitudes efetivas e nada de concreto se realizou. Os trabalhos a serem executados para desviar parte de suas águas, possibilitando a irrigação de regiões secas do Nordeste, são de tal monta que podem assustar num primeiro momento. No entanto, mexer com a natureza das águas não é coisa recente e há exemplos de sucessos, gigantescos, nos dois sentidos: pelo tamanho da obra e pelos benefícios alcançados.

O canal do Panamá é um deles. Levou 11 anos para ficar pronto – foi construído entre 1903 e 1914 - e se falou nessa obra pela primeira vez em 1534, quando Carlos V, Rei da Espanha, quis transpor seus navios do Atlântico para o Pacífico e vice-versa. São três eclusas (Gatún, Pedro Miguel e Miraflores) que transportam as embarcações por uma extensão de 80 km, elevando ou descendo 95 metros, com um tempo médio de travessia da ordem de 9 horas. A obra custou US$ 387 milhões e ocupou 75 mil trabalhadores.

Transpor o São Francisco não é obra menor. Serão criados em torno de 185 mil novos empregos, irrigados 150 mil hectares de terra árida e reduzidas 14 mil internações hospitalares por ano. Um projeto dessa envergadura não se limita a trazer benefícios aos nordestinos. São Paulo e Rio de Janeiro terão problemas sociais minimizados, ou resolvidos, com a fixação do homem nos seus municípios de origem, acabando com parte do êxodo rural e da migração interna que levam pobres de um estado para se transformarem nos miseráveis de outro. Não é possível esperar quase 400 anos como ocorreu com o Canal de Panamá. No caso brasileiro, lá se vão 150 anos, período mais do que suficiente para concluir que uma nação precisa tomar decisões e executar ações que modifiquem sua condição de país subdesenvolvido para aspirar, pelo menos, a de país em crescimento efetivo.

AQUA.ENG.BR

Volume de água do rio São Francisco caiu 35% em 50 anos


Uma pesquisa feita por cientistas norte-americanos aponta que o fluxo de água na bacia do rio São Francisco, que nasce em Minas Gerais e deságua no nordeste do Brasil, caiu 35% no último meio século.

O estudo, que será publicado no próximo dia 15 de maio no Journal of Climate, da Sociedade Meteorológica Americana, foi feito por pesquisadores do National Center for Atmospheric Research (NCAR), que fica no Estado americano do Colorado.

Aquecimento e diminuição nas chuvas pode ter comprometido vazão


Eles analisaram dados coletados entre os anos de 1948 e 2004 nos 925 maiores rios do planeta, e concluíram que vários rios de algumas das regiões mais populosas estão perdendo água.

De acordo com os pesquisadores, a bacia do São Francisco foi a que apresentou o maior declínio no fluxo de águas entre os principais rios que correm em território brasileiro durante o período pesquisado.

Neste mesmo período, o fluxo de águas na bacia do Amazonas caiu 3,1%, enquanto as bacias de outros rios brasileiros apresentaram uma elevação na vazão.

O fluxo de águas no rio Paraná (que termina na Argentina), por exemplo, apresentou um aumento de 60% no período pesquisado, enquanto a bacia do Tocantins registrou um acréscimo de 1,2% em sua vazão.

Segundo o cientista Aiguo Dai, o líder da pesquisa, esta variação está relacionada principalmente a mudanças na quantidade de chuvas nas regiões das bacias.

São Francisco

Estas alterações nos níveis de precipitações, de acordo com o pesquisador, estariam relacionadas, principalmente, ao fenômeno meteorológico El Niño, que consiste em um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico e que afeta o clima da região e do planeta.

Dai afirma que, entre 1948 e 2004, a região da bacia do rio São Francisco apresentou uma leve queda nos níveis de precipitações e um grande aumento de temperatura.

Estes dois fatores contribuíram para o grande declínio do escoamento do rio. Segundo ele, o aumento das temperaturas eleva a evaporação, e assim, reduz o fluxo de água do rio.

"Eu avalio que algumas destas mudanças na temperatura e nas precipitações estão relacionadas às mudanças nas atividades do El Niño, mas não todas elas", afirma o cientista.

Água

De um modo geral, o estudo aponta que alguns dos rios mais importantes do planeta e que abastecem áreas populosas estão perdendo água.

Um terço dos 925 rios pesquisados apresentaram mudanças significativas nos fluxos de água no período, sendo que aqueles que perderam vazão ultrapassam os que ganharam em uma proporção de 2,5 para 1.

Entre os rios que apresentaram declínios na vazão estão alguns que servem a grandes populações, como o Amarelo, na China, o Niger, na África, e o Colorado, nos Estados Unidos. Em contraste, os pesquisadores constataram um aumento considerável na vazão de rios em áreas pouco habitadas no Oceano Ártico.

Entre os que permaneceram estáveis ou que registraram um pequeno aumento no fluxo de água estão o Yang Tsé, na China e Bhrahmaputra, na Índia.

Segundo os pesquisadores, muitos fatores podem afetar a vazão desses rios, incluindo barragens e o desvio de água para a irrigação.

Mas, de acordo com os dados da pesquisa, em muitos casos, a redução no fluxo de água pode estar relacionada às mudanças climáticas globais, que alteram os padrões de chuvas e os níveis de evaporação.

"A redução na vazão aumenta a pressão sobre as reservas de água doce em grande parte do mundo, especialmente em um momento em que a demanda por água aumenta por causa do crescimento da população. A água doce é um recurso vital, e a tendência de queda é motivo de preocupação", diz Aiguo Dai.

Pesquisas anteriores feitas em grandes rios, no entanto, apontavam que a vazão global dos cursos de água estaria aumentando.
BBC BRASIL

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Tempo é Dinheiro

Tempo é Dinheiro
Como o tempo passou de unidade orgânica a organizador da produção e do consumo no capitalismo, modifi cando o cotidiano e a ordem das cidades

HELENA LADEIRA WERNECK


Nas suas primeiras noções, a contagem do tempo estava mais associada à periodicidade do poder e da finitude da existência humana. Isso levava a uma casta de sacerdotes à sua manifestação e até mesmo à sua manipulação. Os gregos, mestres em uma explicação romântica do universo, apresentam o tempo como um deus – Cronos – que, casado com a deusa Terra – Géia – termina por devorar todos os seus filhos. Géia, cansada de ver desaparecer toda a sua prole, engana o deus jogando em sua boca uma pedra em vez do seu filho Zeus. Com o tempo, Zeus cresceu, matou o pai e tornou-se o patriarca de uma raça de deuses que venceu a mortalidade.

Durante a maior parte do tempo de sua existência na face terrestre, prevaleceu no seio da população a necessidade da separação entre os dias, identificando os períodos de claridade e de escuridão. Nesse sentido, o dia tornou-se a base de todas as medidas de tempo, sendo medido, em algumas culturas, a partir do nascer do sol e, para outras, a partir do pôr-dosol. A prática da adoção da contagem diária a partir da meia-noite tem origem nos tempos modernos.

A NECESSIDADE DE IDENTIFICAÇÃO DO CLARO E DO ESCURO
Os primeiros fazendeiros constataram que o caminho percorrido pela sombra de um objeto sob o sol indicava o tempo disponível para o trabalho com a agricultura. Desse modo, mediam a hora necessária para o retorno seguro do abrigo.

Coube aos chineses a primeira formatação do relógio de sol, substituindo, com sucesso, a sombra de pedras e de árvores por uma haste fincada em um plano, a partir da qual se traçavam riscos. A partir dessa subdivisão, surgiram os agrupamentos de minutos, divididos em quatro: do nascer do sol às 9:00 horas, das 9:00 horas até as 12:00 horas, das 12:00 horas às 15:00 e das 15:00 às 18:00, contando-se o período da escuridão entre o pôr-do-sol e o seu nascimento.

Ao mesmo tempo que se sentia a necessidade de controlar o tempo de luz, o imaginário popular temia o período da escuridão. Mais uma vez são os gregos que materializam essa inquietude que a ausência do sol implica: para gregos e romanos, a noite era filha do Caos, sendo esposa e irmã de Érebo – a personificação das trevas infernais. Seus filhos confirmavam a mesma tendência – Moira, o destino, Átropos, a morte, Hipnos, o sono, a Miséria, as Parcas, que regem os destinos humanos, as Hespérides, guerreiras, Nêmesis, a justiça, Apaté, a fraude, a Concupiscência, a Velhice e a Discórdia.

A Lua, e como conseqüência, o luar, compunha outro poder, quase paralelo ao da luz. No ideário humano e em diversas culturas, apresentava-se como divindades distintas, talvez por representar o conhecimento de que são responsáveis por ciclos diferentes.

O ciclo lunar guiou o primeiro conjunto de dias, juntados que foram pela regularidade do seu ciclo – de sete em sete dias, daí derivando o termo septimana, ou semana.

Quadro A mutilação de Urano por Saturno, feita por Giorgio Vasari e Gherardi Christofano no século XVI. Cronos (Saturno) derrota seu próprio pai, o deus grego do céu



TRANSFORMAÇÕES MEDIEVAIS E A PERMANÊNCIA DO PENSAMENTO CLÁSSICO
Por mais que a crise romana impusesse modifi- cações muito grandes ao inteiro contexto do Império, nenhuma se igualou à adoção da religião cristã pelo Imperador Constantino, que promoveu a cristianização do Estado depois da sua conversão e de sua vitória sobre Maxêncio na ponte Mílvia, em 312 d.C. Segundo Perry Anderson (1992:87), “caracteristicamente, a nova religião oriental somente conquistou o Império depois de adotada por um César no Ocidente. Foi um exército marchando da Gália que impôs um credo originado na Palestina, acidente significativo e paradoxal, ou um sintoma, da dominância política da pátria latina do sistema imperial romano”.

A Idade Média é tida pela maioria da população como período de trevas, do esquecimento do conhecimento. O século XVI foi o responsável pela criação desta figura, que se transformou em preconceito. Segundo Franco Júnior (1986:19), “o termo expressava um desprezo indisfarçado pelos séculos localizados entre a Antiguidade Clássica e o próprio século XVI. Este se via como o Renascimento da civilização grecolatina, e, portanto, tudo o que estivesse entre esses picos de criatividade artístico-literária não passaria de um hiato, de um intervalo. Logo, de um tempo intermediário, de uma idade média”.


A respeito da herança cultural da Idade Média e o papel da Igreja Católica, Anderson afirmou: “civilização da Antiguidade Clássica foi definida pelo desenvolvimento de superestruturas de sofisticação e complexidade sem precedentes sobre estruturas materiais de uma relativa rusticidade e simplicidade; existe sempre uma desproporção dramática no mundo greco-romano entre o exagerado firmamento intelectual e político e o acanhado mundo econômico que lhe era subjacente. Quando chegou o colapso final, nada era mais óbvio que o fato de que essa herança superestrutural – agora impossivelmente distanciada das realidades sociais imediatas – iria sobreviver a ela, embora de forma comprometida. Era necessário um recipiente específico para isso, suficientemente distanciado das instituições clássicas da antiguidade e ainda assim moldado por elas, e por isso capaz de fugir ao desmoronamento geral para transmitir as misteriosas mensagens do passado ao futuro próximo. A Igreja desempenhou objetivamente esse papel”.

O termo “idade média” expressava o desprezo dos renascentistas
pelos séculos localizados entre a Antiguidade e seu tempo



Um clássico de Giotto di Bondone (1266-1337) feito no ano de 1305, traz Cristo sendo velado, e se encontra hoje na Capella dell’Arena, em Pádua, Itália
No entanto, a Idade Média serviu de berço à civilização ocidental, ofertando uma cultura que se denominou de moderna e que se apoiou nos termos da urbanização-industrialização e, por que não dizer, no capitalismo. Esse complexo entrecruzar de conceitos só foi possível pela intervenção continuada da Igreja Católica.

Segundo o historiador francês Jacques Le Goff , a população que se juntou em várias partes do continente europeu a partir do século X não pensava, quando obtinha a independência dos senhores feudais – os forais – em criar uma cidade. Pensavam em formar uma comunidade capaz de fazer frente aos senhores, mas ainda sem nome próprio, usando várias denominações tais como cives, hospites, oppidani, qual seja cidadãos, hóspedes, habitantes de uma praça forte, ou ainda habitores, habitantes, ou mesmo incolae ou homines.

Le Goff ainda explica: “O nome que esses beneficiários dos privilégios urbanos vão usar de preferência, burgueses, apenas continuará designando uma parte da população das cidades, mas a palavra francesa que o traduz, borjois, batizará uma classe social, a burguesia, que triunfará no século XIX com o capitalismo e uma nova revolução urbana, a da cidade nascida da revolução industrial”.

A REVOLUÇÃO COMERCIAL E O TEMPO


Essa imagem do século XVII representa Constantino presenciando a aparição da cruz. Gaius Flavius Valerius Aurelius Constantinus governou uma porção crescente do Império Romano, até sua morte
A sociedade que se forma nas bases urbanas recebe todos os cidadãos indistintamente, divide os custos pela manutenção das estruturas comuns e, já a partir dos séculos XI e XII, a erigir e identificar os seus espaços e a construir os seus monumentos. Com o crescente desenvolvimento econômico e a introdução de novas atividades urbanas, como o ensino – universitas – e a burocracia administrativa e financeira, o burgo se transforma em um motor cultural para a transmissão da nova formação social.

Le Goff assim descreve esse período: “o domínio artístico essencial da Idade Média, o dos edifícios religiosos, ela criou uma arte urbana logo duplamente encarnada em produções sagradas e em produções profanas: a arte gótica. Pensou a si mesma como um lugar a ser construído e embelezado em harmonia com sua personalidade e seus valores, e produziu um urbanismo original e cada vez mais seguro de si”.

E o valor que predomina é o dinheiro e suas representações, que tanto podem ser objetos de arte, artistas, construções e mesmo adereços. Deixada a penúria dos primeiros tempos da Idade Média, agora o luxo e a aparência predominavam.

Agora o tempo passa a ter uma nova singularidade. Não é mais o tempo da religião, marcado pela presença dos sinos nos campanários, nem ao menos o tempo do agricultor, marcado pelo nascer e o pôrdo- sol. É o tempo de se produzirem mercadorias, gerar dinheiro e acumular bens. Ainda segundo Le Goff , “ o movimento urbano não se acomoda a esse tempo. Ele não se adapta nem à faina da cidade, nem ao ritmo de seu tempo passional, nem à satisfação de suas liberdades. A nova regularidade do trabalho urbano não é a dos camponeses conciliados com a natureza e as estações, mas a de artesãos e operários assalariados cujo labor mensurável em dinheiro deve sê-lo também em tempo, um tempo não mais natural, mas tecnológico”.



A HERANÇA PRÉ-RELIGIOSA DA DENOMINAÇÃO DOS DIAS
Apesar de s Idade Média representar um período intermediário entre o conhecimento clássico e a modernidade, alguns elementos persistem na cultura ocidental – a denominação dos dias da semana, sabidamente uma das características pagãs mais evidentemente preservadas. O primeiro dia do agrupamento da semana foi dedicado ao Sol, patrocinador da luz, do calor e da vida. Para os romanos, era o dia dedicado às oferendas e homenagens. Passou somente a ser denominado de Dies Dominica por São Justino, fundador da primeira escola cristã em Roma no ano de 165. O segundo, à Lua, por sua influência sobre os meios líquidos e pela continuidade das suas transformações, por meio da sua presença benéfica, sendo representada pela melancólica rainha dos infernos – Presérpina – e pela solitária deusa Diana (Ártemis para os gregos).

Dedicou-se ao deus Marte, o deus das guerras, o terceiro dia da semana. Em Roma, onde lhe deram um mês inteiro (março), esse deus era invocado quando havia a necessidade de se decidirem guerras e para o qual se ofereciam sacrifícios após jornadas vencedoras. Conta a mitologia que o rei Numa depositou aos pés de Marte os destinos da cidade e instituiu um corpo de sacerdotes – os sálios – para honrarem o poderoso guia da vitória humana. Tamanha honra impressionou o deus, que fez cair um escudo de bronze aos pés do rei quando este orava, dando a entender que a cidade sobreviveria tanto quanto o escudo. Entre outras medidas, o rei dedicou-lhe as preces desse dia.

O quarto dia tem um caráter ambíguo. Tanto corresponde o respeito aos mercadores, quanto aos ladrões. Corresponde ao caráter eminentemente dual representado pelas práticas comerciais, denominadas, em latim, de mercarii . Assim, Mercúrio, arauto de Júpiter, protegia os negociantes e os seus negócios, figuras também muito importantes no mundo clássico.

Ao pai de todos os deuses – Júpiter, comandante dos ventos e das tempestades, cujas mãos dirigiam os raios e os trovões – foi dedicado o quinto dia. A necessidade de se prestar homenagem a poderes tão fortes também se manteve na representação simbólica dos povos do norte, onde Thor (Thursday) adquire as mesmas funções que o figurativo greco-romano.


O sexto dia da semana ficou consagrado a Vênus. Como as homenagens humanas foram dedicadas aos grandes poderes presentes nas sociedades humanas, não se faz necessária a explicação do porquê das homenagens à deusa do Amor, desde sempre considerado uma das mais fortes emoções humanas.

A Saturno ou Cronos, pai do tempo, ficou destinado o sétimo dia. Segundo o mito, após destronado por Júpiter ou Zeus, foi exilado para o Lácio, na Itália (a origem da palavra deriva de latere que significa esconder-se, ocultar-se), onde dedicou-se à agricultura e ao pastoreio, dando início a uma fase de grande prosperidade. Por essas qualidades era bastante apreciado nos cultos latinos, especialmente em solo italiano. Mesmo o nome que posteriormente denominará a inteira península é decorrente da sua presença – Saturnia Tellus.



TEMPO MECÂNICO, CALENDÁRIO MERCANTIL
O avanço tecnológico, no entanto, veio dos árabes. Eles criaram um tipo de aparelho no qual eram mantidos o quadrante, o ponteiro e as rodas dentadas. O movimento, porém, já não era dado pela água ou pela areia, mas por um peso que vencia pouco a pouco, em um tempo mais ou menos igual, a resistência dos vários dentes das inúmeras rodas. Consta que o califa Harun-Al-Rachid mandou para Carlos Magno um maravilhoso relógio em que a marcação das horas era dada por bolas de ferro que caíam em um gongo enquanto soldados miniaturizados desfilavam.

A racionalidade exigida pelas atividades mercantis fez com que a adoção desse novo tempo tomasse duas formas distintas: a primeira com a adoção de relógios, mais precisos, que mostrassem o correto transcurso das horas. O segundo foi a necessidade de reformulação do calendário. A partir do momento em que o contexto deixava de ser religioso e rural, obter uma contagem e disposição melhor dos dias se fazia urgente. Um calendário regulado por festas de datas móveis era eminentemente inadequado para os negociantes. O ano religioso começava numa data variável entre 22 de março e 25 de abril. Os mercadores tinham necessidade de pontos de partida, referências fixas para seus cálculos e para estabelecer seus orçamentos.

Pintura de São Gregório, datada de 1370, feita pelo artista Meister Theoderich von Prag Title, importante pintor gótico. Encontra-se na Galeria Nacional de Praga



Na análise de Le Goff , a Igreja também determinara as horas de acordo com as estações do ano e suas respectivas preces: matinas, primas e ângelus. Regulavam-se pelo Sol e variavam ao longo do ano. Os sinos respondiam aos quadrantes solares. Os mercadores tinham necessidade de um quadrante racional, dividido em 12 ou 24 partes iguais. Foi a necessidade comercial que impôs a presença do relógio nas principais áreas centrais das cidades. Florença teve esse relógio em 1325, Pádua em 1334, Milão em 1335, Gênova em 1353.


Todas as demais cidades promoveram verdadeira corrida para a colocação de seus relógios. O mais famoso deste período foi o relógio de Estrasburgo, que causou admiração em toda a Europa por séculos. Chamava-se “Relógio dos três reis” e media 12 metros de altura, e foi construído junto com a catedral em 1352.

Com relação ao calendário, sua reforma definitiva vai ocorrer em 1577 quando o papa Gregório XIII convoca o monge Dionísio, o pequeno, para conduzir as adequações necessárias ao calendário a partir das novas descobertas astronômicas. Suas conclusões ganharam personalidade jurídica mediante bula pontifícia em 24 de fevereiro de 1582.

A ASCENSÃO DA CIDADE MEDIEVAL
A partir do século IX, o comércio volta a animar as antigas rotas de transporte, tendo como motor deste acontecimento, o comércio das cidades italianas, que para tal não só desobedeciam a ordens superiores – o Papa e o Imperador – ,como também tinham conseguido se afirmar no mar mediterrâneo por meio de acordos e de combates. Segundo o historiador belga Henry Pirenne (1862–1935), o progresso econômico de Veneza fará com que as principais famílias detentoras do poder se enriqueçam sobremaneira: “Essa riqueza se desenvolveu segundo um movimento ininterrupto. Por todos os meios ao seu alcance, a cidade dos canais trata com uma energia e uma atividade surpreendentes de impulsionar esse comércio marítimo, que é a condição essencial de sua existência”.

O segundo grande passo dado pelos nascentes agrupamentos urbanos foi o de sua separação física com a área rural, ou seja, o da construção de muralhas. Essa separação formal, no entanto, não chegou a abolir a atividade rural. Em muitos casos, da mesma maneira das cidades fortificadas da Antiguidade, a muralha preservava uma série de áreas com atividades rurais como forma de sobrevivência em caso de sítios prolongados. No entanto, ainda que com a presença de áreas não edificadas, o clima manifesto na área urbana era de liberdade e predomínio de atividades não rurais, ou, para ser mais claro, de atividades comerciais.


Segundo Le Goff , “a cidade medieval permanece mesclada de campo, deixando fora de suas muralhas subúrbios e um arrabalde plantados no campo, acolhendo no interior de seus muros, em compensação, pedaços de campo, terrenos cultivados, prados, espaços vazios e, ocasionalmente, camponeses refugiados”.


Foi a necessidade comercial que impôs a presença do relógio nas áreas centrais das cidades
Como o erro comprovado nas contagens anteriores era de dez dias de atraso em relação ao Sol, tornava- se necessário que todos os países cristãos se pusessem atualizados a um só tempo. Assim, marcou-se o dia 4 de outubro para que os homens acertassem o passo com o Sol, bastando para tal a retirada de dez dias da folhinha, a partir do dia 4, quando o dia seguinte não seria o dia 5 e sim, o 15. Isto foi feito na maioria dos países cristãos e na totalidade dos Estados católicos.


Gravura intitulada Scriptorium, faz parte de um manuscrito medieval e traz a imagem de um monge, Dionysius Exiguus, que desenvolveu o sistema do Anno Domini com base em seus cálculos sobre a Páscoa


A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, A INDÚSTRIA E O CAPITALISMO
Nenhum uso não rural marcou tanto a paisagem urbana e alterou os hábitos de vida da população mundial quanto a introdução da indústria nas cidades. Inicialmente, dando seqüência ao processo de esvaziamento do campo, promoveu um adensamento nunca visto na história das cidades.

O processo de urbanização, se por um lado explodiu os mecanismos de vivência da cidade medieval, também proporcionou um avanço tecnológico na arte de morar em grupo, que, se não ocorreu ao mesmo tempo, ficou pouco a dever ao ritmo de crescimento das cidades. Data desse período a redescoberta dos sistemas de transporte de água e de coleta de esgotos e de lixo.

Nesse sentido, a paisagem urbana marcada pelas chaminés industriais se torna o perfil dominante na maior parte das cidades inglesas e, a partir daí, se espraia para todo o globo.

No caso do Brasil, onde sempre houve a necessidade de mão-de-obra para o desenvolvimento das atividades econômicas, a marca da ocupação industrial se dá por meio da formação de bairros operários, onde os trabalhadores habitavam ao lado das instalações fabris. Nesses locais, em grande parte em habitações providas pelos próprios patrões, a vida se regulava pelo início e o fim do trabalho – os apitos das fábricas –,além de assinalar os intervalos – quando havia – para descanso.

Nesse caso, a contagem do tempo transformava-se em mais um instrumento para controle da vida coletiva, marcando e conformando a vida do operariado. O maravilhoso filme de Charles Chaplin, Tempos modernos, nos mostra uma visão caricatural desse processo em que o tempo da indústria conforma a vida cidadã.

Talvez seja o caso de pensarmos aonde essa velocidade toda nos levará. Nos países que eles dispõem de mais recursos econômicos, o tempo tem andado na contramão de volta a um ritmo mais humano. No entanto, por hora, ainda estamos subordinados ao “tempo é dinheiro”, e não podemos nos arriscar a parar, até porque os relógios presentes em cada pedaço de rua e os que nos vigiam do alto dos prédios prenunciam que não temos saída. Temos de correr.


Pintura em óleo sobre tela de Julius Köckert (1827-1918), datada de 1864, encontra-se na Maximilianeum Foundation, em Munique, Alemanha, e retrata encontro entre Harun, califa de Bagdá, e Carlos Magno

REFERÊNCIAS
PIRENNE, Henry.História econômica e social da Idade Média. Ed. Mestre Jou. São Paulo. 1971.
FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média: Nascimento do Ocidente. Editora Brasiliense. São Paulo. 1986.
LE GOFF. Jacques. Mercadores e banqueiros da Idade Média. Ed. Martins Fontes. São Paulo. 1991.
– Jacques. O apogeu da cidade medieval. Ed. Martins Fontes. São Paulo. 1992.
– Jacques. Por amor às cidades. Editora Unesp. São Paulo. 1997.
ARGAN. Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. Ed Martins Fontes. São Paulo. 1998.
ANDERSON, Perry. Passagens da antiguidade ao feudalismo. Ed. Brasiliense. São Paulo. 1992.
DONATO, Maurício. História do calendário. Edições Melhoramentos. São Paulo. 1976.



HELENA LADEIRA WERNECK é arquiteta e urbanista pela Unisantos, mestre em Planejamento Metropolitano pela Universidade de Roma. Coordenadora do Curso de Arquitetura e urbanismo das Universidades de Guarulhos e do grande ABC. Professora de Sociologia Urbana e de História e Teoria da Arquitetura. Humanos, categoria Literatura.

Revista Leituras na Historia

Os 121 contra a guerra da Argélia

Os121contra a guerra da Argélia
Durante a luta pela independência da Argélia, intelectuais de esquerda assinaram um manifesto contestando a política da França, e alertaram a opinião pública sobre a violência cometida pelas tropas francesas na colônia africana

HELENICE RODRIGUES

A Argélia foi vítima da onda colonialista européia, que invadiu a África no século XIX. Na foto, argelinos reunidos em um café, em 1899



Tendo como subtítulo Declaração sobre o direito à insubmissão na guerra da Argélia, o Manifesto dos 121, lançado em Paris, no início de setembro de 1960, marcou a radicalização dos intelectuais de esquerda contra a guerra da Argélia (1954-1962). O documento representou um ato de contestação moral e política contra o Estado francês. Essa declaração foi uma resposta aos problemas surgidos nos primeiros meses de 1960, e dizia respeito à "insubmissão dos jovens soldados" e às "redes de apoio" à Frente de Libertação Nacional (FLN), partido socialista da Argélia, que lutava pela independência do país. O Manifesto também representou uma forma de reação a uma situação política bloqueada, principalmente após o fracasso das negociações de Melun . Frente a uma guerra que se eternizava, a esquerda progressista percebeu que era preciso agir de maneira eficaz e promover discursos mais incisivos.

Chefes da FNL que assinaram a declaração de "insurreição de 1o de novembro de 1954", na Argélia. Em pé: da direita à esquerda: Rabah Bitat, Mostefa Ben Boulaid, Didouche Mourad e Mohammed Boudiaf. Sentados: Krim Belkacem e Larbi Ben M'Hidi.


Em nome da "moral" e da "verdade", os assinantes do manifesto alertaram a opinião pública nacional e internacional sobre a violência e a arbitrariedade cometidas pelas tropas francesas na Argélia. Aliás, essa guerra colonial, jamais declarada pelas autoridades francesas, ocorreu em um contexto de censura e de opacidade na metrópole. A gravidade da situação na Argélia e na França impôs a urgência de uma ação coletiva: na colônia africana, eram comuns as torturas, o racismo e massacres de civis; na metrópole européia, aconteciam prisões de jovens soldados desertores, que recusavam participar do confl ito colonial, e dos civis que, por razões de princípios, concederam apóio (material, sobretudo) aos combatentes argelinos.

O APOIO AOS ARGELINOS
A chamada rede Jeanson (réseau Jeanson, em francês) foi um grupo de militantes comunistas, composta, em sua maioria, por jovens comunistas, sindicalistas e militantes cristãos, que se organizou na França, em 1957. Liderados pelo filósofo francês Francis Jeanson, eles apoiavam a independência da Argélia, hospedavam os membros da FLN e distribuíam dinheiro e papéis para os rebeldes; por isso também eram chamados de "porteurs de valises" . A prisão de vários integrantes da rede Jeanson, em fevereiro de 1960, acusados de apoiar a causa argelina, desencadeou grandes turbulências na imprensa francesa. Paralelamente, a publicação de dois livros revelou à opinião pública francesa a existência de casos de insubmissão e transgresdeserção por parte de jovens soldados e reservistas: Le Déserteur, lançado em 1960, de Maurienne (pseudônimo de Jean-Louis Hurst), e Le Refus, publicado no mesmo ano, de Maurice Maschino. Os primeiros casos de insubmissão ocorreram em 1956. Jovens comunistas e "cristãos da esquerda" se negaram a atacar o povo argelino e escolheram a "recusa de obediência" dentro do exército francês, ou seja: a prisão.

Portanto, é nesse contexto de repressão jurídica ("processo Jeanson") e de impasse político (fracasso das negociações de Melun), resultantes do confl ito argelino, que 150 personalidades francesas (inicialmente 121) decidiram redigir uma "declaração em favor do direito de insubmissão na guerra da Argélia". A carta foi publicada integralmente na revista Vérité - Liberté e se tornou objeto de censura nos demais meios de comunicação franceses.

Em resposta à proibição da divulgação, e como forma de irreverência, a revista de filosofia Les Temps Modernes (agosto/setembro de 1960) deixou em branco as duas páginas iniciais desse manifesto, seguidas, na terceira página, da lista dos assinantes.


Ao lado, Simone Beauvoir e Jean- Paul Sartre. Abaixo, André Breton: intelectuais em defesa da Argélia


OS ASSINANTES DO MANIFESTO


Concebido, inicialmente, como um "apelo à oposição internacional" por parte das redações das revistas Les Temps Modernes e Lettres Nouvelles, o Manifesto dos 121 dá margem a diferentes leituras.

Incontestavelmente, se ele representa uma ilustração de solidariedade dos intelectuais (da esquerda progressista) em relação aos membros da "rede Jeanson" e aos jovens reservistas dissidentes, o Manifesto desempenha também o papel de um testemunho de fidelidade, um gesto de transgressão intelectual e um sobressalto ético contra a continuidade da guerra da Argélia. Sem dúvida, esse último aspecto foi levado em conta por alguns assinantes que, em princípio, não concordavam inteiramente com as teses defendidas por Les Temps Modernes, entre elas, a da independência incondicional da Argélia.

Vale dizer que o combate ao colonialismo, por parte da esquerda francesa, deu margem a diferentes concepções de uma ação intelectual e a posições políticas antagônicas. Se, para a esquerda moderada, a violência na Argélia derivava dos abusos da colonização, em contrapartida, para os progressistas, a empresa da colonização é, por sua essência, a própria violência. No entanto, a partir dos acontecimentos de 1960, a posição da esquerda moderada tornou-se mais nuançada, admitindo, finalmente, que a colonização é um princípio de violência.

Detentores de um "capital cultural", os assinantes do Manifesto dos 121 (após sua publicação, o número atinge 255) constituem essa intelligentsia da esquerda heterogênea, vinda dos mais diversos horizontes políticos. Aliás, como bem constatou o sociólogo Jean-Paul Aron, "a partir de sua redação, o espírito dos 121 paira sobre a cultura (...). Desde o final da Segunda Guerra Mundial, não se tinha visto a manifestação de uma oligarquia tão sublime, de uma fraternidade dissidente tão heróica. A partir de então, entre os intelectuais parisienses, se fala de fulano e beltrano: 'ele faz parte dos 121', como se dizia, em 1945, a propósito dos gaullistas:'ele é companheiro da liberação'".

Entre os intelectuais que assinaram o Manifesto, estavam Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Jean Pouillon, que faziam parte da equipe de Les Temps Modernes; André Breton, Michel Leiris e Maurice Nadeau, da Lettres Nouvelles; Robe-Grillet, Nathalie Sarraute, Marguerite Duras, Maurice Blanchot, escritores representantes do estilo literário Nouveau Roman; além de importantes nomes das artes e da esquerda francesa, como Simone Signoret, Pierre Boulez, Claude Sautet, François Truff aut, Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal- Naquet, Henri Lefèvre, Hubert Damisch, André Mandouze e Robert Barrat.

Guerrilheiro do Exército de Libertação Nacional durante a Guerra da Argélia (1958)



O IMPACTO DOS 121
Recusando toda forma de moralismo abstrato, o Manifesto dos 121 colocou explicitamente a questão do direito à insubmissão "passiva" contra o arbitrário e a violência, e conotou a idéia da "desobediência civil". Nesse sentido, sua oposição fundamental à "razão de Estado" se justificou pelo caráter "imoral" de uma guerra colonial. A "insubmissão" e a "desobediência civil" se legitimaram como formas de reação às opressões e às coerções dos homens.

Conseqüentemente, o impacto dessa resolução teve repercussões no exterior: declarações e cartas de solidariedade aos "121" não tardam a ser redigidas pela classe intelectual na Inglaterra, Alemanha, Itália e Estados Unidos. Enquanto detonador, o manifesto dos "121" alterou, indubitavelmente, os dados do problema da insubmissão e da deserção na guerra. Além do mais, ele contribuiu para enfatizar os interesses políticos específicos de cada formação (direita/esquerda), assim como as oposições fundamentais que separavam as diversas formações da esquerda (do Partido Comunista - PC - ao Partido Socialista Unificado - PSU), assim como as clivagens existentes dentro de cada partido e movimento.

Editor-chefe da Les Temps Modernes, Marcel Péju, advertiu: "tanto no PC como no PSU, e também em centrais sindicais, entre os leitores do L'Express, como os do France-Observateur, encontram-se, cada vez mais, homens e mulheres dispostos a romper com as habilidades, as cautelas; rejeitar o verbalismo da esquerda e a se orientar em direção às ações radicais" . Ora, o Manifesto dos 121 provocou novos posicionamentos no interior do campo intelectual, obrigando um número significativo de intelectuais a aparecer, a abandonar o domínio do não-dito, o silêncio tático e a participar do debate da cité.

UMA GUERRA CENSURADA


A guerra da Argélia, que durou de 1954 a 1962, e matou cerca de 170 mil pessoas, caracterizou-se pela guerrilha, pelo terrorismo contra civis e pela prática de tortura de ambos os lados. O confl ito também foi marcado pela forte censura da imprensa: os correspondentes que ousavam escrever sobre as atrocidades que as tropas francesas cometiam contra o povo da Argélia foram presos e torturados. Jornais franceses como o France-Observateur e o L 'Humanité, que publicaram notícias como a execução de mulheres e crianças argelinas, tiveram seus exemplares apreendidos.

Os principais partidos revolucionários da guerra foram: a Frente de Libertação Nacional (FLN) e o Movimento Nacional Argelino (MNA). Ambos almejavam a independência da Argélia; contudo, a FLN queria implantar um governo socialista, e a MNA desejava seguir a política do general francês Charles de Gaulle. Essa discordância entre os argelinos acabou gerando, de fato, duas guerras: uma contra a França, outra entre a FLN e a MNA.

No final, a FLN acabou ganhando a guerra e os franceses reconheceram a independência da Argélia em 5 de julho de 1962. A República Popular Democrática da Argélia foi proclamada, e a FLN tornou-se o partido único do país. Mas na década de 1980 o multipartidarismo foi instaurado. A partir da década de 1990, a mudança do regime socialista para a economia de livre mercado começou a ser desenvolvida na Argélia, por meio do controle do governo.

A ação pressupôs novas formas de protesto: a passeata do dia 27 de outubro, por exemplo, em solidariedade ao Manifesto dos 121; os debates que se iniciam dentro dos partidos políticos da esquerda, assim como a redação de outros manifestos (o da esquerda moderada) e de "contra-manifestos".

No momento em que as inculpações e as disposições ministeriais atingiram os funcionários e os artistas, que foram alvos de punições, a solidariedade da esquerda com os "121" se fez sentir.


Enquanto a guerra da Argélia se articulava internamente, tal como na imagem do Congresso de Souman (1955), intelectuais da esquerda francesa lutavam em defesa da libertade argelina em território francês, entre eles, o filósofo Paul Ricoeur

Depois do Manifesto, a Argélia e a França nunca mais seriam as mesmas, tamanho o engajamento dos signatários

Embora discordando politicamente com o teor do Manifesto, os partidos políticos da esquerda (do Section Française de l'Internationale Ouvrière - SFIO - ao Partido Comunista Francês - PCF), contestaram tais medidas de repressão, sobretudo por se oporem à continuação da guerra.

Fiéis aos princípios leninistas, o PCF condenou o ato de insubmissão, em razão mesmo de sua concepção da luta armada. Segundo o jornal comunista L'Humanité (de 16/10/60), "os soldados comunistas devem participar de todas as guerras, mesmo sendo elas reacionárias".

Durante o mês de setembro de 1960, houve a cristalização de um movimento, cuja amplitude "sacudiu a esquerda, escandalizou a direita, emocionou o poder e surpreendeu, até mesmo, seus promotores", afirmou Les Temps Modernes (outubro/ novembro de 1960). As petições se sucederam nos meses seguintes, ampliando, assim, o fenômeno de engajamento intelectual. A primeira delas, o Manifesto dos intelectuais franceses, na verdade, um "contra-manifesto" assinado por 300 personalidades da direita, condenou de maneira virulenta as "declarações escandalosas" e se posicionou em defesa dos valores da França e do "Ocidente".

A segunda petição, o "manifesto dos estudantes, professores e sindicalistas", intitulada Em favor de uma paz negociada na Argélia, publicada na revista L'enseignement public (mês de outubro), foi idealizada, originalmente, como uma proposição coletiva de apoio e solidariedade aos 121. Fundamentada no princípio de "uma paz negociada", esse manifesto exprimiu a opinião de uma fração política da esquerda moderada, como a da esquerda cristã. No entanto, se observarmos melhor a lista dos intelectuais peticionários, constatamos a representatividade da nova tendência paradigmática que emergia no cenário intelectual francês, nos anos 60. Aderiram a esse novo manifesto, entre outros: Georges Canguilhem, Vladimir Jankélévitch, Ernest Labrousse, Claude Lefort, Roland Barthes, Paul Ricoeur, Edgar Morin, Maurice Merleau-Ponty, Jean-Marie Domenach.

Após a prisão pelo exército francês, os dirigentes da FNL são levados em direção ao Cairo (Egito), em outubro de 1956



A VONTADE DE AGIR
Além dessa solidariedade aos "121", divergências de posições, no entanto, se fizeram sentir em relação aos problemas levantados no primeiro manifesto, como a insubmissão. Aliás, próximo às posições da esquerda cristã, Paul Ricoeur, em um texto publicado na revista Esprit (outubro de 1960), tornou essa questão mais inteligível. "Não aconselho a insubmissão (...), mas recuso condená-la", afirmou o filósofo. Segundo ele, existia, entre a esquerda intelectual e os insubmissos, uma mesma percepção da "profunda significação" do confl ito: a guerra "ilegal", contra um povo que aspirava à sua liberação política. A mesma percepção apareceu em relação ao ato de insubmissão e à sua representação. Na opinião de Ricoeur, a recusa em admitir o recrutamento de novos jovens combatentes correspondeu, sem dúvida, a "uma forma de não cooperação". "Ora, inelutavelmente, nós nos engajamos, de uma forma ou de outra, a defender a não cooperação" (p. 1606). Mas, ao mesmo tempo, ele constatou a ineficiência da política francesa, "a inércia da esquerda" e, conseqüentemente, a diminuição das chances de uma paz negociada.

Ricoeur argumentou a ilegalidade da guerra e desaprovou os métodos de luta armada adotados

Por outro lado, segundo Ricoeur, o apelo à insubmissão colocou o problema da ilegalidade do Estado e, por vias de conseqüência, o perigo de uma ruptura com o Estado (posição da esquerda moderada). De acordo com o filósofo, apesar da evidente ilegalidade da guerra, o Estado possui uma base de legalidade, uma forma constitucional que permite outras formas legais de ação. Desaprovando,assim, o apóio à FLN, Ricoeur insistiu, todavia, na necessidade de uma "ação de massa", capaz de alterar o curso da política.

Nesse ano de 1960, as palavras "ação" e "agir" substituíram, nos discursos das revistas da esquerda moderada, a palavra "engajamento". A concepção de uma "ação" intelectual inscreveuse na lógica da própria filosofia, ou seja, essa ação não possuiu um projeto definido, uma vez que ela representou em si mesma um projeto universal, tendo por único objetivo a recusa do abstrato e a vontade de agir. Ir além do simples protesto moral, da indignação, e realizar uma "ação" política: tal era o projeto da esquerda progressista. Lembramos que, na perspectiva existencialista, a ação (práxis) pressupõe sempre uma mudança social.

O SIGNIFICADO DA AÇÃO
Embora as revistas Esprit e Les Temps Modernes fossem governadas pelos mesmos princípios de justiça, democracia e liberdade, seus respectivos engajamentos tomaram rumos diferentes, em razão de suas concepções distintas de ação ou de "práxis". A ação, na perspectiva de uma revista como Esprit se confundiu com a refl exão, que enfatizava o debate, fazendo da pedagogia (realização de congressos, colóquios) uma de suas principais vocações. No entanto, essa "ação" ou esse projeto de "ação" raramente ultrapassava o nível do discurso.

Em contrapartida, na moral existencialista, expressada na Les Temps Modernes, o engajamento devia se traduzir por atos reais. Nessa perspectiva, a atitude moral do intelectual só podia ser eficaz se ela supunha uma mudança de ordem política. O engajamento da revista contra a guerra da Argélia assumiu, desde o início, a forma de um combate político. Por um lado, ele era inseparável de uma vontade de reforma da esquerda; por outro lado, ele era solidário à FLN. Assim, as iniciativas tomadas pela revista - os manifestos, os apelos, as passeatas - correspondiam à vontade de concretização de seus ideais morais e políticos. Afinal, Les Temps Modernes desempenhou um papel fundamental enquanto "tribuna" do diferente. Em outras palavras, tomando uma posição coerente em favor das vítimas da repressão, a revista alertou uma fração da opinião pública sobre a existência de campos de internamento, de casos de torturas e de violências perpetradas na Argélia.

A ação intelectual, em favor da liberdade da Argélia, foi respaldada pelo discurso e pela palavra


COLÔNIA LIBERTADA Memorial à Guerra da Argélia, localizado em Paris e criado pelo artista Gérard Collin-Thiébaut


Se, do ponto de vista existencialista, o pensar e o agir não parecem constituir uma aporia, a concepção de uma "ação" intelectual, equivalente à noção de mudança, não poderia ter outro suporte pedagógico que não fosse o discurso e a palavra. Nos primeiros anos do confl ito argelino, grande parte da população francesa se opunha à independência da Argélia. Em contrapartida, no final de 1960, a maioria dela se manifestava a favor. A evolução das posições políticas dos intelectuais da esquerda moderada e dos partidos da esquerda tradicional (PCF, SFIO, PSU) pareciam ser concomitantes às mudanças ocorridas na opinião francesa.

O jogo de forças específicas existentes, naquele momento histórico, no campo intelectual (em que as paixões se misturam, inexoravelmente, ao desejo de racionalidade), condicionou um tipo particular de discurso, que tentava exprimir um "valor de verdade". Nesse contexto (de julgamento de valores e de propostas de resistências), nada mais natural que o emprego freqüente dessa palavra, embora faça objeto de conotações diversas. Assim, os diferentes discursos, que tentaram provar a legitimidade de suas teses respectivas, recorreram ao substantivo "a verdade". No "processo Jeanson" empregou-se a expressão "difusão da verdade". Por sua vez, a revista Les Temps Modernes insistiu: "a verdade é que a violência traz consigo um sentido novo; que ela encobre uma outra política, recusada, de maneira precisa, pela esquerda dita respectueuse", em alusão à peça teatral de Sartre, La putain respectueuse.

No Em favor de uma paz negociada, manifesto de solidariedade aos 121, a palavra "verdade" reforçou a convicção da necessidade de uma solução imediata do problema argelino. "Os franceses pressentem a verdade. A verdade se impõe, independentemente de toda doutrina política e moral, antes de todo debate sobre o nacionalismo argelino, sobre a natureza da FLN e sobre a do regime instalado na França", advertiram seus autores.

Sem dúvida, o "tempo da ação" marcou uma nova fase no engajamento dos intelectuais franceses contra a guerra da Argélia, fase que correspondeu, incontestavelmente, a uma evolução da opinião pública, já resignada a uma inevitável independência da Argélia.

HELENICE RODRIGUES é Doutora na Université de Paris X- Nanterre em História (sobre revistas intelectuais francesas e o fenômeno do engajamento durante a guerra da Argélia). Pós-doutorado no Institut d'Histoire du Temps Présent, na França. Professora associada na Universidade Federal do Paraná e bolsista do CNPq.

Revista Leituras da Historia

BOLÍVIA: LONGE DE DEUS, LONGE DO MAR


BOLÍVIA: LONGE DE DEUS, LONGE DO MAR


Palácio Quemado, em La Paz, sede do governo boliviano, de onde Evo Morales dita as regras do país em grave crise interna


Desde suas origens, a Bolívia é uma região espoliada, invadida, conquistada. Antes da chegada de Colombo, a Bolívia foi sede da civilização de Tiahuanaco, notável por sua construção civil. O Império Inca invadiu esse território, no século XV, matando e escravizando os habitantes. A região passou a ser chamada de Collasuyu.

Os espanhóis, assim que chegaram à América do Sul, no início do século XVI, trataram de esmagar o Império Inca e de se apropriar das minas de ouro e prata, muitas delas localizadas onde hoje é território boliviano. Como a Bolívia ficava longe do mar, os espanhóis decidiram submetê-la ao vice-reino do Peru, com sede em Lima, e mais tarde ao de La Plata, com sede em Buenos Aires. Os moradores da Bolívia, quíchuas e aimarás, foram submetidos à servidão, praticamente nos mesmos moldes de exploração praticados pelos antigos invasores incas.

No começo do século XIX, a América Espanhola foi sacudida por um processo de independência, liderado pela aristocracia fundiária branca, que morava no continente. Os criollos (os brancos latifundiários, nascidos no continente americano) eram relativamente raros na Bolívia. Por isso, a independência tardou: embora a luta tenha começado em 1809, no território boliviano, a região continuou sob domínio da Espanha até 1825. A Bolívia só deixou a situação de colônia graças aos soldados venezuelanos, peruanos e chilenos, liderados por Simón Bolívar, a quem o país deve o seu nome.

A HERANÇA DOS CAUDILHOS
Em princípio, a Bolívia estava unida ao Peru. Mas os quíchuas e aimarás não se submetiam às decisões do governo de Lima, nem tinham importância econômica para a jovem nação peruana.

Disso resulta a soberania boliviana, que ocorreu mais porque os peruanos não viam utilidade naquele território de índios ariscos e macambúzios, e menos por interesse daqueles que se tornavam totalmente independentes.

Quíchuas e aimarás não tinham motivos para estar juntos, exceto para serem explorados economicamente, passarem por uma severa opressão social, sofrerem humilhante dominação política. Os caudilhos - aristocratas criollos que chefiavam bandos de delinqüentes - se sucederam na presidência da Bolívia, vendendo partes do território do país e embolsando o dinheiro. A situação fica ainda mais trágica, nos anos seguintes, quando Chile e Peru iniciam a Guerra do Pacífico (1879 - 1881). A Bolívia ficou do lado do Peru: perdeu a guerra e sua saída para o mar.

Será que a Bolívia, com os seus quase dez milhões de habitantes e mais de um milhão de km2, é um país inviável? Será que essa colcha de retalhos de etnias quíchuas, aimarás e européias, com apliques de mestiços chollos, não possui uma referência unificadora, uma identidade nacional? Será que os bolivianos são incapazes de compreender que o todo antecede os interesses das partes e das facções?

Os descendentes de europeus, que habitam a media luna (os departamentos de Pando, Beni, Santa Cruz, Chuquisaca e Tarija), realizam dominação econômica, trazendo para dentro do território boliviano o colonialismo praticado, a partir de fora, pelas grandes potências econômicas mundiais. A media luna possui um terço da população boliviana, mas detém mais de dois terços do PIB do país. A prosperidade da media luna se dá às custas do altiplano. Os brancos "civilizados" dominam os índios "bárbaros".

SOCIALISTAS DE CLASSE MÉDIA


Exército chileno durante a Guerra do Pacífi co (1879-1884); o apoio da Bolívia ao Peru custou a única saída boliviana para o mar

A imbecil polarização entre civilizados e bárbaros alimenta uma nova (e igualmente equivocada) dinâmica: a do socialismo contra o capitalismo.

Os socialistas de classe média latino-americanos não conseguem perceber as limitações históricas e as insuficiências econômicas do nosso subcontinente. Aqui, o capitalismo ainda não chegou: nossos empresários são guiados por uma mentalidade feudal e nossos trabalhadores resignam-se a um comportamento servil.

O socialismo de classe média é pobre de teoria e cego para a realidade regional. Seu produto mais característico foi a revolução foquista e desenraizada, produzida por Ernesto Che Guevara. Não por acaso, o foquismo mostrou-se tragicamente equivocado em pleno território boliviano. O curioso é que essa teoria, mil vezes desmentida pelos fatos, continua a ser a orientação dominante das idéias e práticas da esquerda latino-americana. Alguns intelectuais pressupõem que os pobres precisam de quem os libertem, já que são incapazes de se libertarem a si próprios e de lutarem por seus interesses.

O socialismo de classe média latino-americano, na prática, amplia o confl ito de nacionalidades inconclusas, e instrumentalizam novas personificações da barbárie, como é o caso do socialismo cocaleiro de Evo Morales. O que se passa na Bolívia é a propagação do sentimento de revanche, como se fosse equivalente de socialismo e revolução. Não é. A vingança não liberta e não revoluciona. Não é possível refundar raças; não é possível apagar séculos de iniqüidades, usandose a borracha da insurgência dos oprimidos. O socialismo de classe média latino-americano nega a diversidade, que é própria do mundo contemporâneo e da democracia; não aceita a convivência entre os diferentes.

Ao se aproveitar, de maneira oportunista, dos confl itos sociais e étnicos bolivianos, o socialismo de classe média gerou, na Bolívia, um pesadelo chamado Evo Morales. Esse mestiço fortaleceu- se na economia marginal da coca e no atraso que ela representa. Evo utiliza-se do socialismo, em seu discurso, apenas para encobrir seu populismo em uma embalagem de luta de classes. Em sua ansiedade de aproveitar o momento promissor da economia boliviana, por conta do gás natural, Evo Morales agiu rápido demais e de maneira inábil: corre o risco de afundar o país em uma guerra civil.

A Bolívia não tem dinheiro para investir na extração de gás, pois não possui a tecnologia necessária. Precisa tratar bem os parceiros. Se isso não ocorrer, a Bolívia, que está longe do mar, ficará também longe de sua redenção econômica. E bem perto do inferno: da guerra fratricida.

Revista Leituras da Historia

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Fuga da Coreia do Norte


Um ônibus cheio de trabalhadores ilegais do Camboja e de Mianmar adentra uma prisão de imigrantes. Por vezes, norte-coreanos são confinados no local, aguardando traslado para a Coreia do Sul. Seul acolhe 40 pessoas, ou mais, toda semana.
Foto de Chien-Chi Chang
A escuridão abate sobre o rio Mekong, fornecendo cobertura para os norte-coreanos que se esgueiram em barcos vindos do Laos para a Tailândia.
Foto de Chien-Chi Chang
Exaustos demais para celebrar sua saída da China, os fugitivos descansam depois de 16 horas caminhando por montanhas e matas. Ainda vulneráveis à detenção no Laos, os desertores trocam suas roupas por outras limpas, camuflando-se de turistas.
Foto de Chien-Chi Chang

Desertores se escoram como podem para combater o enjoo da viagem de carro, enquanto o guia os conduz por estradas vicinais, evitando os postos de controle policial perto da fronteira com o Laos. As mulheres atualmente representam 80 por cento dos refugiados norte-coreanos que se evadem através da China.
Foto de Chien-Chi Chang
As batidas policiais chegam a capturar centenas de vítimas. Sem documentos legais, "Negro" escapou das abordagens policiais, durante sua angustiante viagem de 40 horas de trem, fingindo estar adormecido ou embriagado.
Foto de Chien-Chi Chang
Em uma estação de Pequim, policiais chineses costumam procurar norte-coreanos que tentam escapar pelo país por trem.
Foto de Chien-Chi Chang

O desertor, chamado de "Negro" no texto, escapuliu cruzando o Tumen congelado à noite. Na China, ele escondeu-se no abrigo de uma igreja, com medo de ser deportado.
Foto de Chien-Chi Chang

Em um dia gelado de dezembro, trabalhadores se reúnem em uma fazenda coletiva em péssimas condições na província de Hamgyong Norte, perto da fronteira com a China. Acredita-se que o governo norte-coreano só coloque cidadãos leais ao longo de sua fronteira do norte, porque depende deles para obter informações sobre atividades suspeitas. Esta é a região mais pobre e mais sujeita à fome do país, e é a região de onde vem a maior parte dos desertores.
Foto de Chien-Chi Chang


COREIA DO NORTE. Em um bunker à margem do rio Tumen, soldados têm ordem de atirar em quem tentar entrar ou sair da Coreia do Norte. Postes em forma de cruz sustentam fios eletrificados. Muitos guardas aceitam propina para deixar desertores saírem para a China.
Foto de Chien-Chi Chang
Arame farpado demarca os limites de Rússia, China e Coreia do Norte no rio Tumen. Noutros trechos a fronteira é vulnerável.
Foto de Chien-Chi Chang
Revista National Geographic Brasil

África subsaariana: a última fronteira do capitalismo


África subsaariana: a última fronteira do capitalismo
Herbert Schützer
Última região a ser integrada ao sistema capitalista, a porção subsaariana do continente africano, está sendo disputada pelas grandes potências mundiais e por potências médias para atender aos mais diferentes interesses. Ainda sobre as ruínas do neocolonialismo e suas consequências trágicas culturais e econômicas, este espaço não apresentou um processo evolutivo do capitalismo devido a sua proximidade com a Europa e sua expansão nos primeiros passos da mundialização capitalista do século XV. A África subsaariana é o novo e último espaço para o capitalismo alcançar sua universalidade e, consequentemente, estabelecer sua dominação generalizada pelo planeta e de fato chegar ao chamado “fim da história”. (FUKUYAMA,1989) Nesse caso, considerando a China como um caso peculiar a ser estudado. Nesta “nova” arena os principais países do sistema mundial e alguns países de segundo escalão estão colocando em ação suas geopolíticas “soft power”, em geral, para atingir as maiores vantagens comparativas possíveis . Desde o final do século XX e este início do XXI, o panorama subsaariano vem apresentando atrativos na esfera econômica, que atiçam a cobiça das potências mundiais e suas empresas, que acabam contribuindo para a manutenção de um espaço desarticulado e um Estado decadente, incapaz de garantir suas premissas sócio-econômicas devido à cobiça que promove nas classes dominantes cooptadas locais. Com isso, os países subsaarianos tornam-se presas fáceis dos diversos interesses dispostos nas diversas esferas da vida dos países, que não adotam nenhum critério seletivo nas parcerias propostas e as possibilidades de consolidação das suas estruturas ficam comprometidas. Essa falta de objetivos é, possivelmente um ranço do colonialismo e suas artificialidades políticas e sociais, como também da Guerra Frias e suas influências nefastas para a formação da jovem região independente.
Após o fim da Guerra Fria, as potências centrais e algumas potências médias, entre elas o Brasil, voltaram seus interesses para o último ( além da Antártica que, por força de suas condições naturais e do Tratado Antártico, continua preservada) espaço mundial ainda não totalmente inserido na dinâmica da globalização – a África Subsaariana com sua diversidade a ser explorada pela lógica neoliberal. Lógica essa que trás em seu bojo uma gama de práticas que seduzem as classes dominantes e médias de países que procuraram a modernização de suas sociedades, com a idéia de acesso fácil às inovações tecnológicas ao custo de uma flexibilização econômica e política em prol do capital internacional. (CARVALHO. 2002)
Na década de 1990, surgiu uma concepção política abrangente entre as grandes potências (como também na ONU) de que o engajamento delas se fazia necessário para garantir um futuro mais promissor para a África Subsaariana. Europeus e norte-americanos lançaram propostas assistencialistas para a região, no intuito de remediar a tragédia subsaariana com a canalização de recursos dos países ricos, a fim de modernizar o sistema de produção dos países mais carentes, tendo por base a criação de um sistema eficiente de produção em alguns setores primordiais da economia da região. Porém essas iniciativas, retóricas ou não, foram paulatinamente superadas pelos interesses econômicos imperialistas de um capitalismo globalizante e pelas dificuldades endógenas que a região subsaariana apresentava. (PIMENTEL. 2000) Na intersecção dessas duas variáveis, a região subsaariana tornou a agonizar, em virtude do recrudescimento da violência de diferentes naturezas e das epidemias que se alastraram num meio historicamente carente, provocando um enorme sofrimento da população. Os conflitos anteriores, alimentados pela Guerra Fria, continuaram devido à marginalização estratégica da região no período subseqüente e também devido aos paradigmas coloniais que subsistiram.

Passado esse hiato do pós-Guerra Fria, novas geopolíticas nacionais estão materializando interesses distintos, num espaço de grande diversidade e com traços colonialistas que se imbricam à nova realidade do continente, quase cinquenta anos após o processo de independência. As potências usam diferentes práticas de penetração política e econômica e se sobrepõem às políticas locais e aos interesses do principal país da região, a África do Sul. Contudo, todos enfrentam os paradoxos de uma região com uma história que penetra na antiguidade, cujos valores culturais perpassaram pelo colonialismo europeu e por suas conseqüências e são vivificados na atualidade. Soma-se a isso, por um lado, a presença dos países ocidentais e seus paradigmas, constituindo ideais de legitimação civilizacional, que entram nesse jogo geopolítico de acumulação de poder na porção subsaariana da África. Por outro, as potências orientais legitimadas por diferentes valores, mas atuando com os mesmos objetivos na busca de vantagens comparativas. (FIORI, 2007)
O caráter destoante da política externa brasileira no sentido da autonomia subsaariana com uma geopolítica humanista, segundo o discurso das autoridades políticas, corrobora a ideia da universalização capitalista e seu aparato legal e confirma a ação do país de alinhamento ideológico com os países que comandam o sistema mundial. O Brasil atua no sentido de colaborar com as potências mundiais e médias interessadas na região subsaariana usando as opções disponíveis no sistema mundial para países classificados como potências médias, procurando contrabalançar uma ação humanitária na África, com a participação nos fóruns liderados pelos países ricos. O que segundo Andrew Hurrell (2009), leva o Brasil a praticar o “bandwagoning” (indica o ato de aliar-se com a potências mundiais e agir livremente no cenário internacional servindo às finalidades de longo prazo a essas potências. O termo foi originalmente usado pelo cientista político Stephen Van Evera.), uma vez que contribui para uma organização do espaço subsaariano, que pode vir a ser mais útil ao sistema capitalista, contudo correndo o risco de latinizar economicamente a região subsaariana.
Dessa forma, as perspectiva para a África subsaariana podem ser positivas no sentido da sua organização do espaço e da consolidação do Estado, porém, numa projeção mais de longo prazo, o que se observa é uma continuidade das práticas já desenvolvidas pelas economias mais desenvolvidas em estruturas mais adequadas ao capitalismo. Os anseios subsaarianos parecem não ser considerado na suas diversidades, o ‘etnocentrismo’ capitalista não levam em conta as questões endógenas das populações locais, como fez com a América Latina. O Brasil precisa repensar sua geopolítica subsaariana, no sentido de reforçar as estruturas que garantam uma autonomia para os países, de forma que suas escolhas tenham espaço de manifestação interna e externa. Se de fato o país possui o compromisso declarado pelo governo de Lula e que ela se transforme numa política de Estado.

Bibliografia
CARVALHO, Leonardo Arquimimo. Geopolítica e Relações Internacionais. Curitiba. Juruá Editora. 2002.
FIORI, José Luís. O Poder Global. São Paulo. Editora Boitempo. 2007.
FUKUYAMA, Francis. The end of history. EUA The national interest. 1989.
HURRELL, Andrew. LIMA, Maria Regina S. HIRST, Monica. MACFARLANE, Neil. NARLIKAR, Amrita. FOOT, Rosemary. Os BRICs e a Ordem Global. Rio de Janeiro. Editora FGV. 2009.
PIMENTEL, José Vicente de Sá. Relações entre o Brasil e a África. Brasília. RBPI vol 43, número 001 p.05-23.. 2000.

Herbert Schützer é Graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP, pós-graduado em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP e mestrando em Geografia pela Universidade de São Paulo – USP (hschutzer@globo.com).

Boletim Meridiano 47

O acidente com o vôo 447: reflexões sobre os interesses do Brasil no Atlântico Sul


O acidente com o vôo 447: reflexões sobre os interesses do Brasil no Atlântico Sul
Edson Tomaz de Aquino
O Atlântico Sul não é elemento novo na política externa brasileira nem nos assuntos sobre a defesa nacional. Está presente desde a formação do país, com a chegada dos portugueses e todo o esforço em combater a presença de invasores, como se pode ainda hoje observar com as fortificações erguidas ao longo de toda a costa.

A crise do petróleo nos anos 70 ampliou a visão sobre a relevância da fronteira marítima para o país, não apenas como rota comercial, mas principalmente como área de recursos econômicos a serem explorados. Por diversas vezes, o país teve que rechaçar a presença ilegal de embarcações pesqueiras em suas águas. Exemplo disso foi o esforço que o país empregou para a delimitação de seu mar territorial em 200 milhas.

A Convenção das Nações Unidas sobre Direito do Mar (CNUDM), realizada em 1982, em Montego Bay, na Jamaica, surgiu como desdobramento dos debates do início dos anos 70, em que o Brasil teve papel relevante ao fixar o limite das 200 milhas náuticas. A CNUDM, em seu artigo 76, estabeleceu o processo pelo qual os países deveriam demarcar os Limites Exteriores da Plataforma Continental além das 200 milhas náuticas (LEPLAC). Segundo a Convenção, cada país deveria apresentar pedido de ampliação de sua plataforma no prazo de dez anos, depois que tivesse ratificado a convenção. O Brasil ratificou a CNUDM em 1994 e, portanto, deveria encaminhar seu pedido até 2004.

O mapeamento cientifico da plataforma continental brasileira começou a ser feita em 1987. O trabalho foi coordenado pela Marinha, em que foram investidos US$ 40 milhões, metade desse custo financiado pela Petrobrás. O levantamento, finalizado em 2004, foi apresentado à ONU, em que foi reivindicada a inclusão em sua plataforma de cinco áreas: cone do Amazonas, cadeia Norte brasileiro, cadeia Vitória e Trindade, platô de São Paulo e margem continental Sul.

Somente em abril de 2007 a ONU autorizou o Brasil a ampliar os limites de sua fronteira marítima, ao aprovar integralmente a inclusão do platô de São Paulo. As demais áreas reivindicadas foram aprovadas em 75%. Entretanto, a Marinha informou que o país continuaria reivindicando o restante da área mapeada.

A ampliação da área marítima sob a soberania brasileira incorporou novas obrigações do país no Atlântico Sul. Além de vigiar e monitorar seu mar territorial, cabe ao Brasil como signatário da Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar e da Convenção Internacional sobre Busca e Salvamento Marítimo, determinadas obrigações. Dentre elas, destaca-se o estabelecimento de um sistema de controle de posição de navios localizados no interior de área marítima sob sua responsabilidade, e resgate e salvamento de embarcações e náufragos. Para essas atividades, a área marítima considerada vai além dos 4,5 milhões de km² consagrados pelos limites da plataforma continental brasileira e atinge quase 14 milhões de km².

Políticas públicas para o desenvolvimento da pesca, da navegação de cabotagem, de pesquisas científicas, e mesmo atividades turísticas, englobam estratégias que buscaram aliar fatores não tradicionais de poder às ações exclusivas à esfera militar. Por outro lado, desdobram-se em políticas desenvolvimentistas no plano doméstico.

O reconhecimento da independência de Angola, nos anos 70, rompe um tratado não escrito com Portugal e marca o início de um processo de aproximação com a África Atlântica. O apoio do Brasil à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), a abertura de novas embaixadas e a parceria estratégica com a África do Sul refletem o esforço do país nessa direção. O projeto antártico brasileiro, com a instalação de base científica naquele continente, também visa ampliar a presença brasileira no Atlântico Sul.

Se por um lado o Brasil buscou se aproximar da África e se fazer mais presente no Atlântico Sul, por outro procurou afastar a presença de potências, como os Estados Unidos. Os interesses de Washington, nitidamente mais presentes em outras regiões e a relevância secundária do Atlântico Sul em questões de segurança, tornam a região uma das menos militarizadas do planeta. França e Reino Unido, entretanto, conservam possessões territoriais no Atlântico Sul, o que de certa forma favorece sua presença na região. A criação da Zona de Paz de Cooperação do Atlântico Sul, que teve o Brasil como um dos principais idealizadores, congrega apenas os Estados das margens americana e africana banhadas pelo Atlântico Sul. Afastar a presença de potências e garantir a manutenção do Atlântico Sul como área de paz e cooperação e santuário ecológico, por exemplo, permitem que os gastos com a defesa sejam minimizados.

O caráter dissuasório dessa política harmoniza-se com a escassez de recursos alocados no orçamento militar. Ainda que se considere um aumento expressivo nos investimentos militares para a defesa dos interesses brasileiros no Atlântico Sul, a cooperação e o direito são instrumentos imprescindíveis e fazem parte da tradição diplomática do país. São recursos que se coadunam perfeitamente aos laços históricos e culturais que o Brasil possui com a África. Também estão ajustados ao atual contexto político da região, de redemocratização e de abandono de programas de desenvolvimento de armas nucleares.

As operações de busca por vítimas do Airbus da Air France, pelos destroços e pela caixa preta, ocorrem com auxílio internacional. Nada a se opor à participação estrangeira, principalmente por se tratar de um fato que envolve interesses multinacionais. Contudo, a participação do Brasil nas operações de resgate, naquilo que lhe cabe, coloca à prova a capacidade do país em lidar com situações de desastre em seu mar territorial, a chamada “Amazônia Azul”. A escassez de recursos econômicos, em especial o petróleo e a inserção crescente do tema ambiental nas relações internacionais, podem gerar especulações semelhantes a que temos visto em relação à floresta amazônica. Para monitorar e proteger um imenso mar territorial e ao mesmo tempo atender às obrigações contraídas em tratados internacionais, o país necessita aplicar recursos tecnológicos adequados e suficientes para proteger área vital aos interesses nacionais, em sintonia com a força da tradição diplomática do país.

Edson Tomaz de Aquino é Doutor em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e coordenador do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Lusíada – Unilus (etomaz18@yahoo.com.br).

Boletim Meridiano 47

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