quarta-feira, 15 de julho de 2009

Crise política e golpe de Estado em Honduras e o retrocesso democrático na América Latina



Crise política e golpe de Estado em Honduras e o retrocesso democrático na América Latina
Taís Sandrim Julião
A história democrática da América Latina pode ser considerada recente se comparada às tradições norte-americanas e européias. Se avaliarmos o histórico da América Central, veremos que a questãopossui dimensões adicionais ao problema da historicidade, já que a reflexão nos leva a explorar aspectos relacionados a elementos centrais do sistema democrático contemporâneo, a saber, a efetividade e a estabilidade.

Ambas as características têm como pressuposto o papel fundamental do sufrágio universal, que por sua vez é garantido por uma Constituição que deve conter e representar os valores políticos esperados pela e para a sociedade. A transparência e a previsibilidade do processo eleitoral legalmente fundamentado sustentam, em grande medida, a legitimidade que os cidadãos atribuem tanto aos resultados, quanto ao processo em si.

Os eventos transcorridos neste último domingo (28 de junho) em Honduras, entretanto, colocaram em xeque estes fundamentos que, do ponto de vista da onda democrática que abarcou a América Latina de modo geral e a América Central em particular a partir da década de 1990, pareciam incorporados à lógica política destas regiões.

A história política de Honduras é marcada pelas dinâmicas estruturais que a presença do colonialismo ibérico e a influência direta dos Estados Unidos impuseram aos Estados da América Central. Após a sua independência do império espanhol no século XIX, Honduras figurou como mais um país que sofria intervenções norte-americanas e, diante disso, tinhasua soberania relativizada pelo peso do contexto regional em suas questões internas.

Esta tendência ficou particularmente acentuada a partir do final da década de 1970, quando então a América Central, sobretudo Nicarágua e El Salvador, passaram por agitações políticas relacionadas às atividades guerrilheiras na região e a preocupação norte-americana em deter possíveis focos esquerdistas.Honduras passou a figurar como base de apoio do exército dos Estados Unidos, e, diante desta importância estratégica para os interesses destes últimos, mantinha com este país um relacionamento bilateral marcado pela dependência econômica e pela pressão exercida nos processos políticos domésticos, notadamente em suas eleições.

Encerrado os anos da Guerra Fria, esperava-se que a região recuperasse paulatinamente a autonomia em suas decisões internas e que fosse possível diversificar os contatos internacionais, em especial àqueles de caráter econômico.Todavia, a presença norte-americana se impôs, e escassas foram e ainda são as alternativas de articulação que os países da região central do continente americano possuem.


No caso específico de Honduras, uma esperança surgiu a partir de 2006 quando foi eleito por vias democráticas o candidato a presidência Manuel Zelaya, do Partido Liberal. O presidente eleito apresentava propostas mais próximas à perspectiva da esquerda, trazendo para o debate questões cruciais para a realidade daquele país, a saber, sua dependência econômica e a pobreza generalizada que o caracteriza. O resultado deste posicionamento político de Zelaya foi um afastamento do país em relação aos Estados Unidos e uma maior aproximação aos Estados latino-americanos.

Nesse sentido, a eleição de Zelaya estava de acordo, por um lado, às expectativas dos cidadãos hondurenhos, que esperavam por uma política mais nacionalista, entendidas neste caso como mais próxima aos problemas básicos da economia do país e as necessidades da população. Por outro, enquadra-se na tendência à gauche que marca a democracia na América Latina, que desde 1990 vêm elegendo por vias legais e legítimas governos comprometidos com uma visão mais crítica da situação de seus países, inclusive em sua dimensão estrutural – que historicamente os colocam em posição desfavorável no relacionamento com outros países de modo geral, e com os Estados Unidos em particular.

O imbróglio que levou a deposição do presidente democraticamente eleito de Honduras está relacionado à consulta que seria realizada neste último domingo sobre a possibilidade de uma reforma constitucional.O projeto de Zelaya era de que, conjuntamente às eleições presidenciais, do Congresso e as municipais – que estão marcadas para novembro deste ano-, uma quarta consulta fosse realizada para averiguar se era o desejo da população que fosse convocada uma Assembléia Constituinte para reformar o texto constitucional. Assim, o presidente de Honduras buscava legitimar uma consulta adicional ao processo eleitoral regular previsto pela Constituição.

Esta atitude levou membros do próprio partido do presidente a decretar à inconstitucionalidade do procedimento, apoiados por setores do poder Judiciário e do Exército. Segundo os oposicionistas à consulta, o objetivo de Zelaya era político, acreditando que na nova Constituinte fosse inserida a possibilidade de reeleição do atual presidente. Desta forma, a justificativa para o golpe seria o risco de deturpação da democracia naquele país que a iniciativa do presidente eleito apresentava.

Roberto Micheletti, presidente do Congresso, foi quem liderou o processo de deposição do presidente Zelaya, apontando que haviam irregularidades jurídicas na consulta prevista para este domingo. Com o apoio do Exército, Zelaya, que legalmente permaneceria na presidência de Honduras até janeiro de 2010, foi preso e exilado na Costa Rica, assumindo Micheletti o chefe do executivo.

O golpe militar em Honduras gerou reações por parte da comunidade internacional. Na América Latina, o grupo de países que compõem a ALBA, liderado por Hugo Chávez, estão reunidos em Manágua para discutir o ocorrido, e colocam-se claramente em apoio ao presidente Zelaya. Os demais países sul-americanos reafirmam tal posição, concordando que tal episódio retrocede os avanços democráticos conquistados por todo o continente. Até o momento nenhum país se manifestou favorável ao reconhecimento da presidência de Micheletti em Honduras. Uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) deverá ser chamada nos próximos dias para tratar do tema.

Os Estados Unidos e a União Européia defendem que Honduras deve respeitar o processo democrático e garantir que o presidente eleito volte ao cargo.Todavia, a situação coloca um desafio adicional à Barack Obama, que vêm mantendo o baixo perfil de relacionamento com a América Latina, apesar de ter declarado que um de seus objetivos é retomar a atenção dada à região. Este, pois, é um momento importante para Obama, que deverá se colocar ativamente no processo sob pena de ser acusado de negligência, como já foram outros presidentes dos Estados Unidos.

O caso de Honduras nos traz a oportunidade de empreender uma reflexão importante sobre a estabilidade democrática da América Latina. A região, que possui em seu histórico golpes militares, intervenções externas e instabilidades políticas de tipos variados, vê-se no século XXI mais uma vez desafiada. Século este em que, após assistir eleições tranqüilas e governos bem sucedidos da esquerda, mais do que nunca fazia-nos crer na consolidação da democracia. Eventos como as reformas constitucionais venezuelana e boliviana, que versavam sobre o processo de reeleição, representam sem dúvidas elementos de desconfiança acerca do fundamento político de iniciativas de consulta tais como as tomadas por Zelaya.

Estariam as democracias latino-americanas transformando-se democraticamente em ditaduras de uma esquerda reformada? Ou seriam estas instabilidades características à região, e, nesse sentido, cíclicas, uma espécie de elemento estrutural tal como a dependência econômica? Ou os valores democráticos da América Latina que sustentam seus Estados possuem particularidades que tornam estes últimos mais complexos e, como vêem mostrando os fatos, politicamente mais instáveis?


Este momento de crise, marcado por perguntas difíceis de serem respondidas ao calor dos fatos, não deve nos eximir, todavia, da necessidade e da responsabilidade de realizar uma reflexão crítica e em perspectiva histórica sobre os desafios que a América Latina deverá enfrentar para sustentar nas próximas décadas suas conquistas democráticas.

Taís Sandrim Julião é Mestranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (taisjuliao@unb.br).

Boletim Meridiano 47

A importância da China na resolução da questão nuclear na Península Coreana


A importância da China na resolução da questão nuclear na Península Coreana
Wilson Tadashi Muraki Junior
Os recentes desenvolvimentos em matéria de segurança no Nordeste Asiático apresentam-se como grandes desafios para a comunidade internacional, especialmente para os países da região. Assim, a nuclearização da Península Coreana é um assunto que incomoda também a China, e, ainda que a Coréia do Norte seja reconhecida como sua aliada, o aumento das provocações de Pyongyang é um assunto para o qual Beijing deve desenvolver novas fórmulas de ação, já que é provável haver um esgotamento daquelas mais tradicionais, características do relacionamento bilateral recorrente nos últimos anos.

A China tem sido o grande ponto de apoio do regime comunista da Coréia do Norte, enviando comida e energia e, ao mesmo tempo e com o suporte russo, evitando a aprovação de novas sanções pelo Conselho de Segurança da ONU que punissem de forma mais severa os caprichos de Pyongyang. Desse modo, a China mantém-se como centro da órbita de influência que incluiria o país vizinho, ou seja, seria um espaço natural de projeção dos interesses chineses.

Nesse sentido, uma maior aproximação do modelo sócio-político da Coréia do Norte com aquele existente no território sob domínio do Partido Comunista Chinês seria uma demonstração clara do poder da potência em ascensão e, mais do que isso, também representaria um modelo que poderia ser seguido por outras sociedades em diversas localidades. Assim, a combinação de regime político comunista com gradativa abertura econômica sob controle do Estado, que são aspectos que resumem de forma sintética o modelo chinês, embasaria um arquétipo de ‘alternativa chinesa’ ao predomínio das democracias liberais de economia de mercado do Ocidente.

A aplicação disso ao caso da Coréia do Norte poderia assemelhar-se ao crescimento econômico que a China mesma tem testemunhado, ao mesmo tempo em que a viabilidade macro-estrutural também garantiria a própria viabilidade do governo de Pyongyang, que é em essência comunista e, se não totalmente fechado em si mesmo, ainda assim pró-Beijing. Talvez fosse a única maneira de, no longo prazo, assegurar-se a permanência do modelo político do pequeno país comunista.

Algo semelhante a abertura econômica tem acontecido, mas isso é mais fruto de cooperação derivada da aproximação das duas Coréias em anos anteriores do que da própria adoção de um modelo parecido com o chinês de Deng Xiaoping. O pólo industrial de Kaesong conglomera, em território norte-coreano, empresas do Sul que se utilizam da mão-de-obra barata daquele país para a confecção de produtos a preços baixos. Além disso, Kaesong é importante fonte de renda para o próprio governo de Pyongyang. Nesse sentido, longe de ser algo como ‘zona econômica especial’, em que há incentivos para investimentos privados em ambiente estável, Kaesong é fruto do pragmatismo encontrado entre os dois países, cujas regras de funcionamento mudam de acordo com a discricionariedade do governo comunista, ao mesmo tempo em que rígidas leis de controle de informações permanecem coibindo inclusive sul-coreanos que trabalham no empreendimento.



Desse modo, além de a Coréia do Norte já não parecer seguir o caminho que mais seria conveniente à China, também as suas recentes demonstrações unilaterais de poder colocam os governantes chineses numa difícil situação, já que forças contraditórias influenciam suas atitudes para com Pyongyang. Como já mencionado anteriormente, o ideal paraBeijing seria a adoção, pela Coréia do Norte, do seu modelo político, econômico e social. Por outro lado, o pior cenário seria o da falência do regime do país vizinho, com a imediata macro-desestabilização dos seus fundamentos sociais (e conseqüente emigração em massa para o território chinês), e posterior reconstrução sob o modelo de uma democracia com economia de mercado e reunificação com o Sul, consagrando-se a construção de uma Península Coreana unificada sob os auspícios do Ocidente.

Nesse sentido, tendo-se em conta que nenhum dos dois cenários é provável no curto prazo, seria relevante para Beijing buscar uma solução para a radicalização do discurso e aumento do poder militar da Coréia do Norte justamente para que se evite uma corrida armamentista na região. Definitivamente, não é interessante para a China deixar de ser o único país nuclear no Extremo Oriente, testemunhando, por exemplo, o ressurgimento do poderio japonês. Além disso,já que busca maior importância global, tampouco seria interessante ser taxada como país incapaz de controlar um pequeno regime sobre o qual tem influência, ou irresponsável por não condenar atitudes que violam de forma tão explícita fundamentos do sistema internacional.

Assim, os desafios que se colocam a Beijing relacionam-se à busca de punição de atitudes extremas, mas que não desestabilizem Pyongyang. O processo de desnuclearização da península, assim, seria conveniente para a China, mas o preço que isso teria limita as suas ações. Nesse sentido, a China, em conformidade com a Rússia, de fato apoiou a aprovação de resolução condenatória por parte do Conselho de Segurança, mas, por mais que se tenha divulgado uma suposta mudança da posição chinesa, ambas mantiveram a oposição a medidas realmente coercitivas.

As recentes demonstrações de poder da Coréia do Norte, que envolveram um teste nuclear, lançamento de vários mísseis e endurecimento do discurso, possuem um direcionamento tanto externo como interno. Ao mesmo tempo em que o país busca instrumentalizar o seu ganho de poderio militar como fonte de barganha em negociações, como já realizou antes, buscando reduzir o atual tom mais duro da vizinha do sul e chamando a atenção do novo governo norte-americano, também a questão da sucessão de poder ganharia outra conotação, já que o enfraquecimento físico de Kim Jong-Il não seria associado a uma eventual decadência do regime.

Assim, a China, que é tida como ator-chave na resolução do impasse, pode encontrar maior espaço de manobra para ganho de influência na região, mas deve, para isso, mostrar-se forte e confiável o suficiente para que Pyongyang deixe de enxergar nas relações bilaterais com os Estados Unidos a forma de garantia de reconhecimento internacional do seu regime. O respaldo total e constante da China à Coréia do Norte, que também incluiria aumento da ajuda em matéria energética, de alimentos e financeira e, em contrapartida, abertura gradual ao restante do mundo aos moldes daquele vivenciado na primeira nos últimos 30 anos, reduziriam não somente a necessidade de Pyongyang de fazer testes e, assim, conquistar reconhecimento e poder de barganha, mas também a própria tensão existente no Extremo Oriente.

Desse modo, a China possui capacidade de oferecer respaldo à Coréia do Norte, mas também impõe exigências, e é isso o que gera um sentimento de desconfiança. A grande questão que se desenha é, portanto, se Pyongyang pode passar a enxergar na grande vizinha apoio irrestrito para um tipo de inserção internacional mais equilibrado, mas que da mesma forma assegure a continuidade do regime. Por fim, a China é um poder em ascensão, que busca exportar seu modelo político-econômico, mas não parece possuir, ainda, reconhecimento de que seja uma alternativa viável aos Estados Unidos.

Wilson Tadashi Muraki Junior é Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (murakitadashikun@hotmail.com).

Boletim Meridiano 47

Os Dez anos do Euro: Passado de orgulho, Futuro de Incertezas


Os Dez anos do Euro: Passado de orgulho, Futuro de Incertezas
Patrícia Nasser de Carvalho & Elói Martins Senhoras
A criação de um espaço monetário único entre Estados soberanos e politicamente independentes é um fenômeno com poucos paralelos históricos, o que torna os dez anos de surgimento doeuro em um marco significativo nos processos de integração regional. O surgimento da moeda única chamada euro nada mais foi que um dos pilares econômicos dentro de uma trajetória maior de convergência e cooperação entre os países europeus desde o final da Segunda Grande Mundial no multifacetado processo de integração regional que hoje consubstancia a União Européia.

Firmado por chefes europeus de Estado em 1992, o Tratado de Maastricht transformou-se em um ponto decisivo para a estratégia de integração monetária através de um enfoque gradualista de transição rumo a uma zona monetária. Na primeira etapa, os países do Sistema Monetário Europeu (SME) aboliram todos os controles de capitais que ainda persistiam, e foi aumentado o grau de cooperação entre os Bancos Centrais. Na segunda etapa foi criado o Instituto Monetário Europeu (IME), precursor do Banco Central Europeu (BCE), que tinha por funções o reforço da cooperação dos Bancos Centrais Nacionais. Na terceira etapa foram fixados os câmbios entre as distintas moedas nacionais de forma irrevogável e o BCE começou a operar, emitindo a moeda européia, que se convertiria em uma divisa de pleno direito.

Em 1999, na terceira etapa, a transição para a moeda única foi realizada inicialmente por 11 países que a utilizavam apenas na contabilidade empresarial como uma divisa virtual de referência durante os dois primeiros anos.

O euro somente entrou em circulação enquanto papel moeda e moedas metálicas a partir de 2001, e desde então, a União Européia se expandiu por meio de adesões principalmente originadas da Europa Oriental. Dos 27 países-membros que aderiram ao processo de integração regional da União Européia, 16 aderiram ao euro, conformando assim uma zona monetária única.

A formação desta zona monetária única trouxe uma representativa inflexão geopolítica para o continente europeu desde a derrubada do Muro de Berlim e do fim da União Soviética, uma vez que estes eventos trouxeram a desmontagem de estruturas do passado, enquanto que o euro engendrou uma ousada aposta no futuro que têm sido importante junto a outras políticas para retirar o continente de uma situação de perda de dinamismo econômico desde os anos 1980 conhecida comoeuroesclerosis.

Passados dez anos desde o seu surgimento, a centralidade do euro como divisa nas relações econômicas internacionais atesta para um sucesso de empreendimento para sair da crise européia,que se via com cautela em 1999, pois de fato, a moeda comum tornou-se a expressão máxima do desdobramento histórico da cooperação européia, cujo processo gerou a superação de divergências e obstáculos de toda ordem à integração por mais de cinqüenta anos. Este desempenho afirmativo vai em desencontro às previsões dos economistas mais céticos, especialmente da Inglaterra e dos Estados Unidos à época do lançamento do euro, que não estavam convencidos de que a moeda única conseguiria vingar ou, mesmo se conseguisse, não perduraria.

Os dez anos do euro mostram que gradativamente os representantes dos Bancos Centrais dos Estados membros conseguiram superar os prognósticos mais sombrios, diagnóstico este que também contradiz a crença dos cidadãos europeus quanto ao futuro da participação do euro no sistema monetário internacional à época de seu lançamento.

O mérito da moeda única está ainda no fato de que, no início do século XXI, o euro se transformou rapidamente na segunda moeda de referência do Sistema Monetário Internacional e alcançou alto valor no mercado financeiro. Aos dez anos,o euro é capaz de proporcionar menores riscos aos investimentos e maior estabilidade monetária em função dos mecanismos de coordenação cambial nas economias européias em relação a períodos anteriores.

A despeito do sucesso relativo do euro ao longo destes 10 anos, a adesão de países com características distintas na União Européia complexifica a zona monetária do euro e por isso torna menos clara a capacidade amortecedora frente às crises, demonstrando que apesar dos sinais positivos da união monetária é necessário uma boa dose de sobriedade, por dois motivos.

Em primeiro lugar, se nominalmente no campo monetário-financeiro o êxito do euro é evidente, na economia real o seu desempenho se apresenta mais preocupante uma vez que a moeda única ainda não resultou em um crescimento econômico mais efetivo nos países que a adotaram. Por um lado, a valorização do eurotrouxe o fortalecimento no âmbito do Sistema Monetário Internacional nos últimos anos, embora, por outro, tenha provocado efeitos negativos para o comércio internacional de muitos Estados membros da União Européia, com grande impacto na demanda por exportações, componente importante para o crescimento de uma economia.

Em segundo lugar, a coincidência do aniversário dos dez anos do euro com os sinais da crise financeira internacional fez arrefecer as celebrações do aniversário de 10 anos uma vez que desde o colapso do banco norte-americano Lehman Brothers, em setembro de 2008, que transbordou as fronteiras norte-americanas, os países europeus passaram a sofrer com as tempestades financeiras, embora em menor medida do que a economia estadunidense.

A situação de incertezas em que se encontra a União Européia a “divide” em dois grupos nesse momento: de um lado, os Estados fundadores que questionam, cada vez mais, a eficiência do fragmentado sistema comunitário de regulação financeira e, até mesmo, se a associação ao euro realmente vale à pena, tendo em vista os riscos que oferecem as economias orientais. De outro, os países da Europa Central e Oriental, tradicionalmente mais instáveis, em degradante situação macroeconômica, tanto do setor pública, quanto do privado.

O decenário é um momento impar na história do euro pois ao demarcar uma celebração de sucesso atesta o que pode ser considerado o maior desafio desde o seu lançamento: enfrentar a crise internacional e, ao mesmo tempo, balancear necessidades tão distintas dos Estados membros, por meio de uma política monetária comum, semtornar o continente europeu em uma colcha de retalhos.

Patrícia Nasser de Carvalho é Economista e doutoranda pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (patinasser@yahoo.com.br).

Elói Martins Senhoras é Professor assistente do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima – UFRR (eloi@dri.ufrr.br).

Boletim Meridiano 47

Modernidade-mundo insustentável


Modernidade-mundo insustentável
Alberto Teixeira da Silva
No rastro da razão iluminista, o projeto modernizador do capitalismo exprime uma tendência inexorável: a reprodução dos bens materiais e espirituais da burguesia, comolocus da acumulação para além das fronteiras nacionais, consagrando o mercado mundial como arena privilegiada do processo civilizatório. A modernidade-mundo apresenta nuances progressivas da construção avassaladora do capitalismo na era da globalização. Do Estado-Nação como emblema da nova racionalidade política aos contornos da emergente sociedade global multidimensional, a modernidade é refundada e permamentemente descontruída como base cognitiva do mundo no século XXI.

Dos escombros da primeira modernidade (industrial) e suas promessas de progresso e felicidade, emerge uma modernidade de risco, distribuidora de malefícios e turbulências. Assim Ulrich Beck assinala está passagem logo no primeiro capítulo do seu livro La sociedad del riesgo: “Na modernidade avançada, a produção social de riqueza é sistematicamente acompanhada por uma produção social de riscos. Portanto, os problemas e conflitos de partilha da sociedade de carência são substituídos pelos problemas ou conflitos que surgem da produção, definição e repartição dos riscos produzidos de maneira cientifico- técnica”.

Estamos envoltos numa época histórica marcada por outra modernidade, radicalizada pela revolução nanotcnológica, convergência da parafernália comunicacional, consumismo frenético de bens e expansão ilimitada das forças produtivas. Sob o signo das rápidas transformações e mudanças paradigmáticas está se globalizando um capitalismo multifacetado e imprevisível.Para compreender a intensidade da crise atual de dimensões planetárias, é fundamental refletir o imbróglio dos tempos hodiernos, configurando redemoinhos e dúvidas projetadas pela sociedade global.

A interdependência crescente entre blocos econômicos, sistemas produtivos transnacionais e as diferentes esferas da experiência humana tem sido a marca registrada da sociedade contemporânea, interligando saberes e processos societais. Na década de 1960, o sociólogo canadense Marshall McLuhan cunhou a metáfora ‘aldeia global’ para designar mudanças e percepções derivadas da revolução dos meios de comunicação, sobretudo a partir da televisão, antevendo aquilo que outro sociólogo, o espanhol Manuel Castells iria definir no final do Século 20, a partir das novas tecnologias – o paradigma informacional.

Ondas ininterruptas de inovações e insights movem comportamentos, estilos de vida, padrões de produção e consumo, recriam-se identidades e simbolismos para designar uma era de conexões e interatividades globais, potencializada pela internet e redes (networks) tecidas no ciberespaço. Esses acontecimentos trazem uma sensação crescente e estonteante de transições fundamentais na aurora do terceiro milênio. Como lembra Milton Santos, geógrafo brasileiro cujo reconhecimento ultrapassa linhas territoriais, intelectuais e lingüísticas, “acelerações são momentos culminantes na História, como se abrigassem forças concentradas, explodindo para criar o novo”.

A anatomia dessa admirável modernidade líquida (para usar a expressão emblemática de Zymunt Bauman) reside numa sociedade prenhe de inseguranças, transfigurada por laços efêmeros, sociabilidades fragilizadas e contraditórias, engravidada de riscos cruciais e desafios decisivos. Estamos na encruzilhada de um modelo civilizatório perdulário que nos empurra para o abismo, embora se acredite na luz no fim do túnel. A dinâmica geopolítica mundial hegemonizada por um seleto grupo de países espelha uma arquitetura de governança assimétrica em termos de recursos de poder, estágios de desenvolvimento e perspectivas de futuro, ignorando a construção de pilares éticos globais que garantam a consolidação de valores perenes e efetivamente civilizatórios, como a paz, tolerância, democracia e cooperação para o desenvolvimento duradouro equitativo e justo entre os povos.

Desordens climáticas marcadas por catástrofes socioambientais – fenômenos contrastantes e arrasadores como enchentes, secas, invernos e verões rigorosos e extremos de temperatura, que ora castigam as regiões norte, nordeste e sul do Brasil, assim como outros países em proporções diversas – aliam-se aos dramas cotidianos da violência, pobreza, corrupção, stress urbano, marginalidade e degradação sociopolítica. Estas situações caóticas estão se reproduzindo no espaço global (que inclui o local) pela lógica da racionalidade instrumental, colonizada pela visão econômica do crescimento ilusório e de modelos supostamente progressistas fundados no padrão de bem estar ocidental. Enfim, um cenário que retrata a barbárie contemporânea. A modernidade do século XXI tornou-se perigosa e insustentável num mundo gravitado por desesperanças e incertezas.

Alberto Teixeira da Silva é Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Pará (alberts@superig.com.br).

Boletim Meridiano 47

Rússia e as estratégias de um país emergente


Rússia e as estratégias de um país emergente

Taís Sandrim Juliã
O término da Guerra Fria, marcado pela desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), impôs uma nova configuração na política internacional. O impacto foi sentido principalmente pelos Estados Unidos – que assumiram desde então a hegemonia global –, mas também pela Europa e Ásia, que se viram frente a um novo cenário mundial no qual a bipolaridade perdia seu sentido político-estratégico.

De fato, com o nascimento da Rússia como entidade política, incapaz de recuperar seu papel de protagonista no sistema internacional no curto e no médio prazo, a configuração européia e asiática da qual o país faz parte sofreu transformações significativas no que se refere à correlação de forças da região.

De potência na ordem bipolar, a Rússia passou a integrar na ótica da política internacional o grupo de Estados que buscam seu espaço por meio de estratégias compartilhadas e coerentes com suas capacidades e seu potencial de atuação no sistema internacional. Assim, o perfil de atuação nos fóruns multilaterais deste país diferenciou-se brutalmente ao dos Estados Unidos e aproximou-se cada vez mais ao de Estados como Brasil, China e Índia, que incorporam o epíteto de países emergentes.

Cumpre questionar, nesse contexto, se fim do cenário de bipolaridade e a percepção de estratégias de convergências de estratégias de inserção internacional atribuem à Moscou uma nova posição ao lado dos emergentes.

Dentre os fatores que podem oferecer respostas afirmativas a respeito deste processo de reorganização da ordem internacional e do novo lugar da Rússia no mundo, podemos destacar elementos político-militares e econômico–sociais à luz de uma abordagem histórica.

Com relação ao elemento político, é possível observarmos duas dinâmicas que se projetam tanto em nível doméstico quanto externo. Politicamente, a Rússia apresenta um dilema, pois quase duas décadas após a extinção do regime socialista, não podemos afirmar se seu futuro será democrático e liberal nos moldes ocidentalmente concebidos. Determinadas características do país indicam uma demanda e, porque não, uma vocação democrática, como por exemplo, a pluralidade étnica e o passado comunitarista da sociedade russa, elementos esses evidentes na história política do país. Nesse sentido, uma Rússia capitalista democrática não se aproximará do perfil dos Estados Unidos, pois estão incutidos na sua identidade estatal traços comunitários que construíram o imaginário da nação.

Militarmente, a Rússia tem um passado não tão distante que lhe confere ainda hoje inegável respeito e centralidade no tema do desarmamento. A participação ativa e decisiva em guerras mundiais; a manutenção de um território vasto – dotado de riquezas minerais como ferro e petróleo – e em posição geoestratégica – próxima a países-chave da Ásia, como China, Índia, Paquistão, Japão, Coréia do Norte; e sua infra-estrutura industrial ligada à tecnologia militar e espacial, além do domínio de tecnologia nuclear; e o assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A Rússia permanece realizando e fortalecendo alianças com países que são considerados pela comunidade internacional – especialmente daqueles Estados aliados dos Estados Unidos -, foco de tensões sob o prisma da segurança internacional, tais como o Irã. Desde 2001, o país tem investido em uma aliança geoestratégica por meio da Organização para a Cooperação de Xangai, que reúne países-chave na região, como China, Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão.

Somado a isso, a ingerência russa em conflitos ocorridos recentemente na região da Ossétia do Sul nos fazem rememorar tempos em que a Rússia era uma entre as duas grandes potências militares da segunda metade do século XX. Nesse sentido, a Rússia ainda seria um ator relevante com ares de potência como a China, e não um país emergente como o Brasil, cujo perfil militar é relativamente baixo.

Quanto aos fatores econômicos, a reorganização da sociedade russa – que já não necessita mais focar seu planejamento no atendimento das diretrizes socialistas e na corrida armamentista de tempos de Guerra Fria -, possibilitou uma nova dinâmica de crescimento, pautada em elementos como a indústria pesada, inserindo o país em uma nova posição no comércio internacional. A Rússia vivia até o ano passado a retomada de seu crescimento, pautado não somente nas tradicionais exportações de petróleo e gás natural, mas também no incremento industrial e índices macroeconômicos favoráveis.

Todavia, as recentes oscilações no mercado financeiro mundial relacionadas à crise do capitalismo global incidiram no processo de recuperação da economia russa. Isso se deve, por um lado, ao vínculo crescente de sua economia ao mercado e ao comércio internacionais e, por outro, as dinâmicas econômicas internas relacionadas a problemas como inflação e desemprego. Mas é importante destacar que os analistas têm sugerido que os países emergentes – entre eles a Rússia -, ao contrário daqueles que possuem sua economia fortemente vinculada aos Estados Unidos, serão menos afetados pela crise mundial.

Acrescido a estes aspectos domésticos de reorganização econômica e os impactos da crise, a Rússia tem igualmente sido influenciada pela proximidade estratégica com a União Européia e seus países-membros recém-ingressos do leste, que ainda mantêm fortes relações com a nação russa. O histórico dos períodos pós-guerras mundiais e as transformações das sociedades européias, com o continente unificado e inexistência da ameaça comunista, coloca a Rússia como um ator no subsistema europeu que não deve ser negligenciado.

Diante desse cenário, o país emerge como parceiro importante cuja inserção internacional é marcada por uma nova abordagem, que não exige vinculações políticas ou compromissos ideológicos. Atualizadas sua estratégia e dinâmica em suas relações comerciais internacionais, a Rússia vai se libertando paulatinamente da visão de “país vencido” no pós Guerra Fria.

A participação em coalizões representa um dos elementos substantivos para compreendermos de que modo a Rússia está inserida na lógica dos países emergentes. Nos tempos de URSS, a celebração de alianças e parcerias comerciais com o país socialista possuía um significado adicional, de caráter político: significava um posicionamento frente à dinâmica bipolar.

Contemporaneamente, dedica-se ao engajamento com países com os quais se identifica em termos de reivindicação de espaços econômicos e de participação nas decisões internacionais, como é o caso dos BRIC – Brasil, Rússia, Índia, China; porém, sem, com isso, abrir mão de foros privilegiados entre as potências centrais. Este grupo de países têm se apresentado no cenário internacional como um espaço de diálogo alternativo e, até certo ponto, complementar aos grupos tradicionais como G8 e G20.

A primeira reunião de cúpula presidencial foi realizada dia 16 de junho deste ano, na cidade de Ecaterimburgo, parte asiática da Rússia. Este foi um passo importante para o grupo, que até então vinha dialogando e negociando de modo informal. A agenda abarcou temas de política internacional e de interesse nacional dos integrantes, tais como a crise econômica mundial e as reformas das instituições financeiras, a mudança climática, segurança alimentar e energética e o papel do G20. A iniciativa, além de ter antecedido a reunião do G8 recém-concluída em julho e a próxima reunião do G20 marcada para setembro, foi igualmente significativa porque foi realizada concomitantemente ao encontro da Organização de Cooperação de Xangai.

Estes eventos podem ser analisados, à luz das estratégias russas enquanto país emergente, como uma importante demonstração de seus objetivos e de suas ambições na nova ordem internacional. Com efeito, a realização de parcerias com países que não são considerados como potências– exceto a China -, aponta, por um lado, a capacidade limitada da Rússia projetar poder de forma autônoma como nos tempos da Guerra Fria, necessitando, portanto, compartilhar espaços com determinados países percebidos como estratégicos.

Por outro, sugere uma interessante estratégia de ação na atual política internacional, em que a hegemonia norte-americana vê-se obrigada a ceder poder em virtude da complexidade das dinâmicas que interferem na lógica do sistema. Desta forma, busca-se uma posição assertiva e de influência por meio de estratégias típicas de países emergentes a exemplo do mecanismo das coalizões, que recolocam o país no quadro dos Estados relevantes nas decisões internacionais sem a necessidade de arcar com os custos elevados que envolvem o status de potência, lição esta aprendida no passado.

A Rússia busca gradativamente uma posição proeminente no cenário internacional, apoiando-se nas políticas domésticas de estabilização política e econômica, e, externamente, fazendo uso de uma espécie de estratégia combinada, em que os conceitos de autonomia e parceria não são excludentes, mas sim complementares.

Dotada de petróleo e gás natural, e historicamente distantes dos Estados Unidos, a Rússia caminha de forma independente, realizando opções estratégicas de relacionamento com a Europa, países do Oriente Médio e demais países emergentes. Apesar de seu peso militar significativo, este não é suficiente para colocá-la como uma potência em termos fáticos, mas sim circunscrevê-la apenas no plano de potência militar, e, portanto, ator decisivo nos desafios da segurança internacional.

Em síntese, podemos dizer que a Rússia hoje apresenta perfil de país emergente, principalmente quando observamos suas estratégias de atuação no ambiente internacional. Porém, é importante destacar que, assim como os demais países integrantes desse grupo, possui suas especificidades que balizam suas opções internacionais. Por esse motivo, a análise de seu desempenho internacional deve levar em consideração este histórico, e de que forma ele incide na atualidade.

Taís Sandrim Julião é Mestranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (taisjuliao@unb.br).

Boletim Meridiano 47

Usar para valorizar


Usar para valorizar
O modelo de Reservas Extrativistas, implantado em 1990, assegura a exploração de recursos naturais pelos moradores da floresta
Mary Allegretti

Conservação, desenvolvimento e uso sustentável em permanente tensão – esta é a síntese da Amazônia contemporânea. Se há quatro décadas o modelo de desenvolvimento adotado pelos militares gerou conflitos sociais e altos índices de desmatamento, atualmente a região respira outros ares. Avanços efetivos foram realizados no controle e na fiscalização de desmatamentos; extensas áreas foram transformadas em unidades de conservação e inúmeros projetos de desenvolvimento sustentável foram implantados em áreas protegidas, terras indígenas e pequenas propriedades familiares.

Até o momento, 17% da Amazônia já foi desmatada. O número impressiona, mas se o projeto militar tivesse prevalecido, certamente a devastação teria atingido 40% ou mais da região. Este risco hoje é menor, pois 40% da Amazônia está legalmente protegida – sendo 15% por reservas ambientais e 25% por terras indígenas.

Grande parte desse avanço se deve à aplicação do modelo das Reservas Extrativistas, iniciado na década de 1990. Nessas unidades de conservação, implementadas em terras públicas, cabe às populações tradicionais a gestão dos recursos naturais.

Em todo o mundo, as comunidades locais têm sido responsáveis pela proteção de recursos naturais estratégicos, e convenções internacionais procuram proteger ambos – recursos e populações. Estudos recentes indicam que 420 milhões de hectares, ou 11% das florestas globais, estão sob propriedade ou administração de comunidades em 22% dos países em desenvolvimento. Na maioria dos casos, os países adaptam modelos já existentes de proteção, como os Parques Nacionais, para permitir a presença humana em unidades de conservação da natureza. (...)


Revista de Historia da Biblioteca Nacional

Floresta que sangra


Floresta que sangra
No Acre, a violenta disputa por seringais atravessou o século XX, mas resultou na primeira reserva extrativista do Brasil
Mauro William Barbosa de Almeida

Matar as seringueiras é como matar a própria mãe. Era o que dizia Chico Ginú, um dos principais líderes sindicais do Alto Juruá, no oeste do Acre. Se a exploração de borracha continuasse no ritmo em que vinha sendo realizada, “de que os filhos e netos viveriam no futuro?”

Em plena ditadura militar, os trabalhadores estavam dispostos a contestar a forma de produção vigente em nome da preservação da floresta. Não que lutar fosse uma novidade para eles. Havia quase um século que a região era palco de intensas disputas e conflitos.

Em 1898, a região do Rio Tejo já estava toda ocupada por seringueiros, e o missionário Parissier relatava o clima de violência que reinava no lugar: “Numa terra onde nenhuma polícia é possível e a lei do mais forte é absoluta, o caboclo nunca entra na floresta, nem sai de sua casa, sem seu rifle (...). Quando investem contra o patrão, cercam o barracão, matam quem puderem e tocam fogo no barracão. Isso foi o que aconteceu com o Seu Bonifácio (...) que escapou por um milagre, mas perdeu de um só golpe 300 mil francos, o equivalente a 30 toneladas de borracha”.

Bonifácio, que comandava a exploração dos seringais da área, era genro do comandante do vapor Contreiras, da empresa Melo & Cia., que desde 1897 visitava a região vindo de Belém, sempre trazendo mercadorias e novos seringueiros. A produção crescia movida pelo aumento da demanda mundial de borracha. Migrantes nordestinos eram recrutados em Belém, atraídos pela alta produtividade das seringueiras dos altos rios Purus e Juruá, num período em que os seringais mais acessíveis estavam depredados pela exploração desenfreada. A borracha dos altos rios era também a de melhor qualidade, o que se refletia na cotação da borracha “Acre Fina”, a mais alta no mercado internacional. (...)


Revista de Historia da Biblioteca Nacional

sábado, 4 de julho de 2009

Petróleo: Corda bamba


Petróleo: Corda bamba
Os altos e baixos do petróleo
por Elisa Almeida França
Principal fonte energética dos tempos atuais, o petróleo move o mundo – ele e seus derivados atendem a cerca de 60% das necessidades do planeta. Só que o preço do barril é altamente variável. Pior: a previsão é de que a produção de petróleo só diminua de agora em diante. E o preço, conseqüentemente, só suba. Os oscilantes valores apresentados a seguir foram todos corrigidos de acordo com o dólar atual.

1864 - 100 dólares

O primeiro poço de petróleo havia sido perfurado em 1859, na Pensilvânia, inaugurando a indústria moderna do óleo (ele já era conhecido desde 2000 a.C., mas as técnicas para obtê-lo eram caríssimas). Cinco anos depois, ocorreria o primeiro pico do preço do barril, 100 dólares, uma elevação de 100%. Naquela época, o uso do óleo se destinava apenas à iluminação residencial e à pública.

1899 - 29 dólares

Em 1890, o barril estava 18 dólares. Mas a fabricação em série do primeiro automóvel, o Ford T, em 1896, marca o crescimento da importância do petróleo. Ele também seria usado mais tarde para mover o avião, criado no início do século 20, e os navios.

1949 - 14,5 dólares

Com a depressão econômica americana em 1929, após a quebra da bolsa de Nova York, o barril do petróleo vai lá embaixo, chegando a custar menos de 10 dólares. No entanto, durante a Segunda Grande Guerra e, principalmente, durante a reconstrução dos países envolvidos depois do conflito mundial, o consumo do óleo aumenta – assim como o preço de seu barril, que chega a 14,5 dólares.

1953 - 14 dólares

No Brasil, o governo democrático de Getúlio Vargas cria a Petrobras. É o ápice da campanha “O petróleo é nosso”, em que os chamados nacionalistas vencem a dura queda de braço contra os “entreguistas”, que defendiam a abertura do Brasil para o investimento estrangeiro na exploração do petróleo. Nesse mesmo ano se instala a primeira montadora de carros no país, a Volkswagen.

1960 - 12 dólares

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), grupo que une os maiores produtores do óleo, é criada em resposta a pressões das petrolíferas americanas, inglesas e holandesas pela redução do preço do barril. O plano do cartel, atualmente formado por 11 países subdesenvolvidos, é controlar o valor por meio de cotas de produção – o que fez o preço se estabilizar.

1974 - 45 dólares

A primeira grande jogada da Opep se dá já nos anos 70, durante a guerra do Yom Kippur – na qual Egito e Síria brigam com Israel pelo deserto do Sinai e pelas colinas de Golan, que este país invadira na Guerra dos Seis Dias, seis anos antes. Com um boicote às nações que apóiam os israelenses, como os Estados Unidos, e mais um aumento dos preços do barril, o cartel prova sua força política.

1990 - 35 dólares

A fim de controlar a entrada marítima do golfo Pérsico, já que seus próprios portos haviam sido destruídos no conflito Irã-Iraque, o presidente iraquiano Saddam Hussein decide invadir o Kuwait, fornecedor estratégico para os Estados Unidos. O governo americano, ao lado de ingleses, franceses, italianos e alguns países árabes, expulsa os iraquianos, com o aval da ONU. O preço do barril salta de 30 para 35 dólares.

2002 - 27 dólares

O presidente Hugo Chávez, da Venezuela, atrela sua produção às cotas da Opep e sobe o valor dos royalties pela prospecção do óleo em novos campos – e perturba os Estados Unidos, que importam 13% de seu petróleo dos venezuelanos. Em 2002, os americanos reconhecem um golpe de Estado na Venezuela, mas Chávez logo volta ao poder. O preço do barril oscila devido ao risco de uma crise política.

2003 - 30,5 dólares

Outro conflito de grandes proporções no país de Saddam Hussein ocorre quando o presidente americano George W. Bush decide invadir o Iraque, dono da segunda maior reserva de petróleo do planeta. A guerra é um fracasso, embora a ocupação dure até hoje. Mas, desde o início da invasão, os americanos garantiram a segurança dos poços de petróleo. O preço vai de 27 para 30,5 dólares.

2006 - 60 dólares

Os Estados Unidos já consomem 25% de todo o petróleo do mundo, mas só agora Bush admite que seu país depende demais do óleo. A descoberta de novas fontes de energia passa a ser abertamente considerada pelo país. O crescente declínio na oferta e as crises no Oriente Médio elevam o preço do barril. Além disso, o óleo já é visto como uma das maiores causas das mudanças climáticas.

Revista Aventuras na Historia

A partilha da África


A partilha da África
No fim do século 19, países europeus repartiram o continente africano entre si e o exploraram durante quase 100 anos. Os invasores se foram, mas deixaram os efeitos nefastos de sua presença
por Isabelle Somma
Ao encerrar a Conferência de Berlim, em 26 de fevereiro de 1885, o chanceler alemão Otto von Bismarck inaugurou um novo – e sangrento – capítulo da história das relações entre europeus e africanos. Menos de três décadas após o encontro, ingleses, franceses, alemães, belgas, italianos, espanhóis e portugueses já haviam conquistado e repartido entre si 90% da África – ou o correspondente a pouco mais de três vezes a área do Brasil. Essa apropriação provocou mudanças profundas não apenas no dia-a-dia, nos costumes, na língua e na religião dos vários grupos étnicos que viviam no continente. Também criou fronteiras que, ainda hoje, são responsáveis por tragédias militares e humanitárias.

O papel da conferência, que contou com a participação de 14 países, era delinear as regras da ocupação. “A conferência não ‘dividiu’ a África em blocos coloniais, mas admitiu princípios básicos para administrar as atividades européias no continente, como o comércio livre nas bacias dos rios Congo e Níger, a luta contra a escravidão e o reconhecimento da soberania somente para quem ocupasse efetivamente o território reclamado”, afirma Guy Vanthemsche, professor de História da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, e do Centro de Estudos Africanos de Bruxelas.

A rapidez com que a divisão se deu foi conseqüência direta da principal decisão do encontro, justamente o princípio da “efetividade”: para garantir a propriedade de qualquer território no continente, as potências européias tinham de ocupar de fato o quinhão almejado. Isso provocou uma corrida maluca em que cada um queria garantir um pedaço de bolo maior que o do outro. “Em pouco tempo, com exceção da Etiópia e da Libéria, todo o continente ficou sob o domínio europeu”, diz a historiadora Nwando Achebe, da Universidade Estadual do Michigan. A Libéria, formada por escravos libertos enviados de volta pelos Estados Unidos, havia se tornado independente em 1847. Na Etiópia, a independência foi garantida depois da Conferência de Berlim, com a vitória do exército do imperador Menelik II sobre tropas italianas na batalha de Adwa, em 1896.

O interesse europeu pela África vinha de muito tempo antes da conferência. No século 15, os portugueses já haviam chegado aos arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, iniciando sua ocupação do continente (que depois se estendeu a Angola e Moçambique). Os britânicos ocuparam partes da atual África do Sul, do Egito, do Sudão e da Somália no século 19. No mesmo período, os franceses se apoderaram de parte do Senegal e da Tunísia, enquanto os italianos marcavam presença na Eritréia desde 1870. Em 1902, França e Inglaterra já detinham mais de metade do continente.

Tiros e mentiras

A ocupação não se deu somente com a força das armas de fogo, que eram novidade para muitos dos povos subjugados. A trapaça foi largamente usada para a conquista e manutenção dos territórios. O rei Lobengula, do povo Ndebele, é um exemplo: assinou um contrato em que acreditava ceder terras ao magnata britânico Cecil Rhodes em troca de “proteção”. O problema é que o contrato firmado pelo rei não incluía a segunda parte do trato. O monarca nem percebeu, pois era analfabeto e não falava inglês. Apesar dos protestos de Lobengula, que acreditava que a palavra valia alguma coisa entre os recém-chegados, o governo da Inglaterra se fez de desentendido. Apoiou a exploração do território Ndebele, no atual Zimbábue, de onde Rhodes tirou toneladas de ouro.

O mais famoso entre os trapaceiros, no entanto, foi o rei Leopoldo II, que conseguiu passar a perna em africanos e europeus. Soberano de um pequeno país, a Bélgica, não tinha recursos nem homens para ocupar grandes territórios. Por isso, criou associações que se apresentavam como científicas e humanitárias, a fim de “proteger” territórios como a cobiçada foz do rio Congo. “Graças a hábeis manobras diplomáticas, ele conseguiu obter o reconhecimento, por todas as potências da época, de um ‘Estado Livre do Congo’, do qual ele seria o governante absoluto”, afirma o professor Vanthemsche. Leopoldo dominou com mão de ferro o Congo, usando métodos violentos para conseguir extrair o máximo que pudesse para aumentar sua riqueza pessoal.

Mas o principal método utilizado pelos europeus foi o bom e velho “dividir para dominar”. A idéia era se aproveitar da rivalidade entre dois grupos étnicos locais (ou criá-la, se fosse inexistente) e tomar partido de um deles. Com o apoio do escolhido, a quem davam armas e meios para subjugar os rivais, os europeus controlavam a população inteira. “Pode-se dizer que todas as potências conduziam a conquista da mesma forma: através da força bruta, dividindo para dominar e usando soldados que eram principalmente africanos e não europeus”, diz Paul Nugent, professor de História Africana Comparada e diretor do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Edimburgo, na Escócia.

O método usado pelos colonizadores provocou tensões que até hoje perduram, pois transformou profundamente as estruturas sociais tradicionais da África. “Formações de grupos flexíveis e cambiantes foram mudadas para ‘estruturas étnicas’ bastante rígidas”, afirma Vanthemsche. O exemplo mais extremo dessa fronteira imaginária criada pelos europeus é o de tutsis e hutus, de Ruanda. Os tutsis foram considerados de “origem mais nobre” pelos colonizadores (primeiro alemães, depois belgas), e os hutus foram colocados em posição de inferioridade. Os tutsis mantiveram o poder mesmo após a saída dos belgas. Em 1994, 32 anos após a independência de Ruanda, cerca de 1 milhão de pessoas morreram no conflito em que os detentores do poder foram perseguidos pelos até então marginalizados hutus.

As fronteiras territoriais também foram delineadas sem respeitar a disposição da população local, com base nos interesses dos europeus. “Eles recorriam a noções arbitrárias como latitude, longitude, linha de divisão das águas e curso presumível de um rio que mal se conhecia”, afirma o historiador Henri Brunschwig em A Partilha da África Negra. E essas fronteiras ainda sobrevivem. Segundo o geógrafo francês Michel Foucher, cerca de 90% das atuais fronteiras na África foram herdadas do período colonial. Apenas em 15% delas foram levadas em consideração questões étnicas. Há ainda mais de uma dezena de fronteiras a serem definidas, segundo Foucher.

O Saara Ocidental é o único caso de território africano que ainda não conseguiu a independência. Em 1975, depois de décadas explorando o fosfato da região, a Espanha o abandonou. No mesmo ano, o Marrocos invadiu o país. Houve resistência, e a guerra durou até 1991. Desde então, a Organização das Nações Unidas tenta organizar um referendo para que a população decida se quer a independência ou a anexação pelo Marrocos.

Para os países africanos, ver-se livre dos europeus não significou uma melhoria de sua situação. Ao contrário: em muitos lugares, a independência provocou guerras ainda mais sangrentas, que contaram com a participação das antigas metrópoles coloniais. Um exemplo é a Nigéria. Seis anos após a independência do país, em 1960, os ibos, que haviam adotado o cristianismo, declararam a secessão do território nigeriano de Biafra. Foram apoiados por franceses e portugueses, interessados nas ricas reservas de petróleo da região. Os hauçás e fulanis, muçulmanos que dominavam o cenário político do país, lutaram pela unidade apoiados pelos ingleses. O resultado foi uma guerra civil em que quase 1 milhão de nigerianos morreram, a grande maioria de fome – até hoje o país é palco de embates religiosos e políticos.

Na marra

Não se sabe exatamente quantos grupos étnicos havia na África quando os colonizadores chegaram, mas acredita-se que fossem por volta de mil. “O que sabemos sugere que as formações políticas e grupais eram muito mais fluidas e a variação lingüística era muito maior do que na era colonial”, diz o historiador Keith Shear, do Centro de Estudos Africanos Ocidentais da Universidade de Birmingham. Línguas foram adotadas em detrimento de outras, o que provocou o nascimento de elites. “A chegada de missionários e a introdução de escolas formais fizeram com que dialetos específicos fossem selecionados para traduzir a Bíblia. Estabeleceram-se ortografias oficiais, provocando homogeneidade lingüística”, afirma Shear. Os que falavam a língua do grupo majoritário tiveram mais facilidades num governo centralizado e dominado por uma só etnia.

Se por um lado alguns dialetos desapareceram, o mesmo não ocorreu com a diversidade étnica. “Grupos étnicos não foram eliminados durante o domínio colonial, apesar de os alemães terem tentado realizar o primeiro genocídio na Namíbia”, diz Paul Nugent. Teria sido possível, inclusive, o surgimento de outros povos. “Muitos historiadores defendem a tese de que novos grupos foram criados durante o período colonial, pois as pessoas começaram a se autodefinir de novas formas. Por exemplo: os ibos da Nigéria e os ewes de Gana e do Togo apenas passaram a se denominar desse modo durante o período entre as duas Grandes Guerras Mundiais”, afirma Nugent.

A colonização comprometeu duramente o desenvolvimento da África. Hoje o continente abriga boa parte dos países mais pobres do planeta. “No plano político, o legado do colonialismo inclui a tradição de administração de cima para baixo, a persistência de burocracias que fornecem poucos serviços e um baixo senso de identidade e interesse nacional. Os Estados são geralmente fracos, ineficientes e brutais”, diz Shear. “Economicamente, o colonialismo produziu, em sua maior parte, economias dependentes, monoculturistas e não integradas, que atendem prioridades externas e não internas.”

A situação atual dos países africanos pode ser atribuída à pressa que os colonizadores tiveram em transformar a realidade local. Isso fez com que o continente pulasse etapas importantes. “O maior problema é que, em apenas algumas décadas, as sociedades tradicionais africanas foram lançadas em uma situação totalmente desconhecida. Você não pode criar um sistema capitalista e Estados democráticos de um dia para outro, em poucas gerações. As próprias sociedades tradicionais européias precisaram de séculos para chegar a esse resultado”, diz Guy Vanthemsche. Essa chance nunca foi dada aos africanos.



Quase sem querer
As aventuras dos exploradores ajudaram na conquista dos povos africanos
Mesmo quando pretendiam apenas “salvar” algumas almas, os homens que desbravaram a África acabaram colaborando com os governos europeus na conquista e ocupação do continente. “Missionários e exploradores tiveram influências contraditórias. Trouxeram com eles importantes recursos, como armas de fogo e outros bens, mas eram incapazes de controlar e prever as conseqüências de suas intervenções”, diz Keith Shear, da Universidade de Birmingham. Mesmo que involuntariamente, o explorador francês Pierre de Brazza estimulou a convocação da Conferência de Berlim. Ele fez um acordo com Makoko, rei dos batekes, que viviam próximo ao rio Congo: ofereceu proteção em troca de exclusividade comercial. “A França então reivindicou soberania sobre a região em 1882. Mas isso entrou em conflito com os interesses de países como Portugal, Inglaterra e Bélgica”, diz o historiador Guy Vanthemsche, da Universidade Livre de Bruxelas. O impasse entre os colonizadores os levou à Conferência. Outro explorador, Henry Morton Stanley, trabalhou na mesma região que Brazza. Ajudou o rei belga Leopoldo II a fundar o Estado Livre do Congo e a explorar os trabalhadores locais, mas foi acusado de torturar e matar africanos a mando do monarca. Antes disso, o galês Stanley, trabalhando como jornalista, fora enviado à África por um diário americano para procurar o missionário escocês desaparecido David Livingstone. Após percorrer milhares de quilômetros, encontrou um homem branco e cunhou a célebre frase: “Doutor Livingstone, eu presumo”. Acertou. Sob o lema “Cristianismo, Comércio e Civilização”, Livingstone havia sido um dos primeiros europeus a cruzar a África, tornando-se uma lenda viva. Ao converter os africanos ao catolicismo ou ao protestantismo, entretanto, missionários como ele facilitavam a colonização. O combate às crenças e rituais tradicionais contribuiu para que o poder dos líderes tribais africanos, muito baseado na religião, entrasse em declínio.

Saiba mais
Livros

A África na Sala de Aula: Visita à História Contemporânea, Leila Leite Hernandez, Selo Negro, 2005 - A autora, professora da Universidade de São Paulo, analisa a história do ponto de vista dos países africanos.

A Partilha da África Negra: 1880-1914, Henri Brunschwig, Perspectiva, 1974 - Bastante resumido, o livro tem como foco a Conferência de Berlim.

Dividir para Dominar: a Partilha da África – 1880-1914, H.L. Wesseling, Revan, 1998 - Um dos livros mais completos sobre o tema, apresenta os principais atores da partilha da África.

Revista Aventuras na Historia

EUA: os donos do mundo



EUA: os donos do mundo
Nem romanos nem britânicos. Nem persas nem egípcios. Nunca uma nação foi tão poderosa quanto os Estados Unidos são hoje. Como e por que eles se tornaram a maior potência de todos os tempos?
por Igor Fuser
Responda rápido: quem descobriu os Estados Unidos? Se você é como eu e não sabe a resposta, não se acanhe. Os americanos também não. É que para eles, diferentemente de nós, brasileiros, que marcamos o nascimento do Brasil na chegada de Cabral, o evento fundador de sua nacionalidade é outro: a chegada do advogado britânico John Winthrop a Massachusetts, em 1630. Adepto de uma seita religiosa radical para a época, os puritanos, e descontente com o anglicanismo – a religião oficial dos ingleses e do rei Carlos I –, Winthrop e as cerca de 700 pessoas que o acompanharam deixaram a Inglaterra para criar sua própria sociedade, num lugar ainda intocado pelos vícios: a América. Winthrop e sua turma adoravam a idéia de estarem chegando a uma espécie de Terra Prometida, a ser regida pelas leis divinas e, portanto, predestinada a dar certo e a se tornar um exemplo de virtude para o resto do mundo. Os Estados Unidos ainda levariam 140 anos para nascer, mas a idéia do que é ser americano estava lançada.

Para entender esses primeiros americanos, no entanto, é preciso lembrar como era a Inglaterra e como era a vida por lá, no século 17. Sim, porque os primeiros americanos eram britânicos e, portanto, súditos do maior império de seu tempo.

Desde o século anterior, principalmente no reinado de Elizabeth I, os ingleses vinham assumindo o posto de superpotência que pertencera à Espanha (e do qual até Portugal já tirara uma casquinha). Ser uma potência, na época, era ter navios. E a Inglaterra tinha uma grande, uma baita frota para levar seus produtos o mais longe possível e trazer de lá matérias-primas baratinhas, quando não de graça, para fazer mais produtos e levá-los ainda mais longe. Do ponto de vista social, o vaivém de mercadorias havia criado nas cidades uma camada de homens ricos, chamados burgueses, e uma grande massa de homens pobres, resultado do êxodo rural. Winthrop fazia parte do primeiro grupo, bem como a imensa maioria dos puritanos, que estavam preocupados com a elasticidade moral típica das grandes cidades: ninguém mais ia à igreja, os políticos mandavam mais que os religiosos e o dinheiro mandava ainda mais que os políticos. A colonização de novas terras pareceu, então, uma boa idéia em todos os sentidos e, para colocá-la em prática, a coroa inglesa chamou duas empresas: as companhias de Londres e de Plymouth, que ficaram responsáveis por recrutar, armar e, mais importante, financiar as viagens. É por isso que é comum dizer que a colonização dos Estados Unidos foi feita pela iniciativa privada. Fato que se tornou um dos pilares da civilização norte-americana, do qual eles se orgulham tanto.

Esses seriam os fundadores dos Estados Unidos, mas é bom lembrar que eles não eram os únicos a ocupar o território americano, no século 17. Ou seja, sua Terra Prometida já tinha dono. Os primeiros a chegar lá foram os espanhóis, no século 16. Mais preocupados em explorar as ilhas do Caribe e o ouro e a prata do México, eles se aventuraram pela costa da atual Flórida, onde, quando não estavam procurando a fonte da juventude ou sendo devorados por aligatores, criaram meia dúzia de entrepostos comerciais. No século 17, porém, os espanhóis já não podiam mais sustentar seus interesses imperiais na América e se concentraram em administrar e explorar a Nova Espanha, ou México (região que ia, além do México atual, ao Texas e à Califórnia). Havia ainda uma larga fatia pertencente aos franceses, a chamada Louisiana, que ia do Mississípi à fronteira com o Canadá. Além, é claro, dos índios que já estavam lá. Vinte e cinco milhões deles.

Inimigo interno

A predominância dos colonos ingleses sobre seus vizinhos foi um longo processo que incluiu negociações diplomáticas, algum dinheiro e muita, muita porrada. Os primeiros a dançar, só para variar, foram os índios que ocupavam a região litorânea onde os ingleses aportaram. Quem não fugiu morreu pela guerra e, sobretudo, pelas doenças que os brancos espalhavam, muitas vezes, de propósito. Em 1673, cercado no forte Pitt pelos guerreiros do chefe Pontiac, o general inglês Jeffrey Amherst ordenou ao capitão Simon Ecuyer que enviasse aos índios cobertores e lençóis. Mostra de boa bontade? Que nada: os cobertores vinham direto da enfermaria, onde os soldados padeciam vítimas de uma epidemia de sarampo. Em alguns dias, os ingleses estavam curados e os índios, milhares deles, mortos.

O próprio John Winthrop, eleito o primeiro governador de Massachusetts, tinha uma desculpa na ponta da língua para justificar a tomada das terras dos índios. Ele as declarou “vácuo legal”. Os índios, dizia, não “subjugaram” a terra e, portanto, possuíam apenas “direito natural” sobre ela, mas não “direito civil”. E, como bom advogado que era, para ele um direito apenas “natural” não tinha nenhum valor jurídico.

A oeste e norte dos assentamentos ingleses, colonos franceses ocupavam regiões que, para populações dedicadas à caça e ao comércio de peles, eram de grande importância econômica, como as terras banhadas pelos rios Ohio, Missouri e Mississípi. As hostilidades eram constantes e, até a metade do século, em pelo menos cinco ocasiões os vizinhos acabaram em guerra.

A animosidade entre os colonos na América era alimentada, ainda, pela rivalidade entre Inglaterra e França na Europa, fato determinante nas relações internacionais do século 18. Em pleno processo de desenvolvimento capitalista, a burguesia inglesa via na França, onde a monarquia entrava em crise, um obstáculo a sua expansão comercial, marítima e colonial. A rixa chegaria ao ponto máximo entre 1756 e 1763, durante a Guerra dos Sete Anos, e teria impacto decisivo sobre a vida na América. Após a guerra, com o pretexto de recuperar as finanças do Estado, os ingleses, que já vinham adotando medidas mais rígidas em relação ao monopólio sobre as colônias americanas (como as proibições da fabricacão de aço, em 1750, e de tecido, em 1754), adotaram uma série de leis para garantir as vendas (e os lucros e os impostos pagos pelos produtos de empresas inglesas, particularmente o chá). A insatisfação nas colônias atingiu o máximo quando os territórios da Lousiana, tomados da França, foram declarados da coroa e os colonos, proibidos de pisar por lá. Uma senhora decepção, principalmente para fazendeiros e criadores de gado do sul que esperavam ocupar essas terras.

Em 1774, os americanos estavam cheios dos ingleses e para se livrar deles foram tão, mas tão tipicamente americanos. Primeiro organizaram um boicote (um bloqueio comercial) aos produtos da metrópole. Em seguida, formaram comitês pró-independência que tinham duas funções: fazer propaganda antibritânica e juntar armas e munições. No ano seguinte, a guerra começou e, em 1776, os americanos declararam-se independentes. Para tanto, escreveram um documento maravilhoso. A Declaração da Independência teve grande significado político não só porque formalizou a independência das primeiras colônias na América, dando origem à primeira nação livre do continente, mas porque trazia em seu bojo o ideal de liberdade e de direito individual e o conceito de soberania popular, representando uma síntese da mentalidade democrática e liberal da época. Redigido por Thomas Jefferson, o texto, em seu trecho mais famoso, afirma: “Todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre estes a vida, a liberdade e a procura da felicidade. A fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados. Sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade”. Isso, no fim do século 18, soou como revolução. E era. Pela primeira vez na história uma colônia se tornava independente por meio de uma revolução. Com essa iniciativa, os americanos se anteciparam à Revolução Francesa e criaram o primeiro regime democrático do planeta. E isso não era pouca coisa.

Mas os ingleses, é claro, não deram a menor bola para toda essa poesia e enviaram tropas para tomar os principais portos e vias fluviais e isolar as colônias. Liderados por George Washington, os americanos organizaram um exército, formaram milícias populares e reagiram. Mas não lutaram sozinhos: a França, eterna inimiga dos ingleses, entrou na guerra em 1778 e a Espanha, no ano seguinte. Em 1781 as tropas coloniais e francesas derrotaram os ingleses na decisiva Batalha de Yorktown e, em 1783, foi assinado o Tratado de Paris, no qual a Inglaterra reconhecia a independência das 13 colônias.

Rumo oeste

Após a independência, os agora denominados Estados Unidos da América ainda eram um paisinho nanico que se estendia verticalmente entre o Maine e a Flórida e horizontalmente entre o Atlântico e o Mississípi. Mas isso estava prestes a mudar. Alimentados ideologicamente pelo chamado “destino manifesto”, que defendia a idéia de que os americanos teriam sido escolhidos por Deus para a missão de ocupar as terras entre os oceanos Atlântico e Pacífico, os Estados Unidos iniciaram um processo de expansão que se estenderia por mais de um século e que, no final, lhes daria as fronteiras atuais e o posto de quarto maior país do mundo. Primeiro eles foram às compras e, em 1803, adquiriram dos franceses a Lousiana, por 15 milhões de dólares (ou 257 bilhões de dólares em valores atualizados). Em seguida, em 1819, compraram a Flórida da Espanha por apenas 5 milhões de dólares. O Oregon, na costa do Pacífico, cedido pela Inglaterra em 1846, saiu de graça, e o Alasca, comprado da Rússia em 1867, custou 7 milhões de dólares.

O novo país não parava de crescer e, enquanto a Europa era varrida pelas guerras napoleônicas, os Estados Unidos tornavam-se a terra das oportunidades, da liberdade e dos imigrantes. Atraídos pelo trabalho ou pelo ouro – descoberto na Califórnia, em 1848 –, milhões deles chegavam da Inglaterra, Itália, Irlanda, Espanha, Suécia, Polônia e Rússia, entre outros, no maior movimento migratório internacional da história. A população do país saltou de 4 milhões, em 1801, para 32 milhões em 1860.

No campo político, o expansionismo tinha um patrocinador de peso: o presidente James Monroe, que governou entre 1817 e 1825 e foi autor da frase “América para os americanos”. A idéia da chamada Doutrina Monroe era fazer frente à onda recolonizadora que tomou conta da Europa, após a derrota de Napoleão. Para o historiador americano Howard Zinn, a frase “deixou claro para as nações imperialistas européias, como Inglaterra, Prússia e França, que os Estados Unidos consideravam a América Latina como sua área de influência”. Na prática, conforme os interesses territoriais dos Estados Unidos aumentaram, a Doutrina Monroe ganharia outra definição, muito mais sarcástica: “América para os norte-americanos”.

Dita com sarcasmo ou não, a Doutrina Monroe funcionou no caso da ocupação dos territórios do México. Desde que se tornaram independentes da Espanha, em 1824, os mexicanos permitiram que os americanos ocupassem terras no norte do país, exigindo em troca apenas a adoção do catolicismo nessas áreas. Envolvido em constantes conflitos pelo poder e por ditaduras, os mexicanos nunca consolidaram seu poder na região e, em 1845, os colonos americanos proclamaram a independência do Texas em relação ao México, incorporando-o aos Estados Unidos. Iniciava-se a Guerra do México. Em três anos, a ex-colônia espanhola perdeu, além do Texas, o Novo México, a Califórnia, Utah, Nevada e partes do Colorado e do Arizona. Ou seja, depois da guerra, cerca de metade das terras do México incorporou-se aos Estados Unidos.

Restava a conquista das terras indígenas, conhecidas como Oeste Selvagem. Quando os ingleses chegaram, havia mais de 25 milhões de índios na América do Norte e cerca de 2 mil idiomas diferentes. Ao fim das chamadas “guerras indígenas”, restavam 2 milhões, menos de 10% do total. Para o etnólogo americano Ward Churchill, da Universidade do Colorado, esses três séculos de extermínio e, particularmente, o ritmo com que isso ocorreu no século 19 caracterizaram-se “como um enorme genocídio, o mais prolongado que a humanidade registra”.

Ao lado da expansão, veio a prosperidade econômica. Enquanto o norte crescia com o comércio e a indústria cada vez mais sólida, o sul permanecia agrícola e as novas terras do oeste eram tomadas pela pecuária e pela mineração. Ao longo do século 19, essas diferenças se agravaram. “Os Estados Unidos formavam um único país, mas esse país pensava, trabalhava e vivia diferente, abrigando na realidade duas nações: o Norte-Nordeste, industrial e abolicionista, de um lado, e o Sul-Sudeste, rural e escravista, de outro”, afirma o historiador Phil Landon, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Segundo ele, a manutenção da escravidão no Sul, associada a outros elementos também conflitantes, como questões alfandegárias, levaram, em 1860, as duas metades à guerra civil, na qual morreram 620 mil americanos, ou 2% da população.



Fronteira final

O Norte ganhou a guerra, os Estados permaneceram unidos e partiram na direção do desenvolvimento, o que, na época, significava ir mundo afora buscando consumidores para os produtos de sua indústria. O acesso ao Pacífico deu às ambições americanas um caminho óbvio: a Ásia. E foi ali que os Estados Unidos definiram as linhas mestras da sua influência internacional. Ao contrário das potências coloniais européias, que ocupavam e mantinham o controle político de suas colônias – caso da Inglaterra na Índia e da França na Indochina, por exemplo –, a jovem nação americana não estava interessada em exercer o domínio sobre outros povos. Cada país que cuidasse dos assuntos internos à sua maneira, desde que os interesses comerciais americanos fossem preservados. Essa estratégia levava o nome de “Portas Abertas”, ou seja, o acesso dos produtos e dos capitais americanos a qualquer lugar do mundo.

Mas o fato é que nem sempre as portas se abriam apenas com a conversa dos enviados de Washington. Nesses casos, era preciso um empurrãozinho. Foi o que ocorreu com o Império Japonês, que ficou fechado, durante séculos, ao intercâmbio com o exterior. Em 1852, depois de 15 anos de infrutíferos esforços diplomáticos, a paciência americana acabou. Quatro navios de guerra, sob o comando do comodoro Matthew Perry, posicionaram-se na baía de Tóquio e apontaram seus canhões para a cidade. Um emissário foi à terra para negociar – e ameaçar – as autoridades japonesas. Caso se recusassem a liberar os portos do país ao comércio, seriam bombardeados. Os japoneses toparam. Acordo semelhante foi firmado com a China, que estendeu aos americanos os privilégios concedidos aos europeus.

No fim do século 19, o país já possuía a maior economia do planeta e uma força naval só comparável à inglesa e à prussiana. O avanço das fronteiras estava esgotado e todos os territórios, no leste e no oeste, colonizados. Uma severa recessão econômica, iniciada em 1893, insuflou as tensões sociais até então mantidas sob controle graças à permanente abertura de novas terras para a exploração. Entre as elites econômicas, começou a prosperar a idéia de que a única saída para a crise era a ampliação dos mercados no além-mar. Na mesma época, um capitão da Marinha americana, Alfred Thayer Mahan, publicou seu livro A Influência do Poder Marítimo na História. A obra, que teve entre seus leitores mais entusiastas o futuro presidente Theodore Roosevelt, propunha a instalação de bases navais americanas no Caribe e no Pacífico e a abertura de uma ligação entre os oceanos pelo Panamá. Só assim seria possível sustentar o avanço comercial dos americanos no Extremo Oriente, onde se concentrava a competição entre as potências econômicas ocidentais. As idéias de Mahan orientaram a decisão de anexar o Havaí, em 1897. Também influenciaram na determinação de recorrer às armas para abiscoitar as possessões espanholas que ainda restavam.

Fazer uma guerra contra a Espanha – e sua influência imperial – tinha entre seus líderes, além de políticos ambiciosos como Ted Roosevelt, donos de jornais, como William Randolph Hearst – o magnata da imprensa que inspirou o filme Cidadão Kane, de Orson Welles. Era gente que achava que o “destino manifesto”, ou seja, a predestinação americana para liderar os países rumo à democracia, deveria ir além da América do Norte. “A Espanha, em plena decadência, enfrentava rebeliões anticoloniais em Cuba e nas Filipinas, e os partidários da guerra diziam que os Estados Unidos tinham o dever de ajudar os rebeldes em luta pela liberdade”, diz a historiadora Sophia Rosenfeld, da Universidade da Virgínia. O pretexto para a ação militar ocorreu depois da explosão de um navio americano no porto de Havana, em 18 de fevereiro de 1898. Os jornais americanos trataram o fato como um atentado arquitetado pela Espanha. “Querendo evitar a guerra, os espanhóis chegaram a se desculpar, mas hoje há praticamente um consenso entre os historiadores de que a explosão não foi um ato de guerra, mas, provavelmente, acidental”, afirma Sophia. Pressionado pela histeria belicista, em 25 de abril o presidente William McKinley declarou guerra à Espanha.

A Espanha, totalmente despreparada, com equipamento antiquado, quase não ofereceu resistência. Dos 200 mil espanhóis em Cuba, apenas 12 mil foram mobilizados para defender Santiago, na maior batalha terrestre contra os americanos. A Marinha americana arrasou os antigos navios espanhóis sem sofrer qualquer baixa. Nas Filipinas, a situação não foi diferente. A principal batalha naval foi travada na baía de Manila, no dia 1º de maio. Seis dos mais modernos e bem armados navios de guerra americanos enfrentaram a esquadra espanhola formada por sete navios. Três deles eram de madeira e um quarto precisou ser rebocado até o local da batalha. Os canhões instalados em terra, em Manila, não puderam ser usados, pois os comerciantes espanhóis impediram que entrassem em combate temendo que isso provocasse disparos dos navios americanos contra suas propriedades na orla.

Os espanhóis se renderam em menos de quatro meses, em 12 de agosto, e os Estados Unidos emergiram, aos olhos do mundo, como uma verdadeira potência imperial. Cuba, formalmente libertada do jugo colonial, passou a ser administrada pelos americanos, que mantiveram os rebeldes locais à margem do poder. Porto Rico se integrou aos Estados Unidos e as distantes ilhas Filipinas foram anexadas, transformando-se na primeira colônia americana.

Os filipinos, frustrados por não obterem a independência, se rebelaram em 1899. Os Estados Unidos levaram três anos para esmagar a insurreição, numa campanha em que mobilizaram 120 mil soldados. Os combates provocaram a morte de 4 mil americanos e mais de 200 mil filipinos, na maioria civis, vítimas dos bombardeios indiscriminados e da fome, causada pela destruição das lavouras. Foi a primeira vez que os americanos enfrentaram um povo em luta pela libertação nacional.

Poder global

A vitória na Guerra Hispano-Americana garantiu aos americanos o controle do Caribe e da América Central. Na gestão de Ted Roosevelt, iniciada em 1901, o país instalou um regime de tutela política e financeira sobre a região e despachou tropas para o México, Nicarágua, Haiti e outros países, a pretexto de ensiná-los a “eleger os homens certos”, como diziam as propagandas americanas da época, para os postos de governo. A velha Doutrina Monroe, de 1823, ganhou finalmente vigência plena. Em 1904, o Congresso americano adotou como política oficial o direito de intervir nos países latino-americanos que se mostrassem incapazes de garantir a ordem interna ou de honrar suas dívidas com os bancos estrangeiros. Roosevelt escreveu textualmente na sua mensagem ao Congresso, por ocasião de sua posse, que os Estados Unidos, “embora relutantes”, estavam prontos a “exercer seu papel de polícia internacional” na América Latina nos casos em que se verificasse “a crônica incapacidade” (dos governantes locais) ou “a impotência que resulte no enfraquecimento dos laços da sociedade civilizada”.

Os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, em 1917, como a única potência hegemônica em seu próprio hemisfério, e saíram dela ainda mais fortes, como a maior força militar do planeta – afinal, foi o Tio Sam quem desempatou o jogo nas trincheiras da Europa, selando a derrota dos impérios alemão, austro-húngaro e turco-otomano. Começava a investida americana pela supremacia global que, no mundo abalado pela recessão do período entre-guerras, pela ascensão das ideologias fascistas e, por fim, pela Segunda Guerra, só se confirmaria nas cinzas de Hiroshima, quando os Estados Unidos deram uma mostra – talvez a maior de todas – de seu poder e determinação militar. “Depois da guerra e diante da destruição sofrida pelos eventuais competidores, os americanos passaram a dominar a maior parte do globo”, diz o historiador Amadeo Giceri, da Universidade Estadual do Kansas. O vazio de poder em escala global e o confronto com a União Soviética – um rival de segunda classe, restrito a seu cinturão de segurança no Leste Europeu e irrelevante como potência econômica – deram aos americanos a chance de alcançar a meta que perseguiam desde o século 19: usar seu poderio militar para abrir o mundo ao comércio e aos investimentos das empresas americanas.

“Os Estados Unidos estenderam sua influência à Indochina e ao Oriente Médio, diante da incapacidade de França e Inglaterra de preservar seus interesses nas ex-colônias”, afirma Giceri. Para ele, a Guerra Fria contra os soviéticos e a teoria da luta contra o “mal maior”, ou seja, o comunismo, justificava a presença e a interferência americana nos assuntos internos dos países espalhados pelo globo. Enfrentar o “mal maior” por vezes significou patrocinar guerrilheiros e golpistas, como no Irã e na Guatemala, na década de 1950. O fim da União Soviética, em 1991, instalou confortável e definitivamente os Estados Unidos no posto de única superpotência.

Ser ou não ser

Mas é justo, diante das guerras do Iraque e do Afeganistão, chamá-los de “império”. Os americanos, de um modo geral, acham muito estranho, e até se sentem ofendidos. Em 230 anos de independência, sucessivos ocupantes da Casa Branca têm se esmerado em desmentir a intenção de dominar outras nações. O primeiro foi McKinley, em 1898, que depois da guerra com a Espanha garantiu que “nenhum desejo imperial se espreita na mente americana”. O último foi George W. Bush em sua campanha à reeleição, que depois de invadir o Afeganistão disse que “nosso país não busca a expansão do seu território, e sim a ampliação do campo da liberdade”. Para o sociólogo americano Michael Mann, a hegemonia dos Estados Unidos contém um paradoxo. Segundo ele, ao espalharem pelo mundo os valores democráticos, os Estados Unidos reforçam a noção de que cada povo deve ser dono do seu próprio nariz. “A ideologia do liberalismo e a disseminação do conceito moderno de soberania nacional trariam embutidos os anticorpos contra qualquer plano de dominação.” Ou seja, se os Estados Unidos são o problema, também são a solução, pois, diferentemente de qualquer conquistador do passado, os americanos, que carregam na bagagem o ideal da liberdade e da democracia, levam junto os canhões e os capitais. Aí residem a força e a fraqueza do seu império.



Terra prometida
Quando chegaram à América, em 1630, os peregrinos queriam construir uma sociedade única, longe dos vícios da velha Europa, que pudesse servir de exemplo para o mundo. Um século e meio depois, ao assinar a Declaração da Independência, os americanos criaram o primeiro Estado democrático sob os ideais da liberdade e da igualdade.

Acima do bem e do mal
Em 230 anos, os EUA mostraram ao mundo do que são capazes
Certidão de nascimento

“Todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre estes a vida, a liberdade e a procura da felicidade.” A Declaração da Independência dos americanos sintetizou, 13 anos antes da Revolução Francesa, a mentalidade democrática e liberal do Iluminismo

Abertura dos portos

Dois séculos de isolamento japonês foram por água abaixo, em 1854, quando o oficial americano Matthew Perry e seus navios de guerra obrigaram o Japão a abrir-se ao comércio. A manobra estabeleceu as linhas da política externa americana a partir dali, mostrando ao mundo que havia um novo e poderoso ogador no tabuleiro internacional.

Navios na selva

Quando, em 1903, os EUA retomaram as obras deixadas pelos franceses, parecia impossível dividir o continente em dois e abrir uma rota entre o Atlântico e o Pacífico. O sonho – o Canal do Panamá – se tornou real em 1914 e encurtou em 14 500 quilômetros a viagem marítima entre as duas costas americanas.


Em nome de Deus
A predestinação divina na política americana
Uma noite, no fim do século 19, um homem se ajoelhou para rezar e recebeu, diretamente de Deus, instruções para enviar tropas a um arquipélago distante. Foi assim que o presidente americano William McKinley explicou sua decisão de invadir as Filipinas, em 1898, durante a Guerra Hispano-Americana. Pouco mais de um século depois, o presidente George W. Bush relatou algo semelhante ao falar sobre política externa para um grupo de autoridades palestinas. “Deus me disse para atacar a Al Qaeda, e eu a ataquei. Então ele me deu a ordem de atacar Saddam, e foi isso que eu fiz.”A inspiração divina é um elemento constante na história dos Estados Unidos – ou, pelo menos, nos discursos de seus dirigentes, que, mais de uma vez, utilizaram-na para justificar a expansão das fronteiras do país e, mais tarde, a adoção de políticas imperialistas. Afinal, isso seria o cumprimento de um “destino manifesto”. Ou seja, os americanos estão convencidos de que têm a missão a eles dada por Deus de espalhar pelo mundo a civilização e a liberdade, exatamente da maneira como foram postas em prática nos Estados Unidos. Para os partidários dessa concepção, trata-se de uma tarefa ao mesmo tempo óbvia (a saga americana seria uma prova ou “manifestação” desse fato) e inevitável (ou seja, um “destino”). A expressão “destino manifesto” surgiu às vésperas da guerra com o México, em 1846, quando o jornalista John O’Sullivan defendeu “a realização do nosso destino manifesto de nos espalharmos pelo continente que recebemos da Providência”. Mas a idéia tem raízes mais antigas, que remontam aos puritanos do século 17. Em sua jornada através do Atlântico, esses imigrantes se comparavam aos hebreus do Velho Testamento, cruzando o deserto em busca da Terra Prometida. John Winthrop, o líder puritano, definiu a sociedade construída pelos peregrinos como “uma cidade no alto da colina”, um farol destinado a iluminar a humanidade. O escritor Herman Melville, autor do clássico Moby Dick, expressou a mesma visão. “Somos o povo peculiar, escolhido, o Israel do nosso tempo. Carregamos a arca das liberdades do mundo”, escreveu, em 1850. Mas nem sempre a missão americana foi interpretada como uma carta branca para ocupar territórios. Thomas Jefferson, líder da independência, acreditava que os EUA deveriam difundir os valores democráticos por meio do seu próprio exemplo, que acabaria por ser imitado por outros povos, e não pelo uso da força. Quem concorda com isso é chamado “exemplarista”. Quem acredita que dar o exemplo não basta e que é preciso dar uma mãozinha para que os outros conheçam a verdade leva o nome de “vindicatista”. Quem pensa, porém, que a tese da predestinação só voltou com Bush, que se autoproclama autorizado a exercer a liderança global em benefício de todos, está enganado. Madeleine Albright, secretária de Estado na gestão de Bill Clinton, foi uma defensora das mais entusiastas. Em 1997, ao justificar o lançamento de mísseis contra o Iraque, Albright afirmou, num programa de televisão: “Se nós temos que usar a força, é porque somos a América. Somos a nação indispensável. Nós temos estatura. Nós enxergamos mais longe em direção ao futuro.”

Pais da pátria
Cinco homens que fizeram a América
Gênio da lâmpada

Thomas Edison (1847-1931) foi um dos maiores inventores de todos os tempos – e, na hora de ganhar dinheiro, não tinha nada de cientista maluco. Ao todo, registrou 1 097 patentes. Seu feito mais rentável, um aperfeiçoamento que deu viabilidade comercial à lâmpada incandescente, permitiu que ele criasse a Edison General Electric – que se transformou num gigantesco conglomerado, existente até hoje. Edison nasceu pobre, tirava péssimas notas na escola e ficou quase surdo na adolescência. Isso o tornou um excelente telegrafista, que não se distraía com os ruídos do ambiente. Sua invenção mais conhecida foi o fonógrafo, mas ele também ajudou a criar a filmadora e a desenvolver o telefone. Não acreditava em Deus e não tinha hobbies ou qualquer divertimento fora do trabalho.

Ás no volante

Criador da linha de montagem, Henry Ford (1863-1947) reinventou a indústria. Em 1903, depois de vencer corridas com um quadriciclo que construíra, fundou a Ford Motor Company. Produzindo em série, a empresa popularizou os automóveis. Com filiais no Canadá, na Europa e na Austrália, Ford foi pioneiro entre as multinacionais e chegou a ver sua marca em 90% dos carros do mundo. Reduziu a jornada de trabalho e deu participação nos lucros aos funcionários, mas nunca perdeu sua ojeriza aos sindicatos. Certa vez, resolveu dobrar o salário dos empregados. Não era generosidade: com mais dinheiro no bolso, eles compravam carros. Ao morrer, era um dos três homens mais ricos do mundo.

Comandante da vitória

Onze em cada dez estudiosos concordam que Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) foi o maior presidente americano do século 20. Apesar de ter as pernas paralisadas por uma doença desde 1921, não usava cadeira de rodas em público (andava com a ajuda de uma armação metálica sob as roupas e se apoiava numa bengala). Em 1932, eleito para o primeiro de quatro mandatos, combateu a Grande Depressão investindo milhões em obras públicas, que geraram empregos no país todo. Era o New Deal (“novo acordo”), que incluiu a criação de um sistema de saúde pública e previdência. Após salvar a economia do país, Roosevelt o conduziu na vitória sobre o nazismo. Morreu um mês antes do fim da Segunda Guerra, quando se preparava para presidir a sessão inaugural das Nações Unidas.

Papai disney

Típico self made man americano,Walt Disney (1901-1966) nasceu pobre e terminou a vida milionário. Aos 10 anos, vendia jornais e cigarros no trem. A partir de 1923, dedicou-se a fazer filmes de animação. O sucesso só veio cinco anos depois, com a estréia no cinema de Mickey, o expoente da mais popular turma de personagens infantis do século 20. De 1955 em diante, Disney entregou a parte criativa a uma equipe de artistas e, com a inauguração da Disneylândia, iniciou seu império de parques temáticos. Na década de 50, denunciou alguns ex-colaboradores como “comunistas” e, até o fim da vida, atuou como informante da polícia, vigiando as atividades sindicais em Hollywood.

O sistema é dele

Com uma fortuna de mais de 100 bilhões de dólares, Bill Gates é o patrono da revolução dos microcomputadores iniciada na década de 80. Nascido numa família rica de Seattle, em 1955, Gates abandonou a Universidade Harvard em 1977 para fundar sua própria empresa, a Microsoft. Com o sistema Windows, lançado em 1985, desbancou seus competidores e dominou o mercado de softwares – onde costuma ser acusado de recorrer a práticas ilícitas. Homem mais rico do mundo, é também o líder mundial em donativos para atividades filantrópicas: tem uma fundação que concede bolsas de estudos a minorias raciais e financia pesquisas para o tratamento de doenças.


A bomba
Em 6 de agosto de 1945, em Hiroshima, no Japão, uma clara mensagem ofuscou os olhos do mundo. Os americanos não eram apenas os primeiros capazes de desenvolver uma bomba nuclear. Eram os únicos com coragem de usá-la.

Onde nenhum homem jamais esteve
Quando o astronauta Neil Armstrong espetou a bandeira americana na Lua, em 1969, mostrou ao mundo do que a determinação, a grana e a tecnologia dos EUA eram capazes. Um passo gigantesco para o país predestinado ao sucesso.

Saiba mais
Livros

Incoherent Empire, Michael Mann, Verso, 2003 - O autor é um críticos da hegemonia americana pós-Guerra Fria.

O Paradoxo do Poder Americano, Joseph S. Nye Jr., Unesp, 2002 - Professor de Universidade de Harvard e um dos mais respeitados cientistas políticos americanos considera a liderança de seu país benéfica para o mundo.

Special Providence, Walter Russel Mead, A. Knof, 2003 - Tecnologia, força e democracia se misturam para explicar por que os americanos foram bem-sucedidos onde os europeus fracassaram.

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