terça-feira, 2 de junho de 2009

O papel da mulher no islamismo

Elas ainda sofrem, mas a culpa não é apenas da religião

POR TRÁS DOS VÉUS: garota olha entre mulheres afegãs com burcas


A lista de horrores já soa, a esta altura, familiar. Meninas proibidas de ir à escola e condenadas ao analfabetismo. Mulheres impedidas de trabalhar e de andar pelas ruas sozinhas. Milhares de viúvas que, sem poder ganhar seu sustento, dependem de esmolas ou simplesmente passam fome. Mulheres com os dedos decepados por pintar as unhas. Casadas, solteiras, velhas ou moças que sejam suspeitas de transgressões - e tudo o que compõe a vida normal é visto como transgressão - são espancadas ou executadas. E por toda parte aquelas imagens que já se tornaram um símbolo: grupos de figuras idênticas, sem forma e sem rosto, cobertas da cabeça aos pés nas suas túnicas - as burqas. Quando o Afeganistão entrou no noticiário por aninhar os terroristas que bombardearam o World Trade Center e o Pentágono, essas cenas de mulheres tratadas como animais voltaram a espantar o Ocidente. Elas viviam em regime de submissão absoluta havia muito tempo, mas a situação ficou ainda pior desde que a milícia Talibã tomou o poder no país, em 1996.

O cenário de Idade Média não era uma prerrogativa afegã. Trata-se de uma avenida permanentemente aberta aos regimes islâmicos que desejem interpretar os ensinamentos do Corão a ferro e fogo. A isso se dá o nome de fundamentalismo. Há países de islamismo mais flexível, como o Egito, e outros de um rigor extremo, como a Arábia Saudita. Para o pensamento ortodoxo muçulmano, a mulher vale menos do que o homem, explica Leila Ahmed, especialista em estudos da mulher e do Oriente Próximo da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. "Um 'infiel' pode se converter e se livrar da inferioridade que o separa dos 'fiéis'. Já a inferioridade da mulher é imutável", escreveu Leila num ensaio sobre o tema, em 1992.

Por trás dessa situação há uma ironia trágica. A exclusão feminina não está presente nas fundações do islamismo, mas apenas no edifício que se erigiu sobre elas. O Corão, livro sagrado dos muçulmanos, contém versículos dedicados a deixar claro que, aos olhos de Alá, homens e mulheres são iguais. O mais importante deles é o que está reproduzido nesta página. Ele mostra que Deus espera a mesma fidelidade de ambos os sexos, e que a premiará de forma idêntica. O Corão é o mandamento divino, e não uma interpretação qualquer da vontade de Deus. Como se explica, então, que idéias tão avançadas tenham se perdido, para dar lugar a Estados religiosos em que as mulheres têm de viver trancafiadas e cobertas por véus, em pleno século XXI? As respostas têm de ser buscadas muito longe, no próprio nascimento do Islã.

Casamento aos 9 - Quando tinha 25 anos, Maomé se casou com Khadidja, uma viúva rica que o empregara para supervisionar sua caravana de comércio entre a cidade de Meca, na atual Arábia Saudita, e a Síria. A própria Khadidja, de 40 anos, propôs as núpcias, num arranjo que não era assim tão incomum. Naquela época, a Arábia era uma das poucas regiões do Oriente Médio em que o casamento comandado pelo marido ainda convivia com outros tipos de união. Acredita-se que havia até mulheres que tinham vários maridos - e muitas viviam com considerável autonomia pessoal e financeira. Era o caso de Khadidja, uma negociante experiente. Alguns anos depois de seu casamento, Maomé começou a receber o que seriam revelações de Deus. Julgando-se louco, procurou o conselho da esposa. Ela dispersou suas dúvidas e, para provar sua confiança no marido, converteu-se à nova religião. O primeiro muçulmano foi, assim, uma mulher. Quando Khadidja morreu, Maomé entrou em vários casamentos simultâneos. A mais célebre de suas esposas é Aisha, que tinha 9 anos na ocasião das bodas. Segundo alguns relatos, ela brincava no quintal quando foi chamada para dentro de casa. Lá, encontrou o noivo e foi posta sobre seus joelhos. Os pais da menina se retiraram, e o casamento teria se consumado ali, na casa paterna.

Aisha é uma figura central nesses primeiros anos do Islã (cujo calendário começa a ser contado no ano 622 da era cristã). Inteligente, articulada e dona de uma memória prodigiosa, ela foi a mais querida e respeitada das mulheres do profeta - embora todas partilhassem de seus ensinamentos e apoiassem ativamente sua causa. Eram, aliás, tão assediadas por pessoas em busca de favores e influência que talvez por isso tenham sido as primeiras muçulmanas (e, por algum tempo, as únicas) a usar véu e ficar recolhidas em casa - e, ainda assim, só nos últimos anos da vida de Maomé. Aisha tinha 18 anos quando Maomé morreu. Nas quase cinco décadas seguintes de sua vida, ela foi inúmeras vezes consultada em pontos importantes da religião, da política e também da conduta do profeta. Isso porque Maomé legou aos muçulmanos o Corão, que é quase um tratado ético, mas não teve tempo de regulamentar todos os princípios que deveriam reger o cotidiano dos convertidos. Quando vivo, podia ser consultado a qualquer momento. Depois de sua morte, tornou-se tarefa de seus seguidores próximos transferir da memória para a escrita as palavras e ações do profeta. A intenção era que o conjunto servisse de guia aos fiéis. Esses "ditados" são os Hadith. Juntos, eles compõem a tradição maior, a Sunna. Com as complicações surgidas por causa da sucessão de Maomé, os Hadith tornaram-se uma ferramenta crucial. Não era difícil que alguém sacasse um deles para resolver um impasse. E, é claro, não demorou para que muitos fossem forjados. Cerca de 200 anos depois da morte do profeta, um respeitado historiador do islamismo, al-Bukhari, contou 7 275 Hadith genuínos, contra quase 600.000 inventados. Mesmo os tidos como verdadeiros merecem algum escrutínio, argumentam estudiosos como a marroquina Fatima Mernissi.

Fatima investigou a origem dos Hadith que são as pedras angulares para justificar a inferioridade feminina no Islã. Um deles é o que compara as mulheres aos cães e jumentos na sua capacidade de perturbar a oração. Fatima concluiu que o narrador desse Hadith, Abu Hurayra, era um homem com sérios problemas de identidade sexual e um feroz opositor de Aisha, que amiúde o repreendia em público por sua mania de inventar Hadith. Nessa ocasião, ela corrigiu Hurayra, dizendo que o profeta costumava rezar perto de suas mulheres sem nenhum medo de que elas o atrapalhassem. Mas sua versão não passou à história. Outro Hadith que todo muçulmano sabe de cor é o que diz que "aqueles que confiam seus negócios a uma mulher nunca conhecerão a prosperidade". Segundo Fatima Mernissi, o surgimento desse Hadith é ainda mais misterioso. Abu Bakra, seu narrador, lembrou dessa frase do profeta (e pela primeira vez) mais de vinte anos depois de supostamente ela ter sido dita. Curiosamente, veio-lhe à memória (assim ele afirmou) no momento em que Aisha sofreu sua grande derrocada. A viúva do profeta virou o centro de uma crise quando, ao suspeitar de um golpe, pegou em armas para intervir numa das etapas da sucessão de Maomé. Na batalha que se seguiu, perdeu 13.000 de seus soldados e saiu derrotada, em vários sentidos. Foi, primeiro, criticada por ter se exposto de uma maneira inconveniente a uma mulher. E, com a perda de prestígio, teve muitos de seus comentários e correções sobre importantes Hadith suprimidos ou ignorados - como no caso daquele que fala dos cães e jumentos. Esses são só alguns exemplos de como a voz feminina, tão valorizada nos primórdios do Islã, começou a se silenciar.

Ideais de pureza - A pesquisadora Leila Ahmed tem mais explicações para a opressão das mulheres no Islã. Os muçulmanos, diz ela, costumavam manter os hábitos das regiões onde se firmavam, desde que esses estivessem em sintonia com seu pensamento. O restante era descartado. Na Arábia, por exemplo, eliminaram as outras formas de casamento para que prevalecesse apenas o patriarcal. Quando conquistaram a região que hoje abarca o Irã e o Iraque, assimilaram a prática de formar haréns, o uso disseminado do véu para as mulheres e, principalmente, os mecanismos de repressão feminina que eram uma característica marcante dos povos locais. Foi nesse ambiente altamente misógino que, nos séculos seguintes, o direito islâmico foi elaborado. Separado em escolas que diferem em vários pontos, mas se apresentam como sendo timbres diversos de uma só voz, esse direito é dado como absoluto e imutável. Seus princípios não podem ser questionados nem relativizados à luz de traços culturais. Por isso são, até hoje, um instrumento útil para calar as mulheres em países nos quais vigora o regime teocrático. Um dado complicador é que as muçulmanas têm até hoje um conhecimento muito vago da lei divina. Aderem ao fundamentalismo atraídas pelos ideais de pureza da religião e, quando ele é instaurado, são surpreendidas por seus rigores - a exemplo do que ocorreu no Irã dos aiatolás.

Não é pequena a importância de estudos históricos como os de Leila Ahmed e Fatima Mernissi. Eles ajudam a demonstrar que a liberdade feminina não equivale à ocidentalização e à aculturação - ou, em outras palavras, à traição do Islã. Pelo contrário: é possível ser, ao mesmo tempo, uma muçulmana livre e uma muçulmana fiel. Se a democracia chegou para as mulheres que vivem sob a égide da civilização judaico-cristã, que também não é lá muito célebre por sua visão feminista do mundo, não há por que ela não possa ser almejada pelas muçulmanas que se orgulham de sua religião. Em tempo: um dia, um seguidor de Maomé lhe indagou qual a pessoa que ele mais amava no mundo. "Aisha, minha mulher", respondeu o profeta. Irritado com uma resposta assim, no feminino, o curioso insistiu: "E qual o homem que o senhor mais ama?". Maomé não hesitou. "Abu Bakr. Porque ele é o pai de Aisha."

Revista Veja

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A minoria que agride e assusta

O que está por trás do extremismo no mundo islâmico?


CONTRA O OCIDENTE: protesto anti-EUA na tensa Karachi, Paquistão

Com o surgimento dos primeiros indícios de que a onda de terror de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos foi obra de radicais islâmicos, uma questão tornou-se inevitável: quem é essa gente que se suicida jogando aviões contra edifícios? Que se veste de bombas e se explode em supermercados e pizzarias de Israel? Que estoura carros recheados de explosivos contra muros de quartéis? Quem é, enfim, essa gente que se mata em nome de Alá? Atualmente, calcula-se que exista em torno de 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo, divididos em diversas correntes religiosas - e apenas uma parcela pequena está disposta a entregar a vida pela causa. São muçulmanos que integram ramificações extremistas da religião, como os sunitas do Afeganistão e os xiitas do Líbano, para os quais o suicídio em nome de Alá, normalmente cometido aos gritos de "Deus é grande", é uma forma suprema de entrega ao amor divino. A maioria dos muçulmanos, no entanto, repudia os ataques suicidas e os considera pecado extremo, uma ofensa contra Alá, na medida em que atenta contra o dom da vida - um dom divino. "O primeiro equívoco comum entre ocidentais e cristãos é considerar todo islâmico um extremista suicida e, por extensão, um terrorista em potencial", adverte a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo.

O islamismo é a religião que mais cresce no planeta, e ganhou visibilidade nas últimas décadas em função de sua imensa riqueza estratégica: eles são donos das mais generosas reservas de petróleo do mundo. O crescimento do rebanho e a fartura do petróleo, no entanto, produziram um barril de pólvora. Em geral, os regimes dos países islâmicos são ditaduras teocráticas e a riqueza não é distribuída, deixando a maior parte da população relegada à miséria. É dentro desse caldeirão paradoxal que ressurgiu a força da religião, em especial depois da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. "Num ambiente de carência social e autoritarismo político, a religião funciona como uma poderosíssima válvula de escape", define a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da USP. Mas isso não é tudo. Até pouco tempo atrás, a América Latina também convivia simultaneamente com miséria e ditadura - e, no entanto, nunca se viram grupos extremistas de latino-americanos promovendo atos de terrorismo pelo mundo afora em nome de sua libertação econômica e política. Por que então alguns grupos de fanáticos islâmicos chocam o mundo com espetáculos inimagináveis de terror? A explicação sobre o que move esses extremistas, segundo alguns especialistas, talvez esteja num dado mais sutil: o choque de civilizações.

Cimitarra no coração - "Os Estados nacionais permanecerão como os atores mais poderosos no cenário mundial, mas os principais conflitos globais ocorrerão entre nações e grupos de diferentes civilizações", aposta o professor Samuel P. Huntington, especialista em estudos internacionais da Universidade Harvard e autor de um livro dedicado ao assunto. "O choque de civilizações será a linha divisória das batalhas do futuro." Nem todos os estudiosos do assunto concordam com a tese de Huntington, mas não há como negar que, num mundo cada vez menor, cada vez mais próximo, a religião também funciona como um instrumento de afirmação da identidade nacional. E a globalização crescente é um processo que se desenrola sob o comando inequívoco do mundo ocidental - em especial, do império americano.

As potências ocidentais não trilham sua trajetória segundo parâmetros da Bíblia, da fé cristã, dos ensinamentos de Jesus, mas, mesmo assim, elas acabam por se contrapor, culturalmente, aos países muçulmanos, muitos dos quais se pautam pelo Corão, pela fé islâmica, pelos ensinamentos de Maomé. Hoje, as potências ocidentais encontram-se no auge do poder. Os Estados Unidos, com sua incomparável pujança econômica, seu formidável poderio militar e sua vigorosa influência política e cultural sobre os destinos do mundo, representam o triunfo dos valores ocidentais - pelo menos aos olhos de fundamentalistas islâmicos, que, é sempre bom lembrar, são uma minoria entre os muçulmanos. Daí por que o terror de 11 de setembro não se esgotou na destruição de arranha-céus e na morte de inocentes. Pretendeu, sobretudo, cravar uma cimitarra no coração e no orgulho da maior potência ocidental.

McDonalds no Líbano - Os extremistas, que enxergam o mundo pela oposição entre Jesus e Maomé, se ressentem da avassaladora influência ocidental sobre o planeta - nos costumes, nos hábitos de consumo, no modo de vida. Tanto que, em países dominados por radicais islâmicos, especialmente os talibãs do Afeganistão, tudo o que lembra a cultura ocidental é proibido e severamente punido. Mas, de novo, isso não é uma regra. No Irã, há grandes anúncios de produtos ocidentais pelas ruas de Teerã, existem mulheres procurando cirurgiões plásticos, num sinal de vaidade antes inadmissível, e é muito expressivo o contingente feminino que freqüenta a universidade - uma raridade em algumas nações islâmicas que confinam a mulher aos limites do lar. "Há aspectos do capitalismo ocidental que são plenamente aceitos pelas populações muçulmanas", diz um diplomata brasileiro que serviu por oito anos no Líbano. "As cadeias de fast food, como o McDonald's, fazem sucesso do Marrocos ao Líbano," diz ele.

"Sem dúvida, o extremismo religioso está ligado às frustrações, principalmente entre os mais jovens, pois os países árabes têm economia fraca, analfabetismo e desemprego crescente", afirma Sharif Shuja, professor de relações internacionais da Universidade Bond, na Austrália. "Mas, além disso, o massacre de muçulmanos na Bósnia, na Chechênia, na Palestina e na Caxemira faz o mundo árabe imaginar que o Ocidente está contra ele", completa o especialista. A melhor maneira de reduzir o crescimento do extremismo talvez esteja na expansão democrática dos países islâmicos - tema ao qual as potências ocidentais vinham dedicando pouca atenção até 11 de setembro. A riqueza econômica do petróleo, por si só, não foi capaz de melhorar esse cenário. "Na verdade, ocorreu o contrário", analisa o professor Michael Hudson, da Universidade Georgetown. "Jordânia, Líbano, Marrocos e Palestina, que não têm reservas petrolíferas, hoje são países muito mais abertos que os ricos em petróleo, como Arábia Saudita, Iraque e Líbia." A exceção é o Irã, único islâmico rico que vive um acelerado processo de democratização.

'Todas as armas' - Osama bin Laden e sua corte de fanáticos vivem na clandestinidade, enfurnados em cavernas do Afeganistão, envoltos numa aura de mistério, mas seus objetivos são bem claros. Basta consultar os escritos do milionário que virou o mais exaltado dos radicais islâmicos. Primeiro, ele pretende expulsar os militares americanos das bases que eles mantêm na Arábia Saudita, onde a mera presença de não-muçulmanos é vista pelos fanáticos como uma profanação do solo santo onde nasceu o Islã. "Todos os esforços devem ser concentrados em combater, destruir e matar o inimigo até que, pela graça de Alá, esteja completamente aniquilado", esclarece Laden, em documento datado de 1996. Realizada a primeira missão divina, ele pretende partir para a segunda, de alcance mais amplo: unir todos os muçulmanos numa mesma comunidade, governada de acordo com a interpretação mais literal e estrita dos preceitos do Corão.

Para isso, os governos dos países muçulmanos considerados corrompidos pela influência ocidental - ou seja, todos - devem ser varridos do mapa. Sem fronteiras nacionais, unificados sob esse governo ideal, chamado califado, os verdadeiros crentes se lançariam então rumo à etapa final - arrebatar o resto do planeta. "Chegará o tempo em que vocês desempenharão papel decisivo no mundo, de forma que a palavra de Alá seja suprema e as palavras dos infiéis sejam subjugadas", prometeu ele a seus seguidores. Em qualquer uma dessas etapas, o dever dos muçulmanos é empregar todas as armas possíveis para atacar os inimigos de Alá. O título do documento em que faz essa afirmação diz tudo: "A Bomba Nuclear do Islã". Parece coisa de uma mente delirante, dos gênios do mal caricaturados no cinema ou nas histórias em quadrinhos. A forma aberrante de fanatismo religioso pregada por Laden, porém, tem raízes bem fincadas na história da religião muçulmana, constantemente marcada por esse desejo de mergulhar na fonte original, de beber da palavra mais pura do Corão, de reviver um passado mítico.

Período de decadência - Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente em matéria de progresso material, científico, administrativo e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais.

Chegamos, assim, àquilo que distingue o fundamentalismo em sua vertente mais extremada: o recurso à violência como meio não só legítimo como obrigatório. Ancorados em textos do Corão ou ensinamentos do profeta e seus seguidores, evidentemente interpretados da maneira mais literal, os fundamentalistas aperfeiçoam há séculos uma teoria da violência total. "Aqueles que ignoram tudo do Islã pretendem que ele recomende não fazer a guerra. São insensatos. O Islã diz: 'Matem todos os infiéis da mesma maneira que eles os matariam'", escreveu um dos aiatolás que lançaram as bases da revolução fundamentalista que derrotou o regime do xá Reza Pahlevi no Irã. O aiatolá complementa: "Aqueles que estudam a guerra santa islâmica compreendem por que o Islã quer conquistar o mundo inteiro. Todos os países subjugados pelo Islã receberão a marca da salvação eterna. Pois eles viverão sob a luz da lei celestial". Quando Osama bin Laden diz que "matar americanos e seus aliados, civis e militares, é um dever individual de todo muçulmano que tenha condições de fazer isso, em qualquer lugar onde seja possível fazer isso", ele está seguindo exatamente o mesmo raciocínio.

Revista Veja

A minoria que agride e assusta

O que está por trás do extremismo no mundo islâmico?


CONTRA O OCIDENTE: protesto anti-EUA na tensa Karachi, Paquistão

Com o surgimento dos primeiros indícios de que a onda de terror de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos foi obra de radicais islâmicos, uma questão tornou-se inevitável: quem é essa gente que se suicida jogando aviões contra edifícios? Que se veste de bombas e se explode em supermercados e pizzarias de Israel? Que estoura carros recheados de explosivos contra muros de quartéis? Quem é, enfim, essa gente que se mata em nome de Alá? Atualmente, calcula-se que exista em torno de 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo, divididos em diversas correntes religiosas - e apenas uma parcela pequena está disposta a entregar a vida pela causa. São muçulmanos que integram ramificações extremistas da religião, como os sunitas do Afeganistão e os xiitas do Líbano, para os quais o suicídio em nome de Alá, normalmente cometido aos gritos de "Deus é grande", é uma forma suprema de entrega ao amor divino. A maioria dos muçulmanos, no entanto, repudia os ataques suicidas e os considera pecado extremo, uma ofensa contra Alá, na medida em que atenta contra o dom da vida - um dom divino. "O primeiro equívoco comum entre ocidentais e cristãos é considerar todo islâmico um extremista suicida e, por extensão, um terrorista em potencial", adverte a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo.

O islamismo é a religião que mais cresce no planeta, e ganhou visibilidade nas últimas décadas em função de sua imensa riqueza estratégica: eles são donos das mais generosas reservas de petróleo do mundo. O crescimento do rebanho e a fartura do petróleo, no entanto, produziram um barril de pólvora. Em geral, os regimes dos países islâmicos são ditaduras teocráticas e a riqueza não é distribuída, deixando a maior parte da população relegada à miséria. É dentro desse caldeirão paradoxal que ressurgiu a força da religião, em especial depois da Revolução Islâmica no Irã, em 1979. "Num ambiente de carência social e autoritarismo político, a religião funciona como uma poderosíssima válvula de escape", define a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da USP. Mas isso não é tudo. Até pouco tempo atrás, a América Latina também convivia simultaneamente com miséria e ditadura - e, no entanto, nunca se viram grupos extremistas de latino-americanos promovendo atos de terrorismo pelo mundo afora em nome de sua libertação econômica e política. Por que então alguns grupos de fanáticos islâmicos chocam o mundo com espetáculos inimagináveis de terror? A explicação sobre o que move esses extremistas, segundo alguns especialistas, talvez esteja num dado mais sutil: o choque de civilizações.

Cimitarra no coração - "Os Estados nacionais permanecerão como os atores mais poderosos no cenário mundial, mas os principais conflitos globais ocorrerão entre nações e grupos de diferentes civilizações", aposta o professor Samuel P. Huntington, especialista em estudos internacionais da Universidade Harvard e autor de um livro dedicado ao assunto. "O choque de civilizações será a linha divisória das batalhas do futuro." Nem todos os estudiosos do assunto concordam com a tese de Huntington, mas não há como negar que, num mundo cada vez menor, cada vez mais próximo, a religião também funciona como um instrumento de afirmação da identidade nacional. E a globalização crescente é um processo que se desenrola sob o comando inequívoco do mundo ocidental - em especial, do império americano.

As potências ocidentais não trilham sua trajetória segundo parâmetros da Bíblia, da fé cristã, dos ensinamentos de Jesus, mas, mesmo assim, elas acabam por se contrapor, culturalmente, aos países muçulmanos, muitos dos quais se pautam pelo Corão, pela fé islâmica, pelos ensinamentos de Maomé. Hoje, as potências ocidentais encontram-se no auge do poder. Os Estados Unidos, com sua incomparável pujança econômica, seu formidável poderio militar e sua vigorosa influência política e cultural sobre os destinos do mundo, representam o triunfo dos valores ocidentais - pelo menos aos olhos de fundamentalistas islâmicos, que, é sempre bom lembrar, são uma minoria entre os muçulmanos. Daí por que o terror de 11 de setembro não se esgotou na destruição de arranha-céus e na morte de inocentes. Pretendeu, sobretudo, cravar uma cimitarra no coração e no orgulho da maior potência ocidental.

McDonalds no Líbano - Os extremistas, que enxergam o mundo pela oposição entre Jesus e Maomé, se ressentem da avassaladora influência ocidental sobre o planeta - nos costumes, nos hábitos de consumo, no modo de vida. Tanto que, em países dominados por radicais islâmicos, especialmente os talibãs do Afeganistão, tudo o que lembra a cultura ocidental é proibido e severamente punido. Mas, de novo, isso não é uma regra. No Irã, há grandes anúncios de produtos ocidentais pelas ruas de Teerã, existem mulheres procurando cirurgiões plásticos, num sinal de vaidade antes inadmissível, e é muito expressivo o contingente feminino que freqüenta a universidade - uma raridade em algumas nações islâmicas que confinam a mulher aos limites do lar. "Há aspectos do capitalismo ocidental que são plenamente aceitos pelas populações muçulmanas", diz um diplomata brasileiro que serviu por oito anos no Líbano. "As cadeias de fast food, como o McDonald's, fazem sucesso do Marrocos ao Líbano," diz ele.

"Sem dúvida, o extremismo religioso está ligado às frustrações, principalmente entre os mais jovens, pois os países árabes têm economia fraca, analfabetismo e desemprego crescente", afirma Sharif Shuja, professor de relações internacionais da Universidade Bond, na Austrália. "Mas, além disso, o massacre de muçulmanos na Bósnia, na Chechênia, na Palestina e na Caxemira faz o mundo árabe imaginar que o Ocidente está contra ele", completa o especialista. A melhor maneira de reduzir o crescimento do extremismo talvez esteja na expansão democrática dos países islâmicos - tema ao qual as potências ocidentais vinham dedicando pouca atenção até 11 de setembro. A riqueza econômica do petróleo, por si só, não foi capaz de melhorar esse cenário. "Na verdade, ocorreu o contrário", analisa o professor Michael Hudson, da Universidade Georgetown. "Jordânia, Líbano, Marrocos e Palestina, que não têm reservas petrolíferas, hoje são países muito mais abertos que os ricos em petróleo, como Arábia Saudita, Iraque e Líbia." A exceção é o Irã, único islâmico rico que vive um acelerado processo de democratização.

'Todas as armas' - Osama bin Laden e sua corte de fanáticos vivem na clandestinidade, enfurnados em cavernas do Afeganistão, envoltos numa aura de mistério, mas seus objetivos são bem claros. Basta consultar os escritos do milionário que virou o mais exaltado dos radicais islâmicos. Primeiro, ele pretende expulsar os militares americanos das bases que eles mantêm na Arábia Saudita, onde a mera presença de não-muçulmanos é vista pelos fanáticos como uma profanação do solo santo onde nasceu o Islã. "Todos os esforços devem ser concentrados em combater, destruir e matar o inimigo até que, pela graça de Alá, esteja completamente aniquilado", esclarece Laden, em documento datado de 1996. Realizada a primeira missão divina, ele pretende partir para a segunda, de alcance mais amplo: unir todos os muçulmanos numa mesma comunidade, governada de acordo com a interpretação mais literal e estrita dos preceitos do Corão.

Para isso, os governos dos países muçulmanos considerados corrompidos pela influência ocidental - ou seja, todos - devem ser varridos do mapa. Sem fronteiras nacionais, unificados sob esse governo ideal, chamado califado, os verdadeiros crentes se lançariam então rumo à etapa final - arrebatar o resto do planeta. "Chegará o tempo em que vocês desempenharão papel decisivo no mundo, de forma que a palavra de Alá seja suprema e as palavras dos infiéis sejam subjugadas", prometeu ele a seus seguidores. Em qualquer uma dessas etapas, o dever dos muçulmanos é empregar todas as armas possíveis para atacar os inimigos de Alá. O título do documento em que faz essa afirmação diz tudo: "A Bomba Nuclear do Islã". Parece coisa de uma mente delirante, dos gênios do mal caricaturados no cinema ou nas histórias em quadrinhos. A forma aberrante de fanatismo religioso pregada por Laden, porém, tem raízes bem fincadas na história da religião muçulmana, constantemente marcada por esse desejo de mergulhar na fonte original, de beber da palavra mais pura do Corão, de reviver um passado mítico.

Período de decadência - Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente em matéria de progresso material, científico, administrativo e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais.

Chegamos, assim, àquilo que distingue o fundamentalismo em sua vertente mais extremada: o recurso à violência como meio não só legítimo como obrigatório. Ancorados em textos do Corão ou ensinamentos do profeta e seus seguidores, evidentemente interpretados da maneira mais literal, os fundamentalistas aperfeiçoam há séculos uma teoria da violência total. "Aqueles que ignoram tudo do Islã pretendem que ele recomende não fazer a guerra. São insensatos. O Islã diz: 'Matem todos os infiéis da mesma maneira que eles os matariam'", escreveu um dos aiatolás que lançaram as bases da revolução fundamentalista que derrotou o regime do xá Reza Pahlevi no Irã. O aiatolá complementa: "Aqueles que estudam a guerra santa islâmica compreendem por que o Islã quer conquistar o mundo inteiro. Todos os países subjugados pelo Islã receberão a marca da salvação eterna. Pois eles viverão sob a luz da lei celestial". Quando Osama bin Laden diz que "matar americanos e seus aliados, civis e militares, é um dever individual de todo muçulmano que tenha condições de fazer isso, em qualquer lugar onde seja possível fazer isso", ele está seguindo exatamente o mesmo raciocínio.

Revista Veja

As raízes de uma religião pacífica

A mensagem do profeta Maomé era de tolerância

FANATISMO É MINORIA: muçulmanas oram pela paz depois do 11/9

A ligação entre a carnificina provocada pelos terroristas muçulmanos e as raízes verdadeiras da fé islâmica é o maior problema enfrentado nos dias atuais pela religião mais praticada do planeta. Dezenas de milhões de pessoas, em especial no Ocidente, confundem o islamismo com uma prática religiosa radical e raivosa, que convoca seus seguidores a matar inocentes, permite (e recompensa) o suicídio em nome de Deus e não tolera crenças diferentes. De acordo com a esmagadora maioria dos especialistas, religiosos e fiéis, contudo, a verdadeira face do Islã é exatamente oposta: a de uma fé que estimula o entendimento e desencoraja o conflito.

A própria origem do termo Islã - ou "rendição", em árabe - está ligada à palavra salam, que significa "paz". O fundador do islamismo, o profeta Maomé, dedicou sua vida à tentativa de promover a paz em sua terra, a Arábia. Antes do Islã, as tribos árabes estavam presas num círculo vicioso de ataques, revides e vinganças. O próprio Maomé e seus primeiros seguidores escaparam de dezenas de tentativas de assassinato e de uma grande ofensiva para exterminá-los em Meca. O profeta teve de lutar, mas em nome da própria sobrevivência - quando acreditou estar a salvo, passou a dedicar-se exclusivamente à reconciliação das tribos, através de uma grande campanha ideológica de não-violência. Quando morreu, no ano de 632, a meta havia sido cumprida - e justamente em função de seus ensinamentos sobre paz e tolerância.

Espírito de caridade - Quando revelou a base da crença islâmica pelos versos do Corão, Maomé convivia com uma guerra em larga escala em sua terra. Assim, muitas passagens das escrituras sagradas dos muçulmanos tratam de conflitos armados, da execução de inimigos, da guerra em nome de sua crença. Os terroristas e radicais de hoje, contudo, gostam de citar o Corão apenas nos trechos em que se convoca a luta, e não nos versos em que se prega a paz e o entendimento. Pouco depois do ataque de 11 de setembro de 2001, a escritora americana Karen Armstrong, autora de vários livros sobre a religião islâmica, compilou alguns desses versos. A seguir, alguns deles:

• No Corão, os muçulmanos recebem a ordem de Deus para "eliminar os inimigos onde quer que eles estejam". A frase é uma das preferidas de Osama bin Laden e seus discípulos do terror. No verso seguinte, contudo, a mensagem é a segunte: "Se eles deixarem-no em paz e não fomentarem guerra, e oferecerem a paz, Deus não permite que sejam machucados".

• O texto sagrado dos muçulmanos diz que a única forma aceitável de guerra é aquela conduzida em auto-defesa. Os muçulmanos jamais devem iniciar as hostilidades. A guerra é sempre manifestação do mal, indica o Corão, mas às vezes é preciso lutar para preservar seus valores - ou, como fez o profeta Maomé em Meca, para combater perseguições e se livrar dos opressores.

• Em certo trecho, o Corão cita a Torá, escritura sagrada dos judeus, ao dizer que é permitido ao muçulmano retribuir uma agressão - olho por olho, dente por dente. O texto ressalta, porém, que perdoar e deixar de lado as vinganças em nome de um espírito de caridade é uma atitude digna de mérito e admiração.

• Quando a guerra é necessária e justificada, as hostilidades contra o inimigo devem acabar logo que for possível. A guerra termina quando o inimigo acena com um gesto de paz. O Corão também diz que os outros povos, mesmo quando forem inimigos, jamais devem ser forçados a seguir a crença dos muçulmanos: "Não deve haver coerção nos assuntos da fé!"

• Na mais famosa distorção a respeito da doutrina muçulmana, a palavra "jihad" é traduzida no Ocidente como "guerra santa" - quando, na verdade, equivale a "luta", "esforço", "empenho". O termo se refere ao esforço que deve ser empregado para que a vontade de Deus seja colocada em prática em todos os aspectos da vida - não só na política, como também na vida pessoal e social. Há relatos de que Maomé disse certa vez, ao retornar de uma batalha: "Estamos voltando da jihad menos importante para a jihad maior", que seria a tentativa de curar os males da sociedade.

• O Corão diz que os "Povos das Escrituras", os cristãos e judeus - principais alvos dos extremistas islâmicos hoje, - devem ser respeitados. Em um de seus últimos discursos, o profeta Maomé teria dito: "Formamos nações e tribos para que conhecessem uns aos outros" - ou seja, não para que os povos conquistassem outros povos e tentassem oprimir suas crenças.

Reação à modernidade - Se a brutalidade contra outros povos e religiões é proibida, se a guerra é uma manifestação do mal, se o inimigo só pode ser atacado se agredir primeiro, por que os radicais muçulmanos continuam usando a religião para justificar seus atos de terrorismo? Para quase todos os especialistas, essa pergunta não tem uma resposta sensata - o que significa que a luta dos extremistas é, de fato, ilegítima e injustificada. Na avaliação de Karen Armstrong, a forma militante de culto religioso surgida no século XX sob a classificação de fundamentalismo é uma reação à modernidade. Seus seguidores estão convencidos de que a sociedade liberal e secular visa acabar com a religião - assim, os princípios de sua fé acabam desvirtuados e distorcidos em nome de uma luta irracional. Desta forma, enxergar em Osama bin Laden e em seus seguidores terroristas uma representação legítima da tradição e da fé islâmica é um erro gravíssimo. Resta à maioria dos muçulmanos, que condenam os atos terroristas e as interpretações radicais das escrituras, a árdua missão de reverter essa imagem e reforçar as raízes pacíficas de sua crença.

Revista Veja

Conflitos Internacionais


• Conflitos no Oriente Médio

• Chechênia

• A Índia e o Paquistão na disputa pela Caxemira

• Timor Leste

• Angola

• Conflitos na Irlanda entre Católicos e Protestantes

• A questão basca

• A questão russa

• A reunificação das Coréias

• A Guerra no Golfo Pérsico

• A questão balcânica

• Os conflitos na Colômbia

• O movimento zapatista no México




CONFLITOS NO ORIENTE MÉDIO

Após a repressão radical que se seguiu à revolta de Bar-Kokheba (132-135 d.C.) durante o reinado de Adriano, numerosos judeus foram deportados, e colonos estrangeiros foram instalados nessa parte da província romana da Síria. Ao mesmo tempo, os árabes deslocavam-se para a região e se sedentarizavam. Após sua conversão ao cristianismo, Constantinopla transformou a Palestina em Terra Santa, que permaneceu como centro de atividade intelectual judaica. A conquista árabe (634-640) integrou a Palestina ao império muçulmano.

A população da Palestina otomana (1516-1917) era composta por uma maioria de muçulmanos, uma expressiva minoria de cristãos e um pequeno número de drusos e de judeus. A imigração judaica começou a adquirir importância a partir de 1880, sob a influência do sionismo.

Durante a I Guerra Mundial, os britânicos encorajaram a rebelião árabe contra os otomanos (1916) e ocuparam a Palestina (1917-1918) que fica sob jurisdição britânica. Durante a II guerra Mundial o movimento sionista, que tinha por objetivo estabelecer uma comunidade de judeus na Palestina, favoreceu a imigração clandestina e compra de terras aos judeus. Iniciou-se a lenta colonização da região por migrantes judeus, vindos de pequenas levas da Europa Oriental, onde implantaram 1 sistema coletivo de terras agrícolas. A partir deste momento em diante, os judeus começaram a entrar em quantidades cada vez maiores na Palestina, o que acabou provocando conflitos entre estes e os árabes da região. Para protegerem-se os judeus criaram 1 exército clandestino que recorria a métodos terroristas para expulsar dali os camponeses árabes e, assim, conquistarem mais terras.

Em 1947, a Inglaterra renunciou ao controle da Palestina e entregou a ONU a tarefa de resolver os problemas da região. A ONU decidiu uma partilha da Palestina em um Estado judeu e um Estado árabe. Essa partilha foi aceita pelos sionistas e rejeitada pelos árabes. Após a proclamação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, os Estados da Liga Árabe entraram em guerra contra o novo Estado, ao fim da qual, um 1949, o estado judeu expandiu-se para além dos limites que o plano de partilha lhe havia designado; o Estado Árabe (Palestina) ficou diminuído e repartido em dois: a Cisjordânia , que em 1950 foi integrada ao reino hachemita da Jordânia, e o Território de Gaza, administrado pelo Egito a partir de 1948.

Agora existiam dois problemas a serem resolvidos: a definição das fronteiras entre os países envolvidos e o que fazer com quase 1 milhão de árabes expulsos de sua terra? A maior parte se exilou para os países árabes vizinhos e os habitantes palestinos que se sujeitaram a jurisdição israelense perderam todos os seus direitos e chegaram a ser classificados como cidadãos de segunda categoria

Os acordos de Camp David (1978) e o Tratado de Paz de Washington (1979) entre Israel e o Egito previam a autonomia administrativa provisória e em seguida a autodeterminação dos habitantes desses territórios rejeitados pelos árabes. Ao mesmo tempo a colonização judia cresceu na região.

A resistência palestina se deu através de pequenos grupos guerrilheiros, que atacavam Israel a partir de bases localizadas nos países vizinhos. Em 1959, estes pequenos grupos formam o Movimento de Libertação da Palestina, que em 1964 viria a se transformar na OLP. Tinha por objetivo fundar um Estado palestino e obrigar Israel à devolver as terras ocupadas.

Em setembro de 1993, depois de se reconhecerem mutuamente, Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) assinaram, em Washington, um acordo que concedia autonomia gradativa aos palestinos da faixa de Gaza e da Cisjordânia. Apesar desse acordo, extremistas de ambos os lados, palestinos e colonos israelenses, tentaram sabotar o processo em curso. Assassinatos e atentados desencadearam uma repressão militar e policial crescente. Depois de um novo acordo entre Arafat e Rabin, em maio de 1994, o exército e a administração israelenses abandonaram a Faixa de Gaza, com exceção das colônias israelenses já implantadas. Esse tratado permitiu que Arafat instalasse em julho de 1994, o governo da Autonomia Nacional Palestina, que passou a presidir, estendido depois para a cidade de Jericó, na Cisjordânia. Desde então, o movimento nacional palestino, dominado pela OLP, entrou em uma nova fase histórica, expondo-se a novas divisões entre os que apostavam na paz e os mais radicais, que, juntamente com o Hamas, declararam-se partidários de uma resistência armada à presença dos judeus na região.

Com a alternância dos partidos no poder de Israel, o que estava a favor dos acordos de paz e o que era contra, as negociações estagnaram e se complicaram por causa das divergências entre os interesses de ambos no que diz respeito à demarcação das fronteiras do Estado palestino, o que fazer com as colônias de judeus em território palestino e a respeito da criação na cidade de Jerusalém, considerada sagrada pelos 2 povos, da capital do Estado palestino.

Por outro lado, Israel também não se conformou com os tratados. As provas do inconformismo foram as investidas que Israel fez sobre os territórios delimitados nos acordos: da Faixa de Gaza, da Cisjordânia, da parte oriental de Jerusalém, das colinas de Golan, do Mediterrâneo ao vale do rio Jordão e ao Mar Morto, sucedendo, assim, uma estreita planície costeira e uma vasta região das Colinas (Montes da Galiléia e da Judéia).

Para tais conquistas Israel sempre recebeu apoio internacional (armas e tecnologias), principalmente dos EUA, país que abriga mais de 40% da população mundial de judeus (cerca de 5 milhões). Tudo para lutar contra os palestinos comuns. Exatamente como os palestinos que a mais de 50 anos estão sendo expropriados de suas terras, humilhados e mais uma vez devastados.

Eles esquecem que em 29 de novembro de 1947, que na Resolução 181 da Assembléia Geral das Nações Unidas, decidiram pela divisão do território em um Estado árabe e outro judeu. É bom deixar claro que o Estado judeu foi criado já em 1948, mas o árabe jamais o foi, sempre sustado pela ação comum de Israel e Estados Unidos.

Condições degradantes estão sendo impostas a 3 (três) milhões de pessoas, pelo plano da direita militar israelense, simplesmente para a construção do Grande Estado de Israel. É dessa pressão que sai o terrorista palestino, e não do fanatismo apregoado pela mídia.

Para acabar com os terroristas palestinos basta que os governantes dos países da ONU tenham a mínima dignidade de ameaçar o corte total de relações com Israel, até que seu governo cumpra a desocupação dos territórios alheios, e efetivar a criação do Estado Palestino determinada por esses mesmos países da ONU há 55 anos.

O corte total de relações com Israel é algo que achamos impossível de se estabelecer pois o órgão mais forte da ONU é o CS, onde EUA fazem o que bem entendem e só defendem seus interesses, e tanto é que os acordos só se estabelecem por intermédio dos americanos, que fazem acordos com Israel e vão cedendo aos interesses palestinos aos poucos, desde que estes não lhes tire a autonomia.

Foi justamente pelo não cumprimento do acordo que os árabes fazem oposição contra tudo o que seja Ocidental – israelense ou judeu ou norte-americano. Essa semente plantada pelo Ocidente é um dos mais poderosos fertilizantes para o cultivo do ódio. E, pela via do ódio, nada pode ser construído.

Entre 1980-1990 ocorre a guerra Irã- Iraque. O Irã acabara de se transformar em República, após muitos conflitos étnicos e internos (políticos), através de 1 governo que acabava de assumir o poder por meio da pressão popular, que resultou na deposição do governo aliado aos EUA. O novo governo apoiava o terrorismo como política de Estado e não se alinhou aos americanos. Na fraqueza causada pelo desgaste dos confrontos civis o Iraque ataca o Irã pela disputa dos direitos de num canal do Golfo Pérsico. A guerra tinha por objetivo obter o controle de bacias petrolíferas, estradas e a liderança do mundo árabe pelo ditador Saddam Hussein. O Iraque teve apoio dos EUA e outras potências interessadas no petróleo. A guerra acabou sem vencedor e com 700.000 baixas.

Em 1991 o Iraque ataca o Kuwait, pois os iraquianos estavam individado9s pela guerra contra o Irã e os preços do petróleo estavam em baixa o que fazia com que não houvesse possibilidades de recuperação da economia iraquiana. Com o pretexto de que o Kuwait estava comercializando petróleo à baixo das cotas estabelecidas pela Opep, o Iraque reivindicou indenizações e territórios do país que negou-se a ceder e foi invadido. O Kuwait que comercializava petróleo para as grandes potências recebeu a apoio destas, que não estavam interessadas que o Iraque controla-se os poços petrolíferos deste país e saiu-se “vitorioso”.

Em 2001 ocorreu também a guerra americana no Afeganistão que foi bombardeado sob o pretexto de abrigar líderes terroristas.

Lá no ano de 2003 ocorre a guerra anglo-americana no Iraque que culmina com a derrubada do ditador Saddam Hussein do poder e a instauração de “uma democracia”. Os americanos foram contra o veto dos outros países que fazem parte do CS e atacaram os iraquianos defendendo a tese de que estes produziam armas de destruição em massa, que até hoje não foram encontradas. As tropas americanas ainda ocupam o território iraquiano. Segundo Jornal Correio do Povo, esta guerra já custou U$$ 20.000.000 e algumas baixas aos americanos.

Todas essas guerras tiveram o apoio direto ou indireto dos americanos, que possuem interesses geopolíticos em todo o Oriente Médio, a começar pelo estado de Israel. O país é uma potência militar e encontra-se com seu litoral no Mar Mediterrâneo, sendo um centro estratégico para os EUA na região. Além disto, os EUA possuem interesses no controle das reservas petrolíferas da região (energia), responsável por movimentar a economia mundial e manter o dólar como moeda base.



CHECHÊNIA

A Chechênia é uma República autônoma localizada no Cáucaso, região montanhosa sendo um dos limites entre o Continente Europeu e o Asiático. A religião predominante é a Islâmica. A maior parte da população é de etnia Chechena, mas existem minorias Ilguchétia e Russa. Desde 1830 os Russos dominam a área e os chechenos resistem à invasão. Em 1920 a Chechênia foi incorporada à URSS. Em 1934 a Chechênia e a Ilguchétia se unem em uma província formando uma República.

Em 1945 os chechenos são acusados de colaborar com os alemães na Segunda Guerra Mundial. Com esta acusação, Stálin dissolve a República.

Com o fim da URSS em 1991, a Checheno-inguchétia proclama a independência, mas os russos não a reconhecem, pelo fato do Cáucaso ter enorme importância econômica e estratégica para a Rússia. Lá se encontram seus interesses petrolíferos e as linhas de defesa da sua fronteira meridional. Conseqüentemente inicia-se o conflito.

Em 1994 o presidente russo Boris Ieltsin ordena a invasão da Chechênia, em 1995 é determinada a intervenção militar para restaurar a autoridade de Moscou.

A primeira Guerra da Chechênia terminou com uma humilhante derrota chechena para as forças russas em 1996. Tendo como saldo 40 mil mortos, mais de 500 mil desabrigados e várias cidades completamente destruídas. Pelo acordo Khaasavyurt é negociado um cessar-fogo.

O governo russo denunciou que o governo checheno não conseguiria controlar as gangues e o crime organizado, além dos conflitos étnico-religiosos. Em 1999, o então Primeiro ministro Russo, Putin, deu início a uma nova ofensiva, uma operação antiterrorista, em contra-partida a uma onda de ataques terroristas. Em Moscou um atentado matou quase 300 civis russos; simultaneamente, outros atentados ocorriam, como a ocupação de um hospital que provocou a morte de 120 pessoas.

Em 2003 houve a invasão de um teatro em Moscou matando mais de 150 pessoas. Em resposta a Rússia atuou com operações de bombardeios sobre os refúgios montanheses dos chechenos.

Sem haver a mínima esperança de paz, a ocupação da Chechênia pela Rússia continua. Os separatistas permanecem lutando, com atos de violência cada vez maiores, matando todos os dias mais inocentes, onde ninguém consegue prever quando esta guerra terá seu fim.



A ÍNDIA E O PAQUISTÃO NA DISPUTA PELA CAXEMIRA

A Índia é uma potencia regional e seu poder nesta região da Ásia é contestado pelo Paquistão. O conflito entre estes dois vizinhos tem raízes profundas. Sua causa vem desde o processo de Imperialismo realizado pelos europeus durante o Século XX na África e na Ásia. A origem do conflito entre Índia e Paquistão é o agrupamento, em uma mesma colônia, de grupos étnicos e religiosos.

O Império Britânico se apossou da Índia em 1763, com o conflito denominado Guerra dos Sete Anos. Neste período a região mantinha uma certa autonomia política. A partir de 1848, a Inglaterra impôs uma administração Britânica na região, construindo estradas, organizando missões políticas e religiosas, afetando assim, os costumes locais e destruindo a tradicional industria têxtil que não consegui competir com a industria inglesa.

A presença britânica e as alterações que elas provocaram na sociedade local, causaram revoltas e o despertar do nacionalismo indiano. Em 1876, a índia se tornou área do império britânico.

O processo de descolonização levou o Reino Unido a deixar a região em 1947. Então a colônia da Índia Britânica se divide em dois países que ocuparam áreas segundo a presença majoritária de indivíduos de cada religião. Surge assim, a Índia (estado Hindu). e o Paquistão (Estado Islâmico).

As tensões entre estes indianos e paquistaneses começaram logo após a retirada dos britânicos. Hindus que viviam no Paquistão fugiram para a Índia e o mesmo ocorreu com os muçulmanos que viviam em terras indianas. O número de pessoas que deixaram suas casas foi de mais de 10 milhões e cerca de 1 milhão de pessoas morreu no processo.

Uma das principais causas do conflito atualmente é a posse das terras da Caxemira. Das três guerras entre os dois países, duas foram pelo controle desta região montanhosa localizada no norte da Índia e que faz fronteira com o Paquistão e com a China. Nesta região o exercito indiano e rebeldes separatistas se enfrentam. A região é habitada na sua grande maioria por muçulmanos (78%), mas são os indianos que controlam maior parte da região.

O conflito serviu para militarização da fronteira entre os dois países e para uma corrida armamentista. Ambos países já tem armas nucleares. Agravando ainda mais a tensão, junto com o apoio chinês ao paquistanês.



TIMOR LESTE

O Timor Leste, mais jovem país do mundo, é uma ilha localizada no extremo leste do grupo de ilhas que formam a Indonésia. As únicas fronteiras territoriais que o país possui ligam-se à Indonésia.

Como a maioria das ex-colônias portuguesas, o Timor se tornou independente em 1975 após a Revolução dos Cravos, passando a governar a ilha a Frente Revolucionária do Timor que proclamou a República. Porém a independência durou pouco. Tropas Indonésias invadiram a ilha, que com apoio norte-americano avançava suas fronteiras.

Os Indonésios iniciaram forte repressão aos que se opunham à ocupação. Uma política de genocídio resultou em um longo massacre de timorenses provocando a morte de 200 mil pessoas e a destruição de centenas de aldeias pelos bombardeios. Com a fome e o enfraquecimento dos opositores a Indonésia anexa o Timor completamente. A anexação não é reconhecida pela ONU, nada foi feito para proteger o direito de autodeterminação do povo do Timor.

Em 1999, após anos de lutas internas, a ONU propõem ao governo Indonésio um plebiscito que seria supervisionado por seus agentes. O resultado foi quase 80% a favor da independência do país.

Percebendo que o Timor Leste estava prestes a conquistar a independência, a ala radical do exército indonésio recruta e treina milícias armadas locais para espalharem o terror entre a população. Homens armados matam nas ruas pessoas suspeitas de terem votado pela independência, cerca de 200 mil mortos. A população começa a fugir para as montanhas buscando refúgio

A ONU conseguiu junto ao governo de Jacarta que tropas internacionais de Paz atuassem no país. O acordo somente foi concretizado após a decisão dos EUA de suspender a cooperação militar e a venda de armas à Indonésia e o anúncio do Fundo Monetário Internacional de cortar a ajuda financeira ao país.

Desde então tropas da ONU formadas por soldados australianos, brasileiros, ingleses, franceses portugueses ocupam e protegem a ilha. Um administrador da ONU comanda o país com ajuda de um conselho local.



ANGOLA

Angola era uma colônia portuguesa e tornou-se independente em novembro de 1975, desde então, o país está envolvido numa guerra civil que opõe o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola), partido de cunho marxista que assumiu o poder, à Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola).

O MPLA e a Unita assinaram em Lusaka (capital da Zâmbia), em novembro de 1994, um acordo. Para implementá-lo, o ONU organizou uma missão de paz, que incluía a participação do Brasil. O não-cumprimento do acordo levou à continuação da guerra interna.

Durante a Guerra Fria e por causa dos enfrentamentos ideológicos de então, a Unita recebeu apoio dos EUA, da França e da África do Sul. Hoje, o MPLA domina as reservas de petróleo do país e a Unita, as regiões produtoras de diamantes.

Em 1998, o reinicio da guerra entre a Unita e as forças do governo frustrou a repatriação de cerca de 220 mil angolanos refugiados em outros países e forçou 1,5 milhões a deixar suas casas. Os confrontos deixaram cerca de 500 mil mortos e 10 milhões de minas no território.



Conflito na Irlanda - Católicos e Protestantes

Em Dezembro de 1921, o governo londrino foi forçado a negociar e colocar fim à guerra de independência anglo-irlandesa. Por esse acordo separava-se a Irlanda em duas regiões distintas: a Irlanda do Norte (seis condados) da Irlanda do Sul (26 condados), que passava a se denominar Estado Livre da Irlanda e posteriormente, República da Irlanda ou Eire. A Irlanda do Norte ou Ulster continuou a fazer parte do Reino Unido, mas teria liberdade de escolha, ou seja, agregar-se ou não ao novo Estado. O Ulster, de maioria protestante, era leal à coroa inglesa e não tinha, e não tem, mínimo interesse na unificação com o Eire de maioria católica.

A Inglaterra continuou a aceitar a possível unificação, mas declarava que em nenhum caso a Irlanda do Norte (Ulster - protestantes) deixaria de fazer parte dos domínios britânicos sem o consentimento de seu próprio parlamento. Mas, a minoria católica do Eire, confinada a uma situação social e política discriminatória, passa a organizar um Movimento em prol da anexação. Esse movimento é formado e estruturado com base na criação de organizações clandestinas e terroristas, já que por vias pacíficas se tornava impossível diante do monopólio parlamentar em mãos protestantes.

Desde então, principalmente após a década de 1960, a divisão da Irlanda permanece um foco de tensão, tornando a região palco de violentos distúrbios provocados pelas reivindicações da minoria católica pró-unificação.

A existência de uma só Irlanda não é interessante para os protestantes, pois se tornariam minoria, daí o motivo de serem contra.

A luta contra o separatismo é disputada entre vários partidos, prós e contras. Alguns legalmente constituídos, outros clandestinos que combinam estratégias políticas e/ou militar-terrorista. A violência dessa disputa levou o governo britânico, em 1972, a intervir militarmente e assumir diretamente as funções políticas na região do Ulster.

Em 1993, os primeiros-ministros da Grã-bretanha e da Irlanda do Norte assinaram uma declaração conjunta admitindo o direito da população da Irlanda do Norte de escolher o seu destino através de um plebiscito em que a população norte-irlandesa possa optar por permanecer integrada ao Reino Unido ou juntar-se à Irlanda. A minoria católica não aceita. A luta continua.

São esses os principais partidos ou organizações que se enfrentam na defesa de seus interesses:



§ Sinn Fein ("Nós Mesmos") - partido político irlandês católico. Apoiou a campanha de violência do IRA contra alvos britânicos. Tem como objetivo unificar toda a Irlanda, descartando a interferência inglesa.



§ Partido Unionista do Ulster -o maior partido protestante da Irlanda do Norte e defende a manutenção da província como parte do Reino Unido.



§ Exército republicano Irlandês – IRA. Organização clandestina, representante dos católicos, que através de atos terroristas tenta acabar com o separatismo entre os dois setores irlandeses. Nos últimos tempos tem tentado assumir posições mais pacifistas, o que tem gerado dissidências.



§ O IRA Autêntico é o principal grupo republicano dissidente da Irlanda do Norte. A organização surgiu em outubro de 1997 como uma dissidência do IRA e é formado por membros do IRA histórico que se sentem frustrados com a diminuição dos ataques na província.



§ Partido Social Democrático e Trabalhista da Irlanda do Norte, representante da comunidade católica de linha moderada.



§ Partido Unionista Democrático - DUP - é o segundo maior partido na Irlanda do Norte entre os que defendem a permanência da província no Reino Unido. Assume uma posição contrária a qualquer tipo de concessões à comunidade católica.



A Questão Basca

A origem do povo basco é desconhecida e possui mais de 5 mil anos de história.
A língua falada pelo povo é uma língua isolada e muito antiga, provavelmente uma evolução da língua dos primeiros povos que migraram para a Europa. Há ainda estudiosos que tentam ligá-lo a línguas africanas e ao idioma dos etruscos. É uma língua falada ou compreendida por pelo menos 800.000 pessoas.

Os bascos ocupam regiões da Espanha e da França. Hoje existem cerca de 500 mil bascos habitando quatro províncias espanholas (Vizcaya, Guipuscoa, Alava e Navarra) e três francesas (Labourd, Baixa Navarre e Soule).

No final da década de cinqüenta, surgiu na Espanha uma organização nacionalista denominada
(ETA - Euskadi Ta Azkatasuma - Pátria Basca e Liberdade) com o objetivo de defender a autonomia do povo basco. Exigiam e exigem a criação de um Estado Basco em terras do norte espanhol e parte da França.

Sua estratégia é utilizar atentados de caráter terrorista para atingir seus objetivos. Depois da morte de Franco (1975), com o processo de redemocratização na Espanha, os Bascos ganharam uma certa autonomia, mas a exigência de um Estado Nacional Basco livre e autônomo não permitiu que a paz retornasse á região.

Atualmente, intensificaram os atentados violentos a bomba e assassinados de autoridades espanholas no intuito de chamar a atenção da opinião pública mundial sobre seu movimento e forçar uma decisão política que atenda seus objetivos.



A Questão russa

Em 1991, as 15 repúblicas Soviéticas organizaram um plebiscito para decidir a separação da URSS e conseqüentemente, Rússia, Ucrânia, Geórgia, Azerbaijão, e outras se tornariam países independentes. A população soviética votou maciçamente contra a separação. Mas Boris Yeltsin, apoiado pelos EUA, logo que assumiu o poder, deu inicio ao processo de desagregação.

Auxiliadas pelos países ricos do G7, essas ex-repúblicas se tornaram independentes e se afastaram da Rússia. Acabaram se tornando dependentes economicamente e militarmente dos EUA.
Armadas, endividadas, seduzidas pelo capital ocidental, navegando sobre um leito de petróleo, procuram ampliar e defender sua área geográfica gerando inúmeros conflitos fronteiriços e separatistas na região.

A área do Mar Cáspio é rica em petróleo e gás natural e, por coincidência é exatamente aí que se situa as ex-repúblicas mais cobiçadas, como, Cazaquistão, Azerbaijão e Geórgia. O petróleo produzido vem sendo transportado por oleodutos que passa pela Chechênia e pela Rússia em direção a Novorossysk no Mar Negro.

Essa situação não é confortável para os EUA e os países ricos ocidentais que já controlam mais de 50% dos investimentos petrolíferos na Bacia do Cáspio. Portanto, Washington está buscando outras rotas. A intenção é contornar a Rússia, e a proposta é um oleoduto que cortaria a Turquia em direção ao Mar Mediterrâneo.

Existem suspeitas de que os conflitos na Tchetchênia, Ossétia do Sul, Armênia, Abkhazia e outros fariam parte de uma conspiração orquestrada pelos EUA para dividir a região e torná-la mais facilmente manipulável.



a Reunificação das Coréias

Na passagem da Idade Média para moderna, a região onde hoje se situa a Coréia era disputada por chineses, mongóis, japoneses e russos. Na primeira metade do século XX, a Coréia fica sob domínio dos Japoneses.

Com a rendição japonesa em 1945, a península Coreana é dividida em duas zonas de ocupação - uma norte-americana, no sul, e outra soviética, no norte. A partir de 1948, as duas regiões se convertem em Estados: Coréia do Norte e Coréia do Sul. A primeira adota o regime comunista e a segunda mantém uma orientação do tipo capitalista. Entre 1950 e 1953, os dois lados entram num conflito armado, onde se envolvem outras potências: EUA e China. Uma trégua é assinada em 1953 criando uma zona desmilitarizada entre as duas Coréias, mas sem solução definitiva para as divergências.

As duas continuam tecnicamente em guerra, pois nunca assinaram um acordo de paz.

No momento, as duas Coréias tem feito tentativas de aproximação visando uma possível unificação: eliminação de embargo comercial de ambos os lados; suspensão de parte do programa nuclear em troca do abrandamento das sanções dos EUA; negociações entre o Estado norte-coreano e empresas da Coréia do Sul, para a implantação de indústrias, a exploração do turismo e a produção de energia nuclear com fins pacíficos.

A Coréia do Sul capitalista é muito superior em desenvolvimento econômico em relação á Coréia do Norte Comunista. O PIB da primeira chega a superar 20 vezes ao da segunda, o que deve dificultar a situação.



A Guerra do Golfo pérsico

Em 1990, o presidente do Iraque Saddam Hussein acusou o Kuwait de provocar a baixa no preço do petróleo ao produzir e vender mais do que a cota estabelecida pela Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) prejudicando a economia iraquiana. Exigia, ainda, que o Kuwait perdoasse uma dívida de US$ 10 bilhões contraída durante a guerra contra o Irã e o pagamento de uma indenização de mais de US$ 2 bilhões, com a alegação de que os kuwaitianos retiraram petróleo iraquiano na região fronteiriça de Rumaila.

Em 02 de agosto de 1990, o Iraque invade o Kuwait. Forças coligadas de 28 países sob a liderança dos Estados Unidos bombardeiam Bagdá, iniciando a Guerra do Golfo. O Iraque se rende em fevereiro de 1991.

A ONU decidiu impor uma série de embargos, com o objetivo de assegurar-se do desarmamento do Iraque; os Estados Unidos estabeleceram uma zona de exclusão dentro do Iraque, para proteção das minorias curdas. Nesta zona de exclusão, o Iraque deixa de ter soberania e, ainda mais, alguns outros embargos, econômicos e políticos. O conflito ainda não terminou, apesar de mais de uma década que passou. Imposições políticas e econômicas dos vencedores estão destruindo o país. A miséria é crescente. Os Estados Unidos através de sabotagens, bombardeios e apoio à oposição iraquiana, tentavam enfraquecer Saddam Hussein até sua captura, quando se encontrava escondido num túnel secreto no Iraque.



A Questão Balcânica

Desde a II Guerra Mundial (1939-1945), o mundo não testemunhava matança igual á promovida na Península Balcânica de Sérvios, Croatas, Bósnios, e Kosovares.

Após a Primeira Guerra Mundial, para não se submeterem ás potências maiores, as regiões balcânicas, situada a sudeste da Europa resolvem se unir constituindo-se na Iugoslávia ("Eslavos do Sul"), congregando sete povos: sérvios, croatas, eslovenos, macedônios, montenegrinos, Bósnia-Herzegovina e os albaneses.

A Iugoslávia ficou, então constituída por seis repúblicas: Sérvia, Eslovênia, Croácia, Bósnia -Herzegovina, Montenegro e Macedônia. Uma verdadeira colcha de retalhos étnico-religiosa: cinco povos, quatro línguas, dois alfabetos, três religiões (católicos, Ortodoxos e Mulçumanos).

Os governantes promoveram a essa orquestra desafinada a aparência de uma unidade, mas, na verdade, as diferenças culturais e religiosas ficaram apenas adormecidas. Com o passar do tempo, a Iugoslávia foi gradativamente se diluindo, até a chegada ao poder do comunista, de Soblodan Milosevic em 1987. Após esse período, os Bálcãs voltaram a ser o foco de crise na Europa, repetindo as cenas de violência praticadas no início do século.

O principal conflito ocorreu na região de Kosovo, uma província que tem uma composição étnica e religiosa diferente da maioria da Iugoslávia. Os kosovares são de origem albanesa e muçulmana, enquanto os sérvios são cristãos ortodoxos.

Mais de 90% da população de Kosovo é origem albanesa. Buscando a separação dos sérvios e sua própria autonomia, iniciaram um movimento.

Milosevic afirmava que considerava Kosovo, o berço do nacionalismo sérvio e argumentava que queria evitar que a Iugoslávia perca mais territórios. E por tais razões, não queria ceder liberdade ao povo kosovar.

A OTAN, alegando motivos humanitários e buscando evitar uma limpeza étnica para expulsar os kosovares, interviu na guerra. Milosevic foi derrubado do poder devido acusações de crimes de guerra e genocídio durante conflitos em Kosovo, Croácia e Bósnia.



Colômbia - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC)

A FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) surgiu em 1964, sob a liderança de Manuel Marulanda Vélez, cujo verdadeiro nome é Pedro Antônio Marín. Atualmente possui aproximadamente 15.000 militantes. A princípio de tendência liberal, Marulanda, logo se engajou no Partido Comunista e se tornou o chefe das FARC.

São constituídos por diversos grupos político-militares que lutam nos meios rurais por uma mudança de regime que derrube a classe dominante que, segundo eles, é reacionária e aliada a uma minoria privilegiada. "Lutamos pelo estabelecimento de um regime político democrático que garanta a paz com justiça social, o respeito aos Direitos Humanos e um desenvolvimento econômico com bem-estar para todos os que vivem na Colômbia".

Em sua maior parte, esses grupos cultuam a ideologia comunista, mas sem respeitar os conceitos básicos dessa doutrina. A estratégia é a revolução armada.

Por várias vezes foram tentadas formas de pacificação e entendimento entre as FARCs e o governo, mas sem sucesso.

O governo liberou aos rebeldes uma área desmilitarizada de 42 mil quilômetros no sul do país que posteriormente levou a denominação de "Farclândia" para servir de sede para as negociações de paz. Essa concessão, no entanto não produziu o resultado esperado. Ações violentas dos rebeldes, que culminaram com o seqüestro de um avião e a captura de um senador, fizeram com que o presidente Andrés Pastrana, em Fevereiro de 2002, rompesse o processo de paz e iniciasse uma ofensiva contra os guerrilheiros das FARCs.

Alguns analistas apontam uma outra dificuldade em acabar com esse movimento. Com o passar do tempo, laços de interesses foram criados entre alguns grupos de traficantes, produtores de drogas e membros das FARCs. Essa ligação tornou o movimento, um tanto quanto rentável. Segundo esses analistas, a conotação político-ideológica, seria apenas uma estratégia que encobre o verdadeiro objetivo: lucrar com o tráfico.

Outro aspecto interessante a se destacar é a existência de grupos paramilitares de direita (a principal delas é a AUC - Autodefesas Unidas da Colômbia), não apoiados oficialmente pelo governo e lutam contra os grupos de esquerda por controle de territórios. Esses grupos de esquerda ou direita levam terror á população das regiões colombianas. Se derem proteção à guerrilha de esquerda, são punidos pelos da direita e vice-versa. Se assumirem posição de neutralidade, são punidos pelos dois grupos.



Movimento Zapatista - México

Em 1 de janeiro de 1994, (quando entrava em vigor o acordo assinado pelo México, o Tratado de Livre Comércio - NAFTA - com os E.U.A) o líder rebelde, "Subcomandante Marcos", diante do prédio da prefeitura de San Cristovan, região de Chiapas, leu a Primeira Declaração da Selva Lacandonica (sub-região de Chiapas). Este documento era uma declaração de guerra ao governo neoliberal de Carlos Salinas Gortari e exortava os poderes do Estado para que restaurassem a legalidade e estabilidade e que fosse deposto o ditador. Reivindicavam trabalho, alimentação, saúde, terra, teto, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz.

Paralelo ao manifesto, os militantes do EZLN, utilizando armas obsoletas, invadiram e tomaram várias cidades em Chiapas, mantendo-as ocupadas até hoje com governos autônomos escolhidos por eles.

Ao todo, as comunidades indígenas de dez Estados da federação deram seu apoio ao movimento.

Organizados no Exercito Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), os indígenas e camponeses, passaram a lutar contra o governo mexicano, responsabilizando-o pela exclusão e marginalização da população pobre do país.

No México, calcula-se, exista aproximadamente 10 milhões de indígenas de etnias diversas e outros 20 milhões de pessoas da mesma origem vivendo em condições de pobreza e de quase indigência.

A denominação "Zapatismo ou Zapatista" é uma homenagem a um líder camponês do início do século XX, Emiliano Zapata, que conduziu os camponeses e indígenas a uma luta de reivindicação por direitos básicos. Acabou traído e assassinado por um grupo de governantes que havia chegado ao poder com seu apoio.

Além do grupo Zapatista, existem, no México, outros movimentos guerrilheiros atuantes que lutam pelos mesmos objetivos. A Organização Independente dos Povos Unidos de Huasteca (OIPUH); O Exercito Popular Revolucionário (EPR) que milita no Estado de Guerrero; O Exercito Unsurgente Revolucionário do Sudeste (EIRS) no Estado de Oaxaca e outros grupos menores. Ao lado destes, atuam ainda grupos paramilitares apoiados pelo governo com o objetivo de desestabilizar esses movimentos reivindicatórios, pressionando-os a se entregar e desistir de sua luta. Estes grupos paramilitares, cercam as cidades onde atuam o EZLN impedimento a chegada de alimentos e medicamentos, fechando escolas, postos de saúde, prejudicando o abastecimento de água e energia, etc.

O "líder" do movimento Zapatista é o Subcomandante Marcos, um codinome que o permite atuar anonimamente. Já ocorreram várias tentativas para matá-lo e/ou denegrir sua imagem, mas sem muito sucesso. Seu rosto não é conhecido, mas sabe-se que seu nome é Rafael Guillér.

MUNDO GEO - Universidade Federal de Santa Maria

O país das mil colinas

Depois de enfrentar um dos maiores genocídios da história, os ruandeses tentam voltar à vida normal e promover a reconciliação

Texto: Pedro da Cunha e Menezes

Pequena nação da montanhosa região dos Grandes Lagos Africanos, Ruanda vive da agricultura em propriedades familiares

Ao aterrissar no aeroporto da capital Kigali, é possível entender o motivo pelo qual Ruanda é chamada de País das Mil Colinas. A cidade é emoldurada por uma seqüência de colinas verdejantes; seus bairros ricos acotovelam-se em vales estreitos, os subúrbios aboletam-se em íngremes encostas. O trânsito flui, não há lixo nas ruas nem a algazarra de centenas de camelôs ocupando as calçadas, tão comuns em outras capitais africanas. Quando lá chegamos, 11 anos após o infame genocídio que custou a vida de 1 milhão de ruandenses, ou 11,5% da população, Kigali – mesmo espremida pela geografia –, não transpira mais a tensão que provocou o conflito entre as etnias tutsi e hutu. De fato, há mesmo quem diga que, antes da chegada dos europeus à região, no século 19, ela nunca existiu.

Tutsis e hutus não eram então dois povos, mas duas classes sociais nessa que é uma das regiões mais populosas da África. Os tutsis eram os donos de terras e de rebanhos bovinos, enquanto os hutus se dedicavam à agricultura e aos trabalhos braçais. Se um hutu ascendia socialmente, virava tutsi; a recíproca também era verdadeira. Os dois grupos viviam em paz e o único problema, que aumentou com o tempo, era o desmatamento para dar lugar à agricultura. Tanto que hoje o que sobrou de vegetação divide-se em um punhado de parques nacionais de savana africana e de floresta tropical.

Ruanda foi ocupado pelos belgas após a Primeira Guerra Mundial. Para terem um aliado que os ajudasse governar, os belgas reforçaram o papel hegemônico dos tutsis, dotando-os de poder político, econômico e militar. Além disso, fortaleceram as diferenças destes com os hutus, tornadas éticas e imutáveis. Quem tinha mais de dez vacas, nariz fino e pele mais clara, cristalizou-se como tutsi. Os hutus foram rotulados como povo (85% dos ruandenses) e inferiores.

Kigali é cercada por colinas verdejantes; os subúrbios invadem as encostas

Não satisfeitos com esse apartheid, o governo colonial optou por aumentar as diferenças, privilegiando os tutsis na hora de escolher os quadros da administração civil. As poucas escolas que foram criadas destinavam-se, sobretudo, a formar uma elite local tutsi que auxiliasse os belgas na tarefa de subjugar o país. Com o passar do tempo, a divisão imposta começou a gerar ressentimento entre os dois grupos. Na luta pela independência, as diferenças se acentuaram. Os tutsis manobraram para herdar o poder dos belgas, mas enfrentaram uma revolta hutu que, em 1959, obrigou 160 mil tutsis a fugir para os países vizinhos. Com a independência, em 1962, os hutus assumiram a direção da vida política em Ruanda, iniciando um processo de reversão dos privilégios tusis. Cerca de 500 mil tutsis deixaram o país, formando a Frente Patriótica Ruandesa, que invadiu o norte de Ruanda em 1990.

Seguiram-se dois anos de guerra até que os rebeldes, que já estavam próximos de Kigali, concordaram com um cessar-fogo. Seguiram-se prolongadas negociações que levaram ao compromisso de formação de um governo de união nacional em 1994. Antes que o acordo fosse posto em prática, um atentado mudou tudo.

No Memorial do Genocídio, hoje existente nos arredores de Kigali, estão expostos vários casos de vizinhos que massacraram vizinhos, genros que mataram sogras, alunos que esquartejaram professores. As ruas da capital encheram-se de corpos mutilados. Os tutsis eram o alvo, mas também os hutus moderados que acreditavam em uma convivência pacífica, como se pode ver no filme Hotel Ruanda (2004), que conta a história real de um gerente de hotel que decide abrigar milhares de refugiados. Diante da imobilidade das Nações Unidas, as tropas tutsis da Frente Patriótica Ruandesa retomaram as hostilidade e, eventualmente, dominaram todo o território.

O tempo passou, a tensão diminuiu, mas o país ainda não se recuperou totalmente. E nem poderia. Mas há esperança no ar. Kigali está cheia de atividade. Nos morros que a rodeiam, os mais pobres vivem em pequenas casas no meio de micropropriedades onde plantam sua subsistência e criam umas poucas cabras e vacas. Hoje, oficialmente, não existem mais tutsis e hutus. O novo governo aboliu a odiosa classificação étnica. Na aparência, na língua e na cultura não há diferenças. Em resposta aos novos tempos, a taxa de fecundidade aumentou.

Por trás das ruas limpas e floridas de Kigali e dos campos cultivados do interior, no entanto, está um povo que não sorri com facilidade. Jovens que, ainda crianças, perderam pai, mãe, avós e trabalham muito para ganhar o suficiente para sobreviver. As mulheres são responsáveis por extensas famílias de crianças, muitas infectadas pelo HIV, uma vez que os estupros foram uma das armas do terror. Um tribunal internacional instalado pela ONU em Arusha, na Tanzânia, em 1994, está encarregado de julgar os grandes criminosos de guerra – 43 ao todo, entre ex-membros do governo, ex-chefes do exército e líderes regionais. Em Ruanda, outros 3 mil já foram julgados, com 500 condenações à morte. Nas aldeias, hordas de cidadãos comuns que se deixaram levar pela onda de assassinatos aguardam julgamento. Há 120 mil prisioneiros que, vestidos de macacão rosa, realizam trabalhos forçados no interior do país.


Cenas de horror

O maior genocídio africano teve início depois que o presidente hutu Juvenal Habyarimana morreu em um atentado, quando o seu avião foi derrubado por um míssil terra-ar. A derrubada serviu de senha para que hutus armados de facões saíssem pela cidade em busca de tutsis. Insuflados por transmissões inflamadas da Rádio Televisão Livre Mil Colinas, tropas do Exército, auxiliadas por milícias paramilitares, montaram barreiras nas ruas e promoveram a carnificina em todo o país (veja foto da época). No processo, receberam a ajuda de civis influenciados pela loucura macabra da “solução final”, pregada pela Mil Colinas.

As montanhas dos gorilas

No norte de Ruanda, nas montanhas dos Virungas, está o Parque Nacional dos Vulcões. Ali vive a metade dos 650 gorilas da montanha existentes no mundo. São animais criticamente ameaçados de extinção. Sobreviveram ao genocídio e à falta do estado de direito que propiciou a caça indiscriminada. Sobreviveram também à destruição de seu hábitat por uma população faminta em busca de novos terrenos para a agricultura longe do perigo de seus semelhantes

O filme A Montanha dos Gorilas, de 1988, mostra como os gorilas da montanha são criaturas gentis e amigáveis, que dividem com o homem 97% de seu material genético. Atraem hoje a quase totalidade dos 8 mil turistas que visitam Ruanda todo ano. Cada viajante paga 370 dólares pelo direito ao passeio pelas montanhas. No parque, caminham horas na mata até encontrar um dos oito grupos de gorilas que habitam os 80 km2 dos Virungas. O grupo recebe os humanos com curiosidade. Troca com os visitantes olhares de boas-vindas e continua ocupado com suas atividades diárias. Fêmeas gulosas seguem comendo seus brotos de bambu, mães catam piolhos dos gorilinhas, adolescentes gastam seus hormônios em saltos exibicionistas de árvore em árvore. Tudo isso sob a guarda vigilante do “costas prateadas”, o macho dominante do grupo.Na trilha de volta à civilização, os visitantes são brindados com um meigo olhar do “costas prateadas”, como a dizer adeus. Na estrada, retornando a Kigali, em meio às lembranças de tristeza e dor, é impossível não pensar nos gorilas de Ruanda como vencedores. Com uma dose de otimismo, o visitante tem a certeza de que um país que logrou preservar tão belo e doce animal em meio a tanta barbárie, tem todo o direito de sonhar com um futuro de tolerância e alegrias.



Ficha técnica

República Ruandesa

Área: 26.338 km2

Capital: Kigali

Governo: República com forma mista de governo

População: 8,5 milhões (2004)

Composição: hutus (90%), tutsis (9%), tvás (1%)

Idiomas: francês, inglês, quiniaruanda (oficiais)

Religião: cristianismo (82,7%) católicos (51%), protestantes (21%), outros (10,8%), crenças tradicionais (9%), islamismo (7,9%), outras (0,4%)

Revista Horizonte Geográfico

Sertão dourado

Nem tudo que reluz é ouro. Pode ser, mas quem já viu o trabalho das artesãs do Jalapão tem suas dúvidas

Texto: Lena Trindade


O Jalapão é originado
De jalapa plantação,
Raiz medicinal
Descoberta há muito tempo
Hoje rara na região.

(...) Jalapão é região
Um vasto campo,
É um mundão,
Que há poucos anos trás
Era esquecido demais.”

Zélia Rodrigues Martins da Silva (extraído do livro “Jalapão, Sertão das Águas” de Miguel Von Behr)

O artesanato do capim dourado fez com que o mundo chegasse às populações nativas do afastado e inóspito Jalapão. Quem vê as peças de longe e com o sol incidindo, tem a impressão de que são feitas de ouro.Bolsas, cestas, pulseiras e chapéus ocupam lugar de destaque nas lojas mais caras de São Paulo e do Rio e são exportadas para mais de uma dezena de países. Mereceram editoriais de moda em revistas como Vogue e Vanity Fair, entre outras. Tanto sucesso chegou rápido, na esteira dos visitantes que descobriram a região, situada no Tocantins, o mais novo estado do Brasil. E já começa a trazer problemas. O capim dourado é matéria-prima frágil que não pode ser cultivada. A exploração sem controle preocupa e pode ameaçar a planta de extinção, sem contar o perigo para o buriti, palmeira utilizada na costura das peças.

Deserto de águas


A palavra deserto se refere à falta de gente e não de água. Aliás, no desértico Jalapão, o que não falta é água. A região da Chapada das Mangabeiras, onde ele está situado, abriga nascentes de rios, como o Rio do Sono e Prata (pág. ao lado) que formam um enorme aquífero subterrâneo. A areia das dunas atua como um filtro no
qual a água da chuva penetra muito fácil até atingir rochas impermeáveis. Curioso é o fenômeno dos fervedouros, nascentes com forte pressão, onde não se afunda.

A região do Jalapão, por suas peculiaridades que a transformaram em novo alvo do ecoturismo, é também o centro de diversos estudos científicos e ações de conservação. Atualmente, os esforços visam a busca de alternativas sustentáveis de utilização dos recursos naturais, de forma a garantir a sobrevivência das comunidades de artesãs. Entre os estudos, está o da germinação de sementes do capim dourado (Shyngonanthus nitens), uma flor do cerrado que cresce naturalmente nas margens dos vários rios que cortam o Jalapão e de poucos outros lugares – sudeste do Tocantins e município de São Domingos, em Goiás. Nos tempos em que o capim dourado era abundante e o artesanato pouco valorizado, os moradores arrancavam a planta pela raiz para aproveitá-la inteira. Descobriram agora que não é fácil cultivá-la.

A unidade do Sebrae em Tocantins, que orienta as quatro associações de artesãs distribuídas pelos municípios de São Félix, Mateiros e Ponte Alta do Tocantins, no Jalapão, agora dá assistência na colheita, programada para os meses de setembro a novembro. Tenta-se evitar assim que, devido ao enorme interesse de produzir e vender cada vez mais, artesãs retirem a matéria-prima antes do tempo, sem a necessária maturidade que confere à palha da planta sua cor singular. O capim dourado também tem sido ameaçado pelas queimadas e pelos avanços da agricultura. Tal situação levou o Instituto Natureza do Tocantins (Naturantins), órgão do governo do estado responsável pela gestão ambiental, a adotar medidas que ordenam a coleta e manejo da planta.


O sucesso das artesãs


É difícil ver uma cesta, bolsa, chapéu ou qualquer das peças feitas com capim dourado e não ficar atraído pela textura da palha e o brilho do ouro. O artesanato gera uma renda mensal de R$ 100 a R$ 600 por artesã, dependendo do tempo dedicado à atividade e o tipo de peça produzida (dir.). Para muitas famílias representa a principal fonte de sustento. A atividade nasceu nas comunidades de Mumbuca (Mateiros) e no povoado de Pratas (esq.), no município de São Félix do Jalapão. Mumbuca é uma comunidade de negros, provavelmente ex-escravos, remanescentes de quilombos, de casas humildes, com telhado de piaçava (acima).

Agora, a extração do capim só é permitida no caso de associações e produtores cadastrados no Naturantins, treinados para práticas de coleta seletiva e manejo. Evita-se desse modo que intermediários e atravessadores, contra os quais os habitantes locais não têm defesa, comprem o capim e transformem a palha em peças de venda garantida depois de passar pelas mãos de artesãs em outros pontos do Brasil. O Sebrae também está atrás de outras espécies de plantas para que as comunidades não dependam apenas do capim como fonte de renda.

O Jalapão, enquanto isso, continua a receber visitantes de outros pontos do Brasil, interessados na sua natureza única. A Chapada das Mangabeiras, onde ele está situado, abriga nascentes de afluentes de rios de três grandes bacias hidrográficas brasileiras: Tocantins, São Francisco e Parnaíba. Ali forma-se um enorme lençol de água subterrâneo e um manancial de rios e córregos surpreendente para uma região, aparentemente tão árida. A grande quantidade de areia das dunas que se estendem por todo lado, permite que a água passe pelo solo e se concentre abaixo da superfície. É essa água que dá vida à biodiversidade do Jalapão.

A água também dá origem a fenômenos curiosos, como o Fervedouro, uma piscina natural de águas cristalinas, com fundo de areia branquíssima, que reflete o verde das bananeiras que a circunda. A pressão, criada por um fenômeno chamado ressurgência, impede que o corpo das pessoas que buscam a frescura de suas águas afunde. Isso acontece porque sob a piscina há um lençol freático e, logo abaixo, rocha impermeável. Sem encontrar vazão pela rocha, a água é jorrada com muita pressão, empurrando para cima a areia e o que houver por cima dela.

Chuva no cerrado


O Jalapão é formado por rochas de arenito muito frágeis, sujeitas à erosão provocada pelo vento e pelas chuvas. A paisagem é caracterizada por platôs com altura média de 800 metros. “É uma bela região, o ar é magnífico, deliciosamente fresco e puro; não há água estagnada, nem vegetação apodrecida, nem pragas de nenhum tipo”, dizia um viajante do século 19.

Com o objetivo de proteger essa região tão curiosa, foram criadas cinco unidades de conservação pelo governo do Tocantins e pelo Ibama, que formam o maior mosaico de diferentes áreas protegidas do cerrado brasileiro, com mais de 1,5 milhão de hectares. São elas: o Parque Estadual do Jalapão, o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba, a Estação Ecológica da Serra Geral do Tocantins, a Área de Proteção Ambiental Estadual do Jalapão e a Reserva Particular do Patrimônio Natural Minnehaha. Essas unidades também fazem parte do Corredor de Biodiversidade do Jalapão, com o dobro da área, localizado na porção leste do estado, na divisa entre Piauí, Maranhão e Bahia, criado, com o apoio da ONG Conservação Internacional, para proteger a diversidade de ambientes e a alta biodiversidade do cerrado. Pelo menos as jalapas-do-Brasil (Operculina macrocarpa), a planta trepadeira nativa que dá nome à região, usada pelos seus moradores como remédio contra problemas gastrointestinais, está a salvo.


Localizado a leste, no estado do Tocantins, o Jalapão abrange os municípios de Ponte Alta do Tocantins, Mateiros, São Félix do Jalapão, Novo Acordo e Aparecida do Rio Novo. São 34 mil km2 e pouquíssimos habitantes: apenas uma pessoa por quilômetro quadrado. A topografia e vegetação dominantes são características de cerrado, mas os rios são mais abundantes.

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