sábado, 22 de outubro de 2016

Se o paraíso islâmico tem 72 virgens, que interesse despertaria em uma mulher-bomba?


Ela teria direito a um homem perfeito, poderia sentar-se ao lado de Maomé e ajudar setenta familiares no dia do julgamento final

  Duda Teixeira

 





Hasna Aitboulahcen, mulher-bomba do Estado Islâmico, em Saint Denis, na França



A tradição islâmica diz que os os homens que morrem como mártires em nome de Alá têm direito a 72 virgens no paraíso. Para as mulheres mártires, por sua vez, é prometido apenas um homem. Como alguém pode dizer que essa conta não fecha, então vale ficar atento às nuances.

Ter um único homem no paraíso não seria uma desvantagem porque as mártires ficariam satisfeitas com ele. Segundo alguns clérigos islâmicos, enquanto o homem tem capacidade para amar mais de uma companheira; a mulher, por natureza, só consegue amar um homem.

Esse homem também não seria qualquer um, pois seria perfeito. “Ele poderia ser o marido que elas tiveram em vida, então não necessariamente há uma troca”, diz a canadense Mia Bloom, autora do livro Bombshell e professora da Georgia State University, nos Estados Unidos. Outro benefício de estar no paraíso seria sentar-se ao lado de Maomé.

Conta ainda que os mártires poderiam interceder em favor de setenta parentes no dia do julgamento final. Os pecados e transgressões deles seriam perdoados e todos se encontrariam no paraíso. “As mulheres pensam que terão a possibilidade de ajudar a comunidade e de fazer algo altruísta”, diz Mia.

Antes de fechar este post, vale fazer três adendos:

1. O Corão não promete o número de “72 virgens”. Apenas fala em companheiras femininas para os fiéis (não apenas para os mártires). O número 72 vem da Hadith, o conjunto de narrações tradicionais de palavras e atos de Maomé;

2. A crença de que cada muçulmano tem direito a 72 virgens sofreu variações ao longo do tempo. Autores medievais já escreveram que, entre as recompensas, haveria também os ghilmaan: rapazes brancos como pérolas. Eles estariam prontos para servir os mártires pela sua fé, segundo o livro A História da Sexualidade, de Peter Stearns (Contexto);

3. Entre as coisas ditas pelos terroristas para as mulheres está que elas poderiam renascer em uma versão melhorada, mais perfeita, mais amável, sem cicatrizes e que não iriam menstruar.
Revista Veja

Na política de filho único da China, que fim levavam os gêmeos?


Pais que tinham partos múltiplos não recebiam o "certificado de honra de pais de filhos únicos", mas não sofriam punições. A brecha multiplicou o número de gêmeos no país

Duda Teixeira 

Gêmeos em parque de Pequim, na China, em 2006. Crédito Zhou Min/ChinaFotoPress/Getty Images

A Lei de População e Planejamento Familiar, que deve ser extinta em breve, afirma que:

“O país determina estar em efeito a política do nascimento, que encoraja o cidadão a casar-se e, em um momento posterior, a ter filhos. Recomenda-se que marido e mulher tenham somente uma criança”

A norma estipula que os pais de filhos únicos podem requerer um “certificado de honra para pais de filhos únicos”. Com o documento em mãos, eles passam a ter direito a vários benefícios estatais, como assistência médica e um seguro para a idade avançada. Na sua continuação, o texto diz que:

“As crianças que nascerem de acordo com a regulamentação, mas que porventura enquadrem-se na condição de gêmeos ou crianças de um parto múltiplo, não desfrutarão dos benefícios do filho único”

A lei, portanto, não prevê punições para os pais de gêmeos, uma vez que admite claramente a existência deles. E nem poderia ser diferente. “Nascer de acordo com a regulamentação”, afinal, é uma expressão um tanto ridícula. Por outro lado, a legislação não concede aos pais de gêmeos os benefícios daqueles que possuem o “certificado de honra para pais de filhos únicos”.

Ao longo de mais de três décadas, essa brecha foi aproveitada por aqueles que desejavam mais de uma criança dentro de casa. Desde que a regra entrou em vigor, em 1980, o número de gêmeos na população chinesa aumentou em um terço.

Os chineses elevaram a incidência de gêmeos de duas maneiras. A primeira foi tomando remédios para estimular a ovulação e ter mais de um embrião por vez. O mais comum é o citrato de clomifeno, normalmente indicado para mulheres com problemas de fertilidade. Mesmo em uma dose baixa, o comprimido faz com que 70% das mulheres ovulem. Dessas, 40% ficam grávidas.

A segunda maneira usada pelos chineses foi registrando dois filhos que nasceram próximos, em datas diferentes, como gêmeos. Apesar de alguns centímetros na diferença de altura, muitos conseguiram furar a diretriz do Partido Comunista principalmente nas áreas rurais, em que o controle governamental é mais poroso. Essas duas soluções, quando empregadas, sempre ficaram em completo segredo. “Os chineses em geral não gostam de contrariar o Estado. Por esse motivo, esse tipo de assunto jamais apareceria numa reunião entre amigos”, diz o sinólogo brasileiro Tadzio Goldgewicht, que morou no país durante catorze anos e traduziu os trechos da lei chinesa 
Revista Veja

Dá para morrer de poluição na China?


As partículas do ar podem provocar o entupimento dos vasos que levam sangue ao coração. Na maratona de Pequim, seis corredores sofreram ataque cardíaco fulminante

Duda Teixeira

Mulher com máscara contra poluição em Pequim, na China. A cidade decretou alerta vermelho no início de dezembro, pela primeira vez. Crédito Kevin Frayer/Getty Images


Quando o ar está cheio de pequenas partículas, elas podem entrar na corrente sanguínea, via pulmão, e atiçar o sistema de defesa. Dentro dos vasos, isso inicia um aumento das placas, que se movem e podem barrar o fluxo para o coração. “A maior parte das mortes provocadas por poluição acontece por eventos no coração, e não por algo no pulmão ou por um câncer, como normalmente se pensa”, diz o médico de família americano Richard Saint Cyr, que vive em Pequim e mantém o site MyHealth Beijing.

Na maratona de Pequim, em setembro de 2015, seis corredores e um funcionário do evento morreram de ataque cardíaco durante a competição. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a quantidade de partículas finas recomendável no ar é de até 25 microgramas por metro cúbico. No dia da prova, estava em 175 microgramas. Em Pequim, nos últimos dias de dezembro, o valor chegou a ser de 600 microgramas.

O governo comunista evita falar sobre essas consequências trágicas, mas em janeiro de 2014 um ex-ministro de saúde, Chen Zhu, calculou que entre 350 000 e 500 000 morrem prematuramente todos os anos devido a problemas causados pela poluição. Segundo os cientistas, só quem já tem alguma disfunção no coração está suscetível.

Para se proteger, muitos começaram a usar máscaras cirúrgicas e de algodão. Como não vedam direito a entrada de ar, são inúteis. A máscara que aparece na foto desse blog é bem mais eficiente e deve ser vista com mais frequência. “Me parece uma grande ideia ter um aparelho movido a bateria que filtra e canaliza o ar para perto do nariz. Muitas peças desse tipo estão sendo desenvolvidas agora”, diz Saint Cyr, que dá assessoria a fabricantes e testa os modelos à venda.
Revista Veja

Por que os terroristas do Estado Islâmico (Isis) executam gays, mas mantêm homossexuais em suas fileiras?


Na Síria, terroristas do Estado Islâmico jogam de um prédio jovem de 15 anos, acusado de ter tido relações comum comandante do grupo
 

Muitos muçulmanos condenam os gays passivos, mas toleram os que são ativos em um relacionamento. Isso acontece no Talibã, entre os iranianos e os príncipes sauditas

  Duda Teixeira


Ainda que governos do Oriente Médio persigam homossexuais, muitos islâmicos têm para com eles uma postura paradoxal: condenam os que são passivos na relação e aceitam os que são ativos. Assim pensam muitos terroristas do Estado Islâmico (Isis ou EI) no Iraque e na Síria, membros do Talibã no Afeganistão e príncipes na Arábia Saudita.

No início deste ano, um jovem de 15 anos foi lançado de um prédio por terroristas do Estado Islâmico em Deir ez-Zor, na Síria. Ele fora encontrado na casa do comandante do Estado Islâmico, Abu Zaid al-Jazrawi. Enquanto o menino foi executado por ser gay em frente a uma multidão (na foto acima), Jazrawi foi chicoteado e mandado para lutar no Iraque. Mais velho que o parceiro, ele não foi excluído do grupo.

Um caso parecido aconteceu em 2010, quando um príncipe saudita, Saud Abdul Aziz bin Nasir al-Saud, foi condenado à prisão perpétua em Londres por matar seu escravo, depois de lhe dar umas mordidas na bochecha. Apesar de dormirem juntos e de se comportarem como um casal, o príncipe passou boa parte do julgamento insistindo que era hetero. “Matei, sim, mas que meu país fique tranquilo: não sou gay”, disse al-Saud na época.

Na Turquia, a homossexualidade pode ser motivo para escapar do alistamento militar. Os médicos então pedem para ver fotos e vídeos dos recrutas fazendo sexo com um homem. Segundo a revista alemã Spiegel, se o candidato estiver na posição de passivo, a homossexualidade é comprovada. Mas se aparecer como ativo, então vai para as forças armadas do mesmo jeito.

E entre os muçulmanos xiitas? Pelas regras do Irã, um homem que tenha tido um papel passivo em um relacionamento homossexual deve ser enforcado. Se tiver sido o ativo, contudo, recebe uma pena é mais branda: é chicoteado 100 vezes.

Dá para explicar isso? No mundo islâmico, é muito difícil um jovem ter um encontro amoroso com uma mulher. Por esse motivo, sempre houve alguma tolerância em relação ao sexo entre os homens. Em alguns textos religiosos, fala-se até que, além das 72 virgens, os homens poderiam encontrar garotos “brancos como pérolas” no paraíso. Permeia também a noção de que o gay ativo ainda poderia se reproduzir com uma mulher e, portanto, deveria ser poupado.

Fora esses casos, o castigo é severo. Os tribunais baseados na sharia, a lei islâmica, normalmente se baseiam no trecho do Corão em que os habitantes de Sodoma (“o povo de Lot”) são mortos por se aproximarem dos homens, e não das mulheres (26:165-166).
Revista Veja

Por que o Estado Islâmico quer o apocalipse?


 Carro-bomba do Estado Islâmico (EI ou Isis) que explodiu na cidade de Aleppo, na síria, em janeiro de 2016. Quatro pessoas morreram na explosão. (Photo by Ibrahim Ebu Leys/Anadolu Agency/Getty Images)
 
Não há menção ao fim dos tempos no Corão. Isso só veio quando vários grupos já brigavam entre si

  Duda Teixeira


Um dos pontos centrais na ideologia do grupo terrorista Estado Islâmico (EI ou Isis) é o de que o apocalipse, o fim dos tempos, está próximo e deve chegar após uma batalha entre exércitos islâmicos e ocidentais na cidade síria de Dabiq. No confronto, o Mahdi, um salvador que irá unificar os muçulmanos, e Jesus, o filho de Maria, descerão à terra, apressando o Dia do Julgamento Final.

O argumento é tão central na cabeça dos integrantes do EI que eles deram o nome de Dabiq à revista que publicam na internet.

A suposição de que tudo logo irá acabar, contudo, não aparece em surata alguma no Corão, o livro sagrado que teria sido revelado por Alá a Maomé. Como então explicar que o Estado Islâmico dê tanta importância para isso e ainda atraia milhares de adeptos com essa insistência?

Há, sim, textos que falam sobre o apocalipse, mas são todos posteriores à morte de Maomé. Eles aparecem nas hadiths, escritas décadas ou séculos mais tarde. As origens deles estão nas disputas entre as primeiras comunidades muçulmanas, em que cada lado buscou justificar suas políticas prevendo a sua vitória inevitável e a derrota certeira do oponente.

As primeiras lendas sobre a vinda do salvador Mahdi circularam na dinastia dos Omíadas, que governaram o mundo islâmico da cidade de Damasco nos séculos VII e VIII. Seus líderes perseguiram os descendentes de Maomé, o que enfureceu muitos muçulmanos. Ressentidos, eles começaram a contar histórias de que um salvador da família do profeta retornaria para fazer justiça ao mundo. Era o Mahdi, que lideraria a batalha derradeira contra os infiéis. O Julgamento final viria na sequência. “Para dar um peso adicional a essas profecias, elas frequentemente foram atribuídas a Maomé”, escreve William McCants, diretor da Brookings Institution e autor do livro The Isis Apocalypse (St. Martin´s Press).

A partir daí, os trechos apocalípticos passaram a ser usados sempre que uma facção queria dizer que estava do lado certo. Seus integrantes certamente venceriam os opositores, os quais nada mais poderiam esperar além da derrota. “Ao londo dos anos, as profecias do Mahdi inspiraram muitas pessoas. Como elas poderiam resistir? Não importa se com sinceridade ou não, evocar o poder espiritual e político do Mahdi era uma potente ferramenta de recrutamento“, escreve McCants.

No século XX, a crença em um apocalipse iminente perdeu espaço. As principais autoridades religiosas não alimentavam o assunto. Mesmo entre os muçulmanos xiitas, para os quais o Mahdi tem maior importância, livros sobre o tema eram fracassos comerciais. Entre os membros das elites, a coisa também não vingava. Como a Al Qaeda era comandada por dois bem-nascidos, Osama bin Laden, de família milionária, e o médico egípcio Ayman Zawahiri, o fim dos tempos foi desdenhado dentro do grupo. Contudo, o sentimento continuou latente entre a galera mais simples. Mesmo na Al Qaeda, terroristas de níveis inferiores falavam pelos cantos sobre isso, evitando serem censurados pelos seus superiores.

As previsões catastróficas só voltaram a ganhar fôlego recentemente, com as guerras e revoluções que aconteceram no Oriente Médio. Em 2012, uma pesquisa da Pew Research, de 2012, mostrou como a crença na vinda do Mahdi e de Jesus é muito prevalente entre os muçulmanos. Cerca de metade deles acredita que estarão vivos para ver a vinda do Mahdi. Essa certeza é mais forte no Afeganistão (83% pensam assim), Iraque (72%), Tunísia (67%) e Malásia (62%). Quanto a Jesus, 67% dos tunisianos e 64% dos iraquianos estão a sua espera. São valores elevados. No mundo, em geral, a porcentagem de pessoas que falam que o mundo irá acabar ainda durante a sua própria vida é de 15%.

O alívio para quem estava preocupado com o avanço do Estado Islâmico é que, no início de outubro, a cidade de Dabiq, que estava sob controle do grupo, foi retomada por rebeldes apoiados pela Turquia em uma curta batalha. Após a derrota, o EI até mudou o nome da sua revista, para Rumiyah. Se o apocalipse é mesmo certo, como dizem muitos, pelo menos vai demorar mais para acontecer.
Revista Veja

Liberland: o país sem governo e sem cobrança de impostos


Mais de 100.000 pessoas já se inscreveram para obter a cidadania da República Livre de Liberland, entre elas 2.500 brasileiros
 
Daniela Macedo



Território de Liberland: O primeiro país 100% libertário do mundo, localizado entre a Croácia e a Sérvia (Reprodução/Facebook)

Assim como um jogador do tradicional game Civilization, em que os praticantes desenvolvem uma civilização a partir do zero, o checo Vít Jedlicka fincou uma bandeira em um território ermo e se autoproclamou presidente da nova República Livre de Liberland, em abril de 2015. Simples assim. O ativista libertário de 33 anos encontrou um território sem dono entre a Sérvia e a Croácia – a área não foi reivindicada por nenhuma nação após a separação da Iugoslávia – e lá pretende realizar o sonho de viver em um país onde a atuação do governo na sociedade é mínima e o cidadão paga imposto quando e se desejar. ‘Viva e deixe viver’ é o lema de Liberland, que com seus 7 quilômetros quadrados é maior apenas que Vaticano e Mônaco.

“O governo de Liberland atuará apenas nas áreas de justiça, segurança e diplomacia”, explicou Jedlicka ao site de VEJA. Ele não acredita em um sistema de saúde público, por exemplo. Se um cidadão de Liberland não puder arcar com os custos de um tratamento caro ou uma cirurgia, por exemplo, que faça uma vaquinha ou procure uma instituição de caridade. “Esta é a forma justa, e não recebendo ajuda do Estado”, diz Jedlicka.

No modelo libertário, a sociedade toma suas próprias decisões e, segundo ele, qualquer assistência deve vir de forma espontânea. “Quem desejar construir um hospital para os necessitados pode fazer organizar uma vaquinha e construir o hospital, sem interferência do governo”. O ativista defende que o Estado é, em geral, muito ineficiente em oferecer serviços sociais. “Hospitais privados são melhores do que hospitais públicos, mesmo com verba inferior”, afirma. 


O presidente de Liberland – primeiro país 100% libertário do mundo – Vit Jedlicka – 13/04/2015 (Francois Guillot/AFP)

A política fiscal, com um modelo voluntário de pagamento de impostos, é a grande atração do projeto de Jedlicka. “É revolucionário. Em Liberland, as pessoas darão ao governo o valor que elas quiserem. Toda transação será voluntária, pois o Estado nunca deve obrigar nenhum cidadão a fazer algo contra sua vontade”.
Cidadania

Mas como garantir a segurança do país e justiça aos cidadãos sem arrecadação de impostos? “Bom, se ninguém pagar, não haverá país. Mas já temos uma quantia mais do que suficiente para tocar o governo”. Jedlicka refere-se aos 300.000 dólares que Liberland soma em doações de simpatizantes e interessados em obter a cidadania – atualmente, mais de 100.000 pessoas se inscreveram para “viver e deixar viver” nos Bálcãs, entre eles 2.500 brasileiros.

Nem todos os interessados na cidadania terão um lugar garantido na terra livre de Jedlicka. Além de preencher os critérios exigidos para a inscrição, como “ter respeito pela propriedade privada, que é intocável, não ter antecedentes criminais nem passado comunista ou nazista”, cada candidato terá de encarar uma entrevista cara a cara com o presidente do almejado país. “Não basta ter interesse e preencher os requisitos, é preciso ajudar Liberland de alguma forma”. Jedlicka explica a troca da cidadania por trabalho ou dinheiro. “Cidadania é uma commodity, como uma filiação a um clube. O país é o clube e você adquire o título para se associar a ele”.

Com um reforma, os poucos refúgios de um antigo vilarejo de caçadores, únicas construções existentes atualmente em Liberland, serão suficientes para abrigar as repartições públicas de um governo tão enxuto. No primeiro semestre de 2017, seis casas, cada uma com capacidade para doze pessoas, devem ser construídas para receber os primeiros moradores.
 
Diplomacia

Para ganhar o reconhecimento internacional, Jedlicka já viajou a diversos países apresentando seu projeto de nação libertária. Ele está no Brasil para participar do 3º Fórum Liberdade e Democracia de São Paulo, cujo tema é “Em busca de uma Sociedade Aberta”. O evento será realizado neste sábado e deve debater Estado de Direito, livre mercado e outros assuntos relacionados ao tema. Em Brasília, Jedlicka se encontrou com senadores brasileiros para promover Liberland, entre eles o vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, Valdir Raupp.

O presidente de Liberland garante que pretende permanecer no cargo apenas durante o período de missões diplomáticas, até que o país seja reconhecido internacionalmente. “Depois de alguns anos, vou me aposentar. Não haverá mais presidente e todo o sistema se auto administrará”, diz. 


O senador Valdir Raupp (PMDB/RO) e o presidente de Liberland, Vít Jedlička (Divulgação)
Ilha artificial

Jedlicka não é pioneiro na criação de um território independente à la Civilization. Em 2008, o americano Patri Friedman já falava em cidades flutuantes onde os moradores não sofreriam interferência do Estado. Influenciado pelos ideais herdados do avô, Milton Friedman, e do pai, David Friedman, ambos economistas libertários, Patri fundou o Seasteading Institute e pretende criar, em 2020, a primeira ilha artificial sem órgãos regulatórios e cobrança de impostos.
Revista Veja

domingo, 16 de outubro de 2016

Mineração Espacial

Prevenir vale a pena - Aumento do nível do mar

Ações adaptativas reduziriam significativamente prejuízo provocado pela subida do mar em Santos até 2100

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: José Marengo
00:00 / 09:28

Implementar medidas de adaptação às mudanças climáticas poderá reduzir consideravelmente os prejuízos econômicos causados às moradias dos habitantes de Santos, no litoral paulista, por inundações decorrentes da intensificação de eventos extremos previstos até o final deste século, como a elevação do nível do mar e, em menor escala, a ocorrência de fortes chuvas e de marés altas. Caso nada seja feito para minimizar a destruição provocada por esses eventos e o nível do mar suba 45 centímetros (cm) até 2100, conforme prevê o cenário mais pessimista de um estudo sobre o impacto das mudanças climáticas no balneário paulista, os prejuízos poderão atingir quase R$ 1,3 bilhão. Mas, se o município implementar um rol de ações paliativas, como o alargamento das praias, a dragagem de áreas assoreadas, o restauro e a preservação de mangues e o reforço estrutural de paredes de contenção do mar, as perdas acumuladas poderão se restringir a R$ 200 milhões ao longo das próximas oito décadas.
“Ficamos surpresos com a magnitude da redução do prejuízo econômico com o emprego das medidas adaptativas de acordo com nossas simulações computacionais”, afirma o climatologista José Marengo, chefe da Divisão de Pesquisas do Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), em Cachoeira Paulista, e coordenador do estudo sobre os efeitos do clima em Santos. Os custos de implementação das medidas seriam da ordem de R$ 240 milhões, bem menor do que a economia gerada pela redução dos danos. As projeções fazem parte do braço brasileiro de uma iniciativa internacional, o projeto Metrópole, que estuda estratégias de adaptação aos possíveis impactos das mudanças climáticas em três localidades costeiras do globo: Santos, no Brasil; Selsey, balneário de 11 mil habitantes no sul da Inglaterra; e o condado de Broward, na Flórida, que abriga a cidade de Fort Lauderdale. Além de cenários para 2100, o projeto também fez simulações para meados do século.
O projeto Metrópole faz parte do Belmont Forum, mantido pelo International Group of Funding Agencies for Global Change Research (IGFA), que reúne agências de fomento à pesquisa de todo o mundo e estimula estudos sobre questões ligadas às mudanças climáticas. A FAPESP financia os trabalhos feitos na cidade paulista. Os resultados dos estudos foram apresentados em duas oca-siões, em setembro e agora em dezembro, ao poder público local e a representantes da sociedade civil de Santos. “O projeto mescla pesquisa científica, discussão de políticas públicas e participação da população local”, afirma a geógrafa Lucí Hidalgo Nunes, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IG-Unicamp), outra participante dos trabalhos.

© LUIZ FERNANDO MENEZES / FOTOARENA / FOLHAPRESS
...e muro de contenção do mar na rica zona sudeste de Santos: investir nessas duas regiões pode minorar os danos econômicos das mudanças climáticas
Muro de contenção do mar na rica zona sudeste de Santos: investir nessas duas regiões pode minorar os danos econômicos das mudanças climáticas

O possível custo econômico das mudanças climáticas em Santos só pode ser estimado porque os pesquisadores do Metrópole contam com uma ferramenta computacional, a plataforma Coast (sigla em inglês para Coastal Adaptation to Sea Level Rise Tool), capaz de simular as áreas permanentemente alagadas de acordo com o nível do mar e os prejuízos provocados pelo avanço das águas sobre as moradias da região. Desenvolvida nos Estados Unidos, a plataforma precisa ser abastecida com uma série de dados do lugar a ser estudado, como informações meteorológicas e topográficas, o histórico do nível do mar na região, o padrão de ocupação do solo, a localização geor-referenciada e o valor dos imóveis. “Nos Estados Unidos, há uma cultura de se preparar para eventos extremos, como os furacões que atingem o país”, diz o engenheiro Eduardo Hosokawa, da Secretaria de Desenvolvimento Urbano da prefeitura de Santos. “Aqui ainda estamos no começo desse trabalho. Mas as informações do projeto Metrópole foram bem recebidas pela população.” Hosokawa e seu colega de prefeitura  Ernesto Tabuchi forneceram os dados do município paulista sem os quais o Coast não poderia rodar.
A rigor, o prejuízo econômico decorrente da elevação do nível do mar em Santos poderá ser maior do que o estimado pelo projeto. A área abrangida pelo estudo não engloba todo o município e abarca apenas um quarto da população santista. Além disso, os custos contabilizados no modelo dizem respeito apenas aos danos estruturais causados pela subida das águas nas habitações particulares. O prejuízo estimado é baseado no valor venal dos imóveis que aparece nos registros municipais, quase sempre inferior ao preço de mercado das propriedades. Também não estão incluídos nos cálculos do Coast danos a outros tipos de patrimônio privado, como carros e móveis, nem aos equipamentos mantidos pelo poder público ou, ainda, a destruição da infraestrutura existente. “No fundo, as estimativas de prejuízo são conservadoras”, explica Lucí.
Ainda assim, o estudo feito no balneário paulista, de caráter inédito no país, se mostra uma ferramenta importante para planejar o futuro das cidades costeiras mais vulneráveis à elevação do nível do mar, um dos principais efeitos atribuídos às mudanças climáticas. As duas regiões de Santos analisadas no trabalho, a rica zona sudeste e a pobre zona noroeste, são as que mais sofrerão os impactos das mudanças climáticas na cidade e formam um painel de contrastes e diferentes vulnerabilidades. Embora tenha uma área total de 381 quilômetros quadrados (km2), Santos concentra a quase totalidade de sua população de 420 mil habitantes em sua pequena porção insular. Mais de 99% de seus moradores vivem nos 39,4 km2 da Ilha de São Vicente que fazem parte do município (o restante da ilha pertence ao território da cidade vizinha, São Vicente). As duas áreas escolhidas para o estudo abrangem 12 km2 e 117 mil habitantes (10 km2 e 83 mil pessoas na zona noroeste e 2 km2 e 34 mil indivíduos na sudeste).

Acima, as zonas noroeste (em verde) e sudeste (azul) de Santos. Abaixo, mapas mostram áreas que seriam alagadas (verde) em diferentes cenários de elevação do mar
Acima, as zonas noroeste (em verde) e sudeste (azul) de Santos

As duas regiões são de caráter bastante distinto. A popular zona noroeste é uma área de invasão, com casas modestas, favelas e palafitas distribuídas por 20 mil lotes fiscais. Em um cenário de mudanças climáticas, sua principal vulnerabilidade são as inundações de verão devido a tempestades e à alta da maré. A zona sudeste inclui bairros verticalizados de classe média e abriga 1.400 lotes de uma área que começa no Canal 3 e vai até o bairro da Ponta da Praia e o porto. É a área das praias. Há décadas essa zona sofre erosão costeira e sua faixa de areia está encolhendo. De acordo com as simulações do Coast, os prejuízos econômicos em razão das mudanças climáticas na zona sudeste serão de três a quatro vezes maiores do que na zona noroeste. A diferença decorre sobretudo do maior valor dos imóveis na área das praias.
Em compensação, as mudanças adaptativas rodadas no modelo para a zona sudeste (engordamento da faixa de areia das praias e reforço dos muros de contenção do mar) custariam cerca de R$ 36 milhões, quase seis vezes menos do que os procedimentos simulados para a zona noroeste (dragagem de áreas assoreadas, restauração e conservação dos mangues e construção de diques e de sistemas para drenar a água). “As simulações mostram que vale a pena investir nessas medidas”, afirma Marengo. “Seus custos de implementação são bem menores do que a economia gerada por elas com a redução de danos à região.”
A escolha de Santos para ser alvo do estudo não foi arbitrária. Deveu-se a dois fatores objetivos. A cidade tem enorme importância econômica para o país. Um quarto das importações e exportações brasileiras passa por seu porto, cuja área obviamente será afetada se o nível do mar subir em demasia nas próximas décadas. Um segundo ponto considerado, talvez mais importante do que o anterior, foi a existência de uma série histórica com registros dos níveis do mar desde a década de 1940 até hoje. Esse tipo de informação era imprescindível para que os pesquisadores pudessem rodar os cenários que contabilizam as perdas econômicas decorrentes de diferentes níveis de subida das águas do Atlântico.

022-025_C_Santos_238 

Marégrafo e satélite
 
Especialista no estudo da dinâmica de águas oceânicas, o professor Joseph Harari, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), unificou as informações históricas sobre o nível do mar no litoral de Santos. De 1945 até 1990, foram usados dados de um marégrafo, instrumento que mede o nível da superfície do mar em um ponto da costa, que estava instalado no cais do porto. “De 1993 até o presente, utilizamos dados de altimetria de satélite”, afirma Harari. As duas formas de medida apresentam diferenças metodológicas, mas os pesquisadores trataram os dados de modo que pudessem ser comparados.

Se o passado recente for uma referên-cia para o futuro próximo, os santistas têm motivo para preocupação. De 1945 até o início da década de 1990, o nível do mar subiu, em média, 1,3 milímetro (mm) ao ano em Santos. De 1993 até 2014, esse índice dobrou: foi de 2,7 mm ao ano. Quando se leva em conta apenas o período de 2003 a 2013, o número é ainda maior, de 3,6 mm ao ano, semelhante à média global calculada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e à média da elevação do nível do mar ao longo de toda a costa brasileira. Caso esse ritmo seja mantido até 2050, a subida do Atlântico na cidade paulista terá sido de 18 cm na primeira metade deste século. Se essa taxa persistir até 2100, a elevação acumulada do nível do mar na cidade paulista no final do século XXI terá sido de 36 centímetros. Nesse cenário, tido pelos pesquisadores do projeto Metrópole como mais realista do que as previsões genéricas e globais do IPCC, os prejuízos econômicos em Santos seriam de pouco mais de R$ 1 bilhão ao longo de todo o século XXI. “Quanto à subida do nível médio do mar, não há o que se discutir”, diz Harari. “As medições são inequívocas. Os cenários e as consequências nas próximas décadas dependerão das medidas que os governos vão colocar em prática.”
Projeto
Uma estrutura integrada para analisar tomada de decisão local e capacidade adaptativa para mudança ambiental de grande escala: estudos de caso de comunidades no Brasil, Reino Unido e Estados Unidos – Acordo FAPESP-Belmont Forum (nº 2012/51876-0); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável José Marengo (Cemaden); Investimento R$ 328.168,00.
 Revista Fapesp

Seca ameaça a Amazônia

Experimento feito na maior floresta tropical do mundo mostra colapso de árvores com ressecamento do solo

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Rafael Oliveira
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Ao tomar suco por um canudo é preciso cuidado para manter o tubo bem imerso. Do contrário, bolhas de ar se formam e rompem a estrutura do fio líquido que leva a bebida do copo à boca. Aumente a escala para a altura de um prédio de 10 andares e pode imaginar o fluxo de água dentro de uma das gigantescas árvores amazônicas. A transpiração pelas folhas dá origem à sucção que movimenta a água desde as raízes até as imensas copas das árvores, que podem ultrapassar os 40 metros de altura, e lança para a atmosfera uma umidade responsável por entre 35% e 50% das chuvas na região, com impacto importante na hidrologia global. Quando esse sistema falha, o ciclo da água não é o único afetado. As árvores, que até então pareciam funcionar normalmente, subitamente morrem. Um experimento liderado pelo ecólogo inglês Patrick Meir, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e da Universidade Nacional da Austrália, provocou 15 anos de seca numa parcela amazônica e revelou o papel desse mecanismo, de acordo com artigo publicado em novembro na revista Nature.
Para construir o experimento foram necessários 500 metros cúbicos (m3) de madeira, 5 toneladas de plástico, 2 toneladas de pregos e 23 mil horas-homem (10 homens trabalhando de segunda a segunda por um ano), de acordo com o meteorologista Antonio Carlos Lola da Costa, da Universidade Federal do Pará (UFPA). O resultado são 6 mil painéis de plástico que medem 3 metros (m) por 0,5 m cada um, entremeados por 18 calhas com 100 m de comprimento responsáveis por impedir que 50% da chuva que cai chegue ao solo numa parcela de  1 hectare na Floresta Nacional de Caxiuanã, no norte do Pará, onde o Museu Paraense Emílio Goeldi mantém uma estação científica. “O Patrick me procurou em 1999 com essa ideia maluca”, conta Lola. O meteorologista não sabia por onde começar, mas estudou as fotos que Meir lhe mandou de um experimento similar, o Seca Floresta, que estava sendo montado na Floresta Nacional do Tapajós, no oeste do estado, e saiu a campo. “Em um ano estava feito.” Não era um feito logístico trivial. Chegar a Caxiuanã envolve sair de Belém e passar 12 horas a bordo de um barco repleto de redes coloridas apinhadas, até Breves. Foi nessa cidade de cerca de 100 mil habitantes que Lola conseguiu o material para sua empreitada, como os tubos de ferro galvanizado para montar duas torres com 40 m de altura. De lá, 10 horas em um barco menor levam a Caxiuanã, onde o material precisou ser carregado pelo meio da densa floresta.
O experimento conhecido como Esecaflor, abreviação de Efeitos da Seca da Floresta, é o mais extenso e mais duradouro no mundo a avaliar o efeito de seca numa floresta tropical. O único comparável é o Seca Floresta, que abrangeu uma área similar e foi encerrado após cinco anos (ver Pesquisa FAPESP nº 156). Nesta última década e meia, Antonio Carlos Lola tem sido o principal responsável por monitorar a reação da floresta e manter o experimento de pé mesmo quando ele é constantemente derrubado por galhos e árvores que caem, uma empreitada que exige entre R$ 10 mil e R$ 15 mil por mês. Um valor que tende a subir, agora que mais árvores têm sucumbido à seca, destruindo parte da estrutura. “Passo por volta de seis meses do ano no meio do mato, com interrupções”, conta ele, que tem coordenado uma série de projetos de alunos de mestrado e doutorado no âmbito do experimento.

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Observação prolongada
Em linhas gerais os resultados dos dois experimentos amazônicos contam histórias semelhantes, como mostra artigo de revisão publicado por Meir e colegas em setembro na revista BioScience: nos primeiros anos a floresta parece ignorar a falta de chuva e mantém o funcionamento normal. Passados alguns anos de seca, porém, galhos começam a cair e árvores a morrer, sobretudo as mais altas e as menores. Experimentos em outros países analisaram uma área menor ou duraram menos tempo – o maior, na Indonésia, funcionou por dois anos.

© PAULO BRANDO / IPAM
Fogo experimental no Mato Grosso: em condições normais de umidade, os incêndios têm baixa energia e são pouco destrutivos
Fogo experimental no Mato Grosso: em condições normais de umidade, os incêndios têm baixa energia e são pouco destrutivos

O estudo de Caxiuanã traz resultados inéditos por sua longa duração: o colapso das maiores árvores só aconteceu após 13 anos da seca experimental e pode representar um ponto de inflexão em que a floresta muda de cara. Desde 2001 os pesquisadores vêm fazendo medições fisiológicas nas árvores, comparando a área com restrição de chuva e uma parcela semelhante sem intervenção. Nos últimos dois anos, começaram a registrar uma mortalidade drástica entre as árvores mais altas, raras por natureza, que caem causando destruição e transformando a floresta pujante numa mata de aparência degradada. “Das 12 árvores mais altas com diâmetro maior que 60 centímetros, restam apenas três”, conta Lucy Rowland, pesquisadora britânica em estágio de pós-doutorado no grupo de Meir na Universidade de Edimburgo que está à frente do projeto desde 2011. A surpresa foi identificar no sistema hidráulico a causa interna dessa mortalidade. Quando o suprimento de água no solo é reduzido, aumenta a tensão na coluna d’água no interior dos vasos condutores das árvores, o xilema. A integridade dessa coluna, que depende da adesão natural entre as moléculas de água, acaba comprometida por bolhas de ar, um processo que os especialistas chamam de cavitação. A consequência desse colapso, que acontece de repente, é a incapacidade de levar água das raízes às folhas e a morte súbita da árvore. Meir ressalta que essa falha hidráulica funciona como um gatilho que inicia o processo de morte, sem ser necessariamente a causa final – ainda desconhecida.
Outra hipótese favorecida para explicar a morte de árvores em situações de seca é o que os pesquisadores chamam de “fome de carbono”. Quando as folhas fecham os estômatos (poros que permitem transpiração e trocas gasosas) para evitar o ressecamento, também reduzem a absorção de carbono. O mais provável é que os dois processos aconteçam simultaneamente, mas no caso de Caxiuanã os pesquisadores descartaram a falta de carbono como fator principal ao verificar que as árvores continham um suprimento normal desse elemento e não pararam de crescer até a morte.
“Medimos a vulnerabilidade do sistema hidráulico das plantas à cavitação e vimos que ela tem relação com o diâmetro da árvore”, conta o biólogo Rafael Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), colaborador do projeto há dois anos. A observação condiz com a preponderância de vítimas avantajadas: 15 árvores com diâmetro maior que 40 centímetros caíram na área experimental, em comparação com apenas uma ou duas na zona de controle, onde não há exclusão de chuva. O impacto é grande, porque essas árvores gigantescas concentram uma parcela importante da biomassa da floresta e do dossel emissor de umidade. Enquanto isso, as de tamanho médio estão crescendo até mais, graças à luz que chega até elas agora que a mata vai se tornando esparsa e cheia de frestas entre as copas.

© RAFAEL OLIVEIRA / UNICAMP
Painéis de plástico impedem que metade da chuva chegue ao chão...
Painéis de plástico impedem que metade da chuva chegue ao chão…

Oliveira tem estudado as relações entre o solo, as plantas e a atmosfera, e em uma revisão publicada em 2014 na revista Theoretical and Experimental Plant Physiology mostrou que mudanças no regime de precipitação podem causar um estresse hídrico letal por cavitação, mesmo que a seca seja compensada por um período de chuvas intensas, de maneira que o total anual de chuvas não se altere. Para ele, é preciso entender melhor o funcionamento fisiológico e anatômico das árvores nessas condições para prever sua reação às mudanças previstas no clima. Essas particularidades também devem explicar por que a reação varia entre espécies. O estudo de Caxiuanã, por exemplo, aponta o gênero Pouteria como muito vulnerável à seca e o Licania como o mais resistente, entre as árvores examinadas. Os mecanismos usados pelas plantas são diversos, como absorver água pela parte aérea – pelas folhas e até pelos ramos e tronco. “Precisamos ver quais árvores na Amazônia fazem isso”, planeja.
Outro efeito da mortalidade das árvores é o acúmulo de mais folhas e galhos no solo da floresta. “Quem trabalha com fogo chama essa camada de combustível”, brinca o ecólogo Paulo Brando, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Centro de Pesquisa Woods Hole, Estados Unidos. Um dos integrantes do Seca Floresta, cujo imenso banco de dados ainda está em análise quase 10 anos depois de encerrado o projeto, ele mais recentemente conduziu um estudo com incêndios florestais num experimento no Alto Xingu, a região mais seca da Amazônia. Segundo os resultados apresentados em artigo de 2014 na PNAS, as árvores resistiram bem à primeira queimada, em 2004, em parte porque a própria umidade da floresta impediu que o fogo atingisse proporções devastadoras. O resultado marcante veio em 2007, quando o incêndio programado coincidiu com uma seca acentuada e representou, na interpretação dos autores, um ponto de inflexão na floresta. “O que vimos foi fogo de grande intensidade que matou tudo, principalmente as árvores pequenas”, conta, concluindo que a interação entre seca e fogo potencializa as forças motrizes de degradação. Menos água no solo, menos umidade no ar e mais combustível no chão agem em conjunto e aumentam muito a probabilidade de fogo. E não se pode esquecer a ação humana nas fronteiras agrícolas, onde o fogo é comum para manejo e se soma aos efeitos do desmatamento, que criam ilhas de floresta com bordas vulneráveis. “A fronteira da floresta com uma plantação de soja, por exemplo, é 5 graus Celsius mais quente do que o interior da floresta, e mais seca”, diz Brando.

© RAFAEL OLIVEIRA / UNICAMP
...provocando queda de árvores...
…provocando queda de árvores…

Ele é coautor de um estudo feito pela geógrafa Ane Alencar, também do Ipam, que analisou registros de incêndios na Amazônia, por imagens de satélite, entre 1983 e 2007. Os resultados, publicados em setembro na Ecological Applications, mostram que já houve um aumento na ocorrência de fogo florestal em resposta a um clima mais seco. Comparando três tipos de mata no leste da Amazônia, o grupo verificou que a floresta densa é sensível a mudanças climáticas, enquanto as formações aberta e de transição estão mais sujeitas à ação humana por desmatamento.
Futuro
Como não há bola de cristal para enxergar o que vem à frente, vários grupos buscam desenvolver modelos climáticos e ecológicos. Brando participou de um estudo liderado por Philip Duffy, do Woods Hole, que comparou a capacidade de modelos climáticos acomodarem as secas que aconteceram em 2005 e 2010 na Amazônia, tão drásticas que não era esperado que se repetissem num período menor do que um século. Os resultados, publicados em outubro no site da PNAS, preveem um aumento significativo de secas, com um crescimento da área afetada por essas secas na região amazônica. O problema, segundo Brando, é que boa parte dos modelos lida com médias, e o que está em questão são extremos climáticos. Este ano, caracterizado por um fenômeno El Niño mais forte do que a média, a equipe do Esecaflor encontrou, em novembro, uma floresta praticamente sem chuva havia mais de dois meses. A expectativa é, nos próximos anos, acompanhar as consequências desse período.

© RAFAEL OLIVEIRA / UNICAMP
...calhas levam a água embora numa área de 1 hectare da Floresta Nacional de Caxiuanã
…calhas levam a água embora numa área de 1 hectare da Floresta Nacional de Caxiuanã

“O relatório de 2013 do IPCC ressaltou nossa falta de capacidade em prever a mortalidade relacionada à seca nas florestas como uma das incertezas na ciência ligada à vegetação e ao clima”, conta Meir. “Nossos resultados indicam qual mecanismo fisiológico precisa ser bem representado pelos modelos para prever a mortalidade das árvores”, explica. Nessa busca por reduzir incertezas e antecipar o futuro, Lucy – que é especialista em usar dados de campo para alimentar modelos – vem trabalhando em parceria com o grupo de Stephen Sitch, na Universidade de Exeter, na Inglaterra, para aprimorar a representação das respostas das florestas tropicais à seca no modelo de vegetação conhecido como Jules. A Amazônia fala claramente sobre a importância de políticas que busquem reduzir as mudanças climáticas, tema que inundou as notícias nos últimos tempos por causa da Conferência do Clima em Paris (COP21), que ocorreu este mês. Os experimentos mostram efeitos localizados, mas secas naturais como as da década passada podem afetar uma área extensa da floresta. Meir ressalta a necessidade de quebrar o ciclo: ao se decomporem, imensas árvores mortas liberam na atmosfera uma quantidade de carbono que tende a agravar o efeito estufa. “É possível desenvolver regras de energia e uso da terra que sejam economicamente benéficas, sem danificar o ambiente no longo prazo”, completa.
Veja mais fotos da pesquisa na Galeria de Imagens
Projeto
Interações entre solo-vegetação-atmosfera em uma paisagem tropical em transformação (n° 2011/52072-0); Modalidade Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite) e Acordo FAPESP-Microsoft Research; Pesquisador responsável Rafael Silva Oliveira (IB-Unicamp); Investimento R$ 1.082.525,94.
Artigos científicos
ALENCAR, A. A. et al.Landscape fragmentation, severe drought, and the new Amazon forest fire regime. Ecological Applications. v. 25, n. 6, p. 1493-505. set. 2015.
BRANDO, P. M. et al.Abrupt increases in Amazonian tree mortality due to drought-fire interactions. PNAS. v. 111, n. 17, p. 6347-52. 29 abr. 2014.
DUFFY, P. B. et al. Projections of future meteorological drought and wet periods in the Amazon. PNAS. on-line. 12 out. 2015.
MEIR, P. et al. Threshold responses to soil moisture deficit by trees and soil in tropical rain forests: insights from field experiments. BioScience. v. 65, n. 9, p. 882-92. set. 2015.
OLIVEIRA, R. S. et al. Changing precipitation regimes and the water and carbon economies of trees. Theoretical and Experimental Plant Physiology. v. 26, n. 1, p. 65-82. mar. 2014.
ROWLAND, L. et al. Death from drought in tropical forests is triggered by hydraulics not carbon starvation. Nature. on-line. 23 nov. 2015.
Revista Fapesp

As raízes da resistência

Distância do padrão histórico de imigrante branco e europeu e mercado de trabalho limitado são algumas das razões da hostilidade aos fluxos migratórios atuais 


 Vendedores de ervas e temperos típicos da Bolívia na feira da rua Coimbra, em São Paulo
Vendedores de ervas e temperos típicos da Bolívia na feira da rua Coimbra, em São Paulo

“Voltem para Cuba!” A socióloga Roberta Peres assustou-se com o grito vindo de um passageiro de um carro cinza que passava em frente à Missão Paz, instituição religiosa que atende migrantes, imigrantes e refugiados recém-chegados à cidade de São Paulo. O haitiano que ela entrevistava – um estudante de engenharia que interrompeu o curso porque sua universidade fora destruída pelo terremoto de 2010 no Haiti – não entendeu a situação, já que conversavam em inglês. Era o início de 2014, auge da chegada de haitianos à capital paulista. A hostilidade cresceu nos meses seguintes. No sábado 1º de agosto de 2015, seis haitianos foram baleados com espingarda de chumbinho na rua do Glicério e na escadaria da paróquia Nossa Senhora da Paz, que abriga a Missão Paz.
“Em várias cidades brasileiras os haitianos ainda são oprimidos pelos moradores locais”, observa Rosana Baeninger, também socióloga e colega de Roberta no Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). As duas participaram de uma pesquisa recém-concluída sobre a situação e os planos de 250 haitianos que vivem em Manaus, Porto Velho, capital de São Paulo e três cidades do interior paulista (Campinas, Jundiaí e Santa Fé do Sul), Curitiba, Camboriú, Porto Alegre e Encantado, no Rio Grande do Sul. Os entrevistados eram, na maioria, homens com idade entre 24 e 29 anos, que pretendiam trazer os familiares, mas não pensavam em permanecer no Brasil. “Para os haitianos”, diz Roberta, “o Brasil está deixando de ser um país de destino para ser uma etapa de trânsito, ainda que demorada, para os Estados Unidos, para onde a maioria disse que gostaria de ir”.
O levantamento reiterou duas conclusões prévias da equipe do Nepo. A primeira é a desconcentração territorial: cidades do interior paulista como Piracicaba e Limeira, além de Campinas, Jundiaí e Santa Fé do Sul, por causa de investimentos internacionais em agropecuária ou indústria, estão recebendo mais imigrantes e vivendo situações antes comuns apenas em capitais como São Paulo, que até o início dos anos 2000 constituíam o destino quase exclusivo dos estrangeiros. “O excedente populacional acompanha alocações do capital internacional, embora a cidade de São Paulo continue como referencial no imaginário imigratório”, diz Rosana.

© EDUARDO CESAR
Imigrantes africanos trabalhando como camelôs e, à direita, frequentadores do comércio de rua mantido por bolivianos na região do Brás, em São Paulo
Imigrantes africanos trabalhando como camelôs

A segunda conclusão é que a onda imigratória dos últimos 10 anos – formada por bolivianos, peruanos e outros povos latinos, aos quais se somaram haitianos, senegaleses e congoleses, a partir de 2010 – contraria pressupostos históricos tácitos. “Desde o final do século XIX criou-se a ideia de que o imigrante, para ser aceito, teria de ser branco e europeu, e os imigrantes atuais são indígenas que falam espanhol, como os bolivianos, ou negros que falam francês ou crioulo, como os haitianos”, diz Rosana, que trabalha nesse campo há 30 anos. Segundo ela, o distanciamento do padrão histórico branco europeu, a ausência de uma necessidade explícita da mão de obra estrangeira e a escassez de políticas públicas locais, estaduais e federais que promovam a interação social dos imigrantes do século XXI geram o que ela chama de “distanciamento em relação ao outro” e as reações de hostilidade.
Os japoneses que chegaram no início do século XX, observa Rosana, embora tolerados pela necessidade de mão de obra para as plantações de café, então a base da economia nacional, foram hostilizados e discriminados, como mostrou o filme Gaijin – Os caminhos da liberdade (1980). Os orientais eram vistos como uma raça inferior, tanto quanto negros e índios, que prejudicaria o branqueamento da população desejado pelo governo brasileiro e promovido por imigrantes europeus.
De caráter eugenista, o projeto de branqueamento da população brasileira tinha sido estabelecido por Getúlio Vargas durante o Estado Novo (1930-1945). De acordo com estudo do historiador Fábio Koifman, da Universidade Federal Rural Fluminense, publicado no livro Imigrante ideal: o Ministério da Justiça e a entrada de estrangeiros no Brasil (1941-1945) (Civilização Brasileira, 2012), o projeto estabelecia quais eram os imigrantes desejáveis – branco, católico e apolítico, de preferência portugueses de baixa escolaridade, sem “ideias dissolventes” como as que tinham grupos intelectualizados da Alemanha, França e Áustria, entre outros países. Os indesejáveis eram negros, japoneses, idosos e deficientes. Em 1930, durante a campanha à Presidência, Vargas alertou que a imigração teria de ser pensada também sob o critério étnico, não apenas econômico. Depois de eleito, ele aprovou várias leis que estabeleciam cotas de imigração restringindo a entrada, principalmente, de orientais. “Segmentos letrados da sociedade brasileira e muitos homens do governo, incluindo Vargas, acreditavam que o problema do desenvolvimento brasileiro estava relacionado à má formação étnica do povo. Achavam que trazendo ‘bons’ imigrantes, ou seja, brancos que se integrassem à população não branca, o Brasil em 50 anos se transformaria em uma sociedade mais desenvolvida”, disse Koifman em entrevista à Pesquisa FAPESP em 2012.
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Frequentadores do comércio de rua mantido por bolivianos na região do Brás, em São Paulo
Frequentadores do comércio de rua mantido por bolivianos na região do Brás, em São Paulo
Preconceitos

Tanto no Brasil quanto na Europa, os meios de comunicação tratam a chegada dos imigrantes “como uma ameaça, como se o país tivesse sendo invadido por uma horda de desocupados, baderneiros que vêm para cá para pressionar o tão combalido sistema de proteção social e o mercado de trabalho”, escreveu Antônio Tadeu Ribeiro de Oliveira, pesquisador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em um artigo publicado em janeiro deste ano na Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana. Segundo ele, a dimensão desse fenômeno, apesar da intensa visibilidade, “é bem inferior ao da entrada através de aeroportos, portos e outras áreas de fronteiras de imigrantes irregulares brancos”.

Quem chega muitas vezes se decepciona. Segundo padre Paolo Parise, um dos diretores da Missão Paz, os coiotes, como são chamados os agentes que cobram dos interessados para ajudá-los a atravessar as fronteiras de outro país, prometem aos haitianos emprego fácil e ganhos de US$ 1.500 por mês. “Os haitianos dizem que não imaginavam que o Brasil fosse tão racista”, diz ele. Mantida pela Congregação Scalabriniana e por doações, desde 1978 a Missão Paz oferece abrigo, alimentação, atendimento médico e psicossocial e serviços de documentação para imigrantes, refugiados e migrantes. Por ali passaram 11 mil dos 60 mil haitianos que entraram no Brasil desde 2010. No início de setembro, padre Paolo cumprimentava os recém-chegados sírios com a mão no peito, sem estender a mão nem tocá-los, como fazia com os latinos que encontrava enquanto caminhava, indicando os cuidados indispensáveis para lidar com os representantes dos diferentes países e culturas.

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Sírios recém-chegados acolhidos pela Oásis Solidário, organização mantida pela comunidade síria estabelecida em São Paulo
Sírios recém-chegados acolhidos pela Oásis Solidário, organização mantida pela comunidade síria estabelecida em São Paulo

Neste ano, a equipe da Missão conseguiu empregos para 1.180 imigrantes. Até setembro do ano passado, foram 1.700, o que faz padre Paolo prever que o ano possa terminar com um terço a menos de contratações. O levantamento da Unicamp também indicou que a fase boa parece ter passado. Depois de uma época de emprego temporário relativamente fácil na construção civil antes da Copa do Mundo de 2014, muitos agora preferem ir para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde, acreditam, encontrarão empregos melhores.
“Os órgãos públicos estão se posicionando a favor da imigração e se responsabilizando por criar políticas públicas”, observa Camila Baraldi, coordenadora-adjunta da Coordenação de Políticas para Migrantes (CPMig) da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo. Como uma de suas primeiras ações, logo após ser criada, em 2013, a coordenação promoveu a simplificação da abertura de contas bancárias pelos imigrantes como forma de reduzir os assaltos a esses grupos de pessoas, que antes guardavam com eles o dinheiro que acumulavam, e facilitar a contratação por empresas. Uma boa parte do tempo das equipes do CPMig é dedicada aos haitianos, que em 2014 chegavam em grande número, às vezes um ônibus por dia. O fluxo hoje está menor, mas ainda chegam dois a três ônibus por semana vindos do Acre, a primeira parada no Brasil. A maioria permanece, ao menos no início, na capital. Agora a entrada de sírios é que está aumentando: em agosto as equipes da prefeitura atenderam 25.
Para os que chegam sem ter para onde ir, a coordenação oferece abrigos e apoio para a emissão de documentos e a procura de emprego, além de promover a articulação com as equipes de outros órgãos públicos para assegurar o acesso a serviços de saúde e educação e assistência social. “Muitas vezes esses direitos são negados, por desconhecimento de quem os atende”, diz Camila. Nesse momento uma das prioridades é a formação do Comitê Intersetorial da Política Municipal para a População Imigrante, criado em agosto, que deverá ter 13 representantes do poder público e 13 da sociedade civil, com a tarefa de redigir uma proposta de política pública para a população imigrante que hoje vive na cidade de São Paulo.

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O suporte legal de apoio a quem imigra ainda é precário. O Estatuto do Refugiado, de 1997, assegura alguns direitos, como o registro de estrangeiro no Brasil, mas ações mais amplas são dificultadas pelo caráter restritivo do Estatuto do Estrangeiro, em vigor desde a década de 1980. Em julho o Senado aprovou um projeto de lei que cria uma nova Lei de Migração, que revoga o estatuto e reduz as exigências para a concessão de vistos e autorização de residência. O projeto hoje tramita na Câmara dos Deputados.
Nos últimos quatro anos, o número de refugiados no país dobrou, atingindo 8.530 até setembro de 2015, segundo o Comitê Nacional de Refugiados, do Ministério da Justiça. Os sírios, que chegam em número crescente, representam 24,5% do total de refugiados de 81 nacionalidades que vivem no Brasil, seguidos pelos colombianos, angolanos e congoleses e libaneses. Há também 12.666 pedidos de refugiados em análise.
No Brasil não há multidões de refugiados como as que há meses chegam aos países centrais da Europa, vindas principalmente da Síria, destruída pela guerra. Em 2015, a Alemanha recebeu cerca de 200 mil imigrantes, que podem compensar a redução da população gerada pela queda da taxa de natalidade, mas em geral os imigrantes são indesejados – e não apenas na Europa. De acordo com estudo do instituto francês Ipsos, metade dos moradores entrevistados em 24 nações, incluindo o Brasil, disse que havia imigrantes demais em seus países; 46% acreditavam que os estrangeiros dificultavam o acesso dos moradores nativos a empregos e apenas 21% dos 17.533 entrevistados consideraram positivo o impacto dos imigrantes em seus países. No Brasil, 36% dos que foram ouvidos disseram que os imigrantes intensificam a disputa por empregos, índice bem abaixo dos 85% da Turquia, 68% da Rússia e 56% dos moradores da Argentina com a mesma opinião.
As reações contrárias exibidas até agora nas cidades brasileiras também estão longe dos conflitos ocorridos na Europa, “mas expressam a dificuldade da sociedade receptora em acolher estes grupos de imigrantes”, ressalta Rosana. Em 2012 e 2013, pichações em portas de lojas de Piracicaba hostilizaram os coreanos, numerosos na cidade desde quando a montadora sul-coreana Hyundai começou a construir sua fábrica, em 2010. No início de agosto deste ano, o muro do cemitério de Nova Odessa, cidade próxima a Campinas, foi pichado com a frase “Back to Haiti” (“Voltem ao Haiti”). Até julho, a Igreja Batista de Nova Odessa tinha ajudado cerca de 80 haitianos a encontrarem empregos e a aprenderem português. Em 2014, 13 haitianos denunciaram espancamentos sofridos nas empresas em que trabalhavam em Curitiba. Na capital estima-se em 2.500 o número de haitianos, a maioria trabalhando em construtoras.
Apesar das dificuldades, os imigrantes conquistam seus territórios. Já se veem lanchonetes, docerias, lojas de roupas e lan houses com funcionários ou proprietários haitianos na região do Glicério, próxima à Missão Paz, em São Paulo. A rua Coimbra, no bairro do Brás, é o coração da comunidade boliviana na capital, estimada em 300 mil imigrantes, dos quais apenas 90 mil regularizados. As feiras de sábado e domingo da rua Coimbra reúnem cerca de 6 mil bolivianos e visitantes que podem comprar batatas que parecem cenouras, pedras brancas ou pretas ou rajadas com pontos vermelhos, além de muitos tipos de milho e de pimenta e outros temperos, em meio a restaurantes que servem salchipara, silpancho, sajta, caldo de cordan e outros pratos típicos. Como provável efeito da clandestinidade em que viveram ou vivem, os vendedores são atenciosos, mas ariscos, falam com entusiasmo dos numerosos tipos de milho, quando muito contam sobre a cidade de origem, em geral La Paz ou Cochabamba, e depois silenciam. A feira foi regularizada pela prefeitura em novembro de 2014, o que permitiu melhorias em sua organização e segurança, depois de funcionar 11 anos na ilegalidade.
A menos de 3 quilômetros dali funciona uma maternidade municipal cujas equipes, desde 2005, se especializaram em atender mulheres bolivianas que em geral não falam português. Em um artigo publicado em 2006 na revista Estudos Avançados, o antropólogo Sidney Silva, da Universidade Federal do Amazonas, escreveu que a imigração boliviana se tornou mais visível em São Paulo a partir da década de 1980, mas começou nos anos 1950 com estudantes que chegavam por meio de um programa de intercâmbio cultural Brasil-Bolívia. “Após o término dos estudos, muitos deles acabavam optando pela sua permanência, em razão das múltiplas ofertas de emprego encontradas naquele momento no mercado de trabalho paulistano”, observou Silva. Depois, o fluxo de imigrantes latino-americanos – bolivianos, peruanos e paraguaios, uruguaios e chilenos – continuou em crescimento. Eles trabalham principalmente em confecções e no comércio.
Para entender as raízes da imigração, a socióloga Patrícia Freitas, atualmente pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP, entrevistou 17 bolivianos em São Paulo e outros 33, durante oito meses, em 2012 e 2013, em cidades e em municípios rurais da Bolívia, como parte de seu doutorado, orientado por Rosana Baeninger. “Em geral os bolivianos que imigraram estão sendo expulsos do campo desde as décadas de 1980 e 1990 e viveram em situações de extrema precariedade nas cidades da Bolívia”, Patrícia concluiu, após refazer as trajetórias pessoais dos entrevistados.

© EDUARDO CESAR
Boliviana em trajes de festa assistindo a festival de poesia na feira dominical da praça Kantuta,  no bairro do Canindé
Boliviana em trajes de festa assistindo a festival de poesia na feira dominical da praça Kantuta, no bairro do Canindé

“As condições de trabalho lá são piores do que aqui, onde podem ganhar mais. Há casos de exploração, sim, mas muitos se dão bem”, diz. Segundo ela, os contratadores atraem os interessados em emigrar por meio de anúncios e pagam a viagem para São Paulo ou Buenos Aires, outro destino comum, para trabalhar em oficinas de costura, criando uma dívida nem sempre paga, porque os imigrantes, depois de chegarem, encontram empregos melhores. Os 50 entrevistados haviam passado por 180 oficinas de costura nas cidades bolivianas e em São Paulo.
“Esta é uma oportunidade de nos reconhecermos como parte da América Latina”, diz Camila Baraldi, da CPMig. Em seu doutorado, concluído em 2014 na USP, ela argumentou que a cidadania sul-americana está em construção e “poderia vir a ser uma cidadania fundada no paradigma da mobilidade”. Padre Paolo sugere: “Temos de aprender e ensinar as razões históricas dos fluxos migratórios”. “O mundo hoje”, diz ele, “é feito pela emigração e pelo refúgio, que deixaram de ser circunstanciais e hoje são estruturais”. A migração internacional é uma condição básica pela qual as sociedades e estados se formam, se expandem e se reproduzem, reitera Thomas Nail, professor da Universidade de Denver, Estados Unidos, em um livro recém-lançado (The figure of the migrant, Stanford University Press). “As condições sociais da migração”, ele observa, “são sempre uma mistura dos tipos de expulsão territorial, política, jurídica e econômica. Os quatro operam ao mesmo tempo, em graus diferentes”. O mundo acadêmico tem um papel a cumprir nesse campo, oferecendo oportunidades para estudantes e pesquisadores prosseguirem em suas carreiras, alertou um editorial da Nature de 10 de setembro. De outro modo, argumentou a revista, pode-se perder uma geração inteira de talentos do Oriente Médio e de outras regiões do mundo.
Confira o registro do fotógrafo Eduardo Cesar na Galeria de Imagens.
Projetos
1. Observatório das migrações em São Paulo: migrações internas e internacionais contemporâneas no estado de São Paulo (nº 2014/04850-1); Modalidade Projeto Temático; Pesquisadora responsável Rosana Aparecida Baeninger (Nepo/Unicamp); Investimento R$ 555.279,96.
2. A governança das migrações internacionais e os seus impactos na experiência social dos migrantes: um estudo comparativo dos contextos nacionais e locais de São Paulo, no Brasil, e Buenos Aires, na Argentina (nº 2014/11649-0); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Eduardo Cesar Leão Marques (USP); Bolsista Patrícia Tavares de Freitas; Investimento R$ 169.557,84.
Artigos científicos
BAENINGER, R. Rotatividade migratória: um novo olhar para as migrações internas no Brasil. Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana. v. 20, n. 39, p. 77-100. 2012.
FREITAS, P. T. de. Família e inserção laboral de jovens migrantes na indústria de confecção. Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana. v. 22, p. 231-46. 2014.
Keep a welcome. Nature, v. 525, p. 157. 10 set. 2015.
OLIVEIRA, A.T.R. de. Os invasores: As ameaças que representam as migrações subsaariana na espanha haitiana no Brasil. Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana. v. 23, n. 44, p. 135-55. jan./jun. 2015.
SILVA, S.A. Bolivianos em São Paulo: entre o sonho e a realidade.Estudos Avançados. v. 20, n. 57, p. 157-70. 2006.
Revista Fapesp

Um rio que flui pelo ar

Ventos da Região Norte aumentam umidade no Sudeste e no Sul do país

RICARDO ZORZETTO




 
© MARGI MOSS/BRASIL DAS ÁGUAS

Reciclagem: na Amazônia evaporação devolve à atmosfera parte da água das chuvas

Em alguns dias do ano um rio com as dimensões do Amazonas atravessa os céus do Brasil. Ele nasce sobre o Atlântico próximo à linha do Equador, ganha corpo sobre a Floresta Amazônica e segue para oeste até os Andes, onde o encontro com a imponente muralha rochosa o faz desviar para o sul. Dali esse imenso volume de água flutua sobre a Bolívia, o Paraguai e os estados brasileiros de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Às vezes, alcança Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul antes de retornar para o oceano. Apesar de sua extensão, ninguém o vê. É que esse rio não tem margens nem peixes. É um rio metafórico — mas não inexistente — formado por uma coluna de vapor d’água com cerca de 3 quilômetros de altura, algumas centenas de quilômetros de largura e milhares de extensão.

Os especialistas em meteorologia e hidrologia sabiam desse rio voador — na realidade, correntes de ventos úmidos que recebem o nome técnico de jatos de baixos níveis — desde o início dos anos 1960, mas só agora começam a conhecer melhor a origem de sua água e a forma como ele interage com a superfície do planeta ou como ajuda na formação de nuvens gigantes que sobem a 15 quilômetros acima do solo.

Os primeiros dados do projeto Rios Voadores, divulgados no dia 19 de março em São Paulo, confirmam as alterações de composição que essa corrente de ventos úmidos sofre em seu longo trajeto sobre o Brasil. A maior parte do vapor d’água vem do oceano, transportada para o continente pelos ventos alíseos, que sopram de leste para oeste — uma pequena porção dessa umidade se condensa em nuvens e cai como chuva sobre a Amazônia. Mas boa parte do vapor que forma esse rio invisível vem da própria floresta. É que, ao passar sobre a maior floresta tropical do planeta, ele incorpora a água que evapora diretamente do solo e também aquela retirada pelas plantas da terra e lançadas na forma de vapor na atmosfera. Uma parte da água da Amazônia chega ao sul do país e possivelmente vira chuva.

Identificar de onde vem a água desse rio voador, um dos muitos que cortam os céus brasileiros, exigiu uma parceria pouco comum no mundo científico. Uniu pesquisadores, com conhecimento teórico sobre os fenômenos hidrológicos e atmosféricos, e um engenheiro-explorador, habituado a vivê-los em seus voos ao redor do mundo. Com patrocínio da Petrobras, Gérard Moss, o engenheiro, realizou de 2007 ao início deste ano 12 voos sobre diferentes regiões do país planejados em colaboração com equipes da Universidade de São Paulo (USP), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).

A cada viagem, Moss, suíço naturalizado brasileiro, e seu companheiro de voos, Tiago Iatesta, coletavam a bordo de um avião monomotor amostras de vapor d’água que se condensavam em um tubo resfriado por gelo-seco. Em um desses voos, sob condições atmosféricas extremamente favoráveis, Moss acompanhou o rio voador da Amazônia até São Paulo e calculou que, em determinado trecho, a quantidade de água que fluía nessa corrente era de 3.200 metros cúbicos por segundo, mais do que a vazão do rio São Francisco. Toda a água carregada por essa corrente de ar em 24 horas equivaleria a 115 dias de consumo de São Paulo, uma metrópole com 11 milhões de habitantes.

Assinatura química
Em pouco menos de dois anos Moss e Iatesta colecionaram cerca de 500 amostras de água obtidas de 500 metros a 2 mil metros de altitude que estão sendo examinadas no Laboratório de Ecologia Isotópica da USP em Piracicaba pela equipe de Reynaldo Victoria. A análise de uma espécie de assinatura química (a proporção de átomos de hidrogênio e oxigênio radiativos) das amostras de água e a comparação dessa assinatura com a de amostras de água da chuva e de rios de todo o país permitirão aos pesquisadores conhecer como se altera a composição dessa massa de ar à medida que ela avança pelo continente. Também devem tornar clara a colaboração da umidade que evapora da Amazônia para as chuvas do Sul e do Sudeste.

“Esses dados preenchem uma lacuna importante no conhecimento dessas correntes úmidas e permitem verificar a validade dos modelos climáticos desenvolvidos para o país”, afirma Pedro Leite da Silva Dias, pesquisador do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e diretor do LNCC, integrante do projeto.

Anos atrás grupos do IAG e do Inpe haviam participado de um estudo feito em colaboração com Bolívia, Paraguai e Argentina que mediu por meio de equipamentos lançados em balões a temperatura, a umidade, a pressão e a velocidade dessas correntes de ar úmido apelidadas de rios voadores pelo climatologista José Marengo, do Inpe (ver Pesquisa FAPESP nº 114). “Na época um avião coletou amostras de vapor de água apenas nos outros países porque não conseguimos autorização para voar no Brasil”, conta Dias.

Serão necessários anos para analisar os dados coletados mais recentes. Mas uma avaliação preliminar indica não ser nada desprezível a contribuição da Amazônia para a umidade que chega ao Sudeste e ao Sul do país. No Inpe, Demerval Moreira e Wagner Soares usaram modelos matemáticos de previsão do tempo para fazer uma estimativa de quanta água da Amazônia essas correntes de ar levam para outras regiões. Concluíram que nos dias que esse rio voador passa sobre a Amazônia — isso acontece apenas em cerca de 35 dias por ano — mais umidade chega ao Centro-oeste, ao Sudeste e ao Sul, aumentando a probabilidade de chuvas.

“Quando esses ventos passam sobre a Amazônia elevam em média em 20% a 30% a umidade do ar em Ribeirão Preto, por exemplo, aumentando o potencial de chuvas”, conta Dias. Em algumas ocasiões, esse acréscimo pode chegar a 60%. “Agora estamos tentando calcular quanto dessa umidade vinda da Amazônia de fato precipita na forma de chuva”, explica.

Moss se preocupa com o ritmo do desmatamento que observa de seu avião — e que pode modificar o clima da Amazônia, com efeitos capazes de atingir o restante do país. “A floresta funciona como um tampão: as plantas e o solo retêm água da chuva, que depois penetra no solo e fica armazenada antes de evaporar”, explica Dias. Sem a floresta, os ventos úmidos vindos do oceano que penetram no continente podem chegar mais rapidamente, em dois ou três dias, ao sul do país, aumentando o risco de tempestades. “A retirada da floresta diminuiria em 15% a 30% as chuvas na Amazônia, segundo vários modelos climáticos, e aumentaria as chuvas no Sul e na bacia do Prata”, conta Dias. “As informações disponíveis hoje no Brasil”, afirma Eneas Salati, criador do Laboratório de Ecologia de Isótopos na USP em Piracicaba e um dos idealizadores desse projeto, “são mais do que suficientes para que se adote uma política de parar o desmatamento e iniciar o reflorestamento”.
Revista Fapesp

sábado, 15 de outubro de 2016

Países de baixa e média renda concentram 90% das mortes por desastres naturais

Marieta Cazarré – Correspondente da Agência Brasil



O número de mortes no Haiti ainda pode subir, já que as equipes de resgate estão com dificuldades para chegar a vários locais mais isoladosOrlando Barria/EPA/Agência Lusa/direitos reservados

Nos últimos vinte anos, mais de 7 mil desastres naturais causaram 1,35 milhão de mortes. Mais da metade das vítimas morreu em terremotos e 90% das mortes ocorreu em países de baixa e média renda.

Os dados são do relatório Poverty and Death: Disaster Mortality 1996-2015” (Pobreza e Morte: Mortalidade em Desastres 1996-2015, em tradução livre), divulgado ontem (13), pela Organização das Nações Unidas (ONU), por ocasião do Dia Internacional para a Redução de Desastres.

O secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou ontem que, enquanto os países de alta renda sofrem perdas econômicas em desastres, os países de baixa renda pagam com vidas. "Podemos substituir os bens materiais, mas não podemos substituir as pessoas", disse o secretário, que pediu a todos os governos uma mudança de cultura de reação para prevenção.

O relatório constatou uma correlação direta entre o número de mortes em desastres e os níveis de renda e de desenvolvimento. Durante o período examinado no estudo, os países de baixa e média renda somaram mais de 1,2 milhão de mortes por desastres.

O Haiti, por exemplo, sofreu um terremoto devastador em 2010; três anos de seca relacionada ao El Niño; e, na semana passada, foi assolado pelo furacão Matthew, que, até o momento, já deixou mais de 400 mortos. Com quase 230 mil mortos ao longo dos últimos vinte anos, o país está no topo da lista de mortes relacionadas a desastres, em números absolutos.

Logo em seguida aparecem a Indonésia (182 mil), Myanmar (139 mil), China (123 mil), Índia (97 mil), Paquistão (85 mil), Rússia (58 mil), Sri Lanka (36 mil), Iraque (32 mil) e Venezuela (30 mil). Nenhum país de elevados rendimentos está entre os dez primeiros da lista.

O Brasil foi citado apenas uma vez no relatório, como uma das nações que mostraram reduções acentuadas nas mortes por inundação nos últimos 20 anos.

Sete objetivos, sete anos

Neste ano, a ONU lançou a campanha “Sendai Sete”, centrada no Marco de Sendai, para reduzir os riscos de desastres nos próximos sete anos. O Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres foi adotado pelos Estados-Membros das Nações Unidas em março do ano passado e é resultado de uma série de negociações internacionais para aumentar a resiliência das nações perante desastres.

Porto Principe, Haiti - Em 2010, o país foi devastado por um terremoto. Na foto, ruínas do bairro de Bel-AirMarcello Casal Jr./Agência Brasil

O primeiro objetivo da campanha é reduzir a mortalidade por desastres substancialmente até 2030. O slogan é “Viver para contar: conscientizando e reduzindo a mortalidade” e pretende chegar a 20 milhões de pessoas. A campanha quer reduzir o número de pessoas afetadas por desastres; os prejuízos econômicos; os danos à infraestrutura e interrupção de serviços básicos, entre eles centros de saúde e educacionais; além de aumentar substancialmente o número de países com estratégias nacionais e locais para diminuir o risco de desastres em 2020; melhorar a cooperação internacional e aumentar a disponibilidade e o acesso a sistemas de alerta precoce de multiperigo e informações de risco de desastres.

O Marco de Sendai identifica ainda quatro prioridades que são: o entendimento dos riscos de desastres (vulnerabilidade, capacidade de reação, exposição de pessoas e bens, características de perigo e meio ambiente); o reforço dos governos para gerenciar os riscos de desastres (em nível nacional, regional e global, tanto dos setores públicos como privados); o investimento na redução do risco de desastres para a resiliência (construção de resistência às catástrofes); e reforçar a capacidade efetiva de resposta e de recuperação, reabilitação e reconstrução.

Há 25 anos a Assembleia Geral das Nações Unidas instituiu o Dia Internacional para a Redução de Desastres. A princípio, a data era celebrada na segunda quarta-feira de outubro. Em 2009, a Assembleia decidiu fixar a data no dia 13 de outubro.
Agência  Brasil

Violência urbana na América Central provoca onda de migração em massa




Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

A violência urbana em Honduras, Guatemala e El Salvador, tanto por parte de gangues armadas como de forças de segurança pública, está provocando uma onda de migração em massa, segundo relatório divulgado hoje (14) pela organização não governamental (ONG) Anistia Internacional sobre refugiados na América Central. “[É] um deslocamento que sai da escala individual e vira, realmente, um fluxo migratório”, disse a assessora de direitos humanos da ONG, Marina Motta.

Segundo Marina, as pessoas desses três países não aguentam mais o ambiente de ameaça, extorsão, violência, seja ela sexual ou por gênero, por exemplo, e são obrigadas a sair em busca de sobrevivência em nações mais ricas. O que ocorre, segundo Marina, é que no México e Estados Unidos, onde as populações dessas nações veem possibilidades de se inserir no mercado de trabalho, os refugiados estão sofrendo deportações ilegais. "Não estão sendo reconhecidos como solicitantes de refúgio. A possibilidade de buscar refúgio nesses países está sendo negada a eles. Isso é muito grave”. Essa prática, diz, fere a regra de ouro da Convenção do Refugiado, que é o princípio de não devolução.

Negligência

Esses refugiados são obrigados, então, a retornar a seus países de origem, cujos governos fazem parte desse ambiente de violência, de negligência e também não se responsabilizam pela proteção dessas pessoas, chamadas retornadas, que acabam sujeitas às mesmas condições das quais estavam fugindo e, “possivelmente, ainda mais estigmatizadas”, segundo Marina. O relatório cita o caso do motorista de ônibus de Honduras, Saul, de 35 anos, que fugiu para o México em novembro do ano passado, após sofrer um ataque de gangues que atuam sobre o setor de transportes e, ao ter o pedido de asilo negado, foi morto no seu país de origem, menos de três semanas depois de ser deportado em julho de 2016.

Agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e outros organismos internacionais estão dando apoio financeiro a esses três países da região do Triângulo Norte da América Central para que invistam em prevenção e redução da violência, estratégias de desenvolvimento local e melhoria das condições de vida. Este ano, os Estados Unidos anunciaram que, a partir de 2017, vão aportar US$ 750 milhões a esse programa de cooperação internacional para o Plano da Aliança para a Prosperidade, com objetivo de apoiar pessoas deportadas cuja vida está em perigo.

A grande questão, diz Marina Motta, é que os governos não divulgam como vão utilizar esse dinheiro. “A gente está muito preocupado com a possibilidade desse dinheiro ou sumir ou não ser implementado em programas que, de fato, melhorem as condições de vida dessas pessoas”. Ela diz que há um histórico de desvio de recursos que fez com que projetos similares anteriores fracassassem. A Anistia Internacional defende que haja transparência no uso desse dinheiro e que ele seja direcionado para políticas baseadas em direitos humanos, em segurança, desenvolvimento, prevenção da violência e não simplesmente como um pacote de medidas de tolerância zero.

Contribuição do Brasil

Embora o Brasil não seja a opção de país mais rico em termos de oportunidades para esses migrantes, Marina diz que ele pode contribuir de forma emergencial para dar abrigo, tendo em vista o difícil acesso para mercados como México e Estados Unidos. Hondurenhos, guatemaltecos e salvadorenhos deportados acabam indo para países vizinhos, como Panamá, que tem 4 milhões de habitantes e abriga 3.400 refugiados; Costa Rica, cuja população oscila em torno de 5 milhões de habitantes e abriga 3.600 refugiados; Belize e Nicarágua. São todos países de renda média baixa.

Por isso, a Anistia Internacional acredita que o Brasil, como potência regional e com um histórico de receber imigrantes, deve se propor a resolver esse problema e receber mais refugiados do Triângulo Norte da América Central. O Brasil tem, no momento, 9 mil refugiados, disse a assessora de Direitos Humanos. “Isso é muito pouco”. Apesar de o Brasil apresentar taxa atual de desemprego de 11%, Marina diz que a situação é mais grave em países menores, como a Costa Rica, por exemplo, onde o nível de desempregados atinge 17%, ou o Panamá, com 14%.

Marina diz que isso não significa que o Brasil assuma o papel de liderança na recepção dessas pessoas de uma forma irresponsável. Ela diz que existe a possibilidade de o Brasil ter apoio financeiro internacional para poder receber esses refugiados, criando, ao mesmo tempo, políticas públicas para a integração responsável dessas pessoas. Segundo ela, todos os países do mundo estão fazendo esforço para receber essa população em situação emergencial. “Nós temos mais de 20 milhões de pessoas buscando refúgio”.

A assessora disse que o papel do Brasil para contribuir de forma positiva é duplo: de um lado, facilitar que essas pessoas venham para o país, por meio da criação de programa de vistos humanitários, ou da extensão do programa de reassentamento solidário, que o Brasil já oferece para a população da Colômbia; a outra por uma via mais política. Essa alternativa prevê que o governo e a sociedade civil brasileiros pressionem os governos de Honduras, Guatemala e El Salvador a garantirem soluções para esses problemas e proteção dessas pessoas para que elas não precisem migrar.

Periculosidade


A ONU já classificou El Salvador como um dos mais perigosos países do mundo fora de uma zona de guerra, com registro de mais de 108 homicídios por 100 mil habitantes em 2015, nível maior que a guerra na Síria, que a guerra no Iraque. Em Honduras, esse índice foi 63,75 assassinatos e, na Guatemala, de 34,99 homicídios por 100 mil habitantes. No Brasil, números recentes do Mapa da Violência 2016, referentes a 2014, revelam que a taxa de homicídios por 100 mil habitantes foi 30,3.

O secretário-geral da Anistia Internacional, Salil Shetty, está hoje em Honduras em reunião com o presidente Juan Orlando Hernández, para entregar o relatório e cobrar um posicionamento oficial daquele governo. Marina informou que o objetivo da ONG é encaminhar o documento aos presidentes dos três países analisados. Ele será levado também para os governos da região e do mundo todo, exigindo investigação do México e Estados Unidos sobre as deportações ilegais. A Anistia Internacional Brasil vai procurar ainda o governo do presidente Michel Temer para ver como ele pode promover um papel mais “assertivo e mais positivo do Brasil em meio a essa crise”.
Agência Brasil

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