sábado, 31 de julho de 2010

Areia betuminosa - A chaga negra do Canadá

Uma fonte de petróleo cuja extração é muito mais poluente está convertendo o Canadá num dos maiores vilões ambientais do planeta

Por Eduardo Araia

Uma falsa bandeira do Canadá é exposta em protesto contra a exploração das areias betuminosas, realizado em Londres em fevereiro. O preto, inexistente na bandeira original, é menção direta a essa atividade altamente poluidora.

Há não muito tempo, o Canadá era famoso por paisagens naturais de tirar o fôlego e por seus belos e imaculadamente limpos centros urbanos, como Vancouver e Toronto (respectivamente, a primeira e a quarta melhores cidades do mundo para morar, de acordo com o ranking deste ano da revista inglesa The Economist). De algumas décadas para cá, porém, essa imagem idílica tem sofrido uma piora substancial, graças a um empreendimento tão grandioso quanto ambientalmente polêmico: a exploração das areias betuminosas (também chamadas “areias oleosas”) no oeste do país.

Conhecidas em inglês como oil sands ou tar sands, as areias betuminosas canadenses são gigantescos depósitos de betume localizados no norte da província de Alberta, com ramificações na vizinha Saskatchewan (veja mapa na pág. 31). Forma semissólida de petróleo cru, mais pesado e de menor valor comercial, esse betume impregna as rochas, compostas basicamente por areia e argila. Quase totalmente imóvel dentro da rocha matriz, o betume não flui para dentro de um poço, como o petróleo cru convencional, e tem de ser extraído por métodos diferentes.

O maior depósito de areia betuminosa do mundo fica em Alberta: o Athabasca, nome do rio que atravessa a região. Ele e dois depósitos menores, Peace River e Cold Lake, perfazem uma área de cerca de 140,2 mil quilômetros quadrados, pouco menor que a do Amapá. São terras escassamente povoadas, nas quais predominam a floresta boreal e jazidas de turfa.

A particularidade maior do depósito de Athabasca é que, ali, o petróleo está perto da superfície – cerca de 10% do campo fica a menos de 75 metros de profundidade. É praticamente uma mina a céu aberto, o que permite que o óleo seja retirado por técnicas de mineração em larga escala.

A extração de petróleo na região começou modestamente, em 1967, num empreendimento da Great Canadian Oil Sands Limited (subsidiária canadense da Sun Oil Company, dos Estados Unidos, hoje independente e renomeada Suncor Energy), mas as cotações internacionais da commodity tornaram o negócio desinteressante por várias décadas. Foi só com a subida dos preços no início deste século que a exploração se consolidou ali. Já em 2001, o Canadá se tornou o maior exportador de petróleo para os Estados Unidos, superando a Arábia Saudita.

As areias betuminosas canadenses são um verdadeiro mar de petróleo. Segundo uma estimativa do governo de Alberta divulgada em 2007, é possível extrair de lá, a um custo viável, cerca de 173 bilhões de barris. Isso faz do Canadá o dono da segunda maior reserva petrolífera provada do mundo, atrás apenas da Arábia Saudita. No total, calcula-se que haja na região 1,7 trilhão de barris – praticamente o mesmo volume de reservas provadas de petróleo convencional em todo o mundo.

No entanto, diferentemente do petróleo saudita, fácil de retirar, o das areias betuminosas canadenses envolve formidáveis custos ambientais. Até meados de 2008, a mineração respondia pela derrubada de 470 quilômetros quadrados de floresta e pela criação de 130 quilômetros quadrados de lagoas de decantação repletas de resíduos tóxicos. Ambientalistas e profissionais da saúde alertam que essa atividade polui substancialmente a atmosfera, ameaça os ecossistemas da área, mata peixes e já contabiliza casos de câncer em humanos.



Mina de betume da empresa Syncrude no depósito de Athabasca. O que era antes floresta boreal deu lugar a uma paisagem em que o cinza e o negro predominam. A ativista ambiental canadense Maude Barlow chama a região de “Mordor”, o sombrio centro do mal na obra O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien.

“As areias betuminosas do Canadá constituem uma das maiores ameaças ao nosso planeta”, declarou o cientista da Nasa James Hansen, um dos nomes mais importantes das pesquisas sobre o aquecimento global. Para Hansen, a ameaça é dupla. Em primeiro lugar, produzir petróleo das areias betuminosas polui muito mais do que o processo de extração convencional. Além disso, a atividade prejudica um dos melhores instrumentos de redução de carbono da Terra: a floresta boreal canadense. Segundo o cientista, ela armazena mais carbono por hectare do que qualquer outro ecossistema e, quando é derrubada para o desenvolvimento da indústria das areias betuminosas, muito desse carbono é perdido. Hansen ressalta ainda que a floresta contém boa parte da água doce da América do Norte, além de abrigar cerca de 5 bilhões de aves migratórias e algumas das maiores populações remanescentes de alces, ursos, lobos e caribus do mundo.

Simon Dyer, pesquisador do Pembina Institute, da Universidade de Alberta, também ataca pesadamente a indústria das areias betuminosas. “São a mais suja fonte de petróleo em qualquer lugar do mundo e há muito pouca regulação sobre elas”, declarou ele a John Vidal, do jornal inglês The Guardian, que visitou a região em 2008. De acordo com Dyer, a energia necessária para produzir um barril de petróleo em Alberta significa multiplicar por três (ou até por cinco) as emissões de gases-estufa computadas na produção de um barril de petróleo convencional. Isso se explica porque é preciso escavar para retirar o betume da terra, separar o petróleo da areia – dependendo da técnica empregada, com o uso de muita água e/ou de muito gás natural – e, por força de sua qualidade inferior, refiná-lo pesadamente. Só em água, usam-se ali três a quatro barris na obtenção de um barril de petróleo; e toda a reserva de gás natural canadense dá conta de apenas 29% do betume de Alberta.

Vistas aéreas de uma instalação da petrolífera Suncor, perto da cidade de Fort McMurray (acima), e de uma mina de extração de betume (abaixo). A exploração do petróleo das areias betuminosas só se tornou economicamente viável no início deste século, e com ela o Canadá passou a ter a segunda maior reserva provada do mundo.

As ideias para superar essas dificuldades só aumentam o surrealismo que envolve a questão. A repórter Daniela Chiaretti, do jornal Valor Econômico, que visitou a região no ano passado, comentou em seu artigo sobre o tema que se fala em energia nuclear como substituta do gás. Segundo ela, o diretor da organização Global Forest, Peter Lee, calcula que seriam necessárias 14 usinas para atender à demanda – o que levou Melina Laboucan-Massimo, a Tar Sands campaigner do Greenpeace, a lamentar ironicamente: “O Canadá será o único país do mundo a usar energia nuclear para produzir combustíveis fósseis.”

A sedução do dinheiro
Terra de florestas e rica vida selvagem, Alberta estava longe de virar um polo econômico relevante antes da exploração das areias betuminosas. Mas o petróleo tem um impacto tão grande nas finanças da província que boa parte da população prefere fechar os olhos para os problemas ambientais gerados pela extração. O Instituto de Pesquisa Energética do Canadá prevê que, em 25 anos, o petróleo das areias betuminosas poderá somar US$ 1,8 trilhão ao produto interno bruto do país e criar 456 mil empregos. Em abril de 2008, a região abrigava 91 projetos de exploração e sua maior cidade, Fort McMurray, já vivia em pleno boom imobiliário (ao lado, casas à venda por US$ 450 mil).

O betume (no detalhe) chega a aflorar à superfície, como nos depósitos da foto maior, localizados às margens do rio athabasca, que corta a região.

Daniela sobrevoou a região das areias betuminosas e seu relato oscila entre a tristeza e o horror. “O que se vê é um cenário de Mad Max, só que não é ficção”, escreveu. “O mundo parece ter perdido a cor, só há tons de cinza e negro, enormes lagos escuros de águas paradas, canteiros de obras e um frenesi de caminhões.” Ao nível do solo, o cheiro de ovo podre típico da indústria é onipresente. Segundo Daniela, a ativista ambiental canadense Maude Barlow chama a região de “Mordor”, numa referência ao reino das sombras da obra O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien.

A política tem papel importante na montagem dessa versão peculiar do inferno. Até 2006, o governo canadense estava nas mãos do Partido Liberal, sensível às questões ambientais – em 2002, ele havia ratificado o Protocolo de Kyoto, pelo qual se comprometia, até 2012, a reduzir as emissões de gases-estufa em 6% ante os níveis de 1990. O cumprimento da meta já parecia distante em 2006, quando os liberais cederam o poder ao Partido Conservador, mas o novo primeiroministro – Stephen Harper, um representante de Alberta – mostrou que a situação poderia piorar ainda mais ao divulgar seu primeiro orçamento nacional, no qual não destinou um único centavo à implantação do Protocolo de Kyoto.

Portas abertas para os asiáticos
Pressões de origens variadas têm levado empresas norte-americanas e europeias a rever sua ligação com as poluentes areias betuminosas canadenses. A anglo-holandesa Shell, por exemplo, enfrenta uma ofensiva de acionistas que desejam ver a companhia (a qual se declara defensora do meio ambiente) fora de Alberta. Uma campanha da instituição ForestEthics, dedicada a interromper o uso de petróleo das areias betuminosas por empresas norte-americanas, tem ampliado o número de adesões, e o Pentágono está reduzindo suas compras dessa fonte, a fim de atender a uma lei ambiental de 2007. Mas o governo canadense não se abala com as defecções: anunciou em fevereiro que está abrindo mais espaço para empresas chinesas (entre elas a estatal PetroChina) e de outros países asiáticos carentes de petróleo, como Japão e Coreia do Sul, investirem na região. A sequência do desastre ambiental está, portanto, garantida.

Na época, Harper anunciou que seu governo desenvolvera um novo plano para lidar com as mudanças climáticas, sem detalhar seu conteúdo. O que se viu depois, porém, foi um aumento sistemático das emissões canadenses de gases-estufa, impulsionado pelo betume de Alberta. Em seu relatório Energy [R]evolution, o Greenpeace- Canadá informa que as emissões saltaram de 592 milhões de toneladas, em 1990, para 721 milhões, em 2006 – 21,7% acima dos níveis de 1990 e 29,1% a mais do que as metas do país em Kyoto.

Alberta abriga apenas cerca de 10% dos 34 milhões de canadenses, mas emite 32% do volume de gases-estufa do país. A indústria petrolífera divulga que tem se esforçado para mudar esse quadro, fazendo, por exemplo, replantio de árvores. Mas ninguém sabe como elas vão se desenvolver naquele ambiente deteriorado. Segundo Daniela Chiaretti, Don Thompson, presidente da Oil Sands Developers Group (associação das petroleiras), afirma que uma “área grande” já foi reconstituída, mas pede que se relativize o que é visto hoje: “(...) as árvores da floresta levam 80 anos para crescer, e as que plantamos ainda parecem grama. É preciso lembrar que essa indústria só tem 40 anos de idade.” Outra iniciativa é a CCS, sigla da tecnologia de sequestro de carbono, na qual Alberta investe US$ 2 bilhões. Mas, como Emily Rochon, campaigner de clima e energia do Greenpeace International, lembrou a Daniela, “os projetos CCS não ficarão prontos em 2020, e a mudança climática está ocorrendo agora”.

O desenvolvimento da indústria da areia betuminosa canadense explica o comportamento esquivo do país na Conferência do Clima de Copenhague, em 2009. Stephen Harper comprometeu- se ali a cortar – mais uma vez, sem detalhar como –, até 2020, as emissões de carbono em 20% ante os índices de 2006. Isso corresponde a uma redução de meros 3% na comparação com os índices de 1990 (pelo Protocolo de Kyoto, países desenvolvidos como o Canadá deveriam reduzir a emissão de gases-estufa em pelo menos 5,2% ante os níveis de 1990). A meta é tão pífia que Quebec, Ontário e Colúmbia Britânica, as três mais importantes províncias do país, estabeleceram para si objetivos bem mais rigorosos: reduções de respectivamente 20%, 15% e 14% em relação aos índices de 1990. Na contramão, Alberta prevê um aumento de 58% em suas emissões.

Acima, um manifestante protesta diante do escritório central da gigante petrolífera BP, em Londres, em ato realizado em setembro de 2009 contra a presença da empresa na região das areias betuminosas canadenses. A soma dos três grandes depósitos de Alberta (no mapa abaixo) dá uma área pouco menor que a do Amapá.

Poucas vezes um país mudou tão radicalmente sua imagem no contexto mundial. George Monbiot, do jornal The Guardian, reflete esse sentimento ao concluir um recente artigo sobre o tema: “Sinto-me estranho ao escrever isso. A ameaça imediata ao esforço global de sustentar um mundo pacífico e estável não vem da Arábia Saudita, do Irã ou da China. Vem do Canadá. Como isso pode ser verdade?”

Revista Planeta

O rigor da lei


Por Wilmar Marçal

Desde a antiguidade o homem busca através de normas e leis estabelecer o equilíbrio na sociedade. Algumas vezes o bom-senso e a razão não são suficientes para sensibilizar pessoas e governantes. É preciso viver na prática a essência de atuar e agir em prol daqueles que esperam nas leis o cumprimento e a perfeita sinergia entre direitos e deveres. De modo destacado, o governo federal fez, e vem fazendo, vultosos investimentos em possibilitar que muitos brasileiros e brasileiras estudem Medicina em países de língua latina, especialmente em Cuba. Por outro lado, o sonho de praticar a profissão esbarra na vaidade de alguns professores e professoras que, revestidos de “deuses e deusas”, não convalidam os respectivos diplomas. São os conhecidos colegiados de cursos das universidades públicas, que, composto por “titulados seres” mostram-se inoperantes em tentar resolver o problema social da saúde pública. Seus membros se intitulam “juízes” e barram o procedimento de regularização dos diplomas conseguidos no exterior. Situação real e anacrônica. No momento em que vivemos a globalização, que permuta cientifica e cultural se fazem on-line, ainda há resquícios de alguns “doutores” em Universidades em querer a realidade longe do que seja plausível. Ora, o curso de medicina em Cuba é sim um modelo de prevenção muito interessante para os países como o Brasil, que vive o ressurgimento de doenças tropicais, algumas de caráter epidêmico, como tuberculose, dengue, febre amarela, sífilis e tantas outras. A negativa de algumas Universidades Públicas na convalidação dos diplomas aos recentes profissionais é muito mais uma insegurança profissional por parte dos que não querem a boa e importante competitividade. A medicina não pode ser um mercado e não deve permitir o corporativismo. Aos “médicos medrosos” que, por vezes, se vestem de beca e capelo, julgam a improcedência e a decência dos diplomas conseguidos em boas universidades fora do Brasil, resta somente aplicar a Lei, ou melhor, o rigor da lei. Por isso, este ato de convalidação dos diplomas obtidos no exterior, precisa ser motivado pelo legislativo, pois se deixarmos para o executivo jamais haverá avanço. Quando alguns seres humanos, de referida classe, mortais como todos, ainda insistem em prevaricar o bem-estar da população pela ganância em não dividir benefícios, está na hora de ações legais. A lei também serve para quem persiste no mau-senso.

* Wilmar Marçal é professor universitário e ex-reitor da UEL./Pr.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Natureza em desequilíbrio - As doenças que ameaçam nosso futuro

Gripe aviária, gripe suína, síndrome da vaca louca, dengue, malária. Mudanças climáticas e o crescimento das áreas urbanizadas favorecem a expansão dessas e de outras moléstias originárias de animais

Por Eduardo Araia

Criação de aves na China, região da Ásia afetada pela gripe aviária. O vírus que causa a doença apresenta taxa de mortalidade de 60%.

Março de 2010 marca o aniversário de um fato que certamente não vai ser comemorado: foi há um ano que a gripe suína (oficialmente, H1N1) surgiu para o mundo, no México. Com casos confirmados em mais de 200 países e cerca de 13.500 mortos até janeiro, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença prepara-se para sua segunda temporada - que pode ser bem pior que a primeira, caso as mutações sofridas pelo microrganismo nestes meses lhe derem mais resistência e agressividade.

A H1N1 é uma das cerca de 45 moléstias transmitidas de animais para humanos que a ONU registrou nas duas últimas décadas. Segundo os cientistas, esse número deve crescer nos próximos anos, graças a algumas características típicas do atual estágio de desenvolvimento humano: aquecimento global, urbanização em contínuo crescimento e consequente desequilíbrio ambiental.

Climas mais quentes, por exemplo, são uma ótima notícia para insetos que servem de vetores para diversas moléstias. "Os insetos são perfeitamente sensíveis a mudanças de temperatura", salienta um estudo de 2005 preparado pelo Centro da Saúde e do Ambiente Global da Universidade Harvard. O mosquito Anopheles, que transmite a malária, em geral não se reproduz nem se desenvolve se a temperatura média mínima ficar abaixo de 16ºC; por seu lado, o Aedes aegypti, transmissor da dengue, não sobrevive a temperaturas abaixo de 10ºC. O clima mais quente e um índice de umidade maior, no entanto, favorecem a procriação desses animais e, por tabela, aumentam o número de picadas, o nível de atividade e a frequência de incubação de vírus e parasitas dentro deles.

O calor favorece a proliferação de insetos que transmitem várias doenças

As drásticas alterações sofridas pelo ambiente estão influenciando os padrões de doenças humanas de um modo não visto desde o advento da revolução industrial, no início do século 19. Segundo Montira Pongsiri, cientista de saúde ambiental da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, na sigla em inglês), que trabalha em Washington (EUA), as transições anteriores observadas na história humana tiveram um impacto devastador em termos da propagação de doenças. "Parece que estamos passando por uma mudança distinta na ecologia global da doença", observa ela. "O recente aparecimento de doenças infecciosas parece ser motivado pela globalização e pelo desequilíbrio ecológico."

Montira e oito colegas examinaram cinco doenças emergentes e re-emergentes - malária, doença de Lyme (transmitida por carrapatos), hantavírus (espalhado por ratos e camundongos), febre do Nilo Ocidental (transmitida por mosquitos) e esquistossomose (espalhada por caramujos de água doce). Os cientistas argumentam que mudanças no uso da terra, práticas agropecuárias e clima estão por trás do aumento do número de epidemias.

Entre as doenças que saltaram a barreira animal-homem e deflagraram uma pandemia global, a mais conhecida é a Aids, causada pelo vírus HIV. Supõe-se que o HIV passou de chimpanzés para humanos na África Ocidental, no século passado, e mais de 25 milhões de pessoas ao redor do mundo já morreram por sua causa.

A pandemia de gripe suína iniciada no México também resultou da mistura de vírus que infectou suínos, aves e seres humanos e criou uma nova cepa pandêmica. Embora essa gripe tenha se mostrado mais suave do que o que se imaginava, são esperadas nas próximas décadas pandemias de gripe que poderiam apresentar taxas de mortalidade mais elevadas e infectar milhões de outras pessoas.

As Principais ameaças

Aids


Atribui-se o surgimento do HIV, o vírus causador da Aids, à incursão humana nas florestas da África Ocidental, impulsionada pelo avanço populacional. A crescente demanda por alimentos levou ao aumento do comércio de carne de caça e ao abate de chimpanzés, supostamente a origem animal do HIV. As pessoas que comeram carne de chimpanzé, ou cujo sangue entrou em cortes ou feridas, foram expostas a novos agentes infecciosos, fornecendo assim o terreno ideal para a doença se desenvolver.

A Aids teria surgido na segunda metade do século 20, mas não foi identificada em humanos até jovens gays começarem a morrer de uma doença misteriosa em San Francisco (EUA) nos anos 1980. A moléstia já vitimou mais de 25 milhões de pessoas.

Dengue

Doença passada de primatas para o homem, a dengue é transmitida principalmente pelos mosquitos Aedes aegypti (o mais encontrado no Brasil, transmissor também da febre amarela) e Aedes albopictus. Típica dos países tropicais, ela é a mais comum das moléstias que transitam de animais para o homem: chega a atingir cerca de 100 milhões de pessoas por ano. Só no Brasil, o Ministério da Saúde registrou pouco menos de 407 mil casos de janeiro a agosto de 2009, ante mais de 758 mil em igual período do ano anterior. Duas derivações mais graves da doença, a febre hemorrágica e a síndrome de choque da dengue, afetam pelo menos 500 mil pessoas por ano e têm taxa de mortalidade de até 10% para pacientes hospitalizados e de 30% para pacientes sem tratamento. É caracterizada de início por sintomas como febre alta, mal-estar, anorexia, cefaleias, dores musculares e no olhos. No caso da febre hemorrágica, depois de a temperatura do corpo baixar podem surgir hemorragias internas e coagulação intravascular em área extensa, cujas consequências podem ser letais.



Febre do nilo ocidental

Essa doença de aves transmitida por mosquitos irrompeu em Nova York em 1999 e 2000, aparentemente trazida por navios que levavam pássaros exóticos para colecionadores norteamericanos. Dos mais de 50 nova-iorquinos então hospitalizados, pelo menos 10 morreram. O vírus foi detectado pela primeira vez no distrito do Nilo Ocidental, em Uganda, em 1937. A doença é muitas vezes acompanhada de febre alta e dor de cabeça; nos casos mais graves, pode causar encefalite. Focos já foram registrados em Israel, Romênia, França, Portugal, Itália, Rússia e EUA; casos esporádicos e epidemias em humanos e cavalos têm ocorrido na Europa desde os anos 1960. Mudanças no uso da terra, como o desmatamento, e a perda de hábitats de aves devem aumentar a incidência da moléstia. Pesquisadores israelenses descobriram que os surtos acontecem após períodos anormais de clima quente e seco. Os mosquitos transmissores, porém, podem surgir em clima bem mais temperado: em 2009, por exemplo, cientistas da Suíça encontraram uma espécie transmissora no centro do país.

Imagem das moléculas de proteína que compõem a superfície de uma partícula do vírus causador da febre do Nilo Ocidental, obtida por cientistas da Universidade Purdue (Estados Unidos). As proteínas se instalam em uma célula hospedeira, constituindo uma elaborada forma geométrica. Conhecer a estrutura dessas proteínas poderá ajudar no esforço para desenvolver agentes antivirais.

Gripe aviária

O vírus da gripe aviária, que devastou bandos de galinhas e patos no Extremo Oriente, representa a maior ameaça potencial para a raça humana. Desde 2004, ela já infectou 442 pessoas, das quais 262 morreram - uma taxa de mortalidade de 60%. Em 1918, 1957, 1968 e 2009 a gripe transitou das aves ou suínos para humanos. As pandemias do século 20 custaram milhões de vidas. Para tornar o quadro mais complexo, na última década, tem havido um enorme crescimento no número de aves domésticas na China, o país mais populoso do mundo. Famílias e suas aves tradicionalmente ocupam o mesmo espaço ali, criando condições quase perfeitas para a mistura de vírus e sua mutação em uma cepa capaz de se espalhar amplamente entre os seres humanos.


Hantavírus

Em 1993, um jovem de origem indígena do Novo México (EUA), acometido por uma espécie de gripe, foi levado às pressas para um hospital, mas morreu rapidamente. Foi o primeiro caso conhecido da síndrome pulmonar por hantavírus, moléstia espalhada por ratos e caracterizada por febre alta, calafrios e problemas respiratórios. Além da doença pulmonar, que mata 80% das pessoas infectadas, a hantavirose também causa a febre hemorrágica, que resulta em hemorragia interna generalizada. Não há tratamento. Estima-se que há entre 60 mil e 150 mil casos no mundo por ano. Os riscos se tornam maiores com qualquer grande aumento do número de ratos, como ocorre com a urbanização. A epidemia de 1993 nos EUA sucedeu anos de seca, encerrada com pesadas chuvas. Uma forma menos grave da doença é endêmica no norte da Suécia, onde há cerca de 4.500 casos por ano. A proliferação de espécies de rato, muitas das quais imunes ao hantavírus, favorece o homem no caso dessa moléstia. Elas competem com os ratos infectados, reduzindo seu número e, em consequência, o risco de transmissão da doença.


Malária

Transmitida por mosquitos, a malária está confinada em grande parte nas zonas tropicais e subtropicais da África subsaariana, do Sul e Sudeste Asiático e das Américas Central e do Sul. Ela causa pelo menos 1 milhão de mortes e 300 milhões de casos de febre por ano. Na África ocorrem 90% dos casos de morte. A cepa mais letal do protozoário causador da doença, o Plasmodium falciparum, está se espalhando em novas regiões, e a resistência aos remédios tem crescido. O aquecimento global e mudanças na diversidade vegetal deverão transportar a doença para novas regiões. As temperaturas mais elevadas levam o mosquito a digerir o sangue mais rapidamente e a se alimentar mais vezes, enquanto o parasita completa seu ciclo de vida em tempo menor, o que favorece sua reprodução. Com o avanço da malária, calcula-se que até 2080 cerca de 320 milhões de pessoas poderão ser afetadas pela doença.

Raiva

A raiva é a mais letal doença conhecida: sua taxa de mortalidade ronda os 100%. É associada a cães, mas nas últimas décadas começou a contaminar outros animais, como guaxinins (EUA), aumentando assim a ameaça aos seres humanos. A ONU divulgou um "notável aumento" no ano passado no número de países que buscam contribuir para o controle da raiva nas populações de cães.

Montira e seus colegas dizem que o número de pessoas que sucumbiram a doenças infecciosas caiu no mundo desenvolvido durante a Revolução Industrial, mas o incremento da produção e os níveis de poluição aumentaram a incidência de doenças crônicas, incluindo câncer, alergias e defeitos de nascimento. Agora, estamos à mercê de outra transição epidemiológica, conduzida pela destruição de hábitats de plantas e animais, pela perda de espécies e por mudanças que têm deixado mais pessoas em contato mais próximo com os animais do que em qualquer outra fase da história humana, afirmam os cientistas ao jornal Bioscience.

Um fator-chave tem sido a crescente urbanização, o que resultou em humanos se mudando para áreas virgens onde entraram em contato mais próximo com os animais. Ao mesmo tempo, a globalização fez com que doenças surgidas recentemente fossem transmitidas de maneira mais rápida e disseminada do que no passado.

De acordo com Jan Slingenbergh, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as mudanças na criação de animais alteraram a circulação de vírus e bactérias, incluindo a gripe capaz de infectar seres humanos. Em países como a China, a maior demanda por carne de aves levou a um aumento maciço nas populações de aves aquáticas domésticas, disse ele. Só no sul da China já existem cerca de 700 milhões de patos domésticos.

No caso da gripe, um número crescente de subtipos virais passou de animais selvagens para aves que vivem em contato mais próximo com seres humanos. Uma expansão similar no número de cepas de gripe em suínos também tem sido vista ao longo da última década. "No fim dos anos 1990, havia apenas um subtipo de gripe suína. Agora, existem três subtipos, cada um com várias cepas", acrescenta Slingenbergh.

O comportamento desses novos vírus é imprevisível - os cientistas não sabem qual é a probabilidade de eles vencerem a barreira entre as espécies e os humanos. A multiplicação desses microrganismos, porém, dá-lhes uma chance maior de isso acontecer, afirma Slingenbergh. Para ele, os vírus da gripe estão ficando mais próximos das pessoas e dos alimentos, e as práticas agropecuárias são as culpadas. "Não há evidências que sugiram que isso vai acabar em breve", observa ele. "A agropecuária parece destinada a continuar a crescer por mais duas décadas, e estamos apenas no início da mudança climática."

Jovens artistas tailandesas exibem amostras bemhumoradas de máscaras sanitárias nesta foto de julho de 2009. As vendas de máscaras explodiram no Oriente naquela época do ano, refletindo os temores da população em relação à gripe H1N1.

Revista Planeta

Ascensão e queda do consumismo

A terra precisa atualmente de quase 18 meses para repor o que a humanidade lhe tira em um ano. Para continuarmos a viver do que o planeta pode nos oferecer, só há uma alternativa: transformar substancialmente nossos padrões de consumo

Por Eduardo Araia

Algumas perguntas que estão, mais do que nunca, na ordem do dia: você precisa mesmo levar todas as suas compras de supermercado em sacolas plásticas? É indispensável ter na garagem aquele utilitário esportivo tão imponente quanto gastador? E o banho de 15 minutos, que tal encurtá-lo?

A revisão dos atuais (e inviáveis) modelos de consumo já havia sido objeto de um contundente alerta em novembro de 2009, dado pela organização internacional Global Footprint Network: de acordo com um estudo produzido por ela, a Terra precisa atualmente de quase 18 meses para produzir os serviços ecológicos que os quase 7 bilhões de humanos utilizam em um ano.


segundo o Worldwatch institute, um exame cuidadoso da rotina dos membros da “classe consumidora global” mostra que há várias situações nas quais é possível consumir de forma mais sensata e sustentável.

Invertendo a equação, estamos consumindo praticamente um planeta e meio em 12 meses. Não é preciso ser gênio para perceber que a conta não fecha. No atual ritmo, dizem os autores do estudo, no início da década de 2030, precisaremos de duas Terras para atender a nossa demanda anual – um nível tão alto de gasto ecológico que poderá causar um colapso de ecossistemas de grandes proporções.

No início deste ano, a advertência foi renovada, algumas oitavas acima, pelo Worldwatch Institute – uma das mais importantes instituições de pesquisa sobre desenvolvimento sustentável do mundo, sediada em Washington –, por meio de um impecável relatório, o State of the World 2010 – Transforming Cultures: From Consumerism to Sustainability (Estado do Mundo 2010 – Transformando Culturas: do Consumismo à Sustentabilidade). O trabalho, assinado por 60 autores, se apoia em uma profusão de números e informações, demonstrativos do descalabro consumista em que o mundo está mergulhado, para propor uma transformação radical nesse quadro.

“Os padrões culturais são a causa de uma convergência sem precedentes de problemas econômicos e sociais, incluindo a mudança do clima, uma epidemia de obesidade, um enorme declínio na biodiversidade, perda de terras agricultáveis e produção de resíduos tóxicos”, afirma Erik Assadourian, diretor do relatório. Devolver a saúde a esse quadro exige uma proposta de aplicação urgente: a necessidade de uma transformação radical dos padrões culturais dominantes, que segundo o economista bengali Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz de 2006, assinala no prefácio, envolve “uma das maiores mudanças culturais imagináveis: a partir de culturas de consumo para as culturas de sustentabilidade”.

NO RITMO DE HOJE, NO INÍCIO DOS ANOS 2030 PRECISAREMOS DE DUAS TERRAS PARA ATENDER A NOSSA DEMANDA ANUAL

Uma das iniciativas que se encaixam na proposta de um consumo mais sustentável é a incorporação ao cardápio de alimentos saudáveis, produzidos no local de acordo com princípios ambientais.
Como toda ação que mexe fundo na mente humana, essa promete inúmeras dificuldades. Afinal, o consumismo – “uma orientação cultural que leva as pessoas a encontrar sentido, felicidade e aceitação por aquilo que consomem”, na definição do Worldwatch Institute – pode parecer, ao olhar comum, algo indistinto da necessidade de consumir. De repente vamos deixar de comer, beber, nos vestir, tomar banho, usar meios de transporte ou investir em lazer? Claro que não. Mas um exame detalhado da rotina dos mais de 2 bilhões de pessoas que, segundo a instituição norte-americana, integram a “classe consumidora global” (o que muito provavelmente inclui você, leitor desta revista) revela que há vários aspectos em que é possível, sim, consumir com mais sensatez e economia de recursos.

Deve-se salientar, porém, que temos de aprender como fazer isso em ritmo acelerado, porque a inércia, nesse caso, é sinônimo de implosão do consumismo e de riscos substanciais para a própria necessidade de consumir. A discussão proposta pelo Worldwatch Institute precede, inclusive a grande polêmica sobre o aquecimento global que, bem ou mal, tem mobilizado a maior parte dos países do mundo.

Como menciona o estudo, quaisquer medidas adotadas pelos governos ou iniciativas científicas nesse sentido serão inúteis sem que as pessoas adotem um modelo mais simples de vida. “Para prosperar no futuro, as sociedades humanas terão de mudar suas culturas a fim de que a sustentabilidade se transforme na norma e o consumo excessivo, em tabu”, afirma Assadourian.

O State of the World 2010 informa que, em 2006, o consumo total no mundo em bens e serviços atingiu US$ 30,5 trilhões – 28% a mais do que dez anos antes, observa Fátima Cardoso, do Instituto Akatu, em texto que aborda o estudo. À medida que sua renda cresce, as pessoas usam mais recursos na aquisição de bens de consumo. “Somente em 2008, foram vendidos no mundo 68 milhões de veículos, 85 milhões de refrigeradores, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones celulares”, ressalta Fátima.

O aumento de demanda implica, naturalmente, um incremento na utilização de recursos naturais. Ao longo de 55 anos, entre 1950 e 2005, a produção mundial de metais foi multiplicada por 6; o consumo de petróleo, por 8; e o de gás natural, por 14.

A distribuição desse consumo retrata a desigualdade mundial. Em 2006, os 65 países com maior renda – cuja maioria dos habitantes, que totalizam 16% da população mundial, esbanja consumismo – responderam por 78% das despesas planetárias em bens e serviços. Líderes disparados dessa lista de desproporção, os Estados Unidos conseguiram, com apenas 5% da população terrestre, abocanhar 32% do consumo do planeta. “Se todos vivessem como os americanos, o planeta só comportaria uma população de 1,4 bilhão de pessoas”, sublinha Fátima no texto.

Outro número ressaltado no relatório é o consumo médio de recursos naturais feito diariamente por um norte-americano: espantosos 88 quilos, ou seja, mais do que o peso da maior parte da população do país. Um europeu médio consome 43 quilos – menos que a metade dos norte-americanos, mas ainda assim um valor muito alto.

O State of the World 2010 mostra, no entanto, que não basta apenas europeus e norte-americanos fazerem uma revisão radical em seus modelos de consumo. Um padrão considerado médio, como o da Tailândia ou o da Jordânia, já supera o nível adequado. (A propósito, o estudo do Global Footprint Network já mencionava que, atualmente, 80% dos países usam mais biocapacidade do que a disponível em seu território.) Para agravar o quadro, a poderosa expansão econômica da China e da Índia – os dois países mais populosos da Terra – está despejando um formidável contingente de pessoas na “classe consumidora global”, com impacto ainda difícil de prever.

Isso só aumenta a necessidade de uma revolução global nesse setor, que, quando estiver concretizada, deverá mudar substancialmente nosso cotidiano. O relatório traz diversos casos em que iniciativas por vezes aparentemente simples geram reflexos benéficos em diversos setores. Um desses exemplos é o de cardápios escolares que estão sendo reformulados na Itália e em outros países para usar alimentos saudáveis, produzidos no local e de acordo com princípios ambientais.

CHINA E ÍNDIA ESTÃO COLOCANDO UM ENORME NÚMERO DE PESSOAS NA CLASSE CONSUMIDORA GLOBAL E O IMPACTO DISSO AINDA É DIFÍCIL DE PREVER

Outras ideias mencionadas no estudo são o cultivo de alimentos em hortas comunitárias, o empréstimo (em vez da compra) de livros e brinquedos em bibliotecas, a troca rotineira do transporte individual pelo coletivo e, inclusive, o processo de manufatura dos produtos: eles teriam de ser elaborados para durar a vida inteira e ser inteiramente recicláveis.

À primeira vista, o relatório do Worldwatch Institute pode parecer quixotesco em seu desejo de transformar bilhões de corações e mentes em um prazo relativamente curto. Mas talvez não haja melhor momento para isso do que agora, reconhece seu presidente, Christopher Flavin: “Enquanto o mundo luta para se recuperar da mais séria crise econômica global desde a Grande Depressão, temos uma oportunidade sem precedentes para nos afastarmos do consumismo. No fim, o instinto humano de sobrevivência deve triunfar sobre a compulsão de consumir a qualquer custo.”


ALGO DE PODRE NO REINO DA ITÁLIA
Por Luis Pellegrini


E no resto do mundo também. Em 1990, percebi que algo muito estranho acontecia no meu país de origem, a Itália. Eram os dias da Copa do Mundo de futebol quando cheguei a Roma para ser hóspede na casa de um velho amigo, no bairro Nomentano.

Primeira surpresa: As calçadas do Corso Trieste, a mais bonita artéria do bairro, estavam literalmente forradas com espessos tapetes de falsa grama verde. Chovera pouco antes, encharcando os muitos quilômetros de erva plástica. Quando a gente caminhava sobre ela, ouvia o barulho dos sapatos fazendo flop-flop e respingando água para os lados. “Para que serve isso?”, perguntei, atônito, a meu amigo, Inigo zammarano. Ele, que não é romano e sim napolitano, respondeu com a fleuma habitual de seus conterrâneos: “Para encher ainda mais os bolsos dos políticos que administram a cidade. Imagine o que eles não ganharam de comissão só com essa falsa grama, totalmente inútil e além do mais muito feia...”

Segunda surpresa: no segundo dia dessa viagem, às 9 horas desci à rua para tomar meu café da manhã, um capuccino e um croissant. Pois bem: o garçom que me serviu usava uma camisa Valentino de seda pura, toda decorada com os “Vês” da grife e que, eu sabia, custava a bagatela de uS$ 800! Na tarde anterior, por coincidência, vira a camisa na vitrine da butique Valentino, na Piazza di Spagna, e me espantara com o preço.

Terceira Surpresa: Inigo resolveu organizar um jantar em minha homenagem e convidou uns dez amigos e amigas dos tempos em que éramos todos estudantes em Roma. Não nos víamos havia uns 15 anos e aquela seria uma maravilhosa oportunidade de reencontro. No jantar, comeu-se e bebeu-se à italiana, de modo farto e prazeroso. Tudo corria muito bem até que, na hora do cafezinho servido na sala, senti que algo estava errado.

Estavam todos chiquérrimos, com roupas de grife, riam muito e havia quase três horas não falavam de outra coisa que não fossem... roupas de grife e costureiros. Ou, como gostavam de dizer, estilistas. Teciam considerações importantíssimas sobre o tamanho da barra das calças do Versace naquele ano, do novo ponto de tricô do Missoni, do corte enviesado do Armani, das musselinas dos longos do Valentino, das fendas supersexy das saias de Cavalli e Dolce & Gabbana.

Tínhamos sido, no entanto, eu e as demais pessoas do grupo, colegas de escola, amigos íntimos, namorados, amantes e ninguém ainda me perguntara como eu estava, onde morava, se casara, se tinha filhos, em que trabalhava, se estava vivo, se já morrera e era apenas um fantasma. Nada. Quando tentei mudar o rumo das conversas e comecei a fazer perguntas pessoais, respondiam com monossílabos e rapidamente voltavam aos comentários de corte e costura.

Eu ouvia aquele blablablá ao mesmo tempo que imagens dos meus 20 anos, quando fui para Roma trabalhar e estudar, e quando conheci aquele pessoal todo, saltavam da memória, incitando-me à comparação. Quando cheguei lá, no final da década de 60, fui morar naquele mesmo bairro. Lembro-me bem que, nas manhãs de sábado, os homens da rua se reuniam nas calçadas para lavar seus carros. Carrinhos baratos da Fiat, Cinquecentos, Seicentos, comprados à prestação.

O país, naqueles tempos que hoje me parecem pré-históricos, ressurgia das cinzas da Segunda Guerra, última de uma sequência multissecular de conflitos catastróficos e penosos. Mas os valores tradicionais de economia rígida, de poupança, de consumir apenas o necessário e não desperdiçar nada – típicos da cultura italiana e da europeia em geral – estavam muito vivos na memória das pessoas.

Como fora possível que, em apenas 15 anos, tudo isso se perdesse, arrastado no tsunami insensato da società del benessere, a “sociedade do conforto e da prosperidade” preconizada pelo Partido Socialista, então no poder, comandado por Bettino Craxi e sua gangue? Algo estava errado, podre, no reino da Itália.

O desmoronamento de Craxi e dos que lhe faziam a corte aconteceu logo em seguida, no processo de assepsia policial e judicial conhecido como mani pulite (“mãos limpas”), e provou isso. Mas a verdade é que Craxi e cia. eram apenas a ponta do iceberg, o topo de uma pirâmide de equívocos que começava bem mais embaixo. Eram apenas o sintoma mais evidente de um fenômeno muito mais importante: a perigosa invasão da identidade tradicional italiana pela cultura da produtividade e do consumismo insustentáveis, oriunda do capitalismo selvagem norte-americano.

Cada povo tem o governo que merece, diziam os romanos antigos. Correto. Embora ainda mais apropriado fosse dizer que cada governo reflete o povo que o elegeu.

10 . AÇÕES PARA INÍCIO IMEDIATO
Consumir (e poluir) menos não significa renunciar a tudo imediatamente. Eis o que se pode fazer, com pouco esforço, a partir de agora.

1 Beba água da torneira filtrada, em vez da água mineral embalada em garrafas de plástico

2 Coma sobretudo frutas e verduras da estação. Prefira alimentos frescos, não embalados

3 Diminua ao máximo a ingestão de alimentos congelados – comida em geral de pouca qualidade, cuja produção requer o consumo de muita energia.

4 Quando possível, substitua a carne por um prato de vegetais. A pecuária de bovinos (sobretudo a intensiva) é uma importante fonte de poluição. Além disso, o consumo excessivo de proteínas faz mal à saúde.

5 Antes de ligar o automóvel, pergunte-se: “É realmente indispensável que eu use este meio de transporte?”

6 Substitua as lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes, que consomem muito menos energia. Em vários países, sobretudo europeus, as lâmpadas normais não serão mais comercializadas a partir deste ano.

7 Evite ao máximo o uso de sacolas de plástico. Habitue-se a usar uma shopping bag, um sacolão de compras de algodão que pode ser lavado e reutilizado muitas vezes.

8 Não use pratos e copos de plástico descartáveis. Utilize pratos e vasilhas de plástico, louça ou outro material lavável e reutilizável, ou no máximo pratos em plástico 100% biodegradável.

9 Substitua os guardanapItálicoos de papel por guardanapos de algodão.

10 No Natal e nos aniversários, presenteie as crianças com brinquedos que não precisem de pilhas e que usem a menor quantidade de plástico possível. Há grande variedade de brinquedos não poluidores, como os feitos com tecidos ou madeira colorida.

PEGADA ECOLÓGICA

A pegada ecológica indica quanto território é usado por um indivíduo, uma família, uma cidade, uma região, um país ou a humanidade inteira para produzir os recursos que consome e absorver os detritos que gera. a pegada ecológica da humanidade é atualmente de 2,2 hectares (22 mil metros quadrados) per capita. em países desenvolvidos, como a itália e a frança, ela gira ao redor de 5 hectares (50 mil m²). o cálculo da pegada ecológica pode ser feito em sites como o da WWf Brasil (www.wwf.org.br).

EVOLUÇÃO DA CONSCIÊNCIA CONSUMISTA

Para o sociólogo italiano Franco Ferrarotto, já é possível detectar na sociedade atual da produtividade e do consumismo uma mudança de estado de consciência. “A crise, que antes era apenas financeira e dizia respeito aos bancos e à sua ‘bulimia’, ou seja, a desmesurada intenção de produzir lucro a qualquer preço, agora atinge muito mais o plano produtivo e, assim sendo, alcança em primeiro lugar a empresa média: as encomendas diminuíram, é preciso que um número maior de trabalhadores permaneça em casa”, diz Ferrarotto. No caso dos europeus, as consequências da crise já são bem evidentes. As pessoas poupam mais, cortam ao máximo o consumo supérfluo: vai-se menos a restaurantes, compram-se roupas usadas, a classe média interrompe as lições de piano, o adolescente deixa de ganhar sua moto no aniversário. Tudo isso é luxo e pode esperar.

Revista Planeta

Racismo temos de aprender a viver juntos

A xenofobia e o racismo são construções intelectuais que se enraizaram na mente humana ao longo dos séculos. É necessária uma estratégia intelectual para alcançar a profundeza histórica e cultural dessas pragas e eliminá-las de vez

Por Doudou Diène

“É ainda fértil o útero do qual veio a besta”, escreveu o dramaturgo alemão Bertolt Brecht quando a Segunda Guerra Mundial estava em seu auge. A seriedade dessa frase ainda ressoa hoje. A vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais dos Estados Unidos foi, de fato, um golpe para o racismo e pode ter repercussões significativas. É difícil deixar de se alegrar diante da ideia de que o sonho de Martin Luther King pode ter se tornado realidade. Mas, ao mesmo tempo, como ignorar a violência interétnica que eclodiu no Quênia, país em que nasceu o pai do novo presidente, no mesmo ano em que ele foi eleito?

O racismo é um mutante. Antes de conseguirmos combater suas manifestações mais antigas (como o antissemitismo, o racismo contra negros e árabes), já vemos o ódio ressurgir com outra roupagem. Especialmente desde os ataques de 11 de setembro de 2001, tem emergido a noção alarmante de comunidades potencialmente terroristas, mostrando quão perigosa pode ser uma abordagem que funde fatores como raça, cultura e religião.

manifestação de negros em subúrbio parisiense em 2005, ano de grandes distúrbios raciais na França.

Esse tipo de amálgama obscurece a análise ou compreensão do racismo. Houve um tempo em que as ideias racistas eram promovidas por partidos claramente identificados como pertencentes à extrema direita. Mas, gradualmente, sob o pretexto de se defender a identidade nacional e combater a imigração ilegal e o terrorismo, argumentos inerentemente racistas têm sido adotados nas campanhas eleitorais de partidos democráticos. Alianças dentro de certos governos estão permitindo que partidos nacionalistas e de extrema direita implementem ideais xenófobos e racistas ao lhes conferirem legitimidade democrática.

O uso do racismo para propósitos eleitorais ou políticos está sendo complementado por uma legitimação intelectual ou científica do racismo e da xenofobia, como visto nas declarações de figuras públicas conhecidas, em pesquisas universitárias e em publicações comerciais.

Para usar apenas um exemplo, havia a teoria do choque entre civilizações desenvolvida pelo acadêmico norte-americano Samuel Huntington em meados dos anos 1990, de acordo com a qual o Ocidente seria ameaçado pela China e pelo Islã. Poucos anos mais tarde, em seu livro Quem somos nós?, Huntington deu mais um passo nessa direção ao supor uma ameaça à identidade americana como resultado da presença dos latino-americanos que vivem nos EUA.

imagem do ataque de 11 de setembro de 2001 em Nova York, que deu força à noção de comunidades potencialmente terroristas.

IDEIAS RACISTAS TÊM SURGIDO EM CAMPANHAS DE PARTIDOS DEMOCRÁTICOS

Ideias racistas e xenófobas expressadas por pessoas que gozaram de fama em certo momento da história penetram a política, a religião, a literatura, a educação e os meios de comunicação e acabam firmando raiz nas mentes das pessoas. A imagem distorcida dos muçulmanos não começou no 11 de setembro.

Ela é resultado de um longo processo intelectual que se iniciou com os primeiros encontros entre o Islã e o cristianismo. A imagem distorcida dos negros é fruto de um processo intelectual que legitimou o tráfico transatlântico de escravos e justificou a venda de seres humanos com base em uma alegada inferioridade, que os demonizava e os reduzia a meros objetos, buscando apoio em teorias e leis. Em outras palavras, o racismo tem profundas raízes culturais e históricas. Ele não caiu simplesmente do céu.

Se o choque de civilizações é uma ilusão, o multiculturalismo é uma realidade. Tomemos o exemplo da nova Europa. As identidades nacionais que foram legitimamente herdadas pelos Estados-nação têm de conviver diariamente com as identidades de outras comunidades étnicas, culturais e religiosas. Aquelas se sentem ameaçadas; estas, frustradas.

Essa frustração não advém apenas da marginalização política, econômica e social das pessoas às quais pedimos para se despirem de suas identidades, para entulharem suas memórias e adotarem, como na França, a fantasia da República, o símbolo de sua nova identidade.

As raízes dessa frustração têm origens históricas profundas. Mas o debate público sobre a presença dessas comunidades em solo europeu quase não existe. O colonialismo e o tráfico de escravos são capítulos da história que foram suprimidos ou desconsiderados. Afinal de contas, tivemos de esperar até a Conferência Internacional sobre o Racismo, em Durban (África do Sul), em 2001, para que o tráfico transatlântico de escravos fosse finalmente reconhecido como um crime contra a humanidade. A distorção ou a ignorância de certas realidades históricas, ao impedirem que elas façam parte da memória nacional, podem apenas levar a chamas, como aquelas que emergiram nos subúrbios franceses, há alguns anos.

APROVAR LEIS QUE CONDENEM O RACISMO E A XENOFOBIA ATINGE APENAS A PONTA DO ICEBERG

Podemos nos perguntar se, no processo de unificação, a Europa não desconsiderou um problema fundamental: a criação de uma nova identidade. Em outras palavras, o multiculturalismo que a define hoje. Olhando para certas políticas de imigração, podemos nos perguntar se a Europa tem até mesmo a consciência de que os imigrantes são também membros da humanidade e que o multiculturalismo é mutuamente enriquecedor. Os estrangeiros que vêm viver na Europa têm de se adaptar às regras sociais do país que os recebe. Não é isso que está sendo questionado. Mas eles também devem ser capazes de plantar algumas bonitas flores no jardim da Europa.

O multiculturalismo está no centro das manifestações contemporâneas de racismo e xenofobia e é em torno do multiculturalismo que a luta contra o racismo deve tomar forma.

Casos de violência entre grupos étnicos e religiosos estão se espalhando rapidamente e podem ser observados ao redor do mundo, demonstrando que uma estratégia puramente legislativa não é suficiente. É essencial que se continue a aprovar leis e que se estabeleçam regulamentos e outros textos nacionais e internacionais que condenem o racismo, a discriminação e a xenofobia, mas isso atinge apenas a ponta do iceberg. O que torna o útero fértil, nas palavras de Brecht, são as fontes mais profundas de racismo, as quais não podem ser influenciadas apenas pelas legislações.

É essencial que se tenha uma estratégia intelectual e ética. Sem isso, não seremos capazes de abalar a mentalidade racista. Isso significa ir até a base histórica e cultural do racismo; unir-nos contra a fecundidade dos argumentos racistas, contra seu uso por políticos e sua banalização pela mídia. Isso significa reconhecer a realidade da diversidade cultural, étnica e religiosa como a base para o diálogo entre civilizações, nos âmbitos nacional e internacional. Em uma palavra: aprender a viver juntos.

A fim de acabarmos com a ideologia racista, é necessário desenvolvermos uma arqueologia das causas profundas do racismo. A ideologia antirracista deve seguir a mesma trajetória que o racismo tem utilizado para se insinuar (a política, a religião, a literatura, a educação e a mídia) e conseguir se firmar nas mentes de homens e mulheres.

Doudou Diène é ex-diretor da Divisão de Diálogo Intercultural da Unesco e relator especial da ONU sobre as formas contemporâneas de racismo, de 2002 a 2008.

Revista Planeta

A agonia do mar morto


A agonia do mar morto
Ameaçado por fatores geológicos e (principalmente) humanos, o Mar Morto perdeu um terço de sua superfície nos últimos 50 anos e, se nenhuma medida for adotada, poderá desaparecer até meados deste século


Por Eduardo Araia
Markus Soeder, ministro da Saúde e do Meio Ambiente da província alemã da Bavária, examina depósitos de sal no Mar Morto em agosto de 2009, numa viagem dedicada ao exame da delicada situação da água naquela região.

O Mar Morto, símbolo caro às três grandes religiões monoteístas do mundo – cristianismo, islamismo e judaísmo –, pode estar a caminho de se tornar um pequeno e inexpressivo lago, enquanto a letargia política dificulta a tomada de decisões capazes de salvá-lo. O nível da superfície desse corpo d’água encravado entre Israel, Jordânia e Cisjordânia cai em média um metro por ano, e em determinados pontos o litoral já recuou mais de um quilômetro. No atual ritmo, e sem medidas que enfrentem essa tendência de encolhimento, alguns especialistas afirmam que o Mar Morto corre o risco de secar até 2050.

“Ele pode ser confinado em um pequeno lago”, afirmou à agência de notícias AFP o especialista em água jordaniano Dureid Mahasneh, ex-chefe do Departamento do Vale do Jordão. “É provável que aconteça, e isso é extremamente grave. Ninguém está fazendo nada para salvá-lo agora. Resgatar o Mar Morto é uma questão regional, e se você considerar o patrimônio ambiental e a importância histórica ou mesmo a geográfica, é um problema internacional.”

crostas de sal no Mar Morto. Israel e Jordânia têm retirado o produto do leito do lago, uma das atividades que têm afetado o seu nível
Criado pelo mesmo movimento das placas tectônicas que há vários milhões de anos formou o Grande Vale do Rift, na África, o Mar Morto – nome pelo qual é conhecido desde o século 2 d.C. – deve seu atual estado precário a fatores tanto humanos quanto geológicos. Antes parte de um lago muito maior que se estendia até o Mar da Galileia, ao norte, ele perdeu sua ligação com o Mediterrâneo cerca de 18 mil anos atrás – a água desse trecho evaporou, deixando um resíduo de sal em uma bacia desértica na maior depressão da Terra, a 395 metros abaixo do nível do mar.

Desde então, esse corpo d’água vinha mantendo seu equilíbrio por meio de um ciclo natural frágil: recebia a água doce do Rio Jordão e de outros pequenos cursos d’água, originários das montanhas circundantes, e a perdia por evaporação. A propósito, o processo de evaporação, combinado com os ricos depósitos de sal ali encontrados, explica sua extraordinária salinidade – até 33% (o segundo colocado nesse quesito, o Grande Lago Salgado de Utah, nos Estados Unidos, chega a 27%). Em consequência, nenhum ser vivo habita suas águas. Por outro lado, essa grande quantidade de sal impede que os corpos afundem – uma das curiosidades que atraem turistas para a região.

Até a década de 1950, o fluxo de água doce recebido pelo Mar Morto se equiparava com a taxa de evaporação e, assim, os níveis de água mantinham-se estáveis. Nessa época, o lago salgado tinha cerca de 80 quilômetros de extensão e 18 quilômetros de largura, compondo uma superfície de aproximadamente 1.050 quilômetros quadrados. Israel começou a mudar esse quadro em 1960, ao aproveitar uma represa antes usada na produção de eletricidade, a Degania, para coletar água do Alto Jordão e, com ela, abastecer o país.

imagem que ilustra o recuo da água.

Essa estratégia fez o fluxo de água do rio que chegava ao Mar Morto cair drasticamente. Para piorar o quadro, na década seguinte a Jordânia e a Síria passaram a desviar a água do principal afluente do Baixo Jordão, o Yarmouk, para finalidades agrícolas e industriais. A organização não governamental Friends of the Earth Middle East (FoEME) calcula que, durante os últimos 50 anos, a vazão anual do Jordão caiu de mais de 1,3 bilhão de metros cúbicos para cerca de 70 milhões de metros cúbicos.

O resultado disso é que, atualmente, apenas 5% do volume natural de água do Jordão é despejado no Mar Morto. (Israel fica com 60%, enquanto Jordânia e Síria desviam os outros 35%.). Mesmo essa porcentagem acanhada não está livre de problemas: segundo a FoEME, é esgoto em vários estágios de tratamento, o que acarreta desequilíbrios nos ecossistemas naturais localizados no entorno. Além disso, especialistas garantem que a maioria das nascentes no Vale do Jordão que deságuam diretamente no Mar Morto está atualmente represada.

Por fim, a queda dos níveis de águas subterrâneas e os efeitos das atividades turísticas, industriais e de mineração na área contribuem para agravar ainda mais a situação. No sul do Mar Morto, por exemplo, Israel e Jordânia construíram piscinas de evaporação maciça para extrair sal e fosfato. Enquanto isso, hotéis de luxo erguidos às margens do lago – destinados a turistas interessados no ar rico em oxigênio, nas paisagens bíblicas e nos supostos poderes curativos da lama e dos minerais ali presentes – ficam, melancolicamente, cada vez mais distantes dele.


Atrativos como a alta salinidade, que impede as pessoas de afundar, e as supostas propriedades curativas da lama ali encontrada fazem do Mar Morto um dos redutos turísticos mais visitados daquela parte do mundo. Mas os hotéis que recebem esses visitantes consomem água que originariamente chegaria ao lago salgado, prejudicando ainda mais o seu nível.

Calcula-se que, nas últimas cinco décadas, o Mar Morto perdeu um terço de sua superfície. Seus cerca de 80 quilômetros de extensão transformaram-se em 67 quilômetros hoje. De acordo com a FoEME, o nível do lago caiu dos 395 metros abaixo do nível do Mediterrâneo, em 1960, para 422 metros, em 2009, e esse número deve aumentar ainda mais: simplesmente para manter suas atuais dimensões, o Mar Morto precisaria de um aporte adicional de 160 bilhões de galões de água por ano, mas recebe apenas 10% disso.

E não se deve desprezar os efeitos do aquecimento global. “A mudança climática afetou tudo”, disse Dureid Mahasneh à AFP. “É uma guarda-chuva para vários problemas, incluindo escassez pluviométrica. Nada está sendo feito a sério para combater as alterações climáticas. São necessárias soluções integradas e sustentáveis.”

SÓ 5% DO VOLUME NATURAL DE ÁGUA DO RIO JORDÃO CHEGA AO MAR MORTO. É ESGOTO EM VÁRIOS ESTÁGIOS DE TRATAMENTO

A alternativa mais comentada atualmente é a de um duto ligando o Mar Vermelho ao Mar Morto. O projeto, baseado num estudo do Banco Mundial e orçado em cerca de US$ 2 bilhões, trata do transporte de 2 bilhões de metros cúbicos de água por ano, através de uma tubulação de 200 quilômetros, para produzir água doce e gerar eletricidade, bem como elevar o nível do Mar Morto.

Aprovado em linhas gerais pelos três principais envolvidos – Israel, Jordânia e Autoridade Palestina – em 2005, o plano não demorou a pousar nas gavetas dos burocratas. A falta de vontade geral certamente foi influenciada pelas complicações políticas e econômicas enfrentadas na área, além de questionamentos técnicos.

Alguns ambientalistas lembraram, por exemplo, que a água do Mar Vermelho provavelmente alteraria a química peculiar do Mar Morto. “Estamos lidando com pelo menos dois ecossistemas sensíveis e diferentes: o Mar Morto e o Mar Vermelho”, ressaltou Munqeth Mehyar, presidente da FoEME, à AFP. “Precisamos também manter a mente aberta sobre outras alternativas possíveis.”

Para ele, a preferência é recuperar o Rio Jordão: “Estamos trabalhando duro para reabilitá-lo, através do aumento e da manutenção do seu fluxo, a fim de salvá-lo e salvar o Mar Morto. Não posso afirmar que podemos evitar que o nível do Mar Morto caia mais, mas penso que podemos controlar o problema, e a cooperação de todos os lados é um dever.”

Fragmento de um pergaminho do Mar Morto: testemunho da importância histórica da região.

Mahasneh, por seu lado, é favorável ao plano: “O projeto Morto-Vermelho é como um plano de salvamento – não há outra opção. Mas não será uma tarefa fácil, por motivos políticos e econômicos.”

Em setembro de 2009, o governo jordaniano anunciou que tocaria unilateralmente a obra dos dutos. Mas a decisão ainda não é definitiva, conforme ressalvou à AFP o ministro do Meio Ambiente do país, Khaled Irani: “Vamos esperar e ver os resultados do estudo de impacto ambiental. Podemos não avançar com o projeto se ele for criar uma grande confusão com o ecossistema, mas se pudermos trazer água para o Mar Morto e manter a mesma qualidade ecológica que ele tem, por que não?”

Representante de um dos dez países mais secos do mundo, com 92% do território ocupado pelo deserto, Irani não esconde a importância do tema para seu governo, mas lembra que essa deve ser uma responsabilidade compartilhada: “Precisamos ter certeza de que sempre existe água corrente fluindo para o Mar Morto. Ele é único em muitos aspectos, não apenas para a Jordânia, mas também para os israelenses e palestinos.”

A força da vida num ambiente hostil
Curiosamente, os ecossistemas vinculados ao Mar Morto possuem um vigor que surpreende. Existem na região seis oásis, alimentados por fontes de água doce e aquíferos, nos quais crescem espécimes locais de plantas, peixes e mamíferos, como o leopardo e o íbex (uma espécie de cabra selvagem). Cerca de 500 milhões de pássaros, de pelo menos 300 espécies, como cegonhas e pelicanos, têm ali um ponto de parada durante sua migração bianual entre a Europa e a África. No entanto, o encolhimento do Mar Morto tem alterado esse quadro, provocando mudanças na posição dos oásis. Segundo algumas previsões, esses terrenos férteis em meio ao deserto podem ser extintos nos próximos anos.


Tesouros de três grandes religiões
Não é por falta de pedigree histórico e religioso que o Mar Morto corre o risco de virar um lago inexpressivo. Eventos importantes para o cristianismo, o islamismo e o judaísmo ocorreram naquela região. Jesus, por exemplo, teria viajado da Galileia ao Mar Morto para ser batizado no Rio Jordão. Na fortaleza de Masada, cerca de mil judeus optaram por se suicidar em vez de render-se às tropas romanas, em 73 d.C.

Para alguns muçulmanos, Moisés (considerado um profeta no islamismo) estaria sepultado numa mesquita no topo de uma colina, perto da principal estrada que leva a Jerusalém. No século 5, ascetas oriundos da Ásia Menor ocuparam numerosas cavernas na região, onde construíram mosteiros como Mar Saba (o mais antigo habitado continuamente no mundo). E em 1947, a busca a uma cabra perdida no Deserto da Judeia levou pastores beduínos a encontrar, em uma caverna em Qumran (na costa norte do corpo d’água), as relíquias conhecidas como os Pergaminhos do Mar Morto.

O flagelo dos sumidouros
Quem passa pelas margens do Mar Morto tem de se precaver com um problema incômodo derivado do volume cada vez menor de água no lago: o surgimento de grandes buracos, que prejudicam agricultores, hotéis e indústrias instalados na região. Apenas numa única localidade, Ghor Haditha, no sul do Vale do Rio Jordão, há mais de 100 desses sumidouros. “Esses buracos são bombas-relógio – podem aparecer a qualquer momento e engolir tudo”, afi rmou à AFP o pesquisador Fathi Huweimer, da organização não governamental Friends of Earth Middle East (FoEME).

Um desses buracos, com 20 metros de largura e 40 metros de profundidade, inviabilizou a pequena fazenda de Izzat Khanazreh em Ghor Haditha. Cheia de rachaduras, a terra fi cou imprestável para a agricultura e forçou Khanazreh a trabalhar para outros fazendeiros. Outro sumidouro apareceu sob uma fábrica com 60 funcionários e obrigou seus proprietários a deslocá-la, disse Huweimer.

O risco de ser tragado por esses buracos é considerável. Com uma dose de humor negro, os habitantes locais dizem que há um consolo para quem tiver essa experiência: seu nome será dado ao sumidouro que o engoliu.

dois exemplos dos buracos que têm surgido ao redor do Mar Morto. De acordo com ativistas da oNG FoEME, os sumidouros podem aparecer a qualquer momento e engolir tudo. Eles representam um prejuízo considerável para as atividades agrícolas, industriais e turísticas na área.

Revista Planeta

Abundância de planetas extrassolares

Imagem mostra o planeta extrassolar Corot-Exo-7b, o menor já visto, passando à frente de sua estrela

Abundância de planetas extrassolares
Número não para de crescer e deve aumentar mais com atuação de satélites
por Enos Picazzio
Quando o monge católico Giordano Bruno afirmou em 1584 que havia “inúmeros sóis e inúmeras terras” no céu, foi acusado de heresia. Mesmo em sua época, a ideia de uma pluralidade de mundos não era inteiramente nova. Na Grécia antiga, já se pensava na possibilidade de existência de outros sistemas planetários, possivelmente com outras formas de vida. “Há infinitos mundos, parecidos ou não com o nosso. Assim como os átomos são infinitos em número, não há em nenhuma parte obstáculo ao número infinito de mundos”, dizia Epicuro (341-270 a.C.).

Ao retomar a ideia de Aristarco de Samos (270 a.C.) e mostrar no início do século 16 que a Terra girava em torno do Sol e não o contrário, Copérnico não mudou apenas o paradigma de local privilegiado para a Terra, mas mostrou a possibilidade de planetas orbitarem estrelas.

Hoje sabemos que planetas não são figuras exóticas que podem existir em torno de algumas estrelas, mas subprodutos da formação estelar cuja massa total é insignificante se comparada à massa da estrela. No Sistema Solar, a massa total de tudo que existe em torno do Sol representa apenas 0,1% da massa solar.

A primeira procura sistemática por exoplanetas apareceu somente no final do século 17, com os trabalhos de Christian Huygens. Em setembro de 1916, Edward E. Barnard anunciou a descoberta de movimento próprio exagerado de uma estrela pequena e avermelhada na constelação de Ofiúco (o serpentário), que só podia ser entendido como decorrente da perturbação gravitacional da posição da estrela pela presença de um ou mais planetas. No início dos anos 50, Peter van de Kamp concluiu que o bamboleio da estrela de Barnard era provocado por um planeta com cerca de 1,6 massa de Júpiter. Posteriormente, em 1982, ele sugeriu dois planetas em órbitas circulares, com 0,7 e 0,5 massa de Júpiter. Desde então várias pessoas estudaram esse caso, e até o momento nada foi comprovado.

A primeira confi rmação de exoplaneta surgiu apenas em 1990 com os radioastrônomos Aleksander Wolszczan e Dale Frail. Eles descobriram dois planetas orbitando o pulsar PSR 1257+12. Na época houve resistência da comunidade astronômica em aceitar os resultados, pois não era de esperar a existência de planetas em torno de uma estrela que morrera explosivamente como supernova.

Michel Mayor e Didier Queloz anunciaram, em outubro de 1995, a descoberta de um planeta em torno da estrela 51 Pegasi. Desde então, a taxa de descoberta cresce rapidamente, sobretudo com a disponibilidade de instrumentação espacial dedicada à procura de exoplanetas.

Atualmente são conhecidos cerca de 460 exoplanetas, em pelo menos 370 sistemas planetários. A maioria desses planetas é parecida com Júpiter em massa e tamanho, porém eles estão mais próximos de suas estrelas. Boa parte deles está tão próxima da sua estrela quanto a Terra do Sol. Alguns estão em distâncias menores que a distância de Mercúrio ao Sol. Estes exoplanetas estão sendo destruídos pelo calor, deixando rastros de gás como caudas de cometas. É o caso do exoplaneta TrES-3b, que dá uma volta em torno da estrela TrES-3 em apenas 31 horas. Poucos exoplanetas gasosos estão distantes de suas estrelas quanto Júpiter está do Sol.

CoRoT-7b é um exoplaneta rochoso e tem massa cinco vezes maior que a terrestre, o menor conhecido até o momento. Isso, no entanto, não o torna parecido com a Terra, pois sua história parece ser bem diferente da terrestre. Ele deve ter nascido como um exoplaneta semelhante a Saturno, mas foi desgastado pelo vento estelar devido a sua proximidade com a estrela. A duração de seu ano é de apenas 20,4 horas.

Até o momento não foi descoberto um sistema planetário que lembre o Sistema Solar em estrutura. Essas discrepâncias, no entanto, podem não ser regra. De certa forma, o que descobrimos é decorrência das limitações técnicas e amostragem reduzida.

O Sol é a estrela que melhor conhecemos, assim como os planetas que giram em torno dele. O Sol é o único corpo celeste monitorado 24 horas por dia e visto em 3D (projeto Stereo). Os planetas estão tão próximos que podemos enviar sondas para estudá-los de perto. Por isso os conhecemos tão bem. Embora as demais estrelas estejam muito distantes, a ponto de não conseguirmos ver detalhes como observamos no Sol, a amostragem delas é tão vasta que encontramos todos os tipos de estrelas e em todos os estágios de vida. O mesmo não ocorre com os sistemas planetários externos. Eles estão longe demais para ser estudados em detalhes com a instrumentação de que dispomos. O brilho refletido pelos objetos é muitíssimo menor que o das suas estrelas. Além disso, as dimensões dos exoplanetas e o tamanho de suas órbitas se tornam diminutos quando vistos de distâncias tão grandes. Para suplantar essas dificuldades precisamos de instrumentação mais potente, de solo ou espacial. Um exemplo é o recente e moderno satélite Kepler: em menos de dois meses ele descobriu cerca de 750 candidatos a exoplanetas. Esta amostragem é maior que a acumulada nos últimos 15 anos.

Será que no futuro encontraremos um sistema parecido com o Solar ou, melhor ainda, um planeta parecido com o osso? É esperar para ver.


Enos Picazzio Astrônomo do IAG-USP, especializado em astrofísica do Sistema Solar, publicou artigos em revistas, livros e sites dedicados ao ensino e à divulgação científica. É corintiano de nascença.

Scientific American Brasil

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O fim do pleno emprego nas maquiladoras



O fim do pleno emprego nas maquiladoras

Implantadas no México na década de 1960 e potencializadas pelo tratado de livre comércio com os Estados Unidos nos anos 1990, as fábricas de montagem de peças praticamente não são fiscalizadas e exploram a mão de obra local com abusos flagrantes e chantagens cotidianas

por Anne Vigna

Crise? Qual crise? Ah, existe uma nova crise? Bem, em Tijuana nós jamais saímos dela!”, afirma Jaime Cotta, sempre sorridente. Apesar de todas as desgraças que passam por seu escritório, ele se esforça para manter o senso de humor. Em Tijuana, sem dúvida é ele quem melhor conhece as condições de vida nas maquiladoras, fábricas de montagem implantadas no México a partir da década de 1960 ao longo de 3 mil quilômetros de fronteira com os Estados Unidos. O que as levou ao México? Mão de obra barata, impostos praticamente inexistentes, autoridades que pouco fiscalizam e a vizinhança da primeira economia do mundo1. “Graças às maquiladoras, somos uma economia de pleno emprego”, repetiram, sucessivamente, os últimos governadores do estado da Baixa Califórnia.

Cotta começou a trabalhar como operário, e depois se tornou pesquisador e advogado. Seu Centro de Informações para Trabalhadoras e Trabalhadores (Cittac)2 é o único que auxilia as vítimas dessas fábricas há cerca de 20 anos. De funcionários demitidos àqueles que sofreram acidentes de trabalho, ou temporários sem direitos nem contratos, os abusos são flagrantes. Os trabalhadores que passam por seu escritório recebem aconselhamento e, em alguns casos, são orientados a abrir um processo judicial. Trata-se, portanto, do lugar ideal para sentir o “clima quente” dessa cidade de 1,4 milhão de habitantes.

Hoje, três operárias foram atendidas. Uma delas foi suspensa por dois dias por causa de uma peça mal feita entre as 700 que produz em dez horas de trabalho diário. “Eles querem me demitir, me perseguem o tempo inteiro e inventam mentiras”, afirma com os olhos baixos. No papel que mostra a Cotta, está escrito que ela “intencionalmente causou prejuízos à empresa”. A operária acrescenta que nessa maquiladora as “paradas técnicas” acontecem semanalmente e que, com um dia de trabalho remunerado a menos, o salário fica ainda mais insignificante – 755 pesos mexicanos por semana, cerca de R$ 98.

As chamadas paradas técnicas figuram entre as últimas “sacadas” dos proprietários dessas fábricas. O presidente mexicano, Felipe Calderón, promove-as em nome da luta contra as demissões em massa. O governo federal paga um terço dos salários, a maquiladora outro terço, e o assalariado... perde o último terço com esses dias, compulsoriamente não trabalhados! Em troca, as fábricas se comprometem a demitir um número de empregados proporcional – e não superior – à baixa da produção. Mas, como explica a presidente da Associação da Indústria Maquiladora e de Exportação de Tijuana3, Magnolia Pineda, “poucas empresas aceitaram entrar nesse programa pois consideram impossível não ter liberdade para demitir. Trata-se de uma restrição inaceitável”. Essas empresas, no entanto, recorrem mesmo assim às “paradas técnicas”, mas sem pagar sua parte no salário, ou seja, de forma completamente ilegal. E mais, “os assalariados compreenderam muito bem a situação; não houve nenhuma greve”, acrescentou a presidente dessa organização patronal.

De fato a agitação social não abalou essas fábricas, de produção terceirizada, que reexportam seus produtos para os Estados Unidos imediatamente após a montagem. De acordo com um estudo realizado em Tijuana4, apenas 18% dessas empresas têm alguma organização sindical, pejorativamente apelidadas de “fantasmas” pelos funcionários. Pineda constata que, em 50 anos de maquiladoras, jamais houve conflito. Contudo, não é exatamente a “compreensão” dos trabalhadores, mas sim o medo das represálias que faz com que a paz social continue reinando na cidade fronteiriça. Basta se dirigir aos parques industriais ao amanhecer para compreender isso.

Há vários meses, filas de trabalhadores se formam todas as madrugadas em frente às empresas – alguns chegam a dormir no local para ter mais chances. Às cinco da manhã, mesmo sem nenhum funcionário de recrutamento presente, estão todos aterrorizados: “Não fale comigo, não se aproxime de mim. Não posso te dizer nada”, murmura um deles para a reportagem. Outro afirma: “Você não tem o direito de estar aqui, é proibido. Sim, é verdade, é a rua, mas estamos em frente à fábrica e a rua também é ‘deles’”. Às sete horas, apesar de ninguém ter sido empregado e de já estarem todos a 500 metros da usina se aquecendo com um café ruim, eles ainda têm medo. Apenas uma mulher aceita contar que busca um trabalho há meses e que “não há nada”. Mas ela não quer dizer seu nome nem sua idade ou origem.

As maquiladoras sempre tomaram medidas para ocultar as informações. É preciso voltar ao escritório do Cittac para aprender um pouco mais sobre esse mundo tão secreto. Aqui, aqueles que um dia abriram a porta e aprenderam seus direitos não têm mais receio de falar.

Há anos o mesmo discurso é repetido: trabalhar nas maquiladoras é um inferno. E a nova crise só agrava esse cenário. No mercado há mais de 20 anos, Rogelio já passou por várias empresas da região: “Venho do Michoacán e quando cheguei aqui comecei a trabalhar para a japonesa Tabuki, onde montava alto-falantes; depois, na Tabushi, também japonesa, fazia cabos para a Canon; por último fui para a americana Sohnen, a pior de todas, onde consertava máquinas elétricas”. Na Sohnen, Rogelio fez cursos noturnos, que frequentava após dez horas diárias de trabalho, para se tornar técnico. Foi promovido e tinha um salário quase decente (1.700 pesos por semana, R$ 224), mas o ritmo era exaustivo. “Tínhamos 20 minutos para consertar uma máquina. Se não conseguíssemos, era preciso terminar à noite. Sem receber hora extra, é claro.”

Segundo seu supervisor, Rogelio não era rápido o suficiente. A verdade, porém, é que ele começou a organizar um sindicato com outros operários: eles haviam se reunido várias vezes em um parque e distribuíam panfletos na saída da fábrica. Os supervisores perguntaram aos outros trabalhadores se Rogelio era quem os incitava e, considerado pela diretoria como “o chefe”, uma bela manhã ele foi demitido e recusou o cheque irrisório de indenização que lhe ofereceram depois de anos na empresa. Graças a uma batalha judicial travada pelo Cittac, Rogelio recebeu uma quantia maior.

A Sharp o contratou e o manteve durante algumas semanas, antes de tomar conhecimento de seu “passado terrível” e demiti-lo. Desde então, a indústria eletrônica de toda a península da Baixa Califórnia fechou as portas para Rogelio. Em 2007, ele conseguiu trabalho na Unisolar Ovonics, uma maquiladora americana de painéis solares. “O trabalho não é fácil. Há 16 fornos e nenhum exaustor, o calor é sufocante. A zona de cortes é a mais perigosa. Durante todo o dia você respira a poeira da fibra de vidro, que também cola na pele e cobre o corpo inteiro”, conta. As queixas dos trabalhadores não surtem efeito: “Toda vez nos repetem que temos sorte de ter trabalho em tempos de crise”.

Ameaças constantes de demissão

As ameaças de demissão tornaram-se mais sérias ao longo do ano. Junto com Manuel, um imigrante hondurenho, Rogelio levantou informações sobre a empresa para redigir um panfleto que eles distribuíram discretamente aos operários. Descobriram assim que o novo presidente da Unisolar Ovonics, Mark Morelli, foi recentemente parabenizado pelos bons resultados do grupo (“alta de 16% nos lucros”, precisa Manuel), antes de anunciar perspectivas radiantes para os painéis solares – graças à “consciência ambiental”! “Se acreditarmos no presidente, eles já têm encomendas garantidas até 2012. Então, por que nos ameaçar constantemente de demissão?”, indigna-se Rogelio. “A crise econômica existe de fato,” acrescenta Cotta, “mas ela é também um pretexto para manter os funcionários desmobilizados e deixar de lado qualquer possibilidade de aumento salarial”.

Para as organizações patronais, “em tempos difíceis” esse tipo de reivindicação seria “inoportuna”. Mas isso não é o mais importante, pois, de acordo com Claudio Arriola, presidente em Tijuana da Câmara Nacional da Indústria Eletrônica e das Telecomunicações (Canieti), mesmo que ainda restem alguns meses turbulentos, o crescimento econômico se aproxima. O presidente Calderón havia feito exatamente o mesmo discurso na véspera, afirmando que “os sinais de retomada se multiplicam”.

Se o otimismo domina a imprensa internacional, a realidade local parece colocá-lo à prova. A indústria eletrônica, setor que mais emprega na cidade, não está em alta. Há dez anos, os proprietários falavam de Tijuana como o “sul do Vale do Silício californiano”, a “capital mundial da televisão” e a “cidade do pleno emprego”. Os entusiastas das maquiladoras não se cansavam de elogiar um modelo que havia atraído milhões de dólares em investimentos estrangeiros, exaltando o fato de que sete em cada dez televisores vendidos nos Estados Unidos eram fabricados em Tijuana.

De 1994, ano de assinatura do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), a 2001, houve de fato uma expansão prodigiosa. O setor apreciava muito as pequenas mãos ágeis dos operários e as autoridades não fiscalizavam a utilização de produtos poluentes, principalmente o chumbo.

Às portas da Califórnia, as maquiladoras contratavam migrantes para produzir os aparelhos eletrônicos cujo consumo aparentemente jamais cairia. “De 1994 a 2000, tivemos uma economia de pleno emprego em Tijuana, com apenas 1% de desocupados”, explica Cuauhtémoc Calderón, pesquisador em economia do Colégio da Fronteira Norte de Tijuana. “Em toda a zona fronteiriça, as maquiladoras tornaram-se uma faixa de contenção da imigração. Mas esse modelo de empresa é totalmente isolado do resto da economia e não produz efeitos estruturais em outros setores: os materiais são importados, montados e exportados. As maquiladoras não puderam absorver a migração massiva a que assistimos e a desregulamentação brutal de nossa economia provocou o deslocamento de 500 mil mexicanos por ano, um fenômeno que um país normalmente vive apenas em tempos de guerra”, diz ele.

As primeiras falhas do modelo apareceram com o novo milênio: a recessão de 2001 nos Estados Unidos provocou a demissão de 200 mil trabalhadores nas maquiladoras da fronteira. Em 2002, o setor eletrônico demitiu 31% de sua mão de obra, sendo 27% em Tijuana. Isso porque, como explica Leticia Hernandez, especialista nas questões de investimentos, “Tijuana é totalmente dependente dos Estados Unidos. Até 2008, 78% do investimento direto estrangeiro destinado à zona de fronteira era americano”. E conclui: “Portanto, é evidente que a crise lá provocou um desemprego inédito aqui”.

No segundo semestre de 2009, a taxa de desemprego oficial em Tijuana (7%) está maior do que a média nacional (5%) e a economia informal ainda ocupa, como no resto do país, a metade da população ativa. O despertar é amargo: “Não houve transferência de tecnologia e, em quatro décadas, a criação de postos de engenheiros e técnicos foi decepcionante”, analisa a socióloga Cirila Quintero, especialista em maquiladoras, do Colégio Superior da Fronteira Norte de Matamoros. Em Tijuana, 13% dessas empresas não dispõem de nenhum engenheiro e 65% empregam de um a dez. Da mesma forma, 73% das maquiladoras em eletrônica não possuem centros de pesquisa e desenvolvimento, e metade dessas empresas monta apenas uma variedade de produto. “As maquiladoras sozinhas não criam desenvolvimento, mas apenas um crescimento desequilibrado que tem como principal consequência empregos precários e mal remunerados”, lamenta a pesquisadora.

Essa economia de exportação, totalmente dependente do grande vizinho do norte, já estava se desacelerando antes da crise. A entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 havia modificado o cenário. “Há dez anos observamos abusos cada vez mais escandalosos, além das demissões não indenizadas,” constata Cotta. “As fábricas se negam a pagar qualquer coisa e até mesmo a oferecer proteção contra os produtos perigosos. Mas como não há mais trabalho, as pessoas não dizem nada.”

Sem escolha

Atualmente fala-se muito da Power Sonic, uma maquiladora que fabrica baterias para aparelhos eletrônicos. “Antes, ninguém queria trabalhar lá porque é preciso manipular chumbo o dia inteiro,” explica Rogelio. “Hoje, há fila na porta da fábrica todas as manhãs”. Aos 36 anos, com dois filhos e um financiamento para sua casa, Netzahualcóyotl afirma que não teve escolha quando perdeu seu emprego na Sohnen. Ele quer crer na qualidade do equipamento de segurança que utiliza: “Os chefes dizem que apenas quem não os utiliza corretamente fica doente”. Ele ainda não foi atingido – segundo os critérios da empresa, que realiza testes sanguíneos mensais. “Eles não nos dão os resultados, mas se a taxa de chumbo no sangue está muito alta, nos mudam de posto. É assim que sabemos quando estamos doentes.”

Componente essencial de todo equipamento eletrônico, o chumbo é onipresente, seja nos temores ou nos rios. Durante seis anos, o bairro de Chilpancingo, localizado abaixo dos parques industriais, lutou contra os resíduos de chumbo abandonados na natureza. Graças à ajuda de uma organização não-governamental (ONG) americana, a Environmental Health Coalition, em 2008 foram enviadas 3 mil toneladas de terra aos Estados Unidos para despoluição e 8 mil toneladas foram vedadas sob uma capa de concreto.

Quem arcou com os custos foram os governos dos dois países, e não as empresas. “Eles comemoravam diante da imprensa enquanto nós, durante anos, gritávamos à toa quando nasciam crianças sem cérebro ou que morriam precocemente. Infelizmente, isso não mudou nada, ainda não há um controle sério sobre os resíduos abandonados pelas empresas, nem sobre a saúde dos trabalhadores”, lembra Yesina Palomares, uma das colaboradoras da organização em Chilpancingo. Carmen, que trabalhava na Panasonic, é testemunha: “Eu selava chumbo nas placas eletrônicas e sentia nitidamente que respirava fumaça a cada operação”. Em seis meses, apareceram manchas em seu rosto, cansaço generalizado e dores nos rins. “O médico da Panasonic garantia que não era nada, e depois um clínico geral fez exames e me disse: ‘ou você para, ou terá uma leucemia em breve’”, conta.

Carmen obedeceu porque, na época, era possível mudar facilmente de maquiladora. Hoje é diferente. “Somos menos criteriosos”, afirma. No seu bairro, o número de desempregados vem aumentando desde o fechamento da Sony. Alguns de seus vizinhos decidiram voltar aos estados de origem. “Eu vim de Chiapas quando tinha 13 anos. Em três décadas aqui, nunca tinha visto ninguém voltar ao sul”, diz ela.

A crise é sentida em Tijuana em especial por aqueles que têm mais de 50 anos. Desde sempre, as maquiladoras contratam trabalhadores jovens. “As pessoas que atingiram essa idade realmente sofrem,” explica Netzahualcóyotl. “Trabalham como loucos para não ouvir ‘você não tem ritmo’. Têm a melhor produtividade da empresa, mas custam caro demais. Por mais que trabalhem duro, não adianta: serão demitidos.”

Foi o que aconteceu com Delfina, aos 54 anos: “Me lembro que no final eu fazia o trabalho de três pessoas, tinha dor de cabeça, meu nariz sangrava e meu supervisor estava o tempo todo atrás de mim, dizendo para eu me apressar. Depois decidiram nos fazer trabalhar de pé, porque sentados éramos menos eficazes. Não podíamos falar, ir ao banheiro, nem mascar chicletes”.

Delfina foi demitida sem explicações em novembro de 2008. Não recebeu qualquer indenização, nem mesmo sua última semana de trabalho foi paga. Prestou queixa e aguarda que o Conselho de Conciliação, o equivalente a um tribunal de pequenas causas trabalhistas, dê o veredicto. Atualmente ela sobrevive com apenas 200 pesos por semana (R$ 26), enviados por uma de suas filhas, que tem uma mercearia. E divide a quantia por três pessoas. “Fazemos duas refeições por dia”, afirma. Depois de 25 anos na maquiladora, Delfina não tem aposentadoria nem economias. Criou sozinha seus sete filhos e, como muitas mães solteiras, trabalhou à noite durante anos, enfrentando todo o tipo de percalços.

Na Mattel, fábrica de brinquedos, Delfina teve de lutar por seus direitos. “Quando a empresa em que eu trabalhava foi comprada pela Mattel, eles quiseram me demitir sem pagar meus direitos. Como eu recusei, eles me sequestraram.” Ela passou uma noite inteira trancada em um escritório com um guarda e foi obrigada a aceitar um cheque de 2 mil pesos (R$ 263) para poder sair na manhã seguinte. “Meus filhos estavam esperando, entende?” Com a ajuda do Cittac, ela denunciou na televisão e no rádio o ocorrido, mas ainda assim a Mattel não fez absolutamente nada. Além disso, a Justiça considerou que não houve qualquer “reclusão forçada”, pois não foi feito um pedido de resgate.

Hoje Delfina sabe que não encontrará trabalho em uma maquiladora. “É impossível na minha idade, pois nem os jovens eles contratam mais”, diz ela, mostrando seu enteado, desempregado aos 20 anos. “Há quem tente vender bugigangas, mas somos todos pobres aqui, não podemos comprar grandes coisas.” Seu bairro se parece com muitos outros de Tijuana: no início a ocupação da área era ilegal, depois foi regularizada. No entanto, as autoridades nunca asfaltaram as ruas e a comunidade teve que se organizar para obter água e eletricidade. Quando a casa de seu filho pegou fogo, os bombeiros não vieram e a família perdeu tudo. “Isso não é normal,” indigna-se, “mas a quem reclamar? A maquiladora em que ele trabalha não ajudou com nada, apenas seus colegas contribuíram. A solidariedade é a única coisa que ainda funciona aqui”.

Anne Vigna é jornalista.

1 Ler notadamente Janette Habel, “Entre le Mexique et les Etats-Unis, plus qu’une frontière” e Anne Vigna, “Sem tortillas nem empregos”, Le Monde Diplomatique, respectivamente dezembro de 1999 e março de 2008.
2 Mais informações em: www.cittac.org
3 Mais informações em: www.aim.org.mx
4 Jorge Carrillo e Redi Gomis, La Maquiladora en datos, resultados de una encuesta, Colegio de la Frontera Norte, Tijuana, 2004.

Le Monde Diplomatique Brasil

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