sábado, 28 de novembro de 2009

NEPAL - Sacrífício de búfalos

Um açougueiro toma parte no sacrifício em massa de búfalos no distrito de Bara, 24 de novembro de 2009.
Faca-wielding entoar mantras hindus devotos religiosos antes do início das ofertas de sacrifício à deusa hindu Gadhimai em Bariyapur aldeia, distrito de Bara do Nepal, em 24 de novembro de 2009.
Um devoto chega Gadhimai Templo com os pombos para as ofertas do festival para o Gadhimai Deusa em Bara District, 24 de novembro de 2009.
Um açougueiro especialmente designado para animais de abate chega a tomar parte no sacrifício em massa de búfalos perto Gadhimai Templo de Bara District, 24 de novembro de 2009.
Devotos - como eles esperam por um sacrifício em massa de búfalos perto Gadhimai Templo no Nepal, em 24 de novembro de 2009.
Um devoto hindu empunha uma khukri, uma faca curva do Nepal, como ele abata um búfalo como uma oferenda à deusa hindu Gadhimai no distrito de Bara, no sul de Katmandu, em 24 de novembro de 2009. Até um milhão de devotos hindus se reuniram 24 de novembro em um vilarejo no Nepal para presenciar o abate de centenas de milhares de animais em um sacrifício em massa que gerou críticas generalizadas. Adoradores viajaram longas distâncias, muitos provenientes da vizinha Índia, para participar de dois dias Gadhimai festival, que homenageia a deusa hindu do poder e ocorre uma vez a cada cinco anos no sul do Nepal
Nepaleses hindus ter bezerros ao Templo Gadhimai no Nepal para o sacrifício em massa de animais como parte do festival Gadhimai em 24 de novembro de 2009.

ABC NEWS

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

70 questões para entender o etanol

Ronaldo França

Montagem sobre fotos Jody Dole/Getty Images e Pedro Rubens

O barril de petróleo bateu em 109 dólares na semana passada. O consumo mundial chegou a 1 000 barris por segundo. A combinação desses dois números é o melhor indicador de que a busca por combustíveis alternativos deixou de ser uma atividade pitoresca para se elevar ao centro das atenções das empresas, dos governos e das instituições internacionais. Entre todos os combustíveis alternativos, o mais viável atualmente, do ponto de vista econômico e ambiental, é o etanol. Entre todos os tipos de etanol, o de cana-de-açúcar é o que tem maiores chances de participar substancialmente da matriz energética planetária. Entre todos os países produtores de etanol, o Brasil é aquele que apresenta as melhores condições geográficas, climáticas, culturais, econômicas e tecnológicas para liderar a produção do etanol, nome pelo qual é mais chamado hoje no planeta o álcool combustível, velho conhecido dos brasileiros desde a iniciativa pioneira dos anos 70, desencadeada pela primeira crise do petróleo.

Desde seu ressurgimento meteórico no cenário mundial, o álcool/etanol tornou-se alvo de todo tipo de especulação, sendo motivo de projeções nacionalistas gloriosas. Foi motivo também de outro tipo de especulação, muito mais pessimista: para manter a frota global de carros rodando, o planeta seria obrigado a abandonar o cultivo de alimentos para plantar cana-de-açúcar e produzir etanol. Para colocar a questão do etanol na perspectiva correta, VEJA organizou o questionário das páginas seguintes. São setenta perguntas e respostas que cobrem todas as principais questões levantadas pela entrada do etanol no foco dos holofotes. Nessa tarefa, VEJA valeu-se de inúmeras fontes e teve o privilégio de contar com a dedicação especial de um dos maiores especialistas no assunto, Luiz Augusto Horta Nogueira, engenheiro mecânico e doutor pela Universidade Estadual de Campinas. Nogueira é pioneiro nos estudos que levaram à criação da área de biocombustíveis da Agência Nacional do Petróleo, da qual foi diretor de 1998 a 2004. Hoje é professor titular do Instituto de Recursos Naturais da Universidade Federal de Itajubá e consultor para bioenergias de diversos órgãos internacionais, entre eles o Banco Mundial e a FAO, a divisão de agricultura e alimentação das Nações Unidas.

PANORAMA


Claro Cortes/Reuters


Engarrafamento em Pequim: a gasolina emite dez vezes mais CO2 do que o etanol

1 O que são os combustíveis "verdes"? São aqueles cuja emissão de CO2 durante o processo de produção ou no cano de descarga dos carros é menor que a proveniente do diesel e da gasolina.

2 Quais são os combustíveis "verdes"? Os mais viáveis são o etanol e o biodiesel. O hidrogênio líquido e a eletricidade produzida por baterias não emitem nenhum tipo de fumaça quando utilizados como combustíveis de automóveis. Seu uso, porém, ainda é restrito por problemas de distribuição e de pouca autonomia.

3 Qual o menos poluidor? A forma como os combustíveis são produzidos deve ser levada em conta na resposta e não apenas o que escapa do cano de descarga. A produção de hidrogênio exige gasto de eletricidade, o que, por sua vez, requer a queima de carvão e petróleo em termelétricas. Em termos globais, 60% da energia elétrica vem do carvão, a mais poluente das fontes energéticas.

4 Por que o etanol e o biodiesel são os mais viáveis? O etanol e o biodiesel têm a vantagem de, por ser líquidos, aproveitar toda a estrutura logística da gasolina e do diesel. O etanol tem uma equação econômica ainda mais favorável, em razão da produtividade. Com 1 hectare de terra se consegue produzir 7 500 litros de etanol. No caso do biodiesel de soja, obtêm-se 600 litros por hectare. O etanol continuará atraente mesmo que o preço do barril de petróleo caia a 35 dólares. Todas as demais alternativas energéticas "verdes" só se tornam economicamente atraentes quando o barril de petróleo está valendo, no mínimo, 80 dólares.

5 Quanto esses combustíveis representam hoje no consumo mundial? São utilizados 600 bilhões de litros de combustível por ano no mundo. O consumo de biocombustíveis (etanol de cana, etanol de milho e biodiesel) é de 10% disso, algo em torno de 60 bilhões de litros.

6 Qual é a parcela de etanol no consumo mundial? O mundo utilizou, em 2007, 54 bilhões de litros de etanol. O país produziu, na última safra (parte da qual será vendida ao longo deste ano), 21,5 bilhões de litros. Desse total, pouco mais de 3 bilhões deverão ser exportados.

7 Quanto o etanol pode representar no futuro? A estimativa é de que o etanol chegue a prover 20% de todo o combustível líquido usado no mundo. Em valores de hoje, 120 bilhões de litros.

8 O etanol brasileiro, em particular, que fatia terá? O Brasil, por suas características de clima, área agricultável, teria condições de suprir 10% da demanda mundial. A questão é que a próxima fronteira tecnológica já se anuncia. Está em desenvolvimento o etanol de celulose, obtido a partir de uma variedade maior de plantas e gramíneas. Já há fábricas em teste no mundo, mas ainda não se aperfeiçoou o processo para torná-lo comercialmente viável. Ele pode vir a ser tão ou mais rentável que o etanol feito de cana-de-açúcar.

9 Que países estão adiantados na corrida pelo etanol de celulose? Os Estados Unidos lideram as pesquisas e o Brasil vem logo atrás. Calcula-se que leve ainda entre cinco e dez anos para os primeiros litros chegarem ao mercado.

10 Além da ainda relativa abundância, que outras vantagens tem o petróleo? Ainda não está inteiramente resolvido o problema da padronização internacional do combustível verde. Além disso, se queimar petróleo polui, tirar petróleo da terra ou do mar é uma atividade limpa, enquanto produzir etanol exige ocupação de vastas áreas de terreno, irrigação e uso de químicos agrícolas. A falta de um mercado mundial é um entrave ao etanol.

11 Um dia a eletricidade vai aposentar o etanol? No Brasil as hidrelétricas produzem de forma limpa mais de 90% de toda a energia elétrica. Na maior parte dos países, porém, a eletricidade é obtida com a queima de carvão. Portanto, o processo de produção da eletricidade é muito poluente. No futuro, a energia nuclear poderá substituir o carvão e – caso esteja resolvido o problema da destinação final do lixo atômico – será possível obter eletricidade sem poluição.

12 Como se posiciona o hidrogênio nessa corrida? Vale o mesmo raciocínio usado para a eletricidade. Quando o processo de produção do hidrogênio líquido for limpo, ele será o menos poluente de todos os combustíveis.

13 A partir de quais matérias-primas se pode produzir etanol hoje no mundo? As mais desenvolvidas são o milho e a cana. Alguns países utilizam também a beterraba, o trigo e a mandioca. Brasil e EUA produzem 85% do etanol mundial (O Brasil produziu 21,5 bilhões de litros e os EUA, 24,5 bilhões de litros, na última safra). O terceiro colocado é a China, com 2,7% de participação nesse mercado. Em quarto lugar está a União Européia, com 2,5%.

14 Quais são os principais países produtores de etanol? Brasil (cana-de-açúcar), Estados Unidos (principalmente milho, mas com boa perspectiva de chegar primeiro ao etanol de celulose), Canadá (trigo e milho), China (mandioca), Índia (cana, melaço) e Colômbia (cana e óleo de palma). A Alemanha produz metade do biodiesel do mundo.

15 Quais as vantagens do etanol produzido a partir de cana-de-açúcar sobre os demais tipos de etanol? A primeira é a limpeza. Para cada litro de gasolina utilizado na lavoura ou na indústria, são produzidos 9,2 litros de etanol. No caso do etanol de milho, essa relação cai para 1,4 litro de etanol para cada litro de combustível fóssil empregado no processo. A segunda é a produtividade. No Brasil, são produzidos 7 500 litros de etanol por hectare plantado de cana. No caso do milho, cada hectare produz 3 000 litros.

16 Como se compara o etanol com os demais combustíveis verdes? O etanol é o único que alia maturidade tecnológica e baixo custo de produção.

17 Que outros países produzem etanol de cana-de-açúcar? A cana-de-açúcar se desenvolve melhor nas regiões entre os trópicos. Isso compreende a porção norte da América do Sul, África, sul da Ásia, norte da Oceania, América Central e sul da América do Norte. Mas hoje só China, Colômbia, Tailânda, Índia e Austrália têm produção regular.

18 Por que o etanol despertou a atenção mundial? Porque os Estados Unidos se renderam às evidências e, como são o maior consumidor de combustível do planeta, chamaram a atenção de todos para a inevitabilidade de conseguir um combustível limpo em curto prazo.

19 Os combustíveis verdes – e o etanol em especial – podem substituir o petróleo em outros usos que não o transporte? Quais são esses usos? A alcoolquímica, o equivalente do etanol para a petroquímica, já desenvolveu alguns produtos, como plásticos e resinas. Ainda são experimentais, mas começam a surgir negócios como a substituição de nafta por etanol na fabricação de tubos de PVC. É grande a expectativa sobre o plástico de etanol, que tem a vantagem de ser biodegradável.


Reuters


Usina de Itaipu: do bagaço da cana pode-se obter tanta energia quanto a gerada pela maior das hidrelétricas

20 O etanol se presta a usos como eletrificação e aquecimento? Isso é possível com a utilização do bagaço de cana que sobra na fabricação do etanol. Se todas as 336 usinas brasileiras estivessem produzindo eletricidade, trabalhando com a tecnologia mais avançada já disponível, o potencial de geração seria de 12 000 megawatts, em 2015, similar à capacidade da usina de Itaipu. Esse potencial poderá triplicar, nos próximos dez anos, com os novos processos em desenvolvimento.

21 Quando começou a produção de etanol a partir de cana-de-açúcar? As primeiras experiências no Brasil foram feitas na década de 20, mas o grande impulso se deu na década de 70, quando foi criado o programa nacional do álcool.

22 Qual a parcela da frota brasileira que utiliza etanol? Dos 19 milhões de automóveis, cerca de 13,6 milhões são movidos a gasolina. Há 200 000 carros movidos a álcool. Outros 5,2 milhões são flex. No ano passado, 85% dos veículos novos saíram de fábrica com motor flex. A continuar assim, em 2015, quando a frota brasileira de automóveis estiver em 30 milhões de unidades, 19 milhões serão bicombustíveis.

23 O etanol poderá substituir a gasolina como o combustível mais usado no mundo? Não. Calcula-se que toda a disponibilidade de terras e condições climáticas seja suficiente apenas para a produção de 20% do combustível utilizado no mundo.


Foto Silvestre Machado/Opção Brasil


CONSUMIDOR

24 Quais as vantagens do etanol sobre a gasolina para os consumidores? O álcool é menos econômico, mas dá mais potência ao motor. O benefício ambiental, no entanto, é o grande atrativo.

25 A partir de que diferença de preço o etanol passa a ser economicamente compensador? Como tem rendimento inferior ao da gasolina (é preciso mais álcool para o veículo percorrer a mesma distância), o álcool tem de custar, no máximo, 70% do valor da gasolina. Com o litro de gasolina a 2,50 reais, vale a pena usar o álcool se ele estiver, no máximo, a 1,75 real.

26 Existe uma proporção ideal de mistura de etanol e gasolina? Não. Com os carros flex, pode-se usar qualquer proporção desses combustíveis no tanque.


Cempe/Petrobrás


A vantagem do etanol sobre a gasolina é que, por ter maior octanagem, torna os carros mais velozes. A Fórmula Indy adotou o combustível no ano passado


Jamie Squire/Getty Images

27 É melhor usar etanol puro ou misturado A gasolina? Não há diferença. Do ponto de vista econômico, a escolha depende do preço desses combustíveis na bomba.

28 É verdade que se deve intercalar o abastecimento de álcool com gasolina para manter o motor lubrificado? Não há necessidade. Os motores são feitos de ligas preparadas para trabalhar a vida inteira com álcool.

29 Deve-se optar pela gasolina no inverno? Os carros a álcool têm mais dificuldade para começar a funcionar em ambientes mais frios. Mas não é necessário substituir o combustível. Basta ter o reservatório de gasolina, localizado junto ao motor, sempre abastecido.

30 O etanol pode trazer danos ao motor? Pelo fato de o etanol ser mais corrosivo do que a gasolina, os motores dos carros flex e a álcool têm de ser fabricados com ligas especiais, mais resistentes.

31 O que muda no motor flex em relação aos convencionais, a álcool ou a gasolina? Ele tem sensores que identificam o tipo de combustível que se está usando (ou a proporção de cada um no tanque) e regulam o motor automaticamente.

32 Um motor a etanol tem a mesma durabilidade dos motores a diesel ou a gasolina? Não há diferença quanto à durabilidade.

33 Há o risco de comprar etanol adulterado, assim como ocorre com a gasolina? Sim, da mesma forma que acontece com a gasolina.

34 O que pode provocar variações no preço do etanol? Por ser um produto de base agrícola, o etanol está sujeito às variações de preço em razão da safra e de fenômenos climáticos. Essa situação só será resolvida quando for criado um estoque regulador. O preço do petróleo também influencia. Vira uma referência para o revendedor, que pode tentar aumentar sua margem de lucro.

35 O etanol brasileiro é caro ou barato, comparado ao de outros países? O etanol do Brasil é o mais barato do mundo. Essa é a razão dos altos impostos de importação mantidos pelos Estados Unidos, que chegam a dobrar o preço do etanol brasileiro importado.

36 Quem tem carro a álcool corre o risco de ficar sem combustível, por problemas na produção, a exemplo do que aconteceu recentemente com o veículo a gás no Rio de Janeiro e em São Paulo? O risco é baixo. O mercado de etanol já se desenvolveu a um ponto em que se tornou mais difícil aos usineiros reduzir sua produção de álcool para priorizar a exportação de açúcar, como ocorreu na década de 80. Mas o governo não deve abrir mão dos mecanismos de controle.

37 Veículos pesados, como caminhões, poderão usar o etanol como combustível? Para os veículos pesados, o mais indicado é o diesel. Nesse caso, a melhor alternativa energética seria o biodiesel, que ainda não conseguiu alcançar o mesmo patamar de produtividade que o etanol de cana-de-açúcar.

38 O automóvel perde força e velocidade? Ao contrário, ganha mais força de arranque e velocidade final.



MEIO AMBIENTE

39 O etanol ajuda mesmo no combate ao aquecimento global? A adoção do etanol é considerada um dos principais mecanismos de combate ao aquecimento global, pois reduz as emissões de CO2.

40 De que forma? Todo o gás carbônico emitido pelos veículos movidos a álcool é reabsorvido pelas plantações de cana-de-açúcar. Isso faz com que as emissões do gás sejam reduzidas. Além disso, a grande diferença em relação ao petróleo é que o etanol usa o gás carbônico retirado da atmosfera pelas plantas. O petróleo joga na atmosfera o gás carbônico armazenado no solo e não o reabsorve (veja quadro).

41 A cadeia produtiva do etanol – plantio, colheita, industrialização e distribuição – causa prejuízos ao meio ambiente? Há, sim, alguns impactos ambientais que ainda precisam ser eliminados. As queimadas são um exemplo. Em São Paulo, elas deverão ser totalmente abolidas até 2017. A vinhaça, o principal rejeito industrial da fabricação do etanol, também precisa ter destinação adequada para não contaminar os mananciais. Algumas usinas já a utilizam como adubo natural na lavoura de cana – não apenas por consciência ambiental, mas porque há uma redução de custos com fertilizantes.

42 A plantação de cana-de-açúcar consome água a ponto de afetar os mananciais? Esse é um risco. É necessário adotar mecanismos de reciclagem da água empregada no processo de fabricação. A produção de etanol em usinas mais ultrapassadas consome 21 000 litros de água por tonelada de cana. Hoje, as melhores usinas usam entre 5 000 e 1 000 litros. A sorte é que elas são maioria no país.

43 A plantação de cana pode provocar desmatamento na Amazônia e no cerrado? As entidades de produtores de etanol alegam que, embora o solo da Amazônia seja favorável à cana, o regime de chuvas da região Norte não é compatível com essa cultura. Isso, no entanto, não elimina o risco de que a expansão da lavoura de cana "empurre" em direção à Amazônia outras atividades igualmente indutoras do desmatamento, como a pecuária e a produção de soja.

44 O plantio da cana degrada o solo? Sim, pode reduzir a fertilidade da terra. Daí a necessidade de fazer o rodízio com a cultura de leguminosas, como feijão, amendoim e soja. A cana tem de ser replantada a cada seis anos. No intervalo de seis meses entre a retirada das plantas antigas e o replantio é que se alterna a cultura.

45 Por que muitos produtores de cana-de-açúcar queimam a lavoura antes da colheita? Para eliminar as folhas, o que abre espaço entre as plantas e evita que os trabalhadores se cortem com as folhas afiadas. A prática, no entanto, está condenada e terá de ser totalmente abolida no estado de São Paulo até 2017.

46 Qual é a destinação dos rejeitos da produção de cana? Além da vinhaça, usada na fertilização do solo, há o bagaço. Parte dele é empregada nas caldeiras para gerar energia. O que sobra é vendido às indústrias. Quase todo o suco de laranja produzido no Brasil utiliza o bagaço como fonte de energia. A palha (folhas secas) é usada também nas caldeiras. O que sobra fica no campo, como adubo.


Paulo Fridman/Corbis/Latin Stock

Fabricação de suco de laranja: o setor usa o bagaço da cana na produção de energia

47 As usinas de etanol utilizam combustíveis fósseis para funcionar? Para gerarem a própria energia, elas usam o bagaço de cana como combustível nas caldeiras. Entretanto, como toda atividade produtiva, o sistema de transportes que abastece as usinas utiliza combustíveis fósseis, como o diesel e a gasolina. Além disso, os defensivos agrícolas e adubos têm substâncias derivadas de petróleo em sua composição. Até o óleo usado nas máquinas entra na conta do balanço ambiental.

48 As usinas criam transtornos para a vizinhança? Um dos principais problemas é o odor que se espalha pelo ar, proveniente da fermentação natural do bagaço da cana e da vinhaça.

49 Quanto das emissões de gases de efeito estufa a produção de etanol poderá reduzir no futuro? Ela já reduz hoje entre 60% e 90% das emissões (dependendo da eficiência do processo de fabricação). Não há estudos que indiquem uma redução ainda maior.

IMPACTO SOCIAL

50 Há risco de que a produção de etanol prejudique a produção de alimentos no mundo? Parte da alta de preços de alimentos no mundo, no ano passado, pode ser atribuída à expansão da lavoura de milho voltada para a produção de etanol nos Estados Unidos, mas o mundo produz mais alimento do que consome. Em São Paulo a plantação de cana ocupou o espaço de pastagens, nos últimos anos, sem que a produção de carne bovina tenha diminuído.

51 Se isso acontecer, quais serão os efeitos? No Brasil, dificilmente isso ocorrerá. Dos 340 milhões de hectares disponíveis para plantio (aráveis) no país, somente 90 milhões seriam adequados à cultura de cana, que atualmente ocupa apenas 7 milhões de hectares (metade deles para a produção de açúcar). O que tem mais chance de acontecer é um deslocamento das lavouras à medida que a cana dominar os espaços antes ocupados por outras culturas. Pode haver ajustes de preços regionais por causa de mudanças na logística de abastecimento.

52 As relações de trabalho na indústria da cana-de-açúcar respeitam o trabalhador? Em geral, a realidade do cortador de cana ainda é muito difícil, com jornadas excessivas, baixa remuneração e condições sanitárias ruins.

53 O que gera mais empregos, a indústria de petróleo ou a de etanol? O etanol emprega vinte vezes mais mão-de-obra por litro produzido do que o combustível fóssil e alternativas energéticas como o hidrogênio e a eletricidade.

54 Em números absolutos, o que isso significa? São Paulo emprega 400 000 pessoas diretamente na produção do açúcar e do álcool atualmente. Mas, com o avanço das técnicas e a mecanização da lavoura, esse número pode cair à metade. Em outras regiões produtoras a tendência é a mesma, mas em ritmo menor.

ECONOMIA

55 Qual é o limite máximo da produção de etanol além do qual se pode prejudicar a disponibilidade de terras para outras culturas? Em tese, há ainda 77 milhões de hectares a ser ocupados no Brasil sem afetar o espaço dedicado a outras culturas. Atualmente, a cana-de-açúcar ocupa 7 milhões de hectares, menos do que a soja (22 milhões) e o milho (13 milhões).


Delfim Martins/Tyba

Favas de soja: o plantio da cana pode crescer sem afetar a produção de alimentos

56 Há no Brasil mão-de-obra qualificada para a produção de etanol em larga escala? Faltam, principalmente, profissionais de nível superior com qualificação específica, como engenheiros. Não há cálculos exatos desse déficit.

57 O Brasil compete em condições de igualdade no mercado internacional de etanol? O preço do etanol brasileiro é bastante competitivo. É até 50% mais baixo do que o do etanol de milho, o que explica o fato de o Brasil deter hoje 40% da produção mundial de etanol.

58 O Brasil subsidia os produtores de álcool? Não. Os subsídios foram pesados no passado, na primeira fase do programa do álcool, mas hoje não há nenhum subsídio aos produtores. O que existe é uma tributação diferenciada, que é maior para a gasolina do que para o etanol, por suas qualidades ambientais. A mesma política é adotada para o gás liquefeito de petróleo (GLP) e o diesel.

59 Quando começou a produção a sério de etanol nos Estados Unidos? Nos últimos três anos, o governo americano passou a dar mais ênfase à produção de etanol, como alternativa à dependência de petróleo e ao aquecimento global.

TECNOLOGIA

60 Existem alternativas para aumentar a produtividade da cana-de-açúcar? A principal delas é o desenvolvimento das novas tecnologias de extração de etanol das plantas. Os estudos indicam que se poderá até triplicar a quantidade de álcool se se passar a aproveitar o bagaço e as folhas da planta no processo de produção.

61 Por que o etanol produzido pelo Brasil, a partir da cana-de-açúcar, é melhor do que o produzido pelos Estados Unidos? A qualidade do produto final é igual. O que os diferencia é a produtividade. Um hectare de cana-de-açúcar produz 7 500 litros, enquanto 1 hectare de milho produz 3 000 litros.

62 O que o Brasil precisa fazer para obter e manter a liderança tecnológica? Investir pelo menos quinze vezes mais do que o atual patamar de 100 milhões de dólares por ano somente em pequisa para a obtenção da tecnologia de produção do etanol de celulose, que, além de aumentar a produtividade por hectare, possibilita a utilização de outras plantas e até mesmo de madeira.

63 O padrão técnico do etanol já faz dele um produto tão regular quanto a gasolina? Embora já se tenha avançado nesse campo, falta uma padronização mais rígida para que o etanol se torne um produto de consumo mundial e ganhe mercado.

64 Quantas variedades de cana-de-açúcar existem e qual é a mais produtiva para o etanol? São mais de 5 000 no banco de espécies para pesquisa, das quais 100 já têm uso comercial. Não existe aquela que se possa considerar a melhor. As grandes usinas chegam a trabalhar com dezenas de variedades simultaneamente, usando uma para cada espécie de solo e de topografia.

65 Quais os principais desafios do etanol? A padronização técnica, o zoneamento econômico-ecológico, em que se delimitarão as áreas de produção de forma que não afetem outras culturas nem a mata nativa da Amazônia e do cerrado, e a expansão do mercado internacional.

66 A produção de etanol por hectare plantado aumentou 40% nos últimos vinte anos. Quanto mais poderá aumentar? A perspectiva é que o melhoramento genético e a hidrólise (extração de etanol também das folhas e do bagaço) produzam ganhos de produtividade da ordem de 50%.

67 Quais são as próximas barreiras tecnológicas? O aprimoramento genético da cana e o desenvolvimento da tecnologia de lignocelulose, por meio da qual se poderá obter etanol de diversos outros tipos de plantas.

68 Quanto o Brasil está investindo em tecnologia? O Brasil investe 100 milhões de dólares por ano, enquanto os Estados Unidos investem 1,5 bilhão de dólares por ano somente em pesquisa.

69 Quanto seria o investimento ideal? O Brasil precisaria investir pelo menos quinze vezes mais do que isso para empatar com os Estados Unidos e se manter na disputa pela posição de liderança.

70 Caso os estados unidos cheguem antes ao Etanol de celulose, o Brasil estará ultrapassado? Não totalmente. Bons acordos podem garantir acesso à tecnologia. As plantas tropicais oferecem mais quantidade de biomassa do que as plantas de regiões temperadas. Até essa vantagem a natureza deu ao Brasil na corrida pelo combustível do futuro.

Revista Veja - 19 de março de 2008

A Terra em alerta

A Terra em alerta

O planeta esquenta e a catástrofe é iminente. Mas existe solução


Ondas de calor inéditas. Furacões avassaladores. Secas intermináveis onde antes havia água em abundância. Enchentes devastadoras. Extinção de milhares de espécies de animais e plantas. Incêndios florestais. Derretimento dos pólos. E toda a sorte de desastres naturais que fogem ao controle humano.

Há décadas, pesquisadores alertavam que o planeta sentiria no futuro o impacto do descuido do homem com o ambiente. Na virada do milênio, os avisos já não eram mais necessários – as catástrofes causadas pelo aquecimento global se tornaram realidades presentes em todos os continentes do mundo. O desafios passaram a ser dois: se adaptar à iminência de novos e mais dramáticos desastres naturais; e buscar soluções para amenizar o impacto do fenômeno.

Em tempos de aquecimento planetário, uma nova entidade internacional tomou as páginas de jornais e revistas de toda a Terra – o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), criado pela ONU para buscar consenso internacional sobre o assunto. Seus aguardados relatórios ganharam destaque por trazer as principais causas do problema, e apontar para possíveis caminhos que podem reverter alguns pontos do quadro.

Em 2007, o painel escreveu e divulgou três textos. No primeiro, de fevereiro, o IPCC responsabilizou a atividade humana pelo aquecimento global – algo que sempre se soube, mas nunca tinha sido confirmado por uma organização deste porte. Advertiu também que, mantido o crescimento atual dos níveis de poluição da atmosfera, a temperatura média do planeta subirá 4 graus até o fim do século. O relatório seguinte, apresentado em abril, tratou do potencial catastrófico do fenômeno e concluiu que ele poderá provocar extinções em massa, elevação dos oceanos e devastação em áreas costeiras.

A surpresa veio no terceiro documento da ONU, divulgado em maio. Em linhas gerais, ele diz o seguinte: se o homem causou o problema, pode também resolvê-lo. E por um preço relativamente modesto – pouco mais de 0,12% do produto interno bruto mundial por ano até 2030. Embora contestado por ambientalistas e ONGs verdes, o número merece atenção.

O 0,12% do PIB mundial seria gasto tanto pelos governos, para financiar o desenvolvimento de tecnologias limpas, como pelos consumidores, que precisariam mudar alguns de seus hábitos. O objetivo final? Reduzir as emissões de gases do efeito estufa, que impede a dissipação do calor e esquenta a atmosfera.

O aquecimento global não será contido apenas com a publicação dos relatórios do IPCC. Nem com sua conclusão de que não sai tão caro reduzir as emissões de gases. Apesar de serem bons pontos de partida para balizar as ações, os documentos não têm o poder de obrigar uma ou outra nação a tomar providências. Para a obtenção de resultados significativos, o esforço de redução da poluição precisa ser global. O fracasso do Tratado de Kioto, ao qual os Estados Unidos, os maiores emissores de CO2 do mundo, não aderiram, ilustra os problemas colocados diante das tentativas de conter o aquecimento global.

Revista Veja

Um atalho no gelo

Pela primeira vez na história, navios cargueiros fazem
pelo Ártico a rota entre a Ásia e a Europa. A proeza
é uma triste consequência do aquecimento global


Thomaz Favaro

AP

Passagem aberta
Navios alemães navegam pelo Oceano Ártico: menos gelo no caminho

O triunfo humano sobre as forças da natureza é, desta vez, um triste sintoma da saúde do planeta. Dois cargueiros alemães estão prestes a se tornar os primeiros a navegar por inteiro a Passagem Nordeste, como é conhecido o trajeto via Ártico entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Essa rota marítima mais curta entre a Europa e a Ásia sempre foi um risco no mapa impossível de ser navegado. Durante o verão, quando a camada de gelo da calota polar se retrai, somente comboios liderados por navios quebra-gelo trafegam pela imensa costa russa – e apenas por trechos curtos. Essa situação já tem data marcada para acabar. Salvo algum contratempo imprevisível, os dois navios, que já ultrapassaram os trechos mais difíceis, devem completar a viagem até o fim do mês. E aqui está a má notícia: a proeza dos cargueiros alemães só foi possível devido ao encolhimento progressivo da calota polar do Ártico, provocada pelo aquecimento global.

A temperatura no Ártico aumentou 2 graus no último século, o dobro da média mundial. O resultado é uma espiral de derretimento que reduziu a camada de gelo permanente em 40%. "Quanto menor a área congelada, menor a capacidade de reflexão dos raios solares. Ou seja, à medida que a área gelada diminui, a região absorve mais calor, aumentando a temperatura e acelerando o derretimento do gelo", diz o glaciologista Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que já participou de três expedições ao Ártico. Em 2007 e 2008, a superfície congelada foi reduzida ao menor tamanho já registrado. A camada de gelo também está mais fina: sua espessura encolhe, em média, 17 centímetros por ano.

Toda a fauna adaptada ao clima único da região está ameaçada. As focas criam seus filhotes durante as primeiras semanas em placas de gelo flutuantes, para que acumulem gordura suficiente antes de se aventurar pela água gelada do mar. O degelo precoce dos glaciares pode resultar na separação prematura desses filhotes, diminuindo suas chances de sobrevivência. Estudos preveem que, devido à diminuição de seu território de caça, a população de ursos-polares estará reduzida a um terço da atual até 2050. Morsas, renas e baleias típicas da região também sofrem com os efeitos da mudança climática. Mas o impacto do derretimento dos polos não se limitará aos rincões frios do planeta. As calotas polares ajudam a manter o clima global ameno e alimentam as correntes marítimas, que redistribuem o calor pelo planeta. A Groenlândia, um imenso reservatório de água doce congelada, contribuiu sozinha para 20% do aumento do nível dos oceanos no século passado.

O paradoxo do aquecimento é que, conforme o gelo derrete, o Oceano Ártico se abre à navegação e viabiliza a exploração de riquezas até então intocadas. Estima-se que a região concentre 13% das reservas de petróleo e 30% de todo o gás natural do planeta. Cinco países que fazem fronteira com o Círculo Polar Ártico (Estados Unidos, Canadá, Rússia, Noruega e Dinamarca) disputam o controle desses recursos. Construídos especialmente para a travessia de águas repletas de icebergs e blocos de gelo, os navios MV Beluga Fraternity e MV Beluga Foresight saíram em julho do Porto de Ulsan, na Coreia do Sul, levando 3 500 toneladas de materiais de construção para uma termelétrica na Sibéria. Se usassem a rota habitual, atravessando o Canal de Suez, no Egito, os barcos percorreriam 20 000 quilômetros até o Porto de Roterdã, na Holanda, o destino final das embarcações. A opção pela Passagem Nordeste fez com que a distância encolhesse 26% – o que representa uma economia de combustível
de 100 000 dólares por navio.

A empresa alemã Beluga, dona dos navios que cruzaram a Passagem Nordeste, já anunciou que vai mandar outros dois barcos para fazer o mesmo trajeto no ano que vem. Ainda levará tempo até que a rota seja considerada uma opção confiável para todos os tipos de cargueiro. Mesmo com cascos reforçados para transitar num mar repleto de placas de gelo, os navios alemães foram acompanhados, por precaução, por pelo menos um quebra-gelo russo. Os cargueiros tiveram de parar por alguns dias no Estreito de Vilkitsky, o ponto mais ao norte da rota, até encontrar um trecho não coberto por gelo para poder seguir viagem. Apesar da mudança do clima, a região só é navegável durante três ou quatro semanas por ano. Devido às condições climáticas adversas e às placas de gelo de centenas de quilômetros que flutuam no oceano, a viagem continua uma aventura imprevisível.


Johnny Johnson/Getty Images

Pouco espaço para caçar
A população de ursos-polares pode cair a um terço
da atual até 2050



Revista Veja - 23 de setembro de 2009

Por que os franceses estão se matando?

Onda de suicídios entre funcionários da France Télécom faz o país
se perguntar o que pode estar errado com o seu modo de vida

Juliana Cavaçana

Jean-Pierre Clatot/AFP

INDIGNAÇÃO COLETIVA
Funcionários da France Télécom protestam na entrada do prédio: "O sofrimento é uma realidade"

Um funcionário da France Télécom, a principal empresa de telecomunicações da França, suicidou-se na pequena cidade de Alby-sur-Chéran, a 600 quilômetros de Paris, na segunda-feira passada. No bilhete deixado à esposa, o suicida culpou a empresa pelo tormento emocional em que vivia. O incidente seria apenas mais um drama familiar – a França possui uma das mais altas taxas de suicídio da Europa –, não fosse um trágico contexto. Nos últimos dezoito meses, 24 empregados da Télécom se mataram. Duas semanas atrás, um técnico em manutenção cortou o próprio ventre com um punhal durante uma reunião com quinze colegas de trabalho. Em julho, outro suicida acusou o patrão: "Faço isso por causa do meu trabalho na France Télécom; é o único motivo". O primeiro comentário do CEO da empresa, Didier Lombard, foi dizer que se matar tinha virado "moda". Agora, os sindicatos querem sua demissão. Com 100 000 funcionários, a France Télécom tem uma taxa de suicídios similar à média nacional, de 17,6 por 100 000 habitantes. Mas a sequência de mortes pôs o país em estado de choque. Não tanto pelas maldades que possam ocorrer dentro da Télécom – mas por ter feito os franceses se perguntarem o que há de errado com seu modo de vida.

Em princípio, eles vivem no melhor dos mundos. Os franceses gozam de uma jornada de trabalho folgada, um salário mínimo polpudo, férias prolongadas e aposentadoria precoce. A legislação trabalhista dificulta as demissões. Mas o ambiente é envenenado pelo temor de que a rede social que garante a assistência aos cidadãos do berço ao túmulo possa estar fazendo água. O engessamento do mercado de trabalho, que torna dificílima qualquer demissão, é um dos fatores que emperram a economia do país. Poucos franceses estão dispostos a abdicar das regalias, mas muitos são forçados a fazê-lo – sob o risco de perder o emprego. Para piorar, a crise mundial encolheu ainda mais o número de postos de trabalho: o desemprego entre os jovens chega a 25%. O resultado é um clima de insegurança em toda a sociedade. Um francês consome, em média, 29 antidepressivos por ano, quase o dobro da média na Alemanha e na Itália.

No caso da France Télécom, a onda de suicídios ocorre em um contexto de reestruturação da empresa. Privatizada em 1997, a companhia adotou um modelo de negócios mais agressivo e enxugou 40 000 nomes da folha de pagamento. Para seus 100 000 empregados, dos quais dois terços ainda são funcionários públicos, isso significou metas de produtividade, promoções por mérito e cobranças de maior eficiência. Para muitos franceses, trabalhar em um ambiente competitivo como esse é algo que fere a própria identidade nacional. Haja antidepressivos.

Revista Veja - 7 de outubro de 2009

UNICAMP 2010 - fase1

1. Calcula-se a idade média da população somando-se a idade de todos os indivíduos e dividindo o resultado pelo número de indivíduos. O mapa abaixo representa a projeção da idade média para os países em 2009.

a) Com base neste mapa, indique a faixa de idade média da Itália e do Paraguai. Indique dois desafios socioeconômicos que a Itália enfrenta em relação à idade média da sua população.
b) Dê duas razões associadas ao fato de a África Subsaariana apresentar uma elevada população jovem em relação à adulta, portanto uma média de idade muito baixa.

2. Uma das definições de desenvolvimento sustentável é: o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender às necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro.
(Adaptado de
http://www.wwf.org.br/informacoes/questoes_ambientais/desenvolvimento_sustentavel/)
a) O solo é um recurso fundamental para a subsistência da população mundial. Que práticas de conservação do solo podem garantir sua preservação para as gerações futuras?
b) Segundo o INPE, nos últimos meses de novembro, dezembro e janeiro, foram registrados, na Amazônia Legal, 754 km² de desmatamentos por corte raso ou degradação progressiva. Indique o principal objetivo desse desmatamento e as consequências ambientais dessa ação.

Respostas
Questão 1
a)
A faixa de idade média da Itália é entre 40 anos e mais e a do Paraguai é entre 20 e 25 anos. A Itália apresenta a população em envelhecimento, o que traz como conseqüências: baixa PEA (falta de mão-de-obra), gastos com previdência (aposentadorias), gastos com saúde geriátrica. O envelhecimento afeta a oferta de mão-de-obra e por isso há maior pressão de imigrantes estrangeiros, o que pode provocar atritos culturais.
b)
A região apresenta alta taxa de natalidade e baixa expectativa de vida derivadas dos seguintes fatores: pobreza (más condições de vida); baixo acesso à educação e saúde; epidemias; guerras (violência); baixa esperança de vida ao nascer; falta de saneamento básico; fatores culturais derivados de uma sociedade rural; baixo uso de métodos anticoncepcionais (falta de planejamento familiar), elevado número de filhos por família, mães muito jovens com muitos filhos.
Questão 2
a)
Rotação de culturas, plantio em curvas de nível, terraceamento, plantio direto, adubação orgânica, implementos agrícolas mais leves, redução das queimadas, redução de uso de agrotóxico.
b)
O principal objetivo desse desmatamento é a abertura de clareiras para atividade agropecuária, extração de madeira, áreas de produção mineral, infra-estrutura de transporte e hidroeletricidade. As principais conseqüências são: redução da biodiversidade, degradação do solo, erosão, assoreamento dos rios, alteração de microclima, alteração do ciclo hidrológico, aquecimento global, emissão de gás carbônico.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Prova USP-2010 - fase1

1. Em face das altas taxas de mortalidade e perdas econômicas registradas mundialmente devido a epidemias, a Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão da ONU, estabeleceu, em 1947, uma rede mundial de vigilância do vírus influenza (causador da gripe), que era composta, em setembro de 2009, por 125 laboratórios nacionais e 5 Centros Mundiais de Referência e de Pesquisa.
Com base nos seus conhecimentos e nas informações acima, é correto afirmar que
a) a OMS tem a função de coordenar ações de monitoramento, controle e pesquisa de doenças e infecções principalmente na Europa, nos EUA e no México.
b) a rede de vigilância do vírus influenza não apresenta hoje a mesma importância que tinha no passado, em função da existência, na atualidade, de remédios eficazes.
c) a rede de vigilância não tem sido eficaz no desempenho de suas funções, devido ao grande número de laboratórios participantes em vários países.
d) o aumento do número de viagens aéreas internacionais nas últimas décadas tem ocasionado uma maior rapidez na disseminação de doenças e infecções.
e) no caso da denominada “gripe suína”, a OMS e sua rede de vigilância não tiveram um papel efetivo, ao contrário dos grandes laboratórios farmacêuticos asiáticos.

2.



Um dos critérios utilizados para a classificação dos países, segundo seus níveis de desenvolvimento, é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que é calculado numa escala de zero a um, tomando como base as condições de educação, saúde e renda da população.
Com base nas informações acima e nos seus conhecimentos, é correto afirmar que
a) o IDH permite uma classificação dos países a partir das dinâmicas sociais das populações, não considerando os seus aspectos econômicos.
b) o IDH permite uma classificação dos países baseada em aspectos significativos das condições de vida das populações.
c) o Brasil passou a fazer parte do grupo de países de menor desenvolvimento humano, quando atingiu o IDH de 0,800 em 2005.
d) um fato comum aos países de alto IDH, apresentados no gráfico, reside nos elevados níveis de atividade industrial, sobretudo no setor de máquinas e equipamentos.
e) o IDH do Japão é superior ao do Brasil, pois a matriz energética do país asiático, baseada em fontes renováveis, apresenta menores impactos na saúde de sua população.

3.
Investimentos em Ciência e Tecnologia
Países Investimentos (US$ bilhões) Empresas (%) Governo (%)
EUA 369 66 28
Japão 139 77 16
Alemanha 69 68 28
França 43 52 38
Coreia do Sul 36 76 23
Reino Unido 36 45 32
Rússia 25 30 63
Canadá 24 48 33
Brasil 20 47 53
Itália 19 40 48
Espanha 16 47 43
Austrália 15 57 38
México 6 47 45
Argentina 3 29 68
Portugal 3 36 55


Fonte: http://www.mct.gov.br. Acessado em julho de 2009. Adaptado.
O desenvolvimento de novos produtos e processos produtivos é um elemento crucial na busca da competitividade das empresas e o desempenho delas é um dado significativo para a economia dos países onde estão instaladas. Na atualidade, cada vez mais esses processos de inovação estão intimamente relacionados com os investimentos efetuados em pesquisa científica e tecnológica.
Considerando os seus conhecimentos e as informações apresentadas acima sobre o desempenho de diferentes países, em relação ao desenvolvimento científico e tecnológico, pode-se afirmar que
a) os governos investem em pesquisa científica e tecnológica, sobretudo com o objetivo de propiciar um ambiente favorável para o desenvolvimento de suas economias.
b) a participação menor do governo em relação às empresas reflete uma falta de interesse do setor público em propiciar um ambiente favorável ao desenvolvimento econômico.
c) os países em que a participação do governo é mais significativa em relação à pesquisa científica e tecnológica, apresentam as mais altas taxas de inovação e desenvolvimento científico.
d) a participação dos governos em relação à pesquisa científica e tecnológica é uma distorção, pois esses investimentos não apresentam resultados significativos no desenvolvimento dos países.
e) em grande parte dos países que apresentam os maiores orçamentos em pesquisa científica e tecnológica, a participação do governo é majoritária em relação às empresas.

4.



Em relação ao desempenho do agronegócio no Brasil, é correto afirmar que
a) as atividades industriais e de distribuição apresentam uma dinâmica independente, não sendo afetadas pelo desempenho do setor agropecuário.
b) o processo de distribuição é importante para os custos dos produtos agropecuários, mas é pouco influenciado pela precariedade da infra-estrutura de transportes.
c) apesar de ter ampliado a sua participação nos últimos anos, o setor agropecuário é minoritário na estrutura do agronegócio, pois seus produtos apresentam pouco valor agregado.
d) entre os insumos incluídos na esfera do agronegócio, pode-se destacar a produção de tratores e colhedeiras, bem como a denominada agroindústria, que beneficia os produtos agropecuários.
e) o excelente desempenho do agronegócio na balança comercial brasileira está relacionado com a crise econômica internacional que eclodiu no final de 2008.

5. O mapa abaixo representa a emigração de pessoas qualificadas profissionalmente, fenômeno conhecido como “fuga de cérebros”.


Em relação a esse fenômeno, é correto afirmar que
a) a emigração de profissionais qualificados situa-se, no máximo, em torno de 15%, e isso não apresenta grandes impactos nos países onde há emigração.
b) os fatores que levam os profissionais qualificados a emigrarem estão relacionados com as boas condições de trabalho em seus países de origem.
c) os fluxos migratórios de profissionais qualificados não são benéficos para os países de destino, pois estes já são bem dotados em relação a esse aspecto.
d) os países que apresentam taxas entre 10,1% e 15% de emigração de profissionais qualificados não estão integrados a blocos econômicos.
e) os países com menores índices de desenvolvimento são os mais afetados, pois se vêem especialmente privados de seus profissionais mais qualificados.

6. Arthur de Gobineau, no seu Ensaio sobre as desigualdades das raças humanas, de 1853, defendia a tese de que a decadência da humanidade era inevitável e a atribuía à degeneração provocada pela mistura entre raças superiores e inferiores. Mais tarde, teorias raciais, como as de Gobineau, associadas à compreensão simplificada e deturpada das teses biológicas de Charles Darwin (1859) sobre a evolução das espécies, ganharam força, em nome do chamado Darwinisno Social, para explicar desigualdades sociais e entre os povos. Assim, o “racismo científico” servia como uma das justificativas, no final do século XIX e início do XX, ao neocolonialismo, ou seja, às conquistas europeias de territórios habitados por raças consideradas inferiores.

A partir do texto, pode-se afirmar que
a) a evolução das espécies de Charles Darwin indicava que a desigualdade entre os homens era decorrente de suas raças.
b) o neocolonialismo foi a fase de conquistas territoriais que correspondeu às grandes descobertas.
c) o Darwinismo Social serviu de base para práticas de conquista territorial e de exclusão social, justificadas pela ciência.
d) as conquistas territoriais pelos europeus permitiram aos pobres de diversas sociedades ascenderem economicamente.
e) a sobrevivência dos menos capazes era a grande motivação para as conquistas territoriais europeias do final do século XIX.

7. Poluição no Tietê encolhe 120 km Dezesseis anos de obras e R$ 3 bilhões depois, o mesmo Rio Tietê que ainda agoniza aos olhos dos paulistanos começa a dar sinais de vida a pouco mais de 100 quilômetros da capital. O mais importante manancial do Estado, castigado todos os dias com mais de 690 toneladas de esgoto na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), ressurge com espécies de peixes que não eram encontradas havia três décadas em cidades na região de Sorocaba, onde o nível de oxigênio dobrou entre os anos de 1992 e 2008. Nas análises de amostras coletadas no início do ano no bairro Parque das Monções, em Porto Feliz, a 110 km da capital, a entidade SOS Mata Atlântica constatou que o nível de oxigênio dobrou em relação ao início dos anos 90 - passou de 4 para 8 mg por litro. O Estado de S. Paulo, 24/02/2008.
Em relação às condições do rio Tietê, é correto afirmar que
a) os primeiros resultados do processo de despoluição do rio podem ser atestados pela melhoria do nível de oxigênio na água em locais relativamente próximos à RMSP.
b) a melhoria da qualidade da água não tem relação com os investimentos efetuados no rio, mas sim com a ampliação de sua vazão, motivada pelo aumento da pluviosidade.
c) a presença de peixes não está relacionada com o nível de oxigênio na água, mas sim com a diminuição dos predadores, sobretudo pássaros, alvos de caça ilegal.
d) a melhoria do nível de oxigênio na água não pode ser considerada como uma evidência de diminuição da poluição, pois mesmo na RMSP têm sido constatados índices superiores a 8 mg por litro.
e) o rio apresenta uma situação mais grave relativa à poluição, sobretudo em sua foz no município de Salesópolis, nas proximidades do rio Paraná.

8. A atual crise econômica mundial indica desaceleração, desemprego e recessão. As comparações com a Grande Depressão de 1929 a 1933 são inevitáveis.
Entretanto, é necessário assinalar diferenças significativas, como a intervenção imediata dos governos. As práticas estritamente liberais e a crença na capacidade de mercados eficientes e autorregulados foram abandonadas, com injeção de recursos públicos em instituições financeiras e setores produtivos, diferentemente da crise de 1929. Não havia então uma coordenação internacional: era impossível compatibilizar as ações norte-americanas para superar a crise com as propostas nazistas e mesmo com as nações endividadas, como a França e a Inglaterra. Hoje, existe uma disposição comum entre os EUA, a Europa, o Japão e a China em evitar a propagação da crise.
Frederico Mazzucchelli. A crise atual em uma perspectiva histórica: 1929 e 2008. Adaptado. http://www.tecnologiasa.com.br/2008/10/31. Acessado em maio de 2009.
A partir do texto, é correto afirmar que
a) a globalização impede a superação da atual crise financeira mundial, porque as relações econômicas entre os países estão enfraquecidas.
b) as operações financeiras estatais no mercado têm menos impacto atualmente do que na crise de 1929, pois não há uma coordenação supranacional entre elas.
c) a crise atual não afetou a produção e o emprego, como ocorreu após 1929, pois se restringiu aos setores ligados às operações bancárias.
d) as ações dos estados capitalistas, na crise atual, representam uma flexibilização dos princípios do liberalismo econômico de não intervenção nos mercados.
e) as soluções propostas para a crise atual não são eficazes, pois é impossível compatibilizar interesses de estados capitalistas, entre si e com os da China comunista.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Na Europa, o último muro resiste

10/11/2009

Marion Van Renterghem
Enviada especial a Nicósia (Chipre)

Um muro caiu na Europa, um outro continua de pé. No momento em que o mundo comemora os vinte anos da queda do Muro de Berlim e do fim da guerra fria, um pequeno pedaço da União Europeia (UE), no extremo sudeste, em pleno Mediterrâneo, se encontra há 35 anos em um estado de guerra congelado: a República de Chipre, cujo território de fato limita-se somente à parte sul da ilha.

Ela é reconhecida pela comunidade internacional. Mas desde a ocupação da parte norte pelo exército turco, em 1974, "a República Turca de Chipre do Norte" autoproclamada pelos cipriotas turcos só é reconhecida pela Turquia.

Tropas turcas invadem o Chipre, em julho de 1974. A "República Turca de Chipre do Norte", autoproclamada pelos cipriotas turcos após a ocupação, só é reconhecida pela Turquia

Entretanto, tudo parece bem tranquilo na Nicósia. Na parte sul da capital cipriota, a multidão caminha pela rua Lidras, pedestre e comercial. A crise ainda não tem efeitos visíveis sobre a República de Chipre, habitada por 900 mil cipriotas gregos, que entrou na UE em 2004 e na zona do euro em 2008, com um crescimento sempre ligeiramente positivo (0,2%) e um baixo índice de desemprego (6%). Ali o PIB por habitante é três vezes maior do que na "Chipre do Norte", também na UE, mas onde o acervo comunitário [direitos e obrigações dos membros da UE] está congelado, e onde se paga em libras turcas. Mas dos dois lados dirige-se à esquerda, um antigo vestígio da colonização britânica.

Na rua Lidras do lado grego há um McDonald's e lojas opulentas que cintilam. No meio, subindo para o norte, a rua é bruscamente interrompida. Ela recebe um nome turco, Siret Bahçeli. Até abril de 2008, um muro a bloqueava totalmente. Um buraco agora permite a passagem. Contanto que não seja um colono turco, mal visto pelos cipriotas gregos, você só precisa apresentar seu passaporte. Alguns infelizes vasos de flores murchas tentam dar a essa terra de ninguém, no posto fronteiriço, um ar mais ou menos sorridente.

Mas, de repente, muda-se de mundo: cantos turcos são gorjeados nas lojas com raras luzes de neon, um minarete ultrapassa telhados, os passantes são raros, o McDonald's não achou boa ideia se instalar, a meia lua das bandeiras turca e cipriota turca triunfa em todos os lugares, senhoras usam uma echarpe na cabeça.

Mais além, a zona intermediária guardada pela força das Nações Unidas abriga os restos da antiga embaixada da França, um prédio neo-gótico invadido pela vegetação e pilhado após a invasão turca de 1974. A parte norte da ilha está sempre ocupada por 40 mil soldados turcos que se juntam aos cerca de 200 mil cipriotas turcos e colonos vindos da Turquia. Estes são forçados por Ancara a imigrarem, para aumentar artificialmente a população cipriota turca e assim conseguir um ganho político.

A "linha verde" que rasga a ilha de Chipre de leste a oeste e corta como uma gilete a capital, Nicósia, não tem a violência do Muro de Berlim. Nada de torres de vigília para proteger uma muralha de concreto coberta por arame farpado, protegida por praias de areia fina. Nada que, de um lado ou de outro, motive a vontade de fugir, de arriscar sua vida para atravessar a fronteira, ziguezagueando sob a água no rio congelado ou cavando um túnel subterrâneo.

Nicósia dividida: Soldados turcos cipriotas celebram a independência da autodeclarada "República Turca do Norte do Chipre", durante um desfile militar na zona turca de Nicósia, a capital do país, dividida desde a invasão da Turquia, em 1974

O muro de Chipre assume aqui e ali a forma de toneis, de arames farpados em desordem, de paralelepípedos sobre os quais árvores cresceram. Os cipriotas turcos constroem e vigiam sozinhos uma fronteira que os cipriotas gregos não reconhecem. Em 2002, sob pressão popular, eles abriram pontos de passagem: três brechas na capital, duas em outros lugares da ilha. Mas cipriotas gregos preferem não passar a sofrer a ofensa de apresentarem seu passaporte para entrar "na casa deles".

Chipre é a história de duas comunidades e de dois medos. Desde 1963, o conflito causou 5 mil mortos. Os cipriotas gregos têm medo do exército turco que invadiu o norte da ilha e dos atos de violência que sofreram; os cipriotas turcos têm medo, caso o exército turco se retire, de serem tratados como eram antes de sua chegada, vítimas de violências e de exclusão.

Em 1964, quatro anos após a independência do país, a ONU se instalou na ilha como força de intervenção. Em 1974, o golpe de Estado fomentado pelos coronéis gregos para reanexar a ilha à Grécia deu um pretexto de intervenção para a Turquia. Em 2004, o Conselho Europeu cometeu a imprudência de avalizar a adesão da República de Chipre à UE antes de obter a reunificação. Os cipriotas gregos conseguiram a adesão... e recusaram o plano Kofi Annan de reunificação. Negociações foram retomadas com muito esforço, conduzidas pela boa vontade do presidente cipriota Demetris Christofias e do dirigente da comunidade cipriota turca, Mehmet Ali Talat. Todos desejam a integração da Turquia à UE, que permitiria pôr um fim a esse conflito de uma outra era: no centro da Europa, a ocupação de um país por outro.

Em outras partes da Europa, perduram pequenos conflitos: em Gibraltar, controlado pelos britânicos, e cujo governo a Espanha não reconhece, com a ex-República Iugoslava da Macedônia a quem a Grécia, orgulhosa de sua província epônima, não quer ceder o nome, na Eslovênia e na Croácia, que mal começam a resolver seu conflito de fronteiras. A UE, máquina de pacificar os Estados, ainda não terminou de resolver suas disputas.

Tradução: Lana Lim

Le Monde

Os países em desenvolvimento, principais vítimas do aquecimento climático

Hervé Kempf

11/11/2009
Diversos estudos confirmam que os países pobres serão as principais vítimas da mudança climática, ainda que sejam os menores responsáveis por ela, por não serem grandes emissores de gases de efeito estufa. Um estudo publicado no início de setembro deste ano pela Maplecroft, uma consultoria britânica especializada em riscos globais, mostra que os países mais vulneráveis ao aquecimento são a Somália, o Haiti, o Afeganistão e Serra Leoa. Dos vinte e oito países expostos a um "risco extremo", vinte e dois estão situados na África subsaariana.

Enquanto isso, em Manila, o Banco Asiático de Desenvolvimento apresentava os resultados de uma pesquisa que concluía que o derretimento das geleiras do Himalaia ameaça a segurança alimentar e a disponibilidade de água dos 1,6 bilhão de habitantes do sul da Ásia. Em Nova York, Rob Vos, diretor do departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, avaliou que "se não reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa de forma significativa, os danos causados à economia dos países pobres serão dez vezes maiores do que aqueles registrados nos países desenvolvidos". Vos comentava o relatório publicado por seu departamento. Segundo as conclusões, seria preciso investir todos os anos na atenuação da mudança climática e na adaptação a seus efeitos, da ordem de 1% do produto interno bruto (PIB) mundial, ou seja, US$ 500 bilhões (R$ 855 bilhões).

No desastre climático mais recente, o furacão Ida deixou dezenas de mortos em El Salvador

Alguns meses antes, em maio de 2009, a ONU havia publicado um relatório da Estratégia Internacional de Redução de Riscos, lançado em 2000. O documento faz a primeira síntese dos conhecimentos sobre os desastres naturais que se produziram entre 1975 e 2008. Ainda que reconheça não ser completo, o texto representa um aglomerado único de conhecimentos.

Entre 1975 e 2008, ele lista 8.866 desastres que mataram 2.284.000 pessoas. A respeito das inundações, o risco de morte aumentou 13% entre 1990 e 2007. Pode-se dizer que o quadro não é uniformemente catastrófico. O número absoluto de perdas humanas ou econômicas aumenta no período como um todo, mas ele permanece proporcionalmente estável, pelo aumento demográfico e do PIB mundial.

Mas, segundo os especialistas da ONU, a situação deverá se deteriorar em razão da mudança climática e da degradação dos ecossistemas. Esta é um fator muito ignorado, pois estes últimos conseguem amortecer o impacto das catástrofes de origem natural. Quanto à mudança climática, ela aumentará o risco dos desastres. A vulnerabilidade das populações é um dos outros fatores que acentuam os riscos. A ação do poder público (normas antissísmicas, etc.) torna-se crucial: o Japão e as Filipinas sofrem com mais ou menos o mesmo número de furacões, mas estes provocam 17 vezes mais mortes nas Filipinas do que no Japão.

Tradução: Lana Lim

Le Monde

domingo, 15 de novembro de 2009

Brasil e África do Sul, sedes da Copa do Mundo, usam táticas impiedosas contra o crime

10/11/2009
Jens Glüsing, Mark Grossekathöfer e Horand Knaup

Policiais confrontam traficantes durante operação na favela Vila Cruzeiro, no bairro da Penha, no Rio de Janeiro; mais de 40 pessoas morreram nos últimos confrontos em favelas da zona norte, que tiveram início no dia 17 de outubro

Há 50 assassinatos por dia na África do Sul, o país sede da Copa do Mundo de futebol de 2010. E o Brasil, sede tanto da Copa do Mundo de 2014 quanto das Olimpíadas de 2016, também sofre com a violência extrema. De olho nos eventos de grande peso, os dois países agora estão tentando reprimir o crime desenfreado - e estão usando táticas impiedosas para fazê-los.

Uma orquídea, um laptop e uma Bíblia adornam a mesa de Pricilla de Oliveira Azevedo. Ela está vestindo o uniforme azul da Polícia Militar, mas não há arma visível em sua pequena sala. Seu território é a Favela Santa Marta, em um morro no coração da zona sul turística da cidade brasileira do Rio de Janeiro. Do alto do morro, há uma vista magnífica do Pão de Açúcar, da estátua do Cristo Redentor e da praia de Copacabana.

Até o final do ano passado, o Comando Vermelho, a maior e mais antiga organização criminosa da cidade, controlava Santa Marta, uma favela com uma população de cerca de 10 mil. A rua que leva ao morro começa atrás de uma escola alemã. Crianças-soldado que trabalhavam para o narcotráfico costumavam montar guarda nos pontos de acesso à favela, vestindo camisetas e sandálias, com rifles Kalashnikovs pendurados nos ombros e pistolas presas no elástico de suas bermudas. A poucos passos da rua principal, elas vendiam cocaína, crack e maconha.

Hoje Azevedo, 31 anos, controla o bairro. Ela comanda 120 policiais que atualmente patrulham 24 horas as ruas estreitas da favela. Os moradores os cumprimentam educadamente e pedem ajuda em caso de violência doméstica ou quando a música do vizinho está alta demais. Não ocorre um assassinato no bairro há mais de um ano. Azevedo comanda a primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Essas unidades são um trunfo do Rio para a Copa do Mundo de 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016.

Perigosa demais
Os moradores da cidade ficaram extáticos há um mês, quando o Rio foi nomeado sede dos Jogos Olímpicos, derrotando concorrentes como Chicago, Tóquio e Madri, ainda mais do que ficaram há dois anos, quando o Brasil foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 2014. Rio já tinha se candidatado aos jogos duas vezes antes e agora tinha sido bem-sucedido, trazendo as Olimpíadas pela primeira vez à América do Sul. Agora, finalmente, o vôlei de praia será jogado na praia mais famosa do mundo, tendo como fundo o sol, o oceano e palmeiras.

Mas a euforia mal tinha passado e os críticos começaram a se manifestar em grande número. Conceder os Jogos ao Rio, eles disseram, não era um exemplo de política moderna do esporte, mas pura loucura. A cidade, eles argumentavam, é perigosa demais.

Foi a mesma história há cinco anos e meio, quando a Federação Internacional de Futebol (Fifa) decidiu realizar a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul. O país apresenta uma das mais altas taxas de criminalidade do mundo, com 200.319 assassinatos cometidos nos últimos 10 anos. É possível elogiar a decisão da Fifa como uma forma de ajuda ao desenvolvimento, ou simplesmente chamá-la de negligente. Para afastar essas dúvidas, o Brasil e a África do Sul devem encontrar formas de garantir a segurança de torcedores e turistas.

O Rio de Janeiro, com seus 6 milhões de moradores, é uma das cidades mais violentas do mundo, um local onde assaltos, assassinatos e sequestros são rotineiros. Ocorreram 5.717 assassinatos no ano passado no Estado do Rio de Janeiro. Os cartéis das drogas controlam cerca de 300 das mais de 700 favelas e os chefões das drogas empregam milhares de soldados, alguns deles armados com bazucas.

Confronto violento
A brutalidade com que gangues rivais tocam seus negócios esteve novamente evidente em meados de outubro, em uma favela chamada Morro dos Macacos. Duas gangues rivais do narcotráfico travaram uma batalha armada na favela, abatendo até mesmo um helicóptero da polícia com suas metralhadoras enquanto ele tentava realizar um pouso de emergência em um campo de futebol próximo. Ao final do confronto que durou uma semana, pelo menos 21 pessoas tinham morrido.

A cidade agora planeja ter mais de 60 mil policiais, incluindo unidades como a dirigida pela capitã Azevedo, patrulhando as ruas na época da Copa do Mundo de 2014. Haverá 1.000 câmeras instaladas, das praias até as áreas residenciais mais importantes, para ficar de olho nos pontos problemáticos. Todas as delegacias serão equipadas com computadores, e a polícia, as autoridades de trânsito e bombeiros estarão todos conectados em uma rede comum de computadores, o que não acontece no momento.

A cidade também quer comprar duas aeronaves não-tripuladas para vigiar as favelas do ar. Após a violência no Morro dos Macacos em outubro, o ministro da Justiça, Tarso Genro, anunciou que R$ 250 milhões serão destinados a programas de ação imediatos. "Nós queremos melhorar permanentemente a segurança da cidade, não apenas por três ou quatro semanas", diz José Mariano Beltrame, o secretário de Segurança Pública do Rio. Ele soa confiante.

'Um problema anormal de criminalidade'
O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, buscou transmitir a mesma confiança em um discurso feito em Pretória, há um mês. Mas a África do Sul, diferente do Rio, carece de tempo para operações de longo prazo; o pontapé inicial será em menos de sete meses, em 11 de junho de 2010. Zuma, fazendo uma pistola com seu polegar e dedo indicador, disse: "Nós temos um problema anormal de criminalidade na África do Sul. Logo, devemos aplicar medidas extraordinárias".

De abril de 2008 a março de 2009, 18.148 pessoas foram mortas na África do Sul, ou uma média de 50 assassinatos por dia. A polícia também registrou 70.514 crimes sexuais, mas acredita-se que o número de casos não informados seja muito maior. Na província de Gauteng, onde há três estádios da Copa do Mundo e onde a seleção alemã planeja ficar, o índice de homicídios aumentou 6%, o número de roubos residenciais aumentou 11% e o número de assaltos a lojas aumentou 22%.

Quase dois terços de todos os homicídios acontecem nas cidades. As favelas com maiores índices de homicídio ficam vizinhas das cidades onde as partidas serão realizadas no próximo ano: Umlazi, nos arredores de Durban, e Nyanga, perto da Cidade do Cabo. A violência também tomou conta dos bairros residenciais de luxo, onde os moradores buscam se proteger com câmeras de segurança, cercas elétricas e cães de guarda. Neste ano, Force Khashane, um jornalista de renome nacional, foi morto com seis tiros em frente de sua casa.

Novos padrões
O governo tomou medidas para combater a violência. A polícia gastou o equivalente a 115 milhões de euros apenas na Copa do Mundo, comprando 10 canhões de água e seis helicópteros. Para melhorar a qualidade da força policial, cujos policiais são conhecidos pela demora para chegar à cena de um crime, os padrões de contratação foram endurecidos. Mas 41 mil policiais adicionais que patrulharão os estádios da Copa do Mundo no próximo ano, e que frequentaram programas de treinamento acelerado, não são afetados pelos novos padrões.

O exército foi chamado para fornecer segurança adicional durante a Copa das Confederações em junho, uma espécie de ensaio para a Copa do Mundo. Para o evento do próximo ano, o FBI, o Escritório Federal de Polícia Criminal (BKA, na sigla em alemão) e a Scotland Yard britânica orientarão os sul-africanos sobre como melhor proteger os estádios e as áreas turísticas.

O presidente Zuma decidiu adotar uma posição mais dura no combate ao crime. Logo após tomar posse em maio, ele nomeou Bheki Cele como seu novo comissário de polícia, um linha-dura que às vezes se refere aos criminosos como "baratas" e orienta os policiais a "atirar neles na cabeça". Quando a polícia matou recentemente seis criminosos enquanto tentavam assaltar um carro-forte, ele disse aos homens: "Bom trabalho".


Cele está trabalhando sob alta pressão e com apoio explícito do presidente, para esboçar uma lei que permita aos seus policiais retaliar independente das circunstâncias, o lema sendo "atirar para matar". Segundo a lei atual, os policiais sul-africanos só podem atirar se eles, ou as pessoas ao redor deles, estiverem sob ameaça. No futuro, criminosos violentos também poderão ser baleados se tentarem fugir - e não apenas nas pernas.

Retomando as favelas
A força policial do Rio não é mais delicada, tendo matado cerca de 1.100 pessoas no ano passado, quando começou a invadir e ocupar as favelas. Mas o governo também enviou assistentes sociais para a favela de Santa Marta, a companhia elétrica legalizou o fornecimento de eletricidade, a companhia de água instalou um novo sistema de coleta de esgoto e a coleta de lixo agora chega até mesmo às partes mais remotas da favela. Agora há um bonde que sobe até o topo do morro, parando em cinco estações ao longo do trajeto. "Passo a passo, a cidade está retomando as favelas", diz José Mariano Beltrame, o secretário de Segurança Pública do Rio.

Cinco favelas foram pacificadas usando medidas semelhantes nos últimos meses, incluindo a Cidade de Deus, uma favela que ganhou fama devido ao filme de mesmo nome. Quarenta e sete outras favelas estão na lista de prioridade da cidade e quatro deverão ser ocupadas até o final do ano.
As maiores e mais difíceis favelas ainda estão por vir: a Rocinha, o Morro do Alemão e o Complexo da Maré. Cada uma dessas favelas gigantes conta com cerca de 100 mil moradores e os chefões das drogas que as controlam possuem um arsenal militar diverso à sua disposição. A via expressa até o aeroporto internacional do Rio, que passa diretamente pelo Complexo da Maré, frequentemente é fechada por causa dos combates armados e os motoristas são frequentemente assaltados enquanto ficam presos nos congestionamentos.

Boom imobiliário?
A Rocinha fica ao longo da principal rota entre a zona sul do Rio e o bairro da Barra da Tijuca, onde a maioria dos eventos ocorrerá durante as Olimpíadas. O governo federal está investindo centenas de milhões de reais na urbanização da favela, mas a ocupação é um passo que a polícia reluta em dar. A gangue do narcotráfico da Rocinha é considerada uma das mais bem-armadas da cidade.

Se as autoridades conseguirem pacificar a Rocinha, a favela - localizada em frente a uma das áreas residenciais mais caras da cidade, entre um country club e a praia - poderia experimentar um boom imobiliário antes da Copa do Mundo de 2014. Em Santa Marta, a favela sob controle da capitã Azevedo, os preços dos imóveis subiram desde o início da ocupação policial. Nos endereços mais altos no morro, com vistas do Pão de Açúcar, um barraco antes podia ser comprado por cerca de R$ 20 mil. Os preços agora triplicaram.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Der Spiegel

Surgimento de milícias antitaleban causa preocupação

Matthias Gebauer
Em Kunduz (Afeganistão)
Para compensar a falta de pessoal para combater o Taleban, o governo afegão encorajou a formação de milícias armadas na província de Kunduz. Mas os soldados alemães que atuam na área não sabem ao certo como lidar com esses bandos itinerantes de guerrilheiros.

Gachi Nabi acreditava que os seus dias de "Comandante Nabi" haviam terminado. "A minha jaqueta militar estava pendurada no guarda-roupa havia anos", diz o turcomeno de 49 anos, enquanto ajeita o colarinho de pele falsa da sua capa de chuva camuflada. "Até mesmo o meu fuzil Kalashnikov estava bastante enferrujado". Gachi mudou-se de Kanduz há sete anos, quando as forças armadas dos Estados Unidos expulsaram o Taleban. Em vez de liderar um grupo de "mujahadeens" contra o Taleban, ele tornou-se gerente de um restaurante especializado em peixes. "Ganhamos bastante dinheiro", conta ele. "Ao final do dia, tínhamos cerca de US$ 300 no caixa. A vida era melhor do que durante a guerra".


Gachi Nabi (ao centro, ao lado de companheiros milicianos) acreditava que os seus dias de "Comandante Nabi" haviam terminado. "A minha jaqueta militar estava pendurada no guarda-roupa havia anos", conta este turcomeno de 49 anos, hoje dedicado a caçar talebans em território afegão



Mas, várias semanas atrás, Gachi transformou-se mais uma vez no Comandante Nabi. Juntamente com cerca de 60 combatentes, em sua maioria jovens das áreas vizinhas, Gachi patrulha o distrito de Qalay-I-Zal, na região norte da província de Kunduz, o dia inteiro. O ex-"mujahadeen" descreve o grupo como algo semelhante a uma organização de vigilância de bairros. Na realidade, porém, trata-se de uma milícia fortemente armada - e, segundo as leis afegãs, ilegal - que foi criada antes das eleições parlamentares afegãs de 20 de agosto último. Gachi diz que indivíduos da região lhe telefonaram e lhe contaram as atrocidades que o Taleban estava cometendo. Elas imploraram a ele que as ajudasse a expulsar os militantes.


"A maioria das pessoas possui um fuzil AK-47"
Desta forma, conta Gachi, ele retornou a Qalay-I-Zal alguns dias antes das eleições. Junto com anciões que chefiam clãs da região, ele foi de vila em vila para recrutar combatentes. O treinamento mostrou-se praticamente desnecessário. "Quase todo mundo sabe como usar uma arma", diz ele. "Além do mais, a maioria das pessoas tem um fuzil AK-47 em casa. Assim sendo, o processo todo foi muito rápido".

Durante as noites seguintes, Gachi e os seus soldados simplesmente aguardaram em várias ruas pela chegada do Taleban. Quando os membros do grupo surgiram, eles os enfrentaram. Houve baixas dos dois lados; na primeira noite Gachi perdeu cinco homens. Mas, no fim das contas, a sua milícia conseguiu convencer o Taleban a retirar-se.

O governo afegão pretendia originalmente usar várias unidades de milícias locais, incluindo a de Gachi, como uma solução temporária para aumentar a segurança no período da eleição presidencial. A ideia era que essas unidades preenchessem lacunas provocadas pela carência de soldados e policiais. Entretanto, esses grupos acabaram adquirindo uma vida própria. Eles são atualmente um elemento integrante da arquitetura da segurança de Kunduz, incluindo esta capital provincial no norte do Afeganistão, onde os soldados alemães estão estacionados.

Onde a polícia teme circular
Ninguém sabe ao certo quantas dessas milícias surgiram nesse ínterim. Quando o chefe de polícia Abdul Razak Yakubi fica de pé no seu escritório bem mobiliado e mostra com uma vareta a localização de grupos individuais em um mapa da província de Kunduz, é fácil perder de vista o quadro geral. Yakubi, que geralmente é conhecido apenas como General Razak e que é bastante respeitado pelas forças alemãs na área, sente muito entusiasmo em relação aos grupos guerrilheiros. "Cabul não me fornecerá mais nenhum policial para Kunduz", diz ele. Assim sendo, ele aceita qualquer combatente que puder receber. "Por ora, eles são apenas milícias", explica Yakubi. "Mas talvez nós sejamos capazes de transformá-los em verdadeiros policiais nos próximos anos".

Muita gente em Kunduz deseja falar com o Comandante Nabi. Na última terça-feira, ele estava sentado ao lado de alguns anciões de Qalay-I-Zal com o chefe dos serviços de inteligência em Kunduz. Não havia nenhum assento vazio na sala enorme e cheia de sofás. Outros líderes de milícias chegaram em grupos de três e quatro pessoas, vindos de Khanabad, no sudeste, de Aliabad, ainda mais ao sul, ou de Imam Saheb, no norte. Os nomes desses lugares são familiares na Alemanha porque são neles que os soldados alemães são frequentemente alvos de ataques - ou são neles que os militares da Alemanha preferem evitar o confronto por uma questão de segurança própria. Lá a presença policial é muito pequena e o Taleban domina. São nesses locais que cada vez mais surgem exércitos privados, como o do Comandante Nabi.

As autoridades apreciam a presença das milícias. O chefe dos serviços de inteligência perguntou aos líderes, um a um, do que eles necessitavam. A resposta é sempre a mesma: armas, rádios, carros. A seguir ele perguntou se os integrantes das milícias tinham qualquer informação sobre a localização de líderes talebans. Um a um, os homens se aproximaram, incluindo alguns que trazem há anos as cicatrizes adquiridas quando combatiam como "mujahadeen". Eles forneceram os nomes de líderes talebans e detalhes sobre onde estes poderiam estar escondidos.

O Comandante Nabi conhece bem o seu inimigo; ele se chama Mulá Selba. O comandante diz que este líder não é visto desde que ele começou a lutar contra o Taleban. "Mas se ele reaparecer, nós resolveremos o problema à nossa maneira", afirma Nabi, com um tom que agrada o chefe de inteligência.

Armando os desarmados
Mesmo assim, os soldados alemães estacionados lá não se sentem totalmente confortáveis com a ideia de exércitos privados combaterem o Taleban. As autoridades calculam que haja de 200 a 400 grupos armados patrulhando a área em torno de Kunduz. Mas ninguém sabe ao certo. De fato, em várias ocasiões as patrulhas alemãs se viram em situações delicadas com as milícias. "De longe, tudo o que vemos é um grupo de homens armados. Como é que vamos saber se eles são talebans ou outros criminosos - ou se irão nos atacar?", diz um oficial alemão.

A discussão sobre as milícias é tão antiga quanto a própria guerra no Afeganistão. Em várias ocasiões a ideia de usar grupos de guerrilha para objetivos específicos foi discutida. E, à medida que os Estados Unidos implementarem a sua nova estratégia para o Afeganistão, isso certamente voltará a ser uma opção. Quando as milícias foram utilizadas, elas tiveram um sucesso apenas parcial. Porém, quando as coisas não saem erradas, ex-aliados podem transformar-se rapidamente no inimigo. Os Estados Unidos, que atualmente possuem uma grande base em Kunduz, estão envolvidos indiretamente em operações para armar as milícias - muitas vezes sem consultarem os alemães que lá combatem.

Soldados paquistaneses montam guarda nas colinas de Waziristão do Sul à caça de talebans

Trabalhar em conjunto com essas milícias gera vários problemas práticos. Mas um dos aspectos mais espinhosos deste arranjo - pelo menos para aqueles que ainda acreditam nos objetivos nobres da missão no Afeganistão - é o rearmamento. Em uma tentativa de reduzir o número de armas no Afeganistão, o Ocidente pagou milhões para persuadir os afegãos a entregarem os seus Kalashnikovs por US$ 100 (67 euros, R$ 174). Mas agora os alemães tem que recuar e observar pessoas cujas faces eles reconhecem do processo de desarmamento receberem novos rifles e lançadores de foguetes.

Amigo de hoje, inimigo de amanhã
Os alemães acham que poderá haver problemas ainda mais sérios no futuro. No momento, as milícias ainda estão sendo lançadas em sua maioria contra o Taleban. Mas os oficiais alemães perguntam o que acontecerá se grupos que foram armados e que obtiveram experiência de batalha agirem independentemente e começarem a buscar a sua própria agenda. Embora o governo alemão tenha necessitado bastante dos guerrilheiros durante a eleição, os seus ex-aliados poderiam rapidamente voltar-se contra o Estado fraco e defender o seu território com as armas obtidas - e não apenas contra as investidas do Taleban.

De fato, muitos céticos temem que o atual encorajamento à formação de exércitos privados poderia significar o início de um novo processo de desintegração no Afeganistão. Eles acreditam que vários clãs já estão discutindo as suas rixas com as milícias. Tais temores foram alimentados pelo fato de que , em uma recente reunião do conselho provincial de Kunduz que discutia a redução do número de distritos da província, as novas fronteiras que foram propostas eram mais ou menos idênticas àquelas que definem as áreas de influência de várias milícias.

De fato, grande parte da discussão focou-se em Qalay-I-Zal, a área na qual o Comandante Nabi e os seus homens exercem o poder. Mas Gachi insiste que não sabe nada sobre a discussão.

A seguir os seus homens entraram de novo na picape Toyota branca, penduraram as suas armas e enrolaram lenços em volta do rosto para protegerem-se da areia. Se não fosse pelos óculos de sol que tanto apreciam, eles poderiam ser facilmente confundidos com combatentes talebans.

Tradução: UOL

Der Spiegel

Natureza pode absorver mais CO2 do que se imaginava

14/11/2009

O dióxido de carbono é o principal perpetrador da mudança climática e a maioria dos esforços para desacelerar o aquecimento global envolve a prevenção da produção de CO2 e auxiliar a absorção de CO2. Mas um novo estudo sugere que quanto mais CO2 produzirmos, mais a natureza absorve. Será que realmente precisamos de todas aquelas florestas tropicais?

Muitos cientistas agora se voltam para a tecnologia de captura e armazenamento de carbono como forma de afastar os piores efeitos da mudança climática. Com sua ajuda, o CO2 pode ser capturado antes de chegar à atmosfera -na usina elétrica a carvão, por exemplo. Os gases podem ser armazenados em depósitos de gás natural esgotados ou em rochas subterrâneas porosas. Eles podem ficar retidos por milhares de anos nas profundezas da Terra, poupando a atmosfera.

Apesar dessa tecnologia engenhosa ser um assunto popular para discussão, o fato da natureza já ter dominado essa mesma tarefa é frequentemente esquecido: as plantas, o solo e os oceanos -os chamados "ralos de carbono"- são todos excelentes absorvedores de gases do efeito estufa. "Quase 60% de nossas emissões são armazenadas nos oceanos ou no solo", disse Susan Trumbore, do Instituto Max Planck para Biogeoquímica em Jena, Alemanha, para a "Spiegel Online".

Muitos há muito pensam que esses ralos naturais de carbono em algum momento parariam de absorver o CO2 porque, entre outros motivos, águas mais quentes do oceano são incapazes de absorver tanto CO2 quanto as águas mais frias. Além disso, o derretimento do gelo permanente do Ártico ameaça liberar os gases do efeito estufa aprisionados lá. Numerosos estudos entre 1996 e 2006 indicaram que a eficiência dos ralos de carbono foi reduzida em todo o mundo. Mas agora, um estudo recém-publicado indica que o ecossistema pode absorver mais dos pecados da humanidade contra o clima do que se imaginava anteriormente.

Em um estudo publicado na revista "Geophysical Research Letters", Wolfgang Knorr, um cientista alemão da Universidade de Bristol, escreve que os percentuais de emissões de CO2 causadas pelo homem que chegam à atmosfera mais ou menos permaneceram constantes nos últimos 150 anos. Mesmo com a quantidade total de CO2 bombeada na atmosfera aumentando dramaticamente, a quantia aprisionada na atmosfera permanece em constantes 40%.

Quanto mais CO2 o homem produz, mais a natureza absorve
Em outras palavras, quanto maior o CO2 emitido pela atividade humana, mais, em termos absolutos, o mundo natural pode absorver. "É incrível como um sistema tão complexo pode fazer algo tão simples", disse Knorr à "Spiegel Online". De fato, sem esse mecanismo, disse Knorr, os efeitos do aquecimento global seriam muito mais aparentes do que são hoje. "O oceano e a atmosfera ajudam a prevenir a mudança climática de piorar", disse Wolfgang Lucht, do Instituto para Pesquisa do Impacto Climático de Potsdam (PIK), para a "Spiegel Online". Ele elogia a nova análise por sua metodologia rigorosa e por estudar um período mais longo do que estudos semelhantes fizeram anteriormente.

Para chegar a suas conclusões, Knorr recolheu dados de duas estações que medem o CO2 na atmosfera, uma no Havaí e uma na Antártida. Ele então comparou essas medições aos dados da análise de dois núcleos de gelo que vieram do gelo antártico. Ele comparou esses números à quantidade de emissões de CO2 produzidas pela queima de combustíveis fósseis, a manufatura de cimento e a destruição das florestas tropícais -e notou que, desde os anos 1850, as proporções permaneceram constantes.

Knorr não duvida que a quantidade total de CO2 na atmosfera aumentou substancialmente nos últimos 150 anos. Todavia, seus resultados foram surpreendentes e poderiam ingressar nas discussões no encontro de cúpula global sobre o clima no início de dezembro, em Copenhague. "Há várias pistas que sugerem que as estimativas de emissões, causadas pelo desmatamento das florestas tropicais, são altas demais", explicou o pesquisador. Lucht, o cientista do PIK, concorda, dizendo que nós simplesmente não sabemos quanta floresta foi destruída e quanto CO2 foi lançado na atmosfera em consequência do desmatamento.

Nós realmente precisamos de todas aquelas florestas?
Essa lacuna no conhecimento científico é vital. Os países em desenvolvimento há muito argumentam que a proteção das florestas deveria ser considerada uma medida de proteção climática -e exigem que o mundo industrializado os compense generosamente por seus problemas. Mas a falta de informação sólida sobre isso faz com que os países ricos odeiem entregar o dinheiro.

Ainda assim, Knorr é rápido em soar um alerta. "A capacidade das florestas tropicais de absorver CO2 é o menor de seus benefícios", ele diz, mencionando a rica biodiversidade encontrada nessas áreas. As florestas precisam ser protegidas, ele insiste, mesmo se o valor delas como ralos de carbono for menor do que antes estimado.

Para o próprio Knorr, sua pesquisa não muda nada no que se refere aos riscos apresentados pela mudança climática. "Até o momento, nada mudou, mas isso não significa que não mudará no futuro", ele diz. Trumbore, o cientista de Jena, concorda, dizendo: "A quantidade de CO2 na atmosfera está aumentando mais rapidamente do que nunca, porque estamos usando mais e mais combustíveis fósseis".

E Lucht do PIK também concorda que o estudo de Knorr muda pouco. "Ao longo do tempo, ficará óbvio que os ralos de carbono se tornarão menos eficientes. Em 2040, pelo menos, os dados ficarão mais claros. Mas àquela altura", ele alerta, "será tarde demais para fazer algo".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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