domingo, 26 de abril de 2009

Queda da população pode afetar economia da Rússia

Fernanda Nidecker
Enviada especial da BBC Brasil a Moscou

A população russa está se tornando cada vez mais velha

O declínio acentuado da população russa poderá ter graves consequências nas áreas econômica e de defesa e ameaçar o crescimento do país na próxima década, segundo a opinião de especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

De acordo com Sergei Zakharov, do Instituto de Demografia da Higher School of Economics, em Moscou, a Rússia de 2020 estará sofrendo os efeitos da redução da sua população. Em 2015 a Rússia já poderá ter oito milhões de pessoas na força de trabalho a menos do que tem hoje e, no Exército, a redução poderá ser de até um milhão até 2050.

"Os números são assustadores", diz Zakharov.

Um estudo patrocinado pelas Nações Unidas e divulgado ano passado por especialistas em demografia mostrou que a população do país poderá encolher dos atuais 142 milhões de pessoas para 100 milhões até 2050.

Natalidade e mortalidade

Dois principais fatores explicam o declínio da população russa. O primeiro são as baixas taxas de natalidade registradas ao longo das últimas décadas, uma tendência observada em muitos países europeus e agravada na Rússia pelas dificuldades econômicas dos anos 90, quando o país sofreu a transição do comunismo para o capitalismo.

O segundo fator é a alta taxa de mortalidade, principalmente entre os homens em idade reprodutiva.

Segundo Zakharov, um em cada três russos morre antes de se aposentar e as causas mais comuns são externas, como alcoolismo, acidentes de trânsito e mortes por envenenamento, causadas por consumo de bebida alcoólica fabricada de forma clandestina.

De acordo com dados oficiais, o número de mortes superou o de nascimentos em 12 milhões de 1992 a 2007, uma perda compensada parcialmente pela chegada de 5,5 milhões de imigrantes no mesmo período.

A Rússia é um dos únicos países do mundo em que a expectativa de vida diminuiu desde os anos 60. De acordo com dados oficiais de 2006, os homens russos vivem em média 60 anos, 15 abaixo da média europeia. Para as mulheres, a expectativa de vida é de 72 anos.

Impactos

O encolhimento da população pode ter diversos impactos na economia russa. Economistas estimam que a redução da força de trabalho possa resultar na queda da produção econômica, causando um impacto direto no Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Uma população em declínio também poderá afastar investidores internacionais, interessados no potencial do consumo interno.

"Onde o investidor prefere aplicar recursos? Na Índia ou na China, onde a renda per capita cresce junto com a população, ou na Rússia, onde a renda per capita vem crescendo, mas o mercado consumidor vem encolhendo?", indaga Markus Jaeger, economista do Deutsche Bank.

A previdência social também poderá sofrer com a crise demográfica, afirma Jaeger.

"Se a força de trabalho não for renovada, não haverá pessoas suficientes para gerar a renda necessária para pagas as pensões de aposentados. Isso pode prejudicar as políticas fiscais e econômicas e gerar tensões políticas", estima o economista.

Ainda segundo Jaeger, em termos demográficos a Rússia está na pior posição em relação aos outros países do BRIC.

Ele detalha que na Índia a população vem crescendo rapidamente, enquanto na China a força de trabalho continuará expandindo até 2015, data a partir da qual a população começará a envelhecer, mas não deverá declinar. Já o Brasil, segundo ele, se beneficiará de um aumento de 20% na força de trabalho até 2025.

"A Rússia, infelizmente, poderá sofrer um colapso populacional", acredita.

Medidas

Para tentar reverter o declínio da população, o governo vem oferecendo, desde 2006, estímulos financeiros para famílias que decidirem ter o segundo filho.

A estratégia teve resultados imediatos, com aumento de 130 mil nascimentos de 2006 para 2007. Para Sergei Zakharov, os resultados são temporários e serão seguidos, segundo ele, por uma "queda catastrófica na taxa de natalidade".

Outra estratégia do governo é estimular a imigração. Em 2006, o governo do ex-presidente e atual primeiro-ministro, Vladmir Putin, implementou um programa que visa a atrair para a Rússia imigrantes de etnia eslava que falem russo.

O presidente do Centro de Pesquisa sobre Problemas de População, da Universidade Estadual de Moscou, Valery Yelizarov, teme que a imigração cause tensões sociais na Rússia.

"Os russos não gostam de estrangeiros, não gostam de se misturar com pessoas de outras culturas e credos", afirma ele. "E, com a crise financeira deixando milhões de russos sem emprego, os imigrantes serão cada vez mais alvos de ataques xenófobos", acrescenta.

Para Yelizarov, o governo deveria ampliar o programa de benefícios às famílias e agir para diminuir os índices de mortalidade.

BBC BRASIL

Década de 2020 deve consolidar poder dos BRICs

Silvia Salek *

Da BBC Brasil em Londres

Crescimento acelerado pode fazer dos BRIC potências econômicas e políticas


Os anos 20 deste século podem marcar a consolidação do fortalecimento de países emergentes como potências econômicas e políticas, em um mundo cada vez mais multipolar. Segundo acadêmicos e instituições de pesquisa, os chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) serão peças-chave dessa nova ordem.

Para investigar que desafios cada país do BRIC terá pela frente, no caminho para se tornar uma potência em 2020, a BBC Brasil produziu uma série especial que começa a ser publicada nesta segunda-feira, reunido reportagens multimídia de nossos repórteres no Brasil e enviados especiais a Rússia, Índia e China.

Em 2020, com 3,14 bilhões de habitantes (40% da população mundial naquele ano, segundo projeções da ONU), eles devem chegar mais perto das economias do G-7, após terem crescido a taxas muito superiores às de nações ricas.

O National Intelligence Council, entidade do governo americano ligada a agências de inteligência, prevê que já em 2025 todo o sistema internacional - como foi construído após a Segunda Guerra Mundial - terá sido totalmente transformado.

"Novos atores - Brasil, Rússia, Índia e China - não apenas terão um assento à mesa da comunidade internacional, mas também trarão novos interesses e regras do jogo", afirma a instituição

"Muito provavelmente, por volta de 2020 vamos nos dar conta de que existe um equilíbrio muito maior no mundo em termos econômicos e políticos com o fortalecimento de países emergentes como China, Índia, Brasil e Rússia. Com um maior poder econômico, virá também um maior poder político e uma participação ativa desses países em organismos internacionais", disse à BBC Brasil Stepháne Garelli, professor da Universidade de Lausanne, na Suíça, e autor de um estudo que traça cenários para 2050.

Conceito complexo

O conceito de sistema multipolar é complexo e, ainda que boa parte dos analistas concorde que o mundo caminha para isso, o tempo que levará para que a China tenha voz no Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil tenha um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU ou o Banco Mundial seja dirigido por um russo ou indiano variam muito.

Mas a discussão já não se limita mais ao meio acadêmico. Diferentes aspectos do que pode vir a ser um mundo multilateral (ou multipolar) já começam a aparecer em discursos de autoridades que estão no centro do processo de tomada de decisões internacionais.

Um exemplo recente vem de Gordon Brown, o primeiro-ministro britânico, que, às vésperas do encontro do G-20, em Londres, declarou no Brasil que "o tempo em que poucas pessoas mandavam na economia acabou".

Também às vésperas do encontro, o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse em entrevista a uma TV francesa que "soluções globais supõem que a governança de instituições como o FMI seja mais legítima, mais democrática, com espaço para os países emergentes e pobres".

Reunião do G-20

A reunião do G-20, grupo que une países emergentes aos países-membros do G-8, pode ser vista como um sinal dessas mudanças. A voz dos emergentes no cenário de crise ganha especial relevância.

Segundo boa parte dos analistas ouvidos pela BBC Brasil, eles não apenas serão menos afetados do que os países desenvolvidos pela crise, como também podem se recuperar mais rapidamente.

Essa possível recuperação mais rápida se baseia em alguns pilares que serão também propulsores do crescimento de longo prazo.

"A situação das economias desses países é muito diferente. Mas, de maneira geral, os BRIC estão mais bem posicionados para a recuperação do que muitas outras economias", disse Markus Jaeger, responsável por análises de longo prazo no Deutsche Bank.

Para Alfredo Coutinho, analista mexicano da agência Moody's nos Estados Unidos, a crise revela ainda a vulnerabilidade das economias desenvolvidas e deixa clara a necessidade de equilíbrio na economia global.

"É uma oportunidade para as economias emergentes, que devem liderar a recuperação", disse Coutinho.

Crise

Em entrevista à BBC Brasil, Jim O'Neill, economista-chefe do Goldman & Sachs, que criou a sigla BRIC em 2001, prevê que a crise até mesmo acelere a escalada dos emergentes, e diz que já em 2020 a economia desses quatro países encoste nas dos países do G-7, o grupo das atuais nações mais ricas do mundo.

Não faltam céticos em relação à projeção de O'Neill. John Bowler, diretor do Serviço de Risco por País (CRS na sigla em inglês) da Economist Intelligence Unit é um deles.

"Acho que esse processo será mais demorado. Há uma série de obstáculos à confirmação dessas projeções tanto no campo econômico quanto político", disse Bowler.

Apesar das ressalvas feitas por muitos dos ouvidos pela BBC Brasil, o "otimismo" de O'Neill não é isolado.

Um relatório da consultoria Ernst&Young, Global Megatrends 2009, por exemplo, afirma que "a fome de crescimento, junto com a rápida industrialização das economias e populações em expansão, põe os emergentes no caminho da recuperação mais rapidamente, e os países do BRIC são claramente os atores principais".

Essa fome de crescimento vem, em parte, da nova classe média que tem revolucionado o consumo nesses países. Segundo o Banco Mundial, 400 milhões de pessoas se encaixavam nessa categoria em 2005 nos países em desenvolvimento. Em 2030, deverão ser 1,2 bilhão de pessoas.

"A classe média, principalmente dos países do BRIC, será o novo motor da economia mundial", prevê Stepháne Garelli, da Universidade de Lausane e diretor do índice de competitividade, publicado pelo Institute of Management Development, que avalia 61 países em 312 critérios.

"É uma classe média ávida por comprar seu primeiro carro, seu primeiro celular de última geração. Não é conservadora como a classe média do atual mundo rico. Ela quer 'comprar felicidade'", acrescentou.

Padrão de vida

O valor do PIB dará posição de destaque a esses países no ranking global de economias, mas não será suficiente para levar as populações desses países a padrões de vida próximos ao dos países hoje considerados ricos.

O PIB per capita da Índia, por exemplo, deverá praticamente dobrar num período de 15 anos até 2020, segundo um estudo do departamento de pesquisas do Deutsche Bank. Ainda assim, representará apenas 40% da renda per capita nos Estados Unidos.

De olho em indicadores como o PIB per capita, Françoise Nicolas, economista do Instituto Francês de Relações Internacionais, prevê a ascensão das "superpotências pobres".

"Será um mundo multipolar bizarro. Os BRIC serão superpotências pobres com mais peso econômico, mas o discurso ainda não estará no mesmo nível dos países ricos", prevê Nicolas.

Além da pobreza, esses países enfrentam outros desafios, como a proteção ao meio ambiente.

"Eles querem ter maior poder de decisão e, ao mesmo tempo, em certas questões como o meio ambiente, querem continuar a ser tratados como países emergentes, que não podem cumprir as mesmas exigências dos ricos", disse Thomas Klau, chefe do escritório de Paris do Council of Foreign Relations.

*Colaboraram nesta reportagem: Bruno Garcez, da BBC Brasil em Washington, Daniela Fernandes, de Paris para a BBC Brasil, e Marina Wentzel, de Hong Kong para a BBC Brasil

BBC BRASIL

Agitações na Ordem sob a Conjuntura da Crise Financeira Internacional


Artur Andrade da Silva Machado
A conjuntura internacional que se estabelece na passagem entre 2008 e 2009 teve sua dinâmica conformada por transformações que entram em fricção com os ordenamentos sistêmicos para os campos econômico e securitário. O que há de diferente na conjuntura, portanto, não é o surgimento de novas forças para sua composição, mas sim a absorção de mudanças nas tendências encontradas em conhecidos componentes estruturantes da Ordem internacional. Tal leitura é subsidiária da arquitetura de cenários que prescrevem demandas multilaterais e multifacetadas de mudança para uma Ordem internacional mais justa.
As peças, princípios e atores envolvidos com a estabilização de ambos os campos securitário e econômico formatam aspecto central para o delineamento das características da ordem vigente no sistema internacional. Para a epistemologia vinculada ao estudo do posicionamento de tais fatores, o sistema internacional fornece ótimo objeto de análise de movimentos históricos cíclicos. Para os mais materialistas, o ordenamento sistêmico resulta de interesses de Estados hegemônicos que evocam a responsabilidade pela pacificação do meio internacional, pela organização social, pela imposição de regras e pelo provimento de bens públicos, do qual é exemplo a própria economia internacional. Mudanças na estrutura de tal ordenamento seriam, portanto, um epifenômeno de mudanças mais elementares na estrutura de poder do sistema, fruto da configuração de um movimento deliberado de outros atores revisionistas em relação à velha ordem.
Para uma vertente mais ideacional, a ordem atual está vinculada mais especificamente à experiência de nosso próprio período histórico. Em outras palavras, os padrões de ordenamento sistêmico rebuscam também valores mais estruturais de uma Ordem vestifaliana enraizada na Idade Moderna e cuja narrativa vincula-se ao processo da modernização originalmente ocidental. Quando essa modernização histórica se torna tanto um valor quanto um objetivo transportado para o ordenamento social, passa-se a raciocinar em termos de uma modernidade teleológica. A modernidade difere da modernização porque esta é um processo e aquela é ao mesmo tempo um valor e uma meta. É a modernidade, e não a modernização, que centraliza e legitima os valores do discurso ocidental, constituintes dos vários padrões de ordenamento sistêmico desde o nascimento dos Estados nacionais.
Independentemente de que tipo de relação se estabelece entre estruturas materialistas de poder e a configuração do ordenamento sistêmico, sabe-se que de fato existem determinadas funções e serviços que devem ser prestados, bem como certas peças que devem ser arranjadas para a manutenção de tal ordenamento. Em outras palavras, para que entidades políticas autônomas se relacionem de maneira estável é necessário negociar padrões de conduta largamente aceitáveis para reger seu comportamento; para que haja trocas comerciais, exige-se uma mínima garantia de pagamento, preferencialmente em unidades de valor universalmente conversível; e para que haja a disposição para cooperar em tais níveis, é imperial que primeiro se construa confiança no meio e que sejam mitigados os vetores de conflito.
Além disso, muito embora a modernidade não defina diretamente nenhuma existência material, seu valor legitimador é constantemente evocado pelos atores no meio internacional. A capacidade legitimadora da modernidade está assentada nas idéias de progresso e de estabilidade, sendo que esta é catalisadora de e subordinada àquele. O progresso, pode-se dizer, tem duas cabeças: uma material e econômica; outra, promotora de convergência normativa - guiada por valores ocidentais como liberdade, democracia e direitos humanos. A estabilidade é a busca pela redução de tensões destrutivas da Ordem.
Tendo em vista as características e necessidades da Ordem internacional, a conjuntura atual é interessante porque propicia tendências de desmantelamento de aspectos basilares para o ordenamento sistêmico em vigor. A decantação da crise financeira para a economia real, concebida tanto internacional como domesticamente, demonstra, por um lado, a instabilidade cíclica inerente ao progresso promovido pelas forças do livre-mercado e, por outro, a incapacidade dos governos e das instituições internacionais vigentes em lidar com esse tipo de situação. Parelho, o maior espaço atribuído a questões de segurança, bem como simultâneos vetores de rearmamento e tensão colocam em cheque a crença na estabilidade do sistema, que até então mantém uma estrutura unipolar somente em um primeiro plano.
Analisando os desenvolvimentos das conformações econômicas que fundamentam a crença no progresso, a conjuntura atual é crítica. A crise econômica vigente apresenta cifras piores que as da crise de 1973. O crescimento esperado para a economia mundial em 2009, segundo a última atualização das previsões do FMI, é de 0,5% - o mais baixo desde 1945. Os EUA, o Reino Unido e a Zona do Euro, já anunciaram recessão; a China e demais emergentes que mantinham ritmo acelerado de crescimento passam por expressiva contração; os países dependentes da renda da exportação de petróleo certamente terão problemas orçamentários; e a OIT recentemente divulgou que é esperado o surgimento de mais 51 milhões de desempregados para este ano.
O quadro é ainda acompanhado pela incapacidade de ação a partir das alternativas institucionais em todos os planos. Afora os diversos pacotes dos governos nacionais e as reduções nas taxas de juros dos bancos centrais, a comunidade internacional já exauriu as possibilidades de sua vasta gama institucional (União Européia, G-7, OCDE, OPEP, FMI, G-20) com o debate sobre as alternativas para solucionar a crise. Entre todos os esforços, o único que merece atenção é o compromisso firmado na reunião do G-20 em Londres de inundar a economia com um pacote que pode chegar a US$5 trilhões até 2010.
Outro patente apontamento para o diagnóstico levantado é a deterioração da capacidade da economia norteamericana para autorrecuperação. Os EUA abrigam 5% da força de trabalho do mundo, que responde por 20% da produção e 22% do endividamento externo. Vinte anos atrás, em 1989, a América Latina completava uma década com crescimento próximo de 1% ao ano, por consequência de crises de endividamento amalgamadas pelas moratórias de México, Brasil e Argentina. No ápice da crise, a relação entre dívida externa e PIB da região era de 57%. Atualmente, depois de uma sequência de anos administrando gigantesco déficit no Balanço de Pagamentos (que tende a aumentar com a crise), a dívida externa norteamericana representa quase 90% do PIB nacional.
Apesar da amenização das consequências negativas devido ao bom influxo de investimentos diretos no país, a situação das contas externas dos EUA está assentada em números igualmente preocupantes para o orçamento interno. Depois do último pacote de financiamento monstro do governo norteamericano, a dívida pública subiu para mais de US$ 11 trilhões. Isso significa dizer que se US$ 11 trilhões caíssem dos céus nas ruas de Washington, o governo norteamericano poderia escolher entre comprar todos os produtos que os outros países do mundo colocam no mercado global ou pagar o que foi emprestado de seus próprios nacionais.
Em uma perspectiva temporal mais extensa, revelam-se ainda preocupações com a sustentabilidade do progresso econômico, em grande medida dependente de exploração excessiva dos recursos planetários. De 1945 até os dias de hoje, a população mundial duplicou enquanto o comércio internacional foi multiplicado por 100. Projeções internacionais indicam que para sustentar a população planetária com o padrão de consumo dos EUA, seriam necessários mais de 5 planetas.
Rebuscando os desenvolvimentos no campo da segurança, a conjuntura atual novamente lança pressões contrárias a valores de estabilidade e progresso, centrais para a Ordem internacional.
Apesar da manutenção da unipolaridade no primeiro plano da estrutura de poder internacional, a estabilidade internacional convive com sinalizações de expansão armamentista e focos de tensão que estão presentes em diversos flancos do sistema internacional. Na Europa, a Rússia anuncia a decisão de aumentar seu orçamento militar em pleno contexto de crise; no Leste da Ásia, a China ultrapassou os gastos militares japoneses no final do ano passado e a região continua susceptível a tensionamento causado pelas idas e vindas do dilema do arsenal nuclear norte-coreano; no Sul da Ásia, a relação entre Índia e Paquistão, ambos os países munidos de armas nucleares, mantém a cultura de lançamentos balísticos e permanece vulnerável a crises causadas por acontecimentos infra-nacionais sobre os quais os governos não têm controle; e no Oriente Médio, Israel continua alimentando inimizades com outros atores regionais e demonstra que não tem pudor em violar o Direito Internacional na proteção de seus interesses.
No campo motivacional figuram severas considerações contrárias à marcha de uniformização normativa da Ordem sistêmica. A desconsideração da ausência de aprovação pelo Conselho de Segurança para justificar intervenções internacionais nos Bálcãs, desde aquela com caráter humanitário na Bósnia até o reconhecimento da independência de Kosovo, bem como a expansão institucional da Europa Ocidental para o leste são fatores frequentemente apontados como originários dos movimentos de retaliação russos a iniciativas unilaterais do Ocidente. A enorme reincidência de crises humanitárias na África e Ásia, embora não possa ser atribuída a nenhum fator específico, demonstra que a instalação institucional da democracia onde não há estabilidade e tampouco cultura democrática é falha desde o ponto de vista da geração de progresso e, nesse ponto, os EUA ainda têm de administrar o caso emblemático do Afeganistão. Por último, é também muito difícil de acreditar que emergentes como Índia e China ficariam satisfeitos com tentativas de exportar unilateralmente ou de enrijecer o código de direitos humanos acordado multilateralmente.
Toda essa agitação nos campos econômico e securitário leva a crer que o tempo da Ordem internacional ocidental, por vezes alardeada como hegemonia das democracias de mercado, está em xeque. Para os materialistas, não há clareza na estrutura de poder para apontar qualquer cenário mais provável. Para os partidários da finitude dos tempos, no entanto, não é o caso de imaginar demais. Uma vez que “não há” complexo ideacional concorrente ao que formata atualmente a Ordem, o mais racional é esperar que, passada a conjuntura crítica, tudo volte ao habitual. De preferência, aliás, que tudo se arrume já para 2010, quando o FMI prevê retomada do crescimento da economia mundial para níveis razoáveis.
Mas as coisas raramente são tão imediatas assim. A crise econômica atual questiona a crença no progresso de maneira comparável somente ao período do entre-guerras. O principal ator de quem se espera responsabilidade de ação diante da conjuntura não está apto a realizar manobras bruscas, sob pena de despencar em um abismo. Em realidade, dessa vez os EUA estão mais para vítimas que para heróis e o time composto por Obama para lidar com a crise está desfalcado pela metade, em grande parte devido a denúncias de sonegação de impostos. Os desenvolvimentos no campo securitário refletem não somente focos de tensão que podem escalar de modo a fazer esboroar o resto de estabilidade da Ordem, mas também questionamentos de fundo vis-à-vis valores do ordenamento atribuídos à experiência ocidental.
A verdade é que, como costuma ser a regra para as questões em RI, não se sabe que espécie de configuração pode emergir do contexto atual. A conjuntura, ao mesmo passo que fornece questionamentos sobre as bases do ordenamento sistêmico, abre espaço para considerações de Justiça. O que se observa, inclusive, é que nenhum Estado parece forte ou disposto o suficiente para enfrentar a conjuntura sozinho, mas todos eles parecem ter esperanças de que algo vai surgir (do G-20, dos emergentes ou de algum outro lugar) para suprir a incapacidade generalizada.
Tal leitura só permite apostar, contrariamente às teses de estabilidade hegemônica ou de imperialismo, na ascensão de uma Ordem internacional mais multilateral. Interessante exercício de análise que se impõe é procurar, nos desenvolvimentos da conjuntura atual, paralelos históricos que vão além da tradicional comparação entre o desastre da guerra dos Bôeres para o império britânico e o engajamento dos EUA no Iraque ou no Afeganistão. Deve-se rebuscar, ousa-se dizer, a complexa articulação entre os seletos pólos que se destacaram na multidão de participantes do Congresso de Viena, duzentos anos atrás.

Artur Andrade da Silva Machado é Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília - PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais - LARI (andradesmachado@gmail.com).

Meriano 47

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O planeta tem pressa


Até mesmo os mais incrédulos já concordam: a temperatura da
Terra está subindo e a maior parte do problema é provocada por
ações do homem, como a queima de combustíveis fósseis. Ainda
persistem divergências acerca do tamanho do impacto sobre a
vida humana. As soluções também são controversas. VEJA
listou 50 perguntas e respostas que vão ao centro da questão.
O conjunto demonstra que é preciso agir agora


Ronaldo França e Ronaldo Soares

Jim Elliott/AFP


A ERA DO DEGELO
Gigantescos blocos de gelo se desprendem da plataforma Wilkins,
na Antártica: o efeito mais visível do aquecimento global
Previsões

1 Existe alguma dúvida científica incontestável de que o planeta está se aquecendo? Não. Nem os cientistas mais céticos colocam esse fato em dúvida. Nos últimos 100 anos, a temperatura média mundial subiu 0,75 grau Celsius. Também não existe contestação séria ao fato de que isso vem ocorrendo em um ritmo muito elevado. Entre 1910 e 1940 (portanto, em trinta anos), a temperatura média do planeta se elevou 0,35 grau. Entre 1970 e hoje (38 anos), subiu 0,55 grau. Nos últimos doze anos o planeta experimentou onze recordes consecutivos de altas temperaturas.

2 Além das medições, existem outras evidências irrefutáveis do aquecimento? O derretimento do gelo especialmente na calota norte, o Ártico, que vem perdendo área a cada verão, é uma forte evidência. Na calota sul, a Antártica, as perdas são menores e há até aumento da massa total de gelo mesmo com diminuição da área. Paradoxo? Não. Esse aumento é atribuído ao aquecimento global, que elevou a umidade na região, em geral mais seca do que o Deserto do Saara. Com mais chuvas, forma-se mais gelo.

3 Os cientistas dispõem de instrumentos confiáveis para avaliar as mudanças climáticas? Os sinais do aquecimento global não são produto de modelos de computador, mas de medições por instrumentos precisos. Entre as mais concretas estão as medições feitas por satélites e por sondas flutuantes nos oceanos, que fornecem dados em tempo real, segundo a segundo. São consideradas também as medições menos diretas, como a que detecta a espessura e a extensão do chamado "permafrost", o terreno eternamente congelado no Círculo Polar Ártico. Até as flutuações de cores nas auroras boreais fornecem dados sobre a temperatura da Terra. O interessante é que todas as medições, diretas e indiretas, apontam para o aquecimento, sem discrepâncias.


Daniel Beltra/AP


FLORESTA AMEAÇADA
O Lago Curuai, no Pará, durante a seca de 2005: fenômeno pode se repetir em decorrência das queimadas na Amazônia, que atrasam a estação das chuvas

4 A temperatura da Terra tem ciclos naturais de aquecimento e resfriamento. Por que o aquecimento verificado agora não é natural? Há menos de quarenta anos, na década de 70, alguns cientistas chegaram a prever que o planeta estava entrando em uma nova era glacial, tamanha a agressividade dos invernos no Hemisfério Norte. Essa previsão não pode ser comparada à previsão de aquecimento de agora. Nunca houve consenso sobre a iminência de uma nova era glacial, tratava-se de pura especulação. Agora existe um consenso mundial entre os cientistas de todas as tendências de que o planeta está se aquecendo. Menos consensual, mas majoritária, é a noção de que o aquecimento é causado pelo atual estágio civilizatório humano, em especial as atividades industrial e de consumo.


5 Por quais períodos de aquecimento a Terra já passou? Nos últimos 650 000 anos foram identificados pelo menos quatro. O primeiro há 410 000 anos, o segundo há 320 000, o terceiro há 220.000 e o quarto há 110 000. Em todos esses casos, mesmo sem intervenção humana, houve aumento da concentração de gases que capturam o calor e acentuam o chamado efeito estufa. A fonte mais provável desses gases foram as grandes erupções vulcânicas.

6 Se a meteorologia não consegue afirmar com 100% de certeza se vai fazer sol no fim de semana, como ela pode prever o que vai acontecer daqui a cinqüenta ou 100 anos? Saber se vai dar praia ou não é mesmo mais complexo do que fazer um modelo confiável de longo prazo. A modelagem climática lida com tendências e faz afirmações gerais sobre mudanças mínimas na temperatura global. Já a meteorologia imediata trabalha sobre o microclima e sua interação com outros eventos climáticos mais gerais. Essas interações são, por definição, caóticas.

7 As estimativas de que a temperatura média do planeta subirá até 4 graus até 2100 são confiáveis? Esse é o cenário mais pessimista projetado pelos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), que reúne as maiores autoridades do mundo nesse ramo da pesquisa. É um cenário catastrófico, mas ele só ocorrerá, na avaliação dos cientistas, se nada for feito. A projeção mais otimista dá conta de que o aumento projetado seria de 1,8 grau. Isso exigiria um corte de até 70% nas emissões de gases até o ano 2050.

8 Em que pontos os cientistas divergem? Todos concordam que o mundo está mesmo se aquecendo. As principais divergências são sobre a extensão da influência humana e, em especial, sobre se vale a pena ainda buscar a qualquer custo a redução drástica das emissões de gases do efeito estufa. Quem discorda dessa linha sugere que todo o esforço científico e financeiro dos países seja colocado no desenvolvimento de tecnologias que permitam à civilização conviver com os efeitos de um planeta mais quente.

9 Quando o aquecimento passou a acontecer com mais intensidade? O acúmulo de gases começou com o advento da Revolução Industrial, no século XVIII. O aquecimento é diretamente proporcional à atividade industrial. Portanto, quanto mais intensa ela for, mais dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso (N2O) serão lançados na atmosfera. Os problemas começaram a se manifestar agora porque esses gases tendem a se acumular.

10 Quanto a temperatura global já subiu? Durante o século XX, a temperatura média global subiu cerca de 0,75 grau.

11 O ex-vice-presidente americano Al Gore ganhou o Oscar e o Nobel da Paz por seu filme em que mostra conseqüências trágicas do aquecimento. Todas as suas previsões estão corretas? Al Gore optou por mostrar as conseqüências esperadas para os piores cenários. Fez um filme de propaganda, e não um documentário científico. Um exemplo: ele ressalta a previsão de que o nível do mar subirá 6 metros até 2100. O IPCC falava em um aumento máximo de 60 centímetros. Gore, o catastrofista, exagerou feio. A favor dele, diga-se que as previsões têm sido recalibradas para cima. Os mesmos cientistas do IPCC consideram agora que se pode chegar a 1,2 metro de elevação do nível do mar em 2100.


Fotos Tony Karumba/AFP e Kevork Djansezian/AP


TERRAS SUBMERSAS
Vilarejo castigado por enchente no Quênia e o ex-vice Al Gore: Oscar e Nobel para o alerta contra o aquecimento
Razões


12 O aquecimento global é provocado pela ação humana? Como se viu, a Terra já experimentou ciclos de aquecimento muito antes de o homem fazer sua primeira fogueira. O que parece claro, agora, é que a atividade humana está contribuindo para o aumento no ritmo da elevação da temperatura média global. Isso se dá pela emissão principalmente de CO2, o que dificulta a dissipação do calor para o espaço. Atualmente, a atividade humana produz mais CO2 do que a natureza. Antes da Revolução Industrial, as emissões de origem humana somavam 290 ppm (partes por milhão) de CO2. Agora chegam a 380 ppm. Uma das principais razões é a ineficiência energética. Para se ter uma idéia, uma única lâmpada, ao final de sua vida útil, terá consumido em eletricidade o equivalente a 250 quilos de carvão (cálculo, claro, válido para os países que geram energia elétrica com carvão mineral).

13 Por que a emissão de CO2 aumenta a temperatura? O aumento da concentração de gases cria uma barreira na atmosfera. Ela impede que o calor do sol, quando refletido pela Terra, se dissipe no espaço. O calor fica retido entre a superfície do planeta e a camada de gases. Daí o nome efeito estufa. O CO2 é o principal vilão porque sua presença é predominante. Equivale a 70% da concentração desses gases.


14 Que outros fatores podem concorrer para o aumento da concentração de gases do efeito estufa? Além da atividade humana, fatores naturais contribuem para as alterações climáticas: o processo de decomposição natural de florestas, o aumento na atividade solar e as erupções vulcânicas. Mas nenhum desses fatores produziu transformações com a velocidade que a atividade humana vem provocando.

15 Qual o principal agente da emissão de CO2? A queima de combustíveis fósseis. Ela é responsável por cerca de 80% das emissões globais desse gás, o que coloca o mundo numa espécie de sinuca de bico. Não há desenvolvimento sem consumo de energia, e a energia disponível em larga escala depende de carvão, petróleo e gás natural. A principal razão é que os combustíveis fósseis, quando queimados, emitem, em forma de gás, o carbono que ficava armazenado no subsolo. Isso aumenta a concentração na atmosfera.

16 Qual o peso do desmatamento e das queimadas nesse fenômeno? Cerca de 18% das emissões de CO2 são originadas de queimadas.


Jonathan Wood/Getty Images


EFEITO PROLONGADO
A Austrália vive uma de suas mais graves secas: reflexo na produção de alimentos

17 Qual a parcela de responsabilidade dos países emergentes no aquecimento global? Quando se analisa historicamente, a parcela de culpa desses países é pequena. A questão é como eles vão se comportar daqui em diante. Como são muito populosos e têm grande potencial de crescimento econômico, podem se tornar os grandes vilões do futuro.

18 Qual a participação do Brasil, em especial? A maior preocupação em relação ao Brasil é quanto às queimadas e aos desmatamentos. Esses dois fatores respondem por 75% das emissões de CO2 no país. Se forem consideradas apenas as emissões de CO2 decorrentes da queima de combustíveis fósseis, o Brasil é o 16º maior poluidor do mundo. Mas, se for levada em conta a devastação ambiental, o país salta para a quarta posição.

19 É razoável esperar que os países emergentes reduzam sua taxa de crescimento para não contribuir ainda mais para o aquecimento global? É uma resposta difícil. Agora que o Hemisfério Sul começou a crescer e proporcionar melhores condições de vida a sua população surge a questão da sustentabilidade – que não existia quando os atuais países ricos se industrializaram. O melhor que as nações ricas podem fazer é ajudar as emergentes a ter acesso mais rápido a tecnologias limpas.

Conseqüências


20 O ritmo de crescimento da temperatura dá sinais de estar arrefecendo? Não. Tudo indica que ele está sendo mantido e continuará assim.

21 Por que acreditar que esse ritmo será mantido? O aquecimento que se observa hoje é uma soma das ações do passado com as ações presentes. Não há, a médio prazo, nenhuma alternativa energética com potencial de substituir os combustíveis fósseis em larga escala. Para mudar radicalmente as emissões, seriam necessárias intervenções muito profundas, que dificilmente seriam feitas de uma hora para outra. O ritmo de implementação das ações previstas no Tratado de Kioto – principal instrumento dos países e das organizações multilaterais para a redução das emissões de gases do efeito estufa – está sendo mais lento do que se esperava. O tratado é até agora um fracasso. Os países não-signatários de Kioto aumentaram suas emissões em ritmo menor do que os que assinaram o documento.


22 Até que temperatura a vida na Terra é viável? A experiência em regiões desérticas e tropicais mostra que a vida humana em sociedade é possível à temperatura constante de 45 graus. Isso não significa que a vida seria tolerável se todo o planeta atingisse esse pico de temperatura. O desarranjo obrigaria a humanidade a buscar novas estratégias de sobrevivência. Por outro lado, nem o mais pessimista dos cientistas acredita que o aquecimento global ofereceria risco de sobrevivência para toda a raça humana.


23 Há o risco de morrer gente? Sim. Muitos cientistas acreditam que a onda de calor que matou mais de 30 000 pessoas na Europa durante o verão de 2003 já seja reflexo do aquecimento global. Se essas ondas se tornarem mais freqüentes, farão mais vítimas, principalmente entre os mais pobres (que não têm alternativas de proteção) e os mais indefesos, caso de crianças e idosos.

24 Quais as conseqüências previsíveis para o Brasil? A mais grave seria a mudança de vegetação em metade da Amazônia, que se tornaria uma espécie de savana ou cerrado, já a partir de 2050. Isso porque a temperatura na região subiria pelo menos 3 graus. Com a temperatura média do país, que hoje é de 25 graus, passando aos 29 graus, milhares de famílias teriam de deixar o sertão nordestino em busca de regiões de clima mais ameno. O nível do mar também subiria nas cidades litorâneas, como Recife e Rio de Janeiro.

25 Há risco de aumento de doenças como malária, febre amarela ou dengue, por exemplo? Esse é um ponto controverso. Os que discordam são em número muito maior do que os que concordam. A exceção são aquelas doenças em que a relação é direta, caso da dengue, cujo mosquito transmissor se reproduz em maior escala no calor.


26 As geleiras vão derreter completamente? Não vão. A previsão mais pessimista indica que 2% de todas as geleiras derreterão até 2100. Esse derretimento é que levará ao aumento de 1,2 metro no nível do mar.

27 Quais os riscos de faltar água? A água potável vai acabar? Os rios vão secar? É possível dizer também que o sertão nordestino vai se desertificar? A disponibilidade hídrica do planeta não mudará. A distribuição das chuvas pelo globo é que será alterada. Aumentará a disponibilidade de água em alguns lugares, principalmente nas latitudes médias e nas regiões tropicais úmidas. Quanto às regiões equatoriais, existe muita incerteza. Mas pode-se dizer que haverá mais seca nas regiões áridas e semi-áridas. O fim da água potável pode ocorrer, mas não somente por causa do aquecimento. Está relacionado também à poluição provocada pelo homem e ao aumento de demanda por água, principalmente para a agricultura irrigada.

28 Que outros impactos poderiam ocorrer no dia-a-dia das pessoas? As chuvas seriam muito mais intensas, e isso afetaria todas as regiões. Espera-se que haja um maior número de noites quentes e ondas de calor, mas também invernos mais rigorosos. A temperatura variaria em extremos. Se for mantido o atual ritmo de emissões – e levando-se em conta as projeções de crescimento econômico, populacional etc. –, haverá elevação do nível do mar, redução de florestas, enchentes nas regiões mais úmidas, secas mais severas nas regiões de clima árido e semi-árido.


29 A disponibilidade de alimentos estará comprometida? Depende do aumento da temperatura. Se a elevação for de 2 graus (no máximo), poderá haver aumento da área plantada, incorporando-se vastas áreas do Canadá e da Sibéria à produção mundial. Se a temperatura subir além disso, 4 graus ou mais, toda a agricultura mundial será prejudicada. Outro problema é a mudança das chuvas, que pode provocar secas mais severas na África e no sul da Ásia.


Greg Vojtko/AP


PAISAGEM AMEAÇADA
Incêndio na Califórnia em 2007: drama causado pelo agravamento das secas no planeta
30 Pode-se esperar que o aquecimento inviabilize a vida em algumas regiões do planeta, provocando migrações populacionais em massa? Mais uma vez depende de quanto a temperatura vai aumentar. No pior cenário, haverá migração em massa de populações pobres, da ordem de dezenas de milhões de pessoas, em razão da falta de água para beber e para a agricultura. No sudeste da Ásia também podem ocorrer fugas em massa, mas por causa de inundações.

31 A elevação do nível do mar poderá engolir partes inteiras do litoral dos países? Caso se confirme a elevação do nível da água do mar entre 30 e 60 centímetros, os efeitos serão reduzidos. Mas a aceleração do degelo na Groenlândia e na Antártica Ocidental obrigou os cientistas a rever suas previsões. Um exemplo: a Holanda tem mais de 40% de seu território abaixo do nível do mar. Se a elevação da água for pequena, será possível contornar o problema com a construção de diques. Mas, se chegar ao limite máximo imaginado pelos cientistas, o país poderá perder uma parte enorme de seu território. Durante o século XX, o aumento do nível do mar na costa brasileira foi de 20 centímetros. A média global foi de 17 centímetros.


32 O aquecimento global será a principal causa de extinção de espécies? Sim. Já neste século e no próximo, o aquecimento vai superar os dois grandes vilões atuais, que são a caça predatória e a fragmentação de hábitats.


33 Já há alguma espécie ameaçada por esse motivo? Pelo menos 74 espécies de sapo desapareceram nas montanhas da América Central devido ao aumento de 1 grau na temperatura média. Isso mudou o microclima e fez com que um fungo da pele dos sapos se desenvolvesse descontroladamente. Os anfíbios de todo o planeta também correm perigo.


34 Pode-se esperar algum benefício do aquecimento ou apenas tragédia? Os impactos são principalmente negativos, pois perturbam um sistema já equilibrado. Mas há alguns positivos, sim, como o incremento à agricultura em lugares hoje muito frios e a diminuição, na média mundial, na freqüência de noites muito frias, o que trará benefícios à saúde humana.

Soluções

35 O mundo não tem problemas que exigem enfrentamento mais urgente do que o aquecimento global? A fome, a falta d’água e as doenças matam mais gente hoje. Mas o mundo não pode se dar ao luxo de ignorar o aquecimento global. Isso porque, além de efeitos desastrosos, tudo o que se fizer agora só terá resultado décadas à frente. Além disso, para muitos dos problemas atuais há soluções tecnológicas iminentes. O buraco na camada de ozônio é um exemplo. Ele se fechará num futuro próximo, graças a ações já empreendidas. No caso do aquecimento, se o mundo parar de emitir gases de efeito estufa hoje, o problema ainda levará séculos para ser resolvido. Alguns limites já foram até ultrapassados. O melhor exemplo é o gelo ártico. Em 2050, ele poderá desaparecer totalmente durante o verão. Não há mais o que fazer. Não se pode esperar mais cinco ou dez anos para começar a agir vigorosamente.


36 Quanto será necessário investir na suavização dos efeitos da mudança climática? Num primeiro cálculo, estimou-se que seriam necessários 150 bilhões de dólares anuais para cumprir as metas do Protocolo de Kioto. Mas é possível que a conta seja menor, dados o avanço tecnológico e os ganhos em eficiência energética. Um exemplo são os combustíveis fósseis, os que mais emitem gases do efeito estufa. Já existem hoje tecnologias capazes de reduzir em 20% as emissões. Há outros exemplos mais simples. Os sistemas de iluminação com LED, diodos de efeito luminoso, têm eficiência quase vinte vezes superior à das lâmpadas de bulbo.


Divulgação


MINIVILÃO
O besouro que proliferou com o aquecimento: ameaças às florestas
37 É possível reverter totalmente o aquecimento? Não. O máximo que se pode fazer é reduzir o ritmo. Caso se reduzam as emissões globais entre 60% e 70% até 2050, a temperatura subirá até o fim do século entre 2 e 2,5 graus. Se não se fizer nada, ela poderá aumentar entre 4 e 5 graus no mesmo período, com efeitos desastrosos.

38 Reduzir a emissão de gases do efeito estufa, como o CO2, é mesmo o melhor caminho? O que importa é a concentração "líquida", ou seja, a diferença entre o que é emitido e o que é absorvido pela Terra. Ao mesmo tempo em que se reduz a emissão de gases do efeito estufa, pode-se investir no seqüestro de carbono, seja biológico (caso do aumento de área de florestas), seja geológico (armazenagem de gás carbônico no subsolo, tecnologia ainda em estudo). Há ainda o aumento da eficiência energética em relação à que se tem hoje.


39 É economicamente viável reduzir as emissões de CO2 em escala suficiente para resolver o problema? Se nada for feito, a economia mundial sofrerá um abalo descomunal. O Estudo Stern (do ex-economista-chefe do Banco Mundial Nicholas Stern) fala em perdas anuais de até 20% no PIB mundial (o conjunto de riquezas produzidas pelas nações). Em economia, o que torna possível pagar o preço de uma solução é o valor do prejuízo causado pela inação. O estudo calcula que o investimento necessário para resolver o problema chegaria a 1% do PIB.

40 Não seria mais fácil resolver o problema através do desenvolvimento tecnológico? Ainda que se obtenha um elevado grau de desenvolvimento tecnológico, vai demorar para que isso aconteça. Não há tempo para esperar sem trabalhar para reduzir as emissões.

41 Fontes de energia alternativa suprem as necessidades de redução de emissssões de CO2? Todas as fontes renováveis, juntas, não substituiriam sequer metade da quantidade do combustível fóssil usado hoje. Portanto, é preciso reduzir as emissões de CO2 em no mínimo 55% até 2050. O papel das fontes de energia alternativas é auxiliar nesse esforço, assim como na busca de eficiência energética.


42 Não seria mais fácil aceitar que as mudanças climáticas são inevitáveis e investir em formas de conviver com elas? Buscar formas de adaptação será necessário de qualquer jeito. A diferença está no grau de intervenção que será necessário. Dependerá da extensão das mudanças climáticas.


43 Atitudes individuais, como economizar papel e água, por exemplo, surtem algum efeito? Somente com atitudes individuais se poderá promover uma mudança no perfil do consumo, com impacto ambiental significativo. O planeta tem de buscar a máxima reciclagem dos produtos e torná-los mais duradouros. E isso deve ocorrer paralelamente às mudanças em grande escala, como a substituição de fontes de energia e a otimização no uso dos transportes.


44 O que é de responsabilidade dos países e o que compete exclusivamente aos cidadãos? Devido à urgência, são os governos que devem começar a fazer sua parte primeiro.


Jamil Bittar/Reuters



FONTES ALTERNATIVAS
Energia eólica e o biodiesel: em busca da redução das emissões de CO2


45 É possível esperar que a humanidade consiga se adaptar plenamente, seja qual for a intensidade da mudança climática? Dependendo da elevação da temperatura, torna-se impossível a adaptação, em razão da falta de água para beber e para a agricultura. Mas é preciso dizer que as mudanças não afetarão a humanidade de forma igual. Quem mora na Sibéria, por exemplo, se beneficiará. Para os países pobres da África, Ásia e América Latina, no entanto, elas serão prejudiciais, com o risco de migrações em massa.


46 O controle de emissões de gás carbônico conforme estabelecido no Tratado de Kioto terá algum resultado prático? O único efeito prático do tratado foi deslanchar um vigoroso esforço mundial para o desenvolvimento de tecnologias alternativas. O esforço conjunto dos países é o único caminho.


47 Por que os Estados Unidos não querem assiná-lo? O principal argumento é o impacto negativo na competitividade da economia americana. É grande a influência da indústria automobilística e do petróleo sobre as decisões do governo americano. Para escapar das pressões internacionais, o governo daquele país resolveu investir bilhões de dólares na busca de tecnologias mais limpas e tem conseguido melhores resultados do que os dos signatários do protocolo.

48 O que governos e organismos internacionais já estão fazendo de concreto? Alguns países, como Inglaterra e Alemanha, estão tão avançados na redução das emissões e na busca de novas tecnologias que deverão alcançar, já no próximo ano, as metas definidas para 2012. A União Européia começou a se impor novas metas, mais arrojadas, para 2020.


49 As medidas compensatórias, como o mercado de créditos de carbono, terão resultados globais expressivos? O resultado ainda é pequeno, pois o mercado de carbono funciona como compensação. Ou seja, o que se planta de novas árvores no Brasil apenas compensa o CO2 emitido por outro país. Ele não vai além, promovendo uma redução líquida. Conclusão: é bem-vindo, mas insuficiente.


50 Há tempo para evitar o desastre? Há tempo de evitar as conseqüências mais negativas, mas não todas. A Terra já está se aquecendo. O objetivo viável é evitar que se aqueça catastroficamente.



Entre os especialistas consultados por VEJA na elaboração deste questionário
destacam-se alguns dos integrantes do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática.
São eles os cientistas Carlos Nobre, José Marengo, Roberto Schaeffer e Suzana Kahn Ribeiro, que colaboraram na revisão das respostas.

Revista Veja

Impacto de seca na Amazônia 'supera emissões' de Europa e Japão

Leito seco do lago Curuaí, no Pará, em outubro de 2005


A seca de 2005 na Amazônia teve um impacto de 5 bilhões de toneladas extras de dióxido de carbônico na atmosfera terrestre, o que supera as emissões anuais de Europa e Japão, segundo estudo coordenado pela Universidade de Leeds, no norte da Inglaterra, divulgado na nova edição da revista Science.

Os cientistas afirmam que o fenômeno excepcional reverteu drasticamente o processo de absorção de carbono pela floresta, o chamado "sequestro de carbono", que vinha ocorrendo há pelo menos 25 anos e que ajudava na redução dos efeitos das mudanças climáticas.

Normalmente, a Amazônia absorve cerca de 2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano. Mas, de acordo com o estudo, por causa da morte de árvores, a seca de 2005 fez com que essa quantidade de gás permanecesse na atmosfera e ainda levou a floresta a gerar outros 3 bilhões de toneladas.

A partir dos dados colhidos no estudo, os pesquisadores observaram que a Amazônia é "surpreendentemente sensível" à seca.

"A floresta vem ajudando a reduzir a velocidade das mudanças climáticas, mas agora vemos que confiar nesse 'subsídio' da natureza é extremamente perigoso", disse um dos coordenadores da pesquisa, Oliver Phillips, da Universidade de Leeds.

Mais quente

O estudo envolveu 68 cientistas de 13 países, inclusive do Brasil, que atuam na rede Rainfor, que se dedica ao monitoramento da Amazônia.

Eles aproveitaram a seca de 2005 para ter uma ideia dos efeitos que futuras mudanças climáticas poderão ter sobre a floresta.

Naquele ano, as temperaturas do Atlântico Norte permaneceram mais altas do que a média, provocando outras catástrofes naturais, como o furacão Katrina.

"Visualmente, a maior parte da floresta parecia pouco afetada pela seca, mas nossos dados mostram que a taxa de mortalidade das árvores aumentou", afirmou Phillips. "Mesmo uma pequena alteração ecológica pode provocar um grande impacto no ciclo global do carbono."

A previsão da comunidade científica é de que o aquecimento global faça subir as temperaturas do Atlântico Norte, o que por sua vez pode tornar a estação seca da Amazônia mais intensa e mais quente.

A Amazônia abriga mais da metade das florestas tropicais do mundo, e uma em cada cinco espécies do planeta.

BBC Brasil

Florestas correm risco de parar de 'filtrar' carbono, diz estudo


Desmatamento responde por 20% das emissões provocadas pelo homem

Mark Kinver

Da BBC News
O papel das florestas de atuar como filtros gigantes de carbono está sob o risco de "ser totalmente perdido", segundo um relatório compilado por alguns dos maiores cientistas florestais do mundo.

O documento compilado por 35 profissionais da União Internacional das Organizações de Pesquisas Florestais (IUFRO, na sigla em inglês) afirma que as florestas estão sob um crescente estresse como resultado das mudanças climáticas.

Ainda segundo o relatório, as florestas podem começar a liberar uma enorme quantidade de carbono na atmosfera se as temperaturas do planeta subirem 2,5ºC acima dos chamados níveis pré-industriais.

As descobertas serão apresentadas no Fórum da ONU sobre Florestas, que começa nesta segunda-feira, em Nova York, e estão sendo descritas como sendo a primeira avaliação mundial da capacidade das florestas se adaptarem às mudanças climáticas.

Seca e pobreza

"Normalmente, pensamos nas florestas como 'freios' do aquecimento global", disse à BBC Risto Seppala, do Instituto de Pesquisa Florestal da Finlândia e presidente do painel de especialistas.

"Mas nas próximas décadas, os danos provocados pelas mudanças climáticas podem fazer com que as florestas comecem a liberar uma enorme quantidade de carbono, criando uma situação em que elas contribuirão mais para o aceleramento do aquecimento do que ajudarão a reduzi-lo."

Os cientistas esperam que o relatório ajude a informar os profissionais envolvidos nas negociações sobre as políticas ambientais.

O documento destaca ainda outros fatos novos, como a projeção de que as secas devem se tornar mais intensas e frequentes nas florestas subtropicais e temperadas do sul, e de que as plantações comerciais de madeira podem se tornar inviáveis em algumas áreas.

O relatório diz também que as mudanças climáticas podem "aprofundar a pobreza, deteriorar a saúde pública e aumentar os conflitos sociais" entre as comunidades da África que dependem das florestas.

Andreas Fischlin, do Instituto Federakl Suíço de Tecnologia, e co-autor do estudo, ressalta, no entanto, que mesmo que se implemente todas as medidas necessárias, as mudanças climáticas podem ainda neste século exceder a capacidade adaptativa de muitas florestas".

"A única maneira de assegurar que as florestas não sofram danos sem precedentes é conseguir fazer uma enorme redução nas emissões dos gases de efeito estufa", concluiu.

BBC Brasil

Volume de água do rio São Francisco caiu 35% em 50 anos, diz estudo

Aquecimento e diminuição nas chuvas pode ter comprometido vazão

Uma pesquisa feita por cientistas norte-americanos aponta que o fluxo de água na bacia do rio São Francisco, que nasce em Minas Gerais e deságua no nordeste do Brasil, caiu 35% no último meio século.

O estudo, que será publicado no próximo dia 15 de maio no Journal of Climate, da Sociedade Meteorológica Americana, foi feito por pesquisadores do National Center for Atmospheric Research (NCAR), que fica no Estado americano do Colorado.

Eles analisaram dados coletados entre os anos de 1948 e 2004 nos 925 maiores rios do planeta, e concluíram que vários rios de algumas das regiões mais populosas estão perdendo água.

De acordo com os pesquisadores, a bacia do São Francisco foi a que apresentou o maior declínio no fluxo de águas entre os principais rios que correm em território brasileiro durante o período pesquisado.

Neste mesmo período, o fluxo de águas na bacia do Amazonas caiu 3,1%, enquanto as bacias de outros rios brasileiros apresentaram uma elevação na vazão.

O fluxo de águas no rio Paraná (que termina na Argentina), por exemplo, apresentou um aumento de 60% no período pesquisado, enquanto a bacia do Tocantins registrou um acréscimo de 1,2% em sua vazão.

Segundo o cientista Aiguo Dai, o líder da pesquisa, esta variação está relacionada principalmente a mudanças na quantidade de chuvas nas regiões das bacias.

São Francisco

Estas alterações nos níveis de precipitações, de acordo com o pesquisador, estariam relacionadas, principalmente, ao fenômeno meteorológico El Niño, que consiste em um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico e que afeta o clima da região e do planeta.

Dai afirma que, entre 1948 e 2004, a região da bacia do rio São Francisco apresentou uma leve queda nos níveis de precipitações e um grande aumento de temperatura.

Estes dois fatores contribuíram para o grande declínio do escoamento do rio. Segundo ele, o aumento das temperaturas eleva a evaporação, e assim, reduz o fluxo de água do rio.

"Eu avalio que algumas destas mudanças na temperatura e nas precipitações estão relacionadas às mudanças nas atividades do El Niño, mas não todas elas", afirma o cientista.

Água

De um modo geral, o estudo aponta que alguns dos rios mais importantes do planeta e que abastecem áreas populosas estão perdendo água.

Um terço dos 925 rios pesquisados apresentaram mudanças significativas nos fluxos de água no período, sendo que aqueles que perderam vazão ultrapassam os que ganharam em uma proporção de 2,5 para 1.

Entre os rios que apresentaram declínios na vazão estão alguns que servem a grandes populações, como o Amarelo, na China, o Niger, na África, e o Colorado, nos Estados Unidos. Em contraste, os pesquisadores constataram um aumento considerável na vazão de rios em áreas pouco habitadas no Oceano Ártico.

Entre os que permaneceram estáveis ou que registraram um pequeno aumento no fluxo de água estão o Yang Tsé, na China e Bhrahmaputra, na Índia.

Segundo os pesquisadores, muitos fatores podem afetar a vazão desses rios, incluindo barragens e o desvio de água para a irrigação.

Mas, de acordo com os dados da pesquisa, em muitos casos, a redução no fluxo de água pode estar relacionada às mudanças climáticas globais, que alteram os padrões de chuvas e os níveis de evaporação.

"A redução na vazão aumenta a pressão sobre as reservas de água doce em grande parte do mundo, especialmente em um momento em que a demanda por água aumenta por causa do crescimento da população. A água doce é um recurso vital, e a tendência de queda é motivo de preocupação", diz Aiguo Dai.

Pesquisas anteriores feitas em grandes rios, no entanto, apontavam que a vazão global dos cursos de água estaria aumentando.

BBC Brasil

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Crescimento com desigualdade pode ameaçar Índia como potência em 2020


Daniel Gallas
Enviado especial da BBC Brasil a Nova Délhi e Hyderabad

O forte crescimento econômico que colocou a Índia na lista de emergentes aumentou a desigualdade social do país e pode comprometer seriamente sua inclusão no clube das potências mundiais até 2020. Analistas e lideranças políticas ouvidas pela BBC Brasil afirmam que o fato de a Índia ter milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza impõe um limite ao crescimento do PIB nacional, comprometendo a continuidade do desenvolvimento e aumentando o risco de instabilidade social e violência.

Para continuar a manter seu ritmo de crescimento e evitar distúrbios sociais que venham a ameaçar a segurança do país, afirmam especialistas, o governo indiano terá que enfrentar o desafio de estender os benefícios dessa prosperidade a mais camadas da sociedade.

"Os indianos precisam parar de acreditar que o país vai continuar crescendo acima de 6% ao ano automaticamente, sem que nenhum esforço seja feito, e que nosso destino inevitável é se tornar uma potência", diz Rajiv Kumar, analista do instituto de pesquisa Indian Council for Research on International Economic Relations (ICRIER), sediado em Nova Délhi

O modelo de desenvolvimento econômico adotado pela Índia - que resultou num crescimento médio de 8% ao longo dos últimos quatro anos - foi paradoxalmente a mesma causa do aumento da desigualdade. O país apostou em grande parte nos setores de tecnologia da informação, serviços e telecomunicações, o que aumentou a prosperidade da Índia urbana. Mas, em contrapartida, a Índia rural, onde vive cerca de 60% da população do país, foi mantida amplamente à margem dessa prosperidade - limitada a atividades agrícolas de baixa rentabilidade e por uma força de trabalho sem qualificação.

O Banco Mundial afirma que a Índia até conseguiu retirar pessoas de baixo da linha da miséria extrema: o percentual de indianos com renda inferior a US$ 1 por dia caiu de 42% em 1981 para 24% em 2005. No entanto, a camada mais rica da sociedade melhorou seus padrões de consumo de forma muito mais acelerada do que os mais pobres.

O indicador que mede a diferença de renda entre ricos e pobres - o coeficiente Gini - se manteve estável ao longo dos anos 80, mas disparou a partir das décadas seguintes e continua crescendo. Igualmente, os Estados indianos que concentram a maior riqueza crescem mais rápido do que os Estados mais pobres. Alarmado com essa disparidade, o Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a afirmar em estudo recente que "a maré da economia indiana sobe, mas nem todos os barcos estão conseguindo subir junto".

Prosperidade

Do lado da Índia que cresce estão empresas com mão-de-obra altamente qualificada, que passaram a competir no mercado internacional com multinacionais de países desenvolvidos com custos mais competitivos. Para essa Índia, os prognósticos para 2020 são positivos:

"A competitividade do setor de tecnologia indiano vai continuar ao longo da próxima década, e até por mais anos", acredita B. Krishnamurthy, um dos vices-presidentes da empresa Wipro Technologies, na cidade de Hyderabad.

A empresa é um dos símbolos da camada de cima da Índia, que não para de enriquecer. Há 60 anos, a empresa produzia óleo de cozinha. Hoje, com 97 mil funcionários, ela é a segunda maior empresa de tecnologia da informação do país.

Assim como muitos indianos, Krishnamurthy confia no fator demográfico para continuar elevando o crescimento da Índia.

O país tem a segunda maior população do mundo. Após as reformas de liberalização da economia promovidas nos anos 90, a renda per capita do país disparou (132% entre 1990 e 2006) e os 1,3 bilhão de indianos passaram a ser vistos, por investidores estrangeiros e empresários locais, como um enorme mercado consumidor em potencial. Muitos especialistas afirmam, inclusive, que a vantagem demográfica da Índia foi um dos principais motores do crescimento econômico do país.

"A Índia tem a maior população de trabalhadores jovens do mundo, 28% da nossa população é jovem", diz o executivo. "Eles falam inglês e são bem educados e capazes. Isso será a nossa grande vantagem. Enquanto outros países ainda estão tentando nos alcançar, eu tenho certeza que essa vantagem vai nos manter à frente dos demais."

Instabilidade

Nem todos concordam, entretanto. Analistas costumam prever dois cenários para o futuro do país. Um é positivo, no qual o governo conseguiria incluir a população "no barco que sobe", e a Índia manteria um crescimento sustentável em torno de 10%. O outro é sombrio, com estagnação econômica e instabilidade social.

Nos últimos anos, o crescimento da desigualdade, sobretudo no meio rural, fortaleceu movimentos extremistas de inclinação maoísta, como o dos nexalitas, que pregam uma revolução social e insurgência contra o governo. Hoje eles já atuam em 40% do território indiano. O primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, já disse que os nexalistas são a principal ameaça à segurança da Índia.

BBC Brasil

Desastres naturais afetarão 375 mi por ano em 2015


Oxfam crê que catástrofes atingirão mais pessoas no futuro
O número de pessoas afetadas por desastres naturais deve aumentar em mais de 50% até 2015 e atingir a média de 375 milhões de pessoas por ano, segundo a organização não-governamental britânica Oxfam.

Os dados fazem parte do relatório Direito a sobreviver, divulgado nesta terça-feira. A Oxfam, que combate a pobreza, usou dados do centro de pesquisa belga CRED, que há trinta anos coleta estatísticas sobre o impacto de catástrofes naturais no mundo, como secas e enchentes.

Os números do CRED mostram que, entre 1998 e 2007, cerca de 243 milhões de pessoas por ano foram afetadas por catástrofes naturais. Os dados indicam um progressivo aumento na incidência desse tipo de problema.

Segundo a Oxfam, a média anual de 375 milhões de pessoas atingidas por desastres naturais até 2015 foi obtida com base em projeções do aumento da população e da incidência de catástrofes naturais entre 1998 e 2007.

Apoio humanitário

O relatório da Oxfam afirma que se as projeções estatísticas se confirmarem os sistemas de apoio humanitário não terão condições de atender a todos.

A Oxfam alerta que as agências humanitárias podem ficar sobrecarregadas pelo excesso de vítimas de inundações, tempestades e secas.

O diretor da Oxfam, Rob Bailey, disse à BBC que as agências humanitárias não precisam apenas de mais dinheiro, mas que é preciso melhorar a forma como este dinheiro é gasto. O grupo pede que os recursos sejam gastos de forma imparcial, e não de acordo com interesses políticos.

"Nós precisamos nos certificar de que este dinheiro é gasto de melhores formas", disse.

"No momento, as pessoas pobres no mundo em desenvolvimento que enfrentam desastres naturais estão quase que participando de uma loteria em escala global."

Segundo Bailey, há uma grande disparidade na forma que o dinheiro chega às agências humanitárias. Ele disse que foram gastos em média US$ 1,2 mil por vítima do tsunami de 2004 na Ásia. No entanto, o gasto por pessoa com as vítimas da recente crise humanitária no Chade foi de apenas US$ 23, em média.

BBC Brasil

Entenda o julgamento sobre a demarcação da Raposa/Serra do Sol


17/03/2009
da Folha Online

O STF (Supremo Tribunal Federal) julga ação popular que questiona a legalidade da demarcação em área contínua da reserva indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, na divisa com Venezuela e Guiana. Além dos índios, o território, de 1,7 milhão de hectares, também abriga produtores rurais que reivindicam seu direito de permanecerem na reserva.

A ação começou a ser julgada em agosto de 2008, mas após a leitura do primeiro voto, do relator Carlos Ayres Britto, a votação foi suspensa por pedido do ministro Carlos Alberto Menezes Direito. Retomado em dezembro do mesmo ano, foi novamente suspenso após pedido de vista do ministro Marco Aurélio de Mello.

Antes da nova suspensão, 8 dos 11 ministros votaram pela demarcação contínua, embora com algumas ressalvas (veja abaixo como votou cada ministro). Além de Marco Aurélio, ainda faltam os votos do ministro Celso de Mello e do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes.

Cerca de 19 mil índios de cinco etnias vivem na região da reserva agrupados em quase 200 aldeias, chamadas de malocas. O maior grupo é da etnia macuxi, que convivem com wapichana, taurepang, ingaricó e patamona.

História

Em 1917, o governo do Amazonas destinou, por meio de lei, as terras compreendidas entre os rios Surumu e Cotingo para a ocupação e usufrutos dos índios macuxi e jaricuna. A demaração física, no entanto, só começa dois anos depois, quando o território já começava a ser invadido por fazendeiros. O trabalho é interrompido sem ser finalizado.

Após inúmeras tentativas de delimitar a área, a reserva é demarcada em 1998, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, e homologada em 2005, já durante a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, quando começou a retirada dos não-índios da região.

Em 2008, porém, após mais de dois anos do processo de saída de pequenos produtores, a Polícia Federal foi chamada para ajudar na retirada de grandes produtores de arroz, que tem fazendas na parte sul de Raposa.

Um grupo de fazendeiros e de índios que os apoiam resistiram e o governador de Roraima, José de Anchieta Júnior (PSDB), recorreu ao STF pedindo a suspensão da operação federal. Em maio de 2008, o Supremo decidiu pela paralisação da operação até que fosse julgado o mérito das ações que contestam a legalidade da reserva.

Prós e contras

Ao todo, são mais de 30 ações que contestam a legalidade da homologação contínua da reserva indígena Raposa/Serra do Sol. Entre outros argumentos, a ação diz que a demarcação contínua fere o princípio da razoabilidade, "porque estar-se-ia privilegiando de maneira absoluta o princípio da tutela do índio em detrimento de outros igualmente relevantes".

Aponta ainda as consequências "desastrosas" à estrutura produtiva comercial de Roraima e comprometimento da soberania e da segurança nacionais. Também suscita os direitos dos não-índios que habitam a região "há três ou mais gerações" que terão de abandonar as terras.

Se a ação for aceita, será permitida a presença de não-índios na área que hoje corresponde à reserva e a demarcação teria de ser revista.

Além do próprio governo do Estado, são contra os rizicultores, criadores de gado e a restante população não-índia da região, apoiados por parte dos indígenas, reunidos na Sodiur (Sociedade de Defesa dos Indígenas Unidos do Norte de Roraima).

Os que são a favor alegam que a Constituição de 1988 assegura aos índios "os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens". O desmembramento da reserva, alegam os favoráveis à demarcação contínua, ameaçaria a sobrevivência física e sociocultural dos povos indígenas. Os índios afirmam que precisam de áreas grandes para viver por causa de sua tradição e da maneira coletivista de produzir e se organizar.

Entre os defensores da demarcação contínua está uma grande parte dos indígenas, representados principalmente pelo CIR (Conselho Indígena de Roraima), além de entidades da sociedade civil ligadas à defesa da causa indígena ou social. Entre elas, a ONG Instituto Socioambiental, Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Folha de São Paulo

terça-feira, 21 de abril de 2009

O que esperar da China


17/04/2009
Nouriel Roubini
A China, segunda maior economia do planeta, de acordo com o critério de Poder de Paridade de Compra, contribuiu com 10% da produção global em 2007 e 2008. É, portanto, um elemento-chave para a recuperação mundial. É claro que o país sofreu uma forte desaceleração no segundo semestre de 2008, com base em vários indicadores: Produto Interno Bruto (PIB) próximo a zero no quarto trimestre ante o trimestre anterior, queda nas vendas de veículos e imóveis, fracos indicadores industriais e retração das exportações e importações.

Há sinais crescentes, contudo, de uma recuperação em março, depois do mergulho do quarto trimestre de 2008, a sugerir que a retomada persistirá até o fim deste ano. Não é ainda motivo de comemoração. O site RGE Monitor ainda vê riscos para o crescimento chinês, que provavelmente será menor do que a meta governamental de 8% e talvez abaixo dos 6,5% previstos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial. Um número entre 5% e 6% parece mais provável. Uma estimativa mais otimista dependeria de uma forte arrancada global, especialmente dos Estados Unidos, fato que só deverá ocorrer em 2010. Parece prematuro acreditar em recuperação econômica, particularmente na reação da demanda das economias do G-3 (EUA, União Europeia e Japão), que absorve a maior parte das exportações do país.

Há outros riscos neste cenário. Primeiro, a política de estímulo da China pode provar ser insuficiente e novos pacotes devem ser adiados. Em segundo lugar, se uma recuperação levar à superoferta de dinheiro fácil, por meio de políticas fiscais e afrouxamento do crédito, isso pode gerar inadimplência, queda dos lucros ou crescimento dos prejuízos.

Dado o colapso da demanda externa, as exportações agora estão em queda livre, uma vez que as políticas que eventualmente resultariam em mais consumo não foram totalmente implementadas. O trabalho de aquecer a demanda interna está nas mãos de uma política fiscal proativa e de um maior afrouxamento nas políticas creditícia e monetária.

Apesar de o investimento governamental ter crescido acentuadamente em fevereiro, os gastos do capital privado têm a tendência de se manter fracos em 2009, em razão do declínio dos lucros. Além disso, embora os indicadores de consumo privado, como vendas no varejo, estejam relativamente robustos, crescem a um ritmo menor do que em 2008. A extensão do desemprego e a retração da renda, assim como a redução da confiança do consumidor, podem prolongar o ritmo fraco de vendas, sobretudo em áreas urbanas, a despeito dos incentivos governamentais.

A China deu respostas contundentes à crise, que incluíram o afrouxamento monetário, o incentivo aos empréstimos bancários e uma agressiva política de investimentos governamentais, para tentar compensar a retração dos gastos privados. Ainda assim há chances de o país crescer apenas 5% ou 6% em 2009, metade dos porcentuais registrados há cinco anos, e claramente abaixo do seu potencial. O crescimento pífio para os padrões asiáticos resultará em uma aterrissagem forçada, seguida por perdas de postos de trabalho e fechamentos de empresas. Além disso, a demanda por commodities será muito menor.

O país também está alocando recursos para fazer frente a metas de longo prazo, inclusive com uma crescente participação de combustíveis renováveis na matriz energética. No entanto, a meta implícita para o déficit fiscal de 3% do PIB, estabelecida pelo Ministério das Finanças, limitará os investimentos necessários para a retomada econômica em 2010. O lado positivo é que o nível de poupança doméstico, a dívida sob controle e o fato de a China ainda atrair investimentos estrangeiros diretos posicionam o país em situação mais confortável do que a dos demais países emergentes.

A moeda local, o yuan, voltou a ser atrelada informalmente ao dólar, o que permite a acumulação de reservas e a compra de ativos americanos, mesmo em um ano difícil como 2009. Mas haverá uma inevitável retração da entrada de recursos, muito abaixo do registrado em 2008.

É grande a distância entre os fragilizados EUA, a economia global e a meta de crescimento chinês de 8% neste ano. Dadas as perspectivas ruins para a produção americana, o país deve continuar a crescer aquém do seu potencial em 2010.

Há ainda outro complicador. Mesmo quando os EUA se recuperarem, isso se dará menos em razão do consumo e das importações e mais na melhora das exportações brutas. Caminha para uma mudança o mundo em que os EUA eram o consumidor de primeira instância, gastando mais do que a renda e contabilizando fortes déficits em conta corrente, e em que a China era o produtor de primeira instância, com grandes superávits em conta corrente.

Revista Carta Capital

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A crise mundial e a logística de transportes no Brasil


Nilder Costa
27/fev/09 (Alerta em Rede) – Há indícios alvissareiros que o governo começa a se mexer para dinamizar os dois modais de transporte que têm sido, historicamente, relegados a segundo plano: o ferroviário e o hidroviário.

Ferrovias
Segundo Bernardo Figueiredo, diretor-geral da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), o governo vai promover a maior reforma regulatória no setor desde a privatização após constatar que as atuais concessionárias de ferrovias estão explorando apenas 38% do total de 28,8 mil quilômetros de trilhos administrados pela iniciativa privada. [1]

Fonte: Valor Econômico



A primeira medida em estudo refere-se à mudança nas metas de desempenho, hoje estabelecidas para o conjunto da malha operada pela concessionária, que serão fixadas para cada um dos corredores ferroviários dentro de uma mesma concessão. A percepção da ANTT é que as concessionárias privilegiam regiões de maior demanda e deixam semi-abandonados 62% de seus trilhos, inviabilizando pequenos e médios usuários de escoar sua produção pelas ferrovias. Com as novas metas, todos os trechos deverão ser ativados, ainda que não ofereçam a mesma rentabilidade dos mercados mais nobres da área de concessão. Figueiredo garante que a agência "não vai rasgar contratos".

A segunda medida visa a obrigação de compartilhas as malhas ferroviárias, ou o ‘direito de passagem’, e que pode ser comparado ao que já ocorre no setor de transmissão elétrica Não deixa de ser algo comparável ao que existe no setor elétrico onde grandes consumidores podem tornar-se clientes de fornecedores de energia que estão fora da área de concessão da distribuidora local, bastando pagar pelo uso da rede de distribuição. De fato, o direito de passagem já consta dos contratos de concessão, mas não foi regulamentado. Trata-se de uma medida de grande impacto logístico uma vez que irá colocar em prática uma das grandes vantagens comparativas das ferrovias, que é o transporte de grandes cargas a distâncias superiores a 500 km.
Bernardo Hees, presidente da América Latina Logística (ALL), não vê problemas nas mudanças que a ANTT planeja fazer no modelo de concessões ferroviárias. Hees admite que há locais com menos volume de transporte que o potencial a ser explorado, mas afirma que a empresa está trabalhando para torná-los viáveis economicamente e cita o caso de Antonina, no litoral do Paraná. "Era um trecho de baixa densidade dois anos atrás e hoje é um trecho normal, porque conseguimos viabilizar investimentos e contratos”. [2]

O importante é que as concessionárias estão trabalhando em conjunto com a ANTT. Para Hees, "o que está sendo interessante nesse processo" é que as partes envolvidas estão discutindo formas de trazer mais investimentos e crescimento para as ferrovias:"Isso é música para nós", disse ele acrescentando que a ALL está vivendo um de seus melhores momentos e manterá os planos de investimentos em 2009: "Estamos investindo, contratando e vamos crescer."

Trem-bala
Em outra vertente ferroviária, o governo confirmou que pretende lançar, ainda neste ano, o edital de licitação para o projeto do trem de alta velocidade entre Rio-São Paulo-Campinas (650 km), o chamado trem-bala. Para tanto, o governo resolveu criar uma nova estatal para cuidar de todo o processo de absorção de tecnologia envolvida no projeto. [3]

Segundo o secretário-executivo do Ministério dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, o compromisso de transferência de tecnologia será um dos pré-requisitos para entrar na disputa e garantiu que o governo já recebeu a confirmação de que bancos de fomento estrangeiros continuam dispostos a financiar "grande parte" do empreendimento. Grupos franceses (Alstom), alemães (Voith Siemens), italianos (Ansaldo Breda), coreanos (Hyundai) e japoneses (Mitsubishi, Kawasaki, Toshiba e Hitachi) manifestaram interesse em participar do leilão. Passos disse ainda que estão praticamente prontos os projetos de lei para constituir a nova estatal – que deve se chamar Empresa de Pesquisa Ferroviária (EPF) -, e um decreto presidencial regulamentando seu funcionamento.

Igualmente, a China Railway Materials (CRM), estatal chinesa que constrói e opera ferrovias no país, prepara-se para entrar na licitação do primeiro trem de alta velocidade no Brasil. O projeto atraiu o interesse dos asiáticos, que estão construindo uma das maiores obras do gênero atualmente, o Expresso Pequim-Xangai, estimada em US$ 31 bilhões e com extensão de 1.318 quilômetros. De fato, foi a partir de acordos com a Voith Siemens e a Kawasaki que os chineses ingressaram na era dos trens-bala, a partir da virada da última década. , João Vianna, representante da CRM no Brasil, afirma que houve um processo bem-sucedido de absorção de tecnologia estrangeira e agora a China está capacitada a construir seus próprios trens, dispensando fornecedores externos. De acordo com ele, essa tecnologia estará à disposição para transferência aos brasileiros no novo projeto e que a CRM está disposta a instalar uma unidade no Brasil para produzir equipamentos. [4]

O custo do trem de alta velocidade (Rio-São Paulo-Campinas) é estimado em US$ 11 bilhões e Passos reconheceu que o governo precisará subsidiar parte do valor, alegando que a experiência internacional demonstra a necessidade de parceria com o setor público. O secretário explicou que o fornecedor estrangeiro de tecnologia deverá associar-se a empreiteiras nacionais para participar da licitação, sendo que os consórcios deverão ir juntos à concorrência e fazer parte da composição da sociedade de propósito específico (SPE) a ser criada para gerir o trem-bala.

PAC ferroviário
Existem três projetos ferroviários no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): a Transordestina (1.728 km), concessão da CSN; o trecho Palmas (TO)-Estrela do Oeste (SP), da Ferrovia Norte-Sul, da Vale; e o trecho da antiga Ferronorte entre Alto Araguaia-Rondonópolis (MT), 260 km, da Brasil Ferrovias.

A Transnordestina parece que está, finalmente, deslanchando. Já a Norte-Sul vai em bom ritmo e deve chegar a Palmas (TO) ainda este ano, estando já com mais de 460 km concluídos (ver mapa em www.valec.gov.br/tracado.htm ). Já o terceiro projeto foi alvo de críticas da ministra Dilma Roussef que avisou: “Informamos aos donos da Ferronorte (ALL, BNDES e fundos de pensão de empresas estatais) da possibilidade de caducidade da concessão para a construção e exploração da ferrovia entre Alto Araguaia e Rondonópolis, no Mato Grosso, com 260 quilômetros de extensão. Agora, eles estão investindo. A partir de agora, quem tiver uma concessão do governo, em qualquer área, e não explorar vai perdê-la. O objetivo, claro, não é retomar a concessão. O governo vai exigir que haja a exploração”.


A hora das hidrovias
Segundo o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT), Luiz Antônio Pagot, o governo está preparando uma espécie de "PAC das hidrovias" com investimentos de até R$ 18 bilhões contemplando a ampliação e instalação de três grandes hidrovias. [5]

A principal obra, avaliada entre R$ 5 bilhões a R$ 8 bilhões, é a ampliação da Hidrovia Tietê-Paraná. A ideia é ampliar o trecho navegável dos atuais 800 quilômetros para 2 mil quilômetros em um prazo de quatro anos. "Para isso, teremos de fazer 12 eclusas e a capacidade de transporte de carga aumentaria de 5 milhões para 30 milhões de toneladas por ano, sem dizer que a hidrovia terminaria a uma distância de 150 quilômetros do Porto de Santos", disse Pagot.

A segunda obra é a ampliação da Hidrovia do Tocantins que será viabilizada com o término – finalmente – da construção da famosa eclusa de Tucuruí. O projeto em estudo prevê a construção de mais três eclusas (custo estimado de R$ 2,1 bilhão), elevando a distância navegável para 2.200 quilômetros.

O terceiro projeto trata da implantação da hidrovia Tapajós-Teles Pires, que demandaria investimentos de R$ 5 bilhões e que ampliaria a navegabilidade do sistema dos atuais 300 quilômetros para 1.500 quilômetros. Essa hidrovia é estratégica para o escoamento da produção agrícola do norte de Mato Grosso pelo porto de Santarém, no Pará.

Conforme Pagot, os estudos e documentos relativos ao “PAC das hidrovias” deverão ser apresentados aos ministros dos Transportes, Alfredo Nascimento, e da Casa Civil, Dilma Rousseff, até o fim de março. O entusiasmo e confiança com os projetos é de tal ordem que Pagot aproveitou para informar que o Governo Federal pretende transformar 2009 no ano hidroviário nacional.

O processo
De fato, esse processo de dinamização dos modais ferroviário e hidroviário começou em meados de 2007 quando, após quase 20 anos desde o último planejamento de transportes realizado no País, feito pelo extinto Geipot, foi lançado o Plano Nacional de Logística e Transporte (PNLT). Mesmo que em caráter preliminar, o plano, que contempla dois períodos (2008-2015 e 2016-2023), recomenda uma mudança significativa na matriz de transportes brasileiro: a participação do modal rodoviário deverá cair dos atuais 58% para 33%, sendo reforçados os modais ferroviário (passando de 25% para 32%) e o hidroviário (passando de 13 para 29%). [6]

O próximo passo ocorreu em meados de 2008 quando a Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória 427 que promoveu uma verdadeira revolução no sistema ferroviário brasileiro e no próprio Plano Nacional de Viação (PNV), com a inclusão de novas ferrovias e a alteração e ampliação do traçado de outras já existentes ou em projeto.

A principal alteração foi na EF-151 (Norte-Sul), que agora deverá ligar Belém (PA) até a cidade de Panorama (SP), com nada menos que 3.100 km de extensão. Já a principal inclusão foi a linha que corta o Brasil de leste a oeste e é formada por dois trechos: a EF-334, que liga Ilhéus (BA) a Alvorada (TO) e segue daí pela EF-246, que liga Uruaçu (GO) a Vilhena (RO), somando cerca de 3.000 km. Os estudos ambientais para estas duas ferrovias já foram colocadas em licitação pela Valec. Ressalte-se que uma das mudanças introduzidas na MP foi a que denomina a EF-246 como Transcontinental Brasil-Peru, que recorda um projeto com tal perspectiva proposto na década passada pelo engenheiro brasileiro Vasco Azevedo Neto: a ferrovia Transulamericana, que teria como pontos extremos Salvador (BA) e Puerto Bayovar, Peru. [7]

Se o governo conseguir criar e prover as condições necessárias para concretizar o planejado na logística de transportes, o Brasil não somente enfrentará mais facilmente as conseqüências da atual crise financeira internacional como emergirá dela em condições muito melhores que as atuais para exercer sua influência no cenário mundial.

Notas:
[1]Governo vai alterar regras para ferrovias, Valor, 11/02/2009
[2]ALL não vê problema em mudanças nas concessões, Valor, 13 de fevereiro de 2009
[3]União quer criar estatal para construir e operar trem-bala, Valor, 16/02/2009
[4]Chineses já se preparam para disputar licitação, Valor, 16/02/2009
[5]Governo prepara ''PAC das hidrovias'', O Estado de São Paulo, 19/02/2009
[6]Enfim, um plano estratégico de transporte e logística, Alerta Científico e Ambiental, 21/06/2007
[7]Ferrovias de Norte a Sul e de Leste a Oeste, Alerta Científico e Ambiental, 10/07/2008

Alerta em Rede - http://www.alerta.inf.br/Transporte/1465.html

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Mas o que isso tem a ver com meio ambiente?

Colunista mostra o que o LHC, a crise econômica americana e o aquecimento global têm em comum


Um dos detectores de partículas do LHC, inaugurado este mês, quando ainda estava em fase de construção (reprodução).

Cena 1: A recente inauguração do LHC, o mega-acelerador de partículas da Organização Européia para Pesquisa Nuclear (CERN), na fronteira franco-suíça, provoca temores de formação de buracos negros que tragariam os incautos cientistas, seus equipamentos e, quem sabe, o mundo inteiro.

Cena 2: O governo americano – ou seja, o contribuinte americano – injeta centenas de bilhões de dólares no seu sistema financeiro para salvar bancos que apostaram alto com dinheiro alheio em operações duvidosas, provocando um efeito cascata mundial e expondo a ineficiência das agências reguladoras.

Mas... um momento. Esta não é uma coluna de física nem de economia, é de meio ambiente! O que essas cenas têm a ver com o assunto? Cadê as tartarugas, botos e outros representantes da chamada “fauna carismática”?

Vamos à cena 1: como reagimos aos temores ali expressos? Com um sorriso condescendente, lembrando de todas as seitas apocalípticas à espreita dos menores sinais de nosso fim, inevitável, embora sempre adiado. Mas talvez também com uma ponta de temor: não sou físico, o perigo parece improvável, mas... Já brincamos com fogo antes: e se os paranóicos estivessem certos?

Lembremos agora de como reagimos coletivamente aos primeiros avisos de que a Terra estava se aquecendo... Com descrença. Primeiro duvidou-se que o aquecimento fosse real, depois de que ele fosse imputável às atividades humanas. Agora se discute quanto vai custar fazer algo, qual seria o prejuízo de não fazer nada e quem vai pagar a conta em qualquer dos casos. Uma notável evolução, e em menos de duas décadas.

Previsões otimistas
Mas será que vai mesmo dar tempo de fazer alguma coisa? Já não teremos lançado buracos-negros bomba-relógio na biosfera em quantidade suficiente para ameaçar nossa própria sobrevivência? O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou no inicio de setembro um novo estudo sobre as mudanças climáticas na Amazônia, em que prevê um aquecimento de até 7 graus até 2100. As primeiras previsões, na verdade, eram então demasiado otimistas...

E não estamos falando apenas de micos, bagres e posseiros semi-analfabetos. A produção de alimentos e energia no Sudeste do Brasil e, por extensão, no Mercosul, depende... da chuva. E a chuva no Sudeste depende do balanço hídrico da Amazônia. Simples assim. Os “ambientalistas radicais”, os “ecochatos” estavam certos: previram que a chapa ia esquentar, só erraram na estimativa do quanto. E toda semana pipocam novas evidências de que o bicho é mais feio do que parece.

Uma das últimas é o derretimento da calota do Pólo Norte, a ponto de abrir duas passagens navegáveis entre o Atlântico e o Pacifico – já disputadas por Canadá e EUA –, materializando ironicamente a sonhada passagem Norte, na busca da qual tantos exploradores pereceram inutilmente nos séculos 18 e 19.


Foto tirada pelo satélite Aqua mostra com detalhes inéditos a diminuição da cobertura de gelo no Pólo Norte. Essa cobertura atingiu este mês o segundo ponto mais baixo já registrado (foto: NASA/GSFC).

Mas o detalhe macabro não tira o sono do Sr. Mercado, que, ao contrário, festeja a notícia, enquanto recalcula, para baixo, os custos de frete. Que sorte incrível, acabamos de devolver o Canal de Panamá ao Panamá e abre-se uma opção ao norte que não exigiu nenhum investimento e, ainda por cima, não tem pedágio nem mosquitos!

A implacável lógica do mercado
E assim chegamos à cena 2. Quem decide, quem lucra, quem perde? E o que isso tem a ver com meio ambiente? Tudo. Quem vai decidir se o Brasil em dez anos será um grande canavial, um grande campo de soja ou um mosaico de culturas, cultivos e paisagens não é você, nem mesmo nosso presidente. É o Sr. Mercado e suas empresas: anônimas, multinacionais, mais fortes que os governos e regidas pela lógica implacável do crescimento do lucro a curto prazo.

O horizonte da empresa é a próxima reunião de acionistas. Seus diretores são até muito simpáticos, mas, embora saibam que promovem um estilo de vida insustentável, não querem ser as primeiras vitimas da próxima reestruturação. Assim, as empresas seguem seu caminho, abocanhando mercados e oportunidades antes que outras o façam, tentando lucrar com o veneno e com o antídoto, enquanto ainda for possível fabricar os dois. Depois... bem, o depois é tema para a próxima diretoria!

Mas e os governos e suas agências reguladoras? Eles não chegarão para nos salvar, no último momento, como a cavalaria nos filmes de bangue-bangue? Não. Não se seus postos-chave forem ocupados por ex ou futuros empregados das empresas em questão, no que se convencionou chamar de padrão das “portas giratórias”.


Lavoura de soja em Wisconsin, nos Estados Unidos, maior produtor mundial do grão. Em 2006, 89% da soja produzida ali era transgênica (foto: Wikimedia Commons).

Paranóia? Então explique como foi possível cobrir boa parte da superfície terrestre com plantas transgênicas patenteadas sem que qualquer estudo sério, reprodutível e independente atestasse previamente sua segurança para o meio ambiente e nossa saúde, ou até mesmo sua lucratividade em relação às alternativas convencionais.

Transgênica ou não, a agricultura hoje se faz cada vez mais sem agricultores. Investidores compram a terra que nunca pisaram, uma empresa cuida do plantio, outra se encarrega da fumigação aérea com herbicidas e pesticidas, uma terceira da colheita e assim por diante.

Impactos como erosão, redução da biodiversidade, efeitos tóxicos sobre os humanos e a biota, inchaço das cidades por êxodo rural e prejuízos caso a aventura comercial der errado não entram nas planilhas e contratos. São as chamadas externalidades, primas dos danos colaterais das guerras modernas. Quando os estudos acadêmicos, caros, longos e complexos, provarem finalmente que não valia a pena, as empresas estarão na terceira fusão, os políticos no enésimo mandato, e um longo processo judicial apenas começando. Nada contra a agricultura: foi só um exemplo.

Vai dar tempo?
Ficção cientifica? Quem dera. Assista a dois vídeos notáveis, The story of stuff e The corporation, ambos disponíveis na internet. O primeiro analisa de forma clara o ciclo infernal de produção, consumo e descarte do qual parecemos prisioneiros. O segundo investiga, com eloqüentes exemplos, a personalidade das empresas, “pessoas jurídicas”, concluindo que estas atendem os requisitos da Organização Mundial da Saúde (OMS) para classificação de pessoas físicas como psicóticas... Mesmo que seus funcionários sejam, individualmente, ótimos vizinhos.

Tentarei ser mais otimista nas próximas colunas e falar de borboletas, baleias e micos-leões-dourados. Como os arautos do apocalipse, também estou à espera dos menores sinais... mas dos sinais de que o bicho não seja tão feio quanto se pinta. Afinal, também quero conhecer a neve, e odiaria imaginar que meus netos talvez não cheguem a conhecê-la e ainda tenham que disputar ar, água e comida a tapa.

A cavalaria chegará a tempo? Ou os otimistas estão mal intencionados, ou mal informados? Talvez a redação desta conclusão dependa... de você. Se tudo se resume a uma questão de oferta e demanda, então vale a pena perguntar: você precisa mesmo trocar de carro, de calça ou de monitor? Você tem idéia de onde vem a sua comida? Ou de como foi produzido o carvão do seu churrasco, o chip do seu celular e aquele objeto irado que você acabou de comprar a R$ 1,99 numa promoção imperdível? O que pensa seu(sua) vereador(a) sobre tudo isso? Quem banca a campanha dele(a)?

E, de novo, o que isso tem a ver com meio ambiente? Tudo.

Jean Remy Guimarães
Universidade Federal do Rio de Janeiro
19/09/2008
Revista Ciência Hoje

Geografia e a Arte

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