segunda-feira, 30 de março de 2009

Brasileiras - Mais trabalho, menos filhos

Panorama feminino
Brasileiras empreendem, conquistam empregos inclusive na velhice, adiantam vida sexual e gravidez; e ainda carecem de informação, comida e assistência médica
por RODRIGO GALLO


É possível estimar que o Brasil atingirá, ao menos em um aspecto, característica social já observada em países como França, Alemanha e Dinamarca: uma pirâmide demográfica invertida. Ou seja, mais velhos e menos jovens. Entre os motivos desse fenômeno, estudos apontam uma mudança de atitude em relação ao sexo. No início dos anos 1960, o Ministério da Saúde registrava uma taxa de fertilidade superior a 6%. Em 1996, esse indicador era de 2,5% e, em 2006, de 1,8%. Cresce o número de mulheres que exigem preservativo nas relações sexuais e o número das que usam métodos contraceptivos em geral. Esses são alguns dos resultados da Pesquisa Nacional de Demografia em Saúde (PNDS), divulgada recentemente pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). O fato de as mulheres terem menos filhos possui relação com a inserção no mercado de trabalho, segundo José Pastore, sociólogo especialista em sociologia do trabalho e Ph.D. pela Universidade de Wisconsin (EUA). Ele informa que a participação feminina no mercado cresce em média 15 pontos percentuais a cada dez anos. Estudos recentes também apontam que as brasileiras estão ficando cada vez mais empreendedoras.


RODRIGO GALLO é jornalista e escreve para esta publicação.
Atualmente, 38% das micro e pequenas empresas nacionais são comandadas por mulheres. Considerando que o Brasil é um país em crescimento, esse número é surpreendente. Afinal, a média mundial estimada pela London School of Economics, da Inglaterra, é de 30%.
Parte desses empreendimentos femininos no País, entretanto, ainda está na informalidade. De qualquer forma, houve mudanças positivas nas últimas décadas. "A mulher vem conquistando mais espaço no mercado de trabalho, o que acabou contribuindo para o desenvolvimento da economia do País", diz Pastore. Mas a redução do número de filhos por mulher também se relaciona ao envelhecimento da população. A socióloga Andréia Vargas, mestre pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pondera: "A pirâmide etária brasileira tem sido modificada, pois, em alguns estados, a população tem envelhecido nos últimos anos. Considerando isso, é natural que a taxa de fecundidade diminua, pois mulheres mais velhas tendem a ter menos filhos". "Porém, esse envelhecimento não ocorre no País como um todo, mas sim em algumas localidades, pois ainda há regiões onde a população jovem é maioria. Então, a redução da taxa média de fecundidade representa um avanço importante para o desenvolvimento do Brasil", ressalta. Além disso, o fenômeno tem suas causas financeiras. Segundo José Pastore, cresce anualmente o número de aposentados que voltam ao mercado de trabalho, muitos por necessidade.

NOS ÚLTIMOS ANOS, o maior aumento da taxa de emprego formal no País se dá na faixa de 50 a 64 anos, segundo dados do Ministério do Trabalho. De acordo com o último Anuário dos Trabalhadores, de 2007, há 16.079.018 pessoas com mais de 60 anos trabalhando no País. O número é muito próximo ao de jovens entre 15 e 24 anos que estão empregados: 18.462.544. E o sexo feminino tem sua participação nesse processo. Pastore exemplifica que, na década de 1970, apenas 7,9% das mulheres com mais de 60 anos trabalhavam fora. Hoje, já são 19,7%, com tendência de crescimento.

A tendência de alta na contratação de mulheres mais velhas também decorre, ao menos em parte, da redução da taxa de fecundidade das brasileiras. Em países desenvolvidos, como França, Estados Unidos e Japão, por exemplo, os índices de fertilidade também são baixos (inferiores a 2%). Além disso, no exterior é comum encontrar jovens que optam por retardar o início da vida profissional até concluir a pós-graduação. Sendo assim, o mercado de trabalho, sem poder contar com essa mão-de-obra mais jovem, volta tas atenções para os mais velhos. Futuramente, explica Pastore, o Brasil também poderá registrar um cenário cada vez mais parecido com o europeu. Segundo ele, é possível imaginar que, caso a situação econômica brasileira continue em crescimento, em pouco tempo a contratação de idosos ganhará mais força por aqui. Isso reforça a possibilidade de inversão da pirâmide etária, mesmo que a médio ou longo prazo.

Segundo o sociólogo José Pastore (foto acima), é possível imaginar que, caso a situação econômica brasileira continue em crescimento, em pouco tempo a contratação de idosos ganhará mais força por aqui


O PROBLEMA, nestes casos, é que o número de trabalhadores que se aposentam anualmente não é reposto na mesma proporção, pois a taxa de natalidade é baixa: se as mulheres optam por não ter filhos, conseqüentemente há um menor volume de candidatos ao mercado de trabalho no futuro próximo, tornando a base da pirâmide etária cada vez menor.
Daí a tendência da Europa de voltar as atenções para funcionários na terceira idade. Para solucionar esse impasse, alguns países estão recorrendo a planos de incentivo à imigração responsável. A idéia é estimular jovens saudáveis e com qualificação (ou cursando universidade) a se mudar para o país, onde poderão trabalhar e constituir família. No entanto, deve-se fazer uma ressalva. Ter uma estrutura demográfica parecida com a dos países ricos pode não trazer apenas benefícios para o Brasil.
Algumas nações européias, como Suíça e Áustria, por exemplo, enfrentam sérios problemas de escassez de mão-de-obra jovem e de aumento de gastos da Previdência Social. No caso brasileiro, como o Ministério da Previdência Social já tem graves dificuldades para controlar as contas, a saída de trabalhadores do mercado sem a reposição de jovens recém-ingressos - que passariam a pagar as contribuições mensais - pode ser um sinal de alerta. Para pagar as aposentadorias e pensões, o governo depende justamente dessas contribuições e, caso o volume de aposentados aumente de forma desigual ao de ingressos no mercado formal nos próximos anos, os custos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) podem aumentar ainda mais.
Por causa da baixa natalidade, número de trabalhadores aposentados anualmente
não será reposto em um futuro próximo

Nesse contexto, a volta dos aposentados ao mercado de trabalho não é má notícia do ponto de vista dos cofres públicos, ainda que insuficiente para sanar o problema. Futuramente, é provável que o contingente de jovens funcionários de empresas de call center ou redes de fast-food seja gradativamente substituído por idosos aposentados. Grandes empresas, como Pizza Hut e Pão de Açúcar, já possuem programas de contratação de mão-de-obra na terceira idade.
No outro extremo da pirâmide etária, as brasileiras têm a primeira relação cada vez mais cedo em praticamente todo o País - 32,6% das entrevistadas, antes de completar 15 anos, contra 11% das garotas nessa faixa etária há dez anos, segundo a Pesquisa Nacional de Demografia em Saúde. Além disso, o trabalho do Cebrap também mostra que as mulheres estão tendo o primeiro filho cada vez mais cedo. A idade média em que as brasileiras deram à luz o primeiro bebê em 2006 era 21 anos. Em 1996, porém, elas esperavam até os 22 anos e meio. Outro dado a ser considerado é que 53% das crianças nasceram, em 2006, de mães com idade entre 19 e 24 anos. Um dos problemas que a maternidade precoce pode causar é um divórcio igualmente ligeiro.

Gravidez desinformada

Mesmo com a criação de políticas públicas destinadas a fortalecer o conceito de planejamento familiar e orientar as mulheres grávidas de forma mais incisiva, ainda há muitas falhas que precisam ser corrigidas. A última Pesquisa Nacional de Demografia em Saúde (PNDS) aponta que 40% das gestantes não são informadas sobre aonde devem ir na hora do parto e, devido a isso, 90% dos bebês acabam nascendo no primeiro hospital procurado - que muitas vezes não tem nem sequer maternidade. Esse problema pode ser atribuído a uma falha na realização do atendimento pré-natal.
Por causa disso, muitas mulheres, sem saber aonde podem ir para dar à luz, acabam se dirigindo para os centros hospitalares mais próximos de casa e, pela falta de tempo hábil para remoção, têm seus filhos ali mesmo, em condições inadequadas. Por outro lado, a PNDS também aponta um dado positivo. A velha tradição de ter filhos em casa, com as mães sendo auxiliadas por parteiras, está praticamente extinta no Brasil. Segundo a pesquisa, 98% dos partos em 2006 ocorreram em hospitais, mesmo em casos de gestantes que moravam na zona rural. O levantamento aponta, por fim, que 61% das gestantes fazem mais de sete consultas médicas durante a gravidez. Já a rotina de vacinação antitetânica como procedimento de atenção pré-natal continua um problema. Aproximadamente 30% das mães não receberam nenhuma dose da vacina, percentual pouco inferior aos 36% de 1996.

Pesquisa revelou o aumento no total de mulheres que pratica sexo com o uso de camisinha masculina. Porém, ainda há grande número de homens que confia à mulher o papel de se proteger tomando pílula, pois é uma espécie de convenção social preestabelecida

SEGUNDO O jornalista e escritor Gilberto Amendola, autor do livro Meninos grávidos: o drama de ser pai adolescente, cerca de 40% das garotas atendidas pela Casa do Adolescente em 2006, órgão ligado ao governo de São Paulo para orientar jovens gestantes, separaram-se dos parceiros antes mesmo do nascimento do bebê. Já o sociólogo Floriano Pesaro, ex-secretário de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo, acredita que a gravidez cada vez mais cedo e o início precoce na vida sexual decorrem de outro problema social, muito comum principalmente nas periferias: a falta de opções de lazer para os jovens, como clubes, atividades de recreação e mesmo cursos básicos de informática, por exemplo.

Para o sociólogo Floriano Pesaro, é comum jovens menos favorecidos pularem etapas no processo de amadurecimento e iniciarem suas relações muito cedo, antes mesmo de terem consciência dos riscos e das responsabilidades
Pesquisa mostra que mulheres estão
tendo o primeiro filho mais cedo, com
idade média de 21 anos

Pesaro acredita que, como o jovem não tem à disposição outras opções para se divertir, acaba pulando etapas no processo de amadurecimento e tem relações muito cedo - às vezes isso ocorre muito antes de o adolescente ter consciência e conhecimento dos riscos e das responsabilidades. A socióloga Nancy das Graças Cardia, doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Londres (Inglaterra) e coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo, afirma que a falta de aparelhos de lazer é responsável por outro problema na adolescência.
Como muitos pais são obrigados a trabalhar fora, os jovens tendem a ficar na rua, caso não haja outra pessoa para tomar conta deles.
Porém, como não há espaços públicos suficientes para acolher todos esses garotos e garotas, muitos acabam encontrando o caminho das drogas e, em alguns casos, o da violência também. Mesmo com essas dificuldades, os dados da PNDS sugerem que, aos poucos, as pessoas estão ficando mais prevenidas por disporem de mais acesso a informações.

TAMBÉM CRESCEU a oferta de anticoncepcionais e preservativos na rede pública de saúde. E o percentual de mulheres que recorreram a esse sistema triplicou. De acordo com os dados referentes a 2006, 21,3% das entrevistadas na pesquisa afirmaram ter buscado pílulas contraceptivas no Sistema Único de Saúde (SUS). No meio da última década, esse número era de somente 7,8%. Outro dado revelado na última edição da PNDS, do Cebrap, é que tem aumentado o total de mulheres que pratica sexo com parceiros com o uso de camisinha masculina. E mais: diminuiu o número de brasileiras esterilizadas, ao passo que aumentaram as cirurgias em homens, as vasectomias. Esses dados apontam para mudanças bastante definidas no comportamento sexual do povo brasileiro.
"Hoje, as jovens já podem conversar mais abertamente sobre sexo com os pais, embora haja alguns tabus a serem quebrados. No futuro, a tendência é de que cada vez mais as adolescentes recebam orientações sobre métodos contraceptivos em casa e na escola", defende Andréia Vargas. A questão mais importante é que, com o tempo, a responsabilidade pelo sexo seguro, antes considerada uma obrigação exclusiva das mulheres, transfere-se para os homens também. É justamente por isso que eles estão se submetendo mais a vasectomias e usando mais preservativos.

A ÚLTIMA PNDS também aponta que 87,2% das entrevistadas usam algum método contraceptivo para se prevenir de gravidez indesejada, contra 73,1% em 1996 - ao mesmo tempo que a taxa de fecundidade no Brasil caiu sete pontos percentuais nesses dez anos. "Essa é outra mudança interessante, pois pode indicar que as brasileiras estão mais responsáveis e, além disso, a timidez de buscar uma camisinha em um posto é substituída aos poucos pela consciência dos riscos. É um bom indicador de que o País passa mesmo por um processo de desenvolvimento econômico, educacional e social", reflete a socióloga Andréia Vargas.
O sociólogo holandês Evert Ketting também defende essa mesma tese, embora acredite que a mudança deve ser mais acentuada para atingir um nível maior de progresso social. Segundo ele, boa parte dos homens confia à mulher o papel de se proteger durante a relação sexual, tomando pílula, pois é uma espécie de convenção social preestabelecida. Contudo, ele argumenta que isso deve mudar - o que já pode estar ocorrendo, conforme apontam os resultados da pesquisa divulgada em julho.
Segundo Ketting, o poder público deve encontrar formas de projetar e construir centros de orientação sexual exclusivamente voltados para atender os garotos. A idéia é ensiná-los a dividir as responsabilidades com as mulheres, afinal, o filho, em caso de gravidez, também é deles. A questão da falta de escolaridade é outro problema grave que, segundo a pesquisa do Cebrap, leva muitas mulheres a ter uma saúde deficiente, principalmente durante a gravidez. Segundo o levantamento, 10% das 15 mil entrevistadas têm dificuldades de cuidar de si mesmas ou dos filhos por causa da baixa instrução escolar. Segundo o jornalista e escritor Gilberto Amendola, cerca de 40% das garotas atendidas pela Casa do Adolescente em 2006, separaram-se dos parceiros antes mesmo do nascimento do bebê

À direita. Na ocasião da divulgação da PNDS, o ministro José Gomes Temporão retratou indicadores e disse que ocorreu queda em alguns índices problemáticos nos últimos dez anos

Sem estudo, essas mães enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho, e a baixa renda atrapalha na hora de comprar remédios e comida, por exemplo. Na ocasião da divulgação da PNDS, em julho deste ano, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, no entanto, amenizou o problema, afirmando que, em 1996, esse número era de 28%; e caiu para 10%. Essa retração no indicador ocorreu em dez anos. "Estudos relacionam o aumento da escolaridade e o conseqüente aumento da renda com um impacto direto nas condições de saúde. Está havendo uma ampliação da escolaridade, e isso tem impacto direto na saúde", disse em seu discurso, em Brasília.
Porém, até que esse contingente de mulheres com baixa escolaridade seja definitivamente equacionado, muitas brasileiras e, em conseqüência disso, seus filhos continuam com problemas de saúde associados à falta de instrução formal no Brasil. Um dos principais agravantes diretos disso é que a falta de qualificação profissional interfere na busca por melhores empregos, ou mesmo na hora de conseguir uma promoção no trabalho. Segundo os dados do Cebrap, em 46% dos lares onde as mães não têm estudo há grande insegurança alimentar. No caso de mulheres com 12 anos ou mais de escolaridade, esse tipo de problema cai para 6,2%.
Outra forma de comprovar isso é checando os dados comparativos da pesquisa. O levantamento revelou que 16,6% das crianças com mães sem instrução passavam por problemas crônicos de desnutrição na ocasião das entrevistas. Esse problema não mata o jovem, mas acaba interferindo no desenvolvimento da criança e pode prejudicar a capacidade de aprendizado, concentração e até mesmo a capacidade do organismo de reagir a outras doenças. A baixa saúde financeira leva a uma situação de cuidados médicos e alimentação muitas vezes inadequada. Afinal, nem todas as trabalhadoras ganham cesta básica ou possuem plano de saúde realmente bom. Ainda faltam cuidados apropriados durante a gravidez, como vacinas antitetânicas essenciais ao parto

Mais um paralelo que pode ser considerado alarmante: 53,1% das crianças com problemas de excesso de peso têm mães sem instrução, ao passo que o percentual no caso de mulheres com estudo cai para 37,8%. Aliás, o problema de peso entre as próprias mulheres foi apontado pelo estudo como um dos pontos mais alarmantes, que pode ter conseqüências para o sistema de saúde a médio e longo prazo. Outra informação que contraria recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS) se refere à amamentação. De acordo com a última PNDS, somente 40% das mães amamentam os filhos até os 6 meses, como é indicado. A média de tempo de alimentação exclusivamente por leite materno subiu de um mês, em 1996, para 2,2 meses, em 2006 - um avanço, mas ainda abaixo do ideal. De todo modo, a pesquisa do Cebrap não traz apenas notícias ruins, do ponto de vista alimentar.

REFERÊNCIAS
AMENDOLA, Gilberto. Meninos grávidos: o drama de ser pai adolescente. 1ª ed. São Paulo: Terceiro Tempo, 2006. FREITAS, Luiz Alberto Pinheiro de. Adolescência, família e drogas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.
O LEVANTAMENTO concluiu ainda que a desnutrição infantil está em apenas 1,6%, índice abaixo dos limites estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso contribui também para a queda de 44% da mortalidade infantil, de 39 para 22 a cada mil bebês nascidos vivos. É preciso lembrar, contudo, que a diminuição da taxa de natalidade também se reflete nesse indicador. Além disso, a distribuição do índice por regiões no Brasil é notadamente desigual: em estados do Nordeste, chega a 35 óbitos a cada mil nascidos; no Sul, 17. Uma das Metas do Milênio, estipulada pela OMS, é diminuir para 15 mortes por mil até 2015. O Brasil tem chances de conseguir. Mesmo assim, ainda seria mais do que o triplo do índice atual da Dinamarca, que reduziu essa taxa de 4,9 em 2003 para 4,4 este ano - de acordo com dados do Livro dos fatos do mundo (The World Factbook), da Agência de Inteligência Central (Central Intelligence Agency) norte-americana.

Revista Sociologia

História do Capitalismo

RELAÇÕES EXTERIORES
A história do capitalismo mostra que o sistema econômico enfrenta abalos financeiros desde o século XVII e que as crises estão ligadas ao eterno processo de empréstimos, investimentos e inadimplências

POR MARCOS LOBATO MARTINS

Multidão de investidores reunidos do lado de fora do Banco dos Estados Unidos, após anunciar falência, em 1931

Em setembro de 2008, o estouro da "bolha imobiliária" americana deu início a uma crise financeira de enormes proporções. Há quem chame essa crise de "o primeiro crash da globalização". Outros a vêem como o início do fim do "império norte-americano" e a certidão de óbito do neoliberalismo. Para os historiadores econômicos, a assombrosa perda de riqueza que está ocorrendo agora, graças ao derretimento do sofisticado mercado financeiro construído nos países centrais, evidencia algo mais prosaico, embora terrível: o capitalismo é inseparável de crises financeiras agudas. A história do capitalismo pode ser contada, portanto, por meio dos dramáticos enredos das numerosas crises financeiras que ele engendra. É o que se propõe neste artigo, com a devida brevidade.

LUCRO, COMPETITIVIDADE E INSTABILIDADE

Considerado o criador da moderna economia, o escocês Adam Smith (1723-1790), no livro A Riqueza das Nações, apreendeu o princípio motor do capitalismo: "Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu próprio auto-interesse". É a vontade de obter dinheiro e lucro que anima os agentes econômicos, que faz os mercados funcionarem e, segundo Smith, promoverem, de lambuja, o bem-estar dos indivíduos e da coletividade. O mercado capitalista, sob o regime do laissez-faire (deixai estar), produziria a marcha inelutável para o progresso. Ao Estado, caberia apenas garantir a ordem e a segurança contra os inimigos externos.

O alemão Karl Marx, fundador da teoria marxista, que influenciou as grandes revoluções do século XX

As crises econômicas e as revoluções sociais do século XIX colocaram em xeque a visão idealizada do liberalismo de Adam Smith. Karl Marx (1818- 1883), o mais eminente crítico do capitalismo, construiu uma poderosa e influente interpretação da economia capitalista, na qual ganharam relevo as falhas - e, portanto, as crises - inerentes à dinâmica das forças de mercado. O ponto de partida do marxismo é o mesmo: o mercado é o princípio organizador da sociedade capitalista, de maneira que essa sociedade está presa a forças subterrâneas que têm vida própria. No interior do mercado, movem-se indivíduos impulsionados pelo desejo de ganhar dinheiro, de acumular capital.

O mecanismo da competição econômica, segundo Marx, gerava simultaneamente tanto a riqueza quanto a pobreza, bem como a tendência à concentração dos capitais. Mas a trajetória da economia capitalista não é suave, tampouco apenas ascendente. Marx dedicou bastante atenção aos solavancos da roda da fortuna capitalista. Assinalou a tendência recorrente da economia de perder impulso e até mesmo de ir para trás, vivendo em "ciclos", passando de períodos de expansão para períodos de contração.

A explicação para os ciclos pode ser encontrada nos excessos e desajustes de oferta e demanda, nas retrações de crédito, nas variações de otimismo e pessimismo entre os agentes econômicos, no aparecimento de rupturas tecnológicas ou institucionais e alterações nas relações de força entre trabalho e capital (embates entre sindicatos, empresas, governos e opinião pública).Enfim, a interpretação de Marx põe em relevo três características do capitalismo histórico: a) aguda instabilidade; b) baixa previsibilidade; e c) difícil governabilidade.

Para se ter uma idéia da montanha-russa que é a economia capitalista, basta lembrar que, desde 1790, há registros confi- áveis de pelos menos 46 ciclos econômicos irregulares. Entre 1854 e 1919, a duração média de uma recessão era de 22 meses; nos Estados Unidos, a economia se retraía em média a cada 49 meses. Mesmo nos tempos atuais, as crises econômicas continuam freqüentes. Segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), desde 1970 ocorreram 124 crises financeiras pelo mundo afora.

"Irei até o Paraíso (...) onde se vendeu a primeira ação do mundo. EVA COMPROU-A À SERPENTE, COM ÁGIO, VENDEU-A A ADÃO, também com ágio, até que ambos faliram. Machado de Assis, crônica de 23/10/1892"

Mais de mil homens desempregados marcham em direção à Tesouraria de Perth, na Autrália ocidental, para ver o Premier Sir James Mitchell, em 1931

Tendo em vista essas características do capitalismo, o economista Hyman Minsky (1919-1996), um dos pioneiros no estudo de crises financeiras, observou ironicamente, em 1982, que o mais significativo evento econômico desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) "é algo que não aconteceu: não houve uma depressão profunda e duradoura" na economia internacional.

CRESCIMENTO, CRÉDITO E MERCADO FINANCEIRO

O capitalismo depende da propensão para o consumo, fato que Henry Ford (1863-1947) expressou muito bem quando afirmou: "Quem faz o emprego do trabalhador é o consumidor, que é o próprio trabalhador". Para manter a pleno gás o reator da demanda, as empresas começaram a criar, elas próprias, as necessidades de novos bens e serviços, incrementando a pesquisa, o projeto e o marketing. Seduzidos, os consumidores precisam de crédito para comprar os bens e serviços que anseiam. As empresas também precisam de crédito para expansão de seus negócios, capital de giro, financiamento de inovações e da comercialização e de quem lhes ajudasse a lançar títulos nos mercados de capitais. Por isso.mesmo, os bancos são peças vitais da engrenagem capitalista contemporânea. Sem eles, a economia pára de funcionar.Os bancos operam, por natureza, alavancados.

No sistema bancário, o crédito de um é o débito do outro. Essa cadeia liga os bancos entre si e aos clientes

Eles criam dinheiro, na medida em que possuem capacidade de gerar meios de pagamento. Os depósitos à vista que os bancos captam de indivíduos e empresas são multiplicados por meio de empréstimos para terceiros, inclusive outros bancos. Assim, o sistema bancário cria crédito e possibilita negócios que não seriam viáveis sem ele. O decisivo, porém, é o fato de que, no sistema bancário, o crédito de um é o débito do outro. Uma cadeia intricada de créditos e débitos liga invisivelmente os bancos entre si e com seus clientes. De modo que a falência de um banco pode ser vista como a derrocada do sistema bancário, causando prejuízos generalizados.

O empresário Henry Ford, o inventor Thomas Edison, e o empreendedor Harvey Firestone, em 1929 - eles colaboraram para a formação das grandes indústrias

A posição estratégica dos bancos na economia é algo relativamente recente. Nos primórdios do capitalismo, o período mercantilista dos séculos XV a XVIII, a atividade principal dos bancos concentrou-se no financiamento da dívida pública dos Estados europeus (garantida por impostos) e do comércio a longa distância (monopolizado por companhias privilegiadas). Na Inglaterra da Revolução Industrial (1760-1830), os bancos mantiveram sua atuação tradicional, participando marginalmente do financiamento dos novos empreendimentos fabris.

As atividades industriais lançaram mão de economias familiares e do reinvestimento de lucros gerados pelas próprias indústrias, algo possível naqueles tempos pioneiros, uma vez que os capitais exigidos pelas fábricas eram relativamente modestos. Na segunda metade do século XIX, o papel dos bancos, principalmente nos Estados Unidos e na Alemanha, sofreu transformações de monta. Enquanto os bancos ingleses aumentaram suas operações de desconto mercantil e reforçaram sua função de sistema de crédito internacional, as instituições financeiras americanas e alemãs assumiram a função de antecipação de capitaldinheiro para as empresas, colocando o crédito a serviço da formação de corporações econômicas gigantescas.

A "bolha das tulipas", que arruinou a economia holandesa no século XVII pode ser comparada à crise da Nasdaq, em 2000; abaixo, panfleto holandês da "tulipomania", datado de 1637

Na Holanda, no século XVII, as tulipas viraram uma febre: elas eram trocadas por terras, animais e casas

O capital a juros dos bancos, sob forma "livre" e líquida, possibilitou a fusão dos interesses entre os bancos e a indústria, concretizada na forma das "sociedades anônimas" no final do século XIX. A propósito, escreveu o economista inglês John Hobson (1858-1940), autor do livro Th e Evolution of Modern Capitalism: "Quando nos damos conta do duplo papel desempenhado pelos bancos no financiamento das grandes companhias, primeiramente como promotores e subscritores (e freqüentemente como possuidores de grandes lotes de ações não absorvidas pelo mercado) e, em segundo lugar, como comerciantes de dinheiro - descontando títulos e adiantando dinheiro - torna-se evidente que o negócio do banqueiro moderno é a gestão financeira geral e que a dominação financeira da indústria capitalista é exercida fundamentalmente pelos bancos".

Esse processo deu origem a uma "classe fi- nanceira", que torna a gestão empresarial intrinsecamente especulativa, repleta de práticas destinadas a ampliar "ficticiamente" o valor do capital existente. Essas práticas só podem ter livre curso com o alargamento do crédito, exigindo a constituição de enorme e complexo aparato financeiro. O "financista" utiliza sua função de direção dos fluxos de capital, que é legítima e profícua, para desenvolver abusivamente métodos de ganho privado, manipulando, como feiticeiro, pilhas de papéis e estimativas de retornos e riscos para atrair a confiança de poupadores que lhes destinam suas economias.

PRIMÓRDIO DAS CRISES: A BOLHA DAS TULIPAS

Desde o surgimento dos bancos na Idade Média, a história das finanças é repleta da imagem de investidores arruinados com os resultados da própria cupidez. O capitalismo, por assim dizer, banalizou essa imagem. Entre os séculos XV e XVIII, encontram-se antepassados dos grandes crashes dos séculos XX e XXI.

Um desses antepassados é a curiosa "bolha das tulipas", que produziu estragos na Holanda do século XVII. A "bolha das tulipas" é vista por muitos como a primeira bolha de mercado, e comparada à crise da Nasdaq, a bolsa das empresas pontocom nos Estados Unidos.

As tulipas chegaram à Europa, provavelmente vindas da Turquia, em meados dos anos 1500. Na Holanda, os portos encheram-se de flores, especiarias e plantas exóticas, destacando- se as tulipas, cujo cultivo teve início ali em 1593. No alvorecer do século XVII, a flor já era muito usada por jardineiros e apreciada por colecionadores, em decorrência de sua beleza. Rapidamente, a popularidade da tulipa cresceu. Mudas especiais receberam nomes extravagantes ou de almirantes da marinha holandesa. As mais desejadas tinham cores vívidas, linhas e pétalas flamejantes. A tulipa tornou-se artigo de luxo e símbolo de status, estabelecendo-se a competição entre indivíduos das classes altas, mercadores e artesãos, pela posse das variedades mais raras. Os preços começaram a disparar. Em 1623, um simples bulbo da variedade Semper Augustus custava 1.000 florins. As tulipas eram trocadas por terras, animais e casas. Um bom negociante de tulipas conseguia ganhar 6.000 florins por mês, quando a renda média anual, à época, era de 150 florins.

O movimento ascendente dos preços das tulipas não cessou até 1636. As tulipas eram negociadas nas bolsas de valores das ricas cidades holandesas. Muitas pessoas venderam ou negociaram suas posses no intuito de especular no mercado de tulipas.

Quadro do inglês Edward Matthew Ward (1816-1879), representando o colapso da South Sea Company; abaixo, ilustração ironizando a queda das ações da companhia


Negociantes passaram a vender bulbos de tulipas que tinham acabado de plantar ou que tencionavam plantar - os chamados contratos futuros de tulipas -, em transações conhecidas como weindhandel ("negócio de vento"). Na base das expectativas exageradas a respeito da evolução dos preços das tulipas, estava o Banco de Amsterdã, com sua capacidade de estender o crédito e suportar o avanço da especulação.

Porém, no início de 1637, a "bolha das tulipas" estourou. Surgiu a suspeita de que a procura por tulipas não duraria. O movimento de subida dos preços dos bulbos terminou, induzindo os comerciantes a vendê-los. Os preços, então, subitamente caíram 90%. Alastrou-se o pânico no mercado. Muitos compradores deixaram de honrar os contratos de compra de tulipas. Outros se acharam na posse de bulbos cujo preço era, agora, muito inferior ao que haviam pagado. Os severos juízes holandeses consideraram as dívidas sem valor legal, porque resultantes de negócios especulativos, o que deixou os vendedores de tulipas sem o poder de executar o pagamento dos contratos. Por conseguinte, milhares de holandeses, incluindo membros da alta sociedade, tiveram prejuízos enormes.

O COLAPSO DOS MARES DO SUL

No início do século XVIII, a poderosa Inglaterra ficou às voltas com a "bolha dos Mares do Sul", episódio de especulação desenfreada envolvendo as ações da South Sea Company. Endividado por gastos de guerra, em 1711, o governo inglês obteve dessa companhia um empréstimo de 11 milhões de libras, a ser fi- nanciado a juros de 6%. A companhia recebeu, ainda, garantia do monopólio das trocas nos Mares do Sul. A empresa aceitou o negócio, de olho nas oportunidades de ganho com o comércio de escravos e as trocas nos portos das colônias espanholas.

Para financiar as operações, a South Sea Company começou a emitir ações. Os investidores foram atraídos pelos lucros potenciais associados ao monopólio em poder da companhia. Várias emissões de ações foram realizadas com sucesso, enquanto os diretores cuidavam de alimentar a imagem de prosperidade da empresa, abrindo diversos escritórios e espalhando boatos de que a Espanha garantira o uso total dos portos coloniais pelos navios da companhia. Virou mania possuir ações da South Sea Company, o que estimulou banoutras empresas a entrarem no mercado de ações. Os investidores responderam com avidez. Fortunas formaram-se do dia para a noite. A euforia cresceu - até mesmo Sir Isaac Newton (1643-1726) adquiriu ações da South Sea Company - e alcançou a Europa continental, onde muitos investidores compraram ações negociadas em Londres.

Mas, em 1718, o início da beligerância entre Inglaterra e Espanha inviabilizou os planos da South Sea Company. Os seus diretores, então, inescrupulosamente emitiram mais ações. Em seguida, venderam seus papéis, obtendo lucros elevados. Quando os investidores se aperceberam da realidade da companhia, as ações despencaram. Os diretores da South Sea Company fugiram para outros países. Isaac Newton perdeu 20 mil libras. Milhares de pessoas perderam muito dinheiro. O governo inglês reagiu proibindo a emissão de ações, medida que foi relaxada somente um século depois, em 1825. A economia da velha Albion, portanto, ressentiu- se com o episódio.

Há quem veja analogias entre a "bolha dos Mares do Sul" e a crise da falência da Enron, gigante americana da energia, ocorrida nos anos 1990. Corrupção, gestão fraudulenta, ganância de executivos, expectativas irreais, fiscalização leniente. Ingredientes que fomentam crises.
A FALÊNCIA DO INGLÊS OVEREND & GURNEY

A quebra do banco inglês Overend & Gurney ilustra o tipo de crise bancária decorrente de dificuldades de liquidez (dinheiro) que contagiam instituições financeiras menores. Antigo e respeitado banco da City, o Overend & Gurney era, conforme o jornal Th e Times of London, o maior instrumento de crédito do Reino, recebedor dos fundos excedentes dos pequenos bancos espalhados pela Inglaterra. Quando, em 1856, morreu Samuel Gurney (1786-1856), o fundador do banco, uma nova geração de sócios assumiu o comando da instituição e abandonou dois séculos de austera administração quaker.

Eles começaram a emprestar os fundos de curto prazo depositados no Overend & Gurney para financiar empreendimentos de retorno a longo prazo: navios, portos e, principalmente, estradas de ferro. Quando os resultados esperados não ocorreram (no caso das ferrovias, após a febre de construção em meados do século, a concorrência excessiva entre as empresas causou extraordinária queda dos lucros), boatos espalharam-se e os depositantes do banco Overend & Gurney começaram a exigir seu dinheiro de volta. Nas palavras de Walter Bagehot (1826-1877), à época editor do Th e Economist, os sócios geriram os negócios do banco "de maneira tão inescrupulosa e tola a ponto de qualquer criança que tivesse aplicado dinheiro na City teria se saído melhor". Em maio de 1866, a corrida bancária teve início.

A morte de Samuel Gurney (1786-1856), à esqueda, fundador do Overend & Gurney, desencadeou a crise que atingiu o banco inglês

Os controladores do Overend & Gurney acreditaram que viria socorro do Banco da Inglaterra. Este, por sua vez, decidiu deixar a casa falir, julgando que o pânico seria curto. A multidão furiosa rumou para Lombard Street, rua de Londres onde ficavam as sedes de muitos bancos. A polícia interveio. Muita gente teve perdas pesadas. Uns poucos depositantes do Overend & Gurney recuperaram seu dinheiro, após longos litígios judiciais. Os sócios desse banco perderam seus bens, obras de arte e dinheiro, foram processados criminalmente, mas terminaram absolvidos.

Em 1873 surgiu o livro de Walter Bagehot (1826-1877), Lombard Street, propondo que deveria existir um "emprestador de última instância" capaz de injetar liquidez temporária nas instituições que enfrentassem problemas de acesso a dinheiro, mas não eram insolventes. Para o jornalista e economista inglês, o "emprestador de última instância" deveria, diante da crise bancária, anunciar sua prontidão de emprestar sem limites para estabilizar o mercado e deter, no estado inicial, o "contágio" do sistema financeiro. Bagehot escreveu, ainda, que uma crise financeira possui três fases: o alarme, quando o público percebe que uma ou outra instituição está fragilizada e pode quebrar; o pânico, quando se desconfia que todo, ou quase todo, o sistema fi- nanceiro pode estar abalado; a loucura, quando cada um se convence de que não há mais salvação e é o "salve-se quem puder".

Obra do pintor holandês Marinus van Reymerswaele (1490- 1546), O banqueiro e sua mulher, retrata o surgimento dos bancos durante a Idade Média

A crise do Barings Brothers é comparável à "crise da dívida externa" dos países emergentes, nos anos 1980

A revista norte-americana Puck Magazine, mostra o Tio Sam ao lado de Pierpont Morgan, fundador do banco Morgan, mostrando a disparidade entre a importância de cada um

APLICANDO A PROPOSTA

A proposta de Bagehot foi empregada pela primeira vez na crise do Barings Brothers, em 1890-1891, situação que guarda semelhanças com a chamada "crise da dívida externa" dos países emergentes na década de 1980, que perturbou os mercados financeiros americano e europeu.

Na década de 1880, havia grande massa de recursos financeiros no mercado inglês, à procura de oportunidades de investimentos de alta lucratividade. Esses capitais fluíram principalmente para os Estados Unidos, Argentina, Austrália e Rússia. Na Argentina, esse dinheiro aportou em obras de infra-estrutura, ferrovias e sob a forma de empréstimos públicos. A entrada maciça de libras no país provocou o aumento das importações, forte expansão do crédito bancário interno, emissão excessiva de moeda, gasto público elevado e especulação de todo tipo, tudo lastreado no endividamento externo.

Por conseguinte, a balança de pagamentos argentina ficou bastante deficitária, mas a entrada de investimentos externos possibilitava o fechamento das contas. Porém, na década de 1890, a recessão na Europa provocou a diminuição da inversão externa na Argentina e a queda dos preços das exportações do país (lã, carnes e cereais). Por conseguinte, os argentinos começaram a ter dificuldades cada vez maiores para cumprir os compromissos externos. A desconfiança dos investidores europeus na capacidade de pagamento da Argentina levou o país à moratória, no ano de 1891.

Havia anos que a casa Barings canalizava para a Argentina vastas somas e garantia os rendimentos dos aplicadores. Quando a crise surgiu, em 1890, bancos argentinos faliram e as cotações das ações de empresas platinas e dos títulos da dívida pública desabaram. O Barings Brothers teve prejuízos enormes, fechando as portas provisoriamente. Dessa vez, porém, o governo britânico socorreu a instituição.

Em novembro de 1890, negociações secretas entre o Banco da Inglaterra e financistas de Londres, liderados pelo banco Rothschild, levaram à criação de um fundo de resgate de 18 milhões de libras esterlinas, antes que a extensão do prejuízo do Barings fosse conhecida publicamente. Esta intervenção, que contou com participação do Banco da França, do Banco da Rússia e do americano Morgan, evitou uma crise financeira de grandes proporções.

Multidão em frente ao American Union Bank, em Nova York, durante a Grande Depressão - o banco começou a funcionar em 1917 e fechou as portas em 1931

Imagem de 1907; aglomeração de pessoas em Wall Street, durante o "pânico dos banqueiros"

TENSÃO EM NOVA YORK NA BELLE ÉPOQUE

A quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1907, representou forte choque em um ambiente de grande liberdade de fluxo de capitais e bens, característico da "globalização", sob hegemonia britânica na belle époque. Desde a segunda metade da década de 1890, a economia norteamericana entrara numa fase de crescimento expressivo, com saldos positivos na balança de pagamentos e aumento da poupança interna, o que tornava o país muito atrativo para investimentos estrangeiros. O mercado de ações americano estava inflado e os bancos tinham emprestado dinheiro demais para corretores que não tinham condições de honrar suas obrigações. Mas tudo ia bem enquanto o crescimento prosseguia e o crédito era farto. Porém, o Banco da Inglaterra, visando reverter saídas de ouro rumo aos Estados Unidos, elevou a taxa de redesconto de 3,5% para 6%, em 1906. Essa medida enxugou a liquidez (quantidade disponível de dinheiro/crédito) nos Estados Unidos, provocando o crash de Wall Street no princípio de 1907 e o declínio da atividade econômica. Em outubro, teve início uma corrida contra os bancos, que foram forçados a suspender os pagamentos em dinheiro. Muitas instituições financeiras faliram. O país entrou em uma severa recessão. Pierpont Morgan (1837- 1913), fundador do banco Morgan, foi chamado para assumir o leme e restaurar a ordem financeira, liderando comissão de banqueiros.

Para boa parte desses diplomatas latino-americanos, o regime nazista simbolizava o autoritarismo bem-sucedido

O RESULTADO DO NEW DEAL
O acordo foi adotado pelo governo dos Estados Unidos logo após a posse de Franklin Roosevelt, em 1937. Com o plano, o Estado norte-americano interveio diretamente na economia e controlou a situação financeira do país

Na política monetária, o New Deal abandonou o padrãoouro e realizou emissão de dólares, desvalorizados em 41%. Com isso, a economia americana recuperou sua competitividade internacional e os preços internos subiram, fatores de estímulo para as empresas. Para reativar as atividades agrícolas, o governo lançou o Agricultural Adjustment Act - pagando indenizações aos fazendeiros, reduziu-se a quantidade de terras cultivadas e o tamanho dos rebanhos. Analogamente, o Nacional Industrial Recovery Act procurou evitar a superprodução e os excessos da concorrência: foram fixados preços mínimos e quotas de produção. Os salários dos trabalhadores fabris foram elevados e as suas jornadas diminuídas.

Sem dúvida, a face mais visível do New Deal foi a política de grandes obras públicas. Entre 1933 e 1942, o governo investiu US$ 13 bilhões na construção de infra-estrutura. A recuperação da economia americana, impulsionada pelo New Deal, ocorreu com certa lentidão. Nas vésperas da Segunda Guerra, o país recuperara os índices de atividade do ano de 1929.


Vale ressaltar um aspecto importante. A comissão chefiada por Morgan impôs ao presidente Th eodore Roosevelt (1858-1919) medidas que contrariaram sua bandeira política de caça aos trustes. Ele teve de concordar com a compra da Tennessee Coal and Iron Co. (uma empresa siderúrgica) pela poderosa U. S. Steel. A razão era simples: a corretora a que pertencia a TC&I estava insolvente, mas precisava ser salva. O pragmatismo suplantou os discursos inflamados e até certo ponto eleitoreiros do ocupante da Casa Branca.

Clientes sinalizam para os escritórios da Associação de Mercados de Nova York, em 1916

Os efeitos negativos logo alcançaram Inglaterra, França, Itália e América Latina também. A crise de 1907 foi fator importante para avançar o consenso político nos Estados Unidos sobre a necessidade de criação de um banco central. Em 1913, surgiu o sistema do Federal Reserve. Há certos paralelismos da crise de 1907 com a crise atual que devem ser ressaltados: a ampla liberdade de movimentação de capitais, a falta de boas regras financeiras, a farra de crédito que conduziu a ativos inflados e especulação desenfreada.

O GRANDE CRASH DE 1929

A quebra da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929, é considerada a maior crise econômica de todos os tempos. No fim da década de 1920, os Estados Unidos eram os maiores fornecedores mundiais de crédito, os maiores exportadores e importadores. A roda da economia girava em torno dos humores do mercado americano. Mas o crescimento dos Estados Unidos apresentava sérias fragilidades.

A onda de inovação tecnológica provocara grande aumento da produtividade, cujos efeitos colaterais foram o aumento da taxa de desemprego e a queda do valor real dos salários. No campo, a superprodução agrícola provocou a baixa dos preços dos produtos, fazendo declinar a renda dos fazendeiros. Assim, no fim dos anos 1920, mais de 60% das famílias norte-americanas tinham renda anual menor que US$ 2 mil. O que quer dizer que o tamanho do mercado consumidor era limitado, justamente quando as fábricas de bens de consumo duráveis e semiduráveis produziam a todo vapor. Porém, desde 1926, havia euforia, consumismo e especulação no mercado acionário.

No ano de 1929, surgiram sinais de que a expansão terminara. A acumulação de estoques nas fábricas e os cortes de encomendas feitas pelas grandes empresas comerciais geraram os primeiros balanços ruins. O pânico caiu sobre a Bolsa de Nova York. As ações despencaram. As corridas bancárias tiveram vez. As bancarrotas começaram. Enquanto isso, apegado à ortodoxia liberal, o presidente Herbert Hoover (1874-1964) limitou- se a assistir a quebradeira, a redução drástica do comércio internacional e o derretimento dos preços dos ativos. A repatriação de capitais norteamericanos aplicados na Europa, para fazer face às necessidades de dinheiro que cresciam nos Estados Unidos, provocou a desvalorização das moedas européias. Um a um, os países abandonaram o padrão-ouro, iniciaram desvalorizações competitivas e adotaram medidas protecionistas, o que teve o efeito de "travar" o comércio internacional. A inércia de Hoover transformou o crash da Bolsa de Nova York na Grande Depressão.

Entre 1929 e 1933, nos Estados Unidos, 110 mil empresas faliram e 8.812 bancos desapareceram. O desemprego atingiu 25% em 1933. A produção industrial reduziu-se à metade e o PIB caiu 46%. Os salários tiveram queda de 60%. Os preços agrícolas reduziram-se 55% e os dos bens de produção 26%.

As palavras de Winston Churchill (1874-1965) ilustram o quadro da maior déblâcle do capitalismo: "Toda a riqueza tão velozmente acumulada nas carteiras de títulos dos anos anteriores desfez-se em fumaça. A prosperidade de milhões de lares norteamericanos havia crescido sobre uma estrutura gigantesca de crédito inflado, que subitamente se revelou um fantasma. Afora a especulação com ações em âmbito nacional, que até os mais famosos bancos haviam incentivado por meio de empréstimos fáceis, um vasto sistema de crediários na compra de casas, móveis, automóveis e inúmeros tipos de utensílios e artigos domésticos de luxo havia crescido. Ruíram juntos.As poderosas linhas de produção foram lançadas na tormenta e na paralisia. (...) Agora, as dores atrozes dos salários em declínio e do crescente desemprego afligiam a comunidade inteira" (Memórias da 2a Guerra Mundial).

Movimentação na Bolsa de Valores de Nova York, logo após o crash de 1929

Pessoas protestam nas ruas de Nova York durante a crise de 1929

Com a eleição de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), em 1933, os Estados Unidos organizaram sua reação à Grande Depressão. Foi posto em prática o plano conhecido como New Deal. No campo financeiro, o governo passou a exigir das instituições maior rigor na concessão de créditos, para os quais foram aumentadas as reservas mínimas que os bancos deveriam manter no Fed. O Glass-Steagall Act proibiu o envolvimento direto dos bancos comerciais em operações nos mercados de capitais e nos mercados imobiliários. Por meio da criação do FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), o governo garantiu depósitos de até US$ 2.500. Também foi criada a SEC (Securities and Exchange Commission), entidade federal encarregada de supervisionar e fiscalizar as operações de bolsa.

As crises originam-se nos países avançados e espalhamse, em seguida, para as regiões periféricas do globo

No decurso da administração Roosevelt, os Estados Unidos passaram a contar com os seguintes meios de intervenção e controle para remediar fragilidades bancárias: a) o emprestador de última instância (o banco central); b) exigências de solvência que os bancos comerciais têm que obedecer; c) sistema de supervisão para monitorar as atividades de bolsa e bancárias; e d) esquemas de seguro de depósitos bancários. O Acordo de Bretton Woods (1944) produziu o efeito de generalizar gradualmente esses elementos pelas economias capitalistas. Há quem sustente que a escassez de crises financeiras nas três décadas que se seguiram ao acordo deve ser atribuída, em boa medida, à "repressão financeira" resultante do acordo.

Retrospectivamente, o crash de 1929 guarda algumas semelhanças com a crise que se vive hoje. Ambas estão associadas a explosões de bolhas de crédito que produzem contração violenta de patrimônios, receitas, atividades e empregos. Tanto em 1929 quanto em 2008, assiste-se a uma deflação pela dívida. Porém, há duas diferenças importantes. A primeira diz respeito à ação das autoridades. Em 1929, como assinalou o economista Milton Friedman (1912-2006), luminar do chamado neoliberalismo, houve falha das autoridades monetárias e do governo.

Hoje, as autoridades mundiais compreenderam a escala da ameaça e estão agindo com maior presteza e medidas drásticas. A segunda diferença é que, em 1930, os Estados Unidos estavam sozinhos - todas as reservas do mundo estavam com eles, e o país era o motor solitário do crescimento internacional. Mas agora os americanos têm a China e outros países emergentes como parceiros.

AS CORRIDAS BANCÁRIAS NO SÉCULO XIX
O século XIX foi marcado por grande número de crises financeiras, que tiveram como protagonistas bancos e corretoras de valores. Desde 1825 até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), ocorreram tensões no mundo inteiro, em todas as décadas. O quadro abaixo, que recolhe apenas casos mais famosos, evidencia esse fato:

Crises financeiras na Europa e nos Estados Unidos (1772 a 1907)

Evento Páis de Origem Ano
Quebra do Ayr Bank Escócia Junho 1772
Quebra do Pole, Thornton & Co. Inglaterra Dezembro 1825
Quebra da Bolsa de Valores Inglaterra Dezembro 1836
Bolha das Ferrovias Inglaterra 1847
Bolha das Ferrovias Estados Unidos Agosto 1857
Quebra do Overend & Gurney Inglaterra Maio 1866
Quebra do Crédit Mobilier França 1867-1871
Quebra da Bolsa de Valores Áustria/Alemanha 1873
Quebra do Jay Cooke & Co. Estados Unidos Setembro 1873
Quebra do Union Générale França 1882
Quebra do Barings Brothers Inglaterra Novembro 1890
Quebra da Bolsa de Valores Estados Unidos 1893
Quebra da Bolsa de Valores Estados Unidos 1907

AS LIÇÕES DAS CRISES FINANCEIRAS

Em uma perspectiva histórica, as crises bancárias e de bolsas de valores não são novidades. As "bolhas de crédito" são muitas e recorrentes. Os custos dessas crises, em termos de riquezas dilapidadas e sofrimentos humanos, são enormes. O mercado financeiro capitalista não aprende. As pessoas não aprendem. Os investidores muito menos. Sempre há quem fique alavancado em demasia, quem assuma riscos excessivos ou mal conhecidos ao lidar com inovações financeiras cada vez mais complexas.

Na base das crises financeiras modernas, há sempre o mesmo erro de avaliação dos agentes econômicos: as pessoas acreditam que, dessa vez, realmente o mundo mudou e a economia funciona sobre bases sólidas e definitivas. Alimentam expectativas de retorno desmedidas, lançam mão do crédito abundante para fazer negócios, produzindo uma espiral de ativos intangíveis. As crises têm início quando há rápida deterioração dos indicadores econômicos e surgem boatos ou notícias da dificuldade financeira de uma empresa ou de um banco para cumprir seus compromissos.

A evidência histórica também permite pensar que as crises financeiras são transmitidas pelos canais do comércio internacional, dos empréstimos entre países ricos e pobres, dos mercados de commodities e bolsas de valores e das arbitragens em mercados de títulos de curto prazo. Do século XVII a meados do século XX, as crises originaram- se, predominantemente, nos países avançados da Europa (com destaque para a Grã-Bretanha) e nos Estados Unidos, espalhando-se, em seguida, para as regiões periféricas do mundo.

Quanto ao problema de abreviar as crises fi- nanceiras, de modo a diminuir os impactos negativos que elas causam nos setores produtivos da economia, a história ensina que os Estados têm de agir rapidamente para salvar o sistema financeiro. Os Estados devem ser pragmáticos. Os governos precisam se lembrar de que eles criam mercados, e que mercados só podem existir com regulamento. Que não se alimente o falso debate governo versus mercado.

Outra lição é a de que existem limites para a expansão econômica baseada no crédito. O endividamento excessivo de famílias, empresas e países gera catástrofes enormes. Quando o emprego e a renda não acompanham a oferta de crédito, os negócios das famílias, empresas e instituições financeiras logo se chocam com a realidade da inadimplência. O trabalho e a produção devem ter prioridade sobre a compra e venda de papéis.

A fotografia tirada na Califórnia pela fotógrafa Dorothea Lange (1895-1965), em 1936, foi intitulada de "Mãe Migrante". A imagem virou ícone da Grande Depressão

REFERÊNCIAS

CHANCELLOR, Edward. Salve-se quem puder: uma história da especulação financeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. FIORI, José Luís (org.). Estados e moedas no desenvolvimento das nações. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2000. FRIEDMAN, Milton; SCHWARTZ, Anna J. A monetary history of the United States, 1867-1960. Princeton: Princeton University Press, 1963. KINDLEBERGER, Charles P. Manias, panics, and crashes: a history of financial crises. 3. ed. New York: John Wiley and Sons, 1986. MAURO, Frédéric. História econômica mundial, 1790-1970. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. MORRIS, Charles R. Os magnatas: como Andrew Carnegie, John D. Rockefeller, Jay Gould e J. P. Morgan inventaram a supereconomia americana. 3. ed. Porto Alegre: L&PM, 2007.

MARCOS LOBATO MARTINS é Doutor em História Econômica pela USP. Professor dos Cursos de História e Direito das Faculdades Pedro Leopoldo, MG (FPL).

Revista Leituras da Historia

quinta-feira, 26 de março de 2009

Terra devastada - O boom do petróleo no Canadá


Antes considerada cara e prejudicial ao ambiente, a areia betuminosa na província de Alberta virou aposta de bilhões de dólares.
Um dia em 1963, quando tinha 7 anos, Jim Boucher verificava com o avô uma série de armadilhas de caça alguns quilômetros ao sul da reserva indígena de Fort MacKay, à margem do rio Athabasca, no norte da província canadense de Alberta. Essa região faz parte da floresta boreal que se estende pelo Canadá, recobrindo mais de um terço do país. Em 1963, essa mata estava quase toda intocada. O governo ainda não construíra a estrada de cascalho até Fort MacKay, e só dava para chegar ali por meio de barcos ou, no inverno, em trenós puxados por cães. As tribos indígenas Chipewyan e Cree - Boucher é chipewyan - viviam isoladas do mundo. Para se alimentar, caçavam alces e bisões, pescavam percas e trutas salmonadas no rio Athabasca. Seus rendimentos vinham da venda de peles de castor e visom no entreposto de Fort MacKay, onde não havia gás, eletricidade, telefone ou água encanada. Todos esses serviços apenas seriam instalados nas décadas de 1970 e 1980.

Na memória de Boucher, porém, tudo começou a mudar naquele dia de 1963, na comprida trilha que seu avô usava para instalar as armadilhas, nas proximidades de um local conhecido como Mildred Lake. "São sendas que estão ali há milhares de anos", comentou Boucher no verão passado, sentado em seu espaçoso escritório com magnífica vista para Fort MacKay. Uma sacola com tacos de golfe está encostada num canto. No aparelho de som, toca baixinho uma peça de Mozart. "Naquele dia, topamos de repente com uma área desmatada. Era enorme. E ninguém tinha sido avisado. Nos anos 70, eles foram lá e derrubaram a cabana de meu avô - sem nenhum aviso ou discussão." Esse foi o primeiro contato de Boucher com o setor de exploração de areia betuminosa. Nos últimos anos, e com assombrosa rapidez, ele transformou por completo o nordeste da província de Alberta. Hoje Boucher está rodeado por essa atividade, na qual ele próprio acabou mergulhando de cabeça.

No local em que ficavam a sequência de armadilhas e a cabana, e também a floresta, agora há uma imensa mina a céu aberto. Ali a Syncrude, maior empresa petrolífera do Canadá, extrai do solo areia misturada com betume, com o uso de escavadeiras elétricas do tamanho de prédios de cinco andares, e em seguida separa o betume da areia com água quente e, às vezes, soda cáustica. Ao lado da mina, labaredas tremulam nas chaminés de uma "pré-refinaria", que faz o craqueamento do betume viscoso e o converte no chamado Syncrude Sweet Blend, um óleo cru sintético que depois é bombeado por oleodutos até refinarias situadas em Edmonton, a capital da província, Ontário e Estados Unidos. O lago Mildred foi suplantado por seu vizinho, a Bacia de Assentamento de Mildred Lake, um reservatório com 10 quilômetros quadrados que recebe os dejetos tóxicos de mineração. O dique de areia que o contém é, em termos de volume, um dos maiores em todo o mundo.

A Syncrude não é a única empresa a atuar na região. Num raio de 35 quilômetros em torno do escritório de Boucher, contam-se seis minas que produzem quase 750 mil barris de óleo cru sintético por dia. Outras estão sendo planejadas. Ali onde a camada de betume é profunda demais para ser explorada em lavras a céu aberto, as reservas são aquecidas no próprio local pela injeção de imensas quantidades de vapor d'água, que faz o betume liquefeito subir à superfície - é o chamado método in situ. Na última década, as petroleiras investiram na região mais de 50 bilhões de dólares, cerca de 20 bilhões apenas em 2008. Antes do colapso no preço do petróleo no fim de 2008, estavam previstos investimentos adicionais de mais de 100 bilhões de dólares nos próximos anos, com o objetivo de dobrar a produção de óleo cru até 2015 - a maior parte para ser transportada em novos oleodutos aos Estados Unidos. A crise econômica levou ao adiamento de muitos desses projetos de expansão, mas não restringiu as perspectivas de longo prazo. Em meados de novembro passado, a Agência Internacional de Energia divulgou um relatório no qual estimava que o preço do barril de petróleo será de 120 dólares em 2030 - valor que justificaria com folga o esforço necessário de extraí-lo da areia betuminosa.


Não há ouytro lugar do planeta com tanta movimentação de terra quanto na bacia do rio Athabasca. Nas lavras a céu aberto, para obter um único barril de petróleo, as empresas primeiro desmatam o terreno, depois removem, em média, 2 toneladas de turfa e terra que recobrem a camada de areia e em seguida retiram 2 toneladas da própria areia etuminosa. A seguir, é preciso aquecer vários barris de água para separar e "pré-refinar" o betume. Mais tarde, a água contaminada é lançada em imensos tanques, como aquele perto de Mildred Lake. Tais reservatórios cobrem uma área de 130 quilômetros quadrados. Em abril do ano passado, 500 patos que migravam confundiram uma dessas lagoas - em nova mina da Syncrude ao norte de Fort MacKay - com um refúgio hospitaleiro, pousaram na superfície viscosa e morreram. O incidente atraiu a atenção internacional - o Greenpeace invadiu uma instalação da Syncrude.

Os Estados Unidos importam mais petróleo do Canadá que de qualquer outro país: quase um quinto de todo seu suprimento externo, e cerca de metade desse petróleo canadense, é extraído da areia betuminosa. Tudo o que contribui para reduzir a dependência ao petróleo do Oriente Médio, diriam muitos americanos, é bem-vindo. No entanto, o processo de escavar e cozinhar areia betuminosa para obter um barril de óleo cru requer a emissão de até três vezes mais dióxido de carbono que o bombeamento de um barril num poço na Arábia Saudita. A areia betuminosa ainda contribui com parcela ínfima das emissões mundiais de CO2 - menos de um décimo de 1% -, mas, para muitos ambientalistas, esse é apenas o primeiro passo em um caminho que poderia levar ao aproveitamento de outras fontes de petróleo ainda mais poluentes, como o xisto betuminoso e o carvão mineral. "A exploração de areia betuminosa assinala um ponto decisivo para a América do Norte e o mundo", comenta Simon Dyer, do Pembina Institute, um grupo ambientalista canadense de posições moderadas e respeitadas. "Vamos começar a buscar fontes alternativas de energia ou nos aprofundar no uso das reservas menos usuais de petróleo? O fato de haver disposição em mover 4 toneladas de terreno para obter um único barril mostra que, na verdade, o mundo está esgotando outras fontes mais acessíveis."

E esse mundo sedento por petróleo chegou com toda a força a Fort MacKay. No entanto, a perspectiva de Jim Boucher, de um elegante prédio recém-construído na entrada do pequeno e assediado vilarejo, contém mais matizes de cinza do que se poderia esperar. "A escolha que fizemos é bem difícil", disse quando o visitei em meados do ano passado. Por muito tempo, as tribos indígenas da região tentaram em vão opor-se à atividade petrolífera. Mas agora, segundo Boucher, "estamos procurando ampliar a capacidade da comunidade em aproveitar essa chance". Boucher não é apenas o chefe da comunidade indígena de Fort MacKay mas também está à frente do Fort MacKay Group of Companies, uma empresa montada pela comunidade para fornecer serviços ao setor petroleiro, e que arrecadou 85 milhões de dólares em 2007. O desemprego é inferior a 5% na cidade, que conta com posto de saúde, centro recreativo para jovens e uma centena de novas residências de três quartos, alugadas por preços bem abaixo do mercado. E a comunidade indígena até mesmo está considerando a chance de explorar sua própria mina: afinal, ela é dona de 3,3 mil hectares de terras ricas em areia betuminosa no outro lado do rio, colada na lavra da Syncrude onde morreram os cerca de 500 patos no lago contaminado.

Enquanto conta tudo isso, Boucher mordisca pedaços de uma truta que está sobre a mesa de reuniões, ao lado de janelas com uma vista panorâmica do rio - apesar disso, Boucher não sabe de onde fora pescada. "Posso garantir uma coisa", diz ele. "Do Athabasca é que não foi."

Sem o rio não existiria exploração de areia betuminosa. Ao longo de dezenas de milhões de anos, suas águas levaram embora bilhões de metros cúbicos de sedimentos que recobriam a camada de betume, colocando-o assim ao alcance das escavadeiras - e, em alguns locais, na própria superfície. Nos dias quentes de verão, ao longo do Athabasca, o betume escorre das margens e confere um brilho oleoso a suas águas. Os primeiros mercadores de pele relataram tal fenômeno e também que os nativos usavam a areia para calafetar as canoas. Sob temperatura normal, o betume é viscoso, mas abaixo de 10ºC fica tão duro quanto um disco de hóquei, como sempre dizem os canadenses. Em algum ponto do passado, contudo, era igual ao petróleo leve, o mesmo líquido que, há quase um século, as companhias petrolíferas vêm bombeando de reservas profundas no sul da província de Alberta. Dezenas de milhões de anos atrás, de acordo com geólogos, grande volume desse petróleo foi empurrado na direção nordeste, talvez devido a um soerguimento das Montanhas Rochosas. Durante esse processo ele acabou subindo à superfície, ao longo de camadas inclinadas de sedimentos, até que, no fim, alcançou profundidades rasas e frias o bastante para proliferação de bactérias. E foram elas que transformaram o petróleo em betume.

O governo da província de Alberta avalia que os três principais depósitos de areia betuminosa em seu território, dos quais o do Athabasca é o maior, contêm 173 bilhões de barris de petróleo cujo aproveitamento seria economicamente viável hoje. "O tamanho disso, no contexto mundial, é assombroso", comenta Rick George, principal executivo da Suncor, empresa que, em 1967, abriu a primeira mina na região do rio Athabasca. Em 2003, quando o Oil & Gas Journal acrescentou as areias betuminosas de Alberta a sua lista de reservas comprovadas, isso alçou o Canadá ao segundo lugar, atrás apenas da Arábia Saudita, entre todos os países produtores de petróleo. As reservas comprovadas de areia betuminosa são oito vezes maiores que todas as reservas americanas. "E as estimativas só tendem a subir", diz George. Segundo dados da Comissão de Recursos e Conservação de Energia da província de Alberta, mais de 300 bilhões de barris de petróleo podem ser retirados das areias betuminosas - com isso, a capacidade total das reservas chega a 1,7 trilhão de barris.

A extração é um processo simples, mas nada fácil. As escavadeiras elétricas possuem dentes de aço reforçado que pesam 1 tonelada e, como esses dentes se enterram na escura e abrasiva areia sete dias por semana, 365 dias por ano, eles se desgastam a cada um ou dois dias. Por isso, é preciso um soldador que faça um trabalho odontológico nesses dinossauros, recuperando suas coroas. Os gigantescos caminhões basculantes que circulam pela mina, transportando cargas de 400 toneladas das escavadeiras até um triturador de rochas, queimam 190 litros de diesel por hora. E é preciso usar uma empilhadeira na hora de trocar seus pneus, que não duram mais que seis meses. A cada dia, no vale do Athabasca, 1 milhão de toneladas de areia saem desses trituradores e são misturadas a mais de 200 mil toneladas de água que precisam ser aquecidas, normalmente a 80ºC, para a separação do betume viscoso. Nas "pré-refinarias", o betume volta a ser aquecido, por volta de 480ºC, e submetido a uma pressão superior a 100 atmosferas - só desse modo é possível romper as moléculas complexas e subtrair o carbono ou devolver o hidrogênio consumido pelas bactérias eras atrás. É assim que se conseguem os hidrocarbonetos leves que necessitamos para encher o tanque de nossos carros. O processo requer assombrosa quantidade de energia. Na extração feita no próprio local em que está o betume - o chamado método in situ -, que é a única maneira de alcançar 80% daqueles 173 bilhões de barris, a energia empregada é o dobro da utilizada na lavra a céu aberto, devido ao uso de tanto vapor d'água.

A maior parte da energia para aquecer a água ou produzir o vapor vem da queima de gás natural, que também fornece hidrogênio para o processamento inicial. Por ser rico em hidrogênio e quase desprovido de impurezas, o gás natural é o combustível fóssil menos sujo, que libera menor quantidade de carbono e outros poluentes na atmosfera. Segundo os críticos, na exploração de areia betuminosa há desperdício do combustível limpo para se produzir o mais poluente - seria o equivalente a transformar ouro em chumbo. Tal argumentação faz sentido em termos ambientais, "mas não em termos econômicos", diz o físico David Keith, da Universidade de Calgary. Cada barril de óleo cru sintético contém cinco vezes mais energia que o gás natural usado em sua produção, além de estar em estado líquido, bem mais valioso. "Essa história de transformar ouro em chumbo é uma bobagem. Em nossa sociedade, ouro são os combustíveis líquidos que podem ser bombeados", avalia.

Boa parte das emissões de carbono desses combustíveis vem do escapamento dos veículos que os queimam. De acordo com o critério "do poço ao tanque dos veículos", a areia betuminosa é apenas de 15% a 40% mais poluente que o petróleo convencional. Mas a conta mais alta de carbono continua sendo uma desvantagem, tanto para o ambiente como para a imagem pública. Em junho do ano passado, o governador de Alberta, Ed Stelmach, anunciou que, para lidar com as emissões adicionais, a província pretende gastar mais de 1,5 bilhão de dólares no desenvolvimento de tecnologias de captura de dióxido de carbono e seu armazenamento no subsolo - uma estratégia que vem sendo considerada como uma solução para conter as mudanças climáticas. Até 2020, de acordo com o plano, as emissões de carbono da província vão ser estabilizadas e, até 2050, reduzidas em 15% em relação aos níveis de 2005. Esse é um corte bem menor que o recomendado pelos cientistas. No entanto, ainda é maior que a redução proposta pelo governo dos Estados Unidos, por exemplo.

Uma medida que Stelmach se recusa a tomar é "pisar no freio" da explosiva atividade de aproveitamento da areia betuminosa. O surto é uma bonança para a economia da província e do país. Os habitantes sabem o que significa esse ciclo de expansão e retração econômicas. No último colapso nos preços do barril de petróleo, na década de 80, a província levou dez anos para voltar a crescer. As areias betuminosas cobrem uma área equivalente à do estado do Amapá, e o governo provincial já negociou concessões para a metade desse território, incluindo todos os 3 512 quilômetros quadrados que podem ser explorados com lavras. E até hoje jamais interferiu, por motivos ambientais ou quaisquer outros, no desenvolvimento das concessões.

A bordo de um helicóptero, é evidente o impacto no vale do Athabasca. Logo após decolar em Fort McMurray, tomando o rumo norte e seguindo a margem leste do rio, vê-se a mina Millennium, da Suncor. É um dia ventoso, e as colunas de poeira que se elevam das rodas dos caminhões se juntam em uma única nuvem que bloqueia a visão de parte da mina. Mais ao norte, além de um pequeno trecho de mata intocada, uma nuvem semelhante ergue-se da lavra seguinte, a mina Steepbank, também da Suncor. Mais além há duas outras minas e, atravessando o rio, mais duas. Ao longe, o vapor, a fumaça e as labaredas de gás das chaminés das instalações da Syncrude e da Suncor - lembrando os "sombrios engenhos satânicos" do poeta inglês William Blake - são ainda assim uma visão fascinante.

No entanto, vistas do ar, as lavras logo ficam para trás. Voando baixo sobre o rio, e assustando um filhote de alce que cruza um afluente estreito, o biólogo Preston McEachern e eu seguimos para noroeste na direção dos montes Birch, percorrendo vasta extensão de mata intacta. A floresta boreal canadense estende-se por 5 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 75% permanecem inexplorados. Até hoje, as lavras de areia betuminosa já transformaram 420 quilômetros quadrados - um centésimo de 1% da área total - em pó, terra e lagoas de dejetos. O aumento da exploração in situ pode afetar uma área bem maior. Ambientalistas e biólogos preocupam-se com a possibilidade de a fragmentação crescente da mata, promovida por madeireiras e mineradoras, colocar em risco a sobrevivência de renas e outros animais. "A floresta boreal, tal como a conhecemos, pode desaparecer em uma geração se não houver mudanças importantes nas políticas atuais", diz Steve Kallick, diretor da organização Pew Boreal Campaign.

Segundo McEachern, que trabalha no Alberta Environment, órgão responsável pela política ambiental da província, a grande prioridade é resolver o problema dos depósitos de resíduos. As minas lançam os dejetos nas lagoas, explica ele, porque não têm permissão para jogar no Athabasca e também porque precisam reaproveitar a água. Depois que a mistura de resíduos espessa e pardacenta é lançada nos canos de descarga, a areia logo se separa, formando o dique de contenção do reservatório. O betume residual vai para a superfície do líquido. Todavia, as partículas menores de argila e sedimentos levam vários anos para se precipitar e, quando isso ocorre, formam uma gosma com consistência de iogurte. Esses resíduos finais estão contaminados por substâncias tóxicas, como o ácido naftênico e os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP), e levariam séculos para serem neutralizados pela natureza. De acordo com os termos de suas concessões, as empresas têm a obrigação de recuperar esses depósitos de resíduos, mas já desrespeitaram vários dos prazos para fazer isso, e ainda não recuperaram nenhum reservatório.

No mais antigo e conhecido deles, o reservatório Pond 1, da Suncor, os resíduos são contidos por um dique de areia compactada que se eleva 100 metros acima da superfície do vale e está guarnecido de pinheiros. Já ocorreram vazamentos ali e, de acordo com simulação feita por hidrogeólogos na Universidade de Waterloo, estima-se que 2 litros de água contaminada podem estar chegando ao rio a cada segundo.

O governo de Alberta assegura que o rio não está contaminado - que tudo o que se encontra nele ou em seu delta, no lago Athabasca, é originário dos vazamentos naturais de betume. O rio passa através das areias betuminosas a jusante das lavras e, enquanto o helicóptero zune poucos metros acima dele, McEachern aponta vários locais em que os barrancos estão enegrecidos e a água, oleosa. "Há um aumento de vários metais à medida que nos movemos para a foz", diz. "E isso é natural - é o curso normal do processo geológico. Já se constatou a presença de mercúrio nos peixes do lago Athabasca - desde a década de 90 estamos monitorando isso. Há HAP nos sedimentos do delta. E isso ocorre porque o rio vai erodindo as areias betuminosas."

O ceticismo, porém, é a tônica dos cientistas independentes - para não mencionar quem vive a jusante das lavras na comunidade indígena de Fort Chipewyan, às margens do lago Athabasca. "É inconcebível que se movimente toda essa quantidade de betume e não haja nenhum efeito", comenta o toxicologista Peter Hodson, especializado em populações de peixes. De fato, um estudo feito pela Environment Canada, o órgão ambiental do governo canadense, comprovou os efeitos sobre os peixes do rio Steepbank, que passa ao lado de uma lavra da Suncor e desemboca no Athabasca. Perto da mina, os animais coletados em 1999 e 2000, por George Tetreault, apresentavam um nível de atividade cinco vezes maior de uma enzima no fígado responsável pela digestão de toxinas - medida empregada para constatar a presença de poluentes -, em comparação com os peixes capturados próximo a um vazamento natural de betume no Steepbank.

Em 2006, John O'Connor, clínico-geral que atende num posto de saúde em Fort Chip, contou a uma rádio que, nos últimos anos, vira cinco casos de colangiocarcinoma - câncer das vias biliares encontrado na proporção de um caso a cada 100 mil. Em torno de mil pessoas moram em Fort Chip, o que torna improvável até mesmo um único caso. O'Connor não conseguiu atrair o interesse das autoridades médicas no surto cancerígeno, mas sua entrevista à rádio teve ampla repercussão. Dois dos cinco casos de O'Connor foram confirmados por biópsias; os outros três pacientes haviam apresentado os mesmos sintomas, mas faleceram antes que se fizessem os exames. (Em uma tomografia, o colangiocarcinoma pode ser confundido com outros tipos de câncer, como o do fígado e o do pâncreas.)

Numa noite de inverno, quando Jim Boucher ainda era menino, na mesma época em que teve início a exploração das areias betuminosas, ele voltava sozinho de trenó para a cabana de seus avós após ter ido a Fort MacKay. Era um percurso de 30 quilômetros, e a temperatura estava a -20ºC. À luz da Lua, Boucher topou com um bando de lagópodes, uma espécie de faisão branco, na neve. Ele abateu umas 50 dessas aves, amontoou-as no trenó e levou-as para casa. Quatro décadas depois, sentado em sua cadeira de presidente, vestindo calça de algodão branco e camisa polo também branca, ele lembra do orgulho que, naquela noite, viu estampado no rosto da avó. "Aquele era outro mundo espiritual", diz Boucher. "Para mim, aquele mundo existiria para sempre." Agora ele conta essa história toda vez que lhe perguntam sobre o futuro das areias betuminosas e o papel de seu povo nesse futuro.

Uma pesquisa realizada pelo Pembina Institute em 2007 revelou que 71% dos habitantes de Alberta eram favoráveis a uma ideia que o governo da província sempre rejeitou a priori: a imposição de uma moratória sobre os novos projetos de exploração até que sejam apaziguadas as preocupações com o ambiente. "Acredito que, quando o governo tenta interferir no mercado, não acontece nada de bom", afirmou o governador Stelmach diante de um grupo de executivos do setor petroleiro naquele mesmo ano. "O sistema de livre mercado resolverá isso."

Mas o mercado não leva em conta os efeitos das lavras no rio, na floresta ou nas pessoas que ali vivem, a menos que seja forçado a isso. Tampouco, se nada lhe for cobrado, vai levar em conta os efeitos da exploração no clima. Jim Boucher colaborou com as companhias de petróleo a fim de proporcionar nova economia a seu povo, que substituísse aquela que haviam perdido, que garantisse o futuro das crianças que nunca mais iriam caçar aves sob o luar. Ele tem consciência do preço que teve de ser pago. "É uma luta para equilibrar as necessidades de hoje e as de amanhã, quando se pensa no ambiente em que vamos viver", diz Boucher. Na região norte da província de Alberta, a questão de como alcançar tal equilíbrio foi colocada nas mãos do mercado, e uma das respostas dele foi deixar de lado o futuro. O amanhã não é de sua conta.

No entanto, vistas do ar, as lavras logo ficam para trás. Voando baixo sobre o rio, e assustando um filhote de alce que cruza um afluente estreito, o biólogo Preston McEachern e eu seguimos para noroeste na direção dos montes Birch, percorrendo vasta extensão de mata intacta. A floresta boreal canadense estende-se por 5 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 75% permanecem inexplorados. Até hoje, as lavras de areia betuminosa já transformaram 420 quilômetros quadrados - um centésimo de 1% da área total - em pó, terra e lagoas de dejetos. O aumento da exploração in situ pode afetar uma área bem maior. Ambientalistas e biólogos preocupam-se com a possibilidade de a fragmentação crescente da mata, promovida por madeireiras e mineradoras, colocar em risco a sobrevivência de renas e outros animais. "A floresta boreal, tal como a conhecemos, pode desaparecer em uma geração se não houver mudanças importantes nas políticas atuais", diz Steve Kallick, diretor da organização Pew Boreal Campaign.

Segundo McEachern, que trabalha no Alberta Environment, órgão responsável pela política ambiental da província, a grande prioridade é resolver o problema dos depósitos de resíduos. As minas lançam os dejetos nas lagoas, explica ele, porque não têm permissão para jogar no Athabasca e também porque precisam reaproveitar a água. Depois que a mistura de resíduos espessa e pardacenta é lançada nos canos de descarga, a areia logo se separa, formando o dique de contenção do reservatório. O betume residual vai para a superfície do líquido. Todavia, as partículas menores de argila e sedimentos levam vários anos para se precipitar e, quando isso ocorre, formam uma gosma com consistência de iogurte. Esses resíduos finais estão contaminados por substâncias tóxicas, como o ácido naftênico e os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP), e levariam séculos para serem neutralizados pela natureza. De acordo com os termos de suas concessões, as empresas têm a obrigação de recuperar esses depósitos de resíduos, mas já desrespeitaram vários dos prazos para fazer isso, e ainda não recuperaram nenhum reservatório.

No mais antigo e conhecido deles, o reservatório Pond 1, da Suncor, os resíduos são contidos por um dique de areia compactada que se eleva 100 metros acima da superfície do vale e está guarnecido de pinheiros. Já ocorreram vazamentos ali e, de acordo com simulação feita por hidrogeólogos na Universidade de Waterloo, estima-se que 2 litros de água contaminada podem estar chegando ao rio a cada segundo.

O governo de Alberta assegura que o rio não está contaminado - que tudo o que se encontra nele ou em seu delta, no lago Athabasca, é originário dos vazamentos naturais de betume. O rio passa através das areias betuminosas a jusante das lavras e, enquanto o helicóptero zune poucos metros acima dele, McEachern aponta vários locais em que os barrancos estão enegrecidos e a água, oleosa. "Há um aumento de vários metais à medida que nos movemos para a foz", diz. "E isso é natural - é o curso normal do processo geológico. Já se constatou a presença de mercúrio nos peixes do lago Athabasca - desde a década de 90 estamos monitorando isso. Há HAP nos sedimentos do delta. E isso ocorre porque o rio vai erodindo as areias betuminosas."

O ceticismo, porém, é a tônica dos cientistas independentes - para não mencionar quem vive a jusante das lavras na comunidade indígena de Fort Chipewyan, às margens do lago Athabasca. "É inconcebível que se movimente toda essa quantidade de betume e não haja nenhum efeito", comenta o toxicologista Peter Hodson, especializado em populações de peixes. De fato, um estudo feito pela Environment Canada, o órgão ambiental do governo canadense, comprovou os efeitos sobre os peixes do rio Steepbank, que passa ao lado de uma lavra da Suncor e desemboca no Athabasca. Perto da mina, os animais coletados em 1999 e 2000, por George Tetreault, apresentavam um nível de atividade cinco vezes maior de uma enzima no fígado responsável pela digestão de toxinas - medida empregada para constatar a presença de poluentes -, em comparação com os peixes capturados próximo a um vazamento natural de betume no Steepbank.

Em 2006, John O'Connor, clínico-geral que atende num posto de saúde em Fort Chip, contou a uma rádio que, nos últimos anos, vira cinco casos de colangiocarcinoma - câncer das vias biliares encontrado na proporção de um caso a cada 100 mil. Em torno de mil pessoas moram em Fort Chip, o que torna improvável até mesmo um único caso. O'Connor não conseguiu atrair o interesse das autoridades médicas no surto cancerígeno, mas sua entrevista à rádio teve ampla repercussão. Dois dos cinco casos de O'Connor foram confirmados por biópsias; os outros três pacientes haviam apresentado os mesmos sintomas, mas faleceram antes que se fizessem os exames. (Em uma tomografia, o colangiocarcinoma pode ser confundido com outros tipos de câncer, como o do fígado e o do pâncreas.)

Numa noite de inverno, quando Jim Boucher ainda era menino, na mesma época em que teve início a exploração das areias betuminosas, ele voltava sozinho de trenó para a cabana de seus avós após ter ido a Fort MacKay. Era um percurso de 30 quilômetros, e a temperatura estava a -20ºC. À luz da Lua, Boucher topou com um bando de lagópodes, uma espécie de faisão branco, na neve. Ele abateu umas 50 dessas aves, amontoou-as no trenó e levou-as para casa. Quatro décadas depois, sentado em sua cadeira de presidente, vestindo calça de algodão branco e camisa polo também branca, ele lembra do orgulho que, naquela noite, viu estampado no rosto da avó. "Aquele era outro mundo espiritual", diz Boucher. "Para mim, aquele mundo existiria para sempre." Agora ele conta essa história toda vez que lhe perguntam sobre o futuro das areias betuminosas e o papel de seu povo nesse futuro.

Uma pesquisa realizada pelo Pembina Institute em 2007 revelou que 71% dos habitantes de Alberta eram favoráveis a uma ideia que o governo da província sempre rejeitou a priori: a imposição de uma moratória sobre os novos projetos de exploração até que sejam apaziguadas as preocupações com o ambiente. "Acredito que, quando o governo tenta interferir no mercado, não acontece nada de bom", afirmou o governador Stelmach diante de um grupo de executivos do setor petroleiro naquele mesmo ano. "O sistema de livre mercado resolverá isso."

Mas o mercado não leva em conta os efeitos das lavras no rio, na floresta ou nas pessoas que ali vivem, a menos que seja forçado a isso. Tampouco, se nada lhe for cobrado, vai levar em conta os efeitos da exploração no clima. Jim Boucher colaborou com as companhias de petróleo a fim de proporcionar nova economia a seu povo, que substituísse aquela que haviam perdido, que garantisse o futuro das crianças que nunca mais iriam caçar aves sob o luar. Ele tem consciência do preço que teve de ser pago. "É uma luta para equilibrar as necessidades de hoje e as de amanhã, quando se pensa no ambiente em que vamos viver", diz Boucher. Na região norte da província de Alberta, a questão de como alcançar tal equilíbrio foi colocada nas mãos do mercado, e uma das respostas dele foi deixar de lado o futuro. O amanhã não é de sua conta.


Por: Robert Kunzig Foto: Peter Essick
Publicado em 03/2009
National Geographic Edição 108

O Caminho Rosa das Índias e o Terrorismo Afetivo em Mumbai


O Caminho Rosa das Índias e o Terrorismo Afetivo em Mumbai, por Paulo Antônio Pereira Pinto
Com engenho e arte, a nova novela da TV Globo - Caminho das Índias - tem prestado inestimável contribuição para apresentar, com olhos brasileiros, a realidade perene do país que faz parte de nosso imaginário, bastante cedo, desde que nós brasileiros começamos a estudar nosso “descobrimento”, com a expansão marítima de Portugal, no século XVI.
Tendo vivido, há dois anos e meio, em Mumbai, Índia, tenho lido muitos textos locais e estrangeiros e assistido a diversos filmes sobre seus costumes locais. Confesso, no entanto, que só através de explicações, ora prestadas pelos personagens Tony Ramos e Lima Duarte, consegui entender certos aspectos da cultura e história indianas.
A primeira cena, do capítulo inicial da novela, parece estabelecer o tom e nível de clareza adotado pela autora e diretores. Aparece a cidade sagrada de Varanasi, com fundo musical da composição de Raul Seixas, “Há dez mil anos atrás”. Daí, fica o sentimento de que a complexa realidade daquela civilização de milênios começa a ser explicada com simples versos brasileiros.
O fato de que atores conhecidos - como os mencionados acima - estão esclarecendo didaticamente fatos e costumes tão distintos, concede enorme credibilidade perante nosso público. Cenas de beijos e “amassos”, sempre ao nosso gosto, estariam sendo propositalmente evitadas, como gesto de respeito às produções cinematográficas indianas, que, conforme será mencionado a seguir, não exibem afetividade excessiva. Sem dúvida, a novela contribuirá para o melhor entendimento dos brasileiros com respeito à história e costumes daquele país.
Existem, no entanto, outros pontos da realidade indiana atual, que fogem do contexto da novela e que merecem ser explicados, na medida em que cresce o interesse brasileiro pelo outro país. O primeiro é sobre as características gerais do cinema indiano. O segundo diz respeito a tendência recente, nesta cidade, de reverter avanços sociais obtidos desde que o nome Bombaim foi substituído por Mumbai.
Assim, cabe lembrar que o filme indiano típico é uma mistura de coreografia sensual - o que agrada à platéia masculina - e um final sempre conservador - que condiz com a expectativa das esposas e mães. Isto é, Bollywood é capaz de, em suas películas, exibir parte de ou sugerir “formas femininas”, enquanto conclui desaprovando qualquer exposição do corpo da mulher.
As audiências, na Índia, esperam que as atrizes sejam, ao mesmo tempo, sensuais e conservadoras. Quando uma delas casa - na vida real - espera-se que deixe a carreira. Quase sempre acontece assim. Em poucos casos, como o de Jaya Bachchan, retornam após o casamento para desempenhar o papel de matronas, do tipo de sogras sizudas, mas bondosas.
Os personagens principais do cinema indiano são mais manequins de desfile, do que atores com grandes talentos dramáticos. Espera-se, portanto, que sejam, acima de tudo, muito bonitos. Em segundo lugar, devem saber dançar. Quanto às atrizes, cabe saberem conduzir com sedução, mas dentro dos limites púdicos locais, as cenas em que aparecem - invariavelmente - com o sari molhado, sobre o corpo.
Se forem capazes de atuar de forma razoável, melhor ainda - mas não é uma prioridade. O principal é provocar o imaginário popular, com cenas de riqueza, casamentos opulentos, sugestões de erotismo, sem que nada tenha a ver com a realidade da vida no país.
Logo após a independência da Índia, sua indústria cinematográfica, então no início, produziu documentários que fortaleciam o sonho da consolidação da liberdade política, do desenvolvimento econômico e da modernização. Os filmes, com frequência, tinham como cenário áreas rurais e apresentavam heróis que combatiam contra os males herdados do sistema colonial e do feudalismo.
Mais recentemente, as produções de Bollywood passaram a ser gravadas no exterior, sendo a Suiça um destino preferido, pelo fato de suas montanhas geladas sugerirem cenários indianos, como a Kashimira - onde, devido a situação de conflito com o Paquistão, não é possível efetuar filmagens. Como consequência, o fluxo de turistas da Índia para aquele país aumentou sensivelmente. Cingapura, Nova Zelândia, Reino Unido, África do Sul e Austrália, entre outros disputam a preferência dos produtores locais, com vistas a atrair a vinda de equipes de filmagem e a consequente divulgação de suas belezas a atrações turísticas.
Na prática, Bollywood, hoje atende à demanda de uma crescente classe média urbana representativa da maior cidade indiana que, a partir de 1996, deixou de ser chamada de Bombaim e adotou - por razões nacionalistas - o nome Mumbai.
Bombaim era, justamente, o símbolo do sonho de progresso individual, da ruptura com o rígido sistema social tradicional indiano - este tão bem representado na novela brasileira. Aqui, predominava enorme tolerância, quanto à presença de imigrantes de outras partes do país, bem como à diversidade cultural. Praticava-se uma saudável convivência, entre comportamentos modernos - como a emancipação feminina e a diluição das castas - e a preservação de tradições - como as celebrações anuais do festival do Ganesha (deus hindu), do Ramadam (muçulmano) e de festas religiosas diversas.
Nos últimos anos, contudo, Mumbai torna-se, cada vez mais, apenas a capital do Estado de Maharashtra - perdendo os ideais típicos de Bombaim. Isto se reflete, entre outros aspectos, em crescente intolerância contra o que alguns “líderes conservadores” definem como agressão à cultura indiana.
Assim, durante período que antecedeu o Dia dos Namorados (”Valentine’s Day”), em 14 do corrente, Mumbai - que foi vítima de atos terroristas, no final de novembro de 2008 - passou a ser palco de declarações contra o que poderia ser identificado como “terrorismo afetivo”, pelos referidos auto proclamados “guardiões das tradições nacionais”.
Segundo, por exemplo, um certo Sri Ram Sene, caberia exigir que as mulheres indianas usem apenas saris, não frequentem bares, não comemorem o Dia dos Namorados e não beijem em público. Houve ameaças de agressões físicas àquelas que contrariassem tais sentenças talibãs e de queima de lojas que vendessem cartões comemorativos da data (Talvez seja possível acessar gravação de sisudo pronunciamento deste simpático grupo, em http://cosmos.bcst.yahoo.com/up/player/popup/index.php?cl=12025057) .
Como reação, formou-se o consórcio das “Pubgoing, Loose and Forward Women” (Mulheres que frequentam bares e adotam comportamento liberal) que se dispuseram a enviar calcinhas cor de rosa para o referido líder conservador, no “Valentine’s Day”.
Desenvolveu-se, então, curioso debate, tendo, por um lado o novo símbolo das calcinhas rosas, como protestos contra ações com forte coloração contrária à emancipação feminina. Por outro, o sari - parece que, de preferência, de outra cor - permanece sendo o símbolo da feminilidade indiana.
No dia 14 de fevereiro de 2009, a “polícia ideológica” (alguns integrantes envergavam seus uniformes de policiais) espancou casais, por simplesmente estarem juntos. Assim, houve caso em que um irmão e uma irmã foram agredidos, por engano. Rapazes e moças, por estarem próximos, foram obrigados a “casar” - ou trocaram votos matrimoniais. Sem maiores explicações, por não ter sido encontrada a companheira com quem havia sido visto antes, os vigilantes casaram um adolescente com um burro (??!!). Cabe notar, que, na novela, a personagem Maya, de Juliana Paes, casa com uma árvore.
Em contrapartida, na mesma data, houve vendas recordes de cartões do Dia do Namorados. O rosa tornou-se extremamente popular, inclusive para preservativos. Jovens desafiaram os que querem ditar-lhes normas de conduta ditas “culturais” e celebraram, publicamente, seu afeto mútuo.
Percorrem-se, nessa perspectiva, caminhos “nunca dantes navegados”. A “Incredible India”, das propagandas turísticas oficias com suas múltiplas cores, passa a ser vista como um país monocromático.
O lindo colorido da novela da TV Globo corre o risco, aqui, de tornar-se, seja numa enorme área cinzenta, pelo terror dos comportamentos impostos pelos ditos conservadores, seja numa vasta mancha rosa, em reação aos que se opõem às manifestações de afeto e emancipação feminina em Mumbai.
Enquanto isso, continua sendo politicamente correto homens andarem de mãos dadas ou intimamente abraçados - parece que como forma tradicional de demonstrar amizade masculina.

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata de carreira e atualmente exerce a função de Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai. As opiniões expressas neste artigo são de sua inteira responsabilidade e não refletem posições do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (papinto2006@gmail.com).
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Geografia e a Arte

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