sábado, 31 de janeiro de 2009

Espaço - A próxima geração

Em 1957, a União Soviética lançou o Sputnik, cápsula do tamanho de uma bola de basquete e primeiro satélite artificial da Terra. Os sinais de rádio do Sputnik soavam como “provocação”, desabafou um cientista americano. No ano seguinte, os EUA criaram a Nasa, iniciando a corrida espacial.
Foto de Mark Thiessen; modelo cortesia da NASA/National Space Science Data Center

O Robonaut, um assistente a robotizado dos astronautas da missão lunar Constellation, é capaz de brandir grandes cortadores de pinos e manipular a menor das pinças. Em sua posição de centauro (acima), o Robonaut pode ser acoplado a uma base de quatro rodas. Equipado com câmeras para ter visão em estéreo, pode ser operado por meio de controle remoto com intervalo de apenas cinco a dez segundos.
Foto de Mark Thiessen

Designado para agüentar temperaturas de -151°C a 115°C, a roupa espacial Mark III passa por testes na quadra lunar do centro espacial Johnson. Com seu sistema de sobrevivência acoplado, a roupa é pesada, com 136 quilos. Mas o peso não incomoda com a baixa gravidade, e os astronautas podem pular e plantar bananeira como se estivessem embaixo da água.
Foto de Mark Thiessen


Dois integrantes do Desert RATS (Research and Technology Studies – Estudos de Pesquisa e Tecnologia) da NASA deslocam-se pelo deserto do Arizona para testar um veículo de transporte de superfície. O trajeto foi escolhido para imitar o terreno da lua e de Marte, No entanto, há discussão a respeito de se os seres humanos devem mesmo viajar para outros planetas.
Foto: NASA

Durante teste no Sandia National Labs, no Novo México, cerca de 5 mil espelhos concentram a luz solar num intenso raio que vaporiza a superfície de escudos ablativos de calor na capa externa de uma espaçonave. Esses painéis, ou escudos, são concebidos de forma a perder massa na reentrada do veículo na atmosfera terrestre, protegendo-o de um ambiente mais quente que a superfície do Sol.
Foto de Mark Thiessen

Cinturões de nuvens espiralados – compostos de amônia, sulfido de hidrogênio e água – encobrem Júpiter neste mosaico criado com 27 imagens tiradas pela sonda Cassini. Lançada em 1997, a Cassini passou por Vênus, Terra e Júpiter de modo a ganhar velocidade e disparar para seu último destino: Saturno.
Foto: NASA/JPL/Space Science Institute

No dia 31 de julho de 2001, fazia dois meses que Marte era acometido por tempestades de poeira. Com centros múltiplos, esta tempestade gigantesca encobriu quase todo o planeta: chegou até a mascarar a brancura do círculo polar.
Foto: NASA/JPL/Malin Space Science Systems

As câmeras com lentes grande-angulares da sonda Mars Global Surveyor capturaram o início de uma série de tempestades de poeira em Marte. Em junho de 2001, o ar frio da calota polar meridional se deslocou para o norte, indo ao encontro dos ventos equatoriais quentes, e deu origem às primeiras tempestades.
Foto: NASA/JPL/Malin Space Science Systems

Distante 11 milhões de quilômetros, a Voyager I transmitiu a primeira imagem da Terra e da Lua juntas em 1977. Depois, partiu para o espaço profundo, em uma jornada de 30 anos ainda em curso. Sondas não-tripuladas como ela coletam informações sobre as galáxias a um custo baixo se comparado ao do programa espacial tripulado.
Foto: NASA/JPL-California Institute of Technology


Uma imagem computadorizada, criada por Lockheed Martin, mostra a cápsula espacial shows Orion carregando provisões para a Estação Espacial Internacional. O Orion, o veículo designado para a missão Constellation, foi descrito por Michael D. Griffin, administrador da NASA, como “o Apollo com esteróides”. O Orion vai carregar uma tripulação de seis integrantes para a estação espacial e, posteriormente, um grupo de quatro pessoas até a lua.
Imagem: Lockheed Martin Corp


No início dos anos 1950, um posto avançado no espaço em formato de roda não passava de sonho artístico. Hoje, o sonho do ilustrador Chesley Bonestell está quase completo.
Arte de Chesley Bonestell


Em 1984, Bruce McCandles II tornou-se a primeira pessoa a flutuar à solta no espaço. O passeio propulsionado a jato, próximo do ônibus espacial Challenger, foi um marco na jornada rumo ao cosmo – uma aventura que completa 50 anos neste mês.
Foto: NASA

Nosso desafio - Efeito Estufa


Para enfrentar o aquecimento global, o primeiro passo é fazer as contas.
É assim que a coisa funciona. Antes da Revolução Industrial, a atmosfera da Terra continha cerca de 280 ppm (partes por milhão) de dióxido de carbono (CO2). Era uma quantidade razoável - "razoável" tendo o significado de "aquilo a que estávamos acostumados". Uma vez que a estrutura molecular do CO2 mantém junto da superfície do planeta o calor que de outro modo se irradiaria de volta ao espaço, a civilização surgiu em um mundo cujo termostato estava regulado em função daquele número, o qual equivalia a uma temperatura média global de cerca de 14ºC - que por sua vez estava adequada às plantas, às fontes de água, à passagem das estações e aos lugares onde construímos as cidades.

Assim que passamos a queimar carvão, gás e petróleo para movimentar nossas vidas, aquele patamar de 280 ppm foi ficando para trás. Quando começamos a medir o nível de CO2, no final da década de 1950, já havíamos chegado ao nível de 315 ppm. Agora ele está em 380 ppm e crescendo em um ritmo aproximado de 2 ppm por ano. Embora isso não pareça algo muito significativo, sabe-se que o calor adicional capturado pelo aumento de CO2, alguns watts por metro quadrado da superfície terrestre, é suficiente para aquecer de modo considerável o planeta. Com isso, já elevamos a temperatura da Terra em mais de meio grau Celsius. É impossível prever as conseqüências de qualquer aumento adicional de CO2 na atmosfera. Porém, a elevação já registrada da temperatura começou a derreter quase tudo o que estava congelado no planeta, alterou as estações e o padrão das chuvas e fez subir a superfície dos oceanos.

Pouco importa o que seja feito agora, esse aquecimento ainda vai continuar - há um intervalo de tempo até que o calor se disperse por completo na atmosfera. Ou seja, não temos como interromper o aquecimento global. Nossa tarefa, portanto, é menos dramática: só nos resta conter os danos, impedir que as coisas fujam ao nosso controle. E essa tarefa não é fácil: até pouco tempo atrás não havia dados precisos indicando o limiar da catástrofe. Agora já podemos contar com um quadro mais claro - nos últimos anos foram publicados relatórios sugerindo que 450 ppm de CO2 é um limite que seria bom respeitar. Caso seja ultrapassado, dizem os cientistas, os séculos futuros provavelmente verão o derretimento das calotas de gelo da Groenlândia e da Antártica Ocidental, o que provocaria uma gigantesca elevação do mar. Esse nível, de 450 ppm, ainda é uma estimativa (não leva em conta outros gases associados ao efeito estufa, como o metano e o óxido nitroso), mas serve de referência para os esforços de todos nós. O problema é que essa referência está se movendo - e com rapidez. Se a concentração de díóxido de carbono continuar aumentando em 2 ppm por ano, chegaremos lá em apenas três décadas e meia.

Portanto, o cálculo não é complicado - mas não significa que não seja assustador. Até agora só os europeus e os japoneses começaram a reduzir suas emissões de carbono, e é bem possível que nem sequer alcancem seus modestos objetivos. Enquanto isso, as emissões de carbono dos Estados Unidos, que representam um quarto do total mundial, não param de subir. No início do ano, autoridades americanas comunicaram às Nações Unidas que vão produzir 20% mais carbono em 2020 do que geraram em 2000. A China e a Índia também passaram a emitir enormes quantidades de CO2. E suas populações são tão grandes, e seu crescimento econômico é tão acelerado, que fazem com que pareça inimaginável a perspectiva de um declínio acelerado nas emissões mundiais. Os chineses abrem uma usina termelétrica a cada semana, em média. É muito carbono na atmosfera
Todos os envolvidos têm uma idéia de quais seriam as medidas capazes de evitar a catástrofe: cortes rápidos, contínuos e significativos nas emissões dos países mais avançados - e tais ações devem estar associadas a transferências em grande escala de tecnologia para a China, a Índia e o resto do mundo em desenvolvimento para que possam ampliar suas economias emergentes sem ao mesmo tempo consumir cada vez mais combustíveis fósseis. Todos nós conhecemos as grandes questões: há alguma possibilidade de fazer esses cortes rápidos? Os países mais ricos têm vontade política para levar isso adiante - primeiro em âmbito doméstico e, depois, no resto do mundo?

A resposta à primeira questão em geral envolve a menção a tecnologias novas (como o hidrogênio e o etanol) e a expectativa de que elas nos permitam superar todos os obstáculos. Todavia, a escala do problema significa que serão necessárias muitas estratégias. Três anos atrás, uma equipe da Universidade Princeton realizou uma das melhores avaliações de nossas possibilidades de iniciar já os cortes nas emissões. Os pesquisadores Stephen Pacala e Robert Socolow publicaram um estudo na revista Science em que relacionavam 15 "calços estabilizadores" - mudanças grandes o suficiente para fazer diferença e para as quais a tecnologia logo estaria disponível. A maioria de nós sabe de muitas delas: carros com motores mais eficientes, casas e prédios ecologicamente amigáveis, turbinas que aproveitam a energia eólica, biocombustíveis como o etanol. Outras são mais recentes e menos certas, como os projetos para construir usinas termelétricas com exaustores capazes de isolar o carvão de modo que possa ser "seqüestrado" e armazenado no subsolo.

Essas abordagens têm algo em comum: todas são mais complicadas do que simplesmente queimar os combustíveis fósseis. Elas nos obrigam a reconhecer que já aproveitamos muito de nosso combustível mágico e que qualquer coisa que venha em seguida será mais dispendiosa e difícil. O custo dessa transição global vai custar trilhões de dólares. É certo que no decorrer do processo serão criados incontáveis postos de trabalho e que, quando ele estiver concluído, talvez seja um sistema bastante eficiente. (Uma vez construído o moinho de vento, o vento é grátis; e ninguém terá de protegê-lo contra terroristas ou manter um exército para controlar as regiões de onde ele sopra.) E, como hoje estamos desperdiçando uma enorme quantidade de energia, algumas das primeiras tarefas seriam relativamente fáceis. Se em todo o mundo substituíssemos por lâmpadas fluorescentes todas as incandescentes que queimassem na próxima década, já lançaríamos com o pé direito um daqueles 15 calços. Nessa mesma década também precisaríamos construir 400 mil grandes turbinas eólicas - algo possível, mas apenas se houver disposição efetiva. Teríamos de seguir o exemplo da Alemanha e do Japão e subsidiar a instalação de painéis solares nos telhados, além de fazer com que a maioria dos agricultores do planeta cultivasse menos seus campos de modo que o solo recuperasse o carbono perdido. E teríamos de realizar tudo isso ao mesmo tempo.

Muitos dos caminhos para estabilizar a temperatura do planeta passam por nossas vidas cotidianas, mas, sejam quais forem, não há dúvida de que exigirão mudanças penosas. Um exemplo são as viagens aéreas, uma das fontes de emissões de carbono que mais crescem no mundo (mesmo quem faz questão de trocar as lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes e de usar os carros híbridos certamente ficaria incomodado com a idéia de limitar suas viagens de avião). Os americanos acostumaram-se a consumir diariamente alimentos prontos ou crus vindos de todas as regiões do mundo (conforme um estudo recente, boa parte da comida viaja quase 2,5 mil quilômetros até chegar à boca de um americano, o que no fim das contas significa mais gasto de petróleo). Eles também preferem andar sozinhos em seus carros, constroem casas cada vez maiores - e nelas instalam TVs cada vez maiores... E é óbvio que esses hábitos terão de ser modificados.

Provavelmente isso só acontecerá se os combustíveis fósseis passarem a custar bem mais do que hoje. Os esquemas para reduzir as emissões de carbono - como aqueles que permitiriam às empresas adquirir em leilões concessões para emitir CO2 - são formas de tornar o carvão, o gás e o petróleo progressivamente mais caros e, assim, mudar a direção na qual atua a força gravitacional da economia quando se trata de energia.

O modo mais direto de aumentar os preços seria cobrar um imposto sobre o carbono, o que, entretanto, não é nada fácil. Como todos precisam usar combustíveis, isso seria injusto - exigindo um mecanismo para impedir que os mais pobres fossem desproporcionalmente prejudicados. Outra tarefa difícil seria convencer os chineses, os indianos e todos os que estão na fila do crescimento econômico a deixar de lado um futuro baseado no carvão em troca de algo mais administrável. Sabemos que é possível - no início do ano, um painel das Nações Unidas estimou que o custo total da mudança da matriz energética, uma vez calculados os prós e os contras, seria de pouco mais de 0,1% da economia mundial por ano durante um quarto de século. O que, convenhamos, é um preço até razoável.

Sem dúvida, o aquecimento global vai ser a maior prova com que nós, os seres humanos, já nos defrontamos. Mas estamos prontos para mudar, de maneira dramática e prolongada, a fim de proporcionar um futuro viável às próximas gerações e à biodiversidade do planeta? Se estivermos dispostos a tanto, as novas tecnologias e os novos hábitos talvez consigam nos oferecer uma saída. Entretanto, isso só vai acontecer se agirmos com rapidez e decisão - e com uma maturidade que raramente demonstramos enquanto sociedade ou espécie. Esse vai ser o nosso grande rito de passagem, durante o qual não teremos nenhuma certeza ou garantia de êxito. É apenas uma janela de possibilidade que ainda está aberta, por pouco tempo, mas o suficiente para deixar passar um raio de esperança.
Por: Bill McKibben Foto: Mitch Epstein, Getty Images
Publicado em 10/2007

National Geographic
Edição 91

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A convivência de dois mundos - Hong Kong

Devolvida à China, Hong Kong ainda é um encontro entre Ocidente e Oriente

Texto: Peter Milko

O canal que separa a Ilha de Hong Kong de Kowloon concentra nas suas margens o centro econômico e financeiro do território
Dezenas de arranha-céus de dar inveja ao arquiteto mais ousado do planeta. Suas luzes coloridas se confundem ao anoitecer com as dos outdoors das marcas de eletroeletrônicos globalizados. Eles apontam para o céu, espetando a neblina baixa, que remete ao típico fog londrino. Só que estamos no maior centro financeiro da Ásia, criado pelos ingleses mas parte da China desde 1997, dono de um PIB de US$ 200 bilhões, espremido numa ilha minúscula, de 1.078 km2, que caberia com folga no bairro do Morumbi, em São Paulo. No outro lado da ilha, fica Repulse Bay, onde, para se chegar à praia, é preciso entrar em um templo budista com esculturas de dragões, deuses coloridos e incensos fumegantes espalhados à beira das águas do Mar da China. Dois mundos que se encontram e, aparentemente, se dão bem.

O “Porto dos Aromas”, como se traduz o nome Hong Kong do cantonês, é um caldeirão de contrastes e aparentes contradições, tão saborosas como sua culinária, que permite experimentar uma sopa de cobras ao estilo oriental ao lado de uma paella espanhola bem ocidentalizada. Passados nove anos, desde que a Inglaterra devolveu o protetorado à China, parece que estamos numa Londres de olhos puxados. Os carros têm a direção do lado esquerdo, ao contrário da China continental, onde, aliás, para entrar, é preciso passaporte; os ônibus são de dois andares, a moeda corrente é o dólar de Hong Kong, impresso pelo Hong Kong Shangai Bank Corporation e por outros bancos locais.


Nas ruas do bairro de Monk Kok, as iguarias chinesas são expostas para o pedestre fazer seu lanche

Com a famosa frase dos dirigentes chineses – “um país, dois sistemas” – Hong Kong mantém seu status de Meca do capitalismo, autonomia administrativa, sistema legal, moeda e alfândega, com direito de negociação de tratados (como tráfego aéreo e permissão de aterrissagem de aviões) e leis de imigração próprias. Mas é parte da China, cujo governo central, com seu regime fechado de partido único, é responsável pela defesa nacional e relações diplomáticas. A ilha – ao lado de Macau (a possessão portuguesa devolvida aos chineses em 1999) – usufrui da condição de Região Administrativa Especial, após 156 anos de domínio britânico. Na prática, Hong Kong está longe de ser parte da China, como pude atestar nas semanas em que percorri o sul do país.

História conturbada

Para começar, Hong Kong é mais do que uma ilha. Consiste em um arquipélago de quase 250 ilhotas e um pedaço do continente. Sua origem remonta à presença britânica no Império Chinês e seu interesse em obter a exclusividade de comércio no porto de Cantão, que levou às duas Guerras do Ópio. Vitoriosos na primeira guerra, em 1842, os ingleses garantiram o monopólio do lucrativo comércio da droga, a abertura de cinco portos chineses ao Ocidente e a posse de Hong Kong, então um remoto vilarejo de pescadores.Mas perceberam que a ilha não tinha água suficiente para a população, o que foi um dos motivos para nova guerra, em 1860, que resultou na anexação de uma área do continente, a Península de Kowloon (Sete Dragões, no dialeto cantonês), com a qual passaram a ter acesso às águas do rio Tong Kong. Não foi suficiente. Em 1898, os ingleses ocuparam outra área do continente, rebatizada de Novos Territórios, no qual foram incluídas as 235 ilhas que compõem a porção leste do delta do rio das Pérolas. Ficou combinado que toda a área permaneceria como protetorado britânico por um período de 99 anos.

No alto da colina na ilha de Lantau, reina o Buda de 202 toneladas

O mesmo rio das Pérolas transformou-se no século 21 em um problema ambiental que incomoda cada vez mais os “honkies”, como gostam de ser chamados os nativos de Hong Kong. O rio atravessa a província de Shenzen, onde o milagre econômico chinês mantém um número incrível de fábricas que abastecem o mundo de brinquedos, eletroeletrônicos e tudo o que se possa imaginar como “made in China”. A poluição dessas indústrias é jogada rio abaixo e corre para Hong Kong, onde vivem os donos de boa parte das fábricas, empresários e grupos financeiros. Sem falar do ar poluído que, segundo os “honkies”, vem do continente, como se chama agora, de forma polida, a "outra" China. A realidade é que a população de 7 milhões de pessoas, com seus carros e trânsito congestionado, não colabora muito para a questão ambiental.

Contrastes locais

Como pode um prédio residencial médio ter “apenas” 46 andares? Os edifícios de Hong Kong são tão altos que cobrem metade das colinas que emolduram a paisagem. No meio dos espigões de concreto, nota-se um andar vazado. Adivinha para quê? Dar saída para os ventos aterradores da média anual de seis tufões que costumam aparecer entre junho e setembro. Segundo me contam, os apartamentos desses megaprédios não medem mais do que 60 metros quadrados e muitas vezes abrigam famílias numerosas. Um dos moradores, que mora no 41º andar, conta que, em 2005, viu a sua casa ser invadida por 20 centímetros de água e o ar-condicionado cuspido para fora porque a vedação das janelas não funcionou.

Na ilha de Lantau, que abriga um dos aeroportos mais movimentados do mundo, além de uma recém-inaugurada Disneylândia, os mesmos prédios se espalham na planície que serve de entrada para as montanhas desabitadas da ilha, e ao Monastério de Po Lin, onde fica a maior estátua do Buda da Ásia, de 202 toneladas de cobre, com vista imperdível para o Mar da China. Sua silhueta é visível a quilômetros, sentado na posição característica de lótus, com as pernas cruzadas e mão direita espalmada, representando o momento de meditação.

Enquanto na China continental praticamente todos os templos foram varridos do mapa, em Hong Kong eles permaneceram. E não apenas os budistas. Na Hollywood Road, atrás do Banco da China, que lembra uma faca envidraçada apontando para o céu, bem no centro da ilha, o templo taoista mais antigo da cidade recebe uma escola atrás da outra. Tento respirar no ar carregado pelos incensos. O misticismo está em toda parte, mas bem disfarçado pelo ar ocidental gelado, em pleno verão escaldante, devido ao exagero de refrigeração em todos os locais – até mesmo no metrô.

No coração do centro financeiro da ilha de Hong Kong sobrevive o monastério taoista

Em toda parte se nota o desenvolvimento da medicina chinesa, baseada em produtos derivados de ervas, cada vez mais aceita no mundo todo. Em Hong Kong, a medicina chinesa foi identificada como uma promissora área de desenvolvimento industrial para fomentar o crescimento econômico local e deixou de ser uma especialidade de farmácias pequenas para se tornar um negócio com a participação de pesquisas nas grandes universidades.

Da mesma forma, o Feng Shui, a arte chinesa de organizar a vida de acordo com as forças da natureza, faz sucesso em Hong Kong, onde a posição de tudo é infuenciada pelos bons fluidos para o ambiente. Só isso pode explicar porque os andares do luxuoso Hotel Intercontinental pulam do 12 para o 15. “Deixamos fora o 13 porque é o símbolo do azar no Ocidente, e o 14 porque significa morte em breve para os chineses”, explica Sue Gam, gerente nascida em Cingapura. O que não falta em Hong Kong são estrangeiros.

Medo dos tubarões

Unindo ocidentais e chineses em Hong Kong está o chá, muito popular nos dois mundos. Perambulando pelas ruas de Kowloon, é possível ver as lojas especializadas em sua venda por toda parte. “Agora, a moda é o chá preto, que exige bule de cerâmica, pois precisa temperatura mais baixa”, diz Stella Wong, gerente de uma dessas lojas, enquanto prepara uma mistura da mesa de madeira finamente trabalhada para seus clientes. Ela só temeu pelo negócio em 2003, quando os casos de Sars (síndrome respiratória aguda grave) explodiram na cidade, fazendo turistas e homens de negócio evitarem a região por uns tempos. Mas, desde 2005, tudo voltou ao normal com uma vantagem: o medo da doença fez aumentar a limpeza da cidade, como se pode ver nas ruas de Mong Kok e Ladies Market, os bairros onde se compra tudo por muito pouco, sem garantia de procedência.

Nas encostas de Victoria Hill concentram-se as mansões dos empresários milionários e artistas famosos da Ásia, como o ator Jackie Chan, especialista em artes marciais. A maior parte dos negócios da China passa por Hong Kong, motivado pelo sistema financeiro e jurídico montado pelos ingleses, impostos baixos e pouca burocracia. Os honkies relaxam nas praias de areia branca, banhadas pela água morna do Mar da China. Afinal, estamos na mesma latitude do Rio de Janeiro, só que no Hemisfério Norte. Curiosamente, ninguém toma sol. Não é pelo medo de câncer, mas pelo preconceito. Pele escura lembra as mulheres filipinas, que são mais de 300 mil no território, trabalhando como domésticas e outras atividades menos nobres.

No formigueiro humano da península de Kowloon, não há espaço para carros; compra-se de tudo por preços mínimos
Tentei um banho para me refrescar do calor escaldante, mas ouvi um aviso: "banhar-se só nas praias com cerca submersa". Medo dos tubarões que já fizeram vítimas bem no estilo do nosso Nordeste, preferindo os surfistas. Os mesmos temidos tubarões são umas das iguarias do restaurante flutuante Jumbo, que acomoda até 2 mil pessoas por vez. Na baía de Aberdeen, ilha de Hong Kong, ele é passagem para conhecer a vila flutuante dos pescadores da etnia tankan. Nada muito limpo, pois é para água que vão direto todos os dejetos, mas já existem planos de despoluir a baía com recursos do governo.

Febre de tai chi chuan

Centenas de pessoas praticam a arte todos os dias pela manhã

Em meio às discussões comerciais e financeiras, os moradores de Hong Kong encontram tempo para praticar o tai chi chuan, uma variação do kung-fu que mistura ginástica, meditação e terapia. Praticado pelos chineses há milhares de anos, o tai chi tornou-se popular em várias partes do mundo. Em Hong Kong, é normal encontrar diariamente, ao amanhecer, centenas de pessoas em praças públicas fazendo exercícios. A palavra chave nesse caso é a harmonia, ou seja, o equilíbrio entre corpo, mente e espírito. No tai chi chuan, as pessoas imitam com gestos suaves e circulares os movimentos dos animais, do vento, das nuvens e das águas. De quebra, elas alongam os músculos, estimulam a circulação sanguínea e ganham energia para continuar suas atividades diárias.

A vida no "mundo à parte"

Mas se a questão é culinária, os botecos do bairro de Lan Kwai Fong dão de goleada, pelo menos para quem trabalha ao lado, no centro financeiro. E quem diria, bancária virou dona de botequim, com muito orgulho. “Para que vou ficar enfurnada o dia inteiro nesses prédios de vidro, se posso ajudar minha mãe e receber os clientes com quem trabalhava?”, comenta Gigi Wing, formada em economia, que deixou o Citibank há quatro anos para se dedicar ao restaurante da família depois que o pai morreu. Primogênita de seis irmãs, ela se mostra feliz da vida atrás do balcão, conferindo as contas das doze mesas do Ser Wong Fun, que lotam sempre na hora do almoço.

Além de ser rigorosamente “do outro lado do mundo”, Hong Kong é um mundo à parte. Pelo acordo político, até 2047 a cidade-estado vai gozar dessa relativa independência, liberdade de imprensa, democracia também relativa e autonomia financeira. O medo de uma invasão da China continental já passou, mas ninguém sabe como vai ser o futuro. Por enquanto, se trata de um maravilhoso caldeirão que mistura a Ásia com a Europa, e que não tem igual no planeta.

O autor viajou a convite da South African Airways, Intercontinental Hotéis e Hong Kong Tourism Board ( www.discoverhongkong.com.hk)

Revista Horizonte Geográfico

O Rio de Janeiro que poucos conhecem

Praias cariocas inexploradas atraem visitantes em busca de sossego enquanto moradores tentam preservar estilo de vida

Texto: Sérgio Adeodato

“O homem com sua sapiência
Transformou tudo em ciência
Reciclando a minha natureza
Mexeu com lixo,
Domou os ventos,
Usou o átomo sem consciência
Causou tristeza, degradação
Coloca em risco toda a civilização
E assim num grande gesto de amor
Já tem gente a refletir
E por mim vive a lutar ...
Um fio de esperança a reluzir...
Produzir sem maltratar
Sou a mãe Terra
Só o seu amor vai me salvar ...
Pra natureza sorrir, o homem tem que mudar
E aprender a preservar”
Samba-enredo 2005 do Império Serrano

Todos os anos, em fevereiro, a rua Marques de Sapucaí, no Rio de Janeiro, reúne sonhos e desejos de uma multidão de foliões – celebridades, sambistas anônimos dos morros cariocas ou turistas que chegam de longe para forçar os quadris a entrar no compasso do samba. Mas nem tudo é frenesi nesta metrópole no mês do carnaval. Enquanto o sambódromo pulula na explosão de energia das escolas de samba, bem perto dali, dentro ou nos arredores da capital, recantos de natureza pouco explorados, emoldurados por montanhas de mata atlântica e enseadas com praias quase intocáveis, reservam aventuras especiais para quem prefere a tranqüilidade.

Percorremos a rota das praias cariocas inacreditavelmente desertas (ou quase), reduto de visitantes descolados e adeptos do turismo de aventura, dispostos a enfrentar caminhadas em trilhas e viagens em barco de pescadores para chegar a privilegiados pontos do litoral desprovidos de estradas – e do burburinho da folia. Que nos desculpem os mestres-salas e as porta-bandeiras! Decidimos, no final das contas, colocar em prática a mensagem do samba-enredo do Império Serrano, uma das escolas de samba do primeiro time do carnaval carioca, que exalta em 2005 o amor à mãe-natureza. E partimos para as novas experiências.

Na primeira etapa da viagem, saindo do bairro de Copacabana, o carro percorre 280 quilômetros pelas curvas da Rio-Santos até a entrada de um condomínio de luxo, Laranjeiras, um pouco depois de Paraty – e ali fica estacionado. Desse ponto em diante, uma trilha de 50 minutos de subidas e descidas em meio a remanescentes de mata atlântica leva à praia do Sono – um lugar estrategicamente cercado de montanhas, como o Pico do Cairuçu, que escondem por mais tempo o sol ao amanhecer e o cobrem mais rápido ao entardecer – ou seja, o dia nasce mais tarde e escurece mais cedo, um convite para um sono mais prolongado.

Mas pesadelos rondam a tranqüilidade dos nativos. Um deles é o dilema que enfrentam, depois que a captura predatória de peixes pelas redes de arrasto dos grandes barcos pesqueiros começou a eliminar o principal meio de sustento da comunidade. Hospedar visitantes passou a ser uma alternativa econômica, mas também um precedente que pode abalar a tranqüilidade de uma praia quase virgem, onde só se chega caminhando ou em barcos, quando as condições do mar permitem.

Expulso a tapa

De olho nos benefícios do turismo, discute-se na comunidade o projeto de se abrir uma estrada. “Isso seria catastrófico, sem cuidados especiais para evitar a degradação de uma vila que não tem saneamento básico”, adverte a professora Emily Brown, 26 anos, mineira radicada na Inglaterra que conheceu a praia em 2001, se apaixonou por um pescador e ali ficou. “Aqui não temos energia elétrica ou acesso à Internet e, com o ritmo mais lento que na cidade grande, sentimos a vida pulsar, seja na forma das flores, seja no canto dos passarinhos”, conta Emily.

Hoje, a professora ensina inglês para 60 crianças na escola do lugarejo, com apoio de uma entidade americana, a Six Friends Brasil. Muitos alunos chegam aos 12 anos falando inglês fluentemente. No lugar onde os adultos mal sabem falar o português e muitos são analfabetos, expressões como excuse me e I am sorry são comuns. “Os jovens estão se preparando para trabalhar com visitantes estrangeiros aqui ou em restaurantes e pousadas de outras cidades, como Paraty”, explica Emily. Ela admite ter enfrentado oposição dos moradores mais velhos – uma desconfiança logo resolvida.

A descoberta da praia por forasteiros causa arrepios à Maria Joana Alvarenga dos Santos, dona Baíca, 61 anos, nativa que não quer passar de novo pelos conflitos de posse de terra que marcaram a história do lugar. “Um grande fazendeiro espalhou búfalos perto da vila para espantar os moradores, forçando-os a vender as terras a preço de banana”, recorda dona Baíca. Desfecho da pendenga: “O fazendeiro foi expulso a tapa”.

Da Praia do Sono, percorremos uma trilha cheia de mirantes espetaculares de onde avistamos florestas beijando enseadas de mar azul, cercadas pela Reserva Ecológica de Joatinga e pela Área de Proteção Ambiental de Cairuçu. Após 40 minutos de caminhada, chegamos à Praia de Antigos, um lugar totalmente desabitado. Poucos metros à frente, alcançamos a Praia de Antiguinhos e, depois, Galheiras, habitada por um morador solitário – o caiçara Luziano Costa, 52 anos. Ele trocou a pesca pelo trabalho de caseiro. “Não queremos estradas, porque elas costumam trazer favelas e bandidos, e preferimos continuar como no tempo de nossos avós”, afirma Luziano. “Mas precisamos encontrar uma saída, pois a pesca está fraca e os homens da lei proíbem cortar árvore para plantar.”

Dos piratas à cadeia

“A presença de áreas de proteção ambiental está ajudando a manter algumas praias quase intocáveis”, afirma Gabriel Werneck, dono da RioHiking, operadora de turismo de aventuras no Rio, especializada em descobrir refúgios ainda preservados, destinos para visitantes, principalmente estrangeiros, que buscam sossego e contato com a natureza. Rodando pela Rio-Santos, estacionamos o carro em Magaratiba, a 130 quilômetros de Paraty, e de lá zarpamos para a Ilha Grande, antigo esconderijo de piratas que pilhavam barcos carregados de ouro após deixar os portos brasileiros com destino a Portugal, durante o período colonial. O fundo do mar, naquela região, é um cemitério de navios naufragados. Um detalhe faz toda a diferença: nos 36 quilômetros de extensão da ilha, florestas e restingas preservadas por lei, nas quais é proibido desmatar e construir, mantêm para as futuras gerações uma vasta coleção de praias desertas. Além disso, o presídio da Ilha Grande, famoso cárcere de presos políticos na ditadura, manteve restrito o acesso dos visitantes, até ser desativado e implodido em 1994.

Após essa data, a população local multiplicou-se e a região passou a receber um número crescente de visitantes em busca de lugares tranqüilos perto da metrópole carioca. No tempo do presídio, existiam somente duas pousadas na ilha; hoje, são 185 cadastradas, sem contar as clandestinas e os campings. Os porões da cadeia, atualmente em ruínas, passaram a ser atração para quem se aventura a caminhar 13 quilômetros até chegar à Praia dos Dois Rios, partindo da Vila do Abraão, principal povoado da ilha. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro, hoje responsável pelo que restou do presídio, mantém no local uma base de campo e, em 2005, começará a recuperar uma parte dos escombros, para a instalação do Museu do Cárcere e de um centro de visitantes. A rotina pacata do vilarejo, onde moram as famílias de ex-guardas e de ex-presidiários, ficará mais agitada.

Navios naufragados

Rodeado pelos inseparáveis cachorros, encontramos um senhor de barbas brancas e longas – Júlio de Almeida, 74 anos, um ex-detento que chegou ao presídio em 1957 e está em liberdade condicional até o fim da pena, em 2014. Se o passado de condenações o marcou como um jovem perigoso, hoje Júlio é um boa-praça, sempre procurado pelos visitantes. Não é para menos. O anfitrião representa a história da cadeia intransponível devido ao isolamento. Entre os personagens que viveram ali, estavam Leonel Brizola, Castor de Andrade e Madame Satã, o travesti matador do Largo da Carioca, famoso também por fazer shows para os presidiários.

“As pessoas de fora representam um grande empurrão para melhorar a nossa vida”, destaca Júlio. É preciso, contudo, tomar cuidado. Várias ameaças rondam o Parque Estadual da Ilha Grande, de 40,8 km². “O desmatamento para instalação de campings, a caça e a coleta de bromélias e orquídeas são as principais”, revela Ibá dos Santos, administrador do parque. Além de um plano com normas para evitar a ocupação desordenada, as autoridades discutem como restringir o número exagerado de visitantes, evitando problemas de excesso de lixo e esgoto. Por enquanto, praias quase desertas como Lopes Mendes, Aventureiro e Feiticeira e as piscinas naturais dos lagos Verde e Azul – só alcançadas por barcos ou trilhas de longo percurso – são um cenário incomum para um balneário situado entre as duas maiores metrópoles do país. No total, são 106 praias – ou 114, se contarmos aquelas que se formam no recuo da maré.

Terra de ex-escravos

Santa tranqüilidade! Não é preciso ir tão longe para explorar paisagens que se mantém como nos tempos em que Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro, em 1565, na luta contra os corsários franceses atraídos pelo rendoso comércio do pau-brasil.

Com autorização da Marinha, responsável pela área, embarcamos no cais de Itacuruçá, a 94 quilômetros da capital carioca, rumo à Ilha da Marambaia, no extremo da restinga. Cruzamos a Baía de Sepetiba, numa viagem de 50 minutos, na qual é possível avistar várias de suas 365 ilhas e também golfinhos. A Marambaia, nosso destino final, é habitada por cerca de 400 ilhéus, descendentes dos escravos que trabalhavam nas antigas fazendas de café do proprietário Joaquim Breves.

No local, funcionava um entreposto de comércio de escravos, no qual os negros recém-chegados da África eram submetidos a regime de engorda antes de serem vendidos. A ilha chegou a abrigar 3 mil escravos, no auge do ciclo cafeeiro. Com a abolição, muitos ficaram na região, vivendo principalmente da pesca, atividade mantida até hoje.

Além de reivindicar energia elétrica, escolas de nível médio e posto médico, os atuais moradores, classificados como descendentes de quilombolas, lutam pela posse de suas terras. “Não troco esse lugar por nenhum outro”, afirma Dionato de Lima Eugênio, 63 anos, ou “seu” Naná, bisneto de escravos e presidente da associação dos moradores civis da ilha.

A comunidade preserva tradições negreiras, como a prática da capoeira. No cardápio das festas, em vez de peixes, a feijoada é a atração principal, degustada como no tempo dos escravos, quando a casa-grande destinava as piores partes do porco para a senzala.

Civil não entra

O Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (Cadim), da Marinha, ocupa as terras da antiga fazenda. A senzala foi adaptada como hotel para militares e suas famílias e amigos, além de pesquisadores autorizados a estudar a rica biodiversidade da restinga. Alguns animais só existem ali, como a rã Leptodactylus marambaeae. Os lagartos-de-praia, já extintos no continente, continuam vivendo naquele litoral preservado.

Jacarés habitam a Lagoa Vermelha, onde se chega após três horas de uma dura caminhada. Tartarugas sobem à tona a qualquer hora, inclusive em pontos de maior movimentação de barcos, como o cais da Marambaia. “Ainda bem que até hoje não conseguiram tirar as Forças Armadas para instalar resorts nesse lugar paradisíaco em plena capital”, observa o biólogo Roberto Xerez, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As praias se estendem a perder de vista. Na praia do Sino, encontramos o casal de remadores Alexandre Fitaroni e Fernanda Cabral, que retornava de uma viagem de caiaque de 300 km, entre o Rio de Janeiro e a Ilha Grande, e foram atraídos pela paisagem virgem daquele recanto. Apesar dos avisos indicando área militar, a dupla desembarcou na praia para descansar e secar toda a tralha levada nos apertados caiaques – duas pranchas, barraca, panelas, fogareiro e roupas, entre outros apetrechos.

A alegria não durou muito, pois logo chegou um militar da Marinha ordenando que fossem embora. Eles já estavam acostumados. Na manhã anterior, em outra praia da restinga, foram acordados na barraca e expulsos por soldados do Exército.

Caiaque na baía

Mas a metrópole do Rio de Janeiro ainda reserva outras surpresas para quem está atrás de sossego e aventuras. A somente 40 minutos da movimentada Praia de Copacabana, perto da Barra de Guaratiba, zona oeste do Rio, tomamos uma trilha de uma hora e meia até alcançar enseadas de areia branca e água limpa incrustadas entre montanhas. Ali, nas praias Perigosa, Meio e Inferno, carro não entra. Sinais de civilização nessas paragens, só pegadas na areia – poucas, diga-se de passagem.

Mais surpreendente ainda é a aventura de navegar de caiaque pela Baía de Guanabara – com fama de poluição e tudo. Saindo da Praia da Urca, situada dentro da Fortaleza de São João, remamos 30 minutos até a Ilha da Laje, tendo, ao fundo, a paisagem de cartão-postal da enseada de Botafogo, Pão de Açúcar e Corcovado. A ilha é, na verdade, uma fortaleza de pedra, o Forte da Laje, que serviu para a proteção militar da entrada da baía, mas hoje está em ruínas.

Por meio de uma escada de corda, pendurados sobre o mar, conseguimos entrar na gigantesca estrutura – da plataforma de acesso, situada a cerca de 10 metros de altura, os mais afoitos arriscam um salto para o mergulho. No lugar, ainda existem os canhões e os corredores por onde as tropas se deslocavam. De lá, avista-se os arranha-céus da orla de Botafogo e a imensidão da baía, no exato local onde os colonizadores aportaram para fundar a cidade -- uma história de conflitos com invasores de diferentes origens.

Remar para atingir recantos inexplorados na orla carioca é a especialidade de Simone Miranda Duarte, 45 anos, atleta premiada em provas internacionais de canoagem. Além de oferecer cursos de caiaque nas águas da Baía de Guanabara, Simone é procurada por pessoas que querem fugir do burburinho das praias movimentadas e remar até ilhas situadas nas proximidades, como a de Cotunduba, onde se chega após 45 minutos.

Vale a pena o esforço: a transparência da água permite observar peixes de várias espécies. O mesmo se pode dizer de uma opção ainda mais distante – as inabitadas Ilhas Cagarras, que podem ser alcançadas após uma hora e meia de muito exercíco físico. E quem ainda acha pouco, pode atravessar a Baía de Guanabara e aportar na praia de Adão e Eva, em Niterói – sempre remando.

“É preciso enfrentar desafios para experimentar novos caminhos de convivência com a natureza marinha”, conclui Simone. Ou, como diz o samba-enredo da Império Serrano, citado no início dessa reportagem: “Pra natureza sorrir, o homem tem que mudar/E aprender a preservar”. E, para quem gosta de praia, mas não de carnaval, ficam aqui os versos de outro carioca famoso:

“As praias desertas continuam
Esperando por nós dois
E este encontro eu não devo faltar
O mar que brinca na areia
Está sempre a chamar
Agora eu sei que não posso faltar ...”
As Praias Desertas, Antônio Carlos Jobim

Privilégio de poucos

Quando ocupou o poder, nas décadas de 30 e 50, o presidente Getúlio Vargas tinha a Restinga da Marambaia como um refúgio de privacidade. Da mesma maneira, a primeira dama do governo Figueiredo, dona Dulce, na ditadura dos anos 70, mandava impedir o acesso de qualquer pessoa para que pudesse deliciar-se sozinha nas praias desertas. Mas foi depois que o presidente Fernando Henrique declarou ser aquela paisagem o seu paraíso de verão que o lugar ganhou projeção nacional.

Essa extensa faixa de restinga de 42,5 quilômetros, que avança mar adentro na Baía de Sepetiba, Região Metropolitana do Rio de Janeiro, é uma área exclusiva das Forças Armadas. Exército, Marinha e Aeronáutica desenvolvem, em diferentes pontos da restinga, atividades de treinamento militar. Somente o presidente da República, os militares e suas famílias, salvo raras exceções, podem entrar na área. O presidente Lula ainda não visitou esse paraíso escondido. Motivos para tentação não faltam: a Marambaia, protegida pelos militares, tem um belo acervo de praias, matas, lagoas e manguezais em ótimas condições de preservação.

Rio de Janeiro: Para quando você for

O litoral do Rio de Janeiro é marcado pela presença de restingas, lagunas e baixadas. Na capital, a paisagem reúne amostras dessa beleza cênica: montanhas de floresta e rochedos à beira-mar, lagoas e zonas planas, no passado ocupadas por pântanos ou pelo mar. O Pão de Açúcar e o Corcovado são exemplos representativos desse relevo que emoldura famosas praias urbanas, como Botafogo, Copacabana e Ipanema, e outras situadas na cidade, mas pouco freqüentadas devido à dificuldade de acesso. Na chamada Costa Verde, um dos cenários mais bonitos da costa brasileira, situada entre a Baixada Fluminense e Paraty, as montanhas de floresta beiram o mar, formando baías de águas calmas e cristalinas. Nesta região, existem cerca de 2 mil praias, muitas delas desertas, de acesso exclusivo pelo mar, e mais de 500 ilhas protegidas das intempéries do mar aberto pela Restinga de Marambaia.

Região Metropolitana

As praias mais badaladas do Rio, todo mundo conhece. Aproveite para visitar pontos mais tranqüilos do litoral, de enseadas praticamente desertas, e também situadas na Região Metropolitana. Os passeios duram no máximo um dia, com saída pela manhã e retorno à tarde. Veja mais informações no Centro de Informações Turísticas (Riotur), tel: 0800-70-71808.

Atrações

Praias Perigoso, Canto e Funda.

Trata-se de um conjunto de praias desertas, situadas na zona oeste da cidade. Recomenda-se fazer o percurso com apoio de guias. O acesso é através de uma trilha de uma hora e meia, que sai das proximidades da estrada que liga a praia de Grumari à Barra de Guaratiba. Uma das atrações do caminho é a Pedra da Tartaruga, onde é comum a prática de rappel.

Ilhas do Laje, Cotunduba e Cagarras.

A aventura é chegar a essas ilhas remando em caiaques, cruzando a Baía de Guanabara. Para chegar na Ilha do Laje, onde existe uma fortaleza de pedra em ruínas, a viagem dura 30 minutos e o ponto de partida é a Praia da Urca, situada no domínio da Fortaleza de São João. Ali existe uma escola de caiaque. Para atingir a Ilha de Cotunduba, as remadas só de ida demoram 45 minutos. O local é propício ao mergulho com snorkel. No caso das ilhas Cagarras, o passeio deve ser feito somente por aventureiros de melhor preparo físico, pois a viagem de ida dura uma hora e meia.

Praia de Itacoatiara.

Situa-se no município de Niterói, no outro lado da Baía de Guanabara. A partir da ponte Rio-Niterói, seguir as placas na direção da região oceânica. Quando chegar no Saco do São Francisco, seguir indicação para a praia de Itaipu. Após vinte minutos aproximadamente, há uma placa indicando a entrada para Itacoatiara. A orla da praia, cercada por montanhas, é ocupada por um condomínio residencial de casas. O local é freqüentado por jovens do Rio de Janeiro que buscam recantos alternativos longe dos pontos mais movimentados da capital. É parte do Parque Estadual da Serra da Tiririca. Uma trilha de 30 minutos leva até o Olho do Elefante, uma pedra de onde se avista todo o conjunto de praias oceânicas de Niterói. Outra trilha, após um trecho de mata, acaba numa enorme rampa de pedra, conhecida como Costão. Após meia hora de caminhada íngreme se chega ao cume.

Paraty

Como chegar

A base para chegar a Paraty é o Rio de Janeiro (261 km), pela Rio-Santos. De São Paulo (330 km), indo até São José dos Campos pela rodovia Presidente Dutra e descendo até Caraguatatuba pela rodovia dos Tamoios, segue-se pela BR-101 até Paraty.
Antigo porto exportador de ouro no Império, Paraty é patrimônio histórico nacional, preservando igrejas e casarios coloniais. Do cais, situado no Centro Histórico, partem traineiras de pescadores e veleiros que fazem passeios nas ilhas e praias da região.

Onde ficar

Paraty oferece uma grande variedade de opções de hospedagem, desde as simples até as luxuosas, dentro e fora do Centro Histórico, inclusive no alto da Serra do Mar, que circunda a cidade. Informações: Secretaria Municipal de Turismo, tel. 24-3371-1222, (www.paraty.com.br).

Atrações

Praias do Sono, Antigos, Antiguinhos, Galhetas e Ponta Negra.

É possível chegar ao condomínio de Laranjeiras, a 17 km do centro da cidade, por meio de ônibus ou vans que saem de Paraty. Mas o ideal e mais seguro é ir de carro e na companhia de guias treinados. De Laranjeiras, a caminhada até a Praia do Sono demora 50 minutos. A trilha na Mata Atlântica proporciona vistas exuberantes daquele litoral. A Praia do Sono é uma vila de pescadores que começa a se abrir aos visitantes. Há três restaurantes instalados em palhoças e é possível alugar quartos na casa dos nativos. Antigos (30 minutos após a Praia do Sono) e Antiguinhos (50 minutos) são praias desertas. Galhetas (1h) tem uma única pousada. Ponta Negra é uma vila de pescadores com cerca de 120 pessoas, de onde se pode tomar barcos para conhecer outras praias ainda mais distantes.

Ilha Grande

Como chegar

Saindo do Rio, o indicado é chegar de carro ou ônibus a Mangaratiba (120 km), pela Rio-Santos, de onde partem as barcas para a Ilha Grande diariamente às 8hs. Nas sextas-feiras, há uma barca extra, às 22hs. A travessia demora 1h30. De São Paulo, o melhor percurso é via Angra dos Reis (385 km), de onde saem barcas diárias, às 15h30. A travessia também é de 1h30.

Onde ficar

Existem mais de 150 pousadas de várias categorias na Ilha Grande, a maioria na Vila do Abraão, o principal ponto de entrada da ilha. Há também campings e quartos para alugar em casas dos moradores.

Atrações

Na Vila do Abraão há várias agências de escunas que oferecem diferentes roteiros para conhecer as praias e cachoeiras. Outra possibilidade é alugar uma traineira, combinando preço e o percurso do passeio direto com o pescador. Para visitar praias mais bonitas e desertas, além e usar barco, é necessário caminhar em trilhas. É recomendável substituir chinelos por tênis, pois em alguns pontos se caminha sobre pedras. Ao todo, são mais de 100 praias. As mais visitadas são Lopes Mendes, Lago Azul, Lago Verde e Feiticeira. Para chegar à praia dos Dois Rios, onde ficam as ruínas do presídio, é necessário caminhar 26 km (ida e volta). É também possível alugar barco, mas a viagem dependerá das condições do mar. Recomendamos conhecer as praias situadas no lado oceânico da ilha, como a do Aventureiro, onde fica uma reserva biológica (campings ali são proibidos).
Posto de Informações Turísticas: tel (24) 3361-5508. (www.ilhagrande.com)

Informações

Passeios para praias desertas no Rio, Niterói, Paraty e Ilha Grande e todos os roteiros citados nesta reportagem são oferecidos pela RioHiking Caminhadas e Esportes de Aventura, tel. (21) 2507-4417 ou 9721-0594. (www.riohiking.com.br)
Revista Horizonte Geográfico

ERRADOS os cálculos sobre emissão de CO2 na Amazônia

14/jan/09 (Alerta em Rede) – Frequentemente, afirma-se que o desmatamento na ‘Amazônia’ é responsável por 75% da emissão brasileira de gás carbônico, o vilão do aquecimento global antropogênico. Tal cálculo nunca foi apresentado ou demonstrado, um indicativo seguro que se esteja diante de mais um ‘achismo’ ambientalista sem comprovação científica.

Por isso mesmo, é de grande relevância para essa discussão o recente estudo realizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) revelando que estão errados os cálculos de biomassa até então realizados para estimar-se a quantidade de carbono que seria emitida em caso de queimadas de florestas. O estudo foi coordenado por Philip Fearnside, cientista conhecido por sua simpatia a causas ambientalistas, o que torna insuspeito os resultados do mesmo.

Uma entrevista de Fearnside à revista da Fapesp sobre o assunto é bastante elucidativa, conforme se constata em seus principais trechos:


Agência FAPESP – O grupo do Inpa coordenado pelo senhor desenvolveu recentemente novas equações alométricas que permitem realizar estimativas mais precisas da biomassa da floresta no arco do desmatamento. O que havia de errado com as equações usadas até agora?

Philip Fearnside – O problema dos cálculos feitos até agora é que eles se baseiam na extrapolação de dados obtidos exclusivamente na Amazônia central. Até hoje, todos os dados são das regiões de Manaus, Belém e de áreas de florestas densas perto do rio Amazonas. Mas no arco de desmatamento o que existe é um outro grupo de florestas, a floresta aberta.

Agência FAPESP – Trata-se de que tipo de dados?

Fearnside – Dados como a densidade de madeira, forma e altura das árvores. Na falta desses dados, para calcular a biomassa no arco do desmatamento eram usadas equações com base nas áreas da Amazônia central. O inventário brasileiro sobre as emissões de carbono, por exemplo, utilizou equações que foram feitas aqui em Manaus, para florestas densas, e aplicou ao arco do desmatamento.

Agência FAPESP – E essa extrapolação dos dados induzia a erro?

Fearnside – Sim, foi uma coisa que descobrimos em pesquisas anteriores: as árvores de lá são mais leves do que as da Amazônia central. A madeira é menos densa e, portanto, tem menos biomassa.

Agência FAPESP – Os cálculos feitos até agora estavam superestimados?

Fearnside – Sim. O procedimento normal para as estimativas de biomassa começa ao se medir as árvores grandes de diversas parcelas de floresta. Com a equação alométrica, essas medidas são convertidas em volume de madeira. Para calcular a biomassa, multiplica-se o volume pela densidade. A partir daí se pode calcular a quantidade de carbono da floresta para estimar qual será a quantidade de emissões em caso de desmatamento. Mas, se a madeira é mais leve, com o mesmo volume de madeira temos menos biomassa e menos emissões. [...]

Agência FAPESP – Qual foi a magnitude desse exagero?

Fearnside – Cada fator desses que mencionei acrescenta uma redução de biomassa e, quando se soma tudo, a diferença é gritante. No caso do desmatamento de 2004, por exemplo, quando houve um pico de desmatamento de 27,4 mil quilômetros quadrados desmatados em um ano, a diferença de cálculo é de 24 milhões de toneladas de carbono. E é preciso lembrar que a parte mais considerável dessa devastação se deu no arco do desmatamento e, portanto, essa diferença se aplica.

Agência FAPESP – Os cálculos feitos até agora, então, estavam completamente errados?

Fearnside – Sim, estavam errados. Houve um exagero considerável: 24 milhões de toneladas de carbono em um ano equivalem ao triplo das emissões na cidade de São Paulo. É impressionante. Mas temos que encarar isso como o processo contínuo, normal, do melhoramento dos números da ciência.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Imagens da África do Sul


Africa do Sul


Gaivota


Pinguins africanos, parte de um grupo de cerca de 3000 que vivem na região de Boulders.


Flor de Aloe (babosa), planta muito comum na região do Cabo

Protea, a flor nacional da África do Sul, é um tipo de fynbos, vegetação característica da região do Cabo.



O Cabo das Agulhas é o ponto mais meridional do continente africano.


Casa de família de pescadores na aldeia de Waenhuiskrans.


Vista da Reserva Natural do Cabo da Boa Esperança.


Fynbos, vegetação típica da região do Cabo, caracterizada por arbustos com pequenas folhas. As plantas do mundo dividem-se em apenas seis reinos florais e a África do Sul é o único país que contém um desses reinos - o Reino floral do Cabo - dentro de suas fronteiras. Mais de 8000 diferentes espécies de fynbos foram catalogadas pelos estudiosos.


Cidade do Cabo
Cabo da Boa Esperança, ponto de encontro entre os Oceanos Atlântico e Índico. Seu contorno por Bartolomeu Dias em 1488 abriu aos europeus a rota marítima para o oriente.

Table Mountain (Montanha da Mesa).

Campos cultivados nos arredores da Cidade do Cabo.

Vista aérea da Cidade do Cabo.

Fotos Daniela Moreau - Casas das Africas

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Abra os olhos nessas águas

A advertência que deu nome aos recifes do litoral baiano hoje se volta para os projetos econômicos, como os viveiros de camarões, que podem prejudicar o maior banco de corais do Atlântico Sul

Texto: Sérgio Adeodato

"Quando estava a caminho de Abrolhos pela primeira vez, tinha apenas uma vaga idéia do que me esperava. Minha experiência, como mergulhador e biólogo marinho, limitava-se até então aos costões rochosos do Sudeste do Brasil. No primeiro mergulho naquelas águas do litoral baiano, compreendi o significado da alta diversidade de vida que existe nos ambientes de corais. Meu objetivo como pesquisador era estudar o comportamento dos peixes limpadores, aqueles que se alimentam de parasitas que ocorrem na superfície corporal de outros peixes. A variedade de organismos, principalmente os que recobriamo fundo do mar, me deixou fascinado. Corais, algas, esponjas e diversos outros seres vivos formavam um mosaico de cores e formas como um tapete multicolorido. Em um espaço de 20 centímetros quadrados podiam ser vistas até sete espécies diferentes de corais! Naquela viagem inicial, mergulhei pela primeira vez com tubarões, que circundavam recifes gigantes, conhecidos como "chapeirões", com fendas e cavernas nas quais se abrigavam muitos cardumes. Foi um período maravilhoso de vivência e aprendizado que mudaria minha vida para sempre. Saí do arquipélago coma impressão de que aquela experiência representava apenas o início de uma grande viagem."

Ronaldo Francini-Filho


Cinco ilhas compõem o arquipélago de Abrolhos. A maior é Santa Bárbara, com formato alongado. Ao lado estão Redonda e Siriba. Há ainda as pequenas Guarita e Sudeste

O relato do biólogo paulista Ronaldo Francini-Filho, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), hoje à frente de pesquisas destinadas a conhecer e proteger o Arquipélago de Abrolhos, não é apenas uma visão emocionada. Retrata a riqueza de uma das regiões de maior diversidade marinha do Oceano Atlântico, onde a quantidade de espécies endêmicas, aquelas só encontradas ali, é quatro vezes maior do que nas águas cristalinas do Caribe. "Palavras não bastam para descrever tamanha beleza cênica”, afirma o biólogo, que há nove anos estuda os recifes de corais de Abrolhos em parceria com outros pesquisadores, um trabalho que envolve uma logística complexa, muitos dias de mar e quase quinhentos mergulhos por ano.

Nesse pedaço do litoral brasileiro se localizam os maiores e mais belos bancos de corais do País e do Atlântico Sul. A região é um alargamento da plataforma continental, formando um platô de águas rasas com aproximadamente 56 mil quilômetros quadrados entre a foz do rio Jequitinhonha, no município de Belmonte (BA), e a foz do rio Doce, em Linhares (ES). Trata-se de um complexo de ecossistemas costeiros e oceânicos ricos em nutrientes, que compõe um grande refúgio marinho.


Em Abrolhos, o atobá-marrom pode ser encontrado em todas as ilhas do arquipélago. Nidifica no solo ou sobre as pedras
A natureza esculpiu em Abrolhos cenários submarinos que servem de abrigo à fauna marinha, com destaque para o coral-cérebro, que tem formato de cogumelo gigante e atinge até 25 metros de altura e 50 metros de diâmetro. O lugar atrai peixes em grande quantidade: garoupas, badejos, vermelhos e muitos outros. Em busca de alimento farto, as baleias jubarte freqüentam suas águas entre julho e novembro, para dar à luz e amamentar os filhotes. Os peixes também servem de banquete para as aves - atobás brancos e marrons, fragatas, grazinas e algumas espécies migratórias. Ao lado das tartarugas marinhas que ali desovam, as baleias são um espetáculo à parte, um cenário só observado nas cinco ilhas de origem vulcânica que compõem o arquipélago.

O aviso do nome
No século 16, essa estrutura submarina era um perigoso obstáculo para as antigas caravelas que cruzavam o Atlântico rumo ao Novo Mundo. Tanto que o alerta dos navegadores para "abrir os olhos” naquelas paragens acabou inspirando o nome do arquipélago - Abrolhos. Diversos naufrágios ocorridos no passado são prova disso. Hoje, no entanto, o sinal de advertência que há séculos ronda os recifes de Abrolhos está dirigido para uma questão bem diferente: a conservação ecológica. O foco das atenções de pesquisadores, ambientalistas e autoridades são projetos econômicos potencialmente capazes de prejudicar o delicado equilíbrio dos bancos de corais e dos ecossistemas relacionados.

O alerta foi disparado depois que um megaprojeto de carcinocultura (criação de camarão em cativeiro) começou a ser instalado, há pouco mais de um ano, pela Cooperativa dos Produtores de Camarão do Extremo-Sul da Bahia (Coopex) na borda dos manguezais de Caravelas, uma das portas de entrada para os recifes. Na região, distante 70 quilômetros da costa, fica o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, o primeiro do gênero criado no País, em 1983, onde a vida aquática, incluindo os corais, estão protegidos por lei. "Os manguezais funcionam como berçários para a maioria dos peixes que habitam os recifes em meio ao oceano”, observa o biólogo Guilherme Dutra, pesquisador da Conservação Internacional, entidade ambientalista que apóia diversas pesquisas na região.

Pesquisadores coletam pedaço de pele para fazer exame de DNA de baleia nos Abrolhos
O problema é que, para abastecer os tanques onde os camarões são criados, é necessário fazer a dragagem do manguezal. "Esse processo retira da natureza a água cheia de organismos nos primeiros estágios de vida, devolvendo para o ambiente descargas de matéria orgânica em decomposição e resíduos de produtos químicos utilizados na criação dos crustáceos em cativeiro”, afirma o pesquisador. O projeto, segundo ele, prevê a extração de 880 mil metros cúbicos por dia de água, reduzindo nos mangues a quantidade de larvas que iriam se transformar em peixes herbívoros. Sem eles, aumenta a quantidade de algas que competem por espaço no fundo do mar com os corais, elevando os riscos de doenças e mortalidade desses organismos.

"O estuário de Caravelas é o mais importante para a alimentação do complexo de Abrolhos e qualquer impacto que resulte no seu empobrecimento biológico pode ser fatal”, afirma Dutra. Com investimento de R$ 60 milhões, os tanques estão previstos para ocupar 1,5 mil hectares dentro de uma área que já tinha sido submetida a estudo para criação de uma zona de proteção ambiental - a Reserva Extrativista do Cassurubá. Com cerca de 30 mil hectares, o lugar guarda um dos mais importantes manguezais da costa brasileira, explorado por 350 famílias de catadores de mariscos e crustáceos.

O perigo dos camarões

Entre as possíveis conseqüências, estão os prejuízos à pesca artesanal, hoje meio de sustento de 20 mil pessoas na região, e também ao turismo, que emprega 80 mil trabalhadores. O assunto foi tema das audiências públicas organizadas para debater a obra, das quais participaram lideranças contra e a favor do projeto. Uma parte da população acredita que a criação de camarão pode trazer emprego e desenvolvimento para a região.

Cassarubá vai abrigar uma reserva extrativista. Em seus manguezais se reproduzem peixes dos recifes de corais
A engenheira de pesca Luciana Queiroz, da organização não governamental Terramar, de assistência a projetos de pescadores cearenses, não recomenda a experiência. "No Ceará, onde a criação de camarão existe há mais tempo, a atividade teve impacto muito negativo para o ambiente”, afirma.

O Ceará é um dos maiores produtores nacionais de camarão, importante item de exportações do País. Em 2005, segundo as últimas estatísticas publicadas pela Associação Brasileira de Criadores de Camarão, o Brasil exportou mais de 33 mil toneladas, ao valor de US$129 milhões.

Em Abrolhos, o alerta é contra a degradação dos corais que, em todo o mundo, estão ameaçados pelo desenvolvimento acelerado e sem controle das zonas costeiras. Independentemente da polêmica econômica, os cientistas temem o impacto que qualquer alteração possa trazer ao ambiente. Para prevenir esses impactos, a região é palco de inúmeras pesquisas.

"Conhecer é essencial para preservar”, ressalta o geólogo Ruy Kikuchi, coordenador de um estudo que faz parte do Programa Institutos do Milênio, do governo federal, para monitorar a saúde dos corais. Analisando imagens de satélite, a equipe de Kikuchi avalia se os recifes da região já sofrem os impactos das mudanças climáticas globais. Um dos efeitos é o branqueamento dos corais, um problema causado, entre outros fatores, pela elevação da temperatura do oceano. Essa alteração reduz a quantidade de algas que fornecem alimento aos corais e permitem a fixação do carbonato de cálcio.

O estudo é importante porque a fartura de espécies que buscam alimento e abrigo nos recifes é a base da atividade pesqueira no extremo-sul da Bahia. Recente levantamento, realizado pela Conservação Internacional, mostrou que, das 293 espécies de moluscos encontradas na região dos recifes, 19 são novas para a ciência. O mesmo ocorreu com oito espécies de peixes. Os pesquisadores querem agora estudar o grau de dependência dos peixes do arquipélago em relação aos ambientes costeiros, como os manguezais, ameaçados de destruição.


Comunidades ribeirinhas subsistem da pesca artesanal e da coleta de mariscos e crustáceos
Uma frente de seis senadores do Espírito Santo e da Bahia, ligados à Coopex, responsável pelo projeto, chegou a propor um decreto legislativo para acabar com a zona de amortecimento, mas a idéia não foi adiante devido a oposição da bancada ambientalista. Hoje há seis processos na Justiça contra a área de proteção no entorno do parque. Além disso, o governo da Bahia, que perdeu as últimas eleições, entrou em dezembro de 2006 com pedido de liminar na Justiça Federal para abrir a região a esses projetos econômicos.

"A tendência é esse processo ser revertido, porque apoiamos a zona de amortecimento”, afirma o atual secretário de Meio Ambiente da Bahia, Juliano Matos, que tomou posse em janeiro de 2007 com o novo governo. Para ele, "a região de Abrolhos não precisa de projetos de carcinocultura, porque já tem na beleza natural e na biodiversidade um importante ativo econômico para gerar renda, como ocorre com o turismo”

Os desafios do parque

Com 91 mil hectares, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos protege apenas um pequeno pedaço dos bancos de corais da região. No total, os recifes se estendem por uma gigantesca área de 9 milhões de hectares, equivalente aos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo juntos. Estudos científicos são atualmente desenvolvidos para sustentar a revisão do plano de manejo do parque com novas regras para a sua exploração e manutenção. Entre as prioridades, está a fiscalização contra a pesca predatória. Hoje, o Ibama tem apenas dois funcionários de nível superior e um fiscal para combater a captura ilegal de espécies marinhas em toda a área. Ações de repressão são realizadas apenas em campanhas periódicas com apoio da Polícia Federal. Com o projeto Redes de Unidades de Conservação Costeiras e Marinhas, do Ibama, Abrolhos deverá receber uma parte dos R$ 7 milhões repassados pela Shell como compensação ambiental pelas atividades que desenvolve na região. O dinheiro será aplicado na compra de lanchas e na contratação de uma equipe de fiscais.

Pretende-se também um controle maior do turismo. Recente estudo avaliou que Abrolhos tem capacidade de receber no máximo 225 pessoas por dia sem riscos de degradação ambiental. Há dois anos, com recursos de compensação ambiental da Aracruz Celulose, um centro de visitantes foi instalado em Caravelas, de onde zarpam os barcos com visitantes para o arquipélago. Para evitar degradação, foram mapeados os lugares onde o mergulho é permitido - pontos alcançados após três horas de viagem de barco desde a costa. O desembarque para percorrer trilhas e observar aves é autorizado apenas na Ilha Siriba, uma das cinco que compõem o arquipélago

Revista Horizonte Geográfico

Quem foi rei nunca perde a majestade

A saga do grão que fez parte da história do Brasil e continua indispensável no cotidiano de todos aqueles que não dispensam o tradicional e bom cafezinho

Texto: Cristiana Menichelli

No dia-a-dia é indispensável. A primeira refeição só começa com ele. Reina na conversa com os amigos, coroa um bom almoço e é o sinal de uma pausa no trabalho. Nas casas do interior, o bule sobre o fogão faz parte da memória familiar – “café pra visita”. Nas grandes cidades, ganhou status, passou a ser elegante tomar um café expresso preparado pelo barista. Que diferença de quando as primeiras sacas do produto brasileiro atravessaram o oceano e desembarcaram em Portugal, no século 18, derrubando o monopólio do comércio da bebida até então dominado pela França e Países Baixos. Daquela época até os nossos dias, o café foi fundamental na história do Brasil. Os altos e baixos de sua produção afetaram a vida de muita gente enquanto ele reinava na economia nacional. E hoje, embora não seja mais o principal produto de exportação do País, desfruta de respeito e reconhecimento internacional.

A maioria dos brasileiros não sabe quem foi o sargento-mor paraense Francisco de Melo Palheta. E, no entanto, ele é o herói dessa história bem-sucedida. Grande explorador da Amazônia e galanteador famoso, Palheta trouxe escondido para o Brasil as primeiras sementes do arbusto nativo da África. Encarregado pelo governo português de obtê-las, Palheta viajou para a vizinha colônia da Guiana Francesa, em 1727, para buscá-la. Não foi fácil, pois era proibido comercializar suas sementes. A versão mais aceita da história conta que Palheta seduziu a mulher do governador, Claude dOrvilliers, que, na despedida, lhe deu de presente algumas sementes e uma muda de café camufladas em um vaso de flores.
As primeiras plantações brasileiras se desenvolveram nos quintais das casas de Belém, entre elas a do próprio Palheta. Mas a novidade não foi recebida com muito entusiasmo. Foi preciso que alguém levasse a planta para o Nordeste e, 30 anos depois, ela chegasse ao Rio de Janeiro para que tivesse início a sua ascensão meteórica, motivada pela decadência da produção do Haiti por causa da longa guerra de independência que o país mantinha com a França.

“Mar de café” em Alfenas, Minas Gerais: o produto foi fundamental para a economia brasileira e ainda hoje é um dos grandes itens de exportação
Os barões do café

Os primeiros a se arriscar no cultivo da planta, que já havia demonstrado seu sucesso nas chácaras da capital carioca, foram comerciantes, tropeiros e mineradores das fazendas do Vale do Paraíba, entre a Serra do Mar e a da Mantiqueira. O café foi plantado nos morros sem muita preocupação com o solo. E, para o trato dos pés e a colheita, esses plantadores usaram mão-de-obra escrava, como é mostrado no quadro Colheita de Café, de Rugendas (1835). Deu certo – nesse primeiro momento. Entre as décadas de 1820 e 1870, a região tornou-se a mais rica do País – 90% do café brasileiro, em 1854, era produzido no Vale do Paraíba.

As fazendas eram exemplo de riqueza e luxo, demonstrando o poder e as posses dos chamados barões do café. No centro ficava o terreiro, um grande quadrado pavimentado, em torno do qual se distribuíam as outras construções – a casa-grande, em destaque, com suas numerosas janelas, salas de jantar e quartos, a capela, a senzala, a casa do administrador e outras. Era um mundo isolado, no qual viviam às vezes quase mil pessoas e onde reinava o barão com seus ares aristocráticos.

Tanto poder era motivado pelo dinheiro do café, ou ouro verde, que sustentou, inclusive, a Guerra do Paraguai. Mas, apesar dessa riqueza, as técnicas de produção eram bastante rudimentares, o que motivou o esgotamento do solo. Além disso, a partir de 1850, com a proibição do tráfico de escravos e as pressões contra a escravidão, a mão-de-obra das fazendas diminuiu. Por volta de 1870, muitos barões do café estavam arruinados, outros se mudaram para o novo eldorado do café – o Oeste Paulista. Como disse Monteiro Lobato, as fazendas que nasceram, cresceram e decaíram no Vale do Paraíba, eram “palácios mortos da cidade morta”.

A conquista do Oeste

O avanço das frentes de café para o Oeste segue o potencial da abundante e fértil “terra roxa” e está ligado ao aparecimento das ferrovias. A princípio, ele se desenvolveu do mesmo modo que no Vale do Paraíba. Só que, com a proibição dos escravos, os fazendeiros paulistas pensaram na frente. Financiaram a vinda de imigrantes europeus que chegavam a São Paulo para trabalhar nos cafezais como trabalhadores livres contratados, embora em condições igualmente difíceis, como mostrou o pintor Candido Portinari no seu quadro Café, de 1932.

Para facilitar o escoamento da produção, os paulistas investiram nas ferrovias, como a São Paulo Railway, a primeira de uma série de ligações por trilhos com o porto de Santos, o maior centro de escoamento dos grãos. Dia e noite, o incessante movimento no cais confirmava a importância estratégica da cidade litorânea. Ali foi erguido o Palácio do Café, inaugurado em 7 de setembro de 1922, que logo passou a abrigar a Bolsa Oficial do Café, criada em 1914. A arquitetura de formas volumosas, arcos e colunas denunciam a suntuosidade do período e o poder da elite cafeicultora paulista da época.

Em vez de monarquistas aristocráticos, esses novos reis do café investiram na República, que poderia agilizar melhor seus negócios. Quando o dinheiro começou a se multiplicar, eles formaram uma oligarquia do café, um pequeno grupo que, assim como os fazendeiros do Vale do Paraíba, controlou a política nas primeiras décadas da República. Foi a política do “café-com-leite”, que marcou o domínio dos presidentes paulistas (aliados a Minas Gerais, produtora de leite), que só acabou com a Revolução de 1930.

Antes disso, a malha ferroviária possibilitou a criação de mais fazendas de café no interior paulista, até então pouco habitado. Os trens levavam milhares de imigrantes que desembarcavam em Santos para os cafezais. A eles se seguiram migrantes nordestinos, que escapavam da seca em suas terras. As novas fazendas eram gerenciadas pelo administrador, pois os donos eram homens de negócios que habitavam tanto a cidade com a fazenda. Sua residência era distante da área de produção, uma espécie de casa de campo, onde a família ia passar as férias. E eles investiam também na indústria e em bancos, diversificando suas atividades.

Na sociedade globalizada de hoje não se estranha mais que problemas ocorridos na economia de países distantes afetem a realidade próxima. Mas, naquele ano de 1929, ninguém podia imaginar o abalo à cafeicultura brasileira causado pela quebra da Bolsa de Nova York. Para evitar um colapso da economia local, o governo provisório de Getúlio Vargas, em 1930, criou o Conselho Nacional do Café, que se encarregou de destruir estoques. Entre 1931 e 1944, o País assistiu à queima de mais de 78 milhões de sacas de café, quantidade, na época, equivalente ao consumo mundial do produto durante três anos.


O renascimento das plantações

Nunca mais a economia brasileira dependeu apenas de um produto, muito menos do café. Mas o cultivo continuou. Paradoxalmente, porém, o Brasil produziu durante muito tempo os melhores e os piores grãos. Os lotes contendo os de maior qualidade seguiam para o mercado europeu, rebatizados com o nome de outras origens, como Moka e Java, e o refugo, de baixíssima qualidade, era comercializado como café brasileiro. Felizmente, o produto nacional vive hoje um renascimento, marcado pela crescente excelência de seus grãos e suas distintas características, que variam de região para região. Empresas torrefadoras internacionais buscam aqui a matéria-prima para a elaboração do blend (mistura) do seu afamado expresso.

Atualmente, Minas Gerais lidera a produção e as regiões do cerrado e sul do estado se destacam pelo alto nível de qualidade dos grãos. São ganhadoras freqüentes de concursos e pioneiras no café certificado, ou seja, na adoção de selos socioambientais, atribuídos por instituições independentes, que atestam o compromisso dos cafeicultores em apostar no desenvolvimento sustentável – práticas agrícolas eficientes, manejo ambiental e bem-estar dos trabalhadores. Apesar de ainda recente, o movimento do café certificado contempla um novo modelo de qualidade que está sendo seguido por um número cada vez maior de fazendas. O mapa do novo ouro verde inclui a Mogiana Paulista, a Zona da Mata de Minas e do Espírito Santo e o Oeste Baiano.

Como resultado, o Brasil tem à disposição uma seleção considerável de boas marcas para preparar o cafezinho de todo o dia. Ou, ainda, para desfrutá-lo no ambiente das cafeterias, cada vez mais sofisticadas. O café brasileiro nunca esteve tão na moda. Aproveite!

Da planta ao consumo

As sementes do café são, na verdade, os mesmos grãos que dão origem ao café torrado. Elas se originam dos frutos maduros que, em seguida, são lavados, retirados da casca e da polpa e secos. Cada pé produz uma média de 2,5 quilos de frutos por ano, que rendem meio quilo de grãos. Para ser consumido, o café precisa ser torrado. Antes disso, os grãos são selecionados, passam por triagem e calibragem. Para cada mercado e para cada tipo de café há um grau de torragem diferente, que corresponde à marca registrada de cada empresa. Depois de torrado, o café ainda passa por um processo de desgaseificação e depois é moído ou apenas embalado (café em grãos), dependendo do tipo de utilização a que se destina.


Kaldi e a dança das cabras

Originário da África, o café faz parte da paisagem da Etiópia. Conta a lenda que um pastor chamado Kaldi notou o comportamento estranho de seu rebanho que pastava na floresta de Kaffa, sudoeste do país. As cabras que se alimentavam de pequenos frutos vermelhos da floresta, pulavam alegres, como se dançassem, empinadas nas patas traseiras. O próprio Kaldi sentiu um vigor incomum ao provar os frutos. A descoberta, no entanto, deixou indignados os religiosos locais, que jogaram os frutos do cafeeiro no fogo. Sentiram então o aroma contagiante exalado dos grãos queimados. E resolveram entender o fenômeno, resgatando os grãos do fogo, triturando e depositando numa jarra com água quente. Ao beberem a infusão, constataram imediatamente seu efeito restaurador. Seja qual for a origem do café etíope, o fato é que até hoje o consumo da bebida é uma experiência revivida diariamente em todo o país em torno de seu preparo artesanal. Símbolo de hospitalidade, o café é oferecido a visitantes, acompanhado de pipoca ou amendoim, em três rodadas.

Segredos da xícara perfeita

São duas espécies principais da planta. A Coffea arábica, mais delicada, apresenta menos teor de cafeína e pode dar origem a uma bebida muito aromática e naturalmente doce. Já a Coffea canephora, também chamada de robusta, é mais rústica, contém o dobro de cafeína e, por isso, tem mais amargor. Os cafés considerados especiais ou gourmets são essencialmente à base de grãos do tipo arábica, os mesmos cultivados pela maioria dos fazendeiros brasileiros.

O primeiro passo para o preparo de uma xícara de café perfeita passa pela escolha de um café de qualidade. Além disso, a dica é utilizar sempre um produto fresco, de preferência moído na hora, pois o grão torrado é muito sensível e oxida facilmente em contato com o ar. Também é preferível comprar o grão em pequenas quantidades. Deve-se mantê-lo na própria embalagem, bem fechada, longe da umidade e do calor. Tão importante quanto usar um bom café é a qualidade da água.

E igualmente crucial é não deixá-la ferver, para não queimar os óleos essenciais do café, responsável pelo aroma e sabor da infusão.


Revista Horizonte Geográfico

Viagem pelo país dos fiordes

Centenas de canais invadem a costa recortada da Noruega e moldam a vida nesse país do norte da Europa que aprendeu a conviver e amar o mar

Texto: Peter Milko

A minúscula vila de Geiranger é o ponto final de mais um dos braços de mar que recortam o território norueguês
Paredões de um lado e de outro. No meio, o navio desliza suavemente pelo mar percorrendo um sinuoso caminho, entre montanhas escarpadas das quais jorram cascatas de água doce. Por toda parte onde a vista alcança, há neve, sol, montanhas e água. Afinal, de onde vem tanta água? Atraídos pelo jorro cristalino, excursionistas de caiaque se aproximam das cachoeiras maiores e matam a sede enquanto gaivotas fazem vôo rasante sobre o barco. Estamos no fiorde de Gudvangen, talvez o mais impressionante entre esses braços de mar que penetram especialmente na porção sul da extensa costa norueguesa.
O povo do norte, como muitos acreditam seja a origem do nome Noruega, sempre teve a sua existência ligada ao mar. Foi o que pude notar imediatamente ao chegar a Oslo, a capital desse país localizado a sudoeste da Península Escandinava. A cidade é toda voltada para o porto, onde as famílias costumam realizar piqueniques a bordo de veleiros, casais passeiam de mãos dadas e garotos fazem piruetas com suas bicicletas. Até uma banda ensaia acordes em meio ao cais cheirando a peixe.

Como outras cidades litorâneas, Oslo concentra na orla alguns de seus bairros mais elegantes e pontos de interesse. Museus, fortes, restaurantes e cafés ocupam as avenidas e dividem a vista para o mar com transatlânticos, iates e cargueiros. Meu primeiro destino na cidade foi Vikingskiphuset, o museu viking que é passagem obrigatória para quem procura entender as origens desse povo nórdico.

A prefeitura de Oslo está instalada de frente para o porto, ponto de partida de barcos locais e de visitantes
A Noruega é um país pequeno – 324 mil km2, a metade da área de Minas Gerais – e uma população de apenas 4,6 milhões de habitantes. A maior parte vive no sul, onde se concentram os maiores fiordes e o clima é menos rigoroso – graças à influência da corrente quente do Golfo do México, vinda do Oceano Atlântico, que ameniza a temperatura e mantém o litoral acessível durante o ano todo. Ao norte, um terço do território norueguês está situado acima do Círculo Polar Ártico e, durante os três meses do inverno, não há claridade e o frio é intenso.

A população escassa, a renda per capta e o alto nível educacional fazem da Noruega o país com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo. Oslo, em conseqüência, revelou-se organizada, limpa e muito calma, relembrando uma pequena cidade do interior do Brasil com seus 500 mil habitantes. No centro, ao lado de uma das estações de metrô, observei dezenas de mães loiríssimas, de camisa de manga curta mesmo num “verão” em que a temperatura beirava os 15 graus, passeando com seus filhos nos carrinhos de bebê. Homens e mulheres de todas as idades aproveitavam o sol – fraco para os padrões brasileiros – para ler jornal.

Era tempo de conhecer os fiordes na costa atlântica, com a ajuda do motorista Ronald Elgen, dono de uma frota de veículos de aluguel, que nos acompanhou durante toda a viagem pela Noruega. Com pouca área construída e muita natureza intocada, o interior da Noruega se revelou um exemplo de preservação ambiental. O país mantém dezenas de áreas de proteção da natureza e poucas apropriadas ao cultivo. Além de algumas cidades grandes como Oslo e Bergen, o interior é recheado por pequenas vilas, na maioria com menos de 10 mil habitantes, mas com uma infra-estrutura de fazer inveja.

A Noruega liderou o quadro geral de medalhas de ouro nas últimas Olimpíadas de Inverno e, portanto, não foi surpresa encontrar, a caminho do coração da região dos fiordes, uma enorme abóbada branca, parecendo um barco virado de cabeça para baixo. “É o estádio de patinação no gelo de Lillehamer, que sediou as olimpíadas de 1994 no país”, explica Ronald, cumprindo seu triplo papel de motorista, guia e tradutor.

A cerca de 5 quilômetros, avistei uma imensa plataforma de salto de esqui na neve que, em breve, receberia sua cobertura branca de inverno. Lillehamer possui uma única rua de comércio fechada ao trânsito, na qual jovens portando esquis de asfalto (uma espécie de skate com encaixe para tênis) cruzam com homens de negócio apressados. Almoçamos um curioso sanduíche de salame de carne de alce e seguimos caminho.

Vida rural

Dezenas de vilas se espalham pelas margens dos fiordes, estabelecidas pela facilidade do transporte marítimo
A pequena e charmosa vila de pescadores de Loen se localiza na margem do Innvikfjord, mas a 100 quilômetros do mar em linha reta. Caminhei um pouco pela região, para ver de perto o que estavam plantando nos poucos metros quadrados de solo cultivado, quando cruzei com um trator e seu dono. “Estamos terminando a colheita de maçã”, comentou Olav Jundsen, dono das macieiras. Ele me explicou que Loen havia sido um assentamento viking, comprovado pelas mais de 20 urnas funerárias encontradas perto dali. Mas os celtas também passaram pela região, como atestava a cruz de pedra em frente da pequena igreja no alto da colina próxima. Ali, dentro de uma estufa de framboesas, encontrei outro agricultor, Asgeir Hoen. “Estarão boas na primavera, quando vendo na cidade para os feirantes e os turistas da Europa Central”, explica.

Continuando o percurso, atravessamos uma série de túneis rodoviários escavados na rocha. O maior tinha 24 quilômetros de extensão e constituía o orgulho dos noruegueses. “Os fiordes e o mar sempre foram o caminho natural dos noruegueses”, explica Ronald enquanto atravessávamos as montanhas. “Por meio deles, as vilas faziam o comércio, recebiam visitantes e se comunicavam com o exterior. Mas as coisas mudaram com a febre de carros e tivemos de nos adaptar. Os túneis ajudam muito.”

Chegamos ao vilarejo de Geiranger, o ponto final de mais um braço de fiorde com 15 quilômetros de comprimento, com um visual tão impressionante que se tornou um dos locais mais visitados da Noruega e parte da lista de sítios do patrimônio da humanidade da Unesco. O proprietário do Union Hotel, fundado em 1891, é certamente o maior empresário dessa vila de 244 habitantes. Ele me conta que faz parte da quarta geração da família Mjelva. Seu tataravô montava fogões e carros. Ao abrir o negócio naquela região distante, foi obrigado a construir sua própria hidrelétrica, que funcionou até 1978.

Nos anos 30, o hotel mantinha 30 carros no vilarejo de 470 almas, para transportar os visitantes montanha acima até o mirante situado a 400 metros do nível do mar. Fui conferir a vista e entendi porque reis e rainhas achavam este um de seus lugares prediletos. Caminhando por uma das trilhas, alcancei a borda do fiorde, que dá direto no mar.

Origem dos fiordes

Os fiordes foram esculpidos pelas geleiras que ocupavam até 12 mil anos atrás quase toda a Europa. O lento derretimento dessas massas de gelo provocou a movimentação das rochas que, ao longo do tempo, escavaram a costa, abrindo vales profundos. Quando esses estreitos se encontram ao nível do mar, são chamados de fiordes.


No alto das montanhas que emolduram os fiordes, observam-se as pontas de geleiras que derretem no verão, como a de Briskdal
Pelos braços de mar, desde tempos imemoriais, é feito o comércio e o escoamento da produção do país. A alimentação, baseada na pesca, trouxe a fama do bacalhau, hoje o principal item de exportação da Noruega para o Brasil. O maior e mais profundo fiorde é o Sogne, que penetra 200 quilômetros continente adentro, com dezenas de ramificações. Ali estive pelo lado norte, para conhecer a vila de Balestrand, de apenas 3 mil habitantes. Ao explorar suas ruas estreitas, fui surpreendido pelo som vindo de um caminhão, ao estilo dos vendedores de gás no Brasil. O motorista parou, acenou para um grupo de crianças e abriu o baú, revelando uma sorveteria portátil completa. A cena, ao fundo, era emoldurada pela igreja de madeira de Santo Olavo, uma amostra do incrível trabalho de madeira que deu fama às igrejas norueguesas do século 19.

A próxima parada era o porto de Bergen, no qual se destacava o centro histórico de Bryggen, um quarteirão de casinhas de madeira ao lado do cais, espécie de museu vivo recuperado pela Unesco, que exibe parte da história cultural da região. Bergen fez parte da poderosa Liga Hanseática, uma espécie de Mercado Comum Europeu que uniu dezenas de cidades do norte da Europa no fim da Idade Média.

Ali, ainda pude percorrer o fiorde de Hardanger a bordo de um helicóptero. A partir de um gramado na vila de Lofthus, onde o compositor Edvard Grieg (1843-1907) costumava passar os curtos verões, a suave ascensão revelou a impressionante paisagem dos fiordes vista de um novo ângulo. Finalmente ficou claro de onde vem a água que abastece as dezenas de cachoeiras que escorrem do alto das paredes dos fiordes: são as geleiras que ficam no topo das montanhas aplainadas, invisíveis do nível do mar, que derretem durante o verão. O piloto Jost Larsen confirmou: “Quatro meses depois da estação quente, parece que alguém fechou a torneira, seca tudo”.

Do alto do funicular de Floyen, no centro da cidade de Bergen, tem-se uma vista impressionante dessa cidade-porto. Tudo aqui foi concebido em função do mar e do porto. Os fiordes também são visíveis, agora repletos de barcos e navios confirmando sua vocação de estradas líquidas. Assim ficou mais fácil de entender por que os barcos são considerados a alma dos noruegueses, e o mito de que em suas veias circula sangue com água salgada.


*O autor viajou a convite do The Prominent Hotels of the Fiords, Bislet Limousine, com apoio da KLM-Air France
Quem foram os vikings

Esses guerreiros da Escandinávia ficaram conhecidos por ter pilhado, invadido e colonizado a Europa durante os séculos 8 e 9 e chegado até a América do Norte bem antes de Colombo. No período em que dominaram a Escandinávia, a Noruega conheceu um grande desenvolvimento, tanto na agricultura como no comércio e na construção de barcos. Até hoje, o país cultua suas lendas, as famosas sagas que descrevem aventuras marítimas. O museu viking de Oslo possui em exposição três embarcações que ficaram enterradas durante centenas de anos. Um dos barcos, o Oseberg, serviu como túmulo de uma rainha viking e seus escravos. O barco foi reconstruído com as partes originais, descobertas em 1907.


Ficha técnica

Reino da Noruega
Área: 323.877 km2
População: 4,6 milhões (2005)
Capital: Oslo
Outras Cidades: Bergen, Stavanger, Trondheim
Idioma: norueguês (oficial), lapão (dialeto do norte)
Religião: protestantismo (94%)
Governo: monarquia parlamentarista

Na internet

O site oficial da Noruega é www.visitnorway.com. No Brasil, informações em português podem ser encontradas em www.noruega.org.br

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