domingo, 30 de novembro de 2008

A Amazônia real


A (triste) história da floresta brasileira,
dos delirantes anos 70 até hoje, pelas
lentes do fotógrafo Pedro Martinelli


Thaís Oyama


"Povos da floresta"
O caubói paranaense morador de Matupá (MT), onde vivia a tribo isolada fotografada por Martinelli em 1970; à direita, índio do Xingu, pintado com as cores do Vasco

Gente x Mato é o quarto livro de Pedro Martinelli sobre a Amazônia – e é também o mais amargo. Desde que pisou na região pela primeira vez – quando tinha 20 anos e participou de uma expedição dos irmãos sertanistas Villas-Boas em busca de uma tribo de índios isolados –, a floresta nunca mais saiu da sua mira. Martinelli cobriu guerras, ganhou prêmios, fotografou lindas mulheres, foi a Copas e Olimpíadas. Na volta, sempre rumava para lá. Chegou a comprar um barco, na década de 90, e por três anos morou na selva – navegando, fotografando e cozinhando, outra coisa que adora fazer. Hoje, aos 58 anos, ainda vibra quando descreve o prazer de comer um jaraqui recém-pescado na beira do rio, mas suas lentes estão mais sombrias – e a Amazônia que emerge delas não tem filtro nem retoque. Nesta reportagem, além de imagens do livro, o depoimento de Martinelli a VEJA


Política no Xingu
Índios da aldeia Kuikuro, em 2000. Um deles usa um "santinho" eleitoral como enfeite. À direita, homem carrega cabeça de búfalo na Ilha de Marajó

As coisas não mudam

"Na primeira vez em que fui ao mercado de Belém, o Ver-o-Peso, a maré tinha subido e um lixo de cheiro insuportável boiava na entrada do lugar. Isso foi há trinta anos e eu nunca mais parei de ir lá. Pois há trinta anos eu continuo vendo a mesma cena: quando a maré sobe, o mesmo lixo bóia do mesmo jeito no mesmo lugar. Em Manaus é igual: há décadas, o esgoto é jogado diretamente no Rio Negro, na frente da cidade. A diferença é que essa sujeira está andando cada vez mais para dentro: hoje, as comunidades do interior são todas um lixo só – é pacotinho de batata frita e embalagem de alumínio por todo canto. Então, não adianta o sujeito que mora em São Paulo ficar falando de emissão de carbono, sustentabilidade, manejo sustentável. Na prática, as coisas não mudam."



TV movida a tartaruga

"Regatão é o sujeito que percorre a região num barco que é uma espécie de empório ambulante: vem de Manaus carregado de sandália havaiana, fumo, açúcar, sal, óleo diesel, uns remedinhos. Quando o regatão aporta, o caboclo que não tem dinheiro para comprar a mercadoria faz o quê? Faz escambo – com peixe, caça, couro de onça, tartaruga. Tem gente que pega dez tartarugas, faz um furinho em cada casco, passa um barbante, amarra todas numa árvore e deixa lá por uns quinze dias, à espera do regatão. Quando o barco chega, elas estão vivinhas – e viram moeda. Uma tartaruga vale 5 reais, que é o preço de 1 litro de óleo diesel na Amazônia. Duas horas de TV consomem 1 litro de óleo diesel, ou seja, uma tartaruga. Cinco horas de TV valem uma paca. Para começar a discutir sustentabilidade, tem de discutir qual é a alternativa para o caboclo comprar o diesel dele e continuar a ver televisão sem vender tartaruga nem matar paca."


Golfe na selva
A cidade de Tomé-Açu, no Pará, foi colonizada por japoneses no fim da década de 20: lá se jogam golfe e beisebol





Turismo na Amazônia

"O turismo na Amazônia não existe. Existe o turismo internacional, mas turismo brasileiro não tem. E não tem por dois motivos: o primeiro é que é mais fácil você ir para a Europa do que ir para Manaus. Quando você planeja uma viagem para a Europa, sabe qual será o seu custo: quanto vai custar o táxi, o trem, o almoço. Você consegue ver pela internet a foto do quarto onde vai ficar. Na Amazônia, não tem nada disso. O turista viaja no escuro – e o risco de ele se decepcionar, de o colocarem para pescar piranha, é muito grande. O segundo motivo é que muitos brasileiros têm uma expectativa errada em relação à Amazônia. Querem ir para ver onça, arara, vitória-régia e índio pelado. O problema é que na Amazônia você não vê bicho nunca: pode navegar dias sem enxergar nem um passarinho. E também não vai ver índio, a não ser que vá para o Xingu. Seria muito melhor se o sujeito fosse para lá a fim de ver o que é um rio com 8 quilômetros de largura, navegar por esse rio e ter uma idéia das dimensões do país que ele habita."


Índio X mata
Criança índia em área desmatada para a construção de aldeia no Amazonas, em 2000: o relógio é Swatch


Tecnologia e destruição

"Antigamente, o madeireiro de mogno ouvia falar que determinada região tinha muita madeira. Só que, para retirar essa madeira, ele tinha de colocar trinta caboclos dentro do mato para fazer um inventário – e saber se a quantidade de pés que havia lá compensava a entrada dele. Só esse processo levava uns dez dias. Hoje, é muito mais rápido. O madeireiro espera a florada do mogno, sobrevoa a região e, guiado pela florada, marca a localização das árvores com o GPS. Então, põe um trator no barco e segue pelo rio até chegar aos pontos marcados. Mete o trator no mato e arranca tudo numa noite."

O caboclo e o índio

"Quer ver um caboclo ficar louco da vida com você? Chegue para uma criancinha que está no colo da mãe e diga: ‘Que gracinha, parece um indiozinho’. Pronto, acabou. Caboclo odeia índio."


"Aproveite, fature, enriqueça"
Anúncio do governo publicado em 1970, em VEJA, como parte da campanha dos militares para a ocupação da Amazônia; à direita, madeira para o Projeto Jari (1977)





Êxtase

"Quando eu era criança, morava em Santo André (no ABC paulista) e ia com meu pai caçar na Serra do Mar. Para mim, a floresta mais linda do mundo é a Mata Atlântica, mais do que a Amazônia. Mas a Amazônia é o lugar em que eu ando desde 1970 e, até hoje, tenho momentos de êxtase lá. Como quando passo na curva de um rio e vejo uma castanheira. Uma castanheira no meio de uma mata nativa é uma maravilha: aquela copa imensa, imponente, saindo por cima de tudo, avançando para cima da água. Você fica hipnotizado, é de perder o ar."



O jaraqui

"Quando eu penso na Amazônia, eu não penso do ponto de vista de um ambientalista, que eu não sou. Não penso nela como ‘pulmão do mundo’, não penso no buraco de ozônio, nada disso. Eu penso é no jaraqui. O jaraqui é um peixinho que dá em todo canto lá, é o que custa mais barato e é maravilhoso. Comer um jaraqui fresquinho, nascido num rio limpo, que corre no meio de uma mata nativa não tem nada a ver com comer um salmão que fica vermelho porque ingeriu betacaroteno, ou uma truta salmonada, criada em cativeiro, que encheram de ração para ficar cor-de-rosa. Comer esse jaraqui na beira do lago, fazer um fogo com a lenha do mato, defumá-lo com a fumaça das folhas desse mato... Não tem alta gastronomia que se compare. Então, para mim, preservar o rio e a mata significa preservar isso aí. E a minha sensação de perda é quando eu penso que o jaraqui vai acabar, o tambaqui vai acabar, o tucunaré de 8 quilos vai acabar e o brasileiro perdeu a chance de conhecer tudo isso."

http://veja.abril.uol.com.br/121108/p_128.shtml

Discriminação às claras


REVISTA CH 212 - JANEIRO / FEVEREIRO DE 2005

Discriminação às claras
Estatísticas mostram que negros têm menos acesso a empregos bem remunerados

Muito já se discutiu acerca do preconceito racial no Brasil. O assunto, no entanto, está longe de encerrado e é o tema das pesquisas dos economistas Waldir José Quadros e Marcio Pochmann, ambos do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas (Cesit/Unicamp). Os estudos, embora desenvolvidos de forma independente, chegaram a conclusões semelhantes sobre a situação dos negros e pardos no mercado de trabalho: eles têm menos acesso a postos bem remunerados.

Há mais de 10 anos, Quadros pesquisa a estrutura social do país e o estudo sobre a desigualdade racial veio como uma conseqüência dos anteriores. “A discriminação constitui um elemento importante da desigualdade social brasileira”, afirma. O economista usou como dados primários os números fornecidos pelas Pesquisas Nacionais por Amostragem de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE), relativos aos anos de 1992 e 2002.

Para a construção da estrutura ocupacional individual – retrato das oportunidades de emprego, negócios e serviços geradas para cada pessoa –, foram definidos diversos grupos ocupacionais, como empregadores com até 10 e mais de 10 empregados assalariados, profissionais autônomos, classe média assalariada, operários e assalariados populares, empregadas domésticas e trabalhadores não remunerados agrícolas e urbanos, entre outros. Também foram contemplados os indivíduos sem ocupação, mas com algum rendimento, como aposentados, pensionistas e desempregados com qualquer tipo de renda. Em seguida, cada um dos grupos foi dividido em cinco níveis de rendimentos mensais: o superior, que abrange os que recebem acima de R$ 2.500; o médio, entre R$ 1.250 e R$ 2.500; o baixo, de R$ 500 a R$ 1.250; o inferior, de R$ 250 a R$ 500; e o ínfimo, abaixo de R$ 250 (o equivalente a um salário mínimo, a preços de janeiro de 2004).

Algumas das conclusões da pesquisa apenas confirmaram o que muitos especialistas já esperavam: negros e pardos estão concentrados nas ocupações mais mal remuneradas e nas faixas inferiores de escolaridade. Segundo Quadros, no entanto, a nova metodologia tornou mais claro o quadro de discriminação por raça e gênero, porque permitiu explorar melhor as heterogeneidades existentes no interior de cada grupo ocupacional.

A análise dos dados levou à conclusão de que, embora as desigualdades de rendimentos pessoais associados a gênero e raça sejam pequenas no interior de cada grupo ocupacional, as condições de acesso aos cargos mais bem remunerados são diferentes. “Negros e pardos, e sobretudo as mulheres, sofrem discriminação no mercado de trabalho e oportunidades, bem como no âmbito da educação”, diz o pesquisador. “Um engenheiro ou médico negros não ganham significativamente menos que seus colegas brancos. O problema é que pouquíssimos conseguem alcançar essas posições.”

Em 2002, os negros representavam 45% do total de indivíduos ocupados. Destes, apenas 29% inseriam-se em um padrão de vida igual ou superior ao da baixa classe média, sendo 20,6% de homens negros e 8,7% de mulheres negras. Se nos restringirmos ao padrão de classes média e média alta, essa proporção cai para 20% –14,6% de homens e 5,8% mulheres.

A hierarquia social descrita por Quadros tem no topo os homens brancos e vai descendo para mulheres brancas, homens negros e mulheres negras. Ao comparar os números relativos a 1992 e 2002, é possível observar uma redução na desigualdade dos rendimentos entre esses grupos. “No entanto, essa alteração decorre da retração dos rendimentos dos homens brancos, não de um progresso generalizado nos outros segmentos sociais”, alerta o economista.

Educação e oportunidades
À frente da Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho e Sociedade do Município de São Paulo e com base nos dados da Pnad de 2001, Marcio Pochmann desenvolveu um estudo sobre a desigualdade de raça na cidade de São Paulo e no Brasil como um todo. “Observamos as taxas de desemprego e os níveis de escolaridade relativos a brancos, negros e pardos”, conta. A pesquisa mostrou que a falta de acessibilidade aos melhores cargos de trabalho torna muito mais difícil para o negro a sua ascensão social, sobretudo nas grandes cidades. Dessa forma, é possível afirmar que, além da questão de classe, a pobreza brasileira revela um conteúdo racial.

“O tema do racismo no Brasil é mascarado porque não aparece em sua forma mais primitiva”, revela Pochmann. Ele diz que a diferenciação entre negros e brancos começa na educação: somente uma elite branca tem acesso amplo ao ensino superior. No entanto, mesmo nas grandes cidades, onde os negros têm mais acesso à educação, as condições de ingresso no mercado de trabalho não são equivalentes às dos brancos. “Nossa pesquisa mostrou que, mesmo quando negros e brancos com o mesmo patamar de escolaridade disputam um posto, os negros saem em desvantagem. Percebemos, assim, a discriminação presente nas empresas”, completa o economista.

Segundo a pesquisa, o desemprego afeta mais diretamente as mulheres negras – taxa de desemprego de 13,9% em relação a todo o país –, seguidas das mulheres brancas e dos homens negros. Homens brancos são os menos afetados, com uma taxa de 6,7%. Além disso, os negros ocupados tendem a se concentrar nos empregos mais mal remunerados, sobretudo nos cargos domésticos. Enquanto 50% dos negros ocupados no mercado de trabalho paulistano vivem em famílias com renda familiar total abaixo da média da cidade (R$ 940), esse percentual cai para 30% entre os não-negros.

Responsável pelos programas sociais de assistência e geração de renda da Prefeitura de São Paulo, Pochmann teve a oportunidade de conferir, na prática, o que pesquisou. “Nossos programas atenderam a cerca de meio milhão de famílias pobres. Oito em cada 10 beneficiados foram mulheres e seis, negros”.

Catarina Chagas
Ciência Hoje/RJ

De que forma os microrganismos podem ajudar na purificação da água?



REVISTA CH 217 - JULHO DE 2005 - O LEITOR PERGUNTA


De que forma os microrganismos podem ajudar na purificação da água?
Pergunta enviada por Leticia Pereira Dias, por e-mail

As comunidades urbanas, as indústrias e atividades agrícolas produzem grandes quantidades de esgoto e resíduos químicos. Esses resíduos, quando lançados sem tratamento nos ambientes aquáticos, provocam a poluição. Os microrganismos purificam a água através de processos naturais de reciclagem da matéria orgânica, conseguindo degradar os compostos naturais. Entretanto, a biodegradação pode não ocorrer com a rapidez necessária e os ambientes aquáticos tornam-se anaeróbios (reduzido teor de oxigênio dissolvido) passando a exalar cheiro desagradável, com formação de gás sulfídrico e de outros produtos da atividade microbiana. Quando isso acontece, a fauna, a flora e a microbiota desses ambientes são afetados, podendo resultar na mortandade de peixes.

O tratamento de esgotos e efluentes é fundamental para reduzir a poluição aquática. Os microrganismos desempenham um papel importante nos processos de purificação da água, seja no ambiente natural, seja através de processos otimizados pelo homem, como estações de tratamento de esgoto. Os microrganismos executam reações enzimáticas, que constituem etapas imprescindíveis na ciclagem dos elementos na natureza.

Dois tipos de processos microbianos podem ser usados para a remoção da matéria orgânica da água contaminada: o anaeróbico de fermentação, realizado por bactérias anaeróbicas e facultativas, e o aeróbico, feito pelos microrganismos aeróbios que promovem a oxidação da matéria orgânica através da respiração. A digestão anaeróbica da matéria orgânica gera vários produtos metabólicos incluindo o acetato e gases (hidrogênio, gás carbônico e metano). O processo aeróbio necessita de grande suprimento de oxigênio para que os microrganismos possam degradar a matéria orgânica em gás carbônico, água e compostos minerais.

Esses processos, isolados ou combinados, representam a fase biológica do tratamento de esgoto, denominada etapa secundária. O tratamento primário consiste basicamente em sedimentação do esgoto para remoção de resíduos sólidos. O efluente do tratamento secundário ainda pode conter íons de fosfato e nitrato, que são removidos quimicamente na terceira etapa. O efluente final de um processo adequado de tratamento de esgoto possui concentração baixa de matéria orgânica e de nutrientes podendo ser lançado nos rios, lagos e oceanos sem causar impactos significativos ao meio ambiente.

O tratamento de água destinada ao consumo humano inclui as etapas de floculação química, sedimentação de sólidos, clarificação via filtração e finalmente desinfecção (através da cloração, por exemplo). Esta ultima fase visa à remoção dos microrganismos patogênicos. Dependendo do uso da água, o controle de qualidade é definido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) através de valores-padrão que estabelecem os limites máximos aceitáveis para as características físicas, químicas e microbiológicas da água.


Leda Cristina Mendonça Hagler
Departamento de Microbiologia Geral,
Instituto de Microbiologia Professor Paulo Góes,
Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O gigantesco e promissor mundo do muito pequeno


REVISTA CH 217 - JULHO DE 2005

Artigo apresenta perspectivas que se abrem com o advento da nanociência e nanotecnologia




Em 2001, pesquisadores da empresa norte-americana IBM conseguiram posicionar átomos de cobalto (azul) em uma superfície de cobre (vermelha), formando uma espécie de ‘curral quântico’ elíptico, com cerca de 20 nm de largura. Essa ‘cerca’ atua como refletor dos elétrons superficiais do cobre, confinando as ondas eletrônicas, que passam a emergir apenas nos focos da elipse. A tecnologia atual ainda é incipiente para explorar esse fenômeno para fins práticos. Foto: D. Eigler Etal / IBM (2001).



Nunca o tão pequeno se tornou tão grande. De fato, conforme vislumbrado, quase meio século atrás, pelo físico norte-americano Richard Feynman (1918-1988), em sua palestra de título inusitado – 'Há muito mais espaço lá embaixo' –, o impacto da nanociência e da nanotecnologia nos setores acadêmico, empresarial e na própria sociedade já é bastante marcante – para alguns, ele será maior que o causado por outras revoluções tecnológicas, como a agricultura, a indústria e a microeletrônica.

Neste artigo, são apresentadas algumas das perspectivas que estão se abrindo com essa grande onda inovadora e como elas se juntam ao reconhecimento dos importantes avanços científicos que estão tendo destaque neste Ano Mundial da Física.

Nano – que significa 'anão', em grego – é o prefixo usado na notação científica para expressar um bilionésimo (10-9). Um nanômetro (nm), por exemplo, equivale a 10-9 m, ou seja, um bilionésimo de metro. Nessa escala de tamanho, um minúsculo vírus, invisível a olho nu, se apresenta como uma incrível entidade com cerca de 200 nm. Apesar da dimensão ínfima, ele camufla, na realidade, uma complexa máquina molecular aparelhada com todos os dispositivos para invadir as células de organismos superiores e utilizá-las em sua reprodução, proporcionando um exemplo típico de tecnologia nanométrica colocada em prática pela natureza.

É justamente para essa escala que estão convergindo atualmente os processos de miniaturização na eletrônica, conferindo crescente funcionalidade, desempenho e portabilidade aos aparelhos modernos. Em 1965, o norte-americano Gordon Moore, co-fundador da empresa norte-americana de microprocessadores Intel, previu que a capacidade de integração na eletrônica – ou seja, colocar vários componentes eletrônicos em uma determinada área – duplicaria a cada ano. Os atuais processadores já incorporam dezenas de milhões de dispositivos integrados, de dimensões submicrométricas.

Estamos, portanto, na era nano ou da nanotecnologia. Entretanto, paradoxalmente, mantido o atual ritmo de evolução, o processo de miniaturização na eletrônica à base de silício (elemento químico mais usado na fabricação de microprocessadores e chips) poderá chegar ao seu limite em menos de uma década, barrado por problemas que surgem quando se trabalha com a matéria sólida em dimensões atômicas e moleculares.

A lei de Moore, como ficou conhecida essa relação empírica sobre a capacidade de integração na eletrônica, perderá, então, seu sentido, mas a evolução não será interrompida. Com o crescimento da nanotecnologia molecular – na direção contrária à da miniaturização –, os nanossistemas e os dispositivos passarão a ser montados a partir de átomos e moléculas. [...] Por sinal, vale dizer que, até o início do século passado, em uma época em que a quantização e a natureza da matéria ainda eram assuntos controversos, as idéias contidas em dois artigos de 1905 do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) e que seriam confirmadas experimentalmente anos depois eliminariam as dúvidas sobre o comportamento dos elétrons nos átomos e nas moléculas sob ação da luz (efeito fotoelétrico) e a existência dessas espécies como partículas livres, responsáveis pelo movimento browniano.

Assim, extrapolando a prospecção sobre nanotecnologia feita, ainda em 1994, nesta revista (ver ‘Dispositivos eletrônicos em escala atômica’ em Ciência Hoje no 106), veremos, nas próximas décadas, o surgimento de uma nova eletrônica e das máquinas moleculares. Poderá ser, portanto, a era da nanotecnologia molecular, na qual o homem estará projetando e construindo nanomáquinas tendo como exemplo a própria natureza, dona de tecnologias nanométricas aperfeiçoadas ao longo de bilhões de anos.


Henrique E. Toma e Koiti Araki
Laboratório de Química Supramolecular e Nanotecnologia,
Instituto de Química,
Universidade de São Paulo.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

































































quinta-feira, 27 de novembro de 2008


1. Che Guevara e a hegemonia corporativa do século XXI A charge acima indica uma ironia para quem conhece os recentes processos histórico-sociais da América Latina, porque
(A) Che Guevara lutava pelo fim do fordismo na sociedade capitalista dos anos de 1960, por considerá-lo o maior problema para a construção do socialismo, e a sua imagem, na charge, é construída pelos maiores ícones do setor automobilístico internacional.
(B) o sistema socialista, defendido por Che Guevara, é baseado na produção e consumo em massa de bens duráveis, e foi derrotado pelas corporações automobilísticas internacionais. Na charge, a imagem de Che Guevara é formada por elas.
(C) a imagem de Che Guevara foi formada por ícones da sociedade de consumo, o que desvirtua a essência do seu pensamento revolucionário e anticapitalista.

(D) Che Guevara, líder revolucionário socialista, assassinado a mando das corporações automobilísticas internacionais, é mostrado exatamente pelas principais marcas mundiais envolvidas com a sua eliminação.
(E) por mais que Che Guevara representasse, nos anos de 1960, a resistência ao domínio do capitalismo internacional, importantes corporações do setor automobilístico utilizaram, durante a Guerra Fria, a sua imagem na mídia de massa como ícone da juventude consciente e da liberdade
de expressão.

Reforma Pereira Passos



AVENIDA Central, c.1910. Coleção Gilberto Ferrez. Foto: Marc Ferrez. In: PARENTE, José Inácio e MONTE-MÓR, Patrícia (Orgs.). Rio de Janeiro: Retratos de Cidade. Rio de Janeiro: Interior Produções, c.1994. 176p.

No alvorecer do século XX, o Rio de Janeiro enfrentava graves problemas sociais, decorrentes, em larga medida, de seu crescimento rápido e desordenado. Com o declínio do trabalho escravo, a cidade passara a receber grandes contingentes de imigrantes europeus e de ex-escravos, atraídos pelas oportunidades que ali se abriam ao trabalho assalariado. Entre 1872 e 1890, sua população duplicou, passando de 274 mil para 522 mil habitantes.

O incremento populacional e, particularmente, o aumento da pobreza agravaram a crise habitacional, traço constante da vida urbana no Rio desde meados do século XIX. O epicentro dessa crise era ainda, e cada vez mais, o miolo do Rio – a Cidade Velha e suas adjacências – , onde se multiplicavam as habitações coletivas e onde eclodiam as violentas epidemias de febre amarela, varíola, cólera-morbo que conferiam à cidade fama internacional de porto sujo.


VENDEDORES ambulantes, c.1895. Coleção Gilberto Ferrez. Foto: Marc Ferrez. In: PARENTE, José Inácio e MONTE-MÓR, Patrícia. Rio de Janeiro: Retratos de Cidade. Rio de Janeiro: Interior Produções, c.1994. 176p.

Não por acaso, os higienistas foram os primeiros a formular um discurso articulado sobre as condições de vida na cidade, propondo intervenções mais ou menos drásticas para restaurar o equilíbrio daquele "organismo" doente. O primeiro plano urbanístico para o Rio de Janeiro foi elaborado entre duas epidemias muito violentas (1873 e 1876), mas uma ação concreta nesse sentido levaria cerca de três décadas para se realizar. Foi a estabilidade político-econômica, a duras penas alcançada no governo Campos Sales (1898-1902), que permitiu ao seu sucessor, Rodrigues Alves, promover, entre 1903 e 1906, o ambicioso programa de renovação urbana da capital.

Tratada como questão nacional, a reforma urbana sustentou-se no tripé saneamento – abertura de ruas – embelezamento, tendo por finalidade última atrair capitais estrangeiros para o país. Era preciso sanear a cidade e, para isso, as ruas deveriam ser necessariamente mais largas, criando condições para arejar, ventilar e iluminar melhor os prédios. Ruas mais largas estimulariam igualmente a adoção de um padrão arquitetônico mais digno de uma cidade-capital.

As obras de maior vulto - a modernização do porto, a abertura das avenidas Central (A. Rio Branco) e do Mangue – e o saneamento foram assumidas pelo governo federal. A demolição do casario do centro antigo, a abertura e o alargamento de diversas ruas e o embelezamento de logradouros públicos foram atribuídos à prefeitura da capital.


LARGO do Depósito. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 1904. In: História dos Bairros: Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Zona Portuária. Rio de Janeiro: Editora Index, João Fortes Engenharia, 1987.

Apoiada nas idéias de civilização, beleza e regeneração física e moral, a reforma promoveu uma intensa valorização do solo urbano da área central, atingindo como um cataclisma a população de baixa renda que ali se concentrava. Cerca de 1.600 velhos prédios residenciais foram demolidos. Parte considerável da imensa massa atingida pela remodelação permaneceria no centro, em suas franjas e fendas deterioradas, pois, apesar do rápido crescimento da zona norte e dos subúrbios, essas áreas não constituíam alternativa de moradia para os que sobreviviam de biscates ou recebiam diárias irrisórias. Serviam apenas aos que possuíam remuneração estável e suficiente para as despesas de transporte, aquisição de terreno, construção ou aluguel de uma casa.

Nesse contexto aflorou na paisagem do Rio, ao lado das tradicionais habitações coletivas que se disseminaram nas áreas adjacentes ao centro (Saúde, Gamboa e Cidade Nova), uma nova modalidade de habitação popular: a favela. Em fins de 1905, uma comissão nomeada pelo governo federal para examinar o problema das habitações populares constatou que as demolições de prédios iam muito além de todas as expectativas, forçando a população a "ter a vida errante dos vagabundos e, o que é pior, a ser tida como tal". O relatório da mesma comissão fazia referência ao Morro da Favela (atual Providência) – "pujante aldeia de casebres e choças, no coração mesmo da capital da República, a dois passos da Grande Avenida" – que emprestaria seu nome ao, até hoje, mais destacado ícone da segregação social no espaço urbano da cidade.


TRANSPORTE de café na Rua do Acre. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1908. In: História dos Bairros: Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Zona Portuária. Rio de Janeiro: Editora Index, João Fortes Engenharia, 1987.

A reforma da capital constituiu, sem dúvida, uma ruptura no processo de urbanização do Rio de Janeiro, um ponto de inflexão no qual a "cidade colonial" cedeu lugar, de forma definitiva à "cidade burguesa", moderna, do século XX, que tinha como parâmetros as metrópoles européias. Em novembro de 1906, quando Rodrigues Alves Passou a faixa presidencial a Afonso Pena, o Rio – remodelado e saneado – já era apresentado como "a cidade mais linda do mundo", a "cidade maravilhosa".

http://www2.prossiga.br/ocruz/riodejaneiro/reforma/reformaurbana.htm

PUC-RIO 2004 - INVERNO

GEOGRAFIA
Questão 6 A violência no trânsito, os movimentos sociais que reagem violentamente quando um serviço público não funciona corretamente e os atos violentos cometidos pelos agentes do tráfico de drogas são exemplos da violência urbana. A cidade do Rio de Janeiro tem vivido, nos últimos meses, situações de violência que geram um clima de insegurança coletiva. Entre as razões para essa insegurança temos, exceto:
a) os movimentos de guerrilha urbana com conotação ideológica;
b) o esgarçamento do tecido social motivado pela segregação sócio-espacial;
c) a ação dos grupos que trabalham no varejo da droga e que se apóiam logisticamente nos espaços das favelas;
d) a pobreza crônica e sem alternativas que alimenta o tráfico em suas diferentes escalas;
e) a função da cidade como apoio logístico para as rotas internacionais da droga.
Questão 7 A população brasileira sofreu, na segunda metade do século XX, uma profunda mudança: se em 1950 a população urbana era de aproximadamente 18 milhões de habitantes, em 2000 era de mais de 130 milhões. Enquanto a população brasileira triplicou, a população urbana aumentou quase sete vezes.
Sobre a afirmativa acima não é correto afirmar que:
a) em 1950 a população rural é maior que a população urbana;
b) o desenvolvimento industrial deslocou numerosos contingentes da população rural para o espaço urbano;
c) o crescimento da população urbana originou espaços segregados na periferia das grandes metrópoles;
d) a atração das cidades decorre do poder de controle sobre o território exercido pelas atividades nela sediadas;
e) o crescimento urbano foi acompanhado por políticas públicas de saneamento e distribuição de renda.
Questão 8 Sobre a identificação das organizações produtivas no território brasileiro, analise os fragmentos a seguir:
I – a distribuição dos equipamentos de infra-estrutura – vias de circulação e instalações portuárias;
II – a especialização da produção ou dos serviços – o agro-negócio e os serviços de consultoria;
III – as identidades dos trabalhadores com suas regiões de origem – manutenção de alguns traços culturais.
a) apenas I está correto;
b) apenas II está correto;
c) apenas I e II estão corretos;
d) apenas II e III estão corretos;
e) todos estão corretos.


Questão 9 A população economicamente ativa ( PEA ) é a parcela da população que está integrada ao mercado de trabalho. No Brasil, sua distribuição pelos setores da economia sofreu transformações significativas devido ao processo de industrialização.
Hoje, no Brasil, a maior porcentagem da população economicamente ativa está no setor:
a) de bens de produção;
b) de bens de consumo não duráveis;
c) de bens de consumo duráveis;
d) de serviços;
e) agropecuário.
Questão 10 O domínio dos princípios neoliberais e o avanço das tecnologias de comunicação vêm provocando mudanças na economia internacional - hoje considerada global.
Sobre as mudanças que vêm ocorrendo podemos destacar:
a) a estatização de numerosas empresas privadas;
b) a maior interdependência produtiva e financeira entre países;
c) a inclusão dos países periféricos na terceirização da produção;
d) a regulamentação dos fluxos financeiros entre os países;
e) o reforço das identidades e das culturas regionais.

GABARITO DA PROVA OBJETIVA DE GEOGRAFIA

Questão 6
Resposta: (A) os movimentos de guerrilha urbana com conotação ideológica;
Os movimentos de guerrilha urbana no Rio de Janeiro, apesar das suas denominações, tipo Comando Vermelho, não têm conotação ideológica.

Questão 7
Resposta: (E) o crescimento urbano foi acompanhado por políticas públicas de saneamento e distribuição de renda.
O crescimento da população urbana se processou em tal velocidade que as políticas sociais adotadas foram incapazes de atender à demanda. A cidade que era vista como o local da mobilidade social, do acesso às melhores condições de vida, transformou-se no local da pobreza e da exclusão social.

Questão 8
Resposta: (C) apenas I e II estão corretos;
A alternativa III apresenta identidades culturais e não atividades/organizações produtivas.

Questão 9
Resposta: (D) de serviços;
Hoje na economia brasileira, o setor que mais emprega é o dos serviços – comércio, atividades financeiras, serviços públicos, etc. O setor industrial, devido à introdução das novas tecnologias derivadas da informática, vem diminuindo o número de empregados.

Questão 10
Resposta (B) a maior interdependência produtiva e financeira entre países;
A globalização promove fluxos financeiros e uma maior interdependência entre as economias, rompendo com os controles exercidos pelos Estados nacionais.

PROVA DISCURSIVA DE GEOGRAFIA - PUC-RIO 2004


Questão 1
Até o século XIX, a floresta cobria, com uniformidade, todo o médio vale do rio Paraíba do Sul. Sua homogeneidade
e sua densidade variavam em função do maior ou menor distanciamento dos rios. Exuberante, apresentando uma grande
variedade de espécies, a mata tropical era um indicador de solos férteis.
As derrubadas sucessivas arruinaram a paisagem. A destruição foi rápida e completa. Da vegetação original restaram
vestígios, pequenos santuários, nas áreas em que o declive das encostas inviabilizava o uso agrícola.
A partir do texto:
a) apresente duas formas de como a intervenção do homem provocou a deterioração dos solos;
b) mostre como a ação do homem alterou o regime dos rios.



a)
Entre outras, o candidato pode apresentar a seguinte argumentação: a retirada da cobertura florestal
aumenta o impacto das chuvas sobre o solo, diminui a capacidade do solo de reter água e acelera a
velocidade do escoamento superficial. Assim, as pequenas partículas sólidas que formam os horizontes
superficiais do solo são facilmente retiradas pela erosão, acarretando a diminuição da fertilidade.
b)
Entre outras, o candidato pode apresentar as seguintes alterações: a cobertura florestal atua como um fator
de regularização do escoamento; ela serve de anteparo para as chuvas que vão depois escoando
lentamente e, em função da sua menor velocidade, se infiltrando (água gravitacional). O regime dos rios,
isto é, o modo como o rio se abastece, é profundamente alterado com a retirada da cobertura florestal,
porque as águas escoam rapidamente provocando cheias violentas. Ao final da estação seca, o débito do
rio é sensivelmente menor que durante o período chuvoso.
Questão 2

REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO
(SITUAÇÃO NO FINAL DOS ANOS 90)
A partir da identificação da área ocupada pelo núcleo metropolitano e pelo espaço de atração da auto-segregação,
compare-os quanto:
a) ao uso do solo urbano;
b) à especulação imobiliária.
Áreas conurbadas e centros isolados
Núcleo metropolitano
Periferia
Espaço de atração da auto-segregação
Franja rural-urbana (espaços periurbanos)
Limite da região metropolitana
Limite municipal
Extraído de SOUZA, Marcelo Lopes de.
ABC do desenvolvimento urbano.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

a)
1- a parte mais central do núcleo constitui-se essencialmente em uma área de negócios, com importante
concentração de comércio, serviços e, também, das sedes de empresas de diferentes setores: industrial,
financeiro e de serviços. O uso cultural do solo urbano, nesta área, tem, nas últimas décadas, se expandido
bastante. No entorno da área central, encontram-se os bairros residenciais mais antigos da cidade, como
Flamengo, Leblon, Tijuca, Méier, que hoje se caracterizam pelo uso misto do solo urbano. Neles estão
presentes também o comércio e os serviços. Alguns desses bairros constituem-se em verdadeiros
subcentros.
3- corresponde basicamente à Barra da Tijuca cujo uso do solo urbano é eminentemente residencial e de
serviços. As residências, na maior parte, se organizam em grandes condomínios de casas ou edifícios. Os
serviços encontram-se nos numerosos shoppings e em grandes prédios onde estão localizados escritórios
comerciais e consultórios.
b)
1- o núcleo apresenta uma ocupação mais antiga e mais densa, o que diminui a margem de manobra para a
especulação imobiliária. A não ser em bairros mais nobres onde as poucas unidades de terreno restantes,
ou criadas com a derrubada de casas antigas, onde o preço da unidade construída é muito alto.
3- área de maiores possibilidades de especulação imobiliária em larga escala, por ser ainda uma área de
ocupação recente. Os especuladores são os proprietários fundiários, assim como os promotores imobiliários
(incorporadores, construtores, financeiras e corretoras).
Questão 3
No Brasil, apesar dos sinais de recuperação de alguns setores industriais, os investimentos da iniciativa privada deverão
fechar 2003 como os mais baixos dos últimos dez anos.
(Folha de São Paulo, 24 de setembro de 2003)
A seguir, apresentamos 5 itens utilizados para orientar os investidores:
1 – condições políticas/credibilidade das instituições;
2 – qualidade e disponibilidade das fontes de energia;
3 – custo do capital e disponibilidade de financiamento;
4 – níveis gerais de educação/qualificação da mão-de-obra;
5 – qualidade dos sistemas viários.
Escolha 2 itens e mostre como eles influenciaram o fraco investimento do setor privado, na economia brasileira, em 2003.
Resposta livre. Entre outros, o candidato pode escolher o item 1.
No período eleitoral de 2002, com a possibilidade de vitória do candidato da oposição, surgiu a ameaça de
ruptura dos compromissos políticos e econômicos externos e internos o que elevou a taxa de risco do país
a valores muito altos, gerando a incerteza que afugentou os investidores.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Lições do Catarina e do Katrina


REVISTA CH 221 - NOVEMBRO DE 2005

Artigo discute influência das mudanças climáticas na ocorrência de fenômenos extremos

Nos últimos tempos, fenômenos climáticos de grande poder de destruição vêm ocorrendo em diversas partes do mundo, causando enormes danos materiais e alto número de mortes. Nem o Brasil escapou: o Catarina, primeiro furacão do Atlântico Sul, pegou de surpresa moradores do sul do país em março do ano passado.

Alguns estudos indicam que o aumento da temperatura das águas oceânicas estaria tornando mais intensos esses fenômenos, mas ainda há incertezas quanto à real influência do chamado aquecimento global em mudanças na freqüência de furacões e tufões e em sua ocorrência em locais onde não eram observados. Centros de pesquisa de vários países, usando modelos climáticos, tentam prever se esses eventos extremos tendem a aumentar, para evitar ou amenizar tragédias como a provocada pelo furacão Katrina em Nova Orleans, nos Estados Unidos.

Existem evidências de que, em diversas regiões da Terra, estão aumentando a freqüência e a intensidade de fenômenos climáticos extremos. Ainda que esse aumento possa, em princípio, ser parte de uma variabilidade natural do clima, ele também é consistente com as conseqüências esperadas do aquecimento global – o aumento das temperaturas médias da superfície dos continentes e dos mares induzido por causas naturais e pelos efeitos de atividades humanas. Essa relação é preocupante, pois mostra que, em razão do aquecimento global (em especial o das águas do mar), a humanidade precisa estar preparada para enfrentar fenômenos climáticos cada vez mais severos.

Esses fenômenos já vêm acontecendo, como revelam notícias vindas de várias partes do mundo, causando imensos prejuízos materiais e causando a morte de grande número de pessoas. No entanto, os danos a cidades e populações provocados por ciclones, furacões, tufões e tempestades severas têm razões menos climáticas e mais demográficas e políticas.

Grandes cidades já foram atingidas por tempestades muito fortes no passado, sem tantas mortes ou estragos. A diferença é que de lá para cá ocorreu uma explosão demográfica nas zonas costeiras e muitas áreas sujeitas à passagem de furacões e chuvas fortes foram intensamente ocupadas, com o consentimento dos governos e sem maior preocupação com os riscos associados.


Imagem do Catarina, primeiro furacão conhecido no Atlântico Sul, que atingiu o sul do Brasil em 2004 – a fotografia, em cores naturais, foi obtida pelo satélite Terra (foto: Nasa)

Mesmo o Brasil não está imune a esses fenômenos. Em 27 de março de 2004 uma tempestade inicialmente classificada como ciclone extratropical atingiu a costa sul do Brasil, entre Laguna (SC) e Torres (RS), com chuvas fortes e ventos estimados em cerca de 150 km/h, matando 11 pessoas no continente e no oceano e causando destruição em dezenas de municípios. Após estudos e debates, concluiu-se que o fenômeno – batizado de Catarina por causa do estado mais atingido – foi o primeiro furacão de que se tem notícia no país.

O Catarina gerou muitas indagações sobre suas causas, e não está excluída a possibilidade de estar relacionado ao aquecimento global. Na verdade, ainda existe incerteza nos meios científicos sobre as possíveis conseqüências das mudanças climáticas associadas ao aquecimento global no aumento na freqüência e intensidade de furacões.

O que se sabe é que o aquecimento global é real e decorre principalmente, entre outros fatores, do aumento da concentração de gases de ‘efeito estufa’ na atmosfera. Essa maior concentração, gerada em grande parte pela queima de combustíveis derivados do petróleo e por desmatamentos, queimadas e incêndios florestais, acumulam-se na atmosfera e aumentam a retenção de calor pelo planeta, fazendo com que a baixa atmosfera se comporte como uma imensa estufa.

Para avaliar os efeitos desse aquecimento no clima, os países integrantes das Nações Unidas criaram em 1988 o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Existe no Painel o consenso de que as mudanças do clima vinculadas ao aquecimento global podem alterar as trajetórias das tempestades severas (entre elas tempestades tropicais e furacões) e de que regiões que raramente experimentam fenômenos extremos hoje podem ser afetadas por eles no futuro. A pergunta que se faz é: esse futuro já chegou?


José A. Marengo e Carlos A. Nobre
Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos,
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

Lixo: compreender para esclarecer

REVISTA CH 227 - JUNHO DE 2006



Artigo defende adoção de estratégias mais eficientes para a gestão dos resíduos sólidos


A separação de materiais reaproveitáveis, como na central de coleta seletiva de Botafogo, no Rio de Janeiro, reduz o volume de lixo que vai para a deposição final (foto: André Teixeira / Agência O Globo).

A imensa quantidade de lixo gerado nas cidades atuais representa um desafio para seus administradores e sua população. A gestão de resíduos – coleta, tratamento e destino final – é cara, e o quadro é agravado pela falta de planejamento, aliada a idéias equivocadas e muito difundidas sobre o assunto. Ter clareza da complexidade do sistema de limpeza urbana necessário às nossas cidades é decisivo para educar a população e obter sua participação nas soluções. Não se podem reforçar crenças em soluções milagrosas que nos afastam do adequado enfrentamento técnico-cultural desse delicado problema, que, como a morte, a todos afeta.

É da nossa tradição avaliar os serviços públicos de limpeza urbana por dois parâmetros básicos: 1. coleta eficiente do lixo doméstico e 2. varrição metódica de logradouros públicos (ruas, praças etc.), em especial os de maior visibilidade. A existência de um sistema de coleta seletiva de lixo também passou recentemente a ser um ponto ressaltado e valorizado.

Tais parâmetros, porém, não dão conta da complexidade da limpeza urbana e não são suficientes para uma avaliação criteriosa desse serviço prestado pelas municipalidades, não apenas nas médias e grandes cidades, mas principalmente em nossas metrópoles. Essa percepção limitada acaba colaborando indiretamente para a permanência da difícil situação que o Brasil enfrenta, como um todo, na gestão de seus resíduos urbanos. A ausência de uma visão mais crítica e de cobranças bem fundamentadas pela população facilita a manutenção de serviços inadequados e o desperdício de recursos, para não falar do crescimento da corrupção no setor.

Esse posicionamento limitado deixa ainda de lado um aspecto decisivo: a preocupação com a destinação final do lixo – que não pode, hoje, abrir mão dos aterros sanitários. Quando essa peça fundamental do sistema de limpeza não existe, são usados vazadouros (os ‘lixões’) e, na melhor das hipóteses, aterros controlados. Nos primeiros, o lixo é jogado indiscriminadamente a céu aberto, sem qualquer cuidado. Nos segundos, os resíduos depositados são ao menos recobertos. São bem conhecidos, em ambos, os conseqüentes impactos ambientais e na saúde pública.

Só nos aterros sanitários – obra complexa de engenharia – são atendidos todos os quesitos que possibilitam dar um destino adequado aos resíduos: a compactação e o recobrimento diário dos resíduos, o tratamento do chorume (líquido que se forma a partir da água da chuva e de materiais presentes nos resíduos) e dos gases (sobretudo o metano), o isolamento da área para evitar o acesso de pessoas e animais e, uma vez esgotada sua capacidade, o planejamento do encerramento do aterro e da utilização futura do local.

Cabe salientar que, por falta de planejamento e pelos tabus ligados às pessoas e áreas relacionadas ao lixo, é cada vez mais difícil encontrar locais disponíveis para aterros sanitários. Quanto mais longe estiverem das áreas urbanas, mais caro se torna o sistema, em razão do transporte. A destinação final é também uma parte onerosa do sistema, mas necessária. No entanto, como fica distante do olhar do contribuinte, pouco destaque se dá a esse importante aspecto. A alegação de que falta dinheiro para a sua construção não se justifica, principalmente se atentarmos para o enorme desperdício, nas últimas décadas, de verbas com tecnologias não adequadas, em especial as chamadas usinas de compostagem e reciclagem. Só no estado do Rio de Janeiro estima-se um gasto de mais de R$ 100 milhões, nos últimos 15 anos, com unidades que em muitos casos nem chegaram a entrar em funcionamento.

Qual é a falsa argumentação em defesa dessas usinas? A de que resolveriam por completo o problema do lixo, com seu aproveitamento quase total. Assim, não haveria necessidade dos aterros sanitários. Os técnicos, porém, sabem que, na melhor das hipóteses, os rejeitos dessas usinas equivaleriam a 40% do material processado, que o composto orgânico produzido é de baixa qualidade e que sua comercialização depende de um complexo e instável mercado para o composto e para os materiais reaproveitáveis industrialmente (papel, vidro, plástico e metais). Em nosso país, por diferentes razões, muitos produtos considerados recicláveis não têm mercado ou sofrem restrições.

Ocorre, portanto, uma confusão entre a questão do destino final (aterros sanitários) e as formas de tratamento dos resíduos. Com isso, a opinião pública é confundida de forma irresponsável, e grande parte dos profissionais dos meios de comunicação acaba, inadvertidamente, colaborando para essa situação.


Emílio Maciel Eigenheer
Centro de Informação sobre Resíduos Sólidos,
Universidade Federal Fluminense,
e Faculdade de Formação de Professores,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
João Alberto Ferreira
Departamento de Engenharia Sanitária e do Meio Ambiente,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Solução econômica para lixo radioativo

REVISTA CH 228 - JULHO DE 2006



Alga reduz volume de resíduos de laboratório e facilita seu armazenamento


A multiplicação do sargaço in natura pode se tornar um problema ambiental (fotos: Antônio Carlos Augusto da Costa).


O sargaço, alga encontrada em muitas localidades do litoral brasileiro, pode ser a solução para o armazenamento de dejetos químicos e radioativos de laboratório. Em parceria com o Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD), a engenheira química Marta Cristina Picardo descobriu, durante sua tese de mestrado realizada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que a planta é capaz de atrair e concentrar isótopos de tório – um dos poluentes radioativos mais comuns – em meio líquido, o que diminui bastante o volume de material radioativo que precisa ser armazenado para evitar contaminação ambiental. A planta ainda é muito mais barata do que a chamada resina de troca iônica, única substância capaz de realizar a mesma operação.

Toda usina nuclear precisa recolher amostras e realizar testes de contaminação periódicos na água, no solo e nas plantas, para garantir que suas atividades não prejudiquem a vida da população ao seu redor. Além disso, qualquer pessoa na região pode solicitar esse teste, caso desconfie de contaminação. Essa análise, que no Brasil só pode ser realizada nos laboratórios do IRD, é feita através da espectrofotometria, processo que se baseia na comparação dos padrões formados por feixes de luz ao atravessar uma solução teste (que contém material radioativo dissolvido) com os formados pelos feixes ao atravessar a amostra, seja de água ou de material orgânico já previamente dissolvido em ácidos orgânicos.

O problema é que a solução teste só pode ser usada uma vez, pois o equipamento que faz a análise precisa ser recalibrado antes de testar cada uma das amostras, que chegam a dezenas ou centenas por semana. A solução descartada deve, então, ser armazenada para evitar a contaminação do ambiente. Esse processo gera uma quantidade enorme de resíduos radioativos.

“Só os testes realizados em Angra dos Reis (RJ), onde se localizam as únicas usinas nucleares brasileiras em operação, Angra I e Angra II, produzem quase mil litros de dejetos radioativos por semana, em média”, afirma o orientador da tese de Picardo, o engenheiro químico Antônio Carlos Augusto da Costa, do Instituto de Química da Uerj. Como esses efluentes não são biodegradáveis e têm meia-vida (tempo necessário para que a atividade dos átomos radioativos se reduza à metade) muito grande, eles podem continuar emitindo radiação durante milhões de anos, tornando-se um perigo para o ser humano, se descartados indevidamente.

Esse é o problema que o sargaço pode ajudar a resolver. Os pesquisadores mostraram que proteínas e outras estruturas presentes na alga contêm moléculas carregadas negativamente que exercem atração sobre o nitrato de tório dissolvido (e positivamente carregado) na solução teste, fazendo o metal se acumular sobre a superfície da planta. Duas alternativas são possíveis então: a utilização de algum ácido (como o ácido clorídrico) para lavar o sargaço e reutilizá-lo – o que deixa uma pequena quantidade de solução radioativa – ou a simples queima da alga a 500ºC, que elimina a biomassa e deixa como resíduo apenas uma pequena bolinha de tório, menor que uma bola de gude. “De qualquer forma, é uma redução significativa no volume de material a ser armazenado”, destaca Costa.

Trilhando o desconhecido
A pesquisa teve início ainda na década de 1990, quando Costa estudou diversas algas do litoral brasileiro e descobriu que muitas delas eram capazes de atrair certos metais dissolvidos em água, com maior ou menor intensidade. A escolha do sargaço deveu-se à eficiência apresentada pelas algas marrons em geral – espécies marinhas, freqüentemente encontradas nas praias, que possuem um aspecto gelatinoso – na absorção de metais e à facilidade de encontrá-lo na natureza.

O sargaço é abundante em várias praias do Sudeste e do Nordeste do Brasil, chegando até a causar problemas ambientais e turísticos, quando se acumula na areia. Em seu estudo, Picardo escolheu testar a capacidade de atração da alga em relação ao tório. Segundo Costa, esse é um dos elementos mais comuns nos dejetos radioativos – ao lado do urânio – e apresenta uma meia-vida muito longa, maior até que a idade da Terra (cerca de 4,5 bilhões de anos). “Por isso, precisa ser armazenado eternamente”, ressalta.


Sargaço dentro de um sistema de laboratório utilizado no tratamento de soluções com metais.

Para descobrir se as algas eram capazes de retirar o tório da solução teste, elas foram mergulhadas em ampolas de 100 ml contendo o elemento dissolvido em diferentes concentrações. Depois, verificou-se a velocidade com que o metal se acumulava na superfície do sargaço, através de medições periódicas de suas concentrações na solução. Segundo Costa, o sargaço teve desempenho semelhante ao da resina de troca iônica, que absorve rapidamente o material radioativo. “Foi um sucesso total”, enfatiza.

Em outro teste, foi avaliada a ação das algas em quantidades maiores de solução. Depois de encher tubos de acrílico com sargaço, os pesquisadores bombearam soluções com tório em diversas concentrações para dentro deles, a partir da base. Quando as soluções alcançavam a borda superior do tubo, o nível de tório era medido. “Não havia mais sinal do elemento, pois ele tinha ficado retido na alga”, conta o químico.

Alternativa bem mais barata
Na última fase da pesquisa, iniciada em abril, o sargaço está sendo usado em uma situação real: tratar o efluente gerado pelos testes de laboratório do IRD. Apesar de esse material conter diversos metais pesados e radioativos, somente os níveis de tório em solução estão sendo acompanhados durante todo o processo. Os pesquisadores decidiram ainda fazer a caracterização total do efluente no início e no fim do tratamento, para verificar se o sargaço também influi nas quantidades de outras substâncias em solução. “A idéia é que a alga substitua a resina de troca iônica em pouco tempo, mesmo que inicialmente seja apenas para os resíduos de tório”, prevê Costa. Essa etapa final deve ser concluída neste ano.

Vantagens não faltam nessa substituição. A primeira e maior delas é econômica. O Brasil importa toda a resina de troca iônica que utiliza, por um preço que varia entre US$ 20 e 600 o quilo. Já o sargaço, por ser abundante, custaria muito menos. Além disso, a quantidade de sargaço necessária para absorver o tório é bem pequena: apenas 2 g de biomassa, equivalente ao volume usado de resina para cada litro de efluente.

O único problema é que a alga só pode ser utilizada cinco vezes – depois de ter sido limpa com ácido –, enquanto a resina suporta mais. Mas como sargaço é comum e barato, os pesquisadores pensam em usá-lo apenas uma vez e depois queimá-lo, para produzir resíduos menores de tório. Diante do sucesso da pesquisa, outra tese de mestrado, dessa vez realizada no próprio IRD, se propõe agora a estudar a ação do sargaço sobre o urânio.


Marcelo Garcia
Ciência Hoje /RJ

O que é um strangelet?



REVISTA CH 228 - JULHO DE 2006 - O LEITOR PERGUNTA


O que é um strangelet? Uma máquina aceleradora de partículas poderia gerar um buraco negro?
Pergunta de Carlos Fonseca, por e-mail


Atualmente sabemos que os blocos fundamentais que constituem a matéria são os quarks, classificados em seis tipos: u, d, s, c, t, e b. A matéria normal é formada apenas por quarks u e d. Os demais quarks aparecem, por exemplo, nos processos de colisões de partículas a altas energias em aceleradores ou raios cósmicos. No estado normal da matéria, esses quarks ficam confinados dentro dos núcleons (prótons e nêutrons) e não são observáveis.


O quark s carrega uma espécie de carga chamada ‘estranheza’, descoberta nos anos 50. Dentro da teoria que descreve a dinâmica dos quarks (cromodinâmica quântica), foi prevista a possibilidade de que, se a matéria tivesse os quarks s – além dos tipos u e d –, ela se tornaria mais estável, quando submetida a uma densidade extremamente alta. Para se ter uma idéia, um centímetro cúbico dessa matéria pesaria cerca de 10 bilhões de toneladas. Nessa densidade, os quarks confinados no interior dos núcleons seriam liberados no espaço e a matéria passaria a ser formada de quarks individuais.

Esse estado da matéria é chamado ‘a matéria de quarks estranha’ e uma pequena porção dessa matéria estranha é chamada de strangelet (gotinha de estranheza). O strangelet, assim como a matéria normal, pode ter tamanho arbitrário e, quanto maior for, mais estável se torna. Se tiver tamanho microscópico, o strangelet é bem instável e se transforma rapidamente na matéria usual.

Para criar essa matéria estranha, deve haver uma compressão extraordinária da matéria, como ocorre dentro de uma estrela superdensa, como as estrelas de nêutrons e de quarks. O strangelet também pode ser criado no cenário de Big Bang do universo primordial. Alguns autores associam esse tipo de strangelet (strangelet cosmológico) à matéria escura que compõe o universo, cuja natureza ainda não conhecemos.

Outra possibilidade de criar o strangelet é pela colisão de íons pesados submetidos à energia ultra-relativística, como nos aceleradores de partículas RHIC, do Laboratório Nacional de Brookhaven (Estados Unidos), e o LHC, do Centro Europeu de Física de Partículas (Cern), na Suíça. Nos experimentos realizados no RHIC nos últimos cinco anos, não foi detectado sinal de formação de strangelet, apesar da abundante produção de partículas elementares com carga de estranheza.

Uma das possíveis propriedades dessa hipotética porção de matéria (strangelet) é que, ao interagir com a matéria usual, poderia absorvê-la, transformando-se em um strangelet maior e, conseqüentemente, com maior estabilidade, o que faria o processo continuar indefinidamente, aumentando cada vez mais a massa do strangelet. Assim, um strangelet poderia engolir toda a matéria normal a sua volta, até se tornar um buraco negro.

Por isso, cada vez que se planeja um novo experimento de colisões nucleares a alta energia, alguns meios de comunicação sensacionalistas costumam questionar se ele poderia desencadear um processo irreversível e levar a uma catástrofe mundial. Isso aconteceu nos anos 70 com o primeiro experimento realizado no acelerador de partículas Bevalac, do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley (Estados Unidos), assim como com os experimentos no RHIC a partir do ano 2000 e agora com o projeto do LHC programado para o próximo ano.

Embora não se possa provar rigorosamente que essa possibilidade não exista, na opinião da maioria dos físicos ela é muito remota, já que os strangelets microscópicos formados nessas colisões seriam instáveis e, em menos de um milésimo de segundo, se transformariam em matéria comum. Além disso, se fosse possível, já teria acontecido, uma vez que as colisões dessa energia vêm ocorrendo na natureza através de raios cósmicos.


Takeshi Kodama
Instituto de Física,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Crise do petróleo


REVISTA CH 229 :: AGOSTO DE 2006 :: QUAL O PROBLEMA?

Como dar uma volta completa em uma pista circular sem que acabe a gasolina?

Hoje em dia, muitos se preocupam com a próxima crise do petróleo, mas ninguém sabe exatamente quando ela vai acontecer e quais serão suas conseqüências. Mas uma coisa é certa: vai ocorrer! E um dos principais problemas será a falta de gasolina (Há, claro, outras maneiras de faltar gasolina; uma delas – bem mais comum que as crises internacionais – é quando o motorista esquece de abastecer o tanque, e o próximo posto fica longe...).

Este mês, imaginaremos um mundo mais simples, onde há apenas uma pista circular (ou seja, nunca ocorrem engarrafamentos, e ninguém nunca se perde!). Nela, há um número arbitrário de postos de gasolina em posições igualmente arbitrárias, e a única coisa que se sabe (e isso é uma imposição do problema) é que a quantidade total de gasolina em todos os postos é suficiente para se dar uma volta completa na pista. O motorista (no caso, você, leitor) sabe o número de postos, a localização de cada um deles, quanta gasolina tem em cada posto e que o total de combustível é exatamente o necessário para se dar uma volta completa. Inicialmente, o tanque está vazio.

O problema deste mês é: será possível escolher um posto de modo que, partindo dele, seremos (estou de carona) capazes de dar uma volta completa na pista? Note a dificuldade do problema: um dos postos pode ter só uma gotinha de gasolina... e o próximo pode estar muito longe!

Comecemos com um exemplo simples, porém instrutivo. Suponha que a pista tenha 10 km, que o carro ande 1 km por litro (não é muito eficiente...) e que tenhamos só dois postos, um com 2 litros e outro com 8 litros. Coloque os postos a uma distância de 1 km no sentido horário. Digamos que você queira dar uma volta no sentido horário também. Que posto escolher? Nesse caso, é claro que você tem que partir do posto com 2 litros, chegando ao outro com 1 litro no tanque, que, somado aos 8 dele, permite completar uma volta. Mas, para rodarmos no sentido anti-horário, teríamos que partir do posto com 8 litros, chegando ao outro com 7 no tanque. Esses 7, somados aos 2 do outro posto, permitiriam completar a volta. Então, nesse caso específico, nosso problema está resolvido. E no geral?

O princípio para a solução geral está nesse caso simples. Primeiro, vamos mostrar que é sempre possível escolher um posto com gasolina suficiente para chegar ao seguinte. Isso tem que ser verdade, porque, se não fosse, a gasolina do primeiro posto não seria suficiente para ir até o segundo; a do segundo não seria suficiente para ir até o terceiro, e assim por diante; ou seja, a gasolina total não seria suficiente para dar uma volta completa!


Então concluímos que existe um posto com gasolina para chegar até o seguinte. Como a gasolina dele é suficiente para ir até próximo, podemos pensar em 'uma pista com um posto a menos', juntando a gasolina desses dois postos em um só (nos exemplos acima, podemos reduzir a situação com dois postos àquela com apenas um). A pista com N-1 postos ainda continuará tendo gasolina para se dar uma volta.

A nova pista (N-1 postos) também terá pelo menos um posto cuja gasolina nos permitirá ir até o seguinte. Podemos, portanto, transformá-la em uma pista com N-2 postos. E assim por diante. Com isso, podemos reduzir um problema com N postos àquele em que há nela apenas um posto, e este sempre terá gasolina suficiente para se dar uma volta.

Nosso problema está resolvido! Não sei se é porque a pista era circular, mas até fiquei um pouco tonto depois dessa...

Desafio
A solução desse problema usou um método 'da frente para trás' (N, N-1, N-2...). Você conseguiria resolvê-lo ao contrário, ou seja, mostrar que, se ele vale para N postos, também valerá para N+1, N+2 e assim por diante?

Solução do desafio passado
Escolha uma pessoa qualquer, chame-a de 1. Agora, trace as linhas dela para as outras 16, usando as três cores à disposição. Devemos ter pelo menos seis pessoas unidas a 1 (desafio: por quê?) por linhas da mesma cor (azul, por exemplo). Se duas delas estiverem unidas por azul, então está feito o triângulo azul (formado por elas duas mais a pessoa 1). Portanto, essas seis pessoas só podem estar unidas por linhas de duas cores. Mas esse é exatamente o problema da coluna passada, e, sendo assim, existirá um triângulo da mesma cor.



Marco Moriconi
Instituto de Física,
Universidade Federal Fluminense

Rio de Janeiro submerso?


REVISTA CH 238 :: JUNHO DE 2007

Cientistas discutem como evitar danos causados pelo aumento do nível do mar



O nível médio do mar pode aumentar entre 30 e 60 centímetros até o ano de 2100 em decorrência das mudanças climáticas, afirmam os pesquisadores. O que aconteceria com o Rio de Janeiro, um dos pontos turísticos mais famosos do Brasil, em um cenário como esse? Cientistas brasileiros afirmam que, se medidas preventivas forem tomadas desde já, os efeitos mais graves serão evitados. As praias de enseada, como as de Copacabana e Ipanema, podem ser mantidas praticamente como são hoje por meio do acréscimo de areia. Em praias mais abertas, como a da Barra da Tijuca, seria necessário construir estruturas transversais, criando enseadas para melhor retenção do acréscimo de areia. As regiões de baixada, que seriam as mais afetadas, devido ao aumento do volume e da freqüência das inundações naturais, precisariam de um plano de remoção da população das áreas de risco. O aumento do nível do mar dificultaria ainda mais a macrodrenagem dessas regiões, aumentando as inundações. O maior problema seriam os custos dessas obras.

Segundo Paulo César Colonna Rosman, professor de Engenharia Costeira e Oceanográfica do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), a elevação do nível do mar é um assunto discutido na área de gerenciamento costeiro há mais de 20 anos e, por isso, muitas soluções já são conhecidas. Em locais como Ipanema e Leblon, nos quais o cordão de dunas original foi coberto por ruas e calçadas, o mais viável seria a reposição de areia, que poderia vir, por exemplo, da entrada da baía de Guanabara. Essa medida exigiria investimentos de cerca de R$ 5 milhões por quilômetro de linha de praia, teria impacto paisagístico positivo e manteria a orla como espaço de lazer e turismo.

O que realmente preocupa o engenheiro é um assunto pouco estudado: a alteração da direção de propagação das ondas. Rosman explica que as mudanças climáticas podem interferir nos padrões da circulação atmosférica que controla a direção dos ventos. Essa modificação faria com que as ondas se comportassem de maneira diferente, alterando o alinhamento da faixa de areia. “Esse é um fenômeno que poderia provocar sérios danos à costa urbanizada”, preocupa-se.

Rosman destaca ainda outro problema: a falta de informações detalhadas sobre as áreas potencialmente inundáveis. “A cidade de Recife, em Pernambuco, é uma das poucas no país com esse tipo de levantamento, porque é também uma das mais vulneráveis.” No Rio de Janeiro, não há dados atualizados de altura do terreno costeiro em relação ao nível do mar, de topografia de orla, de profundidade de lagoas e baías. Segundo o pesquisador, tais dados deveriam ser levantados com urgência para permitir estimativas de custo realistas das intervenções necessárias.

Regiões mais afetadas: as mais pobres
Enquanto na orla os efeitos do aumento do nível do mar são contornáveis, na baixada fluminense o problema é mais grave. Paulo Canedo, da área de Recursos Hídricos da Coppe, usa o exemplo do rio Sarapuí, que corta os municípios de Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo, Nilópolis, São João de Meriti e Duque de Caxias, para mostrar o que pode acontecer em áreas de baixada litorânea de todo o país. “Hoje, na maré alta, a influência da água salgada avança 15 km pelo leito do rio Sarapuí. Com a elevação permanente do nível do mar, esse valor aumentará e as inundações atingirão as populações de baixa renda instaladas nas margens”, explica Canedo, lembrando que a entrada de água salgada nos rios é um fenômeno natural que se intensificará muitíssimo com o aumento do nível do mar.

No passado, a solução encontrada foi a construção de diques e pôlderes (elevação artificial da margem com sistema mecânico para escoar a água). Porém, a instalação de novos diques não seria necessariamente a melhor alternativa no futuro. “Essas são construções caras e difíceis de projetar, até pela falta de espaço disponível. Hoje muitas pessoas moram em torno e até em cima dos diques”, observa Canedo.

Os pesquisadores afirmam ainda que pode haver comprometimento dos locais de captação de água para abastecimento da cidade. Com a maior intrusão da água salgada, eles passariam a ter água salobra em vez de doce.

Esses dados foram apresentados no seminário Adaptação e Vulnerabilidade da Cidade do Rio de Janeiro à Elevação do Nível do Mar pelo Aquecimento Global, realizado em março na Coppe. A boa notícia dada no evento é que há tempo para planejar e agir de forma a evitar os danos. Ou seja: Copacabana submersa, só na ficção.


Mariana Ferraz
Ciência Hoje/RJ





A rica polêmica sobre o urânio empobrecido


REVISTA CH 241 :: SETEMBRO DE 2007

Artigo discute riscos para a saúde e o meio ambiente associados ao uso crescente desse metal

Munição 25 mm contendo urânio empobrecido do exército norte-americano em 2004 em Tikrit, ao norte de Bagdá (Iraque).


O urânio empobrecido é um subproduto do processo do enriquecimento da forma natural desse elemento químico. Pelo fato de esse metal ser extremamente denso, resistente e inflamável, ele vem sendo amplamente empregado na área civil e militar. Seu uso crescente vem aumentando a dispersão de partículas de urânio empobrecido na natureza, expondo principalmente as populações civis a potenciais riscos cujo real impacto para a saúde humana e o meio ambiente ainda é obscuro e polêmico.

Há ainda a suspeita de que seu emprego em armamentos militares possa ser um modo silencioso de os países com altos estoques desse metal eliminarem resíduos tóxicos de seus territórios, depositando-os em locais atingidos por guerras, principalmente nos últimos 15 anos.

A utilização do urânio em sua forma natural data de 79 a.C., quando artesãos aplicavam esse metal na superfície de vidros e de cerâmicas, como um corante para obtenção de amarelo. Sua descoberta foi creditada ao químico alemão Martin Heinrich Klaproth (1743-1817), que o batizou urânio, em 1789, em homenagem à descoberta do planeta Urano, ocorrida oito anos antes. Posteriormente, o físico francês Antoine Becquerel (1852-1908) identificou as propriedades radioativas desse elemento.

Na década de 1940, as iniciativas do governo norte-americano visando ao desenvolvimento da primeira bomba atômica, através do Projeto Manhattan, inauguraram a era nuclear, em 15 de julho de 1945, no teste Trinity . Em 6 de agosto daquele ano, uma bomba de quatro toneladas, contendo cerca de 60 kg de urânio e batizada de Little Boy (Rapazinho), foi lançada sobre em Hiroshima (Japão), Três dias mais tarde, uma segunda bomba atômica cai sobre Nagasáki. Essas explosões causaram a morte instantânea, bem como nas décadas seguintes, pelos efeitos nocivos da radiação no organismo, de aproximadamente 200 mil pessoas. Desde então, o urânio passou a ser um elemento de importância estratégica no cenário político mundial, tanto sob o ponto de vista energético quanto militar.

Sobra empobrecida
O urânio é o elemento radioativo mais denso que ocorre na natureza. Sua concentração estimada na crosta terrestre está em torno de 4 miligramas por quilograma (mg/kg), podendo ser encontrado em vários tipos de solo. Apesar de sua alta densidade, o urânio não é raro, sendo mais abundante até que o tungstênio, mercúrio ou chumbo.

Embora considerado pouco radioativo, o urânio é um metal pesado com potencial quimiotóxico. Todos os seus isótopos (no caso, átomos de urânio que se diferenciam apenas pelo número de nêutrons no núcleo) emitem partículas alfa (formadas por dois prótons e dois nêutrons). Devido ao grande tamanho, as partículas alfa perdem rapidamente energia cinética, o que reduz seu poder de penetração. Assim, são incapazes de penetrar até as camadas superficiais da pele humana. Portanto, acredita-se que o urânio só ofereça risco à saúde humana se for absorvido por inalação e ingestão ou penetre os tecidos.

O urânio natural, encontrado na forma de minério, é composto por uma mistura de três isótopos distintos: o urânio 235 ( 235 U), o urânio 234 ( 234 U) e o urânio 238 ( 238 U), em que a concentração de cada um dos isótopos está diferentemente representada (respectivamente, cerca de 0,71%, 0,0054% e 99,28%). Devido à radioatividade, a quantidade de urânio em uma amostra diminui gradativamente ao longo do tempo, mas sua meia-vida (tempo necessário para a quantidade de urânio se reduzir à metade) é extremamente longa: cerca de 4,5 bilhões de anos para o 238 U.

Desses isótopos, apenas o 235 U é utilizado como combustível nos reatores de usinas nucleares, bem como na produção de energia e em armas nucleares, pelo fato de ser o único capaz de sofrer fissão nuclear (fragmentação do núcleo atômico) provocada por nêutrons lentos (pouco energéticos).

Como a proporção do 235 U é muito baixa no urânio natural, é preciso grandes quantidades deste último para se obter frações mínimas do primeiro. O urânio natural que sobra nesse processo de produção fica com um percentual de aproximadamente 0,3% de 235 U e passa a ser chamado urânio empobrecido.


Marcus Fernandes de Oliveira
Instituto de Bioquímica Médica,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Plataforma de vida marinha


REVISTA CH 241 :: SETEMBRO DE 2007

Recifes artificiais criados com tubos petrolíferos podem aumentar pesca artesanal

Criar possibilidades de aumento da pesca artesanal na bacia de Campos (RJ) e testar o uso de tubos descartados da produção petrolífera na formação de recifes artificiais são os objetivos do projeto que vem sendo realizado no litoral do município de Rio das Ostras (RJ), desde 2003, pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A Coppe instalou, em colaboração com o Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM) e a Petrobras, financiadora do projeto, 27 hábitats de aço de variados tamanhos e formatos e 41 de concreto no fundo do oceano, a 30 m de profundidade e a 6 km da costa. A área de 20 mil m 2 serviu como base para a incrustação de moluscos e corais que, com o tempo, acabam atraindo outras formas de vida marinha, criando um ambiente propício para a pesca.


O uso de tubos descartados da atividade petrolífera permite criar recifes artificiais que atraem diversas espécies de vida marinha (foto: Coppe/UFRJ).



Desde a instalação do projeto, as populações de alguns peixes, como o cherne ( Epinephelus niveatus ), estão aumentando, demonstrando o sucesso da iniciativa, que é também uma maneira viável de reaproveitamento de materiais da indústria petrolífera, bem como de outros produtos descartáveis.

Embora no exterior a criação de recifes artificiais esteja mais ligada à desativação de plataformas petrolíferas – no lado britânico do mar do Norte, cerca de 300 serão tiradas de circulação nos próximos 20 anos –, no Brasil o foco é outro. “O país tem poucas instalações desse tipo a serem desativadas em breve. No entanto, os tubos usados na produção do petróleo têm de ser substituídos regularmente e podem ser aproveitados”, explica o engenheiro Segen Estefen, diretor de tecnologia e inovação da Coppe.

O projeto começou em 2002, mas a instalação dos hábitats só ocorreu em 2003. Originalmente, a Coppe considerou utilizar também a área de Cabo Frio (RJ), onde o mar apresenta características distintas do de Rio das Ostras, como, por exemplo, maior transparência. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), responsável pela aprovação do teste, contudo, liberou a instalação, na primeira fase, apenas em Rio das Ostras.

O Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul (Cepsul) do Ibama tem acompanhado a evolução do projeto desde o início. “Como os resultados estão sendo positivos, há a possibilidade de expandir a iniciativa para outras áreas”, conta Estefen.

Geometria submarina
Os 27 hábitats de aço foram construídos com tubos descartados da atividade petrolífera nos mais diversos formatos (cubos, pirâmides, prismas etc.) e tamanhos, sendo o maior deles um cubo de 9 m de lado. “Essa variedade permite que diferentes espécies se estabeleçam no local, procurando seus recantos preferidos, o que não aconteceria se as estruturas fossem idênticas”, afirma o engenheiro.

Os hábitats contam ainda com telas, que servem como substrato adicional para a incrustação de moluscos e corais. Na montagem, os pesquisadores evitaram o uso de soldas, a fim de diminuir custos e emissões poluentes, optando por fazer a conexão dos tubos por encaixes, com braçadeiras especialmente projetadas e fabricadas para esse fim.

Os hábitats são monitorados de seis em seis meses pelos pesquisadores, que avaliam sua evolução, similaridade e impacto ambiental, comparando-os ao recife natural de Pedras Altas, localizado em área próxima, que serve de parâmetro ao projeto. Segundo Estefen, os resultados mostram um aumento constante da quantidade de peixes, mas ela ainda não é suficiente para manter uma atividade pesqueira.

Além disso, a colônia de pescadores de Rio das Ostras realiza um censo diário das espécies capturadas e já observou o reaparecimento de algumas que não eram mais encontradas na região. “Vamos agora incorporar novas técnicas de monitoramento, que indicarão quais peixes migram para os recifes e quais nascem lá, os que permanecem e os que abandonam a área”, conta o engenheiro.

A expectativa é que os recifes artificiais se tornem estáveis por volta de 2010. O sucesso obtido até agora tem feito com que outras colônias de pescadores do litoral fluminense demandem que a iniciativa seja estendida até suas regiões. Os resultados apontam ainda para a possibilidade de uso, no futuro, de segmentos de plataformas fixas desativadas. Mas os pesquisadores não querem se limitar à desativação dessas estruturas como base para os recifes artificiais. “Pretendemos testar outros materiais, principalmente os descartáveis da produção de petróleo e gás”, conclui Estefen.


Fred Furtado
Ciência Hoje/RJ

Nem tudo são flores no Pantanal

REVISTA CH 245 :: JANEIRO / FEVEREIRO DE 2008 :: PRIMEIRA LINHA

Secas e cheias no local levaram plantas aquáticas a criar estratégias de sobrevivência

Maior zona úmida continental do planeta, o Pantanal Mato-grossense está sujeito a um regime de cheias e estiagens ao longo do ano. A planície pantaneira, embora um dos principais centros de diversidade de plantas aquáticas do Brasil, não é um mar de rosas para essas plantas, que tiveram de desenvolver mecanismos para enfrentar os estressantes períodos de seca e inundação, como mudanças de forma, sincronização de seu ciclo de vida com o ciclo das águas e desenvolvimento de diferentes meios de propagação.

Com uma área de aproximadamente 150 mil km 2 , o Pantanal Mato-grossense é uma planície de inundação periódica, e seus ciclos anuais e plurianuais de secas e cheias são o mais importante fenômeno hídrico da região. Tais fenômenos se devem ao padrão das chuvas, que se concentram no verão, e à dificuldade de escoamento da água dos rios em razão do discreto gradiente topográfico da planície pantaneira, que apresenta declive de 3 cm a 5 cm por km, no sentido leste-oeste, e de 1 cm a 30 cm por km, no sentido norte-sul. Em fevereiro e março, o Pantanal é inundado por águas provenientes dos rios do sul, como o Miranda, Aquidauana, Negro e Taquari. Em abril e maio, a cheia é causada por águas do alto rio Paraguai e seus afluentes. Esse ciclo torna o Pantanal um sistema absolutamente singular, a cujas alterações os seres vivos tiveram de se adaptar.


A planta aquática chapéu-de-couro-folha-fina (Echinodorus paniculatus) pode atingir 1,8 m de altura e tem forma de roseta. Seu pecíolo (‘cabinho’ das folhas) é mais comprido que a lâmina foliar (foto: Ana Carolina Neves).


Para as plantas aquáticas, o Pantanal oferece grande diversidade de hábitats, como rios, brejos, campos inundáveis, canais, lagoas de meandro, lagoas permanentes e temporárias, vazantes e corpos d’água artificiais. Tudo isso, somado às variações anuais de níveis d’água, temperatura e umidade do ar, faz do Pantanal um dos principais centros de diversidade de macrófitas aquáticas no Brasil, onde crescem plantas com diferentes formas de vida: submersas ou flutuantes, livres ou enraizadas no fundo dos corpos d’água, emergentes (enraizadas, parcialmente submersas e parcialmente fora d’água), anfíbias (que vivem em áreas alagadas e secas) e epífitas (que crescem sobre outras plantas aquáticas).

Apesar disso, o Pantanal não é um ambiente de calmaria para essas plantas, que sofrem restrições drásticas impostas pelo ciclo de cheias e secas. As espécies submersas e flutuantes fixas, por exemplo, morrem na seca ou enfrentam esse período adormecidas, na forma de órgãos subterrâneos. Outras, antes de morrer, investem na formação de sementes, que irão germinar com as chuvas do ano seguinte.

As espécies flutuantes livres, que se movem na superfície da água, competem com plantas que se aglomeram em áreas remanescentes dos espelhos d’água, na seca, e morrem depois de produzir sementes ou esporos resistentes à desidratação. O que acontece com as plantas emergentes, que, enraizadas, não podem se mover em busca de condições de sobrevivência adequadas? Toleram o estresse imposto pelo regime de cheias e secas? Seu ciclo de vida se ajusta ao pulso das inundações? Foi o que tentamos entender durante a realização de nossa dissertação, observando as respostas de uma espécie emergente ao ciclo das águas no Pantanal.

Chapéu-de-couro
A planta estudada, popularmente conhecida como chapéu-de-couro-folha-fina (Echinodorus paniculatus), é uma espécie muito usada em piscicultura ornamental. Embora seja uma planta aquática comum nas sub-regiões pantaneiras de Miranda e Abobral, onde trabalhamos, pode estar extinta em São Paulo, já que as últimas coletas feitas no estado datam do início do século 20.

Várias características da espécie ajudam a compreender as reações da vegetação aquática do Pantanal ao regime de cheias e secas. E. paniculatus ocorre em áreas sujeitas a estiagens e inundações, pode mudar de forma nas duas condições e emprega diferentes meios de propagação para enfrentar variações ambientais. Pode reproduzir-se sexuadamente, por meio de sementes, e propagar-se assexuadamente, por brotamento de um caule subterrâneo (rizoma) ou por brotamento em estruturas reprodutivas como inflorescências e infrutescências. Essa última estratégia denomina-se pseudoviviparidade.


Ana Carolina Neves
Programa de Ecologia e Conservação
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Flavio Antonio Maës dos Santos
Instituto de Biologia
Universidade Estadual de Campinas

Geografia e a Arte

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